SAÍDA DO MODELO BAROTRÓPICO DA ATMOSFERA PARA O REGIME QUASE-GEOSTRÓFICO SOB A INFLUÊNCIA DO ATRITO TURBULENTO Vladimir Kadychnikov Darci Pegoraro Casarin Universidade Federal de Pelotas Abstract The present study considers the barotropic model of the hydrostratic atmosphere in which the mechanisms of vertical and horizontal turbulence mixing are included. The mechanisms correspond to the approach used in hydrodynamic modeling of large scale atmospheric processes. In the adiabatic case, the energy of all auto-oscillations of the model, i. e., of Rossby waves, that satisfies the quasi-geostrophic balance, and of Lamb waves, that does not satisfy it, is conserved. Therefore, any adjustment can not be established. When the turbulence is included, Lamb waves attenuate much more rapidly than Rossby waves. This provides the exit of the model to the quasi-geostrophic state. 1 Introdução Uma propriedade importante dos processos atmosféricos da grande escala é que eles são hidrostáticos e quase-geostróficos. Esta propriedade permite simplificar significativamente as equações hidrotermodinâmicas básicas, usando-as na previsão numérica do tempo. Entretanto, das leis fundamentais físicas, a saber, a segunda lei de Newton, o primeiro princípio da termodinâmica e condição da continuidade, a propriedade hidrostática e quase-geostrófica, no caso adiabático, não decorre. 2 Balanço As equações hidrotermodinâmicas linearizadas admitem três tipos de auto-oscilações da atmosfera: ondas de Rossby e também ondas acústicas e de gravidade. Observações mostram que em processos da grande escala praticamente não há ondas acústicas e as amplitudes das ondas de gravidade são pequenas. A ausência das ondas acústicas permite usar modelos hidrostáticos da atmosfera os quais não têm estas ondas. O pequeno papel das ondas de gravidade permite usar os modelos quase-geostróficos os quais não têm ondas acústicas e nem de gravidade (Holton, 1992). A razão da ausência das ondas acústicas, que aliás violentariam o balanço hidrostático dos processos de grande escala, e do pequeno papel das ondas de gravidade, que aliás violentariam o balanço quase-geostrófico, não é bastante clara. Realmente, os trabalhos conhecidos da teoria do ajustamento geostrófico (Rossby, 1937; Obukhov, 1949; Kibel, 1955; Blumen, 1972) consideram o processo do ajustamento dos desvios no plano infinito, sob a condição que eles são inicialmente localizados. Porém, se a região é periódica, como a Terra, cada auto-oscilação, no modelo adiabático, conserva a sua energia. Esta circunstância importante leva a óbvia consequência: o caráter dos desvios atmosféricos (o grau da proximidade deles ao balanço hidrostático ou geostrófico) não muda com o tempo. Por isso, se não existir algum mecanismo adicional diabático, que filtre as ondas que violentam o balanço, então os desvios arbitrários não atingirão o balanço. 3 Possível Mecanismo do Ajustamento Lorenz (1986) exprimiu uma idéia que no modelo numérico hidrostático (isto é, já sem ondas acústicas), caso os desvios sejam inicialmente arbitrários, as amplitudes das ondas de gravidade (que são admissíveis pelo modelo na mesma forma como as ondas de Rossby, importantes para o tempo) devem diminuir por causa do atrito turbulento. Por isso, o próprio modelo vai entrando no regime quase-geostrófico. 4 Modelo Um modelo hidrotermodinâmico mais simples possível para justificar esta idéia é o modelo hidrostático barotrópico porque ele, por um lado, é bastante simples, e, por outro lado, junto com as ondas de Rossby, que cumprem o balanço quase-geostrófico, admite as ondas de Lamb, que se propagam com a velocidade do som e não cumprem o balanço. O atrito turbulento foi incluido no modelo da seguinte maneira. O mecanismo turbulento principal na atmosfera é a mistura turbulenta na camada limite planetária (CLP). Considerando-a estacionária e homogênea, para a velocidade vertical na fronteira superior da camada, obtemos o valor w= ν vert ∆Φ , 2f 3 (1) onde ν vert é o coeficiente da mistura turbulenta vertical, f é o parâmetro de Coriolis, ∆Φ é o laplaciano plano do geopotencial (Kibel, 1957; Holton, 1992). De acordo com Kibel (1957), a influência da CLP pode ser levada em conta considerando toda a atmosfera como sendo livre, mas a velocidade vertical na sua fronteira inferior não será igual a zero, como no caso adiabático, mas igual ao valor (1), isto é, o tamanho da CLP (cerca de 1 km) pode ser desprezado em comparação com toda a atmosfera. Além disso, na atmosfera existe a mistura turbulenta horizontal. Para tê-la em conta, adicionamos às equações do movimento horizontal e à termodinâmica os laplacianos planos das funções correspondentes com o coeficiente da mistura turbulenta horizontal ν hor . As equações do modelo barotrópico da atmosfera no plano β, linearizadas em relação ao escoamento U, tendo em vista ambos estes fatores diabáticos, podem ser escritas como u t + Uu x + Φ x − fv = ν hor ∆u , ζ t + Uζ x + fD + βv = ν hor ∆ζ , (2) ′ ∆Φ, Φ t + UΦ x + c 2 D = ν vert onde u, v são as componentes horizontais do vento, a vorticidade ζ = v x − u y , a divergência D = ux + vy , coeficiente c 2 = RT (R é a constante dos gases, T é a temperatura média no solo), o ′ =g ν vert ν vert , 2f 3 (3) g é a aceleração da gravidade. 5 Auto-oscilações Procuramos a solução do sistema (2) das equações com os coeficientes constantes na forma das ondas elementares ψ = ψˆ exp i (kx + ly − λt ) (ψ ≡ u, v, Φ ) . (4) Colocando as apresentações (4) nas equações (2), obtemos a seguinte equação cúbica em relação a λ ~ ~ ~ 2 σ2 ~~ c2k 2 β x + ( β + iν ) x − ( 2 − iβ ν ) x − − iν~ = 0. f f2 3 Aqui ′ − ν hor ) λ − Uk + iν hor ρ 2 ρ 2 (ν vert ~ β , ν~ = , β = , ρ 2 = k 2 + l 2, σ 2 = c2 ρ 2 + f 2. f f kf (5) No caso adiabático ( (ν vert = ν hor = 0) , todas as três raízes da equação cúbica são reais, isto é, as amplitudes das ondas (4) não dependem do tempo. Por isso, nenhum ajustamento, neste caso, acontece. x= Para as ondas longas, os valores aproximados das raízes são ~ f2 2 2 β x1 = − 2 (c k + iν~ ), σ f2 σ 1 x 2,3 = ± − c2k 2 + f 2 f 2σ [( 2 )β~ + ic 2 ] ρ 2ν~ . Por isso, todas as ondas (auto-oscilações) tornam-se atenuadas. Mas os decrementos logarítmicos da atenuação das ondas de Rossby (primeira solução) e as de Lamb (segunda e terceira soluções), como vemos, são diferentes. Usando as denotações (5), obtemos Imλ1 = 6 ρ2 2 ′ + c 2 ρ 2ν hor ), ( f ν vert 2 σ Imλ 2,3 = ρ2 σ2 c2 ρ 2 c2 ρ 2 + 2 f 2 ′ + ν vert ν hor . 2 2 (6) Condições do Ajustamento. Conclusões As condições do ajustamento exigem que o primeiro valor (6) seja menor do que o segundo. Daqui segue que ′ > ν hor . ν vert (7) Em modelagem numérica dos processos de escala grande, habitualmente usam-se os valores ν vert ≈ 4 m 2 s −1 , ν hor ≈ 5 ⋅ 10 5 m 2 s −1 . ′ ≈ 1,4 ⋅ 10 7 m 2 s −1 , isto é, a desigualdade (7) é obedecida Nesse caso, de acordo com (3), ν vert com grande certeza. O mecanismo do ajustamento é muito efetivo, isto é, a velocidade do estabelecimento do balanço, sob a influência da turbulência, é alta. Na realidade, para o tempo de vida das ondas longas de Lamb com comprimento, por exemplo, de 3.000 km, usando os valores mencionados dos coeficientes da mistura turbulenta, obtemos, de acordo com (6), somente 4 horas. Dentro deste período, a amplitude da onda de Rossby diminui apenas 2%. 7 Referências Bibliográficas Blumen, W., 1972: Geostrophic adjustament. Rev. Geophys. and Space Phys., 10, 485-528. Holton, J. R., 1992: An introduction to dynamic meteorology. Academic Press. New York. Kibel, I. A., 1955: On the adjustment of atmospheric motion to the geostrophic. Dokl. Akad. Nauk USSR, 104(1), 60-63. Kibel, I. A., 1957: Introduction to hydrodynamic methods of short-term weather prediction. Gostekhizdat, Moscou. Lorenz, E. N., 1986: On the existence of a slow manifold. J. of Atm. Scie., 43, No 15, 1547-1557. Obukhov, A. M., 1949: On the question of the geostrophic wind. Izv. Akad. Nauk USSR, Ser. Geogr. and Geophys., 4, 281-306. Rossby, C. G., 1937: On the mutual adjusment of pressure and velocity distributions in certain simple current systems. I. Maritime Res., 1, 15-28.