Relatório de Atividades
Vassouras - Rj, Parque Hotel Santa Amália • 17 e 18 de junho de 2008
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S u m
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Introdução por Mozart Vitor Serra
Introdução por Fernando Portella
Abertura do Encontro
Resumo do Pronunciamento das Personalidades
Destaques da Abertura do Encontro
Apresentação das Oficinas de História
Período da Tarde: Depoimentos e Intervenções
Oficina de História
Segundo dia do Encontro – Período da Manhã:
Resumo das Palestras Realizadas
Período da Tarde: Resumo das Palestras Realizadas
Resumo das Conclusões do Encontro
Síntese das Principais Propostas Feitas no Encontro
Contribuições Posteriores à Realização do Encontro
Cultura Popular e Narrativa Histórica
Relatório de Atividades
História Local, Pesquisa e Narrativa
Considerações sobre o I Encontro de História do Vale do Paraíba
á r i o
Mesa: Financiamento para Restauração do Patrimônio
O Lugar da História Regional na Memória
Historiográfica Brasileira
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As Diversas Fases da História do
Ciclo do Café - Ontem e Hoje
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“Aspectos da Economia Mundial Face
ao Apogeu e Crise do Café No Vale do Paraíba na
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Segunda Metade do Século Xix”
Apontamentos
Paralelo ao Mundo do Café
Outras Vozes
Para Saber Mais
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79
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As Diversas Faces da História do
Ciclo do Café - Ontem e Hoje
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Angústias e Inquietações: Algo a Partilhar
Do Vale do Café como um Projeto à Construção da Nostalgia Imperial
Das Academias que Falam para Si. Somente para Si
Da Luta por Recursos para a Preservação Patrimonial
Mas não são Apenas Inquietações e Angústias: Existem Realizações
e Esperanças!
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Historiadores Inscritos
I Encontro de História do Vale do Paraíba
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Histórias e Causos
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Mozart Vitor Serra
Diretor-Executivo
Instituto LIGHT para o Desenvolvimento urbano e Social
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Fernando Portella
Diretor-Executivo
InstitutoCultural Cidade Viva
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Abertura do Encontro
O
I Encontro de História do Vale do Paraíba começou com uma apresentação de
oito músicos do PIM – Programa de Integração pela Música1, sob a regência
do maestro Cláudio Pereira Moreira. À medida que os participantes entravam
no Salão Bouganville do Parque Hotel Santa Amália, na cidade de Vassouras,
ouviam músicas de Villa-Lobos e de outros compositores nacionais.
Inscreveram-se e participaram do encontro, preenchendo as fichas de inscrição, 203
(duzentos e três) pessoas, entre professores de História, escritores e representantes de
instituições do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba.
O Encontro foi aberto por Fernando Portella, Diretor Executivo do ICCV – Instituto Cultural
Cidade Viva2, coordenador do evento, que deu as boas vindas aos participantes e convidou
as seguintes personalidades para compor a Mesa:
● Andréa Jordão do Amaral, Secretária Municipal de Cultura de Vassouras (RJ);
● José Luiz Alqueres, Presidente da empresa Light Serviços de Eletricidade S. A.;
● Mozart Vitor Serra, Diretor do Instituto Light de Desenvolvimento Urbano e Social;
● Marcus Monteiro, Diretor Geral do INEPAC – Instituto Estadual do Patrimônio Cultural;
● Antonio Orlando Izolani, Vice-Reitor da USS – Universidade Severino Sombra, de Vassouras
(RJ);
● Ana Lúcia Mattozo Furtado, representante do CONCICLO/SEBRAE-RJ – Conselho de
Turismo da Região do Vale do Ciclo do Café, de Piraí (RJ);
● Ana Seraphim, Diretora de Turismo do PRESERVALE – Instituto de Preservação e
Desenvolvimento do Vale do Paraíba;
● Luis Reznik, Diretor do Departamento de História da PUC-Rio – Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro.
Após a formação da mesa, foi executado o Hino Nacional Brasileiro, cantado pela cantora
lírica Glasiela Valbano, integrante do PIM, acompanhada ao trompete pelo maestro Cláudio
Pereira Moreira.
O PIM – Programa de Integração pela Música é um projeto sociocultural desenvolvido nos municípios fluminenses de Vassouras, Mendes e Paulo de Frontin, idealizado
pelo maestro Cláudio Pereira Moreira e sua esposa Célia, que ensina música erudita a 800 alunos entre seis e 88 anos, visando sua profissionalização e conseqüente
inclusão social. O projeto logrou formar a Orquestra Sinfônica Jovem Regional (com 50 integrantes, foi um dos 84 projetos selecionados pelo Prêmio Criança Esperança da
UNESCO/Rede Globo em 2007), um grupo de percussão (com instrumentos ecologicamente corretos, construídos a partir de material reciclado), um grupo coral e pequenos
conjuntos de música de câmara. O projeto também deu origem a uma cooperativa de pais, que atua no campo da produção de alimentos. Outros desdobramentos do PIM
são: uma Incubadora de Gestão e Produção Cultural e uma Incubadora de Cultura Digital. O PIM é reconhecido pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura e foi recentemente selecionado para ser um Pontão de Cultura (instituição de alcance regional). Em 2004, o PIM foi um dos agraciados com o Prêmio Cultura Nota 10, projeto realizado
pelo ICCV – Instituto Cultural Cidade Viva, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura e patrocínio da EMBRATEL, com a chancela institucional da UNESCO. A maioria
dos jovens que já possuem competência musical para se apresentar em público é de monitores do projeto (atualmente em número de 30).
2
Maiores informações sobre o ICCV – Instituto Cultural Cidade Viva, entidade que está celebrando seu décimo ano de existência, podem ser obtidas no site:
http://www.institutocidadeviva.org.br.
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Resumo do Pronunciamento das Personalidades
Fernando Portella – elogiou o projeto PIM pelo excelente trabalho realizado com os jovens
e agradeceu a presença de todos. Realçou que um dos objetivos do Encontro era a coleta
de informações que pudessem servir como subsídios para o planejamento de políticas
públicas. E pediu que todos, historiadores, escritores, representantes do Poder Público e de
instituições se sentissem “no mesmo barco”.
Ressaltou que uma das propostas importantes do Encontro era a retomada do FEC –
Fórum Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, movimento que durante anos reuniu todos os
Secretários e/ou Diretores Municipais de Cultura fluminenses, para um trabalho conjunto e
cooperativo, que tão bons frutos deu no passado.
Pontuou que a preservação do meio ambiente era questão muito importante para ser
trabalhada pelos participantes do Encontro. Nesse sentido, sugeriu uma integração entre as
áreas da cultura, educação, turismo e meio ambiente. Abordou a necessidade de preservação
do patrimônio histórico e, nesse sentido, citou Francisco Ramalho, que no passado atuou
como Secretário Municipal de Cultura de Rio Claro (RJ), que afirmou: “a melhor maneira de
preservar o patrimônio é a consciência da população”.
Afirmou: “Estamos vivendo a Era da Emoção, do envolvimento direto com tudo que nos
rodeia. Reparem que a palavra desenvolvimento nega, por seu prefixo des, o envolvimento
com qualquer coisa. E a nossa palavra de ordem deve ser justamente o contrário, devemos
buscar o envolvimento político, econômico e social para promover o nosso crescimento”.
Andréa Jordão do Amaral – Deu as boas vindas aos participantes em nome do Prefeito
de Vassouras e cumprimentou as autoridades presentes. Declarou ter a certeza de que o
Encontro não se resumiria apenas ao primeiro. Expressou o desejo de que os participantes
pudessem, nos dois dias do Encontro, trabalhar intensamente com a história e a cultura do
Vale Paraíba. E manifestou sua esperança de que o evento estivesse abrindo um espaço
significativo para a rica história da região.
Ana Lúcia Mattozo Furtado3 – Saudou os presentes e agradeceu pela iniciativa do encontro
no Vale do café: “É muito importante para nós, que aqui trabalhamos arduamente, para
manter nossa cultura viva e sustentável”. Sublinhou que sua entidade trabalhava junto com
a área de turismo e o empresariado local, para dar visibilidade à história e à arquitetura
do Vale do Café. Expressou a necessidade de “idealizar um mundo novo no Vale”, pois “é
preciso sonhar para trazer resultados para quem trabalha com a nossa cultura”.
Lembrou que o PIM – Programa de Integração pela Música já atinge “não só a nossa
região, mas o Estado e todo o Brasil e ajuda a divulgar o Vale”. Corroborou a visão de que
o turismo, no Vale, “é essencialmente histórico e cultural”. Realçou que os “moradores
respeitam cada um dos nossos prédios históricos” e que o Vale possuía “27 fazenda
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Maiores informações sobre o CONCICLO/SEBRAE-RJ podem ser encontradas no site: http://www.valedocafe.com.br/conciclo.html.
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maravilhosas, todas prontas para receber os turistas”. Garantiu que tais fazendas “estão
tendo um retorno muito bom”, lastreado no turismo: “A produção já não dá tanto e nesse tipo
de turismo há uma nova oportunidade”. Assinalou que, em muitos casos, os proprietários
das fazendas históricas são efetivamente “fazendeiros” que conseguem dar aos turistas
um “atendimento fora de série”. Ao final, manifestou sua esperança de que os resultados
do Encontro possam gerar projetos e programas capazes de “trazer sustentabilidade para o
nosso vale histórico”.
Ana Seraphim4 – Após saudar os presentes, afirmou que representava, antes de tudo, “uma
instituição que há 14 anos levanta essa bandeira da preservação e do desenvolvimento através
do trabalho em prol do turismo histórico na região”. Elogiou o trabalho da fundadora do Instituto
PRESERVALE, Sônia Mattos de Lucas e saudou a “todos que trabalham na região”.
Asseverou que o turismo “é a grande saída para inúmeros municípios da região” no
que tange à “geração de trabalho e renda”. E afirmou: “temos aqui um binômio, turismo e
patrimônio histórico se complementam”. Realçou que, hoje, já existe “um grupo de pessoas
que se dedica a estudar a história da região”. Assinalou que “o olhar do forasteiro é muito
importante para quem está na região, porque estamos trabalhando e desenvolvendo um
projeto muito importante e muito bacana, mas estamos muito mergulhados nele, não
vemos o todo, e quem vem de fora lança outro olhar”. Desejou que esse fosse “um olhar
de compartilhar”. Elogiou a organização do encontro, afirmando que “houve preocupação
de saber quem está trabalhando na região, quem faz o que”. E concluiu: “não vieram com
fórmula pronta, ainda bem, pois isso às vezes gera resistência”. Expressou sua convicção de
que “é muito importante que o trabalho de quem está na região seja reconhecido”. Assim, o
encontro une “pessoas de fora e pessoas que estão na região”. Reconheceu o trabalho feito
no capital, assinalando que “quem está no Rio, na corte, também está fazendo coisas muito
boas para a região”.
No final de seu pronunciamento, realçou que o Instituto PRESERVALE enfoca, ao mesmo
tempo, “patrimônio, turismo e preservação do meio ambiente”. E encerrou sua fala com o
desejo de que o Encontro propiciasse “novas parcerias e compartilhamento com parceiros
de antiga e nova data”.
Luis Reznik – Começou sua fala ressaltando que “o Departamento de História da PUC-Rio5
tem muito orgulho de estar aqui presente”. Lembrou uma brincadeira feita pelo presidente
da Light, Dr. José Luiz Alqueres, que afirmou em conversa informal que se considerava
“historiador amador”, juntamente com Mozart Serra, enquanto os demais participantes do
Encontro eram “historiadores profissionais”. Por isso, disse o professor: “Somos todos amantes
da História”. Para evidenciar a importância dessa disciplina, afirmou: “A partir de perspectivas
passadas transformamos o nosso cotidiano”. No Encontro, prosseguiu o professor, “nossa
perspectiva é trocar um pouco as nossas experiências; é dessa forma que encaminhamos e
pensamos a programação dos trabalhos de hoje”. Sugeriu que, “como amantes da história
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5
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Maiores informações sobre o PRESERVALE podem ser encontradas no site: http://www.preservale.com.br.
Informações mais detalhadas sobre o Departamento de História da PUC-Rio encontram-se no site: http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/historia/index.html.
da localidade”, todos pudessem “trocar experiências” e ver como “as histórias de cada um
poderiam ser contadas”. Destacou que os professores da PUC-Rio convidados para o Encontro
estavam “se propondo a fazer oficinas, um trabalho em conjunto com o s participantes, sobre
como elaborar e narrar as histórias da região”. Além disso, concluiu o professor Reznik, os
participantes iriam assistir e debater um filme, Narradores de Javé6, que enfocava “como se
narra e como se constroem memórias e a nossa perspectiva identitária a partir daí”.
Marcus Monteiro – Saudou os presentes e declarou ser “um prazer enorme o INEPAC7 estar
participando deste Encontro, que deverá ser um divisor de águas”. Informou que o Instituto
existe desde 1964 e que cuida do patrimônio cultural em todo o Estado. Antes dele, pontuou,
“ninguém sabia o que era tombamento”. Opinou que o Instituto “deveria ser também uma
espécie de órgão regulador das iniciativas civis feitas com os governos municipais no campo
do patrimônio”. Afirmou que a equipe do órgão está no Rio, mas que tem “preocupação
com o mundo inteiro”. Uma equipe que procura ter uma visão de conjunto, “como a de um
pássaro que voa”.
Referindo-se à fala de Ana Seraphim, declarou que “todos nós somos forasteiros em
algum momento de nossas vidas”. Quanto ao Instituto, afirmou que “existe uma preocupação
muito grande do INEPAC em educar para o patrimônio; estamos preocupados, inclusive,
em educar os governantes”. E acrescentou: “Ninguém pense que não podemos fazer isso,
porque somos um órgão público. Podemos sim. Hoje em dia, a gente liga para o governador
e resolve. Mas cabe às associações civis cuidar dos interesses da coletividade”.
Em primeira mão, deu uma notícia da parte do governador Sérgio Cabral: “Acabamos de
criar quatro Escritórios Técnicos Regionais do INEPAC: um na Região Norte Fluminense, outro
na Região Serrana (em Petrópolis), outro na Baixada Litorânea (em São Pedro da Aldeia) e
um aqui na região (em Valença)”.
Para Marcus Monteiro, “ocorre no Vale do Paraíba um urbicídio, um esvaziamento
econômico”, que leva os governantes a desejarem “a todo custo criar novas alternativas de
geração de empregos”. E comparou: “Um prédio histórico demolido para gerar 30 empregos
geraria dez vezes mais, se houvesse investimento em turismo cultural”. Lamentou que
“quando uma igreja evangélica se instala num cinema, descaracterizando a arquitetura, é
como se a gente tomasse um soco no estômago, porque estão matando a nossa galinha dos
ovos de ouro...”
Na visão de Marcus Monteiro, a política de preservação do patrimônio “só pode ser
resolvida com essa parceria com a sociedade, pois é a própria sociedade que deve zelar pelo
que é seu”. Reiterou que o “patrimônio pertence a todos nós e sociedade e governo devem
se juntar para que ele se perenize”.
Filme brasileiro de 2003, dirigido por Eliane Caffé, que escreveu o roteiro junto com Luiz Alberto de Abreu. Rodado entre junho e setembro de 2001, em Gameleira da
Lapa, cidade do interior da Bahia, o filme conta a história de um povoado que, ao ver a iminência de ter seu vilarejo inundado pelas águas de uma represa, vê como único
modo de impedir o acontecimento na transformação do local em um patrimônio da humanidade. Para isso os moradores decidem passar para o papel todas as lendas
sobre a origem de Javé, e assim chamam o escrivão local, Antônio Biá, para escrever um livro sobre o vilarejo. Porém Biá havia sido banido de Javé pela população, por ter
difamado praticamente toda esta através de cartas que ajudaram a salvar seu emprego nos Correios locais. No desespero, a população acaba dando uma oportunidade
para que o escrivão se redimisse. A partir daí, Biá passa a ir de casa em casa, para colher informações e passar para o papel as lendas guardadas nas cabeças dos
moradores de Javé. O problema é que cada morador conta uma história diferente, e sempre defendendo os interesses de seus antepassados. No elenco, José Dumont
(Antônio Biá), Matheus Nachtergaele (Souza), Nelson Dantas (Vicentino), Gero Camilo (Firmino) e Nélson Xavier (Zaqueu), entre outros.
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O Portal do INEPAC está no endereço eletrônico http://www.inepac.rj.gov.br/modules.php?name=Inepac
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Para deixar ainda mais clara sua posição, complementou: “Não prego a política de que
não se pode fazer nada, que as cidades não podem se desenvolver. Autorizamos diversas
modernizações em fazendas tombadas, mas não autorizamos a descaracterização. O
proprietário é o fiel depositário do bem tombado, passa a ser um zelador. No campo do
patrimônio, essa atitude deve ser uma constante. E vocês podem contar, efetivamente, com
o INEPAC. Estamos perto, em Valença, à disposição de todos vocês”.
Mozart Vitor Serra – “É um imenso prazer participar desta Mesa, onde vejo muitas caras
amigas. Houve transformações profundas na sociedade, que permitem um olhar novo sobre
o patrimônio. Não estamos mais à mercê de forças insondáveis. O setor privado faz parte
disso, através da criação desses vários Institutos e Fundações, que procuram promover o
bem público, como é o caso do Instituto Light de Desenvolvimento urbano e Social. Hoje já
existe nada menos que um século de relações profissionais entre nossa empresa e o Vale
do Paraíba. Antes de promover este Encontro, achamos que deveríamos dar uma olhada na
região, justamente para recuperar essas relações”.
O Diretor do Instituto Light, idealizador do Encontro, afirmou que desenvolve dois projetos
para o Vale:
Incentivo ao turismo como forma de revitalizar a economia da região. Neste sentido,
o Instituto patrocinou o Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba, publicação que
documenta o patrimônio edificado de 130 fazendas históricas da região. Todas as fazendas
visitadas foram fotografadas, a descrição arquitetônica é completa, e se divulgou a história
das famílias que foram proprietárias desses imóveis. É um trabalho sólido, de fundo, que
servirá de base para iniciativas de natureza econômica;
O Encontro de historiadores, que objetiva sondar os possíveis caminhos de desenvolvimento
da região.
Mozart Serra agradeceu a presença dos participantes ao I Encontro de História do
Vale do Paraíba e reiterou que há “uma profunda relação do Instituto Light com o futuro
desta região, através destes instrumentos (o Inventário e o Encontro) e outros que ainda
estão por vir”.
Antonio Orlando Izolani8 – Cumprimentou os integrantes da Mesa e declarou sentir “muito
orgulho de participar do Encontro”. Em seguida, falou sobre sua instituição: “Temos 27 cursos
de graduação, dois de extensão e dois de mestrado. São 40 anos de existência. Temos um curso
de Turismo e também um curso de História”. Realçou a importância do Centro de Documentação
Histórica que é mantido pela Universidade e que é muito procurado por pesquisadores.
Ao fim do seu rápido pronunciamento, asseverou: “Contem com a nossa Universidade. Em
agosto, estaremos realizando o nosso 2º Fórum de Mudanças Climáticas, que é voltado para
a educação ambiental, mas também para a preservação do nosso patrimônio. Parabenizo a
realização deste Encontro e reitero que estou à disposição de vocês”.
O site da USS – Universidade Severino Sombra é: http://www.uss.br/web/page/index.asp. Uma notícia sobre a participação dessa Instituição de Ensino Superior no
I Encontro de História do Vale do Paraíba, ilustrada com fotos, está no seguinte endereço eletrônico: http://www.uss.br/web/page/noticiasdetails.asp?cod=398.
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José Luiz Alqueres – “Bom dia a todos. Cara Andréa, por favor, cumprimente o Prefeito por mim.
Eu estava fazendo reflexões sobre a singularidade do papel que um presidente de empresa
poderia ter neste encontro de especialistas. Na minha visão, precisamos voltar ao básico, ao
essencial, para pensar o quê deveriam ser as cidades”.
“A primeira qualidade das cidades é a de serem seguras. Nenhum cidade pode destruir
isso,a segurança dos seus moradores. Numa segunda dimensão, deve oferecer condições
decentes, amigáveis, para as atividades econômicas. A cidade tem que oferecer esse espaço
para os agentes econômicos”.
“A terceira dimensão, a mais importante de todas, é que as cidades encerram a sua
sacralidade. Há também os avanços técnicos, os equipamentos e sistemas urbanos criados ao
longo do tempo. A eletricidade, por exemplo, só existe nos últimos 100 anos. Como foi possível
não tê-la antes? Isso foi uma limitação em cidades antigas, como UR, por exemplo... A LIGHT,
como provedora de um desses serviços, está empenhada em promover a qualidade de vida.
A sacralidade das construções não está apenas nas igrejas, pode ser uma casa grande ou
uma senzala”.
“O historiador é aquele que conhece e que transmite esse conhecimento, ele é o guardião,
o tomador de conta. Como aquele anúncio do relógio de marca Patek Philippe, onde se diz
que ninguém é dono de um, apenas toma conta... Eu tenho que me sentir dono de tudo que é
humano, que é obra de civilização”.
“A LIGHT se orgulha muito dessa parceria com o INEPAC que deu origem à publicação do
Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba. Nesse campo, a questão do turismo é importante,
é uma palavra mágica. Mas o Vale também é locus do conhecimento e tudo muda com o
tempo. A cada quatro anos eu me reinvento como profissional. A gente tem que se reinventar. A
LIGHT, por determinação legal, é fornecedora de serviço e tem obrigação de olhar para o futuro
do Vale, que passa pela preservação do patrimônio. Nossa empresa acaba de investir em São
João Marcos: 70 anos depois, a empresa recompõe o que restou das ruínas dessa cidade.
Esse tipo de trabalho não é um aspecto complementar do trabalho da LIGHT, mas a essência
mesma da nossa atividade, de servir com energia. Eu me orgulho de passar estas horas na
companhia de todos vocês”.
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DESTAQUES
● O expressivo número de participantes legitimou o Encontro de História como espaço
aberto de discussão e de coleta de informações importantes para subsidiar o planejamento
de políticas públicas e os projetos e ações das entidades privadas que atuam na região do
Vale do Paraíba.
● Na abertura do Encontro, a participação dos músicos que atuam no PIM – Programa
de Integração pela Música – divulgou para um público formador de opinião o valor desse
projeto sociocultural, que, além de ser muito bem sucedido, é exemplo a ser seguido em
outras regiões do país.
● Em seus pronunciamentos, as personalidades reafirmaram a importância do turismo
cultural na região, atividade que é inseparável do trabalho de preservação do patrimônio
histórico e ambiental do Vale do Paraíba.
● Fernando Portella chamou a atenção para a Era da Emoção que estamos vivendo, favorável
ao desenvolvimento de projetos históricos e culturais. Ele também destacou a importância
do compromisso pleno, do envolvimento efetivo das pessoas com os projetos que podem
beneficiar a região. O Diretor-Executivo do ICCV também apontou a necessidade de integrar
os trabalhos nos campos da cultura, educação, turismo e meio ambiente. Ele assinalou,
ainda, que a melhor forma de preservar o patrimônio histórico é a conscientização da
comunidade local.
● Ana Lúcia Mattozo corroborou a tese de que o turismo no Vale é essencialmente histórico
e cultural. E mostrou a importância de idealizar um “mundo novo” na região, capaz de gerar
projetos voltados para a sustentabilidade.
● Ana Seraphim apontou o turismo como a grande saída para inúmeros municípios da região,
em termos de geração de trabalho e renda. Segundo ela, turismo e patrimônio histórico se
complementam. Destacou o que considerou um dos aspectos mais positivos da organização
do encontro, afirmando que houve preocupação de saber quem está trabalhando na região,
sem “fórmula pronta”, algo que poderia gerar resistência entre os participantes. Pontuou que
o Instituto PRESERVALE enfoca em suas atividades, ao mesmo tempo, patrimônio, turismo
e preservação do meio ambiente.
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da Abertura do Encontro
● O professor Luis Reznik demonstrou que o estudo da História não é atividade imobilista,
mas sim dinâmica: “A partir de perspectivas passadas transformamos o nosso cotidiano”.
● Marcus Monteiro realçou a importância de educar para a preservação do patrimônio,
inclusive educar os governantes. Ele procurou, também, mostrar que atividades vinculadas
ao patrimônio histórico podem ser mais lucrativas para os municípios do que muitas
atividades comerciais tradicionais. Nesse sentido, criticou ações precipitadas do Poder
Público, que sacrificam o patrimônio histórico em favor de iniciativas comerciais imediatistas,
que nem geram muitos postos de trabalho. Daí a importância das parcerias conscientes
entre o Poder Público e a sociedade civil, para tornar o patrimônio histórico um fator de real
desenvolvimento local e, por extensão, regional. Ele também deu a boa notícia da abertura
de quatro Escritórios Técnicos Regionais em cidades do interior fluminense, criando postos
avançados do órgão (um deles, inclusive, no Vale do Paraíba, no município de Valença).
● Mozart Vitor Serra apresentou as duas principais frentes de trabalho do Instituto Light
na região: o incentivo ao turismo como forma de revitalizar a economia da região, com
a consciência de que a tônica, no Vale, é o turismo histórico e cultural; a promoção do
Encontro de História, como forma de obter subsídios para projetos futuros.
● O Presidente da LIGHT mostrou uma visão humanista das cidades e destacou a parceria
da empresa com o INEPAC, tanto no projeto de publicação do Inventário das Fazendas
do Vale do Paraíba como na consolidação das ruínas de São João Marcos. Ele também
destacou a importância dos historiadores como guardiães de conhecimentos importantes
para o planejamento de projetos ligados ao futuro do Vale e que, na dinâmica do mundo de
hoje, todos precisam se reinventar profissionalmente, de tempos em tempos.
● As presenças do Presidente da Light e do Diretor do Instituto LIGHT de Desenvolvimento
Urbano e Social, assim como seus pronunciamentos, demonstraram a importância que
a empresa dá ao desenvolvimento do Vale do Paraíba e indicam que ela está, de fato,
comprometida com o futuro da região.
13
Apresentação das Oficinas de História
Ao final da abertura oficial do Encontro, Fernando Portella registrou a presença do
historiador Antônio Brant9 de Minas Gerais, e convidou o professor Antônio Edmilson
Martins Rodrigues10 , da PUC-Rio, para assumir o comando da Mesa.
Após um pequeno intervalo de 10 minutos, os eventos prosseguiram e o professor Antonio
Edmilson antecipou parte dos eventos que seriam realizados no período da tarde, no primeiro
dia do Encontro. Ele formou uma mesa ao lado dos professores Rui Aniceto11 e Luis Reznik12 .
Antônio Edmilson Martins Rodrigues – “Viemos aqui para trabalhar e por isso não vamos
deixar uma hora de lado. Isso já serve para melhorar um pouco o nosso rendimento à tarde,
quando faremos Oficinas de História. Entre as principais temáticas do trabalho está o resgate
de informações – não só para construir memórias, mas para analisar com espírito crítico
e assim construir história. Claro que há um pressuposto, temos que ter uma idéia do que
ocorreu no passado. Mas nós não explicamos nada, nós compreendemos. Para compreender
é necessário ter uma série de elementos que permitam essa compreensão”.
“Existe a dificuldade do olhar estrangeiro para compreender o que é local. É preciso ter uma
idéia de cidade, da associação que é a cidade, o sagrado”.
“Em nosso trabalho específico aqui no Vale do Paraíba, queremos fazer uma crítica à noção
de decadência, do ciclo de grandeza e decadência. Outro equívoco central é a pesquisa feita
sem levar em conta as diferenças que existem entre o Vale do Paraíba paulista e o fluminense.
Há pesquisadores que avaliam a região sem compreendê-la”.
“A escravidão é vista como o carro-chefe do Século XIX – e a escravidão, que por si só já
dá náuseas, torna contraditório tudo que a envolva. Assim, a noção de fazenda como grande
propriedade escravista é complicada. Podemos ter outro olhar sobre o Vale do Paraíba, outra
compreensão da sua cultura. Ver os fazendeiros como empresários do café, por exemplo. O
que é diferente dos grandes proprietários das fazendas de açúcar do Nordeste. O trabalho dos
fazendeiros do Vale tem correlação também com a Abolição”.
“Digo que é preciso rediscutir a noção de proprietário-cafeicultor. É preciso também
aproximá-los de suas relações com a Corte do Rio. Porque existe o Rio legal, o Rio de Chiquinha
Gonzaga, o Rio do Clube da Abolição. Precisamos trabalhar com todas estas mediações”.
“Outro ponto a considerar: associamos o tamanho das fazendas do Vale ao luxo, à
monumentalidade. Mas podemos ver isso do ponto de vista da praticidade. Por que uma
cozinha grande? Por causa do vento, da luminosidade. Gilberto Freyre, em sua obra, analisava
cada cômodo das fazendas, fazia um passo-a-passo”.
“Há que se considerar também que a fazenda era um local de confronto de visões, um local
de tensões. É preciso estudar as relações entre a cidade e o campo. O que é uma cidade como
Vassouras? Não como resultado de uma economia agrícola, porque isso aconteceu no século
XIX. Podemos ver as fazendas com uma visão nova da política agrícola da época: a fazenda
era o lugar do moderno. Assim combateremos o equívoco que associa o que é rural ao que é
provinciano. Mas é preciso comparar: o registro rural versus o urbano”.
“Como a gente faz turismo no Vale do Paraíba sem discutir o que é cidade? Por que não
ver a fazenda como o novo lugar do moderno, da apreciação das relações entre campo e
cidade? Estudar o que um fazendeiro requisita como móveis e o que faz como lazer...”
Pesquisador histórico, convidado especial do Instituto LIGHT de Desenvolvimento Urbano e Social.
Doutor em História pela PUC-Rio.
11
Doutor em História pela PUC-Rio.
12
Chefe do departamento de História da PUC-Rio.
9
10
14
“A idéia de memória é capaz de tombar. Está vinculada a um sentido quantitativo. Mas a
memória pode ser uma referência qualitativa. Isso, se não se apresentar como resistência à
mudança. Precisamos, portanto, compatibilizar passado, presente e futuro”.
“A noção de cultura gera muitos equívocos. Quando generalizamos, podemos errar, pois
quando temos ruínas, temos fragmentos que podem ter diferentes leituras. A cultura é a reflexão
que a sociedade faz sobre ela mesma. Envolve a maneira pela qual a comunidade se pensa
nesse processo. É tudo dentro, não há olhar de fora, contra o olhar autoritário, que produz um
cânone, uma referência que nos deixa sem saída”.
Rui Aniceto – “O trabalho que vou apresentar é fruto do meu doutoramento na PUC-Rio, uma
pesquisa sobre a historiografia fluminense, dos anos 30 aos anos 50. No início, eu fazia pesquisa
sobre folclore – e vi que não era a única linha de pensamento sobre o estado do Rio, pois os
pesquisadores também estudavam História e Geografia. O período escolhido é importante, pois
naquela época, no Rio, havia um grupo político com muita força, que tinha Amaral Peixoto como
interventor”.
“Nesse período, folclore e história andavam juntos. Havia a idéia de superar a decadência,
começando pela instauração da República. Esse discurso é uma constante nos anos 20.
Com essa idéia, se pretendia construir uma identidade positivada para o estado. Fui fazer um
levantamento historiográfico. Uma das primeiras questões que precisei enfrentar foi: a história
profissional e a dos amantes da história. Os acadêmicos pensavam a corte, a cidade do Rio e
com isso se tornaram secundárias as reflexões sobre as outras regiões do estado. Um balanço
feito por dois professores indicou que, de 265 trabalhos de história, 73% dos títulos eram sobre
a cidade do Rio (História, Psicologia etc.). Na UFF, de 700 dissertações produzidas entre 1974 e
2005 (incluindo as teses de doutorado), 17% abordavam o Rio e 8% eram sobre as mais diversas
regiões do estado. Conclui-se, portanto, que a historiografia prioriza um olhar sobre o Rio”.
“Quanto à produção fora da universidade, ela não é sequer mencionada, e é vista com
preconceitos. São consideradas memórias sobre o exótico, o outro, que fugia do modelo europeu.
A avaliação geral era a de uma produção fora dos cânones universais e que serve apenas como
fonte de informação. No meu doutorado, trabalho com o conceito de que essa produção também
é história, uma outra história – e não apenas fonte de informação”.
“A história regional que está de acordo com os cânones vigorava na época que estudei. Nos
trabalhos de Geografia Humana, naqueles que seguiram a metodologia francesa, no IHGB etc.”.
“Matoso Maia escreveu a memória histórica de Vassouras, em 1933; Figueiredo de Almeida
escreveu a memória de Barra Mansa. Eles foram os primeiros a pensar uma história fluminense.
Para a produção dessa história, seguiam a orientação da Geografia Humana, com estatísticas etc.
Eles buscam associar os tempos da história maior aos tempos da história de suas localidades”.
“Como prioridade, pode-se usar as fontes oficiais, mas associadas a outras fontes, como
história oral, para dar a cor local”.
Luis Reznik – Comentou que Rui Aniceto “tem estudado muitas histórias, que possui uma
biblioteca vultuosa sobre o estado do Rio de Janeiro e que tem muita leitura sobre histórias
locais”.
Apresentou slides sobre o projeto História local: pesquisa, ensino e narrativa, desenvolvido
pelo Departamento de História da PUC-Rio. O projeto deu origem à Caixa de História, um conjunto
de materiais didáticos reunidos numa caixa, desenvolvidos pelo Departamento de História da
PUC-Rio para uso em escolas.
“Este trabalho é uma experiência com história local. Pesquiso São Gonçalo, junto com um
grupo de estudo, há anos. Estamos desenvolvendo metodologias para trabalhar com a história
local e como narrá-la na escola”.
15
“Um dos pressupostos do trabalho é a associação entre história e identidade. Quando
recuperamos a história de um lugar, lembramos muitas coisas e esquecemos tantas outras,
que talvez nunca mais sejam recuperadas. Trabalhar sobre essas experiências é o que nos
projeta. Se temos uma concepção de uma área em decadência, esse conceito nos dará um
tipo de identidade”.
“Outro pressuposto é a história local e seus pertencimentos. Os vínculos com a região,
geográfica, vista como continuidade territorial. Nas escolas, os alunos nos ajudam a pensar,
pois eles têm uma afetividade que é distante da história abstrata”.
“O local é regional, nacional e global. A história do Brasil se estabelece localmente,
embora nem toda história local seja nacional. Existe uma tendência a demarcar coisas
ufanistas: a primeira corrida de automóvel, o primeiro grão de café do Brasil. Um fervor
patriota local e regional”.
“A metodologia consiste em utilizar materiais de memória, vestígios do passado. A idéia
é tirar tudo do silêncio, pois tudo que está no entorno da escola tem uma historicidade e
algumas coisas podem ser usadas para se pensar o passado, como é o caso, por exemplo,
das fazendas aqui da região”.
“A proposta visa a valorizar o patrimônio material e imaterial do município enfocado. Usar
a cultura da região, que não tem materialidade mas também é patrimônio local”.
“Queremos propiciar a integração da escola com a comunidade circundante, através da
mobilização dos alunos junto às famílias, às instituições, aos cidadãos em geral, para a
realização das atividades”.
Os materiais de memória utilizados na Caixa de História são os seguintes:
● Cartografia: a leitura de mapas, paisagens, que mostram as relações entre as pessoas
e a natureza.
● Fotografias: registros fotográficos como documentos históricos. Relacionar o ato de
fotografar ao exercício de apreender e figurar as experiências históricas de indivíduos e
grupos sociais.
● Construções arquitetônicas: janelas para modos de vida. Cenários rurais e urbanos em
constante transformação. Testemunhas silenciosas da história.
● O cotidiano escrito nas crônicas (literárias e jornalísticas): compreender a história local
por meio de crônicas elaboradas pelos habitantes.
● História oral: metodologia para uma história do tempo presente. Reconhecer que é
possível haver diferentes compreensões sobre o mesmo fenômeno ou processo histórico.
● Registros paroquiais e comunitários.
● Registros oficiais sobre o governo da cidade: mensagens e relatórios do Prefeito. Atas e
anais das câmaras legislativas.
● Registros da vida associativa.
● Registros de propriedade: casas comerciais etc.
Com tais materiais, foi sistematizada uma metodologia – pensando vestígios do passado
para didatizar e transformar, dentro da escola, ou para pensar e planejar o futuro.
Fernando Portella – Encerrou os trabalhos da parte da manhã, informando que, no
período da tarde, os participantes falariam, todos seriam ouvidos. Seriam tomadas todas as
visões ou se construiria uma visão só sobre os assuntos abordados. Citou o escritor Pedro
Nava: “O futuro é um carro, emalta velocidade no escuro, com os faróis acesos apenas
atrás”. Ou seja, para plenejar o futuro é preciso se orientar no passado.
16
Período da Tarde:
Depoimentos e Intervenções dos Participantes
Professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues – Agora a palavra é de vocês. Precisávamos
organizar os pronunciamentos de alguma maneira e a escolhida foi o site do encontro, onde as
pessoas se inscreveram para falar. Quem fez essa indicação ganhou prioridade. Convido para a
mesa o professor Antônio Brant, que tem larga experiência no trato dessas histórias do período
do café. Faremos comentários sobre as histórias contadas por vocês.
Adriano Novaes – É um prazer estar aqui. Sou de Valença. Minha formação é em
Sociologia, membro do PRESERVALE. Recentemente trabalhei no Inventário das Fazendas do
Vale do Paraíba. Comecei a pesquisar as fazendas de café, desde que trabalho no Museu
Histórico Regional. Trabalhamos em cima dos documentos paroquiais e cartoriais, e também
com a história oral. Buscamos a compreensão da fazenda de café, pois o Vale do Paraíba se
desenvolveu em função disso. Com o final do período do ouro, vieram as sesmarias, o Ciclo do
Café. Estudamos o universo, os hábitos próprios das fazendas. Meu trabalho é voltado para
a compreensão da fazenda e fui pego de surpresa pela realização deste Encontro. Devo dizer
que esta é uma região que encanta a gente, porque é muito rica. Nossa realidade tem muito
mais a ver com o café do que se pode imaginar. Isso tudo merece ser estudado e mostrado,
principalmente as conseqüências do Ciclo do Café para o Século XX.
André Ricardo – Moro em Piraí. Sou mais um amante da história do que um historiador. Meu
trabalho é uma pesquisa sobre o Comendador José Joaquim de Souza Breves. Ele criou um
império, o da família Breves, chegou a competir com a Corte no Rio de Janeiro. Pesquiso os fatores
de seu sucesso e da sua decadência. Quero responder a esta pergunta: como, para alguém
que tinha tanto dinheiro, em apenas um ano ele e seus descendentes ficaram paupérrimos.
Os fazendeiros de sucesso tinham de 600 a 1.000 escravos. Breves tinha de 6.000 a 10.000
escravos. Ele era o “Rei do Café”...
Ângelo Ferreira Monteiro – Sou de Vassouras, formado em História, no ano de 2001. Fiz
Mestrado em 2005. Sou funcionário da Universidade Severino Sombra e trabalho no Centro
de Documentação Histórica. Estudei a vida de Benjamin Ben Atai, um marroquino que viveu
em Vassouras e teve negação de sepultura. Meu tema, portanto, foi a intolerância religiosa.
Procurei descobrir como ele conseguiu se inserir numa sociedade que era tão fechada. Ele se
aproveitou das relações de compadrio. Houve interesse da Secretaria de Cultura e da Paróquia,
na publicação do meu livro que conta essa história. Se não houvesse interesse público, eu
nem pensaria em publicar. Acabei optando por ser editor/autor independente. Levei um
ano preparando o texto para o formato de livro. Desde 2001, quando o Instituto Histórico de
Vassouras foi instalado, fui convidado para pertencer ao Instituto e para a Academia de letras
de Vassouras. Uma jornalista gaúcha utilizou o livro em seu trabalho. E hoje sei que ele está
rendendo outros frutos, para outras pessoas.
Evânia da Costa Santos – Sou professora de História e Geografia do Estado e moro em
Mendes. Estudei Ciências Sociais, fiz algumas pós-graduações e atuei como guia de turismo
do nosso Vale. Tenho um projeto educacional para a rede do município, intitulado “Eu amo
Mendes”, que é voltado para os professores e objetiva que eles trabalhem junto com os
alunos. Quero promover uma integração da escola com a comunidade. Resgatar o que as
pessoas têm para contar sobre o município. Consegui muitas fotos, informações sobre os
17
aspectos culturais, sociais, religiosos, e está tudo num CD que está rodando pela cidade. Eu,
como professora, também trabalho nesse sentido, de passar para o meio escolar a melhor
maneira de resgatar a cultura de um município.
Gilda Meireles – Sou professora, natural de Vassouras, mas eu e minha família escolhemos
ficar aqui para viver nossas vidas. Escolhi a área de escrever, e lido com poesia, além de
educação. Fiz edições independentes, até que uma editora de Juiz de Fora me descobriu, por
acaso. Sou sócia-fundadora da Academia de Letras de Vassouras. Atuo como professora de
Filosofia, Psicologia e Didática. Escrevo crônicas para o jornal Tribuna do Interior. Meu sonho
é editar um livro com uma seleção desses textos. O jornal já vai completar 25 anos. Tenho
um livro em que o mote são as cores. A biografia do negro, do branco, do verde... Produzi um
gibi sobre o Vale do Paraíba. E participei de um Fórum de Cultura aqui na região, anos atrás.
(Ao final de seu pronunciamento, Gilda Meireles leu um pequeno poema de sua autoria).
Isabela Torres – Sou professora de História e membro do Conselho Municipal de Cultura
de Paraíba do Sul. Em meu livro, que é originado em uma tese de doutorado, falo sobre uma
colônia agrícola de ex-escravos. Mostro o racismo e o preconceito por conta de uma história
de escravidão. No passado, a Condessa do Rio Novo deixou a colônia como herança para exescravos. Eles foram obrigados a obedecer a uma irmandade da elite local. Trabalhando duro,
eles dobraram a produção da colônia em apenas um ano. Mas ficaram sem investimento e
a colônia acabou sendo dividida. As pessoas de classe mais baixa não foram ouvidas e
perderam suas terras. O final do livro mostra o desinteresse político de manter a colônia, que
depois se transformou no bairro de Vila Isabel de hoje. Em meu trabalho, tento mostrar que
os negros foram capazes de fazer algo positivo, que houve ex-escravos que conseguiram se
inserir positivamente na sociedade.
José Carlos Tambasco – Devo dizer a vocês que sou um retardatário na História. Nasci em
Vassouras, saí daqui cedo e fui para Volta Redonda. Minha vida tomou dois rumos diferentes:
fiz Engenharia em Ouro Preto e trabalhei em siderurgia numa multinacional. Aos 55 anos
de idade, vi que as empresas colocam a gente na rua, com dignidade e aposentadoria
complementar. Que fazer, então? Fui fazer vestibular e graduação em História em Minas
Gerais. E depois fiz Mestrado e Doutorado na UFF. Tenho trabalhado muito com a história
de Vassouras. Meu primeiro livro se intitula A Vila de Vassouras e a Freguesia do Tinguá.
O terceiro aborda a economia do café. Em Minas, escrevi livros sobre a cidade de Caeté,
história do ouro e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade, que é um repositório de arte,
inclusive de obras do Aleijadinho. Nenhum dos meus livros foi publicado. O problema não
é ter ou não uma editora. Por aqui temos gráficas e editoras de qualidade. O que falta é a
distribuição das obras dos escritores do interior.
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Júlio Fidelis – Sou economista, professor de História Econômica. Dedico-me a estudar os
pequenos proprietários do Século XIX, a produção de um grupo social formado por pequenos
e médios cafeeiros de Resende. Que gostavam mais de ser chamados de fazendeiros ou
de lavradores. Resende criou uma sociedade diferente aqui no Vale, com mais distribuição
de renda. Não há um perfil único no Vale do Café. Em meu estudo, pesquisei a presença
do Imperador Pedro II em Resende, que veio de surpresa, para conhecer a famosa poetisa
Narcisa Amália. Sua Majestade teve que passar pelo meio da lama. Quando perguntaram a
ele o que viera fazer em Resende, ele respondeu que queria conhecer uma padaria, onde ele
sabia que encontraria Narcisa. Ela foi importantíssima e é mencionada nas obras de Machado
de Assis e de Fagundes Varela. Dom Pedro, inclusive, chegou a conceder a Ordem da Rosa
ao pai dela. Para conhecer a poetisa, o imperador aceitou participar de uma grande festa
na Loja Maçônica de Resende. Poucas vezes ele entrou em um espaço como esse, embora
convivesse com muitos maçons à sua volta. Ao final, satisfeito, ele decidiu doar um florete
de corte à Loja Maçônica e com isso todo maçon da Loja poderia se avistar diretamente
com ele. E ele deu um sabre da Guarda real. Tudo isso foi muito significativo para a Loja,
pois, como vocês sabem, o simbolismo é muito importante para a maçonaria. Além disso,
os cafeicultores da região eram, em sua maioria, maçons, por volta de outubro de 1874.
Quanto à poetisa, ela largou o padeiro e casou-se de novo – e morreu pobre, infelizmente,
na condição de professora. Hoje estamos fazendo a reedição da única obra de Machado de
Assis, intitulada Terras, em que ele faz a defesa da pequena propriedade.
Ana Seraphim – Trago as saudações do interior, da província, à Corte... Há muitos anos
atrás, o primeiro vestibular que fiz foi para Museologia. Abandonei e fui fazer Jornalismo.
Trabalhei na área internacional e, um dia, em Ouro Preto, tive uma experiência histórica:
naquele momento, decidi abandonar tudo e voltar ao meu início. A História me mobiliza.
São tantos que trabalham seriamente, são relatos tocantes. Sou historiadora, professora,
há 14 anos. Dirijo uma pequena firma de turismo cultural e desenvolvo projetos na área de
cultura (exposições). No momento, sou Diretora de Turismo do PRESERVALE. Quando montei
a minha firma, o Instituto estava se organizando e a Sônia Mattos e o Roberto Lamego foram
as primeiras pessoas a me receber, a me abrir os braços – e começamos juntos a nossa
caminhada. Nos últimos anos, desenvolvi o projeto Luzes sobre o Vale (uma exposição para
o SESC). Essa mostra circula pelo Vale até hoje. Tem fotos de Joaquim Marçal. Refizemos os
caminhos do Século XIX no Século XXI. No momento, trabalho em outra exposição, chamada
História Viva, que está sendo construída. Na Bienal do Livro, montei um estande de café
(marca Faraó, de Volta Redonda). A Prefeitura também patrocinou e agora estou refazendo
meu livro sobre o Vale. No fim do mês, estarei lançando a revista eletrônica Vale do Café
Online. Quero contribuições, pois há espaço para contribuições científicas e técnicas.
Entendo que muito se faz nas universidades da região: estudos, pesquisas, muitos
trabalhos de qualidade. Vou mostrar em primeira mão trabalhos que orientei e que serão
defendidos hoje à noite, como é o caso, por exemplo, de A importância do legado da
família Faro, que aborda as características da família agrária. Outro trabalho, Quilombo
de São José da Serra, mostra o turismo como possibilidade de auto-sustentação em nossa
região. E, por fim, menciono um trabalho sobre o turismo sociocultural em Barra do Piraí,
no qual os levantamentos feitos são muito importantes para a região.
Jussara Pereira de Almeida – Eu sou um pedacinho de Minas e da Bahia. Vassouras
me acolheu num cantinho gostoso que se chama Brás de Pina. Leio a história dos outros
e transformo em poesia. É meu jeito de arrancar muitos risos das pessoas. Minha paixão
é a Escola Abel Machado, onde trabalho a literatura de cordel com as crianças. Os
alunos fizeram um trabalho muito legal. Alguns amigos descobriram que eu escrevia.
Por isso, sou membro da Academia de Letras de Vassouras. Fiz um cordel intitulado Um
homem arretado. O segundo foi As proezas de um homem aprumado. O terceiro, sobre
alfabetização, chama-se Ivo viu a uva. O quarto é A rainha do biscoito e versa sobre
uma amiga minha. Gosto muito de história e gosto de ajudar as crianças e entrar nesse
universo.
Lielza Machado – Fui professora de muitos nesta região. Sempre fui apaixonada pela
história e achei muitas histórias interessantes. Fazer história comparativa é a nossa
grande riqueza, é algo que amplia o nosso conhecimento. Lecionei quase 40 anos. Sou
19
da turma fundadora, da instituição, a primeira turma de História da SOBEU. Escrevi um
romance, A mansão do repatriado, que é sobre a libertação dos escravos. Me envolvi
com Vassouras e escrevi O roteiro turístico de Vassouras (com algo sobre Paty do
Alferes e também Miguel Pereira). Meu segundo livro foi Imagens de Vassouras, este
sim, exclusivamente sobre o município. O terceiro, que se chama Vassouras, recanto
histórico do Brasil, a Prefeitura costuma oferecer aos nossos visitantes. O município
é muito rico em história, tem muita história para contar. Tenho prazer de lidar com
isso e mais prazer ainda de olhar para essa platéia e ver que há muitos jovens aqui,
pesquisando e estudando. Espero que essa bandeira seja levada adiante, pois a História
deve ser colocada no mastro mais alto de todos. Muitos acadêmicos também estão aqui
presentes. Por isso, dou os parabéns à Light, e parabenizo a nós todos...
Professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues – Informo a vocês que podem trazer
os livros que escreveram para divulgar aqui no nosso encontro. Eles podem ficar em
exposição e até mesmo serem colocados à venda.
Maria Lúcia Mexias Simon – Meu sobrenome, Mexias, é a forma em galego da palavra
Messias. Minha família está entre os primeiros ocupadores da região. Fiz Mestrado e
doutorado na UFRJ e Pós-doutorado na USP. Sou membro da Associação Brasileira de
Tradutores, da Associação Internacional dos Lusitanistas e também da Academia de
Letras de Vassouras. Meu livro, O falar da escravidão, é resultado da minha tese de
doutorado, e aborda o fato lingüístico inserido na sua moldura socioeconômica. A filologia
românica é minha especialização. A filologia é a disciplina que estuda uma cultura através
de seus monumentos literários. Meu livro faz uma arqueologia da linguagem, sempre
numa moldura socioeconômica. Trato dos enunciados da região, ligados ao problema
da escravidão, que criou diversos hábitos lingüísticos. Por exemplo: tudo que é errado
é negro: denegrir, lista negra etc. Procurei mostrar como o fato histórico da escravidão
entranhou-se na linguagem. Pesquisei no processo a tradição oral: fiz entrevistas com
descendentes de escravos. Eles negam terminantemente os maus tratos sofridos por
seus ancestrais. Uma entrevista chegou a dizer que o patrão era muito bom... “Maus
tratos eu estou sabendo pela TV, da minha mãe nunca ouvi isso não...” – disse ela.
Outros justificaram os maus tratos: “Está certo, quem não trabalha não tem direito de
comer...”. Pelos documentos da época vejo castigos como 200 chibatadas em escravos.
Os jornais da época falam, os descendentes negam. Os documentos paroquiais estão
muito bem conservados (na sua maioria, referem-se a batizados). O arquivo cartorário
está um primor. Os periódicos da época eu os encontrei na Biblioteca Nacional. Já
o nosso Arquivo Municipal está sem condições de manuseio. E trabalhei muito com
depoimentos orais. Hoje, tenho uma pesquisa em desenvolvimento, que está à espera
de uma chancela e também de verba. O jornal O Município só é encontrável no Rio
de Janeiro. Deixo aqui os nomes dos meus orientadores. No mestrado, Francisco Luiz
Vinhosa. No doutorado, Geraldo de Oliveira Boclair e Ana Maria da Silva Moura.
Raimundo César Mattos – Sou professor de História da Fundação André Arcoverde.
Fazemos um levantamento da documentação histórica para digitalização. Trabalhamos
com documentos da Câmara Municipal de Valença, do Século XIX. A orientadora do trabalho
é Filomena Gebran. Na Fazenda Santo Antônio do Paiol, encontramos importantes cartas
históricas. O nosso centro de Documentação Histórico está bem, digitalizando tudo isso.
Em junho, foi realizado o IV Fórum de História Regional, com a presença de acadêmicos,
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que discutiram as famílias e as identidades do Vale do Paraíba. Os alunos de graduação
ainda resistem a fazer pesquisas regionais, alegando que não há documentação, mas
a verdade é que ela existe. O nosso site é: www.faa.edu.br/cdh.
Roberto Guião – Nasci em Valença, lá fiquei até terminar o Ensino Médio. Trabalhei
numa siderúrgica. Há anos atrás, me tornei aprendiz de História. Tenho um arquivo com
muitas fotografias, por causa da minha paixão sobre o tema das fazendas. Depois me
arvorei a escrever, pois percebi que poderia deixar um legado. O ciclo cafeeiro permeou
o vale paulista, o fluminense e o mineiro. Tenho um panorama do café no Vale do Paraíba
do Brasil Imperial. Já produzi dois livros. Um que reage contra as pessoas que acham que
a CSN e Vota redonda são sinônimos. Quero mostrar que na cidade aconteceu o ciclo
do café, em meu livro Volta Redonda do café e do leite – 140 anos de história. A cidade
viveu os três ciclos, e não apenas o ciclo do aço. O outro livro é sobre a Fazenda Três
Portas, que é a mais importante de Volta Redonda. Meu arquivo está à disposição de
todos, na minha casa, é só marcar hora...
Sérgio de Lima – Minha formação aconteceu na Escola de Belas Artes (quando ainda
era do Brasil, no nome). Desde cedo fui levado ao campo da Museologia, porque torneime professor na área de Arte. Tive alguns privilégios na minha vida. Como artista plástico,
como professor e agora como escritor. Vou a Academias de Letras, a convite, para falar
sobre cultura. Sou livre docente da UFRJ e sempre tive interesse na arte produzida no
período colonial, que é muito afetada por sucessivas restaurações. Trabalho no Museu
Histórico Nacional em restauração de material. Logo fui chamado para trabalhar em
Portugal. Fiz um programa sobre exames físicos de materiais. Lá havia um importante
laboratório e ali trabalhei com gente igualmente importante nessa área. Ao voltar para
o Brasil, me matriculei em um curso de pós-graduação. Fiquei amigo de Rodrigo Melo
Franco de Andrade e fui convidado para trabalhar no México, no Centro de Recuperação.
Lá, acompanhei o mais importante especialista da época. Agora, tudo que tenho para
fazer está no Brasil. Vim para Vassouras para ver uma coleção de arte (pinturas) que
está numa fazenda histórica. Fui convidado por já ser bastante conhecido na área de
restauro. A imagem de Vassouras se fixou indelevelmente na minha mente. Falei com o
General na Severino Sombra e acho que a região tem muito potencial para trabalho em
restauro. Estou esperando até hoje...
Ligia Vaz – Vou falar do trabalho que temos feito em Paraíba do Sul, no ano de 2004,
dentro da temática de preservação. O senhor Nicolino Visconti tinha 150 fotografias da
cidade, registrando o patrimônio material, o cotidiano do município etc. Ele ofereceu o
acervo para fazer um museu. Pedimos colaborações aos moradores, para criar um museu
iconográfico. A coleção se estendeu e peguei também a parte social: manifestações
populares, carnaval, procissões, esportes etc. Estamos montando uma exposição, com
uma parte digital e a outra em painéis fotográficos. Cada painel é um ponto de referência
para a história da cidade.
Sônia Mattos – Muitos já me conhecem. Meu avô foi o Comendador Bernardino
Correia de Mattos. Tenho ligação com o meio rural desde pequena. Me tornei amante
da história do Vale, porque é pouco conhecida. Na Fazenda Santo Antônio do Paiol,
que é vizinha à minha fazenda, Vista Alegre, foi arrendada dos padres por uma família.
Escavando os porões, essa família encontrou documentos históricos. Um dia me convidaram
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para almoçar e me ofereceram a documentação para estudar. Descobri então que o Barão
de Vista Alegre jamais morou na Fazenda Vista Alegre. O Visconde Joaquim Gomes Pimentel
foi quem de fato morou na fazenda e descobri que foi ele quem criou a Banda de Música
do Preto Estanislau. Pimentel montou na região a primeira escola de alfabetização de
filhos de escravos, chamada de Escola de Ingênuos. Ele faleceu sem dinheiro, com os bens
hipotecados e tudo sobre ele foi para a Fazenda do Paiol. Essa história ficou por 100 anos
esquecida. Ela evidencia a importância dos arquivos privados em nosso Vale. Cada família
tem documentos potencialmente importantes. A coleção de Santo Antônio do Paiol ainda
está aí. Em 2001, a ordem religiosa que é dona da fazenda resolveu fazer uma obra e,
com o telhado a descoberto, toda a biblioteca se molhou. Conseguimos levar os livros para
Vassouras para catalogar e sanitizar. Foram feitas fotos, que estão num CD. Diversas teses
de Mestrado usaram essa documentação. Os acervos pertencem às casas. Levei o acervo
de volta para a fazenda, com mais 10 CDs referentes à sua digitalização. Os pesquisadores
deveriam ter um computador para trabalhar. Não conseguimos verba do BNDES para
completar a digitalização. A história dos personagens que montaram o Ciclo do Café está
sendo contada hoje, e a “jóia da coroa” são os arquivos privados. Através de arquivos como
esse, ficamos sabendo de fatos curiosos, como este quando a fazenda foi visitada pelo
Conde D`Eu em 1873, Pimentel tomou todas as providências para que o nobre visitante
não visse as suas tulhas vazias. E foi ele quem criou a primeira escola para crianças
negras. Tudo isso é História do Brasil, não apenas da região. Os arquivos mostram que
nossa história é bonita e que merece ser lida e interpretada.
22
Antônio Brant – Agradeço ao Instituto Light o convite e ao ICCV pela eficiência e presteza
no suporte à nossa vinda a Vassouras. Sempre gostei de História, desde a infância,
pois nasci num casarão senhorial, cercado por documentos bicentenários. Maduro, me
interessei ainda mais por História e me dediquei a trabalhar com a Zona da Mata de
Minas Gerais, em especial a história política da região. Escrevi livros. O que realmente
me despertou para o tema foi descobrir equívocos sobre a história da minha região. Por
exemplo: a cidade de Ponte Nova teria sido fundada por um padre. Mas, um belo dia,
consultando um arquivo particular, vi uma carta de 1770 comentando que na época as
estradas eram abertas a facão e que dois ou três meses depois a mata voltava a se fechar.
Isso me animou a fazer mais pesquisas. Olhando certidões de nascimento datadas de
1742, que informavam sobre pessoas que nasceram na capela, verifiquei que o povoado
já existia 30 anos antes da data prevista para a fundação da cidade pelo cônego. Descobri
que as cidades surgiam, não eram fundadas. Surgiam principalmente do pouso das tropas,
do descanso dos tropeiros. Sobre a Revolução de 32, descobri outro equívoco: Bernardes
foi preso numa mata, algemado e deportado para Portugal. Sua participação no conflito
não foi heróica, como registra a história oficial. Tenho descoberto fontes inesgotáveis de
pesquisa na minha região: arquivos particulares e paroquiais, que ainda não estão abertos
ao público. Graças à minha paixão pela história, consigo salvar coisas importantes. Um dia,
vi um amigo com uns papéis antigos, que estava esperando pelo lixeiro. Levei tudo para
casa. Eu tinha pelo menos 32 Decretos de Nomeação dos Imperadores Pedro I e Pedro II,
além de cartas de condes. Tudo isso, hoje, está protegido num arquivo de Belo Horizonte.
Por isso digo que Vassouras deveria fazer um levantamento dos arquivos particulares,
que deveriam também ser digitalizados e disponibilizados na Internet.
Oficina de História
O professor Luis Reznik apresentou aos participantes do Encontro o projeto Caixa de
História, desenvolvido pelo Departamento de História da PUC-Rio.
Luis Reznik – As atividades estão organizadas em dossiês, dentro da Caixa. Há objetos como
mapas históricos e mapas mundi, entre outros – e o Guia do Professor, com o passo-a-passo
das atividades a serem desenvolvidas. É um produto da nossa reflexão sobre o que é pesquisar
e ensinar a História. Os alunos re-trabalham a própria atividade, com a mesma metodologia. A
Caixa tem um CD que contém todas as atividades previstas.
Nossa proposta é fazer uma dinâmica de grupo, enfocando as narrativas históricas sobre
o Vale do Paraíba, tomando como referência os conteúdos que preparamos para o município
de São Gonçalo, onde fizemos a nossa pesquisa para o projeto. As atividades são organizadas
conforme os vestígios históricos que estão dentro da Caixa, conforme apresentei nos slides do
power point projetado na parede. Cada grupo ficará com uma das atividades. Por exemplo, um
dos vestígios são fotos. O grupo deverá, então, pensar na foto como instrumento: que tipo de foto
poderia ser interessante para se pensar a história do Vale?
Foram formados 12 (doze) Grupos de Trabalho, que utilizaram os vestígios históricos constantes
da Caixa de História para verificar se a metodologia era adaptável à região do Vale do Paraíba.
Cartografia – Idéia: situar o rio Paraíba em relação à região. O rio nasce em São Paulo, passa
por Minas Gerais e, no Rio de Janeiro, atravessa Resende, Itatiaia etc. O desenvolvimento da
região é intimamente ligado ao Rio, pois já houve transporte fluvial no passado. Os bandeirantes
que chegaram a Resende foram para as Minas Gerais, em busca de ouro e pedras preciosas. O rio
une Rio e São Paulo, como importante eixo econômico. Com a febre do ouro, surgiram os barcos
para fazer o transporte do café. Com o advento da ferrovia, os barcos deixaram de navegar.
Comentário de Luis Reznik – Tiveram que usar a imaginação. Porque a representação
cartográfica é diferente e seus autores têm objetivos diferentes em cada época. Colocamos
paradas de trens nos mapas (que eram as mais importantes na época do Ciclo do café). Os
adensamentos da região variam conforme as épocas históricas. Quanto à toponímia dos mapas,
é preciso considerar que, em um mapa do Século XVII, há relevância para as igrejas. Em outro
mapa, de outra época, são justamente os rios que se destacam.
Construções Arquitetônicas – Com base em fotos, deve-se ver se a imagem é antiga, se
é rural ou urbana. As fotos antigas foram refeitas anos mais tarde e não houve modificação
na paisagem dos prédios, mas houve no seu entorno, na paisagem ao redor. A Igreja Matriz,
no Centro de Vassouras, estava no contexto urbano, não rural (fiamos discutindo sobre isso).
Conclusão: através da análise de fotos, pode-se fazer um trabalho sobre a história das cidades.
Comentário do Grupo sobre Construções Arquitetônicas – A antiga estação ferroviária
de vassouras passou por diversas funções. Pediríamos aos alunos que pesquisassem jornais,
lembraríamos que a estação já foi biblioteca, estimularíamos uma coleta de fotos diversas,
e também entrevistas com pessoas sobre viagens de trem. Como se viajava no município,
no começo do Século XX, para se chegar ao Rio de Janeiro, por exemplo? Como o prédio
influenciou a vida das pessoas? Falar da Fundação e sua força na cidade. Criar uma história
de um menino que foi à festa de inauguração da estação ferroviária (e da biblioteca).
Poderíamos propor pesquisas sobre diversos tipos de trens. Os desenhos de trens poderiam
ser trabalhados de modo complementar, nas aulas de Educação Artística.
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Comentário de Luis Reznik – A idéia é essa, mostrar os usos e funções dos prédios em
épocas diferentes. Um grupo pensou na igreja, outro na estação ferroviária, que hoje tem
uso completamente distinto. O importante é pegar marcos referenciais. No Rio, pensamos
em encenações históricas nas fazendas, uma teatralização para atrair os turistas.
Comentário do Grupo sobre Tradição Oral – Nós não analisamos o conteúdo do
instrumento, mas sim a sua metodologia. Procuramos verificar se ela poderia ser aplicada
ao Vale do Paraíba. Chegamos à conclusão de que sim, poderia. O material sobre o prefeito
de São Gonçalo é controvertido. Há um depoente favorável a ele, outro contra. Com base
nisso, perguntaríamos aos nossos alunos a opinião deles. E também pediríamos que
entrevistassem pessoas com mais de 70 anos sobre o prefeito. Ao final dos trabalhos,
entendemos que o instrumento é interessante e válido.
Comentário de Luis Reznik – O prefeito em questão foi o Joaquim Lavoura, que ficou no
cargo durante três mandatos. Ainda hoje, em São Gonçalo, existe o grupo lavourista, que é
muito forte. O impacto da gestão dele foi muito grande.
Comentário do Grupo sobre Cotidiano Escrito nas Crônicas – Fizemos uma interpretação
semelhante. Percebemos a aplicabilidade do método à nossa região. Caberia ao aluno
fazer a comparação entre o que sobreviveu do passado e o tempo presente. Por exemplo:
em Vassouras temos a Festa de Santa Rita, que acontece no bairro do Madruga. Este
poderia ser o case a ser estudado em nossa cidade pelos alunos de História. Não é algo
complicado, que necessite de muitas explicações, é perfeitamente viável.
Comentário de outro Grupo sobre o mesmo tema – A colega simbolizou a ferramenta
com a Festa de Santa Rita. O aluno sempre acha interessante ouvir histórias sobre o
que aconteceu no passado. Hoje é raro se ouvir o toque de alvorada, o povo acordava
sabendo: hoje é dia da padroeira. Antes eram rezadas missas solenes, tínhamos a missa
do dia 8 de dezembro, para a qual vinha o bispo, todo engalanado, o povo comparecia
em massa – e era servido o almoço da irmandade. À tarde havia procissão e os colégios
compareciam com uniforme de gala. Os colégios iam com as professoras. Então se pediria
ao aluno uma comparação entre hoje e ontem. Hoje o aluno é indócil, não quer mais usar
uniforme. A crônica que analisamos na Caixa de História fala do coronel manda-chuva,
que tinha o beija-mão, o ofício da ladainha. A criança de hoje diria: “Que mundo era esse?”
Desejariam saber quem eram os produtores da festa, como era feita, quem era convidado,
qual era a data de realização... A criança teria muito material para refletir. A crônica é muito
importante numa sala de aula. Principalmente quando se lê a crônica com bom humor,
sem solenidade, tocando o coração da criança...
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Comentário do Grupo sobre Vida Associativa – O tema é muito abrangente, pega um
pouco de cada item. Eu sou de Paraíba do Sul e, logo que entrei para a comunidade, no bairro
do Inema, Havia a famosa Festa de São João, promovida pela Associação de Moradores,
que era muito forte. Os alunos não sabiam por que havia fogueira, não associavam o
mês de junho com festa junina, só sabiam que era uma festa caipira. Elaborei então um
projeto para levar aos alunos o contexto da festa junina. Sem a consciência de que era
um registro associativo. O projeto foi feito por uma professora primária e a Associação de
Moradores. Como temos 5 grupos de dança de quadrilha, o gancho para começar o
projeto foi esse: perguntamos às crianças por quê elas iam vestidas de caipira para
dançar quadrilha na Festa de São João. Descobri um registro do primeiro Festival de
Quadrilhas em 1912.
Em jornal de Paraíba do Sul, encontrei menção às quadrilhas numa edição de 1927. Assim,
sem pensar em nada desse mundo de historiadores, já fiz um projeto semelhante.
Comentário de Luis Reznik – Os integrantes do grupo que organizou a Caixa de História
(5 pessoas) são todos profissionais de nível superior. Eu já coordenei simpósios nacionais
de história local. Não estamos descobrindo a pólvora, apenas recolhemos e sistematizamos
o que existe por aí: é um corpo racional para estimular o ensino e a escrita sobre a história
local.
Comentário de Reznik sobre o tema Mensagens e Relatórios do Prefeito – Ampliamos
nosso tema, pegamos mais assuntos, mais documentos, atas da Câmara Municipal, livros
de tombo, registros paroquiais. Comparamos com os alunos o que nós recolhemos com
outros tipos de documentos (como rádio, internet). Procuramos estimular a pesquisa sobre
a maneira que o Poder Público agia, e se há diferenças em relação à atualidade. Hoje a
informação circula mais rapidamente. O Poder Público, antes distante, hoje é mais próximo
da população. Estimulamos os alunos a comparar o antigo com o hoje e a tirar conclusões
a partir disso. Para ver como o Poder Público pensava as questões municipais.
Comentário sobre Registros de Nascimentos / Casamentos / Óbitos – Este tipo
de documentação é muito rica para se trabalhar com os alunos. É muito disponível em
Valença e Rio das Flores. Assim aprendemos que os escravos eram enterrados em um
lugar ou outro, conforme sua condição social. Esse gênero de registro (óbito / nascimento)
chegou ao Brasil no período colonial. Sua mudança reflete a mudança da estrutura jurídica
do país.
Comentários sobre Fotografias – É o melhor instrumento a ser utilizado com as
crianças, porque elas podem ver as coisas. Vendo as fotos da Caixa, observamos que São
Gonçalo lembra muito Paulo de Frontin, e isso nos emociona. Aqui tudo começou a partir
da construção da linha ferroviária, isso desenvolveu a cidade, veio a industrialização, o
grupo escolar, foram criadas várias praças. Na Caixa há uma foto de um internato e Paulo
de Frontin também tinha uma instituição semelhante, que hoje está desativada. Porque
Paulo de Frontin está decadente, com a falência das suas indústrias. A vocação da cidade,
agora, vai ser o turismo ecológico...
Comentário de Luis Reznik – A professora Lielsa falava da importância de uma história
comparativa. Ter fotos de ontem e de hoje é algo que estimula a comparação. Isso serve
para confrontar os fenômenos recorrentes em São Gonçalo e em Paulo de Frontin. Há
fenômenos recorrentes que se repetem em outras localidades. Devemos pensar no
específico e também nos fenômenos generalizados, recorrentes, de outras regiões. Ao
final desta Oficina, desejo que este Encontro possa ser o primeiro de muitos outros, para
produção de conhecimento para o Vale do Paraíba e para a construção da história local.
Observações sobre a Oficina de História
● Na Oficina coordenada pelo professor Luis Reznik, os participantes aprovaram e validaram
a Caixa de História como instrumento metodológico adequado para uso nas escolas.
● Outras informações serão disponibilizadas em arquivo pdf no site do I Encontro de História
do Vale do Paraíba.
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Atividade Extra:
Projeção do filme Narradores de Javé (Brasil / 2003).
Após a realização da Oficina de História, os participantes do Encontro tiveram a
oportunidade de assistir à projeção do filme nacional Narradores de Javé, que tem como tema
central o relato sobre a origem de uma comunidade do interior da Bahia e que, portanto, traz
à luz as questões com as quais lidam os historiadores, amadores ou profissionais.
Ficha Técnica do Filme
Direção: Eliane Caffé
Roteiro: Eliane Caffé, Luiz Alberto de Abreu
Elenco: José Dumont (Antônio Biá), Matheus Nachtergale
(Souza), Nelson Dantas (Vicentino), Gero Camilo (Firmino),
Nélson Xavier (Zaqueu)
Duração: 100 minutos
Gênero: Comédia / Drama
Sinopse do Filme:
Rodado entre junho e setembro de 2001, em Gameleira da Lapa, cidade do interior
da Bahia, Narradores de Javé conta a história de um povoado que, ao ver a iminência de
ter seu vilarejo inundado pelas águas de uma represa, vê como único modo de impedir o
acontecimento na transformação do local em um patrimônio da humanidade. Para isso os
moradores decidem passar para o papel todas as lendas sobre a origem de Javé, e assim
chamam o escrivão local Antônio Biá para escrever um livro sobre o vilarejo.
Acontece que Biá tinha sido banido de Javé pela população por ter difamado praticamente
toda a cidade através de cartas que ajudaram a salvar seu emprego nos Correios locais.
Mas, no desespero, a população acaba dando esta oportunidade para o escrivão se redimir.
A partir daí, Biá passa a ir de casa em casa na região para passar para o papel as lendas
guardadas nas cabeças dos moradores de Javé. O único problema é que cada morador conta
uma história diferente, e sempre defendendo os interesses de seus antepassados.
O filme é brilhante, ganhou os prêmios principais nos Festivais do Rio e de Recife, onde
em ambos o trabalho não menos magnífico, de José Dumont, foi premiado. Dumont é a alma
do longa, onde pôde treinar toda sua capacidade de improvisação. Praticamente todas as
marcantes falas de Biá, como “piaba de silicone”, “tapioca de exu”, “manicure de lacraia”,
“pokemon de Jesus”, “omelete de cupim”, “desinteria de tinta”, “um dilúvio bovino”, “clonado
26
O que fazemos é
ficcionar a realidade.
de miolo de pão”, entre outras, foram criadas pelo próprio ator.
Este é o segundo trabalho de Zé Dumont com a diretora Eliane Caffé. O primeiro foi em
Kenoma (1998). O longa conta ainda com as presenças de Matheus Nachtergale (Cidade
de Deus), Nelson Dantas (O que É Isso, Companheiro?), Gero Camilo (Carandiru) e Nélson
Xavier (Benjamin), que só ajudam a abrilhantar ainda mais Narradores de Javé. Ao mostrar
o confronto entre o progresso e as tradições de um lugarejo, o filme ainda se preocupa
em citar o problema das terras em nosso país, onde os primeiros habitantes demarcavam,
por si mesmos, a extensão de suas propriedades. Resumindo: o filme é imperdível, e boa
parte disso é por causa de José Dumont que, bairrismos à parte, merecia um Oscar por sua
interpretação.
Ao final da sessão, não houve debate, mas o professor Antônio Edmilson Martins
Rodrigues, que teve a idéia de exibir Narradores de Javé no Encontro, fez alguns breves
comentários:
Professor Antônio Edmilson Martins Rodrigues – O filme, entre outras coisas, mostra a
diferença entre o acontecido e o escrito. Todas as histórias contadas têm uma base comum,
a sua origem mítica. Há uma história diferente para cada pessoa. Nossa condição de sujeitos
da história aparece, ela tem que estar presente. A lição mais interessante do filme é que a
gente deve conseguir fazer da história não só o que dá prazer, mas a nossa capacidade de
compreender os acontecimentos. Não há história sem esse sujeito que narra, assim como
não há história sem interpretação. O que fazemos é ficcionar a realidade. Queremos fazer
um trabalho científico, queremos provas dos fatos, sem ter condições para isso. Cada aula
nossa de história precisa ser diferente e deve acrescentar alguma coisa.
27
Segundo dia do Encontro:
Período da Manhã:
Resumo das Palestras Realizadas
AS DIVERSAS FACES DA HISTÓRIA DO CICLO DO CAFÉ – ONTEM E HOJE
Tema: ASPECTOS DA ECONOMIA MUNDIAL FACE AO APOGEU E CRISE DO CAFÉ NO
VALE DO PARAÍBA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX
Palestrante: Luiz Augusto Mury
Secretário Municipal de Cultura de Barra Mansa
Coordenador do Curso de História do Centro Universitário de Barra Mansa
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As duas atividades que exerço me proporcionaram condições para que eu tivesse uma
visão sobre o desenvolvimento das questões acadêmicas e, através da Prefeitura, logrei
uma aproximação com uma realidade muito interessante, no que diz respeito ao patrimônio
histórico. Agradeço o convite para participar deste Encontro, apresentando o meu trabalho.
No Centro Universitário de Barra Mansa, ontem, tivemos a presença de uma senhora
que participou da primeira turma de formação, em 1970. A duras penas, conseguimos
montar um Laboratório de História Oral, que se tornou o atrativo maior do curso. Realizamos
exercícios de pesquisa de campo. Damos aulas teóricas sobre como entrevistar as pessoas.
Os alunos são monitorados por um professor e eles têm conseguido um bom desempenho.
Há neles um entusiasmo, por estarem ligados ao lugar. Temos fortes tradições culturais e os
habitantes gostam de contar histórias sobre seus antepassados.
Em 2006, fizemos uma pesquisa com ex-pracinhas da FEB, em Resende, Volta Redonda e
Barra Mansa. Pesquisamos também sobre as fazendas de Barra Mansa e seus distritos. Os
dados estão à disposição dos historiadores. Junto com a Fundação do Museu de História de
Barra Mansa, estamos coletando muitos dados a respeito do nosso processo histórico.
Temos um Conselho Municipal de Cultura atuante, embora sem recursos financeiros. Com
a boa vontade das pessoas, temos avançado no processo de manutenção do patrimônio
material e imaterial de Barra Mansa.
Um dos problemas que temos refere-se ao tombamento. Na verdade, os problemas do diaa-dia são muito intensos. As fazendas históricas estão bem ou mal conservadas – e algumas
estão muito descaracterizadas. O casario de Barra Mansa está sendo demolido, apesar das
tentativas de preservá-lo. Uma das nossas estações ferroviárias teve um incêndio criminoso
do telhado, para que houvesse infiltração. Pessoas conseguiram verbas de empresários
amigos e a estação abrigou por um tempo a Biblioteca Pública de Barra Mansa, e agora vai
ser um Centro de Artes Plásticas.
Em Barra Mansa, temos um projeto ambicioso de música há três anos, que proporcionou
o estudo de música para 3.000 crianças, a formação de uma orquestra sinfônica com dois
maestros e 104 componentes, que inclusive já se apresentou no Rio e em São Paulo. Logo
a orquestra irá para Olinda (PE) e também à Argentina. Trata-se de um projeto de inclusão
social que vai muito bem. As crianças, inclusive, têm direito a levar os instrumentos musicais
para estudar em casa. Trabalhamos com incentivos fiscais, inclusive da Light, da Votorantim
e da Nova Dutra. Nosso orçamento anual é de R$ 1.800,000,00. A cidade tem demonstrado
um interesse muito grande por todos esses trabalhos.
No campo do patrimônio, há uma luta para neutralizar a publicidade agressiva dos
outdoors que enfeiam nossa cidade. Os empresários, os comerciantes, não entendem
que uma fachada histórica limpa valoriza o prédio. Eles querem publicidade agressiva.
O antigo Cine Palácio, ocupado pelas Casas Bahia, tem painéis de publicidade feios.
Pedimos muito para que eles fossem retirados, mas os comerciantes não queriam, porque
pagavam uma taxa por isso. E a fachada do prédio, que é muito elegante, ficou prejudicada.
Um dia pediram uma licença para construir um mezanino. Então negociamos com eles a
retirada dos painéis que escondiam a beleza da praça. Eles aceitaram o acordo, tiraram
todos os painéis e a beleza da arquitetura voltou a aparecer. Eles colocaram no local apenas
uma pequena placa com o nome das Casas Bahia e toda a cidade ganhou com isso, porque
a população passou a poder admirar a fachada dos anos 20. Eu escrevi um artigo elogiando
a atitude como exemplo a ser seguido no município. Mas, quando estava tudo muito bem,
eles entraram com novo pedido para recolocar os painéis, e desta vez muito mais agressivos.
A Prefeitura não aceitou. Comentei aqui apenas uma luta, um caso específico, de uma cidade
que tem centenas de problemas desse tipo.
Queremos registrar aqui também uma vitória: conseguimos o tombamento da Igreja
Matriz do Amparo. Isso vai facilitar muito o restauro de um dos patrimônios mais bonitos do
nosso estado.
Sobre o meu trabalho Aspectos da economia mundial face ao apogeu e crise do café
no Vale do Paraíba na segunda metade do século XIX, quero começar dizendo que, quando
falamos com nossos alunos, eles sempre nos questionam sobre a decadência do Vale. Foi
mesmo um processo inexorável? Não havia outra solução para os Barões do Café a não ser
entrar em decadência? Trago uma constatação de que fora do Rio estava acontecendo a
segunda Revolução Industrial, que é outro cenário que envolvia empresários e financistas,
que influenciou a decadência do processo cafeeiro, que acabou de vez com a chegada da
Abolição da Escravatura. No trabalho, também faço menção à figura histórica proeminente
de Valinho de Banal, um fazendeiro poderoso, que chegou a ser fiador do próprio Império.
Tema: O CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA DA USS
UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA
Palestrante: Professor Magno Fonseca Borges
Mestre em História pela USS – Universidade Severino Sombra
Coordenador do Centro de Documentação Histórica da USS ­—
Universidade Severino Sombra
Agradeço muito a oportunidade de estar neste Encontro. O evento está sendo
extremamente estimulante. Saí daqui ontem e tive uma noite péssima, dormi mal e isso é que
vou compartilhar agora. Eu ia apresentar um trabalho sobre a trajetória de africanos e afrodescendentes no Vale do Café, mas deixei tudo guardado, porque vocês me geraram muitas
inquietações e muitos transtornos. E talvez as minhas angústias não sejam só minhas.
Tenho trabalhado ao longo dos anos com a história e a cultura do Vale do Café. Dez
anos só no Centro de Documentação Histórica. Algumas das minhas atividades têm sido
profícuas, outras voláteis. Carrego um conjunto de erros e acertos. Coletei grande número de
amigos e de parceiros. Errar é humano, eu sou humano e as instituições são administradas por
humanos que erram e acertam.
O privilégio do acerto é de poucos. E do erro também. Na prática, só erra ou acerta
aquele que faz. Nesse processo, fui envolvido por pessoas. Nesse ponto, sou um privilegiado.
Lielza Lemos Machado muitas vezes me trata de forma carinhosa por “broto” (assim como
outras pessoas). Broto dessa experiência, desse acúmulo que foi construído e zelado com
carinho pela Universidade Severino Sombra. O trabalho me deu oportunidade de refletir sobre
história regional.
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Agora já posso compartilhar as angústias. Abdicar de falar de africanos e afrodescendentes tem a ver com o próprio evento. Juntou pessoas que partilham das mesmas
angústias e dos mesmos esforços. Muitas vezes nos vemos isolados, tentando caminhar
sozinhos...
O Vale do Café precisa ser visto como projeto e como reflexo da nostalgia imperial.
Em 1824, na bandeira do Brasil Império já havia a presença do ramo de café (que não
era o principal produto de exportação brasileiro, pois era a cana-de-açúcar). O café indica
literalmente um projeto de nação, um império a ser edificado sobre a experiência do café. Nesse
horizonte, é preciso olhar para os cafeicultores do Vale do Paraíba como empreendedores.
Por um lado, plantavam café, por outro, o fumo. E a cultura cafeeira dependia de mão-de-obra
escrava. O Vale, enquanto produtor de café, emerge como um projeto de nação. A relação de
trabalho entre senhor e escravo tem que ser revista em larga escala, ao se pensar em termos
de Brasil Império. Os barões eram parceiros de um projeto de nação. As plantações de café
precisavam, no mínimo, de cinco anos para ter uma produtividade economicamente viável.
Isso muda toda a relação de análise e isso é angustiante.
Apogeu e crise do ciclo do café – sensação que percorreu quase todo o Século XX:
a nostalgia imperial, a construção da terra dos barões. Como uma nostalgia pode gerar um
reflexo que não seja o medo e um passado desenraizado?
Excluímos grande parte da população que não consegue criar qualquer vínculo
de pertencimento a essa história. E ainda nos perguntamos como as pessoas são pouco
participativas... O prédio histórico está caindo e as pessoas não se movimentam. Porque
teimamos em construir uma história que desenraiza as pessoas?
Outro problema sério: as universidades que vêm falando por si mesmas no que
tange ao conhecimento histórico. A urgência dos prazos de realização dos trabalhos
cria barreiras entre a universidade e a população. Além disso, as questões estudadas
são pouco vinculadas às comunidades. E levam muito tempo para chegar aos bancos
escolares – essa é outra angústia.
Os professores de História estão cada vez menos estimulados e tratados apenas
como meras enciclopédias que decoram nomes e datas. Pouco valorizados na produção do
conhecimento local.
Temos também a questão patrimonial: as fazendas históricas estão distantes e
fechadas às populações locais. Os prédios históricos, fechados e inacessíveis. Tratados por
gestores públicos como entraves ao desenvolvimento. Aqui foi instalada uma torre de telefonia
celular que a população quis manter como símbolo do progresso. Quando o IPHAN mandou
tirar, foi alvo de agressão. Falamos de desenvolvimento e geração de empregos, mas o
patrimônio é tratado como entrave. O que torna urgente compreender que patrimônio é
algo de todos, é acervo permanente, não é arquivo morto. Muita gente vê os documentos
históricos como um monte de papéis para os cupins. Há um não-envolvimento da população
com a sua trajetória.
Nem tudo são angústias. Existem muitas realizações. Na Universidade Severino
Sombra se preocupa em fazer pesquisas que tenham reflexos sociais e que sejam preservados
os patrimônios e os acervos. Eu respondo pela guarda de três prédios históricos importantes.
E temos de bom o trabalho do Instituto PRESERVALE e este nosso I Encontro de História.
Um senhor pediu a palavra e reclamou: “Tenho tido negada a minha entrada no Centro de
Documentação porque eu porto os equipamentos que necessito, por ser deficiente visual. Não
é obrigação de vocês remover esse óbice? Também é uma angústia e uma indignação...”
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Resposta do Professor Magno – O Centro de Documentação Histórica está fechado para
mudanças. Estamos introduzindo novas tecnologias para garantir melhor acesso ao nosso
acervo. Os nossos documentos passarão a ser pesquisados em sua forma digital. Estamos
desenvolvendo uma tecnologia com apoio da FAPERJ para ampliar imagens. Fomos muitas
vezes solitários na defesa do acervo e na conquista dessa nova tecnologia.
Professor Antônio Brant Ribeiro Filho – Ontem falei destacando a importância dos arquivos
particulares na Zona da Mata mineira, que estão desaparecendo. Refiro-me àquela história
dos documentos que seriam jogados fora e que consegui salvar. Acredito que aqui no Vale do
Paraíba existam muitos arquivos históricos importantes, nas mãos de particulares.
Achei o Encontro maravilhoso, espero participar do vigésimo. Fiquei impressionado
com o número de pessoas interessadas em História. Falta o estudo da pré-história. Descobri
que a primeira lavoura plantada em Vassouras foi no ano de 1792, e que o primeiro sesmeiro
fundador da cidade.
Professora Lielza Lemos Machado – O professor José Carlos acaba de lançar um livro sobre
essa pré-história. Segundo ele, essa primeira plantação não era uma lavoura, mas uns pés de
café plantados no jardim, como plantas exóticas.
Tema: OS BARÕES DA ZONA DA MATA DE MINAS GERAIS
Palestrante: Professor Antônio Brant Ribeiro Filho
Curador do Museu da Escola do Centro de Referência do Professor da Universidade Federal
de Viçosa (MG)
Presidente da Sociedade Pró-Memória de Ponte Nova (MG)
Membro da Academia de Letras de Viçosa (MG)
Jornalista (colabora para seis jornais/revistas da região)
Historiador (publicou 12 livros sobre história de Minas Gerais)
Professor Antônio Brant Ribeiro Filho – Na Zona da Mata, a Abolição não abalou a economia
do açúcar. E ainda houve grande imigração de italianos e portugueses. O plantio do café era
feito de forma pouco correta, com técnicas ruins, que empobreciam o solo. Esse foi um fator
que contribuiu para a decadência do ciclo cafeeiro. Acho que o nome Vassouras decorre da
existência, por aqui, de muitas plantas das quais se faziam vassouras...
Temos um patrimônio na Zona da Mata mais ou menos da mesma idade do Vale do
Paraíba. Mas com características arquitetônicas completamente diferentes. Os fazendeiros
tinham suas residências grandes, mas em estilo colonial mais simples. Comparando a
Fazenda Secretário com a Fazenda Canoas, vamos ver de um lado a capela, do outro o quarto
de hóspedes. O Barão do Café não pegava na enxada, nem o mineiro na bateia, mas precisava
ficar no local para evitar roubos.
Tema: TRANSMISSÃO DA HISTÓRIA DAS CIDADES NAS ESCOLAS
Palestrante: Renata Vereza
Professora de História / Representante do Instituto São Fernando
Professora Renata Vereza – Estou aqui para relatar um projeto de Vassouras, patrocinado
pelo Instituto São Fernando e que consiste em Oficinas de Educação Patrimonial.
Começamos no ano passado (2007), com 40 alunos de primeiro grau e outros
do Ensino Médio. Nosso objetivo era associar a idéia de patrimônio com memória e esta
com identidade. Não há a menor identidade entre os alunos e a memória dos barões
do café...
Como falar de um patrimônio que não faz sentido? Como apresentar um pretenso
patrimônio para essa molecada e seus pais? Quem milita com essas comunidades sabe
dessa realidade. Procuramos, então, inserir esse patrimônio numa lógica para eles e ao
mesmo tempo valorizando o que a própria comunidade considera patrimônio. O trabalho
gerou um site: www.cedac.org.br/almanaquedevassouras.
A mesma entrada dá sempre duas opções: a história oficial e a versão de como os
alunos entenderam. Assim valorizamos a história dos alunos e de seus distritos.
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Neste ano, o projeto continua, por conta da receptividade dos alunos. Uma garotada
que gosta de funk, de conversar pelo MSN, visitou as fazendas históricas, e fizemos todo
um preparo antes. É interessante ver como o patrimônio passou a ter um sentido novo para
eles. Neste ano, também estamos formando professores, numa metodologia semelhante à
que fizemos ontem, com a Caixa de História, aqui em nosso Encontro. Claro que não temos
um material elaborado como o da Caixa, mas treinamos professores do município e do
estado para fazer o link entre a história e a comunidade. Nosso objetivo é que os professores
multipliquem a metodologia.
Aproveito a oportunidade para indicar o Laboratório de Educação Patrimonial da UFF
– Universidade Federal Fluminense, que é ligado ao IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional e pode ser parceiro no trabalho dos professores.
Voltando ao nosso projeto: no momento, precisamos levantar verba para preparar o
material de educação patrimonial.
Em princípio, professores de outros municípios não podem, ainda, participar deste
nosso treinamento. Até porque queremos ver o resultado deste projeto inicial antes de leválo em frente, para outros espaços.
A construção do patrimônio é subjetivada e há necessidade de um maior diálogo
com as comunidades, porque senão o conceito só fará sentido para um grupo muito
pequeno.
Tema: EDUCAÇÃO PATRIMONIAL
Palestrante: Sérgio Linhares Miguel de Souza
Diretor do Departamento de Pesquisa e Documentação do INEPAC – Instituto Estadual do
Patrimônio Cultural
O INEPAC está fazendo um trabalho muito grande aqui na região, que é o Inventário
das Fazendas Históricas do Vale do Paraíba. E também estamos desenvolvendo um projeto
integrado de educação para o patrimônio cultural, que envolve os professores e suas
comunidades, com o intuito de preservar a memória. Outro projeto importante foi a edição
de uma obra raríssima sobre o Santuário Mariano, que foi fotografada e redigitalizada, junto
com fotos das imagens das Nossas Senhoras do Rio de Janeiro.
O nosso Programa de Educação patrimonial é uma das vertentes de todo o nosso
trabalho. Vamos começar com um projeto-piloto na Baixada Fluminense, através das
seguintes etapas:
1 – Realização de um Seminário;
2 – Publicação de uma revista especial para crianças e adolescentes;
3 – Publicação do livro Programa Integrado de Educação para o Patrimônio Cultural;
4 – Publicação de um folheto sobre Preservação e Tombamento de bens culturais;
5 – Publicação do guia Arte Sacra Fluminense;
6 – Publicação do livro Memória Fotográfica;
7 – Publicação de dez livros de textos sobre as regiões de governo;
8 – Desenvolvimento do Inepaquinho digital.
Estão previstos dois livros:
a) Baixada fluminense: a construção de uma história;
b) Baixada fluminense: memória fluminense
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Queremos mostrar que a riqueza de nossa cultura está em nossa diversidade
etnocultural. Nós nos baseamos em teorias pedagógicas de Wallon e de Vigotsky. Uma
dessas teorias afirma que a afetividade é importante no processo, porque, para que os
indivíduos reajam, para que se formem, dependem do outro. O outro é o meu complemento.
Investir na formação do indivíduo na linha do patrimônio cultural é investir na sua
consciência como cidadão.
Nossa perspectiva é a da formação continuada dos professores. Quem produz texto
para professores deve trazê-los para conversar. Não se pode jogar o pacote pronto para
quem está na escola.
Trabalharemos com o patrimônio em quatro categorias: arquitetônico / natural
/ intelectual / imaterial.
Os municípios também podem fazer outras ações, além do tombamento. Criar
APACs – Áreas de Preservação Cultural, por exemplo. E é fundamental compreender que,
somente quando a comunidade o assume, é que o patrimônio está seguro.
Devemos ser gratos aos colecionadores, pois, se eles não existissem, muita coisa
se teria perdido.
Foi sugerida, neste momento, pelos participantes do Encontro, a criação de cursos de
pós-graduação em Educação Patrimonial.
Fernando Portella – A partir de agora, devemos fazer muitas reflexões sobre tudo o que
foi falado. Precisamos da cultura para nossa saúde plena. Por que a farmácia cuida do
corpo, mas não cuida da alma? Precisamos pensar na retomada do Fórum estadual de
Cultura, para que os secretários municipais voltem a se encontrar, trocar experiências,
interagir, realizar projetos coletivos regionais.
Eu sempre gosto de lembrar uma frase de um amigo meu, que é botânico, segundo
a qual “a única verdade que existe é a lenda”. Temos que assumir que somos historiadores
de um caminho, de um processo. Não podemos impor nossa visão pessoal. Existem várias
maneiras de se ver. A árvore e o vento são vistos diferentemente pelo botânico e pelo
poeta.
O que realmente nos atrapalha é o ego. Ele é a nossa cegueira interior. Não podemos
viver programados, fazendo todos os dias a mesma coisa, como naquela música do Chico
Buarque: “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Isso é como colocar disquetes dentro da
cabeça. Precisamos nos auto-observar e perguntar: “Quem pensa dentro de mim?” Quem
me diz não? Sou eu mesmo ou é meu pai interno, superego que foi introjetado?
A educação ensina a ler e a escrever, mas só a cultura ensina a enxergar. Temos
na mão o conhecimento – e precisamos do desejo de conhecer a própria história. As
inseguranças nascem do desconhecimento de si mesmo. Precisamos fazer um revisão
interna, acordar e permanecer nesse despertar. Estamos todos juntos, querendo ou
não... E precisamos nos libertar do ego. Precisamos tomar esta decisão: “Vou quebrar as
rotinas”. Assim posso ver outros caminhos para o ego. Olhamos o acidente que acontece
na rua porque é algo grave. Mas podemos fazer um caminho diferente, em nosso bairro, a
cada dia que passa. Assim poderemos conhecer melhor as pessoas que moram na nossa
vizinhança... Assim poderemos, de fato, nos sentir morando em nosso bairro... Cada um
de nós é uma lâmpada de uma gambiarra. Alguns se consideram o fio que liga todas. Mas
só sendo uma lâmpada é que podemos perceber a energia de tudo. Os grandes sonhos
começam com o primeiro passo. E podemos ser felizes no processo, adotando a norma do
famoso escritor João do Rio: vagabundear com inteligência.
Sugestão dos participantes: que, no próximo encontro, os professores também possam
fazer palestras, e não apenas os doutores, os acadêmicos convidados.
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Período da Tarde:
Resumo das Palestras Realizadas
Tema: O PRODETUR NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Palestrante: Sérgio Mello
Representante da Turisrio
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Sérgio Mello – O governador Sérgio Cabral e seu vice, Pezão, tiveram sucesso junto ao
Governo Federal e agora existe no Rio verba para desenvolver o turismo em nosso estado,
através do PRODETUR, que é um programa de alcance nacional. O turismo é um dos
setores econômicos mais significativos da atualidade e abriga pessoas com alta e menos
qualificação.
Precisamos melhorar nossos índices. O Brasil recebe apenas 0,6% das viagens
internacionais. O preço da passagem aérea está alto, temos poucos aviões e o fim da Varig
representou a perda de 25 mil lugares nas aeronaves. O Rio de Janeiro é a maior porta de
entrada de turistas estrangeiros no país. O estado tem grande poder de atração e grandes
eventos, como o Carnaval.
Os principais destinos turísticos do Estado são, pela ordem:
1o – Capital;
2o – Angra dos Reis;
3o – Búzios;
4o – Paraty;
5o – Petrópolis.
A verba conseguida pelo governador para o Rio é de US$ 187 milhões. O valor é
calculado com base na capacidade de endividamento do estado, que tem um limite.
É claro que não dá para fazer tudo que é preciso para desenvolver o turismo no
primeiro PRODETUR. Por isso, estabelecemos 6 pólos prioritários de atuação. Precisamos
melhorar a divulgação, pois o Rio não divulga seu produto turístico. Outro aspecto importante
a considerar: o turismo, hoje, é o maior conservador do meio ambiente. Se o empresário de
turismo maltratar o meio ambiente, está dando um tiro no próprio pé.
Recentemente, o nosso governador foi à França, para divulgar o Rio. Já foi criado um
portal na Internet. O estande na França tinha quase 400 m2. Essas feiras internacionais são
fundamentais para promover o produto turístico e são quase sem custo para os empresários do
setor.
Entre as ações previstas, estão campanhas publicitárias, voltadas para o mercado
nacional e o internacional. Os conselhos regionais de turismo serão fortalecidos. Haverá
capacitação de gestores turísticos e aquisição de equipamentos. E aplicaremos recursos
em gestão ambiental, para garantir a preservação dos nossos recursos naturais.
Na Capital, a ênfase vai ser em ações de segurança, pois queremos implantar um
sistema de tolerância zero e ampliar o perímetro de segurança nas áreas turísticas.
Em Búzios, percebemos que o lixão do município só tem mais três anos de vida – e por
isso o estado vai intervir nessa área.
Em Nova Friburgo, faremos a recuperação do teleférico da Praça do Suspiro, será
criado um centro de convenções e haverá aperfeiçoamentos no entorno da Rodoviária local.
Alguns distritos de Friburgo, como Lumiar, por exemplo, receberão recursos para desenvolver
o turismo.
Eu trabalho na Turisrio há 27 anos e agora estamos motivados com esta possibilidade,
pois agora houve vontade política do governador e seu vice, e houve capacidade técnica do
estado de preparar o projeto para conseguir os recursos do PRODETUR.
E-mail deste palestrante: [email protected]
Tema: FINANCIAMENTO PARA RESTAURAÇÃO DO PATRIMÔNIO
Palestrante: João Carlos Néri
Diretor Regional do Banco do Brasil
João Carlos Néri – Em nome do Banco do Brasil, digo que é uma honra estar aqui com
vocês. Já fui gerente das agências do BB em Mendes e Miguel pereira. Vou torcer para que
os recursos do PRODETUR transitem pelo banco do Brasil.
Não existe, em nosso banco, nenhuma linha específica, de crédito ou financiamento,
para reforma do patrimônio. Mas, na área de turismo, o banco tem. Existe um projeto de
turismo, que aplica verba do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador. A taxa de juros é de
5,33% ao ano, mais a TJLP (cobrada pelo gestor do produto), que é de 6,25% ao ano. No
total, as taxas são inferiores a 12% anuais.
Para conseguir a verba, a pessoa deve elaborar um projeto e mostrar quanto os recursos
vão gerar de emprego e renda. Dependendo do projeto, ele poderá ter uma carência de 12
meses e só começar a pagar juros no 13.o mês. Isso dilui as prestações e torna a linha de
crédito bem atraente. Este produto já está na prateleira.
O tomador precisa ter um CNPJ com fins lucrativos. Não há linha de crédito para ONGs.
Vocês podem obter maiores informações no site do Banco do Brasil: www.bb.com.br.
Fiz uma pesquisa junto à Fundação Banco do Brasil e verifiquei que, como este Encontro
vai gerar um banco de dados, isto poderá ser usado para ser repassado como demanda à
Fundação, com chance de obtenção de algum tipo de apoio.
Sérgio Mello (intervindo no tema) – Na área de turismo, para obter crédito ou financiamento,
a empresa precisa ter até três anos de vida. O valor que pode ser obtido varia de zero a R$
400 mil. O FUNGETUR tem verbas da CEF e do Ministério do Turismo. Vocês podem criar as
demandas e encaminhá-las para Brasília. A empresa proponente precisa estar cadastrada
no Ministério do Turismo e no PRODETUR. O estado do Rio de Janeiro tem poucas empresas
cadastradas. As possibilidades de obtenção de recursos vão de R$ 400 mil a R$ 10 milhões.
O projeto deve ter como objetivo ampliação e/ou modernização. O prazo de carência é de até
5 anos. O prazo de amortização pode ser de até 240 meses. As fazendas históricas do Vale
do Paraíba são empresas que podem buscar recursos no FUNGETUR.
Outra linha de crédito possível é o Cartão do BNDES, que cede até R$ 250 mil para
empresários, mas só para aquisição de equipamentos. O FINAME também tem recursos
para aquisição de equipamentos. Nesse campo, há uma gama enorme, existem linhas de
crédito para tudo. O FUNPROGER, por sua vez, garante 80% do crédito aprovado.
Sônia Mattos (Representante do PRESERVALE) – Sônia abriu sua fala dizendo que, embora
as origens históricas da conquista, ocupação e povoamento do território, bem como os
grandes ciclos econômicos extrativos e agrícolas, que geraram enormes riquezas para o
país, tenham ocorrido no interior, a sociedade brasileira nunca foi especialmente cuidadosa
com os testemunhos materiais representados pelo patrimônio rural.
O Inventário das Fazendas Históricas, realizado pelo Instituto Cultural Cidade Viva,
com a curadoria do INEPAC e o patrocínio da Light, talvez seja um dos primeiros esforços
consolidados de identificação, mapeamento, registro e documentação de um conjunto de
patrimônio rural excepcional. Esse é o caso das Fazendas de Café do Século XIX, situadas no
Vale do Paraíba Fluminense – e o Inventário poderá vir a subsidiar tecnicamente a elaboração
de uma proposta pioneira de recuperação e revitalização deste patrimônio para o seu uso
sustentável no presente, bem como para as gerações futuras.
É necessário compreender que o patrimônio rural apresenta, além de sua característica
histórica, especificidades arquitetônicas, funcionais, econômicas, sociais e ecológicas que
o diferenciam do patrimônio histórico urbano, e mais ainda dos equipamentos edificados
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atualmente. Com a perda de sua função produtiva, o patrimônio rural entrou em decadência
física e funcional, passando a constituir-se em estruturas de alto custo de conservação e de
pouca ou nenhuma função econômica, o que dificultou enormemente a sua sobrevivência.
Revitalizar os conjuntos patrimoniais do meio rural é um desafio. A tarefa exige recursos
e competências próprias, e a melhor ferramenta para isso é o Turismo Cultural, indústria
crescente, de grande demanda nacional e internacional. Os investimentos na recuperação
do patrimônio histórico rural têm sido resgatados em todo o mundo, e também agora na
região do Vale Histórico do Café, através da utilização produtiva das “Fazendas” para a
cadeia produtiva do Turismo e da Cultura, através da hotelaria, do entretenimento, do abrigo
e exposição de coleções artísticas e documentais, da visitação guiada e do Turismo Escolar.
Também a produção e oferta da gastronomia, do artesanato e das festas populares regionais
vêm movimentando substantivamente a economia da região, através do aumento da venda
de produtos e serviços.
Esse investimento vem sendo feito, em sua maioria, pelo setor privado, que, com
recursos pessoais, vem restaurando e recuperando os edifícios de pedra e cal, mas também
as suas memórias, através do resgate de arquivos e documentos históricos. As entidades
de fomento (SEBRAE, SESC, SENAC) e órgãos oficiais como as Secretarias de Estado de
Cultura e Turismo e os seus programas de apoio (Leis de Incentivo), representam também
apoios institucionais importantes, bem como as ações das Secretarias Municipais do Vale
do Café. No entanto, as fontes de financiamento da atividade de recuperação do patrimônio
rural representam um capital difícil de ser alavancado, de modo economicamente viável,
sem alternativas de crédito. Esta iniciativa se dá, em geral, em pequena escala e de modo
particular, quase pessoal pelos indivíduos que, prestando um serviço à sociedade restaurando
os seus patrimônios históricos, estão também gerando empregos e pagando impostos. Não
obstante as limitações de crédito, o florescimento do turismo na região vem influenciando
e estimulando o aumento de propriedades históricas rurais para desenvolverem atividades
sinérgicas, demonstrando com a sua vitalidade o acerto na escolha da sua utilização cultural
como alternativa econômica sustentável.
Os recursos destinados para esta finalidade, atualmente, são restritos aos Projetos
Incentivados pelas Leis de Cultura (Rouanet – federal e ICMS – estadual), que demandam
uma qualificação especial na elaboração, aplicação e enquadramento dos formulários de
projetos, além das dificuldades evidentes da captação.
As contrapartidas oferecidas pelo patrimônio histórico rural como retorno publicitário
aos eventuais patrocinadores são baixas, em virtude de serem empreendimentos de
pequeno porte e de uso familiar, mesmo quando adaptados para o uso hoteleiro ou cultural.
Seguramente, o número de pessoas e o impacto de mídia que uma casa histórica em
Valença pode vir a causar não se comparam, por exemplo, ao volume de público e espaço na
comunicação de um festival de jazz na Marina da Glória, e pode ser que venham a custar o
mesmo dinheiro incentivado.
Um proprietário rural tem, em geral, pouca afinidade com a burocracia técnica e
financeira indispensável para a execução de todas as etapas do processo de captação,
aplicação e administração de recursos incentivados. Por outro lado, o produtor rural está
familiarizado com a dinâmica de crédito e financiamento bancário, principalmente nas
carteiras agropecuárias que os bancos oferecem. Ele toma e paga, conforme os prazos e
condições estipuladas, para o plantio da próxima safra, para uma ordenhadeira mecânica,
um novo trator, uma pequena indústria rural. Sendo o patrimônio histórico uma obrigação
constitucional de governos e um direito dos cidadãos, o crédito para a sua recuperação
deverá ter juros compatíveis com a sua importância estratégica, permitindo que o cidadão
viabilize com autonomia o seu projeto de revitalização, utilizando o seu patrimônio de modo
produtivo e gerando também os recursos para o pagamento do financiamento.
O crédito deverá também ser oferecido acompanhado da orientação dos órgãos oficiais
de preservação do estado e da união, visando à manutenção de critérios de qualidade e de
autenticidade nas intervenções feitas e zelando pela adequação dos projetos submetidos
aos agentes financiadores. É importante esse acompanhamento, pois permite que se
coadunem a autonomia do proprietário e a supervisão técnica de organismos credenciados
para orientarem a correta execução dos projetos contratados.
Afinal, já existe o crédito a juros subsidiados para os investimentos feitos no patrimônio
histórico urbano, seja através da isenção de IPTU para prédios tombados dos municípios –
benefício nem sempre fácil de conseguir –, seja através do programa do BNDES para a
revitalização das Zonas Portuárias em 5 capitais brasileiras – Rio de Janeiro, Salvador, São
Luís, Recife e Santos. Por que não inaugurar uma linha de crédito a juros subsidiados para a
recuperação do patrimônio rural do Rio de Janeiro, como piloto para uma ação posterior, em
escala nacional? Em todos os rincões brasileiros, vemos engenhos de açúcar, fazendas de
cacau, estâncias de gado e todo o tipo de patrimônio rural caindo por falta de alternativas
para sua recuperação e uso sustentável. Esta iniciativa mudaria para sempre a paisagem
cultural do interior deste Brasil, representando uma revitalização econômica e cultural sem
precedentes em todo o país.
Agora vou comentar as duas palestras. Quero ressaltar o aspecto diferencial da questão
do patrimônio histórico, que tem uma especificidade. Ele está na origem histórica, ecológica,
do país. Por isso, precisa ser tratado com um grau de cuidado diferente. Isso gera um tipo de
demanda característica na hotelaria rural, que funciona de modo radicalmente diferente da
hotelaria convencional.
O Inventário das Fazendas Históricas, lançado pelo ICCV, é um primeiro grande estudo
nesse sentido, sobre o patrimônio rural brasileiro. Vai ser um marco. Pode ser, inclusive, uma
bela matriz de cálculo e projeção de demanda para investimento na região.
Numa fazenda histórica, as tulhas têm função educativa, mas não produtiva. É preciso
pensar nas condições em que o empresário poderá pagar o financiamento.
O restauro, hoje, não pode ser visto apenas do ponto de vista romântico, pois os
proprietários enfrentam problemas de sustentabilidade. O café vendido ao turista é um
ganho excepcional. O turismo hoje entra como parte da economia da hotelaria rural. E
esse turismo deve ser de pequena escala, de pequenas famílias, com baixo número de
funcionários. Vai empregar famílias da região, vai qualificar, vai treinar.
No Brasil não existe centro de capacitação para a hotelaria rural. O treinamento
é feito em serviço, por etapas. É assim que o fenômeno se dá, desde 15 anos atrás. O
restauro, portanto, depende da capacidade de gestão. Às vezes a necessidade de sobreviver
leva a tomar atitudes contra o patrimônio. Isso acontece no Brasil inteiro.
No caso do patrimônio, o recurso concedido deve ser monitorado de alguma forma
pelos órgãos oficiais. Deve haver maior rigor no controle do restauro.
Hoje o que temos como mecanismo de apoio são as leis de incentivo fiscal à cultura.
Elas exigem que se saiba preencher um formulário, elaborar uma planilha e ter capacidade
de captação. O retorno de imagem é baixo e desconfortável para o proprietário rural.
Esses aspectos têm que ser levados mais em conta. O proprietário rural está acostumado
a pedir crédito, em qualquer tipo de fazenda. Existe facilidade de crédito para a zona
portuária, com juro baixo, pelo BNDES. Por que não para as fazendas históricas? Proponho
que encaminhemos para os bancos nossa sugestão para que criem linhas de crédito
específicas para o meio rural.
O crédito dá autonomia ao proprietário, para gerir os recursos sem se comprometer
com o retorno, como acontece com as leis de incentivo.
Nesse ponto, o Inventário das Fazendas que foi editado pode ser um marco regulatório,
um exemplo a ser copiado pelo restante do país. A questão é urgente, pois as fazendas
históricas estão desaparecendo pelo país afora, por falta de recursos financeiros para que
possam se recuperar.
Intervenção de participante – Como podemos falar em desenvolver o turismo aqui em
nossa região, se por aqui a única empresa de ônibus a trazer gente do Rio é a Normandy,
que trabalha mal? A passagem é caríssima, tiraram o banheiro dos ônibus, tiraram espaço
entre as cadeiras... Existe até um site, intitulado EU ODEIO A NORMANDY...
Esta região acabou virando uma região dormitório. Não dá para falar em turismo
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sem acesso à região. Só temos ônibus de três em três horas. Peço que encaminhem nossas
queixas nesse sentido ao vice-governador Pezão.
O representante da Turisrio, Sérgio Mello, prometeu encaminhar a reclamação ao
governador Sérgio Cabral e seu vice Pezão.
Intervenção de uma participante – Ir da região para o Rio também é problemático, porque
o entorno da Rodoviária Novo Rio é assustador. Como mulher, eu prefiro ir ao Rio de trem,
pegando o metrô depois.
Intervenção de participante – Como é que o plano da PRODETUR para nossa região prevê
zero de recursos para a gestão ambiental no Vale do Café?
Sérgio Mello – Não há verba para isso no momento. Mas prometo levar essa colocação para
a Turisrio.
Sônia Mattos – O plano do PRODETUR esqueceu que Valença tem o Parque Estadual Serra da
Concórdia. É um atrativo turístico com grande potencial, mas falta sinalização, ponte etc.
Professora Lielza Machado – O centro histórico de Vassouras está muito deteriorado. Tenho
uma preocupação maior com o casarão da Santa Casa e o Palacete do Barão de Vassouras.
Esses prédios precisam de restauro...
RESUMO DAS CONCLUSÕES DO ENCONTRO
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Mozart Vitor Serra (Diretor do Instituto Light) – Nosso Instituto tem uma programação muito
grande e temos que ser cuidadosos na escolha de áreas para trabalhar. A Light está nesta
região há mais de 100 anos. Decidimos patrocinar a edição do Inventário das Fazendas e
pela promoção deste primeiro Encontro de História.
Queremos ter outra iniciativa na seqüência destas duas ações e tudo indica que
deverá estar ligada à área de turismo, que pode impulsionar o desenvolvimento da região.
Agora precisamos avaliar tudo que foi dito, verificar o que foi bom, o que faltou e o que pode
ser feito no futuro.
Fernando Portella (Diretor executivo do ICCV) – Em conversa com os Secretários Municipais de
Cultura que compareceram a este Encontro, decidimos retomar as ações do FEC – Fórum estadual
de Cultura. O Fórum foi criado em 1987 e muita coisa foi feita a partir da sua existência. Em julho
nos reuniremos aqui novamente. Precisamos evitar o crime da descontinuidade das ações.
Nessa reunião, vamos entregar a memória do Fórum aos novos gestores municipais de
Cultura. Peço uma salva de palmas para a aprovação desta idéia. O Fórum é importante porque,
quando temos uma demanda, uma coisa é um município sozinho pedir, outra coisa, bem mais
forte, é toda uma região pedir. Unidos somos muito mais fortes. Cada município falará sobre
suas principais demandas e depois vamos ver como resolver cada questão específica.
O caminho da verba está em vocês mesmos. Está na comunidade. É preciso trocar
experiências com pessoas que conseguiram verbas, para aprender como elas conseguiram.
Acho que daqui a um mês já teremos o Portal deste Encontro na Internet – e traremos
notícias sobre tudo isso na reunião de retomada das atividades do FEC – Fórum Estadual de
Cultura.
Temos que dar valor à identidade cultural. Certa vez, trabalhando com adolescentes
de baixa renda numa das regiões mais pobres do país (em Glória do Goitá, em Pernambuco),
ensinamos a eles o conceito de identidade cultural e mostramos que tudo que tem uma
história ganha um valor. Eles decidiram trabalhar com a venda de produtos na feira e
colocaram a história dos legumes na sua barraca. Ao dizer que a cenoura que vendiam era
plantada pelo seu Fulano, sem agrotóxico, agregaram valor à cenoura. Quando se mexe com
a história, tudo passa a valer mais. A fazenda, pelo simples fato de ser histórica, faz com que
seu café e sua cachaça passem a valer mais...
Sandra Cândido – Minha colocação se refere à preservação do patrimônio histórico. Tenho um
trabalho de Dissertação de Mestrado, onde pesquisei em arquivos especiais, principalmente
de Vassouras. Dois arquivos particulares me são caros. Apesar de o turismo ser um viés
interessante para a região, acho que a preservação também é muito importante e deve ser
considerada. E gostaria de finalizar dizendo que temos um problema sério de financiamento
para pesquisa e publicação dos nossos trabalhos.
Um dos arquivos em que pesquisei está se estragando e necessita de verba para se
manter. No momento está fechado. Falo do Acervo do Seu Jovino, que é muito importante e
que precisa de lugar para ser colocado. E falo do Acervo da Santa Casa de Misericórdia, que
também está se estragando. Clamo para que olhem para os pesquisadores: verba para nós!
Eduardo França – Faço as seguintes sugestões:
1) Que seja definida uma prioridade para o próximo Encontro;
2) Marcar o segundo encontro ao final deste;
3) Fazer rodízio da cidade-sede do Encontro de História;
4) Que os patrocinadores se comprometam desde já com o segundo Encontro;
5) Que autores de livros possam expor e até comercializar suas obras em todos os
Encontros;
6) Que os componentes da mesa sejam identificados na própria mesa;
7) Que os professores da área tecnológica sejam convidados a participar, para que
possam contribuir na recuperação e manutenção do patrimônio histórico.
Myla Machado (de Rio das Flores) – Informo que já trabalho com educação patrimonial
faz tempo, com boa vontade e sem capacitação prévia. Que o curso de pós-graduação em
Educação patrimonial realmente saia!
Anne Machado – Trabalhei no projeto do Almanaque na UFF e fiquei feliz de ver isso no
Encontro. Foi um trabalho pioneiro que enfrentei junto com as crianças e os pais. Vi que é
possível fazer. Vamos nos encontrar nessa pós, pois ela é urgente!
Reizi Rozemberg – Meu pai foi o cineasta I. Rozemberg, que me deixou como herança
importante acervo cinematográfico, que comecei a recuperar. Tenho mais de 150 latas de
filmes. Entre elas está a famosa série Coisas do Brasil, que meu pai realizou. Minha mãe
guardou tudo e além do acervo de películas, tem jornais e revistas também.
Meu pai fazia telejornais. Com apoio da Sra. Gilda Meireles, expus o acervo na
Academia de Letras de Vassouras. A recuperação das películas é muito cara. Tive apoio do
Ernani Revmam, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que possui experiência no
restauro e na guarda de acervos de filmes. Junto a minha preocupação pessoal à de todos
que têm acervos particulares, que envolvem famílias. É preciso preservar esse patrimônio,
ter a memória.
Meu pai filmou todas as hidrelétricas do país, as rodovias, os últimos 40 anos
deste país. Ele filmou várias vezes a inundação de diversos povoados. Todo esse acervo
pode servir para pesquisas. Ele filmou a abertura da Transamazônica, projeto que felizmente
não deu certo, porque, se tivesse dado certo, hoje não teríamos a floresta...
Alguns roteiros dos filmes de meu pai foram escritos por Paulo Mendes Campos.
Recuperar esse acervo é recuperar a memória de todo um país...
Fernando Portella – Quero agradecer aqui o empenho e a dedicação da produtora deste
Encontro, Francis Miszputen, e à toda a sua equipe.
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Francis Miszputen – Eu é que agradeço. As pessoas têm boas idéias, e meu trabalho é
realizá-las. A primeira vez que chegamos a esta região, para preparar as bases do Encontro,
as pessoas estavam extremamente céticas. Mas não viemos para tirar nada, e sim para dar
tudo o que pudéssemos. As pessoas que acreditaram construíram o sucesso deste evento.
Adriano de Novaes defendeu o projeto desde o início e nos apresentou à Ana, que ajudou a
gente de todas as maneiras. Também quero agradecer muito ao professor Magno, que nos
ajudou muito e conseguiu as alunas do curso de Turismo da Universidade Severino Sombra
que deram apoio técnico à nossa equipe.
Professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues (Professor de História da PUC-Rio) –
Qualquer coisa que eu possa dizer agora, seria mais para abrir do que fechar idéias. Quero
lembrar a vocês minha primeira provocação: olhar o vale do café sem o peso da imagem de
decadência. Quis mexer com as angústias e as esperanças de todos. Puxar pelo brio das
pessoas. Essa palavra (decadência) precisa ser retirada do mapa e garantir um espaço de
trabalho no Vale do Paraíba que possa reunir todas as forças.
Hoje percebi que não dá mais para separar o turismo do trabalho de preservação
e de memória. Ninguém pode ser o dono da bola no desenvolvimento do Vale do Paraíba.
Há uma falta de estrutura para que se possa preparar isso. Nada pode ser feito sem os
professores, eles são o cerne fundamental desse processo. O curso de turismo não pode
ser só técnico. Hoje damos qualidade a um curso que, junto com a História e a educação
patrimonial, vai permitir que o segundo encontro seja ainda melhor do que este.
O filme que eu trouxe, Narradores de Javé, foi uma outra provocação e vocês reagiram
muito bem.
Ana Lúcia Mattozo Furtado (Presidente do CONCICLO) – Preciso citar um acontecimento.
Marcamos com a Carol (do ICCV) para vir aqui e eu soube do projeto de realizar este
primeiro Encontro. Na ocasião, fui muito sincera: “Mas, primeiro encontro, de novo?” Nós já
participamos de outros encontros, com outras propostas de envolvimento.
Muitas vezes as pessoas caem aqui como pára-quedistas e trazem a roda, de novo...
Parece que aqui só tem um bando de caipiras... Ainda por cima, perdi meu irmão faz 60 dias
e Francis apareceu justo no dia seguinte... Mas agora só tenho que agradecer e dizer que
vocês fizeram o investimento no lugar certo. As pessoas que vieram estão envolvidas, amam
esta região e fazem trabalhos que são muito importantes.
No ano que vem, haverá secretários novos, prefeito novo.. . Uma das estratégias que
utilizamos para evitar a quebra da continuidade do nosso trabalho com a Prefeitura é fazer
um café da manhã antes da posse. Assim, os prefeitos se comprometem mutuamente e
respeitam tudo o que foi feito para trás.
Neste momento, o livro do INEPAC sobre educação patrimonial foi sorteado entre os
presentes.
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Mozart Vitor Serra (Diretor do Instituto Light) – Quando a gente ouve uma reclamação ou
observação, pode registrá-la ou não. De repente a gente conversa com um historiador que
tem um acervo e se preocupa: o que vai acontecer depois que ele morrer? De repente, a
observação feita é de muita gente, não é um caso apenas. O que constatamos é que existe
um problema de guarda de arquivos. Devemos registrar como conclusão que é preciso
fazer uma avaliação sobre cada arquivo particular da região e depois decidir que tipo de
política poderá ser aplicada para o conjunto deles!
Nas minhas considerações finais, quero dizer que nós da Light nos associamos a
todas as pessoas mencionadas como agradecimento. Se eu tivesse que escolher um trabalho
símbolo da região, escolheria o Adriano, que fez o trabalho de campo no inventário das
fazendas. Obrigado a todos por nos terem dado esse crédito de confiança por 48 horas. O
Instituto Light tem a grande honra de estar absolutamente comprometido com essa atividade
do inventário e outras semelhantes.
SÍNTESE DAS PRINCIPAIS PROPOSTAS FEITAS NO ENCONTRO
● O turismo cultural e histórico é considerado por muitos o grande caminho para o
desenvolvimento sustentável do Vale do Paraíba fluminense.
● Foi solicitada a ampliação das possibilidades de editar livros dos escritores do Vale do
Paraíba e melhoria dos sistemas de distribuição.
● A revista eletrônica Vale do Paraíba Online, que será lançada em breve, tem espaço aberto
para artigos científicos e técnicos.
● Socorro urgente para o Arquivo Municipal de Vassouras, que tem muitos documentos que
não oferecem condições mínimas de manuseio.
● Obtenção de verbas e de chancelas para os pesquisadores da região, que também
afirmaram encontrar problemas para publicar seus trabalhos.
● Há pesquisadores na região que carecem de computadores para seus trabalhos.
● Sugestão: no próximo encontro, colocar os livros dos autores da região em exposição e à
venda.
● O pesquisador Roberto Guião colocou seu arquivo pessoal, sobre as fazendas históricas, à
disposição dos demais pesquisadores da região.
● Foi solicitado que, no próximo Encontro, os professores de História também pudessem
fazer palestras, e não apenas os “acadêmicos”.
● Criar um curso de pós-graduação em Educação Patrimonial em alguma Universidade do
Vale do Paraíba.
● Levar aos bancos a demanda por linhas de crédito e/ou de financiamento para o meio
rural. No caso dos proprietários das fazendas históricas, as linhas deverão ter condições
adequadas à escala deste tipo de empreendimento.
● Analisar a situação dos arquivos históricos particulares da região e decidir por uma política
conjunta para todos eles.
● Digitalização dos arquivos particulares e sua posterior disponibilização na Internet.
● Socorro para prédios históricos da região, que necessitam de restauro. Exemplos: a Santa
Casa de Vassouras, o Palacete do Barão de Vassouras e prédios de Barra Mansa.
● Apoio aos projetos de difusão da história do Vale nas escolas e multiplicação das
metodologias bem sucedidas nesse sentido.
● Maior envolvimento direto da população local com a história do Vale, já que grande parte
dos moradores não se identifica com o tempo dos Barões do Café.
● Muitos participantes consideraram que as verbas do Prodetur não contemplaram
adequadamente a região.
● Existe forte demanda pela melhoria do transporte intermunicipal na região, sem o que o
turismo não poderá ser adequadamente desenvolvido.
● A Sra. Reizi Rozemberg, herdeira do acervo cinematográfico de seu pai, I. Rozemberg,
solicitou ajuda para o restauro dos filmes e sua utilização posterior em pesquisas.
● Retomar as atividades do FEC – Fórum Estadual de Cultura, movimento que reúne
Secretários e/ou Diretores Municipais de Cultura para um trabalho cooperativo em escala
regional e estadual.
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Contribuições Posteriores à Realização do Encontro
CULTURA POPULAR E NARRATIVA HISTÓRICA
Antonio Edmilson Martins Rodrigues (PUC-Rio/UERJ)
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Este texto foi produzido especialmente para o I Encontro de História do Vale do Paraíba
e seu objetivo é apresentar um conjunto de reflexões que possam nortear os debates que
se seguiram, com o intuito de acumular questões e demandas que permitam organizar uma
pauta de solicitações capazes de organizar o universo acadêmico da região em torno da
história local, ao mesmo tempo que pretende buscar direções e procedimentos capazes
de abrir caminho para um processo de conservação de bens culturais e históricos e de
classificar o patrimônio como algo capaz de estar vivo e usável nos vários procedimentos de
ensino e de pesquisa.
Complementam este texto dois desdobramentos importantes: as oficinas de história e o
debate em torno do filme Narradores de Javé, que pretendem aprofundar as questões aqui
apresentadas.
O primeiro ponto a ser apresentado diz respeito ao conceito de cultura e mais
especificamente ao seu composto “cultura popular”. A noção de cultura, no seu uso histórico
e sociológico, é fruto do debate desenvolvido na Alemanha no século XIX, em torno de dois
eixos centrais. Um, voltado para a crítica ao Iluminismo na sua forma de absolutização
da razão e de seus derivados, como o conceito de civilização; outro, vinculado à crítica
do universalismo liberal e de defesa da idéia de nação, colocando a cultura como oposto
à civilização e reconhecendo o universo local da nação como o mais significativo para o
aprendizado da vida política e econômica. Isso, no entanto, não quer dizer que esses eixos
sejam contrários ao cosmopolitismo presente nessa Europa do século XIX.
Esse ponto de partida possui vários desdobramentos. Entre eles, um que nos interessa
mais de perto, que é a relação entre o Brasil e o Romantismo, centro de produção dos
dois eixos anteriormente indicados. E nos interessa porque permite estabelecer algumas
conexões importantes para a história de regiões e compreende, especialmente, um olhar
sobre as bases construtoras do passado delas, com destaque para as ruínas e para o
patrimônio visual e material desse passado. Assim, minha proposta é que utilizemos como
direção a idéia de cultura decorrente do romantismo alemão e a aproximemos da região que
é hoje nosso objeto.
Partamos da noção de sentimento, muita cara ao movimento romântico, que envolve
uma relação íntima da sociedade com tudo aquilo que resultou da ação de uma política e
de uma história. Entretanto, esse sentimento íntimo não significa fechamento. Na direção
inversa, ele movimenta a história utilizando os elementos culturais forjados no movimento
da sociedade, procurando caracterizar a exponencialidade e a singularidade da região. Para
isso, vamos mobilizar todos os elementos disponíveis, que vão da cultura material à cultura
imaterial. Ao criar esse movimento, passamos a dispor de um “patrimônio” capaz de ser
descrito e interpretado, passível de ser história e ser reconhecido como marca, ou seja,
como cultura.
Para realizar esse percurso crítico, entretanto, precisamos do sujeito, e de um sujeito
que narra e interpreta, associando ao que toma como objeto a dimensão interior e exterior.
Esse mergulho sentimental na região é que possibilita o reconhecimento das diferenças com
relação a outras regiões e o reconhecimento das particularidades. Desse modo, a cultura
se apresenta não como um conjunto de artefatos reunidos num museu, mas como uma
atitude, uma marca que deve ser inspirada, ou seja, capaz de compreender a região, porque
só assim poderá apresentá-la na forma de explicação.
Mas além do homem-sujeito que observa e interpreta temos que ter uma natureza capaz
de atraí-lo, de envolvê-lo e de seduzi-lo como uma amante. Essa natureza não se apresenta
apenas como paisagem, mas inclui todas as manifestações que foram produzidas no tempo
como fenômenos lingüísticos e folclóricos. E é aqui que entra o composto “cultura popular”.
Deixemos claro, que não estamos tratando o conceito do modo como ele se apresenta na
historiografia. Aqui cultura popular significa cultura do povo, sem nenhum registro de uma
cultura dos de baixo, ou de uma cultura de operários ou de camponeses. Não estamos,
nesse primeiro momento, discutindo a dimensão ideológica do conceito, mas a condição
que dele advém de permitir a identificação de uma marca de uma cultura que no nosso caso
abrangia dos barões aos índios.
O que estamos chamando de cultura popular são todas as manifestações oriundas
das práticas que foram desenvolvidas pela sociedade, em todos os seus níveis, no tempo,
como demarcação da especificidade da região. Entram aí os transportes, as formas de viver
e sentir, a economia com os modos de plantar, a medicina das ervas, ou seja, tudo que
envolve os ditos populares e os “causos” que marcam as histórias das famílias. Mas também
consideramos aí as tensões políticas e os conflitos sociais.
Entretanto, devemos ter atenção para um detalhe fundamental. Essa massa de
patrimônio não existe sem a presença de um pensamento que articule as várias peças. Não
há manifestação popular que tenha apenas a sua história como descrição de uma festa. Ela
envolve uma tradição, que é a base da história desse festejo e que se liga a outra história que
envolve a festa como uma categoria articuladora das redes sociais de uma região. As peças
que compõem o patrimônio não existem sem a história daquilo que representam. Talvez o
exemplo mais elucidativo sejam as fazendas. Elas, isoladas e apresentadas apenas como
referência da região, se transformam apenas em indicadoras do sucesso ou da decadência.
Ao contrário, quando as tratamos como elos de uma história maior, elas ganham qualidade
e se destacam como fazendas do Vale do Paraíba fluminense.
Mas temos que dar uma parada. São muitos os conceitos e as categorias que fomos
utilizando e elas merecem algum pontuamento. Comecemos da idéia de que cultura é a
reflexão que a sociedade faz sobre ela mesma, na busca de uma compreensão de seu
próprio significado. Essa definição ficará, por ora, como nossa referência.
Mas voltemos ao nosso primeiro ponto e vejamos o que é civilização. Hoje, usamos
a palavra civilização para indicar um estado ou uma condição estabelecida de vida social
organizada e que permite que escalonemos sociedades mais desenvolvidos e menos
desenvolvidas, o que tende a fazer com que, no nosso universo cultural, civilização seja o
contrário de barbárie. Entretanto, originariamente, a palavra indicava um processo que ia da
barbárie à civilização.
Civilization foi precedida em inglês por civilize, no início do século XVII, a partir do francês
civiliser, palavra já existente no século XVI. No latim medieval aparece a palavra civilizare que
significa transformar uma questão criminal em uma questão civil e, por extensão, incorporar
a uma forma de organização social, como apresenta Raymond Williams (2007). O uso
corrente da palavra se deu no século XVIII, como uma combinação específica das idéias de
um processo e de uma condição adquirida. No Iluminismo, a palavra ganha uma dimensão de
processo histórico, associando-se a desenvolvimento e a progresso, mas mantendo também
o seu significado de refinamento. Hoje, ela tem um significado neutro e pode estar adjetivada
de civilização ocidental, civilização moderna, civilização industrial, civilização científica e
tecnológica. Mas permaneceu tendo, mesmo contemporaneamente, um sentido de estado
adquirido, normativo e exemplar, um modo civilizado de vida, as condições da sociedade
civilizada.
A palavra cultura, segundo Raymond Williams (2007), é uma das duas ou três palavras
mais complicadas quando buscamos a sua genealogia e os seus significados. Para ele, isso
decorre da utilização intelectual da palavra. Ela viria do latim colere, que signficava habitar,
cultivar, proteger, honrar com veneração. Nos seus primeiros usos, a palavra cultura se referia
a um processo ou de plantar ou de colher um determinado produto. A partir do século XVIII,
com o romantismo alemão, a palavra cultura relaciona-se mais diretamente com o solo da
pátria, com o que se colhe como frutos para a nação e passa a se opor à civilização. A palavra
em alemão, derivada do francês, era cultur e, a partir do século XIX, se transforma em kultur.
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Foi Herder quem instituiu seu novo uso como oposição aos conceitos universalizantes. Hoje,
cultura é música, literatura e arte e há inclusive um ministério da cultura e um Instituto
Cultural Light. Embora os sentidos continuem ambígüos, é possível conviver com dois deles,
que nos servem melhor, que são: cultura como reflexão da sociedade sobre o que ela é, que
dá origem às várias histórias das culturas; e cultura como campo cultural, onde se inscrevem
as instituições ligadas ao trabalho de promover a cultura.
Antes de cultura popular, vejamos o que se entende por tradição, outra palavra-chave
para nós, acostumados a opor cultura tradicional à cultura moderna. No inglês, ela aparece
no século XIV como tradition e, no francês, como tradicion, derivação do latim traditionem que
significava transmitir. O substantivo latino tinha vários sentidos: 1. Entrega; 2. Transmissão
de conhecimento; 3. Legado de uma doutrina; e 4. Traição. Hoje, ela, num primeiro nível,
apresenta dois sentidos no âmbito da cultura. O primeiro vinculado à noção de uma cultura
que está com olhos voltados para o passado e, por isso, ganha a referência de tradicional; o
segundo envolve a presença de uma cultura que se afirma como base do desenvolvimento
de visões de mundo. Como os sentidos são muito aparentados, a diferenciação é difícil,
mas pode ser aclarada quando se aproxima o primeiro sentido da dimensão de uma atitude
contra o progresso ou de resistência à alguma coisa. E o segundo se orienta para uma
tradição que se organizou como sistema de valores. Nosso cuidado envolve a atenção para
não deixar a noção de tradição se transformar em unicamente reação ao moderno. Esse
cuidado advém das várias formulações distintas que ela ganhou na área do patrimônio
cultural e da confusão que foi criada em torno da política de tombamentos.
Esse pequeno desvio teve como objetivo apresentar o campo de significados das palavras
que se aproximavam mais de nossa reflexão.
Concluída esta primeira parte, vamos à segunda. Trata-se, agora, de discutir a noção
de narrativa e, mais particularmente, de narrativa histórica. Quando pensamos que a coisa
ia ficar mais tranqüila, eis que nos deparamos com um conjunto de novos problemas. Mas
vamos tentar simplificar. Para o nosso fim, podemos partir da idéia de que a narrativa
moderna é definida a partir da produção de Miguel de Cervantes. Sua obra Dom Quixote foi
a primeira experiência moderna de romance, que articulava tempo e espaço e possuía uma
história particular de personagens. Essas histórias se relacionavam de modo a dar uma
visão geral. Isso, ao mesmo tempo, aparece na Inglaterra, com William Shakespeare, que
do mesmo modo que Cervantes apresenta um painel alargado das tensões psicológicas e
culturas do mundo moderno, no momento em que a cultura barroca domina (Maraval, 1997
e Argan, 2004), mostrando que ela não era apenas a cultura da Contra-Reforma.
Por seu caráter abrangente e temporal, essas narrativas se transformam rapidamente
em fontes importantes para o estudo das regiões de onde derivam. Algumas delas
ultrapassam a dimensão local e ganham uma perspectiva universal e cosmopolita,
caracterizando a capacidade de reflexão do autor e sua condição de sujeito na história. O
exemplo de Shakespeare, indicado por Machado de Assis, talvez seja o mais significativo para
compreendermos esse aspecto. Diz Machado, e depois isso foi repetido por Jorge Luiz Borges
e Mário de Andrade, que o autor inglês mostra muito bem como a marca de sua identidade
cultural pode permanecer presa à sua pátria, sem que sua literatura tenha, necessariamente
que traduzir as cores locais. E, completa, ninguém afirmaria que Shakespeare não é um
autor inglês. Qualquer um de nós, ao fazer uma história da literatura ou da cultura inglesa
tocaria no nome dele. Entretanto, boa parte de suas obras são ambientadas na Dalmácia
e na Itália, sem que isso faça com que ela perca a sua presença na literatura e na cultura
inglesas.
Essa condição de sentimento íntimo aparece tanto nas construções lingüísticas como
nos usos que são feitos de determinados conceitos, que mais do que simples palavras são
formas de designarmos a presença de uma cultura.
Literatura e história começavam a se anunciar como possibilidades de expressão da
cultura e combinadas complexificavam as narrativas, apresentavam experiências que foram
dos romances de Jane Austen às novelas históricas de Walter Scott. Em cada uma dessas
modalidades, as trocas entre as experiências históricas e literárias permitiram estabelecer
estilos de narrativas que se relacionaram diretamente com o desenvolvimento dos grandes
movimentos culturais. Se as novelas de Cervantes expressavam a relação entre ironia e
drama, as novelas de Scott anunciavam as tendências heróicas dos homens. A literatura
burguesa do século XIX trouxe para as narrativas a subjetividade e introduziu as tensões
psicológicas e a paisagem. Naturalismo e realismo se combinavam no historicismo e no
modernismo.
Essas experiências mostravam que não bastavam os fatos, os eventos. era essencial
o tratamento dado a elas, tanto na busca da sua veracidade como na forma de apresentálos. Dependia, assim, das narrativas, o conteúdo e a forma. Delas também dependiam a
interpretação e a compreensão do encadeamento histórico. Mas, principalmente, dependiam
das narrativas as expressões culturais, especialmente aquelas que se escondiam sob o
manto da oralidade, aquelas que só se apresentavam em momentos de festa. As cantigas
populares de roda, as brincadeiras de crianças, só ganhavam expressão quando anunciadas
por alguma forma de narrativa e, quando essas narrativas eram feitas complicavam a situação,
pois anunciavam origens variadas, como vocês poderão ver no filme Narradores de Javé, mas
também como vemos, nas trocas culturais que se anunciam numa festa junina ou numa dança
de quadrilha, quando crianças que nunca estudaram francês passam a entender o significado
numa festa popular de change e de promenade, assim, como anariê e anavantú.
Essa riqueza de movimentos e nuances é que marca a complexidade da cultura e a
dificuldade de narrar, porque se juntam numa festa genealogias variadas, oriundas de várias
procedências, que alimentam a relação entre religião, vida e cultura.
Mas essa complexidade não fica apenas na Europa: ela viaja até o Brasil e os nossos
escritores românticos e modernistas do século XIX e início do século XX recepcionaram essas
formas e essas idéias. Para muitos, imitando ou copiando a França, que era a principal
referência para o novo tempo da modernidade, mas que não podia desprezar as tradições.
Digo, com todo o respeito que os críticos Antonio Cândido e Roberto Schwarcz merecem,
que há idéias no Brasil e elas não estão fora do lugar. Nós fomos além da imitação e da
cópia. Reinventamos as formas, inventamos outras e conseguimos ligar as formas à cultura
da brasilidade. Poderíamos citar muitos nomes, mas vou me ater àqueles que são mais
expressivos na sua vinculação com a história.
Começo exaltando a qualidade da narrativa de José de Alencar, que soube, como
poucos, unir o Brasil na sua heterogeneidade, através de retratos históricos e sociológicos, e
apresentar expressões regionalistas que foram fundamentais para que nós conhecêssemos
costumes e fazeres. Depois, Sylvio Romero e Euclydes da Cunha, que alargaram fronteiras
atrás do Brasil profundo e o revelaram através das cantigas de roda e cantos natalinos ou
narrando a história do sertanejo junto com a cruzada do Conselheiro.
Mas, não fica só aí. Lembremos Machado de Assis, que com sua ironia, apresentou
a novidade do adultério numa sociedade que se imaginava pura e religiosa. Ou a grande
revolução do Modernismo de 1922, que resumiu tudo isso e refez a tradição da brasilidade,
dando origem aos mitos renovadores como Macunaíma e aos regionalismos inventores de
linguagens como Guimarães Rosa. Mas também abriu caminho para folcloristas do peso
de Câmara Cascudo e de Edson Carneiro, que escreveu um belo livro sobre as formas de
namoro, tão interessante quanto a sociologia da rede de dormir do primeiro. E não estou
falando nem do grande contador de histórias: Gilberto Freyre. Vejam quantos se inspiraram
nas relações de trocas culturais para interpretar o Brasil.
No filme que será passado à noite, vocês vão ver uma “brincadeira muito séria”, que
anunciará a confusão geral, que misturará ficção e realidade para que nós possamos
aprender a ficcionalizar a realidade. Os temas do filme vão das versões às verdades, sempre
no plural, dos acontecidos aos escritos, dos apelos aos mitos e das origens aos novos ciclos
quase religiosos.
Mas não estamos aqui para falar apenas disso, embora originalmente o nome desse
encontro fosse “encontro dos amantes de história”. Vamos manter esse nome num segundo
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plano. Eu gostaria que ele permanecesse conosco durante esses dias em que vamos
estar juntos. Ele me incentiva, não para o que vocês imaginam, mas para recordar, figurar,
representar e descrever as realidades.
Mas falta uma parte nessa nossa conversa. E essa região tão cantada em prosa e verso?
E o Vale do Paraíba? Como não viemos para dizer muita coisa e mais para ouvir e aprender
com vocês, ficam aqui apenas algumas notas que, eu diria são provocativas. Todos vocês
que moram e trabalham nesta região devem ter uma imagem da região e essa imagem deve
ser de defesa do seu patrimônio; muitos estão aqui recentes e ainda estão procurando neste
encontro marcas que estabeleçam conhecimentos.
De saída, aviso a todos que não viemos aqui para ouvir choradeiras e nem para ter pena.
Nosso objetivo é, junto com vocês, procurar caminhos. Caminhos que sejam cheios de luz
e que nos iluminem no nosso fazer cotidiano; que produzam novas estratégias, sejam elas
para ensinar, para manter o patrimônio ou para desenvolver políticas culturais.
Eu começaria esta parte dizendo que vocês são reféns da sua própria história e uma
história que, na maioria das vezes, nem foi feita por vocês, mas por historiadores até de outros
países. Lembro de Stanley Stein, brilhante brazilianista, que escreveu o livro que parece, até
hoje, ser decisivo, para a compreensão da história de Vassouras e do Vale do Paraíba. Nesse
livro, Grandeza e decadência do café, isso salta aos olhos, e não por culpa do autor, mas, às
vezes, pelos equívocos dos interpretes da obra. Ficar refém de sua própria história significa
que a tarefa de vocês será a de, antes de qualquer coisa, responder aos outros, fazer uma
história externa a vocês e com o cuidado de não deixar entrar a subjetividade de vocês.
Então, eu diria que o primeiro embate de vocês será com esses forasteiros, incluindo os
turistas. E as armas que sugiro para o embate são a inteligência e a tolerância, utilizadas
para remover uma grande montanha, a da decadência. As pessoas vêm a Vassouras para
ver a grandeza do café? Não, elas vêm para olhar a decadência, as ruínas, as contradições
entre rural e urbano, entre atraso e desenvolvimento. E há mais, comparam o Vale do Paraíba
fluminense com o Vale do Paraíba paulista, produzindo um anacronismo enorme: São Paulo
é mais desenvolvido que o Rio de Janeiro.
Mas, vocês vão ter que derrubar mais obstáculos. Vão ter que refazer a imagem do
cafeicultor fluminense e mostrar que ele não é a continuidade do grande proprietário de
terras do Norte e Nordeste, que plantava cana e vivia na Casa-Grande, mas que, no século
XIX, esse homem era um empresário, que cuidava de negócios para os quais tinha de ser
muito competente e até falar inglês. Temos que mostrar que a grandeza de Vassouras não é
mero acaso, mas foi construída por esses empresários do café, burgueses animados com os
lucros das operações financeiras num mercado capitalista.
A outra montanha é a idéia de fazenda, especialmente quando ela é associada à grande
propriedade, que, para nós historiadores, significa ser monocultora e escravista. A diferença
é fundamental para acabar com a idéia do fausto pelo fausto, da monumentalidade pela
monumentalidade, que sempre deixam de lado a poética da paisagem e anunciam esse
mundo como rural. Por isso, acho melhor chamar de turismo cultural do que de turismo rural.
O trabalho de vocês é árduo e demorado, mas vale a pena.
Para não ficar apenas falando de montanhas-obstáculos, vou fazer algumas projeções
que talvez possam ajudar vocês. A primeira diz respeito à visibilidade da grandeza, numa
combinação direta entre cultura material e imaterial, na associação entre fazendas, vale e
memória. Para essa combinação será fundamental recolher todas as indicações da cultura
popular e juntar, primeiro na cabeça de vocês, e depois em algum lugar. Esses arquivos
e essa documentação devem circular e, quanto mais coisas vocês descobrirem, melhor.
Amobilização constante é o melhor remédio para a visibilidade. Para essa memória vocês
devem contar com as várias tradições do Vale e aí se abre espaço para todos os amantes e
historiadores profissionais, professores e contadores de histórias.
Quero concluir e vou dizer, para terminar, que a melhor forma de observar o patrimônio
está na nossa capacidade de falar dele. Sem a nossa palavra, ele não é nada. Tudo dependerá
da nossa narrativa, da feliz escolha de uma estratégia cativante que abra caminho para uma
nova interpretação do Vale.
BIBLIOGRAFIA
ARGAN, Giulio. Imagem e persuasão: ensaio do barroco. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
MARAVALL, Jose Antonio. A cultura do barroco. São Paulo: Edusp, 1984.
RODRIGUES, Antonio Edmilson e FALCON, Francisco. Tempos modernos: ensaios de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
RODRIGUES, Antonio Edmilson e FALCON, Francisco. A formação do mundo moderno. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2006.
RODRIGUES, Antonio Edmilson. José de Alencar: o poeta armado do século XIX. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2002.
WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave. Um vocabulário de cultura e sociedade. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2007.
RELATÓRIO DE ATIVIDADES
Antonio Edmilson Martins Rodrigues
1. Introdução
O primeiro ponto que deve ser apontado neste relatório diz respeito ao seu sucesso,
que ultrapassou, em muito, as minhas expectativas, tanto pela qualidade da assistência
como pelo seu empenho. Isso provocou alguns desajustes, comuns em situações como um
seminário numa região que tem muito a dizer, talvez até mais do que ouvir. Essa mobilização,
entretanto, se foi uma catarse na descrição das experiências dos escritores locais, melhorou
muito durante a exibição do filme, que para nós surpreendeu quanto ao público presente.
Como me mantive mobilizado no comando de várias mesas, não pude acompanhar com
mais atenção as conversas fora e a recepção do que foi apresentado, mas devo dizer que foi
muito oportuno fazermos, no primeiro dia, aquela mudança, transferindo a mesa da Cultura
popular para o primeiro momento após o encerramento da cerimônia de abertura.
Ao final, destaco algumas idéias que podem contribuir para a continuidade do nosso
trabalho no Vale, mas de saída destaco que eles estão ávidos de informações, por isso,
poderemos pensar em cursos para os professores e profissionais para reavaliar a história e a
cultura do Vale. Alguns resultados já são observados. Fui convidado a participar do seminário
sobre Fé e Religião em Lorena e para abrir os trabalhos.
2. As experiências dos escritores locais contados por eles próprios
Foi a sessão mais tumultuada do Encontro, embora tenha acabado bem pela perspicácia
da equipe organizadora, que listou aqueles que haviam enviado trabalhos para serem os
narradores de experiências.
Quanto às experiências, elas foram heterogêneas e complicadas, pois foram do
depoimento pessoal sobre seu envolvimento com o ensino, a educação ou a administração
pública, até depoimentos vazios de interesse porque reproduziam teses ou dissertações
universitárias para um público de não-amantes da história. Isso tumultuou e deve ter criado
constrangimentos. A nossa sorte foi ter modificado a programação e com isso tivemos tempo
para avançar nas experiências. Destaco, como importante, as falas dos participantes que já
estão mais envolvidos com a política cultural do Vale, como Sônia Mattos e Ana Maria Bastos
Seraphim e os membros da Academia de Letras de Vassouras.
O registro negativo foi a pouca presença da USS, tanto com alunos de graduação e de
pós-graduação, como de professores e pesquisadores.
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Outro destaque deve ser feito para a abrangência geográfica que tivemos no Encontro,
praticamente todas as áreas do Vale estiveram presentes.
3. Oficinas de História
As Oficinas de história tiveram um grande êxito, funcionando como concretizadoras
dos nossos objetivos, porque estimularam a participação e atingiram, especialmente, os
professores e secretários de cultura e abriram a possibilidade de projetos futuros. Além
disso, acentuou a qualidade acadêmica do Encontro e gerou um movimento de trocas muito
significativo.
4. Exibição do filme Narradores de Javé
Foi, junto com as oficinas, a parte mais surpreendente do Encontro. Depois de um dia de
trabalho, tivemos uma excelente platéia para o filme e, mesmo depois do adiantado da hora,
os participantes ficaram esperando que ocorresse o debate, levando-me a ter de relacionar
algumas das questões apresentadas no filme com os nossos interesses no Encontro. Isso
mostrou o interesse dos participantes.
5. As diversas faces da história do Ciclo do café
Reunimos, nessa mesa, as comunicações que seriam de maior conteúdo. No entanto,
acabaram sendo continuações da catarse do dia anterior. Mesmo as exposições mais
técnicas se perderam na retórica e no vazio de conteúdo. A única coisa boa foi a presença do
nosso amigo historiador mineiro, que esboçou temáticas interessantes sobre as diferenças
na arquitetura das fazendas entre o Vale e a região das Minas, ou entre o café e o ouro.
6. Transmissão da história das cidades nas escolas
Para mim, foi o ponto alto da manhã. A exposição feita pelo INEPAC redundou num interesse
acentuado da platéia, revelado pelas perguntas. O tom da exposição foi importante, por mostrar
as atividades e os projetos que o público não conhecia, reforçando as parcerias com outras
instituições e remetendo para a importância do trabalho do Instituto Cultural Light.
7. Financiamento para a restauração do Patrimônio
Pelo cansaço, não pude assistir as comunicações iniciais. Só ouvi a Sônia Mattos.
8. Conclusões do Encontro
Destaque especial para a sensibilidade de Fernando e Mário. O cansaço dos participantes
e a vontade de receber alguma coisa no final não permitiram que ocorressem mais falas
conclusivas. Em geral, foram reforçadas as linhas fortes do Encontro como a questão do
patrimônio e da história e a necessidade de realizar mais um encontro.
9. Destaques especiais:
O sucesso do Encontro foi resultado da competência da equipe organizadora, que
permitiu que as sessões fossem desenvolvidas sem o mínimo tumulto. O atendimento aos
participantes também merece destaque e para mim deve ser maior o destaque, porque sei
que eram três pessoas e mais a mãe da Carol. Registro especial para a feira de livros dos
participantes autores. Foi parte da catarse e ajudou a fazer com que ela não fosse mais
violenta. Também a ajuda da equipe de alunos de turismo da USS foi excelente. Destaque
também para o atendimento do hotel que, em parte, se deve ao exemplo da equipe
organizadora.
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10. Propostas:
● Há espaço para um trabalho mais acadêmico com os professores e profissionais da cultura,
ou seja, além de um outro Encontro, que devemos discutir. Esse trabalho podia envolver
cursos de reciclagem em que a relação entre patrimônio, história e memória pudesse ser
trabalhada;
● Vejo, também, com bons olhos, a intervenção junto aos secretários de cultura quanto ao
trabalho de patrimônio, num esquema mais técnico que envolveria duas direções. Uma, que
seria mostrar o caminho para a obtenção de recursos e outra, de cursos de patrimônio e
restauro.
● Acho que seria preciso formar uma equipe pudesse fazer um levantamento dos arquivos
privados que são fundamentais para o desenvolvimento da região e dos projetos de
patrimônio cultural.
HISTÓRIA LOCAL: PESQUISA, ENSINO E NARRATIVA
Professor Luís Reznik (PUC-RIO/UERJ)13
A afirmação da historiografia da nação
A historiografia brasileira está impregnada por narrativas que discursam sobre a nação, a
pátria, a sociedade, o Estado brasileiro. Esta afirmação sublinha o lugar que o recorte temático
“nacional” assumiu entre os historiadores brasileiros. Os grandes textos, os clássicos da
historiografia, aqueles que tomaram lugar no panteão consagrado pelo pensamento político
e social, lidos como referências obrigatórias nas nossas universidades, escritos pelos que
se tornaram nossos mestres historiadores, remetem-nos, inequivocamente, à uma História
do Brasil.
Essas referências nos levam de volta ao século XIX, momento de constituição do
Estado brasileiro. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o atual Arquivo Nacional,
ambos criados em 1838, encabeçaram, à época, o conjunto de forças institucionais no
campo de produção de uma historiografia nacional. Os dois, em um esforço sistemático de
recolhimento e catalogação de fontes documentais e de elaboração de narrativas sobre
o Império, produziram memórias fundadoras da nacionalidade. Foram edificados sob os
auspícios de um governo monárquico que, orientado pelo princípio da centralização e pelo
temor da fragmentação territorial — vista como um dos males da América hispânica ­—, tornouse um dos principais agentes interessados em apagar e soterrar memórias e referências
de pertencimento marcadas por localismos e regionalismos (FIGUEIREDO, GONÇALVES e
REZNIK, 2000). Nessa perspectiva surge a História Geral do Brasil, de Francisco Varnhagen,
em 1854, e as suas “traduções escolares”, em especial aquelas escritas pelo romancista
Joaquim Manuel de Macedo, em 1861 e 1863. (MATTOS, 2000)
No século XX, os esforços em tornar “brasileiros” todos os que viviam em “terras do
Brasil” mobilizou tanto intelectuais como dirigentes estatais. A pesquisa empreendida
pelos modernistas dos anos 20 em diante, visava a fazer aflorar os traços da nacionalidade
brasileira, escondida sob os ideais cosmopolitas predominantes nas elites intelectuais do
início do século. Nas palavras de Gilberto Freyre, em 1926, precisavam sentir o “grande
Brasil” que crescia, em oposição aos que teimavam ver as coisas “através do pince-nez de
bacharéis afrancesados”.14
A nacionalização da escola, a partir da obrigatoriedade do ensino da língua portuguesa
e a sedimentação de conhecimentos de História e Geografia do Brasil; as grandiosas
comemorações de festas cívicas nacionais, como o Dia da Bandeira, Dia da Raça, Dia do
Trabalho; e a criação de agências nacionais de fomento às artes nacionais foram algumas
das políticas culturais do Estado Novo (1937-1945). Este foi o único período da República
brasileira a impor constitucionalmente o unitarismo político, negando a autonomia políticaorçamentária-legislativa das localidades estaduais e municipais.
Doutor em Ciência Política (IUPERJ) e Mestre em História (UFF). Professor do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e do
Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
14
Citado por Hermano Viana. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: Ed. UFRJ, 1995, p. 27. Gilberto Freyre é o autor de uma das obras mais célebres para
se “entender o Brasil”: Casa Grande e Senzala, de 1933.
13
49
A democratização após a II Guerra Mundial levou à tematização nos meios políticos e
intelectuais do caráter “subdesenvolvido” da economia e da sociedade brasileira. Os anos
50 ensejaram projetos nacional-desenvolvimentistas, que articulavam os meios para romper
com o que se considerava o atraso econômico e cultural da nação. O Instituto Superior de
Estudos Brasileiros (ISEB), criado em 1955 e sediado no Rio de Janeiro, reuniu parcela da
intelectualidade que, imbuída de convicções acerca da urgência das transformações, pari
passu ao Plano de Metas JK (“Cinqüenta anos em cinco” – 1956-60), divulgava através de
cursos, palestras e textos impressos, a “significação do nacionalismo”15.
Durante os governos autoritário-militares (1964-1985), os dirigentes impulsionaram
políticas de integração nacional de largo espectro, desde a construção de estradas
“integradoras” de várias regiões, até a criação de um aparato tecnológico que desse
conta da nacionalização dos meios de comunicação, isto é, da difusão de valores e bens
simbólicos. A Rede Globo de Televisão, que veio a se tornar, da década de 70 aos dias
atuais, a principal rede de televisão do país, em caráter quase monopolista, cresceu na
esteira dessas transformações, construindo, a partir do Rio de Janeiro, uma imagem de um
Brasil moderno, urbano e nacional.
Sintonizada com as transformações mundiais do ofício do historiador – desde a
constituição de novos objetos e métodos, passando pela ampliação dos domínios e
territórios da historiografia até a discussão dos estatutos e das fronteiras da disciplina –,
a historiografia brasileira contemporânea, posterior à implantação da Pós-graduação nos
anos 70, reiterou o foco na Nação e/ou no Estado nacional. Algumas vezes, entretanto, ao
anunciar a tematização do nacional, algumas obras focalizavam especificamente algumas
regiões, tomando a parte pelo todo, isto é, supostamente a região que foi objeto de estudo
deveria ser paradigmática das experiências ocorridas em todo o Brasil. Lembro, como
exemplo, estudos sobre industrialização, movimento sindical e movimentos abolicionistas,
onde historiadores narram processos ocorridos ora na cidade de São Paulo, ora na do
Rio de Janeiro, considerando-os exemplares, focalizando-as não como uma determinada
experiência, mas como a História do Brasil.
O gosto pela História, História local e identidade
1. Os processos de identificação:
As narrativas historiográficas que vimos até aqui configurando têm como suposto uma
forte lealdade e sentimento de pertencimento da sociedade e dos indivíduos aí inseridos à
entidade nacional. A idéia básica é que todos somos, em primeiro lugar, brasileiros. Como
afirma Gellner, “um homem deve ter uma nacionalidade, assim como deve ter um nariz e duas
orelhas” (GELLNER, 1983, p. 6). A nação foi, durante os últimos duzentos anos, um elemento
central em nossos sistemas de representação cultural. A idéia de ser brasileiro esteve arraigada
(e ainda está) nas nossas percepções do mundo, acima de outros sistemas de representação
cultural como, por exemplo, a religião, a cor ou o gênero. Nesses termos, a nação forja uma
estrutura na qual os indivíduos sentem-se identificados, “costurados”. As identidades nacionais
estabilizam “tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos
reciprocamente mais unificados e predizíveis”. (HALL, 1998, p. 12)
Como já argumentaram, uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir
sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de
nós mesmos. Esses sentidos são construídos, em grande parte, pelas imagens e símbolos
que são socializados, através de inúmeros mecanismos de produção e difusão, estatais ou
não, através das mais variadas memórias e histórias; enfim, discursos, sobre o ser brasileiro,
sua história, seus gostos, seus comportamentos. Nesse sentido, a identidade nacional é
50
15
Alusão ao título do texto de Hermes Lima “O significado do nacionalismo”, publicado na revista Cadernos de Nosso Tempo, em 1955. Ver Simon Schwartzman(org.).
O pensamento nacionalista e os ‘Cadernos do Nosso Tempo’. Brasília: Ed. UnB, 1981; Caio Navarro Toledo. ISEB: Fábrica de ideologias. São Paulo: Ed. Ática, 1977;
Vanilda Paiva. Paulo Freire e o nacional desenvolvimentismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
uma “comunidade imaginada”, simbólica.16
Nos tempos em que vivemos, os processos de criação de pertencimento ultrapassam
as margens do sujeito moderno, “previamente vivido como tendo uma identidade [nacional]
unificada e estável”. Os nossos processos de identificação tendem a ser mais provisórios,
variáveis e problemáticos, sejam eles relacionados a gêneros, etnias, cor, religião, vínculos
profissionais. As identidades são múltiplas e de definição instável: “A identidade torna-se
uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas
pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.”17
Transformamo-nos em sujeitos pós-modernos.
Nesses termos entendemos que o exercício da história local vincula-se a processos de
identificação, relacionados a um determinado sistema cultural, que enfatiza as relações de
vizinhança, contigüidade territorial, proximidade espacial.18 Essa ética de pertencimento é
mais um elemento constitutivo desse sujeito fragmentado, múltiplo e instável. A história
local não deve ser projetada como um valor superior para a admiração e valorização da
pequena pátria – no estilo “eu me ufano da minha terra” –, mas como a “costura” de um
retalho dos processos de identificação do sujeito.
2. O exercício da escrita de histórias locais:
As narrativas históricas devem aguçar a curiosidade acerca da passagem do tempo, ao
instigar a percepção da diversidade de situações, valores e comportamentos vivenciados
pelos homens. O que se espera do estudo da história? Que cada um reflita sobre o lugar em
que se encontra no mundo, formulando idéias sobre si e sobre os que estão ao seu redor.
O exercício da memória – pensar e repensar o passado – deve possibilitar a reflexão sobre
quem somos e queremos ser – nossas identidades.
A abordagem sob o recorte da história local é um campo privilegiado de investigação
para os diversos níveis em que se traçam e constituem as relações de poder entre indivíduos,
grupos e instituições. Campo privilegiado para a análise dos imbricados processos de
sedimentação das identidades sociais, em particular dos sentimentos de pertencimento
e dos vínculos afetivos que agregam homens, mulheres e crianças na partilha de valores
comuns, no gosto de se sentir ligado a um grupo.
O encantamento pelo passado e pela passagem do tempo pode se dar de formas
diversas, e a história local é uma delas. Ao se enfatizar temas e objetos, espaços, indivíduos
e costumes que podem ser reconhecíveis entre alunos que pertencem a um determinado
sistema cultural, baseado em relações de vizinhança, contigüidade territorial e proximidade
espacial, espera-se despertar, criar e ampliar o gosto pelo estudo da História.
Proposta metodológica: os materiais de memória
Propomos, a seguir, uma metodologia para a pesquisa e o ensino da história local que
explore os vestígios do passado, os materiais de memória como chaves de criação para
múltiplas histórias da localidade.
1) Cartografia: a leitura de mapas. Visa à compreensão da produção cartográfica como
uma expressão do esforço humano em conhecer, ocupar, controlar e transformar o espaço
geográfico. Os mapas são trabalhados como uma representação do espaço que é permeada
por valores culturais e sociais de seus autores e não como uma reprodução real do espaço.
2) Fotografia: pretende-se estimular a imaginação e a reflexão através do encontro entre a
fotografia e a História, por meio de um passeio pelos tempos e lugares da cidade. Épocas
Ver, entre outros, Benedict Anderson. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ed. Ática, 1989; Eric Hobsbawn. Nações e nacionalismos desde 1780. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1990; e Stuart Hall. Op.cit.
17
Idem, pp. 12 e 13.
18
Ver o rico mapeamento sobre as atuais discussões nas ciências sociais acerca do status da localidade como construtora de sentidos para a existência, no livro de Alain
Boudin A questão local. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, especialmente capítulo 1: “o objeto local”, pp. 25 a 57.
16
51
distintas são aqui retratadas. Registram tempos idos que se modificaram pela ação de
homens e mulheres. As fotografias ilustram o que a sociedade local quis perenizar de
si mesma, edificando imagens que nos abrem veredas de um passado atualizado pelas
percepções do tempo presente.
3) Construções arquitetônicas: podem ser compreendidas como janelas para modos de
vida. Igrejas, prédios públicos – Prefeitura e Câmara Municipal – sede de fazendas, dentre
outras construções, são registros de cultura material. Logo, o estudo destas construções ao
longo do tempo, levando em consideração seus diversos usos e funções, permite melhor
compreender como grupos sociais vivem seu dia-a-dia.
4) Crônicas: a crônica como gênero da escrita pode referir-se a qualquer história escrita por
pessoas que testemunharam um fato e que recuperam os acontecimentos em sua ordem no
tempo. A linguagem da crônica é sensível, direta e pessoal, podendo ser literária e enfatizar
o que descreve com adjetivos ou expressões equivalentes. É possível conhecer sinais do
passado local através de documentos como crônicas.
5) História oral: depoimentos e entrevistas. A História Oral é uma metodologia de pesquisa
e de constituição de fontes para o estudo dos tempos contemporâneos. A realização de
entrevistas e depoimentos possibilita aos pesquisadores e estudantes conhecerem aspectos
da história da localidade. A atividade também propicia dois importantes aprendizados: a)
diferenciar fato de opinião, a partir da experiência de leitura, entrevista e discussão; b)
reconhecer que é possível haver diferentes compreensões sobre o mesmo fenômeno ou
processo histórico.
6) Registros de vida: registros paroquiais e censitários. Registros paroquiais permitem-nos
refletir sobre os critérios de identificação e hierarquização dos grupos sociais, as relações
parentais e de compadrio, o estado sanitário e a ordenação do espaço local nos séculos
XVIII e XIX. Já os registros censitários nos permitem compreender a dinâmica das cidades no
processo histórico, a partir da comparação dos dados estatísticos.
7) Papéis do Estado: documentação produzida pelos poderes públicos. Buscam-se, nas
Mensagens e Relatórios dos prefeitos, vestígios dos projetos relativos às diversas políticas
públicas. Os documentos sublinham a competência dos prefeitos para projetar novos arranjos
e melhoramentos nas áreas de saúde, educação, iluminação pública, vias públicas, entre
outros.
8) Registros da vida associativa: associações são agrupamentos de indivíduos que se unem
para finalidades específicas e se mantêm juntos graças às diferentes práticas e rotinas que
realizam. Ao longo de suas trajetórias de vida, indivíduos constituem identidades religiosas,
corporativas, políticas, entre outras afinidades e interesses comuns, e organizam-se criando
associações ou se incorporando às já existentes. As associações podem ter caráter efêmero
ou permanente, podem ser locais ou ultrapassar os limites territoriais do bairro, do município,
do estado ou do país. A criação, a manutenção e a realização das ações que caracterizam as
organizações geram inúmeros documentos, tais como atas de reunião, boletins, fotografias,
jornais, material publicitário, entre outros. Através desses vestígios é possível reconstituir os
espaços de sociabilidade local.
52
9) Registros de propriedade: estão relacionados às diversas formas de geração de riqueza
elaboradas pelos homens. Variam de acordo com a organização social da produção e do
trabalho. Os registros assumem formas diferenciadas: inventários, testamentos, cartas de
doação de sesmarias, registros de juntas comerciais, publicidade comercial, fotografias de
estabelecimentos comerciais e industriais. Através desses vestígios podemos compreender
tanto os aspectos materiais que envolvem as atividades como também seus aspectos
simbólicos, políticos e sociais.
Concluindo
A proposta aqui desenvolvida visa a:
A) Apresentar metodologias de sistematização e análise dos mais variados materiais de
memória, aqui entendidos como vestígios documentais do passado. Espera-se que, a partir
da realização do método proposto, professores, pesquisadores e estudantes dos vários níveis
de ensino possam criar suas próprias narrativas históricas.
B) Refletir sobre a constituição e reelaboração, por meio do conhecimento histórico, das
identidades e pertencimentos locais. Com isso, pretende-se reavaliar e deslocar estigmas
sociais acerca do município, das suas localidades e de suas gentes.
C) Valorizar o patrimônio material e imaterial do município.
D) Propiciar a integração da escola com a comunidade circundante, através da mobilização
dos alunos junto às famílias, às instituições e aos cidadãos em geral para a realização das
atividades.
E) Contribuir para o conhecimento da História do Município.
Pequena bibliografia:
BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2003.
BORNE, Dominique. “Comunidade de memória e rigor crítico”. In: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique. Passados
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BOURDIN, Alain. A questão local. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Lisboa: Quarteto, 2001.
CHARTIER, Roger. “A História hoje: dúvidas, desafios, propostas”. In: Estudos Históricos, vol. 7, nº 13. Rio de
Janeiro: Ed. FGV, 1994
FIGUEIREDO, Haydée; GONÇALVES, Márcia de Almeida; REZNIK, Luís. “Entre moscas e monstros: construindo
escalas, refletindo sobre história local”. In: Anais do IV Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História/
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VELHO, Gilberto.”Memória, identidade e projeto, uma visão antropológica”. In Revista Tempo Brasileiro. Rio de
Janeiro, 95:119-126, out.-dez., 1988.
53
Alunos de
Turismo
da USS,
voluntários
do projeto
Restaurante – Dia 17 de junho
Fernando Portella (ICCV) –
Abertura do Encontro
Ana Seraphim, Ana Lucia Mattozo Furtado,
Antonio Orlando Izolani, Andréa Jordão
Amaral, José Luiz Alqueres, Marcus
Monteiro, Mozart Vitor Serra, Luiz Resnik,
Fernando Portella – Mesa de Abertura
54
Antonio Edmilson Martins Rodrigues,
Mozart Vitor Serra, Luiz Resnik
Sérgio Linhares – Representante do INEPAC
Oficina de História – Salão Bouganville
Participantes do I Encontro de
História do Vale do Paraíba
Mario Margutti (ICCV) e
Prof° Magno Borges (USS)
Auditório – Dia 18 de junho
Antonio Edmilson Rodrigues, Ana Lucia Mattozo Furtado,
Fernando Portella, Mozart Vitor Serra, Mario Margutti – Mesa de Encerramento.
Oficina de História – Salão Bouganville
Luis Augusto Mury, Sérgio Linhares,
Antonio Edmilson Martins Rodrigues,
Mario Margutti, Magno Borges
Sônia Mattos, Sérgio
Mello, João Carlos Néri,
Mozart Vitor Serra
55
Considerações Sobre o
“I Encontro de História do Vale do Paraíba”
Professor Antonio Brant Ribeiro Filho
Tendo em vista que este foi o primeiro encontro, de uma série que se seguirá, podemos
dizer que, no âmbito geral, os resultados foram significativos. O grande número de pessoas
interessadas no estudo da história do Vale do Paraíba que compareceu ao evento, assim
como a motivação da maioria delas, foram fatores que contribuíram para o sucesso daquele
acontecimento.
O elevado interesse demonstrado pelos presentes também foi marcante, diferenciando
esse encontro de outros acontecimentos similares. O significativo número de historiadores e
escritores que fizeram questão de narrar as suas experiências, os seus trabalhos e as suas
publicações foi uma demonstração gratificante do aludido interesse.
As presenças do presidente da Light, José Luiz Alqueres, e do diretor do Instituto Light,
Mozart Victor Serra, adicionaram respeitabilidade ao encontro.O sistema de apoio oferecido
pelo Instituto Cultural Cidade Viva revelou-se perfeito, o que colaborou imensamente para
o sucesso daquele acontecimento. O hotel, no que tange às acomodações pessoais, às
instalações destinadas ao encontro e ao serviço por ele oferecido, nada deixou a desejar.
Podemos, entretanto, fazer algumas observações quanto ao não cumprimento do programa
pré-estabelecido. Senão vejamos:
Com a devida antecedência, fui convidado para proferir duas palestras e para participar
de duas mesas redondas, ambas na parte da tarde do dia 17 de junho. A primeira delas
deveria, de acordo com a programação, ter início às 14 horas e o tema seria “A experiência dos
Escritores Locais Contadas por Eles Próprios”.
Rio de Janeiro, 12 de junho de 2008.
Prezado Sr. Antonio Brant,
É com grande prazer que confirmamos sua agenda no I Encontro de História do Vale do
Paraíba, como palestrante e componente das seguintes mesas:
- Dia 17 de junho às 14:00 horas – Salão Bouganville
Tema: As Experiências dos Escritores Locais Contadas por Eles Próprios
- Dia 17 de junho às 16:00 horas – Salão Bouganville
Tema: Cultura Popular e Narrativa Histórica
56
Ocorre que, logo após a apresentação da proposta do encontro, deliberou-se pela
antecipação das palestras, ainda na parte da manhã, contrariando o programa distribuído aos
presentes.
Naquela ocasião, como o intervalo até a hora do almoço era pequeno, nem todos os
palestrantes puderam apresentar os seus trabalhos, os quais tiveram que ser resumidos
devido à exigüidade do tempo. Só pude fazer um rápido comentário, de não mais de 15
minutos, ainda assim, após a fala dos vários participantes que estavam no auditório e se
inscreveram para tal.
Já a segunda palestra, prevista para as 16 horas, sequer ocorreu.
Outra observação fica para a falta de orientação aos participantes que usaram da palavra.
Alguns se excederam no tempo, impedindo, dessa forma, que outros também pudessem ser
ouvidos. Vários deixaram o assunto “história” de lado para, por exemplo, discorrer sobre o seu
currículo.
Para o próximo encontro, temos algumas sugestões a fazer:
A primeira é de que sejam feitas algumas recomendações aos participantes do auditório
que desejarem se pronunciar.
A segunda, que sejam disponibilizados horários específicos para aquele tipo de
manifestação, como, por exemplo, durante as mesas redondas.
Sendo o único participante do I Encontro de História do Vale do Paraíba de Minas Gerais,
pude observar como foram proveitosos os contatos que fiz com os historiadores ali presentes.
Portanto, achamos que, para o próximo encontro, deveriam ser convidadas pessoas de outras
regiões, fora mesmo do estado do Rio de Janeiro, para participarem do evento, propiciando,
assim, uma interessante e rendosa integração entre historiadores.
A questão da divulgação desse primeiro encontro, assim como dos demais, deveria ser
olhada com carinho. Considero que uma boa divulgação, feita de forma intensa e objetiva,
divulgaria a história do vale, atrairia mais pessoas para o encontro seguinte e os patrocinadores
se projetariam mais.
Considerando todas as observações anteriores, podemos concluir que o I Encontro de
História do Vale do Paraíba obteve sucesso e, com toda a certeza, vai refletir positivamente
entre os participantes, assim como nas comunidades abrangidas por ele, principalmente se
outros forem realizados, dando continuidade a esse interessante projeto.
Também é motivo de elogios a iniciativa do Instituto Light para o Desenvolvimento Urbano
e Social, patrocinador do Encontro.
Ressaltei na minha fala a importância dos arquivos familiares e demais arquivos que não
estão abertos ao público para a pesquisa da história. Realcei, naquela oportunidade, que, a
cada dia, agiganta-se a perda destes documentos pela forma incorreta de armazená-los e pela
pouca importância dada a essa documentação pelos seus proprietários.
Pelo que observei em contatos com os historiadores da região, assim como em
pronunciamentos durante os trabalhos do Encontro, o Vale do Paraíba possui diversos desses
arquivos. Assim, fica a sugestão para que seja desenvolvido um projeto que catalogue, digitalize
e disponibilize todo o acervo da região, via internet, aos pesquisadores.
Outra idéia é a criação de um museu interativo que guarde e reverencie o Ciclo do Café.
Em todo o mundo, há algum tempo e, no Brasil, mais recentemente, os Centros e
Museus interativos vêm se tornando interessantes espaços, para o grande público, que unem
entretenimento e lazer cultural à divulgação dos assuntos e motivos de que tratam.
Os museus interativos apresentam características que favorecem uma grande variedade
e intensidade de interações sociais, estimulando a curiosidade e facilitando a aprendizagem.
Dessa forma, o museu sugerido disporia de máquinas e objetos, antigos e réplicas, utilizados
nos tempos dos Barões do Café, ao lado de novos modelos, que desempenham aquelas
mesmas funções nos dias de hoje.
Até a questão do empobrecimento do solo, como uma das razões que levaram ao fim
da produção cafeeira da região, poderia ser abordada no museu. Esse item, certamente,
despertaria o interesse de estudantes e interessados de outras áreas, que não a da história.
Toda e qualquer visita a esse museu seria monitorada por profissionais especializados.
57
Mesa: Financiamento para Restauração do Patrimônio
Conferencista: Sérgio Mello – Diretor de Operações da TurisRio
A fala do Diretor de Operações da Turisrio, Sérgio Mello, apresentou o detalhamento do
PRODETUR-RIO, convênio recém-firmado entre o Governo do Estado do Rio e o Ministério
do Turismo, que virá prover recursos para uma séria de ações em todo o Estado, nas áreas
de Estratégia de Produto, Infra-Estrutura, Comercialização e Capacitação, dentre outras. A
apresentação foi extremamente clara e detalhada, revelando os investimentos previstos por
região e cidades do Estado. Com relação ao Vale do Café, as propostas enunciadas atendem
a uma grande demanda nas áreas mencionadas, e criaram grande expectativa na platéia.
Conferencista: João Carlos Néri - Banco do Brasil, Agência Vassouras
O palestrante iniciou sua apresentação dizendo que, especificamente para a recuperação
do patrimônio histórico, não existem atualmente quaisquer linhas de crédito no Banco do
Brasil. Para o TURISMO, existe o PROGER TURISMO, que utiliza recursos do FAT, os quais
são repassados pelo BB, com carência de até 1 ano. O Projeto deverá contemplar a geração
de emprego e renda para que os recursos sejam aprovados. A garantia do financiamento
será a propriedade na qual os investimentos serão realizados. Para o caso específico do
Patrimônio, o Sr. Néri sugeriu que se procure junto à Fundação Banco do Brasil, levando
em conta inclusive os resultados do I Encontro de História do Vale do Paraíba, sensibilizar a
instituição para que sejam criadas linhas especiais para a região do Vale.
Foi mencionado também o FUNGETUR, fundo gerido pela Caixa Econômica Federal, com
recursos do Ministério do Turismo, mas que é destinado apenas a empresas cadastradas
no Ministério e nas Secretarias Estaduais de Turismo. O Rio de Janeiro possui pouquíssimas
empresas cadastradas. O BNDES oferece o Cartão BNDES, em parceria com o Banco do Brasil,
que também se aplica à renovação de empreendimentos turísticos, mas não necessariamente
históricos. Também existe o FINAME, programa que contempla a aquisição de equipamentos
e bens de consumo duráveis, necessários à indústria hoteleira. A conferência foi igualmente
elucidativa, evidenciando, contudo, a inexistência, em todas as instâncias, de linhas de
crédito específicas para a recuperação e o uso do patrimônio histórico para o Turismo.
O Lugar da História Regional na Memória
Historiográfica Brasileira
58
Rui Aniceto Nascimento Fernandes20
O VI Encontro Regional do Núcleo do Rio de Janeiro da ANPUH, realizado em 1994, contou
com três conferências proferidas por Eulália Lobo, Francisco Falcon e Maria Yedda Linhares,
que realizaram um balanço historiográfico sobre a história do Rio de Janeiro. Concentremonos nos dois primeiros textos por ora.
Eulália Lobo realizou um grande inventário de instituições e acervos documentais,
assim como de fontes impressas passíveis de ser utilizadas na construção da história do
Rio de Janeiro, desde o período colonial até a época em que escrevia. Na segunda parte do
texto da conferência há um inventário de autores e obras sobre temáticas diversas: história
administrativa, urbana etc. Caminho semelhante foi tomado por Francisco Falcon, que abriu
seu texto demonstrando a complexidade de se pensar o Rio de Janeiro por este ter um
caráter de centro de importantes instituições de acervo e por concentrar destacados centros
de pesquisa não apenas universitários – citando, como exemplos, a Fundação Casa de Rui
20
Doutorando em História Social da Cultura pela PUC-RJ.
Barbosa e a Fundação Oswaldo Cruz – que elaboram trabalhos históricos sobre a temática.
Em um segundo momento, Falcon fez recortes temáticos sobre a produção que passava a
analisar.
Não é apenas na estrutura textual que podem ser observadas semelhanças nas
exposições de ambos historiadores. Há alguns pressupostos em comum, que são
interessantes e merecem destaques.
Em primeiro lugar, ambos têm com referência a produção universitária, excluindo desta
análise uma ampla produção realizada fora dos círculos acadêmicos, entendidos como as
instituições de acervo e pesquisa – como o CPDOC e a Casa de Rui Barbosa – relacionadas
por Falcon.
... Essa tentativa de balanço resultou talvez universitária em demasia, se bem que em
sua defesa se possa argumentar com o fato de que, desde a década de 70, pelo menos,
a produção do conhecimento histórico vem sendo realizada, em mais de 90% dos casos
, no âmbito das universidades, ou mais concretamente, na esfera dos programas de pósgraduação20.
Nem se cogitou referência à produção fora desses círculos, pelo seu tom descritivo ou
“memorialista”:
A historiografia do Rio de Janeiro caracterizou-se, por longo tempo, pelos relatos
empíricos descritivos, geralmente obedecendo à ordem cronológica ou pelas memórias de
estrangeiros e nacionais. As memórias voltavam-se com freqüência para o exótico, o outro,
o que fugia do modelo europeu, nessa metrópole situada nos trópicos. Porém constituemse em excelentes fontes de informação. O estabelecimento dos cursos de pós-graduação,
o desenvolvimento do ensino da teoria e metodologia nas Universidades, os recursos do
CNPq, FINEP, CAPES, a criação de centros de pesquisa como a Casa de Rui Barbosa e o
CPDOC, modificaram esse panorama21.
Em ambos encontramos uma referência à produção universitária do saber histórico – em
especial aquela posterior à década de 1970, quando surgiram os primeiros cursos de pósgraduação – que desqualifica outros discursos sobre o passado, que não tenham ligações
com aquele. No máximo, estes estudos são reconhecidos como fontes de informação.
Por outro lado, não se define, nos textos, de qual Rio de Janeiro se está falando: a cidade
ou o estado. Lembremos-nos que, por quase cento e cinqüenta anos (1834 a 1975), a cidade
esteve separada político-administrativamente do estado, o que levou a uma série de fatores
que são significativos nesta análise. O Ato Adicional de 1834 transformou a cidade do Rio de
Janeiro em município neutro e capital do império. Sua condição de capital foi reafirmada com
a instauração do regime republicano, que a manteve como Distrito Federal, capital do país. A
transferência do centro político para Brasília, em 1960, levou à criação de um novo estado,
a Guanabara, extinto apenas com a fusão dos dois estados – deste com o do Rio de Janeiro
– em 1975. Essa trajetória confere especificidades à trajetória histórica destas regiões.
A cidade tornou-se um importante centro urbano, industrial e operário do país, diferindose do Estado eminentemente rural, agrário e campesino que fôra, exatamente por isso, a
província-chave do Império e o celeiro da Corte/Distrito Federal por um longo tempo. Definir
de qual Rio de Janeiro se fala é importante, devido às especificidades das regiões. Para
avaliarmos o quão díspar é a produção universitária – dissertações de mestrado e teses de
doutorado – sobre a cidade e o estado, podemos lançar mão do catálogo organizado por Lícia
Valladares e Maria Sant’Anna, que levantou a produção de várias áreas do conhecimento
entre 1960 e 1990. Em um universo de 265 trabalhos, 73% dos títulos inventariados, a
maioria esmagadora, aborda a cidade do Rio de Janeiro. A região metropolitana contava com
11% dos estudos e o restante do estado com 16%22. Consultando o catálogo de dissertações
e teses do programa de pós-graduação em história mais antigo do Estado do Rio de Janeiro,
Francisco Falcon. O Rio de Janeiro como objeto historiográfico. In: Revista Brasileira de História. São Paulo. 1995. N.° 30. vol. 15. p. 65-66.
Eulália Maria Lahmeyer Lobo. Historiografia do Rio de Janeiro. In: Revista Brasileira de História. São Paulo. 1995. N.° 30. vol. 15. p. 50.
22
Licia do Prado Valladares e Maria Josefina G. Sant’Anna (Orgs.). O Rio de Janeiro em teses. Catálogo bibliográfico 1960-1990. Rio de Janeiro: UERJ/CEP:Rio; IUPERJ/
URBANDATA, 1992.
20
21
59
o da Universidade Federal Fluminense, localizamos 700 dissertações e teses, defendidas
entre julho de 1974 e agosto de 200523. Desse conjunto, cerca de 17%, (121) abordam
temáticas referentes à cidade do Rio de Janeiro. Aquelas cuja temática envolvem o estado
do Rio de Janeiro – agrupados aqui estudos sobre municípios e/ou regiões – totalizam 8,3%
(65), aproximadamente a metade daquelas referentes à cidade.
Se, por um lado a produção universitária não destacou o Estado do Rio de Janeiro em
suas análises, por outro desqualificou os estudos historiográficos elaborados fora destes
círculos, taxando-os como memorialistas, termo consagrado por José Honório Rodrigues ao
se referir a uma série de estudos históricos do século XIX e do seguinte.
Para este historiador, a história memorialista estaria próxima da história antiqüária
por sua nostalgia do passado, por sua busca em retratar fielmente o passado. A história
antiqüária, no entanto, realizava a coleção de fatos mortos, de que falou uma vez Karl Marx,
que reunia as minúcias da história como um armarinho de miudezas, a memorialista era
sua irmã gêmea, não só na nostalgia do passado, no estilo romântico, nesta atitude de
simpatia pela idade morta, na facilidade sentimental com que desperta emoções ligadas
às pessoas e coisas do passado, na idealização e... do passado, mas também um certo
capítulacionismo contemplativo e passivo, que evita julgar e suavizar os receios presentes.
Mas em compensação a ‘memorialista’ quer ainda possuir o passado e para isso nos ensina
uma compreensão mais viva e humana do destino e das ações dos homens e não rejeita o
povo24.
A história memorialista buscava reconstruir o passado de um local ou uma região,
unindo à pesquisa documental elementos biográficos ou autobiográficos. Aproximando-se
da crônica é “em si um programa histórico, a idéia de que era necessário evocar o passado
e trazê-lo vivo aos nossos olhos”, visando a atrair um público mais amplo25. Para conseguir
uma “significação quase visual” prendia-se à minúcia dos fatos, do pitoresco, ao anedótico,
relegando esse discurso ao lugar de fonte de informações e não de historiografia.
É nessa mesma direção que segue o balanço historiográfico que Ismênia de Lima Martins
elaborou sobre a produção referente à Niterói. Partindo do pressuposto de que tendo sido
a província do Rio de Janeiro uma das mais dinâmicas do período imperial, a historiografia
sobre sua capital deveria ser um dos objetos privilegiados.
O pressuposto de que a historiografia brasileira privilegiou em seus quadros as cores
vibrantes dos centros hegemônicos política e/ou economicamente, deve gerar uma
expectativa positiva em relação à produção historiográfica sobre Niterói, capital da província
mais dinamizada economicamente no Império. No entanto, a identificação do material
existente frustra consideravelmente aquela expectativa26.
E, a partir daí, a historiadora passou a expor os motivos para essa situação: a consolidação
tardia de Niterói enquanto cidade e a atração de sua elite dirigente pelo jogo político na
capital vizinha, Rio de Janeiro.
Ismênia Martins relacionou 84 títulos, dos quais ela destaca os trabalhos de José Matoso
Maia Forte, Antônio Figueira de Almeida e José Antônio Soares de Souza, como monografias
de maior fôlego, que objetivaram “traçar um quadro geral da história da cidade ou município”,
diferentemente da grande maioria dos estudos levantados, que “é constituída de artigos que
não ultrapassam três páginas, cujo potencial explicativo é praticamente nenhum. Na maioria
das vezes apresentam-se como simples registros, e os mais ousados apenas tangenciam um
nível de questionamento”27. De um modo geral, esses textos:
Consultado no site do programa de pós-graduação em história da UFF: www.historia.uff.br
José Honório Rodrigues. A historiografia memorialista e o Rio de Janeiro. In: Vivaldo Coaracy. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: José Olympio,
1965. p. XXXVIII.
25
Idem , p. XXXVII.
26
Ismênia de Lima Martins. Niterói histórico. A cidade e a historiografia. In: Ismênia de Lima Martins e Paulo Knauss (Orgs.). Cidade múltipla. Temas de história de
Niterói. Niterói: Niterói Livros, 1997. p. 231.
27
Idem, p. 232.
23
24
60
Apresentam-se, porém, fortemente limitados pelo compromisso com a história factual
tradicional, insuficiente grau explicativo, desprezo pelos questionamentos sócioeconômicos,
e ainda pelo desinteresse com que encaram as articulações local/regional/nacional28.
É uma historiografia marcada por um ufanismo localista, que chega às raias da
excentricidade, segundo a historiadora. “Alguns dos seus produtos classificam-se forçosamente
como excêntricos”, citando um pequeno artigo do padre José Nicodemos Santos, publicado
no Jornal do Instituto Histórico de Niterói: “Morre uma palmeira histórica”29.
Essa tida deficiência historiográfica poderia ser sanada pela produção universitária,
já que, na cidade, localizava-se a Universidade Federal Fluminense. No entanto, isso não
ocorrera, tendo em vista que seu levantamento no acervo de dissertações do programa
localizou três títulos, em um universo de 267 produzidas até 1995. Apesar da pequena
quantidade, destaca-se a diversidades de temas abordados – um deles realiza um estudo
histórico-demográfico da cidade, outro aborda a questão das freguesias rurais no século
XIX e o último faz uma análise dos movimentos associativos de bairros e sua relação com o
Estado.
Pelo que foi exposto até agora, se observa um certo consenso de perspectiva, no que
tange à produção historiográfica local/regional fora dos círculos universitários.
Em primeiro lugar, a historiografia produzida fora dos círculos universitários é estigmatizada
como tradicionalista, factual, evolutiva, política, com forte cunho biográfico e autobiográfico,
que tende para o pitoresco, o anedótico, o exótico. Rotulada como memorialista, engloba-se
nesse grupo uma gama variada e díspar de estudiosos, desde aqueles que escrevem pequenas
notas para a história de uma instituição ou personagem, até aqueles que se dedicaram a
desenvolver extensos inventários da história de uma cidade ou região. As menções a essas
produções costumeiramente são pejorativas. Homogeniza-se essa produção no tempo e no
espaço. As obras e os autores são tidos como reacionários e conservadores, como aqueles que
se dedicaram/dedicam à coleção do anedotário, do pitoresco e do folclórico. Homogeniza-se
uma produção com profundas raízes na tradição historiográfica brasileira. É uma produção
que circula por outros espaços que não os universitários: Academias de Letras, Cenáculos ou
Institutos Históricos. Seus autores, autodidatas em grande maioria – médicos, advogados,
engenheiros etc. – estão envoltos em uma rede de sociabilidades que os fazem reconhecidos
por grupos dos poderes públicos e prestam-lhes assessoria. Reconhece-se nela, quando
muito, um valor informativo. A história que tem seu valor reconhecido é aquela produzida
nas universidades, em especial, posteriormente à implementação das pós-graduações na
década de 197030. Essa produção anterior é tudo aquilo que a historiografia acadêmica
atual não é, e, por isso, é, muitas vezes esquecida, silenciada, na construção da memória
historiográfica brasileira.
Historiografia brasileira: uma memória disciplinar construída.
A história, assim como qualquer outro campo do conhecimento, conta com uma memória
institucional que lhe configurou uma trajetória até sua constituição enquanto disciplina
acadêmica/científica. Todo processo de construção de histórias é marcado por disputas
institucionais, que levam ao esquecimento das propostas derrotadas e à sublimação do
modelo vencedor como aquele legítimo herdeiro de tradições anteriores, como aquele que
Idem, p. 233.
José Nicodemos dos Santos. Morre uma palmeira histórica. In: Jornal do Instituto Histórico de Niterói. 1976, p. 59-61. apud Idem, p. 233.
Essa perspectiva universitária da produção historiográfica não é privilégio apenas dos círculos universitários. O artigo de Miridan Brito Knox Falci sobre a produção
historiográfica sobre o Rio de Janeiro do programa de pós-graduação em história da Universidade Federal do Rio de Janeiro demonstra como essa perspectiva também
está presente, de certa forma, em uma academia literária, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Cf. Miridan Brito Knox Falci. A produção historiográfica
sobre o Rio de Janeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. 1998. p. 107 e112. Por outro lado,
não é uma perspectiva presente apenas no Rio de Janeiro. Ao ser organizado o X Encontro Regional de História do núcleo mineiro da ANPUH, cuja temática era “Minas,
trezentos anos: Um balanço historiográfico”, Eliana Freitas Dutra realizou um balanço historiográfico onde diz que “achei por bem me ater à mesma e me propus fazer um
balanço da produção historiográfica mineira nos últimos 12 anos, na sua relação com a universidade, particularmente com os cursos de pós-graduação... ”. Cf. Eliana
R. Freitas Dutra. A historiografia mineira: Tendências e contrastes. In: LPH. Revista de história. UFOP. Nº. 6. 1996. p. 7-15.
28
29
30
61
é o elo do continnum que levou a disciplina a tornar-se científica no século XIX, quando
foi criada a cátedra universitária. Nesse processo celebra-se a figura de Ranke como
ícone da cientificidade histórica no século XIX, por ter estabelecido o método científico de
análise histórica31. Por outro lado, as contribuições da tradição antiqüária para o processo
de cientifização da história foram “esquecidas”, pois essa concepção de construção do
conhecimento histórico foi apresentada como conservadora, dissociada de um valor prático,
com um gosto peculiar pelo exótico e por ter um fetiche pelos vestígios materiais do passado
em si32.
Se tal processo ocorreu em relação à história da história enquanto campo do saber,
na tradição ocidental, não podemos nos refutar à constatação de que, quando se analisa
esse processo na produção brasileira, encontramos um quadro análogo. Em coletâneas
especializadas e em cursos de historiografia nas universidades pode-se observar que o
processo de escrita da história no Brasil constitui uma linearidade progressiva que, em
último estágio, leva a produção acadêmica do período posterior à instalação dos cursos
de pós-graduação no país. Essa história institucional destaca aqueles que construíram a
história da nação sob o prisma da globalidade e da generalização e com a análise de seus
métodos, onde se percebe um processo de cientificização do saber histórico33.
Assim, essa historiografia científica ter-se-ia inaugurado com a criação do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, na quarta década do século XIX. Naquele momento visavase à construção de uma história que consolidasse o Estado Imperial34. Para tal realizou-se
um concurso que objetivava premiar o melhor modelo para a escrita da história do Brasil
e que foi ganho pelo naturalista Von Martius. Nesse texto, Martius propunha uma história
que valorizasse os supostos elementos integradores das três correntes étnicas constituintes
do povo brasileiro35. No entanto, a narrativa que se tornou o paradigma do período foi a
de Francisco Adolfo Varnhagen. Este é o mais celebrado historiador do século XIX, por ter
sido o primeiro brasileiro a construir a primeira história geral do país e por seu esforço em
demonstrar a continuidade européia na América através do Estado Imperial Brasileiro36.
O passo seguinte fôra dado por Capistrano de Abreu, na virada do século XIX para o XX.
Invertendo a ótica predominante no período anterior, o historiador cearense interpretou a
história brasileira através do sertão, descobriu o Brasil pelo interior, no que, de certa maneira,
é continuado nas décadas seguintes pelos modernistas.
Os ares modernistas dos anos de 1920 promoveram profundas transformações no seio
da reflexão intelectual sobre o país. Repensar a identidade nacional ou, nas palavras de Elias
Tomé Saliba, reinventar o Brasil era o projeto ambicioso desses intelectuais37. Nas décadas
de 1930 e 1940, o saber histórico inseria-se em um vasto campo de contornos pouco rígidos,
denominado Estudos Brasileiros, herdeiro dos anseios modernistas, que procurava demarcar
uma nova historiografia brasileira, “moderna naquilo que esse adjetivo ainda carregava das
Sergio Buarque de Holanda. (Org.). L. Von Ranke. São Paulo: Ática, 1979. Peter Gay. O Estilo da História. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Hayden White.
Meta-história. A imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Edusp, 1995. Algumas coletâneas de divulgação da história da história destacam esse processo de
cientificização do saber histórico produzido no século XIX na Europa, em especial os casos da Alemanha e França. Cf. Thereza Aline Pereira de Queiroz e Zilda Márcia
Grícoli Iokoi. A história do historiador. São Paulo: Humanitas Editora/FFLCH/USP, 2003. Philippe Tétart. Pequena história dos historiadores. São Paulo: EDUSP, 2000.
Charles-Oliver Carbonell. Historiografia. Lisboa: Teorema, 1987. Guy Bourdé e Hervé Martin. As escolas históricas. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. Georges
Lefebvre. O nascimento da moderna historiografia. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1981
32
Arnaldo Momigliano. As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: Edusc, 2004. Manoel Salgado Guimarães. A cultura histórica oitocentista: a constituição
de uma memória disciplinar. In: Sandra Pesavento. (Org.). História cultural: experiências de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003. p. 9-24. _____. Para
reescrever o passado como história: o IHGB e a Sociedade dos Antiquários do Norte. In: Alda Heizer; Antônio Augusto Passos Videira. (Org.). Ciência, Civilização e
Império nos Trópicos. Rio de Janeiro: Acsses, 2001. _____. Reinventando a tradição: sobre antiqüariado e escrita da história. Revista Humanas (IFCH/UFRGS), Porto
Alegre, v. 23, n. 1/2, p. 111-143, 2000.
33
Pedro Moacyr Campos. Esboço da historiografia brasileira nos séculos XIX e XX. In: Jean Glénisson. Iniciação aos estudos históricos. São Paulo: Difel, 1977. p. 250293. Carlos Guilherme Mota. Ideologia da Cultura Brasileira. São Paulo: Ática, 1977. (especialmente a Introdução p. 17-51). José Carlos Reis. As identidades do Brasil.
De Varnhagem a FHC. 8ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2006. Francisco Iglesias. Historiadores do Brasil. Capítulos de historiografia brasileira.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Belo Horizonte: UFMG/IPEA, 2000.
34
Manoel Salgado Guimarães. Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional. In: Estudos Históricos,
v. 01, n. 01, p. 5-27, 1988. Lucia Maria Paschoal Guimarães. Debaixo da imediata proteção de Sua Majestade Imperial: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileira
(1838-1889). In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileira, Rio de Janeiro. Ano 156, n°. 388. p. 459-613, jul/set. 1995.
35
Karl Von Martius. Como se deve escrever a história do Brasil? In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. n° 24. Janeiro de 1845. p. 381-403.
36
Arno Wehling. Estado, história, memória: Varnhagem e a Construção da Identidade Nacional. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Lúcia Guimarães, op. cit.
37
Elias Thomé Saliba. Reinvenção da história. In: Brasil-brasil: cousas notáveis e espantosas (olhares modernistas). Lisboa: Comissão Nacional para as comemorações
dos descobrimentos portugueses, 2000, p. 43-49.
38
Marcia de Almeida Gonçalves. Em terreno movediço: biografia e história na obra de Octávio Tarquínio de Sousa. Tese. (Doutorado em História) – Universidade de São
Pulo. São Paulo. 2003. p. 202.
31
62
implicações e ambigüidades do movimento modernista, entre intelectuais brasileiros”38.
Desse grupo participavam, entre outros, Alice Canabrava, Caio Prado Júnior, José Honório
Rodrigues, Gilberto Freyre, Otávio Tarquínio de Souza e Sérgio Buarque de Holanda, que
se envolveram, entre outras atividades, na produção do Manual Bibliográfico de Estudos
Brasileiros, dedicando-se aos balanços historiográficos da produção existente. Reinventando
a história do país, esses autores “redescobriam” os clássicos da historiografia nacional,
destacavam as coletâneas documentais publicadas e os acervos inexplorados, ressaltando
assim o muito que ainda havia por ser feito. Foi assim também que Maria Yedda Linhares e
Emília Viotti da Costa relembraram o campo historiográfico na década de 1950, período em
que se formaram na Faculdade Nacional de Filosofia e na USP. Ambas ressaltam o ensaísmo
da produção historiográfica e a pequena prática da pesquisa em acervos documentais nos
anos de 1950 e 1960.39
A institucionalização universitária do saber histórico iniciou-se na década de 1930. No
entanto, foi com os cursos de pós-graduação, nas décadas de 1970-1980, que a disciplina
se consolidou com a fixação de práticas, métodos e teorias de pesquisa. Naquele momento
os cursos de história, geografia e ciências sociais são constituídos por missões estrangeiras,
especialmente francesas40. Ao mesmo tempo arregimentou-se docentes brasileiros e estes,
segundo Cecília Westphalen, sobretudo os professores de história do Brasil, catedráticos
de primeiro provimento, que permaneceriam muitos por mais de 20 anos, foram recrutados
entre os membros dos Institutos Históricos e as Academias de Letras, não apenas totalmente
despreparados, como portadores de uma orientação superada41.
Despreparados e superados de acordo com as novas diretrizes que eram implementadas
pelas pós-graduações. Nesse período, as análises da sociedade brasileira eram inspiradas
no marxismo e nos Annales. Esses trabalhos, criados nos parâmetros universitários, hoje,
são considerados as obras de referência, analisadas, discutidas, criticadas ou reverenciadas
pelas gerações de historiadores que se seguiram a essa fase. É nesse período que se supera
o autodidatismo e uma certa concepção de história que marcou a historiografia da primeira
metade do século XX. Os estudos de historiadores locais perderam espaço, mas a temática
da história regional passou a ter novos contornos.
Foi nesse contexto que a história regional ganhou espaço e respeitabilidade no seio do
saber historiográfico, com o Programa de Estudos Agrários na FGV, na UFRJ e na UFF, nas
décadas de 1970 e 1980. Em sua conferência no VI Encontro do núcleo fluminense da
ANPUH, Maria Yedda Linhares defendia os estudos regionais como aqueles que permitiriam
investigações comparativas e que viabilizariam análises mais complexas da realidade
brasileira.
O fato é que a história regional, como a concebemos e a realizamos, remete a totalidades
mais amplas e nos leva a rever e a valorizar, a revalorizar e a reavaliar o conjunto da
historiografia brasileira, ao mesmo tempo em que somos inspirados a comparar diferentes
realidades e experiências históricas42.
A história regional, no entanto, era uma temática que já compunha o leque dos historiadores
há muito tempo, como ressalta José Honório Rodrigues, identificando-a como “história local”.
Era um dos meios para a compreensão da história nacional.
A história de uma nação é incompleta se deixa de tratar dos interesses e atividades dos
homens comuns — e a história local cuida como nenhuma outra dos acontecimentos diários
do homem comum, promovendo, deste modo, um conhecimento mais seguro e amplo da
vida nacional que o historiador tenta reconstruir 43.
José Geraldo Moraes; José Maurício Rego. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 21-44 e 65-94
Antônio Paim. Por uma universidade no Rio de Janeiro. In: SCHWARTZMAN, Simon (Org.). Universidades e Instituições Científicas no Rio de Janeiro. Brasília: CNPq,
1982, p. 17-134. Maria Helena Rolim Capelato, Raquel Glezer, Vera Lucia Amaral Ferlini. A Escola Uspiana de História. In: Maria Helena Rolim Capelato (Coord.).
Produção histórica no Brasil: 1985-1994. Catálogo de dissertações e teses dos programas de pós-graduação em história. Vol. 1. São Paulo: Xamã, 1995. p. 15-26.
Maria Isaura Pereira de Queiroz. Os anos brasileiros de Roger Bastide. In: Cadernos do CERU (10) 129-143, novembro, 1977.
41
Cecília Westphalen. In Anais do I Seminário de Estudos Brasileiros. Universidade de São Paulo, 1972, p. 38. apud. Carlos Guilherme Mota, op. cit., p. 24.
42
Maria Yedda Linhares. A pesquisa histórica no Rio de Janeiro. A história Agrária como programa de trabalho 1977-1994. um balanço. In: Revista Brasileira de História.
São Paulo. 1995. N.° 30. vol. 15. p. 83.
43
José Honório Rodrigues. Teoria da história do Brasil. Introdução metodológica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969. p. 151.
39
40
63
A abordagem implementada nos anos de 1970 e 1980 era uma atualização de um campo
já antigo e, doravante, criticado. A nova perspectiva acadêmica em relação a esse tipo de
produção relega-a ao ostracismo e ratifica a memória institucional. Essa produção préuniversitária, e que até mesmo nela esteve nos seus primeiros momentos, foi extremamente
importante no processo de estabelecimento da disciplina. Essas obras, enquanto discurso
construtor da memória e identidade da nação, tiveram usos políticos diversos, como o caso
da apropriação pelo Estado Novo de textos historiográficos nas suas publicações oficiais44.
Ela colocava-se como uma corrente historiográfica importante na primeira metade do século
XX. Uma linha de estudos, em certa medida, inovadora e, como toda obra inaugural, guardava
as contradições e as ambigüidades de seus produtores. Por um lado trazia a investigação
e a análise documental como uma grande contribuição para uma produção marcada pelos
relatos de memórias e de viagens. Por outro preservava elementos desses gêneros ao unirem
às fontes suas impressões e memórias. Em alguns casos, a descrição e análise associam-se
para construir a memória da nação e das regiões. Foi essa historiografia que criou os temas,
as cronologias e os ícones com que a produção atual ainda dialoga e que deixou fortes
marcas na historiografia didática. Considero importante os estudos que visam, analisar os
mecanismos de construção da memória disciplinar e lançar luz sobre os outros modelos de
construção da narrativa histórica que foram “esquecidos”.
Recentes autores vêm mostrando o quão diversificada foi a produção historiográfica
brasileira nos séculos XIX e XX. A análise de autores consagrados em suas épocas, alguns
esquecidos hoje, e mesmo novos olhares sobre os ícones disciplinares, mostram o quão
profícuo é o campo de estudos da historiografia brasileira45. É nesse sentido que devemos
compreender as obras historiográficas fluminenses elaboradas entre as décadas de 1920 e
1950, como os estudos de Amaral Barcelos sobre Barra do Piraí46, Antônio Figueira de Almeida
sobre Barra Mansa47, José Mattoso Maia Forte e Ignácio Raposo sobre Vassouras48,Luiz
Damasceno Ferreira e Leoni Iório sobre Valença49, A. de Ribeiro Sá sobre Três Rios50, Aurélio
Stulzer sobre Patí do Alferes51, entre outros.
Algumas correntes que influenciaram a produção da história regional entre finais do
século XIX e a primeira metade do século XX.
A história regional está presente na historiografia brasileira desde o século XIX, precedendo,
inclusive, a criação do IHGB52. Essa produção possuía uma concepção de história e do fazer
historiográfico diferente dos cânones atuais e, por isso, foi posta à margem da historiografia
canônica. Para compreendê-la é necessário analisar esse discurso historiográfico em sua
época. É importante investigar o ambiente intelectual de seus produtores para conhecer as
questões que os motivaram a dedicar-se às regiões; entender as relações que estabeleceram
entre uma escala de observação mais particular, a região, e outras mais gerais, mormente a
nação; analisar como correntes historiográficas diversas se articulavam com outros saberes
disciplinares para sua elaboração.
Ângela de Castro Gomes. História e historiadores. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1996.
Entre outros podemos citar: Taíse Tatiana Quadros da Silva. A Reescrita da tradição: A invenção historiográfica do documento na História Geral do Brasil de Francisco
Adolfo de Varnhagen (1854-1857). Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) UFRJ. 2006. Rebeca Gontijo. O velho vaqueano: Capistrano de Abreu, da
historiografia ao historiador. Tese (Doutorado em História) UFF 2006. Itamar Freitas. Historiografia e Identidade na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Sergipe
(1913-1929). Dissertação (Mestrado em História) UFRJ, 2000. Oswaldo Zorzato. Conciliação e identidade: considerações sobre a historiografia do Mato Grosso. Tese
(Doutorado em História) USP, 1998. Antonio Celso Ferreira; Tânia Regina de Luca; Zilda Grícoli Iokoi (Orgs.). Encontros com a história. Percursos historiográficos de São
Paulo. São Paulo: Editora UNESP, 1999. Teresa Malatian. Oliveira Lima e a construção da nacionalidade. São Paulo: EdUSC/FAPESP, 2001. Patrícia Santos Hansen.
Feições & fisioniomia. A história do Brasil de João Ribeiro. Rio de Janeiro: Access, 2000. Selma Rinaldi de Mattos. O Brasil em Lições: A história como disciplina escolar
em Joaquim Manoel de Macedo. Rio de Janeiro: Access, 2000.
46
BARCELOS, Amaral. Fragmentos históricos do município de Barra do Piraí. 1853-1890. Rio de Janeiro: Borsoi, 1940
47
ALMEIDA, Antônio Figueira de. Barra Mansa. Memória Comemorativa do primeiro centenário. 1932. In: ROCHA, Alan Carlos (Org.). Barra Mansa 1764-1995. 4ª ed.
S/l: s/n, 1995.
48
FORTE, José Matoso Maia. Memória da fundação de Vassouras: do início do povoamento à creação da villa. Rio de Janeiro: O Globo, 1933. RAPOSO, Ignácio. História
de Vassouras. Vassouras: Fundação 1º de Maio, 1935.
49
FERREIRA, Luiz Damasceno. História de Valença. Estado do Rio de Janeiro. 1803-1924. Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora Paulo, Pongetti & C., 1925. IÓRIO,
Leoni. Valença de ontem e de hoje. 1789-1952. Juiz de Fora: Companhia Dias Cardoso S. A., 1953.
50
SÁ, A. de Ribeiro. A cidade de Entre Rios. Estado do Rio de Janeiro. Sua origem e fundação. S-l: s-ed, 1942.
51
STULZER, Aurélio. Notas para a história da Vila de Pati do Alferes. Rio de Janeiro: Lito-tipo guanabara Ltda., 1944.
52
Raimundo José da Cunha Matos. Corografia histórica da província de Minas Gerais. (1837). Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1979.
44
45
64
Mais do que um conceito, região tornou-se uma noção instrumental para o trabalho
em diversas áreas do conhecimento, entre finais do século XIX e durante o século XX. Ao
consultarmos um dicionário, constatamos a polissemia do termo que é usado em várias
áreas: ecologia, biologia, geografia etc53. O termo, derivado da palavra latina regere, tem em
seu radical – reg – incluída a idéia de relações de poder. Esse mesmo radical originou palavras
como rei, regente, regência, regra etc. Durante o Império Romano, regione era a denominação
que designava uma área que possuía uma administração local, mas estava subordinada às
ordens centrais de Roma54. Em sua origem o conceito de região traz em si a conexão entre o
particular e o geral, entre o específico e o universal, entre diversidade e unidade. Essa questão
era latente nos debates sobre a constituição de nações, no período em que o conceito de
região firma-se como conceito chave da geografia disciplinar, o século XIX.
Importante para a geografia, também era importante para a historiografia que se forjava a
criação do IHGB, criado em 1838. Seus idealizadores estruturaram-no seguindo o modelo do
Instituto Histórico de Paris, que mantinha a tradição antiquária na França55. O antiquariado é
uma prática historiográfica com raízes no período greco-romano, segundo Arnaldo Momigliano.
Ele se diferenciaria da história por seus objetos de estudo. Enquanto aquele se interessava
pelos mais variados aspectos sociais, a história identificava-se com a política:
De modo negativo, estes estudos eram caracterizados por uma falta de interesse
primordial pelo aspecto político, por uma indiferença pelas questões contemporâneas de
importância geral e por uma falta de qualidade retórica. De modo positivo, estes estudos eram
caracterizados por um interesse pelos detalhes minuciosos do passado, por um patriotismo
local não disfarçado, pela curiosidade por eventos poucos comuns e por monstruosidades,
e pela ostentação da erudição como um fim em si mesma.56
Sistemáticos em seus estudos, os antiquários dissertavam amiúde sobre uma temática, um
evento, um objeto, um monumento... Uma outra característica peculiar desses estudiosos era
seu fascínio pelos vestígios materiais do passado, em detrimentos da documentação escrita.
A cultura histórica oitocentista desqualificou esse discurso, estereotipando-o:
Amante das coisas do passado, erudito desprovido de um sentido mais contemporâneo
por sua atividade colecionista, alheio às questões centrais de seu tempo e devotando ao
passado um culto religioso, sacralizando os seus objetos pelo próprio fato de trazerem “em
si” inscritas as marcas de um tempo passado e distante, como que um signo suficiente para
o seu valor.57
A moderna concepção de história, pautada pelo iluminismo, imprimiu a noção de
progresso à História. O estudo do passado deveria levar à compreensão do presente. Ele
deixava de ser um dado em si para se tornar um objeto do conhecimento do processo de
transformação que marca as sociedades. O passado reafirmou o seu papel modelar ao dar
as explicações do tempo presente. As particularidades do desenvolvimento histórico de cada
povo eram consideradas peculiaridades do mesmo processo, que levariam a humanidade a
atingir o mesmo grau de progresso.
O IHGB associava as modernas concepções de história àquela antiquária e ao pensamento
geográfico que se buscava firmar-se como científico ainda na primeira metade do século XIX.
No final do século XIX, Friedrich Ratzel introduziu novas diretrizes nos estudos geográficos.
Admirador e estudioso da obra de Charles Darwin, definiu o objeto geográfico como o estudo
da influência das condições naturais sobre a humanidade. Sua obra, Antropogeografia,
Fundamentos da aplicação da geografia à história (1882) é considerada o marco
inaugural da geografia humana58. Para Raztel, as influências do meio atuariam na fisiologia
(somatismo) e na psicologia (caráter) dos indivíduos e, através destes, na sociedade. Em
Verbete no Houaiss.
Paulo César da Costa Gomes. O conceito de região e sua discussão. In: Iná Elias de Castro; Roberto Lobato Corrêa; Paulo César da Costa Gomes (Orgs.) Geografia:
conceitos e temas. 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2006. p. 50-53.
55
Manoel Salgado Guimarães. Entre amadorismo e profissionalismo: as tensões da prática histórica no século XIX. In: Topoi. Revista de história. Rio de Janeiro. Programa
de pós-graduação em História Social da UFRJ/ 7 Letras, set. 2002. n° 5, p. 184 -2000.
56
Arnaldo Momigliano. As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: Edusc, 2004. p. 94.
57
Manoel Salgado Guimarães. Reinventando a tradição: sobre antiqüariado e escrita da história. In: Humanas (IFCH/UFRGS), Porto Alegre, v. 23, n° 1/2. 2000. p. 114
58
Antonio Carlos Robert de Moraes (Org). Ratzel. São Paulo: Ática, 1990.
53
54
65
segundo lugar, os recursos naturais influenciariam a constituição social, pela riqueza que
poderiam proporcionar. A natureza também atuaria na possibilidade de expansão de um
povo, acelerando-a ou criando-lhe obstáculos, e na promoção de contato entre os povos,
gerando o isolamento ou a mestiçagem. Essas influências seriam mediatizadas através das
condições econômicas e sociais. Para ele, a sociedade é um organismo que matém relações
duráveis com o solo, por nele se estabelecer e por ser ele aquele que fornece os meios
necessários à sua sobrevivência. Quando a sociedade organiza-se para defendê-lo, surge o
Estado. O progresso dos Estados era visualizado pela sua capacidade em manter e ampliar o
seu território. Sua perda seria a manifestação de sua decadência. Raztel cria assim a noção
de “espaço vital”, que seria a proporção entre a população de uma sociedade e os recursos
existentes para sua manutenção. Caso essa relação fosse de desequilíbrio, era necessário
ocupar novos territórios. Essa concepção de espaço vital justificará a política imperialista
alemã de finais do século XIX e princípios do século XX. Por outro lado, seus seguidores
desenvolverão a concepção do determinismo geográfico, defendendo que o meio determina
as características físicas e sociais dos grupos humanos. Metodologicamente Ratzel defendia
a observação e descrição das relações homem-natureza, porém propunha ir além, buscando
a síntese das influências em escala planetária ou, em suas palavras, “ver o lugar como
objeto em si e como elemento de uma cadeia”.
Nesse mesmo momento, o eixo da discussão geográfica começa a deslocar-se da
Alemanha para a França. Contrapondo-se à corrente alemã, Paul Vidal de La Blache tornouse o expoente de uma nova concepção da Geografia59. O geógrafo francês constituiu uma
rede de influência sobre as publicações especializadas, as cátedras universitárias e institutos
de pesquisa, hegemonizando o pensamento geográfico francês até a primeira metade do
século XX. Uma de suas obras fundamentais, o Tableau de la géographie de la France, de
1903, institui a região como conceito chave para a ciência geográfica e inicia a exposição de
suas proposta para a área60. No entanto é com Princípios de geografia humana, de 1921,
que suas idéias assumem um cunho sistematizador.
Em primeiro lugar, ele criticou a politização do discurso científico, presente na obra de
Ratzel, defendendo a neutralidade da ciência frente às ações do Estado. Criticou também o
naturalismo de Ratzel, onde o homem aparecia como um ser passivo às influências do meio.
O geógrafo francês defendia o homem como um ser dotado de inteligência e liberdade que
agia sobre o meio físico. Criticando as posições deterministas, La Blache passa a propor
uma postura relativista. Definindo a relação homem-natureza como o objeto da geografia, o
geógrafo francês defendeu que o meio influenciava o homem, mas este criava soluções para
os limites por ele impostos. A natureza passava a ser vista como um campo de possibilidades
para a ação humana, daí Lucien Febvre ter denominado essa corrente de possibilismo61. Ao
ocupar a superfície terrestre, o homem encontrou paisagens diferentes, que lhe impuseram
respostas diversas para sua organização. O conjunto de técnicas e costumes construído
e passado socialmente em cada região foi denominado por La Blache como “gêneros de
vida”. A diversidade dos meios explicaria a diversidade dos gêneros de vida. No entanto eles
não eram estáticos, pois uma série de fatores levariam às suas transformações: o fim dos
recursos naturais, os contatos entre gêneros diferentes etc.
Paul Vidal de La Blache teve na geologia a influência para a definição da sua concepção
de região geográfica. A região natural, como definida pelos geólogos, seria configurada
pela combinação de aspectos físicos que particularizariam uma determina área. La Blache
desenvolve essa noção inserindo o homem com um dos elementos fundamentais para a
configuração das regiões62. O meio físico criaria as condições para o desenvolvimento da
vida humana, mas não a condicionaria. O homem agiria sobre esse meio, transformando-o.
As regiões teriam então uma existência real, não seriam conceitos abstratos frutos das
Antonio Carlos Robert de Moraes, Geografia..., p. 75-84.
Paulo César da Costa Gomes, op. cit., p. 54
62
Lucien Febvre. La tierra e la evolución humana. Barcelona: Cervantes, 1925.
63
Paul Vidal de La Blache. As características próprias da geografia. (1913). In: Antonio Christofoletti (Org.). Perspectivas da geografia. São Paulo: Difel. p. 37-49.
60
61
66
lucubrações de estudiosos. As especificidades regionais ocorreriam, pois o homem
responderia de formas variadas às diferentes condições naturais. Nesse sentido, La Blache
valoriza a história, pois o acumulo de experiências em uma região criariam condições para
novas transformações do gênero de vida do grupo que nela viveria. Surgia assim a Geografia
Regional.
Tendo uma existência real, caberia ao geógrafo identificar, delimitar e descrever as
regiões. Estabeleceu-se um modelo para esses estudos: as monografias regionais. Para
explicar o particularismo de cada região, o geógrafo deveria reunir uma série de fatores:
Nesse plano se deve começar pela descrição das características físicas, seguida pela
descrição da estrutura da população e de suas atividades econômicas. O objetivo final é
encontrar para cada região uma personalidade, uma forma de ser diferente e particular.
De fato, neste caso, não se pode identificar a priori os traços distintivos responsáveis pela
unidade regional, pode ser o clima, a morfologia, ou qualquer outro elemento, a partir do
qual uma comunidade territorial cria uma forma diversa de se adaptar, um gênero de vida.
A geografia regional francesa nos ensina, por exemplo, que na identificação da Borgonha, o
fundamental é o quadro histórico; nos Pirineus mediterrânicos, o clima; na Picardia, o relevo;
e assim por diante. O fundamental é que estamos diante de um produto único, sintético,
formado pela inter-relação destes fatores, combinados de forma variada.63
As idéias de La Blache são difundidas na Europa e nos Estados Unidos sofrendo críticas
e desdobramentos. Desenvolvendo idéias do alemão Hettner – que introduziu a vertente
lablachiana em seu país – o geógrafo norte-americano Hartshorne defendeu, em 1939, o
conceito de área em substituição à região. Segundo Hartshorne, a interpretação corrente
de região a consideraria como um elemento dado, cabendo ao geógrafo apenas a tarefa
de identificá-la e descrevê-la. O geógrafo norte-americano, no entanto, considera que há
um número variável de elementos físicos, sociais e culturais que configuram a região. Essa
variedade de elementos não poderiam ser “naturais”, ou seja, a região não seria “natural”,
um dado real. Por isso, opta por abandonar o conceito de região e escolhe o de área como
um instrumental de análise. A área seria uma categoria construída pelo estudioso ao agrupar
uma série de elementos para configurar-lhe64. A partir daí, os estudos regionais ganham novos
direcionamentos; não sendo exigido o exame exaustivo de todas as variáveis locais.
Essa concepção geográfica se institucionalizou, no Brasil, na década de 1930, com a
formação dos cursos superiores de geografia na USP e na então Universidade do Distrito
Federal, onde professores franceses foram convidados a organizar os cursos de história e
geografia65. No campo geográfico, destaca-se o nome de Pierre Deffontaines, contratado
pela USP em 1934. Nesta instituição ficou responsável pela cadeira de Geografia Humana
e fundou a Associação de Geógrafos Brasileiros66. No ano seguinte estava no Rio de Janeiro
na UDF, onde permaneceu até 1938, e foi um dos principais articuladores para a criação do
Conselho Nacional de Geografia (1937), célula-mater do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, instituído em 193867. Deixou um estudo de “Geografia Humana do Brasil” (1940)
esforço de síntese geral sobre o país e um outro trabalho sobre São Paulo, que foi o “primeiro
esboço de divisão regional do estado, analisando os diferentes tipos de paisagens e núcleos
regionais, bem caracterizados”68.
Com a fundação do Conselho Nacional de Geografia define-se que o trabalho do geógrafo
consiste em “descrever, localizar, explicar e interpretar os fatos e a realidade geográfica”... do
país69. Seus estudos deveriam ser úteis às diretrizes governamentais, basear as políticas de
colonização, saneamento, reflorestamento, combate à seca etc. Dever-se-ia, então, conhecer
Paulo César da Costa Gomes. op. cit, p. 56.
Idem, p. 57-59. Antonio Carlos Robert de Moraes, op. cit., p. 95-102.
Antônio Paim. Por uma universidade no Rio de Janeiro. In: SCHWARTZMAN, Simon (Org.). Universidades e Instituições Científicas no Rio de Janeiro. Brasília: CNPq, 1982, p.
17-134.
66
José Veríssimo Pereira da Costa. A geografia no Brasil. in: Fernando de Azevedo. As ciências no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000.
67
Eli Penha Alves. A Criação do IBGE no contexto da centralização política do Estado Novo. Rio de Janeiro: IBGE, 1999.
68
José Veríssimo Pereira da Silva, op. cit., p. 397.
69
Idem., p.403.
70
Idem., p. 403.
63
64
65
67
as realidades específicas das regiões do Brasil. A geografia regional “as pesquisas e os
estudos têm visado a valorização das regiões novas ou o reaproveitamento ou recuperação
daquelas em decadência ou estagnação”70.
A geografia lablachiana, da escola francesa, de orientação regional, teria tido grande
importância na organização do IBGE. Eli Penha considera que a influência alemã, a
Antropogeografia de Ratzel, também se fazia presente. Era dessa escola que provinha a
concepção de que os estudos geográficos deveriam assumir um caráter utilitário, embasando
as políticas governamentais de intervenção nas realidades regionais.
Com a Segunda Guerra Mundial, os contatos com a produção européia são minimizados
e o Instituto passa a dialogar com estudiosos norte-americanos. Nos EUA, Hartshorne,
influenciado pela geografia regional européia, desenvolve as noções de área e integração,
que imprimirão novos rumos às pesquisa regionais. A área passou a ser compreendida
como uma parcela da superfície terrestre, diferenciada pelo estudioso que a delimita de
acordo com elementos por ele privilegiados. Hartshorne distancia-se assim da noção de
região como um dado real que os estudiosos deveriam descobrir.
A área possuía múltiplos processos integrados, sendo fonte inesgotável de inter-relações.
Essas novas perspectivas dariam novas dimensões aos estudos regionais, indo “ao encontro
dos interesses de planejamento, pois abriu a perspectiva de trabalhar com um número
bastante elevado de elementos, relacionando-os de acordo com os interesses do plano”71.
Muitos historiadores fluminenses do período não participaram do IHGB e/ou do IBGE.
no entanto, compartilhavam essas concepções através da produção historiográfica que
circulava produzida pelos membros daquelas instituições. Muitos outros delas faziam parte
e divulgavam seus princípios nas suas monografias e artigos escritos para periódicos.
Assim podemos compreender a escolha do gênero monográfico priorizado nesses
estudos, onde se busca dar conta de inúmeras variáveis da história local.
A prioridade dos aspectos políticos também era propagada por essas concepções
vigentes, pois se entendia que a história tinha uma missão de construção da nação,
através das ações dos dirigentes políticos. Essa predominância da questão política levava
os historiadores a priorizarem as fontes oficiais e a evolução político-administrativa – do
Brasil (Colônia-Império-República) ou os locais (povoado-arraial-curato-freguesia-vilacidade) – como marcos cronológicos norteadores da construção das narrativas históricas.
A primazia do político, no entanto, não excluía as questões econômicas, sociais e culturais,
que são abordadas ao se tratar das atividades produtivas, das formas de trabalho, das
associações locais etc.
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68
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70
As Diversas Fases
da História do Ciclo do Café – Ontem e Hoje
“ASPECTOS DA ECONOMIA MUNDIAL FACE AO APOGEU E CRISE DO CAFÉ NO VALE DO
PARAÍBA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX”
Por Luiz Augusto Mury *
INTRODUÇÃO
Ao fazer uma reflexão junto aos meus alunos do Curso de História da UBM sobre o
tema proposto pela Mesa Redonda do I Encontro de História do Vale do Paraíba, constatamos
o sentimento de uma certa perplexidade, em razão do destino inexorável de um número
expressivo de fazendeiros que abriram falência após a derrocada do processo da produção
cafeeira motivados pelas leis abolicionistas do século XIX.
Concluimos que, em razão do desastre anunciado, existiriam opções de conduta para
que os fazendeiros do Vale do Paraíba percorressem uma via alternativa para a aplicação de
seu capital, como assim o fizeram detreminados personagens do Império.
Portanto, relatamos as condições do cenário econômico-financeiro que cerca a
Segunda Revolução Industrial como opção possível no enfrentamento da crise.
Assim, para o desenvolvimento dos trabalhos na Mesa, resolvemos utilizar a
apresentação de tópicos (sinopse e apontamentos abaixo resumidos) que pudessem servir
para a reflexão e a evolução do tema proposto, ensejando a participação e a contribuição
dos presentes através de intervenções e questionamentos.
Posteriormente, relacionamos alguns exemplos de figuras deste cenário político,
econômico, social e cultural que trilharam distintas vias de conduta à época.
Oferecemos, portanto, alguma contribuição para que o leitor possa refletir sobre o
período, a partir deste enfoque que abre novas perspectivas e visões sobre o tema.
SINOPSE:
APOGEU E CRISE DA ECONOMIA CAFEEIRA
SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
1870 – EUROPA OCIDENTAL E EUA APÓS A GUERRA DA SECESSÃO
• CONTROLE DE FLUXOS DE MATÉRIA-PRIMA, FONTES DE ENERGIA,
MERCADO CONSUMIDOR
AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES
•
•
•
•
A SUBSTITUIÇÃO DO FERRO PELO AÇO COMO MATERIAL INDUSTRIAL
BÁSICO
A SUBSTITUIÇÃO DO VAPOR PELA ELETRICIDADE E PELOS PRODUTOS DO PETRÓLEO
COMO PRINCIPAIS FONTES DE FORÇA MOTRIZ
O DESENVOLVIMENTO DA MAQUINARIA AUTOMÁTICA
MUDANÇAS RADICAIS NOS TRANSPORTES E COMUNICAÇÕES
NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO CAPITALISTA
CAPITAL INDUSTRIAL E CAPITAL FINANCEIRO
-
-
Transportes, Comunicações, Energia, Comércio de Importação e Exportação,
Demandas Urbanas ou de Mineração
Novo Imperialismo – As Potências laçam-se sobre a África e a Ásia através da
dominação física, política, econômica e cultural
71
OS E.U.A
Após 1865 adotam a linha econômica do industrialismo e do expansionismo através do
imperialismo
JAPÃO
Com a chegada da dinastia Meiji ao poder (1868), início do desenvolvimento econômico e
expansionismo (Industrialização)
NO BRASIL
•
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Uma Atitude Ortodoxa: O caso do Comendador Joaquim José de Souza Breves (18041889)
A aposta na permanência de um status quo em que os lucros e os empréstimos, que
tinham como lastro a futura colheita, eram aplicados na compra de novas terras e
escravos
Apesar de visível e inexorável fim da escravidão, após a proibição do tráfico, da lei do
Sexagenário e da lei do Ventre Livre, muitos não perceberam ou não acreditavam.
AS EXCEÇÕES A ESTA POSTURA:
LUÍS PEREIRA BARRETTO (1840 – 1923)
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Estudioso e defensor do Positivismo, volta da França, onde pesquisou novos tipos do
café, assim como se informou sobre o chá, o tabaco e a viticultura
Em 1876, pressentindo que o café, no Vale do Paraíba, estava com seus dias
contados, vai para o Oeste Paulista e se encanta com a Terra Roxa
Com membros de sua família instala-se na região de Ribeirão Preto, onde inicia nova
produção de café como as espécies Bourbon e Libéria
EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE (1850 – 1930)
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Investidora financeira e benemérita brasileira
Neta paterna do Barão de Itambé e materna do Barão de Campo Belo
Jovem e solteira, foi herdeira, com uma irmã, de uma grande fortuna, multiplicada
através de aplicações no mercado financeiro internacional, sob orientação de
Escritórios de Investimento
Excêntrica e solitária, morreu no Rio de Janeiro, legando a maior parte de sua
fortuna, que incluía a casa de Paris e ações de empresas espalhadas praticamente
por todo o mundo, para a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA (1813 -1889)
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Incompreendido por uma sociedade rural e escravocrata, foi precursor da valorização
da mão-de-obra, do investimento em tecnologia, das multinacionais brasileiras e da
globalização.
A partir de 1865, começa sua decadência com a falência e transferência de seus
negócios para companhias de capital britânico.
Ironicamente, para um modernizador liberal e abolicionista, termina sua vida
com auxílio financeiro de familiares, dedicando-se à corretagem do café até seu
falecimento em 1889.
Apontamentos
PARALELO AO MUNDO DO CAFÉ
BREVES – Típico
Estudando a vida privada do Comendador Breves, “O Rei do Café” , pode-se estabelecer um
paralelo entre a Economia Cafeeira do Vale do Paraíba Fluminense, concernente à expansão,
apogeu e decadência e principalmente à mentalidade dos fazendeiros que imaginavam, e
apostavam, na permanência do status quo, em que os lucros e os empréstimos que tinham
como lastro a futura colheita, eram aplicados na compra de novas terras, escravos e novas
lavouras.
Apesar da visível e inexorável fim da escravidão após a proibição do tráfico, da lei do
Sexagenário e da Lei do Ventre Livre, muitos não perceberam ou não acreditavam.
Talvez a mais hábil ação política tirada desta percepção foi a do próprio Império, que
com a Abolição da escravidão, tenha procurado obter ganhos políticos como libertador e
humanitário. Era uma questão de tempo. De pouco tempo. A casa estava podre, só faltava
um empurrão.
OUTRAS VOZES
DR. LUIZ PEREIRA BARRETTO
Dr. Luiz Pereira Barretto, positivista, desde 1864, quando retornou ao Brasil, desenvolveu
novas culturas, como a exploração do plantio de chá, a experimentação da cultura do café
tipo Bourbon, até então desconhecida no Brasil, a plantação de tabaco etc.
Em 1876, Pereira Barretto, pressentindo que o café no Vale do Paraíba estava com os seus
dias contados, devido à exaustão das terras, pois o café era tratado quase como riqueza
extrativa, cobrava caro o desleixo empírico com que era cultivado principalmente pela falta
de adubação e a falta de mão-de-obra. O que não era novidade, pois a decadência já era
percebida por todos, inclusive sendo utilizada como tema de marchinha de carnaval popular
em Resende, na década de 70 do mesmo século.
Pereira Barreto vai para o oeste paulista produzindo café de melhor qualidade como o Bourbon
e experiências com o ”Libéria”, enfrenta percalços como a geada e acaba por abandonar a
lavoura cafeeira, tornando-se viticultor.
Resende foi a região pioneira da grande cultura cafeeira em nosso país.
Inicia pouco depois de 1770, se disseminando a partir de sementes cultivadas por padres
Barbadinhos em São Cristóvão, no Rio de Janeiro.
O Marquês do Lavradio, então Vice-Rei do Brasil, no empenho de disseminar a cultura do
café, desta forma passou a distribuir grande quantidade de sementes pelos distritos de São
Marcos (atual Piraí) e do Campo Alegre (atual Resende), apelando a um poderoso incentivo
empregado, que era isentar do serviço das milícias a todo o lavrador que provasse ter
plantado certa quantidade de pés de café.
EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE (1850 - 1930)
Foi uma investidora finaceira e benemérita brasileira. Neta paterna do Barão de Itambé e
materna do Barão de Campo Belo.
Jovem e solteira, foi herdeira, junto de uma irmã também solteira, de uma grande fortuna,
e tão logo depois de perderem os pais, passaram a residir em Paris onde consta ter sido
Eufrásia Teixeira Leite a primeira mulher a entrar no recinto da Bolsa de Valores.
Excêntrica e solitária, quando morreu no Rio de Janeiro legou a maior parte de sua fortuna,
que incluía a casa de Paris e ações de empresas espalhadas praticamente pelo mundo todo,
para a Santa Casa de Misericórdia da cidade de Vassouras.
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Sua antiga propriedade urbana, residência de seus pais em Vassouras, é hoje o Museu
Chácara da Hera.
IRINEU EVANGELISTA DE SOUZA – BARÃO DE MAUÁ
Embora tenha desenvolvido atividades ligadas à indústria antes de 1850, teve seus negócios
impulsionados com a lei Euzébio de Queirós de 1850, com os investimentos voltados agora
para a indústria.
Aproveitando essa oportunidade, Mauá passou a se dividir entre as atividades de industrial
e banqueiro, tendo acumulado fortuna aos quarenta anos de idade.
A partir de 1865 começa a sua decadência, com falências e transferência de seus negóccios
para companhias de capital britânico.
Ironicamente, para um modernizador, liberal e abolicionista, termina sua vida com o auxílio
financeiro de familiares, dedicando-se à corretagem de café até falecer em 1889.
Em 1867, sua fortuna atingiu o valor de 115 mil contos de réis, enquanto o orçamento do
Império do Brasil para aquele ano contava apenas com 97 mil contos de réis.
Estima-se que a sua fortuna seria hoje equivalente a 60 bilhões de dólares.
ENQUANTO ISTO, NO MUNDO...
A partir de 1870, as potências capitalistas Reino Unido, França, Bélgica, Alemanha, EUA,
Itália, Rússia e Japão, já ingressadas na via da industrialização com algumas já reconhecidas
como potências capitalistas, passam a buscar o reconhecimento industrial internacional
através do controle de fluxos de matéria-prima, fontes de energia, mercado consumidor
e para aplicação do capital financeiro em transporte, comunicações, energia, comércio
de importação e exportação, enfim, em demandas urbanas ou de mineração, não se
interessando em atividades agrícolas.
Estas potências, como é sabido, lançaram-se sobre a África e Ásia através da dominação
física, política, econômica e cultural, enquanto na América Latina, já independente, a
dominação foi econômica com a advinda dominação cultural.
Os EUA
Até a Guerra Civil Americana, os EUA adotaram uma política isolacionista, não procurando
intrometer-se em conflitos internacionais. após o seu fim, 1865, adotam a linha econômica do
industrialismo e do expansionismo econômico através do imperialismo, passando a competir
com os europeus, principalmente os ingleses, no domínio econômico sobre a América Latina.
Tornaram-se, então no século XX, a grande potência econômica e militar mundial.
JAPÃO
Com a chegada no poder, em 1868 da Dinastia Meiji, teve início um período de desenvolvimento
econômico e de expansionismo, utilizando a via da industrialização. 74
CONCLUSÃO
Ao buscar um enfoque que nos proporcionasse condições de análise de questões relativas a
situações comuns em que acabaram se encontrando inúmeros fazendeiros do café ao final do
século XIX, resolvemos abordar aspectos de caráter social, político e econômico observados
fora do contexto brasileiro do Vale do Paraíba. A partir de 1860, aproximadamente, vamos
encontrar uma Europa Ocidental e também, após o término da Guerra de Secessão, os
Estados Unidos mergulhados no que denominamos “2ª Revolução Industrial”. Trata-se,
incontestavelmente, de um momento único do desenvolvimento das relações do modo de
produção capitalista, cenário, inclusive, da mudança para o capital financeiro. Em outras
palavras, o desenvolvimento espetacular da ciência e da tecnologia irá permitir, pela primeira
vez, a utilização em larga escala (e por preços reduzidos) do aço, no lugar do ferro, por
exemplo, tornando a produção industrial fenômeno jamais alcançado pela humanidade.
A busca de novos mercados consumidores para essa enorme produção e os lucros advindos
de tal negociação irá permitir, pela primeira vez, o surgimento de sociedades de capital
aberto, cujas ações passarão a ser adquiridas e vendidas numa velocidade cada vez maior.
O que gostaríamos de enfatizar é a situação que surge, através dessa estupenda produção
industrial e a conseqüente movimentação de um capital que não pára de crescer, possibilitando
oportunidades múltiplas para investidores de todas as origens e procedências.
Ora, enquanto esse clima se desenrola em praticamente todo o mundo capitalista nos anos
70 e 80 do século XIX, aqui no Brasil, na região do Médio Vale do Paraíba, estamos vivendo
também uma espécie de boom econômico, só que de caráter agrícola, estabelecido em base
pouco consistente da mão-de-obra escrava, que praticamente já havia sido banida por todos
os núcleos de desenvolvimento da vanguarda mundial.
Os senhores de escravos que tiveram suas finanças arrasadas em decorrência das leis
abolicionistas possuíam opções de investimentos lucrativos com maior base de segurança
disponíveis no mercado internacional. Determinados personagens que gravitavam nesse
cenário do Vale do Paraíba não vacilaram e aplicaram suas fortunas no promissor mercado
financeiro.
Para saber mais
O Vale do Paraíba, Eloy de Andrade, Real Gráfica, Rio de Janeiro, 1989.
História do Café no Brasil, Afonso de E. Taunay.
O Homem e a Serra, Alberto Ribeiro Lamego, IBGE, 1950.
A Cidade e o Planalto, Gilberto Leite de Barros, São Paulo, 1967.
As Barbas do Imperador, Lillian Schwarcz, São Paulo, 1996.
Mauá: Empresário do Império, Jorge Caldeira, São Paulo, Cia. das Letras, 1997.
- “O Café – no segundo centenário de sua introdução no Brasil”, Departamento Nacional do
Café - Rio de Janeiro/1934
- “O Café em São Paulo”– Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio de SP/ 1927
- “Obras Filosóficas de Luiz Pereira Barretto” (Vol.I) org. por Roque Spencer Maciel de Barros
Editorial Grijalbo - SP/1967
- “O Café em Resende no século XIX” de Maria Celina Whately (José Olympio Editora, Rio de
Janeiro / 1987)
Revista Piauí, junho de 2006. Os órfãos de Eufrásia, Marcos Sá Côrrea.
Caravana Pereira Barretto: www.resenet.com.br/pereirabarreto_introducao.htm, acessado
em 10/06/2008
Comendador Breves: O Rei do Café. Monografia de Graduação em História, André Luís
Pinheiro, Centro Universitário de Barra Mansa – UBM, RJ.
(*) Luiz Augusto Mury é Graduado em História e Advogado, sendo atualmente Secretário de
Cultura de Barra Mansa – RJ e Coordenador do Curso de História do Centro Universitário de
Barra Mansa – UBM.
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As Diversas Faces
da História do Ciclo do Café – Ontem e Hoje
Angústias e inquietações: algo a partilhar
Magno Fonseca Borges
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A comunicação que realizo agora é fruto de minhas reflexões sobre alguns dos pontos que
tangem a história regional, o patrimônio arquitetônico histórico, os acervos documentais e
o senso de pertencimento. Após o primeiro dia deste evento, tive a possibilidade de realizar
ponderações diversas. Algumas uns tanto felizes, outras repletas de angústias. Todo o material
que havia preparado foi gentilmente descartado. Gentil e satisfatoriamente descartado.
Fruto de uma intensa pesquisa junto às fontes documentais guardadas e disponíveis no
Centro de Documentação Histórica (CDH) da Universidade Severino Sombra (USS), o que
seria apresentado aqui era um emaranhando de gráficos e debates sobre uma trajetória
de africanos e afro-descendentes no Vale do Café. Em resumo, tratava-se de uma revisão
modificada e ampliada de alguns dos questionamentos que travei sobre a sociabilidade
escrava em Vassouras quando da introdução e ampliação da cultura cafeeira.
Mas deixe-se de lado o que não será hoje, e passemos ao que é. O que farei agora é
compartilhar angústias. Ao longo de tantos anos de trabalho com a história local, só no
Centro de Documentação da Universidade Severino Sombra já é quase uma dezena, tive a
feliz oportunidade de participar de tantas iniciativas, que na mão não tenho dedos suficientes
para contar. Algumas profícuas e duradouras. Outras tão voláteis quanto uma gota de éter.
Em meio a tantas iniciativas, coletei parceiros. José Jorge Siqueira, Ana Leal, Dalva, Isabel
Rocha, Sônia Mattos, Adriano Novais, Antônio Carlos, Raimundo e mais recente Francis,
entre tantos outros nomes, os quais poderia aqui citar. Seriam longas horas, e certamente,
não abrangeria todos.
Para poupar-lhes os ouvidos, e tomando a liberdade de por meio desta, representar a
todos, cito Lielza Lemos Machado. Quão graciosa e vivaz é esta jovem senhora que a todos
encanta. Ontem mesmo, em poucas palavras, arrebatou corações ao lançar o desafio da
continuidade dos estudos regionais às novas gerações. Dela recebi o codinome carinhoso:
BROTO.
Tal codinome foi providencial. Como professor, pesquisador e cidadão sou essencialmente
um broto, nascido em meio a uma densa floresta de iniciativas diversas. Broto da confluência
de tantas experiências de pesquisa e ações tanto no ramo do turismo e da história bem como
da preservação e conservação de acervos documentais e patrimoniais. É nesta concepção
de broto, que relembro uma parte do texto de Miridan Falci, publicado na Revista do Instituto
Histórico e Geográfico de Vassouras – IHGV. Citando Lucien Febvre, apresentou a história
regional como um instrumento onde o homem possa viver com outros reflexos que não
apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem
raízes. É neste instante que emerge o título desta comunicação, tão diferente de todas as
outras que já tive oportunidade de fazer. INQUIETAÇÕES E ANGÚSTIAS: ALGO A PARTILHAR
O tema é particularmente oportuno. Têm relações diretas com a proposta do evento,
que conseguiu congregar tantos estudiosos e amantes da história regional. Em que outro
momento seria tão oportuno tratar de inquietações e angústias acerca da história regional?
Vale lembrar que os momentos seguintes tocaram o cerne de alguns dos pontos que aqui
serão levantados: a transmissão da história regional nas escolas e o financiamento para a
restauração do patrimônio.
Embora se possa encontrar diversas situações que angustiam aqueles que se empenham
na construção do saber regional como ferramenta social, pontuam-se três situações distintas.
A primeira trata do Vale do Café como um projeto e sua conexão com a nostalgia imperial; o
segundo se desloca para as academias que falam para si, somente para si; a terceira trata
das questões pertinentes aos patrimônios históricos e acervos.
1 – DO VALE DO CAFÉ COMO UM PROJETO À CONSTRUÇÃO DA NOSTALGIA IMPERIAL.
Rafael de Bivar Marquese, ao realizar uma análise da Bandeira do Império do Brasil de
1824, destacou a presença dos ramos de café. Seu exame é particularmente interessante,
pois remete à idéia do Vale do Café como um projeto. Até aquela data, este fruto não figurava
como o principal produto da pauta de exportação do Brasil. Naquele momento a cana-deaçúcar era o principal produto. E neste quesito em particular, embora seja possível identificar
no vale do Rio Paraíba do centro-sul Fluminense algumas fazendas voltadas para a produção
da cana, como as fazendas da Freguesia, Ubá e Pau Grande, entre outras, é certo afirmar
que a região ocupava papel periférico frente a outras, como Campos dos Goitacazes (na
província fluminense) e Campinas (na província paulista). De todo modo, sua análise está
diretamente vinculada à idéia do café como um projeto de nação.
Ainda sobre o café, vale destacar que os eventos revolucionários que tiveram ocorrência
em Santo Domingos, em fins do século XVIII, praticamente retiraram o produto do comércio
mundial, num momento peculiar, aquele em que o café deixava de ser um hábito restrito
às camadas mais abastadas da sociedade européia para se popularizar, impulsionado pela
revolução industrial que levou trabalhadores do campo às unidades urbanas de produção,
com extenuantes jornadas de trabalho. Em análise simples, os efeitos estimulantes e
revigorantes obtidos com a ingestão do líquido produzido a partir do grão do café torrado,
moído e transpassado por água fervente, auxiliavam na ampliação do rendimento da mãode-obra.
O preço do produto no mercado mundial foi drasticamente elevado, o que gerou uma corrida
entre os demais produtores para suprir a demanda, impulsionados pelos bons preços. Este
pequeno enredo sustenta a hipótese da re-ocupação socioeconômica e política do médio Vale
do Paraíba Fluminense. Através do Caminho Novo e sua enormidade de variantes, o Vale se
apresentava com terras ainda em matas (incultas como o entendimento da época), férteis,
portanto. Além da qualidade da terra e dos baixos custos com a implantação de novas rotas
de escoamento da produção, as experiências anteriores de plantio no entorno da cidade
do Rio de Janeiro já havia apresentado resultados positivos de rendimento e produtividade
(muito embora tenha deixado um rastro de destruição ambiental).
Ao avaliar por este prisma, as antigas concepções dos cafeicultores da região como
senhores rurais coloniais, similares aos donos de engenho, deita por terra. A empresa
cafeeira, instalada no interior da Província Fluminense, tinha características próprias. Sua
implantação promoveu uma nova modalidade de ocupação territorial, com desdobramentos
sociais, políticos e econômicos. Se antes da instalação da família real portuguesa na cidade
do Rio de Janeiro, o que a elevou à categoria de Corte, o médio Vale do Paraíba fluminense
era parcamente ocupado com algumas poucas fazendas inseridas na produção da canade-açúcar e alguns vendeiros situados à beira do Caminho Novo e suas diversas variantes.
após 1808 o lugar virou uma espécie de celeiro a suprir as necessidades alimentícias
geradas no Rio de Janeiro.
Foi ao longo do período Joanino que se começou edificar a formação das Freguesias
e Vilas ao longo de médio Vale do Paraíba Fluminense. Mas foram com os adventos que
marcaram o processo de independência do Brasil que se configuraram as bases necessárias
à emergência do café como a cultura capaz de dar suporte aos projetos da nação. Em poucos
anos, a cultura cafeeira fez tombar florestas, além de substituir a agricultura de subsistência
e mesmo a cultura da cana. A concentração de terras e escravos na mão de poucas famílias
foi rápida. Já em 1835 os grandes e megas senhores de escravos concentravam a maioria
da população cativa arrolada em inventários post-mortem abertos em Vassouras.
Mudanças concretas tiveram ocorrência na forma e no ritmo de trabalho no campo. As
fileiras verticais que rasgavam os morros meia-laranjas, para retomar a fala de Alberto Lamego,
com os cafezais tinham um sentido administrativo, já que permitiam ao administrador das
unidades agrárias o acompanhamento dos diferentes tratos culturais a que estavam sujeitos
os cafezais em suas diferentes fases etárias e ao longo das diferentes épocas do ano. As
fazendas constituíam-se em grandes empresas produtoras do grão, para o abastecimento
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78
do mercado externo. Sobre elas, pesavam não apenas as disputas locais, mas também
as pressões do mercado, a oscilação de preços, as vias de escoamento da produção e a
necessidade de construtos urbanos capazes de dar suporte à produção. Os senhores de
terras e gentes, no médio Vale do Paraíba Fluminense, galgaram representações políticas
importantes e suas influências articulavam os rumos do Brasil de então.
Já o outro ramo presente na bandeira é o fumo. Seguindo a mesma linha de raciocínio,
há que se destacar que o fumo era um dos principais produtos de negócios nos portos
africanos. Tal argumentação leva a entender que se tratava de um projeto de nação calcado
no desenvolvimento da cultura cafeeira e do tráfico de escravos. Toda a ampliação da cultura
do café foi fruto de empreendimentos de pequenos, médios, grandes e macros senhores
de escravos. Foi através da mão-de-obra cativa, bem como pela assimilação de parte de
seus saberes tecnológicos, como o da marcenaria, da fundição e transformação do ferro em
ferramentas de trabalho, e ainda na produção de mudas através do replantio de brotos, que
a cultura do café emergiu e alçou o papel de principal, frente aos interesses da nação em
formação.
Mas os estudos sobre esta temporalidade são ainda parcos. A introdução da cultura
cafeeira ainda requer a ampliação de investigações. Há que se avaliar tanto a hipótese deste
sobredito projeto de ocupação do médio Vale do Paraíba fluminense, bem como reavaliar
os processos sociais que ali tiveram ocorrência. Ainda está por se construir a idéia do
senhor de terras como empreendedor e empresário, capaz de manter articulações sociais,
associativistas, políticas e intelectuais na construção de seu ramo de negócio. Ainda há que
se reavaliar o papel da mão-de-obra escrava, que fez ampliar a pressão demográfica, que
implantou tecnologia própria para cultivar cafezais, e que deve ser vista como mão-de-obra,
muitas vezes qualificada tanto pelas experiências obtidas na vivência social em África, ou
ainda capacitada nas próprias unidades produtivas pelos mais experientes.
Os estudos sobre a região, em sua grande maioria, têm como foco de análises o período
que se espraia entre os anos de 1850, instante em que a cultura cafeeira já está implantada
e o ano de 1888 que marcou o fim do escravismo (às vezes ampliados em títulos, mas
não em análises contundentes para o ano de 1900). Os avanços historiográficos acerca do
período são significativos.
Mas a região se ressente de estudos sobre o momento posterior marcado pela
historiografia que teve por foco o intenso desenvolvimento da cultura cafeeira em São Paulo.
As marcas geradas por este tipo de visão do médio Vale do Paraíba Fluminense são fortes.
Pode ser alinhada a obra de Monteiro Lobato de título Cidades Mortas. Em sua análise, a
região passou por uma profunda depressão tanto econômica, quanto demográfica. Há que
se avaliar isto, que se trata, a grosso modo, de uma avaliação comparativa, com os processos
em ocorrência em São Paulo. Os estudos sobre a República praticamente retiraram o foco
de análise da região, fazendo aflorar o binômio café e leite, numa alusão entre o domínio
político de presidentes do eixo São Paulo e Minas Gerais.
Tais reflexões não levaram em conta os processos sociais de ocorrência local, não
analisaram as transformações que tiveram passagem, nem sequer realizaram um esboço,
mínimo que fosse, sobre a tela socioeconômica e política em questão. Não se realizaram
estudos sobre a transmissão e o uso da terra, sobre a industrialização, do início da República.
Também não se realizou qualquer esforço sobre a trajetória dos descendentes dos africanos,
para além das ainda insuficientes hipóteses de êxodo, em direção aos grandes centros, em
particular a periferia da cidade do Rio de Janeiro.
Os estudos também não avançaram para algo peculiar que teve ocorrência após a década
de 1960 e chega aos dias atuais: Todo o médio Vale do Paraíba é coberto por uma ampla
rede de instituições de ensino superior, que a diferencia de boa parte do restante do interior
do Estado Fluminense.
Todas estas possibilidades, ou melhor, necessidades de investigações, têm esbarrado
numa espécie de Nostalgia Imperial. Produções historiográficas, repletas de ufanismo, que
ganhou fôlego com a produção positiva das décadas de 1930, e de mesmas características,
mas com novos contornos, com o advento com das iniciativas de projetos de turismos dos dias
atuais. A região, caracterizada como o Vale do Café é tratada como A TERRA DOS BARÕES.
Dois pontos são especialmente importantes:
Como uma historiografia regional, produzida a estes moldes pode contribuir para que o
homem possa viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar
da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes.
2 – DAS ACADEMIAS QUE FALAM PARA SI. SOMENTE PARA SI.
Outra angústia vem do plano das academias.
As universidades são por excelência os centros de produção do saber. Mas diversos fatores
vêm afastando os cientistas sociais da sociedade. A necessidade e urgência pela titulação,
o endeusamento e encastelamento dos pesquisadores, em seus abstratos projetos e grupos
de pesquisas, além das dificuldades em escoar a produção, vem levando as universidades
para pontos cada vez mais distantes da população. Na atualidade, as pesquisas devem ser
produzidas em curtíssimo espaço de tempo. Para a obtenção do título de Mestre, a CAPES
estima como tempo desejado o intervalo de dois anos. Passando de dois anos e meio os
programas de pós-graduação são penalizados, e têm sua nota de avaliação reduzida. Já para
o programa de doutoramento o prazo desejável é de quatro anos. O ultrapassar deste prazo
provoca sanções da mesma natureza acima descrita.
O encurtar dos prazos é seguido por uma idéia de graduação e pós-graduação continuadas.
Deste modo, deseja-se estimular que alunos de graduação sejam imersos nas iniciações
científicas e já terminem seus cursos com projetos bem delimitados para a pesquisa a ser
desenvolvida no mestrado, e a regra é continuada para o doutorado. Obtido o tão sonhado
título, parece que se busca privilegiar a produção de artigos e participações em projetos.
Os indicativos de produção atribuem pontuações aos pesquisadores que produzam mais
rapidamente artigos, resumos e participem de congressos, sem levar em conta que as
pesquisas demandam tempo de realização.
As agências de fomento tratam os projetos de pesquisa de modo a fazer com que seu
desenvolvimento possa ser realizado em curto prazo. Os editais apresentam, em sua
maioria, prazos de desenvolvimento de um ano! Notadamente trata-se de um prazo muito
curto, para incorporar todas as rotinas necessárias ao bom desenvolvimento de um projeto.
Principalmente quando este projeto está na área das ciências sociais.
Este conjunto de fatores faz com que os pesquisadores estejam, cada vez mais,
encastelados em seus projetos, presos aos grupos de pesquisas e travem um monólogo
acadêmico. Como resultado, em justa medida, os saberes produzidos nas academias levam
muito tempo para chegarem aos bancos escolares. Quando chegam!
Contribuem neste sentido visões equivocadas dos estabelecimentos de ensino
fundamental e médio com relação ao professor de história. Diversas vezes, o profissional
de história e tratado como a enciclopédia ambulante. Seu papel é saber datas, nomes. São
usados para desenvolver projetos relâmpagos em dadas comemorativas. São obrigados a
cumprir, em tempo exígüo, uns calhamaços obrigatórios, que não contemplam a história
local. Tratados muitas vezes com demérito frente a disciplinas que se pretende tenham uma
funcionalidade no preparo do discente para o mercado de trabalho. o ambiente escolar vem
dando as costas ao desenvolvimento de projetos que visem o recuperar das memórias e a
investigação e análise da história local. Em larga medida, profissionais da área de história,
no ambiente escolar, vêm sofrendo com a falta de investimentos, de apoio, de incentivo e,
além disso, convivendo com situações que podem remeter-lhes a dificuldades com a auto
estima.
Em outras palavras, se no ambiente universitário os pesquisadores estão cada vez mais
distantes da sociedade, no ambiente escolar, a sociedade vem se afastando do profissional
de história, tido, juntamente com outros da área de humanas (como os de filosofia e
sociologia), como profissionais de segunda classe. Das grades escolares ao posicionamento
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das equipes pedagógicas, as disciplinas de primeira classe são Português e Matemática.
Como um profissional em história, tratado nestes moldes, pode contribuir na formação de
cidadãos que possam viver com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa
escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes?
3 – DA LUTA POR RECURSOS PARA A PRESERVAÇÃO PATRIMONIAL
O patrimônio arquitetônico, de valor histórico, do médio Vale do Paraíba Fluminense, é
de valor inestimável. Isso, que parece um consenso, não é. As edificações, da forma como
são tratadas, remetem, por um lado, a uma nostalgia imperial. Algo que, por ser única e
exclusivamente entendida, de forma descontextualizada, são rotuladas como a casa
do Barão tal, do Visconde tal etc. Seu enredo foi construído, e/ou apresentado de forma
desarticulada da história local. Trata-se unicamente da história de parcela da sociedade de
uma localidade.
Neste sentido, o senso de pertencimento que se espera que o dito patrimônio gere diante
de toda a sociedade, não se torna possível, já que não remete à história da maioria da
população. Somam-se a isso os constantes discursos das disputas eleitorais. O embate
entre instituições de proteção do patrimônio histórico e o poder público é de conhecimento
notório, e de longa data já ganhou as páginas dos jornais. No que se refere a Vassouras,
um dos discursos mais antigos tange à substituição do calçamento de pé-de-moleque e
paralelepípedo, por asfalto. Os debates em torno do tema já fizeram parte de um conjunto
considerável de palanques de disputas eleitorais e já se chegou até a vermos iniciativas
neste sentido serem embargadas na justiça.
No mesmo instante que o patrimônio histórico de Vassouras completa 50 anos de seu
tombamento, pode-se afirmar que talvez o mesmo não tenha passado por momentos tão
difíceis como o atual. São várias as edificações que estão em estado precário, inclusive prédios
inteiros ou partes destes encontram-se interditados! O Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional já foi tratado como o grande vilão que, ao não permitir a realização de
determinadas construções no Centro Histórico tombado, ou em sua área de entorno, foi
rotulado como antiprogressista. Em sentido igual o próprio conjunto arquitetônico, passou a
ser entendido como entrave ao desenvolvimento.
Há aproximados dez anos, a cidade viu seus governantes e a própria população dividida.
Uma torre metálica foi ereta em desacordo com a legislação. Ao ter tal edificação embargada,
a população assistiu a discursos inflamados. Em tais falas, o embargo era tratado como
uma atitude retrógrada, que inviabilizava o desenvolvimento local. A torre tinha como função
atender as demandas da chegada da telefonia celular à localidade. A argumentação era que
sem aquela torre não seria possível à implantação de tão nova tecnologia. O culpado pela
retirada da torre foi o Patrimônio Histórico. Aquele que não permitia o crescimento da cidade.
Mas a torre foi retirada. Nem por isso deixou-se de realizar investimentos em telefonia celular
na localidade. E mesmo assim, o patrimônio histórico é ainda hoje tratado como estorvo ao
desenvolvimento local.
Como o patrimônio, tratado deste modo pode contribuir para que o homem possa viver
com outros reflexos que não apenas o do medo e onde possa escapar da angústia de tornarse órfão do passado e sem raízes?
4 – MAS NÃO SÃO APENAS INQUIETAÇÕES E ANGÚSTIAS:
EXISTEM REALIZAÇÕES E ESPERANÇAS!
80
Diversas iniciativas têm apoiado a mudança deste quadro. As ações do Instituto PRESERVALE,
do Instituto São Fernando, do IPHAN, do INEPAC são de valor inestimável! No que tange ao
acervo documental, a criação do Arquivo Público Municipal de Vassouras (em parceria com o
IPHAN), do Arquivo público de Piraí e do Centro de Documentação Histórica da FAA são recentes
ações concretas que já vem estimulando a ampliação das pesquisas sobre a região.
Neste conjunto de ações, a Universidade Severino Sombra vem ocupando papel de
destaque em um conjunto de iniciativas que vem somar-se ao resgate e preservação da
memória local. Através de projetos, financiados pela própria Instituição, são recorrentes as
iniciativas de incremento de pesquisas que tratam da história regional. Os estudos vêm
sendo alargados tanto pelo desenvolvimento de tais pesquisas, bem como pela criação e
manutenção do Programa de Mestrado em História da USS. O Programa, reconhecido pela
CAPES em 2002, é o único Mestrado em História situado no interior do estado do Rio de
Janeiro. Localizado no Vale do Paraíba Fluminense, é responsável pela formação de grande
parte dos quadros docentes de instituições de ensino superior, sobretudo das regiões do
interior do Espírito Santo, da Zona da Mata Mineira e interior do estado do Rio de Janeiro. As
dissertações produzidas, em grande número, versam sobre a história regional.
Com vinte e um anos de existência, o Centro de Documentação Histórica da Universidade
Severino Sombra (criado em 12 de março de 1987 através da PORTARIA 02/87), se consagrou
como centro de referência, tanto no apoio ao desenvolvimento da pesquisa histórica, como
na relação socialmente responsável. O Movimento de Responsabilidade Social, que ganhou
força no Brasil a partir da década de 1990, já encontrou na Fundação Educacional Severino
Sombra alguns projetos consistentes neste campo, e entre eles a criação e manutenção
do CDH como setor capaz de preservar fontes documentais, anteriormente relegadas ao
descaso, e com isso garantir a permanência da memória coletiva.
Uma das premissas principais da responsabilidade social das Empresas refere-se à
forma como esta se relaciona com a comunidade em que está inserida. A Universidade
Severino Sombra, através do CDH, vem atuando fortemente neste quesito. Mantém convênio
com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e com a Paróquia Nossa Senhora
da Conceição de Vassouras, para a preservação e acesso de parte do acervo permanente
destas instituições, o que favorece a manutenção de fontes históricas fundamentais para a
construção da cidadania e da identidade local.
Além de receber pesquisadores de diversas instituições do Brasil e do exterior, o CDH
vem abrindo suas portas à visita de estabelecimentos de ensino das redes pública e privada
nos diversos níveis de ensino (fundamental, médio, superior e pós-graduação). Participou de
projetos como o “Se essa rua fosse minha...” desenvolvido pelo Colégio Estadual Santa Rita,
premiado em Brasília pela originalidade e relevância do trabalho; projetos de cunho social e
construção da cidadania como o projeto “Fazendo Democracia Construindo Cidadania”, em
co-coordenação com o Tribunal Eleitoral Regional e com o Colégio Santa Rita.
É responsável por elaborar as exposições do espaço cultural do Fórum da Comarca de
Vassouras, espaço que garante interação da comunidade com a cultura e promove o bemestar da coletividade na sua permanência nas dependências da Comarca. Realizou diversas
palestras e promoveu o I Fórum de Igualdade Étnica, participando ativamente de debates
fundamentais a construção de uma sociedade mais justa.
Além da iniciativa de preservação e acesso aos acervos permanentes, a Universidade
Severino Sombra vem se empenhando na conservação da antiga estação ferroviária e do
Solar Barão de Massambará. Ainda neste sentido, vem empreendendo esforços para a
restauração do Solar Barão de Itambé.
Para ser socialmente responsável é necessário que as instituições, além de adotarem
valores de ética e transparência administrativa, façam mais que suas obrigações legais.
Ao criar e manter o CDH, a USS faz isto, ultrapassa os limites de suas obrigações e assume
responsabilidade diante da comunidade de preservar e divulgar a memória coletiva. Apóia a
melhoria da qualidade de ensino das escolas da região e ajuda a construir identidade local
e cidadania.
Todo este conjunto e ações amenizam as angústias e inquietações. Reacendem as
esperanças de que é possível que o homem possa viver com outros reflexos que não apenas
o do medo e onde possa escapar da angústia de tornar-se órfão do passado e sem raízes.
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Historiadores Inscritos
I Encontro de História do Vale do Paraíba
Aloysio Clemente M. I. de J. Breves Beiler
Rio de Janeiro
Advogado, pesquisador da história fluminense. Autor do site “História do Café no Brasil Imperial”
– www.brevescafe.oi.com.br – que retrata a saga dos pioneiros da cultura do café no Vale do
Paraíba, com referências à família Breves.
Duas monografias sobre o mesmo tema. Atualmente cursa o Mestrado em Poder Judiciário pela
Fundação Getúlio Vargas – FGV/RIO.
Trabalho inscrito:
O tempo dos Breves
Os Souza Breves foram os maiores produtores de café no período de 1800 a 1900 (cem anos).
Proprietários de mais de 10.000 escravos, dominaram do mar de Mangaratiba (a ilha de Marambaia)
até os confins de Minas Gerais (Piumbi). A ilha de Marambaia foi adquirida pelo “rei do café”, o
comendador Joaquim José de Souza Breves, para servir de entreposto do tráfico de escravos. Lá os
negros vindos da África ficavam em quarentena, para depois subirem ao altiplano para distribuição
nas inúmeras propriedades do comendador Breves.
Participou Joaquim Breves do Grito da Independência junto com Pedro I e foi seu amigo até sua
partida para Portugal. No governo de Pedro II foi opositor ferrenho.
De sua fazenda de São Joaquim da Grama comandava o império do café e recebia com luxo e
fineza os viajantes da época: embaixadores, condes e políticos.
Mão-firme no trato com seus escravos, soube debelar revoltas, impondo sua rude formação aos
que se contrapunham em seu caminho de acúmulo de riquezas. Dizem que talvez tenha sido o homem
mais rico de seu tempo. Morreu em 1889, sendo sepultado na capela de sua fazenda em Rio Claro,
RJ, desiludido com o duro golpe da Abolição.
Outras obras:
• Cidades Mortas: Declínio econômico das cidades do Médio Paraíba na província do Rio de Janeiro
no ciclo do café.
• O imperador do café.
• Pontal da Marambaia – A intervenção no meio ambiente por remanescentes de escravos e a
Marinha do Brasil. Dano ambiental, preservação, ou direitos adquiridos pelo quilombolas?
• As ruínas fluminenses e sua preservação.
• Mario Breves Peixoto – O limite do cinema nacional e os retratos da família. • O rei do café no Brasil Imperial.
Ana Maria Bastos Seraphim
Volta Redonda
Professora de História, Diretora da Agência Viagem ao Saber, Diretora de Turismo do Instituto
PRESERVALE e Diretora da revista eletrônica Vale do Café On Line.
Projetos desenvolvidos:
Turismo Cultural/Pedagógico
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Trabalha com turismo pedagógico, principalmente em escolas da região, voltados para a organização
de roteiros temáticos integrados ao conteúdo programático apresentado aos estudantes. Os temas
podem focar a História do Brasil Colônia, do Império ou da República, ou tópicos de História da Arte
ou Meio Ambiente, entre outros. Também recebe grupos oriundos de outras regiões brasileiras e do
exterior para fazerem o circuito do Vale do Café.
Publicação
• Livreto “Histórias de café, casarões, sinhás, quitutes e outras delícias”, publicado em 2000 e que
agora está sendo revisado. A primeira edição estava centrada no município de Valença. Na edição
atual estão sendo incluídas as 14 cidades que integram a região do Vale do Café.
Publicação eletrônica
• Direção da Revista Eletrônica Vale do Café On Line, lançada no fim do mês de junho de 2008. A
revista trata de História, Patrimônio, Turismo e Meio Ambiente da Região. Além de entrevistas, artigos,
notícias etc., a revista também possui um módulo voltado para a publicação de temas de produção
científica.
Produção Científica
• Artigo científico cujo tema é “A influência francesa no Vale do Paraíba Fluminense no Século XIX”.
• Orientação de três monografias de conclusão do Curso de Turismo do UGB – Centro Universitário
Geraldo Di Biase. Os formandos apresentaram projetos relacionados ao desenvolvimento do Turismo
Histórico-Cultural na Região.
Exposições
• “Histórias de Café” – Pesquisa e Produção – 2000.
• “Olhar de Debret” (Exposição Virtual) – Pesquisa e Produção – 2004.
• “O Vale do Imperador” – Produção e Curadoria – 2004.
• “Café: Um grão de história” – Curadoria (organizada a partir do livro de mesmo título, publicado pela
Editora Dialeto) – 2007.
• “História Viva” – Pesquisa e Produção – 2008.
André Ricardo Silva Pinheiro
Piraí
Historiador.
Trabalho Inscrito:
Comendador Joaquim José de Souza Breves - O Rei do Café
O trabalho consiste em levantamento de dados e de informações que possam dar base às respostas
relacionadas ao grande sucesso que foi a vida do personagem histórico “Comendador Breves”.
Trabalhamos desde sua ancestralidade, até o auge e o declínio deste homem, que, coincidentemente,
corresponde ao mesmo corte temporal no qual o ciclo cafeeiro aconteceu na região do Vale do
Paraíba.
Ângelo Ferreira Monteiro
Vassouras
Historiador do Centro de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra (USS),
Assessor de Comunicação da Presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras,
responsável pela coluna do IHGV no Jornal Tribuna do Interior e Membro Titular da Academia
de Letras de Vassouras.
Trabalho Inscrito:
Redes de Sociabilidade em Vassouras no século XIX - O Caso Benatar
O trabalho apresenta as redes sociais que foram construídas pelo marroquino Benjamim Benatar
em sua vivência social. O livro, publicado em 2007 com o apoio da Prefeitura Municipal de Vassouras,
resultou numa exposição que é fruto da continuidade do trabalho de pesquisa desenvolvido pelo
autor, que já lhe rendeu o título de Mestre no Programa de Pós-Graduação em História da USS e
uma cadeira na Academia de Letras de Vassouras (ALV).
Evânea da Costa Santos
Mendes
Trabalho inscrito:
Eu amo Mendes – Projeto de fotos que busca o resgate histórico, cultural e geográfico do município.
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O trabalho se destina aos professores, para que eles possam trabalhar com os alunos a história
do município, sua formação econômica, bem como seus aspectos físicos, sociais e culturais. O
projeto tem os seguintes objetivos:
• Conscientização da classe educadora, de sua importância, como agentes formadores de opiniões,
no sentido de incutir nos alunos sentimentos de apreço, respeito e amor pelo município.
• Através da EDUCAÇÃO, inserir no Planejamento Escolar conteúdos, informações e conhecimentos
sobre o município de Mendes.
• Através de atividades elaboradas pelos professores, resgatar aspectos históricos, geográficos e
culturais do município de Mendes.
• Através das atividades realizadas nas Escolas, contribuir para a formação do acervo cultural do
município.
• Com as atividades realizadas nas Escolas, colaborar e dar sustento ao desenvolvimento do TURISMO
no município.
• Integrar a Escola com a Comunidade.
Isabela Torres de Castro Innocencio
Paraíba do Sul
Professora e historiadora da Região do Vale do Paraíba
Trabalho inscrito:
Liberdade e Acesso à Terra – Fazenda de Cantagalo
O trabalho pretendeu dar uma contribuição ao entendimento do período pós-abolição e do papel
do liberto na sociedade brasileira. Nesse sentido, o centro de nossa análise recaiu sobre uma colônia
agrícola formada com libertos, instalada em Paraíba do Sul, no Vale do Paraíba Fluminense. A história
das dificuldades e dos obstáculos que se apresentaram a esse grupo de libertos, ao receber os lotes
de terras para constituir a colônia agrícola, é pouco conhecida e muitas vezes ignorada.
O tema é importante para a compreensão do processo de transição do trabalho escravo para o
livre, visto que, ao ex-escravo, não foram dadas as condições para o seu ajustamento na sociedade
e ainda se forjou uma imagem preconceituosa de liberdade significando o “não-trabalho” para o
escravo. Procuramos abordar o liberto como agente social, colocando-o numa situação não apensa
de subjugado, nem de perdedor, mas como parte de uma comunidade que foi construindo sua história
em meio a forças políticas que, pouco a pouco, lhe retiraram o direito ao usufruto da terra.
Julio Fidelis
Resende
Pesquisador e professor dos cursos de Economia e Pedagogia das Faculdades Dom Bosco.
Trabalho inscrito:
O florete e o imperador
O artigo tem como objeto de estudo o episódio da visita do Imperador D. Pedro II ao município de
Resende, em 16 de outubro de 1874, ocasião em que concedeu uma série de distinções a membros da
comunidade, bem como à Loja Maçônica local. Nosso estudo nasceu do interesse em reforçar pesquisas
anteriores, que mostram os laços de poder e a interação da cidade de Resende, através de sua elite,
com o poder imperial. A ponto do monarca vir prestigiar a sociedade resendense e agraciá-la, através de
sua Loja Maçônica, com uma honraria do cerimonial da Corte, como forma de reforço das relações de
poder vigentes na época.
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Pesquisas realizadas:
• Mulheres fazendeiras e lavradoras numa economia cafeeira do Vale do Médio Paraíba.
• A escravidão em Resende no Século XIX. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “A
escravidão em Resende no século XIX: uma breve introdução à análise econômica”.
• A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova: Duzentos e
Sessenta Anos. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “A Paróquia de Nossa Senhora
da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova: 260 anos” e a exposição “Das Cinzas Renasce a Fé”,
no Corredor Cultural Cecil Wall Barbosa de Carvalho – AEDB – Abril de 2007.
• A Guarda Nacional – o 11º Corpo de Cavalaria de Resende e o 27º Batalhão de Infantaria da Guarda
Nacional. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “As unidades da Guarda Nacional
sediada em Resende no século XIX: a oligarquia em armas.”.
• Simão da Cunha Gago, o fundador de Resende (1744). Pesquisa documental e bibliográfica, gerando
o artigo “As origens de Resende e de seu fundador Simão da Cunha Gago”.
• Jornal rural editado em Resende, no início do século XX (1900), por jovens moças, ao qual
batizaram de “Sorriso”. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “Um sorriso que vem
do passado”.
• Estudo do episódio de 16 de Outubro de 1874, em Resende, envolvendo o S.M.I. D. Pedro II e a
Loja Maçônica Lealdade e Brio. Pesquisa documental e bibliográfica, gerando o artigo “O espadim e
o imperador”.
Paulo Raulino Lamego
Rio de Janeiro
Historiador, pesquisador e membro do Conselho de Cultura e Patrimônio do Instituto
PRESERVALE.
Trabalho inscrito:
O Brasil é o Vale
Com o autor, caminha-se pelos lances mais relevantes da ascensão, do apogeu e da decadência
da economia do café. Sente-se o despertar de uma casa-grande, com fiel cenário de que são
protagonistas o barão, a baronesa, as crianças da casa, as mucamas do serviço, tudo ao som do
baque surdo do assoalho de madeira sobre o porão e do carrilhão que marca ruidosamente as horas.
À volta, emolduram-na os extensos cafezais, origem e sustentáculo da aristocracia rural fluminense,
surgida no alvorecer do século XIX e desaparecida antes que se findasse. São enumeradas algumas
das famílias mais prósperas do Vale do Paraíba, no auge da produção cafeeira: Werneck, Paes Leme,
Rodrigues Alves, Homem de Mello, Teixeira Leite, Daguirre de Faro, Aguir Valim, Corrêa e Castro,
Carneiro Leão, Oliveira Roxo. E algums “grandes fazendeiros” da região: Joaquim José de Souza Breves
(Comendador Breves), Antônio Clemente Pinto (Barão de Nova Friburgo) e Joaquim José Moreira Lima
(Conde de Moreira Lima).
Raimundo César de O. Mattos
Valença
Coordenador do Centro de Documentação Histórica – CESVA/FAA. Professor Adjunto da FAFIVA/
CESVA.
Trabalho inscrito:
Manoel Antônio Esteves – O Cotidiano de um Comerciante/Cafeicultor do Vale do Paraíba Fluminense
através da Epistolografia
O trabalho procura mostrar o cotidiano de um comerciante de origem portuguesa radicado na
Cidade de Valença, no Vale do Paraíba Fluminense, que, a partir de seu casamento com a filha de
um rico cafeicultor, torna-se também proprietário de propriedades produtoras de café, em especial
a Fazenda Santo Antônio do Paiol. Manoel Antônio Esteves manteve farta correspondência, tanto
familiar quanto com seus comissários de café, que é fonte preciosa de informações sobre o período
e o dia-a-dia de uma família, em uma época em que o público confundia-se com o privado.
Outras Obras:
• Valença e sua evolução histórica.
Roberto Guião
Volta Redonda
Historiador e pesquisador da Região do Vale do Paraíba.
Obras:
• Volta Redonda, do Café e do Leite / 140 anos de História.
• A Arquitetura do Ciclo do Café no Vale do Paraíba.
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Depoimento:
Todos os meus antepassados, tetravós, trisavós, alguns bisavós e até um avô, maternos e
paternos, foram cafeicultores pioneiros (século XIX) na região de Valença (RJ), onde nasci, e no seu
entorno. Este fato, aliado a outros, despertou meu interesse pela pesquisa histórica e genealógica
do “Ciclo do Café Vale-Paraibano” e da sua migração para o “oeste” paulista, tendo, em ambos os
casos, como horizonte de tempo o Século XIX e as primeiras décadas do seguinte. Assim, a par das
atividades profissionais que desenvolvia na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda,
há cerca de 30 anos realizo pesquisas nos nichos geográfico e temporal mencionados, estando o
produto do trabalho registrado em extenso, detalhado e, permitam-me, rico arquivo que mantenho
na minha residência à disposição dos interessados. Participo de várias instituições culturais, dentre
elas o Instituto PRESERVALE, o Colégio Brasileiro de Genealogia e a Academia Barramansense
de História (Barra Mansa, RJ). Escrevi os livros “Volta Redonda do Café e do Leite: 140 Anos de
História” (2004) e, como organizador e co-autor, “Fazenda Três Poços: do Café à Universidade”
(2006). Entre uma pesquisa e outra, estou escrevendo mais dois livros, sendo que o primeiro
contará a história de mais uma importante fazenda de café fluminense e o segundo, de forma
abrangente, apresentará um panorama do Ciclo do Café no Vale do Paraíba no Brasil Imperial.
Tenho também vários trabalhos publicados nas revistas das instituições de que participo e na do
Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ). Realizei palestras e comunicações em
eventos históricos/culturais, dei entrevistas para jornais e TVs e participei de inúmeros encontros,
cujos temas sempre foram vinculados aos objetos das minhas pesquisas
Luana da Silva Oliveira
Barra do Piraí
Cineasta.
Trabalho inscrito:
Jongos, Calangos e Folias: Música negra, memória e poesia
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Jongos, Calangos e Folias: Música Negra, Memória e Poesia é um documentário realizado pela
Universidade Federal Fluminense, através do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF)
e do Núcleo de Pesquisa em História Cultural (NUPEHC/UFF), com o apoio do Edital Petrobrás
Cultural/2005, que também patrocinou a organização do Acervo Petrobrás de Memória e Música
Negra do Departamento de História da UFF. Tem direção geral das historiadoras Hebe Mattos e
Martha Abreu, edição de Isabel Castro e direção de fotografia de Guilherme Fernández. Participei
desse projeto através de uma bolsa de iniciação científica e atuei diretamente na pesquisa realizada
nas comunidades do Vale do Paraíba Sul-Fluminense.
O filme é um documentário historiográfico constituído a partir do acervo UFF/Petrobrás de
Memória e Música Negra. Destina-se também a finalidades didáticas, no âmbito das Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História
e Cultura Afro-Brasileira e Africana, publicadas em 2004. A história dos jongos, calangos e folias,
como patrimônios culturais, é apresentada de forma associada à história social dos grupos que lhe
dão suporte. O filme coloca em destaque o papel da poesia negra em todas as três manifestações
culturais e seu papel na legitimação política das comunidades remanescentes de quilombos no
estado do Rio de Janeiro.
A primeira parte do filme se refere ao litoral do estado, sul e norte, ponto de desembarque dos
últimos africanos chegados como escravos no Brasil, e apresenta as comunidades quilombolas
do Bracuí, em Angra dos Reis, e Rasa, em Búzios. A segunda parte sobe a Serra do Mar, chega
ao Vale do Paraíba, o velho vale do café do Século XIX, para onde se dirigiu a maioria dos recémchegados. Ali são entrevistados representantes das comunidades de Barra do Piraí, Quilombo São
José da Serra e Duas Barras. A terceira e última parte desce a serra e atinge a Baixada Fluminense,
especialmente Nova Iguaçu, Mesquita, Duque de Caxias e São João de Meriti, para onde muitos dos
descendentes dos últimos escravos se dirigiram, em diferentes momentos do século XX, na busca
de melhores oportunidades de trabalho. Em todas as regiões apresentam-se as relações entre os
jongos, calangos e folias de reis, como patrimônios familiares, com destaque para a poesia e os
desafios presentes nestas manifestações.
Sandra Candido
Vassouras
Historiadora.
Trabalho inscrito:
Arquivos Especiais de Vassouras
Os arquivos especiais são uma importante ferramenta para o pesquisador, seja qual for sua
área, pois é ele que irá levar o público a conhecer o passado. E Vassouras conta com um Arquivo
Histórico, um Centro de Documentação Histórica e alguns arquivos particulares dignos de serem
mencionados e pesquisados. Foi pensando nisso que escrevi a dissertação de mestrado “Arquivos
Especiais de Vassouras”, onde pude constatar muito do que havia ouvido falar dessa cidade que
tanto amo – e comprovar, efetivamente, alguns fatos interessantes de nossa história local. Mas
pude também constatar algumas falhas nas formas de arquiva e trasladar documentos. O ideal
seria que Vassouras tivesse um só arquivo.
Carla Barbosa Ferreira de Souza
Paraíba do Sul
Historiadora e professora da rede pública municipal e estadual em Paraíba do Sul.
Trabalho inscrito:
Pequenas e Médias Propriedades do Vale do Paraíba Fluminense na Segunda Metade do Século XIX
Monografia apresentada no curso de Pós-Graduação da UCAM, módulo Império. Coordenadora:
Professora Hebe Maria Mattos de Castro.
Trata-se da análise da uma média propriedade cafeicultora e escravocrata na segunda metade
do Século XIX, localizada no município de Paraíba do Sul, Cavaru, chamada Jatahy. O enfoque
principal do trabalho são as relações de trabalho após a abolição da escravidão. A pesquisa foi realizada
nos documentos particulares da atual proprietária e nos arquivos municipais.
O trabalho abre espaço para novas análises do período estudado.
Jussara Pereira de Almeida
Vassouras
Professora, Membro Titular da Academia de Letras de Vassouras.
Trabalhos inscritos:
• Paulo Branco: um Homem Arretado
Este folheto de cordel é uma homenagem ao saudoso Paulo Branco, grandioso jornalista, brasileiro, original
de Vassouras, fundador do jornal Tempos em Vassouras, e da revista Raio-X no Rio de Janeiro. O folheto
narra a história e a trajetória deste grande homem vassourense, oferecendo ao leitor uma leitura dinâmica,
prazerosa e informativa.
• Proezas de um Homem Aprumado
Este folheto de cordel traz a história de outro vassourense, empresário bem sucedido e querido de muitos.
As sextilhas são fios responsáveis pela viagem do leitor, levando-o a passear pela vida e sucesso de um
homem aprumado.
• Ivo Viu a Uva e Quer conhecer a “Rucha”
Este livro é um presente às crianças e a todos os educadores do país, sob a forma de literatura de cordel e
ilustrações a partir do Tangram. Aos olhos do público infantil é um livro que conta a história do menino Ivo,
que enfrenta dificuldades para aprender a ler e que, ao final da narrativa, consegue superar os obstáculos
da leitura e convida o leitor para uma viagem muito interessante.
Aos olhos dos educadores traz a questão que mais preocupa o país: alfabetização. A capa já sugere um
labirinto, pois é assim que muitas vezes o professor se sente em sala de aula: como alfabetizar os alunos?
Qual o melhor método? O livro não traz a receita, mas transporta o leitor ao tripé reflexão, ação, reflexão.
Cada sextilha traz nas entrelinhas as idéias de Paulo Freire, Montessori, Magda Soares, Freneit e muitos
outros. Basta o leitor se embaraçar e se encontrar no labirinto das palavras. Um livro interessante, que
ressalta, sobretudo, a importância do letramento.
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•“Requinte, Sabor e Bom Gosto – Reizi Biscoitos”
Este folheto de cordel conta a história de Reizi, uma mulher surpreendente, artesã que, fazendo
biscoitos, se transformou numa grandiosa empresária. Já morou em Vassouras, atualmente mora em
Mendes e conquista muitos brasileiros com sua arte de fazer biscoitos. Ou seja: ela faz o paladar chegar
ao coração. Uma história de sucesso, saborosa, incomparável para o leitor. Depois da leitura não dá
para deixar de conhecer, provar, sonhar com os biscoitos de Reizi.
Histórias e Causos
Arthur Mario Belisario Vianna
Rio de Janeiro
Texto:
Minha vida começa em Minas Gerais, onde nasci. Aos sete anos vim para o Rio, mas nunca perdi as raízes
mineiras, das quais muito me orgulho. Na década de 40, tínhamos a Fazenda da Glória em Valença. Saíamos
do Rio em trem da Central do Brasil às sete horas da manhã. Meu pai usava um guarda-pó, fazíamos baldeação
em Desengano (hoje Juparanã) e, passando pelas estações de Quirino Esteves e Chacrinha, chegávamos à
Marquês de Valença. Nosso capataz, Seu Soares, estava nos esperando na praça com os cavalos. Antes do
trem parar eu e meus dois irmãos já estávamos disputando as melhores montarias. Chegávamos na fazenda
pelas duas horas da tarde. Era uma aventura. Hoje, são 28 minutos de helicóptero... Em 1980 me tornei
corretor de fazendas e, no correr dos anos, especializado nas sedes centenárias e históricas. Sou um dos
fundadores do PRESERVALE – Instituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraiba.
Fui o iniciador das visitas às fazendas históricas do Vale, possuindo uma coleção de 260 sedes coloniais
fotografadas em Minas, Rio e São Paulo, com um acervo de 5.000 fotos. Esta é a minha história rural. Só falta
acrescentar que fiz ótimas amizades nesta atividade e que sou apaixonado por uma boa cavalgada.
Célio Tavares Ramos
Mendes
Texto:
O retorno dos pracinhas do município de Mendes e de cidades vizinhas, em setembro de 1945,
após o término da grande guerra. O descrevente, aos 15 anos de idade, testemunhou o fato da chegada
inesquecível dos pracinhas que foram defender a democracia pelo Brasil em campos de batalha.
A comunidade mendense, orgulhosa de seus filhos, se apresentou à Estação de Mendes – EFCB
– na expectativa de, orgulhosamente, receber os filhos da terra que tão bem marcaram em campos
de batalha. Na Estação completamente lotada, autoridades da mais elevada representatividade,
associações religiosas e esportivas, e o povo eufórico e sorridente acolheram do trenzinho que chegava
os seus heróis, abraçando e assentando-os em seus ombros, de maneira patriótica. Simplesmente
inesquecível e de maneira unissônica, todos, realmente todos, imponentes, entoavam o Hino Nacional
Brasileiro. Assim, os pracinhas foram conduzidos às suas residências com todo o povo envolvido em
contagiante alegria. Uma noite inesquecível e mal dormida por motivos historicamente justos. Uma bela
página da história de Mendes. Emocionante história de amor...
Ednéa Müller Soares
Piraí
Texto:
Nascida e criada em Piraí, cenário dos casarios dos grandes produtores e das lavouras cafeeiras,
desenvolvi um sentimento de chão que me leva ao início do Século XIX, onde a rua da Direita e o
Paço Municipal fazem com que o passado não passe, mas se faça presente, em cada esquina, em
cada canto deste lugar, onde a memória não há de se apagar.
Maria Dalva Ferreira e Silva
Piraí
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Texto:
Piraí era chamada a cidade dos coronéis, no passado. E houve um fato marcante, que foi a
morte de um ente querido: meu avô. O motivo? No dia das eleições, houve uma briga entre dois
adversários políticos. O meu avô chegou no momento da confusão e foi atingido, sem ter nada a ver
com o fato. Isso me trazia um espanto na infância.
Hoje, graças a Deus, os tempos são outros. Nesta cidade há tranqüilidade e todos vivem muito
bem.
Reizi Rozemberg Simões
Mendes
Textos:
Sou filha de Nilza Froment Rozemberg e Isaac Rozemberg, produtor cinematográfico que filmou
o Brasil de 1942 a 1983. Em um total de 700 documentários, ele contou a era desenvolvimentista
do país.
Sou formada em Pedagogia (orientadora educacional), mas não atuei na área. Hoje estou
trabalhando na recuperação dos filmes, roteiros, documentos, recortes de jornais e tudo mais que
envolveu o trabalho do grande artista que foi meu pai. A partir deste trabalho de resgate de memória,
já realizei duas palestras, dirigidas por Gilda Meireles, sobre a “Cinegrafia de I. Rozemberg”, sendo
uma na Academia de Letras de Vassouras e a outra no SIMPRO (Sindicato dos Professores – RJ).
Casei-me com Rogério Peixoto Simões e tive dois filhos, André e Alexandre. Em 1989 saímos
do Rio de Janeiro, já assustados com a violência da cidade e fomos morar em Vassouras. Meu
sogro, Ignácio Serrat Simões, adquiriu uma propriedade com características peculiares para um
sítio no interior do Rio. Foi aí então que começou minha história com o “Castelo dos Riachos”, que é
realmente um castelo, construído em 1870 pelo o engenheiro inglês Charles W. Armstrong, que veio
para o Brasil construir a primeira fase do Túnel 12 (Estrada de Ferro D. Pedro II), em Engenheiro
Paulo de Frontin.
Com a morte de Sr. Ignácio, o castelo foi aberto para visitações. Foi assim então que me tornei
guia turística da propriedade, o que me obrigou a pesquisar toda a história da casa, desde sua
construção até seu último dono. Desta forma criei uma história que passei a contar para todos os
visitantes, que perfazem um total de mais de 5.000 pessoas de várias regiões do Brasil.
Depois de três anos como guia do Castelo dos Riachos, este foi fechado a visitações por causa
de problemas familiares. Isso me trouxe muitos problemas financeiros, pois era praticamente minha
única renda. Foi nesse momento que comecei uma nova atividade em minha vida e mudei para
Mendes – RJ.
Acredito que o acaso não existe. Foi pedido na escola de meu filho Alexandre um quitute para
uma festa – e fazia parte da comemoração que a própria mãe fizesse a guloseima. Entrei em
pânico! Não sabia fazer nada na cozinha. Uma amiga me deu uma receita de biscoito de fécula de
batata.
– Falei comigo mesma: Vai ser esta mesmo!!!
Levei para o colégio e todos amaram e começaram a fazer encomendas e o dinheiro começou a
entrar de novo. Com o sucesso do biscoito em Vassouras, tomei coragem e fui para o Rio vender e
consegui. Da cocheira do cavalo que não se adaptou ao local, construí a minha fábrica. Hoje tenho
uma pequena empresa, faço 13 sabores, vendo para diversos lugares no Rio e produzo 100 quilos
por semana.
Desta história que lhes contei, Jussara Pereira de Almeida fez um cordel “Requinte, Sabor e
Bom Gosto: Reizi Biscoitos”. E com o dinheiro dos biscoitos estou recuperando o acervo de meu
pai!
Rita de Cássia Vieira Braga
Paraíba do Sul
Texto:
A minha avó contava que a ponte da cidade de Paraí­ba do Sul foi a primeira a cobrar pedágio
no Brasil. E que seu pai, Braz Ribeiro da Silva (naturalmente meu bisavô), foi o primeiro a cobrar
pedágio sobre a citada ponte, tendo ficado conhecido pelo apelido de “Braz da Ponte”, no final do
século XIX.
89
Pesquisas de Opinião
Estatísticas Gerais
TOTAL DE INSCRITOS
TOTAL DE MUNICÍPIOS REPRESENTADOS
TOTAL DE RESPONDENTES
1
2
3
4s
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
Muncicípios
Barra do Piraí
Barra Mansa
Engenheiro Paulo de Frontin
Itatiaia
Lorena
Mende
Miguel Pereira
Paraíba do Sul
Passa Três
Paty do Alfere
Piraí
Quatis
Resende
Rio Claro
Rio das Flores
Rio de Janeiro
São Gonçalo
Três Rios
Valença
Vassouras
21
Volta Redonda
203
21
100
Inscritos
7
3
20
1
1
18
14
5
2
13
4
9
6
1
6
14
1
1
14
55
7
3%
3% 1%
10%
27%
0%
0%
9%
7%
7%
0%
7%
0%
90
3%
0%
4%
2%
6%
2%
1%
3%
Barra do Piraí
Barra Mansa
Engenheiro Paulo de Frontin
Itatiaia
Lorena
Mendes
Miguel Pereira
Paraíba do Sul
Passa Três
Paty do Alferes
Piraí
Quatis
Resende
Rio Claro
Rio das Flores
Rio de Janeiro
São Gonçalo
Três Rios
Valença
Vassouras
Volta Redonda
Tabulações
TABULAÇÃOdas
DASRespostas
RESPOSTAS
CONTEÚDO TRABALHADO NO PRIMEIRO DIA
Excelente:
34
Muito Bom:
34
Bom:
26
Regular:
5
Ruim:
0
Sem resposta:
5%
Excelente:
1%
0%
34%
26%
Muito Bom:
Bom:
Regular:
Ruim:
34%
1
Sem resposta:
Total: 100
CONTEÚDO TRABALHADO NO SEGUNDO DIA
Excelente:
38
Muito Bom:
45
Bom:
12
Regular:
1
Ruim:
1
Sem resposta:
3
12%
Excelente:
1% 3%
1%
38%
Muito Bom:
Bom:
Regular:
Ruim:
45%
Sem resposta:
Total: 100
91
TABULAÇÃO DAS RESPOSTAS
Tabulações das Respostas
QUALIDADE DA ALIMENTAÇÃO
Excelente:
88
1%
11%
Muito Bom:
Excelente:
11
Muito Bom:
Bom:
0
Bom:
Regular:
0
Regular:
Ruim:
1
Ruim:
88%
Total: 100
AVALIAÇÃO DO EVENTO
Excelente:
22
Muito Bom:
58
Bom:
14
Regular:
6
Ruim:
0
Total: 100
92
14%
6%
22%
Excelente:
Muito Bom:
Bom:
Regular:
58%
Ruim:
Tabulações
das Respostas
TABULAÇÃO
DAS RESPOSTAS
IMPORTÂNCIA DE UMA SEGUNDA EDIÇÃO
0%
Sim:
Sim: 100
Não:
0
Não:
100%
SUGESTÃO DE MUNICÍPIOS PARA A REALIZAÇÃO DE UMA SEGUNDA EDIÇÃO
Valença:
32
Vassouras:
29
Piraí:
7
Paty do Alferes:
6
Miguel Pereira:
5
Paraíba do Sul:
4
Volta Redonda:
5
Barra do Piraí:
4
Rio das Flores:
4
Mendes:
3
Resende
3
Barra Mansa:
2
Paraty:
Valença
Vassouras
Piraí
Paty do Alferes
Miguel Pereira
Paraíba do Sul
Volta Redonda
Barra do Piraí
2
Rio das Flores
Mendes
Engenheiro Paulo de Frontin:
1
Resende
Barra Mansa
Itatiaia:
1
Paraty
Engenheiro Paulo de Frontin
Quatis:
1
Itatiaia
Quatis
Três Rios:
1
Três Rios
93
Considerações sobre a Pesquisa de Opinião
A pesquisa de opinião realizada ao final do Encontro de História do Vale do Paraíba
corrobora algumas observações que fizemos, tanto durante o processo de mobilização para
as inscrições quanto durante a realização do evento em si.
Dos 203 participantes inscritos, aproximadamente 10% podem efetivamente ser
enquadrados na categoria de “historiadores amadores”. Isso se explica de várias maneiras,
mas principalmente ao verificarmos que existem cursos de graduação e pós-graduação em
História na região desde os anos 60, em três dos principais pólos urbanos: Valença, Vassouras
e Barra Mansa. O processo de profissionalização dos aficionados pela História da região,
portanto, já está bastante amadurecido, observe-se o número de publicações inscritas para
aparecer no site – mais de 50 até dia do evento, e ainda continuam chegando solicitações.
Verificamos que a demanda dos participantes não é, necessariamente, de publicação, mas
de obter canais de divulgação e escoamento para as publicações existentes.
Constatamos ainda, a imensa satisfação da esmagadora maioria dos presentes, tanto do
ponto de vista da organização do evento quanto com o conteúdo e formato.
Dos poucos comentários de insatisfação, notamos um em especial, que chama a atenção
para a inadequação no critério de escolha dos historiadores que se manifestaram. A chamada
baseada apenas nas inscrições de trabalhos realizadas pelo site, em ordem cronológica,
sem limite de tempo para a exposição, acabou causando um “monopólio da Academia de
Letras de Vassouras”, na visão do autor da crítica. Numa próxima oportunidade, devemos
adotar outra estratégia que maximize a participação de interessados.
Um sucesso, portanto, de público e crítica, com fortíssimas solicitações para que seja
repetido (vide tabulação e comentários específicos), apesar de não termos encontrado
tantos escritores amadores quantos esperávamos originalmente.
A técnica da “Praça da China”, i. e., criar e oferecer um espaço de manifestação deixando
que os próprios grupos de interesse ocupem este espaço à vontade, de acordo com suas
vocações e demandas, mostra, mais uma vez, por que está entre as melhores práticas
universais de sondagem de mercados e nichos.
94
Francis Miszputen
Produtora-Executiva
Comentário dos Participantes

Discutir que os financiamentos públicos para obras de infra-estrutura turística se condicionem à existência de um Plano
Diretor e um Plano Municipal de Turismo. Ampliar as parcerias com as instituições e/ou entidades da região. Estimular cursos de graduação/pós em História local e regional, além de Turismo.

Sugiro que o próximo Encontro fale mais sobre o encantado Vale do Paraíba.

O evento permitiu o acesso irrestrito de profissionais da área de História e afins, isto foi importante. Deixo a possibilidade
de delimitar com maior precisão os assuntos abordados. Importante também foi o primeiro passo no estudo do Vale,
porém outras abordagens poderão ser feitas, destacando outros “olhares”.

Extrema importância para o resgate histórico da região. Algumas pessoas perderam tempo com falas sobre si.

O evento foi excelente. Infelizmente, uma das palestras do primeiro dia foi cancelada.

Poderia ter sido convidada uma quantidade menor de palestrantes, para que o tempo tivesse sido melhor explorado.

Seria mais proveitoso se houvesse mesa com tema específico sobre a história do Vale, seguida de debate.

O Encontro foi de grande importância para nós que moramos nesta região. Focar dentro da temática central, abordando
assuntos pertinentes ao Vale, não deixando abrir um leque de autobiografia.

Não acho que trabalho de pesquisa combine com metodologia de ensino fundamental. Os eventos deveriam ser
separados, pois o público é diferente. Nem todos que se inscreveram (via internet) para falar foram chamados. Foi tudo
muito calcado no Vale do Café.

Excelente, principalmente a 2ª manhã. Foi um Encontro enriquecedor.

Sugiro que haja uma seleção/triagem dos palestrantes, e que estes sejam mais objetivos em suas falas.

Espero que os trabalhos rendam frutos na região do Vale do Paraíba, como turismo cultural, lançamentos de livros e
empregos.

Para o próximo Encontro, incluir debates mais sólidos, para que possam contribuir nos trabalhos dos profissionais de
história, em relação à história regional. Distribuir melhor os temas e comentários. O Encontro foi valioso e útil. Não pode
parar por aqui.

Que os conteúdos fossem trabalhados de forma mais dinâmica.

Os conteúdos foram apresentados de maneira dinâmica e motivadora. Informações valiosas, tudo foi válido. Gostei
muito da organização e elaboração. Metodologia excelente.

Os conteúdos foram passados de forma ampla, de maneira contagiante. A partir de hoje, sairei daqui buscando mais
informações sobre o assunto abordado.

O evento foi muito bem organizado, com apresentação bastante dinâmica. A idéia do filme foi excelente. Aguardamos
o II Encontro de História.

Local agradável, palestrantes gabaritados, temas envolventes.

Para o próximo, deveriam ter grupos de trabalho temáticos sobre: educação ambiental, educação patrimonial, arquitetura,
cultura, folclore, história. Cada município deveria ter um espaço para apresentar sua situação e seus projetos.

Os temas privilegiaram o Vale do Café, ignorando o Vale como um todo. Só quem publicou tese de mestrado, com raras
exceções, foi convidado a falar. Os escritores memorialistas ficaram sem vez.

Que o próximo evento apresente formato de congresso, mini-curso e oficinas temáticas, e que no ato da inscrição seja
exigido um artigo sobre o tema a ser tratado.

Muito enriquecedor. Aguardarei o próximo com exposições culturais típicas de cada município.

Melhor adequação entre tempo e atividades realizadas.

Separar os depoimentos e exposições dos trabalhos por temas.

Parabéns pela iniciativa. Outro detalhe importante foi a abertura para que produções da região fossem divulgadas.

Sugiro um terceiro dia, para maior participação dos professores de história.

Esta chama não pode se apagar. Estruturar o Encontro com posições mais práticas.

Que o próximo Encontro busque profissionais que mostrem recursos e caminhos para aprimoramento, como a
participação do Inepac (nota 10).

Excelente Encontro. Estava sentindo falta de um trabalho como este. Nos fez lembrar os Fóruns Estaduais de Cultura.

É muito triste iniciar-se um caminho e não continuar adentrando os passos na extensão à sua frente. Por isto, acho
fundamental que este I Encontro de História, tão bem recebido pelos integrantes do Vale, tenha uma continuidade cada
vez mais promissora.

Maior controle do tempo dado para exposições de trabalhos.
95

Mais oficinas e menos palestras.

No próximo Encontro, visitar uma fazenda histórica.

O Encontro “despertou” para a questão da importância do patrimônio, como história e memória.

Focar apenas o Vale do Paraíba.

Mais oficinas, para uma maior troca de experiências.

Sugiro a divisão dos temas em dias, e maior participação de outras universidades públicas, como a UFF e a UFRJ. Quero
e necessito que haja maior ênfase em Educação Patrimonial para o 1° segmento do ensino fundamental.

Espaço reservado para apresentação de trabalhos realizados dentro das escolas.

Que no próximo Encontro, os participantes do primeiro evento apresentem o trabalho realizado dentro do tema. Se não
houver uma cobrança, o professor se capacita e não repassa o conhecimento.

Criar um Encontro com o tema Preservação de Patrimônio.

Momento importante para divulgação de pesquisas. A troca de conhecimento foi muito rica.

Que os professores da área tecnológica sejam convidados para contribuir com recuperação e manutenção de
patrimônio histórico.

Foi um momento de reflexão sobre a importância no sentido de despertar a comunidade para zelar pelo o que é seu,
valorizando o patrimônio material e imaterial, para que não se torne “órfão do passado e sem raízes”.

Foi muito gratificante e enriquecedor. Espero que realmente haja uma segunda edição do evento, para que possamos
não só trocar experiências, como também discutir a preservação de nossas raízes e disseminá-la.

É razão de grande enriquecimento para todos nós, historiadores ou qualquer ser comprometido com sua história,
cultura e patrimônio, termos a oportunidade de participar de um evento que tenha a capacidade de unir “gentes”, que
possuam o perfil de estudiosos e multiplicadores das ciências sociais e das artes em geral, com seu foco voltado para a
construção, preservação e reconstrução.
LISTA DE LIVROS DOADOS AO PROJETO
MARTINS, Roselene de Cássia Coelho. Colonização e Política – Debates no Final da Escravidão. Rio de Janeiro, Apicuri, 2008.
CORREA, Dalmir Monteiro. O Vale do Paraíba Fluminense.
WHATELY, Maria Celina. Resende, A Cultura Pioneira do Café no Vale do Paraíba. Niterói, La Salle, 2003.
TAMBASCO, J. C. Vargens. A Vila de Vassouras e o Vale Médio do Paraíba. Vassouras, Gráfica Palmeiras Ltda., 2007.
ALVES, Perpétua do Socorro. Minha Terra, Minha Gente. Niterói, Imprensa Oficial, 1998.
Academia de Letras de Vassouras. Vassouras, Gráfica Palmeiras Ltda., 2002.
TAMBASCO, J. C. Vargens. A Vila de Vassouras e as Freguesias do Tinguá. Vassouras, Edição do autor, 2004.
MEIRELLES, Gilda. Biografia do Branco. Juiz de Fora, Franco Editora, 2005.
MEIRELLES, Gilda. Biografia do Negro. Juiz de Fora, Franco Editora, 2002.
ACADEMIA RESENDENSE DE HISTÓRIA. Crônicas dos Duzentos Anos – Resende 1801-2001. Resende, La Salle, 2001.
LIMA, Roberto Guião de Souza. Volta Redonda do Café e do Leite. Volta Redonda, Nogueira Artes Gráficas, 2004.
Revista da Academia Itatiaiense de História. Org. Célia Borges. Itatiaia, 2005.
INNOCENCIO, Isabela Torres de Castro. Liberdade e Acesso à Terra. Vassouras, USS, 2002.
BARROS, Hyeróclio Virgílio de Carvalho. História e Histórias de Quatis. Rio de Janeiro, Editoração, 2003.
BARROS, Hyeróclio Virgílio de Carvalho. Futebol: paixão de ontem, de hoje e de sempre (Quatis Futebol Clube – sua história e
outras histórias). Rio de Janeiro, Editoração, 2005.
MACHADO, Lielza Lemos. Vassouras, Recanto Histórico do Brasil. Vassouras, Gráfica Palmeiras, 2006.
LIMA, Roberto Guião de Souza. Fazenda Três Poços do Café à Universidade. Volta Redonda, RJ:FOA, 2007.
96
Este livro foi impresso no Rio de Janeiro, em agosto de 2008, pela Maví Artes Gráficas Ltda.,
O papel do miolo é off-set 150g e o da capa é triplex 300g, com acabamento em laminação fosca.
A obra foi composta nas tipologias Franklin Gothic Book no corpo 11, Franklin Gothic Demi no corpo 18 e 23,
Franklin Gothic Demi Cond no corpo 8.
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Relatório de Atividades