Relatório de Atividades Vassouras - Rj, Parque Hotel Santa Amália • 17 e 18 de junho de 2008 1 S u m 4 6 9 10 16 18 21 27 32 38 42 45 46 46 51 53 62 Introdução por Mozart Vitor Serra Introdução por Fernando Portella Abertura do Encontro Resumo do Pronunciamento das Personalidades Destaques da Abertura do Encontro Apresentação das Oficinas de História Período da Tarde: Depoimentos e Intervenções Oficina de História Segundo dia do Encontro – Período da Manhã: Resumo das Palestras Realizadas Período da Tarde: Resumo das Palestras Realizadas Resumo das Conclusões do Encontro Síntese das Principais Propostas Feitas no Encontro Contribuições Posteriores à Realização do Encontro Cultura Popular e Narrativa Histórica Relatório de Atividades História Local, Pesquisa e Narrativa Considerações sobre o I Encontro de História do Vale do Paraíba á r i o Mesa: Financiamento para Restauração do Patrimônio O Lugar da História Regional na Memória Historiográfica Brasileira 64 64 As Diversas Fases da História do Ciclo do Café - Ontem e Hoje 77 “Aspectos da Economia Mundial Face ao Apogeu e Crise do Café No Vale do Paraíba na 77 Segunda Metade do Século Xix” Apontamentos Paralelo ao Mundo do Café Outras Vozes Para Saber Mais 79 79 79 81 As Diversas Faces da História do Ciclo do Café - Ontem e Hoje 82 Angústias e Inquietações: Algo a Partilhar Do Vale do Café como um Projeto à Construção da Nostalgia Imperial Das Academias que Falam para Si. Somente para Si Da Luta por Recursos para a Preservação Patrimonial Mas não são Apenas Inquietações e Angústias: Existem Realizações e Esperanças! 82 83 85 86 86 Historiadores Inscritos I Encontro de História do Vale do Paraíba 88 Histórias e Causos 94 Edajd sonem sdkjsoied me sospjm. Pusdkjdj spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija elssueom fsuo. Dasiusdfu eufsjs so eufsdjejiou so eiufjjcio sofeu eusaçlrols feiusafsfdfiso sdpelrps postr sdiuerujf eiud so esuofejrju saofoaugusdfsdf sdr sodfuosaiur esfoisdurojekjdoisd ds eufsjdsu soejfd eousdjf eus. Sasripporsjf de spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija eusjfjdeoija elssueom. Dasiusdfu eufsjs so eufsdjejiou so eiufjjcio sofeu eusaçlrols feiusafsfdfiso sdpelrps postr sdiuerujf eiud so esuofejrju saofoaugusdfsdf sdr sodfuosaiur esfoisdurojekjdoisd ds eufsjdsu soejfd eousdjf eus. Pusdkjdj spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija elssueom fsuo eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw. Dasiusdfu eufsjs so eufsdjejiou so eiufjjcio sofeu eusaçlrols feiusafsfdfiso sdpelrps postr sdiuerujf eiud so esuofejrju saofoaugusdfsdf sdr sodfuosaiur esfoisdurojekjdoisd ds eufsjdsu soejfd eousdjf eus. Sasripporsjf de spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija elssueom fsuo. Mozart Vitor Serra Diretor-Executivo Instituto LIGHT para o Desenvolvimento urbano e Social 4 O dajd sonem sdkjsoied me sospjm restrossp se vresto. Pusdkjdj spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija elssueom fsuo. Dasiusdfu eufsjs so eufsdjejiou so eiufjjcio sofeu eusaçlrols feiusafsfdfiso sdpelrps postr sdiuerujf eiud so esuofejrju saofoaugusdfsdf sdr sodfuosaiur esfoisdurojekjdoisd ds eufsjdsu soejfd eousdjf eus. Sasripporsjf de spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija eusjfjdeoija elssueom. Dasiusdfu eufsjs so eufsdjejiou so eiufjjcio sofeu eusaçlrols feiusafsfdfiso sdpelrps postr sdiuerujf eiud so esuofejrju saofoaugusdfsdf sdr sodfuosaiur esfoisdurojekjdoisd ds eufsjdsu soejfd eousdjf eus. Pusdkjdj spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf so eujjdjdoie eufjdmiemeijsd euicmcoekckdej as soej eosuo eusjfjdeoija elssueom fsuo eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw. Dasiusdfu eufsjs so eufsdjejiou so eiufjjcio sofeu eusaçlrols feiusafsfdfiso sdpelrps postr sdiuerujf eiud so esuofejrju saofoaugusdfsdf sdr sodfuosaiur esfoisdurojekjdoisd ds eufsjdsu soejfd eousdjf eus. Sasripporsjf de spipf do sdffkodskel soi soedmispáeolkm spfkeçs eom soipipi é jeupom ustnl soemooaltsoej ls ekjfodisr dsiorej heiujdksoeprip so ejsajdojdoie fdois esjkj eusjsdjoijfoisjdfo eurvjjaiekf euiw eudf . Fernando Portella Diretor-Executivo InstitutoCultural Cidade Viva 5 Abertura do Encontro O I Encontro de História do Vale do Paraíba começou com uma apresentação de oito músicos do PIM – Programa de Integração pela Música1, sob a regência do maestro Cláudio Pereira Moreira. À medida que os participantes entravam no Salão Bouganville do Parque Hotel Santa Amália, na cidade de Vassouras, ouviam músicas de Villa-Lobos e de outros compositores nacionais. Inscreveram-se e participaram do encontro, preenchendo as fichas de inscrição, 203 (duzentos e três) pessoas, entre professores de História, escritores e representantes de instituições do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba. O Encontro foi aberto por Fernando Portella, Diretor Executivo do ICCV – Instituto Cultural Cidade Viva2, coordenador do evento, que deu as boas vindas aos participantes e convidou as seguintes personalidades para compor a Mesa: ● Andréa Jordão do Amaral, Secretária Municipal de Cultura de Vassouras (RJ); ● José Luiz Alqueres, Presidente da empresa Light Serviços de Eletricidade S. A.; ● Mozart Vitor Serra, Diretor do Instituto Light de Desenvolvimento Urbano e Social; ● Marcus Monteiro, Diretor Geral do INEPAC – Instituto Estadual do Patrimônio Cultural; ● Antonio Orlando Izolani, Vice-Reitor da USS – Universidade Severino Sombra, de Vassouras (RJ); ● Ana Lúcia Mattozo Furtado, representante do CONCICLO/SEBRAE-RJ – Conselho de Turismo da Região do Vale do Ciclo do Café, de Piraí (RJ); ● Ana Seraphim, Diretora de Turismo do PRESERVALE – Instituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraíba; ● Luis Reznik, Diretor do Departamento de História da PUC-Rio – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Após a formação da mesa, foi executado o Hino Nacional Brasileiro, cantado pela cantora lírica Glasiela Valbano, integrante do PIM, acompanhada ao trompete pelo maestro Cláudio Pereira Moreira. O PIM – Programa de Integração pela Música é um projeto sociocultural desenvolvido nos municípios fluminenses de Vassouras, Mendes e Paulo de Frontin, idealizado pelo maestro Cláudio Pereira Moreira e sua esposa Célia, que ensina música erudita a 800 alunos entre seis e 88 anos, visando sua profissionalização e conseqüente inclusão social. O projeto logrou formar a Orquestra Sinfônica Jovem Regional (com 50 integrantes, foi um dos 84 projetos selecionados pelo Prêmio Criança Esperança da UNESCO/Rede Globo em 2007), um grupo de percussão (com instrumentos ecologicamente corretos, construídos a partir de material reciclado), um grupo coral e pequenos conjuntos de música de câmara. O projeto também deu origem a uma cooperativa de pais, que atua no campo da produção de alimentos. Outros desdobramentos do PIM são: uma Incubadora de Gestão e Produção Cultural e uma Incubadora de Cultura Digital. O PIM é reconhecido pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura e foi recentemente selecionado para ser um Pontão de Cultura (instituição de alcance regional). Em 2004, o PIM foi um dos agraciados com o Prêmio Cultura Nota 10, projeto realizado pelo ICCV – Instituto Cultural Cidade Viva, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura e patrocínio da EMBRATEL, com a chancela institucional da UNESCO. A maioria dos jovens que já possuem competência musical para se apresentar em público é de monitores do projeto (atualmente em número de 30). 2 Maiores informações sobre o ICCV – Instituto Cultural Cidade Viva, entidade que está celebrando seu décimo ano de existência, podem ser obtidas no site: http://www.institutocidadeviva.org.br. 1 6 Resumo do Pronunciamento das Personalidades Fernando Portella – elogiou o projeto PIM pelo excelente trabalho realizado com os jovens e agradeceu a presença de todos. Realçou que um dos objetivos do Encontro era a coleta de informações que pudessem servir como subsídios para o planejamento de políticas públicas. E pediu que todos, historiadores, escritores, representantes do Poder Público e de instituições se sentissem “no mesmo barco”. Ressaltou que uma das propostas importantes do Encontro era a retomada do FEC – Fórum Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, movimento que durante anos reuniu todos os Secretários e/ou Diretores Municipais de Cultura fluminenses, para um trabalho conjunto e cooperativo, que tão bons frutos deu no passado. Pontuou que a preservação do meio ambiente era questão muito importante para ser trabalhada pelos participantes do Encontro. Nesse sentido, sugeriu uma integração entre as áreas da cultura, educação, turismo e meio ambiente. Abordou a necessidade de preservação do patrimônio histórico e, nesse sentido, citou Francisco Ramalho, que no passado atuou como Secretário Municipal de Cultura de Rio Claro (RJ), que afirmou: “a melhor maneira de preservar o patrimônio é a consciência da população”. Afirmou: “Estamos vivendo a Era da Emoção, do envolvimento direto com tudo que nos rodeia. Reparem que a palavra desenvolvimento nega, por seu prefixo des, o envolvimento com qualquer coisa. E a nossa palavra de ordem deve ser justamente o contrário, devemos buscar o envolvimento político, econômico e social para promover o nosso crescimento”. Andréa Jordão do Amaral – Deu as boas vindas aos participantes em nome do Prefeito de Vassouras e cumprimentou as autoridades presentes. Declarou ter a certeza de que o Encontro não se resumiria apenas ao primeiro. Expressou o desejo de que os participantes pudessem, nos dois dias do Encontro, trabalhar intensamente com a história e a cultura do Vale Paraíba. E manifestou sua esperança de que o evento estivesse abrindo um espaço significativo para a rica história da região. Ana Lúcia Mattozo Furtado3 – Saudou os presentes e agradeceu pela iniciativa do encontro no Vale do café: “É muito importante para nós, que aqui trabalhamos arduamente, para manter nossa cultura viva e sustentável”. Sublinhou que sua entidade trabalhava junto com a área de turismo e o empresariado local, para dar visibilidade à história e à arquitetura do Vale do Café. Expressou a necessidade de “idealizar um mundo novo no Vale”, pois “é preciso sonhar para trazer resultados para quem trabalha com a nossa cultura”. Lembrou que o PIM – Programa de Integração pela Música já atinge “não só a nossa região, mas o Estado e todo o Brasil e ajuda a divulgar o Vale”. Corroborou a visão de que o turismo, no Vale, “é essencialmente histórico e cultural”. Realçou que os “moradores respeitam cada um dos nossos prédios históricos” e que o Vale possuía “27 fazenda 3 Maiores informações sobre o CONCICLO/SEBRAE-RJ podem ser encontradas no site: http://www.valedocafe.com.br/conciclo.html. 7 maravilhosas, todas prontas para receber os turistas”. Garantiu que tais fazendas “estão tendo um retorno muito bom”, lastreado no turismo: “A produção já não dá tanto e nesse tipo de turismo há uma nova oportunidade”. Assinalou que, em muitos casos, os proprietários das fazendas históricas são efetivamente “fazendeiros” que conseguem dar aos turistas um “atendimento fora de série”. Ao final, manifestou sua esperança de que os resultados do Encontro possam gerar projetos e programas capazes de “trazer sustentabilidade para o nosso vale histórico”. Ana Seraphim4 – Após saudar os presentes, afirmou que representava, antes de tudo, “uma instituição que há 14 anos levanta essa bandeira da preservação e do desenvolvimento através do trabalho em prol do turismo histórico na região”. Elogiou o trabalho da fundadora do Instituto PRESERVALE, Sônia Mattos de Lucas e saudou a “todos que trabalham na região”. Asseverou que o turismo “é a grande saída para inúmeros municípios da região” no que tange à “geração de trabalho e renda”. E afirmou: “temos aqui um binômio, turismo e patrimônio histórico se complementam”. Realçou que, hoje, já existe “um grupo de pessoas que se dedica a estudar a história da região”. Assinalou que “o olhar do forasteiro é muito importante para quem está na região, porque estamos trabalhando e desenvolvendo um projeto muito importante e muito bacana, mas estamos muito mergulhados nele, não vemos o todo, e quem vem de fora lança outro olhar”. Desejou que esse fosse “um olhar de compartilhar”. Elogiou a organização do encontro, afirmando que “houve preocupação de saber quem está trabalhando na região, quem faz o que”. E concluiu: “não vieram com fórmula pronta, ainda bem, pois isso às vezes gera resistência”. Expressou sua convicção de que “é muito importante que o trabalho de quem está na região seja reconhecido”. Assim, o encontro une “pessoas de fora e pessoas que estão na região”. Reconheceu o trabalho feito no capital, assinalando que “quem está no Rio, na corte, também está fazendo coisas muito boas para a região”. No final de seu pronunciamento, realçou que o Instituto PRESERVALE enfoca, ao mesmo tempo, “patrimônio, turismo e preservação do meio ambiente”. E encerrou sua fala com o desejo de que o Encontro propiciasse “novas parcerias e compartilhamento com parceiros de antiga e nova data”. Luis Reznik – Começou sua fala ressaltando que “o Departamento de História da PUC-Rio5 tem muito orgulho de estar aqui presente”. Lembrou uma brincadeira feita pelo presidente da Light, Dr. José Luiz Alqueres, que afirmou em conversa informal que se considerava “historiador amador”, juntamente com Mozart Serra, enquanto os demais participantes do Encontro eram “historiadores profissionais”. Por isso, disse o professor: “Somos todos amantes da História”. Para evidenciar a importância dessa disciplina, afirmou: “A partir de perspectivas passadas transformamos o nosso cotidiano”. No Encontro, prosseguiu o professor, “nossa perspectiva é trocar um pouco as nossas experiências; é dessa forma que encaminhamos e pensamos a programação dos trabalhos de hoje”. Sugeriu que, “como amantes da história 4 5 8 Maiores informações sobre o PRESERVALE podem ser encontradas no site: http://www.preservale.com.br. Informações mais detalhadas sobre o Departamento de História da PUC-Rio encontram-se no site: http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/historia/index.html. da localidade”, todos pudessem “trocar experiências” e ver como “as histórias de cada um poderiam ser contadas”. Destacou que os professores da PUC-Rio convidados para o Encontro estavam “se propondo a fazer oficinas, um trabalho em conjunto com o s participantes, sobre como elaborar e narrar as histórias da região”. Além disso, concluiu o professor Reznik, os participantes iriam assistir e debater um filme, Narradores de Javé6, que enfocava “como se narra e como se constroem memórias e a nossa perspectiva identitária a partir daí”. Marcus Monteiro – Saudou os presentes e declarou ser “um prazer enorme o INEPAC7 estar participando deste Encontro, que deverá ser um divisor de águas”. Informou que o Instituto existe desde 1964 e que cuida do patrimônio cultural em todo o Estado. Antes dele, pontuou, “ninguém sabia o que era tombamento”. Opinou que o Instituto “deveria ser também uma espécie de órgão regulador das iniciativas civis feitas com os governos municipais no campo do patrimônio”. Afirmou que a equipe do órgão está no Rio, mas que tem “preocupação com o mundo inteiro”. Uma equipe que procura ter uma visão de conjunto, “como a de um pássaro que voa”. Referindo-se à fala de Ana Seraphim, declarou que “todos nós somos forasteiros em algum momento de nossas vidas”. Quanto ao Instituto, afirmou que “existe uma preocupação muito grande do INEPAC em educar para o patrimônio; estamos preocupados, inclusive, em educar os governantes”. E acrescentou: “Ninguém pense que não podemos fazer isso, porque somos um órgão público. Podemos sim. Hoje em dia, a gente liga para o governador e resolve. Mas cabe às associações civis cuidar dos interesses da coletividade”. Em primeira mão, deu uma notícia da parte do governador Sérgio Cabral: “Acabamos de criar quatro Escritórios Técnicos Regionais do INEPAC: um na Região Norte Fluminense, outro na Região Serrana (em Petrópolis), outro na Baixada Litorânea (em São Pedro da Aldeia) e um aqui na região (em Valença)”. Para Marcus Monteiro, “ocorre no Vale do Paraíba um urbicídio, um esvaziamento econômico”, que leva os governantes a desejarem “a todo custo criar novas alternativas de geração de empregos”. E comparou: “Um prédio histórico demolido para gerar 30 empregos geraria dez vezes mais, se houvesse investimento em turismo cultural”. Lamentou que “quando uma igreja evangélica se instala num cinema, descaracterizando a arquitetura, é como se a gente tomasse um soco no estômago, porque estão matando a nossa galinha dos ovos de ouro...” Na visão de Marcus Monteiro, a política de preservação do patrimônio “só pode ser resolvida com essa parceria com a sociedade, pois é a própria sociedade que deve zelar pelo que é seu”. Reiterou que o “patrimônio pertence a todos nós e sociedade e governo devem se juntar para que ele se perenize”. Filme brasileiro de 2003, dirigido por Eliane Caffé, que escreveu o roteiro junto com Luiz Alberto de Abreu. Rodado entre junho e setembro de 2001, em Gameleira da Lapa, cidade do interior da Bahia, o filme conta a história de um povoado que, ao ver a iminência de ter seu vilarejo inundado pelas águas de uma represa, vê como único modo de impedir o acontecimento na transformação do local em um patrimônio da humanidade. Para isso os moradores decidem passar para o papel todas as lendas sobre a origem de Javé, e assim chamam o escrivão local, Antônio Biá, para escrever um livro sobre o vilarejo. Porém Biá havia sido banido de Javé pela população, por ter difamado praticamente toda esta através de cartas que ajudaram a salvar seu emprego nos Correios locais. No desespero, a população acaba dando uma oportunidade para que o escrivão se redimisse. A partir daí, Biá passa a ir de casa em casa, para colher informações e passar para o papel as lendas guardadas nas cabeças dos moradores de Javé. O problema é que cada morador conta uma história diferente, e sempre defendendo os interesses de seus antepassados. No elenco, José Dumont (Antônio Biá), Matheus Nachtergaele (Souza), Nelson Dantas (Vicentino), Gero Camilo (Firmino) e Nélson Xavier (Zaqueu), entre outros. 7 O Portal do INEPAC está no endereço eletrônico http://www.inepac.rj.gov.br/modules.php?name=Inepac 6 9 Para deixar ainda mais clara sua posição, complementou: “Não prego a política de que não se pode fazer nada, que as cidades não podem se desenvolver. Autorizamos diversas modernizações em fazendas tombadas, mas não autorizamos a descaracterização. O proprietário é o fiel depositário do bem tombado, passa a ser um zelador. No campo do patrimônio, essa atitude deve ser uma constante. E vocês podem contar, efetivamente, com o INEPAC. Estamos perto, em Valença, à disposição de todos vocês”. Mozart Vitor Serra – “É um imenso prazer participar desta Mesa, onde vejo muitas caras amigas. Houve transformações profundas na sociedade, que permitem um olhar novo sobre o patrimônio. Não estamos mais à mercê de forças insondáveis. O setor privado faz parte disso, através da criação desses vários Institutos e Fundações, que procuram promover o bem público, como é o caso do Instituto Light de Desenvolvimento urbano e Social. Hoje já existe nada menos que um século de relações profissionais entre nossa empresa e o Vale do Paraíba. Antes de promover este Encontro, achamos que deveríamos dar uma olhada na região, justamente para recuperar essas relações”. O Diretor do Instituto Light, idealizador do Encontro, afirmou que desenvolve dois projetos para o Vale: Incentivo ao turismo como forma de revitalizar a economia da região. Neste sentido, o Instituto patrocinou o Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba, publicação que documenta o patrimônio edificado de 130 fazendas históricas da região. Todas as fazendas visitadas foram fotografadas, a descrição arquitetônica é completa, e se divulgou a história das famílias que foram proprietárias desses imóveis. É um trabalho sólido, de fundo, que servirá de base para iniciativas de natureza econômica; O Encontro de historiadores, que objetiva sondar os possíveis caminhos de desenvolvimento da região. Mozart Serra agradeceu a presença dos participantes ao I Encontro de História do Vale do Paraíba e reiterou que há “uma profunda relação do Instituto Light com o futuro desta região, através destes instrumentos (o Inventário e o Encontro) e outros que ainda estão por vir”. Antonio Orlando Izolani8 – Cumprimentou os integrantes da Mesa e declarou sentir “muito orgulho de participar do Encontro”. Em seguida, falou sobre sua instituição: “Temos 27 cursos de graduação, dois de extensão e dois de mestrado. São 40 anos de existência. Temos um curso de Turismo e também um curso de História”. Realçou a importância do Centro de Documentação Histórica que é mantido pela Universidade e que é muito procurado por pesquisadores. Ao fim do seu rápido pronunciamento, asseverou: “Contem com a nossa Universidade. Em agosto, estaremos realizando o nosso 2º Fórum de Mudanças Climáticas, que é voltado para a educação ambiental, mas também para a preservação do nosso patrimônio. Parabenizo a realização deste Encontro e reitero que estou à disposição de vocês”. O site da USS – Universidade Severino Sombra é: http://www.uss.br/web/page/index.asp. Uma notícia sobre a participação dessa Instituição de Ensino Superior no I Encontro de História do Vale do Paraíba, ilustrada com fotos, está no seguinte endereço eletrônico: http://www.uss.br/web/page/noticiasdetails.asp?cod=398. 8 10 José Luiz Alqueres – “Bom dia a todos. Cara Andréa, por favor, cumprimente o Prefeito por mim. Eu estava fazendo reflexões sobre a singularidade do papel que um presidente de empresa poderia ter neste encontro de especialistas. Na minha visão, precisamos voltar ao básico, ao essencial, para pensar o quê deveriam ser as cidades”. “A primeira qualidade das cidades é a de serem seguras. Nenhum cidade pode destruir isso,a segurança dos seus moradores. Numa segunda dimensão, deve oferecer condições decentes, amigáveis, para as atividades econômicas. A cidade tem que oferecer esse espaço para os agentes econômicos”. “A terceira dimensão, a mais importante de todas, é que as cidades encerram a sua sacralidade. Há também os avanços técnicos, os equipamentos e sistemas urbanos criados ao longo do tempo. A eletricidade, por exemplo, só existe nos últimos 100 anos. Como foi possível não tê-la antes? Isso foi uma limitação em cidades antigas, como UR, por exemplo... A LIGHT, como provedora de um desses serviços, está empenhada em promover a qualidade de vida. A sacralidade das construções não está apenas nas igrejas, pode ser uma casa grande ou uma senzala”. “O historiador é aquele que conhece e que transmite esse conhecimento, ele é o guardião, o tomador de conta. Como aquele anúncio do relógio de marca Patek Philippe, onde se diz que ninguém é dono de um, apenas toma conta... Eu tenho que me sentir dono de tudo que é humano, que é obra de civilização”. “A LIGHT se orgulha muito dessa parceria com o INEPAC que deu origem à publicação do Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba. Nesse campo, a questão do turismo é importante, é uma palavra mágica. Mas o Vale também é locus do conhecimento e tudo muda com o tempo. A cada quatro anos eu me reinvento como profissional. A gente tem que se reinventar. A LIGHT, por determinação legal, é fornecedora de serviço e tem obrigação de olhar para o futuro do Vale, que passa pela preservação do patrimônio. Nossa empresa acaba de investir em São João Marcos: 70 anos depois, a empresa recompõe o que restou das ruínas dessa cidade. Esse tipo de trabalho não é um aspecto complementar do trabalho da LIGHT, mas a essência mesma da nossa atividade, de servir com energia. Eu me orgulho de passar estas horas na companhia de todos vocês”. 11 DESTAQUES ● O expressivo número de participantes legitimou o Encontro de História como espaço aberto de discussão e de coleta de informações importantes para subsidiar o planejamento de políticas públicas e os projetos e ações das entidades privadas que atuam na região do Vale do Paraíba. ● Na abertura do Encontro, a participação dos músicos que atuam no PIM – Programa de Integração pela Música – divulgou para um público formador de opinião o valor desse projeto sociocultural, que, além de ser muito bem sucedido, é exemplo a ser seguido em outras regiões do país. ● Em seus pronunciamentos, as personalidades reafirmaram a importância do turismo cultural na região, atividade que é inseparável do trabalho de preservação do patrimônio histórico e ambiental do Vale do Paraíba. ● Fernando Portella chamou a atenção para a Era da Emoção que estamos vivendo, favorável ao desenvolvimento de projetos históricos e culturais. Ele também destacou a importância do compromisso pleno, do envolvimento efetivo das pessoas com os projetos que podem beneficiar a região. O Diretor-Executivo do ICCV também apontou a necessidade de integrar os trabalhos nos campos da cultura, educação, turismo e meio ambiente. Ele assinalou, ainda, que a melhor forma de preservar o patrimônio histórico é a conscientização da comunidade local. ● Ana Lúcia Mattozo corroborou a tese de que o turismo no Vale é essencialmente histórico e cultural. E mostrou a importância de idealizar um “mundo novo” na região, capaz de gerar projetos voltados para a sustentabilidade. ● Ana Seraphim apontou o turismo como a grande saída para inúmeros municípios da região, em termos de geração de trabalho e renda. Segundo ela, turismo e patrimônio histórico se complementam. Destacou o que considerou um dos aspectos mais positivos da organização do encontro, afirmando que houve preocupação de saber quem está trabalhando na região, sem “fórmula pronta”, algo que poderia gerar resistência entre os participantes. Pontuou que o Instituto PRESERVALE enfoca em suas atividades, ao mesmo tempo, patrimônio, turismo e preservação do meio ambiente. 12 da Abertura do Encontro ● O professor Luis Reznik demonstrou que o estudo da História não é atividade imobilista, mas sim dinâmica: “A partir de perspectivas passadas transformamos o nosso cotidiano”. ● Marcus Monteiro realçou a importância de educar para a preservação do patrimônio, inclusive educar os governantes. Ele procurou, também, mostrar que atividades vinculadas ao patrimônio histórico podem ser mais lucrativas para os municípios do que muitas atividades comerciais tradicionais. Nesse sentido, criticou ações precipitadas do Poder Público, que sacrificam o patrimônio histórico em favor de iniciativas comerciais imediatistas, que nem geram muitos postos de trabalho. Daí a importância das parcerias conscientes entre o Poder Público e a sociedade civil, para tornar o patrimônio histórico um fator de real desenvolvimento local e, por extensão, regional. Ele também deu a boa notícia da abertura de quatro Escritórios Técnicos Regionais em cidades do interior fluminense, criando postos avançados do órgão (um deles, inclusive, no Vale do Paraíba, no município de Valença). ● Mozart Vitor Serra apresentou as duas principais frentes de trabalho do Instituto Light na região: o incentivo ao turismo como forma de revitalizar a economia da região, com a consciência de que a tônica, no Vale, é o turismo histórico e cultural; a promoção do Encontro de História, como forma de obter subsídios para projetos futuros. ● O Presidente da LIGHT mostrou uma visão humanista das cidades e destacou a parceria da empresa com o INEPAC, tanto no projeto de publicação do Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba como na consolidação das ruínas de São João Marcos. Ele também destacou a importância dos historiadores como guardiães de conhecimentos importantes para o planejamento de projetos ligados ao futuro do Vale e que, na dinâmica do mundo de hoje, todos precisam se reinventar profissionalmente, de tempos em tempos. ● As presenças do Presidente da Light e do Diretor do Instituto LIGHT de Desenvolvimento Urbano e Social, assim como seus pronunciamentos, demonstraram a importância que a empresa dá ao desenvolvimento do Vale do Paraíba e indicam que ela está, de fato, comprometida com o futuro da região. 13 Apresentação das Oficinas de História Ao final da abertura oficial do Encontro, Fernando Portella registrou a presença do historiador Antônio Brant9 de Minas Gerais, e convidou o professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues10 , da PUC-Rio, para assumir o comando da Mesa. Após um pequeno intervalo de 10 minutos, os eventos prosseguiram e o professor Antonio Edmilson antecipou parte dos eventos que seriam realizados no período da tarde, no primeiro dia do Encontro. Ele formou uma mesa ao lado dos professores Rui Aniceto11 e Luis Reznik12 . Antônio Edmilson Martins Rodrigues – “Viemos aqui para trabalhar e por isso não vamos deixar uma hora de lado. Isso já serve para melhorar um pouco o nosso rendimento à tarde, quando faremos Oficinas de História. Entre as principais temáticas do trabalho está o resgate de informações – não só para construir memórias, mas para analisar com espírito crítico e assim construir história. Claro que há um pressuposto, temos que ter uma idéia do que ocorreu no passado. Mas nós não explicamos nada, nós compreendemos. Para compreender é necessário ter uma série de elementos que permitam essa compreensão”. “Existe a dificuldade do olhar estrangeiro para compreender o que é local. É preciso ter uma idéia de cidade, da associação que é a cidade, o sagrado”. “Em nosso trabalho específico aqui no Vale do Paraíba, queremos fazer uma crítica à noção de decadência, do ciclo de grandeza e decadência. Outro equívoco central é a pesquisa feita sem levar em conta as diferenças que existem entre o Vale do Paraíba paulista e o fluminense. Há pesquisadores que avaliam a região sem compreendê-la”. “A escravidão é vista como o carro-chefe do Século XIX – e a escravidão, que por si só já dá náuseas, torna contraditório tudo que a envolva. Assim, a noção de fazenda como grande propriedade escravista é complicada. Podemos ter outro olhar sobre o Vale do Paraíba, outra compreensão da sua cultura. Ver os fazendeiros como empresários do café, por exemplo. O que é diferente dos grandes proprietários das fazendas de açúcar do Nordeste. O trabalho dos fazendeiros do Vale tem correlação também com a Abolição”. “Digo que é preciso rediscutir a noção de proprietário-cafeicultor. É preciso também aproximá-los de suas relações com a Corte do Rio. Porque existe o Rio legal, o Rio de Chiquinha Gonzaga, o Rio do Clube da Abolição. Precisamos trabalhar com todas estas mediações”. “Outro ponto a considerar: associamos o tamanho das fazendas do Vale ao luxo, à monumentalidade. Mas podemos ver isso do ponto de vista da praticidade. Por que uma cozinha grande? Por causa do vento, da luminosidade. Gilberto Freyre, em sua obra, analisava cada cômodo das fazendas, fazia um passo-a-passo”. “Há que se considerar também que a fazenda era um local de confronto de visões, um local de tensões. É preciso estudar as relações entre a cidade e o campo. O que é uma cidade como Vassouras? Não como resultado de uma economia agrícola, porque isso aconteceu no século XIX. Podemos ver as fazendas com uma visão nova da política agrícola da época: a fazenda era o lugar do moderno. Assim combateremos o equívoco que associa o que é rural ao que é provinciano. Mas é preciso comparar: o registro rural versus o urbano”. “Como a gente faz turismo no Vale do Paraíba sem discutir o que é cidade? Por que não ver a fazenda como o novo lugar do moderno, da apreciação das relações entre campo e cidade? Estudar o que um fazendeiro requisita como móveis e o que faz como lazer...” Pesquisador histórico, convidado especial do Instituto LIGHT de Desenvolvimento Urbano e Social. Doutor em História pela PUC-Rio. 11 Doutor em História pela PUC-Rio. 12 Chefe do departamento de História da PUC-Rio. 9 10 14 “A idéia de memória é capaz de tombar. Está vinculada a um sentido quantitativo. Mas a memória pode ser uma referência qualitativa. Isso, se não se apresentar como resistência à mudança. Precisamos, portanto, compatibilizar passado, presente e futuro”. “A noção de cultura gera muitos equívocos. Quando generalizamos, podemos errar, pois quando temos ruínas, temos fragmentos que podem ter diferentes leituras. A cultura é a reflexão que a sociedade faz sobre ela mesma. Envolve a maneira pela qual a comunidade se pensa nesse processo. É tudo dentro, não há olhar de fora, contra o olhar autoritário, que produz um cânone, uma referência que nos deixa sem saída”. Rui Aniceto – “O trabalho que vou apresentar é fruto do meu doutoramento na PUC-Rio, uma pesquisa sobre a historiografia fluminense, dos anos 30 aos anos 50. No início, eu fazia pesquisa sobre folclore – e vi que não era a única linha de pensamento sobre o estado do Rio, pois os pesquisadores também estudavam História e Geografia. O período escolhido é importante, pois naquela época, no Rio, havia um grupo político com muita força, que tinha Amaral Peixoto como interventor”. “Nesse período, folclore e história andavam juntos. Havia a idéia de superar a decadência, começando pela instauração da República. Esse discurso é uma constante nos anos 20. Com essa idéia, se pretendia construir uma identidade positivada para o estado. Fui fazer um levantamento historiográfico. Uma das primeiras questões que precisei enfrentar foi: a história profissional e a dos amantes da história. Os acadêmicos pensavam a corte, a cidade do Rio e com isso se tornaram secundárias as reflexões sobre as outras regiões do estado. Um balanço feito por dois professores indicou que, de 265 trabalhos de história, 73% dos títulos eram sobre a cidade do Rio (História, Psicologia etc.). Na UFF, de 700 dissertações produzidas entre 1974 e 2005 (incluindo as teses de doutorado), 17% abordavam o Rio e 8% eram sobre as mais diversas regiões do estado. Conclui-se, portanto, que a historiografia prioriza um olhar sobre o Rio”. “Quanto à produção fora da universidade, ela não é sequer mencionada, e é vista com preconceitos. São consideradas memórias sobre o exótico, o outro, que fugia do modelo europeu. A avaliação geral era a de uma produção fora dos cânones universais e que serve apenas como fonte de informação. No meu doutorado, trabalho com o conceito de que essa produção também é história, uma outra história – e não apenas fonte de informação”. “A história regional que está de acordo com os cânones vigorava na época que estudei. Nos trabalhos de Geografia Humana, naqueles que seguiram a metodologia francesa, no IHGB etc.”. “Matoso Maia escreveu a memória histórica de Vassouras, em 1933; Figueiredo de Almeida escreveu a memória de Barra Mansa. Eles foram os primeiros a pensar uma história fluminense. Para a produção dessa história, seguiam a orientação da Geografia Humana, com estatísticas etc. Eles buscam associar os tempos da história maior aos tempos da história de suas localidades”. “Como prioridade, pode-se usar as fontes oficiais, mas associadas a outras fontes, como história oral, para dar a cor local”. Luis Reznik – Comentou que Rui Aniceto “tem estudado muitas histórias, que possui uma biblioteca vultuosa sobre o estado do Rio de Janeiro e que tem muita leitura sobre histórias locais”. Apresentou slides sobre o projeto História local: pesquisa, ensino e narrativa, desenvolvido pelo Departamento de História da PUC-Rio. O projeto deu origem à Caixa de História, um conjunto de materiais didáticos reunidos numa caixa, desenvolvidos pelo Departamento de História da PUC-Rio para uso em escolas. “Este trabalho é uma experiência com história local. Pesquiso São Gonçalo, junto com um grupo de estudo, há anos. Estamos desenvolvendo metodologias para trabalhar com a história local e como narrá-la na escola”. 15 “Um dos pressupostos do trabalho é a associação entre história e identidade. Quando recuperamos a história de um lugar, lembramos muitas coisas e esquecemos tantas outras, que talvez nunca mais sejam recuperadas. Trabalhar sobre essas experiências é o que nos projeta. Se temos uma concepção de uma área em decadência, esse conceito nos dará um tipo de identidade”. “Outro pressuposto é a história local e seus pertencimentos. Os vínculos com a região, geográfica, vista como continuidade territorial. Nas escolas, os alunos nos ajudam a pensar, pois eles têm uma afetividade que é distante da história abstrata”. “O local é regional, nacional e global. A história do Brasil se estabelece localmente, embora nem toda história local seja nacional. Existe uma tendência a demarcar coisas ufanistas: a primeira corrida de automóvel, o primeiro grão de café do Brasil. Um fervor patriota local e regional”. “A metodologia consiste em utilizar materiais de memória, vestígios do passado. A idéia é tirar tudo do silêncio, pois tudo que está no entorno da escola tem uma historicidade e algumas coisas podem ser usadas para se pensar o passado, como é o caso, por exemplo, das fazendas aqui da região”. “A proposta visa a valorizar o patrimônio material e imaterial do município enfocado. Usar a cultura da região, que não tem materialidade mas também é patrimônio local”. “Queremos propiciar a integração da escola com a comunidade circundante, através da mobilização dos alunos junto às famílias, às instituições, aos cidadãos em geral, para a realização das atividades”. Os materiais de memória utilizados na Caixa de História são os seguintes: ● Cartografia: a leitura de mapas, paisagens, que mostram as relações entre as pessoas e a natureza. ● Fotografias: registros fotográficos como documentos históricos. Relacionar o ato de fotografar ao exercício de apreender e figurar as experiências históricas de indivíduos e grupos sociais. ● Construções arquitetônicas: janelas para modos de vida. Cenários rurais e urbanos em constante transformação. Testemunhas silenciosas da história. ● O cotidiano escrito nas crônicas (literárias e jornalísticas): compreender a história local por meio de crônicas elaboradas pelos habitantes. ● História oral: metodologia para uma história do tempo presente. Reconhecer que é possível haver diferentes compreensões sobre o mesmo fenômeno ou processo histórico. ● Registros paroquiais e comunitários. ● Registros oficiais sobre o governo da cidade: mensagens e relatórios do Prefeito. Atas e anais das câmaras legislativas. ● Registros da vida associativa. ● Registros de propriedade: casas comerciais etc. Com tais materiais, foi sistematizada uma metodologia – pensando vestígios do passado para didatizar e transformar, dentro da escola, ou para pensar e planejar o futuro. Fernando Portella – Encerrou os trabalhos da parte da manhã, informando que, no período da tarde, os participantes falariam, todos seriam ouvidos. Seriam tomadas todas as visões ou se construiria uma visão só sobre os assuntos abordados. Citou o escritor Pedro Nava: “O futuro é um carro, emalta velocidade no escuro, com os faróis acesos apenas atrás”. Ou seja, para plenejar o futuro é preciso se orientar no passado. 16 Período da Tarde: Depoimentos e Intervenções dos Participantes Professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues – Agora a palavra é de vocês. Precisávamos organizar os pronunciamentos de alguma maneira e a escolhida foi o site do encontro, onde as pessoas se inscreveram para falar. Quem fez essa indicação ganhou prioridade. Convido para a mesa o professor Antônio Brant, que tem larga experiência no trato dessas histórias do período do café. Faremos comentários sobre as histórias contadas por vocês. Adriano Novaes – É um prazer estar aqui. Sou de Valença. Minha formação é em Sociologia, membro do PRESERVALE. Recentemente trabalhei no Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba. Comecei a pesquisar as fazendas de café, desde que trabalho no Museu Histórico Regional. Trabalhamos em cima dos documentos paroquiais e cartoriais, e também com a história oral. Buscamos a compreensão da fazenda de café, pois o Vale do Paraíba se desenvolveu em função disso. Com o final do período do ouro, vieram as sesmarias, o Ciclo do Café. Estudamos o universo, os hábitos próprios das fazendas. Meu trabalho é voltado para a compreensão da fazenda e fui pego de surpresa pela realização deste Encontro. Devo dizer que esta é uma região que encanta a gente, porque é muito rica. Nossa realidade tem muito mais a ver com o café do que se pode imaginar. Isso tudo merece ser estudado e mostrado, principalmente as conseqüências do Ciclo do Café para o Século XX. André Ricardo – Moro em Piraí. Sou mais um amante da história do que um historiador. Meu trabalho é uma pesquisa sobre o Comendador José Joaquim de Souza Breves. Ele criou um império, o da família Breves, chegou a competir com a Corte no Rio de Janeiro. Pesquiso os fatores de seu sucesso e da sua decadência. Quero responder a esta pergunta: como, para alguém que tinha tanto dinheiro, em apenas um ano ele e seus descendentes ficaram paupérrimos. Os fazendeiros de sucesso tinham de 600 a 1.000 escravos. Breves tinha de 6.000 a 10.000 escravos. Ele era o “Rei do Café”... Ângelo Ferreira Monteiro – Sou de Vassouras, formado em História, no ano de 2001. Fiz Mestrado em 2005. Sou funcionário da Universidade Severino Sombra e trabalho no Centro de Documentação Histórica. Estudei a vida de Benjamin Ben Atai, um marroquino que viveu em Vassouras e teve negação de sepultura. Meu tema, portanto, foi a intolerância religiosa. Procurei descobrir como ele conseguiu se inserir numa sociedade que era tão fechada. Ele se aproveitou das relações de compadrio. Houve interesse da Secretaria de Cultura e da Paróquia, na publicação do meu livro que conta essa história. Se não houvesse interesse público, eu nem pensaria em publicar. Acabei optando por ser editor/autor independente. Levei um ano preparando o texto para o formato de livro. Desde 2001, quando o Instituto Histórico de Vassouras foi instalado, fui convidado para pertencer ao Instituto e para a Academia de letras de Vassouras. Uma jornalista gaúcha utilizou o livro em seu trabalho. E hoje sei que ele está rendendo outros frutos, para outras pessoas. Evânia da Costa Santos – Sou professora de História e Geografia do Estado e moro em Mendes. Estudei Ciências Sociais, fiz algumas pós-graduações e atuei como guia de turismo do nosso Vale. Tenho um projeto educacional para a rede do município, intitulado “Eu amo Mendes”, que é voltado para os professores e objetiva que eles trabalhem junto com os alunos. Quero promover uma integração da escola com a comunidade. Resgatar o que as pessoas têm para contar sobre o município. Consegui muitas fotos, informações sobre os 17 aspectos culturais, sociais, religiosos, e está tudo num CD que está rodando pela cidade. Eu, como professora, também trabalho nesse sentido, de passar para o meio escolar a melhor maneira de resgatar a cultura de um município. Gilda Meireles – Sou professora, natural de Vassouras, mas eu e minha família escolhemos ficar aqui para viver nossas vidas. Escolhi a área de escrever, e lido com poesia, além de educação. Fiz edições independentes, até que uma editora de Juiz de Fora me descobriu, por acaso. Sou sócia-fundadora da Academia de Letras de Vassouras. Atuo como professora de Filosofia, Psicologia e Didática. Escrevo crônicas para o jornal Tribuna do Interior. Meu sonho é editar um livro com uma seleção desses textos. O jornal já vai completar 25 anos. Tenho um livro em que o mote são as cores. A biografia do negro, do branco, do verde... Produzi um gibi sobre o Vale do Paraíba. E participei de um Fórum de Cultura aqui na região, anos atrás. (Ao final de seu pronunciamento, Gilda Meireles leu um pequeno poema de sua autoria). Isabela Torres – Sou professora de História e membro do Conselho Municipal de Cultura de Paraíba do Sul. Em meu livro, que é originado em uma tese de doutorado, falo sobre uma colônia agrícola de ex-escravos. Mostro o racismo e o preconceito por conta de uma história de escravidão. No passado, a Condessa do Rio Novo deixou a colônia como herança para exescravos. Eles foram obrigados a obedecer a uma irmandade da elite local. Trabalhando duro, eles dobraram a produção da colônia em apenas um ano. Mas ficaram sem investimento e a colônia acabou sendo dividida. As pessoas de classe mais baixa não foram ouvidas e perderam suas terras. O final do livro mostra o desinteresse político de manter a colônia, que depois se transformou no bairro de Vila Isabel de hoje. Em meu trabalho, tento mostrar que os negros foram capazes de fazer algo positivo, que houve ex-escravos que conseguiram se inserir positivamente na sociedade. José Carlos Tambasco – Devo dizer a vocês que sou um retardatário na História. Nasci em Vassouras, saí daqui cedo e fui para Volta Redonda. Minha vida tomou dois rumos diferentes: fiz Engenharia em Ouro Preto e trabalhei em siderurgia numa multinacional. Aos 55 anos de idade, vi que as empresas colocam a gente na rua, com dignidade e aposentadoria complementar. Que fazer, então? Fui fazer vestibular e graduação em História em Minas Gerais. E depois fiz Mestrado e Doutorado na UFF. Tenho trabalhado muito com a história de Vassouras. Meu primeiro livro se intitula A Vila de Vassouras e a Freguesia do Tinguá. O terceiro aborda a economia do café. Em Minas, escrevi livros sobre a cidade de Caeté, história do ouro e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade, que é um repositório de arte, inclusive de obras do Aleijadinho. Nenhum dos meus livros foi publicado. O problema não é ter ou não uma editora. Por aqui temos gráficas e editoras de qualidade. O que falta é a distribuição das obras dos escritores do interior. 18 Júlio Fidelis – Sou economista, professor de História Econômica. Dedico-me a estudar os pequenos proprietários do Século XIX, a produção de um grupo social formado por pequenos e médios cafeeiros de Resende. Que gostavam mais de ser chamados de fazendeiros ou de lavradores. Resende criou uma sociedade diferente aqui no Vale, com mais distribuição de renda. Não há um perfil único no Vale do Café. Em meu estudo, pesquisei a presença do Imperador Pedro II em Resende, que veio de surpresa, para conhecer a famosa poetisa Narcisa Amália. Sua Majestade teve que passar pelo meio da lama. Quando perguntaram a ele o que viera fazer em Resende, ele respondeu que queria conhecer uma padaria, onde ele sabia que encontraria Narcisa. Ela foi importantíssima e é mencionada nas obras de Machado de Assis e de Fagundes Varela. Dom Pedro, inclusive, chegou a conceder a Ordem da Rosa ao pai dela. Para conhecer a poetisa, o imperador aceitou participar de uma grande festa na Loja Maçônica de Resende. Poucas vezes ele entrou em um espaço como esse, embora convivesse com muitos maçons à sua volta. Ao final, satisfeito, ele decidiu doar um florete de corte à Loja Maçônica e com isso todo maçon da Loja poderia se avistar diretamente com ele. E ele deu um sabre da Guarda real. Tudo isso foi muito significativo para a Loja, pois, como vocês sabem, o simbolismo é muito importante para a maçonaria. Além disso, os cafeicultores da região eram, em sua maioria, maçons, por volta de outubro de 1874. Quanto à poetisa, ela largou o padeiro e casou-se de novo – e morreu pobre, infelizmente, na condição de professora. Hoje estamos fazendo a reedição da única obra de Machado de Assis, intitulada Terras, em que ele faz a defesa da pequena propriedade. Ana Seraphim – Trago as saudações do interior, da província, à Corte... Há muitos anos atrás, o primeiro vestibular que fiz foi para Museologia. Abandonei e fui fazer Jornalismo. Trabalhei na área internacional e, um dia, em Ouro Preto, tive uma experiência histórica: naquele momento, decidi abandonar tudo e voltar ao meu início. A História me mobiliza. São tantos que trabalham seriamente, são relatos tocantes. Sou historiadora, professora, há 14 anos. Dirijo uma pequena firma de turismo cultural e desenvolvo projetos na área de cultura (exposições). No momento, sou Diretora de Turismo do PRESERVALE. Quando montei a minha firma, o Instituto estava se organizando e a Sônia Mattos e o Roberto Lamego foram as primeiras pessoas a me receber, a me abrir os braços – e começamos juntos a nossa caminhada. Nos últimos anos, desenvolvi o projeto Luzes sobre o Vale (uma exposição para o SESC). Essa mostra circula pelo Vale até hoje. Tem fotos de Joaquim Marçal. Refizemos os caminhos do Século XIX no Século XXI. No momento, trabalho em outra exposição, chamada História Viva, que está sendo construída. Na Bienal do Livro, montei um estande de café (marca Faraó, de Volta Redonda). A Prefeitura também patrocinou e agora estou refazendo meu livro sobre o Vale. No fim do mês, estarei lançando a revista eletrônica Vale do Café Online. Quero contribuições, pois há espaço para contribuições científicas e técnicas. Entendo que muito se faz nas universidades da região: estudos, pesquisas, muitos trabalhos de qualidade. Vou mostrar em primeira mão trabalhos que orientei e que serão defendidos hoje à noite, como é o caso, por exemplo, de A importância do legado da família Faro, que aborda as características da família agrária. Outro trabalho, Quilombo de São José da Serra, mostra o turismo como possibilidade de auto-sustentação em nossa região. E, por fim, menciono um trabalho sobre o turismo sociocultural em Barra do Piraí, no qual os levantamentos feitos são muito importantes para a região. Jussara Pereira de Almeida – Eu sou um pedacinho de Minas e da Bahia. Vassouras me acolheu num cantinho gostoso que se chama Brás de Pina. Leio a história dos outros e transformo em poesia. É meu jeito de arrancar muitos risos das pessoas. Minha paixão é a Escola Abel Machado, onde trabalho a literatura de cordel com as crianças. Os alunos fizeram um trabalho muito legal. Alguns amigos descobriram que eu escrevia. Por isso, sou membro da Academia de Letras de Vassouras. Fiz um cordel intitulado Um homem arretado. O segundo foi As proezas de um homem aprumado. O terceiro, sobre alfabetização, chama-se Ivo viu a uva. O quarto é A rainha do biscoito e versa sobre uma amiga minha. Gosto muito de história e gosto de ajudar as crianças e entrar nesse universo. Lielza Machado – Fui professora de muitos nesta região. Sempre fui apaixonada pela história e achei muitas histórias interessantes. Fazer história comparativa é a nossa grande riqueza, é algo que amplia o nosso conhecimento. Lecionei quase 40 anos. Sou 19 da turma fundadora, da instituição, a primeira turma de História da SOBEU. Escrevi um romance, A mansão do repatriado, que é sobre a libertação dos escravos. Me envolvi com Vassouras e escrevi O roteiro turístico de Vassouras (com algo sobre Paty do Alferes e também Miguel Pereira). Meu segundo livro foi Imagens de Vassouras, este sim, exclusivamente sobre o município. O terceiro, que se chama Vassouras, recanto histórico do Brasil, a Prefeitura costuma oferecer aos nossos visitantes. O município é muito rico em história, tem muita história para contar. Tenho prazer de lidar com isso e mais prazer ainda de olhar para essa platéia e ver que há muitos jovens aqui, pesquisando e estudando. Espero que essa bandeira seja levada adiante, pois a História deve ser colocada no mastro mais alto de todos. Muitos acadêmicos também estão aqui presentes. Por isso, dou os parabéns à Light, e parabenizo a nós todos... Professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues – Informo a vocês que podem trazer os livros que escreveram para divulgar aqui no nosso encontro. Eles podem ficar em exposição e até mesmo serem colocados à venda. Maria Lúcia Mexias Simon – Meu sobrenome, Mexias, é a forma em galego da palavra Messias. Minha família está entre os primeiros ocupadores da região. Fiz Mestrado e doutorado na UFRJ e Pós-doutorado na USP. Sou membro da Associação Brasileira de Tradutores, da Associação Internacional dos Lusitanistas e também da Academia de Letras de Vassouras. Meu livro, O falar da escravidão, é resultado da minha tese de doutorado, e aborda o fato lingüístico inserido na sua moldura socioeconômica. A filologia românica é minha especialização. A filologia é a disciplina que estuda uma cultura através de seus monumentos literários. Meu livro faz uma arqueologia da linguagem, sempre numa moldura socioeconômica. Trato dos enunciados da região, ligados ao problema da escravidão, que criou diversos hábitos lingüísticos. Por exemplo: tudo que é errado é negro: denegrir, lista negra etc. Procurei mostrar como o fato histórico da escravidão entranhou-se na linguagem. Pesquisei no processo a tradição oral: fiz entrevistas com descendentes de escravos. Eles negam terminantemente os maus tratos sofridos por seus ancestrais. Uma entrevista chegou a dizer que o patrão era muito bom... “Maus tratos eu estou sabendo pela TV, da minha mãe nunca ouvi isso não...” – disse ela. Outros justificaram os maus tratos: “Está certo, quem não trabalha não tem direito de comer...”. Pelos documentos da época vejo castigos como 200 chibatadas em escravos. Os jornais da época falam, os descendentes negam. Os documentos paroquiais estão muito bem conservados (na sua maioria, referem-se a batizados). O arquivo cartorário está um primor. Os periódicos da época eu os encontrei na Biblioteca Nacional. Já o nosso Arquivo Municipal está sem condições de manuseio. E trabalhei muito com depoimentos orais. Hoje, tenho uma pesquisa em desenvolvimento, que está à espera de uma chancela e também de verba. O jornal O Município só é encontrável no Rio de Janeiro. Deixo aqui os nomes dos meus orientadores. No mestrado, Francisco Luiz Vinhosa. No doutorado, Geraldo de Oliveira Boclair e Ana Maria da Silva Moura. Raimundo César Mattos – Sou professor de História da Fundação André Arcoverde. Fazemos um levantamento da documentação histórica para digitalização. Trabalhamos com documentos da Câmara Municipal de Valença, do Século XIX. A orientadora do trabalho é Filomena Gebran. Na Fazenda Santo Antônio do Paiol, encontramos importantes cartas históricas. O nosso centro de Documentação Histórico está bem, digitalizando tudo isso. Em junho, foi realizado o IV Fórum de História Regional, com a presença de acadêmicos, 20 que discutiram as famílias e as identidades do Vale do Paraíba. Os alunos de graduação ainda resistem a fazer pesquisas regionais, alegando que não há documentação, mas a verdade é que ela existe. O nosso site é: www.faa.edu.br/cdh. Roberto Guião – Nasci em Valença, lá fiquei até terminar o Ensino Médio. Trabalhei numa siderúrgica. Há anos atrás, me tornei aprendiz de História. Tenho um arquivo com muitas fotografias, por causa da minha paixão sobre o tema das fazendas. Depois me arvorei a escrever, pois percebi que poderia deixar um legado. O ciclo cafeeiro permeou o vale paulista, o fluminense e o mineiro. Tenho um panorama do café no Vale do Paraíba do Brasil Imperial. Já produzi dois livros. Um que reage contra as pessoas que acham que a CSN e Vota redonda são sinônimos. Quero mostrar que na cidade aconteceu o ciclo do café, em meu livro Volta Redonda do café e do leite – 140 anos de história. A cidade viveu os três ciclos, e não apenas o ciclo do aço. O outro livro é sobre a Fazenda Três Portas, que é a mais importante de Volta Redonda. Meu arquivo está à disposição de todos, na minha casa, é só marcar hora... Sérgio de Lima – Minha formação aconteceu na Escola de Belas Artes (quando ainda era do Brasil, no nome). Desde cedo fui levado ao campo da Museologia, porque torneime professor na área de Arte. Tive alguns privilégios na minha vida. Como artista plástico, como professor e agora como escritor. Vou a Academias de Letras, a convite, para falar sobre cultura. Sou livre docente da UFRJ e sempre tive interesse na arte produzida no período colonial, que é muito afetada por sucessivas restaurações. Trabalho no Museu Histórico Nacional em restauração de material. Logo fui chamado para trabalhar em Portugal. Fiz um programa sobre exames físicos de materiais. Lá havia um importante laboratório e ali trabalhei com gente igualmente importante nessa área. Ao voltar para o Brasil, me matriculei em um curso de pós-graduação. Fiquei amigo de Rodrigo Melo Franco de Andrade e fui convidado para trabalhar no México, no Centro de Recuperação. Lá, acompanhei o mais importante especialista da época. Agora, tudo que tenho para fazer está no Brasil. Vim para Vassouras para ver uma coleção de arte (pinturas) que está numa fazenda histórica. Fui convidado por já ser bastante conhecido na área de restauro. A imagem de Vassouras se fixou indelevelmente na minha mente. Falei com o General na Severino Sombra e acho que a região tem muito potencial para trabalho em restauro. Estou esperando até hoje... Ligia Vaz – Vou falar do trabalho que temos feito em Paraíba do Sul, no ano de 2004, dentro da temática de preservação. O senhor Nicolino Visconti tinha 150 fotografias da cidade, registrando o patrimônio material, o cotidiano do município etc. Ele ofereceu o acervo para fazer um museu. Pedimos colaborações aos moradores, para criar um museu iconográfico. A coleção se estendeu e peguei também a parte social: manifestações populares, carnaval, procissões, esportes etc. Estamos montando uma exposição, com uma parte digital e a outra em painéis fotográficos. Cada painel é um ponto de referência para a história da cidade. Sônia Mattos – Muitos já me conhecem. Meu avô foi o Comendador Bernardino Correia de Mattos. Tenho ligação com o meio rural desde pequena. Me tornei amante da história do Vale, porque é pouco conhecida. Na Fazenda Santo Antônio do Paiol, que é vizinha à minha fazenda, Vista Alegre, foi arrendada dos padres por uma família. Escavando os porões, essa família encontrou documentos históricos. Um dia me convidaram 21 para almoçar e me ofereceram a documentação para estudar. Descobri então que o Barão de Vista Alegre jamais morou na Fazenda Vista Alegre. O Visconde Joaquim Gomes Pimentel foi quem de fato morou na fazenda e descobri que foi ele quem criou a Banda de Música do Preto Estanislau. Pimentel montou na região a primeira escola de alfabetização de filhos de escravos, chamada de Escola de Ingênuos. Ele faleceu sem dinheiro, com os bens hipotecados e tudo sobre ele foi para a Fazenda do Paiol. Essa história ficou por 100 anos esquecida. Ela evidencia a importância dos arquivos privados em nosso Vale. Cada família tem documentos potencialmente importantes. A coleção de Santo Antônio do Paiol ainda está aí. Em 2001, a ordem religiosa que é dona da fazenda resolveu fazer uma obra e, com o telhado a descoberto, toda a biblioteca se molhou. Conseguimos levar os livros para Vassouras para catalogar e sanitizar. Foram feitas fotos, que estão num CD. Diversas teses de Mestrado usaram essa documentação. Os acervos pertencem às casas. Levei o acervo de volta para a fazenda, com mais 10 CDs referentes à sua digitalização. Os pesquisadores deveriam ter um computador para trabalhar. Não conseguimos verba do BNDES para completar a digitalização. A história dos personagens que montaram o Ciclo do Café está sendo contada hoje, e a “jóia da coroa” são os arquivos privados. Através de arquivos como esse, ficamos sabendo de fatos curiosos, como este quando a fazenda foi visitada pelo Conde D`Eu em 1873, Pimentel tomou todas as providências para que o nobre visitante não visse as suas tulhas vazias. E foi ele quem criou a primeira escola para crianças negras. Tudo isso é História do Brasil, não apenas da região. Os arquivos mostram que nossa história é bonita e que merece ser lida e interpretada. 22 Antônio Brant – Agradeço ao Instituto Light o convite e ao ICCV pela eficiência e presteza no suporte à nossa vinda a Vassouras. Sempre gostei de História, desde a infância, pois nasci num casarão senhorial, cercado por documentos bicentenários. Maduro, me interessei ainda mais por História e me dediquei a trabalhar com a Zona da Mata de Minas Gerais, em especial a história política da região. Escrevi livros. O que realmente me despertou para o tema foi descobrir equívocos sobre a história da minha região. Por exemplo: a cidade de Ponte Nova teria sido fundada por um padre. Mas, um belo dia, consultando um arquivo particular, vi uma carta de 1770 comentando que na época as estradas eram abertas a facão e que dois ou três meses depois a mata voltava a se fechar. Isso me animou a fazer mais pesquisas. Olhando certidões de nascimento datadas de 1742, que informavam sobre pessoas que nasceram na capela, verifiquei que o povoado já existia 30 anos antes da data prevista para a fundação da cidade pelo cônego. Descobri que as cidades surgiam, não eram fundadas. Surgiam principalmente do pouso das tropas, do descanso dos tropeiros. Sobre a Revolução de 32, descobri outro equívoco: Bernardes foi preso numa mata, algemado e deportado para Portugal. Sua participação no conflito não foi heróica, como registra a história oficial. Tenho descoberto fontes inesgotáveis de pesquisa na minha região: arquivos particulares e paroquiais, que ainda não estão abertos ao público. Graças à minha paixão pela história, consigo salvar coisas importantes. Um dia, vi um amigo com uns papéis antigos, que estava esperando pelo lixeiro. Levei tudo para casa. Eu tinha pelo menos 32 Decretos de Nomeação dos Imperadores Pedro I e Pedro II, além de cartas de condes. Tudo isso, hoje, está protegido num arquivo de Belo Horizonte. Por isso digo que Vassouras deveria fazer um levantamento dos arquivos particulares, que deveriam também ser digitalizados e disponibilizados na Internet. Oficina de História O professor Luis Reznik apresentou aos participantes do Encontro o projeto Caixa de História, desenvolvido pelo Departamento de História da PUC-Rio. Luis Reznik – As atividades estão organizadas em dossiês, dentro da Caixa. Há objetos como mapas históricos e mapas mundi, entre outros – e o Guia do Professor, com o passo-a-passo das atividades a serem desenvolvidas. É um produto da nossa reflexão sobre o que é pesquisar e ensinar a História. Os alunos re-trabalham a própria atividade, com a mesma metodologia. A Caixa tem um CD que contém todas as atividades previstas. Nossa proposta é fazer uma dinâmica de grupo, enfocando as narrativas históricas sobre o Vale do Paraíba, tomando como referência os conteúdos que preparamos para o município de São Gonçalo, onde fizemos a nossa pesquisa para o projeto. As atividades são organizadas conforme os vestígios históricos que estão dentro da Caixa, conforme apresentei nos slides do power point projetado na parede. Cada grupo ficará com uma das atividades. Por exemplo, um dos vestígios são fotos. O grupo deverá, então, pensar na foto como instrumento: que tipo de foto poderia ser interessante para se pensar a história do Vale? Foram formados 12 (doze) Grupos de Trabalho, que utilizaram os vestígios históricos constantes da Caixa de História para verificar se a metodologia era adaptável à região do Vale do Paraíba. Cartografia – Idéia: situar o rio Paraíba em relação à região. O rio nasce em São Paulo, passa por Minas Gerais e, no Rio de Janeiro, atravessa Resende, Itatiaia etc. O desenvolvimento da região é intimamente ligado ao Rio, pois já houve transporte fluvial no passado. Os bandeirantes que chegaram a Resende foram para as Minas Gerais, em busca de ouro e pedras preciosas. O rio une Rio e São Paulo, como importante eixo econômico. Com a febre do ouro, surgiram os barcos para fazer o transporte do café. Com o advento da ferrovia, os barcos deixaram de navegar. Comentário de Luis Reznik – Tiveram que usar a imaginação. Porque a representação cartográfica é diferente e seus autores têm objetivos diferentes em cada época. Colocamos paradas de trens nos mapas (que eram as mais importantes na época do Ciclo do café). Os adensamentos da região variam conforme as épocas históricas. Quanto à toponímia dos mapas, é preciso considerar que, em um mapa do Século XVII, há relevância para as igrejas. Em outro mapa, de outra época, são justamente os rios que se destacam. Construções Arquitetônicas – Com base em fotos, deve-se ver se a imagem é antiga, se é rural ou urbana. As fotos antigas foram refeitas anos mais tarde e não houve modificação na paisagem dos prédios, mas houve no seu entorno, na paisagem ao redor. A Igreja Matriz, no Centro de Vassouras, estava no contexto urbano, não rural (fiamos discutindo sobre isso). Conclusão: através da análise de fotos, pode-se fazer um trabalho sobre a história das cidades. Comentário do Grupo sobre Construções Arquitetônicas – A antiga estação ferroviária de vassouras passou por diversas funções. Pediríamos aos alunos que pesquisassem jornais, lembraríamos que a estação já foi biblioteca, estimularíamos uma coleta de fotos diversas, e também entrevistas com pessoas sobre viagens de trem. Como se viajava no município, no começo do Século XX, para se chegar ao Rio de Janeiro, por exemplo? Como o prédio influenciou a vida das pessoas? Falar da Fundação e sua força na cidade. Criar uma história de um menino que foi à festa de inauguração da estação ferroviária (e da biblioteca). Poderíamos propor pesquisas sobre diversos tipos de trens. Os desenhos de trens poderiam ser trabalhados de modo complementar, nas aulas de Educação Artística. 23 Comentário de Luis Reznik – A idéia é essa, mostrar os usos e funções dos prédios em épocas diferentes. Um grupo pensou na igreja, outro na estação ferroviária, que hoje tem uso completamente distinto. O importante é pegar marcos referenciais. No Rio, pensamos em encenações históricas nas fazendas, uma teatralização para atrair os turistas. Comentário do Grupo sobre Tradição Oral – Nós não analisamos o conteúdo do instrumento, mas sim a sua metodologia. Procuramos verificar se ela poderia ser aplicada ao Vale do Paraíba. Chegamos à conclusão de que sim, poderia. O material sobre o prefeito de São Gonçalo é controvertido. Há um depoente favorável a ele, outro contra. Com base nisso, perguntaríamos aos nossos alunos a opinião deles. E também pediríamos que entrevistassem pessoas com mais de 70 anos sobre o prefeito. Ao final dos trabalhos, entendemos que o instrumento é interessante e válido. Comentário de Luis Reznik – O prefeito em questão foi o Joaquim Lavoura, que ficou no cargo durante três mandatos. Ainda hoje, em São Gonçalo, existe o grupo lavourista, que é muito forte. O impacto da gestão dele foi muito grande. Comentário do Grupo sobre Cotidiano Escrito nas Crônicas – Fizemos uma interpretação semelhante. Percebemos a aplicabilidade do método à nossa região. Caberia ao aluno fazer a comparação entre o que sobreviveu do passado e o tempo presente. Por exemplo: em Vassouras temos a Festa de Santa Rita, que acontece no bairro do Madruga. Este poderia ser o case a ser estudado em nossa cidade pelos alunos de História. Não é algo complicado, que necessite de muitas explicações, é perfeitamente viável. Comentário de outro Grupo sobre o mesmo tema – A colega simbolizou a ferramenta com a Festa de Santa Rita. O aluno sempre acha interessante ouvir histórias sobre o que aconteceu no passado. Hoje é raro se ouvir o toque de alvorada, o povo acordava sabendo: hoje é dia da padroeira. Antes eram rezadas missas solenes, tínhamos a missa do dia 8 de dezembro, para a qual vinha o bispo, todo engalanado, o povo comparecia em massa – e era servido o almoço da irmandade. À tarde havia procissão e os colégios compareciam com uniforme de gala. Os colégios iam com as professoras. Então se pediria ao aluno uma comparação entre hoje e ontem. Hoje o aluno é indócil, não quer mais usar uniforme. A crônica que analisamos na Caixa de História fala do coronel manda-chuva, que tinha o beija-mão, o ofício da ladainha. A criança de hoje diria: “Que mundo era esse?” Desejariam saber quem eram os produtores da festa, como era feita, quem era convidado, qual era a data de realização... A criança teria muito material para refletir. A crônica é muito importante numa sala de aula. Principalmente quando se lê a crônica com bom humor, sem solenidade, tocando o coração da criança... 24 Comentário do Grupo sobre Vida Associativa – O tema é muito abrangente, pega um pouco de cada item. Eu sou de Paraíba do Sul e, logo que entrei para a comunidade, no bairro do Inema, Havia a famosa Festa de São João, promovida pela Associação de Moradores, que era muito forte. Os alunos não sabiam por que havia fogueira, não associavam o mês de junho com festa junina, só sabiam que era uma festa caipira. Elaborei então um projeto para levar aos alunos o contexto da festa junina. Sem a consciência de que era um registro associativo. O projeto foi feito por uma professora primária e a Associação de Moradores. Como temos 5 grupos de dança de quadrilha, o gancho para começar o projeto foi esse: perguntamos às crianças por quê elas iam vestidas de caipira para dançar quadrilha na Festa de São João. Descobri um registro do primeiro Festival de Quadrilhas em 1912. Em jornal de Paraíba do Sul, encontrei menção às quadrilhas numa edição de 1927. Assim, sem pensar em nada desse mundo de historiadores, já fiz um projeto semelhante. Comentário de Luis Reznik – Os integrantes do grupo que organizou a Caixa de História (5 pessoas) são todos profissionais de nível superior. Eu já coordenei simpósios nacionais de história local. Não estamos descobrindo a pólvora, apenas recolhemos e sistematizamos o que existe por aí: é um corpo racional para estimular o ensino e a escrita sobre a história local. Comentário de Reznik sobre o tema Mensagens e Relatórios do Prefeito – Ampliamos nosso tema, pegamos mais assuntos, mais documentos, atas da Câmara Municipal, livros de tombo, registros paroquiais. Comparamos com os alunos o que nós recolhemos com outros tipos de documentos (como rádio, internet). Procuramos estimular a pesquisa sobre a maneira que o Poder Público agia, e se há diferenças em relação à atualidade. Hoje a informação circula mais rapidamente. O Poder Público, antes distante, hoje é mais próximo da população. Estimulamos os alunos a comparar o antigo com o hoje e a tirar conclusões a partir disso. Para ver como o Poder Público pensava as questões municipais. Comentário sobre Registros de Nascimentos / Casamentos / Óbitos – Este tipo de documentação é muito rica para se trabalhar com os alunos. É muito disponível em Valença e Rio das Flores. Assim aprendemos que os escravos eram enterrados em um lugar ou outro, conforme sua condição social. Esse gênero de registro (óbito / nascimento) chegou ao Brasil no período colonial. Sua mudança reflete a mudança da estrutura jurídica do país. Comentários sobre Fotografias – É o melhor instrumento a ser utilizado com as crianças, porque elas podem ver as coisas. Vendo as fotos da Caixa, observamos que São Gonçalo lembra muito Paulo de Frontin, e isso nos emociona. Aqui tudo começou a partir da construção da linha ferroviária, isso desenvolveu a cidade, veio a industrialização, o grupo escolar, foram criadas várias praças. Na Caixa há uma foto de um internato e Paulo de Frontin também tinha uma instituição semelhante, que hoje está desativada. Porque Paulo de Frontin está decadente, com a falência das suas indústrias. A vocação da cidade, agora, vai ser o turismo ecológico... Comentário de Luis Reznik – A professora Lielsa falava da importância de uma história comparativa. Ter fotos de ontem e de hoje é algo que estimula a comparação. Isso serve para confrontar os fenômenos recorrentes em São Gonçalo e em Paulo de Frontin. Há fenômenos recorrentes que se repetem em outras localidades. Devemos pensar no específico e também nos fenômenos generalizados, recorrentes, de outras regiões. Ao final desta Oficina, desejo que este Encontro possa ser o primeiro de muitos outros, para produção de conhecimento para o Vale do Paraíba e para a construção da história local. Observações sobre a Oficina de História ● Na Oficina coordenada pelo professor Luis Reznik, os participantes aprovaram e validaram a Caixa de História como instrumento metodológico adequado para uso nas escolas. ● Outras informações serão disponibilizadas em arquivo pdf no site do I Encontro de História do Vale do Paraíba. 25 Atividade Extra: Projeção do filme Narradores de Javé (Brasil / 2003). Após a realização da Oficina de História, os participantes do Encontro tiveram a oportunidade de assistir à projeção do filme nacional Narradores de Javé, que tem como tema central o relato sobre a origem de uma comunidade do interior da Bahia e que, portanto, traz à luz as questões com as quais lidam os historiadores, amadores ou profissionais. Ficha Técnica do Filme Direção: Eliane Caffé Roteiro: Eliane Caffé, Luiz Alberto de Abreu Elenco: José Dumont (Antônio Biá), Matheus Nachtergale (Souza), Nelson Dantas (Vicentino), Gero Camilo (Firmino), Nélson Xavier (Zaqueu) Duração: 100 minutos Gênero: Comédia / Drama Sinopse do Filme: Rodado entre junho e setembro de 2001, em Gameleira da Lapa, cidade do interior da Bahia, Narradores de Javé conta a história de um povoado que, ao ver a iminência de ter seu vilarejo inundado pelas águas de uma represa, vê como único modo de impedir o acontecimento na transformação do local em um patrimônio da humanidade. Para isso os moradores decidem passar para o papel todas as lendas sobre a origem de Javé, e assim chamam o escrivão local Antônio Biá para escrever um livro sobre o vilarejo. Acontece que Biá tinha sido banido de Javé pela população por ter difamado praticamente toda a cidade através de cartas que ajudaram a salvar seu emprego nos Correios locais. Mas, no desespero, a população acaba dando esta oportunidade para o escrivão se redimir. A partir daí, Biá passa a ir de casa em casa na região para passar para o papel as lendas guardadas nas cabeças dos moradores de Javé. O único problema é que cada morador conta uma história diferente, e sempre defendendo os interesses de seus antepassados. O filme é brilhante, ganhou os prêmios principais nos Festivais do Rio e de Recife, onde em ambos o trabalho não menos magnífico, de José Dumont, foi premiado. Dumont é a alma do longa, onde pôde treinar toda sua capacidade de improvisação. Praticamente todas as marcantes falas de Biá, como “piaba de silicone”, “tapioca de exu”, “manicure de lacraia”, “pokemon de Jesus”, “omelete de cupim”, “desinteria de tinta”, “um dilúvio bovino”, “clonado 26 O que fazemos é ficcionar a realidade. de miolo de pão”, entre outras, foram criadas pelo próprio ator. Este é o segundo trabalho de Zé Dumont com a diretora Eliane Caffé. O primeiro foi em Kenoma (1998). O longa conta ainda com as presenças de Matheus Nachtergale (Cidade de Deus), Nelson Dantas (O que É Isso, Companheiro?), Gero Camilo (Carandiru) e Nélson Xavier (Benjamin), que só ajudam a abrilhantar ainda mais Narradores de Javé. Ao mostrar o confronto entre o progresso e as tradições de um lugarejo, o filme ainda se preocupa em citar o problema das terras em nosso país, onde os primeiros habitantes demarcavam, por si mesmos, a extensão de suas propriedades. Resumindo: o filme é imperdível, e boa parte disso é por causa de José Dumont que, bairrismos à parte, merecia um Oscar por sua interpretação. Ao final da sessão, não houve debate, mas o professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues, que teve a idéia de exibir Narradores de Javé no Encontro, fez alguns breves comentários: Professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues – O filme, entre outras coisas, mostra a diferença entre o acontecido e o escrito. Todas as histórias contadas têm uma base comum, a sua origem mítica. Há uma história diferente para cada pessoa. Nossa condição de sujeitos da história aparece, ela tem que estar presente. A lição mais interessante do filme é que a gente deve conseguir fazer da história não só o que dá prazer, mas a nossa capacidade de compreender os acontecimentos. Não há história sem esse sujeito que narra, assim como não há história sem interpretação. O que fazemos é ficcionar a realidade. Queremos fazer um trabalho científico, queremos provas dos fatos, sem ter condições para isso. Cada aula nossa de história precisa ser diferente e deve acrescentar alguma coisa. 27 Segundo dia do Encontro: Período da Manhã: Resumo das Palestras Realizadas AS DIVERSAS FACES DA HISTÓRIA DO CICLO DO CAFÉ – ONTEM E HOJE Tema: ASPECTOS DA ECONOMIA MUNDIAL FACE AO APOGEU E CRISE DO CAFÉ NO VALE DO PARAÍBA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX Palestrante: Luiz Augusto Mury Secretário Municipal de Cultura de Barra Mansa Coordenador do Curso de História do Centro Universitário de Barra Mansa 28 As duas atividades que exerço me proporcionaram condições para que eu tivesse uma visão sobre o desenvolvimento das questões acadêmicas e, através da Prefeitura, logrei uma aproximação com uma realidade muito interessante, no que diz respeito ao patrimônio histórico. Agradeço o convite para participar deste Encontro, apresentando o meu trabalho. No Centro Universitário de Barra Mansa, ontem, tivemos a presença de uma senhora que participou da primeira turma de formação, em 1970. A duras penas, conseguimos montar um Laboratório de História Oral, que se tornou o atrativo maior do curso. Realizamos exercícios de pesquisa de campo. Damos aulas teóricas sobre como entrevistar as pessoas. Os alunos são monitorados por um professor e eles têm conseguido um bom desempenho. Há neles um entusiasmo, por estarem ligados ao lugar. Temos fortes tradições culturais e os habitantes gostam de contar histórias sobre seus antepassados. Em 2006, fizemos uma pesquisa com ex-pracinhas da FEB, em Resende, Volta Redonda e Barra Mansa. Pesquisamos também sobre as fazendas de Barra Mansa e seus distritos. Os dados estão à disposição dos historiadores. Junto com a Fundação do Museu de História de Barra Mansa, estamos coletando muitos dados a respeito do nosso processo histórico. Temos um Conselho Municipal de Cultura atuante, embora sem recursos financeiros. Com a boa vontade das pessoas, temos avançado no processo de manutenção do patrimônio material e imaterial de Barra Mansa. Um dos problemas que temos refere-se ao tombamento. Na verdade, os problemas do diaa-dia são muito intensos. As fazendas históricas estão bem ou mal conservadas – e algumas estão muito descaracterizadas. O casario de Barra Mansa está sendo demolido, apesar das tentativas de preservá-lo. Uma das nossas estações ferroviárias teve um incêndio criminoso do telhado, para que houvesse infiltração. Pessoas conseguiram verbas de empresários amigos e a estação abrigou por um tempo a Biblioteca Pública de Barra Mansa, e agora vai ser um Centro de Artes Plásticas. Em Barra Mansa, temos um projeto ambicioso de música há três anos, que proporcionou o estudo de música para 3.000 crianças, a formação de uma orquestra sinfônica com dois maestros e 104 componentes, que inclusive já se apresentou no Rio e em São Paulo. Logo a orquestra irá para Olinda (PE) e também à Argentina. Trata-se de um projeto de inclusão social que vai muito bem. As crianças, inclusive, têm direito a levar os instrumentos musicais para estudar em casa. Trabalhamos com incentivos fiscais, inclusive da Light, da Votorantim e da Nova Dutra. Nosso orçamento anual é de R$ 1.800,000,00. A cidade tem demonstrado um interesse muito grande por todos esses trabalhos. No campo do patrimônio, há uma luta para neutralizar a publicidade agressiva dos outdoors que enfeiam nossa cidade. Os empresários, os comerciantes, não entendem que uma fachada histórica limpa valoriza o prédio. Eles querem publicidade agressiva. O antigo Cine Palácio, ocupado pelas Casas Bahia, tem painéis de publicidade feios. Pedimos muito para que eles fossem retirados, mas os comerciantes não queriam, porque pagavam uma taxa por isso. E a fachada do prédio, que é muito elegante, ficou prejudicada. Um dia pediram uma licença para construir um mezanino. Então negociamos com eles a retirada dos painéis que escondiam a beleza da praça. Eles aceitaram o acordo, tiraram todos os painéis e a beleza da arquitetura voltou a aparecer. Eles colocaram no local apenas uma pequena placa com o nome das Casas Bahia e toda a cidade ganhou com isso, porque a população passou a poder admirar a fachada dos anos 20. Eu escrevi um artigo elogiando a atitude como exemplo a ser seguido no município. Mas, quando estava tudo muito bem, eles entraram com novo pedido para recolocar os painéis, e desta vez muito mais agressivos. A Prefeitura não aceitou. Comentei aqui apenas uma luta, um caso específico, de uma cidade que tem centenas de problemas desse tipo. Queremos registrar aqui também uma vitória: conseguimos o tombamento da Igreja Matriz do Amparo. Isso vai facilitar muito o restauro de um dos patrimônios mais bonitos do nosso estado. Sobre o meu trabalho Aspectos da economia mundial face ao apogeu e crise do café no Vale do Paraíba na segunda metade do século XIX, quero começar dizendo que, quando falamos com nossos alunos, eles sempre nos questionam sobre a decadência do Vale. Foi mesmo um processo inexorável? Não havia outra solução para os Barões do Café a não ser entrar em decadência? Trago uma constatação de que fora do Rio estava acontecendo a segunda Revolução Industrial, que é outro cenário que envolvia empresários e financistas, que influenciou a decadência do processo cafeeiro, que acabou de vez com a chegada da Abolição da Escravatura. No trabalho, também faço menção à figura histórica proeminente de Valinho de Banal, um fazendeiro poderoso, que chegou a ser fiador do próprio Império. Tema: O CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA DA USS UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA Palestrante: Professor Magno Fonseca Borges Mestre em História pela USS – Universidade Severino Sombra Coordenador do Centro de Documentação Histórica da USS — Universidade Severino Sombra Agradeço muito a oportunidade de estar neste Encontro. O evento está sendo extremamente estimulante. Saí daqui ontem e tive uma noite péssima, dormi mal e isso é que vou compartilhar agora. Eu ia apresentar um trabalho sobre a trajetória de africanos e afrodescendentes no Vale do Café, mas deixei tudo guardado, porque vocês me geraram muitas inquietações e muitos transtornos. E talvez as minhas angústias não sejam só minhas. Tenho trabalhado ao longo dos anos com a história e a cultura do Vale do Café. Dez anos só no Centro de Documentação Histórica. Algumas das minhas atividades têm sido profícuas, outras voláteis. Carrego um conjunto de erros e acertos. Coletei grande número de amigos e de parceiros. Errar é humano, eu sou humano e as instituições são administradas por humanos que erram e acertam. O privilégio do acerto é de poucos. E do erro também. Na prática, só erra ou acerta aquele que faz. Nesse processo, fui envolvido por pessoas. Nesse ponto, sou um privilegiado. Lielza Lemos Machado muitas vezes me trata de forma carinhosa por “broto” (assim como outras pessoas). Broto dessa experiência, desse acúmulo que foi construído e zelado com carinho pela Universidade Severino Sombra. O trabalho me deu oportunidade de refletir sobre história regional. 29 Agora já posso compartilhar as angústias. Abdicar de falar de africanos e afrodescendentes tem a ver com o próprio evento. Juntou pessoas que partilham das mesmas angústias e dos mesmos esforços. Muitas vezes nos vemos isolados, tentando caminhar sozinhos... O Vale do Café precisa ser visto como projeto e como reflexo da nostalgia imperial. Em 1824, na bandeira do Brasil Império já havia a presença do ramo de café (que não era o principal produto de exportação brasileiro, pois era a cana-de-açúcar). O café indica literalmente um projeto de nação, um império a ser edificado sobre a experiência do café. Nesse horizonte, é preciso olhar para os cafeicultores do Vale do Paraíba como empreendedores. Por um lado, plantavam café, por outro, o fumo. E a cultura cafeeira dependia de mão-de-obra escrava. O Vale, enquanto produtor de café, emerge como um projeto de nação. A relação de trabalho entre senhor e escravo tem que ser revista em larga escala, ao se pensar em termos de Brasil Império. Os barões eram parceiros de um projeto de nação. As plantações de café precisavam, no mínimo, de cinco anos para ter uma produtividade economicamente viável. Isso muda toda a relação de análise e isso é angustiante. Apogeu e crise do ciclo do café – sensação que percorreu quase todo o Século XX: a nostalgia imperial, a construção da terra dos barões. Como uma nostalgia pode gerar um reflexo que não seja o medo e um passado desenraizado? Excluímos grande parte da população que não consegue criar qualquer vínculo de pertencimento a essa história. E ainda nos perguntamos como as pessoas são pouco participativas... O prédio histórico está caindo e as pessoas não se movimentam. Porque teimamos em construir uma história que desenraiza as pessoas? Outro problema sério: as universidades que vêm falando por si mesmas no que tange ao conhecimento histórico. A urgência dos prazos de realização dos trabalhos cria barreiras entre a universidade e a população. Além disso, as questões estudadas são pouco vinculadas às comunidades. E levam muito tempo para chegar aos bancos escolares – essa é outra angústia. Os professores de História estão cada vez menos estimulados e tratados apenas como meras enciclopédias que decoram nomes e datas. Pouco valorizados na produção do conhecimento local. Temos também a questão patrimonial: as fazendas históricas estão distantes e fechadas às populações locais. Os prédios históricos, fechados e inacessíveis. Tratados por gestores públicos como entraves ao desenvolvimento. Aqui foi instalada uma torre de telefonia celular que a população quis manter como símbolo do progresso. Quando o IPHAN mandou tirar, foi alvo de agressão. Falamos de desenvolvimento e geração de empregos, mas o patrimônio é tratado como entrave. O que torna urgente compreender que patrimônio é algo de todos, é acervo permanente, não é arquivo morto. Muita gente vê os documentos históricos como um monte de papéis para os cupins. Há um não-envolvimento da população com a sua trajetória. Nem tudo são angústias. Existem muitas realizações. Na Universidade Severino Sombra se preocupa em fazer pesquisas que tenham reflexos sociais e que sejam preservados os patrimônios e os acervos. Eu respondo pela guarda de três prédios históricos importantes. E temos de bom o trabalho do Instituto PRESERVALE e este nosso I Encontro de História. Um senhor pediu a palavra e reclamou: “Tenho tido negada a minha entrada no Centro de Documentação porque eu porto os equipamentos que necessito, por ser deficiente visual. Não é obrigação de vocês remover esse óbice? Também é uma angústia e uma indignação...” 30 Resposta do Professor Magno – O Centro de Documentação Histórica está fechado para mudanças. Estamos introduzindo novas tecnologias para garantir melhor acesso ao nosso acervo. Os nossos documentos passarão a ser pesquisados em sua forma digital. Estamos desenvolvendo uma tecnologia com apoio da FAPERJ para ampliar imagens. Fomos muitas vezes solitários na defesa do acervo e na conquista dessa nova tecnologia. Professor Antônio Brant Ribeiro Filho – Ontem falei destacando a importância dos arquivos particulares na Zona da Mata mineira, que estão desaparecendo. Refiro-me àquela história dos documentos que seriam jogados fora e que consegui salvar. Acredito que aqui no Vale do Paraíba existam muitos arquivos históricos importantes, nas mãos de particulares. Achei o Encontro maravilhoso, espero participar do vigésimo. Fiquei impressionado com o número de pessoas interessadas em História. Falta o estudo da pré-história. Descobri que a primeira lavoura plantada em Vassouras foi no ano de 1792, e que o primeiro sesmeiro fundador da cidade. Professora Lielza Lemos Machado – O professor José Carlos acaba de lançar um livro sobre essa pré-história. Segundo ele, essa primeira plantação não era uma lavoura, mas uns pés de café plantados no jardim, como plantas exóticas. Tema: OS BARÕES DA ZONA DA MATA DE MINAS GERAIS Palestrante: Professor Antônio Brant Ribeiro Filho Curador do Museu da Escola do Centro de Referência do Professor da Universidade Federal de Viçosa (MG) Presidente da Sociedade Pró-Memória de Ponte Nova (MG) Membro da Academia de Letras de Viçosa (MG) Jornalista (colabora para seis jornais/revistas da região) Historiador (publicou 12 livros sobre história de Minas Gerais) Professor Antônio Brant Ribeiro Filho – Na Zona da Mata, a Abolição não abalou a economia do açúcar. E ainda houve grande imigração de italianos e portugueses. O plantio do café era feito de forma pouco correta, com técnicas ruins, que empobreciam o solo. Esse foi um fator que contribuiu para a decadência do ciclo cafeeiro. Acho que o nome Vassouras decorre da existência, por aqui, de muitas plantas das quais se faziam vassouras... Temos um patrimônio na Zona da Mata mais ou menos da mesma idade do Vale do Paraíba. Mas com características arquitetônicas completamente diferentes. Os fazendeiros tinham suas residências grandes, mas em estilo colonial mais simples. Comparando a Fazenda Secretário com a Fazenda Canoas, vamos ver de um lado a capela, do outro o quarto de hóspedes. O Barão do Café não pegava na enxada, nem o mineiro na bateia, mas precisava ficar no local para evitar roubos. Tema: TRANSMISSÃO DA HISTÓRIA DAS CIDADES NAS ESCOLAS Palestrante: Renata Vereza Professora de História / Representante do Instituto São Fernando Professora Renata Vereza – Estou aqui para relatar um projeto de Vassouras, patrocinado pelo Instituto São Fernando e que consiste em Oficinas de Educação Patrimonial. Começamos no ano passado (2007), com 40 alunos de primeiro grau e outros do Ensino Médio. Nosso objetivo era associar a idéia de patrimônio com memória e esta com identidade. Não há a menor identidade entre os alunos e a memória dos barões do café... Como falar de um patrimônio que não faz sentido? Como apresentar um pretenso patrimônio para essa molecada e seus pais? Quem milita com essas comunidades sabe dessa realidade. Procuramos, então, inserir esse patrimônio numa lógica para eles e ao mesmo tempo valorizando o que a própria comunidade considera patrimônio. O trabalho gerou um site: www.cedac.org.br/almanaquedevassouras. A mesma entrada dá sempre duas opções: a história oficial e a versão de como os alunos entenderam. Assim valorizamos a história dos alunos e de seus distritos. 31 Neste ano, o projeto continua, por conta da receptividade dos alunos. Uma garotada que gosta de funk, de conversar pelo MSN, visitou as fazendas históricas, e fizemos todo um preparo antes. É interessante ver como o patrimônio passou a ter um sentido novo para eles. Neste ano, também estamos formando professores, numa metodologia semelhante à que fizemos ontem, com a Caixa de História, aqui em nosso Encontro. Claro que não temos um material elaborado como o da Caixa, mas treinamos professores do município e do estado para fazer o link entre a história e a comunidade. Nosso objetivo é que os professores multipliquem a metodologia. Aproveito a oportunidade para indicar o Laboratório de Educação Patrimonial da UFF – Universidade Federal Fluminense, que é ligado ao IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e pode ser parceiro no trabalho dos professores. Voltando ao nosso projeto: no momento, precisamos levantar verba para preparar o material de educação patrimonial. Em princípio, professores de outros municípios não podem, ainda, participar deste nosso treinamento. Até porque queremos ver o resultado deste projeto inicial antes de leválo em frente, para outros espaços. A construção do patrimônio é subjetivada e há necessidade de um maior diálogo com as comunidades, porque senão o conceito só fará sentido para um grupo muito pequeno. Tema: EDUCAÇÃO PATRIMONIAL Palestrante: Sérgio Linhares Miguel de Souza Diretor do Departamento de Pesquisa e Documentação do INEPAC – Instituto Estadual do Patrimônio Cultural O INEPAC está fazendo um trabalho muito grande aqui na região, que é o Inventário das Fazendas Históricas do Vale do Paraíba. E também estamos desenvolvendo um projeto integrado de educação para o patrimônio cultural, que envolve os professores e suas comunidades, com o intuito de preservar a memória. Outro projeto importante foi a edição de uma obra raríssima sobre o Santuário Mariano, que foi fotografada e redigitalizada, junto com fotos das imagens das Nossas Senhoras do Rio de Janeiro. O nosso Programa de Educação patrimonial é uma das vertentes de todo o nosso trabalho. Vamos começar com um projeto-piloto na Baixada Fluminense, através das seguintes etapas: 1 – Realização de um Seminário; 2 – Publicação de uma revista especial para crianças e adolescentes; 3 – Publicação do livro Programa Integrado de Educação para o Patrimônio Cultural; 4 – Publicação de um folheto sobre Preservação e Tombamento de bens culturais; 5 – Publicação do guia Arte Sacra Fluminense; 6 – Publicação do livro Memória Fotográfica; 7 – Publicação de dez livros de textos sobre as regiões de governo; 8 – Desenvolvimento do Inepaquinho digital. Estão previstos dois livros: a) Baixada fluminense: a construção de uma história; b) Baixada fluminense: memória fluminense 32 Queremos mostrar que a riqueza de nossa cultura está em nossa diversidade etnocultural. Nós nos baseamos em teorias pedagógicas de Wallon e de Vigotsky. Uma dessas teorias afirma que a afetividade é importante no processo, porque, para que os indivíduos reajam, para que se formem, dependem do outro. O outro é o meu complemento. Investir na formação do indivíduo na linha do patrimônio cultural é investir na sua consciência como cidadão. Nossa perspectiva é a da formação continuada dos professores. Quem produz texto para professores deve trazê-los para conversar. Não se pode jogar o pacote pronto para quem está na escola. Trabalharemos com o patrimônio em quatro categorias: arquitetônico / natural / intelectual / imaterial. Os municípios também podem fazer outras ações, além do tombamento. Criar APACs – Áreas de Preservação Cultural, por exemplo. E é fundamental compreender que, somente quando a comunidade o assume, é que o patrimônio está seguro. Devemos ser gratos aos colecionadores, pois, se eles não existissem, muita coisa se teria perdido. Foi sugerida, neste momento, pelos participantes do Encontro, a criação de cursos de pós-graduação em Educação Patrimonial. Fernando Portella – A partir de agora, devemos fazer muitas reflexões sobre tudo o que foi falado. Precisamos da cultura para nossa saúde plena. Por que a farmácia cuida do corpo, mas não cuida da alma? Precisamos pensar na retomada do Fórum estadual de Cultura, para que os secretários municipais voltem a se encontrar, trocar experiências, interagir, realizar projetos coletivos regionais. Eu sempre gosto de lembrar uma frase de um amigo meu, que é botânico, segundo a qual “a única verdade que existe é a lenda”. Temos que assumir que somos historiadores de um caminho, de um processo. Não podemos impor nossa visão pessoal. Existem várias maneiras de se ver. A árvore e o vento são vistos diferentemente pelo botânico e pelo poeta. O que realmente nos atrapalha é o ego. Ele é a nossa cegueira interior. Não podemos viver programados, fazendo todos os dias a mesma coisa, como naquela música do Chico Buarque: “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Isso é como colocar disquetes dentro da cabeça. Precisamos nos auto-observar e perguntar: “Quem pensa dentro de mim?” Quem me diz não? Sou eu mesmo ou é meu pai interno, superego que foi introjetado? A educação ensina a ler e a escrever, mas só a cultura ensina a enxergar. Temos na mão o conhecimento – e precisamos do desejo de conhecer a própria história. As inseguranças nascem do desconhecimento de si mesmo. Precisamos fazer um revisão interna, acordar e permanecer nesse despertar. Estamos todos juntos, querendo ou não... E precisamos nos libertar do ego. Precisamos tomar esta decisão: “Vou quebrar as rotinas”. Assim posso ver outros caminhos para o ego. Olhamos o acidente que acontece na rua porque é algo grave. Mas podemos fazer um caminho diferente, em nosso bairro, a cada dia que passa. Assim poderemos conhecer melhor as pessoas que moram na nossa vizinhança... Assim poderemos, de fato, nos sentir morando em nosso bairro... Cada um de nós é uma lâmpada de uma gambiarra. Alguns se consideram o fio que liga todas. Mas só sendo uma lâmpada é que podemos perceber a energia de tudo. Os grandes sonhos começam com o primeiro passo. E podemos ser felizes no processo, adotando a norma do famoso escritor João do Rio: vagabundear com inteligência. Sugestão dos participantes: que, no próximo encontro, os professores também possam fazer palestras, e não apenas os doutores, os acadêmicos convidados. 33 Período da Tarde: Resumo das Palestras Realizadas Tema: O PRODETUR NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Palestrante: Sérgio Mello Representante da Turisrio 34 Sérgio Mello – O governador Sérgio Cabral e seu vice, Pezão, tiveram sucesso junto ao Governo Federal e agora existe no Rio verba para desenvolver o turismo em nosso estado, através do PRODETUR, que é um programa de alcance nacional. O turismo é um dos setores econômicos mais significativos da atualidade e abriga pessoas com alta e menos qualificação. Precisamos melhorar nossos índices. O Brasil recebe apenas 0,6% das viagens internacionais. O preço da passagem aérea está alto, temos poucos aviões e o fim da Varig representou a perda de 25 mil lugares nas aeronaves. O Rio de Janeiro é a maior porta de entrada de turistas estrangeiros no país. O estado tem grande poder de atração e grandes eventos, como o Carnaval. Os principais destinos turísticos do Estado são, pela ordem: 1o – Capital; 2o – Angra dos Reis; 3o – Búzios; 4o – Paraty; 5o – Petrópolis. A verba conseguida pelo governador para o Rio é de US$ 187 milhões. O valor é calculado com base na capacidade de endividamento do estado, que tem um limite. É claro que não dá para fazer tudo que é preciso para desenvolver o turismo no primeiro PRODETUR. Por isso, estabelecemos 6 pólos prioritários de atuação. Precisamos melhorar a divulgação, pois o Rio não divulga seu produto turístico. Outro aspecto importante a considerar: o turismo, hoje, é o maior conservador do meio ambiente. Se o empresário de turismo maltratar o meio ambiente, está dando um tiro no próprio pé. Recentemente, o nosso governador foi à França, para divulgar o Rio. Já foi criado um portal na Internet. O estande na França tinha quase 400 m2. Essas feiras internacionais são fundamentais para promover o produto turístico e são quase sem custo para os empresários do setor. Entre as ações previstas, estão campanhas publicitárias, voltadas para o mercado nacional e o internacional. Os conselhos regionais de turismo serão fortalecidos. Haverá capacitação de gestores turísticos e aquisição de equipamentos. E aplicaremos recursos em gestão ambiental, para garantir a preservação dos nossos recursos naturais. Na Capital, a ênfase vai ser em ações de segurança, pois queremos implantar um sistema de tolerância zero e ampliar o perímetro de segurança nas áreas turísticas. Em Búzios, percebemos que o lixão do município só tem mais três anos de vida – e por isso o estado vai intervir nessa área. Em Nova Friburgo, faremos a recuperação do teleférico da Praça do Suspiro, será criado um centro de convenções e haverá aperfeiçoamentos no entorno da Rodoviária local. Alguns distritos de Friburgo, como Lumiar, por exemplo, receberão recursos para desenvolver o turismo. Eu trabalho na Turisrio há 27 anos e agora estamos motivados com esta possibilidade, pois agora houve vontade política do governador e seu vice, e houve capacidade técnica do estado de preparar o projeto para conseguir os recursos do PRODETUR. E-mail deste palestrante: [email protected] Tema: FINANCIAMENTO PARA RESTAURAÇÃO DO PATRIMÔNIO Palestrante: João Carlos Néri Diretor Regional do Banco do Brasil João Carlos Néri – Em nome do Banco do Brasil, digo que é uma honra estar aqui com vocês. Já fui gerente das agências do BB em Mendes e Miguel pereira. Vou torcer para que os recursos do PRODETUR transitem pelo banco do Brasil. Não existe, em nosso banco, nenhuma linha específica, de crédito ou financiamento, para reforma do patrimônio. Mas, na área de turismo, o banco tem. Existe um projeto de turismo, que aplica verba do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador. A taxa de juros é de 5,33% ao ano, mais a TJLP (cobrada pelo gestor do produto), que é de 6,25% ao ano. No total, as taxas são inferiores a 12% anuais. Para conseguir a verba, a pessoa deve elaborar um projeto e mostrar quanto os recursos vão gerar de emprego e renda. Dependendo do projeto, ele poderá ter uma carência de 12 meses e só começar a pagar juros no 13.o mês. Isso dilui as prestações e torna a linha de crédito bem atraente. Este produto já está na prateleira. O tomador precisa ter um CNPJ com fins lucrativos. Não há linha de crédito para ONGs. Vocês podem obter maiores informações no site do Banco do Brasil: www.bb.com.br. Fiz uma pesquisa junto à Fundação Banco do Brasil e verifiquei que, como este Encontro vai gerar um banco de dados, isto poderá ser usado para ser repassado como demanda à Fundação, com chance de obtenção de algum tipo de apoio. Sérgio Mello (intervindo no tema) – Na área de turismo, para obter crédito ou financiamento, a empresa precisa ter até três anos de vida. O valor que pode ser obtido varia de zero a R$ 400 mil. O FUNGETUR tem verbas da CEF e do Ministério do Turismo. Vocês podem criar as demandas e encaminhá-las para Brasília. A empresa proponente precisa estar cadastrada no Ministério do Turismo e no PRODETUR. O estado do Rio de Janeiro tem poucas empresas cadastradas. As possibilidades de obtenção de recursos vão de R$ 400 mil a R$ 10 milhões. O projeto deve ter como objetivo ampliação e/ou modernização. O prazo de carência é de até 5 anos. O prazo de amortização pode ser de até 240 meses. As fazendas históricas do Vale do Paraíba são empresas que podem buscar recursos no FUNGETUR. Outra linha de crédito possível é o Cartão do BNDES, que cede até R$ 250 mil para empresários, mas só para aquisição de equipamentos. O FINAME também tem recursos para aquisição de equipamentos. Nesse campo, há uma gama enorme, existem linhas de crédito para tudo. O FUNPROGER, por sua vez, garante 80% do crédito aprovado. Sônia Mattos (Representante do PRESERVALE) – Sônia abriu sua fala dizendo que, embora as origens históricas da conquista, ocupação e povoamento do território, bem como os grandes ciclos econômicos extrativos e agrícolas, que geraram enormes riquezas para o país, tenham ocorrido no interior, a sociedade brasileira nunca foi especialmente cuidadosa com os testemunhos materiais representados pelo patrimônio rural. O Inventário das Fazendas Históricas, realizado pelo Instituto Cultural Cidade Viva, com a curadoria do INEPAC e o patrocínio da Light, talvez seja um dos primeiros esforços consolidados de identificação, mapeamento, registro e documentação de um conjunto de patrimônio rural excepcional. Esse é o caso das Fazendas de Café do Século XIX, situadas no Vale do Paraíba Fluminense – e o Inventário poderá vir a subsidiar tecnicamente a elaboração de uma proposta pioneira de recuperação e revitalização deste patrimônio para o seu uso sustentável no presente, bem como para as gerações futuras. É necessário compreender que o patrimônio rural apresenta, além de sua característica histórica, especificidades arquitetônicas, funcionais, econômicas, sociais e ecológicas que o diferenciam do patrimônio histórico urbano, e mais ainda dos equipamentos edificados 35 36 atualmente. Com a perda de sua função produtiva, o patrimônio rural entrou em decadência física e funcional, passando a constituir-se em estruturas de alto custo de conservação e de pouca ou nenhuma função econômica, o que dificultou enormemente a sua sobrevivência. Revitalizar os conjuntos patrimoniais do meio rural é um desafio. A tarefa exige recursos e competências próprias, e a melhor ferramenta para isso é o Turismo Cultural, indústria crescente, de grande demanda nacional e internacional. Os investimentos na recuperação do patrimônio histórico rural têm sido resgatados em todo o mundo, e também agora na região do Vale Histórico do Café, através da utilização produtiva das “Fazendas” para a cadeia produtiva do Turismo e da Cultura, através da hotelaria, do entretenimento, do abrigo e exposição de coleções artísticas e documentais, da visitação guiada e do Turismo Escolar. Também a produção e oferta da gastronomia, do artesanato e das festas populares regionais vêm movimentando substantivamente a economia da região, através do aumento da venda de produtos e serviços. Esse investimento vem sendo feito, em sua maioria, pelo setor privado, que, com recursos pessoais, vem restaurando e recuperando os edifícios de pedra e cal, mas também as suas memórias, através do resgate de arquivos e documentos históricos. As entidades de fomento (SEBRAE, SESC, SENAC) e órgãos oficiais como as Secretarias de Estado de Cultura e Turismo e os seus programas de apoio (Leis de Incentivo), representam também apoios institucionais importantes, bem como as ações das Secretarias Municipais do Vale do Café. No entanto, as fontes de financiamento da atividade de recuperação do patrimônio rural representam um capital difícil de ser alavancado, de modo economicamente viável, sem alternativas de crédito. Esta iniciativa se dá, em geral, em pequena escala e de modo particular, quase pessoal pelos indivíduos que, prestando um serviço à sociedade restaurando os seus patrimônios históricos, estão também gerando empregos e pagando impostos. Não obstante as limitações de crédito, o florescimento do turismo na região vem influenciando e estimulando o aumento de propriedades históricas rurais para desenvolverem atividades sinérgicas, demonstrando com a sua vitalidade o acerto na escolha da sua utilização cultural como alternativa econômica sustentável. Os recursos destinados para esta finalidade, atualmente, são restritos aos Projetos Incentivados pelas Leis de Cultura (Rouanet – federal e ICMS – estadual), que demandam uma qualificação especial na elaboração, aplicação e enquadramento dos formulários de projetos, além das dificuldades evidentes da captação. As contrapartidas oferecidas pelo patrimônio histórico rural como retorno publicitário aos eventuais patrocinadores são baixas, em virtude de serem empreendimentos de pequeno porte e de uso familiar, mesmo quando adaptados para o uso hoteleiro ou cultural. Seguramente, o número de pessoas e o impacto de mídia que uma casa histórica em Valença pode vir a causar não se comparam, por exemplo, ao volume de público e espaço na comunicação de um festival de jazz na Marina da Glória, e pode ser que venham a custar o mesmo dinheiro incentivado. Um proprietário rural tem, em geral, pouca afinidade com a burocracia técnica e financeira indispensável para a execução de todas as etapas do processo de captação, aplicação e administração de recursos incentivados. Por outro lado, o produtor rural está familiarizado com a dinâmica de crédito e financiamento bancário, principalmente nas carteiras agropecuárias que os bancos oferecem. Ele toma e paga, conforme os prazos e condições estipuladas, para o plantio da próxima safra, para uma ordenhadeira mecânica, um novo trator, uma pequena indústria rural. Sendo o patrimônio histórico uma obrigação constitucional de governos e um direito dos cidadãos, o crédito para a sua recuperação deverá ter juros compatíveis com a sua importância estratégica, permitindo que o cidadão viabilize com autonomia o seu projeto de revitalização, utilizando o seu patrimônio de modo produtivo e gerando também os recursos para o pagamento do financiamento. O crédito deverá também ser oferecido acompanhado da orientação dos órgãos oficiais de preservação do estado e da união, visando à manutenção de critérios de qualidade e de autenticidade nas intervenções feitas e zelando pela adequação dos projetos submetidos aos agentes financiadores. É importante esse acompanhamento, pois permite que se coadunem a autonomia do proprietário e a supervisão técnica de organismos credenciados para orientarem a correta execução dos projetos contratados. Afinal, já existe o crédito a juros subsidiados para os investimentos feitos no patrimônio histórico urbano, seja através da isenção de IPTU para prédios tombados dos municípios – benefício nem sempre fácil de conseguir –, seja através do programa do BNDES para a revitalização das Zonas Portuárias em 5 capitais brasileiras – Rio de Janeiro, Salvador, São Luís, Recife e Santos. Por que não inaugurar uma linha de crédito a juros subsidiados para a recuperação do patrimônio rural do Rio de Janeiro, como piloto para uma ação posterior, em escala nacional? Em todos os rincões brasileiros, vemos engenhos de açúcar, fazendas de cacau, estâncias de gado e todo o tipo de patrimônio rural caindo por falta de alternativas para sua recuperação e uso sustentável. Esta iniciativa mudaria para sempre a paisagem cultural do interior deste Brasil, representando uma revitalização econômica e cultural sem precedentes em todo o país. Agora vou comentar as duas palestras. Quero ressaltar o aspecto diferencial da questão do patrimônio histórico, que tem uma especificidade. Ele está na origem histórica, ecológica, do país. Por isso, precisa ser tratado com um grau de cuidado diferente. Isso gera um tipo de demanda característica na hotelaria rural, que funciona de modo radicalmente diferente da hotelaria convencional. O Inventário das Fazendas Históricas, lançado pelo ICCV, é um primeiro grande estudo nesse sentido, sobre o patrimônio rural brasileiro. Vai ser um marco. Pode ser, inclusive, uma bela matriz de cálculo e projeção de demanda para investimento na região. Numa fazenda histórica, as tulhas têm função educativa, mas não produtiva. É preciso pensar nas condições em que o empresário poderá pagar o financiamento. O restauro, hoje, não pode ser visto apenas do ponto de vista romântico, pois os proprietários enfrentam problemas de sustentabilidade. O café vendido ao turista é um ganho excepcional. O turismo hoje entra como parte da economia da hotelaria rural. E esse turismo deve ser de pequena escala, de pequenas famílias, com baixo número de funcionários. Vai empregar famílias da região, vai qualificar, vai treinar. No Brasil não existe centro de capacitação para a hotelaria rural. O treinamento é feito em serviço, por etapas. É assim que o fenômeno se dá, desde 15 anos atrás. O restauro, portanto, depende da capacidade de gestão. Às vezes a necessidade de sobreviver leva a tomar atitudes contra o patrimônio. Isso acontece no Brasil inteiro. No caso do patrimônio, o recurso concedido deve ser monitorado de alguma forma pelos órgãos oficiais. Deve haver maior rigor no controle do restauro. Hoje o que temos como mecanismo de apoio são as leis de incentivo fiscal à cultura. Elas exigem que se saiba preencher um formulário, elaborar uma planilha e ter capacidade de captação. O retorno de imagem é baixo e desconfortável para o proprietário rural. Esses aspectos têm que ser levados mais em conta. O proprietário rural está acostumado a pedir crédito, em qualquer tipo de fazenda. Existe facilidade de crédito para a zona portuária, com juro baixo, pelo BNDES. Por que não para as fazendas históricas? Proponho que encaminhemos para os bancos nossa sugestão para que criem linhas de crédito específicas para o meio rural. O crédito dá autonomia ao proprietário, para gerir os recursos sem se comprometer com o retorno, como acontece com as leis de incentivo. Nesse ponto, o Inventário das Fazendas que foi editado pode ser um marco regulatório, um exemplo a ser copiado pelo restante do país. A questão é urgente, pois as fazendas históricas estão desaparecendo pelo país afora, por falta de recursos financeiros para que possam se recuperar. Intervenção de participante – Como podemos falar em desenvolver o turismo aqui em nossa região, se por aqui a única empresa de ônibus a trazer gente do Rio é a Normandy, que trabalha mal? A passagem é caríssima, tiraram o banheiro dos ônibus, tiraram espaço entre as cadeiras... Existe até um site, intitulado EU ODEIO A NORMANDY... Esta região acabou virando uma região dormitório. Não dá para falar em turismo 37 sem acesso à região. Só temos ônibus de três em três horas. Peço que encaminhem nossas queixas nesse sentido ao vice-governador Pezão. O representante da Turisrio, Sérgio Mello, prometeu encaminhar a reclamação ao governador Sérgio Cabral e seu vice Pezão. Intervenção de uma participante – Ir da região para o Rio também é problemático, porque o entorno da Rodoviária Novo Rio é assustador. Como mulher, eu prefiro ir ao Rio de trem, pegando o metrô depois. Intervenção de participante – Como é que o plano da PRODETUR para nossa região prevê zero de recursos para a gestão ambiental no Vale do Café? Sérgio Mello – Não há verba para isso no momento. Mas prometo levar essa colocação para a Turisrio. Sônia Mattos – O plano do PRODETUR esqueceu que Valença tem o Parque Estadual Serra da Concórdia. É um atrativo turístico com grande potencial, mas falta sinalização, ponte etc. Professora Lielza Machado – O centro histórico de Vassouras está muito deteriorado. Tenho uma preocupação maior com o casarão da Santa Casa e o Palacete do Barão de Vassouras. Esses prédios precisam de restauro... RESUMO DAS CONCLUSÕES DO ENCONTRO 38 Mozart Vitor Serra (Diretor do Instituto Light) – Nosso Instituto tem uma programação muito grande e temos que ser cuidadosos na escolha de áreas para trabalhar. A Light está nesta região há mais de 100 anos. Decidimos patrocinar a edição do Inventário das Fazendas e pela promoção deste primeiro Encontro de História. Queremos ter outra iniciativa na seqüência destas duas ações e tudo indica que deverá estar ligada à área de turismo, que pode impulsionar o desenvolvimento da região. Agora precisamos avaliar tudo que foi dito, verificar o que foi bom, o que faltou e o que pode ser feito no futuro. Fernando Portella (Diretor executivo do ICCV) – Em conversa com os Secretários Municipais de Cultura que compareceram a este Encontro, decidimos retomar as ações do FEC – Fórum estadual de Cultura. O Fórum foi criado em 1987 e muita coisa foi feita a partir da sua existência. Em julho nos reuniremos aqui novamente. Precisamos evitar o crime da descontinuidade das ações. Nessa reunião, vamos entregar a memória do Fórum aos novos gestores municipais de Cultura. Peço uma salva de palmas para a aprovação desta idéia. O Fórum é importante porque, quando temos uma demanda, uma coisa é um município sozinho pedir, outra coisa, bem mais forte, é toda uma região pedir. Unidos somos muito mais fortes. Cada município falará sobre suas principais demandas e depois vamos ver como resolver cada questão específica. O caminho da verba está em vocês mesmos. Está na comunidade. É preciso trocar experiências com pessoas que conseguiram verbas, para aprender como elas conseguiram. Acho que daqui a um mês já teremos o Portal deste Encontro na Internet – e traremos notícias sobre tudo isso na reunião de retomada das atividades do FEC – Fórum Estadual de Cultura. Temos que dar valor à identidade cultural. Certa vez, trabalhando com adolescentes de baixa renda numa das regiões mais pobres do país (em Glória do Goitá, em Pernambuco), ensinamos a eles o conceito de identidade cultural e mostramos que tudo que tem uma história ganha um valor. Eles decidiram trabalhar com a venda de produtos na feira e colocaram a história dos legumes na sua barraca. Ao dizer que a cenoura que vendiam era plantada pelo seu Fulano, sem agrotóxico, agregaram valor à cenoura. Quando se mexe com a história, tudo passa a valer mais. A fazenda, pelo simples fato de ser histórica, faz com que seu café e sua cachaça passem a valer mais... Sandra Cândido – Minha colocação se refere à preservação do patrimônio histórico. Tenho um trabalho de Dissertação de Mestrado, onde pesquisei em arquivos especiais, principalmente de Vassouras. Dois arquivos particulares me são caros. Apesar de o turismo ser um viés interessante para a região, acho que a preservação também é muito importante e deve ser considerada. E gostaria de finalizar dizendo que temos um problema sério de financiamento para pesquisa e publicação dos nossos trabalhos. Um dos arquivos em que pesquisei está se estragando e necessita de verba para se manter. No momento está fechado. Falo do Acervo do Seu Jovino, que é muito importante e que precisa de lugar para ser colocado. E falo do Acervo da Santa Casa de Misericórdia, que também está se estragando. Clamo para que olhem para os pesquisadores: verba para nós! Eduardo França – Faço as seguintes sugestões: 1) Que seja definida uma prioridade para o próximo Encontro; 2) Marcar o segundo encontro ao final deste; 3) Fazer rodízio da cidade-sede do Encontro de História; 4) Que os patrocinadores se comprometam desde já com o segundo Encontro; 5) Que autores de livros possam expor e até comercializar suas obras em todos os Encontros; 6) Que os componentes da mesa sejam identificados na própria mesa; 7) Que os professores da área tecnológica sejam convidados a participar, para que possam contribuir na recuperação e manutenção do patrimônio histórico. Myla Machado (de Rio das Flores) – Informo que já trabalho com educação patrimonial faz tempo, com boa vontade e sem capacitação prévia. Que o curso de pós-graduação em Educação patrimonial realmente saia! Anne Machado – Trabalhei no projeto do Almanaque na UFF e fiquei feliz de ver isso no Encontro. Foi um trabalho pioneiro que enfrentei junto com as crianças e os pais. Vi que é possível fazer. Vamos nos encontrar nessa pós, pois ela é urgente! Reizi Rozemberg – Meu pai foi o cineasta I. Rozemberg, que me deixou como herança importante acervo cinematográfico, que comecei a recuperar. Tenho mais de 150 latas de filmes. Entre elas está a famosa série Coisas do Brasil, que meu pai realizou. Minha mãe guardou tudo e além do acervo de películas, tem jornais e revistas também. Meu pai fazia telejornais. Com apoio da Sra. Gilda Meireles, expus o acervo na Academia de Letras de Vassouras. A recuperação das películas é muito cara. Tive apoio do Ernani Revmam, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que possui experiência no restauro e na guarda de acervos de filmes. Junto a minha preocupação pessoal à de todos que têm acervos particulares, que envolvem famílias. É preciso preservar esse patrimônio, ter a memória. Meu pai filmou todas as hidrelétricas do país, as rodovias, os últimos 40 anos deste país. Ele filmou várias vezes a inundação de diversos povoados. Todo esse acervo pode servir para pesquisas. Ele filmou a abertura da Transamazônica, projeto que felizmente não deu certo, porque, se tivesse dado certo, hoje não teríamos a floresta... Alguns roteiros dos filmes de meu pai foram escritos por Paulo Mendes Campos. Recuperar esse acervo é recuperar a memória de todo um país... Fernando Portella – Quero agradecer aqui o empenho e a dedicação da produtora deste Encontro, Francis Miszputen, e à toda a sua equipe. 39 Francis Miszputen – Eu é que agradeço. As pessoas têm boas idéias, e meu trabalho é realizá-las. A primeira vez que chegamos a esta região, para preparar as bases do Encontro, as pessoas estavam extremamente céticas. Mas não viemos para tirar nada, e sim para dar tudo o que pudéssemos. As pessoas que acreditaram construíram o sucesso deste evento. Adriano de Novaes defendeu o projeto desde o início e nos apresentou à Ana, que ajudou a gente de todas as maneiras. Também quero agradecer muito ao professor Magno, que nos ajudou muito e conseguiu as alunas do curso de Turismo da Universidade Severino Sombra que deram apoio técnico à nossa equipe. Professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues (Professor de História da PUC-Rio) – Qualquer coisa que eu possa dizer agora, seria mais para abrir do que fechar idéias. Quero lembrar a vocês minha primeira provocação: olhar o vale do café sem o peso da imagem de decadência. Quis mexer com as angústias e as esperanças de todos. Puxar pelo brio das pessoas. Essa palavra (decadência) precisa ser retirada do mapa e garantir um espaço de trabalho no Vale do Paraíba que possa reunir todas as forças. Hoje percebi que não dá mais para separar o turismo do trabalho de preservação e de memória. Ninguém pode ser o dono da bola no desenvolvimento do Vale do Paraíba. Há uma falta de estrutura para que se possa preparar isso. Nada pode ser feito sem os professores, eles são o cerne fundamental desse processo. O curso de turismo não pode ser só técnico. Hoje damos qualidade a um curso que, junto com a História e a educação patrimonial, vai permitir que o segundo encontro seja ainda melhor do que este. O filme que eu trouxe, Narradores de Javé, foi uma outra provocação e vocês reagiram muito bem. Ana Lúcia Mattozo Furtado (Presidente do CONCICLO) – Preciso citar um acontecimento. Marcamos com a Carol (do ICCV) para vir aqui e eu soube do projeto de realizar este primeiro Encontro. Na ocasião, fui muito sincera: “Mas, primeiro encontro, de novo?” Nós já participamos de outros encontros, com outras propostas de envolvimento. Muitas vezes as pessoas caem aqui como pára-quedistas e trazem a roda, de novo... Parece que aqui só tem um bando de caipiras... Ainda por cima, perdi meu irmão faz 60 dias e Francis apareceu justo no dia seguinte... Mas agora só tenho que agradecer e dizer que vocês fizeram o investimento no lugar certo. As pessoas que vieram estão envolvidas, amam esta região e fazem trabalhos que são muito importantes. No ano que vem, haverá secretários novos, prefeito novo.. . Uma das estratégias que utilizamos para evitar a quebra da continuidade do nosso trabalho com a Prefeitura é fazer um café da manhã antes da posse. Assim, os prefeitos se comprometem mutuamente e respeitam tudo o que foi feito para trás. Neste momento, o livro do INEPAC sobre educação patrimonial foi sorteado entre os presentes. 40 Mozart Vitor Serra (Diretor do Instituto Light) – Quando a gente ouve uma reclamação ou observação, pode registrá-la ou não. De repente a gente conversa com um historiador que tem um acervo e se preocupa: o que vai acontecer depois que ele morrer? De repente, a observação feita é de muita gente, não é um caso apenas. O que constatamos é que existe um problema de guarda de arquivos. Devemos registrar como conclusão que é preciso fazer uma avaliação sobre cada arquivo particular da região e depois decidir que tipo de política poderá ser aplicada para o conjunto deles! Nas minhas considerações finais, quero dizer que nós da Light nos associamos a todas as pessoas mencionadas como agradecimento. Se eu tivesse que escolher um trabalho símbolo da região, escolheria o Adriano, que fez o trabalho de campo no inventário das fazendas. Obrigado a todos por nos terem dado esse crédito de confiança por 48 horas. O Instituto Light tem a grande honra de estar absolutamente comprometido com essa atividade do inventário e outras semelhantes. SÍNTESE DAS PRINCIPAIS PROPOSTAS FEITAS NO ENCONTRO ● O turismo cultural e histórico é considerado por muitos o grande caminho para o desenvolvimento sustentável do Vale do Paraíba fluminense. ● Foi solicitada a ampliação das possibilidades de editar livros dos escritores do Vale do Paraíba e melhoria dos sistemas de distribuição. ● A revista eletrônica Vale do Paraíba Online, que será lançada em breve, tem espaço aberto para artigos científicos e técnicos. ● Socorro urgente para o Arquivo Municipal de Vassouras, que tem muitos documentos que não oferecem condições mínimas de manuseio. ● Obtenção de verbas e de chancelas para os pesquisadores da região, que também afirmaram encontrar problemas para publicar seus trabalhos. ● Há pesquisadores na região que carecem de computadores para seus trabalhos. ● Sugestão: no próximo encontro, colocar os livros dos autores da região em exposição e à venda. ● O pesquisador Roberto Guião colocou seu arquivo pessoal, sobre as fazendas históricas, à disposição dos demais pesquisadores da região. ● Foi solicitado que, no próximo Encontro, os professores de História também pudessem fazer palestras, e não apenas os “acadêmicos”. ● Criar um curso de pós-graduação em Educação Patrimonial em alguma Universidade do Vale do Paraíba. ● Levar aos bancos a demanda por linhas de crédito e/ou de financiamento para o meio rural. No caso dos proprietários das fazendas históricas, as linhas deverão ter condições adequadas à escala deste tipo de empreendimento. ● Analisar a situação dos arquivos históricos particulares da região e decidir por uma política conjunta para todos eles. ● Digitalização dos arquivos particulares e sua posterior disponibilização na Internet. ● Socorro para prédios históricos da região, que necessitam de restauro. Exemplos: a Santa Casa de Vassouras, o Palacete do Barão de Vassouras e prédios de Barra Mansa. ● Apoio aos projetos de difusão da história do Vale nas escolas e multiplicação das metodologias bem sucedidas nesse sentido. ● Maior envolvimento direto da população local com a história do Vale, já que grande parte dos moradores não se identifica com o tempo dos Barões do Café. ● Muitos participantes consideraram que as verbas do Prodetur não contemplaram adequadamente a região. ● Existe forte demanda pela melhoria do transporte intermunicipal na região, sem o que o turismo não poderá ser adequadamente desenvolvido. ● A Sra. Reizi Rozemberg, herdeira do acervo cinematográfico de seu pai, I. Rozemberg, solicitou ajuda para o restauro dos filmes e sua utilização posterior em pesquisas. ● Retomar as atividades do FEC – Fórum Estadual de Cultura, movimento que reúne Secretários e/ou Diretores Municipais de Cultura para um trabalho cooperativo em escala regional e estadual. 41 Contribuições Posteriores à Realização do Encontro CULTURA POPULAR E NARRATIVA HISTÓRICA Antonio Edmilson Martins Rodrigues (PUC-Rio/UERJ) 42 Este texto foi produzido especialmente para o I Encontro de História do Vale do Paraíba e seu objetivo é apresentar um conjunto de reflexões que possam nortear os debates que se seguiram, com o intuito de acumular questões e demandas que permitam organizar uma pauta de solicitações capazes de organizar o universo acadêmico da região em torno da história local, ao mesmo tempo que pretende buscar direções e procedimentos capazes de abrir caminho para um processo de conservação de bens culturais e históricos e de classificar o patrimônio como algo capaz de estar vivo e usável nos vários procedimentos de ensino e de pesquisa. Complementam este texto dois desdobramentos importantes: as oficinas de história e o debate em torno do filme Narradores de Javé, que pretendem aprofundar as questões aqui apresentadas. O primeiro ponto a ser apresentado diz respeito ao conceito de cultura e mais especificamente ao seu composto “cultura popular”. A noção de cultura, no seu uso histórico e sociológico, é fruto do debate desenvolvido na Alemanha no século XIX, em torno de dois eixos centrais. Um, voltado para a crítica ao Iluminismo na sua forma de absolutização da razão e de seus derivados, como o conceito de civilização; outro, vinculado à crítica do universalismo liberal e de defesa da idéia de nação, colocando a cultura como oposto à civilização e reconhecendo o universo local da nação como o mais significativo para o aprendizado da vida política e econômica. Isso, no entanto, não quer dizer que esses eixos sejam contrários ao cosmopolitismo presente nessa Europa do século XIX. Esse ponto de partida possui vários desdobramentos. Entre eles, um que nos interessa mais de perto, que é a relação entre o Brasil e o Romantismo, centro de produção dos dois eixos anteriormente indicados. E nos interessa porque permite estabelecer algumas conexões importantes para a história de regiões e compreende, especialmente, um olhar sobre as bases construtoras do passado delas, com destaque para as ruínas e para o patrimônio visual e material desse passado. Assim, minha proposta é que utilizemos como direção a idéia de cultura decorrente do romantismo alemão e a aproximemos da região que é hoje nosso objeto. Partamos da noção de sentimento, muita cara ao movimento romântico, que envolve uma relação íntima da sociedade com tudo aquilo que resultou da ação de uma política e de uma história. Entretanto, esse sentimento íntimo não significa fechamento. Na direção inversa, ele movimenta a história utilizando os elementos culturais forjados no movimento da sociedade, procurando caracterizar a exponencialidade e a singularidade da região. Para isso, vamos mobilizar todos os elementos disponíveis, que vão da cultura material à cultura imaterial. Ao criar esse movimento, passamos a dispor de um “patrimônio” capaz de ser descrito e interpretado, passível de ser história e ser reconhecido como marca, ou seja, como cultura. Para realizar esse percurso crítico, entretanto, precisamos do sujeito, e de um sujeito que narra e interpreta, associando ao que toma como objeto a dimensão interior e exterior. Esse mergulho sentimental na região é que possibilita o reconhecimento das diferenças com relação a outras regiões e o reconhecimento das particularidades. Desse modo, a cultura se apresenta não como um conjunto de artefatos reunidos num museu, mas como uma atitude, uma marca que deve ser inspirada, ou seja, capaz de compreender a região, porque só assim poderá apresentá-la na forma de explicação. Mas além do homem-sujeito que observa e interpreta temos que ter uma natureza capaz de atraí-lo, de envolvê-lo e de seduzi-lo como uma amante. Essa natureza não se apresenta apenas como paisagem, mas inclui todas as manifestações que foram produzidas no tempo como fenômenos lingüísticos e folclóricos. E é aqui que entra o composto “cultura popular”. Deixemos claro, que não estamos tratando o conceito do modo como ele se apresenta na historiografia. Aqui cultura popular significa cultura do povo, sem nenhum registro de uma cultura dos de baixo, ou de uma cultura de operários ou de camponeses. Não estamos, nesse primeiro momento, discutindo a dimensão ideológica do conceito, mas a condição que dele advém de permitir a identificação de uma marca de uma cultura que no nosso caso abrangia dos barões aos índios. O que estamos chamando de cultura popular são todas as manifestações oriundas das práticas que foram desenvolvidas pela sociedade, em todos os seus níveis, no tempo, como demarcação da especificidade da região. Entram aí os transportes, as formas de viver e sentir, a economia com os modos de plantar, a medicina das ervas, ou seja, tudo que envolve os ditos populares e os “causos” que marcam as histórias das famílias. Mas também consideramos aí as tensões políticas e os conflitos sociais. Entretanto, devemos ter atenção para um detalhe fundamental. Essa massa de patrimônio não existe sem a presença de um pensamento que articule as várias peças. Não há manifestação popular que tenha apenas a sua história como descrição de uma festa. Ela envolve uma tradição, que é a base da história desse festejo e que se liga a outra história que envolve a festa como uma categoria articuladora das redes sociais de uma região. As peças que compõem o patrimônio não existem sem a história daquilo que representam. Talvez o exemplo mais elucidativo sejam as fazendas. Elas, isoladas e apresentadas apenas como referência da região, se transformam apenas em indicadoras do sucesso ou da decadência. Ao contrário, quando as tratamos como elos de uma história maior, elas ganham qualidade e se destacam como fazendas do Vale do Paraíba fluminense. Mas temos que dar uma parada. São muitos os conceitos e as categorias que fomos utilizando e elas merecem algum pontuamento. Comecemos da idéia de que cultura é a reflexão que a sociedade faz sobre ela mesma, na busca de uma compreensão de seu próprio significado. Essa definição ficará, por ora, como nossa referência. Mas voltemos ao nosso primeiro ponto e vejamos o que é civilização. Hoje, usamos a palavra civilização para indicar um estado ou uma condição estabelecida de vida social organizada e que permite que escalonemos sociedades mais desenvolvidos e menos desenvolvidas, o que tende a fazer com que, no nosso universo cultural, civilização seja o contrário de barbárie. Entretanto, originariamente, a palavra indicava um processo que ia da barbárie à civilização. Civilization foi precedida em inglês por civilize, no início do século XVII, a partir do francês civiliser, palavra já existente no século XVI. No latim medieval aparece a palavra civilizare que significa transformar uma questão criminal em uma questão civil e, por extensão, incorporar a uma forma de organização social, como apresenta Raymond Williams (2007). O uso corrente da palavra se deu no século XVIII, como uma combinação específica das idéias de um processo e de uma condição adquirida. No Iluminismo, a palavra ganha uma dimensão de processo histórico, associando-se a desenvolvimento e a progresso, mas mantendo também o seu significado de refinamento. Hoje, ela tem um significado neutro e pode estar adjetivada de civilização ocidental, civilização moderna, civilização industrial, civilização científica e tecnológica. Mas permaneceu tendo, mesmo contemporaneamente, um sentido de estado adquirido, normativo e exemplar, um modo civilizado de vida, as condições da sociedade civilizada. A palavra cultura, segundo Raymond Williams (2007), é uma das duas ou três palavras mais complicadas quando buscamos a sua genealogia e os seus significados. Para ele, isso decorre da utilização intelectual da palavra. Ela viria do latim colere, que signficava habitar, cultivar, proteger, honrar com veneração. Nos seus primeiros usos, a palavra cultura se referia a um processo ou de plantar ou de colher um determinado produto. A partir do século XVIII, com o romantismo alemão, a palavra cultura relaciona-se mais diretamente com o solo da pátria, com o que se colhe como frutos para a nação e passa a se opor à civilização. A palavra em alemão, derivada do francês, era cultur e, a partir do século XIX, se transforma em kultur. 43 44 Foi Herder quem instituiu seu novo uso como oposição aos conceitos universalizantes. Hoje, cultura é música, literatura e arte e há inclusive um ministério da cultura e um Instituto Cultural Light. Embora os sentidos continuem ambígüos, é possível conviver com dois deles, que nos servem melhor, que são: cultura como reflexão da sociedade sobre o que ela é, que dá origem às várias histórias das culturas; e cultura como campo cultural, onde se inscrevem as instituições ligadas ao trabalho de promover a cultura. Antes de cultura popular, vejamos o que se entende por tradição, outra palavra-chave para nós, acostumados a opor cultura tradicional à cultura moderna. No inglês, ela aparece no século XIV como tradition e, no francês, como tradicion, derivação do latim traditionem que significava transmitir. O substantivo latino tinha vários sentidos: 1. Entrega; 2. Transmissão de conhecimento; 3. Legado de uma doutrina; e 4. Traição. Hoje, ela, num primeiro nível, apresenta dois sentidos no âmbito da cultura. O primeiro vinculado à noção de uma cultura que está com olhos voltados para o passado e, por isso, ganha a referência de tradicional; o segundo envolve a presença de uma cultura que se afirma como base do desenvolvimento de visões de mundo. Como os sentidos são muito aparentados, a diferenciação é difícil, mas pode ser aclarada quando se aproxima o primeiro sentido da dimensão de uma atitude contra o progresso ou de resistência à alguma coisa. E o segundo se orienta para uma tradição que se organizou como sistema de valores. Nosso cuidado envolve a atenção para não deixar a noção de tradição se transformar em unicamente reação ao moderno. Esse cuidado advém das várias formulações distintas que ela ganhou na área do patrimônio cultural e da confusão que foi criada em torno da política de tombamentos. Esse pequeno desvio teve como objetivo apresentar o campo de significados das palavras que se aproximavam mais de nossa reflexão. Concluída esta primeira parte, vamos à segunda. Trata-se, agora, de discutir a noção de narrativa e, mais particularmente, de narrativa histórica. Quando pensamos que a coisa ia ficar mais tranqüila, eis que nos deparamos com um conjunto de novos problemas. Mas vamos tentar simplificar. Para o nosso fim, podemos partir da idéia de que a narrativa moderna é definida a partir da produção de Miguel de Cervantes. Sua obra Dom Quixote foi a primeira experiência moderna de romance, que articulava tempo e espaço e possuía uma história particular de personagens. Essas histórias se relacionavam de modo a dar uma visão geral. Isso, ao mesmo tempo, aparece na Inglaterra, com William Shakespeare, que do mesmo modo que Cervantes apresenta um painel alargado das tensões psicológicas e culturas do mundo moderno, no momento em que a cultura barroca domina (Maraval, 1997 e Argan, 2004), mostrando que ela não era apenas a cultura da Contra-Reforma. Por seu caráter abrangente e temporal, essas narrativas se transformam rapidamente em fontes importantes para o estudo das regiões de onde derivam. Algumas delas ultrapassam a dimensão local e ganham uma perspectiva universal e cosmopolita, caracterizando a capacidade de reflexão do autor e sua condição de sujeito na história. O exemplo de Shakespeare, indicado por Machado de Assis, talvez seja o mais significativo para compreendermos esse aspecto. Diz Machado, e depois isso foi repetido por Jorge Luiz Borges e Mário de Andrade, que o autor inglês mostra muito bem como a marca de sua identidade cultural pode permanecer presa à sua pátria, sem que sua literatura tenha, necessariamente que traduzir as cores locais. E, completa, ninguém afirmaria que Shakespeare não é um autor inglês. Qualquer um de nós, ao fazer uma história da literatura ou da cultura inglesa tocaria no nome dele. Entretanto, boa parte de suas obras são ambientadas na Dalmácia e na Itália, sem que isso faça com que ela perca a sua presença na literatura e na cultura inglesas. Essa condição de sentimento íntimo aparece tanto nas construções lingüísticas como nos usos que são feitos de determinados conceitos, que mais do que simples palavras são formas de designarmos a presença de uma cultura. Literatura e história começavam a se anunciar como possibilidades de expressão da cultura e combinadas complexificavam as narrativas, apresentavam experiências que foram dos romances de Jane Austen às novelas históricas de Walter Scott. Em cada uma dessas modalidades, as trocas entre as experiências históricas e literárias permitiram estabelecer estilos de narrativas que se relacionaram diretamente com o desenvolvimento dos grandes movimentos culturais. Se as novelas de Cervantes expressavam a relação entre ironia e drama, as novelas de Scott anunciavam as tendências heróicas dos homens. A literatura burguesa do século XIX trouxe para as narrativas a subjetividade e introduziu as tensões psicológicas e a paisagem. Naturalismo e realismo se combinavam no historicismo e no modernismo. Essas experiências mostravam que não bastavam os fatos, os eventos. era essencial o tratamento dado a elas, tanto na busca da sua veracidade como na forma de apresentálos. Dependia, assim, das narrativas, o conteúdo e a forma. Delas também dependiam a interpretação e a compreensão do encadeamento histórico. Mas, principalmente, dependiam das narrativas as expressões culturais, especialmente aquelas que se escondiam sob o manto da oralidade, aquelas que só se apresentavam em momentos de festa. As cantigas populares de roda, as brincadeiras de crianças, só ganhavam expressão quando anunciadas por alguma forma de narrativa e, quando essas narrativas eram feitas complicavam a situação, pois anunciavam origens variadas, como vocês poderão ver no filme Narradores de Javé, mas também como vemos, nas trocas culturais que se anunciam numa festa junina ou numa dança de quadrilha, quando crianças que nunca estudaram francês passam a entender o significado numa festa popular de change e de promenade, assim, como anariê e anavantú. Essa riqueza de movimentos e nuances é que marca a complexidade da cultura e a dificuldade de narrar, porque se juntam numa festa genealogias variadas, oriundas de várias procedências, que alimentam a relação entre religião, vida e cultura. Mas essa complexidade não fica apenas na Europa: ela viaja até o Brasil e os nossos escritores românticos e modernistas do século XIX e início do século XX recepcionaram essas formas e essas idéias. Para muitos, imitando ou copiando a França, que era a principal referência para o novo tempo da modernidade, mas que não podia desprezar as tradições. Digo, com todo o respeito que os críticos Antonio Cândido e Roberto Schwarcz merecem, que há idéias no Brasil e elas não estão fora do lugar. Nós fomos além da imitação e da cópia. Reinventamos as formas, inventamos outras e conseguimos ligar as formas à cultura da brasilidade. Poderíamos citar muitos nomes, mas vou me ater àqueles que são mais expressivos na sua vinculação com a história. Começo exaltando a qualidade da narrativa de José de Alencar, que soube, como poucos, unir o Brasil na sua heterogeneidade, através de retratos históricos e sociológicos, e apresentar expressões regionalistas que foram fundamentais para que nós conhecêssemos costumes e fazeres. Depois, Sylvio Romero e Euclydes da Cunha, que alargaram fronteiras atrás do Brasil profundo e o revelaram através das cantigas de roda e cantos natalinos ou narrando a história do sertanejo junto com a cruzada do Conselheiro. Mas, não fica só aí. Lembremos Machado de Assis, que com sua ironia, apresentou a novidade do adultério numa sociedade que se imaginava pura e religiosa. Ou a grande revolução do Modernismo de 1922, que resumiu tudo isso e refez a tradição da brasilidade, dando origem aos mitos renovadores como Macunaíma e aos regionalismos inventores de linguagens como Guimarães Rosa. Mas também abriu caminho para folcloristas do peso de Câmara Cascudo e de Edson Carneiro, que escreveu um belo livro sobre as formas de namoro, tão interessante quanto a sociologia da rede de dormir do primeiro. E não estou falando nem do grande contador de histórias: Gilberto Freyre. Vejam quantos se inspiraram nas relações de trocas culturais para interpretar o Brasil. No filme que será passado à noite, vocês vão ver uma “brincadeira muito séria”, que anunciará a confusão geral, que misturará ficção e realidade para que nós possamos aprender a ficcionalizar a realidade. Os temas do filme vão das versões às verdades, sempre no plural, dos acontecidos aos escritos, dos apelos aos mitos e das origens aos novos ciclos quase religiosos. Mas não estamos aqui para falar apenas disso, embora originalmente o nome desse encontro fosse “encontro dos amantes de história”. Vamos manter esse nome num segundo 45 46 plano. Eu gostaria que ele permanecesse conosco durante esses dias em que vamos estar juntos. Ele me incentiva, não para o que vocês imaginam, mas para recordar, figurar, representar e descrever as realidades. Mas falta uma parte nessa nossa conversa. E essa região tão cantada em prosa e verso? E o Vale do Paraíba? Como não viemos para dizer muita coisa e mais para ouvir e aprender com vocês, ficam aqui apenas algumas notas que, eu diria são provocativas. Todos vocês que moram e trabalham nesta região devem ter uma imagem da região e essa imagem deve ser de defesa do seu patrimônio; muitos estão aqui recentes e ainda estão procurando neste encontro marcas que estabeleçam conhecimentos. De saída, aviso a todos que não viemos aqui para ouvir choradeiras e nem para ter pena. Nosso objetivo é, junto com vocês, procurar caminhos. Caminhos que sejam cheios de luz e que nos iluminem no nosso fazer cotidiano; que produzam novas estratégias, sejam elas para ensinar, para manter o patrimônio ou para desenvolver políticas culturais. Eu começaria esta parte dizendo que vocês são reféns da sua própria história e uma história que, na maioria das vezes, nem foi feita por vocês, mas por historiadores até de outros países. Lembro de Stanley Stein, brilhante brazilianista, que escreveu o livro que parece, até hoje, ser decisivo, para a compreensão da história de Vassouras e do Vale do Paraíba. Nesse livro, Grandeza e decadência do café, isso salta aos olhos, e não por culpa do autor, mas, às vezes, pelos equívocos dos interpretes da obra. Ficar refém de sua própria história significa que a tarefa de vocês será a de, antes de qualquer coisa, responder aos outros, fazer uma história externa a vocês e com o cuidado de não deixar entrar a subjetividade de vocês. Então, eu diria que o primeiro embate de vocês será com esses forasteiros, incluindo os turistas. E as armas que sugiro para o embate são a inteligência e a tolerância, utilizadas para remover uma grande montanha, a da decadência. As pessoas vêm a Vassouras para ver a grandeza do café? Não, elas vêm para olhar a decadência, as ruínas, as contradições entre rural e urbano, entre atraso e desenvolvimento. E há mais, comparam o Vale do Paraíba fluminense com o Vale do Paraíba paulista, produzindo um anacronismo enorme: São Paulo é mais desenvolvido que o Rio de Janeiro. Mas, vocês vão ter que derrubar mais obstáculos. Vão ter que refazer a imagem do cafeicultor fluminense e mostrar que ele não é a continuidade do grande proprietário de terras do Norte e Nordeste, que plantava cana e vivia na Casa-Grande, mas que, no século XIX, esse homem era um empresário, que cuidava de negócios para os quais tinha de ser muito competente e até falar inglês. Temos que mostrar que a grandeza de Vassouras não é mero acaso, mas foi construída por esses empresários do café, burgueses animados com os lucros das operações financeiras num mercado capitalista. A outra montanha é a idéia de fazenda, especialmente quando ela é associada à grande propriedade, que, para nós historiadores, significa ser monocultora e escravista. A diferença é fundamental para acabar com a idéia do fausto pelo fausto, da monumentalidade pela monumentalidade, que sempre deixam de lado a poética da paisagem e anunciam esse mundo como rural. Por isso, acho melhor chamar de turismo cultural do que de turismo rural. O trabalho de vocês é árduo e demorado, mas vale a pena. Para não ficar apenas falando de montanhas-obstáculos, vou fazer algumas projeções que talvez possam ajudar vocês. A primeira diz respeito à visibilidade da grandeza, numa combinação direta entre cultura material e imaterial, na associação entre fazendas, vale e memória. Para essa combinação será fundamental recolher todas as indicações da cultura popular e juntar, primeiro na cabeça de vocês, e depois em algum lugar. Esses arquivos e essa documentação devem circular e, quanto mais coisas vocês descobrirem, melhor. Amobilização constante é o melhor remédio para a visibilidade. Para essa memória vocês devem contar com as várias tradições do Vale e aí se abre espaço para todos os amantes e historiadores profissionais, professores e contadores de histórias. Quero concluir e vou dizer, para terminar, que a melhor forma de observar o patrimônio está na nossa capacidade de falar dele. Sem a nossa palavra, ele não é nada. Tudo dependerá da nossa narrativa, da feliz escolha de uma estratégia cativante que abra caminho para uma nova interpretação do Vale. BIBLIOGRAFIA ARGAN, Giulio. Imagem e persuasão: ensaio do barroco. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. MARAVALL, Jose Antonio. A cultura do barroco. São Paulo: Edusp, 1984. RODRIGUES, Antonio Edmilson e FALCON, Francisco. Tempos modernos: ensaios de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. RODRIGUES, Antonio Edmilson e FALCON, Francisco. A formação do mundo moderno. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2006. RODRIGUES, Antonio Edmilson. José de Alencar: o poeta armado do século XIX. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2002. WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave. Um vocabulário de cultura e sociedade. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. RELATÓRIO DE ATIVIDADES Antonio Edmilson Martins Rodrigues 1. Introdução O primeiro ponto que deve ser apontado neste relatório diz respeito ao seu sucesso, que ultrapassou, em muito, as minhas expectativas, tanto pela qualidade da assistência como pelo seu empenho. Isso provocou alguns desajustes, comuns em situações como um seminário numa região que tem muito a dizer, talvez até mais do que ouvir. Essa mobilização, entretanto, se foi uma catarse na descrição das experiências dos escritores locais, melhorou muito durante a exibição do filme, que para nós surpreendeu quanto ao público presente. Como me mantive mobilizado no comando de várias mesas, não pude acompanhar com mais atenção as conversas fora e a recepção do que foi apresentado, mas devo dizer que foi muito oportuno fazermos, no primeiro dia, aquela mudança, transferindo a mesa da Cultura popular para o primeiro momento após o encerramento da cerimônia de abertura. Ao final, destaco algumas idéias que podem contribuir para a continuidade do nosso trabalho no Vale, mas de saída destaco que eles estão ávidos de informações, por isso, poderemos pensar em cursos para os professores e profissionais para reavaliar a história e a cultura do Vale. Alguns resultados já são observados. Fui convidado a participar do seminário sobre Fé e Religião em Lorena e para abrir os trabalhos. 2. As experiências dos escritores locais contados por eles próprios Foi a sessão mais tumultuada do Encontro, embora tenha acabado bem pela perspicácia da equipe organizadora, que listou aqueles que haviam enviado trabalhos para serem os narradores de experiências. Quanto às experiências, elas foram heterogêneas e complicadas, pois foram do depoimento pessoal sobre seu envolvimento com o ensino, a educação ou a administração pública, até depoimentos vazios de interesse porque reproduziam teses ou dissertações universitárias para um público de não-amantes da história. Isso tumultuou e deve ter criado constrangimentos. A nossa sorte foi ter modificado a programação e com isso tivemos tempo para avançar nas experiências. Destaco, como importante, as falas dos participantes que já estão mais envolvidos com a política cultural do Vale, como Sônia Mattos e Ana Maria Bastos Seraphim e os membros da Academia de Letras de Vassouras. O registro negativo foi a pouca presença da USS, tanto com alunos de graduação e de pós-graduação, como de professores e pesquisadores. 47 Outro destaque deve ser feito para a abrangência geográfica que tivemos no Encontro, praticamente todas as áreas do Vale estiveram presentes. 3. Oficinas de História As Oficinas de história tiveram um grande êxito, funcionando como concretizadoras dos nossos objetivos, porque estimularam a participação e atingiram, especialmente, os professores e secretários de cultura e abriram a possibilidade de projetos futuros. Além disso, acentuou a qualidade acadêmica do Encontro e gerou um movimento de trocas muito significativo. 4. Exibição do filme Narradores de Javé Foi, junto com as oficinas, a parte mais surpreendente do Encontro. Depois de um dia de trabalho, tivemos uma excelente platéia para o filme e, mesmo depois do adiantado da hora, os participantes ficaram esperando que ocorresse o debate, levando-me a ter de relacionar algumas das questões apresentadas no filme com os nossos interesses no Encontro. Isso mostrou o interesse dos participantes. 5. As diversas faces da história do Ciclo do café Reunimos, nessa mesa, as comunicações que seriam de maior conteúdo. No entanto, acabaram sendo continuações da catarse do dia anterior. Mesmo as exposições mais técnicas se perderam na retórica e no vazio de conteúdo. A única coisa boa foi a presença do nosso amigo historiador mineiro, que esboçou temáticas interessantes sobre as diferenças na arquitetura das fazendas entre o Vale e a região das Minas, ou entre o café e o ouro. 6. Transmissão da história das cidades nas escolas Para mim, foi o ponto alto da manhã. A exposição feita pelo INEPAC redundou num interesse acentuado da platéia, revelado pelas perguntas. O tom da exposição foi importante, por mostrar as atividades e os projetos que o público não conhecia, reforçando as parcerias com outras instituições e remetendo para a importância do trabalho do Instituto Cultural Light. 7. Financiamento para a restauração do Patrimônio Pelo cansaço, não pude assistir as comunicações iniciais. Só ouvi a Sônia Mattos. 8. Conclusões do Encontro Destaque especial para a sensibilidade de Fernando e Mário. O cansaço dos participantes e a vontade de receber alguma coisa no final não permitiram que ocorressem mais falas conclusivas. Em geral, foram reforçadas as linhas fortes do Encontro como a questão do patrimônio e da história e a necessidade de realizar mais um encontro. 9. Destaques especiais: O sucesso do Encontro foi resultado da competência da equipe organizadora, que permitiu que as sessões fossem desenvolvidas sem o mínimo tumulto. O atendimento aos participantes também merece destaque e para mim deve ser maior o destaque, porque sei que eram três pessoas e mais a mãe da Carol. Registro especial para a feira de livros dos participantes autores. Foi parte da catarse e ajudou a fazer com que ela não fosse mais violenta. Também a ajuda da equipe de alunos de turismo da USS foi excelente. Destaque também para o atendimento do hotel que, em parte, se deve ao exemplo da equipe organizadora. 48 10. Propostas: ● Há espaço para um trabalho mais acadêmico com os professores e profissionais da cultura, ou seja, além de um outro Encontro, que devemos discutir. Esse trabalho podia envolver cursos de reciclagem em que a relação entre patrimônio, história e memória pudesse ser trabalhada; ● Vejo, também, com bons olhos, a intervenção junto aos secretários de cultura quanto ao trabalho de patrimônio, num esquema mais técnico que envolveria duas direções. Uma, que seria mostrar o caminho para a obtenção de recursos e outra, de cursos de patrimônio e restauro. ● Acho que seria preciso formar uma equipe pudesse fazer um levantamento dos arquivos privados que são fundamentais para o desenvolvimento da região e dos projetos de patrimônio cultural. HISTÓRIA LOCAL: PESQUISA, ENSINO E NARRATIVA Professor Luís Reznik (PUC-RIO/UERJ)13 A afirmação da historiografia da nação A historiografia brasileira está impregnada por narrativas que discursam sobre a nação, a pátria, a sociedade, o Estado brasileiro. Esta afirmação sublinha o lugar que o recorte temático “nacional” assumiu entre os historiadores brasileiros. Os grandes textos, os clássicos da historiografia, aqueles que tomaram lugar no panteão consagrado pelo pensamento político e social, lidos como referências obrigatórias nas nossas universidades, escritos pelos que se tornaram nossos mestres historiadores, remetem-nos, inequivocamente, à uma História do Brasil. Essas referências nos levam de volta ao século XIX, momento de constituição do Estado brasileiro. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o atual Arquivo Nacional, ambos criados em 1838, encabeçaram, à época, o conjunto de forças institucionais no campo de produção de uma historiografia nacional. Os dois, em um esforço sistemático de recolhimento e catalogação de fontes documentais e de elaboração de narrativas sobre o Império, produziram memórias fundadoras da nacionalidade. Foram edificados sob os auspícios de um governo monárquico que, orientado pelo princípio da centralização e pelo temor da fragmentação territorial — vista como um dos males da América hispânica —, tornouse um dos principais agentes interessados em apagar e soterrar memórias e referências de pertencimento marcadas por localismos e regionalismos (FIGUEIREDO, GONÇALVES e REZNIK, 2000). Nessa perspectiva surge a História Geral do Brasil, de Francisco Varnhagen, em 1854, e as suas “traduções escolares”, em especial aquelas escritas pelo romancista Joaquim Manuel de Macedo, em 1861 e 1863. (MATTOS, 2000) No século XX, os esforços em tornar “brasileiros” todos os que viviam em “terras do Brasil” mobilizou tanto intelectuais como dirigentes estatais. A pesquisa empreendida pelos modernistas dos anos 20 em diante, visava a fazer aflorar os traços da nacionalidade brasileira, escondida sob os ideais cosmopolitas predominantes nas elites intelectuais do início do século. Nas palavras de Gilberto Freyre, em 1926, precisavam sentir o “grande Brasil” que crescia, em oposição aos que teimavam ver as coisas “através do pince-nez de bacharéis afrancesados”.14 A nacionalização da escola, a partir da obrigatoriedade do ensino da língua portuguesa e a sedimentação de conhecimentos de História e Geografia do Brasil; as grandiosas comemorações de festas cívicas nacionais, como o Dia da Bandeira, Dia da Raça, Dia do Trabalho; e a criação de agências nacionais de fomento às artes nacionais foram algumas das políticas culturais do Estado Novo (1937-1945). Este foi o único período da República brasileira a impor constitucionalmente o unitarismo político, negando a autonomia políticaorçamentária-legislativa das localidades estaduais e municipais. Doutor em Ciência Política (IUPERJ) e Mestre em História (UFF). Professor do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 14 Citado por Hermano Viana. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: Ed. UFRJ, 1995, p. 27. Gilberto Freyre é o autor de uma das obras mais célebres para se “entender o Brasil”: Casa Grande e Senzala, de 1933. 13 49 A democratização após a II Guerra Mundial levou à tematização nos meios políticos e intelectuais do caráter “subdesenvolvido” da economia e da sociedade brasileira. Os anos 50 ensejaram projetos nacional-desenvolvimentistas, que articulavam os meios para romper com o que se considerava o atraso econômico e cultural da nação. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado em 1955 e sediado no Rio de Janeiro, reuniu parcela da intelectualidade que, imbuída de convicções acerca da urgência das transformações, pari passu ao Plano de Metas JK (“Cinqüenta anos em cinco” – 1956-60), divulgava através de cursos, palestras e textos impressos, a “significação do nacionalismo”15. Durante os governos autoritário-militares (1964-1985), os dirigentes impulsionaram políticas de integração nacional de largo espectro, desde a construção de estradas “integradoras” de várias regiões, até a criação de um aparato tecnológico que desse conta da nacionalização dos meios de comunicação, isto é, da difusão de valores e bens simbólicos. A Rede Globo de Televisão, que veio a se tornar, da década de 70 aos dias atuais, a principal rede de televisão do país, em caráter quase monopolista, cresceu na esteira dessas transformações, construindo, a partir do Rio de Janeiro, uma imagem de um Brasil moderno, urbano e nacional. Sintonizada com as transformações mundiais do ofício do historiador – desde a constituição de novos objetos e métodos, passando pela ampliação dos domínios e territórios da historiografia até a discussão dos estatutos e das fronteiras da disciplina –, a historiografia brasileira contemporânea, posterior à implantação da Pós-graduação nos anos 70, reiterou o foco na Nação e/ou no Estado nacional. Algumas vezes, entretanto, ao anunciar a tematização do nacional, algumas obras focalizavam especificamente algumas regiões, tomando a parte pelo todo, isto é, supostamente a região que foi objeto de estudo deveria ser paradigmática das experiências ocorridas em todo o Brasil. Lembro, como exemplo, estudos sobre industrialização, movimento sindical e movimentos abolicionistas, onde historiadores narram processos ocorridos ora na cidade de São Paulo, ora na do Rio de Janeiro, considerando-os exemplares, focalizando-as não como uma determinada experiência, mas como a História do Brasil. O gosto pela História, História local e identidade 1. Os processos de identificação: As narrativas historiográficas que vimos até aqui configurando têm como suposto uma forte lealdade e sentimento de pertencimento da sociedade e dos indivíduos aí inseridos à entidade nacional. A idéia básica é que todos somos, em primeiro lugar, brasileiros. Como afirma Gellner, “um homem deve ter uma nacionalidade, assim como deve ter um nariz e duas orelhas” (GELLNER, 1983, p. 6). A nação foi, durante os últimos duzentos anos, um elemento central em nossos sistemas de representação cultural. A idéia de ser brasileiro esteve arraigada (e ainda está) nas nossas percepções do mundo, acima de outros sistemas de representação cultural como, por exemplo, a religião, a cor ou o gênero. Nesses termos, a nação forja uma estrutura na qual os indivíduos sentem-se identificados, “costurados”. As identidades nacionais estabilizam “tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis”. (HALL, 1998, p. 12) Como já argumentaram, uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. Esses sentidos são construídos, em grande parte, pelas imagens e símbolos que são socializados, através de inúmeros mecanismos de produção e difusão, estatais ou não, através das mais variadas memórias e histórias; enfim, discursos, sobre o ser brasileiro, sua história, seus gostos, seus comportamentos. Nesse sentido, a identidade nacional é 50 15 Alusão ao título do texto de Hermes Lima “O significado do nacionalismo”, publicado na revista Cadernos de Nosso Tempo, em 1955. Ver Simon Schwartzman(org.). O pensamento nacionalista e os ‘Cadernos do Nosso Tempo’. Brasília: Ed. UnB, 1981; Caio Navarro Toledo. ISEB: Fábrica de ideologias. São Paulo: Ed. Ática, 1977; Vanilda Paiva. Paulo Freire e o nacional desenvolvimentismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. uma “comunidade imaginada”, simbólica.16 Nos tempos em que vivemos, os processos de criação de pertencimento ultrapassam as margens do sujeito moderno, “previamente vivido como tendo uma identidade [nacional] unificada e estável”. Os nossos processos de identificação tendem a ser mais provisórios, variáveis e problemáticos, sejam eles relacionados a gêneros, etnias, cor, religião, vínculos profissionais. As identidades são múltiplas e de definição instável: “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.”17 Transformamo-nos em sujeitos pós-modernos. Nesses termos entendemos que o exercício da história local vincula-se a processos de identificação, relacionados a um determinado sistema cultural, que enfatiza as relações de vizinhança, contigüidade territorial, proximidade espacial.18 Essa ética de pertencimento é mais um elemento constitutivo desse sujeito fragmentado, múltiplo e instável. A história local não deve ser projetada como um valor superior para a admiração e valorização da pequena pátria – no estilo “eu me ufano da minha terra” –, mas como a “costura” de um retalho dos processos de identificação do sujeito. 2. O exercício da escrita de histórias locais: As narrativas históricas devem aguçar a curiosidade acerca da passagem do tempo, ao instigar a percepção da diversidade de situações, valores e comportamentos vivenciados pelos homens. O que se espera do estudo da história? Que cada um reflita sobre o lugar em que se encontra no mundo, formulando idéias sobre si e sobre os que estão ao seu redor. O exercício da memória – pensar e repensar o passado – deve possibilitar a reflexão sobre quem somos e queremos ser – nossas identidades. A abordagem sob o recorte da história local é um campo privilegiado de investigação para os diversos níveis em que se traçam e constituem as relações de poder entre indivíduos, grupos e instituições. Campo privilegiado para a análise dos imbricados processos de sedimentação das identidades sociais, em particular dos sentimentos de pertencimento e dos vínculos afetivos que agregam homens, mulheres e crianças na partilha de valores comuns, no gosto de se sentir ligado a um grupo. O encantamento pelo passado e pela passagem do tempo pode se dar de formas diversas, e a história local é uma delas. Ao se enfatizar temas e objetos, espaços, indivíduos e costumes que podem ser reconhecíveis entre alunos que pertencem a um determinado sistema cultural, baseado em relações de vizinhança, contigüidade territorial e proximidade espacial, espera-se despertar, criar e ampliar o gosto pelo estudo da História. Proposta metodológica: os materiais de memória Propomos, a seguir, uma metodologia para a pesquisa e o ensino da história local que explore os vestígios do passado, os materiais de memória como chaves de criação para múltiplas histórias da localidade. 1) Cartografia: a leitura de mapas. Visa à compreensão da produção cartográfica como uma expressão do esforço humano em conhecer, ocupar, controlar e transformar o espaço geográfico. Os mapas são trabalhados como uma representação do espaço que é permeada por valores culturais e sociais de seus autores e não como uma reprodução real do espaço. 2) Fotografia: pretende-se estimular a imaginação e a reflexão através do encontro entre a fotografia e a História, por meio de um passeio pelos tempos e lugares da cidade. Épocas Ver, entre outros, Benedict Anderson. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ed. Ática, 1989; Eric Hobsbawn. Nações e nacionalismos desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; e Stuart Hall. Op.cit. 17 Idem, pp. 12 e 13. 18 Ver o rico mapeamento sobre as atuais discussões nas ciências sociais acerca do status da localidade como construtora de sentidos para a existência, no livro de Alain Boudin A questão local. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, especialmente capítulo 1: “o objeto local”, pp. 25 a 57. 16 51 distintas são aqui retratadas. Registram tempos idos que se modificaram pela ação de homens e mulheres. As fotografias ilustram o que a sociedade local quis perenizar de si mesma, edificando imagens que nos abrem veredas de um passado atualizado pelas percepções do tempo presente. 3) Construções arquitetônicas: podem ser compreendidas como janelas para modos de vida. Igrejas, prédios públicos – Prefeitura e Câmara Municipal – sede de fazendas, dentre outras construções, são registros de cultura material. Logo, o estudo destas construções ao longo do tempo, levando em consideração seus diversos usos e funções, permite melhor compreender como grupos sociais vivem seu dia-a-dia. 4) Crônicas: a crônica como gênero da escrita pode referir-se a qualquer história escrita por pessoas que testemunharam um fato e que recuperam os acontecimentos em sua ordem no tempo. A linguagem da crônica é sensível, direta e pessoal, podendo ser literária e enfatizar o que descreve com adjetivos ou expressões equivalentes. É possível conhecer sinais do passado local através de documentos como crônicas. 5) História oral: depoimentos e entrevistas. A História Oral é uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes para o estudo dos tempos contemporâneos. A realização de entrevistas e depoimentos possibilita aos pesquisadores e estudantes conhecerem aspectos da história da localidade. A atividade também propicia dois importantes aprendizados: a) diferenciar fato de opinião, a partir da experiência de leitura, entrevista e discussão; b) reconhecer que é possível haver diferentes compreensões sobre o mesmo fenômeno ou processo histórico. 6) Registros de vida: registros paroquiais e censitários. Registros paroquiais permitem-nos refletir sobre os critérios de identificação e hierarquização dos grupos sociais, as relações parentais e de compadrio, o estado sanitário e a ordenação do espaço local nos séculos XVIII e XIX. Já os registros censitários nos permitem compreender a dinâmica das cidades no processo histórico, a partir da comparação dos dados estatísticos. 7) Papéis do Estado: documentação produzida pelos poderes públicos. Buscam-se, nas Mensagens e Relatórios dos prefeitos, vestígios dos projetos relativos às diversas políticas públicas. Os documentos sublinham a competência dos prefeitos para projetar novos arranjos e melhoramentos nas áreas de saúde, educação, iluminação pública, vias públicas, entre outros. 8) Registros da vida associativa: associações são agrupamentos de indivíduos que se unem para finalidades específicas e se mantêm juntos graças às diferentes práticas e rotinas que realizam. Ao longo de suas trajetórias de vida, indivíduos constituem identidades religiosas, corporativas, políticas, entre outras afinidades e interesses comuns, e organizam-se criando associações ou se incorporando às já existentes. As associações podem ter caráter efêmero ou permanente, podem ser locais ou ultrapassar os limites territoriais do bairro, do município, do estado ou do país. A criação, a manutenção e a realização das ações que caracterizam as organizações geram inúmeros documentos, tais como atas de reunião, boletins, fotografias, jornais, material publicitário, entre outros. Através desses vestígios é possível reconstituir os espaços de sociabilidade local. 52 9) Registros de propriedade: estão relacionados às diversas formas de geração de riqueza elaboradas pelos homens. Variam de acordo com a organização social da produção e do trabalho. Os registros assumem formas diferenciadas: inventários, testamentos, cartas de doação de sesmarias, registros de juntas comerciais, publicidade comercial, fotografias de estabelecimentos comerciais e industriais. Através desses vestígios podemos compreender tanto os aspectos materiais que envolvem as atividades como também seus aspectos simbólicos, políticos e sociais. Concluindo A proposta aqui desenvolvida visa a: A) Apresentar metodologias de sistematização e análise dos mais variados materiais de memória, aqui entendidos como vestígios documentais do passado. Espera-se que, a partir da realização do método proposto, professores, pesquisadores e estudantes dos vários níveis de ensino possam criar suas próprias narrativas históricas. B) Refletir sobre a constituição e reelaboração, por meio do conhecimento histórico, das identidades e pertencimentos locais. Com isso, pretende-se reavaliar e deslocar estigmas sociais acerca do município, das suas localidades e de suas gentes. C) Valorizar o patrimônio material e imaterial do município. D) Propiciar a integração da escola com a comunidade circundante, através da mobilização dos alunos junto às famílias, às instituições e aos cidadãos em geral para a realização das atividades. E) Contribuir para o conhecimento da História do Município. Pequena bibliografia: BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. BORNE, Dominique. “Comunidade de memória e rigor crítico”. In: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique. Passados recompostos: campos e canteiros da História. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1998, p. 133 a 141. BOURDIN, Alain. A questão local. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Lisboa: Quarteto, 2001. CHARTIER, Roger. “A História hoje: dúvidas, desafios, propostas”. In: Estudos Históricos, vol. 7, nº 13. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1994 FIGUEIREDO, Haydée; GONÇALVES, Márcia de Almeida; REZNIK, Luís. “Entre moscas e monstros: construindo escalas, refletindo sobre história local”. In: Anais do IV Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História/ Departamento de Ciências Sociais. IJUÍ: Ed.Unijuí, 2000. GADDIS, John Lewis. Paisagens da História. Como os historiadores mapeiam o passado. Rio de Janeiro: Campus, 2003. GELLNER, Ernest. Nations and nationalism. Oxford: Blackwell, 1983, p. 6 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1990. LEVI, Giovanni. “Sobre a micro-história”. In: Peter Burke (Org). A escrita da história. Novas perspectivas. São Paulo, Editora da UNESP, 1992. MATTOS, Selma Rinaldi de. O Brasil em lições: a história como disciplina escolar em Joaquim Manuel de Macedo. Rio de Janeiro: Access, 2000. NORA, P. “Entre memória e história: a problemática dos lugares”. Projeto História. 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Rio de Janeiro, 95:119-126, out.-dez., 1988. 53 Alunos de Turismo da USS, voluntários do projeto Restaurante – Dia 17 de junho Fernando Portella (ICCV) – Abertura do Encontro Ana Seraphim, Ana Lucia Mattozo Furtado, Antonio Orlando Izolani, Andréa Jordão Amaral, José Luiz Alqueres, Marcus Monteiro, Mozart Vitor Serra, Luiz Resnik, Fernando Portella – Mesa de Abertura 54 Antonio Edmilson Martins Rodrigues, Mozart Vitor Serra, Luiz Resnik Sérgio Linhares – Representante do INEPAC Oficina de História – Salão Bouganville Participantes do I Encontro de História do Vale do Paraíba Mario Margutti (ICCV) e Prof° Magno Borges (USS) Auditório – Dia 18 de junho Antonio Edmilson Rodrigues, Ana Lucia Mattozo Furtado, Fernando Portella, Mozart Vitor Serra, Mario Margutti – Mesa de Encerramento. Oficina de História – Salão Bouganville Luis Augusto Mury, Sérgio Linhares, Antonio Edmilson Martins Rodrigues, Mario Margutti, Magno Borges Sônia Mattos, Sérgio Mello, João Carlos Néri, Mozart Vitor Serra 55 Considerações Sobre o “I Encontro de História do Vale do Paraíba” Professor Antonio Brant Ribeiro Filho Tendo em vista que este foi o primeiro encontro, de uma série que se seguirá, podemos dizer que, no âmbito geral, os resultados foram significativos. O grande número de pessoas interessadas no estudo da história do Vale do Paraíba que compareceu ao evento, assim como a motivação da maioria delas, foram fatores que contribuíram para o sucesso daquele acontecimento. O elevado interesse demonstrado pelos presentes também foi marcante, diferenciando esse encontro de outros acontecimentos similares. O significativo número de historiadores e escritores que fizeram questão de narrar as suas experiências, os seus trabalhos e as suas publicações foi uma demonstração gratificante do aludido interesse. As presenças do presidente da Light, José Luiz Alqueres, e do diretor do Instituto Light, Mozart Victor Serra, adicionaram respeitabilidade ao encontro.O sistema de apoio oferecido pelo Instituto Cultural Cidade Viva revelou-se perfeito, o que colaborou imensamente para o sucesso daquele acontecimento. O hotel, no que tange às acomodações pessoais, às instalações destinadas ao encontro e ao serviço por ele oferecido, nada deixou a desejar. Podemos, entretanto, fazer algumas observações quanto ao não cumprimento do programa pré-estabelecido. Senão vejamos: Com a devida antecedência, fui convidado para proferir duas palestras e para participar de duas mesas redondas, ambas na parte da tarde do dia 17 de junho. A primeira delas deveria, de acordo com a programação, ter início às 14 horas e o tema seria “A experiência dos Escritores Locais Contadas por Eles Próprios”. Rio de Janeiro, 12 de junho de 2008. Prezado Sr. Antonio Brant, É com grande prazer que confirmamos sua agenda no I Encontro de História do Vale do Paraíba, como palestrante e componente das seguintes mesas: - Dia 17 de junho às 14:00 horas – Salão Bouganville Tema: As Experiências dos Escritores Locais Contadas por Eles Próprios - Dia 17 de junho às 16:00 horas – Salão Bouganville Tema: Cultura Popular e Narrativa Histórica 56 Ocorre que, logo após a apresentação da proposta do encontro, deliberou-se pela antecipação das palestras, ainda na parte da manhã, contrariando o programa distribuído aos presentes. Naquela ocasião, como o intervalo até a hora do almoço era pequeno, nem todos os palestrantes puderam apresentar os seus trabalhos, os quais tiveram que ser resumidos devido à exigüidade do tempo. Só pude fazer um rápido comentário, de não mais de 15 minutos, ainda assim, após a fala dos vários participantes que estavam no auditório e se inscreveram para tal. Já a segunda palestra, prevista para as 16 horas, sequer ocorreu. Outra observação fica para a falta de orientação aos participantes que usaram da palavra. Alguns se excederam no tempo, impedindo, dessa forma, que outros também pudessem ser ouvidos. Vários deixaram o assunto “história” de lado para, por exemplo, discorrer sobre o seu currículo. Para o próximo encontro, temos algumas sugestões a fazer: A primeira é de que sejam feitas algumas recomendações aos participantes do auditório que desejarem se pronunciar. A segunda, que sejam disponibilizados horários específicos para aquele tipo de manifestação, como, por exemplo, durante as mesas redondas. Sendo o único participante do I Encontro de História do Vale do Paraíba de Minas Gerais, pude observar como foram proveitosos os contatos que fiz com os historiadores ali presentes. Portanto, achamos que, para o próximo encontro, deveriam ser convidadas pessoas de outras regiões, fora mesmo do estado do Rio de Janeiro, para participarem do evento, propiciando, assim, uma interessante e rendosa integração entre historiadores. A questão da divulgação desse primeiro encontro, assim como dos demais, deveria ser olhada com carinho. Considero que uma boa divulgação, feita de forma intensa e objetiva, divulgaria a história do vale, atrairia mais pessoas para o encontro seguinte e os patrocinadores se projetariam mais. Considerando todas as observações anteriores, podemos concluir que o I Encontro de História do Vale do Paraíba obteve sucesso e, com toda a certeza, vai refletir positivamente entre os participantes, assim como nas comunidades abrangidas por ele, principalmente se outros forem realizados, dando continuidade a esse interessante projeto. Também é motivo de elogios a iniciativa do Instituto Light para o Desenvolvimento Urbano e Social, patrocinador do Encontro. Ressaltei na minha fala a importância dos arquivos familiares e demais arquivos que não estão abertos ao público para a pesquisa da história. Realcei, naquela oportunidade, que, a cada dia, agiganta-se a perda destes documentos pela forma incorreta de armazená-los e pela pouca importância dada a essa documentação pelos seus proprietários. Pelo que observei em contatos com os historiadores da região, assim como em pronunciamentos durante os trabalhos do Encontro, o Vale do Paraíba possui diversos desses arquivos. Assim, fica a sugestão para que seja desenvolvido um projeto que catalogue, digitalize e disponibilize todo o acervo da região, via internet, aos pesquisadores. Outra idéia é a criação de um museu interativo que guarde e reverencie o Ciclo do Café. Em todo o mundo, há algum tempo e, no Brasil, mais recentemente, os Centros e Museus interativos vêm se tornando interessantes espaços, para o grande público, que unem entretenimento e lazer cultural à divulgação dos assuntos e motivos de que tratam. Os museus interativos apresentam características que favorecem uma grande variedade e intensidade de interações sociais, estimulando a curiosidade e facilitando a aprendizagem. Dessa forma, o museu sugerido disporia de máquinas e objetos, antigos e réplicas, utilizados nos tempos dos Barões do Café, ao lado de novos modelos, que desempenham aquelas mesmas funções nos dias de hoje. Até a questão do empobrecimento do solo, como uma das razões que levaram ao fim da produção cafeeira da região, poderia ser abordada no museu. Esse item, certamente, despertaria o interesse de estudantes e interessados de outras áreas, que não a da história. Toda e qualquer visita a esse museu seria monitorada por profissionais especializados. 57 Mesa: Financiamento para Restauração do Patrimônio Conferencista: Sérgio Mello – Diretor de Operações da TurisRio A fala do Diretor de Operações da Turisrio, Sérgio Mello, apresentou o detalhamento do PRODETUR-RIO, convênio recém-firmado entre o Governo do Estado do Rio e o Ministério do Turismo, que virá prover recursos para uma séria de ações em todo o Estado, nas áreas de Estratégia de Produto, Infra-Estrutura, Comercialização e Capacitação, dentre outras. A apresentação foi extremamente clara e detalhada, revelando os investimentos previstos por região e cidades do Estado. Com relação ao Vale do Café, as propostas enunciadas atendem a uma grande demanda nas áreas mencionadas, e criaram grande expectativa na platéia. Conferencista: João Carlos Néri - Banco do Brasil, Agência Vassouras O palestrante iniciou sua apresentação dizendo que, especificamente para a recuperação do patrimônio histórico, não existem atualmente quaisquer linhas de crédito no Banco do Brasil. Para o TURISMO, existe o PROGER TURISMO, que utiliza recursos do FAT, os quais são repassados pelo BB, com carência de até 1 ano. O Projeto deverá contemplar a geração de emprego e renda para que os recursos sejam aprovados. A garantia do financiamento será a propriedade na qual os investimentos serão realizados. Para o caso específico do Patrimônio, o Sr. Néri sugeriu que se procure junto à Fundação Banco do Brasil, levando em conta inclusive os resultados do I Encontro de História do Vale do Paraíba, sensibilizar a instituição para que sejam criadas linhas especiais para a região do Vale. Foi mencionado também o FUNGETUR, fundo gerido pela Caixa Econômica Federal, com recursos do Ministério do Turismo, mas que é destinado apenas a empresas cadastradas no Ministério e nas Secretarias Estaduais de Turismo. O Rio de Janeiro possui pouquíssimas empresas cadastradas. O BNDES oferece o Cartão BNDES, em parceria com o Banco do Brasil, que também se aplica à renovação de empreendimentos turísticos, mas não necessariamente históricos. Também existe o FINAME, programa que contempla a aquisição de equipamentos e bens de consumo duráveis, necessários à indústria hoteleira. A conferência foi igualmente elucidativa, evidenciando, contudo, a inexistência, em todas as instâncias, de linhas de crédito específicas para a recuperação e o uso do patrimônio histórico para o Turismo. O Lugar da História Regional na Memória Historiográfica Brasileira 58 Rui Aniceto Nascimento Fernandes20 O VI Encontro Regional do Núcleo do Rio de Janeiro da ANPUH, realizado em 1994, contou com três conferências proferidas por Eulália Lobo, Francisco Falcon e Maria Yedda Linhares, que realizaram um balanço historiográfico sobre a história do Rio de Janeiro. Concentremonos nos dois primeiros textos por ora. Eulália Lobo realizou um grande inventário de instituições e acervos documentais, assim como de fontes impressas passíveis de ser utilizadas na construção da história do Rio de Janeiro, desde o período colonial até a época em que escrevia. Na segunda parte do texto da conferência há um inventário de autores e obras sobre temáticas diversas: história administrativa, urbana etc. Caminho semelhante foi tomado por Francisco Falcon, que abriu seu texto demonstrando a complexidade de se pensar o Rio de Janeiro por este ter um caráter de centro de importantes instituições de acervo e por concentrar destacados centros de pesquisa não apenas universitários – citando, como exemplos, a Fundação Casa de Rui 20 Doutorando em História Social da Cultura pela PUC-RJ. Barbosa e a Fundação Oswaldo Cruz – que elaboram trabalhos históricos sobre a temática. Em um segundo momento, Falcon fez recortes temáticos sobre a produção que passava a analisar. Não é apenas na estrutura textual que podem ser observadas semelhanças nas exposições de ambos historiadores. Há alguns pressupostos em comum, que são interessantes e merecem destaques. Em primeiro lugar, ambos têm com referência a produção universitária, excluindo desta análise uma ampla produção realizada fora dos círculos acadêmicos, entendidos como as instituições de acervo e pesquisa – como o CPDOC e a Casa de Rui Barbosa – relacionadas por Falcon. ... Essa tentativa de balanço resultou talvez universitária em demasia, se bem que em sua defesa se possa argumentar com o fato de que, desde a década de 70, pelo menos, a produção do conhecimento histórico vem sendo realizada, em mais de 90% dos casos , no âmbito das universidades, ou mais concretamente, na esfera dos programas de pósgraduação20. Nem se cogitou referência à produção fora desses círculos, pelo seu tom descritivo ou “memorialista”: A historiografia do Rio de Janeiro caracterizou-se, por longo tempo, pelos relatos empíricos descritivos, geralmente obedecendo à ordem cronológica ou pelas memórias de estrangeiros e nacionais. As memórias voltavam-se com freqüência para o exótico, o outro, o que fugia do modelo europeu, nessa metrópole situada nos trópicos. Porém constituemse em excelentes fontes de informação. O estabelecimento dos cursos de pós-graduação, o desenvolvimento do ensino da teoria e metodologia nas Universidades, os recursos do CNPq, FINEP, CAPES, a criação de centros de pesquisa como a Casa de Rui Barbosa e o CPDOC, modificaram esse panorama21. Em ambos encontramos uma referência à produção universitária do saber histórico – em especial aquela posterior à década de 1970, quando surgiram os primeiros cursos de pósgraduação – que desqualifica outros discursos sobre o passado, que não tenham ligações com aquele. No máximo, estes estudos são reconhecidos como fontes de informação. Por outro lado, não se define, nos textos, de qual Rio de Janeiro se está falando: a cidade ou o estado. Lembremos-nos que, por quase cento e cinqüenta anos (1834 a 1975), a cidade esteve separada político-administrativamente do estado, o que levou a uma série de fatores que são significativos nesta análise. O Ato Adicional de 1834 transformou a cidade do Rio de Janeiro em município neutro e capital do império. Sua condição de capital foi reafirmada com a instauração do regime republicano, que a manteve como Distrito Federal, capital do país. A transferência do centro político para Brasília, em 1960, levou à criação de um novo estado, a Guanabara, extinto apenas com a fusão dos dois estados – deste com o do Rio de Janeiro – em 1975. Essa trajetória confere especificidades à trajetória histórica destas regiões. A cidade tornou-se um importante centro urbano, industrial e operário do país, diferindose do Estado eminentemente rural, agrário e campesino que fôra, exatamente por isso, a província-chave do Império e o celeiro da Corte/Distrito Federal por um longo tempo. Definir de qual Rio de Janeiro se fala é importante, devido às especificidades das regiões. Para avaliarmos o quão díspar é a produção universitária – dissertações de mestrado e teses de doutorado – sobre a cidade e o estado, podemos lançar mão do catálogo organizado por Lícia Valladares e Maria Sant’Anna, que levantou a produção de várias áreas do conhecimento entre 1960 e 1990. Em um universo de 265 trabalhos, 73% dos títulos inventariados, a maioria esmagadora, aborda a cidade do Rio de Janeiro. A região metropolitana contava com 11% dos estudos e o restante do estado com 16%22. Consultando o catálogo de dissertações e teses do programa de pós-graduação em história mais antigo do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Falcon. O Rio de Janeiro como objeto historiográfico. In: Revista Brasileira de História. São Paulo. 1995. N.° 30. vol. 15. p. 65-66. Eulália Maria Lahmeyer Lobo. Historiografia do Rio de Janeiro. In: Revista Brasileira de História. São Paulo. 1995. N.° 30. vol. 15. p. 50. 22 Licia do Prado Valladares e Maria Josefina G. Sant’Anna (Orgs.). O Rio de Janeiro em teses. Catálogo bibliográfico 1960-1990. Rio de Janeiro: UERJ/CEP:Rio; IUPERJ/ URBANDATA, 1992. 20 21 59 o da Universidade Federal Fluminense, localizamos 700 dissertações e teses, defendidas entre julho de 1974 e agosto de 200523. Desse conjunto, cerca de 17%, (121) abordam temáticas referentes à cidade do Rio de Janeiro. Aquelas cuja temática envolvem o estado do Rio de Janeiro – agrupados aqui estudos sobre municípios e/ou regiões – totalizam 8,3% (65), aproximadamente a metade daquelas referentes à cidade. Se, por um lado a produção universitária não destacou o Estado do Rio de Janeiro em suas análises, por outro desqualificou os estudos historiográficos elaborados fora destes círculos, taxando-os como memorialistas, termo consagrado por José Honório Rodrigues ao se referir a uma série de estudos históricos do século XIX e do seguinte. Para este historiador, a história memorialista estaria próxima da história antiqüária por sua nostalgia do passado, por sua busca em retratar fielmente o passado. A história antiqüária, no entanto, realizava a coleção de fatos mortos, de que falou uma vez Karl Marx, que reunia as minúcias da história como um armarinho de miudezas, a memorialista era sua irmã gêmea, não só na nostalgia do passado, no estilo romântico, nesta atitude de simpatia pela idade morta, na facilidade sentimental com que desperta emoções ligadas às pessoas e coisas do passado, na idealização e... do passado, mas também um certo capítulacionismo contemplativo e passivo, que evita julgar e suavizar os receios presentes. Mas em compensação a ‘memorialista’ quer ainda possuir o passado e para isso nos ensina uma compreensão mais viva e humana do destino e das ações dos homens e não rejeita o povo24. A história memorialista buscava reconstruir o passado de um local ou uma região, unindo à pesquisa documental elementos biográficos ou autobiográficos. Aproximando-se da crônica é “em si um programa histórico, a idéia de que era necessário evocar o passado e trazê-lo vivo aos nossos olhos”, visando a atrair um público mais amplo25. Para conseguir uma “significação quase visual” prendia-se à minúcia dos fatos, do pitoresco, ao anedótico, relegando esse discurso ao lugar de fonte de informações e não de historiografia. É nessa mesma direção que segue o balanço historiográfico que Ismênia de Lima Martins elaborou sobre a produção referente à Niterói. Partindo do pressuposto de que tendo sido a província do Rio de Janeiro uma das mais dinâmicas do período imperial, a historiografia sobre sua capital deveria ser um dos objetos privilegiados. O pressuposto de que a historiografia brasileira privilegiou em seus quadros as cores vibrantes dos centros hegemônicos política e/ou economicamente, deve gerar uma expectativa positiva em relação à produção historiográfica sobre Niterói, capital da província mais dinamizada economicamente no Império. No entanto, a identificação do material existente frustra consideravelmente aquela expectativa26. E, a partir daí, a historiadora passou a expor os motivos para essa situação: a consolidação tardia de Niterói enquanto cidade e a atração de sua elite dirigente pelo jogo político na capital vizinha, Rio de Janeiro. Ismênia Martins relacionou 84 títulos, dos quais ela destaca os trabalhos de José Matoso Maia Forte, Antônio Figueira de Almeida e José Antônio Soares de Souza, como monografias de maior fôlego, que objetivaram “traçar um quadro geral da história da cidade ou município”, diferentemente da grande maioria dos estudos levantados, que “é constituída de artigos que não ultrapassam três páginas, cujo potencial explicativo é praticamente nenhum. Na maioria das vezes apresentam-se como simples registros, e os mais ousados apenas tangenciam um nível de questionamento”27. De um modo geral, esses textos: Consultado no site do programa de pós-graduação em história da UFF: www.historia.uff.br José Honório Rodrigues. A historiografia memorialista e o Rio de Janeiro. In: Vivaldo Coaracy. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965. p. XXXVIII. 25 Idem , p. XXXVII. 26 Ismênia de Lima Martins. Niterói histórico. A cidade e a historiografia. In: Ismênia de Lima Martins e Paulo Knauss (Orgs.). Cidade múltipla. Temas de história de Niterói. Niterói: Niterói Livros, 1997. p. 231. 27 Idem, p. 232. 23 24 60 Apresentam-se, porém, fortemente limitados pelo compromisso com a história factual tradicional, insuficiente grau explicativo, desprezo pelos questionamentos sócioeconômicos, e ainda pelo desinteresse com que encaram as articulações local/regional/nacional28. É uma historiografia marcada por um ufanismo localista, que chega às raias da excentricidade, segundo a historiadora. “Alguns dos seus produtos classificam-se forçosamente como excêntricos”, citando um pequeno artigo do padre José Nicodemos Santos, publicado no Jornal do Instituto Histórico de Niterói: “Morre uma palmeira histórica”29. Essa tida deficiência historiográfica poderia ser sanada pela produção universitária, já que, na cidade, localizava-se a Universidade Federal Fluminense. No entanto, isso não ocorrera, tendo em vista que seu levantamento no acervo de dissertações do programa localizou três títulos, em um universo de 267 produzidas até 1995. Apesar da pequena quantidade, destaca-se a diversidades de temas abordados – um deles realiza um estudo histórico-demográfico da cidade, outro aborda a questão das freguesias rurais no século XIX e o último faz uma análise dos movimentos associativos de bairros e sua relação com o Estado. Pelo que foi exposto até agora, se observa um certo consenso de perspectiva, no que tange à produção historiográfica local/regional fora dos círculos universitários. Em primeiro lugar, a historiografia produzida fora dos círculos universitários é estigmatizada como tradicionalista, factual, evolutiva, política, com forte cunho biográfico e autobiográfico, que tende para o pitoresco, o anedótico, o exótico. Rotulada como memorialista, engloba-se nesse grupo uma gama variada e díspar de estudiosos, desde aqueles que escrevem pequenas notas para a história de uma instituição ou personagem, até aqueles que se dedicaram a desenvolver extensos inventários da história de uma cidade ou região. As menções a essas produções costumeiramente são pejorativas. Homogeniza-se essa produção no tempo e no espaço. As obras e os autores são tidos como reacionários e conservadores, como aqueles que se dedicaram/dedicam à coleção do anedotário, do pitoresco e do folclórico. Homogeniza-se uma produção com profundas raízes na tradição historiográfica brasileira. É uma produção que circula por outros espaços que não os universitários: Academias de Letras, Cenáculos ou Institutos Históricos. Seus autores, autodidatas em grande maioria – médicos, advogados, engenheiros etc. – estão envoltos em uma rede de sociabilidades que os fazem reconhecidos por grupos dos poderes públicos e prestam-lhes assessoria. Reconhece-se nela, quando muito, um valor informativo. A história que tem seu valor reconhecido é aquela produzida nas universidades, em especial, posteriormente à implementação das pós-graduações na década de 197030. Essa produção anterior é tudo aquilo que a historiografia acadêmica atual não é, e, por isso, é, muitas vezes esquecida, silenciada, na construção da memória historiográfica brasileira. Historiografia brasileira: uma memória disciplinar construída. A história, assim como qualquer outro campo do conhecimento, conta com uma memória institucional que lhe configurou uma trajetória até sua constituição enquanto disciplina acadêmica/científica. Todo processo de construção de histórias é marcado por disputas institucionais, que levam ao esquecimento das propostas derrotadas e à sublimação do modelo vencedor como aquele legítimo herdeiro de tradições anteriores, como aquele que Idem, p. 233. José Nicodemos dos Santos. Morre uma palmeira histórica. In: Jornal do Instituto Histórico de Niterói. 1976, p. 59-61. apud Idem, p. 233. Essa perspectiva universitária da produção historiográfica não é privilégio apenas dos círculos universitários. O artigo de Miridan Brito Knox Falci sobre a produção historiográfica sobre o Rio de Janeiro do programa de pós-graduação em história da Universidade Federal do Rio de Janeiro demonstra como essa perspectiva também está presente, de certa forma, em uma academia literária, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Cf. Miridan Brito Knox Falci. A produção historiográfica sobre o Rio de Janeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. 1998. p. 107 e112. Por outro lado, não é uma perspectiva presente apenas no Rio de Janeiro. Ao ser organizado o X Encontro Regional de História do núcleo mineiro da ANPUH, cuja temática era “Minas, trezentos anos: Um balanço historiográfico”, Eliana Freitas Dutra realizou um balanço historiográfico onde diz que “achei por bem me ater à mesma e me propus fazer um balanço da produção historiográfica mineira nos últimos 12 anos, na sua relação com a universidade, particularmente com os cursos de pós-graduação... ”. Cf. Eliana R. Freitas Dutra. A historiografia mineira: Tendências e contrastes. In: LPH. Revista de história. UFOP. Nº. 6. 1996. p. 7-15. 28 29 30 61 é o elo do continnum que levou a disciplina a tornar-se científica no século XIX, quando foi criada a cátedra universitária. Nesse processo celebra-se a figura de Ranke como ícone da cientificidade histórica no século XIX, por ter estabelecido o método científico de análise histórica31. Por outro lado, as contribuições da tradição antiqüária para o processo de cientifização da história foram “esquecidas”, pois essa concepção de construção do conhecimento histórico foi apresentada como conservadora, dissociada de um valor prático, com um gosto peculiar pelo exótico e por ter um fetiche pelos vestígios materiais do passado em si32. Se tal processo ocorreu em relação à história da história enquanto campo do saber, na tradição ocidental, não podemos nos refutar à constatação de que, quando se analisa esse processo na produção brasileira, encontramos um quadro análogo. Em coletâneas especializadas e em cursos de historiografia nas universidades pode-se observar que o processo de escrita da história no Brasil constitui uma linearidade progressiva que, em último estágio, leva a produção acadêmica do período posterior à instalação dos cursos de pós-graduação no país. Essa história institucional destaca aqueles que construíram a história da nação sob o prisma da globalidade e da generalização e com a análise de seus métodos, onde se percebe um processo de cientificização do saber histórico33. Assim, essa historiografia científica ter-se-ia inaugurado com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na quarta década do século XIX. Naquele momento visavase à construção de uma história que consolidasse o Estado Imperial34. Para tal realizou-se um concurso que objetivava premiar o melhor modelo para a escrita da história do Brasil e que foi ganho pelo naturalista Von Martius. Nesse texto, Martius propunha uma história que valorizasse os supostos elementos integradores das três correntes étnicas constituintes do povo brasileiro35. No entanto, a narrativa que se tornou o paradigma do período foi a de Francisco Adolfo Varnhagen. Este é o mais celebrado historiador do século XIX, por ter sido o primeiro brasileiro a construir a primeira história geral do país e por seu esforço em demonstrar a continuidade européia na América através do Estado Imperial Brasileiro36. O passo seguinte fôra dado por Capistrano de Abreu, na virada do século XIX para o XX. Invertendo a ótica predominante no período anterior, o historiador cearense interpretou a história brasileira através do sertão, descobriu o Brasil pelo interior, no que, de certa maneira, é continuado nas décadas seguintes pelos modernistas. Os ares modernistas dos anos de 1920 promoveram profundas transformações no seio da reflexão intelectual sobre o país. Repensar a identidade nacional ou, nas palavras de Elias Tomé Saliba, reinventar o Brasil era o projeto ambicioso desses intelectuais37. Nas décadas de 1930 e 1940, o saber histórico inseria-se em um vasto campo de contornos pouco rígidos, denominado Estudos Brasileiros, herdeiro dos anseios modernistas, que procurava demarcar uma nova historiografia brasileira, “moderna naquilo que esse adjetivo ainda carregava das Sergio Buarque de Holanda. (Org.). L. Von Ranke. São Paulo: Ática, 1979. Peter Gay. O Estilo da História. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Hayden White. Meta-história. A imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Edusp, 1995. Algumas coletâneas de divulgação da história da história destacam esse processo de cientificização do saber histórico produzido no século XIX na Europa, em especial os casos da Alemanha e França. Cf. Thereza Aline Pereira de Queiroz e Zilda Márcia Grícoli Iokoi. A história do historiador. São Paulo: Humanitas Editora/FFLCH/USP, 2003. Philippe Tétart. Pequena história dos historiadores. São Paulo: EDUSP, 2000. Charles-Oliver Carbonell. Historiografia. Lisboa: Teorema, 1987. Guy Bourdé e Hervé Martin. As escolas históricas. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. Georges Lefebvre. O nascimento da moderna historiografia. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1981 32 Arnaldo Momigliano. As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: Edusc, 2004. Manoel Salgado Guimarães. A cultura histórica oitocentista: a constituição de uma memória disciplinar. In: Sandra Pesavento. (Org.). História cultural: experiências de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003. p. 9-24. _____. Para reescrever o passado como história: o IHGB e a Sociedade dos Antiquários do Norte. In: Alda Heizer; Antônio Augusto Passos Videira. (Org.). Ciência, Civilização e Império nos Trópicos. Rio de Janeiro: Acsses, 2001. _____. Reinventando a tradição: sobre antiqüariado e escrita da história. Revista Humanas (IFCH/UFRGS), Porto Alegre, v. 23, n. 1/2, p. 111-143, 2000. 33 Pedro Moacyr Campos. Esboço da historiografia brasileira nos séculos XIX e XX. In: Jean Glénisson. Iniciação aos estudos históricos. São Paulo: Difel, 1977. p. 250293. Carlos Guilherme Mota. Ideologia da Cultura Brasileira. São Paulo: Ática, 1977. (especialmente a Introdução p. 17-51). José Carlos Reis. As identidades do Brasil. De Varnhagem a FHC. 8ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2006. Francisco Iglesias. Historiadores do Brasil. Capítulos de historiografia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Belo Horizonte: UFMG/IPEA, 2000. 34 Manoel Salgado Guimarães. Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional. In: Estudos Históricos, v. 01, n. 01, p. 5-27, 1988. Lucia Maria Paschoal Guimarães. Debaixo da imediata proteção de Sua Majestade Imperial: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileira (1838-1889). In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileira, Rio de Janeiro. Ano 156, n°. 388. p. 459-613, jul/set. 1995. 35 Karl Von Martius. Como se deve escrever a história do Brasil? In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. n° 24. Janeiro de 1845. p. 381-403. 36 Arno Wehling. Estado, história, memória: Varnhagem e a Construção da Identidade Nacional. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Lúcia Guimarães, op. cit. 37 Elias Thomé Saliba. Reinvenção da história. In: Brasil-brasil: cousas notáveis e espantosas (olhares modernistas). Lisboa: Comissão Nacional para as comemorações dos descobrimentos portugueses, 2000, p. 43-49. 38 Marcia de Almeida Gonçalves. Em terreno movediço: biografia e história na obra de Octávio Tarquínio de Sousa. Tese. (Doutorado em História) – Universidade de São Pulo. São Paulo. 2003. p. 202. 31 62 implicações e ambigüidades do movimento modernista, entre intelectuais brasileiros”38. Desse grupo participavam, entre outros, Alice Canabrava, Caio Prado Júnior, José Honório Rodrigues, Gilberto Freyre, Otávio Tarquínio de Souza e Sérgio Buarque de Holanda, que se envolveram, entre outras atividades, na produção do Manual Bibliográfico de Estudos Brasileiros, dedicando-se aos balanços historiográficos da produção existente. Reinventando a história do país, esses autores “redescobriam” os clássicos da historiografia nacional, destacavam as coletâneas documentais publicadas e os acervos inexplorados, ressaltando assim o muito que ainda havia por ser feito. Foi assim também que Maria Yedda Linhares e Emília Viotti da Costa relembraram o campo historiográfico na década de 1950, período em que se formaram na Faculdade Nacional de Filosofia e na USP. Ambas ressaltam o ensaísmo da produção historiográfica e a pequena prática da pesquisa em acervos documentais nos anos de 1950 e 1960.39 A institucionalização universitária do saber histórico iniciou-se na década de 1930. No entanto, foi com os cursos de pós-graduação, nas décadas de 1970-1980, que a disciplina se consolidou com a fixação de práticas, métodos e teorias de pesquisa. Naquele momento os cursos de história, geografia e ciências sociais são constituídos por missões estrangeiras, especialmente francesas40. Ao mesmo tempo arregimentou-se docentes brasileiros e estes, segundo Cecília Westphalen, sobretudo os professores de história do Brasil, catedráticos de primeiro provimento, que permaneceriam muitos por mais de 20 anos, foram recrutados entre os membros dos Institutos Históricos e as Academias de Letras, não apenas totalmente despreparados, como portadores de uma orientação superada41. Despreparados e superados de acordo com as novas diretrizes que eram implementadas pelas pós-graduações. Nesse período, as análises da sociedade brasileira eram inspiradas no marxismo e nos Annales. Esses trabalhos, criados nos parâmetros universitários, hoje, são considerados as obras de referência, analisadas, discutidas, criticadas ou reverenciadas pelas gerações de historiadores que se seguiram a essa fase. É nesse período que se supera o autodidatismo e uma certa concepção de história que marcou a historiografia da primeira metade do século XX. Os estudos de historiadores locais perderam espaço, mas a temática da história regional passou a ter novos contornos. Foi nesse contexto que a história regional ganhou espaço e respeitabilidade no seio do saber historiográfico, com o Programa de Estudos Agrários na FGV, na UFRJ e na UFF, nas décadas de 1970 e 1980. Em sua conferência no VI Encontro do núcleo fluminense da ANPUH, Maria Yedda Linhares defendia os estudos regionais como aqueles que permitiriam investigações comparativas e que viabilizariam análises mais complexas da realidade brasileira. O fato é que a história regional, como a concebemos e a realizamos, remete a totalidades mais amplas e nos leva a rever e a valorizar, a revalorizar e a reavaliar o conjunto da historiografia brasileira, ao mesmo tempo em que somos inspirados a comparar diferentes realidades e experiências históricas42. A história regional, no entanto, era uma temática que já compunha o leque dos historiadores há muito tempo, como ressalta José Honório Rodrigues, identificando-a como “história local”. Era um dos meios para a compreensão da história nacional. A história de uma nação é incompleta se deixa de tratar dos interesses e atividades dos homens comuns — e a história local cuida como nenhuma outra dos acontecimentos diários do homem comum, promovendo, deste modo, um conhecimento mais seguro e amplo da vida nacional que o historiador tenta reconstruir 43. José Geraldo Moraes; José Maurício Rego. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 21-44 e 65-94 Antônio Paim. Por uma universidade no Rio de Janeiro. In: SCHWARTZMAN, Simon (Org.). Universidades e Instituições Científicas no Rio de Janeiro. Brasília: CNPq, 1982, p. 17-134. Maria Helena Rolim Capelato, Raquel Glezer, Vera Lucia Amaral Ferlini. A Escola Uspiana de História. In: Maria Helena Rolim Capelato (Coord.). Produção histórica no Brasil: 1985-1994. Catálogo de dissertações e teses dos programas de pós-graduação em história. Vol. 1. São Paulo: Xamã, 1995. p. 15-26. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Os anos brasileiros de Roger Bastide. In: Cadernos do CERU (10) 129-143, novembro, 1977. 41 Cecília Westphalen. In Anais do I Seminário de Estudos Brasileiros. Universidade de São Paulo, 1972, p. 38. apud. Carlos Guilherme Mota, op. cit., p. 24. 42 Maria Yedda Linhares. A pesquisa histórica no Rio de Janeiro. A história Agrária como programa de trabalho 1977-1994. um balanço. In: Revista Brasileira de História. São Paulo. 1995. N.° 30. vol. 15. p. 83. 43 José Honório Rodrigues. Teoria da história do Brasil. Introdução metodológica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969. p. 151. 39 40 63 A abordagem implementada nos anos de 1970 e 1980 era uma atualização de um campo já antigo e, doravante, criticado. A nova perspectiva acadêmica em relação a esse tipo de produção relega-a ao ostracismo e ratifica a memória institucional. Essa produção préuniversitária, e que até mesmo nela esteve nos seus primeiros momentos, foi extremamente importante no processo de estabelecimento da disciplina. Essas obras, enquanto discurso construtor da memória e identidade da nação, tiveram usos políticos diversos, como o caso da apropriação pelo Estado Novo de textos historiográficos nas suas publicações oficiais44. Ela colocava-se como uma corrente historiográfica importante na primeira metade do século XX. Uma linha de estudos, em certa medida, inovadora e, como toda obra inaugural, guardava as contradições e as ambigüidades de seus produtores. Por um lado trazia a investigação e a análise documental como uma grande contribuição para uma produção marcada pelos relatos de memórias e de viagens. Por outro preservava elementos desses gêneros ao unirem às fontes suas impressões e memórias. Em alguns casos, a descrição e análise associam-se para construir a memória da nação e das regiões. Foi essa historiografia que criou os temas, as cronologias e os ícones com que a produção atual ainda dialoga e que deixou fortes marcas na historiografia didática. Considero importante os estudos que visam, analisar os mecanismos de construção da memória disciplinar e lançar luz sobre os outros modelos de construção da narrativa histórica que foram “esquecidos”. Recentes autores vêm mostrando o quão diversificada foi a produção historiográfica brasileira nos séculos XIX e XX. A análise de autores consagrados em suas épocas, alguns esquecidos hoje, e mesmo novos olhares sobre os ícones disciplinares, mostram o quão profícuo é o campo de estudos da historiografia brasileira45. É nesse sentido que devemos compreender as obras historiográficas fluminenses elaboradas entre as décadas de 1920 e 1950, como os estudos de Amaral Barcelos sobre Barra do Piraí46, Antônio Figueira de Almeida sobre Barra Mansa47, José Mattoso Maia Forte e Ignácio Raposo sobre Vassouras48,Luiz Damasceno Ferreira e Leoni Iório sobre Valença49, A. de Ribeiro Sá sobre Três Rios50, Aurélio Stulzer sobre Patí do Alferes51, entre outros. Algumas correntes que influenciaram a produção da história regional entre finais do século XIX e a primeira metade do século XX. A história regional está presente na historiografia brasileira desde o século XIX, precedendo, inclusive, a criação do IHGB52. Essa produção possuía uma concepção de história e do fazer historiográfico diferente dos cânones atuais e, por isso, foi posta à margem da historiografia canônica. Para compreendê-la é necessário analisar esse discurso historiográfico em sua época. É importante investigar o ambiente intelectual de seus produtores para conhecer as questões que os motivaram a dedicar-se às regiões; entender as relações que estabeleceram entre uma escala de observação mais particular, a região, e outras mais gerais, mormente a nação; analisar como correntes historiográficas diversas se articulavam com outros saberes disciplinares para sua elaboração. Ângela de Castro Gomes. História e historiadores. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1996. Entre outros podemos citar: Taíse Tatiana Quadros da Silva. A Reescrita da tradição: A invenção historiográfica do documento na História Geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen (1854-1857). Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) UFRJ. 2006. Rebeca Gontijo. O velho vaqueano: Capistrano de Abreu, da historiografia ao historiador. Tese (Doutorado em História) UFF 2006. Itamar Freitas. Historiografia e Identidade na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Sergipe (1913-1929). Dissertação (Mestrado em História) UFRJ, 2000. Oswaldo Zorzato. Conciliação e identidade: considerações sobre a historiografia do Mato Grosso. Tese (Doutorado em História) USP, 1998. Antonio Celso Ferreira; Tânia Regina de Luca; Zilda Grícoli Iokoi (Orgs.). Encontros com a história. Percursos historiográficos de São Paulo. São Paulo: Editora UNESP, 1999. Teresa Malatian. Oliveira Lima e a construção da nacionalidade. São Paulo: EdUSC/FAPESP, 2001. Patrícia Santos Hansen. Feições & fisioniomia. A história do Brasil de João Ribeiro. Rio de Janeiro: Access, 2000. Selma Rinaldi de Mattos. O Brasil em Lições: A história como disciplina escolar em Joaquim Manoel de Macedo. Rio de Janeiro: Access, 2000. 46 BARCELOS, Amaral. Fragmentos históricos do município de Barra do Piraí. 1853-1890. Rio de Janeiro: Borsoi, 1940 47 ALMEIDA, Antônio Figueira de. Barra Mansa. Memória Comemorativa do primeiro centenário. 1932. In: ROCHA, Alan Carlos (Org.). Barra Mansa 1764-1995. 4ª ed. S/l: s/n, 1995. 48 FORTE, José Matoso Maia. Memória da fundação de Vassouras: do início do povoamento à creação da villa. Rio de Janeiro: O Globo, 1933. RAPOSO, Ignácio. História de Vassouras. Vassouras: Fundação 1º de Maio, 1935. 49 FERREIRA, Luiz Damasceno. História de Valença. Estado do Rio de Janeiro. 1803-1924. Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora Paulo, Pongetti & C., 1925. IÓRIO, Leoni. Valença de ontem e de hoje. 1789-1952. Juiz de Fora: Companhia Dias Cardoso S. A., 1953. 50 SÁ, A. de Ribeiro. A cidade de Entre Rios. Estado do Rio de Janeiro. Sua origem e fundação. S-l: s-ed, 1942. 51 STULZER, Aurélio. Notas para a história da Vila de Pati do Alferes. Rio de Janeiro: Lito-tipo guanabara Ltda., 1944. 52 Raimundo José da Cunha Matos. Corografia histórica da província de Minas Gerais. (1837). Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1979. 44 45 64 Mais do que um conceito, região tornou-se uma noção instrumental para o trabalho em diversas áreas do conhecimento, entre finais do século XIX e durante o século XX. Ao consultarmos um dicionário, constatamos a polissemia do termo que é usado em várias áreas: ecologia, biologia, geografia etc53. O termo, derivado da palavra latina regere, tem em seu radical – reg – incluída a idéia de relações de poder. Esse mesmo radical originou palavras como rei, regente, regência, regra etc. Durante o Império Romano, regione era a denominação que designava uma área que possuía uma administração local, mas estava subordinada às ordens centrais de Roma54. Em sua origem o conceito de região traz em si a conexão entre o particular e o geral, entre o específico e o universal, entre diversidade e unidade. Essa questão era latente nos debates sobre a constituição de nações, no período em que o conceito de região firma-se como conceito chave da geografia disciplinar, o século XIX. Importante para a geografia, também era importante para a historiografia que se forjava a criação do IHGB, criado em 1838. Seus idealizadores estruturaram-no seguindo o modelo do Instituto Histórico de Paris, que mantinha a tradição antiquária na França55. O antiquariado é uma prática historiográfica com raízes no período greco-romano, segundo Arnaldo Momigliano. Ele se diferenciaria da história por seus objetos de estudo. Enquanto aquele se interessava pelos mais variados aspectos sociais, a história identificava-se com a política: De modo negativo, estes estudos eram caracterizados por uma falta de interesse primordial pelo aspecto político, por uma indiferença pelas questões contemporâneas de importância geral e por uma falta de qualidade retórica. De modo positivo, estes estudos eram caracterizados por um interesse pelos detalhes minuciosos do passado, por um patriotismo local não disfarçado, pela curiosidade por eventos poucos comuns e por monstruosidades, e pela ostentação da erudição como um fim em si mesma.56 Sistemáticos em seus estudos, os antiquários dissertavam amiúde sobre uma temática, um evento, um objeto, um monumento... Uma outra característica peculiar desses estudiosos era seu fascínio pelos vestígios materiais do passado, em detrimentos da documentação escrita. A cultura histórica oitocentista desqualificou esse discurso, estereotipando-o: Amante das coisas do passado, erudito desprovido de um sentido mais contemporâneo por sua atividade colecionista, alheio às questões centrais de seu tempo e devotando ao passado um culto religioso, sacralizando os seus objetos pelo próprio fato de trazerem “em si” inscritas as marcas de um tempo passado e distante, como que um signo suficiente para o seu valor.57 A moderna concepção de história, pautada pelo iluminismo, imprimiu a noção de progresso à História. O estudo do passado deveria levar à compreensão do presente. Ele deixava de ser um dado em si para se tornar um objeto do conhecimento do processo de transformação que marca as sociedades. O passado reafirmou o seu papel modelar ao dar as explicações do tempo presente. As particularidades do desenvolvimento histórico de cada povo eram consideradas peculiaridades do mesmo processo, que levariam a humanidade a atingir o mesmo grau de progresso. O IHGB associava as modernas concepções de história àquela antiquária e ao pensamento geográfico que se buscava firmar-se como científico ainda na primeira metade do século XIX. No final do século XIX, Friedrich Ratzel introduziu novas diretrizes nos estudos geográficos. Admirador e estudioso da obra de Charles Darwin, definiu o objeto geográfico como o estudo da influência das condições naturais sobre a humanidade. Sua obra, Antropogeografia, Fundamentos da aplicação da geografia à história (1882) é considerada o marco inaugural da geografia humana58. Para Raztel, as influências do meio atuariam na fisiologia (somatismo) e na psicologia (caráter) dos indivíduos e, através destes, na sociedade. Em Verbete no Houaiss. Paulo César da Costa Gomes. O conceito de região e sua discussão. In: Iná Elias de Castro; Roberto Lobato Corrêa; Paulo César da Costa Gomes (Orgs.) Geografia: conceitos e temas. 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2006. p. 50-53. 55 Manoel Salgado Guimarães. Entre amadorismo e profissionalismo: as tensões da prática histórica no século XIX. In: Topoi. Revista de história. Rio de Janeiro. Programa de pós-graduação em História Social da UFRJ/ 7 Letras, set. 2002. n° 5, p. 184 -2000. 56 Arnaldo Momigliano. As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: Edusc, 2004. p. 94. 57 Manoel Salgado Guimarães. Reinventando a tradição: sobre antiqüariado e escrita da história. In: Humanas (IFCH/UFRGS), Porto Alegre, v. 23, n° 1/2. 2000. p. 114 58 Antonio Carlos Robert de Moraes (Org). Ratzel. São Paulo: Ática, 1990. 53 54 65 segundo lugar, os recursos naturais influenciariam a constituição social, pela riqueza que poderiam proporcionar. A natureza também atuaria na possibilidade de expansão de um povo, acelerando-a ou criando-lhe obstáculos, e na promoção de contato entre os povos, gerando o isolamento ou a mestiçagem. Essas influências seriam mediatizadas através das condições econômicas e sociais. Para ele, a sociedade é um organismo que matém relações duráveis com o solo, por nele se estabelecer e por ser ele aquele que fornece os meios necessários à sua sobrevivência. Quando a sociedade organiza-se para defendê-lo, surge o Estado. O progresso dos Estados era visualizado pela sua capacidade em manter e ampliar o seu território. Sua perda seria a manifestação de sua decadência. Raztel cria assim a noção de “espaço vital”, que seria a proporção entre a população de uma sociedade e os recursos existentes para sua manutenção. Caso essa relação fosse de desequilíbrio, era necessário ocupar novos territórios. Essa concepção de espaço vital justificará a política imperialista alemã de finais do século XIX e princípios do século XX. Por outro lado, seus seguidores desenvolverão a concepção do determinismo geográfico, defendendo que o meio determina as características físicas e sociais dos grupos humanos. Metodologicamente Ratzel defendia a observação e descrição das relações homem-natureza, porém propunha ir além, buscando a síntese das influências em escala planetária ou, em suas palavras, “ver o lugar como objeto em si e como elemento de uma cadeia”. Nesse mesmo momento, o eixo da discussão geográfica começa a deslocar-se da Alemanha para a França. Contrapondo-se à corrente alemã, Paul Vidal de La Blache tornouse o expoente de uma nova concepção da Geografia59. O geógrafo francês constituiu uma rede de influência sobre as publicações especializadas, as cátedras universitárias e institutos de pesquisa, hegemonizando o pensamento geográfico francês até a primeira metade do século XX. Uma de suas obras fundamentais, o Tableau de la géographie de la France, de 1903, institui a região como conceito chave para a ciência geográfica e inicia a exposição de suas proposta para a área60. No entanto é com Princípios de geografia humana, de 1921, que suas idéias assumem um cunho sistematizador. Em primeiro lugar, ele criticou a politização do discurso científico, presente na obra de Ratzel, defendendo a neutralidade da ciência frente às ações do Estado. Criticou também o naturalismo de Ratzel, onde o homem aparecia como um ser passivo às influências do meio. O geógrafo francês defendia o homem como um ser dotado de inteligência e liberdade que agia sobre o meio físico. Criticando as posições deterministas, La Blache passa a propor uma postura relativista. Definindo a relação homem-natureza como o objeto da geografia, o geógrafo francês defendeu que o meio influenciava o homem, mas este criava soluções para os limites por ele impostos. A natureza passava a ser vista como um campo de possibilidades para a ação humana, daí Lucien Febvre ter denominado essa corrente de possibilismo61. Ao ocupar a superfície terrestre, o homem encontrou paisagens diferentes, que lhe impuseram respostas diversas para sua organização. O conjunto de técnicas e costumes construído e passado socialmente em cada região foi denominado por La Blache como “gêneros de vida”. A diversidade dos meios explicaria a diversidade dos gêneros de vida. No entanto eles não eram estáticos, pois uma série de fatores levariam às suas transformações: o fim dos recursos naturais, os contatos entre gêneros diferentes etc. Paul Vidal de La Blache teve na geologia a influência para a definição da sua concepção de região geográfica. A região natural, como definida pelos geólogos, seria configurada pela combinação de aspectos físicos que particularizariam uma determina área. La Blache desenvolve essa noção inserindo o homem com um dos elementos fundamentais para a configuração das regiões62. O meio físico criaria as condições para o desenvolvimento da vida humana, mas não a condicionaria. O homem agiria sobre esse meio, transformando-o. As regiões teriam então uma existência real, não seriam conceitos abstratos frutos das Antonio Carlos Robert de Moraes, Geografia..., p. 75-84. Paulo César da Costa Gomes, op. cit., p. 54 62 Lucien Febvre. La tierra e la evolución humana. Barcelona: Cervantes, 1925. 63 Paul Vidal de La Blache. As características próprias da geografia. (1913). In: Antonio Christofoletti (Org.). Perspectivas da geografia. São Paulo: Difel. p. 37-49. 60 61 66 lucubrações de estudiosos. As especificidades regionais ocorreriam, pois o homem responderia de formas variadas às diferentes condições naturais. Nesse sentido, La Blache valoriza a história, pois o acumulo de experiências em uma região criariam condições para novas transformações do gênero de vida do grupo que nela viveria. Surgia assim a Geografia Regional. Tendo uma existência real, caberia ao geógrafo identificar, delimitar e descrever as regiões. Estabeleceu-se um modelo para esses estudos: as monografias regionais. Para explicar o particularismo de cada região, o geógrafo deveria reunir uma série de fatores: Nesse plano se deve começar pela descrição das características físicas, seguida pela descrição da estrutura da população e de suas atividades econômicas. O objetivo final é encontrar para cada região uma personalidade, uma forma de ser diferente e particular. De fato, neste caso, não se pode identificar a priori os traços distintivos responsáveis pela unidade regional, pode ser o clima, a morfologia, ou qualquer outro elemento, a partir do qual uma comunidade territorial cria uma forma diversa de se adaptar, um gênero de vida. A geografia regional francesa nos ensina, por exemplo, que na identificação da Borgonha, o fundamental é o quadro histórico; nos Pirineus mediterrânicos, o clima; na Picardia, o relevo; e assim por diante. O fundamental é que estamos diante de um produto único, sintético, formado pela inter-relação destes fatores, combinados de forma variada.63 As idéias de La Blache são difundidas na Europa e nos Estados Unidos sofrendo críticas e desdobramentos. Desenvolvendo idéias do alemão Hettner – que introduziu a vertente lablachiana em seu país – o geógrafo norte-americano Hartshorne defendeu, em 1939, o conceito de área em substituição à região. Segundo Hartshorne, a interpretação corrente de região a consideraria como um elemento dado, cabendo ao geógrafo apenas a tarefa de identificá-la e descrevê-la. O geógrafo norte-americano, no entanto, considera que há um número variável de elementos físicos, sociais e culturais que configuram a região. Essa variedade de elementos não poderiam ser “naturais”, ou seja, a região não seria “natural”, um dado real. Por isso, opta por abandonar o conceito de região e escolhe o de área como um instrumental de análise. A área seria uma categoria construída pelo estudioso ao agrupar uma série de elementos para configurar-lhe64. A partir daí, os estudos regionais ganham novos direcionamentos; não sendo exigido o exame exaustivo de todas as variáveis locais. Essa concepção geográfica se institucionalizou, no Brasil, na década de 1930, com a formação dos cursos superiores de geografia na USP e na então Universidade do Distrito Federal, onde professores franceses foram convidados a organizar os cursos de história e geografia65. No campo geográfico, destaca-se o nome de Pierre Deffontaines, contratado pela USP em 1934. Nesta instituição ficou responsável pela cadeira de Geografia Humana e fundou a Associação de Geógrafos Brasileiros66. No ano seguinte estava no Rio de Janeiro na UDF, onde permaneceu até 1938, e foi um dos principais articuladores para a criação do Conselho Nacional de Geografia (1937), célula-mater do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, instituído em 193867. Deixou um estudo de “Geografia Humana do Brasil” (1940) esforço de síntese geral sobre o país e um outro trabalho sobre São Paulo, que foi o “primeiro esboço de divisão regional do estado, analisando os diferentes tipos de paisagens e núcleos regionais, bem caracterizados”68. Com a fundação do Conselho Nacional de Geografia define-se que o trabalho do geógrafo consiste em “descrever, localizar, explicar e interpretar os fatos e a realidade geográfica”... do país69. Seus estudos deveriam ser úteis às diretrizes governamentais, basear as políticas de colonização, saneamento, reflorestamento, combate à seca etc. Dever-se-ia, então, conhecer Paulo César da Costa Gomes. op. cit, p. 56. Idem, p. 57-59. Antonio Carlos Robert de Moraes, op. cit., p. 95-102. Antônio Paim. Por uma universidade no Rio de Janeiro. In: SCHWARTZMAN, Simon (Org.). Universidades e Instituições Científicas no Rio de Janeiro. Brasília: CNPq, 1982, p. 17-134. 66 José Veríssimo Pereira da Costa. A geografia no Brasil. in: Fernando de Azevedo. As ciências no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000. 67 Eli Penha Alves. A Criação do IBGE no contexto da centralização política do Estado Novo. Rio de Janeiro: IBGE, 1999. 68 José Veríssimo Pereira da Silva, op. cit., p. 397. 69 Idem., p.403. 70 Idem., p. 403. 63 64 65 67 as realidades específicas das regiões do Brasil. A geografia regional “as pesquisas e os estudos têm visado a valorização das regiões novas ou o reaproveitamento ou recuperação daquelas em decadência ou estagnação”70. A geografia lablachiana, da escola francesa, de orientação regional, teria tido grande importância na organização do IBGE. Eli Penha considera que a influência alemã, a Antropogeografia de Ratzel, também se fazia presente. Era dessa escola que provinha a concepção de que os estudos geográficos deveriam assumir um caráter utilitário, embasando as políticas governamentais de intervenção nas realidades regionais. Com a Segunda Guerra Mundial, os contatos com a produção européia são minimizados e o Instituto passa a dialogar com estudiosos norte-americanos. Nos EUA, Hartshorne, influenciado pela geografia regional européia, desenvolve as noções de área e integração, que imprimirão novos rumos às pesquisa regionais. A área passou a ser compreendida como uma parcela da superfície terrestre, diferenciada pelo estudioso que a delimita de acordo com elementos por ele privilegiados. Hartshorne distancia-se assim da noção de região como um dado real que os estudiosos deveriam descobrir. A área possuía múltiplos processos integrados, sendo fonte inesgotável de inter-relações. Essas novas perspectivas dariam novas dimensões aos estudos regionais, indo “ao encontro dos interesses de planejamento, pois abriu a perspectiva de trabalhar com um número bastante elevado de elementos, relacionando-os de acordo com os interesses do plano”71. Muitos historiadores fluminenses do período não participaram do IHGB e/ou do IBGE. no entanto, compartilhavam essas concepções através da produção historiográfica que circulava produzida pelos membros daquelas instituições. Muitos outros delas faziam parte e divulgavam seus princípios nas suas monografias e artigos escritos para periódicos. Assim podemos compreender a escolha do gênero monográfico priorizado nesses estudos, onde se busca dar conta de inúmeras variáveis da história local. A prioridade dos aspectos políticos também era propagada por essas concepções vigentes, pois se entendia que a história tinha uma missão de construção da nação, através das ações dos dirigentes políticos. Essa predominância da questão política levava os historiadores a priorizarem as fontes oficiais e a evolução político-administrativa – do Brasil (Colônia-Império-República) ou os locais (povoado-arraial-curato-freguesia-vilacidade) – como marcos cronológicos norteadores da construção das narrativas históricas. A primazia do político, no entanto, não excluía as questões econômicas, sociais e culturais, que são abordadas ao se tratar das atividades produtivas, das formas de trabalho, das associações locais etc. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Antônio Figueira de. Barra Mansa: memória comemorativa do primeiro centenário. 1932. In: ROCHA, Alan Carlos (Org.). Barra Mansa 1764-1995. 4ª ed. S/l: s/n, 1995. ALVES, Eli Penha. A Criação do IBGE no contexto da centralização política do Estado Novo. Rio de Janeiro: IBGE, 1999. BARCELOS, Amaral. Fragmentos históricos do município de Barra do Piraí. 1853-1890. Rio de Janeiro: Borsoi, 1940 BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As escolas históricas. 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Tese (Doutorado em História) USP, 1998. 70 As Diversas Fases da História do Ciclo do Café – Ontem e Hoje “ASPECTOS DA ECONOMIA MUNDIAL FACE AO APOGEU E CRISE DO CAFÉ NO VALE DO PARAÍBA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX” Por Luiz Augusto Mury * INTRODUÇÃO Ao fazer uma reflexão junto aos meus alunos do Curso de História da UBM sobre o tema proposto pela Mesa Redonda do I Encontro de História do Vale do Paraíba, constatamos o sentimento de uma certa perplexidade, em razão do destino inexorável de um número expressivo de fazendeiros que abriram falência após a derrocada do processo da produção cafeeira motivados pelas leis abolicionistas do século XIX. Concluimos que, em razão do desastre anunciado, existiriam opções de conduta para que os fazendeiros do Vale do Paraíba percorressem uma via alternativa para a aplicação de seu capital, como assim o fizeram detreminados personagens do Império. Portanto, relatamos as condições do cenário econômico-financeiro que cerca a Segunda Revolução Industrial como opção possível no enfrentamento da crise. Assim, para o desenvolvimento dos trabalhos na Mesa, resolvemos utilizar a apresentação de tópicos (sinopse e apontamentos abaixo resumidos) que pudessem servir para a reflexão e a evolução do tema proposto, ensejando a participação e a contribuição dos presentes através de intervenções e questionamentos. Posteriormente, relacionamos alguns exemplos de figuras deste cenário político, econômico, social e cultural que trilharam distintas vias de conduta à época. Oferecemos, portanto, alguma contribuição para que o leitor possa refletir sobre o período, a partir deste enfoque que abre novas perspectivas e visões sobre o tema. SINOPSE: APOGEU E CRISE DA ECONOMIA CAFEEIRA SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 1870 – EUROPA OCIDENTAL E EUA APÓS A GUERRA DA SECESSÃO • CONTROLE DE FLUXOS DE MATÉRIA-PRIMA, FONTES DE ENERGIA, MERCADO CONSUMIDOR AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES • • • • A SUBSTITUIÇÃO DO FERRO PELO AÇO COMO MATERIAL INDUSTRIAL BÁSICO A SUBSTITUIÇÃO DO VAPOR PELA ELETRICIDADE E PELOS PRODUTOS DO PETRÓLEO COMO PRINCIPAIS FONTES DE FORÇA MOTRIZ O DESENVOLVIMENTO DA MAQUINARIA AUTOMÁTICA MUDANÇAS RADICAIS NOS TRANSPORTES E COMUNICAÇÕES NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO CAPITALISTA CAPITAL INDUSTRIAL E CAPITAL FINANCEIRO - - Transportes, Comunicações, Energia, Comércio de Importação e Exportação, Demandas Urbanas ou de Mineração Novo Imperialismo – As Potências laçam-se sobre a África e a Ásia através da dominação física, política, econômica e cultural 71 OS E.U.A Após 1865 adotam a linha econômica do industrialismo e do expansionismo através do imperialismo JAPÃO Com a chegada da dinastia Meiji ao poder (1868), início do desenvolvimento econômico e expansionismo (Industrialização) NO BRASIL • • • Uma Atitude Ortodoxa: O caso do Comendador Joaquim José de Souza Breves (18041889) A aposta na permanência de um status quo em que os lucros e os empréstimos, que tinham como lastro a futura colheita, eram aplicados na compra de novas terras e escravos Apesar de visível e inexorável fim da escravidão, após a proibição do tráfico, da lei do Sexagenário e da lei do Ventre Livre, muitos não perceberam ou não acreditavam. AS EXCEÇÕES A ESTA POSTURA: LUÍS PEREIRA BARRETTO (1840 – 1923) - - - Estudioso e defensor do Positivismo, volta da França, onde pesquisou novos tipos do café, assim como se informou sobre o chá, o tabaco e a viticultura Em 1876, pressentindo que o café, no Vale do Paraíba, estava com seus dias contados, vai para o Oeste Paulista e se encanta com a Terra Roxa Com membros de sua família instala-se na região de Ribeirão Preto, onde inicia nova produção de café como as espécies Bourbon e Libéria EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE (1850 – 1930) • • • • Investidora financeira e benemérita brasileira Neta paterna do Barão de Itambé e materna do Barão de Campo Belo Jovem e solteira, foi herdeira, com uma irmã, de uma grande fortuna, multiplicada através de aplicações no mercado financeiro internacional, sob orientação de Escritórios de Investimento Excêntrica e solitária, morreu no Rio de Janeiro, legando a maior parte de sua fortuna, que incluía a casa de Paris e ações de empresas espalhadas praticamente por todo o mundo, para a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (1813 -1889) • • • 72 Incompreendido por uma sociedade rural e escravocrata, foi precursor da valorização da mão-de-obra, do investimento em tecnologia, das multinacionais brasileiras e da globalização. A partir de 1865, começa sua decadência com a falência e transferência de seus negócios para companhias de capital britânico. Ironicamente, para um modernizador liberal e abolicionista, termina sua vida com auxílio financeiro de familiares, dedicando-se à corretagem do café até seu falecimento em 1889. Apontamentos PARALELO AO MUNDO DO CAFÉ BREVES – Típico Estudando a vida privada do Comendador Breves, “O Rei do Café” , pode-se estabelecer um paralelo entre a Economia Cafeeira do Vale do Paraíba Fluminense, concernente à expansão, apogeu e decadência e principalmente à mentalidade dos fazendeiros que imaginavam, e apostavam, na permanência do status quo, em que os lucros e os empréstimos que tinham como lastro a futura colheita, eram aplicados na compra de novas terras, escravos e novas lavouras. Apesar da visível e inexorável fim da escravidão após a proibição do tráfico, da lei do Sexagenário e da Lei do Ventre Livre, muitos não perceberam ou não acreditavam. Talvez a mais hábil ação política tirada desta percepção foi a do próprio Império, que com a Abolição da escravidão, tenha procurado obter ganhos políticos como libertador e humanitário. Era uma questão de tempo. De pouco tempo. A casa estava podre, só faltava um empurrão. OUTRAS VOZES DR. LUIZ PEREIRA BARRETTO Dr. Luiz Pereira Barretto, positivista, desde 1864, quando retornou ao Brasil, desenvolveu novas culturas, como a exploração do plantio de chá, a experimentação da cultura do café tipo Bourbon, até então desconhecida no Brasil, a plantação de tabaco etc. Em 1876, Pereira Barretto, pressentindo que o café no Vale do Paraíba estava com os seus dias contados, devido à exaustão das terras, pois o café era tratado quase como riqueza extrativa, cobrava caro o desleixo empírico com que era cultivado principalmente pela falta de adubação e a falta de mão-de-obra. O que não era novidade, pois a decadência já era percebida por todos, inclusive sendo utilizada como tema de marchinha de carnaval popular em Resende, na década de 70 do mesmo século. Pereira Barreto vai para o oeste paulista produzindo café de melhor qualidade como o Bourbon e experiências com o ”Libéria”, enfrenta percalços como a geada e acaba por abandonar a lavoura cafeeira, tornando-se viticultor. Resende foi a região pioneira da grande cultura cafeeira em nosso país. Inicia pouco depois de 1770, se disseminando a partir de sementes cultivadas por padres Barbadinhos em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O Marquês do Lavradio, então Vice-Rei do Brasil, no empenho de disseminar a cultura do café, desta forma passou a distribuir grande quantidade de sementes pelos distritos de São Marcos (atual Piraí) e do Campo Alegre (atual Resende), apelando a um poderoso incentivo empregado, que era isentar do serviço das milícias a todo o lavrador que provasse ter plantado certa quantidade de pés de café. EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE (1850 - 1930) Foi uma investidora finaceira e benemérita brasileira. Neta paterna do Barão de Itambé e materna do Barão de Campo Belo. Jovem e solteira, foi herdeira, junto de uma irmã também solteira, de uma grande fortuna, e tão logo depois de perderem os pais, passaram a residir em Paris onde consta ter sido Eufrásia Teixeira Leite a primeira mulher a entrar no recinto da Bolsa de Valores. Excêntrica e solitária, quando morreu no Rio de Janeiro legou a maior parte de sua fortuna, que incluía a casa de Paris e ações de empresas espalhadas praticamente pelo mundo todo, para a Santa Casa de Misericórdia da cidade de Vassouras. 73 Sua antiga propriedade urbana, residência de seus pais em Vassouras, é hoje o Museu Chácara da Hera. IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA – BARÃO DE MAUÁ Embora tenha desenvolvido atividades ligadas à indústria antes de 1850, teve seus negócios impulsionados com a lei Euzébio de Queirós de 1850, com os investimentos voltados agora para a indústria. Aproveitando essa oportunidade, Mauá passou a se dividir entre as atividades de industrial e banqueiro, tendo acumulado fortuna aos quarenta anos de idade. A partir de 1865 começa a sua decadência, com falências e transferência de seus negóccios para companhias de capital britânico. Ironicamente, para um modernizador, liberal e abolicionista, termina sua vida com o auxílio financeiro de familiares, dedicando-se à corretagem de café até falecer em 1889. Em 1867, sua fortuna atingiu o valor de 115 mil contos de réis, enquanto o orçamento do Império do Brasil para aquele ano contava apenas com 97 mil contos de réis. Estima-se que a sua fortuna seria hoje equivalente a 60 bilhões de dólares. ENQUANTO ISTO, NO MUNDO... A partir de 1870, as potências capitalistas Reino Unido, França, Bélgica, Alemanha, EUA, Itália, Rússia e Japão, já ingressadas na via da industrialização com algumas já reconhecidas como potências capitalistas, passam a buscar o reconhecimento industrial internacional através do controle de fluxos de matéria-prima, fontes de energia, mercado consumidor e para aplicação do capital financeiro em transporte, comunicações, energia, comércio de importação e exportação, enfim, em demandas urbanas ou de mineração, não se interessando em atividades agrícolas. Estas potências, como é sabido, lançaram-se sobre a África e Ásia através da dominação física, política, econômica e cultural, enquanto na América Latina, já independente, a dominação foi econômica com a advinda dominação cultural. Os EUA Até a Guerra Civil Americana, os EUA adotaram uma política isolacionista, não procurando intrometer-se em conflitos internacionais. após o seu fim, 1865, adotam a linha econômica do industrialismo e do expansionismo econômico através do imperialismo, passando a competir com os europeus, principalmente os ingleses, no domínio econômico sobre a América Latina. Tornaram-se, então no século XX, a grande potência econômica e militar mundial. JAPÃO Com a chegada no poder, em 1868 da Dinastia Meiji, teve início um período de desenvolvimento econômico e de expansionismo, utilizando a via da industrialização. 74 CONCLUSÃO Ao buscar um enfoque que nos proporcionasse condições de análise de questões relativas a situações comuns em que acabaram se encontrando inúmeros fazendeiros do café ao final do século XIX, resolvemos abordar aspectos de caráter social, político e econômico observados fora do contexto brasileiro do Vale do Paraíba. A partir de 1860, aproximadamente, vamos encontrar uma Europa Ocidental e também, após o término da Guerra de Secessão, os Estados Unidos mergulhados no que denominamos “2ª Revolução Industrial”. Trata-se, incontestavelmente, de um momento único do desenvolvimento das relações do modo de produção capitalista, cenário, inclusive, da mudança para o capital financeiro. Em outras palavras, o desenvolvimento espetacular da ciência e da tecnologia irá permitir, pela primeira vez, a utilização em larga escala (e por preços reduzidos) do aço, no lugar do ferro, por exemplo, tornando a produção industrial fenômeno jamais alcançado pela humanidade. A busca de novos mercados consumidores para essa enorme produção e os lucros advindos de tal negociação irá permitir, pela primeira vez, o surgimento de sociedades de capital aberto, cujas ações passarão a ser adquiridas e vendidas numa velocidade cada vez maior. O que gostaríamos de enfatizar é a situação que surge, através dessa estupenda produção industrial e a conseqüente movimentação de um capital que não pára de crescer, possibilitando oportunidades múltiplas para investidores de todas as origens e procedências. Ora, enquanto esse clima se desenrola em praticamente todo o mundo capitalista nos anos 70 e 80 do século XIX, aqui no Brasil, na região do Médio Vale do Paraíba, estamos vivendo também uma espécie de boom econômico, só que de caráter agrícola, estabelecido em base pouco consistente da mão-de-obra escrava, que praticamente já havia sido banida por todos os núcleos de desenvolvimento da vanguarda mundial. Os senhores de escravos que tiveram suas finanças arrasadas em decorrência das leis abolicionistas possuíam opções de investimentos lucrativos com maior base de segurança disponíveis no mercado internacional. Determinados personagens que gravitavam nesse cenário do Vale do Paraíba não vacilaram e aplicaram suas fortunas no promissor mercado financeiro. Para saber mais O Vale do Paraíba, Eloy de Andrade, Real Gráfica, Rio de Janeiro, 1989. História do Café no Brasil, Afonso de E. Taunay. O Homem e a Serra, Alberto Ribeiro Lamego, IBGE, 1950. A Cidade e o Planalto, Gilberto Leite de Barros, São Paulo, 1967. As Barbas do Imperador, Lillian Schwarcz, São Paulo, 1996. Mauá: Empresário do Império, Jorge Caldeira, São Paulo, Cia. das Letras, 1997. - “O Café – no segundo centenário de sua introdução no Brasil”, Departamento Nacional do Café - Rio de Janeiro/1934 - “O Café em São Paulo”– Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio de SP/ 1927 - “Obras Filosóficas de Luiz Pereira Barretto” (Vol.I) org. por Roque Spencer Maciel de Barros Editorial Grijalbo - SP/1967 - “O Café em Resende no século XIX” de Maria Celina Whately (José Olympio Editora, Rio de Janeiro / 1987) Revista Piauí, junho de 2006. Os órfãos de Eufrásia, Marcos Sá Côrrea. Caravana Pereira Barretto: www.resenet.com.br/pereirabarreto_introducao.htm, acessado em 10/06/2008 Comendador Breves: O Rei do Café. Monografia de Graduação em História, André Luís Pinheiro, Centro Universitário de Barra Mansa – UBM, RJ. (*) Luiz Augusto Mury é Graduado em História e Advogado, sendo atualmente Secretário de Cultura de Barra Mansa – RJ e Coordenador do Curso de História do Centro Universitário de Barra Mansa – UBM. 75 As Diversas Faces da História do Ciclo do Café – Ontem e Hoje Angústias e inquietações: algo a partilhar Magno Fonseca Borges 76 A comunicação que realizo agora é fruto de minhas reflexões sobre alguns dos pontos que tangem a história regional, o patrimônio arquitetônico histórico, os acervos documentais e o senso de pertencimento. Após o primeiro dia deste evento, tive a possibilidade de realizar ponderações diversas. Algumas uns tanto felizes, outras repletas de angústias. Todo o material que havia preparado foi gentilmente descartado. Gentil e satisfatoriamente descartado. Fruto de uma intensa pesquisa junto às fontes documentais guardadas e disponíveis no Centro de Documentação Histórica (CDH) da Universidade Severino Sombra (USS), o que seria apresentado aqui era um emaranhando de gráficos e debates sobre uma trajetória de africanos e afro-descendentes no Vale do Café. Em resumo, tratava-se de uma revisão modificada e ampliada de alguns dos questionamentos que travei sobre a sociabilidade escrava em Vassouras quando da introdução e ampliação da cultura cafeeira. Mas deixe-se de lado o que não será hoje, e passemos ao que é. O que farei agora é compartilhar angústias. Ao longo de tantos anos de trabalho com a história local, só no Centro de Documentação da Universidade Severino Sombra já é quase uma dezena, tive a feliz oportunidade de participar de tantas iniciativas, que na mão não tenho dedos suficientes para contar. Algumas profícuas e duradouras. Outras tão voláteis quanto uma gota de éter. Em meio a tantas iniciativas, coletei parceiros. José Jorge Siqueira, Ana Leal, Dalva, Isabel Rocha, Sônia Mattos, Adriano Novais, Antônio Carlos, Raimundo e mais recente Francis, entre tantos outros nomes, os quais poderia aqui citar. Seriam longas horas, e certamente, não abrangeria todos. Para poupar-lhes os ouvidos, e tomando a liberdade de por meio desta, representar a todos, cito Lielza Lemos Machado. Quão graciosa e vivaz é esta jovem senhora que a todos encanta. Ontem mesmo, em poucas palavras, arrebatou corações ao lançar o desafio da continuidade dos estudos regionais às novas gerações. Dela recebi o codinome carinhoso: BROTO. Tal codinome foi providencial. Como professor, pesquisador e cidadão sou essencialmente um broto, nascido em meio a uma densa floresta de iniciativas diversas. Broto da confluência de tantas experiências de pesquisa e ações tanto no ramo do turismo e da história bem como da preservação e conservação de acervos documentais e patrimoniais. É nesta concepção de broto, que relembro uma parte do texto de Miridan Falci, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras – IHGV. Citando Lucien Febvre, apresentou a história regional como um instrumento onde o homem possa viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes. É neste instante que emerge o título desta comunicação, tão diferente de todas as outras que já tive oportunidade de fazer. INQUIETAÇÕES E ANGÚSTIAS: ALGO A PARTILHAR O tema é particularmente oportuno. Têm relações diretas com a proposta do evento, que conseguiu congregar tantos estudiosos e amantes da história regional. Em que outro momento seria tão oportuno tratar de inquietações e angústias acerca da história regional? Vale lembrar que os momentos seguintes tocaram o cerne de alguns dos pontos que aqui serão levantados: a transmissão da história regional nas escolas e o financiamento para a restauração do patrimônio. Embora se possa encontrar diversas situações que angustiam aqueles que se empenham na construção do saber regional como ferramenta social, pontuam-se três situações distintas. A primeira trata do Vale do Café como um projeto e sua conexão com a nostalgia imperial; o segundo se desloca para as academias que falam para si, somente para si; a terceira trata das questões pertinentes aos patrimônios históricos e acervos. 1 – DO VALE DO CAFÉ COMO UM PROJETO À CONSTRUÇÃO DA NOSTALGIA IMPERIAL. Rafael de Bivar Marquese, ao realizar uma análise da Bandeira do Império do Brasil de 1824, destacou a presença dos ramos de café. Seu exame é particularmente interessante, pois remete à idéia do Vale do Café como um projeto. Até aquela data, este fruto não figurava como o principal produto da pauta de exportação do Brasil. Naquele momento a cana-deaçúcar era o principal produto. E neste quesito em particular, embora seja possível identificar no vale do Rio Paraíba do centro-sul Fluminense algumas fazendas voltadas para a produção da cana, como as fazendas da Freguesia, Ubá e Pau Grande, entre outras, é certo afirmar que a região ocupava papel periférico frente a outras, como Campos dos Goitacazes (na província fluminense) e Campinas (na província paulista). De todo modo, sua análise está diretamente vinculada à idéia do café como um projeto de nação. Ainda sobre o café, vale destacar que os eventos revolucionários que tiveram ocorrência em Santo Domingos, em fins do século XVIII, praticamente retiraram o produto do comércio mundial, num momento peculiar, aquele em que o café deixava de ser um hábito restrito às camadas mais abastadas da sociedade européia para se popularizar, impulsionado pela revolução industrial que levou trabalhadores do campo às unidades urbanas de produção, com extenuantes jornadas de trabalho. Em análise simples, os efeitos estimulantes e revigorantes obtidos com a ingestão do líquido produzido a partir do grão do café torrado, moído e transpassado por água fervente, auxiliavam na ampliação do rendimento da mãode-obra. O preço do produto no mercado mundial foi drasticamente elevado, o que gerou uma corrida entre os demais produtores para suprir a demanda, impulsionados pelos bons preços. Este pequeno enredo sustenta a hipótese da re-ocupação socioeconômica e política do médio Vale do Paraíba Fluminense. Através do Caminho Novo e sua enormidade de variantes, o Vale se apresentava com terras ainda em matas (incultas como o entendimento da época), férteis, portanto. Além da qualidade da terra e dos baixos custos com a implantação de novas rotas de escoamento da produção, as experiências anteriores de plantio no entorno da cidade do Rio de Janeiro já havia apresentado resultados positivos de rendimento e produtividade (muito embora tenha deixado um rastro de destruição ambiental). Ao avaliar por este prisma, as antigas concepções dos cafeicultores da região como senhores rurais coloniais, similares aos donos de engenho, deita por terra. A empresa cafeeira, instalada no interior da Província Fluminense, tinha características próprias. Sua implantação promoveu uma nova modalidade de ocupação territorial, com desdobramentos sociais, políticos e econômicos. Se antes da instalação da família real portuguesa na cidade do Rio de Janeiro, o que a elevou à categoria de Corte, o médio Vale do Paraíba fluminense era parcamente ocupado com algumas poucas fazendas inseridas na produção da canade-açúcar e alguns vendeiros situados à beira do Caminho Novo e suas diversas variantes. após 1808 o lugar virou uma espécie de celeiro a suprir as necessidades alimentícias geradas no Rio de Janeiro. Foi ao longo do período Joanino que se começou edificar a formação das Freguesias e Vilas ao longo de médio Vale do Paraíba Fluminense. Mas foram com os adventos que marcaram o processo de independência do Brasil que se configuraram as bases necessárias à emergência do café como a cultura capaz de dar suporte aos projetos da nação. Em poucos anos, a cultura cafeeira fez tombar florestas, além de substituir a agricultura de subsistência e mesmo a cultura da cana. A concentração de terras e escravos na mão de poucas famílias foi rápida. Já em 1835 os grandes e megas senhores de escravos concentravam a maioria da população cativa arrolada em inventários post-mortem abertos em Vassouras. Mudanças concretas tiveram ocorrência na forma e no ritmo de trabalho no campo. As fileiras verticais que rasgavam os morros meia-laranjas, para retomar a fala de Alberto Lamego, com os cafezais tinham um sentido administrativo, já que permitiam ao administrador das unidades agrárias o acompanhamento dos diferentes tratos culturais a que estavam sujeitos os cafezais em suas diferentes fases etárias e ao longo das diferentes épocas do ano. As fazendas constituíam-se em grandes empresas produtoras do grão, para o abastecimento 77 78 do mercado externo. Sobre elas, pesavam não apenas as disputas locais, mas também as pressões do mercado, a oscilação de preços, as vias de escoamento da produção e a necessidade de construtos urbanos capazes de dar suporte à produção. Os senhores de terras e gentes, no médio Vale do Paraíba Fluminense, galgaram representações políticas importantes e suas influências articulavam os rumos do Brasil de então. Já o outro ramo presente na bandeira é o fumo. Seguindo a mesma linha de raciocínio, há que se destacar que o fumo era um dos principais produtos de negócios nos portos africanos. Tal argumentação leva a entender que se tratava de um projeto de nação calcado no desenvolvimento da cultura cafeeira e do tráfico de escravos. Toda a ampliação da cultura do café foi fruto de empreendimentos de pequenos, médios, grandes e macros senhores de escravos. Foi através da mão-de-obra cativa, bem como pela assimilação de parte de seus saberes tecnológicos, como o da marcenaria, da fundição e transformação do ferro em ferramentas de trabalho, e ainda na produção de mudas através do replantio de brotos, que a cultura do café emergiu e alçou o papel de principal, frente aos interesses da nação em formação. Mas os estudos sobre esta temporalidade são ainda parcos. A introdução da cultura cafeeira ainda requer a ampliação de investigações. Há que se avaliar tanto a hipótese deste sobredito projeto de ocupação do médio Vale do Paraíba fluminense, bem como reavaliar os processos sociais que ali tiveram ocorrência. Ainda está por se construir a idéia do senhor de terras como empreendedor e empresário, capaz de manter articulações sociais, associativistas, políticas e intelectuais na construção de seu ramo de negócio. Ainda há que se reavaliar o papel da mão-de-obra escrava, que fez ampliar a pressão demográfica, que implantou tecnologia própria para cultivar cafezais, e que deve ser vista como mão-de-obra, muitas vezes qualificada tanto pelas experiências obtidas na vivência social em África, ou ainda capacitada nas próprias unidades produtivas pelos mais experientes. Os estudos sobre a região, em sua grande maioria, têm como foco de análises o período que se espraia entre os anos de 1850, instante em que a cultura cafeeira já está implantada e o ano de 1888 que marcou o fim do escravismo (às vezes ampliados em títulos, mas não em análises contundentes para o ano de 1900). Os avanços historiográficos acerca do período são significativos. Mas a região se ressente de estudos sobre o momento posterior marcado pela historiografia que teve por foco o intenso desenvolvimento da cultura cafeeira em São Paulo. As marcas geradas por este tipo de visão do médio Vale do Paraíba Fluminense são fortes. Pode ser alinhada a obra de Monteiro Lobato de título Cidades Mortas. Em sua análise, a região passou por uma profunda depressão tanto econômica, quanto demográfica. Há que se avaliar isto, que se trata, a grosso modo, de uma avaliação comparativa, com os processos em ocorrência em São Paulo. Os estudos sobre a República praticamente retiraram o foco de análise da região, fazendo aflorar o binômio café e leite, numa alusão entre o domínio político de presidentes do eixo São Paulo e Minas Gerais. Tais reflexões não levaram em conta os processos sociais de ocorrência local, não analisaram as transformações que tiveram passagem, nem sequer realizaram um esboço, mínimo que fosse, sobre a tela socioeconômica e política em questão. Não se realizaram estudos sobre a transmissão e o uso da terra, sobre a industrialização, do início da República. Também não se realizou qualquer esforço sobre a trajetória dos descendentes dos africanos, para além das ainda insuficientes hipóteses de êxodo, em direção aos grandes centros, em particular a periferia da cidade do Rio de Janeiro. Os estudos também não avançaram para algo peculiar que teve ocorrência após a década de 1960 e chega aos dias atuais: Todo o médio Vale do Paraíba é coberto por uma ampla rede de instituições de ensino superior, que a diferencia de boa parte do restante do interior do Estado Fluminense. Todas estas possibilidades, ou melhor, necessidades de investigações, têm esbarrado numa espécie de Nostalgia Imperial. Produções historiográficas, repletas de ufanismo, que ganhou fôlego com a produção positiva das décadas de 1930, e de mesmas características, mas com novos contornos, com o advento com das iniciativas de projetos de turismos dos dias atuais. A região, caracterizada como o Vale do Café é tratada como A TERRA DOS BARÕES. Dois pontos são especialmente importantes: Como uma historiografia regional, produzida a estes moldes pode contribuir para que o homem possa viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes. 2 – DAS ACADEMIAS QUE FALAM PARA SI. SOMENTE PARA SI. Outra angústia vem do plano das academias. As universidades são por excelência os centros de produção do saber. Mas diversos fatores vêm afastando os cientistas sociais da sociedade. A necessidade e urgência pela titulação, o endeusamento e encastelamento dos pesquisadores, em seus abstratos projetos e grupos de pesquisas, além das dificuldades em escoar a produção, vem levando as universidades para pontos cada vez mais distantes da população. Na atualidade, as pesquisas devem ser produzidas em curtíssimo espaço de tempo. Para a obtenção do título de Mestre, a CAPES estima como tempo desejado o intervalo de dois anos. Passando de dois anos e meio os programas de pós-graduação são penalizados, e têm sua nota de avaliação reduzida. Já para o programa de doutoramento o prazo desejável é de quatro anos. O ultrapassar deste prazo provoca sanções da mesma natureza acima descrita. O encurtar dos prazos é seguido por uma idéia de graduação e pós-graduação continuadas. Deste modo, deseja-se estimular que alunos de graduação sejam imersos nas iniciações científicas e já terminem seus cursos com projetos bem delimitados para a pesquisa a ser desenvolvida no mestrado, e a regra é continuada para o doutorado. Obtido o tão sonhado título, parece que se busca privilegiar a produção de artigos e participações em projetos. Os indicativos de produção atribuem pontuações aos pesquisadores que produzam mais rapidamente artigos, resumos e participem de congressos, sem levar em conta que as pesquisas demandam tempo de realização. As agências de fomento tratam os projetos de pesquisa de modo a fazer com que seu desenvolvimento possa ser realizado em curto prazo. Os editais apresentam, em sua maioria, prazos de desenvolvimento de um ano! Notadamente trata-se de um prazo muito curto, para incorporar todas as rotinas necessárias ao bom desenvolvimento de um projeto. Principalmente quando este projeto está na área das ciências sociais. Este conjunto de fatores faz com que os pesquisadores estejam, cada vez mais, encastelados em seus projetos, presos aos grupos de pesquisas e travem um monólogo acadêmico. Como resultado, em justa medida, os saberes produzidos nas academias levam muito tempo para chegarem aos bancos escolares. Quando chegam! Contribuem neste sentido visões equivocadas dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio com relação ao professor de história. Diversas vezes, o profissional de história e tratado como a enciclopédia ambulante. Seu papel é saber datas, nomes. São usados para desenvolver projetos relâmpagos em dadas comemorativas. São obrigados a cumprir, em tempo exígüo, uns calhamaços obrigatórios, que não contemplam a história local. Tratados muitas vezes com demérito frente a disciplinas que se pretende tenham uma funcionalidade no preparo do discente para o mercado de trabalho. o ambiente escolar vem dando as costas ao desenvolvimento de projetos que visem o recuperar das memórias e a investigação e análise da história local. Em larga medida, profissionais da área de história, no ambiente escolar, vêm sofrendo com a falta de investimentos, de apoio, de incentivo e, além disso, convivendo com situações que podem remeter-lhes a dificuldades com a auto estima. Em outras palavras, se no ambiente universitário os pesquisadores estão cada vez mais distantes da sociedade, no ambiente escolar, a sociedade vem se afastando do profissional de história, tido, juntamente com outros da área de humanas (como os de filosofia e sociologia), como profissionais de segunda classe. Das grades escolares ao posicionamento 79 das equipes pedagógicas, as disciplinas de primeira classe são Português e Matemática. Como um profissional em história, tratado nestes moldes, pode contribuir na formação de cidadãos que possam viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes? 3 – DA LUTA POR RECURSOS PARA A PRESERVAÇÃO PATRIMONIAL O patrimônio arquitetônico, de valor histórico, do médio Vale do Paraíba Fluminense, é de valor inestimável. Isso, que parece um consenso, não é. As edificações, da forma como são tratadas, remetem, por um lado, a uma nostalgia imperial. Algo que, por ser única e exclusivamente entendida, de forma descontextualizada, são rotuladas como a casa do Barão tal, do Visconde tal etc. Seu enredo foi construído, e/ou apresentado de forma desarticulada da história local. Trata-se unicamente da história de parcela da sociedade de uma localidade. Neste sentido, o senso de pertencimento que se espera que o dito patrimônio gere diante de toda a sociedade, não se torna possível, já que não remete à história da maioria da população. Somam-se a isso os constantes discursos das disputas eleitorais. O embate entre instituições de proteção do patrimônio histórico e o poder público é de conhecimento notório, e de longa data já ganhou as páginas dos jornais. No que se refere a Vassouras, um dos discursos mais antigos tange à substituição do calçamento de pé-de-moleque e paralelepípedo, por asfalto. Os debates em torno do tema já fizeram parte de um conjunto considerável de palanques de disputas eleitorais e já se chegou até a vermos iniciativas neste sentido serem embargadas na justiça. No mesmo instante que o patrimônio histórico de Vassouras completa 50 anos de seu tombamento, pode-se afirmar que talvez o mesmo não tenha passado por momentos tão difíceis como o atual. São várias as edificações que estão em estado precário, inclusive prédios inteiros ou partes destes encontram-se interditados! O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional já foi tratado como o grande vilão que, ao não permitir a realização de determinadas construções no Centro Histórico tombado, ou em sua área de entorno, foi rotulado como antiprogressista. Em sentido igual o próprio conjunto arquitetônico, passou a ser entendido como entrave ao desenvolvimento. Há aproximados dez anos, a cidade viu seus governantes e a própria população dividida. Uma torre metálica foi ereta em desacordo com a legislação. Ao ter tal edificação embargada, a população assistiu a discursos inflamados. Em tais falas, o embargo era tratado como uma atitude retrógrada, que inviabilizava o desenvolvimento local. A torre tinha como função atender as demandas da chegada da telefonia celular à localidade. A argumentação era que sem aquela torre não seria possível à implantação de tão nova tecnologia. O culpado pela retirada da torre foi o Patrimônio Histórico. Aquele que não permitia o crescimento da cidade. Mas a torre foi retirada. Nem por isso deixou-se de realizar investimentos em telefonia celular na localidade. E mesmo assim, o patrimônio histórico é ainda hoje tratado como estorvo ao desenvolvimento local. Como o patrimônio, tratado deste modo pode contribuir para que o homem possa viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornarse órfão do passado e sem raízes? 4 – MAS NÃO SÃO APENAS INQUIETAÇÕES E ANGÚSTIAS: EXISTEM REALIZAÇÕES E ESPERANÇAS! 80 Diversas iniciativas têm apoiado a mudança deste quadro. As ações do Instituto PRESERVALE, do Instituto São Fernando, do IPHAN, do INEPAC são de valor inestimável! No que tange ao acervo documental, a criação do Arquivo Público Municipal de Vassouras (em parceria com o IPHAN), do Arquivo público de Piraí e do Centro de Documentação Histórica da FAA são recentes ações concretas que já vem estimulando a ampliação das pesquisas sobre a região. Neste conjunto de ações, a Universidade Severino Sombra vem ocupando papel de destaque em um conjunto de iniciativas que vem somar-se ao resgate e preservação da memória local. Através de projetos, financiados pela própria Instituição, são recorrentes as iniciativas de incremento de pesquisas que tratam da história regional. Os estudos vêm sendo alargados tanto pelo desenvolvimento de tais pesquisas, bem como pela criação e manutenção do Programa de Mestrado em História da USS. O Programa, reconhecido pela CAPES em 2002, é o único Mestrado em História situado no interior do estado do Rio de Janeiro. Localizado no Vale do Paraíba Fluminense, é responsável pela formação de grande parte dos quadros docentes de instituições de ensino superior, sobretudo das regiões do interior do Espírito Santo, da Zona da Mata Mineira e interior do estado do Rio de Janeiro. As dissertações produzidas, em grande número, versam sobre a história regional. Com vinte e um anos de existência, o Centro de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra (criado em 12 de março de 1987 através da PORTARIA 02/87), se consagrou como centro de referência, tanto no apoio ao desenvolvimento da pesquisa histórica, como na relação socialmente responsável. O Movimento de Responsabilidade Social, que ganhou força no Brasil a partir da década de 1990, já encontrou na Fundação Educacional Severino Sombra alguns projetos consistentes neste campo, e entre eles a criação e manutenção do CDH como setor capaz de preservar fontes documentais, anteriormente relegadas ao descaso, e com isso garantir a permanência da memória coletiva. Uma das premissas principais da responsabilidade social das Empresas refere-se à forma como esta se relaciona com a comunidade em que está inserida. A Universidade Severino Sombra, através do CDH, vem atuando fortemente neste quesito. Mantém convênio com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e com a Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Vassouras, para a preservação e acesso de parte do acervo permanente destas instituições, o que favorece a manutenção de fontes históricas fundamentais para a construção da cidadania e da identidade local. Além de receber pesquisadores de diversas instituições do Brasil e do exterior, o CDH vem abrindo suas portas à visita de estabelecimentos de ensino das redes pública e privada nos diversos níveis de ensino (fundamental, médio, superior e pós-graduação). Participou de projetos como o “Se essa rua fosse minha...” desenvolvido pelo Colégio Estadual Santa Rita, premiado em Brasília pela originalidade e relevância do trabalho; projetos de cunho social e construção da cidadania como o projeto “Fazendo Democracia Construindo Cidadania”, em co-coordenação com o Tribunal Eleitoral Regional e com o Colégio Santa Rita. É responsável por elaborar as exposições do espaço cultural do Fórum da Comarca de Vassouras, espaço que garante interação da comunidade com a cultura e promove o bemestar da coletividade na sua permanência nas dependências da Comarca. Realizou diversas palestras e promoveu o I Fórum de Igualdade Étnica, participando ativamente de debates fundamentais a construção de uma sociedade mais justa. Além da iniciativa de preservação e acesso aos acervos permanentes, a Universidade Severino Sombra vem se empenhando na conservação da antiga estação ferroviária e do Solar Barão de Massambará. Ainda neste sentido, vem empreendendo esforços para a restauração do Solar Barão de Itambé. Para ser socialmente responsável é necessário que as instituições, além de adotarem valores de ética e transparência administrativa, façam mais que suas obrigações legais. Ao criar e manter o CDH, a USS faz isto, ultrapassa os limites de suas obrigações e assume responsabilidade diante da comunidade de preservar e divulgar a memória coletiva. Apóia a melhoria da qualidade de ensino das escolas da região e ajuda a construir identidade local e cidadania. Todo este conjunto e ações amenizam as angústias e inquietações. Reacendem as esperanças de que é possível que o homem possa viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes. 81 Historiadores Inscritos I Encontro de História do Vale do Paraíba Aloysio Clemente M. I. de J. Breves Beiler Rio de Janeiro Advogado, pesquisador da história fluminense. Autor do site “História do Café no Brasil Imperial” – www.brevescafe.oi.com.br – que retrata a saga dos pioneiros da cultura do café no Vale do Paraíba, com referências à família Breves. Duas monografias sobre o mesmo tema. Atualmente cursa o Mestrado em Poder Judiciário pela Fundação Getúlio Vargas – FGV/RIO. Trabalho inscrito: O tempo dos Breves Os Souza Breves foram os maiores produtores de café no período de 1800 a 1900 (cem anos). Proprietários de mais de 10.000 escravos, dominaram do mar de Mangaratiba (a ilha de Marambaia) até os confins de Minas Gerais (Piumbi). A ilha de Marambaia foi adquirida pelo “rei do café”, o comendador Joaquim José de Souza Breves, para servir de entreposto do tráfico de escravos. Lá os negros vindos da África ficavam em quarentena, para depois subirem ao altiplano para distribuição nas inúmeras propriedades do comendador Breves. Participou Joaquim Breves do Grito da Independência junto com Pedro I e foi seu amigo até sua partida para Portugal. No governo de Pedro II foi opositor ferrenho. De sua fazenda de São Joaquim da Grama comandava o império do café e recebia com luxo e fineza os viajantes da época: embaixadores, condes e políticos. Mão-firme no trato com seus escravos, soube debelar revoltas, impondo sua rude formação aos que se contrapunham em seu caminho de acúmulo de riquezas. Dizem que talvez tenha sido o homem mais rico de seu tempo. Morreu em 1889, sendo sepultado na capela de sua fazenda em Rio Claro, RJ, desiludido com o duro golpe da Abolição. Outras obras: • Cidades Mortas: Declínio econômico das cidades do Médio Paraíba na província do Rio de Janeiro no ciclo do café. • O imperador do café. • Pontal da Marambaia – A intervenção no meio ambiente por remanescentes de escravos e a Marinha do Brasil. Dano ambiental, preservação, ou direitos adquiridos pelo quilombolas? • As ruínas fluminenses e sua preservação. • Mario Breves Peixoto – O limite do cinema nacional e os retratos da família. • O rei do café no Brasil Imperial. Ana Maria Bastos Seraphim Volta Redonda Professora de História, Diretora da Agência Viagem ao Saber, Diretora de Turismo do Instituto PRESERVALE e Diretora da revista eletrônica Vale do Café On Line. Projetos desenvolvidos: Turismo Cultural/Pedagógico 82 Trabalha com turismo pedagógico, principalmente em escolas da região, voltados para a organização de roteiros temáticos integrados ao conteúdo programático apresentado aos estudantes. Os temas podem focar a História do Brasil Colônia, do Império ou da República, ou tópicos de História da Arte ou Meio Ambiente, entre outros. Também recebe grupos oriundos de outras regiões brasileiras e do exterior para fazerem o circuito do Vale do Café. Publicação • Livreto “Histórias de café, casarões, sinhás, quitutes e outras delícias”, publicado em 2000 e que agora está sendo revisado. A primeira edição estava centrada no município de Valença. Na edição atual estão sendo incluídas as 14 cidades que integram a região do Vale do Café. Publicação eletrônica • Direção da Revista Eletrônica Vale do Café On Line, lançada no fim do mês de junho de 2008. A revista trata de História, Patrimônio, Turismo e Meio Ambiente da Região. Além de entrevistas, artigos, notícias etc., a revista também possui um módulo voltado para a publicação de temas de produção científica. Produção Científica • Artigo científico cujo tema é “A influência francesa no Vale do Paraíba Fluminense no Século XIX”. • Orientação de três monografias de conclusão do Curso de Turismo do UGB – Centro Universitário Geraldo Di Biase. Os formandos apresentaram projetos relacionados ao desenvolvimento do Turismo Histórico-Cultural na Região. Exposições • “Histórias de Café” – Pesquisa e Produção – 2000. • “Olhar de Debret” (Exposição Virtual) – Pesquisa e Produção – 2004. • “O Vale do Imperador” – Produção e Curadoria – 2004. • “Café: Um grão de história” – Curadoria (organizada a partir do livro de mesmo título, publicado pela Editora Dialeto) – 2007. • “História Viva” – Pesquisa e Produção – 2008. André Ricardo Silva Pinheiro Piraí Historiador. Trabalho Inscrito: Comendador Joaquim José de Souza Breves - O Rei do Café O trabalho consiste em levantamento de dados e de informações que possam dar base às respostas relacionadas ao grande sucesso que foi a vida do personagem histórico “Comendador Breves”. Trabalhamos desde sua ancestralidade, até o auge e o declínio deste homem, que, coincidentemente, corresponde ao mesmo corte temporal no qual o ciclo cafeeiro aconteceu na região do Vale do Paraíba. Ângelo Ferreira Monteiro Vassouras Historiador do Centro de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra (USS), Assessor de Comunicação da Presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras, responsável pela coluna do IHGV no Jornal Tribuna do Interior e Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras. Trabalho Inscrito: Redes de Sociabilidade em Vassouras no século XIX - O Caso Benatar O trabalho apresenta as redes sociais que foram construídas pelo marroquino Benjamim Benatar em sua vivência social. O livro, publicado em 2007 com o apoio da Prefeitura Municipal de Vassouras, resultou numa exposição que é fruto da continuidade do trabalho de pesquisa desenvolvido pelo autor, que já lhe rendeu o título de Mestre no Programa de Pós-Graduação em História da USS e uma cadeira na Academia de Letras de Vassouras (ALV). Evânea da Costa Santos Mendes Trabalho inscrito: Eu amo Mendes – Projeto de fotos que busca o resgate histórico, cultural e geográfico do município. 83 O trabalho se destina aos professores, para que eles possam trabalhar com os alunos a história do município, sua formação econômica, bem como seus aspectos físicos, sociais e culturais. O projeto tem os seguintes objetivos: • Conscientização da classe educadora, de sua importância, como agentes formadores de opiniões, no sentido de incutir nos alunos sentimentos de apreço, respeito e amor pelo município. • Através da EDUCAÇÃO, inserir no Planejamento Escolar conteúdos, informações e conhecimentos sobre o município de Mendes. • Através de atividades elaboradas pelos professores, resgatar aspectos históricos, geográficos e culturais do município de Mendes. • Através das atividades realizadas nas Escolas, contribuir para a formação do acervo cultural do município. • Com as atividades realizadas nas Escolas, colaborar e dar sustento ao desenvolvimento do TURISMO no município. • Integrar a Escola com a Comunidade. Isabela Torres de Castro Innocencio Paraíba do Sul Professora e historiadora da Região do Vale do Paraíba Trabalho inscrito: Liberdade e Acesso à Terra – Fazenda de Cantagalo O trabalho pretendeu dar uma contribuição ao entendimento do período pós-abolição e do papel do liberto na sociedade brasileira. Nesse sentido, o centro de nossa análise recaiu sobre uma colônia agrícola formada com libertos, instalada em Paraíba do Sul, no Vale do Paraíba Fluminense. A história das dificuldades e dos obstáculos que se apresentaram a esse grupo de libertos, ao receber os lotes de terras para constituir a colônia agrícola, é pouco conhecida e muitas vezes ignorada. O tema é importante para a compreensão do processo de transição do trabalho escravo para o livre, visto que, ao ex-escravo, não foram dadas as condições para o seu ajustamento na sociedade e ainda se forjou uma imagem preconceituosa de liberdade significando o “não-trabalho” para o escravo. Procuramos abordar o liberto como agente social, colocando-o numa situação não apensa de subjugado, nem de perdedor, mas como parte de uma comunidade que foi construindo sua história em meio a forças políticas que, pouco a pouco, lhe retiraram o direito ao usufruto da terra. Julio Fidelis Resende Pesquisador e professor dos cursos de Economia e Pedagogia das Faculdades Dom Bosco. Trabalho inscrito: O florete e o imperador O artigo tem como objeto de estudo o episódio da visita do Imperador D. Pedro II ao município de Resende, em 16 de outubro de 1874, ocasião em que concedeu uma série de distinções a membros da comunidade, bem como à Loja Maçônica local. Nosso estudo nasceu do interesse em reforçar pesquisas anteriores, que mostram os laços de poder e a interação da cidade de Resende, através de sua elite, com o poder imperial. A ponto do monarca vir prestigiar a sociedade resendense e agraciá-la, através de sua Loja Maçônica, com uma honraria do cerimonial da Corte, como forma de reforço das relações de poder vigentes na época. 84 Pesquisas realizadas: • Mulheres fazendeiras e lavradoras numa economia cafeeira do Vale do Médio Paraíba. • A escravidão em Resende no Século XIX. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “A escravidão em Resende no século XIX: uma breve introdução à análise econômica”. • A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova: Duzentos e Sessenta Anos. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova: 260 anos” e a exposição “Das Cinzas Renasce a Fé”, no Corredor Cultural Cecil Wall Barbosa de Carvalho – AEDB – Abril de 2007. • A Guarda Nacional – o 11º Corpo de Cavalaria de Resende e o 27º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “As unidades da Guarda Nacional sediada em Resende no século XIX: a oligarquia em armas.”. • Simão da Cunha Gago, o fundador de Resende (1744). Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “As origens de Resende e de seu fundador Simão da Cunha Gago”. • Jornal rural editado em Resende, no início do século XX (1900), por jovens moças, ao qual batizaram de “Sorriso”. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “Um sorriso que vem do passado”. • Estudo do episódio de 16 de Outubro de 1874, em Resende, envolvendo o S.M.I. D. Pedro II e a Loja Maçônica Lealdade e Brio. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “O espadim e o imperador”. Paulo Raulino Lamego Rio de Janeiro Historiador, pesquisador e membro do Conselho de Cultura e Patrimônio do Instituto PRESERVALE. Trabalho inscrito: O Brasil é o Vale Com o autor, caminha-se pelos lances mais relevantes da ascensão, do apogeu e da decadência da economia do café. Sente-se o despertar de uma casa-grande, com fiel cenário de que são protagonistas o barão, a baronesa, as crianças da casa, as mucamas do serviço, tudo ao som do baque surdo do assoalho de madeira sobre o porão e do carrilhão que marca ruidosamente as horas. À volta, emolduram-na os extensos cafezais, origem e sustentáculo da aristocracia rural fluminense, surgida no alvorecer do século XIX e desaparecida antes que se findasse. São enumeradas algumas das famílias mais prósperas do Vale do Paraíba, no auge da produção cafeeira: Werneck, Paes Leme, Rodrigues Alves, Homem de Mello, Teixeira Leite, Daguirre de Faro, Aguir Valim, Corrêa e Castro, Carneiro Leão, Oliveira Roxo. E algums “grandes fazendeiros” da região: Joaquim José de Souza Breves (Comendador Breves), Antônio Clemente Pinto (Barão de Nova Friburgo) e Joaquim José Moreira Lima (Conde de Moreira Lima). Raimundo César de O. Mattos Valença Coordenador do Centro de Documentação Histórica – CESVA/FAA. Professor Adjunto da FAFIVA/ CESVA. Trabalho inscrito: Manoel Antônio Esteves – O Cotidiano de um Comerciante/Cafeicultor do Vale do Paraíba Fluminense através da Epistolografia O trabalho procura mostrar o cotidiano de um comerciante de origem portuguesa radicado na Cidade de Valença, no Vale do Paraíba Fluminense, que, a partir de seu casamento com a filha de um rico cafeicultor, torna-se também proprietário de propriedades produtoras de café, em especial a Fazenda Santo Antônio do Paiol. Manoel Antônio Esteves manteve farta correspondência, tanto familiar quanto com seus comissários de café, que é fonte preciosa de informações sobre o período e o dia-a-dia de uma família, em uma época em que o público confundia-se com o privado. Outras Obras: • Valença e sua evolução histórica. Roberto Guião Volta Redonda Historiador e pesquisador da Região do Vale do Paraíba. Obras: • Volta Redonda, do Café e do Leite / 140 anos de História. • A Arquitetura do Ciclo do Café no Vale do Paraíba. 85 Depoimento: Todos os meus antepassados, tetravós, trisavós, alguns bisavós e até um avô, maternos e paternos, foram cafeicultores pioneiros (século XIX) na região de Valença (RJ), onde nasci, e no seu entorno. Este fato, aliado a outros, despertou meu interesse pela pesquisa histórica e genealógica do “Ciclo do Café Vale-Paraibano” e da sua migração para o “oeste” paulista, tendo, em ambos os casos, como horizonte de tempo o Século XIX e as primeiras décadas do seguinte. Assim, a par das atividades profissionais que desenvolvia na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, há cerca de 30 anos realizo pesquisas nos nichos geográfico e temporal mencionados, estando o produto do trabalho registrado em extenso, detalhado e, permitam-me, rico arquivo que mantenho na minha residência à disposição dos interessados. Participo de várias instituições culturais, dentre elas o Instituto PRESERVALE, o Colégio Brasileiro de Genealogia e a Academia Barramansense de História (Barra Mansa, RJ). Escrevi os livros “Volta Redonda do Café e do Leite: 140 Anos de História” (2004) e, como organizador e co-autor, “Fazenda Três Poços: do Café à Universidade” (2006). Entre uma pesquisa e outra, estou escrevendo mais dois livros, sendo que o primeiro contará a história de mais uma importante fazenda de café fluminense e o segundo, de forma abrangente, apresentará um panorama do Ciclo do Café no Vale do Paraíba no Brasil Imperial. Tenho também vários trabalhos publicados nas revistas das instituições de que participo e na do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ). Realizei palestras e comunicações em eventos históricos/culturais, dei entrevistas para jornais e TVs e participei de inúmeros encontros, cujos temas sempre foram vinculados aos objetos das minhas pesquisas Luana da Silva Oliveira Barra do Piraí Cineasta. Trabalho inscrito: Jongos, Calangos e Folias: Música negra, memória e poesia 86 Jongos, Calangos e Folias: Música Negra, Memória e Poesia é um documentário realizado pela Universidade Federal Fluminense, através do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF) e do Núcleo de Pesquisa em História Cultural (NUPEHC/UFF), com o apoio do Edital Petrobrás Cultural/2005, que também patrocinou a organização do Acervo Petrobrás de Memória e Música Negra do Departamento de História da UFF. Tem direção geral das historiadoras Hebe Mattos e Martha Abreu, edição de Isabel Castro e direção de fotografia de Guilherme Fernández. Participei desse projeto através de uma bolsa de iniciação científica e atuei diretamente na pesquisa realizada nas comunidades do Vale do Paraíba Sul-Fluminense. O filme é um documentário historiográfico constituído a partir do acervo UFF/Petrobrás de Memória e Música Negra. Destina-se também a finalidades didáticas, no âmbito das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, publicadas em 2004. A história dos jongos, calangos e folias, como patrimônios culturais, é apresentada de forma associada à história social dos grupos que lhe dão suporte. O filme coloca em destaque o papel da poesia negra em todas as três manifestações culturais e seu papel na legitimação política das comunidades remanescentes de quilombos no estado do Rio de Janeiro. A primeira parte do filme se refere ao litoral do estado, sul e norte, ponto de desembarque dos últimos africanos chegados como escravos no Brasil, e apresenta as comunidades quilombolas do Bracuí, em Angra dos Reis, e Rasa, em Búzios. A segunda parte sobe a Serra do Mar, chega ao Vale do Paraíba, o velho vale do café do Século XIX, para onde se dirigiu a maioria dos recémchegados. Ali são entrevistados representantes das comunidades de Barra do Piraí, Quilombo São José da Serra e Duas Barras. A terceira e última parte desce a serra e atinge a Baixada Fluminense, especialmente Nova Iguaçu, Mesquita, Duque de Caxias e São João de Meriti, para onde muitos dos descendentes dos últimos escravos se dirigiram, em diferentes momentos do século XX, na busca de melhores oportunidades de trabalho. Em todas as regiões apresentam-se as relações entre os jongos, calangos e folias de reis, como patrimônios familiares, com destaque para a poesia e os desafios presentes nestas manifestações. Sandra Candido Vassouras Historiadora. Trabalho inscrito: Arquivos Especiais de Vassouras Os arquivos especiais são uma importante ferramenta para o pesquisador, seja qual for sua área, pois é ele que irá levar o público a conhecer o passado. E Vassouras conta com um Arquivo Histórico, um Centro de Documentação Histórica e alguns arquivos particulares dignos de serem mencionados e pesquisados. Foi pensando nisso que escrevi a dissertação de mestrado “Arquivos Especiais de Vassouras”, onde pude constatar muito do que havia ouvido falar dessa cidade que tanto amo – e comprovar, efetivamente, alguns fatos interessantes de nossa história local. Mas pude também constatar algumas falhas nas formas de arquiva e trasladar documentos. O ideal seria que Vassouras tivesse um só arquivo. Carla Barbosa Ferreira de Souza Paraíba do Sul Historiadora e professora da rede pública municipal e estadual em Paraíba do Sul. Trabalho inscrito: Pequenas e Médias Propriedades do Vale do Paraíba Fluminense na Segunda Metade do Século XIX Monografia apresentada no curso de Pós-Graduação da UCAM, módulo Império. Coordenadora: Professora Hebe Maria Mattos de Castro. Trata-se da análise da uma média propriedade cafeicultora e escravocrata na segunda metade do Século XIX, localizada no município de Paraíba do Sul, Cavaru, chamada Jatahy. O enfoque principal do trabalho são as relações de trabalho após a abolição da escravidão. A pesquisa foi realizada nos documentos particulares da atual proprietária e nos arquivos municipais. O trabalho abre espaço para novas análises do período estudado. Jussara Pereira de Almeida Vassouras Professora, Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras. Trabalhos inscritos: • Paulo Branco: um Homem Arretado Este folheto de cordel é uma homenagem ao saudoso Paulo Branco, grandioso jornalista, brasileiro, original de Vassouras, fundador do jornal Tempos em Vassouras, e da revista Raio-X no Rio de Janeiro. O folheto narra a história e a trajetória deste grande homem vassourense, oferecendo ao leitor uma leitura dinâmica, prazerosa e informativa. • Proezas de um Homem Aprumado Este folheto de cordel traz a história de outro vassourense, empresário bem sucedido e querido de muitos. As sextilhas são fios responsáveis pela viagem do leitor, levando-o a passear pela vida e sucesso de um homem aprumado. • Ivo Viu a Uva e Quer conhecer a “Rucha” Este livro é um presente às crianças e a todos os educadores do país, sob a forma de literatura de cordel e ilustrações a partir do Tangram. Aos olhos do público infantil é um livro que conta a história do menino Ivo, que enfrenta dificuldades para aprender a ler e que, ao final da narrativa, consegue superar os obstáculos da leitura e convida o leitor para uma viagem muito interessante. Aos olhos dos educadores traz a questão que mais preocupa o país: alfabetização. A capa já sugere um labirinto, pois é assim que muitas vezes o professor se sente em sala de aula: como alfabetizar os alunos? Qual o melhor método? O livro não traz a receita, mas transporta o leitor ao tripé reflexão, ação, reflexão. Cada sextilha traz nas entrelinhas as idéias de Paulo Freire, Montessori, Magda Soares, Freneit e muitos outros. Basta o leitor se embaraçar e se encontrar no labirinto das palavras. Um livro interessante, que ressalta, sobretudo, a importância do letramento. 87 •“Requinte, Sabor e Bom Gosto – Reizi Biscoitos” Este folheto de cordel conta a história de Reizi, uma mulher surpreendente, artesã que, fazendo biscoitos, se transformou numa grandiosa empresária. Já morou em Vassouras, atualmente mora em Mendes e conquista muitos brasileiros com sua arte de fazer biscoitos. Ou seja: ela faz o paladar chegar ao coração. Uma história de sucesso, saborosa, incomparável para o leitor. Depois da leitura não dá para deixar de conhecer, provar, sonhar com os biscoitos de Reizi. Histórias e Causos Arthur Mario Belisario Vianna Rio de Janeiro Texto: Minha vida começa em Minas Gerais, onde nasci. Aos sete anos vim para o Rio, mas nunca perdi as raízes mineiras, das quais muito me orgulho. Na década de 40, tínhamos a Fazenda da Glória em Valença. Saíamos do Rio em trem da Central do Brasil às sete horas da manhã. Meu pai usava um guarda-pó, fazíamos baldeação em Desengano (hoje Juparanã) e, passando pelas estações de Quirino Esteves e Chacrinha, chegávamos à Marquês de Valença. Nosso capataz, Seu Soares, estava nos esperando na praça com os cavalos. Antes do trem parar eu e meus dois irmãos já estávamos disputando as melhores montarias. Chegávamos na fazenda pelas duas horas da tarde. Era uma aventura. Hoje, são 28 minutos de helicóptero... Em 1980 me tornei corretor de fazendas e, no correr dos anos, especializado nas sedes centenárias e históricas. Sou um dos fundadores do PRESERVALE – Instituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraiba. Fui o iniciador das visitas às fazendas históricas do Vale, possuindo uma coleção de 260 sedes coloniais fotografadas em Minas, Rio e São Paulo, com um acervo de 5.000 fotos. Esta é a minha história rural. Só falta acrescentar que fiz ótimas amizades nesta atividade e que sou apaixonado por uma boa cavalgada. Célio Tavares Ramos Mendes Texto: O retorno dos pracinhas do município de Mendes e de cidades vizinhas, em setembro de 1945, após o término da grande guerra. O descrevente, aos 15 anos de idade, testemunhou o fato da chegada inesquecível dos pracinhas que foram defender a democracia pelo Brasil em campos de batalha. A comunidade mendense, orgulhosa de seus filhos, se apresentou à Estação de Mendes – EFCB – na expectativa de, orgulhosamente, receber os filhos da terra que tão bem marcaram em campos de batalha. Na Estação completamente lotada, autoridades da mais elevada representatividade, associações religiosas e esportivas, e o povo eufórico e sorridente acolheram do trenzinho que chegava os seus heróis, abraçando e assentando-os em seus ombros, de maneira patriótica. Simplesmente inesquecível e de maneira unissônica, todos, realmente todos, imponentes, entoavam o Hino Nacional Brasileiro. Assim, os pracinhas foram conduzidos às suas residências com todo o povo envolvido em contagiante alegria. Uma noite inesquecível e mal dormida por motivos historicamente justos. Uma bela página da história de Mendes. Emocionante história de amor... Ednéa Müller Soares Piraí Texto: Nascida e criada em Piraí, cenário dos casarios dos grandes produtores e das lavouras cafeeiras, desenvolvi um sentimento de chão que me leva ao início do Século XIX, onde a rua da Direita e o Paço Municipal fazem com que o passado não passe, mas se faça presente, em cada esquina, em cada canto deste lugar, onde a memória não há de se apagar. Maria Dalva Ferreira e Silva Piraí 88 Texto: Piraí era chamada a cidade dos coronéis, no passado. E houve um fato marcante, que foi a morte de um ente querido: meu avô. O motivo? No dia das eleições, houve uma briga entre dois adversários políticos. O meu avô chegou no momento da confusão e foi atingido, sem ter nada a ver com o fato. Isso me trazia um espanto na infância. Hoje, graças a Deus, os tempos são outros. Nesta cidade há tranqüilidade e todos vivem muito bem. Reizi Rozemberg Simões Mendes Textos: Sou filha de Nilza Froment Rozemberg e Isaac Rozemberg, produtor cinematográfico que filmou o Brasil de 1942 a 1983. Em um total de 700 documentários, ele contou a era desenvolvimentista do país. Sou formada em Pedagogia (orientadora educacional), mas não atuei na área. Hoje estou trabalhando na recuperação dos filmes, roteiros, documentos, recortes de jornais e tudo mais que envolveu o trabalho do grande artista que foi meu pai. A partir deste trabalho de resgate de memória, já realizei duas palestras, dirigidas por Gilda Meireles, sobre a “Cinegrafia de I. Rozemberg”, sendo uma na Academia de Letras de Vassouras e a outra no SIMPRO (Sindicato dos Professores – RJ). Casei-me com Rogério Peixoto Simões e tive dois filhos, André e Alexandre. Em 1989 saímos do Rio de Janeiro, já assustados com a violência da cidade e fomos morar em Vassouras. Meu sogro, Ignácio Serrat Simões, adquiriu uma propriedade com características peculiares para um sítio no interior do Rio. Foi aí então que começou minha história com o “Castelo dos Riachos”, que é realmente um castelo, construído em 1870 pelo o engenheiro inglês Charles W. Armstrong, que veio para o Brasil construir a primeira fase do Túnel 12 (Estrada de Ferro D. Pedro II), em Engenheiro Paulo de Frontin. Com a morte de Sr. Ignácio, o castelo foi aberto para visitações. Foi assim então que me tornei guia turística da propriedade, o que me obrigou a pesquisar toda a história da casa, desde sua construção até seu último dono. Desta forma criei uma história que passei a contar para todos os visitantes, que perfazem um total de mais de 5.000 pessoas de várias regiões do Brasil. Depois de três anos como guia do Castelo dos Riachos, este foi fechado a visitações por causa de problemas familiares. Isso me trouxe muitos problemas financeiros, pois era praticamente minha única renda. Foi nesse momento que comecei uma nova atividade em minha vida e mudei para Mendes – RJ. Acredito que o acaso não existe. Foi pedido na escola de meu filho Alexandre um quitute para uma festa – e fazia parte da comemoração que a própria mãe fizesse a guloseima. Entrei em pânico! Não sabia fazer nada na cozinha. Uma amiga me deu uma receita de biscoito de fécula de batata. – Falei comigo mesma: Vai ser esta mesmo!!! Levei para o colégio e todos amaram e começaram a fazer encomendas e o dinheiro começou a entrar de novo. Com o sucesso do biscoito em Vassouras, tomei coragem e fui para o Rio vender e consegui. Da cocheira do cavalo que não se adaptou ao local, construí a minha fábrica. Hoje tenho uma pequena empresa, faço 13 sabores, vendo para diversos lugares no Rio e produzo 100 quilos por semana. Desta história que lhes contei, Jussara Pereira de Almeida fez um cordel “Requinte, Sabor e Bom Gosto: Reizi Biscoitos”. E com o dinheiro dos biscoitos estou recuperando o acervo de meu pai! Rita de Cássia Vieira Braga Paraíba do Sul Texto: A minha avó contava que a ponte da cidade de Paraíba do Sul foi a primeira a cobrar pedágio no Brasil. E que seu pai, Braz Ribeiro da Silva (naturalmente meu bisavô), foi o primeiro a cobrar pedágio sobre a citada ponte, tendo ficado conhecido pelo apelido de “Braz da Ponte”, no final do século XIX. 89 Pesquisas de Opinião Estatísticas Gerais TOTAL DE INSCRITOS TOTAL DE MUNICÍPIOS REPRESENTADOS TOTAL DE RESPONDENTES 1 2 3 4s 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Muncicípios Barra do Piraí Barra Mansa Engenheiro Paulo de Frontin Itatiaia Lorena Mende Miguel Pereira Paraíba do Sul Passa Três Paty do Alfere Piraí Quatis Resende Rio Claro Rio das Flores Rio de Janeiro São Gonçalo Três Rios Valença Vassouras 21 Volta Redonda 203 21 100 Inscritos 7 3 20 1 1 18 14 5 2 13 4 9 6 1 6 14 1 1 14 55 7 3% 3% 1% 10% 27% 0% 0% 9% 7% 7% 0% 7% 0% 90 3% 0% 4% 2% 6% 2% 1% 3% Barra do Piraí Barra Mansa Engenheiro Paulo de Frontin Itatiaia Lorena Mendes Miguel Pereira Paraíba do Sul Passa Três Paty do Alferes Piraí Quatis Resende Rio Claro Rio das Flores Rio de Janeiro São Gonçalo Três Rios Valença Vassouras Volta Redonda Tabulações TABULAÇÃOdas DASRespostas RESPOSTAS CONTEÚDO TRABALHADO NO PRIMEIRO DIA Excelente: 34 Muito Bom: 34 Bom: 26 Regular: 5 Ruim: 0 Sem resposta: 5% Excelente: 1% 0% 34% 26% Muito Bom: Bom: Regular: Ruim: 34% 1 Sem resposta: Total: 100 CONTEÚDO TRABALHADO NO SEGUNDO DIA Excelente: 38 Muito Bom: 45 Bom: 12 Regular: 1 Ruim: 1 Sem resposta: 3 12% Excelente: 1% 3% 1% 38% Muito Bom: Bom: Regular: Ruim: 45% Sem resposta: Total: 100 91 TABULAÇÃO DAS RESPOSTAS Tabulações das Respostas QUALIDADE DA ALIMENTAÇÃO Excelente: 88 1% 11% Muito Bom: Excelente: 11 Muito Bom: Bom: 0 Bom: Regular: 0 Regular: Ruim: 1 Ruim: 88% Total: 100 AVALIAÇÃO DO EVENTO Excelente: 22 Muito Bom: 58 Bom: 14 Regular: 6 Ruim: 0 Total: 100 92 14% 6% 22% Excelente: Muito Bom: Bom: Regular: 58% Ruim: Tabulações das Respostas TABULAÇÃO DAS RESPOSTAS IMPORTÂNCIA DE UMA SEGUNDA EDIÇÃO 0% Sim: Sim: 100 Não: 0 Não: 100% SUGESTÃO DE MUNICÍPIOS PARA A REALIZAÇÃO DE UMA SEGUNDA EDIÇÃO Valença: 32 Vassouras: 29 Piraí: 7 Paty do Alferes: 6 Miguel Pereira: 5 Paraíba do Sul: 4 Volta Redonda: 5 Barra do Piraí: 4 Rio das Flores: 4 Mendes: 3 Resende 3 Barra Mansa: 2 Paraty: Valença Vassouras Piraí Paty do Alferes Miguel Pereira Paraíba do Sul Volta Redonda Barra do Piraí 2 Rio das Flores Mendes Engenheiro Paulo de Frontin: 1 Resende Barra Mansa Itatiaia: 1 Paraty Engenheiro Paulo de Frontin Quatis: 1 Itatiaia Quatis Três Rios: 1 Três Rios 93 Considerações sobre a Pesquisa de Opinião A pesquisa de opinião realizada ao final do Encontro de História do Vale do Paraíba corrobora algumas observações que fizemos, tanto durante o processo de mobilização para as inscrições quanto durante a realização do evento em si. Dos 203 participantes inscritos, aproximadamente 10% podem efetivamente ser enquadrados na categoria de “historiadores amadores”. Isso se explica de várias maneiras, mas principalmente ao verificarmos que existem cursos de graduação e pós-graduação em História na região desde os anos 60, em três dos principais pólos urbanos: Valença, Vassouras e Barra Mansa. O processo de profissionalização dos aficionados pela História da região, portanto, já está bastante amadurecido, observe-se o número de publicações inscritas para aparecer no site – mais de 50 até dia do evento, e ainda continuam chegando solicitações. Verificamos que a demanda dos participantes não é, necessariamente, de publicação, mas de obter canais de divulgação e escoamento para as publicações existentes. Constatamos ainda, a imensa satisfação da esmagadora maioria dos presentes, tanto do ponto de vista da organização do evento quanto com o conteúdo e formato. Dos poucos comentários de insatisfação, notamos um em especial, que chama a atenção para a inadequação no critério de escolha dos historiadores que se manifestaram. A chamada baseada apenas nas inscrições de trabalhos realizadas pelo site, em ordem cronológica, sem limite de tempo para a exposição, acabou causando um “monopólio da Academia de Letras de Vassouras”, na visão do autor da crítica. Numa próxima oportunidade, devemos adotar outra estratégia que maximize a participação de interessados. Um sucesso, portanto, de público e crítica, com fortíssimas solicitações para que seja repetido (vide tabulação e comentários específicos), apesar de não termos encontrado tantos escritores amadores quantos esperávamos originalmente. A técnica da “Praça da China”, i. e., criar e oferecer um espaço de manifestação deixando que os próprios grupos de interesse ocupem este espaço à vontade, de acordo com suas vocações e demandas, mostra, mais uma vez, por que está entre as melhores práticas universais de sondagem de mercados e nichos. 94 Francis Miszputen Produtora-Executiva Comentário dos Participantes Discutir que os financiamentos públicos para obras de infra-estrutura turística se condicionem à existência de um Plano Diretor e um Plano Municipal de Turismo. Ampliar as parcerias com as instituições e/ou entidades da região. Estimular cursos de graduação/pós em História local e regional, além de Turismo. Sugiro que o próximo Encontro fale mais sobre o encantado Vale do Paraíba. O evento permitiu o acesso irrestrito de profissionais da área de História e afins, isto foi importante. Deixo a possibilidade de delimitar com maior precisão os assuntos abordados. Importante também foi o primeiro passo no estudo do Vale, porém outras abordagens poderão ser feitas, destacando outros “olhares”. Extrema importância para o resgate histórico da região. Algumas pessoas perderam tempo com falas sobre si. O evento foi excelente. Infelizmente, uma das palestras do primeiro dia foi cancelada. Poderia ter sido convidada uma quantidade menor de palestrantes, para que o tempo tivesse sido melhor explorado. Seria mais proveitoso se houvesse mesa com tema específico sobre a história do Vale, seguida de debate. O Encontro foi de grande importância para nós que moramos nesta região. Focar dentro da temática central, abordando assuntos pertinentes ao Vale, não deixando abrir um leque de autobiografia. Não acho que trabalho de pesquisa combine com metodologia de ensino fundamental. Os eventos deveriam ser separados, pois o público é diferente. Nem todos que se inscreveram (via internet) para falar foram chamados. Foi tudo muito calcado no Vale do Café. Excelente, principalmente a 2ª manhã. Foi um Encontro enriquecedor. Sugiro que haja uma seleção/triagem dos palestrantes, e que estes sejam mais objetivos em suas falas. Espero que os trabalhos rendam frutos na região do Vale do Paraíba, como turismo cultural, lançamentos de livros e empregos. Para o próximo Encontro, incluir debates mais sólidos, para que possam contribuir nos trabalhos dos profissionais de história, em relação à história regional. Distribuir melhor os temas e comentários. O Encontro foi valioso e útil. Não pode parar por aqui. Que os conteúdos fossem trabalhados de forma mais dinâmica. Os conteúdos foram apresentados de maneira dinâmica e motivadora. Informações valiosas, tudo foi válido. Gostei muito da organização e elaboração. Metodologia excelente. Os conteúdos foram passados de forma ampla, de maneira contagiante. A partir de hoje, sairei daqui buscando mais informações sobre o assunto abordado. O evento foi muito bem organizado, com apresentação bastante dinâmica. A idéia do filme foi excelente. Aguardamos o II Encontro de História. Local agradável, palestrantes gabaritados, temas envolventes. Para o próximo, deveriam ter grupos de trabalho temáticos sobre: educação ambiental, educação patrimonial, arquitetura, cultura, folclore, história. Cada município deveria ter um espaço para apresentar sua situação e seus projetos. Os temas privilegiaram o Vale do Café, ignorando o Vale como um todo. Só quem publicou tese de mestrado, com raras exceções, foi convidado a falar. Os escritores memorialistas ficaram sem vez. Que o próximo evento apresente formato de congresso, mini-curso e oficinas temáticas, e que no ato da inscrição seja exigido um artigo sobre o tema a ser tratado. Muito enriquecedor. Aguardarei o próximo com exposições culturais típicas de cada município. Melhor adequação entre tempo e atividades realizadas. Separar os depoimentos e exposições dos trabalhos por temas. Parabéns pela iniciativa. Outro detalhe importante foi a abertura para que produções da região fossem divulgadas. Sugiro um terceiro dia, para maior participação dos professores de história. Esta chama não pode se apagar. Estruturar o Encontro com posições mais práticas. Que o próximo Encontro busque profissionais que mostrem recursos e caminhos para aprimoramento, como a participação do Inepac (nota 10). Excelente Encontro. Estava sentindo falta de um trabalho como este. Nos fez lembrar os Fóruns Estaduais de Cultura. É muito triste iniciar-se um caminho e não continuar adentrando os passos na extensão à sua frente. Por isto, acho fundamental que este I Encontro de História, tão bem recebido pelos integrantes do Vale, tenha uma continuidade cada vez mais promissora. Maior controle do tempo dado para exposições de trabalhos. 95 Mais oficinas e menos palestras. No próximo Encontro, visitar uma fazenda histórica. O Encontro “despertou” para a questão da importância do patrimônio, como história e memória. Focar apenas o Vale do Paraíba. Mais oficinas, para uma maior troca de experiências. Sugiro a divisão dos temas em dias, e maior participação de outras universidades públicas, como a UFF e a UFRJ. Quero e necessito que haja maior ênfase em Educação Patrimonial para o 1° segmento do ensino fundamental. Espaço reservado para apresentação de trabalhos realizados dentro das escolas. Que no próximo Encontro, os participantes do primeiro evento apresentem o trabalho realizado dentro do tema. Se não houver uma cobrança, o professor se capacita e não repassa o conhecimento. Criar um Encontro com o tema Preservação de Patrimônio. Momento importante para divulgação de pesquisas. A troca de conhecimento foi muito rica. Que os professores da área tecnológica sejam convidados para contribuir com recuperação e manutenção de patrimônio histórico. Foi um momento de reflexão sobre a importância no sentido de despertar a comunidade para zelar pelo o que é seu, valorizando o patrimônio material e imaterial, para que não se torne “órfão do passado e sem raízes”. Foi muito gratificante e enriquecedor. Espero que realmente haja uma segunda edição do evento, para que possamos não só trocar experiências, como também discutir a preservação de nossas raízes e disseminá-la. É razão de grande enriquecimento para todos nós, historiadores ou qualquer ser comprometido com sua história, cultura e patrimônio, termos a oportunidade de participar de um evento que tenha a capacidade de unir “gentes”, que possuam o perfil de estudiosos e multiplicadores das ciências sociais e das artes em geral, com seu foco voltado para a construção, preservação e reconstrução. LISTA DE LIVROS DOADOS AO PROJETO MARTINS, Roselene de Cássia Coelho. Colonização e Política – Debates no Final da Escravidão. Rio de Janeiro, Apicuri, 2008. CORREA, Dalmir Monteiro. O Vale do Paraíba Fluminense. WHATELY, Maria Celina. Resende, A Cultura Pioneira do Café no Vale do Paraíba. Niterói, La Salle, 2003. TAMBASCO, J. C. Vargens. A Vila de Vassouras e o Vale Médio do Paraíba. Vassouras, Gráfica Palmeiras Ltda., 2007. ALVES, Perpétua do Socorro. Minha Terra, Minha Gente. Niterói, Imprensa Oficial, 1998. Academia de Letras de Vassouras. Vassouras, Gráfica Palmeiras Ltda., 2002. TAMBASCO, J. C. Vargens. A Vila de Vassouras e as Freguesias do Tinguá. Vassouras, Edição do autor, 2004. MEIRELLES, Gilda. Biografia do Branco. Juiz de Fora, Franco Editora, 2005. MEIRELLES, Gilda. Biografia do Negro. Juiz de Fora, Franco Editora, 2002. ACADEMIA RESENDENSE DE HISTÓRIA. Crônicas dos Duzentos Anos – Resende 1801-2001. Resende, La Salle, 2001. LIMA, Roberto Guião de Souza. Volta Redonda do Café e do Leite. Volta Redonda, Nogueira Artes Gráficas, 2004. Revista da Academia Itatiaiense de História. Org. Célia Borges. Itatiaia, 2005. INNOCENCIO, Isabela Torres de Castro. Liberdade e Acesso à Terra. Vassouras, USS, 2002. BARROS, Hyeróclio Virgílio de Carvalho. História e Histórias de Quatis. Rio de Janeiro, Editoração, 2003. BARROS, Hyeróclio Virgílio de Carvalho. Futebol: paixão de ontem, de hoje e de sempre (Quatis Futebol Clube – sua história e outras histórias). Rio de Janeiro, Editoração, 2005. MACHADO, Lielza Lemos. Vassouras, Recanto Histórico do Brasil. Vassouras, Gráfica Palmeiras, 2006. LIMA, Roberto Guião de Souza. Fazenda Três Poços do Café à Universidade. Volta Redonda, RJ:FOA, 2007. 96 Este livro foi impresso no Rio de Janeiro, em agosto de 2008, pela Maví Artes Gráficas Ltda., O papel do miolo é off-set 150g e o da capa é triplex 300g, com acabamento em laminação fosca. A obra foi composta nas tipologias Franklin Gothic Book no corpo 11, Franklin Gothic Demi no corpo 18 e 23, Franklin Gothic Demi Cond no corpo 8.