Olavo Bilac, ideólogo do nacionalismo brasileiro. Relatório final do projeto de pesquisa apoiado pelo Programa de Apoio ao PósDoutorado no Estado do Rio de Janeiro da CAPES/FAPERJ (09/2010-08/2011) _______________________________ Bolsista: Patrícia Santos Hansen _______________________________ Supervisora: Ângela de Castro Gomes CPDOC/FGV 2011 2 SUMÁRIO Relatório ................................................................................................................. p. 3 Anexo 1. Olavo Bilac. Autorrepresentação e memórias do “principe” dos poetas e “apóstolo” do serviço militar. Apresentação realizada no CPDOC/FGV em 19 de agosto de 2011.................................................................................................... p. 11 Anexo 2. Sobre o conceito de “país novo” e a formação de brasileiros nas primeiras décadas da República. Artigo aceito para publicação na Revista IberoAmericana de Berlim.................................................................................... p. 39 Anexo 3. Bilac e a literatura infantil: civismo e ideologia nos primeiros livros para crianças brasileiras. Comunicação apresentada no V Simpósio Nacional de História Cultural realizado em Brasília em novembro de 2010............................ p. 59 Anexo 4. Autores, editores, leitores. O que os livros cívicos para crianças da Primeira República dizem sobre eles? Artigo submetido para publicação na Revista História da UNESP.................................................................................... p. 72 Anexo 5. Infância como projeto. Nacionalismo, sensibilidades e etapas da vida. Comunicação apresentada no XXVI Simpósio Nacional de História (ANPUH), realizado em São Paulo em julho de 2011.............................................................. p. 105 Anexo 6. Um discurso, duas ligas. Olavo Bilac e a criação da Liga da Defesa Nacional (1916) e da Liga Nacionalista de São Paulo (1916-1924). Trabalho apresentado no VIII Colóquio Tradição e Modernidade no mundo Iberoamericano, realizado em Coimbra em setembro de 2011.............................. p. 118 3 RELATÓRIO FINAL O projeto de pesquisa “Olavo Bilac, ideólogo do nacionalismo brasileiro” foi desenvolvido entre setembro de 2010 e agosto de 2011 no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV), sob a supervisão da Profa. Dra. Ângela de Castro Gomes. A pesquisa, cujo objetivo principal era identificar e analisar os elementos ideológicos presentes nos textos de Olavo Bilac, levou à formulação de algumas contradições que se apresentam nas relações entre o intelectual e o nacionalismo brasileiro, as quais podem ser mais propriamente caracterizadas como sintomas da tensão entre seus esforços de autorrepresentação e as múltiplas apropriações da sua imagem enquanto vivo e, após sua morte, da sua memória. Nesse sentido, a problematização do objeto do trabalho assumiu a forma de três contradições que identifiquei como sendo as mais evidentes em relação ao nacionalismo de Bilac: 1o. é conhecido como um dos maiores expoentes do parnasianismo no Brasil, cujo dogma da “arte pela arte” associa-se à noção do literato “isolado numa torre de marfim”, desinteressado das coisas mundanas versus seu engajamento social e político, auto-identificação como homem de ação e defesa da profissionalização dos homens de letras. 2o. a negação de si mesmo como “ideólogo” e declarada aversão à política versus a capitalização consciente do próprio carisma, poder de mobilização e condução de uma campanha cívica. 3o. a defesa do serviço militar obrigatório e heroificação póstuma pelas Forças Armadas (inspira a criação do Dia do Reservista e torna-se patrono do serviço militar) versus suas reiteradas afirmações de antimilitarismo. A primeira contradição apontada, que tem menos a ver com o nacionalismo do que com um tipo de atitude muitas vezes assumido pelo poeta, reforça a idéia de uma espécie de vocação para a militância. Esta contradição já havia sido notada por Antônio Dimas no seu importante trabalho Bilac, o jornalista (2002) e parece ser principalmente efeito do 4 preconceito em relação ao parnasianismo, nesse caso estendido a um dos poetas mais identificados com a “escola” no Brasil. Contudo, para além do parnasianismo, a pecha de ufanista que se colou a Bilac, em especial associada a sua produção infantil, também pode ter sido um obstáculo para reconhecer no autor o seu senso crítico, qualidade cuja posse não deixa de ser condição para qualquer tipo de militância contra a ordem estabelecida das coisas. Existem, porém, algumas diferenças entre Bilac e o ufanismo stricto sensu, melhor representado por Afonso Celso, as quais residem no fato de que para o conhecido poeta, assim como para outros de sua geração, qualquer previsão otimista para o Brasil dependia da efetiva execução de um projeto nacional. Trata-se, portanto, de um otimismo relativo e não do otimismo ingênuo e incondicional propugnado pelo autor do Porque me ufano. As características deste grupo (ou tipo) de intelectuais que não se encaixam no binômio ufanismo/pessimismo, ou seja, que nem eram exageradamente otimistas nem irremediavelmente pessimistas, e do qual Bilac se constitui num expoente, estão desenvolvidas no texto “Sobre o conceito de ‘país novo’ e a formação de brasileiros nas primeiras décadas da República”, incluído nos anexos deste relatório, que foi submetido e aceito para publicação na revista Iberoamericana do Ibero-Amerikanisches Institut de Berlim. Em relação às outras contradições apontadas, penso que a pesquisa me permitiu demonstrar que mais do que uma característica pessoal do autor tais contradições devem-se a existência de representações conflitantes acerca do personagem Bilac. Essa hipótese foi aprofundada no texto intitulado “Olavo Bilac. Autorrepresentação e memórias do “principe” dos poetas e “apóstolo” do serviço militar.” que apresentei no CPDOC em 19 de agosto de 2011 e no qual sintetizei alguns dos principais resultados da pesquisa. Essa constatação, porém, põe em evidência a força ideológica dos grupos que apropriaram-se da imagem do célebre poeta, desde os que a ele se associaram nos últimos anos de sua vida durante a conhecida campanha cívica da qual Bilac foi o fundador e principal elemento mobilizador, mas também diversos grupos, indivíduos e ideólogos que ao longo de várias décadas rentabilizaram sua memória a favor de diferentes projetos, interesses e idéias políticas. Para citar alguns exemplos: a Liga da Defesa Nacional, a Liga Nacionalista de São Paulo, a Academia Brasileira de Letras, o Estado Novo, os governos de Adhemar de Barros e de Jânio Quadros em São Paulo, o Regime Militar instaurado em 1964, o integralista Plínio Salgado e certamente muitos outros que não tive oportunidade de observar. 5 Essa constatação, entretanto, cria um problema para a hipótese central do projeto. Afinal, como considerar Bilac um ideólogo do nacionalismo brasileiro se as suas principais idéias, ou pelo menos aquelas articuladas a sua mais evidente atuação como ideólogo que foi durante a campanha cívica na qual se engajou entre 1915 e 1918, acabaram sendo ofuscadas no sentido que o autor esforçava-se por lhes imprimir? Por outro lado, não seria incorreto, tendo em conta a influência de Olavo Bilac e a força de sua imagem e memória, considerá-lo ideólogo apenas por sua ação como propagandista de idéias com as quais concordava apenas parcialmente, ignorando o significado que esforçava-se por esclarecer? Falo aqui em especial do serviço militar obrigatório que foi a principal bandeira, mas não a única, da Liga da Defesa Nacional, cuja criação foi inspirada por um famoso discurso de Bilac proferido na Faculdade de Direito de São Paulo em outubro de 1915 e da qual o autor foi o principal porta-voz até sua morte em dezembro de 1918. Agremiação existente até hoje, a LDN infelizmente ainda não foi objeto de um estudo mais aprofundado. Uma das mais importantes associações do tipo na época, a Liga congregava em sua origem intelectuais civis, militares, conservadores e liberais. Destaco, entre estes últimos, o caso de Rui Barbosa, um dos vice-presidentes da LDN, cujo interesse aqui se deve ao fato de sua estreita associação com o “civilismo”, em nome do qual conduziu sua campanha para a presidência, em franco contraste com o “militarismo” que se costuma atribuir à Bilac. É que, não obstante as recorrentes ressalvas que o poeta fazia sobre a universalização do serviço militar como forma de evitar a supremacia dos militares na política e as constantes declarações de não ser e nem nunca ter sido militarista que figuram em boa parte de seus discursos de campanha, temos certa dificuldade em pensar o único civil que figura entre os patronos das Forças Armadas (e que justamente lá está por força de um decreto do presidente Castelo Branco de 1966) como “civilista”, democrata ou liberal. E, contudo, lidas no contexto de significação de seu tempo, as idéias presentes nas falas bilaqueanas parecem remeter muito mais a noção do “cidadão-soldado” do que a do “soldado-cidadão”. Também é capaz de causar estranheza o fato de o poeta, hoje patrono do serviço militar, não ter aderido de imediato ao projeto apresentado em 1906 para a lei do sorteio, assim como não tinha sido a favor da execução da lei de 1874 que previa a obrigatoriedade do serviço militar, conforme atestam as várias crônicas que publica até 1908 quando finalmente é aprovada a lei por cuja execução ele é tido como um dos principais responsáveis. 6 Chegando a conquistar a alcunha de “apóstolo” do serviço militar por seu engajamento na causa, Bilac publicou muitas crônicas sobre o assunto. Uma, entretanto, destaca-se pela sua proximidade com a lei, mas também pela afinidade de idéias com aqueles que organizavam forte resistência a sua aprovação como foi o caso do movimento operário1. O texto intitula-se “O pau furado” e foi publicado no Correio Paulistano de 27 de outubro de 1907. Cito alguns trechos: O ‘pau furado’ é, na gíria carioca, e suponho que no calão de todo o Brasil, a espingarda; e, por extensão, é tudo quanto se refere ao serviço militar obrigatório. Ter medo do ‘pau furado’ é ter medo do recrutamento (a que também se dá, por um eufemismo gracioso, o nome de voluntariado), e é ter medo do serviço forçado nas fileiras do exército, da marinha e da guarda nacional, pois o ‘pau furado’ está hoje na ordem do dia... É fato incontestável que todo brasileiro de certa cultura, prefere morrer a ser soldado. Todos nós gostamos muito de uma bonita farda, cheia de galões e de alamares, e de uma bonita espada, e de um bonito título de coronel, major, capitão ou tenente. Mas, quando se trata de ser, não um oficial, mas um simples soldado, sujeito ao jugo feroz da disciplina, e obrigado ao duro trabalho da faxina, do exercício, das paradas, - o caso muda de figura, e todos nós achamos que essa ocupação não é digna da nossa inteligência, das nossas lutas e a nossa educação. O atual ministro da guerra, porém, julga, e com razão, que o serviço militar obrigatório é uma necessidade. E, por isso, quer obter das câmaras uma lei que os obrigue, a todos, ao cumprimento desse dever patriótico. Tal iniciativa só merecia os mais vivos aplausos, se realmente a lei, que se prepara, tornasse extensiva a todos a obrigação do serviço militar. Mas, nessa lei, que já venceu na Câmara dos Deputados os trâmites da segunda discussão, há exceções e isenções odiosas, que a tornam positivamente inconstitucional, inexeqüível e absurda. Sem cuidar de outros muitos defeitos do projeto, basta, para julga-lo e condena-lo, que pensemos nisto: ele isenta do serviço obrigatório os padres e frades, os homens diplomados, e os funcionários públicos. Postas de lado estas três classes, que classes ficam sujeitas à sujeição do ‘pau furado’? Somente duas: a dos capitalistas e a dos operários... Mas a classe dos capitalistas, para se eximir do dever militar e de qualquer outro dever, não precisa de exceções fixadas em lei: para iludir todas as leis, para torce-las, para burla-las, para anula-las, os capitalistas têm isto, que abala montanhas, seca oceanos, invade céus, e conquista homens e deuses: o dinheiro!... De modo que a classe única, que vai empunhar o ‘pau furado’, e fazer faxina, e apanhar soalheiras e chuvaradas, e ‘aprender a morrer’, é a classe dos humildes, dos pobres, dos trabalhadores que penam muito e ganham pouco, - a classe das eternas bestas de carga. Também, esses pobres diabos não devem estranhar muito esta nova injustiça que sobre eles desaba: nasceram sofrendo, têm vivido sofrendo e sofrendo hão de morrer: parece que só nasceram para isso. Mas não é verdade que isso revolta e indigna? Com que direito, em virtude e que consideração filosófica, ou moral, ou científica, ou positiva, ou abstrata, os padres e frades e os bacharéis e doutores hão de ser peremptoriamente, absolutamente, terminantemente dispensados de todo e qualquer serviço militar obrigatório? [...] 1 Cf. Castro, C.. A resistência à implantação o serviço militar obrigatório no Brasil. In Gomes, A.C. (coord.) Direitos e cidadania. Justiça, poder e mídia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. 7 Essas exceções são simplesmente odiosas e ridículas. E, desse modo, a organização das nossas forças militares continuará a ser uma vã esperança e um irrealizável projeto.2 Sem deixar de fazer, portanto, a defesa da necessidade do serviço militar obrigatório, Bilac apontava como sendo o principal defeito do projeto as “isenções odiosas”. Entretanto, o texto da lei que afinal seria aprovada em 4 de janeiro de 1908 já não previa aquelas isenções, as quais somente seriam admitidas em “tempos de paz e de guerra” aos que tivessem “incapacidade física ou mental” que os inabilitasse para o serviço e aos que alegassem “motivo de crença para não cumprirem as obrigações impostas”, caso em que perderiam “todos os direitos politicos”. Em tempos de paz, poderiam ainda ser dispensados aqueles que comprovassem ser “arrimo de família” nos diferentes graus especificados.3 Ao que parece, a se ter em conta os testemunhos e os créditos atribuídos ao poeta a partir de 1915, Bilac efetivamente teve um importante papel para a ampliação do serviço militar. Ao menos para a valorização da imagem do Exército que aos poucos ia sendo modificada e com isso enfrentando menos resistências. Fato é que sua atuação nesse sentido foi reconhecida em diferentes momentos, o que nos remete novamente ao enfrentamento da questão que colocamos acerca do peso e influência de suas idéias e da consideração de sua importância enquanto ideólogo. No período em que Bilac poderia ser assumido mais propriamente como um ideólogo “a sério”, ou seja, quando foi capaz de inspirar e mobilizar uma ampla campanha cívica com desdobramentos em vários estados, de certo modo o próprio capital simbólico representado por sua “celebridade” parece ter agido contra ele. É que nesse momento o poeta estava já em seus últimos anos de vida e logo os grupos que a ele se associaram fizeram prevalecer suas próprias idéias, valores e prioridades, os quais, para efeitos de influência e disseminação sobrepuseram-se aos próprios ideais bilaqueanos. Estamos aqui diante de uma questão que expõe uma complexa dinâmica entre a autoridade/poder daquele que emite os enunciados, “as condições sociais de produção dos enunciados” e as “condições de recepção dos enunciados”4. Em outras palavras, cabe aqui para enfrentar a questão do papel de Bilac como ideólogo da campanha cívica a que deu início e na qual se engajou, averiguar os efeitos performativos de seus discursos entendidos como “atos de fala” não apenas nas reações 2 Bilac, O. “O pau furado”. Dimas, A. (org.). Bilac, jornalista. v. 2. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, Editora da Unicamp, 2006. p. 95. 3 Lei nº 1.860, de 4 de Janeiro de 1908. Disponível em http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei/1900-1909/lei1860-4-janeiro-1908-580934-publicacaooriginal-103780-pl.html. 4 Cf. a entrevista de Pierre Bourdieu por Terry Eagleton reproduzida em Zizek, Slavoj (org.) Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. P. 265-278. 8 imediatas de suas audiências, mas na sua repercussão sobre outros eventos e práticas e sobre as específicas associações de individuos e interesses que a partir dele se formaram e que, por sua vez, repercutiram na produção de outros enunciados, os quais, não obstante, continuaram vinculados à imagem do poeta. Abordei este problema mais breve e superficialmente do que sua complexidade exigia, a partir do discurso mais notório de Bilac realizado na Faculdade de Direito de São Paulo que disparou uma significativa mobilização de diferentes grupos inspirados alegadamente naquela fala. Esta aproximação ainda incipiente resultou no texto intitulado “Um discurso, duas ligas” que é o último que consta dos anexos deste relatório, ainda que para compreender os “ecos” e as apropriações tanto das idéias quanto da imagem de Bilac seja necessário também remeter às “memórias” do poeta, tratadas no primeiro texto dos anexos já mencionado acima. Uma conclusão provisória, ainda que um pouco surpreendente, é possível. É que se a importância de Bilac como ideólogo da campanha cívica pode ser questionada desde que pensada para além da questão imediata da expansão do serviço militar e portanto abrangendo aquilo que o poeta considerava significar a sua prática, e também se desconsideramos o sentido de propagandista que a qualificação de “ideólogo” pode conter e para a qual Bilac obviamente cumpria o requisito, há uma área de atuação em que Olavo Bilac foi em todos os sentidos um ideólogo: a sua produção literária para crianças. Bilac foi o autor mais prolífico de textos originais para as crianças brasileiras de seu tempo, emparelhando talvez somente com João Köpke. Mesmo nos livros escritos em coautoria, que são quase todos, o autor manteve uma notável coerência com os ideais mais adiante explicitados a um público ampliado de estudantes, jovens e adultos durante a campanha de 1915-1918. O sucesso comercial dos livros para crianças de Olavo Bilac e sua longa durabilidade, as representações contidas nos textos e o tipo de relação autor/leitor que o poeta procurou estabelecer em suas obras infantis foram analisados nos textos “Autores, editores, leitores. O que os livros cívicos para crianças da Primeira República dizem sobre eles?”, “Bilac e a literatura infantil: civismo e ideologia nos primeiros livros para crianças brasileiras.” e “Infância como projeto. Nacionalismo, sensibilidades e etapas da vida.” Todos incluídos nos anexos deste relatório. A respeito da pesquisa das fontes e dos arquivos consultados, os livros de Olavo Bilac e as suas biografias foram consultados principalmente na Biblioteca Nacional e na biblioteca da Casa Rui Barbosa. No arquivo de Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras há muitas 9 fotos, cujas reproduções me foram gentilmente cedidas, assim como uma vasta coleção de recortes de jornais sobre Olavo Bilac, notícias sobre lançamento das suas biografias (que foram muitas) e as inúmeras homenagens dedicadas a ele. Foram estes recortes, principalmente, que me permitiram reconstituir as “múltiplas memórias” do poeta de que trato no primeiro texto em anexo. Também os recortes que encontrei na sede da Liga da Defesa Nacional no Rio de Janeiro e o Boletim da Liga que voltou a ser editado na década de 1960 foram utilizados para esse texto. Parte do trabalho de pesquisa também se beneficiou da consulta a alguns sites, em especial aqueles nos quais se disponibilizam documentos digitalizados. Foi o caso dos sites do CPDOC, da Alesp, da Hemeroteca de Lisboa, do Arquivo Público de São Paulo, da Biblioteca Digital da BN, assim como bancos de teses e o arquivo da Folha de São Paulo. Para além da pesquisa empírica, foram também feitas muitas leituras de apoio. Esta bibliografia está referida em larga medida nas notas e bibliografias dos anexos, as quais referenciam os textos que serviram de suporte para a pesquisa realizada. Durante o período em que realizei o pós-doutorado participei de diversos eventos e fóruns que contribuíram para a aquisição de informações e conhecimentos e nos quais tive oportunidade de trocar experiências e divulgar o trabalho de pesquisa em diferentes etapas de sua realização. Cito a minha participação no V Simpósio Nacional de História Cultural em Brasília, no XV Congresso de Sociologia em Curitiba, no XXVI Simpósio Nacional de História em São Paulo, na conferência internacional The End of the Portuguese Empire in a Comparative Perspective em Lisboa e no VIII Colóquio Internacional Tradição e Modernidade no Mundo IberoAmericano em Coimbra. Destaco ainda o VII Encontro Nacional de História e Cultura organizado pela Universidade Tiradentes em Aracaju no qual fiz a conferência de abertura e a palestra Olavo Bilac: autorrepresentação e memórias do “príncipe dos poetas” e “apóstolo do serviço militar” no CPDOC, com a qual encerrei minhas atividades e compartilhei os resultados da pesquisa na instituição que generosamente acolheu meu projeto de pós-doutorado e a cujos membros deixo aqui registrados os meus sinceros agradecimentos. 10 ANEXOS 11 OLAVO BILAC. AUTORREPRESENTAÇÃO E MEMÓRIAS DO “PRINCIPE” DOS POETAS E “APÓSTOLO” DO SERVIÇO MILITAR. Atualmente, pode-se dizer, está razoavelmente difundida pelo menos no meio acadêmico uma imagem de Olavo Bilac que é, em larga medida, fruto de investigações cujos resultados vêm sendo publicados desde a década de 1990. Sublinho, por exemplo, a Obra Reunida de Bilac, publicada pela Nova Aguilar em 1996 e organizada por Alexei Bueno, que inclui além das poesias, textos menos conhecidos como suas conferências literárias e discursos; as Poesias (1997) com o prefácio “Em defesa da poesia bilaquiana” do organizador Ivan Teixeira; e, principalmente, os dois volumes de crônica e um de ensaios que compõem a obra Bilac, jornalista de Antônio Dimas, publicada em 2002. Para além destes, é importante notar também o interesse que têm despertado os seus livros infantis, em particular Através do Brasil escrito com Manuel Bomfim5. Estes estudos, por sua vez, surgiram a partir do contexto dos anos 1970 e 1980, em que as imagens dominantes do poeta eram aquelas que, por um lado, reduziam sua importância ao engajamento na campanha pelo serviço militar obrigatório, do qual se tornou patrono por decreto do presidente Castello Branco em 1966, e, por outro, ecoavam a crítica modernista que julgou e condenou a obra literária do poeta parnasiano nos anos 1920. Antes disso, porém, a memória de Bilac, morto em dezembro de 1918, já havia sido (inúmeras vezes) apropriada de outras maneiras para fins políticos diversos. O que se pretende aqui é observar os fatores que contribuíram para a consolidação de uma certa imagem de Olavo Bilac, dos quais ressaltamos dois: 1) a autorrepresentação que o próprio intelectual se esforçou por construir na maturidade, reforçada pelo engajamento na campanha cívica a favor do serviço militar obrigatório que teve como ponto de partida o famoso discurso proferido em 1915 na Faculdade de Direito de São Paulo; e 2) os sentidos agregados a esta imagem, ou por vezes com ela conflitantes, derivados das mais importantes apropriações da memória de Bilac ao longo do século XX. Desde logo, a partir dos muitos enfoques biográficos, vale notar que contrastam fortemente as imagens do patriota sério, engajado, de oratória potente e poeta parnasiano Palestra realizada no CPDOC/FGV em 19 de agosto de 2011. Cf. Botelho (2002); Santos; Oliva (2004); Dimas (1994); Lajolo (1992; 2000); Lajolo e Zilbermann (1996; 2006); Carvalho (1996); Cabanel (2007); Hansen (2007; 2009). 5 12 inflexível com a forma, de um lado, com a imagem do boêmio e cronista crítico dotado de um notável senso de humor, de outro. Tais contrastes chegaram, inclusive, a provocar polêmicas em torno de algumas biografias, as quais acabam por ser esclarecedoras sobre os interesses envolvidos nos contextos de apropriação da memória, bem mais, pode-se dizer, do que sobre a vida do poeta. Um exemplo é Vida e poesia de Olavo Bilac de Fernando Jorge, de 1963, que com suas muitas reedições pode ser considerada a biografia mais bem sucedida de Bilac, do ponto de vista comercial. O próprio autor relata no prefácio à 2a. edição, de 1972, as reações indignadas de parentes e críticos à 1a. edição, de 1963, entre as quais reproduzimos o trecho em que menciona os acadêmicos Raimundo Magalhães Júnior e Austregésilo de Athayde. O primeiro seria também autor de uma biografia de Bilac uma década mais tarde, já o segundo, na época presidente da Academia Brasileira de Letras, viria a ser um dos principais responsáveis pela comissão para as comemorações do centenário de Olavo Bilac instituída pelo governo militar em 1965: O acadêmico R. Magalhães Júnior [...] em vez de realizar uma análise honesta, imparcial, caiu no destampatório, começou a urrar, a investir às tontas, e isto numa tediosa e longa moxinifada. Irritou-se sobremaneira, o fracassado biógrafo de Cruz e Sousa, com a descrição que fizemos da existência boêmia de Olavo: ‘Lendo tal livro, tem o leitor a impressão de que Bilac era um sujeitinho gracejador e irresponsável, pertencente a uma súcia e gaiatos mais ou menos desocupados, que levavam a vida entre brejeirices e anedotas, pregando peças a Deus e ao mundo.’ E aludindo às nossas inocentes indiscrições, [...] sentenciou: - ‘Bilac é intocável. Está morto e não pode defender-se.’ Íamos acolhendo todos esses comentários com um misto de espanto e curiosidade: até onde os acusadores pretendiam chegar? O nosso pasmo atingiu o auge quando soubemos, pela imprensa, que o escritor Austregésilo de Athayde, Presidente da Acaemia Brasileira de Letras, tencionava convocar uma reunião, a fim e deliberar sobre as medidas que a Casa de Machado de Assis deveria adotar para a defesa da memória do sonetista de ‘Ouvir Estrelas’. - ‘Não é admissível que Bilac – declarou o Presidente da Academia – uma personalidade tão rica de humanidade e de vida, um poeta da sua grandeza e significação, seja apresentado ao público apenas no seu aspecto menos simpático e tantas vezes depreciativo, como no citado livro.’ Secundando o Sr. Austregésilo de Athayde, a Liga de Defesa Nacional, que tem em Olavo Bilac um os seus patronos, também ameaçou de formular um protesto. A esta altura, no meio de tamanha celeuma, o livro transformou-se num ‘best-seller’, sendo colocado na lista dos mais vendidos em todo o país, conforme o resultado de uma pesquisa feita pelo jornal ‘O Globo’.6 A complexidade de Olavo Bilac não deve ser subestimada, principalmente em se tratando de um personagem (é assim que o estamos estudando neste texto) que alcançou grande sucesso literário e fama prematuramente, aos vinte anos, e manteve-se “sob holofotes” durante três décadas até sua morte em 28 de dezembro de 1918, aos cinqüenta e três. Ainda 6 Jorge, Fernando. “Prefácio à 2a. edição”. Vida e poesia de Olavo Bilac. 3a. ed. São Paulo: McGraw Hill, 1977. 13 mais complicado, contudo, é considerar que muitas das informações com as quais contamos provêm de biografias produzidas em diferentes contextos e, portanto, não somente sujeitas às posições ideológicas de seus autores nestes contextos, mas também às várias camadas de memória superpostas. Nesse sentido, o primeiro passo será ressaltar alguns momentos significativos da composição da imagem pública de Bilac durante sua vida, para depois comparar com sua memória construída em diferentes contextos. Paulo Franchetti, buscando exemplificar a penetração popular de Olavo Bilac, cita dois episódios que a seu ver seriam reveladores de um tipo de relação autor/público que deixaria de existir no modernismo: Contam os biógrafos que Olavo Bilac certa vez entrou numa perfumaria do Rio de Janeiro para reabastecer-se de uma colônia que, num gesto teatral, tornara famosa ao derramála sobre o corpo de um companheiro de geração, na hora do enterro. O atendente de balcão, que era um rapazinho recém-chegado de Minas Gerais, mal ouviu o nome da colônia, associando-a ao poeta e sem saber que estava em presença do próprio, passou a derreter-se em elogios ao seu ídolo, que ainda não pudera ver pessoalmente... Também faz parte da biografia de Bilac um outro episódio curioso: ia o poeta pela Praça Martim Afonso com outros literatos, pouco tempo depois de ter publicado na A Semana um dos seus sonetos mais famosos, quando foi abalroado por um homem mulato que lhe pisou brutalmente um pé. Depois da troca de alguns insultos, percebendo que se tratava de Bilac, o atropelador logo mudou o tratamento: pediu-lhe perdão, aludiu com piada ao soneto d’A Semana e terminou por despedir-se chamando ao poeta ‘ave augusta da nossa poesia’.7 Tomo emprestados os episódios para ressaltar um outro aspecto também relacionado à relação autor/público, a sua celebridade. E, nesse aspecto, talvez não sejam muitos os contemporâneos de Bilac que tenham conquistado fama em mesmo grau ou mesmo em grau aproximado daquele alcançado pelo poeta. Outros poetas contemporâneos foram por vezes considerados melhores que Bilac e nem por isso tão celebrados. Os poemas de Alberto de Oliveira, por exemplo, foram provavelmente tão conhecidos à época quanto os de Bilac, e não foram poucos os que consideraram o primeiro superior ao segundo do ponto de vista literário. Entretanto, há que se considerar aspectos tão subjetivos quanto o gosto que contribuíram para fazer de Bilac uma figura pública dotada de significativo capital simbólico, capaz de fazer convergir ainda em vida para um mesmo projeto, como foi o caso da Liga da Defesa Nacional, indivíduos e grupos tão dissonantes quanto o liberal e “civilista” Rui Barbosa e os militares identificados como “jovens turcos”; e ainda inspirar a criação de uma 7 Franchetti, Paulo. “Olavo Bilac e a unidade do Brasil republicano”. Atas do V Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, 1998, Oxford, 1996, v. 2. p. 697-706, rep. Em Sibila http://www.sibila.com.br/index.php/mapa-da-lingua/431-olavo-bilac. 14 associação como a Liga Nacionalista, com objetivos e prioridades diversos, fortemente inscrita e atuante no estado de São Paulo e com um programa tão ambicioso para a reforma das práticas políticas nacionais. Deve-se atentar para o fato de que tais articulações ocorreram ainda em vida, quando o poeta por princípio tinha algum controle sobre os usos e associações de seu nome e imagem. Contudo, após sua morte o capital simbólico representado pela memória de Bilac e de seu ideário foi um legado do qual se apropriaram grupos de interesses os mais diversos, tais como as já citadas Ligas, mas também a Academia Brasileira de Letras, o Estado Novo e o Regime Militar, para citar apenas os exemplos mais importantes. Antes de abordar o que foi feito com a memória de Bilac, porém, é interessante pensar as representações de si a partir de algumas imagens e textos do intelectual. Na juventude, Bilac foi um notório boêmio. Sua presença no retrato em que um grupo de intelectuais e amigos dramatizam o conhecido quadro “Lição de Anatomia” de Rembrandt, assim como alguns disparates relatados por biógrafos ou memorialistas, entre os quais o seu envolvimento num duelo com Raul Pompéia, são alguns dos eventos que conformam uma certa imagem que o poeta e jornalista se esforçaria por apagar anos mais tarde. Um outro evento se daria quando, com a proclamação da república, Francisco Portela, nomeado governador do Estado do Rio, montou um vistoso gabinete de escritores do qual fariam parte Coelho Netto, Luiz Murat, Dermeval da Fonseca e Olavo Bilac. Este, nomeado “oficial da secretaria em organização” costumava despachar em verso! Reproduzo abaixo dois desses documentos oficiais um tanto surpreendentes, produzidos pelo secretario do governador em resposta ao requerimento da professora Ana Maldonado que pedia três meses de licença para tratar da saúde e à representação apresentada contra um tesoureiro que teria abandonado os serviços8: - Se Dona Ana Maldonado For uma bela mulher, Tenha o dobro do ordenado E do tempo que requer. Niterói, 10 de janeiro, Saudações, fraternidade. Demita-se o tesoureiro, Por falta de assiduidade. Mas se for velha e metida, O que se chama um canhão, Seja logo demitida, Sem maior contemplação E lavre-se a portaria, A nomeação, o alvará, Que entrega a tesouraria Ao Dr. Luís Murat. 8 Pontes, Eloy. A vida exuberante de Olavo Bilac. 1o.vol. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1944, p.169-170. 15 Bilac tinha então 25 anos. Porém, excessos à parte, o humor e a ironia seriam constantes na produção jornalística e literária do autor que para resguardar-se utilizaria vários pseudônimos. Em paralelo à publicação de crônicas provocativas e contos satíricos sob pseudônimo, Olavo Bilac, contudo, ia afirmando seu comprometimento com as questões da infância e da obrigatoriedade do serviço militar, as quais se constituiriam no cerne do ideário nacionalista que motivaria seu engajamento na campanha cívica desencadeada em 1915 e que sobreviveria a seu próprio fundador e principal porta-voz. Entretanto, para os objetivos deste capítulo, mais que o ideário bilaqueano, o qual até sua institucionalização nas ligas cívicas fundadas em 1916 apresentava-se relativamente amorfo, importa destacar a fama precoce que Bilac alcançaria como poeta, infinitamente potencializada com a publicação em 31 de julho de 1886 em “A Semana” do soneto “Ouvir Estrelas”, cujas inúmeras paródias somente confirmam o seu êxito. Bilac tinha 21 anos quando publicou estes versos: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. Direis agora: “tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?” E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” Foi o sucesso estrondoso como poeta, ainda que tenha publicado somente um livro de poesias em vida9, mais que sua farta produção jornalística e escolar, que lhe garantiu a posse do capital simbólico representado por sua célebre figura, mais adiante modelada pela atuação 9 Trata-se de Poesias, cuja primeira edição é de 1888. Em edição posterior Bilac acrescentaria outros poemas como o famoso Caçador de Esmeraldas. Também publicou muitas poesias em jornais e revistas e quando morreu tinha pronto o livro Tarde, publicado menos de um ano após seu falecimento. 16 enquanto patriota, ou seja, largamente mobilizada por si mesmo nos seus últimos anos de vida e, postumamente, apropriada por diversos grupos de interesse. Um salto no tempo e cito algumas evidências do tipo de celebridade que Olavo Bilac gozava. Em março de 1910 a revista Careta dedicaria um número ao poeta e seus versos, ilustrados com humor por J. Carlos. Fig. 2 - Capa da revista Careta de março de 1910 que dedica várias páginas aos versos de Bilac.10 Em 1913, seria consagrado por seus pares como “príncipe dos poetas brasileiros” numa eleição promovida pela Fon-Fon.11 Mas são duas propagandas que me parecem constituir os melhores testemunhos do grau de popularidade do poeta. A primeira, do xarope Bromil, consistia numa carta escrita e assinada pelo autor sob a chamada apelativa “Olavo Bilac curou-se com o Bromil”. 10 11 http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/careta/careta_1910/careta_1910_094.pdf Na ilustração do anúncio do resultado da eleição para “Príncipe dos poetas brasileiros”. A fotografia de Bilac aparece cercada pelas “cédulas” assinadas por aqueles que nele votaram. A nota do resultado faz menção às várias abstenções citando aqueles que não teriam se pronunciado. Note-se que foi uma eleição aberta e os resultados dos outros poetas, assim como o nome de seus eleitores também foi divulgado. Em http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon/fonfon_1913/fonfon_1913_017.pdf 17 Fig. 4 - “Tenho a maior satisfação em relatar que, sofrendo de uma bronquite [...], fiquei radicalmente curado com o uso do Bromil. Podem fazer desta carta o uso que lhes convier. Rio, 5 abril 1910”.12 A outra propaganda, ainda que menos veiculada que a do Bromil, que aparece muitas vezes na Fon-Fon em 1916, me parece ser ainda mais interessante do ponto de vista da “celebridade” do poeta e está na revista paulista A Cigarra de 19 de janeiro de 1916. Fig. 5 - Propaganda dos “Cigarros BILAC” na revista A Cigarra, que se apresentava como a “revista de maior circulação no Estado de São Paulo”.13 O uso do nome de uma pessoa célebre como marca me parece ser uma estratégia inovadora para a época. Não ocorre em nenhuma outra propaganda nas revistas ilustradas pesquisadas. A questão aqui é que se os direitos autorais ainda engatinhavam, os direitos de marca então era uma realidade ainda mais distante. Porém, mais ainda, estava longe o tempo 12 13 http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon/fonfon_1916/fonfon_1916_037.pdf http://www.arquivoestado.sp.gov.br/upload/pdfs/CI19160134.pdf 18 em que as celebridades, tais como as de hoje, descobririam o “valor agregado” da associação de seu nome a um produto. E, é quase certo que neste caso o poeta não tivesse nada a ver com os cigarros, apontados como “famosos”, nem com os versos do reclame. Para o que nos interessa aqui, entretanto, importa ressaltar o ano específico em que se multiplicam as propagandas do Bromil com a carta do Bilac e no qual surgem, pelo menos no merchandising, os cigarros Bilac: 1916. É o ano em que a campanha cívica da qual o poeta seria o fundador e principal porta-voz é efetivamente alavancada, ocorrendo seus primeiros discursos e viagens de divulgação dessas idéias em paralelo aos esforços de organização das Ligas da Defesa Nacional no Rio de Janeiro e Nacionalista, em São Paulo. Em outras palavras, a coincidência do uso comercial do nome e figura de Bilac no ano de 1916, o que até então era inédito, pode ser um indicador do impulso que representou para a celebridade do poeta (para além de outras coisas) o famoso discurso aos estudantes da faculdade de Direito de São Paulo, referido por dez entre dez biógrafos, memorialistas, jornalistas e outros que escreveram sobre Bilac a partir daquele momento. O discurso proferido no dia 9 de outubro de 1915 teria pego a platéia de surpresa, já que a audiência esperava uma fala sobre poesia. Mas Bilac fez coisa totalmente diferente. Mobilizando o tom persuasivo e doutrinário que seria a marca da campanha cívica à qual dava a luz naquele momento, o poeta expressava a intenção de dar “vida” e “duração” às suas palavras, procurando sensibilizar os estudantes que o assistiam para os problemas que apontava e para a necessidade de propagação de suas idéias. Os problemas eram, segundo o autor, a falta de ideal e de coesão que resultavam na “indiferença” das “classes cultas” e a manutenção das “camadas populares” na mais “bruta ignorância”, “inércia, apatia, superstição, absoluta privação de consciência”. Nos sertões, seguia ele, “os homens não são brasileiros, nem ao menos são verdadeiros homens”, e tal se devia ao analfabetismo. Para Bilac, a solução era a aplicação da lei do sorteio militar, “promessa de salvação” e “único providencial remédio para o nosso definhamento” que mesmo aprovada em 1908 não havia sido posta em prática. Bilac acusava ainda o marechal Hermes da Fonseca por tal situação: “O mesmo homem, o mesmo marechal, que, quando ministro da guerra, promoveu esse movimento salutar em favor da nacionalidade, - no dia em que subiu ao supremo poder foi o primeiro a esquecer a sua criação, deixando-a morta no berço.” Antecipando as críticas que de fato iriam surgir em relação a sua defesa da lei do sorteio militar, Bilac afirmou não ser militarista neste e em muitos outros discursos de sua campanha: “Nunca fui, não sou, nem serei um militarista. E não tenho medo de militarismo 19 político. O melhor meio para combater a possível supremacia da casta militar é justamente a militarização de todos os civis: a estratocracia é impossível, quando todos os cidadãos são soldados.”14 O discurso teve efeitos imediatos. Foi festejado pela imprensa que passou a dar ampla cobertura à campanha e logo muitos estudantes da faculdade de Direito apresentaram-se como “voluntários especiais”. Também a recepção ao discurso, relatada nos jornais, despertou as Forças Armadas para a possibilidade de associarem-se ao “carisma” de Bilac. A maior importância daquele que falava sobre aquilo que falava, ou seja, da personalidade sobre as idéias ou da pessoa sobre o conteúdo, foi logo notada. Já em 20 de outubro de 1915, um dos cronistas da Fon-Fon escrevia sob pseudônimo o seguinte texto: - Ora suponha (não é difícil) suponha que, pela primeira vez, eu lhe fale com sinceridade. [...] Mas suponha que eu lhe vou falar com sinceridade, agora, sobre o serviço militar obrigatório que o discurso do poeta Olavo Bilac pregou aos estudantes de São Paulo e que entusiasmou a população do Rio. Não lhe confiarei se acho bom nem se acho mau o serviço militar obrigatório. Confio-lhe apenas isto: se outra criatura, que não Bilac, se o senhor por exemplo, fizesse aquele discurso, as mesmas palavras não acordariam os ecos que acordaram. Portanto, não é o serviço militar que está entusiasmando, neste momento, os brasileiros, - é a atitude do poeta mais amado dos Brasileiros. - ‘Talvez...’ - ‘O senhor não acredita? O meu amigo Homero Prates costumava dizer que a opinião pública não tem opinião. Concordo com ele. Que calor, hein? - ‘Insuportável’. O amor é uma religião mútua. Remy de Gourmont.15 A partir daí e pelos dois anos e meio seguintes a agenda de Bilac seria ocupada pela intensa programação de discursos, banquetes, viagens, homenagens, etc, tudo em prol das idéias que tanto ele como outros queriam pôr em prática. Um dos resultados imediatos do discurso foi o esforço das Forças Armadas em aproximar-se ou, melhor dizendo, associar-se a Bilac. Já em 6 de novembro, menos de um mês após a fala na Faculdade de Direito, o poeta seria homenageado com um banquete no Clube Militar e no dia da Bandeira, 19 do mesmo mês, seria convidado a participar das comemorações no edifício do Batalhão Naval. Em ambos discursos, Bilac seria modesto, minimizando o seu papel na campanha que começava a surgir. Na fala do Clube Militar, por exemplo, dizia: 14 Bilac, Olavo. “Em marcha!”(Aos estudantes da Faculdade de Direito de S. Paulo – 9 de outubro de 1915). A defesa nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965. 15 http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon/fonfon_1915/fonfon_1915_043.pdf 20 A vossa generosidade exagera o préstimo do meu nome e a importância do meu trabalho. Nada fiz, que merecesse tão alto prêmio. O que disse e fiz já estava no pensamento de todos os brasileiros bons, e já tinha sido proclamado. A lei do sorteio militar, que sempre reputei benéfica para a necessidade da coesão nacional, está decretada há mais de sete anos; e já muitos homens de espírito clarividente e de leal patriotismo, estudando e anunciando os perigos que nos ameaçam, apontaram o remédio e a salvação. Nada inventei, nada criei. [...] apenas procurei reacender a propaganda esquecida. Acredito que o valor da minha ação nasceu unicamente de uma próspera conjuntura do tempo e do lugar, - da ocasião feliz em que foram pronunciadas as minhas palavras. Cercavam-me corações em flor, espíritos em révora: o ambiente era propício, de mocidade e de ternura; e a velha Faculdade de Direito de São Paulo ecoava ainda antigos clamores de crença e de combate: a minha ressuscitou, entre aquelas paredes, a grandeza e a febre de campanhas mortas. Assim, o passado e o presente, num encontro milagroso, acolheram, agravaram, e repercutiram com eficácia o meu grito...16 Também na fala “À Marinha Nacional”, afirmava: Senhores. Não me engano sobre a significação deste ato de fraternidade. Os vossos louvores e a vossa afeição não vêm pra mim, mas para todos os que trabalham comigo, e para a grande causa que defendemos. [...] nenhum orgulho se mistura à minha ventura. Sinto-me cada vez mais obscuro na minha alegria, menos saliente na minha força. Tão íntima e perfeita é a comunhão entre a minha alma e as vossas almas, que nem acredito na minha existência individual: [...] e eu, sou, pessoalmente, um simples instrumento inconsciente do vigor nacional, [...]. Não tratemos de mim...Que valem nomes? O que vale é o cemitério confuso e venerando, em que repousam, depois das pelejas sublimes, as dedicações desconhecidas e as renúncias heróicas, que criaram o nosso nome coletivo; e a massa pululante e sussurrante das energias que nos rodeiam, e reclamam a nossa direção, o nosso conselho e o nosso amparo; [...].17 Deve-se sublinhar, portanto, o esforço que Exército e Marinha fariam para aproximarse do poeta, da mesma forma a sua participação na Liga da Defesa Nacional, onde teria o cargo de secretário, e, por fim, o reconhecimento de Bilac como patrono pela Liga Nacionalista de São Paulo que também seria fundada no ano seguinte. Isso parece demonstrar que, ainda vivo, a celebridade do poeta nacionalista já era reconhecida como um valor a ser agregado a diferentes instituições e grupos de interesses. Pois, sendo todos nacionalistas, suas idéias, contudo, diferiam significativamente e, nesse sentido, importa observar que apesar de ter construído vínculos e articulações com estas diversas instituições, Bilac só falou em nome de uma delas: a Liga da Defesa Nacional.18 16 Bilac, O. “Ao Exército Nacional”. A Defesa Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1965. p. 33-34. 17 Bilac, O.. “À Marinha Nacional”. A Defesa Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1965. p. 43. 18 Sendo esta uma associação, contudo, não se pode supor a transposição direta das idéias de Bilac para as produções discursivas ou ações da Liga, ainda que possamos assumir uma identificação maior do ideário bilaqueano com o aquele promovido por esta agremiação. 21 Curiosamente, após a morte de Bilac em 28 de dezembro de 1918, o que se verifica são esforços muito desiguais, descompassados e desproporcionais em termos de comemorações e homenagens ao poeta. As instituições não se uniram nas homenagens e celebrações, as quais foram promovidas separadamente pelo menos nas duas décadas seguintes. Tal observação reforça a idéia de que o único elemento articulador entre elas teria sido mesmo o próprio Olavo Bilac. É também curioso que a primeira instituição a mobilizar grandes recursos para homenagear o poeta tenha sido justamente aquela cujas idéias hoje nos parecem ser as mais distantes da memória bilaqueana: a Liga Nacionalista. Mas as razões disto não são misteriosas e residem, de um lado, no fato da liga paulista ter durado muito pouco, pois seria extinta já em 1924, e de outro no grande investimento que os regimes autoritários, em conjunto com o Exército, fariam em 1939 e 1965 para resgatar a memória do poeta civil e defensor do serviço militar. Começo, então, por tratar das homenagens da Liga Nacionalista a Olavo Bilac. Criada, alegadamente, por inspiração do famoso discurso do poeta, ainda assim causa estranheza que a liga tenha continuado a cultuar Bilac, a questão que se coloca é: como explicar a escolha de Bilac, poeta e cronista fluminense fortemente identificado com a Belle Èpoque e com o Rio de Janeiro, para “herói” e objeto de culto de uma agremiação paulista que por sua vez era fortemente identificada com uma das mais tradicionais instituições de São Paulo, a Faculdade de Direito, ainda mais tendo o poeta se engajado diretamente numa outra liga com propostas relativamente diferentes? Uma hipótese é que a imagem de Bilac constituía-se num potencial capital simbólico a ser mobilizado para fortalecer ou até mesmo legitimar o projeto político da Liga Nacionalista, o qual, diga-se de passagem, mesmo tendo pontos em comum com as idéias que Bilac defendera, constituiu-se de forma bastante diferenciada em relação à Liga da Defesa Nacional, esta sim mais afinada com as propostas bilaqueanas. Sendo assim, a apropriação da memória de Bilac em articulação com o projeto político da Liga Nacionalista, cujo cerne foi, desde a sua fundação, a educação e o voto secreto e obrigatório, seria mais uma das estratégias utilizadas pela agremiação para contestar a própria engrenagem do sistema político vigente durante o período conhecido como República Velha (1889-1930). Frederico Vergueiro Steidel, entre os dirigentes da Liga Nacionalista, seria aquele que mais se comprometeria em manter os vínculos com a figura de Olavo Bilac. Em 1917, durante 22 sessão ordinária com a presença de Bilac, teria proposto que o poeta fosse aclamado presidente honorário da instituição, obtendo “aprovação calorosa” dos membros presentes19. Medeiros chama a atenção para a recorrência da afirmação daquele laço umbilical entre o discurso de 1915 e a Liga Nacionalista nas páginas d’O Estado de São Paulo e, principalmente, da significativa freqüência com que isso era feito nos textos e artigos assinados por Steidel ou nos quais seu nome era referido20. A morte de Bilac, em 28 de dezembro de 1918 causou grande comoção nacional, como era de se esperar considerando a sua popularidade. Mas, a parte algumas homenagens modestas organizadas pela Liga da Defesa Nacional no Rio, foi em São Paulo que teriam lugar os esforços mais ambiciosos para uma homenagem digna do poeta e “apóstolo do civismo”, conforme ele seria lembrado. Já em 15 de setembro de 1919, a Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo remetia ao Senado o “projeto n. 2” que autorizava a construção de um monumento destinado a perpetuar a memória do Conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves, morto em janeiro daquele ano, para o qual seriam destinados duzentos contos de réis e “abrir o crédito de cinqüenta contos de réis para auxiliar a construção de um monumento a Olavo Bilac”21. Como previa o decreto, a verba autorizada era para “auxiliar” a construção do monumento e Vergueiro Steidel lançou-se a uma intensa campanha para arrecadar mais recursos para aquele fim. Conforme Bandecchi, foram distribuídas listas pela capital e no interior, autenticadas por Steidel, para receber donativos para o monumento. Com contribuições de cinco, dez e vinte mil réis, finalmente a obra foi encomendada ao escultor sueco William Zadig, professor do Liceu de Artes e Ofícios. Zadig projetou e construiu um conjunto escultórico composto por cinco peças de bronze. A figura de Bilac como em uma tribuna, em referência ao discurso na Faculdade de direito, era a peça de maior dimensão e ficava no centro do monumento. As outras ficavam posicionadas ao redor e representavam quatro poemas: “A tarde”, “O caçador de esmeraldas”, “O beijo eterno” e “Pátria e família”. 19 Bandecchi, Brasil. Liga Nacionalista. Cadernos de história. Caderno 14. São Paulo: Editora Parma, 1980. p. 21. 20 Segundo esta autora, o jornal O Estado de São Paulo teria sido o principal veículo de divulgação da Liga Nacionalista que, diferentemente de outras agremiações do gênero, não contava com um Boletim ou Revista próprio. Cf. Medeiros, Valéria Antonia. Antônio de Sampaio Dória e a modernização do ensino em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Tese de doutorado. São Paulo: PUC-SP, 2005. 21 Projeto de lei enviado pela Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo ao Senado do Estado de São Paulo. Alesp. Disponível em http://www.al.sp.gov.br/geral/acervoHistorico/FichaDocumentoRepublicaVelha.jsp?idDocumento=31516 23 Figura 6 – Monumento a Bilac.22 O monumento foi alocado na Avenida Paulista e sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1922, em meio às intensas comemorações do Centenário da Independência. Francisco Pati relembra o acontecimento do qual participou enquanto estudante da Faculdade de Direito: Lembro-me de que nos coube inaugurar, no fim da Avenida Paulista, a cavaleiro do vale do Pacaembu, o monumento a Olavo Bilac. O orador oficial saiu do nosso meio. Sucedeu, porém, que o ato se revestiu de uma solenidade com a qual não contávamos. O governo do Estado, tendo à frente o sr. Washington Luís, compareceu em peso. Compareceram também Dna. Cora Bilac Guimarães, saudosa irmã do excelso poeta, e seu marido, [...] Sr. Alexandre Lamberti Guimarães. Armou-se no extremo daquela via pública, na esquina da rua Minas Gerais, um coreto para autoridades, convidados e comissão acadêmica, inclusive o orador. Em toa a extensão da avenida, desde o ‘Trianon’ até o monumento, de lado a lado, soldados da Força Pública e alunos de escolas primárias e secundárias. Os convidados desciam do automóvel no ‘Trianon’ e faziam o resto do percurso a pé, de cabeça descoberta. Traje de rigor: fraque e cartola. Só obtinha ingresso no coreto quem estivesse de fraque e cartola. 23 Uma fotografia da inauguração do monumento foi publicada em A Cigarra, no número especial destinado à cobertura das festividades do Centenário em São Paulo. 22 Toledo, Benedito Lima de. Álbum Iconográfico da Avenida Paulista. São Paulo: Ex-libris, 1987. Pati, Francisco. O Espírito das Arcadas. São Paulo: Associação dos Antigos Alunos, 1950. Disponível em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pati.html. 23 24 Figura 7 – “Aspecto da inauguração do monumento ao grande poeta nacionalista Olavo Bilac”.24 O registro não deixa dúvidas acerca da concorrência do público paulista ao evento. É também Francisco Pati quem narra a reação da irmã do poeta à homenagem em São Paulo: Tive a felicidade de ser o orador oficial do Centro Acadêmico XI de Agosto, no ato da inauguração. [...] Graças ao meu entusiasmo, conquistei a amizade da irmã do poeta, Dna. Cora Bilac Guimarães, e de seu marido, o sr. Alexandre Lamberti Guimarães, presentes à solenidade. No dia da festa, fomos jantar com o querido casal no Hotel d’Oeste. [...] Dona Cora, muito comovida, sempre com uma lágrima nos olhos, não se cansava de testemunhar a sua gratidão aos paulistas. [...] Dona Cora não deixava de acentuar, com mil agradecimentos, a prioridade dos paulistas nas homenagens à memória do grande artista do verso. - Os senhores, paulistas, são os primeiros a lembrar-se de dar à imagem do meu irmão a perpetuidade do bronze. Com esse gesto, os senhores respondem às acusações de regionalismo intolerante. Bilac não nasceu em São Paulo, nasceu no Rio, mas é São Paulo que o consagra. Estou certa de que ele está contente lá onde se encontra. São Paulo era a sua fábrica de entusiasmo.25 Deve-se destacar a desproporção da homenagem da Liga Nacionalista em relação às que Bilac receberia nas duas décadas que se seguiram à sua morte no Rio de Janeiro. Além de romarias ao seu túmulo nos aniversários de morte, somente em 1935 o poeta seria homenageado com um busto de bronze no Passeio Público, patrocinado pela Academia Brasileira de Letras. Porém, o busto no Passeio Público era a forma pela qual a ABL costumava homenagear seus acadêmicos, de modo que, nesse sentido, a homenagem da 24 A Cigarra. n. 193, 1/10/1922, ano X. http://www.arquivoestado.sp.gov.br/upload/pdfs/CI19220193.pdf Pati, Francisco. O Espírito das Arcadas. São Paulo: Associação dos Antigos Alunos, 1950. Disponível em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pati.html. 25 25 Academia e a da Liga Nacionalista são incomparáveis em proporção, pois estavam aí envolvidos sentidos diferentes. Também é importante ressaltar a estratégia da Liga ao inaugurar o monumento em 7 de setembro de 1922, associando-o às comemorações do Centenário da Independência e assim garantindo público e visibilidade para as suas ações. Poucos meses depois, em dezembro de 1922, a Liga Nacionalista apresentava ao “Presidente do Senado do Estado de São Paulo” uma representação solicitando e sugerindo uma série de medidas que tornassem “plenamente verdadeiro, na prática, o regime instituído na lei fundamental”26. Tratava-se de mostrar a conveniência de uma série de práticas que garantissem o voto secreto e obrigatório, combatendo as fraudes e a corrupção eleitoral. Portanto, comparando homenagens no Rio e em São Paulo, o que causa mais estranheza, na verdade, é a mobilização muito mais modesta por parte da Liga da Defesa Nacional, principalmente pelos laços que esta mantinha com o governo federal. Um mausoléu para o poeta, patrocinado pela Liga da Defesa Nacional foi inaugurado o no 1 . Aniversário de sua morte, em 28 de dezembro de 1919. Fig. 8 – Inauguração do mausoléu de Bilac em dezembro de 1919, no 1o. Aniversário da morte do poeta.27 26 Representação da Liga Nacionalista de 20/12/1922. Disponível http://www.al.sp.gov.br/repositorioAcervo/Acervo/Alesp/Republica/S_126/2012_1922.pdf. 27 http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/careta/careta_1920/careta_1920_602.pdf em 26 E em dezembro de 1922, ou seja, três meses após a inauguração do monumento na Av. Paulista que, diga-se de passagem, não recebeu qualquer atenção da imprensa do Rio de Janeiro, mais uma romaria ao túmulo de Bilac seria organizada pela LDN. Somente na década de 1930, contudo, a idéia do busto no Passeio Público apareceria nas páginas dos jornais, primeiro com uma polêmica em 1933 sobre quem teria tido primeiro a idéia, se a Academia Carioca de Letras ou a Academia Brasileira de Letras, depois com a expectativa da inauguração e, finalmente, com o evento ocorrido em dezembro de 1935, comemorando os 70 anos do nascimento do poeta. Em contrapartida, em São Paulo o culto à memória de Bilac no mesmo ano de 1935 caminhava no sentido contrário. Em 7 de fevereiro, o jornal A Gazeta, anunciava a retirada do monumento de Olavo Bilac da Avenida Paulista, fazendo as seguintes considerações: O prefeito, vivamente interessado na modernização da cidade, alargamento de ruas e praças, embelezamento de pontos, resolveu construir, na Avenida Paulista, onde está o monumento de Olavo Bilac, uma grandiosa esplanada que se projetará sobre o Pacaembu. Será uma obra de arte e que transformará, totalmente, o local, tornando-o um dos mais belos da cidade. [...] Mas para dar execução ao projeto, foi obrigado a sacrificar o monumento de Olavo Bilac, que será retirado da Avenida e colocado, talvez, no parque D. Pedro II. O gesto do prefeito Fabio Prado somente merece aplausos, pois que aquele trabalho de arte, não está mais à altura da educação artística de São Paulo. Já em 1923, aqui, a mocidade acadêmica, com esta folha à frente, iniciou um movimento para retirada do monumento. E se não foi demolido, nesta ocasião, foi porque a polícia, prevenida, passou a vigiar o local. Agora, o prefeito Fabio Prado, além de introduzir grandes embelezamentos naquele ponto – presta, a São Paulo artístico, um inestimável serviço, removendo o monumento dali.28 O monumento de Zadig foi retirado em 1936, oficialmente devido às obras de alargamento da Av. Paulista. Mas é possível suspeitar, conforme o texto do jornal, que havendo se tornado alvo de críticas quase que desde a sua inauguração outros motivos estivessem envolvidos na retirada do monumento. Nesse sentido, é possível também que as críticas dos modernistas ao poeta e, mesmo as críticas à sua campanha que geralmente viam nela um “excessivo militarismo” tenham contribuído para a antipatia com relação à obra. Nesse momento, a Liga Nacionalista já havia sido extinta há mais de uma década por decreto do então Presidente da Republica Artur Bernardes, devido a suspeita de sua participação no levante revolucionário de 1924, conduzido por Isidoro Dias Lopes. A maioria de seus integrantes, contudo, não se afastaria da política e, em 1926, muitos dos membros da Liga participariam da fundação do Partido Democrático. Sobre o monumento, é curioso que, tendo sido desmontado e guardado num depósito da prefeitura até que algumas de suas peças voltassem a ocupar, separadamente, espaços 28 A Gazeta. São Paulo, 7 de fevereiro de 1935. Arquivo de Olavo Bilac, Academia Brasileira de Letras. 27 públicos da cidade de São Paulo, a obra não tenha sido “lembrada” ou utilizada em 1939, quando o então presidente Getúlio Vargas promoveu uma série de comemorações nacionais em torno da figura de Olavo Bilac. Foi somente Jânio Quadros, como prefeito de São Paulo em 1956, que tirou uma daquelas peças do depósito, justamente a mais polêmica que representava o beijo entre uma índia e um francês, para novamente recolhe-la após provocar o escândalo de um pai preocupado que a filha fosse obrigada a ver tal imoralidade. Novamente posta em espaço público em 1966 pelo prefeito Faria Lima, dessa vez na entrada do túnel da 9 de Julho, a estátua provocaria polêmicas até que os alunos da Faculdade de Direito seqüestraram a escultura e a levaram para o pátio da Faculdade no Largo de São Francisco onde ela está até hoje. A escultura central, a estátua de Bilac, encontra-se desde 1988 em frente ao Círculo Militar também por determinação de Jânio Quadros, conforme a placa de bronze do pedestal. “O Caçador de Esmeraldas” foi para o jardim da Escola Estadual Fernão Dias Paes, na rua Pedroso de Moraes em Pinheiros. “A Tarde”, também conhecida como “O Pensador”, está no Parque da Independência no Ipiranga e, finalmente, “Pátria e Família” foi alocada na Praça Presidente Kennedy, na Mooca. Voltando no tempo, a partir de 1939 a memória de Bilac sofreria uma nova inflexão. O decreto-lei n. 1.908 de 26 de dezembro, do Estado Novo ao mesmo tempo em que homenageava o poeta transformando sua data natalícia, 16 de dezembro, em Dia do Reservista conferia um novo “sentido” a sua campanha cívica, associando sua memória ao Estado autoritário e à necessidade de mobilização em tempos de guerra. O mês de dezembro de 1939 seria marcado por uma intensa agenda de comemorações, amplamente divulgadas pela imprensa e com larga cobertura jornalística. No texto do decreto alegava-se que: [...] O presidente da República: Considerando a conveniência de reavivar nos reservistas a lembrança da época em que serviram à pátria, no Exército ou na Armada; Considerando que a perfeita estrutura das forças armadas se fundamenta no serviço militar obrigatório, do qual foi esclarecido propagandista o cidadão Olavo Bilac; Considerando que, exaltando a patriótica colaboração prestada por Olavo Bilac à instituição desse serviço eleva-se a cooperação civil necessária ao engrandecimento as forças armadas; usando da atribuição que lhe confere o art. 180 da Constituição; Decreta: 28 Art. 1o. Fica instituído o ‘Dia do Reservista’ com a finalidade de reavivar o espírito militar dos reservistas do Exército ou da Armada. Art. 2o. O ‘Dia do Reservista’ será comemorado anualmente em 16 de dezembro, data do nascimento do poeta e grande patriota Olavo Bilac, pioneiro da execução da Lei do Serviço Militar. [...] Getúlio Vargas Eurico G. Dutra Henrique A. Guilhem29 O programa das comemorações no Rio de Janeiro, conforme organizado pela “Comissão Nacional de Homenagem à Memória de Bilac” encabeçada pelo ministro Eurico Gaspar Dutra e divulgado pela imprensa, era o seguinte: Dia 16, pela manhã junto à herma do Passeio Público: Alvorada, pelos clarins do 1o. Regimento de Cavalaria; colação de coroas de flores em nome do Exército, Escola Militar, Colégio Militar e C.P.O.R.; hino à Bandeira cantado por 100 alunas do Instituto de Educação; discurso de um aluno da Escola Militar; discurso do escritor Luiz Edmundo; Hino Nacional. Às 20 horas, no Club Militar; Sessão cívica e recepção; agradecimento da mocidade ao poeta do Brasil. A mesa será presidida pelo melhor aluno da Escola Militar, ladeado pelos melhores alunos da Escola Naval, Colégio militar, C.P.O.R. [Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva], academias superiores, Instituto de Educação, Colégio Pedro II, Escolas Secundarias, Escolas Públicas Municipais e Particulares, Falarão oradores inscritos e serão recitadas várias poesias de Bilac. Dia 27, às 17 horas: Conferência do jornalista Paulo Filho, no Palácio Tiradentes. Dia 28, às 9 horas: Romaria ao tumulo do poeta, no cemitério S. João Batista. Às 15 horas: No Colégio Militar: Inauguração, no salão de honra, da ‘Alegoria a Olavo Bilac’, sendo orador, nesse ato, o tentente-coronel Ruy Almeida, representando o corpo docente do Colégio Militar. Sessão solene: Abertura da sessão pelo general Pedro Cavalcanti de Albuquerque, inspetor geral do Ensino no Exército; oração do professor Miguel Daltro dos Santos, do corpo docente do Colégio Militar; conferência do professor Fernando Magalhães, da Academia Brasileira de Letras e presidente de Defesa Nacional, sobre o tema ‘Bilac e a Defesa Nacional’. - Entre as muitas adesões que têm chegado à Comissão Nacional de Homenagens à memória de Olavo Bilac, convem salientar a valiosa contribuição do sr. Jorge Santos, redatorchefe da ‘Ilustração Brasileira’, que pôs as colunas desse tradicional órgão de imprensa ilustrada carioca à disposição dos promotores das homenagens ao poeta do Brasil. 30 Em meio às festividades, no dia 27 O Jornal do Rio de Janeiro anunciava que os generais Eurico Dutra e Pero Cavalcanti, haviam estado no Palácio do Catete, convidando o presidente a comparecer à solenidade do dia seguinte no Colégio Militar. Além disso, em paralelo à programação divulgada, outras homenagens não previstas iam ocorrendo como a inauguração de uma agência de correios e programas de rádio, 29 Decreto-lei n. 1908 – de 26 de dezembro de 1939. Disponível em http://www6.senado.gov.br/legislacao/ “Agradecimentos da mocidade ao poeta do Brasil”. A Gazeta, São Paulo, 15 de dezembro de 1939. Arquivo de Olavo Bilac, Academia Brasileira de Letras. 30 29 conforme relatava a cobertura jornalística. Já em São Paulo, no dia 27 de dezembro a Folha da Manhã informava a adesão do interventor Adhemar de Barros às solenidades, promovendo uma série de festividades também naquela capital. As classes armadas do país estão prestando expressivas homenagens à memória de Olavo Bilac, o grande poeta, que, em 1916 e 1917, foi o animador de uma patriótica cruzada prómilitarismo. [...] O governo de São Paulo, desejando colaborar nas homenagens que o Exército está prestando ao grande patriota, levará a efeito, nesta capital, amanhã, várias solenidades comemorativas. SESSÃO CÍVICA NO TEATRO MUNICIPAL No Teatro Municipal, realizar-se-á, às 20:30 horas, uma sessão solene com o comparecimento do Sr. Adhemar de Barros, general Mauricio Cardoso, cel. Mario Xavier, arcebispo metropolitano, D. José Gaspar de Affonseca e Silva; todos os secretários de Estado e outras altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, [...]. NA FACULDADE DE DIREITO Realizar-se-á, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a inauguração de uma placa de bronze, oferecida pelo governo do Estado, e na qual se lê a seguinte inscrição: ‘A Olavo Bilac, no momento em que a Pátria começa a colher os frutos das sementes que ele plantou nesta Faculdade, O Governo do Estado de São Paulo, São Paulo, XXVII-XIIMCMXXXIX”. FOLHETOS COMEMORATIVOS O governo do Estado mandou confeccionar milhares de folhetos alusivos às comemorações a Olavo Bilac, que trazem, entre outras coisas, vários clichês de alegorias e a famosa oração ‘Em Marcha’ proferida na Faculdade de Direito. SÉRIE DE CONFERÊNCIAS PROMOVIDAS PELA A.P.I. Continuam as comemorações promovidas pela Associação Paulista de Imprensa, através das estações de rádio da capital, em homenagem a Bilac. [...] Amanhã, pela Radio Record, às 19:45, o dr. Alexandre Marcondes Filho encerrará as comemorações. [grifo meu]31 Interessante notar a intenção de filiação expressa nos dizeres da placa colocada na Faculdade de Direito. De fato, parece bem possível que Bilac simpatizasse com o Estado Novo se ainda fosse vivo, considerando as políticas sociais, a promoção do civismo e a mobilização da juventude, levadas a cabo por aquele regime, as quais possuem mesmo uma certa afinidade com as idéias expressas trinta ou quarenta anos antes. Tal afinidade, contudo, tanto não era um pré-requisito para a recuperação de sua memória que não se verifica com relação ao Regime Militar, por exemplo, o qual, não obstante, também promoveu o culto à memória do poeta, conforme veremos adiante. No que diz respeito ao Estado Novo, então, com o êxito do convite feito a Vargas pelos membros da Comissão, o presidente acabaria por comparecer à solenidade no Colégio Militar onde foi inaugurada a “Alegoria a Bilac” e organizada uma exposição com os objetos pessoais do poeta. A adesão do presidente iria conferir maior importância aos eventos comemorativos, mas, tratando-se de uma manifestação relativamente tardia, é possível pensar 31 “Homenagens à Memória de Olavo Bilac”. Folha da Manhã, São Paulo, 27 de dezembro de 1939. 30 que o movimento de heroificacão do poeta tenha sido fundamentalmente uma iniciativa dos militares. O sentido de promover um culto à memória do poeta que defendeu o serviço militar obrigatório era, obviamente, o de sublinhar a aliança e fortalecer os laços entre civis e militares. Fig. 13 – “A mocidade do Colégio Militar consagra a memória de Bilac”.32 Porém, neste caso também é significativo que, em meio à profusão de notícias sobre as homenagens a Bilac e seguindo-se a esta, um interesse sobre aspectos da vida do poeta não relacionados ao seu patriotismo como a boêmia, a produção de versos eróticos e satíricos e o noivado desfeito, encontrou grande expressão em artigos de jornais e revistas durante a década de 1940 e início da década de 1950. Alguns títulos de textos publicados em periódicos como: “A noiva de Bilac” (1943); “Bilac amou na vida” (1951); “Olavo Bilac, estudante em São Paulo” (1941); “Bilac viveu ou imaginou o seu erotismo?” (1941); “Meu encontro com Bilac” (1941); “A noiva de Bilac (1951); “Uma família de poetas” (1941); “D. Amélia Mariano de Oliveira” (1945); “Os poetas Bilac, Alberto e Raimundo andaram seriamente brigados: anos depois se reconciliaram”(1950); “O grande amor que iluminou a vida do poeta” (1936); “Uma resposta de Bilac e outras curiosidades” (1942); “Episódios inéditos e pitorescos na vida de Bilac” (1941).33 Também em livros como O noivado de Bilac de Elmo Elton (1954) e A boêmia do meu tempo, no qual Bilac é um dos protagonistas, de Leôncio Correia (1955), assim como as primeiras biografias como A vida exuberante de Olavo Bilac (1944) e Olavo Bilac – bom humor (s.d.) de Elói Pontes, Olavo Bilac de Melo Nóbrega 32 33 Diário Carioca, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1939. Arquivo de Olavo Bilac, ABL. Cf. Bueno, Alexei (org.). Olavo Bilac: obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 1060-1061. 31 (1939) e Bilac, vida e obra de Henrique A. Orciuoli (1941); Olavo Bilac (sua vida e suas obras) (1943) de Álvaro Guerra; e Olavo Bilac. O homem e o amigo de Nelson Líbero (1960); percebe-se a ênfase e, portanto, o interesse dos biógrafos na fase boêmia e em aspectos mais íntimos da vida do poeta. Em contrapartida, nas décadas de 1960 e 1970 vemos livros com títulos mais sérios como: Olavo Bilac e o serviço militar obrigatório, o homem, o artista, o patriota (1969); Olavo Bilac, o homem cívico (1968); Bilac e o serviço militar (1966); Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, príncipe dos poetas brasileiros, patrono do serviço militar (1974). Ao lado de outros como: Vida e Poesia e Olavo Bilac (1963, 1965, 1972, 1977, 1991, 1992, 2007) já citado; Olavo Bilac. Cavaleiro do amor insatisfeito (1965); O mundo de Olavo Bilac (1971); e Olavo Bilac e sua época (1974). Nestas décadas a imprensa não publica praticamente nada sobre Bilac, o que contrasta com o que ocorre nas décadas de 1930 e 1940 e pode ser tomado como um “silêncio” significativo, uma forma de resistência ao trabalho de “enquadramento da memória” empreendido pela Ditadura Militar 34 associada à resistência política. A polêmica em torno do livro de Fernando Jorge mencionada no início deste capítulo ilustra, portanto, ao relatar as reações de Raimundo Magalhães Júnior e Austregésilo de Athayde, quais os aspectos desejáveis e indesejáveis da retomada da memória de Bilac, em tempos de acirrada polarização ideológica e busca de legitimação para as ações militares ancorando-as na aprovação da vontade da sociedade civil, incluindo o golpe que ocorreria no ano seguinte ao lançamento do livro. A questão da moral, nesse momento, é ponto extremamente sensível. Daí a indignação com respeito à divulgação de aspectos da vida de Bilac que poderiam pôr em causa a simpatia pelo personagem sério, correto, defensor intransigente da pátria. Bilac, desde que representado com as virtudes de um “soldado”, novamente se apresenta como o herói ideal para o momento, capaz de simbolizar a conciliação entre os interesses da sociedade civil e dos militares em prol da pátria, desde que se reinterpretasse suas ações e discursos à luz dos interesses do presente. Também é interessante, tendo em vista os contrastes entre os enquadramentos da memória dominantes nas décadas entre 1930 e 1980, pensar a relação que diferentes gerações de brasileiros tiveram com o Bilac autor, não somente das poesias, como de livros infantis. Aqui vale lembrar as numerosas edições desses livros, amplamente utilizados como leitura escolar até a década de 1960 e, logo, criando diferentes relações entre leitores e autor, 34 A relação entre silêncios, esquecimentos e “memória enquadrada”, termo de Henri Rousso é desenvolvida por Pollak, Michael. “Memória, Esquecimento, Silêncio”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.2, n. 3, 1989, p. 315. 32 relações essas que devem ser consideradas também como importantes mediações, no sentido afetivo, entre indivíduos e memória social. Tomemos por exemplo alguns de seus mais importantes livros cívicos: Contos Pátrios (1904) com Coelho Netto, Poesias Infantis (1904) e Através do Brasil com Manuel Bomfim (1910). Todos estes tiveram sucessivas reedições desde seu lançamento até o final da década de 1950 sendo que Contos Pátrios avançou com edições sucessivas também da década seguinte. Os outros não ficam muito atrás, mas, para citar apenas este, o número é impressionante: foram mais de 50 edições em 65 anos, ou seja, uma média de uma edição a cada catorze meses em mais de seis décadas. É óbvio que as leituras das diferentes gerações não foram semelhantes, mas a hipótese que aqui levantamos é que, dependendo da geração, as memórias de leitura individuais, combinando-se à memória enquadrada em cada um daqueles contextos, podem ter sido um fator na conformação de diferentes memórias para diferentes gerações convivendo numa mesma época. Em 17 de agosto de 1965, o presidente Castello Branco baixava o decreto n. 56.742 que dispunha sobre as solenidades comemorativas do centenário de nascimento de Olavo Bilac: DECRETO Nº 56.742, DE 17 DE AGOSTO DE 1965 Dispõe sobre as solenidades comemorativas do centenário de nascimento de Olavo Bilac. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando da atribuição que lhe confere o artigo 87, inciso I, da Constituição, e CONSIDERANDO que a 16 de dezembro de 1965 transcorrerá o centenário do nascimento de Olavo Bilac, autor da letra do Hino à Bandeira, propugnador do serviço militar obrigatório e grande incrementador do sentimento do civismo, que deve ser incutido na juventude; CONSIDERANDO que esse acontecimento coincide com a semana do reservista; CONSIDERANDO que o sentimento do dever cívico se inspira nos grandes momentos em que a Pátria tem a oportunidade de rememorar os seus vultos maiores, avivando-lhes os feitos na memória dos contemporâneos e retirando nos exemplos do passado também a lição para as gerações mais novas, DECRETA: Art. 1º Será comemorado com solenidades especiais em todo o território nacional o centenário do nascimento de Olavo Bilac, a transcorrer no dia 16 de dezembro de 1965. Art. 2º A organização e execução do plano das solenidades comemorativas, em que deverão constar palestras, conferências e cerimônias escolares e militares, serão coordenadas pelo Ministério da Educação e Cultura. Art. 3º No prazo de quinze dias, a contar da data de publicação deste decreto, o Ministro da Educação e Cultura constituirá uma Comissão, da qual participará um representante de cada Ministério Militar, para a programação das solenidades. Art. 4º Este decreto entrará em vigor na data de sua publicação. 33 Brasília, 17 de agosto de 1965; 144º da Independência e 77º da República. H. CASTELLO BRANCO Flávio Lacerda35 A Comissão, segundo o texto da Portaria n. 258 de 16 de setembro de 1965 do Ministro da Educação e Cultura Flávio Suplicy de Lacerda, seria instituída por: Raymundo Moniz Aragão, Diretor do Ensino Superior; Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, Presidente da Liga da Defesa Nacional; Austregésilo de Athayde, Presidente da Academia Brasileira de Letras; Tenente-Coronel João de Souza Carvalho, representante do Ministério da guerra; Capitão de Corveta Carlos Miguez Garrido, representante do Ministério da Marinha; Capitão-Aviador Hélio Paes de Barros, representante do Ministério da Aeronáutica; e José Pedro Ferreira da Costa, Sub-Chefe do gabinete do Ministro da Educação e Cultura. Sua principal incumbência era “elaborar o plano das solenidades comemorativas do centenário do nascimento de Olavo Bilac, [...] promovendo os atos cívicos, culturais e educativos destinados a dignificar e avivar, na memória dos contemporâneos, a trajetória terrena do insigne poeta e homem público”36. Um dos principais feitos da Comissão, afinal, foi a reedição de A Defesa Nacional, coletânea dos discursos de Bilac em 1915 e 1916 que havia sido publicado pela Liga da Defesa Nacional em 1917. Nesta edição, Carlos Maul, que havia sido orador junto ao túmulo de Bilac nas comemorações de 1939 e que conheceu o poeta em vida, foi o responsável pelo texto introdutório intitulado “O que significa este livro”, no qual destaca-se em muitos aspectos o papel que a memória de Bilac era chamada a cumprir no novo contexto inaugurado com o Golpe de 1964. Em suas palavras: A reedição deste livro, conservado o título que lhe deu a Liga da Defesa Nacional, impunha-se, por imperativo lógico, por duas razões: a primeira com sentido de reverência ao Poeta da Pátria, na data do centenário de seu nascimento, e a segunda pelo cunho de atualidade que transcende do que em 1915 proclamou ao Brasil inteiro o que ele precisava ouvir, numa hora de angústia e de perplexidades, para compreender a necessidade de sua defesa e a opção por um destino. O que a mocidade de hoje encontrará nessas páginas candentes de advertência, de entusiasmo e de otimismo equilibrado, será o mesmo que escutou a juventude de ontem, com uma única diferença: a de que em 1915, exatamente há meio século, estávamos diante do perigo, despreparados para enfrentá-lo e vencê-lo, e agora nos vemos organizados, mas em face de circunstâncias muito mais graves do que aquelas a que Olavo Bilac se referia no seu extraordinário apostolado cívico. 35 Decreto nº 56.742, de 17 de Agosto de 1965 disponível em http://www2.camara.gov.br/legin/fed/decret/19601969/decreto-56742-17-agosto-1965-397235-publicacaooriginal-1-pe.html. 36 Portaria n. 258, de 16 de setembro de 1965 (D.O. de 20-9-65). Bilac, O. A Defesa Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965. p. 21. 34 Tomado o vocábulo na sua justa acepção semântica, o que o nosso admirável patrício promoveu com o seu verbo maravilhoso, foi uma revolução, [...]. Dormíramos longamente, [...]. A guerra que irrompeu na Europa, aparentemente entre potências que lutavam por hegemonias econômicas, em breve sobrevoaria o oceano para atingir a América, [...]. Que procedimento a adotar, em presença de um inimigo poderoso? O toque de reunir teria de soar, antes que fosse tarde. E foi o que a palavra de Olavo Bilac traduziu em termos adequados na sua peregrinação por todos os centros de receptividade do Brasil ao convocar os brasileiros ao serviço das armas, no cumprimento do estabelecido na lei do Serviço Militar obrigatório mediante sorteio. [...] A nação vibrou ao calor desse mágico, todos sentiram o que havia de profundo nesse verbo em ação, e em menos de dois anos, o Exército deixava de ser um castigo para transformar-se no núcleo em que formariam o caráter, a mentalidade de um Brasil renovado e com a compreensão de que a liberdade só deixa de ser um mito quando se ergue uma força material que a sustente em plenitude. O grande apelo foi entendido, o texto legal tornou-se corpo vivo. Bilac conseguira o milagre, o mesmo milagre que com a espada alcançara Caxias nas suas lutas pela conservação da nossa unidade, nos momentos em que ela parecia estremecer nos seus fundamentos ainda, à flor do solo. [...] Cinqüenta anos passaram. Acontecimentos vários surgiram. O Brasil revelou-se esclarecido e desperto para as atividades reclamadas para o seu progresso. Transformações internas se operaram, atravessamos fases difíceis e as vencemos a duras penas, mas em todas essas fases tivemos a certeza de que a campanha de Bilac não fora em vão, porque adquiríramos uma consciência cívica que ampliara e robustecera as resistências da nação. E os rumos quem os traçava nessas ocasiões era o Exército, o elemento aglutinante por excelência, o reservatório de almas para a democracia a que Bilac se referira com ênfase nos seu apostolado. Do mérito desse ímpeto revolucionário que se manifestara em 1915, o presente nos oferece uma prova concreta na Revolução de 31 de março de 1964. Tudo como que indicava que olvidáramos os ensinamentos do mestre. Deformava-se o espírito do regime, as instituições políticas eram solapadas pelas correntes subterrâneas, um mundo de sofismas e um farisaísmo agressivo, davam a impressão de que bem perto de nós se abria a garganta do abismo da subversão de todos os valores morais e mentais da nacionalidade. As vozes mais vibrantes que nos feriam os ouvidos eram as dos pregadores da dissolução. [...] O comunismo anunciava o seu próximo advento. Afirmavam ter em suas mãos o governo, faltando-lhe vencer a última etapa, que seria a tomada do poder. O silêncio da nação como que confirmava o melancólico vaticínio. Entretanto, isso não era o povo, não era a nossa gente, eram bandos de apátridas que repetiam ordens de comando vindas do estrangeiro. E quando os fatos definiram uma situação intolerável, saíram à rua os brasileiros autênticos de todas as classes, unidos por um só pensamento, o da restauração da ordem conspurcada e o da expulsão dos invasores. De norte a sul, homens e mulheres tomaram posição nas linhas de vanguarda e voltaram-se para os quartéis inatingidos pelo veneno das ideologias antinacionais e corrosivas. E quem vivia nas casernas, sob a influência os ensinamentos redentores, das lições do patriotismo disseminadas pelo Poeta? Uma oficialidade que crescera no ambiente arejado pela cultura dos estabelecimentos de formação para as grandes tarefas que constituem o dever militar. Ali se adestravam gerações que se nutriam do leite do civismo [...]. As reservas que aí haviam feito o seu aprendizado, espalhavam-se pelo Brasil afora e nas fileiras os novos conscritos, no ato do juramento sagrado, cantavam o mesmo Hino à Bandeira que aprenderam na infância nas escolas primárias. Esse Hino era de Olavo Bilac. Foram esses batalhões que obedeceram ao Alto Comando que lhes mostrou o caminho iluminado na madrugada de 31 de março de 1964. [...] Elas [as classes armadas] são o Exército de Caxias em que Bilac imprimiu a marca do seu gênio. Se ganhamos, mais uma vez, uma batalha sem sangue, devemo-lo a esse Exercito por cuja perenidade o Poeta insigne se bateu com denodo e convicção há meio século, o Exército da nação em armas que permaneceu imune aos contatos infames. Os adolescentes que o integram, mercê da vigência da lei do 35 sorteio, são as crianças que Bilac ensinou a amar o Brasil nos seus livros didáticos, e mais tarde encaminhou aos quartéis que lhes completariam a educação [...]. [...] Tornava-se necessário oferecer à mocidade destes dias o alimento espiritual que a aproximasse daquele que propiciara o advento do Exército novo. As gerações que sucederam à de 1915 não devem perder de vista que o mal não dorme, que as ameaças perduram, se repetem, multiformes e multânimes, através das idades e a vigilância é a obrigação precípua dos povos que não desejam morrer ou aviltar-se. Há uma completa pedagogia do civismo, para todos os tempos, na doutrinação do Poeta. Nesta altura, já não lhe ouviremos a voz sonora e enérgica, mas lhe guardaremos os ecos impressos para sempre nestas páginas em que nos ensina o que temos de fazer para que a Pátria não desapareça do mundo.37 O autor, ao explicar o “significado do livro”, efetua em seu texto algumas operações de aproximação tanto mais necessárias na medida em que agora eram apresentados aos jovens, por escrito, os discursos proferidos pelo poeta à mocidade de seu tempo meio século antes. A primeira aproximação era a identificação entre os dois momentos como sendo momentos de “perigo”. A guerra no primeiro caso e o comunismo no segundo. Porém, se em 1965 a nação encontrava-se melhor preparada, a ameaça agora era então, na opinião do autor, muito maior. Nesse sentido, Maul chama a atenção sobre a responsabilidade de Bilac na implementação de fato da lei do serviço militar obrigatório, ao mesmo tempo “revolução” e “milagre”, pois o poeta teria transformado o Exército, até então visto como castigo, em “núcleo de formação do caráter” e da “mentalidade de um Brasil renovado”. A segunda aproximação, decorrente da primeira, é ainda mais significativa do ponto de vista do enquadramento da memória. Trata-se da continuidade estabelecida entre a “revolução” de Bilac, na sua “justa acepção semântica” conforme as palavras de Maul, e o golpe militar de 1964, qualificado pelo autor como uma revolução e somente possível porque homens e mulheres, de “norte a sul”, “voltaram-se para os quartéis inatingidos pelo veneno das ideologias antinacionais e corrosivas”. O argumento é que se estes quartéis estavam imunes a tal veneno ideológico era porque ali vivia uma jovem oficialidade sob a influência dos “ensinamentos redentores, das lições do patriotismo disseminadas pelo Poeta”. Nesse sentido, o Exército era, segundo Maul, “o elemento aglutinante por excelência, o reservatório de almas para a democracia a que Bilac se referira com ênfase nos seu apostolado”. Aqui é interessante que Maul tenha dito que Bilac “se referira com ênfase” à democracia durante sua campanha. E é também importante sublinhar sua idéia, atribuída ao poeta, do Exército como “reservatório de almas para a democracia”. Tanto a idéia da 37 Maul, Carlos. O que significa este livro. Bilac, O. A Defesa Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965. p. 13-18. 36 “ênfase”, quanto do papel democrático do Exército contrastam com os efetivos usos que Bilac faz da palavra democracia, que aparece em apenas dois discursos de sua campanha: O primeiro e mais famoso por ser aquele que fez disparar a campanha, foi realizado em S. Paulo e intitulado “Em marcha!”; o outro seria a conferência intitulada “A defesa nacional”, proferida no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná. Cito os dois trechos de Bilac para comparação com a “leitura” apresentada por Carlos Maul em 1965: Nunca fui, não sou, nem serei um militarista. E não tenho medo de militarismo político. O melhor meio para combater a possível supremacia das casta militar é justamente a militarização de todos os civis: a estratocracia é impossível, quando todos os cidadãos são soldados. Que é o serviço militar generalizado? É o triunfo completo da democracia; o nivelamento das classes; a escola da ordem, da disciplina, da coesão; o laboratório da dignidade própria e do patriotismo. É a instrução primária obrigatória; é a educação cívica obrigatória; é o asseio obrigatório, a higiene obrigatória, a regeneração muscular e psíquica obrigatória.38 Não podemos mais perder tempo. Estamos sendo arrastados para a ruína. Defendamonos! É inconcebível a vitória de uma democracia sem a instrução da massa pública. Estabelecemos a Republica; mas pode viver dignamente uma República, uma pátria republicana, quando a maior parte dos seus filhos seja de analfabetos, e, portanto de inconscientes? [...] É este, do nosso programa, o ponto primeiro, que devemos resolver para a nossa defesa nacional. E com a instrução primária, a instrução profissional. Segundo ponto: [...] a falta de organização do trabalho. Mas não é tudo, isso. A instrução não é completa quando se refere unicamente à ciência e à arte, à inteligência e ao trabalho. São indispensáveis também a saúde do corpo e da alma, a força corporal e a disciplina. Terceiro ponto: a instrução militar. [...] Precisamos de exército nacional, mas não do exército nacional que hoje temos: queremos um exército verdadeiramente nacional, sendo a própria nação composta de cidadãos-soldados, em que cada brasileiro seja o próprio exército e o exército seja todo o povo. Todos têm medo do militarismo no sentido da preponderância da classe militar, na significação do despotismo militar. Tenho também medo disso e mais do que medo: profundo horror e profunda aversão. Mas as condições essenciais para a existência de qualquer despotismo são a ignorância e a indiferença da massa do povo. Não há povo nenhum, instruído, cívica e militarmente instruído, que suporte qualquer despotismo. Quando o nosso Exército for verdadeiramente nacional, não haverá no Brasil classe militar. [...] Medo do militarismo? Mas quando todos os cidadãos forem soldados, ninguém terá medo de soldados; porque seria infantil e irrisório que todos os cidadãos tenham medo de si mesmos, as sombras de si mesmos.39 Parece claro aqui, sem fazer um juízo de valor a respeito das propostas de Bilac, que era o serviço militar obrigatório que ele percebia como democrático, e não a classe militar representada pelo Exército como responsável por salvaguardar a democracia, conforme queria 38 39 Bilac, O. Em marcha! A Defesa Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965. p. 23-28. Bilac, O. A defesa nacional. A Defesa Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965. p. 125-140. 37 fazer crer Maul. Aliás, para Bilac, o serviço militar obrigatório era justamente um antídoto ao militarismo. Após as comemorações que efetivamente teriam lugar em dezembro de 1965 organizadas pela “Comissão Promotora das Comemorações do Centenário de Olavo Bilac” vale ressaltar, sem cobertura jornalística comparável com aquela das homenagens de 1939 -, em abril de 1966, finalmente, um outro decreto iria instituir Olavo Bilac, patrono do serviço militar: DECRETO Nº 58.222, DE 19 DE ABRIL DE 1966 Institui Olavo Bilac como Patrono do Serviço Militar. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando da atribuição que lhe confere o artigo 87, inciso I, da Constituição Federal, e CONSIDERANDO - que Olavo Bilac foi o grande propugnador do Serviço Militar obrigatório, em favor de cuja adoção emprendeu uma campanha de âmbito nacional nos anos de 1915 e 1916; - que seus poemas, a letra do Hino da Bandeira e seus discursos vibrantes, constituem, o catecismo cívico da juventude brasileira; - que o sentimento do dever cívico se inspira nos momentos em que a Pátria tem a oportunidade de rememorar os seus vultos maiores, buscando em suas atitudes exemplos para as novas gerações, DECRETA: Art. 1º É considerado "Patrono do Serviço Militar" - Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac. Art. 2º Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação. Brasília, 19 de abril de 1966; 145º da Independência e 78º da República. H. CASTELLO BRANCO Zilmar de Araripe Macedo Arthur da Costa e Silva Eduardo Gomes Mais uma vez, assim como no Estado Novo, a figura do civil, “príncipe” dos poetas e “apóstolo” do serviço militar obrigatório, adaptou-se aos esforços de afirmação de uma aliança ou de convergência de interesses entre a sociedade civil e o Exército. E, não obstante as reiteradas afirmações de aversão ao militarismo político, não deixa de ser irônico que Olavo Bilac fosse instituído um dos patronos das Forças Armadas justamente quando os militares encontravam-se instalados no poder. Tal se constitui num verdadeiro corolário das artimanhas em que se baseiam os trabalhos de enquadramento da memória social, quanto da sua quase infinita plasticidade. 38 39 SOBRE O CONCEITO DE “PAÍS NOVO” E A FORMAÇÃO DE BRASILEIROS NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DA REPÚBLICA. Resumo Com muita frequência o Brasil foi qualificado como um “país novo" ou com a alcunha mais conhecida de "país do futuro". Também nas representações visuais, foi quase um clichê o Brasil ser representado pela figura de uma criança pequena. Na Primeira República (18891930), a expressão "país novo" foi apropriada de maneiras significativamente diversas por destacados intelectuais, sinalizando distintas formas de imaginar a nação e, muitas vezes, quase que opostas. O “novo” esteve associado aos sentidos de potencialidade, esperança, futuro, mas também de imaturidade e incompletude. Este artigo tem como objetivo analisar usos e significados atribuídos ao conceito de "país novo" em alguns textos produzidos no século XIX e início do XX, e algumas de suas implicações nos modos de pensar o passado e o futuro da nação e dos brasileiros. Palavras-Chave: País Novo, Nação, Educação Cívica. Abstract Brazil has often been qualified as a “new country” or by the very known slogan “land of the future”. Even in visual representations, Brazil being represented by small children figures was almost a cliché. At the time of the First Republic (1889-1930), the expression "new country" was appropriated in different ways by some of the most famous brazilian intellectuals, a sign of multiple and distinct ways of conceiving the nation, sometimes almost opposite. The “new” was then associated with potential, hope, future, but also with immaturity and “unfinished”. This article intends to analyse some uses and meanings given to the concept of “new country”, as some of its deployments on ideas about the past and the future of Brazil and the Brazilians. Its main sources are texts on political and educational matters, published in the 19th century and beginning of the 20th . Key-words: New Country, Nation, Civic Education. A partir da emancipação política, em 1822, com frequência o Brasil foi referido como um “país novo”. Contudo, esta expressão que poderia referir-se unicamente ao pouco tempo de existência política autônoma, raramente foi utilizada apenas com este sentido. Para além deste, outros significados positivos e negativos foram agregados ao termo “país novo”. A proposta deste trabalho é analisar a modificação nos usos desta expressão em alguns textos produzidos nas primeiras décadas da República, considerando seus efeitos enquanto um conceito político e social. Artigo aceito para publicação na Revista Iberoamericana do Instituto Ibero-Americano de Berlim. 40 Segundo Reinhart Koselleck (1985: 84), os conceitos sociais e políticos possuem “pretensão à generalidade”, “muitos significados substanciais” e carregam, invariavelmente, alguma ambigüidade. Neste artigo, busco inspiração neste autor para pensar o conceito de “país novo”, um conceito polissêmico e ambiguo, que atuou em determinados momentos como “fator” e “indicador” de formas diferentes de imaginar a nação brasileira. Antônio Cândido foi um dos autores a destacar a importância e recorrência do que ele próprio chamou de uma “noção de país novo”. No ensaio Literatura e Subdesenvolvimento (Cândido 1987), apoiou-se na presença daquela noção, identificada em diversos textos, para apontar uma inflexão na produção literária latino-americana que estaria associada a uma mudança de perspectiva por volta de 1930. O autor considerou que, sendo predominante até 1930, a “noção de país novo” continha a idéia de um país que “ainda não pudera realizar-se, mas que atribuía a si mesmo grandes possibilidades de progresso futuro”. Esta noção salientava “a pujança virtual e, portanto, a grandeza ainda não realizada”. Desde o período colonial, ainda segundo Cândido, estas idéias teriam produzido atitudes fundamentais na literatura, derivadas da surpresa, do interesse pelo exótico, de um certo respeito pelo grandioso e da esperança quanto às possibilidades. A idéia de que a América constituía um lugar privilegiado se exprimiu em projeções utópicas que atuaram na fisionomia da conquista e da colonização; [...]. No século XVII, misturando pragmatismo e profetismo, Antônio Vieira aconselhou a transferência da monarquia portuguesa para o Brasil, que estaria fadado a realizar os mais altos fins da História como sede do Quinto Império. Mais adiante, quando as contradições do estatuto colonial levaram as camadas dominantes à separação política em relação às metrópoles, surge a idéia complementar de que a América tinha sido predestinada a ser a pátria da liberdade, e assim consumar os destinos do homem do Ocidente. (Cândido 1987: 141) Este legado, segundo o autor, seria transformado pelos intelectuais latino-americanos em instrumento de afirmação nacional, vinculando a idéia de pátria à de natureza e constituindo esta contaminação geralmente eufórica entre a terra e a pátria, em “um dos pressupostos ostensivos ou latentes da literatura latino-americana [...] considerando-se que a grandeza da segunda seria uma espécie de desdobramento natural da pujança atribuída à primeira” (Cândido 1987: 142). Nesse sentido, seguindo o raciocínio do autor, a “noção de país novo” seria uma espécie de desenvolvimento das projeções utópicas sobre o Novo 41 Mundo, a América, ou pelo menos manteria com essas projeções uma relação de continuidade. Esta análise do campo literário sublinha que a partir de determinado momento a “noção de país novo” seria substituída pela de “país subdesenvolvido”, pois, cada vez mais passava-se a destacar “a pobreza atual, a atrofia; o que falta, não o que sobra” (Cândido 1987: 140). Nessa perspectiva, são identificadas duas fases na produção literária latino-americana: a primeira caracterizada por uma “consciência amena do atraso”, a segunda por uma “consciência aguda do atraso”. No Brasil, com a difusão do ideário republicano e, principalmente, após a proclamação da república em 1889, as expectativas positivas em relação à mudança de regime reforçariam as noções de novo, de começo, de moderno e de aproximação com os outros países novos da América, favorecendo a proliferação de representações do Brasil com esse sentido e provocando notáveis mudanças na forma de conceber a nação. No campo das imagens, representações dos países da América utilizando a figura da criança expressam de forma bastante eloquente algumas das ambiguidades presentes nas idéias a respeito dos países novos, as quais também misturam-se ao conflito entre perspectivas otimistas e pessimistas que marca o debate sobre a questão nacional no Brasil. O novo nem sempre tem valor positivo, como demonstram as charges nas quais países da América Latina, inclusive o Brasil, estão representados como crianças vestidas com uniformes escolares recebendo lições do Tio Sam. Esse é o tema de charges publicadas em periódicos norte-americanos e brasileiros no início do século XX, com a diferença de que nas representações norte-americanas com freqüência os países da América Latina são crianças negras, enquanto nas charges brasileiras são sempre brancas. Apesar de ser um país novo do ponto de vista temporal/histórico, os Estados Unidos não poderiam estar representados pela figura de uma criança, uma vez que naquele contexto o uso desta imagem servia justamente para destacar sua diferença e hierarquia em relação aos países da América Latina. Nas charges americanas, as representações da América Latina ou dos latino-americanos somavam à condição de infantilidade uma sugerida inferioridade racial, na medida em que eram imaginados como crianças negras ou miscigenadas com traços estereotipados (Feres Jr. 2005). Porém, mesmo nas charges brasileiras, a presença marcante da figura professoral significando a autoridade tutelar do Tio Sam, se sobrepõe aos sentidos positivos que podiam estar contidos na simbologia da criança na escola, como o do progresso advindo da educação, por exemplo. (Lima 1963) 42 Já no pólo oposto destas representações situa-se o quadro A Pátria, de Pedro Bruno, (1919), no qual a presença de muitas crianças inspira esperança no futuro do país. A pintura que representa a confecção de uma enorme bandeira do Brasil foi analisada por José Murilo de Carvalho que destacou que a grande presença de mulheres devia-se à forte influência positivista. Segundo este autor, o quadro é “uma exaltação tanto à bandeira e à pátria quanto ao papel moral da mulher na educação dos filhos e no culto dos valores morais da família e da pátria. [...] A presença masculina limita-se a um velho quase escondido no canto direito. [...] Ainda como traço positivista, há um retrato de Tiradentes pregado na parede”. (Carvalho 1990: 119-121) Esta interpretação cujo propósito era investigar o imaginário da “república-mulher”, não tratou, naturalmente, da também numerosa presença de crianças representadas em igual número às mulheres. Mesmo a divisão das figuras em diferentes planos corrobora fortemente a percepção do protagonismo infantil no quadro que, pode-se dizer, possui elementos alegóricos. Passemos à descrição. No primeiro plano estão duas crianças. Um pouco à direita do centro, em pé, uma criança sem indicação clara do sexo, porém aparentando ser um menino, abraça uma parte da bandeira à qual já foram bordadas algumas estrelas e olha diretamente para o espectador. Mais um pouco à direita e abaixo, um bebê deitado ao chão num travesseiro e coberto pela bandeira, segura com as duas mãos uma estrela e olha para ela com curiosidade e atenção. Estas me parecem ser as duas figuras principais do quadro. No segundo plano, três jovens mulheres estão sentadas trabalhando na confecção da bandeira e outra em pé segura um bebê ao colo. As duas primeiras estão junto a uma porta por onde entra a claridade que ilumina a cena. A primeira, sentada mais à esquerda do quadro, parece ter feito uma pausa para amamentar um bebê e continua com uma ponta da bandeira ao colo. A segunda está costurando uma estrela à bandeira. A terceira e a quarta estão mais à direita e atrás da figura central da criança. Uma delas também trabalha em uma estrela e a outra beija carinhosamente o seu bebê. Finalmente, no terceiro plano, ao fundo e na parte mais escura do quadro, vemos da esquerda para a direita e sem muita nitidez devido à sombra, uma senhora de cabelos brancos trabalhando numa ponta da bandeira, alguns quadros na parede entre os quais um retrato de Deodoro da Fonseca, o marechal que proclamou a república, e uma representação da execução de Tiradentes, o mártir-herói do regime republicano, uma estátua de Nossa Senhora sobre o móvel e sentado na parte mais escura e à direita do quadro, um velho. 43 A distribuição das figuras de diferentes idades em três planos simboliza claramente passado, presente e futuro, assumindo este último a maior evidência. A simbologia das estrelas e os bebês quase que se confundem, estando as jovens mulheres e mães do segundo plano ocupadas ou com um bebê ou uma estrela. O passado histórico, e os antepassados, encontram-se literalmente nas sombras, é o que menos parece ter importância nesta representação da Pátria na qual sobressaem as crianças, em particular a que abraça a bandeira e interpela o espectador com o olhar. Além desse exemplo, e sem me alongar mais, vale citar também o conto “Evolução” de Machado de Assis, publicado em 1884, que já mereceu uma interessantíssima interpretação de Nicolau Sevcenko. Neste conto, a personagem de um engenheiro chamado Inácio, em conversa com o cafeicultor e candidato a deputado Benedito, profere a seguinte frase que será apropriada pelo seu interlocutor e utilizada em seu discurso de posse: “Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando, só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”. (apud Sevcenko 2003: 303-318) Em suma, a metáfora da criança emprestou significados múltiplos e ambíguos aos países novos. Significados positivos como: potencialidades, evolução, abertura para o novo, esperança, progresso. Ou depreciativos como: imaturidade, incompletude, subordinação. No caso das representações textuais, idéias como essas contidas no conceito de país novo permitiram a construção de diferentes imagens do Brasil e atuaram de maneira subjacente aos projetos de nação então formulados. Tomemos como ponto de partida a expressão mais conhecida dessa idéia de “país novo”: o ufanismo. Criado a partir do livro Porque me ufano de meu país de Afonso Celso40, publicado em 1901 por ocasião das comemorações do quarto centenário do Descobrimento, o vocábulo “ufanismo” é definido nos principais dicionários da língua portuguesa como “orgulho exacerbado da pátria”, “patriotismo excessivo” (Houaiss 2004), ou ainda como “[...] atitude, posição ou sentimento dos que influenciados pelo potencial das riquezas brasileiras, pelas 40 Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior (1860-1938) nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais. Filho do Visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros do Império, formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo em 1880. Foi quatro vezes deputado geral por Minas Gerais. Na Assembléia Geral exerceu as funções de 1º. Secretário. Com a proclamação da República, em 1889, abandonou a política e acompanhou o pai no exílio, que se seguiu à partida da família imperial para Portugal. Foi elevado à condição de Conde Romano em 1905. Dedicou-se ao magistério e ao jornalismo. Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1892 e em 1912 foi eleito presidente perpétuo dessa instituição. Foi também um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras e deixou uma vasta obra. 44 belezas naturais do país, etc., dele se vangloriam, desmedidamente” (Novo Aurélio Séc. XXI 1999). Para Antônio Dimas, o livro acabaria por se tornar “sinônimo de otimismo irracional e emblema de um nacionalismo pegajoso, porque pregava uma adesão irrefletida ao país, ao mesmo tempo em que desenterrava uma retórica grandiloqüente e romântica, erroneamente dada já como sepulta pelo cientificismo que conhecêramos a partir de 1870”. (Dimas 1994: 542) Os significados mais freqüentemente atribuídos ao termo ufanismo destacam sempre os componentes de “exacerbação” ou “desmesuramento”, traços sem dúvida alguma legados pelo tom hiperbólico no qual o Porque me ufano foi escrito. Pois, ainda que Afonso Celso tenha se preocupado em apontar, nas suas próprias palavras, "sólidas e convincentes razões”, pelas quais o amor à pátria não seria “irrefletido e cego, e sim raciocinado, robustecido pela observação”, o seu exagero em querer afirmar a “superioridade do Brasil” em todos os aspectos é patente. Em síntese, pode-se dizer que a noção do Brasil como um país novo se apresenta no livro de Afonso Celso de duas maneiras: na referência ao país como “a melhor porção do Novo Mundo” e na atribuição dos avanços dos países europeus à “idade”. Citando o cronista colonial Sebastião da Rocha Pita, autor da História da América Portuguesa, para afirmar que “do novo mundo é a melhor porção o Brasil”, Afonso Celso remete aos motivos apontados pelo cronista para tal afirmação: “felicíssimo terreno, em cuja superfície tudo são frutas, em cujo centro tudo são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas” (apud Celso 1901: 15). Este trecho faz ecoar de maneira bastante explícita alguns dos clichês que caracterizam a visão edênica da América. Em Visão do Paraíso (2000), Sérgio Buarque de Holanda, investigando o motivo edênico à época dos descobrimentos, apontou um outro sentido do “Novo Mundo” que não o de recém-descoberto, e que parece persistir como um dos componentes da idéia de país novo, inferida do texto de Afonso Celso. Nas palavras do historiador: Ganha com isso o seu significado pleno aquela expressão ‘Novo Mundo’, que o próprio descobridor esteve na iminência de empregar e que o humanista de Anghiera cunharia, antes mesmo de Vespúcio, para designar as terras descobertas. Novo não só porque, ignorado, até então, das gentes da Europa e ausente da geografia de Ptolomeu fora ‘novamente’ encontrado, mas porque parecia o mundo renovar-se ali, e regenerar-se, vestido de verde imutável, banhado numa perene primavera, alheio à variedade e aos rigores 45 das estações, como se estivesse verdadeiramente restituído à glória dos dias da Criação. Assim pensaria os primeiros viajantes ou cronistas das Índias Ocidentais. Assim dirá, passado quase meio século depois do descobrimento, certo discípulo espanhol de Tomás Moro, [...]. ‘Porque não é em vão, mas com muita causa e razão’, escreve, de fato, Vasco de Quiroga, em 1535, ‘que isto aqui se chama Novo Mundo, e não por se ter achado há pouco tempo, senão porque é em gentes e em tudo como foi aquele da idade primeira e de ouro [...]’. (Holanda 2000: 254) Já a respeito do Porque me ufano do meu país, como notou Dimas, Afonso Celso repôs “em trânsito um tipo de discurso laudatório amplamente utilizado pelos românticos e cuja raiz primeira pode ser entrevista na literatura informativa dos cronistas da nossa Descoberta, aquela que insistia em edenizar a terra nova, em contraste flagrante com a decrepitude do Velho Mundo” (Dimas 1994: 542). De fato, o contraste feito à época dos descobrimentos e do início da colonização entre a “idade do ouro” em que se encontrava o Novo Mundo, e a decadência do Velho Mundo, parece continuar a repetir-se na comparação entre o Brasil e o Velho Mundo como aparece no livro de Afonso Celso. Voltando as suas palavras: “A natureza aqui nunca se esgota ou descansa. Em criação incessante e infinita, tira da própria morte, dos troncos caídos, das folhas secas, novos elementos de vida” (Celso 1901: 33). Ou ainda, [...] privilegiado da Providência, não registra a sua história uma só dessas terríveis catástrofes, comuns a quase todos os povos, quer na ordem material, quer na moral. [...] Não há ciclones, como nos Estados Unidos, inundações, como na Espanha, fomes e pestes prolongadas, como em tantos pontos da Europa e da Ásia. [...] De terremotos não se aponta notícia, nem vestígio. Vulcões, nem apagados, nem traços de extintos. (Celso 1901: 60) Já em referência ao significado temporal de país novo, diz o mesmo autor: Outros povos apenas se avantajam ao nosso naquilo que a idade secular lhes conquistou. O Brasil poderá tornar-se o que eles são. Eles nunca serão o que é o Brasil. [...] educação, o aperfeiçoamento, hão de vir. Somos ainda uma aurora. Chegaremos necessariamente ao brilho e ao calor do meio dia. (Celso 1901: 200) Desse modo, ao ressaltar a importância daquilo que o Brasil possuía graças à Providência divina, a “vantagem” temporal dos países europeus poderia ser relativizada. Pois, se o passado havia permitido maior progresso dos povos europeus, o presente dava provas da decadência dos países do Velho Mundo: [...] Penosíssima embora a situação atual, é incomparavelmente mais auspiciosa que a da Grécia, a da Itália, a de Portugal, a da França mesmo. 46 [...] Quão menos grave que a dos Estados europeus! Neste, a população emigra; naquele decresce cada dia. Vive condenada em todos a não largar as armas, minada pela miséria, dividida por ódios implacáveis, explorada pelo argentarismo, ameaçada pelos anarquistas. (Celso 1901: 202) Afonso Celso minimizava excessivamente, quando não ignorava, os graves problemas nacionais, sempre exagerando no otimismo. Há que se notar que a realização de um destino grandioso parecia depender muito pouco dos brasileiros, o que demonstra a fraqueza de seu livro do ponto de vista de um projeto cívico. Na verdade, o resultado visto como evidente a partir de uma constatação das riquezas naturais, seria alcançado com a ajuda de Deus: Confiemos. Há uma lógica imanente: de tantas premissas de grandeza só sairá grandiosa conclusão. Confiemos em nós próprios, confiemos no porvir, confiemos, sobretudo, em Deus que não nos outorgaria dádivas tão preciosas para que as desperdiçássemos esterilmente. Deus não nos abandonará. Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos. (Celso 1901: 202) Ainda no que diz respeito ao legado deixado pela concepção da América enquanto “Novo Mundo”, ao conceito de “país novo”, é importante sublinhar que a partir dos movimentos latino-americanos de emancipação política, “país novo” passava a significar também “ex-colônia”, ou seja, designava países nascidos do jugo e exploração estrangeiros. Nessa perspectiva, alguns autores acusaram a permanência de “vícios” e de “velhos elementos psíquicos” no caráter das “novas nacionalidades”. Nas palavras de Manoel Bomfim41, num texto de 1904: O regime parasitário sob o qual nasceram e viveram as colônias da América do Sul influiu naturalmente sobre o seu viver posterior, quando já emancipadas. Há no caráter das novas nacionalidades uma série de qualidades – vícios – que são o resultado imediato desse mesmo regime imposto pelas nações ibéricas. Essas qualidades traduzem a influência natural do parasita sobre o parasitado, influência constante, fatal mesmo, nos casos de parasitismo social, máxime quando o parasitado procede diretamente do parasita, quando é gerado e educado por ele. (Bomfim 1993: 121) Para Alberto Torres, que escreveu uma década depois: Se a destruição das velhas bases da ordem política vai favorecendo, por toda a parte, mercê da imprevidência dos diretores da sociedade, a implantação de uma hierarquia argentária, esta tendência será ainda superexcitada, nos países 41 Manoel Bomfim (1868-1932) nasceu no Sergipe, filho de uma família de proprietários de engenho. Fez faculdade de medicina e concluiu seus estudos no Rio de Janeiro em 1890. Casou-se e mudou para o interior de São Paulo onde montou uma clínica. Após a morte de uma filha abandonou a medicina e retornou ao Rio de Janeiro, passando a dedicar-se integralmente à educação. Foi diretor da Escola Normal, onde também atuou como professor de Educação Cívica, diretor da Instrução Pública Municipal, da Instrução Pública do Distrito Federal e do Pedagogium. Foi também um dos fundadores da revista O Tico-Tico e escreveu diversos livros de pedagogia, educação, psicologia, manuais escolares e ensaios de caráter histórico e sociológico. 47 novos, pelo velho elemento psíquico que dominou a primitiva colonização e que inspira os povoadores de hoje. A isto, o gosto pela imitação dos costumes superficiais das sociedades adiantadas, que é a concepção vulgar da civilização, acrescenta os estímulos do amor ao conforto exagerado, ao luxo, às ostentações da vaidade. (Torres 1914: 97) Em oposição aos conteúdos edênicos, embutidos na versão ufanista da noção de país novo, apropriações mais críticas do conceito reforçaram o sentido de incompletude e de atraso. Estas idéias referentes aos países novos também não foram uma novidade da república, e se apresentam nas réplicas que apareceram aos que sempre exageraram nas supostas promessas contidas nos recursos naturais do país. Em meados do século XIX, ao defender medidas para a consolidação do Estado Imperial, Francisco Adolfo de Varnhagen havia argumentado: [...] Acabemos pois com as adulações, que elas, longe de fomentar o patriotismo, ocasionam a incúria e o desleixo. Se acaso censurais ou lamentais este ou aquele vício na administração, este ou aquele cancro consumidor do país, nunca faltará uma voz que vos diga: ‘Ora! O país é grande: temos muitos recursos: no futuro seremos e aconteceremos etc.’ – Desgraçados! E que havemos de ser, se não pomos de nossa parte os meios? – Quereis natureza tão fecunda como a nossa? – Aí tendes a Guiné, aí tendes a maior parte da Ásia...E que valem esses países? Nada, quando seus habitantes para isso nada concorrem. Por ventura a natureza portentosa do Brasil já não era a mesma na época do descobrimento? – E que era o Brasil com seus indígenas? – O mesmo que seria daqui a três séculos se desde hoje nos votássemos todos ao abandono...Por tanto atividade, ordem e governo, e nada de adulações que vexem a modesta pátria! Pela nossa parte quando ouvimos proferir grandes elogios à prosperidade do Império, uma dor profunda se apodera de nós, vendo o que ele é, e o que podia, - ou devia ser. Logo nos vem à idéia de que sendo o Brasil maior que 250 Bélgicas juntas, produz uma receita menor do que o reino politicamente mais insignificante da Europa (Varnhagen 1850: 12). A existência de muitos recursos naturais não foi posta em questão, contudo, a gestão deles, ou a capacidade dos brasileiros para bem aproveitá-los, foi questionada inúmeras vezes. O próprio Afonso Celso não ignorou o tema da alegada inadequação do povo, e entendeu ser necessário afirmar que a natureza não constituía o “exclusivo e principal título de vanglória” do Brasil, mas também a “nacionalidade” deveria ser motivo de orgulho. Ressalva necessária na medida em que vigoravam, com grande credibilidade, visões pessimistas acerca do brasileiro baseadas nas teorias racistas em voga. Na passagem do século XIX para o XX, a degeneração tropical e racial eram temas dominantes nos trabalhos científicos. Após a Abolição, a ciência foi cada vez mais usada para determinar em que medida a “natureza” poderia limitar “a igualdade social e política da nova 48 república em relação aos negros e mulatos”. Segundo Nancy Stepan, o médico Raimundo Nina Rodrigues, divulgaria a partir de 1890 uma antropologia centrada na questão da raça e fundamentada nas novas técnicas da antropometria. Este que seria um dos principais expoentes do racismo científico, “era quase tão pessimista em sua visão quanto os mais inflexíveis críticos do Brasil. Seus estudos antropológicos revelaram-lhe não uma nação-emconstrução branca, ‘civilizada’, mas um país complexo, multirracial, heterogêneo, que não forjara nenhum tipo étnico singular e estável, e cujo futuro previsível era etnicamente negro” (Stepan: 2005, p. 54). O próprio tom de Afonso Celso ao comentar a alegada inferioridade do brasileiro, era de réplica. Nos parágrafos iniciais do seu livro, ressaltava defensivamente: Ousa afirmar muita gente, que ser brasileiro importa condição de inferioridade. Ignorância, ou má fé! Ser brasileiro significa distinção e vantagem. Assiste-vos o direito de proclamar, cheios de desvanecimento, a vossa origem, sem receio de confrontar o Brasil com os primeiros países do mundo. Vários existem mais prósperos, mais poderosos, mais brilhantes que o nosso. Nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável. (Celso 1901: 4) Já no capítulo em que trata dos “nobres predicados do caráter nacional”, contestava alguns dos argumentos das correntes científicas que condenavam o brasileiro: “O brasileiro fisicamente não é um degenerado. Notam-se muitos de estatura elevada, vigor e agilidade pouco vulgares. Quanto ao seu caráter, ainda os piores detratores não lhe podem negar”. A lista de qualidades do tipo nacional era longa e demonstra o esforço para justificar ou atenuar alguns dos atributos presentes nos argumentos dos “detratores” da nacionalidade que, quando aparecem, são em razão do excesso de algum aspecto positivo e por isso compensados: “sentimento de independência levado até a indisciplina”; “hospitalidade”; “afeição à ordem, à paz, ao melhoramento”; “paciência e resignação”; “doçura, longanimidade, desinteresse”; “escrúpulo, no cumprimento das obrigações contraídas”; “espírito extremo de caridade”; “acessibilidade que degenera, às vezes, em imitação do estrangeiro”; “tolerância; ausência de preconceitos de raça, religião, cor, posição, decaindo mesmo em promiscuidade”; “honradez no desempenho de funções públicas ou particulares”. Mesmo a proverbial indolência do brasileiro não era negada, mas justificada pelo autor: Já desapareceu a principal causa de algumas tendências más do nosso meio; a escravidão. ‘O povo brasileiro é demasiado indolente para ser mau’ — escreveu alguém. Sem dúvida a nossa terra ubérrima, as 49 facilidades da vida, dispensam entre nós grande diligência e esforço. (Celso 1901: 87) Se os atributos da nacionalidade estavam incluídos entre os “motivos de superioridade do Brasil”, ainda assim o autor acabava por se fiar nas características naturais do país como único aspecto capaz de suscitar a “inveja” de outros povos. Porém, se o otimismo incondicional, ufanista, com ênfase na natureza, conduziria a uma atitude passiva e contemplativa do homem brasileiro; o pessimismo fatalista, com ênfase exclusiva na degeneração do homem, levaria ao conformismo e ao desprezo pelos compatriotas, vistos como inaptos ao exercício da cidadania. São, portanto, posições absolutamente diversas, mas que dão origem a dois dos mais conhecidos estereótipos acerca do Brasil e dos brasileiros. Nesse sentido, me parece válido observarmos a existência de outras formas de imaginar a nação brasileira durante a Primeira República, além daquelas usualmente classificadas como otimistas ou pessimistas, entre as quais destaco aqui a que me parece mais recorrente nos textos dos intelectuais mais engajados na causa da educação nas duas primeiras décadas do século XX. Tomo como ponto de partida Olavo Bilac42, que teve seu poema “A pátria”, transformado num dos exemplos mais citados do ufanismo literário. Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este! Olha que céu! Que mar! Que rios! Que floresta! A natureza, aqui, perpetuamente em festa, É um seio de mãe a transbordar carinhos. Vê que vida há no chão! Vê que vida há nos ninhos, Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos! Vê que luz, que calor, que multidão de insetos! Vê que grande extensão de matas, onde impera 42 Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918) nasceu no Rio de Janeiro, filho de um cirurgião do Exército. Estudou na Capital e chegou a tentar as faculdades de Medicina e de Direito em São Paulo. Dedicou-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. É conhecido principalmente por sua obra poética, mas também produziu contos, crônicas e livros escolares e literatura infantil. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e teve intensa participação na política e em campanhas cívicas, das quais a mais famosa foi a Liga de Defesa Nacional, fundada em 1916, em favor da instrução pública e do serviço militar obrigatório. É o autor da letra do Hino à Bandeira. Em 1891, foi nomeado oficial da Secretaria do Interior do Estado do Rio e, em 1898, inspetor escolar do Distrito Federal. Foi também delegado em conferências diplomáticas e, em 1907, secretário do prefeito do Distrito Federal. Sua obra poética enquadra-se no Parnasianismo e, de acordo com Alexei Bueno na introdução da Obra Reunida, “o ‘caso’ Olavo Bilac, na história da poesia nacional, cobre, ao menos sob o aspecto biográfico, um período de trinta anos, entre a publicação das Poesias em 1888, e a morte de seu autor, em 1918, poucos meses após o fim da Grande Guerra e de todo um período da mentalidade ocidental. O que chamamos de ‘caso’ Bilac, e que se situa na complexa fronteira estético-sociológica, é o do poeta que, em toda a história de nossa literatura alcançou o maior prestígio e a mais alta identificação popular jamais registrada, em plena vida e por um período duradouro” (Bueno 1996: 15). 50 Fecunda e luminosa, a eterna primavera! Boa terra! Jamais negou a quem trabalha O pão que mata a fome, o teto que agasalha... Quem com o seu suor a fecunda e umedece, Vê pago o seu esforço, é feliz, e enriquece! Criança! Não verás país nenhum como este: Imita na grandeza a terra em que nasceste! (Bilac 1996: 339) De fato não se pode negar o ufanismo do poema. Mas é necessário destacar uma diferença fundamental entre os tipos de patriotismo fomentados pelas obras de Olavo Bilac e de Afonso Celso. Não apenas o trecho final do poema citado aponta o trabalho como condição de riqueza, ainda que numa perspectiva muito ingênua, mas o texto “A pátria” deve ser considerado no contexto do livro Poesias Infantis. Analisados em conjunto, os poemas do livro tratam de valores e atitudes diversos e complementares, os quais deveriam se associar ao ufanismo na configuração de um projeto cívico e civilizador, cujo eixo encontra-se na formação de um homem novo, possuidor de uma nova sensibilidade ligada ao ideário burguês e liberal. Ao que me parece, opera aqui de modo subjacente uma outra forma de imaginar a nação, que será mais explícita em alguns dos textos “sérios” do próprio Bilac, assim como em textos de outros autores contemporâneos. Esta forma pode ser encontrada em um outro significado que começava a ser associado ao conceito de “país novo”: o de um país “em que tudo ainda está por fazer”. O conceito de “país novo”, adquirindo significados conferidos pelos textos de intelectuais da Primeira República, tornou-se ao mesmo tempo um “fator” na representação e consecução dos projetos aos quais estava vinculado, e um “indicador” das formas de imaginar a nação brasileira nas quais se inscreviam tais projetos. Na realidade, não podendo deixar de ser mais ou menos otimistas sob risco de jogar por água abaixo o projeto em questão, os próprios autores procuraram por vezes esclarecer sua posição em relação ao debate que radicalizava a oposição entre as perspectivas conflitantes já mencionadas. Em sua palestra no Ginásio Granbery em 1909, afirmou Bilac: Falemos um pouco do patriotismo, e procuremos defini-lo com precisão, porque não há talvez sentimento que, como esse, possa ser deturpado por uma falsa compreensão da idéia ou do vocábulo. Há um patriotismo mal pensado, que pode ser funesto à pátria e ao patriota [...]. Refiro-me a um falso patriotismo, a que darei o nome preciso de ‘megalomania patriótica’, perigosa exacerbação do orgulho nacional, [...]. 51 Desse falso patriotismo, o mais freqüente sintoma é a vaidade condenável com que alguns dizemos habitualmente: ‘este país é o mais rico do mundo!’; - como se, em primeiro lugar, a riqueza natural bastasse para dar invejável glória a um país, e como se, além disso, a experiência nos não estivesse mostrando claramente a inanidade absoluta de tal orgulho! [...] Para louvar o Brasil, para amá-lo como ele quer ser amado, não é mister exagerarlhe o crédito e o valor moral; mais dignamente o amaremos e louvaremos, reconhecendo quanto lhe falece ainda em população, em trabalho, em instrução, e verificando ao mesmo tempo a importância do trabalho já realizado. [...] As nossas apregoadas riquezas jazem escondidas quase todas no seio escuro da terra; existem, mas é como se não existissem, porque ninguém as vê, ninguém as aproveita, ninguém as vai arrancar dos veios recônditos em que dormem. [...] Todas estas considerações, meus jovens amigos, são apenas um aviso à vossa inexperiência. Não deveis estrear a vida com a funesta ilusão de ser este o mais forte, o mais rico, o mais próspero país da terra. Talvez seja ainda lícito, nas escolas primárias, alimentar o espírito das crianças com alguma animadora, mas não excessiva ilusão: [...]. Não nos deixemos possuir de orgulhos vãos, mas também não nos deixemos invadir dessa desmoralizadora enfermidade do pessimismo, a que Carlyle deu a perfeita classificação nosológica de ‘paralisia moral’. O pessimismo, ‘atrofia crônica da alma’, é um criador de títeres, quando não de escravos. [...] Na megalomania patriótica, há somente hipertrofia da vaidade; mas, no pessimismo tudo é anulação da consciência e da vontade, tudo é degradação moral. Todo o pessimista é um doente perigoso, porque a sua doença tem uma prodigiosa expansão de contágio. E quando esse pessimista dispõe de um meio ativo de propaganda, uma tribuna no parlamento, uma coluna de jornal, uma cadeira de academia ou de liceu, - a sua existência e a sua permanência no apostolado são calamidades sociais [...]. O verdadeiro patriotismo [...]. É sim, um amor elevado e austero, que reconhece os defeitos da pátria – não para amaldiçoá-los ou para rir deles, mas para perdoá-los, estudá-los e corrigi-los; é um amor que se enraíza mais no meio moral do que no meio físico, [...]. (Bilac 1996: 681-693) Dirigindo-se a estudantes, Bilac ressaltava a esterilidade da “megalomania patriótica” que tendia a estimular a contemplação, ao invés do trabalho. Desculpando a divulgação de uma “ilusão animadora” mas não “excessiva” entre as crianças, o autor afirmava a necessidade da ação para descobrir e explorar os recursos da terra e, assim, produzir riqueza. Em outras palavras, procurava estimular no seu público a consciência do próprio papel na realização da grandeza da pátria. Em um livro escrito para as escolas, Afrânio Peixoto43 procurou situar-se entre as duas perspectivas em jogo: 43 Júlio Afrânio Peixoto (1876-1947) nasceu na Bahia. Foi para Salvador onde cursou a Faculdade de Medicina, formando-se em 1897. Em 1902 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi inspetor de Saúde Pública e Diretor do Hospital Nacional de Alienados. Foi também professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro, diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, deputado federal pela Bahia, professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro e reitor da 52 Os brasileiros oscilam, ordinariamente, entre um desenganado pessimismo e um otimismo ridículo. [...] E nem as lamúrias de uns, nem os lirismos dos outros, produzem nada. Pareceu, pois, ao autor, novidade útil, escrever para as crianças de sua terra um livro sincero, sem reservas nem veemências, no qual procurasse sobre os problemas essenciais da nossa nacionalidade, dizer-lhes verdades necessárias. [...] (Peixoto 1916: 1-2) De acordo com Mônica Pimenta Velloso (2003: 356), Afrânio Peixoto, importante crítico da tese da insalubridade e degeneração tropical, ao argumentar em Minha terra e minha gente “que a raça e o clima não constituíam empecilho ao desenvolvimento, apontava uma visão positiva da nacionalidade”. Apesar disso, marcava sua diferença em relação ao tom puramente laudatório de Afonso Celso na medida em que recorria ao instrumental da ciência. Médico e professor da Faculdade de Medicina, Peixoto possuía indiscutivelmente mais autoridade que Afonso Celso para argumentar contra as acusações de insalubridade do clima e de inferioridade racial do brasileiro. Nas suas próprias palavras: [...] na bacia do Amazonas, cujas imensas florestas mal se começam a conhecer; matas profundas e sombrias que, se ocultam grandes reservas e provisões naturais, possuem também miasmas e são difíceis de ser conhecidas e aproveitadas. Isto tem feito os europeus proclamarem a insalubridade dos climas quentes, como se fora uma condição inevitável. Aliás, eles são propensos a difamar todas as regiões do mundo fora da Europa; [...]. O homem dificilmente poderia viver nos trópicos: se o calor e a umidade não o impedissem, haviam de impedi-los as doenças, que, por isso eles chamaram doenças tropicais. Essas doenças não existem. A febre amarela [...] e outras, não são peculiares a nenhum clima, senão àquelas regiões cujos naturais não sabem ou não podem combate-las. [...] Entretanto, se assim é, se o clima quente não tem doenças próprias que se não possam evitar, produz, com o calor e umidade prolongados, vários males ao organismo humano. A indolência tão acusada a muitos brasileiros é devida ao clima: compreende-se que produzindo calor o movimento, repugna ao organismo aumenta-lo ainda mais, quando já recebe tanto do exterior. O trabalho que é uma necessidade nos climas enregelados [...], aqui é penoso, em certas ocasiões, porque agrava uma condição preexistente. Será preciso o estímulo da necessidade e, principalmente um regime alimentar adequado [...] As condições de clima não impedem nem o trabalho, nem a vida do homem. [...] O que lhe será preciso é adaptar-se, inteligentemente, ao meio em que vai viver. (Peixoto 1916: 204-211) Universidade do Distrito Federal, em 1935. Atuou como médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista e historiador literário. Foi eleito para a Academia Brasileira de letras em 1910, na sucessão de Euclides da Cunha. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal e do Instituto de Medicina de Madri. 53 Manoel Bomfim, conhecido apologista da Educação, já havia comentado num texto de 1904 o quadro que alimentava o pessimismo de muitos e servia para justificar as ambições imperialistas. Numa perspectiva que desloca para a história a explicação do atraso dos países latino-americanos, contestou a condenação imposta aos trópicos pelo “mundo civilizado”, a qual, segundo ele, apenas expressava os interesses disfarçados de uma “sociologia da cobiça”: A massa geral da população, formada e nutrida por essa cultura intensiva da ignorância e da servidão, não tem estímulos, nem desejos, nem necessidades definidas, acima dos apetites da baixa animalidade; ignora tudo, não sabe trabalhar, não vê beleza, nem interesse no trabalho, nada a convida a isto; inteiramente nula para o progresso, é facilmente aproveitada pela caudilhagem nas más aventuras e assaltos políticos. [...] O resultado desse passado recalcitrante é esta sociedade que aí está; pobre, esgotada, ignara, embrutecida, apática, sem noção do próprio valor, esperando dos céus remédios à sua miséria, pedindo fortuna ao azar – loterias, jogo de bichos, romarias, ‘ex-votos’; analfabetismo, incompetência, falta de preparo para a vida, superstições e crendices, teias de aranha sobre inteligências abandonadas....[...] De tudo isto resulta, mesmo para os mais esclarecidos, um pessimismo doloroso, um ceticismo negativista e triste, contra o qual não prevalecem entusiasmos, nem ideais, nem sonhos de sacrifícios generosos...[...] O mundo civilizado nos acabrunha com o seu desprezo, e nos condena sumariamente. É iníquo, porque, em verdade, esse passado horrendo e tenaz que nos persegue não fomos nós que o preparamos; somos antes as vítimas. [...] Daí, pretende a sociologia da cobiça, que somos incapazes, essencialmente inferiores, refratários ao verdadeiro progresso. Estes conceitos só nos devem impressionar pela ameaça que contêm, e não pelo seu mérito científico, nem para que duvidemos do futuro e de nós mesmos. (Bomfim 1993: 327-329). Note-se que essa visão não é pessimista. Mas tampouco se apresenta como o otimismo ingênuo, incondicional e contemplativo, que superestimava o papel dos recursos naturais do país. Trata-se de um otimismo relativo, que tem por condição a realização de um projeto cívico. O principal componente do amor à pátria deixava de ser o orgulho e o deslumbramento com seus dons naturais e passava a ser o esforço para o conhecimento de seus recursos e o labor motivado pelos objetivos de engrandecimento e progresso nacional. Porém a visão da natureza não só é sensivelmente diferente naquelas duas concepções de país novo, também se relaciona com diferentes temporalidades remetidas pelo conceito. Afonso Celso, por um lado, atualizava a visão edênica do país, enfatizando o conteúdo semântico herdado do conceito de Novo Mundo e explicando o atraso do país pelo fato de que, sendo de história recente, o passado do Brasil seria curto em relação ao dos países do Velho Mundo. Isso, contudo, não impedia o autor de destacar o seu progresso: “Somos, a despeito de tudo, tão adiantados como os países de condições análogas às nossas, ou mesmo 54 mais do que eles; ocupamos o terceiro lugar entre os da raça latina, só contando acima de nós a França e a Itália” (Celso 1901: 86). Por outro lado, chegando a uma conclusão praticamente oposta sobre o progresso dos países novos, Manoel Bomfim afirmava que: Efetivamente, os povos sul-americanos se apresentam, hoje, num estado que mal lhes dá direito a ser considerados povos civilizados. Em quase todos eles, em muitos pontos do Brasil inclusive, a situação é verdadeiramente lastimável. Nações novas deveriam progredir como cem, enquanto as antigas e cultas progridem como cinqüenta; só assim lograriam alcançá-las e gozar todos os benefícios que se ligam às civilizações adiantadas. No entanto, marcham lentamente, como dez, isto é, retardam-se, distanciam-se cada vez mais da civilização moderna. E todos sofremos os efeitos deste retardamento. Há casos em que, num estado de relativa barbaria, os povos podem ser felizes: quando, por isolados, não chegam a sentir os efeitos da sua inferioridade; esta não existe quase. Mas, no nosso caso, participando diretamente da civilização ocidental, pertencendo a ela, relacionados diretamente, intimamente a todos os outros povos cultos, e sendo ao mesmo tempo dos mais atrasados, e por conseguinte dos mais fracos, somos forçosamente infelizes. [...] (Bomfim 1993: 49-50). Portanto, no sentido inverso ao da “noção de país novo” presente no Porque me ufano em que a garantia para o progresso do país já estava dada desde uma origem imemorial pela Providência Divina, autores que enfatizavam aquilo “que ainda estava por fazer” operavam com um conceito no qual a principal referência era o futuro a ser construído pelos próprios brasileiros. Este significado do conceito de “país novo” abria espaço para que os intelectuais, procurando construir uma nova realidade, atribuíssem às novas gerações o papel de fatores da futura grandeza nacional. No âmbito dos textos analisados em minha pesquisa sobre a formação cívica dos brasileiros após a República, pude constatar que o conceito de “país novo em que tudo ainda está por fazer” foi utilizado pela primeira vez em 1904, e se coaduna com o sentido do “progresso”, palavra-chave do republicanismo no Brasil. Entre as principais medidas tomadas em seu nome, figuram aquelas que geraram o movimento ocorrido inícios do século XX, cujo ápice foi a famosa reforma que alterou a fisionomia urbana da Capital Federal, mas que desencadeou também inúmeras ações em nome da civilização e do progresso em outras cidades do país naquele mesmo período. Nesta perspectiva, mais uma vez em seu livro sobre a América Latina, afirmava Manoel Bomfim: [...] A história nos mostrará que, nas nacionalidades sul-americanas, antes mesmo de completa a independência, já aparece um partido ‘conservador’, pesando decisivamente sobre a marcha das coisas públicas. Pergunta-se 55 agora: que é que havia então para conservar? [...] São nações, estas, em que tudo está por fazer a começar pela educação política e social das populações. (Bomfim 1993: 165, grifo nosso). Em outro trecho, reafirmando o significado do conceito, dizia: ‘É preciso cortar despesas...’ Por quê? Porque o bom senso tradicional assim o diz. E julgam-se todos dispensados de estudar as coisas, para ver que, por toda a parte, tem sido preciso justamente aumentar as despesas públicas, máxima nos países novos, onde as populações crescem mais rapidamente, e onde tudo está por fazer. (Bomfim 1993: 196, grifo nosso). Em O Tico-Tico, primeira revista brasileira dirigida ao público infantil e do qual Bomfim foi um dos idealizadores, o mesmo sentido do conceito de país novo aparece em vários textos de uma seção sugestivamente intitulada “A arte de formar brasileiros”, assinada pelo pseudônimo “Tio José” (Hansen 2008: 45-58). Em um texto dedicado às profissões, para citar apenas um exemplo, dizia: Convém que os meninos, nossos amiguinhos, se convençam de que a maior desgraça deste país é a preocupação de ter um título, todos querem ser médicos, advogados, engenheiros, militares, ou empregados públicos, e como neste país, que é novo, com pouca população, sem obras importantes, não pode haver trabalho para tanta gente nestas condições, [...]. Há outras carreiras, igualmente nobres, porque o trabalho é sempre honroso e o homem só merece respeito pelo seu próprio valor e não o cargo ou emprego que tem. No nosso país, onde tudo está por fazer, o comércio, a indústria, a lavoura, as artes oferecem campo vasto para quem tiver aptidões, constância, força de vontade, e estiver preparado para a concorrência dos outros. (O Tico-Tico 1906: 38, grifo nosso). Também Olavo Bilac, em outro trecho daquele discurso de 1909, confirmava o que passava a significar “país novo”: o fim da educação não é preparar eruditos frios, nem sábios secos, nem ideólogos impassíveis, indiferentes às lutas sociais: é preparar homens de pensamento e ação, a um tempo compassivos e enérgicos, corajosos e hábeis, capazes de empregar valiosamente em proveito da coletividade todas as forças vivas da sua alma e todo o arsenal de conhecimentos de que os apercebeu o estudo. Em um país novo como este, onde quase tudo ainda está por fazer, seria absurda e monstruosa a existência de cenobitas do ideal, de anacoretas da ciência, poetas ou filósofos, matemáticos ou artistas, isolados no estudo egoísta, surdos à agitação da existência comum dos homens, insensíveis às sugestões do meio em que vivem. Estudando bem as condições políticas e econômicas da nossa pátria, vereis, meus jovens amigos, que os homens da vossa geração vão receber um honrosíssimo, porém onerosíssimo legado. (Bilac 1996: 160, grifo nosso). Finalmente, na conferência intitulada “A Defesa Nacional” realizada no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná em 1916, no contexto da Primeira Grande Guerra, 56 momento em que parece se ter tornado mais aguda a consciência da falta de sentimento nacional e de civismo dos brasileiros entre os intelectuais, Bilac novamente reforçaria aquele significado do conceito de “país novo”. Desta vez, enfatizando a ameaça que aquela condição representava para a segurança nacional, assim como a urgência de um programa cívico para superar o problema: A defesa nacional, como a queremos compreender, não está organizada. [...] Se este dever de defesa é imprescindível para as nacionalidades mais bem organizadas, - mais imperiosas e mais urgentes devem ser a sua consciência e a sua necessidade para o Brasil, país novo, agitado por um confuso e melindroso labor de formação, pobre de trabalho bem encaminhado, pobre de recursos bem explorados, pobre de instrução primária, profissional e cívica, pobre de coesão, pobre de culto patriótico. Rodeiam-nos perigos externos e internos: e todos eles ameaçam a nossa independência e a nossa unidade. [...] O que está convulsionando o mundo é o amor da conquista de terras e de mares, o amor da expansão do comércio, o amor do interesse utilitário. E poderemos acreditar que o Brasil, este imenso país de solo fértil e de ricas entranhas, ainda despovoado e desarmado, fique sempre, graças ao acaso, ou ao benefício da Providência Divina, imune de qualquer investida da ambição ou da necessidade comercial? Tal é o perigo externo, próximo ou remoto, sempre possível. O outro perigo, iminente, o interno, é a quebra da unidade: o depauperamento do caráter, o definhamento do patriotismo consciente, a míngua de instrução, o acúmulo dos erros das más administrações, o império das cobiças individuais, e a triste indiferença em que vegeta a maior parte da população. [...] Ora, não há organismos inferiores ou superiores, individuais ou sociais, incapazes de força, de defesa e de progresso. [...] Para alcançá-lo como? Pela educação metódica e progressiva, pela ginástica física e moral. (Bilac 1996: 963-972, grifo nosso) É importante notar, que se um dos componentes da visão edênica é justamente a ausência do trabalho, e Afonso Celso efetivamente explicava a proverbial indolência do brasileiro em função da fertilidade da terra, a construção de uma ética do trabalho, por sua vez, é fundamental para os projetos cívicos que se basearam na concepção do Brasil como um país “em que tudo está por fazer”. A coexistência destes significados no conceito de país novo reflete algumas das ambigüidades deste conceito que carrega conteúdos semânticos de longa duração, como aqueles legados pela noção de Novo Mundo, e sentidos mais recentes, criados a partir das circunstâncias geradas principalmente pela Abolição e pela República no contexto interno, e pelas exigências de progresso e afirmação nacional, colocadas pelo contexto externo. Circunstâncias estas que levaram parte dos intelectuais brasileiros a crer em sua missão na condução de uma transformação social e política que possibilitasse a formação da nação. 57 O uso do conceito de “país novo” por Afonso Celso demonstra o conservadorismo e a religiosidade de sua visão ufanista e edênica, na qual a grandeza territorial e as riquezas naturais eram tidas por dádivas divinas, ao mesmo tempo sinalizando o grandioso destino reservado por Deus para o Brasil. Em contrapartida, ao acrescentar outro significado ao conceito, ressaltando não o que estava dado, mas o que estava por fazer, alguns intelectuais que defenderam a educação na Primeira República afirmaram a importância fundamental de seus projetos para a formação de brasileiros, apresentados como condição para a grandeza futura do país e, principalmente, para a constituição de uma nação republicana. Referências Bibliográficas: Bilac, Olavo (1996). Obra reunida. (organizado por Alexei Bueno) Rio de Janeiro: Nova Aguilar. Bomfim, Manoel (1993). A América Latina: males de origem. 4. ed. Rio de Janeiro: Topbooks. Bueno, Alexei (org.) (1996). Olavo Bilac: obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. Cândido, Antônio (1987). A Educação pela noite e outros ensaios. São Paulo, Ática. Carvalho. José Murilo de (1990). A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. Celso, Affonso (1901). Porque me ufano do meu país. 2. ed.. 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São Paulo: Brasiliense. Jasmin, Marcelo Gantus/Feres Júnior, João (eds.) (2006). História dos conceitos: debates e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; Edições Loyola; IUPERJ. Koselleck, Reinhart (1885). Futures Past. On the Semantics of Historical Time. Cambridge (Mass.) and London: The MIT Press. Lima, Herman (1963). História da Caricatura no Brasil. 1.º volume. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora. O Tico-Tico. Rio de Janeiro, 1906, n. 38. Peixoto, Afrânio (1916). Minha terra e minha gente. Rio de Janeiro: Francisco Alves; LisboaParis: Aillaud e Bertrand. Sevcenko, Nicolau (2003). Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2a edição, 2003. Stepan, Nancy Leys (2005). A hora da eugenia: raça, gênero e nação na América Latina. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. Torres, Alberto (1914). A Organização Nacional. Primeira parte. A Constituição. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 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No mesmo período aproximaram-se dele, em volume de produção, somente o seu mais freqüente colaborador, Coelho Netto, e João Köpke, este último distinguindo-se dos demais por não enfatizar tanto os conteúdos cívicos. Esta constatação soa surpreendente devido ao pouco conhecimento que temos sobre estes livros que, não obstante, são os fundadores da literatura infantil produzida no Brasil. Aqui considero literatura infantil de uma maneira assumidamente restrita e conservadora, como textos de caráter ficcional, escritos por adultos, intencionalmente para crianças. No que diz respeito à biografia de Bilac, a importância que o autor atribuía à produção de livros infantis está exemplarmente descrita na conversa relatada por João do Rio ao visitá-lo para recolher suas respostas à enquete publicada em O Momento Literário. - - Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu. Versos? Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto. Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável. [...] (apud Bueno: 1996, 28) Estudos mais recentes sobre o autor vêm (re)descobrindo essa sua faceta de homem de ação, a qual norteou, por exemplo, a compilação feita por Alexei Bueno para publicação da Obra Reunida de Bilac pela Nova Aguilar em 1996. No parágrafo inicial da “Nota editorial”, diz o organizador: Comunicação apresentada no V Simpósio Nacional de História Cultural realizado em Brasília em novembro de 2010. O texto foi publicado nos anais do Simpósio em CD-Rom. 60 Poucas figuras da vida mental brasileira, no decisivo período que vai das vésperas da queda da monarquia até a segunda década do século presente, tiveram uma projeção consensual, formadora de opinião e de mentalidade, comparável à de Olavo Bilac. Além do poeta, de imensa aceitação popular, acumulavam-se em Bilac o jornalista, o autor de poesias infantis, o propagandista entusiasmado da educação pública e do serviço militar obrigatório e, em suma o patriota, caráter para o qual convergiam todas as atividades mencionadas. (Bueno, 1996: 9) O “jornalista” Bilac, por sua vez, foi estudado e compilado por Antônio Dimas nos três volumes publicados em 2002 pela EDUSP, Ed.UNICAMP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Para além destas referências, deve-se sublinhar o interesse que Através do Brasil, em co-autoria com Manuel Bomfim, tem despertado44, motivando estudos específicos ou ganhando destaque em abordagens mais panorâmicas da literatura infantil. Porém, a despeito das qualidades que permitem que este livro seja considerado o “livro-nação” brasileiro por excelência, para usar o termo cunhado por Patrick Cabanel na caracterização dos diversos “tours de la nation”, é na análise do conjunto dos textos infantis de Bilac que conseguimos delinear a tópica que configura a ideologia nacionalista presente na sua obra. Ao lado de traduções, compilações e uma obra de divulgação histórica, Bilac escreveu, individualmente ou em co-autoria, cinco livros para o público infantil: A terra fluminense (Bilac; Coelho Netto, 1898); Contos Pátrios (Bilac; Coelho Netto, 1904); Poesias Infantis (Bilac, 1904); Teatro Infantil (Bilac; Coelho Netto, 1905) e Através do Brasil (Bilac; Manuel Bomfim, 1910). Destes, somente A terra fluminense, editado pela Imprensa Nacional, não teria outras edições, sendo,, contudo alguns de seus capítulos incluídos em Contos Pátrios, justamente os menos informativos e com mais elementos ficcionais. Os outros livros, todos pela Francisco Alves, teriam vida mais longa: Teatro Infantil estaria na 5a.edição em 1926 e é o menos comprometido com a educação cívica. Poesias Infantis, primeiro volume da “Biblioteca dos Jovens Brasileiros” na sua 27a. edição em 1961. Contos Pátrios, segundo volume da mesma Biblioteca, 44 Cf. Botelho (2002); Santos & Oliva (2004); Dimas (1994); Lajolo (1992; 2000); Lajolo e Zilbermann (1996; 2006); Carvalho (1996); Cabanel (2007). 61 seria o que em termos numéricos alcançaria o maior êxito (considerando as dificuldades de localização dos exemplares que podem conduzir a uma conclusão equivocada), chegando à 50a. edição em 1968, e Através do Brasil, disputando o título de best-seller do civismo com Contos Pátrios, chegaria a 43a. edição em 1957. Mais do que o surgimento de um gênio na nossa literatura infantil como foi Lobato, que ofusca a produção anterior e coloca as expectativas sobre essa literatura em um novo patamar, me parece que as razões para o desinteresse acadêmico em relação a estes livros ligam-se menos a sua qualidade discutível do que ao preconceito em relação ao seu caráter fortemente ideológico, que é justamente o que quero examinar aqui. Pois, ao contrário do que aparenta, a literatura cívica da Primeira República não é um conjunto de textos ideologicamente homogêneo. A análise de uma de suas principais características, o ufanismo, presente em todos os textos em maior ou menor grau, demonstra que não é sempre que o orgulho exacerbado da pátria oblitera a consciência das deficiências nacionais. No discurso proferido aos alunos do Ginásio Granbery em 1909, publicado com o título ”Instrução e Patriotismo” na 2a. edição de suas Conferências Literárias em 1912, Olavo Bilac dirigindo-se não só aos formandos daquela escola mas “a todos os brasileiros de sua idade”, apresentava alguns dos pontos-chave do seu programa, mais tarde repetidos e desenvolvidos nos textos e discursos da Liga da Defesa Nacional. Cito alguns trechos desse discurso: [...] o fim da educação não é preparar eruditos frios, nem sábios secos, nem ideólogos impassíveis, indiferentes às lutas sociais: é preparar homens de pensamento e ação, a um tempo compassivos e enérgicos, corajosos e hábeis, capazes de empregar valiosamente em proveito da coletividade todas as forças vivas da sua alma e todo o arsenal de conhecimentos de que os apercebeu o estudo. Em um país novo como este, onde quase tudo ainda está por fazer, seria absurda e monstruosa a existência de cenobitas do ideal, de anacoretas da ciência, poetas ou filósofos, matemáticos ou artistas, isolados no estudo egoísta, surdos à agitação da existência comum dos homens, insensíveis às sugestões do meio em que vivem. [...] Há um patriotismo mal pensado, que pode ser funesto à pátria e ao patriota [...]. Refiro-me a um falso patriotismo, a que darei o nome preciso de ‘megalomania patriótica’, perigosa exacerbação do orgulho nacional, [...]. Desse falso patriotismo, o mais freqüente sintoma é a vaidade condenável com que alguns dizemos habitualmente: ‘este país é o mais rico do mundo!’; - como se, em primeiro lugar, a riqueza natural bastasse para dar invejável glória a um país, e como se, além disso, a experiência nos não estivesse mostrando claramente a inanidade absoluta de tal orgulho! [...] Para louvar o Brasil, para amá-lo como ele 62 quer ser amado, não é mister exagerar-lhe o crédito e o valor moral; mais dignamente o amaremos e louvaremos, reconhecendo quanto lhe falece ainda em população, em trabalho, em instrução, e verificando ao mesmo tempo a importância do trabalho já realizado. [...] Estudando bem as condições políticas e econômicas da nossa pátria, vereis, meus jovens amigos, que os homens da vossa geração vão receber um honrosíssimo, porém onerosíssimo legado. As nossas apregoadas riquezas jazem escondidas quase todas no seio escuro da terra; existem, mas é como se não existissem, porque ninguém as vê, ninguém as aproveita, ninguém as vai arrancar dos veios recônditos em que dormem. [...] O verdadeiro patriotismo não é o amor dos negócios rendosos que no seio da pátria pode dar a riqueza e a independência; [...] não é também o embevecido êxtase, ingênuo e fútil, diante da beleza das suas paisagens, do esplendor do seu céu, da uberdade do seu solo. É sim, um amor elevado e austero, que reconhece os defeitos da pátria – não para amaldiçoá-los ou para rir deles, mas para perdoá-los, estudá-los e corrigi-los; é um amor que se enraíza mais no meio moral do que no meio físico, [...]. (Bueno, 1996: 681-693) Está claro, nesse texto, que Bilac se esforçava para distinguir-se do ufanismo contemplativo e ingênuo de Afonso Celso. Entretanto, demarcar suas diferenças com colaboradores freqüentes como Coelho Netto e Manuel Bomfim, ou ainda com Julia Lopes de Almeida, com cujos projetos o seu possuía muitos pontos em comum, é tarefa mais difícil. Mas estas diferenças existem e nem sempre são sutis, por isso vamos apontá-las logo adiante. Comecemos por Afonso Celso. Uma comparação entre seu livro e outros textos cívicos mostra que há uma clara clivagem entre o autor do Porque me ufano de meu país, que acreditava que Deus garantiria o cumprimento dos altos desígnios reservados ao Brasil independentemente de qualquer esforço dos brasileiros, e outros autores, com destaque para os citados há pouco, que entendiam ser necessária uma total transformação nacional pela via da educação para que o país realizasse o seu potencial. A educação, para estes, era a única forma de construir uma ética meritocrática, a qual dependia de uma completa reformulação dos valores, sentimentos e hábitos da população brasileira e que não poderia ser desencadeada senão pelas novas gerações. Nessa perspectiva, o conceito do Brasil como “um país novo em que tudo ainda está por fazer” está presente, implícita ou explicitamente, pois o trabalho é sempre apontado como a condição fundamental do progresso do país. Trata-se, portanto de uma perspectiva fundamentalmente diversa daquela de Afonso Celso que acreditava que o progresso seria alcançado incondicionalmente. Por isso também a responsabilização de uma categoria que eu qualifiquei como “infância brasileira” (Hansen, 2007), que não se confunde com a população 63 infantil do Brasil. A representação dessa “infância brasileira” é feita por meio de determinados personagens dos textos cívicos com os quais nem todas as crianças brasileiras iriam se identificar. Em outras palavras, ainda que apareçam personagens como o mulato Libânio de América (Coelho Netto, 1897) ou o caboclo Juvêncio de Através do Brasil (Bilac; Bomfim, 1910), não se pode dizer de forma alguma que a diversidade da população está bem representada. Além disso, a fictícia “inclusão social ou nacional” destes personagens ocorre sempre pela ação e iniciativa dos protagonistas que, com exceção das poucas personagens femininas criadas por Julia Lopes de Almeida, são sempre do sexo masculino, entre dez e doze anos, brancos, de classe média, provenientes de famílias nucleares e alfabetizados. Estes constituem, em suma, aqueles que por princípio já estariam identificados com uma “infância brasileira”, sobre a qual os autores depositavam suas expectativas de reforma social e que, pode-se inferir, corresponde à idealização que faziam de seus leitores. Além das características biológicas e sócio-econômicas, as representações da infância brasileira, especialmente nos textos de Bilac, incluíam a imposição de um certo modelo de hombridade, a partir do qual essa infância se caracterizaria também por ser “precoce” e “viril”. Uma das estratégias utilizadas nesse sentido foi a valorização da carreira militar e a divulgação do soldado e do escoteiro como modelos estéticos. Entre os textos de Bilac, o conto “O recruta” (Bilac; Coelho Netto: 1904, 89104) é o que melhor expressa essa estratégia de construção de um estereótipo masculino nacional. Neste conto Anselmo, primeiramente caracterizado como um “bisonho caipira” de “vinte e dois anos, criado à solta, no campo”, era um rapaz analfabeto, porém trabalhador. Sempre o primeiro a sair para o trabalho, e o último a recolher. Divertiase tocando modinhas no violão, até que um dia “chegou ao sertão a notícia da guerra do Paraguai, o terror ganhou toda aquela gente simples, para quem o mundo se limitava àquelas léguas de terra, de cujos limites nunca havia saído”. Quando Anselmo foi recrutado ele se desesperou, não porque fosse “covarde” como ressalta o texto, mas porque se veria forçado a abandonar aquela “existência em que nascera e crescera”. Citando o autor: 64 Para a sua alma inculta e primitiva de filho da roça, a Pátria não era o Brasil: era o pedaço de terra que ele regava com o suor de seu rosto. Fora daquilo não havia mais nada. Que tinha ele com o resto do mundo? Por que havia ele de vestir uma farda, e ir morrer abandonado e desconhecido, sem uma amizade, sem uma simpatia, numa terra estrangeira, por causa de gente que nunca vira, por causa de questões que não entendia e que não eram suas? Nunca saíra do seu sertão. Aos vinte e dois anos, ainda não imaginava o que seria o mar. Se os paraguaios viessem até suas roças, então sim: ele e os outros saberiam repelir os invasores; seria o seu dever, a defesa do seu ganha-pão, do seu trabalho, dos seus hábitos. Mas, ir defender a Corte, ir defender o Sul, ir defender o Imperador!... que tinha ele com tudo isso? (Bilac; Coelho Netto, 1904: 86) Entretanto, na medida em que vai se habituando ao cotidiano e à disciplina do quartel, e convivendo mais de perto com os soldados mais antigos, Anselmo vai associando a idéia de terra/pátria ao Brasil. É aí que começa, segundo o texto, a operar-se no seu espírito uma transformação radical. A convivência fazia-o sentir por aqueles homens um afeto de irmão. E tanto ouvia amaldiçoar os paraguaios, que principiou a amaldiçoá-los também, odiando-os de longe. Via agora bem o engano em que estava, quando acreditava que a Pátria era o seu sertão, e nada mais. Aqui, tão longe do sertão, vinha achar o mesmo céu, a mesma língua, quase os mesmos costumes. Em torno dele, só se falava na guerra. Lopes era odiado. [Mais adiante no texto, já a caminho do front] a idéia sagrada da Pátria se apresentou, nítida e bela, diante da alma de Anselmo. E ele, compreendendo enfim que a sua vida valia menos que a honra da sua nação, pediu a Deus, com os olhos cheios de lágrimas, que o fizesse um dia morrer gloriosamente, abraçado às dobras daquela formosa bandeira, toda verde e dourada, verde como os campos, dourada como as madrugadas da sua terra. (Bilac; Coelho Netto: 1904, 102-104). Antes “bisonho caipira”, após sua passagem pelo quartel Anselmo parte para a guerra do Paraguai descrito como um “esbelto moço” que marchava “com garbo entre os outros”. Nesse sentido, o conto narra a transformação física do corpo já fortalecido pela vida ao ar livre, que adquire um porte esbelto e garboso pela disciplina e pelo uniforme. Mas trata, principalmente, de um grande processo de metamorfose interna em que Anselmo toma consciência da sua nacionalidade e do qual a mudança física se apresenta como um reflexo. Nesse processo, vale ressaltar a importância da convivência com os outros soldados, pelos quais Anselmo passa a sentir “um afeto de irmão”, sentimento que simboliza a construção da solidariedade necessária à constituição da nação. Já a “ânsia” pela batalha indica a expectativa de provar sua virilidade que se confunde aqui com a utilidade para o país. Se neste texto a questão da precocidade não se apresenta, em outros ela é central. Um dos grandes clichês dessa literatura é a situação de orfandade na qual um menino se vê subitamente responsável pelo sustento da mãe e irmãos menores 65 e consegue agir “como um homem” em relação a estas circunstâncias. É o caso de América (Coelho Netto, 1897), dos contos “O Rato”, “Um homem” (Bilac; Coelho Netto, 1904), e de “O grumete” (Almeida, 1911). Já no conhecido Através do Brasil, o tema se apresenta de outra forma. O romance narra a aventura dos irmãos Carlos e Alfredo, de quinze e dez anos, respectivamente, que ao saber da notícia da doença do pai que trabalhava numa ferrovia partem do Recife em direção ao sertão e terminam, após atravessar o país como indica o título, finalmente encontrando a família no Rio Grande do Sul. Ainda no início da viagem conhecem o sertanejo Juvêncio de 17 anos, o qual passa a acompanha-los e entre os três surge uma amizade “fraterna”. A precocidade de Carlos é sublinhada em várias ocasiões, desde a maneira pela qual cuida do irmão menor, pela postura e conversa, mas principalmente pela sua capacidade de trabalho demonstrada no episódio em que para continuar a viagem os meninos precisam de dinheiro e se oferecem para trabalhar numa colheita de algodão. [...] Os dois rapazes [Carlos e Juvêncio] atiraram-se ao serviço com um ardor extraordinário. Nas horas de menos forte calor, também Alfredo os auxiliava muito orgulhoso por dizer que também era capaz de trabalhar. O certo é que colhiam cada dia, tanto quanto os outros trabalhadores, que eram homens adultos e robustos. Até o fazendeiro estava admirado. (Bilac; Bomfim: 1910, 108) Porém, é necessário ressaltar dois aspectos complementares na construção desse tipo de nexo entre masculinidade e nacionalismo nos textos de Olavo Bilac. Em primeiro lugar, a quase completa exclusão de personagens do sexo feminino ou, nos casos em que as mulheres estão presentes a sua representação em vários aspectos depreciativa. Em segundo, a valorização da juventude em relação as outras “idades da vida”. Eloqüentes a esse respeito, ainda que muitos outros exemplos pudessem ser aqui citados, são os poemas: “A infância”, “A mocidade”, e “A velhice”; incluídos em Poesias Infantis de Olavo Bilac (Bueno: 1996, 334-336) . No primeiro deles, a “infância” começa com o nascimento e termina quando a criança ao crescer fica “forte e bela [...] esperta e inteligente” e “lhe dão, então de presente uma carta de ABC...”. A “mocidade”, por sua vez, é [...] A idade da força e da beleza: 66 Olha o futuro e inda não tem passado; E, encarando de frente a Natureza, Não tem receio do trabalho ousado. [...] Por fim, a “velhice” é caracterizada por um diálogo no qual um neto pergunta a avó porque “não tem dentes”, “anda rezando só”, “treme como os doentes”, “é tão triste o seu rosto”, e, finalmente, “não ri como nós”. A avó responde, então, que está “farta de viver”. Dispostos em seqüência no livro, os três poemas reforçam a valorização estética e social da “mocidade” e sua vinculação ao critério de utilidade pela força, pelo tempo futuro de que dispõe e pelo gosto do trabalho. Vale destacar que a “infância” só se torna “forte e bela” quando já crescida está próxima à “carta do ABC”. Já a “velhice” caracterizada na figura de uma mulher sem dentes, católica, trêmula, fraca, triste e “farta de viver”, é o perfeito retrato da inutilidade para a pátria. O texto combina, portanto, a valorização da juventude e do trabalho, a representação de um certo ideal de virilidade e a ausência quase total de personagens do sexo feminino (a começar pelos protagonistas sendo órfãos de mãe); com a abordagem de pontos-chave da problemática questão da formação da nação brasileira como o desconhecimento do interior do território por parte daqueles que viviam nas cidades litorâneas onde estava a maior parte da população alfabetizada e a difícil construção da solidariedade entre uma população tão diversificada. Por estas razões, tenho a hipótese de que Através do Brasil pode ser lido como uma alegoria do projeto de nação bilaqueano, sem esquecer de que foi escrito em co-autoria com Manuel Bomfim. Nesse sentido, o principal aspecto simbólico é a representação da construção da solidariedade por meio da amizade fraterna entre os dois protagonistas do livro e o caboclo sertanejo Juvêncio. A questão da amizade masculina aparece, então, na literatura cívica em geral, mas principalmente nos textos de Olavo Bilac, como o próprio nexo a partir do qual seria possível imaginar a construção da solidariedade nacional buscando alcançar o ideal da fraternidade. É interessante contrastar essa valoração da convivência masculina, propiciada na maioria das vezes pelo ingresso das crianças e jovens em ambientes nos quais há uma completa “remoção mental da mulher” (Loriga: 1996, 38), o quartel 67 ou o colégio interno, por exemplo, com a desconfiança em relação à amizade feminina. No livro Alma, educação feminina (Coelho Netto: 1910), que Coelho Netto dedica a suas filhas, o assunto é tratado especificamente no capítulo “Amigas” em que as meninas são advertidas a não confiarem umas nas outras. Contudo, tão ou mais eloqüentes que o texto são as ilustrações dos capítulos “Indiscrição” e “Conversas” (Ilustrações 1 e 2). Para resumir esse contraste, da reunião de meninos, rapazes e homens, esperava-se o surgimento da amizade e da camaradagem, o desenvolvimento de virtudes e a construção de laços análogos aos necessários à construção da solidariedade nacional. Por outro lado, da convivência de meninas ou mulheres esperava-se a fofoca, a indiscrição, a maledicência e a traição, entre outros vícios. Nesse sentido, a voz dissonante dessa vertente da literatura infantil que condicionava o sucesso do país a uma ação cívico-pedagógica eficaz sobre as crianças brasileiras é a de Júlia Lopes de Almeida. Não rompendo completamente com a representação da infância brasileira como precoce e viril, a autora contrapõe um outro modelo de hombridade ao ideal espartano de Bilac e valoriza o papel das mulheres na construção da solidariedade nacional. Ilustrativos desta posição são as personagens de um professor e uma professora em Histórias de nossa terra (Almeida: 1907). O primeiro, protagonizando o conto “Amor da Pátria”, ensina ao pai de um aluno decepcionado com o pouco desenvolvimento do filho, que: Não é só com a espada que se pode elevar o nome da pátria! As artes, a ciência, as indústrias, a agricultura, são mais belos e mais vastos campos de batalha [...]. a glória de um povo não está em ser guerreiro, em saber matar; mas exatamente em saber evitar a guerra, sempre com brio, ordem, amor ao trabalho, e consciência do seu valor [...].(Almeida: 1911, 119). A professora, por sua vez, personagem do conto “Polaco!”, ensina a seus alunos que não deveriam tratar preconceituosamente os imigrantes e seus descendentes, estimulando os laços de amizade entre as crianças. Mas também as fotografias do livro de Julia Lopes são dignas de nota, mostrando uma visão bastante distinta daquela sugerida pelas ilustrações de Alma. Em Histórias de nossa terra, são ressaltadas qualidades diferentes do feminino 68 representado aqui nas classes de estudantes de uma escola para meninas. (Ilustrações 3 e 4) No entanto, Histórias de nossa terra, apesar de ter chegado à 6a. edição em apenas quatro anos, não chegou perto de ser tão bem sucedido quanto os livros cívicos de Olavo Bilac, o que nos leva a crer que durante algum tempo a visão predominante da “infância brasileira”, ou seja, aquela sobre a qual eram depositadas as expectativas sobre o futuro do país, era mesmo a que idealizava as crianças do sexo masculino sendo submetidas a uma pedagogia espartana, tal como iria propor o escotismo, cuja entrada no Brasil seria saudada por Bilac como uma verdadeira “heroicultura”. No texto introdutório ao Livro do Escoteiro de 1916, dizia: [...] Há pouco tempo, em São Paulo, um educador, o Sr. João Kopke, numa conferência lembrou que os antigos gregos davam aos efebos, “sem ensino especial de civismo, meios de cultura própria, apenas por um programa limitado, entre os sete e os dezoito anos, formando uma boa e bela forma de homens, com a sua inteligência, os seus sentimentos e o seu corpo treinados”. Não era aquele ensino da efebia o mesmo ensino que hoje damos aos escoteiros? [...] No escotismo – e é esta a sua maior e mais verdadeira beleza – a exaltação reveste-se de um distintivo prático, sem perder a sua poesia sublime. Na Cavalaria, às vezes, a idéia da honra era vaga; a da generosidade, indecisa; a da abnegação, indeterminada; às vezes, era o sacrifício perdido, a bravura sem proveito, a dedicação inútil. No escotismo, a idéia da honra define-se: é a honra do indivíduo, e a honra do cidadão; e o desinteresse e a magnanimidade não são apenas gestos formosos: são ações justas e úteis – justas para a perfeição humana, e úteis para a grandeza da Pátria. Tal é, em suas linhas fundamentais, a criação do escotismo, a nova heroicultura, filha de Baden Powell. (Bilac: 1922, 7-11) O escotismo, que entra no Brasil a partir de 1910, viria ao encontro das idéias de Bilac a respeito da educação física e cívica dos rapazes, apesar de dirigido a um segmento etário diferente. O projeto bilaqueano para a infância brasileira, porém, sobreviveria muito tempo ao autor, morto em 1918. Inscrito nos textos ao longo das diferentes edições dos livros em sua forma seria atualizado, em contextos posteriores, por dispositivos agregados às estratégias narrativas que, criadas pelo autor e seus co-autores, conduziam o leitor ao modelo da infância precoce e viril. Esta outra “maquinaria” (Chartier: 2009, 97), resultante de decisões de caráter editorial, promoveria durante a década de 1930, entre outras modificações 69 importantes, uma significativa alteração nas capas da Biblioteca dos Jovens Brasileiros. Num primeiro momento, a ilustração das capas dos três primeiros volumes da coleção: Contos Pátrios, Poesias Infantis e A Pátria Brasileira (Ilustrações 5, 6 e 7); reforça a concepção de infância brasileira sobre a qual nos debruçamos. Já a partir de meados dos anos 30, a ilustração que substitui aquela primeira pode ser tomada como indício de mudanças nas concepções de infância e de masculinidade, especialmente no que diz respeito a sua relação com a nação (Ilustração 8). Mudanças, enfim, que vão impor a “adaptação” dos livros aos seus novos contextos de leitura e estimular a criação de estratégias capazes de garantir a sua sobrevida. BIBLIOGRAFIA Almeida, Julia Lopes de. Histórias da nossa terra. 6. ed.. Rio de Janeiro: Francisco Alves; Paris, Aillaud, 1911. (1907) Bilac, Olavo e Coelho Netto, Henrique. A terra fluminense. Educação cívica. (livro unanimemente aprovado pelo Conselho Superior de Instrução do Estado do Rio de Janeiro). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1898. Bilac, Olavo. Poesias infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1904. Bilac, Olavo e Coelho Netto, Henrique. Contos Pátrios. Educação moral e cívica. (para os alunos das Escolas Primárias). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1904. Bilac, Olavo e Coelho Netto, Henrique. Contos Pátrios. Para as crianças. 28. ed.. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1932. Bilac, Olavo e Coelho Netto, Henrique. Teatro infantil: comédias e monólogos em prosa e verso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1905. 70 Bilac, Olavo e Bomfim, Manoel. Através do Brasil (narrativa). Livro de leitura para o curso médio das Escolas Primária. 3. ed.. Rio de Janeiro: Francisco Alves e Cia, 1917. (1910) Bilac, Olavo. Os escoteiros. 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Resumo A produção literária infantil com teor cívico ressalta no conjunto dos primeiros livros brasileiros concebidos para atrair a criança leitora publicados desde os últimos anos do século XIX. Trata-se, na verdade, da maior parte da produção ficcional originalmente escrita para aquele público específico. Considerando este dado, o objetivo deste artigo é investigar conteúdos e estratégias discursivas, assim como aspectos editoriais e gráficos, com os quais se pretendia conformar um mercado que despontava com infinito potencial de crescimento. No curso da análise procurar-se-á também sublinhar a especificidade e a dinâmica das relações entre alguns dos principais sujeitos envolvidos na produção, circulação e recepção dos livros infantis da passagem do século XIX para o XX: autores, editores e leitores. Abstract Books for children with civic content is a strong feature in the set of the first books designed to attract the young Brazilian readers, published since the end of the nineteenth century. In fact, these books represents the major fictional production originally written for that audience. Thereby, this paper aims to investigate the content and Artigo submetido à Revista História da UNESP. 73 discursive strategies, as well as graphics and editorial aspects, which a potentially growing market should comply with. Throughout the analysis, we will also attempt to underline the specificity and dynamics of relationships between some of the key individuals involved in the production, circulation and reception of children's books of the late nineteenth and early twentieth century: authors, editors and readers. O fenômeno do nacionalismo na produção literária para crianças a partir da segunda metade do século XIX tem sido menosprezado como objeto de estudo. Seguindo o modelo do italiano Cuore (Amicis, 1888) ou do francês Le tour de France par deux enfants (Bruno, 1877), até hoje reeditados e sempre objeto de interesse renovado das ciências humanas e sociais em seus respectivos países, os congêneres brasileiros não têm despertado a mesma curiosidade acadêmica, apesar desse quadro vir mudando nos últimos anos graças a uma espécie de redescoberta de alguns títulos. Dentre esses, Através do Brasil (Bilac; Bomfim, 1910) é indiscutivelmente o melhor exemplo. Entretanto, se o Cuore dialogava intensamente com o processo de Unificação da Itália propondo um ideal de nação liberal e burguês e o Le tour de France par deux enfants inserese na consolidação da 3a República na França, os autores brasileiros, a despeito de apropriarem-se largamente dessas matrizes, sempre se preocuparam ir além dos pastiches, abordando questões pertinentes aos contextos, social, político, econômico e cultural do país. Por esta razão, temas relacionados à miscigenação, ao atraso econômico, ao passado histórico são sempre tratados nos livros cívicos nacionais, indicando uma certa militância na medida em que nestes eram apresentados projetos utópicos aos futuros cidadãos. (Hansen, 2009) No Brasil, a literatura produzida especialmente para crianças surgiu apenas no final do século XIX, assumidamente como resposta à necessidade de leituras em linguagem acessível ao público infantil brasileiro. Inicialmente as edições eram traduções de clássicos europeus para o português falado aqui apresentadas como reação às traduções portuguesas que impunham verdadeiros obstáculos à compreensão dos textos pelos seus leitores-alvo. Porém, também o trabalho de compilar e traduzir, ou ainda, de produzir pastiches de histórias estrangeiras ou provenientes da tradição oral visando uma “adaptação” ao público nacional foi 74 empreendido por aqueles mais preocupados com o entretenimento das crianças fora do ambiente escolar, nunca descuidando da pedagogia moral. Eloqüentes sobre este esforço são as notas introdutórias de João Ribeiro e Figueiredo Pimentel aos seus respectivos livros. O primeiro, filólogo, historiador, crítico e poeta, tradutor da primeira edição brasileira do Cuore de Edmundo de Amicis, fazia a seguinte “Advertência” aos leitores: Revendo a nova tradução que apelidamos de brasileira em cotejo com outra portuguesa, assaz rara e sem circulação legal no Brasil, podemos verificar que sempre preferimos na linguagem comum as expressões nacionais, igualmente vernáculas. Desta arte são mais freqüentes na tradução brasileira as expressões papai, mamãe, como é costume dizer entre nós, em vez de papá e mamá [...]... Para os estudiosos e amadores de comparações entre a linguagem portuguesa da Europa e a da América, o texto pode talvez apresentar alguma curiosidade. Feita para o Brasil, exclusivamente, como é em verdade a destinação de todos os livros brasileiros, a tradução agora revista oferece algumas correções úteis e necessárias. (Ribeiro, 1954) Por sua vez, Alberto Figueiredo Pimentel que viria a ser um dos cronistas mais influentes da Belle Époque, sublinha a importância e o êxito daquelas iniciativas editoriais que vinham “preencher sensível lacuna”, chegando a motivar “inveja e a imitação dos exploradores de idéias e trabalhos alheios”. Nas suas próprias palavras: Pela terceira vez editamos um livro de contos para crianças. Animounos tal cometimento o extraordinário sucesso dos anteriores – Contos da carochinha e Histórias do arco da velha – que obtiveram êxito extraordinário, raro, nos anais da livraria brasileira. Em verdade, ambos esses livros – dizemo-lo com orgulho – vieram preencher sensível lacuna: neles estão reunidos muitíssimos contos populares, que andavam espalhados exclusivamente na tradição oral, passando de geração em geração, sem no entanto nunca haverem sido colecionados escritos. [...] As crianças brasileiras, às quais destinamos e dedicamos esta série de livros populares, encontrarão nas Histórias da Avozinha agradável 75 passatempo, aliado a lições de moralidade, porque tais contos encerram sempre um fundo moral e piedoso. E, só com a satisfação que experimentamos de sermos úteis aos nossos jovens patrícios, damo-nos por bem pagos de nosso trabalho. (Pimentel, 1896). A presença destas notas, que não se dirigiam ao leitor final e sim aos adultos mediadores dessas leituras, serve para indicar a importância, o valor e o pioneirismo que eram atribuídos a estes livros por seus produtores. Porém, em ambas percebemos uma destinação explícita: não as crianças em geral, mas as “crianças brasileiras” eram pensadas como o público consumidor destes livros. E o que hoje parece ser óbvio, a adaptação dos produtos às características específicas de seu mercado consumidor, não pode ser explicado apenas pela lógica de mercado. Pois que para que o leitor infanto-juvenil se constituísse em “mercado consumidor” era necessário que antes se operasse uma importante mudança cultural, em particular no que diz respeito às sensibilidades, em determinados segmentos sociais. Daí que a ampliação da exigência de nacionalização da linguagem aos temas e personagens tenha inspirado o surgimento de uma literatura original, possuidora em sua maior parte de caráter cívico. Esta não somente expressava o conjunto de preocupações que convergiam para o problema da formação da nação brasileira na passagem do século XIX para o XX, mas traduzia também importantes mudanças sociais em curso, apontando para uma modernização da sociedade que, entre outras conseqüências, iria conferir uma posição de maior relevo às crianças. Este aspecto é importante já que para existir “literatura infantil”, compreendida como um tipo de texto produzido para crianças conforme a concepção que seus autores possuem a respeito deste público leitor, é necessário que haja reconhecimento da infância como uma “idade da vida” (Ariès, 1981) com características e necessidades específicas, mas também que exista um reconhecimento do valor social da criança. Tal valor, para o período que estamos abordando, associa-se ao estatuto que a criança adquire desde o século XIX como futuro da família, da “raça” e da “nação” (Perrot, 1999, 198). No caso do Brasil, pode-se dizer, essa representação, especialmente nos textos com os quais trabalhamos, acentua-se por tratarem-se justamente daqueles que passam a ser vistos como os futuros cidadãos de um país imaginado como “novo”, “promissor”, ou “do futuro” (Hansen, 2007). 76 A despeito das muitas possibilidades e polêmicas sobre o uso da categoria literatura infantil (Hunt, 2010; Diogo,1994; Rudd, 2010; entre outros) optou-se aqui por utiliza-la, simplesmente, com o sentido de uma literatura intencionalmente produzida para a criança leitora. Ou seja, ficam excluídos os textos não escritos para crianças que acabaram por cair no gosto infantil e/ou que tenham sido destinados a este público por mediadores adultos por motivos comerciais, pedagógicos, etc. Tal critério deixa de fora, por exemplo, os livros de leitura organizados na forma de compilações como é o caso daqueles assinados pela dupla Bilac e Bomfim, mas os exemplos clássicos daquilo que esta concepção de literatura infantil exclui, já que é focada na produção e na destinação original dos textos, são os grandes romances de aventura como o Robinson Crusoe, entre outros, que estão em geral no cerne dos argumentos daqueles que defendem que literatura infanto-juvenil é tudo que foi destinado à leitura das (ou apropriado por) crianças e jovens em diferentes momentos. A respeito do caráter cívico-pedagógico e nacional, critério delimitador dos livros infantis que são aqui analisados, este vai muito além da inculcação dos símbolos cívicos, da doutrinação patriótica ou da construção de uma memória comum. Esta literatura pode-se dizer, acaba por ser um campo de disputa entre diferentes projetos para o futuro da nação brasileira, caso das ideologias em vários aspectos conflitantes de Olavo Bilac e Júlia Lopes de Almeida. Neste sentido, a moldura nacional na qual nosso objeto está inscrito tem menos a ver com a nacionalidade dos autores ou com a nacionalização da linguagem e dos temas do que propriamente com o leitor imaginado pelos autores o qual, ao confundir-se com uma representação ideal da infância brasileira, torna-se sujeito e objeto dos projetos de nação contidos naqueles livros. Consideramos também aqui o critério da ficcionalidade, usado para distinguir o que chamamos literatura infantil cívica dos manuais escolares de educação cívica ou até mesmo de história para o ensino primário. Trata-se aqui, portanto, de distinguir aqueles textos que continham, como seus autores costumavam dizer, elementos de “fantasia”, os quais para cumprir a finalidade aqui proposta consideramos como sendo a inclusão de personagens, cenários e situações inventados para tornar a leitura mais agradável e prazerosa para as crianças, mesmo que essas invenções fossem assumidamente uma estratégia para ensinar “verdades” e cumprir a finalidade pedagógica última daqueles livros que, aliás, é o que os autores reiteradamente afirmam. Com base nestes critérios, chegou-se aos seguintes títulos, publicados pela primeira vez até 1930: América (Coelho Netto, 1897); A terra fluminense (Bilac; Coelho Netto, 1898); 77 A Grande Pátria (Köpke, 1900); Poesias infantis (Olavo Bilac, 1904); Contos pátrios (Bilac; Coelho Netto, 1904); Histórias de nossa terra (Almeida, 1907); Através do Brasil (Bilac; Bomfim, 1910); Alma (Coelho Netto, 1910); Histórias da terra mineira (Góis, 1914); Saudade (Andrade, 1919); Primeiras Saudades (Bomfim, 1920); Crianças e homens (Bomfim, 1922); Coração Brasileiro (Faria Neto, 2ed., 1925); Contos da História do Brasil (Corrêa, 1927); Terra Pernambucana (Sette, 3ed., 1932); Brasil, minha terra! (Sette, 1928). Como todos os livros destinados às crianças, estes também seriam sempre em última instância “escolhidos” por um adulto. São os pais ou um responsável que os compram, às vezes com a indicação ou por exigência de um professor ou da escola. Outras vezes são leituras determinadas por políticas que implicam na acessibilidade de determinados livros e não outros nas bibliotecas ou, ainda, que fazem destas leituras itens de programas escolares. Em razão desta relação intermediada entre os produtores e distribuidores do objeto livro, em particular autores e editores, e seus consumidores finais que são as crianças, o livro infantil pressupõe obrigatoriamente pelo menos dois tipos de leitores: um adulto que se supõe ter completo domínio da leitura e uma criança que pode estar em diferentes etapas no processo de aquisição desta competência. Por este motivo, não surpreende que os autores em seus prefácios, explicações, advertências e textos introdutórios de qualquer tipo se dirijam antes, e com linguagem diferenciada, ao adulto/intermediário que pode mesmo ser tratado como o “leitor”. Estes textos que constituem um “protocolo de leitura” (Chartier, 2009) estabelecido pelo autor na maioria das vezes, ou excepcionalmente pelo editor, atuam ao lado de outros dispositivos que também podem ser de responsabilidade de um, de outro, ou de ambos, tais como os elementos gráficos, ilustrações, subtítulos, etc. Em conjunto estes elementos buscam, de um lado, tornar o livro mais adequado ao seu público alvo que, desnecessário dizer, é desejável que seja o mais amplo possível; de outro, conduzir de maneira eficaz à leitura correta do livro tal como supõem seus produtores. Infelizmente, não são todos os livros que contêm alguma introdução explicitando o que seus autores esperam dele e de seus leitores. Entre os que foram aqui identificados, o primeiro a dar instruções claras deste tipo é A Terra Fluminense de 1898. Apresentado como sendo para “Educação Cívica”, o livro traz uma curta “nota” sobre o dever do professor em chamar “a atenção dos alunos para as palavras em grifo, explicandoas”, e logo na página seguinte um parágrafo um pouco mais elaborado em que os autores procuram esclarecer os objetivos do livro: 78 Não conseguimos, por certo, apresentar um trabalho perfeito. Mas anima-nos a convicção de que não poupamos esforços para escrever um livro original, em que a criança encontrará, sumariamente indicadas, toda a vida política, toda a vida moral e toda a vida comercial da Terra Fluminense. Neste livro, a História e a Fantasia andam unidas; e procuramos aproveitar os assuntos de maneira que pudessem eles interessar não somente a inteligência, mas também o coração das crianças. A grande e a pequena lavoura, as origens da civilização e do trabalho, as indústrias, os aspectos da Natureza, o comércio, a formação dos núcleos geradores do progresso, a evolução política, o passado, o presente e o futuro do Estado do Rio de Janeiro estão, parece-nos, resumida e claramente contidos nesta obra. Quisemos fugir da aridez, da forma complicada e da banalidade, ao mesmo tempo; dirão os competentes se nos saímos bem da empresa. E se nestas poucas páginas sinceras a criança aprender a amar a sua Pátria, estarão satisfeitos os desejos de Coelho Netto e Olavo Bilac Já em A Grande Pátria, publicado em 1900 mas com texto introdutório datado de 1896, o autor se dirige explicitamente “ao leitor” nos seguintes termos: Não publico este livro com pretensão quanto à sua substância; sim, e só, porém, como sugestivo quanto ao método de exposição, que procede do presente para o passado, a fim de que outros mais senhores do assunto melhor partido tirem da sua competência em favor dos que se instruem, caso neste ensaio algo divisem de aproveitável e digno do seu esforço. Procurei desenrolar ante o espírito juvenil, ao qual enderecei o meu trabalho, a trama dos fatos concernentes à história pátria, de modo que, pela realidade atual, em que tem ele experiência própria, e em que é parte, chegue à posse dos antecedentes, que prepararam essa mesma realidade. [...] Quanto à feitura, em alguma coisa se pode ela comparar à da História Alegre de Portugal, de Pinheiro Chagas, que somente depois de ter mostrado o meu trabalho ao meu douto amigo Senador Severino Vieira, vim, por indicação sua, a conhecer. Preferi, todavia, o diálogo com exclusão completa de qualquer parte expositiva, por se me afigurar que seria isso um recurso para o exercício da leitura expressiva em classe, e que esta graças ao seu caráter dramático, não só suscitaria os brios dos interlocutores, animando- 79 lhes o tom, como, captando a atenção dos ouvintes, a quem, de outro lado, as alternativas do diálogo descansam, muito contribuiria para facilitar a impressão e a retentiva dos fatos rememorados. A referência que, no correr do livro, se faz a um álbum, acusa o propósito de o acompanhar de ilustrações que mais interessem o espírito pelo conhecimento dos fatos, em que se inicia. Entretanto, o desenvolvimento ainda pequeno das nossas artes gráficas me inibe de dar nesta edição esse complemento utilíssimo (1), que somente se tornará possível se a aceitação do que, sem ele, posso dar, me permitir contractar, onde mais convenha, a publicação das gravuras, a que aludo. Rio de Janeiro, 30 de Dezembro de 1896. João Köpke (1) Esta deficiência pode, em parte, ser suprida pela recente publicação da casa Garnier Galeria de história brasileira. A comparação das informações contidas nas folhas de rosto dos três primeiros livros do gênero aqui analisado, América, A terra fluminense e A grande pátria, com os esclarecimentos fornecidos pelos autores nos textos introdutórios dos dois últimos, conduz a constatações interessantes. Enquanto os dois primeiros livros são apresentados como sendo para “Educação Cívica”, ainda que seguindo modelos narrativos bastante diferentes, A Grande Pátria destina-se “para diálogo nas Escolas Primárias” e apresenta seu conteúdo como sendo constituído por “Leituras Históricas”. O subtítulo “educação cívica” serve para enfatizar o objetivo mais amplo que era atribuído aos dois primeiros. Já a indicação presente na capa do livro de Köpke, “para diálogo nas escolas primárias”, ressalta como também faz o autor em sua nota para o leitor, a originalidade de um “método”. Além disso, é o único que contém uma referência mais clara acerca do público para o qual foi concebido: alunos das “escolas primárias”. Também no texto introdutório, o autor determina o modo ideal de leitura como sendo “a leitura expressiva em classe”, a qual por seu caráter “dramático” favoreceria a “impressão e a retentiva [sic] dos fatos rememorados”. 80 Fig. 1 - Folha de rosto de América (Coelho Netto, 1897). Acervo Casa Rui Barbosa. Fig. 2 - Folha de Rosto de A terra fluminense (Coelho Netto; Bilac, 1898). Acervo Casa Rui Barbosa. Fig. 3 - Folha de Rosto de A Grande Pátria (Köpke, 1900). Acervo Biblioteca Nacional. Deve-se notar que o livro de Köpke é surpreendentemente original. Num momento crucial da constituição da história do Brasil como disciplina, em que o que estava em questão era conferir legitimidade e autonomia a este campo intelectual estabelecendo seus parâmetros de cientificidade, o autor ousou misturar elementos de ficção, ainda que apenas no “método de exposição” como ele ressalta, aos “fatos” narrados. O próprio autor sublinhava sua originalidade afirmando ter tido conhecimento da História Alegre de Portugal (1880), com a qual teria alguma coisa em comum, somente depois de terminado A Grande Pátria. Mas o livro de Pinheiro Chagas é bastante diferente do de Köpke, a começar pelo público sendo destinado, conforme a indicação: “para o povo e para as escolas”. A equivalência entre leitores “crianças” e “homens do povo” por parte de alguns autores ocorreu algumas vezes na literatura cívica brasileira e sempre nos livros de divulgação histórica a exemplo de Nossa Pátria de 1917. Este era introduzido pelo autor, Rocha Pombo, com a seguinte frase: “Este livrinho é feito para a inteligência das crianças e dos homens simples do povo”. Não obstante, a ocorrência eventual e exclusiva nos textos de vulgarização histórica reforça a tese do comprometimento da maioria dos autores aqui estudados com um projeto de formação de “brasileiros” que tinha a infância por objeto e sujeito. (Hansen, 2007) Se ambos os tipos de leitores eram imaginados como necessitando facilitadores de leitura: parágrafos e capítulos mais curtos, ilustrações, linguagem mais simples, etc, o público alvo da grande maioria dos autores era declaradamente “as crianças”. Tal se verifica nas 81 referências explícitas feitas por eles, como no texto que apresenta A terra fluminense citado acima, ou na utilização de elementos que permitiriam a identificação do texto como infantil, por exemplo: a predominância de personagens de crianças e jovens, questões próprias ao que os autores supunham ser o universo de preocupações das crianças, descrições do cotidiano escolar, etc. Além disso, para não deixar qualquer dúvida, os editores podiam somar uma ou outra indicação como o inequívoco “para as crianças” que acompanhou o título de Contos Pátrios durante dezenas de edições. Torna-se necessário, portanto, distinguir analiticamente os processos de produção do texto e de produção do livro, segundo a sugestão de Chartier: Com efeito, podemos definir como relevante à produção de textos as senhas, explícitas ou implícitas, que um autor inscreve em sua obra a fim de produzir uma leitura correta dela, ou seja, aquela que estará de acordo com sua intenção. Essas instruções, dirigidas claramente ou impostas inconscientemente ao leitor; visam a definir o que deve ser uma relação correta com o texto e impor seu sentido. Elas repousam em uma dupla estratégia de escrita: inscrever no texto as convenções, sociais ou literárias, que permitirão a sua sinalização, classificação e compreensão, empregar toda uma panóplia de técnicas, narrativas ou poéticas, que, como uma maquinaria, deverão produzir efeitos obrigatórios, garantindo a boa leitura. Existe aí um primeiro conjunto de dispositivos resultantes da escrita, puramente textuais, desejados pelo autor, que tendem a impor um protocolo de leitura, seja aproximando o leitor a uma maneira de ler que lhe é indicada, seja fazendo agir sobre ele uma mecânica literária que o coloca onde o autor deseja que esteja. Mas essas primeiras instruções são cruzadas com outras, trazidas pelas próprias formas tipográficas: a disposição e a divisão do texto, sua tipografia, sua ilustração. Esses procedimentos de produção de livros não pertencem à escrita, mas à impressão, não são decididas pelo autor, mas pelo editorlivreiro e podem sugerir leituras diferentes de um mesmo texto. Uma segunda maquinaria, puramente tipográfica, sobrepõe seus próprios efeitos, variáveis segundo a época, aos de um texto que conserva em sua própria letra o protocolo de leitura desejada pelo autor. (Chartier, 2009, 96-97) 82 Importa aqui reter a questão da sobreposição dos efeitos da maquinaria tipográfica variáveis segundo as edições de um livro, aos dos “dispositivos de leitura” inscritos no texto pelo próprio autor e que permitem a conservação das suas intenções originais. Assim, por exemplo, América, o interessante e raro livro de Coelho Netto que é provavelmente a primeira narrativa de ficção com caráter cívico produzida no Brasil, não possui indicações explícitas do autor a não ser pela dedicatória: “Aos meus jovens patrícios”. Mas encontramos na folha de rosto a indicação de um propósito: “educação cívica”, e uma interessante modificação do suporte nos exemplares do 3o. milheiro que é a inclusão de páginas pautadas em branco, ainda que sem quaisquer instruções sobre como deveriam ser utilizadas. Apenas pela sua presença, contudo, já é possível somar elementos a uma representação de seus leitores como crianças que já possuem domínio da escrita. Cabe lembrar que, conforme alguns autores chamam a atenção, uma defasagem entre a aquisição da leitura e da escrita pode variar conforme a época, lugar, método de alfabetização, etc. (Chartier, 2009, 79-80). Por fim, outro aspecto incomum em América, em comparação com os livros contemporâneos é o destaque dado ao ilustrador A. Lucas que tem seu nome na folha de rosto. A esse respeito é interessante remeter não só à costumeira ausência dos créditos do ilustrador nas décadas seguintes como ao reconhecimento ainda ocasional, incerto e nem sempre conferido aos ilustradores dos livros de Monteiro Lobato mais de três décadas depois (Faria, 2009, 53-63). Outro caso interessante é o livro Contos da História do Brasil de Viriato Corrêa que, segundo a nota introdutória, resultou de uma apropriação de textos para “adultos” do mesmo autor por parte do professorado para utilização nas escolas. Deparado com esta situação, o autor decide adaptar os textos aos “espíritos infantis” e acrescentar outros, explicando o resultado “ao leitor” nas seguintes palavras: Após a publicação das Histórias da nossa História e da Terra de Santa Cruz, várias figuras do magistério público carioca, por gentileza ou por amizade, manifestaram desejos de adotar os dois livros nas escolas, para a leitura cívica das crianças. Era-lhes, porém, impossível. Qualquer dos dois livros tinham páginas de algum modo ousadas, de algum modo rudes para os espíritos infantis. A todos prometi sanar o mal, escolhendo num e noutro livro os artigos e os contos que melhor se amoldassem à pureza da alma da infância. 83 É esta a razão de ser dos Contos da História do Brasil. De novo há aqui apenas quatro ou cinco trabalhos, feitos de propósito, para que o livro não deixasse de ter os aspectos culminantes da história pátria. [...] Evidentemente faltam nos Contos da História do Brasil, em quaisquer dos períodos assinalados, episódios que possam melhor definir as subdivisões das fases. Mas o fim deste livro é apenas dar às crianças, pela feição anedótica, o tom geral da história brasileira. É possível que, com o caminhar dos tempos, com a aceitação que ele possa ter nas escolas, todas as falhas sejam sanadas. O Autor. (Corrêa, 1921, XI-XIII) Aqui, como na nota de João Köpke, o autor se desculpa pelas falhas ou faltas e condiciona sua correção à boa aceitação do livro pelo público o que garantiria sua reedição. No caso de Köpke, entretanto, tratava-se mais de conseguir oferecer ao público uma edição ilustrada, lamentando que “o desenvolvimento ainda pequeno das nossas artes gráficas” o impedisse de dar na ocasião aquele “complemento utilíssimo”. Considerando o testemunho do autor, é ainda mais surpreendente o destaque dado ao ilustrador de América, cujos desenhos, aliás, inseridos nas páginas iniciais dos capítulos eram bastante modestos em relação ao espaço ocupado pelo texto. Em outros livros ilustrados com desenhos, Contos Pátrios, Poesias Infantis, Alma, Primeiras Saudades e Coração Brasileiro, por exemplo, podemos identificar a assinatura (às vezes somente as iniciais) do ilustrador junto aos desenhos como é o caso dos dois primeiros, que são assinados por “M.M.” e do terceiro por “Raul L.”, respectivamente. Nos outros, os desenhos sequer são assinados. Contos Pátrios e Poesias Infantis, aliás, merecem atenção especial. Os dois livros de 1904 integravam a Biblioteca dos Jovens Brasileiros da Francisco Alves ao lado de Pátria Brasileira e Contos para crianças, sendo que os três primeiros compartilharam, durante muitas edições, da mesma ilustração nas capas. Contos para crianças de Chrysanthéme, apesar de fazer parte da “Biblioteca dos Jovens Brazileiros” não possui nada em comum com os outros além da destinação ao leitor infantil. Tal diferença será marcada pelo tratamento visual bastante diferenciado desde a capa, até a valorização do ilustrador e das ilustrações, mais comuns nos livros que eram vistos como possuindo vocação para uso mais recreativo que escolar. 84 Fig. 4 – Capa de Poesias Infantis (Bilac, 1913) – Fig. 5 - Capa da 7a. ed. de Contos Pátrios (Coelho Netto, Acervo particular 1911) – Acervo particular Fig. 6 - Capa de A Pátria Brasileira (Coelho Netto, Fig. 7 - Capa de Contos para Crianças 1916) – Acervo Biblioteca Nacional (Chrysantéme, 1906) – Acervo Biblioteca Nacional 85 A semelhança nas capas dos livros cívicos da coleção, entretanto, não se estende às ilustrações dos capítulos, já que enquanto os dois primeiros tinham desenhos (específicos para cada livro) assinados por “M.M.”, a Pátria Brasileira foi ilustrado com fotografias em preto e branco de obras famosas de Victor Meirelles, Pedro Américo, Almeida Junior, Bernadelli, etc. Fig. 8 - Ilustração de “M.M.” para o Fig. 9 - Quadro “A Primeira Missa” de Victor Meirelles que capítulo “A fronteira” de Contos Pátrios ilustra o capítulo de mesmo nome em A Pátria Brasileira (Bilac; (Bilac; Coelho Netto, 1911) – Acervo Coelho Netto, 1916) – Acervo BN particular A comparação entre os dois casos mostra como os diferentes tipos de ilustração acrescentam sentidos aos textos, sugerindo em cada caso uma leitura específica. No primeiro exemplo o artista interpretou o texto, assumidamente ficcional, representando o personagem e o cenário do conto segundo sua percepção destes elementos. No segundo, autores ou editor (não sabemos), ilustrou o texto de pretensão historiográfica, com obras famosas que, sendo representações construídas em diferentes momentos conferiam, a despeito de seu anacronismo, uma autoridade aos textos, eles mesmos muito descritivos. Essa é uma tendência dos livros que divulgavam conteúdos históricos ou que pareciam utilizar o mínimo possível de elementos ficcionais apenas para tornar a leitura mais agradável. Nestes casos, a ilustração de tipo mais realista, como as fotografias, retratos ou reproduções de obras de arte, serviriam para amenizar os aspectos de “fantasia” atuando como autoridades capazes de corroborar a “verdade” relatada nos textos. Exemplos dessa vertente são os livros Histórias da terra mineira (Góis, 1914), Terra Pernambucana (Sette, 1932) e Brasil, minha terra! (Sette, 1928) 86 Fig. 10 - Ilustração do capítulo “O escravo fiel” de Histórias Fig. 11 - Ilustração do capítulo “A benção” de da Terra Mineira (Góis, 1914) – Acervo Biblioteca Nacional Brasil, minha terra! (Sette, 1928) – Acervo Biblioteca Nacional Ainda sobre Contos Pátrios, vale notar que a partir da década de 1930 as edições teriam, além da mudança de capa, desenhos de Vasco Lima, agora com crédito na folha de rosto. Os desenhos deste artista continuariam sendo utilizados mesmo após a nova reformulação da capa a partir da 45a. Edição de 1961, que substitui o desenho figurativo das capas anteriores por uma estética mais moderna e gráfica, o que deixa dúvidas sobre a autoria das capas das edições reproduzidas. 87 Fig. 13 - Capa da 42a. ed. de Contos Pátrios (Bilac; Coelho Netto, 1954) – Acervo particular Os novos desenhos, entretanto, seguiam o mesmo estilo que os anteriores, representando personagens, episódios e cenários dos contos sem mudanças de sentido significativas, ao contrário das ilustrações das capas que mostram uma notável mudança na percepção dos “jovens brasileiros” aos quais era destinado o livro. Um caso excepcional de endereçamento preciso e consciente dos textos contidos no livro aos dois tipos de leitores-alvo, mediadores adultos e crianças, é o conhecido Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manuel Bomfim, publicado em 1910 pela Livraria Francisco Alves. Na longa “Advertência e Explicação” os autores fornecem instruções claras sobre as possibilidades que eles previam para o melhor uso daquele livro: servir como “livro único”, fornecendo “motivos, ensejos, oportunidades, conveniências e assuntos, para que o professor possa dar todas as lições, sugerir todas as noções e desenvolver todos os exercícios escolares, para boa instrução intelectual de seus alunos do curso médio, de acordo com os programas atuais e com quaisquer outros que se organizem com a moderna orientação da Pedagogia”. (Bilac; Bomfim, 1948, VI-VII) Mas é interessante notar também a percepção mais clara desses autores acerca do papel das ilustrações na “produção de sentidos” dos livros destinados às crianças. Em suas palavras: 88 Justamente porque procuramos apenas um pretexto para apresentar a realidade, preferimos ilustrar este livro somente com fotografias; se há nestas páginas alguma fantasia, ela serve unicamente para harmonizar numa visão geral os aspectos reais da vida brasileira. (Bilac; Bomfim, 1948, VIII-IX) Esta frase demonstra uma posição bem menos ingênua em relação a interação das imagens com o texto do que a intuição de Köpke, expressa dez anos antes, de que este recurso seria um “complemento utilíssimo”. Contudo, mesmo que as edições posteriores de Através do Brasil continuassem a ser introduzidas com a “Advertência e Explicação” da primeira edição, as fotografias em algum momento foram substituídas por gravuras que, contudo, seguiam o modelo “realista” das ilustrações originais. A capa de Através do Brasil, porém, diferentemente dos livros da “Biblioteca dos Jovens Brasileiros” da mesma editora não possuía nenhum atrativo, assemelhando-se às capas de História de nossa terra (Almeida, 1911) e Primeiras Saudades (Bomfim, 1920), o que pode indicar talvez uma economia justificada pela certeza do consumo destes livros pelo público escolar, ou ainda a ausência de qualquer expectativa em relação a sua apropriação para leitura recreativa ou vocação para serem ofertados como presente para crianças. Fig. 14 - Capa da 1a ed. de Através Fig. 15- Capa da 6a ed. de Histórias Fig. 16 - Capa da 1a ed. de do Brasil (Bilac; Bomfim, 1910) - da nossa terra (Almeida, 1911) - Primeiras Saudades (Bomfim, Acervo Biblioteca Nacional Acervo Biblioteca Nacional 1920) - Acervo Biblioteca Nacional Apesar do livro de Julia Lopes de Almeida não conter indicação da intenção da autora ou do editor de que fosse usado como “livro de leitura”, “educação cívica”, ou para algum 89 segmento específico de escolaridade, nem qualquer informação sobre sua aprovação ou adoção por autoridades da educação, o fato do livro ter chegado à 6a. ed. em 1911 (a primeira edição é supostamente de 1907) é um bom indício do sucesso e aceitação do livro. Histórias da nossa terra, uma reunião de contos, cartas e anotações fictícias de crianças, meninos e meninas, é uma exceção por não segmentar o público por gênero, e entre os livros publicados antes de 1920 é o único que não induz a esta distinção. Se considerarmos a pretensão de identificação dos leitores com os personagens, o livro reforça ainda a representação das meninas leitoras com fotografias de escolas femininas. Fig. 17 - Fotografia que ilustra o capítulo “A nossa Fig. 18 - Fotografia que ilustra o capítulo “A nossa língua” em bandeira” em Histórias de nossa terra (Almeida, Histórias da nossa terra (Almeida, 1911, 10) - Acervo Biblioteca 1911, 6) - Acervo Biblioteca Nacional Nacional Já Primeiras Saudades é, assim como Através do Brasil, apresentado como um “livro de leitura para o curso médio das escolas primárias” e, apesar de não se alongar tanto quanto no outro livro do qual é co-autor, Bomfim dedica algumas páginas para explicar o livro dessa vez para “pais e mestres”. Como em Através do Brasil, a despeito da narrativa ficcional dos dois livros, o autor novamente sublinha os componentes “verídicos” ou “realidades” contidas naquele livro de leitura, aspectos de sua intenção pedagógica: Aos pais e mestres 90 Um livro de leitura, para as escolas primárias, deve ser nimiamente educativo: é o primeiro que se oferece à criança, e é o resumo da própria escola. Fala à inteligência da criança e ao coração; condensa as lições, e dá ocasião, ao mestre, para comover e inspirar. Então, assunto tão sério, como a própria educação, não pode ser deixado simplesmente à fantasia. O livro de leitura deve ser nutrido de realidades, porque só a realidade educa; só a realidade é capaz de provocar os movimentos íntimos e as resoluções fortes e lúcidas com que se faz a educação da criatura humana. Este livro, que traz o intuito de servir à educação moral do aluno, é feito somente de realidades. Quase todos os episódios que aqui se lêem são verídicos: foram vividos e sentidos. Nestas páginas, fala uma criança – para que as outras crianças possam compreender e apreciar; mas procurei trazer para as palavras dessa criança pensamento e sentimento, porque, sem idéia, sem emoção, o livro de leitura deixaria de ser educativo: não teria influência sobre a alma da criança. [...] (Bomfim, 1920, 5) Dessa vez, porém, apesar do livro ser ilustrado, o autor não faz qualquer referência ao papel das imagens e o(s) ilustrador(es) também não recebe(m) qualquer crédito por seu trabalho. Contudo, é possível identificar a existência de uma assinatura nos desenhos que representam os personagens, cenários e situações fictícios narrados no livro, e outras nos trechos em que o protagonista Raul ou seu pai lembram, contam ou “lêem” estórias de outros autores como Kipling, Anatole France e Mark Twain. Neste caso, é provável que as imagens sejam reproduções das ilustrações dos originais e/ou das edições brasileiras. Um outro tipo de ilustração associa-se às “lições de coisas”. Estas, que representam elementos naturais como animais ou plantas, mas também povos indígenas (!), não possuem crédito ou assinatura. Mas uma novidade desse livro em relação às ilustrações feitas para representar elementos de ficção do enredo é a utilização de legendas, que reforçam a associação com um trecho específico da narrativa dentro do capítulo no qual se insere. 91 Fig. 19 - Ilustração do Cap. I “Foi-se a meninice” de Primeiras Saudades (Bomfim, 1920, 11) Fig. 20 - Ilustração do Cap. XX “Tom Sawyer” de Primeiras Saudades (Bomfim, 1920, 101) Fig. 21 - Ilustração do Cap. VIII “O Anhanguera” de Primeiras Saudades (Bomfim, 1920, 42) Aqui também há novidades em relação à representação dos papéis materno e paterno na educação dos filhos. Se o papel da “mãe como educadora” já estava relativamente difundido, não era tão comum idealizar-se um pai a ocupar-se tanto da educação e formação do filho como faz o pai do protagonista. Os “pais” nas ficções cívicas eram até então representados como “amigos”, exemplos de virtudes positivas e trabalho, mas em Primeiras Saudades o pai do protagonista Raul é praticamente um modelo de pedagogo. 92 No primeiro capítulo, o narrador/protagonista Raul relata sua ida para o colégio e seu pai é apresentado da seguinte forma: [...] Nem sei como papai teve coragem de separar-se de mim. Mamãe, esta combina com tudo que papai resolve, porque, também, ele nada resolve contra a vontade dela. Nunca os vi discutirem. Conchavam, concordam, mas é papai quem decide. Por isso, eu contava sempre com ele. [...] E como tenho para mim que a vida de criança terminou, quero aproveitar estes dias, aqui a bordo, para escrever todas as passagens importantes da minha vida, [...]. Em quase todas elas figura papai. É verdade que eu vivia mais tempo com a mamãe, mas, sempre que havia uma circunstância mais importante na minha vida papai estava ao meu lado ou eu o procurava. Ele tinha um tal modo de fazer as coisas e de dizer o que convinha que todos em casa aceitavam a sua direção sem nenhum constrangimento. Agora mesmo: ele esteve uma tarde a conversar com mamãe, diante de mim, a respeito da minha instrução. No fim, ficou resolvido que eu viria este ano para o colégio, e tudo se preparou imediatamente. (Bomfim, 1920, 9-12) Como o narrador já anuncia no primeiro capítulo, o pai figura em todas as passagens importantes de sua vida, que é propriamente o que será narrado no livro. Nesse sentido, este personagem ganha tanta importância quanto o protagonista, na medida em que as situações relembradas pelo menino são, em sua grande maioria, as “lições” de seu pai. Tais lições, deve-se ressaltar, não são apresentadas na forma de exortações, cartas ou discursos prescritivos do que fazer em uma ou outra situação, como era comum na literatura cívica (e continuou sendo, diga-se de passagem), mas aprendidas por meio de “provocações”, como se a cada momento o pai vislumbrasse a possibilidade de induzir o filho a um aprendizado. Porém, apesar desse “pai pedagogo”, no que diz respeito à infância brasileira o livro não é inovador em termos de gênero, considerando que novamente temos aqui um protagonista do sexo masculino e as meninas, que aparecem somente nas personagens das “primas”, servem de mero pretexto para exemplificar características não só negativas como também vícios tradicionalmente atribuídos às mulheres como a vaidade, a tolice e o gosto por futilidades. 93 No conjunto de livros cívicos de ficção, com exceção do livro de Júlia Lopes de Almeida, é somente na década de 1920 que encontramos um livro em que um menino e uma menina podem ser considerados igualmente protagonistas. Trata-se de Coração Brasileiro, cuja primeira edição não foi localizada e que teve uma segunda edição em 1925. Dedicado pelo autor Francisco Faria Neto a seus quatro filhos: José, Gláucia, Jessé e Samuel, os quais também emprestam seus nomes aos personagens, Coração Brasileiro é narrado em primeira pessoa por José, e organizado na forma de setenta e duas “palestras”. Esse formato, inclusive, já aparece anunciado na folha de rosto da 2a edição, editada pelo Anuário do Brasil, sendo posteriormente suprimido conforme se verifica na 5a edição da Francisco Alves, publicada em 1940. Esta já “revista e atualizada pelo autor” seria organizada em capítulos. Fig. 22 - Folha de rosto da 2 a. ed. de Coração Fig. 23 - Folha de rosto da 5a. ed. de Coração Brasileiro (Faria Neto, 1925) – Acervo Biblioteca Brasileiro (Faria Neto, 1940) – Acervo Nacional Biblioteca Nacional Note-se que, além das epígrafes retiradas da 5a. edição, muda também o texto que indica a chancela oficial do livro. Na segunda edição, afirma-se que o livro teria sido “aprovado e adotado pelo governo do Estado de S. Paulo para o 2o. ano do curso primário”, já na edição de 1940, a “obra” é apresentada como sendo “aprovada pelo Departamento de Educação de S. Paulo, para uso nas escolas públicas e particulares”. Mudança mais significativa, porém, é a supressão dos capítulos: “Cena da rua”; “Injustiça reparada”; “24 de Fevereiro”; “Uma glorificação”; “A escola dos tempos 94 passados”; “A republica na escola”; “Do jogo ao crime”; “A nossa língua”; além dos cinco últimos da 2a. edição. Ao ler os textos retirados fica claro o motivo da supressão: a maioria, direta ou indiretamente, faz o elogio da República. Em particular a “35a. palestra” intitulada “A república na escola”, aborda o tema explicitamente. (Faria Neto, 1925, 123-127) Se as modificações foram causadas por censura dos órgãos públicos, por exigência da nova editora do livro ou o próprio autor se antecipou à possibilidade de ver seu livro no ostracismo, não sabemos. Fato é que o “Preâmbulo” da 5a. edição é assinado pelos editores e são eles que sublinham a “cuidadosa revisão e atualização pelo autor”. A questão é que, para um regime autoritário como o Estado Novo, cuja principal referência negativa era o “excessivo liberalismo” atribuído às constituições republicanas anteriores, associado a experiência da Primeira República e ao sistema representativo, não seria nada coerente permitir a utilização de um livro com conteúdo francamente republicano e liberal nas escolas. Contudo, a sobrevivência após o Estado Novo de um livro tão vinculado aos ideais e valores da Primeira República demonstra a habilidade política do editor (naquele momento específico, editores) da Francisco Alves. Como, aliás, a capacidade de continuar editando outros títulos bem mais antigos e do mesmo gênero como Contos Pátrios e Através do Brasil. O caso de Coração Brasileiro deixa óbvio também que para “compreender” o autor a partir de seus livros é fundamental recorrer sempre que possível à primeira edição. Neste exemplo, em particular, sem conhecer os capítulos retirados jamais se poderia supor a militância republicana de Faria Neto. Autores de livros cívicos foram freqüentemente alvo de críticas por seu excessivo “didaticismo”, que para alguns críticos justificaria mesmo a não consideração de seus textos como “literatura infantil”. Contudo, pode-se dizer, ter um livro adotado pelas escolas nunca deixou de ser almejado por todos os envolvidos na produção de livros para crianças, principalmente em tempos de reduzida escolarização e poucos leitores, por ser garantia de maior consumo, logo de maior alcance e popularidade e, conseqüentemente, de maior retorno financeiro. Com isso o tom didático pode ser tomado por uma estratégia para conquistar as autoridades escolares. Ou pode também ter outra explicação. No caso dos autores aqui abordados, considerando suas biografias pessoais, profissionais e intelectuais, é possível somar motivações mais prosaicas como o ganho pecuniário ao que pode ser reconhecido efetivamente como uma militância política, levada a cabo nessa produção de livros com teor nacionalista para crianças. Nesse sentido, o tom 95 didático pode ser interpretado como ânsia de comunicabilidade ou até escassez de recursos estéticos e literários. Afinal, produzir literatura para crianças, a despeito do que se pensa, não é tarefa fácil. E que melhor meio de intervir socialmente a fim de realizar um ideal de nação utopicamente concebido do que “inculcando” valores e hábitos, “formando” os homens do futuro numa fase da vida em que, segundo a concepção daqueles autores, seu público se assemelhava ao “barro dútil e moldável”? Para Bilac, por exemplo, o mais prolífico escritor para crianças em seu tempo, a importância que atribuía à produção de livros infantis na primeira década do século XX está exemplarmente descrita na conversa relatada por João do Rio ao visitar o poeta, a fim de recolher suas respostas para a enquete publicada em O Momento Literário. - Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu. - Versos? Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto. Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável. [...] (apud Bueno, 1996, 28) Já na carta fictícia que introduz os diálogos de A Grande Pátria, o pai comenta com o filho as condições nas quais saía aquele livro. E vê só em que época permitiu o acaso que o nosso livrinho saísse do silencio da minha gaveta para a agitação do grande mundo!...No ano em que a nossa Pátria celebra o quanto centenário do seu descobrimento. Sem ser homenagem de apreço, que expressamente lhe votássemos, vai, contudo, aparecer como um atestado de que o amor dessa Pátria ainda prende seus filhos ao estudo da sua historia, e que eles, delirantes de prazer quando lhe lêem as paginas fulgurantes, gemem com ela sempre que a narração a mostra acabrunhada ao peso de adversidades. Valha-nos, ao menos, a consciência de que assim sinceramente a amamos para relevar a insignificância do valor do nosso tributo; e, nos quatro séculos de existência enobrecida por feitos do mais requintado civismo, que a trouxeram da Colônia à Republica, alentemos as esperanças para nos convencermos de que o Sr. Dr. Manoel Ferraz de 96 Campos Salles e seus sucessores hão de continuar dignamente a obra de nossos antepassados, levantando a Nação ao apogeu da grandeza, se, compenetrados todos da excelência do novo regime político, lhes trouxerem o contingente de patriótica colaboração. (Köpke, 1900, XI) Em Alma:educação feminina, Coelho Netto declara seu amor pela língua portuguesa ao defender o uso correto do idioma. O autor de Terra Pernambucana, por sua vez, faria sua declaração na própria dedicatória do livro: “À minha terra e à minha gente a que quanto mais vivo, mais quero” (Sette, 1932). Para terminar as declarações de amor à pátria, cito Faria Neto que, no “Preâmbulo” da 2a edição de Coração Brasileiro, reconhecia: Com prazer, cumpre o autor, antes de mais nada, com um dever, - o de agradecer muito de coração o acolhimento franco e bondoso do professorado público e da imprensa, não só do Estado de S. Paulo, como de outros Estados da União; cujo acolhimento além de ser uma prova de solidariedade muito confortável para o espírito brasileiro, é um testemunho altamente significativo de que o autor como brasileiro, não errou o alvo. Ele, de fato, guiou-se na feitura deste trabalho, mais pela influência do seu coração, tendo sempre em vista o seu povo, pelo qual tanto estremece e por sua terra pela qual tanto se bate e, por isso, pode dizer com o velho e quase esquecido poeta Ferreira: ‘Eu desta glória só fico contente, Que a minha terra amei, e a minha gente’. (Faria Neto, 1925) Deve-se ressaltar que na obra de alguns desses autores é possível vislumbrar um verdadeiro programa para a formação da infância brasileira, o qual muitas vezes convergia com suas atividades extraliterárias. Para mencionar apenas alguns exemplos, Manuel Bomfim e Olavo Bilac ocuparam cargos de destaque na Diretoria de Instrução Pública Municipal do Rio de Janeiro. Bomfim foi também professor de Instrução Moral e Cívica da Escola Normal e Bilac se envolveu ativamente na campanha pela instrução primária e pelo serviço militar obrigatório consolidada na criação da Liga de Defesa Nacional. Coelho Netto também se engajou na Liga, chegando a publicar por ela o seu Breviário Cívico. Sendo os autores com maior número de obras de caráter cívico-pedagógico, Bilac e Coelho Netto ainda se notabilizaram pela promoção do civismo em discursos, conferências, na propaganda do Escotismo, sempre destacando o problema urgente da formação da nacionalidade. 97 A respeito de Júlia Lopes de Almeida, vale sublinhar sua singularidade. Considerando a especificidade do seu livro, no qual as personagens de crianças do sexo feminino aparecem em grande número em forte contraste com os textos dos outros autores, sua leitura sugere uma espécie de transposição dos temas freqüentes da autora, ligados à educação feminina e afirmação do papel social da mulher, para o âmbito da valorização da infância brasileira, com a qual apenas os meninos poderiam se identificar até aquele momento. Se, enfim, a maioria dos livros aqui analisados foi publicada tendo em vista a sua adoção nas escolas primárias, este aspecto, porém, pode ser interpretado como sintoma da especial relevância atribuída pelos intelectuais da Primeira República a este setor de ensino no processo de formação nacional e, logo, como meio de intervenção política e social. Em relação aos editores, é importante desde logo apontar um protagonismo. Dos dezesseis livros que compõem a lista acima, seis foram editados desde a primeira vez por Francisco Alves. Coração Brasileiro passou a ser da mesma casa editora em algum momento entre a 3a e a 5a edição. Mas essa informação torna-se ainda mais significativa se considerarmos que dos dezesseis livros, apenas nove passaram da primeira edição, e aí se incluem todos pela Francisco Alves, o que parece ser um dado significativo para avaliar a competência dessa editora em relação a outras publicando livros do mesmo gênero e na mesma época. Em seu estudo sobre Francisco Alves, Aníbal Bragança (1999) chama a atenção para a contribuição deste editor para a modernização da indústria editorial e para a profissionalização do escritor no Brasil, numa interessante abordagem a partir dos contratos entre a editora, que na época confundia-se com o editor, e os autores, Bragança consegue efetivamente demonstrar uma prática diferenciada deste editor em relação a outros contemporâneos. Um depoimento de João Ribeiro, autor de vários manuais e compêndios escolares, na ocasião da morte do editor em 1917, permite avaliar o reconhecimento das qualidades particulares de Francisco Alves: Das 150 edições dos meus livros didáticos correram e correm ainda muito perto de um milhão de exemplares. Mas...tudo isto foi a obra do editor... Em mãos de outros ou nas minhas, gramáticas e compêndios nada valeriam e disso fiquei certo por algumas experimentações decisivas. Era o editor com seu serviço admirável de propaganda... Ele pagava o meu trabalho e em melhores condições que outros quaisquer... Era dedicado, pronto, fiel, exato e liberal. (apud Hallewell, 1985, 211-212) 98 A respeito dos outros editores de livros cívicos para crianças há poucas informações. Sobre I. Bevilacqua e C. de América, e J.R. dos Santos de Alma, por exemplo, não se sabe praticamente nada. Somente a partir da década de 1920 nota-se uma maior diversificação com a concorrência de editoras paulistas, articulada a ambição de se estender ao máximo possível dentro dos limites do mercado nacional. Mas importa também notar alguma descentralização, o que é denunciado pela publicação de livros cívicos com caráter regional. Nesse sentido, temos A terra fluminense com somente uma edição, de 1898, pela Imprensa Nacional; Histórias da terra mineira de Carlos Góis, publicado pela primeira vez em 1914, com “edição e propriedade do autor”; e Terra Pernambucana, de Mario Sette, cuja terceira edição é de 1932, pela Imprensa Industrial do Recife. E é interessante que, tendo em vista sua inserção em um mercado delimitado pelas fronteiras estaduais, os livros mineiro e pernambucano tenham alcançado êxito deveras significativo, o que é atestado pela existência de uma 14a. edição do livro de Carlos Góis, em 1947, e pela 3a. edição do livro de Mario Sette que, entretanto, publicou pela Companhia Melhoramentos de S. Paulo Brasil, minha terra! Além das informações contidas na capa e na folha de rosto - intenção de uso como livro de leitura, assunto moral e cívico, história regional, aprovação e adoção pelas autoridades estaduais de educação e, na 14a. edição, anunciada como obra “premiada com a medalha de outro na Exposição do Centenário” -, Carlos Góis ainda reproduzia no interior do livro uma certidão de 1913 pela qual as autoridades de ensino chancelaram o livro. Aprovada, segundo a certidão, para o “4o. ano dos Grupos Escolares e 1o. ano dos cursos ginasial e normal”, na capa autor e editor ressaltavam sua destinação para as “escolas primárias” (1914) e “escolas singulares” (1947). No caso de Terra Pernambucana, o livro também conseguiria a chancela oficial das autoridades de ensino do estado, exibindo na capa: “Obra aprovada Instrução Pública de Pernambuco e adotada nas suas escolas”. Mas, a despeito do êxito de livros escolares vocacionados para o mercado regional, os números alcançados pelas edições dos livros cívicos da Francisco Alves são absolutamente incomparáveis. Não por acaso também, entre os quatro maiores sucessos da editora nesse gênero, três eram da autoria de Olavo Bilac: Poesias Infantis, de sua autoria exclusiva; Contos Pátrios, com Coelho Netto; e Através do Brasil, com Manuel Bomfim. O quarto entre os best- 99 sellers do civismo brasileiro que, entretanto, teve vida mais curta, foi Histórias da Nossa Terra de Julia Lopes de Almeida. Poesias Infantis, primeiro volume da “Biblioteca dos Jovens Brasileiros” com resultados mais modestos que os outros, estaria na sua 27a. edição em 1961. Contos Pátrios, segundo volume da mesma Biblioteca, seria o que em termos numéricos (considerando as dificuldades de localização dos exemplares e que podem induzir uma conclusão equivocada) alcançaria o maior êxito, chegando à 50a. edição em 1968, e Através do Brasil estava na 43a . edição em 1957. Já a respeito de Histórias de Nossa Terra, a última edição de que temos notícia é a 21a. de 1930. Esses livros da Francisco Alves, no que diz respeito à literatura infantil brasileira de caráter cívico, só foram ultrapassados por Saudade (Andrade, 1919) que, editado pela Companhia Editora Nacional estava na 61a. edição em 1969 e chegaria à 64a. em 1977. Esses dados parecem corroborar a tese de Aníbal Bragança sobre o lugar pioneiro de Francisco Alves para a consolidação da moderna indústria editorial no Brasil. Não fosse essa sua qualidade particular e mais tarde a habilidade dos editores que o sucederam, teriam estes livros vida tão longa? Cabe aqui lembrar da nota de “Apresentação” à 5a edição do Coração Brasileiro, assinada pelos editores, os quais conseguiram com notável perspicácia política (além da revisão e atualização atribuídas ao autor que, contudo, não se manifesta nessa edição), garantir a sobrevida de um livro tão identificado com os ideais republicanos em tempos de Estado Novo. A “Livraria Francisco Alves” reeditando, apos cuidadosa revisão e atualização pelo autor, o livro “CORAÇÃO BRASILEIRO”, julga ter prestado à causa da educação primaria no Brasil mais uma contribuição de valor. O autor, professor Francisco Faria Neto é um educador conhecido. [...] “CORAÇÃO BRASILEIRO” é um livro em que o autor visou duas finalidades principais: - a educação cívica e a formação moral da infância de hoje, sobre cujos ombros recairá toda a responsabilidade do Brasil de amanhã. O livro de leitura diária não é, para as crianças, um simples agente para aprendizagem da língua. Ele deve concorrer em tudo e por tudo para educar, para concorrer no esforço de fazer de cada menino uma célula integrada no organismo da Pátria. 100 “CORAÇAO BRASILEIRO” é um livro interessante, em que cada trecho procura inocular no coração da infância idéias nobres e sentimentos generosos. Alias, assim bem formado sempre foi o coração brasileiro e, principalmente, o coração dos professores, ao qual os editores confiam o livro. OS EDITORES. (Faria Neto, 1940) Por fim, o que dizer sobre os leitores? No âmbito da história da leitura, compreender o leitor infantil é uma das tarefas mais difíceis. Pois, como lembram Zilberman e Lajolo, o tipo de representação presente nos livros infantis mais do que dizer algo sobre a criança, “deixa transparecer o modo como o adulto quer que a criança veja o mundo” (2006, 19). Mas considerando a noção de que os significados são produzidos a partir de uma negociação entre leitores e livros e que sempre são muitos os resultados possíveis, os livros certamente têm algo a dizer sobre seu público consumidor. No caso da literatura infantil de caráter cívico é possível saber algumas características de seu leitor a partir das indicações de uso que já são oferecidas de imediato: faixa etária e de escolaridade, em alguns casos gênero, grau de competência de leitura a partir da organização tipográfica, etc. Entretanto, no que diz respeito aos dispositivos inscritos no texto pode ser útil recuperar o lugar que Iser (1996) atribui ao “leitor implícito” no ato de leitura. Para ele, a leitura é negociação entre um texto, que pré-estrutura um papel para o leitor (implied reader), e os “leitores reais” que põem em jogo suas próprias experiências ao desempenhar aquele papel. Essa noção é interessante para pensar o caráter de projeto do qual estão imbuídos os textos cívicos, assim como os destinatários destes projetos pedagógicos, em última instância aqueles capazes de identificar-se com uma representação bastante excludente da infância brasileira. O que os livros cívicos nos dizem sobre seus leitores ideais, circunscritos pela categoria “infância brasileira” (Hansen, 2007), é que esta é composta, em síntese, por crianças do sexo masculino, brancas, alfabetizadas, entre dez e doze anos de idade, aproximadamente, e pertencentes às camadas médias urbanas. Quaisquer que fossem os “leitores reais” destes livros, eles obrigatoriamente tinham que negociar com esta representação ideal. 101 A infância brasileira da ficção cívica, portanto, não se confunde com a totalidade da população infantil do Brasil na Primeira República. Trata-se de uma classificação que coexiste com outras infâncias, classificadas e transformadas em objeto de outros projetos, como o dos Institutos de Proteção e Assistência à Infância, por exemplo. Nestes, a título de comparação, as crianças vêm de famílias pobres, e sendo seu principal objetivo “salvar moralmente” essa infância desamparada, atuariam privilegiadamente sobre as crianças menores de oito anos, conforme determinava o médico Moncorvo Filho (1926, 141-146). No caso da literatura cívica, finalmente, o significado de “brasileiro” não estava associado de modo estrito ao direito de cidadania e nacionalidade garantido pela Constituição de 1891, adquirido pelo nascimento. A enunciação mais clara dessa acepção encontra-se em Minha terra e minha gente de Afrânio Peixoto (1916) mas a leitura dos textos cívicos permite identificar essa concepção entre vários outros autores. Para Peixoto, “brasileiro” era uma qualidade que não se adquiria por nascimento, mas por formação. Tal aparece expresso na afirmação do autor de que: “Para educar, isto é, conduzir, socialmente, os futuros brasileiros, parece que não deveria haver outro caminho, além deste da verdade honestamente procurada e dita com franqueza”. Nesta acepção, portanto, o menino seria brasileiro no futuro, depois de sofrer uma ação pedagógica que o transformasse efetivamente em um cidadão. Mais uma vez, essa noção reforça a interpretação de parte significativa dos livros cívicos enquanto projetos nacionais e serve para distinguir o cerne destes projetos, a identificação de um sujeito: a “infância brasileira”, que ao se tornar objeto de uma ação pedagógica eficaz transformar-se-ia no principal agente do progresso do país. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, Julia Lopes de. Histórias da nossa terra. 6. ed.. Rio de Janeiro: Francisco Alves; Formatted Paris, Aillaud, 1911. Ariès, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2. ed.. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 1981. Bilac, Olavo. Poesias infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1904. Formatted 102 Bilac, O.; Coelho Netto, H.. A terra fluminense. Educação cívica. (livro unanimemente aprovado pelo Conselho Superior de Instrução do Estado do Rio de Janeiro). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1898. Bilac, O.; Coelho Netto, H.. Contos Pátrios. 7a. ed.. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1911. 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Esta dicotomia é geralmente ilustrada por aqueles que acreditavam incondicionalmente no potencial das riquezas naturais, no Brasil como “país do futuro”, de um lado, e por aqueles que não viam possibilidade de progresso devido à condenação dos brasileiros pelos diversos determinismos, de outro. Além disso, essa visão polarizada pode ter se acentuado em razão das acirradas polêmicas da época, nas quais as posições tendem sempre a se radicalizar. (Hansen, 2007) Em seu tempo, porém, Bilac foi abertamente um crítico do ufanismo contemplativo, que encontrou sua maior expressão em Afonso Celso. Cito, a respeito disso, um trecho da palestra no Ginásio Granbery em 1909, no qual o autor se posicionava da seguinte forma: [...] Falemos um pouco do patriotismo, e procuremos defini-lo com precisão, porque não há talvez sentimento que, como esse, possa ser deturpado por uma falsa compreensão da idéia ou do vocábulo. Há um patriotismo mal pensado, que pode ser funesto à pátria e ao patriota [...]. Refiro-me a um falso patriotismo, a que darei o nome preciso de ‘megalomania patriótica’, perigosa exacerbação do orgulho nacional, [...]. Desse falso patriotismo, o mais freqüente sintoma é a vaidade condenável com que alguns dizemos habitualmente: ‘este país é o mais rico do mundo!’; - como se, em primeiro lugar, a riqueza natural bastasse para dar invejável glória a um país, e como se, além disso, a experiência nos não estivesse mostrando claramente a inanidade absoluta de tal orgulho! [...] As nossas apregoadas riquezas jazem escondidas quase todas no seio escuro da terra; existem, mas é como se não existissem, porque ninguém as vê, ninguém as aproveita, ninguém as vai arrancar dos veios recônditos em que dormem. [...] Todas estas considerações, meus jovens amigos, são apenas um aviso à vossa inexperiência. Não deveis estrear a vida com a funesta ilusão de ser este o mais forte, o mais rico, o mais próspero país da terra. (Bilac, 1996: 681-693) Comunicação apresentada no XXVI Simpósio Nacional de História (ANPUH), realizado em São Paulo em julho de 2011. 106 No mesmo discurso, o autor chamava a atenção de seu público sobre aquilo que considerava ser uma atitude ainda mais perigosa do que a “funesta ilusão” do ufanismo: o pessimismo esterilizador 45. Não sendo, portanto, incondicionalmente otimista e nem fatalmente pessimista, Bilac, assim como outros que não poderiam identificar-se de forma estrita com uma dessas posições, condicionava suas esperanças em relação ao futuro nacional à realização de um projeto. Ainda no mesmo discurso, o autor diz o seguinte a respeito da educação, um dos eixos do seu próprio projeto que culminaria numa famosa campanha cívica: o fim da educação não é preparar eruditos frios, nem sábios secos, nem ideólogos impassíveis, indiferentes às lutas sociais: é preparar homens de pensamento e ação, a um tempo compassivos e enérgicos, corajosos e hábeis, capazes de empregar valiosamente em proveito da coletividade todas as forças vivas da sua alma e todo o arsenal de conhecimentos de que os apercebeu o estudo. Em um país novo como este, onde quase tudo ainda está por fazer, seria absurda e monstruosa a existência de cenobitas do ideal, de anacoretas da ciência, poetas ou filósofos, matemáticos ou artistas, isolados no estudo egoísta, surdos à agitação da existência comum dos homens, insensíveis às sugestões do meio em que vivem. [...] Estudando bem as condições políticas e econômicas da nossa pátria, vereis, meus jovens amigos, que os homens da vossa geração vão receber um honrosíssimo, porém onerosíssimo legado. (Bilac, 1996: 683-684, grifo nosso). O trecho deixa claro que há uma necessidade da ação humana eficaz, empreendida por homens preparados pela educação, para aproveitar as inegáveis riquezas naturais do país. E não era mais o ideal humanista que devia embasar a educação, e sim uma espécie de pragmatismo nacionalista que, pode-se dizer, estava por trás de todo o projeto bilaqueano. Note-se também a responsabilização direta de sua audiência, constituída por estudantes de uma escola particular, e que seria recorrente em suas conferências e discursos. É importante sublinhar que uma parte significativa dos projetos surgidos na Primeira República, destacadamente aqueles articulados à Educação, tiveram as crianças como objetos e sujeitos privilegiados. A centralidade conferida à infância nestes projetos foi resultante de dois impulsos principais. O primeiro, uma espécie de eco da notável mudança nas sensibilidades que se 45 “Não nos deixemos possuir de orgulhos vãos, mas também não nos deixemos invadir dessa desmoralizadora enfermidade do pessimismo, a que Carlyle deu a perfeita classificação nosológica de ‘paralisia moral’. O pessimismo, ‘atrofia crônica da alma’, é um criador de títeres, quando não de escravos. [...] Na megalomania patriótica, há somente hipertrofia da vaidade; mas, no pessimismo tudo é anulação da consciência e da vontade, tudo é degradação moral. Todo o pessimista é um doente perigoso, porque a sua doença tem uma prodigiosa expansão de contágio. E quando esse pessimista dispõe de um meio ativo de propaganda, uma tribuna no parlamento, uma coluna de jornal, uma cadeira de academia ou de liceu, - a sua existência e a sua permanência no apostolado são calamidades sociais [...]”. (Bilac, 1996: 681-693) 107 operou em alguns países europeus, notadamente na França e na Inglaterra, que permitiu a Philippe Ariès chamar ao século XIX, o século da infância. O segundo impulso seria gerado pelo contexto que se configurou a partir dos eventos da Abolição e da Proclamação da República, os quais associados fortemente às noções de sepultamento de uma ordem ultrapassada e de refundação, tornaram o momento propício a todo tipo de elaborações conceituais, estéticas e simbólicas vinculadas à construção do “novo”. Nesse sentido, a criança passa a ser uma metáfora freqüente do Brasil, tornando-se, de acordo com Sevcenko (2003: 306), um dos emblemas dos “grupos emergentes, empenhados em fazer ruir e enterrar as ‘estruturas fossilizadas’ do Império e, ao mesmo tempo, criar um jogo de imagens que seriam a antítese dos símbolos estéreis do [...] velho Brasil, sugerindo a imagem de um novo início [...]”. É nesse contexto que se encaixam os diversos projetos e iniciativas que tinham as crianças como objetos de intervenção privilegiados. Trata-se, na verdade, como diz Michelle Perrot, do reconhecimento da criança como “ser social” (Perrot, 1999: 148). No Brasil, ao fazer uma retrospectiva histórica, em 1926, da proteção à infância no país, o médico Moncorvo Filho chama de “moderno” o período compreendido entre 1889 e 1922, o qual corresponde à “época em que começou a intensa propaganda de higiene infantil e o interesse geral pela criança como fator social” (Morcorvo Filho, 1926: 15-16). Esse novo valor da criança, que não por acaso Moncorvo Filho percebe como tendo início na República (ecoando a operação simbólica que apontei acima), toma a infância como objeto sobre o qual deve-se agir. As crianças devem ser “salvas”, “cuidadas”, “protegidas”. Nem sempre, porém, se atribui explicitamente às crianças o papel de sujeitos do progresso do país. É o caso, por exemplo, das crianças que, ao invés de “fator social”, são percebidas como “problema social” ou “caso de polícia”, a exemplo da infância “perigosa” ou “em risco” para a qual as soluções freqüentemente passaram pela internação ou outras medidas que, sem o investimento necessário em educação pouco faziam para transformá-las em sujeitos ou futuros cidadãos. Vários “projetos” deste tipo, vistos como ineficazes e por vezes até cruéis, foram denunciados à época. E o próprio Bilac escreveu muitas crônicas para sensibilizar seu público para estas situações. É o caso, por exemplo, da crônica de 27 de agosto de 1893, publicada na Gazeta de Notícias, em que o autor fala da revelação do Jornal do Comércio dos horrores praticados em asilos particulares: 108 As crianças, nuas e famintas, rolam numa imundície sem par. E meninas, na idade em que desperta o pudor, têm apenas a cobrir-lhes o corpo uma tanga esfarrapada. Há meses, capturou a polícia uma quadrilha de pequenos gatunos, [...]. E todos os jornais noticiaram então, que muitos desses menores eram desertores dos asilos particulares. Essa notícia passou sem comentário, entre as preocupações o egoísmo desta sociedade indiferente. E nenhum dos ricos que têm dado dinheiro aos asilos, nenhum desses felizes que podem converter a caridade num sentimento de luxo, num enfeite do próprio nome, como uma condecoração ou um título, - nenhum deles se revoltou ao saber que subsidiava escolas de crime, dando contos de réis para o custeio de fábricas destinadas a fornecer homens à gatunagem e mulheres à desgraça. [...] Há então nas revelações recentes um pormenor, que parece arrancado ao volume dos Tempos Difíceis do grande mestre [Dickens]. Os meninos, quando conseguem iludir a vigilância do diretor, fogem à noite do asilo, e, antes de ganhar a liberdade, voltam-se para apedrejar a casa em que sofreram. Que ódio corrosivo e terrível deve ulcerar as almas tristes dessas crianças, que fermentação de rancor e de amargura deve ferver nesses corações apenas desabotoados à vida! E que homens, educados para a maldade, para a vingança e para o egoísmo, devem sair desses asilados, - que os asiladores, na sua fome alucinada de reclame, forçam à humilhação de andar espetaculosamente pelas ruas, a beijar as mãos de quem lhes atira à miséria um pedaço de pão. Ah! Se a voz de quem escreve estas linhas, pudesse merecer a atenção dos ricos e dos influentes, pedir-lhes-ia que acolhessem uma idéia generosa e prática: a fundação de uma Sociedade Protetora das Crianças, para que os seus delegados, a quem a polícia concedesse certo prestígio de autoridade, pudessem vigiar de perto todos os asilos públicos e particulares, fiscalizando a educação dos pequeninos, que vieram ao mundo pobres de dinheiro e de amor. Porque a polícia tem realmente mais que fazer: todo o seu tempo é pouco para espionar conspiradores e preparar eleições. (Bilac, 2006: 41-42) Em outro momento, a conhecida Escola Quinze de Novembro seria o alvo de graves denúncias, num episódio que para o cronista seria “a prova de que o homem consegue sempre, com uma habilidade diabólica, fazer de uma coisa boa uma coisa má, dando-lhe a aparência de ótima” (Bilac, 2006: 497). No conjunto de suas crônicas sobre a infância, o alvo principal dos ataques do autor era, na verdade, a “indiferença” ou o “relaxamento” da sociedade brasileira em geral e da carioca, em particular, em relação ao assunto. É interessante contrastar a temática da infância nas crônicas de Bilac, e essa é uma das temáticas mais freqüentes da sua produção jornalística, com a infância representada na sua obra de ficção. Como publicista, Bilac levanta a voz muitas vezes a favor de uma legislação para regulamentar o trabalho infantil, para apoiar a criação de creches, para exigir a ação policial na repressão da exploração de crianças e para denunciar os maus-tratos sofridos pelas 109 crianças, sem nunca perder a capacidade de se indignar e tentar sensibilizar seus leitores para o assunto. Por outro lado, ele próprio registra positivamente seu testemunho sobre a profunda diferença entre a experiência da infância para os homens de sua geração e a das crianças do início do século XX. Em suas palavras, ao narrar a Exposição para a Gazeta de Notícias de 27 de setembro de 1908, dizia: [...] Foi também nesse dia, ou no dia seguinte, que se realizou na Exposição a primeira festa dedicada às crianças dos colégios. Ora pois! Já as crianças são criaturas dignas dessa consideração! Já uma grave e circunspecta comissão (em que há um general, e vários engenheiros e bacharéis) não acha indigna da sua respeitabilidade a preocupação de organizar folguedos para a pirralhada! Como os tempos mudaram!...[...] Todas essas notícias e todos esses acontecimentos [...] me vieram lembrar esta cousa triste: que nunca fui verdadeiramente menino e nunca fui verdadeiramente moço. A cousa não teria importância, se fosse uma desgraça acontecida a mim somente: mas foi uma desgraça que aconteceu a toda uma geração. Toda a gente do Rio, que tem hoje a minha idade, deve estar sentindo, ao ler estas linhas, a mesma tristeza. Fomos todos nós criados para gente macambúzia, e não para gente alegre. Nunca os deixaram gozar essas duas quadras deliciosas da vida em que o existir é um fator divino. Os nossos avós e os nossos pais davam-nos a mesma educação que haviam recebido: cara amarrada, palmatória dura, estudo forçado, e escravização prematura à estupidez das fórmulas, das regras e das hipocrisias. [...] Quem se lembra jamais, ó Cariocas da minha geração, de dar-nos festas infantis? As nossas festas eram torturas: vestiam-nos uma roupa nova, entalavam-nos os pés [...] e levavam-nos a passeio com esta medonha intimação: ‘’E preciso estar quieto! É preciso ser sério! É preciso ser homem!’ Tanto nos recomendavam isso, que ficamos homens antes do tempo. E que homens! Céticos, tristes, de um romantismo doentio... (Bilac, 2006 vol 1: 895-896) Apesar desta crítica da educação “passada”, contudo, é necessário aqui remeter ao paradoxal elogio da precocidade do menino em toda a obra infanto-juvenil de Bilac e em suas conferências. Para citar apenas um exemplo, uma década depois desta crônica, na vigência da Primeira Guerra Mundial, o autor discursava aos alunos do Colégio Aldridge, exortando-os com as seguintes palavras: Falando-vos, meus amigos, não falo já a crianças, mas aos homens que já deveis ser. Nesta crise perigosa da formação do Brasil, é preciso que a vontade, a seriedade e a atenção já estejam dominando os espíritos das crianças. A tarefa é imensa e urgente, [...], e que na inocência do menino já se afirme a energia do cidadão. [...] Guardai estas palavras, como lembrança de um homem que nunca teve descrença e nunca desesperou do futuro do Brasil. [...] 110 Crianças, sede homens desde já! O Brasil precisa de almas puras como as vossas. Entre os vossos estudos e os vossos brincos, pensai sempre que deveis ser fortes, corajosos, bons, alegres, confiantes na vossa terra, - e apaixonadamente brasileiros! (Bilac, 1996: 907-908) Essa contradição, porém, não ofusca a percepção pelos contemporâneos, e nem deve ofuscar a nossa, de uma profunda mudança nas sensibilidades no que diz respeito à hierarquia estabelecida socialmente entre as etapas da vida, a qual iria, conseqüentemente, articular-se a uma modificação dos valores atribuídos a ascendentes e descendentes e, por extensão, ao tempo passado e futuro. Tal mudança é também registrada por autores como Alberto Torres, que a nota em relação ao conceito de pátria, e Gilberto Freyre que a percebe traduzida pelas transformações da família. Nas palavras do primeiro: No lugar onde nos instalamos se nem sempre se contempla a árvore secular que relembra a memória paterna, olha-se, com mais carinho, para os rebentos que hão de seguir a vida dos posteros. A emoção estética da pátria representa-se numa imagem primaveril, em lugar da imagem outoniça, que atraía o olhar de nossos pais. [...] [...] A sensação de segurança e de proteção legal tranqüiliza e conforta os espíritos; sobre o sentimento natal, que prende a maior parte às afeições do passado, o zelo, predominante, pela sorte dos filhos, lançou um estímulo mais intenso, mais lutador, mais persistente, de interesse pela conservação e pelo progresso da terra da prole. À pátria dos pais, dos antigos, sucedeu, para o homem contemporâneo, a pátria dos filhos. A história terá de registrar, nesta inversão do sentido da palavra, um dos mais belos fenômenos de progresso, na vida dos vocábulos. (Torres, 1914: 75-76) Freyre, por sua vez, articula a posição de maior destaque da infância às transformações políticas e sociais ao observar a predominância de fotografias de crianças nos álbuns de família daquele período: Ao brasileiro médio do fim do império e do começo da República não faltou o gosto pelo retrato; pela fotografia de pessoa; pela fotografia de criança mais do que pela do antepassado; ou pela fotografia de criança mais do que pela reprodução de retrato do antepassado. É o que parecem indicar as coleções particulares; os álbuns de família. O que, sendo certo, valeria como sintoma de uma tendência já contrária à mística, então ainda dominante, em torno dos valores e símbolos patriarcais: a exaltação da figura da criança sobre a figura do ancião, do antepassado, do velho. A exaltação do Futuro maior que a exaltação do Passado. Mística que não poderia deixar de favorecer a novidade republicana e de desprestigiar a tradição monárquica, embora a essa valorização tenham ainda se oposto, na própria época de transição considerada [...], consideráveis pendores do brasileiro para a conservação de valores ancestrais; e até para a rotina patriarcal em torno deles. (Freyre, 2000: 142) 111 É interessante sublinhar que até sua morte em 1918 Bilac foi um dos mais produtivos autores brasileiros de ficção para crianças. O lugar que atribuía a esta atividade não pode ser considerado apenas por tratar-se de uma atividade lucrativa, devido ao seu potencial para uso nas escolas. A conversa relatada por João do Rio, ocorrida durante sua visita ao poeta para recolher respostas a enquete publicada em O Momento Literário, em 1907, demonstra já alguma consciência que autor tinha de sua obra enquanto um projeto. - Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu. - Versos? - Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto. Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável. [...] (Bilac, 1996: 28) Em 1907, Bilac já havia publicado muitos livros de ficção ou didáticos para crianças do ensino primário, sozinho e em colaboração. Em ordem cronológica seus livros para este público foram: A terra fluminense (1898) com Coelho Neto; Livro de Composição (1899) e Livro de Leitura (1901) com Manuel Bomfim; Poesias Infantis (1904); Contos Pátrios (1904) e Teatro Infantil (1905) com Coelho Neto. Em 1909 ainda publicaria A Pátria Brasileira com Coelho Neto e em 1910 Através do Brasil com Manuel Bomfim. É na sua obra de ficção, contudo, que seu projeto ganha forma, complementando e sendo complementado pela atividade jornalística e pelo engajamento em campanhas cívicas. Apesar de escrever a maioria desses livros em co-autoria é possível perceber um padrão que reconhecemos como sendo próprio ao autor, o que é confirmado pela repetição de determinados tópicos no único livro de sua autoria exclusiva, Poesias Infantis, e nos contos que assina individualmente em Contos Pátrios. Ao mesmo tempo, percebemos as diferenças entre alguns aspectos presentes nestes livros e os assuntos priorizados por seus colaboradores, Coelho Neto e Manuel Bomfim, em suas próprias obras individuais. A principal especificidade do projeto bilaqueano é a ênfase no modelo militar, do soldado como ideal de masculinidade, de uma ética e de uma estética marcial e espartana. Esta representação praticamente não aparece nos livros individuais de seus colaboradores. Nesse sentido, a criação do escotismo na Inglaterra em 1908 viria ao encontro da busca da representação ideal para a infância brasileira. No texto introdutório que escreve para O livro do escoteiro de 1916, Bilac ressalta todas as práticas históricas que teriam servido de 112 inspiração para o ideal do escotismo e, possivelmente antes disso, para o seu projeto político e pedagógico de formação de uma infância brasileira: [...] Há pouco tempo, em São Paulo, um educador, o Sr. João Kopke, numa conferência lembrou que os antigos gregos davam aos efebos, “sem ensino especial de civismo, meios de cultura própria, apenas por um programa limitado, entre os sete e os dezoito anos, formando uma boa e bela forma de homens, com a sua inteligência, os seus sentimentos e o seu corpo treinados”. Não era aquele ensino da efebia o mesmo ensino que hoje damos aos escoteiros? Mais ainda: o juramento do escoteiro no primeiro grau de sua iniciação, e os doze artigos do código do escotismo são uma reprodução aproximada da afirmação, que os efebos espartanos e atenienses prestavam, quando, perante os magistrados, recebiam a lança e o escudo: [...] Mas o juramento e o código do escoteiro têm mais larga e mais bela significação do que a fórmula dos efebos. A moral e o governo de Esparta e de Atenas tinham estreiteza e secura de egoísmo. Se quisermos dar ascendência legítima, e foros e brasões de alta nobreza à moderna criação do escotismo, deveremos radicá-lo na tradição medieval da Cavalaria Andante. O grande ímpeto de desapego, de liberdade, de coragem e de altruísmo, que dispersou os cavaleiros andantes pelo mundo, foi o mais belo serviço da idade média. [...] Assim, o sentimento de honra, que inspirava os paladinos. Que era aquela instituição? Uma exaltação da alma, que a impelia para a glória, para a justiça, e para o desinteresse: os heróis errantes eram bravos e pródigos, destemidos e puros; [...]... Enquanto houver brio e bondade no mundo, sempre haverá cavaleiros andantes. No escotismo – e é esta a sua maior e mais verdadeira beleza – a exaltação reveste-se de um distintivo prático, sem perder a sua poesia sublime. Na Cavalaria, às vezes, a idéia da honra era vaga; a da generosidade, indecisa; a da abnegação, indeterminada; às vezes, era o sacrifício perdido, a bravura sem proveito, a dedicação inútil. No escotismo, a idéia da honra define-se: é a honra do indivíduo, e a honra do cidadão; e o desinteresse e a magnanimidade não são apenas gestos formosos: são ações justas e úteis – justas para a perfeição humana, e úteis para a grandeza da Pátria. Tal é, em suas linhas fundamentais, a criação do escotismo, a nova heroicultura, filha de Baden Powell. (Bilac, 1916: 7-11) É importante sublinhar que esta valorização da estética, da disciplina, da honra, da cultura física e de outros atributos que podem ser associados ao ideário militar e que aparecem mais representados pelos personagens de soldados do que de oficiais, surge muito antes do comprometimento de Olavo Bilac na campanha pelo serviço militar obrigatório ou da organização da Liga da Defesa Nacional. Está presente já nos contos de A terra fluminense que seriam depois republicados em Contos Pátrios. Ou seja, desde 1897 que esta representação encontra expressão na produção do autor, tornando-se ainda mais evidente em 1904. Até 1908 quando cessa sua colaboração regular nos periódicos como cronista, e isso inclui todo o período de discussão entre a apresentação do projeto de lei do sorteio militar em 113 1906 e sua aprovação em 1908 (Castro, 2007), Bilac não demonstra adesão a esta proposta e são relativamente poucas as crônicas em que aborda o assunto, especialmente se pensarmos no envolvimento posterior com essa questão que irá lhe garantir o reconhecimento póstumo como patrono do serviço militar. Apesar de se ter manifestado sempre positivamente em relação ao serviço militar obrigatório, esta sua posição não chega a configurar um engajamento, tal como irá se verificar durante a campanha pela Defesa Nacional a partir de 1915. Em relação ao projeto de Alcindo Guanabara suas críticas relacionam-se às várias “isenções” nela previstas e o cronista mantém-se como um observador distante durante a primeira década do século XX. Em outras palavras, a adesão do patrono do serviço militar aos projetos de lei que previam sua obrigatoriedade não foi imediata ou incondicional. Na realidade, as críticas que Bilac dirige ao projeto de lei de 1906, são, em larga medida, as mesmas que motivam a resistência organizada à obrigatoriedade do serviço militar por parte das associações operárias. Veja-se, nesse sentido, a crônica publicada no Correio Paulistano em 27 de outubro de 1907, na qual dizia: É fato incontestável que todo o brasileiro, de certa cultura, prefere morrer a ser soldado. Todos nós gostamos muito de uma bonita farda, cheia de galões e de alamares, e de uma bonita espada, e de um bonito título de coronel, major, capitão ou tenente. Mas, quando se trata de ser, não um oficial, mas um simples soldado, sujeito ao jugo feroz da disciplina, e obrigado ao duro trabalho da faxina, do exercício, das paradas, - o caso muda de figura, e todos nós achamos que essa ocupação não é digna da nossa inteligência, das nossas letras, da nossa educação. O atual ministro da guerra, porém, julga, e com razão, que o serviço militar obrigatório é uma necessidade. E, por isso, quer obter das câmaras uma lei que os obrigue, a todos, ao cumprimento desse dever patriótico. Tal iniciativa só merecia os mais vivos aplausos, se realmente a lei, que se prepara, se tornasse extensiva a todos a obrigação do serviço militar. Mas, nessa lei, que já venceu na Câmara dos Deputados os trâmites da segunda discussão, há exceções e isenções odiosas, que a tornam positivamente inconstitucional, inexeqüível e absurda. Sem cuidar de outros muitos defeitos do projeto, basta, para julga-lo e condena-lo, que pensemos nisto: ele isenta do serviço obrigatório os padres e frades, os homens diplomados, e os funcionários públicos. Postas de lado essas três classes, que classes ficam sujeitas à sujeição do ‘pau furado’? Somente duas: a dos capitalistas e a dos operários... Mas a classe dos capitalistas, para se eximir do dever militar e de qualquer outro dever, não precisa de exceções fixadas em lei: [...] De modo que a classe única, que vai empunhar o ‘pau furado’, e fazer faxina, e apanhar soalheiras e chuvaradas, e ‘aprender a morrer’, é a classe dos humildes, dos pobres, dos trabalhadores que penam muito e ganham pouco, - a classe das eternas bestas de carga. [...] Mas não é verdade que isso revolta e indigna? [...] (Bilac, 2006: 95) 114 Nos livros infantis de Bilac, a valorização do serviço militar ocorre pela representação positiva de personagens veteranos da Guerra do Paraguai, geralmente um avô ou um pai que conta suas memórias aos netos, ou da experiência transformadora da caserna como no conto O recruta, em que o sertanejo Anselmo, recrutado à força, passa por uma completa metamorfose durante seu cotidiano de treinamento no Exército em preparação para a guerra do Paraguai. Contudo, mais que fazer a propaganda ou tentar de inculcar valores a literatura infantil bilaqueana, como qualquer literatura, constrói uma representação de seu leitor. E é nesse sentido que podemos pensar a “infância brasileira” idealizada por Bilac como um projeto. Um projeto que se põe em prática através da produção literária para um público específico e que vai explicitando seus objetivos em muitas outras intervenções públicas do autor. Pois, crônicas, discursos e conferências demonstram uma notável coerência com as idéias e estratégias presentes nos livros infantis. Porém, por princípio, e ao contrário do que se poderia imaginar, a “infância brasileira” construída por Bilac é uma categoria excludente. Exclui de imediato os não-alfabetizados, pois são livros cujos protocolos de leitura parecem ser mais apropriados para a leitura individual e silenciosa. Em sua maioria também, excetuando talvez Poesias Infantis e Teatro Infantil, esses livros excluem as meninas que não encontram qualquer elemento de identificação nessas narrativas. Por fim, crianças não-brancas nunca são protagonistas, no máximo coadjuvantes e sempre em posição subordinada ou dependente. Coerentemente com o público a que se dirige em suas palestras e a quem responsabiliza pela grandeza futura do país, a “infância brasileira” é uma elite formada por crianças do sexo masculino, já com bom domínio da leitura e perspectivas de chegar ao ensino superior. No entanto, era necessário marcar a diferença entre esta elite educada e preparada para conduzir o progresso do país, das elites tradicionais de proprietários de terras, principalmente acentuando os valores, sentimentos e hábitos desejáveis em contraposição aos que estavam fortemente associados a uma ordem vista como ultrapassada, retrógrada e anacrônica (Hansen, 2007). Parece tratar-se de estratégia semelhante a que seria identificada por Hobsbawm no século XIX nos processos de socialização responsáveis por inculcar tipos de tradições inventadas que reintroduziam “o status no mundo do contrato social, o superior e o inferior num mundo de iguais perante a lei”. Nestes casos, segundo o autor, era “mais comum que elas incentivassem o sentido coletivo de superioridade das elites – especialmente quando estas precisavam ser recrutadas entre aqueles que não possuíam este sentido por nascimento ou 115 atribuição – ao invés de inculcarem um sentido de obediência nos inferiores” (Hobsbawm, 1997: 18). A formação de um escol, cujo sentido de superioridade estivesse fundamentado sobre valores que ainda não eram hegemônicos na sociedade brasileira, mas que teria como missão garantir a integração e o progresso nacional, foi o objetivo que determinou o protagonismo da infância e da juventude nesse projeto, associado à formação de um novo homem brasileiro. O valor que as diferentes etapas da vida possuem na perspectiva bilaqueana pode aina ser inferido a partir de três poemas que as representam: A infância, A mocidade e A velhice; incluídos em Poesias Infantis. Nestes encontramos uma espécie de síntese das representações etárias identificadas nos diversos personagens de suas narrativas. A infância O berço em que, adormecido, Repousa um recém-nascido, Sob o cortinado e o véu, Parece que representa, Para a mamãe que o acalenta, Um pedacinho do céu. Que júbilo, quando, um dia, A criança principia, Aos tombos, a engatinhar... Quando, agarrada às cadeiras, Agita-se horas inteiras Não sabendo caminhar! Depois, a andar já começa, E pelos móveis tropeça, Quer correr, vacila, cai... Depois, a boca entreabrindo, Vai pouco a pouco sorrindo, Dizendo: mamãe... papai... Vai crescendo. Forte e bela, Corre a casa, tagarela, Tudo escuta, tudo vê... Fica esperta e inteligente... E dão-lhe, então, de presente Uma carta de A.B.C... A mocidade A Mocidade é como a Primavera! A alma, cheia de flores, resplandece, Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera, E a desventura facilmente esquece. É a idade da força e da beleza: Olha o futuro, e inda não tem passado: E, encarando de frente a Natureza, Não tem receio do trabalho ousado. A velhice O neto: Vovó, por que não tem dentes? Por que anda rezando só. E treme, como os doentes Quando têm febre, vovó? Por que é branco o seu cabelo? Por que se apóia a um bordão? Vovó, porque, como o gelo, É tão fria a sua mão? Por que é tão triste o seu rosto? Tão trêmula a sua voz? Vovó, qual é seu desgosto? Por que não ri como nós? A Avó: Meu neto, que és meu encanto, Tu acabas de nascer... E eu, tenho vivido tanto Ama a vigília, aborrecendo o Que estou farta de viver! sono; Tem projetos de glória, ama a Quimera; E ainda não dá frutos como o outono, Pois só dá flores como a Primavera! Os anos, que vão passando, Vão nos matando sem dó: Só tu consegues, falando, Dar-me alegria, tu só! O teu sorriso, criança, Cai sobre os martírios meus, Como um clarão de esperança, Como uma benção de Deus! 116 Trata-se de uma hierarquia estabelecida a partir do critério de utilidade para a pátria, em que a mocidade é vista como a etapa da vida mais valorizada e a velhice nada oferece como experiência, apenas onerando como inutilidade. Mas para que a mocidade pudesse dar o seu melhor à pátria, era a infância como potencial e vir-a-ser que precisava ser modelada. E se a “infância brasileira” de Bilac contrastava fortemente com a realidade da grande maioria da população infantil brasileira de seu tempo, isso é o que na verdade faz dessa infância um projeto. Pois, tomando emprestado a explicação de Paulo Franchetti (1996) para a atribuição de falas de expressão lingüística homogênea, na mesma norma e com “o mesmo grau de elaboração sintática” aos personagens de diferentes extrações sociais e de diversas regiões em Através do Brasil, um dos livros mais conhecidos do nosso autor: “Aqui, como no resto de sua prosa e da poesia, não se mimetiza aquilo que se pretende combater”. BIBLIOGRAFIA: - Ariès, Philippe (1981). História Social da Criança e da Família. 2. ed.. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan. - Bilac, Olavo (1904). Poesias infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves. - Bilac, Olavo (1916). Os escoteiros. Guinle, A.; Pollo, M.. O livro do escoteiro. Manual do escoteiro brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1922. - Bilac, Olavo. (2006) Bilac, jornalista (organizado por Antonio Dimas). São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, Editora da Unicamp. - Bilac, Olavo. (1996) Obra reunida. (organizado por Alexei Bueno) Rio de Janeiro: Nova Aguilar. - Castro, Celso (2007). A resistência à implantação o serviço militar obrigatório no Brasil. In Gomes, A.C. (coord.) Direitos e cidadania. Justiça, poder e mídia. Rio de Janeiro: Editora FGV. - Franchetti, Paulo (1996). Olavo Bilac e a unidade do Brasil republicano. Atas do V Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, 1998, Oxford, 1996, v.2. p. 697-706, rep. Em Sibila. http://www.sibila.com.br/index.php/mapa-da-lingua/431-olavo-bilac. - Freyre, Gilberto (2000). Ordem e Progresso. 5. ed.. Rio de Janeiro: Record. - Hansen, Patrícia (2007). Brasil, um país novo: literatura cívico-pedagógica e a construção de um ideal de infância brasileira na Primeira República. São Paulo: FFLCH/USP. Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-12022008-111516/ 117 - Hansen, Patrícia (2009) Os primeiros livros infantis brasileiros. Análise da literatura cívicopedagógica de ficção. Rio de Janeiro: PNAP/BN. Disponível em http://www.bn.br/portal/index.jsp?nu_padrao_apresentacao=25&nu_item_conteudo=1363&n u_pagina=117 - Hansen, Patrícia (2009) América. Uma utopia republicana para crianças brasileiras. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.22, n. 44, p. 504-521. - Hobsbawm, Eric; Ranger, Terence (1997). A Invenção das Tradições. 2. ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra. - Moncorvo Filho, Arthur (1926). História da Proteção à Infância no Brasil (1500 – 1922). Rio de Janeiro: Emp. Graphica Ed. - Perrot, Michelle (org.) (1999). História da vida privada. vol 4: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras. - Sevcenko, Nicolau (2003). Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Companhia das Letras, 2a edição. 118 UM DISCURSO, DUAS LIGAS. OLAVO BILAC E A CRIAÇÃO DA LIGA DA DEFESA NACIONAL (1916) E DA LIGA NACIONALISTA DE SÃO PAULO (1916-1924). Em 9 de outubro de 1915, o conhecido poeta Olavo Bilac, a convite do Centro Acadêmico XI de Agosto, foi à Faculdade de Direito de São Paulo onde surpreenderia sua platéia com um discurso que seria lembrado por toda uma geração de estudantes e aclamado como o marco fundador da campanha cívica que em pouco tempo se institucionalizaria com a criação das Ligas Nacionalista e da Defesa Nacional. Convidado para falar de poesia, Bilac proferiu o seguinte discurso, o qual reproduzo quase na íntegra pela sua importância para desenvolver o argumento deste trabalho: Ser-me-ia fácil, para agradecer a vossa carinhosa recepção, improvisar algumas frases de brilho fugaz, que morressem aqui ao nascer, [...]. Mas quis dar alguma vida, mais calor e duração às minhas palavras, e escrevi-as, para que elas, confiadas agora aos vossos ouvidos e às vossas almas, possam estender-se a ouvidos distantes e a almas afastadas, a todos os brasileiros de vossa idade, crescendo, estudando, sonhando, dentro o imenso e inquieto coração do Brasil. O momento não quer discursos ocos e retumbantes, [...]. O que se exige agora é a simplicidade de idéias fortes em palavras claras, que, na sua dura tristeza, tenham, com a revolta, um estímulo para a esperança, para a crença e para o heroísmo. Não podeis, talvez, perceber com perfeita consciência a gravidade da nossa situação moral. Viveis numa rica metrópole, entre o sorriso e a gala da vida culta; e não podeis entrever o caos, a confusão e os perigos que enchem toda a nossa maravilhosa e inconsciente Pátria. [...] Vede que na Europa, hoje, quando a guerra abre diariamente largos claros nas fileiras dos combatentes, os governos chamam às armas as mais novas classes dos exércitos, as falanges dos adolescentes, reservas fulgentes da primavera nacional: aqui, outra desgraça, mais triste, oprime o país; e outra morte, pior, escasseia os filhos válidos, - desgraça de caráter e morte moral; e já que os varões, incapazes ou indiferentes, deixam o Brasil devastado sem guerra e caduco antes da velhice, venham ao campo os efebos, em que o ardor sagrado contrabalance a experiência, e em que o ímpeto da fé supra a imaturidade dos anos! Não vos deixeis deslumbrados o magnífico progresso desta cidade e deste Estado; São Paulo não é todo o Brasil; e a verdadeira grandeza de um país não é a sua riqueza. [...] O que me amedronta é a míngua de ideal que nos abate. Sem ideal, não há nobreza de alma; sem nobreza de alma, não há desinteresse; sem desinteresse, não há coesão; sem coesão, não há pátria. Uma onda desmoralizadora de desânimo avassala todas as almas. Não há em cada alma a centelha criadora, que é a consciência da força e da bondade; e de alma para alma não há uma corrente de solidariedade, de crença comum e de entusiasmo, que congregue todo o povo em uma mesma aspiração. Hoje, a indiferença é a lei moral; o interesse próprio é o único incentivo o ‘arrivismo’, - hediondo estrangeirismo com que se exprime uma enfermidade ainda mais hedionda, - epidemia moral, que tende a transformar-se e a enraizar-se como endemia, envenena todo o organismo social e mata todos os germes da dedicação e da fé: cada um quer gozar e viver sozinho, e crescer, prosperar, brilhar, enriquecer depressa, seja como for, através de todas as traições, por cima de todos os escrúpulos. Assim, a comunhão desfaz Trabalho apresentado no VIII Colóquio Tradição e Modernidade no mundo Iberoamericano, realizado em Coimbra em setembro de 2011. 119 se, [...]. E os políticos profissionais, pastores egoístas o rebanho tresmalhado, nada fazem para impedir a dispersão; e, quando não se aproveitam do regabofe generalizado, e quando se locupletam, imitando a gula comum, apenas se contentam com a passiva e ridícula vaidade do mando fictício... Esse é o espetáculo que nos deparam as classes cultas. As outras, as mais humildes camadas populares, mantidas na mais bruta ignorância, mostram só inércia, apatia, superstição, absoluta privação de consciência. Nos rudes sertões, os homens não são brasileiros, nem ao menos são verdadeiros homens: são viventes sem alma criadora e livre, como as feras, como os insetos, como as árvores. A maior extensão do território está povoada de analfabetos; a instrução primária, entregue ao poder dos governos locais, é, muitas vezes, apenas, uma das rodas da engrenagem eleitoral de campanário, um os instrumentos da maroteira política. Quanto à instrução profissional, - essa, na maior parte dos estados da União é um mito, uma fábula, uma ficção. Lembrai-vos que, se a escravidão foi um crime hediondo, não foi menos estúpido o crime praticado pela imprevidência e pela incapacidade dos legisladores, dando aos escravizados apenas a liberdade, sem lhes dar o ensino, o carinho, o amparo, a organização do trabalho, a habilitação material e moral para o exercício da dignidade cívica... Que se tem feito, que se está fazendo, para a definitiva constituição da nossa nacionalidade? Nada. Os imigrantes europeus mantêm aqui a sua língua e os seus costumes. Outros idiomas e outras tradições deitam raízes, fixam-se na terra, viçam, prosperam. E a nossa língua fenece, o nosso passado apaga-se... Há sete anos, houve um rebate ansioso e febril. Na tribuna e na imprensa, vibrou um alto chamamento, um toque de alarma a todas as energias adormecidas. E uma lei apontou à nossa esperança o entreluzir de uma promessa de salvação: a lei do sorteio militar, se não a providência completa do serviço militar obrigatório, ao menos um ensaio salutar, o primeiro passo para a convalescença e para a cura. Então, como ainda hoje, eu considerava que era esse o único providencial remédio para o nosso definhamento. Nunca fui, não sou, nem serei um militarista. E não tenho medo de militarismo político. O melhor meio para combater a possível supremacia da casta militar é justamente a militarização de todos os civis: a estratocracia é impossível, quando todos os cidadãos são soldados. Que é o serviço militar generalizado? É o triunfo completo da democracia; o nivelamento das classes; a escola da ordem, da disciplina, da coesão; o laboratório da dignidade própria e do patriotismo. É a instrução primária obrigatória; é a educação cívica obrigatória; é o asseio obrigatório, a higiene obrigatória, a regeneração muscular e psíquica obrigatória. As cidades estão cheias de ociosos descalços, maltrapilhos, inimigos da carta de ‘abc’ e do banho, - animais brutos, que de homens têm apenas a aparência e a maldade. Para esses rebotalhos da sociedade a caserna seria a salvação. A caserna é um filtro admirável, em que os homens se depuram e apuram: dela sairiam conscientes, dignos brasileiros, esses infelizes sem consciência, sem dignidade, sem pátria, que constituem a massa amorfa e triste da nossa multidão...Mas nada se fez. O mesmo homem, o mesmo marechal, que, quando ministro da guerra, promoveu esse movimento salutar em favor da nacionalidade, - no dia em que subiu ao supremo poder foi o primeiro a esquecer a sua criação, deixando-a morta no berço. E hoje, depois de um quatriênio de lutas estéreis e de politicagem sem moral, - o problema terrível permanece sem solução: uma terra opulenta em que muita gente morre de fome, um país sem nacionalidade, uma pátria em que se não conhece o patriotismo. Moços de São Paulo, estudantes de Direito, sede também os estudantes e os pioneiros do ideal brasileiro! Uni-vos a todos os moços e estudantes de todo o Brasil: num exército admirável, sereis os escoteiros da nossa fé! [...] Desta velha casa, de entre estes sagrados muros, que esplendem de tradições venerandas, deste quase secular viveiro de tribunos e de poetas, - daqui saíram, em rajadas de heroísmo, em ímpetos de entusiasmo, as duas campanhas gloriosas, que foram coroadas pela 120 vitória da Abolição e da República. Estruja de novo a casa! Estremeçam de novo os muros! [...] Inaugurai, moços de São Paulo, a nova campanha! Perto de vós, entre vós, o começo da minha velhice, tocado da graça milagrosa da vossa mocidade, tem gomos verdes, feiticeiros rebentos de ressurreição. Escuta e acolhe a revolta e a esperança do meu outono, ó primavera da minha terra! Em marcha vitoriosa, ó meus irmãos, para o Ideal!46 Não só o discurso ficou famoso pelos seus efeitos, que veremos a seguir, como deixou marcas na memória tanto dos que o presenciaram como de toda uma geração dele somente ouviu falar, conforme pode se verificar em diversos registros. Os testemunhos também chamam a atenção por enfatizar mais o impacto da “presença” ou da “voz” de Bilac do que as idéias ali contidas. A opção por reproduzir o discurso quase na íntegra deve-se à importância a ele atribuída pelos contemporâneos e ao variado conjunto de tópicos que aborda, os quais parecem ter ido ao encontro dos diferentes interesses que iriam se organizar naquelas duas ligas, cujas prioridades mostraram-se diversas na prática, ainda que ambas apontassem aquele discurso como seu evento fundador. Destaco, portanto, algumas idéias principais da fala que desde o início já demonstrava uma intenção de mobilizar sua audiência para os problemas que ali seriam expostos. São essas idéias: a “gravidade da situação moral” do país, traduzida pelo “caos”, “confusão” e “perigos” que assolavam a “maravilhosa e insconsciente” pátria; a “míngua de ideal”; a “onda desmoralizadora de desânimo”, a falta de “solidariedade, de crença comum e de entusiasmo” e a “indiferença” das “classes cultas”; a “inércia, apatia, superstição, absoluta privação de consciência” das camadas mais humildes, a falta de instrução primária e instrução profissional, a manutenção da língua e dos costumes entre os imigrantes europeus em detrimento da língua portuguesa; a defesa do serviço militar obrigatório como “único providencial remédio para o nosso definhamento”; a idéia do serviço militar generalizado como forma de combater a “supremacia da casta militar”; a afirmação de não ser “militarista”. A primeira coisa a notar é a repercussão imediata que o discurso obteve na imprensa. A “Crônica” que abria o número da revista paulista A Cigarra em 16 de outubro era totalmente dedicada ao poeta e seu discurso. Segundo o texto: Amar os grandes poetas é coisa natural em qualquer país o mundo. [...] Mas, levar esse amor até ao alvoroço febril, à ânsia de júbilo, ao infinito enternecimento, isso é que não é natural em qualquer país do mundo; e Bilac conseguiu produzir tal fenômeno na alma 46 Bilac, Olavo. “Em marcha!”(Aos estudantes da Faculdade de Direito de S. Paulo – 9 de outubro de 1915). A defesa nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965. 121 brasileira. Certo é que foi ele quem reparou, com a sua alta obra civilizadora, esta atmosfera excepcional em que tem vivido. [...] Agora mesmo ele desceu e seu pedestal de glória para se envolver na grande alma das multidões. A época nefasta que o Brasil tem atravessado arrancou-lhe da alma patriótica um grito de suprema dor. Esse grito ecoou, há poucos dias na Academia de Direito, quando falava aos moços, e foi como um vibrante clarim, tocando a reunir, dando o sinal de perigo. É que na alma do maravilhoso artista se fez o tenebroso e imenso receio de ver a Pátria envolvida no redemoinho da anarquia que lavra por toda a parte e ameaçada nos seus mais augustos destinos. Ao passo que na Europa os povos em luta dão o mais alto exemplo de coragem e de civismo, aqui, no Brasil, o ceticismo avassalou as consciências, debilitando as mais fortes energias. Sem instrução primária, célula mater da organização social, sem amor à língua que todos falamos e que é a mais alta afirmação da existência da Pátria, sem instrução profissional, sem organização do trabalho, sem capacidade moral e material para o cumprimento do dever cívico, este país perecerá sob a tutela estrangeira, se um forte movimento nacionalista se não operar desde já, despertando as energias adormecidas. Bilac, numa hora de graves apreensões, via nitidamente o esfacelamento do amado Brasil, e a sua alma sofreu, fremiu da mais intensa dor. O que ele disse à mocidade da Academia é um hino de revolta e ao mesmo tempo um apelo em favor da nacionalidade. O grande poeta falou como um vidente, e o eco das suas palavras já atravessou o país inteiro, sacudindo-o em nevroses de entusiasmo. O próprio ministro da guerra se associou ao manifesto luminoso do insigne brasileiro. Resta agora que à volta da sagrada bandeira do poeta se agrupem todos os brasileiros dignos e realizem a obra daquele alto pensador, que é marchar para diante, retilineamente, com a serenidade imperturbável os povos que têm a consciência da sua missão.47 É interessante notar que nessa “leitura” que a revista paulista faz do discurso de Bilac não há qualquer referência ao serviço militar obrigatório, apesar de chamar a atenção para a “adesão” imediata do ministro da guerra ao apelo do poeta. Deve-se sublinhar também a verdadeira louvação ao poeta e o acento na instrução primária como “célula mater da organização social”. Já o editorial da revista Fon-Fon que circulou no Rio de Janeiro a partir do mesmo dia 16 de outubro expressava o entusiasmo com o discurso de Bilac, por meio de uma ampla utilização de alusões e simbolismos bélicos, os quais assumiam a tônica do nacionalismo associado ao serviço militar obrigatório que seria o mote da Liga da Defesa Nacional fundada no ano seguinte. Conforme as palavras do texto assinado pelo pseudônimo Antonius: Falemos sério, hoje... Ainda vibram por aí, bem claros, os ecos do discurso de Olavo Bilac, feito aos estudantes da Escola de direito e São Paulo. Certo, a ninguém melhor o que ao poeta o Caçador de Esmeraldas cabe o direito de lançar o apelo, cheio daquela fúria grande e sonorosa de Camões. Os poetas, os grandes poetas foram sempre os apóstolos do nacionalismo em todas as pátrias onde houve orgulho e glória que cantar em verso, que celebrar em palavras imortais. [...] Em boa hora, pois, Olavo Bilac tomou a cruz dessa campanha de fé e de regeneração. 47 A Cigarra, Ano II, Num. XXVIII, 16/10/1915. Disponível em http://www.arquivoestado.sp.gov.br/upload/pdfs 122 Nenhuma outra voz, dir-se-ia, mais alta e mais sonora lançaria o brado que todo o Brasil ouviu, a que todas as vozes responderam. Sejamos unidos e fortes sob o mesmo escudo e exercitemo-nos no manejo do mesmo gládio. Toda nobreza está nas armas e só delas veio: sangue nenhum se ilustrou antes de correr por um ideal, por uma fé, por um alto sentimento, e não existe, com honra, pátria alguma cujo solo não deva ser umedecido, um dia, se tanto for preciso, pelo sangue de todos os seus filhos varões, vertido até a última gota pela salvação comum. [...] Um paradoxo funesto foi-nos incutido, a nós outros moços, pelos nossos pais, fundadores das vigentes instituições, com a idéia de pátria...A pátria que nos ensinaram a amar é uma pátria inerme, que não quer lutar, que não quer vencer, que aspira apenas a beatitude da paz paradisíaca e que estaria pronta a implora-la do seu inimigo possível, no momento de cruzar com ele as armas!48 Além de chamar a atenção para o modo como os dois editoriais prenunciam os diferentes caminhos que as idéias lançadas por Bilac tomariam nas duas capitais, quero reter um aspecto que se apresenta nas duas revistas e que considero da maior importância para compreender a repercussão e os efeitos daquele discurso: o da admiração que era devotada a Olavo Bilac e que aqui será abordada como sua “celebridade”. Na verdade, tratava-se de um tipo bastante específico e até raro de celebridade entre os homens de letras contemporâneos, e que fazia de Bilac uma voz talvez única em sua capacidade de mobilização naquele momento. Este aspecto não passou despercebido à época e foi sublinhado logo no número seguinte da mesma revista Fon-Fon em texto assinado pelo pseudônimo Remy de Gourmont: - Ora suponha (não é difícil) suponha que, pela primeira vez, eu lhe fale com sinceridade. [...] Mas suponha que eu lhe vou falar com sinceridade, agora, sobre o serviço militar obrigatório que o discurso do poeta Olavo Bilac pregou aos estudantes de São Paulo e que entusiasmou a população do Rio. Não lhe confiarei se acho bom nem se acho mau o serviço militar obrigatório. Confio-lhe apenas isto: se outra criatura, que não Bilac, se o senhor por exemplo, fizesse aquele discurso, as mesmas palavras não acordariam os ecos que acordaram. Portanto, não é o serviço militar que está entusiasmando, neste momento, os brasileiros, - é a atitude do poeta mais amado dos Brasileiros. - ‘Talvez...’ - ‘O senhor não acredita? O meu amigo Homero Prates costumava dizer que a opinião pública não tem opinião. Concordo com ele. Que calor, hein? - ‘Insuportável’. O amor é uma religião mútua.49 Vale lembrar que Bilac, eleito o “príncipe dos poetas brasileiros” numa eleição aberta convocada pela Fon-Fon em 1913, não entre os leitores da revista, mas entre notórios homens de letras, só publicou em vida um único livro de poesias cuja primeira edição é de 1888, quando tinha vinte e três anos. Ainda que em outras edições de suas Poesias tenham sido 48 Fon-Fon, n.42, Rio de Janeiro, 16/10/1915. Disponível em http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon 49 Fon-Fon, n. 43, Rio de Janeiro, 23/10/1915. Disponível em http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon 123 incluídos poemas como o conhecido Caçador de Esmeraldas, e que outros não reunidos em livro tenham sido publicados em periódicos. De qualquer modo, porém, é notável que Bilac sendo também um excelente e muito produtivo cronista50 , fosse referido e reconhecido naquela altura somente como poeta. Foi, portanto, a sua celebridade enquanto poeta que se constituiu num evidente e significativo capital simbólico mobilizado por ele mesmo em vida para lançar a campanha cívica com a qual se engajou, mas também por aqueles que procuraram se associar a sua figura como veremos adiante e pelos que se apropriaram diferenciadamente de sua memória após sua morte em 1918, ao longo do século XX. O primeiro grupo a vislumbrar o potencial mobilizador de Bilac e a procurar associarse ao seu carisma foi o dos militares. Já em 6 de novembro de 1915, ou seja, menos de um mês depois de sua fala em São Paulo, o Exército homenageou o poeta com um banquete no Clube Militar no Rio de Janeiro e no dia 19 do mesmo mês a Marinha o convidaria para a comemoração do Dia da Bandeira. Ambos os eventos receberam cobertura jornalística, ocupando várias páginas dos números 46 e 48 da revista Fon-Fon, de 11 e 27 de novembro de 1915, respectivamente. Paralelamente, em São Paulo, Sampaio Dória, que viria a ser um dos fundadores e provavelmente o nome mais conhecido da Liga Nacionalista, expunha no final de outubro de 1915, ou seja, também poucas semanas após o discurso, a sua filiação ao que já se afigurava como uma “campanha” conduzida por Bilac. Dirigindo-se aos alunos da Escola de Comércio Álvares Penteado, conforme o texto reproduzido em O Estado de São Paulo de 31/10/1915, afirmava, após fazer um diagnóstico dos problemas nacionais: Tem pois toda a razão de ser, toda a oportunidade e toda a urgência a campanha nacionalista, nascida da palavra mágica de Bilac aos estudantes de direito, a vós, a todos os brasileiros. Na maneira de a por em prática, eu tenho que (sic) três princípios, fundamentais e solidários, devem conclamar a postos todos os moços e velhos, homens e mulheres. É a instituição do ensino nacional obrigatório. É a instituição do voto secreto e obrigatório. É a organização militar da Nação. O mais virá da ação conjugada desses três fatores supremos.51 As diferenças entre os projetos que se configurariam a partir dali se expressariam também nos estatutos das duas ligas, criadas no ano seguinte. 50 Cf. a respeito a excelente compilação organizada por Dimas, A.. Bilac, jornalista. 3 vol. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, Editora da Unicamp, 2006. 51 Citado por Medeiros, Valéria Antonia. Antônio de Sampaio Dória e a modernização do ensino em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Tese de doutorado. São Paulo: PUC-SP, 2005. p. 93. 124 Em 7 de setembro de 1916, a Liga da Defesa Nacional seria fundada no Rio de Janeiro, numa solenidade que teve lugar na Biblioteca Nacional. A ata dessa primeira reunião já demonstrava algumas especificidades importantes da Liga, destacando-se a presença e adesão do General Caetano de Faria, ministro da guerra, e o modelo organizativo no qual o presidente da liga seria sempre o presidente da república, aspecto com fortes implicações simbólicas que marcaria a trajetória da Liga, existente até hoje. Segundo o texto da Ata Primeira: Às dezessete horas de 7 de setembro de 1916, no salão das conferencias da Biblioteca Nacional, foi aberta a sessão de instalação do Diretório Central da Liga da Defesa Nacional, estando presentes os senhores General Caetano de Faria , Dr. Pedro Lessa, Dr. Miguel Calmon , Almirante Julio César de Noronha, Senador Bernardo Monteiro, Oscar da Porciúncula, Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, Comandante Muller dos Reis, Conselheiro Nuno de Andrade, Dr. Guilherme Guinle, Monsenhor Vicente Lustosa, Dr. Cícero Peregrino da Silva, Dr. Homero Baptista, Affonso Viseu, Candido Gaffrée, Almirante Teixeira Bastos, Dr. João Teixeira Soares, Dr. Alberto de Faria, Dr. Oscar Lopes, Alvaro Zamith , Dr. Osório de Almeida, Jorge Street, Dr. Raul Pederneiras, Dr. Pereira Lima, Senador Soares dos Santos, Conde Carlos de Laet, Dr. Joaquim Luiz Osório, Dr. Araújo Lima, Conde de Affonso Celso, Coelho Netto, Dr. Miguel Couto, Felix Pacheco, Marechal José Bernardino Bormann, Joaquim de Sousa Ribeiro e Olavo Bilac. Convidado a ocupar a cadeira da presidência o sr. General Caetano de Faria, aquiesceu, sentando-se a direita de s. exa. o sr. dr. Pedro Lessa e a esquerda o srs. Olavo Bilac e Dr. Miguel Calmon. Aberta a sessão, o sr. OLAVO BILAC procedeu à leitura de telegramas dos srs.Conselheiro Ruy Barbosa, Conselheiro Rodrigues Alves, Marechal Jeronymo Jardim, Senador Alfredo Ellis e Deputado Antonio Carlos excusando-se por não poderem comparecer e protestando inteira solidariedade a idéia da fundação da Liga da Defesa Nacional. [...] [Depois do discurso de Olavo Bilac] O Sr. Candido Gaffrée, pedindo a palavra, propôs que a diretoria da Liga ficasse assim constituída: Vice-presidentes, General Caetano de Faria , Conselheiro Alfredo Corrêa de Oliveira, Almirante Alexandrino de Alencar, Conselheiro Ruy Barbosa, Conselheiro Francisco de Paula Rodrigues de Alves, , Monsenhor Vicente Lustosa de Lima, Dr. Gabriel Osório de Almeida, Dr. Pedro Lessa, Dr. Pandiá Calogeras, Dr. Miguel Calmon du Pin e Almeida. E, mais propôs para a Comissão de Estatutos os srs. Conde de Affonso Celso, Coelho Netto , Felix Pacheco, Homero Baptista, Joaquim Luis Osório, Alfredo Ellis, Marechal Bormann, Almirante Julio de Noronha, Dr Raul Pederneiras, Dr Pereira Lima, Alberto de Faria, Bernardo Monteiro, Dr. Miguel Couto, Dr. Nuno de Andrade e Monsenhor Vicente Lustosa. O Sr. General Caetano de Faria, submetendo à aprovação da assembléia essas propostas, declarou que no referente a diretoria não era indicado o presidente por ficar subentendido que o Presidente da Liga será sempre o Presidente da República. As propostas foram aprovadas por aclamação, depois de breves palavras sobre a Comissão de Estatutos proferidas pelo Sr. Conde de Affonso Celso, que lembrou a conveniência de nela figurarem os srs Pedro Lessa, Miguel Calmon e Olavo Bilac, o que ficou resolvido unanimemente. Orou em seguida o Sr. Pedro Lessa que disse ser a Liga da Defesa Nacional obra de Olavo Bilac, criação que exaltou, citando como marco memorável da atual campanha cívica a conferencia do poeta em S Paulo. O Sr. Pedro Lessa tem também referencias encomiásticas para o Dr. Miguel Calmon, salientando o seu papel ao lado de Olavo Bilac na fundação da Liga. Por ultimo falou o Dr. Miguel Calmon apologiando a obra de Olavo Bilac e o concurso do Dr. Pedro Lessa, tornando publica a satisfação que dominava a Comissão que se entendeu com Sr. Presidente da República sobre a Liga da Defesa Nacional, acolhida com a maior simpatia e entusiasmo pelo Chefe da Nação, o Exmo Sr. Dr. Wenceslau Braz. O Sr. General Caetano de Faria agradeceu a presença do diretório e encerrou os trabalhos às dezoito 125 horas. Durante a sessão prestou guarda de honra o 7° Batalhão de Atiradores (Tiro n. 7 ). Ao sair do edifício da Biblioteca Nacional recebeu o Diretório Central da Liga da Defesa Nacional continências do batalhão do referido Tiro n. 7 que, prestou por sua vez as devidas honras ao General Caetano de Faria, Ministro da Guerra. Foi aprovada a redação desta ata. 23 de setembro de 1916. OLAVO BILAC.52 O Estatuto publicado na Revista de Assuntos Militares em 10 de novembro de 1916 fixava os objetivos da agremiação nos seguintes termos: Art. 1. A Liga da Defesa Nacional, fundada no Rio de Janeiro em 7 de Setembro de 1916, independente de qualquer credo político, religioso ou filosófico, e destinada, dentro das leis vigentes do país, a congregar os sentimentos patrióticos dos Brasileiros de todas as classes, tem por fim: a) manter em todo Brasil a idéia da coesão e integridade nacional, procurando facilitar e desenvolver as comunicações morais e materiais entre as unidades da Federação; b) propagar a educação popular e profissional; c) Difundir, nas escolas primárias, profissionais secundarias, superiores, civis, militares e religiosas, assim como em todos os lares, oficinas, corporações e associações, a educação cívica, o amor à justiça e o culto do patriotismo; d) defender o trabalho nacional, a lavoura, a industria, o comercio, as ciências e artes e interessar-se por todas as questões que importarem á prosperidade, á segurança e dignidade do paz. e) combater o analfabetismo, o alcoolismo, a vagabundagem e a dissolução dos costumes; f) desenvolver o civismo, o culto do heroísmo, fundar e sustentar associações de escoteiros, linhas de tiros e batalhões patrióticos, quando autorizados por lei; g) apoiar, pela persuasão e pelo exemplo, a execução das leis de preparo e organização militar; h) aconselhar e facilitar a instrução militar em colégios, escolas, faculdades, academias, externatos, internatos, seminários, orfanatos, institutos de assistência publica e particular, associações de comercio, industria, beneficência esportes e diversões. i) estimular e avivar o estudo e o amor da Historia do Brasil e das nossas tradições; j) fazer a propaganda da Liga no lar e em publico, por meio de conferencias, comícios, livros, folhetos, revistas, jornais, festas publicas e prêmios: k) publicar um catecismo cívico, e livros de educação patriótica, destinados a infância e adolescentes, para distribuição gratuita: l) robustecer o sentimento da pátria entre os Brasileiros residentes no estrangeiro; m) promover o ensino da lingua pátria nas escolas estrangeiras existentes no Brasil, e a criação de escolas primárias nos núcleos coloniais. Art.2. A Liga da Defesa Nacional terá um Diretório Central, com um Presidente, onze Vice-Presidentes, uma Comissão Executiva e um Conselho Fiscal, e Diretórios Regionais em todos os Estados. Apesar da ênfase na instrução militar, contudo, as finalidades da Liga da Defesa Nacional iam muito além desse aspecto com o qual ficou mais identificada. E note-se também que mesmo em São Paulo a Liga da Defesa Nacional estaria representada por um Diretório. Mas naquela altura os esforços para a organização da Liga Nacionalista por parte dos alunos da Faculdade de Direito já estavam adiantados e em 16 de dezembro de 1916, O Estado de 52 Acta Primeira da Liga da Defesa Nacional. Disponível em http://www.ligadadefesanacional.org.br/actaprimeira.htm. 126 São Paulo noticiava que estavam aprovadas as “bases e linhas gerais da organização de uma Liga Nacionalista com os seguintes fins”: 1.º) empreender campanha pela liberdade contra atentados civis ou militares à soberania nacional; 2.º) desenvolver o sentimento da unidade nacional; 3.º) obter a efetividade do voto, mediante o registro civil da maioridade cívica, o sistema do sigilo eleitoral, o imposto à abstenção, o feriado nos dias de eleições e as mais eficazes penalidades à fraude; 4.º) promover a organização e o desenvolvimento da defesa nacional pelo escotismo, linhas de tiro e preparo militar.53 Já no Extrato dos Estatutos da Liga Nacionalista, reproduzido no manual de instrução cívica O que o cidadão deve saber de Sampaio Dória, o Capitulo 1 que tratava da natureza da Liga dizia o seguinte: Art. 1o. – Liga Nacionalista, com sede em S. Paulo, estranha a lutas partidárias, se destina: a manter, na Federação dos Estados, a Unidade Nacional; a contribuir para o desenvolvimento da instrução popular; a promover a educação cívica do povo; a pugnar pela efetividade do voto; 5) a concorrer para a eficácia da defesa nacional.54 1) 2) 3) 4) Se compararmos as propostas das duas ligas, imediatamente destacam-se diferenças significativas. Em outras palavras, a paternidade é uma e as idéias e valores que as inspiraram são as mesmas, porém, não sendo conflitantes (poderíamos mesmo dizer que eram complementares à época), as duas agremiações “irmãs” distinguiam-se radicalmente em seus propósitos prioritários. A ênfase no serviço militar obrigatório e na instrução militar, rapidamente abraçada pelas Forças Armadas, criou uma aliança que marcou a ação da Liga da Defesa Nacional até o final do Regime Militar e sua imagem até hoje. Já no caso da Liga Nacionalista, estas preocupações nunca pareceram constar entre seus objetivos principais e suas alianças, assim como seus membros associados, distinguiam-se principalmente por representarem as elites civis do empresariado paulista, a exemplo de Julio de Mesquita, dono do jornal O Estado de São Paulo, e acadêmicas, provenientes dos quadros da Faculdade de Direito. Presente nas “bases e linhas gerais da organização” da liga paulista, o objetivo do “preparo militar” ficou 53 Cit. por Medeiros, V. A.. “O jornal O Estado de S. Paulo como principal divulgador das propostas educacionais da Liga Nacionalista de São Paulo (1916-1924). VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação. 17 a 20 de abril de 2006. p. 3151. Disponível em http://www.faced.ufu.br/colubhe06/anais/arquivos/282ValeriaAntoniaMedeiros.pdf. 54 Dória, A. de Sampaio. O que o cidadão deve saber. São Paulo: Olegário Ribeiro & C., 1919. 127 de fora dos Estatutos, os quais, significativamente, reforçavam o comprometimento da Liga Nacionalista com a luta pela “efetividade do voto”. Na sessão de 24 de março de 1917, provavelmente a primeira após a fundação da Liga Nacionalista, o presidente Frederico Vergueiro Steidel afirmava que: Dentre seus fins dois existem que merecem em primeiro lugar a nossa atenção, e aos quais se devem dirigir desde já os nossos melhores esforços; refiro-me à difusão da instrução no país e ao desenvolvimento da educação cívica e política do povo brasileiro. A realização desses fins deve, ao meu ver, constituir o nosso primeiro passo, porque os outros objetivos da Liga Nacionalista, tais como o reerguimento do espírito de solidariedade nacional, o interesse pelas coisas e problemas vitais do Brasil, o combate à abstenção eleitoral, o estudo dos problemas que interessam a nacionalidade brasileira, o escotismo, as linhas de tiro e o preparo militar, esses só podem ser atingidos tendo como base a instrução elementar e a educação cívica e política. É mister que o povo antes de tudo possa compreender o alcance desses fins, para que depois o chamemos a cooperar para a sua realização. Partindo dessa consideração eu proporia, como primeira tentativa, [...], a criação de uma escola noturna onde seja ministrado ao povo instrução elementar, principalmente educação cívica e política.55 Com estas palavras Vergueiro Steidel parecia mesmo querer marcar uma posição distinta em relação ao projeto e a ação da Defesa Nacional e é curioso que tenha sido nesta mesma sessão, na qual Bilac estava presente, que Steidel propôs que o poeta fosse aclamado Presidente Honorário da instituição obtendo para isso “aprovação calorosa”56 dos restantes membros. Desta vez, a passagem de Bilac por São Paulo receberia ainda maior cobertura da imprensa. O poeta estava, então, em plena campanha. A Cigarra divulgou várias fotos da visita e depois noticiaria a viagem do poeta a caminho de outras cidades onde realizaria alguns dos discursos posteriormente reunidos em A Defesa Nacional. 55 O Estado de São Paulo, 28/03/1917. Citado por Medeiros, V. A.. “O jornal O Estado de S. Paulo como principal divulgador das propostas educacionais da Liga Nacionalista de São Paulo (1916-1924). VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, 2006. p. 3152. Disponível em http://www.faced.ufu.br/colubhe06/anais/arquivos 56 Bandecchi, Brasil. Liga Nacionalista. Cadernos de história. Caderno 14. São Paulo: Editora Parma, 1980. p. 21. 128 Figura 2 – “Reunião da Liga da Defesa Nacional em São Paulo”.57 Também O Estado de São Paulo de 28 de março de 1917 noticiaria as várias atividades da passagem de Bilac pela cidade, incluindo o banquete que lhe teria sido oferecido pela Liga Nacionalista. A presença de Frederico Steidel na reunião da Liga da Defesa Nacional, conforme testemunha a foto de A Cigarra, mostra a aproximação entre as duas ligas enquanto Bilac era ainda vivo. Entretanto, após a morte do poeta em dezembro de 1918, já não se encontra qualquer registro de associação ou diálogo entre as duas entidades, nem no que diz respeito às homenagens prestadas a memória de Bilac. O que se verifica são esforços muito desiguais, descompassados e desproporcionais no que diz respeito às homenagens organizadas pelas duas ligas. O fato das instituições não se terem unido reforça a idéia de que o único elemento articulador entre elas teria sido mesmo o próprio Olavo Bilac. É também curioso que a primeira a mobilizar grandes recursos para homenagear o poeta tenha sido justamente a Liga Nacionalista, ou seja, aquela cujas idéias hoje nos parecem ser as mais distantes da memória bilaqueana. Mas as razões disto residem, de um lado, no fato da liga paulista ter durado muito pouco, sendo extinta em 1924, e, de outro, no grande investimento que os regimes autoritários, em conjunto com o Exército, fariam em 1939 e 1965 para resgatar a memória do poeta civil e defensor do serviço militar. 57 A Cigarra. n. 63, ano III, 14/03/1917. Em http://www.arquivoestado.sp.gov.br/upload/pdfs/CI19170362.pdf 129 Minha questão, então, é: como explicar a escolha de Bilac, poeta e cronista fluminense fortemente identificado com a Belle Èpoque e com o Rio de Janeiro, para “herói” e objeto de culto de uma agremiação paulista que por sua vez era fortemente identificada com uma das mais tradicionais instituições de São Paulo, a Faculdade de Direito, ainda mais tendo o poeta se engajado diretamente numa outra liga com propostas relativamente diferentes? Uma hipótese é que a Liga, em especial Vergueiro Steidel que foi quem mais se comprometeu em manter os vínculos com a imagem de Bilac, tenha estimado o potencial do capital simbólico representado pela figura do poeta e nesse sentido, procurou, desde sempre uma apropriação de sua memória em articulação com seu próprio projeto político. Logo após a morte de Bilac teve início em São Paulo uma mobilização para a construção de um monumento em sua homenagem. Em 15 de setembro de 1919, a Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo remetia ao Senado o “projeto n. 2” que autorizava a construção de um monumento destinado a perpetuar a memória do Conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves, morto em janeiro daquele ano, para o qual seriam destinados duzentos contos de réis e “abrir o crédito de cinqüenta contos de réis para auxiliar a construção de um monumento a Olavo Bilac”58. Como previa o decreto, a verba autorizada era para “auxiliar” a construção do monumento. Por esta razão, Vergueiro Steidel lançou-se a uma intensa campanha para arrecadar mais recursos para aquele fim. Foram distribuídas listas pela capital e no interior, autenticadas por Steidel, para receber donativos para o monumento. Com contribuições de cinco, dez e vinte mil réis, finalmente a obra foi encomendada ao escultor sueco William Zadig, professor do Liceu de Artes e Ofícios. O projeto resultou num conjunto escultórico composto por cinco peças de bronze. A figura de Bilac como em uma tribuna, em referência ao discurso na Faculdade de direito, era a peça de maior dimensão e ficava no centro do monumento. As outras ficavam posicionadas ao redor e representavam quatro poemas: “A tarde”, “O caçador de esmeraldas”, “O beijo eterno” e “Pátria e família”. O monumento foi alocado na Avenida Paulista e sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1922, em meio às intensas comemorações do Centenário da Independência. Francisco Pati relembra o acontecimento do qual participou enquanto estudante da Faculdade de Direito: 58 Projeto de lei enviado pela Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo ao Senado do Estado de São Paulo. Alesp. Disponível em http://www.al.sp.gov.br/geral/acervoHistorico/FichaDocumentoRepublicaVelha.jsp?idDocumento=31516 130 Lembro-me de que nos coube inaugurar, no fim da Avenida Paulista, a cavaleiro do vale do Pacaembu, o monumento a Olavo Bilac. O orador oficial saiu do nosso meio. Sucedeu, porém, que o ato se revestiu de uma solenidade com a qual não contávamos. O governo do Estado, tendo à frente o sr. Washington Luís, compareceu em peso. Compareceram também Dna. Cora Bilac Guimarães, saudosa irmã do excelso poeta, e seu marido, [...] Sr. Alexandre Lamberti Guimarães. Armou-se no extremo daquela via pública, na esquina da rua Minas Gerais, um coreto para autoridades, convidados e comissão acadêmica, inclusive o orador. Em toda a extensão da avenida, desde o ‘Trianon’ até o monumento, de lado a lado, soldados da Força Pública e alunos de escolas primárias e secundárias. Os convidados desciam do automóvel no ‘Trianon’ e faziam o resto do percurso a pé, de cabeça descoberta. Traje de rigor: fraque e cartola. Só obtinha ingresso no coreto quem estivesse de fraque e cartola. 59 Uma fotografia que não deixa dúvidas acerca da concorrência do público paulista ao evento da inauguração do monumento foi publicada em A Cigarra, no número especial destinado à cobertura das festividades do Centenário em São Paulo.60 É também Francisco Pati quem narra a reação da irmã do poeta à homenagem em São Paulo: Tive a felicidade de ser o orador oficial do Centro Acadêmico XI de Agosto, no ato da inauguração. [...] Graças ao meu entusiasmo, conquistei a amizade da irmã do poeta, Dna. Cora Bilac Guimarães, e de seu marido, o sr. Alexandre Lamberti Guimarães, presentes à solenidade. No dia da festa, fomos jantar com o querido casal no Hotel d’Oeste. [...] Dona Cora, muito comovida, sempre com uma lágrima nos olhos, não se cansava de testemunhar a sua gratidão aos paulistas. [...] Dona Cora não deixava de acentuar, com mil agradecimentos, a prioridade dos paulistas nas homenagens à memória do grande artista do verso. - Os senhores, paulistas, são os primeiros a lembrar-se de dar à imagem do meu irmão a perpetuidade do bronze. Com esse gesto, os senhores respondem às acusações de regionalismo intolerante. Bilac não nasceu em São Paulo, nasceu no Rio, mas é São Paulo que o consagra. Estou certa de que ele está contente lá onde se encontra. São Paulo era a sua fábrica de entusiasmo.61 É importante destacar a desproporção da homenagem da Liga Nacionalista em relação às que Bilac receberia nas duas décadas que se seguiram à sua morte no Rio de Janeiro. Além de romarias ao seu túmulo nos aniversários de morte, somente em 1935 o poeta seria homenageado com um busto de bronze no Passeio Público, patrocinado pela Academia Brasileira de Letras. Também é importante ressaltar a estratégia da Liga ao inaugurar o monumento em 7 de setembro de 1922, associando-o às comemorações do Centenário da Independência e assim 59 Pati, Francisco. O Espírito das Arcadas. São Paulo: Associação dos Antigos Alunos, 1950. Disponível em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pati.html. 60 “Aspecto da inauguração do monumento ao grande poeta nacionalista Olavo Bilac”. Disponível em 61 Pati, Francisco. O Espírito das Arcadas. São Paulo: Associação dos Antigos Alunos, 1950. Disponível em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pati.html. 131 garantindo público e visibilidade para as suas ações. Poucos meses depois, em dezembro de 1922, a Liga Nacionalista apresentava ao “Presidente do Senado do Estado de São Paulo” uma representação solicitando e sugerindo uma série de medidas que tornassem “plenamente verdadeiro, na prática, o regime instituído na lei fundamental”62. Tratava-se de mostrar a conveniência de uma série de práticas que garantissem o voto secreto e obrigatório, combatendo as fraudes e a corrupção eleitoral. Portanto, comparando homenagens no Rio e em São Paulo, o que causa mais estranheza, na verdade, é a mobilização muito mais modesta por parte da Liga da Defesa Nacional, principalmente pelos laços que esta mantinha com o governo federal. Um mausoléu para o poeta, patrocinado pela Liga da Defesa Nacional foi inaugurado o no 1 . Aniversário de sua morte, em 28 de dezembro de 1919. E em dezembro de 1922, ou seja, três meses após a inauguração do monumento na Av. Paulista que, diga-se de passagem, não recebeu qualquer atenção da imprensa do Rio de Janeiro, mais uma romaria ao túmulo de Bilac seria organizada pela LDN. Fig. 9 – “Olavo Bilac. Romaria ao seu túmulo. Coelho Netto orando diante da campa do poeta”.63 A Liga Nacionalista acabaria por ser extinta em 1924, por um decreto do presidente da república, devido às suspeitas de sua ligação com o levante de Isidoro Dias Lopes. 62 63 Disponível em http://www.al.sp.gov.br/repositorioAcervo/Acervo/Alesp/Republica/S_126/2012_1922.pdf. http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/careta/careta_1922/careta_1922_707.pdf 132 A Liga da Defesa Nacional, contudo, continuaria existindo e com o passar do tempo procurou mais e mais cultuar a memória de Olavo Bilac, conferindo maior relevo ao engajamento que o poeta lhe teria dedicado, a ponto de, aos poucos, começar a ignorar os outros fundadores, Miguel Calmon e Pedro Lessa que tiveram sua importância para a agremiação bastante ofuscada pelo protagonismo a Bilac. Nos boletins da década de 1960, a LDN começa a intitular-se “casa de Bilac” e seu nome em todos os documentos vem sempre sucedido pela frase “fundada por Olavo Bilac em 7 de setembro de 1916”. A memória de Bilac que permaneceu sendo objeto de culto foi “redescoberta” e mobilizada em alguns momentos significativos, destacadamente durante os regimes autoritários do Estado Novo e da Ditadura Militar, ocasiões em que o poeta inspirou a criação do “Dia do Reservista” comemorado na data de seu aniversário e decretado Patrono do Serviço Militar. Finalmente, em relação ao discurso que introduz este trabalho, pode-se dizer que, tomado como ato de fala, como ação realizada na linguagem, o discurso teve um efeito mobilizador que muito provavelmente superou as expectativas de seu autor. Sem dúvida nenhuma, a despeito das diferenças entre as ligas que dele se originaram, ambas tinham afinidades com as idéias propostas naquele momento. Ironicamente, contudo, em contraste com a força performativa do discurso de Bilac, suas idéias não se impuseram sobre os diferentes interesses que confluíram para a constituição das duas ligas. Em outras palavras, dificilmente poderíamos considerar Bilac efetivamente um ideólogo, quer da Liga Nacionalista, quer da Liga da Defesa Nacional da qual foi, paradoxalmente, o principal portavoz. Tal se deve, muito provavelmente, a força dos outros interesses e idéias que se impuseram até mesmo sobre a memória do poeta, associando-o inelutavelmente ao militarismo que ele se esforçou tantas vezes por negar.