MÁRCIA APARECIDA CAMPOS FURTADO DERRISÃO NO GÊNERO ANEDOTÁRIO POLÍTICO MATO-GROSSENSE Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Estudos da Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagem. Área de concentração: Ensino Aprendizagem de Língua Orientador: Professor Doutor Roberto Leiser Baronas. Cuiabá – MT 2005 F992d Furtado, Márcia Aparecida Campos. Derrisão no gênero anedotário político mato-grossense./ Márcia Aparecida Campos Furtado. – Cuiabá: a autora, 2005. 110p. Orientador: Prof.Dr. Roberto Leiser Baronas. Dissertação. Universidade Federal de Mato Grosso. Instituto de Linguagem. Campus de Cuiabá. 1. Lingüística. 2. Análise do discurso. 3. Gênero 4. Derrisão. 5. Língua. 6. Linguagem. I. Título. CDU 81’42 2 3 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a minha família, particularmente a meu esposo e meus filhos que não raras vezes,resignada e pacientemente, suportaram minhas ausências. Também pelos gestos e palavras de apoio nos momentos de cansaço e desalento no decorrer deste estágio de crescimento intelectual. 4 AGRADECIMENTOS Agradeço... A Deus, pela vida, pela saúde, e pela concessão de mais essa realização. Aos meus pais, por terem me ensinado os princípios para uma vida digna. A minha sogra e meu sogro que, nas dificuldades dessa empreitada, confortaram-me com sábias palavras, sempre acompanhadas de orações pelo restabelecimento do meu ânimo. Ao meu orientador, Professor Dr. Roberto Leiser Baronas pela oportunidade, confiança, ensinamentos e, sobretudo, por acreditar nesse projeto. Às professoras Drª Maria Inês P. Cox e Drª Vanice Mª de O. Sargentini pelas valiosas sugestões e comentários dados quando da realização do meu exame de qualificação, contribuindo sobremaneira com referências e apontamentos preciosos e oportunos para complementação da nossa pesquisa. Ao professor Dr. Marcos Antonio M. Vieira pelas valiosas contribuições na realização dessa pesquisa, seja pelos ensinamentos da disciplina por ele ministrada, seja como integrante da banca examinadora, e principalmente pela atenção nos momentos de dificuldade. Ao professor Dr. Manoel Mourivaldo, que incentivou-me no início dessa jornada, que transformou-se num grande amigo, e ao partir, deixou muitas saudades. Aos funcionários do Instituto de Linguagem, especificamente à secretaria do MeEL pelo atendimento prestado, sempre com cordialidade. À minha querida amiga Mônica, pela agradável companhia, pelas grandiosas contribuições e por ouvir-me, incentivar e dar força nos momentos de fragilidade. A todos os colegas que, de alguma maneira contribuíram para a travessia de mais esta etapa, em especial a Joelma, Maria Domingas e Robson, pela amizade e contribuições, imprescindíveis ao desenvolvimento desse trabalho. À Secretaria de Estado de Educação, por licenciar-me das atividades docentes para que pudesse dedicar-me integralmente ao desenvolvimento final desse trabalho. À minha colega de trabalho Sônia Pozeti pela paciência, compreensão e apoio nos momentos de tensão. E finalmente, a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização dessa pesquisa. 5 RESUMO FURTADO, M.A.C. Derrisão no gênero anedotário político Mato-grossense. Esta dissertação se constitui numa análise do funcionamento discursivo da derrisão no gênero anedotário político mato-grossense. Nossa hipótese é que a derrisão, neste gênero, se apresenta como um contra-argumento construído discursivamente, uma vez que o enunciador apresenta uma avaliação a respeito da enunciação, evidenciando que a derrisão não pode ser explicada fora da relação interdiscursiva que possibilita todo o dizer. Com base no pressuposto de que a derrisão acontece sob a determinação de vários fatores, dentre eles a memória discursiva, o interdiscurso, o poder, o compartilhamento de conhecimento entre enunciador e receptor, este estudo da derrisão defende que esta forma de apresentação da linguagem não pode ser explicada sem que relacionemos a linguagem às condições (lugares institucionais) de seu uso e a produção de posições subjetivas em relação ao contingente social das formações discursivas (o que pode e deve ser dito numa conjuntura histórica), o que evidencia que o sentido não reside em lugares pré-determinados de propriedades da língua; além disso, a derrisão não pode ser teorizada de fora da história e de sua determinação social, porque os elementos lingüísticos e históricos estão em constante relação de interação e conflito. Nessa perspectiva, este trabalho elegeu o anedotário político como corpus de investigação da derrisão e, para explicar seu funcionamento discursivo nos textos selecionados, lança mão dos conceitos desenvolvidos no interior da análise do discurso de origem francesa derivada de Michel Pêcheux, os conceitos de cena enunciativa de Dominique Maingueneau, o conceito de memória discursiva de Jean-Jacques Courtine, de derrisão de Simone Bonnafous, e de poder de Michel Foucault, vistos como elementos de constituição do sentido na instauração da derrisão nos textos. Palavras-chave: Análise do discurso, anedotário político e derrisão. 6 RESUMÉ FURTADO,M.A.C. Dérision dans le genre anecdotique politique Mato-grossense Cette dissertation si constitue dans une analyse du fonctionnement discursif de dérision dans les genre anecdotique politique mato-grossense. Notre hypothèse est que la dérision, dans cette genre, si présente comme un contre-argument discursivement construit, une fois que l'enunciador présente une évaluation concernant l'articulation, démontrant que la dérision ne peut pas être expliquée en dehors de la relation interdiscursif qui fait l'énonciation toute possible. Sur la base dans le presupposé de que la dérision se produit sous la détermination de plusieurs facteurs, parmi eux la mémoire discursif, l’interdiscours, la puissance, le partage de la connaissance entre l'enunciador et récepteur, cette étude de la dérision défend que cette forme de présentation de la langage ne peut pas être expliquée sans se lier la langue aux conditions (endroits institutionnelles) de son utilisation et de la production des positions subjectives par rapport au contingent social des formations discursifs (ce que peut et doit être dit dans une conjoncture historique), le quel mettre en évidence que le sens n'habite pas dans les endroits avant-déterminés des propriétés de la langue; de plus, la dérision ne peut pas être théorizée hors de l'histoire et de sa détermination sociale, parce que les éléments linguistiques et historiques sont dans la relation constante d'interaction et conflit. Dans cette perspective, ce travail a élu l’anecdotique politique comme corpus d’investigation de la dérision et, pour expliquer son fonctionnement discursif dans les textes choisis, il jette main des concepts développés à l'intérieur de l'analyse du discours d'origine française dérivée de Michel Pêcheux, comme les concepts de scène énunciative de Dominique Maingueneau, dans le concept de la mémoire discursif de Jean-Jacques Courtine, de dérision de Simone Bonnafous, et du pouvoir de Michel Foucault, vu comme éléments de constitution dans l'instauration de la dérision dans les textes. Mots-clè: analyse du discours, anecdotique politique et dérision 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 Poderes da derrisão, criatividade e agressividade: primeiras impressões 18 1.1 Derrisão: uma violência politicamente correta?............................................. 18 1.2 Breve passagem na retórica e na lingüística................................................. 23 1.3 Derrisão: tensão entre o literal e o figurado.................................................... 29 1.4 Língua falada x escrita, poder e derrisão...................................................... 35 CAPÍTULO 2 O acontecimento discursivo na mídia.............................................................. 44 2.1 Informando e formatando opinião................................................................... 44 2.2 Os Gêneros do discurso e o sentido.............................................................. 47 2.3 Os gêneros presentes no suporte jornalístico................................................ 56 2.4 O gênero anedotário político mato-grossense ............................................... 57 CAPÍTULO 3 O espetáculo político na mídia........................................................................ 65 3.1 Dramatização e violência simbólica................................................................ 65 3.2 O acontecimento político como palco para manifestação da derrisão........... 68 3.3 Derrisão no anedotário político mato-grossense........................................... 72 Considerações finais ........................................................................................ 90 Referências Bibliográficas............................................................................... 96 Anexos .............................................................................................................. 100 8 INTRODUÇÃO Frente aos deslizamentos ocorridos na política contemporânea, e apresentados ao público pela mídia como uma espécie de espetáculo, faz-se necessário considerar sua dimensão sócio-histórica, bem como as irrupções singulares no cenário político nacional, mais especificamente no mato-grossense. Contemplando o relacionamento da política com a mídia, propomo-nos investigar o seu papel na disseminação de efeitos de sentido negativos a respeito do uso do português brasileiro por alguns políticos do estado de Mato Grosso. Ancorada na pretensa existência de um paradoxo que instala uma distância próxima e uma proximidade longínqua, a mídia se atribui a função de “descobrir a verdade por trás dos véus” e de revelá-la aos expectadores. Entre as verdades desveladas está o modo como o político faz uso da língua que é veiculado pela mídia como alvo de zombaria, de derrisão. Embora não seja sistematicamente estudada aqui no Brasil, a derrisão tem sido usada com freqüência na conversação cotidiana e/ou nos discursos institucionalizados, como o discurso da mídia e o discurso político, para citar apenas alguns exemplos. Mas como se organiza esse efeito particular de discurso que atesta o fato de que o sentido pode ser sempre agressivo ao(s) outro(s)? Para a análise da derrisão como um recurso discursivo de descaracterização do outro, buscamos sustentação nos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso de orientação francesa com o objetivo de descrever o processo de produção e circulação da derrisão numa perspectiva outra que não a da retórica. De posse desse objetivo e dos recursos metodológicos adotados, pretendemos mostrar a sua “acontecência” na determinação de elementos envolvidos na interpretação, como aqueles pertencentes à esfera das relações históricas que constituem os 9 sujeitos participantes do processo de produção e circulação dos sentidos na linguagem: compartilhamento de valores sociais e culturais que delineiam o imaginário das comunidades discursivas, fundamentais para explicar a constituição dos sentidos. Enquanto parte de um projeto de pesquisa maior, em andamento, intitulado “Derrisão em Textos Imagéticos e Verbais: uma leitura discursiva da mídia impressa brasileira”1, o trabalho em questão toma como base teórica os pressupostos da Análise do Discurso derivada de Michel Pêcheux e os conceitos de memória discursiva (de Jean-Jacques Courtine), de derrisão (de Simone Bonnafous) e de poder (de Michel Focault) para analisar como o discurso midiático impresso matogrossense, sob a ideologia da neutralidade, da imparcialidade e da objetividade, ao tornar público determinados acontecimentos políticos, configurando-os como fatos verídicos por intermédio do uso do gênero anedótico, contribui para a sedimentação e cristalização do preconceito lingüístico existente em nossa sociedade, assim como de forma derrisória, fornece condições de enunciabilidade para a descaracterização do discurso político produzido atualmente em nossa sociedade. Buscaremos contribuições também nas reflexões de Bakhtin sobre o estatuto dialógico da linguagem e nos elementos para caracterização do gênero discursivo, fundamental na análise de nosso objeto, além de outras correntes teóricas, como a lingüística textual, a sociolingüística, a lingüística histórica, que serão necessárias para o desenvolvimento de nosso trabalho. Como corpus de análise, elegemos textos do caderno Opinião, da coluna Em Tempo, do Jornal A Gazeta, periódico de grande circulação no Estado de Mato Grosso, veiculados no primeiro semestre do ano de 2004. Os gêneros discursivos 1 O projeto de pesquisa é coordenado pelo Prof. Dr. Roberto Leiser Baronas e desenvolvido paralelamente na Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT e na Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT. 10 em questão trazem aspectos do uso da linguagem que fogem à norma canônica do português. Para análise da derrisão no gênero anedotário político mato-grossense, nossa hipótese é a de que ela se instaura no jogo discursivo que cria uma cena enunciativa2, oportuna para a proliferação do sentido derrisório. Assumir uma análise da linguagem em seu funcionamento discursivo exige que se tome a língua na sua relação com o histórico, como parte do trabalho simbólico. Isso implica introduzir na análise da constituição do sentido a relação dos sujeitos com a língua na determinação das práticas sociais em cuja configuração os sentidos são constituídos pelo imaginário coletivo e pelas representações culturais que cercam essa relação, o que exige um deslocamento no escopo da investigação da análise dos fenômenos da língua para a análise das discursividades. Adotando o ponto de vista de que o discurso político mato-grossense veiculado pelo jornal A Gazeta, no caderno Opinião, mais especificamente na coluna Em Tempo, configura-se como um gênero discursivo, nossa pesquisa pressupõe a necessidade do reconhecimento e da descrição do gênero anedotário político matogrossense. É o que tentaremos fazer entre outras questões no desenvolvimento deste trabalho. Acreditamos que esse gênero constitui um espaço discursivo propício à instauração da derrisão, que é sinalizada na arquitetura textual, deixando entrever, de forma sempre sutil, a opinião construída derrisoriamente sobre um tema relativo à cena política e/ou social do Estado, ou sobre uma figura do cenário político. Tais 2 No entendimento de Maingueneau (2005, p. 75) a cena enunciativa integra de fato três cenas, as quais denomina de “cena englobante, cena genérica e cenografia. A cena englobante corresponde ao tipo de discurso; ela confere ao discurso seu estatuto pragmático: literário, religioso, filosófico... A cena genérica é a do contrato associado a um gênero, a uma instituição discursiva: o editorial, o sermão, o guia turístico, a visita médica... Quanto à cenografia, ela não é imposta pelo gênero, ela é construída pelo próprio texto: um sermão pode ser enunciado por meio de uma cenografia professoral, profética, etc”. 11 sinalizações ou são registradas na superfície textual ou são negociadas no processo de interação entre os atores do evento sócio-histórico chamado discurso. Um estudo sobre a derrisão que adote o discurso como escopo, nos parece relevante pelos seguintes aspectos. Primeiramente, pode nos fornecer um conhecimento do funcionamento da linguagem e da construção dos sentidos em texto e, assim, pode demarcar os processos semânticos dos diferentes usos da linguagem. Oferecer contribuições para entendermos a relação entre gênero do discurso e sentido, desde que tomemos como pressuposto teórico que cada gênero institui um quadro enunciativo de referência que associa configurações formais e elementos enunciativos constitutivos do sentido como, por exemplo, a relação enunciador/enunciatário e a interdiscursividade. Permite explicar a materialização dos processos discursivos envolvidos na derrisão. Por último, uma abordagem discursiva da derrisão pode nos oferecer contribuições para explicar o efeito de sentido derrisório que pode ser apreendido pelo leitor/interlocutor. Descrever o processo de produção e circulação da derrisão em uma perspectiva discursiva, a partir da análise de sua manifestação no anedotário político mato-grossense, a fim de explicar o trabalho discursivo responsável pela produção/circulação do sentido derrisório, procurando mostrar que o recurso desse gênero manipula os efeitos da interpretação, e de certa forma resguarda a mídia do questionamento e da desaprovação da opinião pública, se constitui no objetivo geral de nossa pesquisa. Dentre os objetivos específicos, propusemo-nos a fazer inicialmente a descrição do gênero anedotário político mato-grossense. Analisar os indícios do ritual enunciativo (cena enunciativa, relação enunciador/enunciatário) na constituição da derrisão nos textos que compõem o corpus. Explicar a participação da memória e 12 do interdiscurso na produção/circulação da derrisão. Explicar a derrisão, observando a relação entre os elementos de constituição do gênero discursivo. Verificar em que medida o uso da derrisão contribui para a ridicularização do discurso político. Observar de que modo a variedade não-padrão da língua pode ser objeto da derrisão. E, por último, contribuir para a discussão sobre o ensino da leitura e da interpretação crítica nos Ensinos Fundamental e Médio na escola brasileira. Na tentativa de que nossa pesquisa possa oferecer respostas aos objetivos acima, haveremos de focalizar a derrisão enquanto processo de interpretação, no jogo discursivo que se instaura entre os participantes do evento discursivo. Assim, nossa pesquisa enfatiza as seguintes hipóteses: Primeiramente, os elementos que funcionam como indícios de interpretação da derrisão são da ordem da materialidade discursiva, por isso a derrisão deve ser investigada na consideração da relação da linguagem com a história, o que justifica uma abordagem discursiva para explicar seu funcionamento. Depois, a análise da derrisão exige que se observem as relações que se estabelecem entre o enunciador e os destinatários, daí que os elementos pragmáticos que cercam a interlocução derrisória não podem ser desprezados. Por último, cremos que o gênero anedótico cria uma cena enunciativa particular, que se constitui num dos índices “da condição do legível em relação ao próprio legível” (PÊCHEUX, 1999). Confiantes de que a derrisão pode funcionar como um elemento significativo para a compreensão do funcionamento da linguagem, procuraremos observar esse fenômeno na esteira das relações intersubjetivas e históricas que garantem a irrupção do sentido como mecanismo de estruturação da linguagem, sustentando que um estudo da derrisão contribui para o entendimento das inter-relações sociais, 13 uma vez que, considerada na perspectiva do discurso, ela oferece elementos que explicam a dimensão social, interativa e polêmica da linguagem. Quando adotamos o discurso como escopo de investigação da derrisão, estamos concebendo que ela ocorre no espaço da interpretação e, para isso mobiliza elementos que se manifestam na materialidade discursiva, fornecendo índices para a sua interpretação, mas que, às vezes, não são tão evidentes, ocorrendo como manifestação da memória discursiva3, que se apresenta de modo bastante sutil, materializada no nível do interdiscurso4. É por essa complexidade na sua constituição que, muitas vezes, não é fácil identificar a derrisão. Devemos considerar, ainda, que o sentido derrisório atribuído a um discurso, envolve o reconhecimento da atitude avaliadora do enunciador pelos destinatários, relacionada às determinações das comunidades discursivas, nas quais enunciador e destinatário se inscrevem. Assim, os sentidos são produzidos no interior de cada comunidade, considerando seus valores, o imaginário coletivo que configura o saber das diferentes comunidades discursivas existentes na sociedade, e que nos possibilita dizer que o que é tomado como derrisório por um grupo de destinatários, pode não ser para outro grupo, o que sustenta a asserção de historicidade de sentido. Um estudo da derrisão como algo produzido no/pelo discurso, insere-se num campo de investigação cuja metodologia de análise deve primar pela abordagem qualitativo-interpretativa. Em se tratando do discurso, tal como o concebemos neste trabalho, tal abordagem não pode deixar de considerar que os sentidos não são literais e que um trabalho de interpretação de um fenômeno da linguagem necessita explicar os sentidos, atentando para a opacidade da linguagem. Se a derrisão 3 4 Saberes compartilhados pelos interlocutores. Relação multiforme com outros discursos que circulam na sociedade. 14 significa na relação entre ditos e não-ditos, a análise que empreenderemos tomará essa relação, que para nós é inclusiva e diferencial. Nossa perspectiva é de que o dito mantém com o não-dito uma relação polêmica imprescindível para a construção do sentido, e não uma relação secundária, como postulam algumas correntes dos estudos da linguagem. Se, como afirma Orlandi (1999), na Análise do Discurso há rudimentos que não escapam ao não-dizer, como a noção de interdiscurso, a de ideologia, a de formação discursiva, usaremos delas para explanar o funcionamento discursivo da derrisão, dentre outras formuladas pela Análise do Discurso para explicar o sentido. Assim, delineado nosso campo teórico-metodológico, especificamos os procedimentos de abordagem do nosso objeto de estudo. Pretendemos primeiramente, observar nos textos selecionados para o corpus, que foram veiculados na mídia impressa matogrossense – jornal A Gazeta de Cuiabá, coluna Em Tempo - durante o ano de 2004, envolvendo o período da campanha municipal, procurando evidenciar que o recurso do gênero anedótico embalsama a interpretação e de certa forma protege a mídia do questionamento, das sanções negativas, por intermédio da derrisão. Depois, diagnosticar a derrisão numa perspectiva que a considera um efeito particular de discurso capaz de permitir interpretações múltiplas, contudo não todas, pois elas são afetadas por fatores discursivos como a memória, o interdiscurso, as formações discursivas, as comunidades discursivas, o caráter dialógico da linguagem, a cena enunciativa. E também, observar a relação entre os elementos de composição do gênero e do sentido. Os procedimentos acima nos levam a avaliar a derrisão como um procedimento discursivo, pois possibilitam enxergar a convergência da linguagem 15 com as condições de produção, bem como com as posições subjetivas em relação ao contingente social da conjuntura histórica, que propiciam o sentido derrisório. Quanto a sua disposição, a presente pesquisa é constituída de três capítulos e algumas considerações finais, que estão dispostos da seguinte maneira: No capítulo 1, partimos da concepção da derrisão, construindo uma espécie de panorama histórico, com passagem pela retórica e pela lingüística, objetivando capturar elementos que possam nos auxiliar na explicação da derrisão numa perspectiva discursiva. Fizemos também uma retrospectiva histórica e social dos estudos lingüísticos, a fim de utilizá-la na análise da derrisão, haja vista ser determinados usos da linguagem o principal instrumento tomado como elemento derrisório nos textos selecionados. No capítulo 2, acionamos conceitos desenvolvidos na Análise do Discurso de orientação francesa, com foco nos elementos do ritual enunciativo, no trabalho discursivo do sujeito e da memória discursiva, e na concepção do estatuto dialógico da linguagem e de gênero discursivo propostos por Bakhtin, a fim de vinculá-los à explicação da derrisão no corpus. No capítulo 3, sistematizamos as análises dos elementos constitutivos dos deslizamentos sofridos pelo discurso político nas últimas décadas. Tratamos o discurso político pelo seu caráter eminentemente polêmico como um espaço propício à manifestação da derrisão, observando-se a participação da memória e da cena enunciativa, bem como do enunciador e do interlocutor no processo de negociação do sentido derrisório. Nas considerações finais, retomamos elementos que definem a derrisão na perspectiva do discurso, enfatizando o papel da memória, da cena enunciativa, do trabalho discursivo do sujeito e do gênero na constituição do sentido derrisório, e, 16 produzindo um efeito de fim, fizemos indicações das possíveis contribuições que um trabalho efetivo com os textos selecionados para análise, possam viabilizar práticas inovadoras de leitura, que não somente aquelas em que ler se constitui numa viagem a bordo do sentido único do texto. 17 CAPÍTULO 1 Poderes da derrisão, criatividade e agressividade: primeiras impressões "Uma palavra que vem ‘bem’ que pode matar ou humilhar, sem que se suje as mãos”. (P. Desproges)5 1.1 Derrisão: uma violência politicamente correta? Segundo Baronas (2004, p. 156) a derrisão pode ser considerada um dos recursos enunciativos mais antigos advinda da época clássica, batizada pelos retóricos clássicos como “tropos zombeteiro”, estratégia retórica utilizada para desqualificar o opositor, por meio da zombaria. Atualmente, ”o tropos zombeteiro”, despido de seu caráter psicologizante, foi reelaborado, passando a ser concebido pelos teóricos do discurso como derrisão. Embora não seja uma estratégia lingüística nova, enquanto termo técnico ainda é pouco conhecido no Brasil. Na França, em (1947), Marcel Pagnol já desenvolvia estudos sobre o riso derrisório: “Diga-me de que tu ris que te direi o que tu és”6, na tentativa de entender os sentidos do riso e os efeitos sociais que ele pode estabelecer na sociedade. Os estudos desenvolvidos por Simone Bonnafous (2003) sobre a derrisão definem-na como uma linha tênue entre o humor e a ironia, ou a associação do cômico e da agressividade, que a caracteriza e a diferencia da pura injúria. Segundo a autora, o uso do recurso derrisório foi muito expressivo no discurso político e na imprensa política francesa do entre-guerras, especialmente na imprensa fascista e 5 6 Apud Nelly Feurehahn.In Revue. Dèrision – contestacion, 2001. No original, Dis-moi de quoi tu ris, et je te dirai qui t’es. 18 no discurso francês, que se alimentaram de zombarias, gracejos, trocadilhos e jogos de palavras irônicas. Nesse contexto, houve jogos discursivos que envolveram a invenção verbal e a composição, feitos por meio de sufixações pejorativas, terminações eruditas e paródicas, truncamentos e deformações. Diferentemente da ironia que se apresenta “subvertendo a fronteira entre o que é assumido e o que não é pelo leitor” (Maingueneau, 1997, p.98), uma vez que o significado irônico acontece pela mobilização de uma complexidade de fatores discursivos responsáveis pela produção e recepção de sentidos, a derrisão se inscreve na materialidade lingüística do que se diz, com o desígnio de desqualificar o destinatário. No entendimento de Baronas (2005, p.108), não obstante, os efeitos do seu dizer são abrandados ora pelo efeito humorístico que provoca, ora pela mobilização de discursos já regularizados na sociedade. No caso da ironia, o locutor não assume explicitamente sua alocução, deixando para o destinatário esta responsabilidade. Convém especificar que a derrisão presente nos textos que compõem o corpus, terá sempre implícita ou explicitamente um valor metadiscursivo, isto é, um uso e um comentário sutil para justificar esse uso”. A derrisão também não se reduz ao riso, como se faz parecer. O termo derrisão significa nos dicionários: riso desprezante e desdenhoso. O termo derrisório significa algo que é dito por derrisão, e, por conseguinte, por analogia, algo que é insignificante, negligenciável, ridículo, vão. Tornar ridículo, desprezar, sublinhar a insignificância, são os traços associados à derrisão que permitem distingui-la das noções de riso cômico ou de humor. A derrisão carrega uma dimensão de contestação, de crítica à ordem estabelecida ou aos princípios largamente aceitos numa sociedade ou num grupo. É este elemento de contestação dos valores sociais que nos interessa aqui e que servirá de fio condutor deste trabalho. Propomo-nos a 19 conduzir uma análise discursiva da derrisão. O objetivo é estudar como o discurso político ou autoridades políticas são alvos da derrisão, e também usuários desse efeito particular de discurso, por meio dos diversos códigos ou convenções que são postos em evidência. Pretende-se desvendar os modos como a derrisão é posta como uma prática discursiva, a sua modalidade, a sua motivação, o seu impacto social, político e cultural. A derrisão é um dos exemplos de manifestação da linguagem pelo qual podemos observar a fluidez do sentido, seu deslizamento. Assumir que, na língua, os sentidos não são transparentes, significa assumir que eles surgem na relação da língua com a história, que há condições sócio-históricas para a sua enunciabilidade. As relações entre derrisão e poderes sociais ou políticos transitam, assim, de uma dialética entre contestação e regulação. A derrisão sócio-política segue as mesmas lógicas que o carnaval do seu tempo, assegura uma inversão simbólica e temporária da ordem política, possuindo virtudes revolucionárias inegáveis. A esse respeito, convém não subestimar a capacidade destrutiva da derrisão sócio-política, associando-a a perspectivas de resistência sociais e individuais. A derrisão ritualiza também a contestação, usando de uma violência simbólica que reprime, por conseguinte, em parte, os riscos de violência nos poderes. A derrisão pode, por um lado, servir de recurso criativo para confrontar convenções julgadas demasiadamente rígidas e, por outro, pode contribuir para a continuidade dos sistemas de dominação, valores ou códigos culturais dominantes. No processo de civilização dos costumes, conforme por Norbert Elias (1939), (apud. Arnaud Mercier, 2001), o indivíduo entrou numa situação de impotência, pois se tornou escravo dos numerosos códigos da vida em sociedade, aos quais deve respeitar. Além disso, o poder e as suas instituições monopolizam a violência, 20 legitimando os seus atos pela idéia do consentimento geral e individual. Estas instituições têm por objeto captar e dirigir as agressões naturais, que se encontram assim conectadas, desarmadas e estruturadas. A vida em sociedade impõe um recuo da violência sobre a base de uma troca contratual: o abandono da agressividade individual contra a proteção assegurada coletivamente pelo poder. O recurso da derrisão também permite exceder, ou para melhor dizer, contornar a censura, fazer triunfar o “eu” e o princípio de diversão, apelando para um prazer de transgressão tolerável. Transformar algo em derrisão e em riso é um meio para liberar a agressividade contida, reprimida, inexprimível por outro modo. O riso é então, uma válvula de escape da agressividade, por meio do qual o indivíduo pode descarregar-se sem risco das próprias tensões agressivas. Não é por acaso que os poderosos tornam-se alvo preferido da derrisão. E a força de tal liberação da agressividade acontece de forma sutil, sem prejuízos imediatos. A derrisão revela-se de grande interesse porque se apresenta como um recurso de produção de sentido muito recorrente no cotidiano das pessoas, podendo ser encontrada na conversação cotidiana informal e nos textos escritos que circulam na sociedade. Por traduzir sentimentos ligados ao riso, está quase sempre associada ao humor. A derrisão pode se associar ao humor, mas com ele não se confunde, devido, sobretudo, ao seu caráter desestabilizador. Todas as produções são ancoradas sobre uma mistificação, um jogo com as nossas crenças que constituem, assim, um saltar crítico essencial à sociabilidade cômica. Com efeito, se as manifestações são múltiplas, referem-se sempre aos costumes. A sociabilidade cômica trata das práticas sociais e - embora mais confusamente - das normas que as justificam. Os valores implícitos que estruturam o funcionamento de um grupo humano, admitidos ou contestados, são o verdadeiro 21 desafio derrisório, e neste ponto a derrisão participa de uma dinâmica sócioemocional, pois exerce efeitos variáveis sobre as trocas. Implicação, sedução, zombaria do desvio à norma estabelecida ou subversão desta mesma norma, um vasto campo oferece-se à análise. Pretende-se aqui investigar a ordem derrisória nas suas diversas manifestações de violência cômica e lançar uma suspeita sobre o "politicamente correto" destes prazeres ambíguos. No folclore há muitas estratégias de uso da derrisão. Parece que a diversão é o único objetivo. Mas, sob o talhe de uma sabedoria óbvia, todo o talento cômico de Molière exprime esta verdade aparentemente universal: "Nada é mais agradável do que rir Quando se ri às custas do outro“.7 A cultura cômica tradicional apresenta-se geralmente como um jogo inocente, e a derrisão uma expressão natural. Todavia, a legitimidade desta desordem falaciosamente trazida a certos objetos convencionais nunca é posta em causa. Ela aparentemente apresenta mais cumplicidade com as histórias engraçadas ou os desenhos humorísticos. Contudo, à sua maneira, a faceta da derrisão ilumina os relatórios reais, os estatutos e os papéis das pessoas na sociedade. Do ponto de vista do sentido derrisório em relação às formações discursivas, há suspeita de que a derrisão pode reforçar posições ideológicas conservadoras ou funcionar como recurso de desmantelamento, dessacralizando discursos cristalizados e enrijecidos sob a égide do poder, do autoritarismo e da opressão, desestabilizando posturas, desafiando preconceitos, atacando opiniões e ridicularizando comportamentos: A derrisão pode igualmente servir de recurso criativo contra as convenções julgadas demasiadamente rígidas, antes por sua vez se 7 Apud Arnaud Mercier, 2001. 22 destruir na autoderrisão em numa nova contestação. Tolerada e/ ou dominada pelos poderes, a derrisão pode, por conseguinte, também contribuir para a continuidade dos sistemas de dominação, valores ou códigos culturais dominantes. (MERCIER, 2001, p. 10)8 É por esse funcionamento político da derrisão que não se pode deixar de fora os participantes desse ato: o enunciador, a vítima, os interpretadores, o objeto da derrisão, o ritual pragmático e enunciativo que cerca esse funcionamento, as formações discursivas de onde os sentidos provêm, questões que ainda serão discutidas nesse estudo. Graças às mudanças ocorridas no campo das teorias sobre a linguagem, que trouxeram para reflexão tanto a relação da linguagem com sua exterioridade, quanto sobre os papéis dos participantes na teorização do sentido, hoje é possível introduzir no estudo da derrisão elementos como “poder” e “subjetividade”. Esses deslocamentos vão marcar o surgimento de uma investigação sobre a linguagem, que não mais a considera capaz de ser descrita na sua imanência, mas no jogo de funcionamento, no qual se consegue trazer para a reflexão a relação da língua com a história. 1.2 Breve passagem pela retórica e pela lingüística A concepção de que a linguagem comporta uma norma e um desvio em relação a ela, desvio que pode ser classificado como subordinado, acessório, excedente, exterior, ornamental e supérfluo, origina-se do interior da retórica No original: La dérision peut également servir de ressource créatrice pour l’art contre des conventions jugées trop rigides, avant que de se rigidifier à son tour et s`anéantir dans l’autodérision soit dans une nouvelle contestation. Tolérée et maîtrisée par les pouvoirs, la dérision peut donc aussi contribuer à la pérennisation des systèmes de domination, des valeurs ou des codes culturels dominants. Arnaud Mercier - Laboratoire Communication et Politique, CNRS, Paris/Université de Nice. Revista HERMES 29.2001, p.10. 8 23 clássica e contribui para a instalação do conceito de figura nos estudos da linguagem. A noção de figura utilizada para explicar o uso da linguagem, que se distanciava das formas normatizadas da língua, tem grande aceitação por diferentes áreas de investigação da linguagem. Mesmo naquelas leituras que argumentam estar fundamentadas na ótica saussureana dos estudos lingüísticos, a noção de figura como desvio condiciona a leitura das idéias lingüísticas de Saussure, configurando uma interpretação que coloca a figura como desvio em relação ao que é sistemático – la langue – e, portanto, pertencente a parole. Nesse rumo de interpretação, não haveria espaço para explicar, por exemplo, a ambigüidade da linguagem com base na teoria de Saussure, que toma a língua como sistema. Uma leitura desse tipo encontra-se em Orlandi, quando esta discute a literalidade da linguagem, ao afirmar que “a noção de literalidade não é questionada de forma explícita na lingüística clássica: ou já está suposta, ou é apenas mencionada nas várias teorias da linguagem”.(ORLANDI, 1986, p. 68). A teoria lingüística que ficou conhecida como imanente deu primazia à descrição das relações internas ao sistema, destacando-se nos estudos da forma lingüística. Isso afasta do interesse de investigação o sentido, dado seu caráter fluido, metamórfico, impossível de ser sistematizado, considerando os princípios de uma ciência que se constituía nos marcos do positivismo, no qual Saussure ancorou a teoria lingüística e no qual ele precisava se apoiar para alcançar o estatuto cientifico requerido na época. Essa leitura do pensamento de Saussure costuma delinear epistemologicamente as bases do estruturalismo, que, por sua vez, encaixa no perfil de uma corrente filosófico-lingüística compreendida nos estudos do Circulo Bakhtiniano como “Objetivismo Abstrato”. Enquanto o objetivismo abstrato se 24 fecharia nas formas da língua a outra corrente, o subjetivismo idealista9 se deteria no pensamento e no psiquismo individual. Para Bakhtin-Voloschinov a lingüística de Saussure comporta no seu quadro epistemológico e metodológico as seguintes características: A língua é um sistema imutável de formas lingüísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual a consciência individual e peremptória para esta. As leis da língua são essencialmente leis lingüísticas específicas que estabelecem relações entre os signos lingüísticos no interior de um sistema fechado. Essas leis são objetivas e relativas a toda consciência subjetiva. A ligação lingüística específica nada tem a ver com os valores ideológicos (artísticos, cognitivos ou outros). Não se encontra, na base dos fatos lingüísticos, nenhum motor ideológico. Entre a palavra e seu sentido não existe nenhum vínculo natural e compreensível para a consciência, nem vínculo artístico. Os atos individuais de fala constituem, do ponto de vista da língua, simples refrações ou variações fortuitas, ou mesmo deformações das formas normativas. Mas são justamente esses atos individuais de fala que explicam a mudança histórica das formas da língua; enquanto tal, a mudança é, do ponto de vista do sistema, irracional e mesmo desprovida de sentido. Entre o sistema da língua e sua história não existe nem vínculo, nem afinidade de motivos. Eles são estranhos entre si.(BAKHTIN,1995, p. 82-3).10 10 Síntese nossa. 25 Essa leitura bakhtiniana das idéias de Saussure, que tem base nos apontamentos do Curso de Lingüística Geral, dá margem a se asseverar que dentro dessa lingüística não haveria espaço para as questões ligadas ao sentido, uma vez que o autor não incorporou à descrição das formas elementos exteriores ao sistema. Entretanto, mesmo fazendo uma dura crítica ao que chama de objetivismo abstrato, o círculo bakhtiniano vai reconhecer e reformular a idéia de língua como sistema, deixando claro que este sistema se desenvolve a partir das formas que Saussure consideraria exteriores a ele. As postulações de Bakhtin (Volochinov) nascem nesse novo quadro, antecipando as orientações da lingüística moderna. Questionando Saussure, o teórico russo parte do princípio de que a língua é um fato social que se funda nas necessidades de comunicação. A linguagem passa a ser vista como um fator preponderante da interação social em que o outro tem parte na constituição do sentido. Essa articulação entre o lingüístico e o social vincula a linguagem à ideologia. Para Bakhtin (2004, p. 36), sendo a palavra o fenômeno ideológico por excelência, representa o modo mais puro e sensível de relação social. Sob essa ótica, a palavra não deve ser tomada como abstração, mas como a materialização do signo ideológico. Martins (2002, p. 126), em relação à dialética saussureana, observa que ela é histórica, e nela o indivíduo é produto-produtor, ativo-passivo, mesmo que a sua participação não se dê de forma consciente e voluntária. É como se houvesse na natureza, inerente ao ser humano, uma busca de harmonia, de simetria, de regularidade, apenas. Essa dialética é também dinâmica e seu dinamismo provém tanto de seu caráter temporal e sócio-histórico, quanto de seu caráter mais puramente semiológico, de constituição de forma lingüística. Para Martins (2002, p. 26 127) “a dialética de Saussure envolve não só elementos negativos e diferenciais, mas também positivos e distintivos”. Nesse sentido, fora de qualquer consideração de uma dialética, a lingüística saussureana não apresenta espaço para a língua mostrar algum tipo de relação com o simbólico. Isso estaria filiando a lingüística àquelas ciências que trabalham com espaços discursivos logicamente estabilizados, espaços que tentam unificar a multiplicidade heteroclítica dos fenômenos de “uma estrutura representável e homogênea” (Pêcheux, 1990, p. 35). Tais espaços correspondem ao que Pêcheux chama de ciências régias. Elas trabalham no sentido de homogeneizar o real, fazer “uma cobertura lógica de regiões heterogêneas do real” (Pêcheux, 1990, p. 38). O enquadramento da lingüística num núcleo duro da ciência, como se seu objeto fosse como os objetos das ciências naturais e matemáticas, impede qualquer visão de sua dinâmica e de sua mobilidade histórica. Pêcheux encontra no conceito de valor estabelecido por Saussure, e no qual se presentifica, a contradição operada pelo corte saussureano, o nó necessário para propor o conceito de discurso. Sobre “o nodal da ruptura saussureana”, Pêcheux considera o valor como princípio da subordinação da significação, uma vez que a história da lingüística esteve “exposta do seu próprio interior aos efeitos complexos do processo histórico e político do conjunto no qual a sua história se produz” (Pêcheux, 1998, p. 41), pois, ao longo de seu desenvolvimento, a lingüística e seu objeto foram recebendo diferentes interpretações: sociológicas, psicológicas, lógicas, bio-psico-funcionais, pragmáticas e históricas. A tendência de enquadramento da lingüística a um núcleo duro lógico – das ciências régias – e que sustenta as leituras que vêem uma imanência na língua que não se abre aos espaços heterogêneos do real, fecha a lingüística para o estudo de 27 enunciados que não se enquadrem nos universos discursivos logicamente estabilizados. Pêcheux, no entanto, postula: É imperioso reconhecer que toda língua natural é, também, e antes de tudo, a condição de existência de universos discursivos não estabilizados logicamente, próprios ao espaço sócio-histórico dos rituais ideológicos, discursivos, filosóficos, enunciados políticos, expressão cultural e estética. (PÊCHEUX, 1998, p. 50). Reconhecida à existência de tais universos de discurso, Pêcheux afirma que, nessa categoria de universos discursivos, a ambigüidade e o equívoco constituem um fato estrutural incontornável e não podem ser concebidos como amolecimento de um núcleo duro lógico. No bojo dessa reflexão, o objeto da lingüística aparece atravessado por uma divisão entre esses dois universos discursivos, cuja fronteira é difícil de determinar, mas sua eficácia é a possibilidade que tais universos oferecem de especular com as aparências lógicas, para fazer pensar melhor o deslizamento do sentido. Na verdade, o que Pêcheux propõe é que se pense a língua como um corpo atravessado por falhas, ou seja, submetido à irrupção interna da falta. Se dessa maneira ela for tomada, haverá espaços para pensarmos os jogos de duplicidade, os sentidos múltiplos que uma construção pode assumir, não como um desvio, mas como algo que se legitima no próprio da língua. Há muitas formas de significar, pois a matéria significante tem plasticidade, é plural. A linguagem é um sistema de relações de sentidos, onde, a princípio, todos os sentidos são possíveis. Entretanto, uma palavra, uma proposição não tem sentido próprio, literal, nem tampouco sentidos derivados a partir dessa literalidade. Mas, afinal, o que é então dar sentido? E, principalmente, o que é dar um sentido derrisório? 28 1.3 Derrisão: tensão entre o literal e o figurado A definição mais corrente e talvez mais tradicional toma o sentido literal como o sentido exato, denotativo de uma palavra. Por essa concepção, o sentido literal é aquele que a palavra tem independentemente de qualquer contexto. Se considerado o contexto, o sentido seria derivado. Orlandi (1986, p. 69) questiona a natureza do sentido literal assim definido e afirma que ele varia em diferentes autores. Uns enfatizam o fato de que é a unidade, o abstrato, o virtual, o sistemático, o discreto. Outros destacam mais seu caráter básico e inerente e acrescentam que ele é fluido e só se precisa no contexto. Assim, a derivação produz a precisão, uma vez que os sentidos é que são determinados. Desse modo, segundo Orlandi, paradoxalmente, o sentido literal é um e está em todos os casos possíveis, também paradoxalmente, o contexto é o que delimita e o que, no plural, é que multiplica, subtrai os limites do sentido. Depois de tecer considerações sobre a posição de alguns lingüistas a respeito do sentido literal, que não só relativiza, mas coloca o sentido primitivo já como uma construção do analista, a pesquisadora propõe que: “a variação é inerente aos sentidos e não há, de antemão, um sentido do qual derivam outros; há tantos sentidos quantos forem os contextos de utilização, ou seja, quantos se efetivarem no mundo”. (ORLANDI, 1986, p. 71). Ressalvamos, nos estudos sobre o sentido, que uns defendem a existência de um sentido literal independentemente do contexto; outros concebem que o contexto determina a literalidade. A instituição de um sentido literal estabelece como conseqüência a existência de um sentido figurado, tradicionalmente definido como um modo de expressar-se que se afasta do modo corrente do falar cotidiano, uma espécie de sentido menor. Daí passa-se a considerar a figura como desvio. Seu uso 29 seria explicado, dependendo do campo de estudo, como ornamentação do discurso (retórica clássica e estilística), como uma violação do princípio cooperativo, por meio da máxima da qualidade que é violada (pragmática, por meio das implicaturas de Grice, que considera a figura como uma implicatura), como uma maneira de estabelecer uma diferença entre o sentido da enunciação e o sentido da sentença essa não muda de sentido, é o falante que lhe dá um sentido diferente (teoria dos atos fala de Searle). O conceito de figura tem sua origem na retórica clássica, mas passou a ser adotado, como pode ser visto em nossa rápida exposição, em diferentes abordagens lingüísticas, embora tenha sido re-significado por várias delas. Pereira (1999), comenta a visão de figura tal qual desenvolvida na retórica clássica. Explica que a tradição das teorias nas retóricas clássicas francesas contempla as figuras como um desvio em relação à norma – seja um desvio no âmbito do significante, seja no âmbito do significado – desvio que é classificado como subordinado, acessório, excedente, exterior, ornamental e supérfluo. Os problemas relativos aos conceitos, como a distinção entre figuras e tropos, decorrem, em grande parte, do aspecto teórico mais geral, quer dizer, do modo como é estabelecido o postulado do desvio e da forma. Por norma, nesse contexto, devemos entender tudo que resulta de um sistema razoavelmente instituído, isto é, uma língua, seu sistema gramatical, envolvendo um léxico com um mínimo de estabilidade e regras sintáticas definidas. Se o sistema, como um todo, é instável, em decorrência, partes dele também o serão. Os desvios correspondem, então, àquilo que escapa ao normatizado na língua, ou seja, num mundo organizado hierarquicamente, com um eixo, ao qual respondia o cenário teórico dos retóricos que pressupunham a norma, o literal, o padrão. 30 Os usos da linguagem figurada e dos tropos fazem parte do ser humano em todas as épocas e línguas e consistem nas associações entre palavras. Por isso, é importante notar que os argumentos sobre a existência de uma figura de linguagem, e de como se produz o desvio, indica uma disparidade de concepções. Constata-se que o mecanismo de associação entre a imagem de um objeto e a impressão acústica de uma palavra, associa-se no cérebro pelo mesmo princípio, como preconiza Saussure a respeito do signo lingüístico. Mas, a partir da década de sessenta, aparecem novas teses sobre o sentido, que vão representar uma reviravolta no seu tratamento. Novos estudos filosóficos, lingüísticos e psicanalíticos produzirão uma série de transformações que irão definir novas maneiras de conceber a linguagem, diversamente da lingüística anterior que não questionou a concepção de transparência da linguagem pressuposta pelos estudos retóricos e filosóficos até então desenvolvidos. Um novo olhar com enfoque no social e no histórico irão redefinir a concepção de sujeito nos debates no interior das ciências humanas. E uma das primeiras questões que fizeram ranger os estudos do sentido apareceu nos estudos de Michel Pêcheux, que questionou como a ciência da linguagem poderia incorporar a investigação semântica. Elaborada a partir de suas reflexões sobre o corte saussureano, essa questão orientou para a reformulação do conceito de parole e para a formulação de um dispositivo de análise dos processos discursivos: Essa relação entre o discurso e o dispositivo de análise cria um novo objeto que não é um dado empírico, que é diferente de “enunciado”, que é diferente de “texto”, pois vai ser colocado em relação com a História. (GREGOLIN, 2001, p. 12). 31 A partir desse momento, o analista passa a refletir sobre a relação necessária entre o dizer e as condições de produção desse dizer. É nessa concepção que se fala na exterioridade como elemento constitutivo dos sentidos. Não mais um sentido definido na imanência do sistema, não mais explicado pela tensão entre o literal e o figurado, não mais um sentido que se verifica na relação do pensamento com a linguagem, na transparência dessa relação. Desde então, faz-se necessário buscar evidências na materialidade do discurso. Agora o procedimento exigirá desfazer-se da evidência do sentido para buscá-lo na opacidade do dizer, na relação que mantém com o que, mesmo estando fora, lhe é constitutivo. Essa nova concepção da composição dos sentidos evoca para o interior das reflexões sobre o discurso a indispensável teorização sobre como acontece a relação da língua com a história na produção, circulação e interpretação dos sentidos. Emana dessa questão a obrigação de se iniciar a explanação a partir do funcionamento discursivo, que envolverá outros conceitos como interdiscurso, cena enunciativa, memória e formação discursiva. A noção de interdiscurso relaciona-se à idéia de memória discursiva, pois é ela quem torna possível todo dizer. Já o interdiscurso inscreve a memória no fio do discurso e isso “afeta o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada”. (ORLANDI, 1999, p. 31). Concebida por Foucault num momento de investigação filosófica sobre as condições históricas e discursivas nas quais se constituem os sistemas de saber, e reformulada por Pêcheux, a noção de formação discursiva ocupa um lugar central na articulação entre língua e discurso. Foucault sugere o estabelecimento de “regras de formação”, que se apresentam como um sistema de relações entre objetos, tipos enunciativos, conceitos e estratégias. Segundo ele, são elas que possibilitam a 32 determinação dos elementos que compõem os discursos e consubstanciam uma formação discursiva. Assim, define-a, como: Um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício da função enunciativa. (FOUCAULT, 1986, p. 71-8). Concebida desse modo, a formação discursiva possibilita que o indivíduo seja sujeito de seu discurso, podendo, numa determinada conjuntura histórica, concordar ou não com o sentido que deve dar às palavras e, sobretudo, falar de forma diferente usando a mesma língua. E, conquanto uma formação discursiva determine a seus falantes “o que deve ser dito”, buscando a homogeneidade discursiva, as marcas do pré-construído lhe garantem a heterogeneidade e a instabilidade, visto que os efeitos das contradições ideológicas de classe são recuperáveis em cada discurso. Pêcheux desenvolveu o conceito de memória discursiva, que, segundo esse filósofo francês, é, sobretudo, inscrita em práticas simbólicas, de ordem social e histórica, não tendo, portanto, nenhuma associação psicológica: a memória discursiva seria aquilo que, face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os “implícitos” (quer dizer, mas tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível no próprio legível. (PÊCHEUX, 1997, p. 52). Assim, na produção de sentidos, é preciso entender a relação do interdiscurso com o intradiscurso, isto é, entre o dito e o que se irá dizer; de que maneira acontece essa relação. O interdiscurso representa o eixo vertical onde residem os já ditos, e no eixo horizontal – o intradiscurso seria então o eixo da formulação, ou seja, do que poderia ainda ser dito. Dessa forma, entende-se que 33 todo dizer, na realidade, sustenta-se na confluência dos dois eixos, em que memória e formulação atual concorrem para a constituição dos sentidos. Ao falar em elementos constitutivos do sentido, é relevante mencionar a cena enunciativa, a situação de comunicação. Toda enunciação ocorre em um espaço instituído, definido por um gênero de discurso, mas também sobre a dimensão construtiva do discurso que se coloca em cena. A cena enunciativa é ao mesmo tempo de onde vem o discurso e o que esse discurso engendra. Ela dá legitimidade ao discurso, ela é necessária para se contar uma história, fazer uma denúncia, apresentar propostas, etc. São elementos constitutivos da cena enunciativa, além da figura de um enunciador e a correlativa de um co-enunciador, uma cronografia (um momento) e uma topografia (um lugar), rudimentos necessários ao surgimento do discurso. Segundo Maingueneau (1998), os gêneros discursivos que mais recorrem a cenografias são aqueles que visam agir sobre o destinatário, a modificar suas convicções, como por exemplo, o discurso político. Apresentado esse conjunto, que é fundamental para entender os sentidos, surge a impressão do sujeito ser a origem do que diz e irrompe a ilusão de transparência da linguagem. Mas, nem linguagem, nem sentido, nem sujeito são transparentes. Tendo, pois, uma materialidade, constituem-se em processos em que a língua, a história e a ideologia mantêm uma relação de imbricamento. No próximo item, veremos como a relação usos da linguagem e poder são fundamentais para a atribuição de sentidos, especialmente do derrisório. 34 1.4 Língua falada x escrita, poder e derrisão Como Foucault (1969), havemos de lembrar que o sujeito é pensado como uma função enunciativa entre outras. O que conta é o lugar que ele ocupa para ser sujeito do que diz. E isso tem significado: dá-lhe uma identidade. Assim, no quadro da política nacional e da mídia principalmente, ainda é comum pessoas “eruditas” alarmarem-se diante do desempenho verbal, sobretudo, oral – do conjunto de seus protagonistas. A associação entre uma determinada variedade lingüística e a escrita é o resultado histórico indireto de oposições entre grupos sociais usuários das diferentes variedades. Todos sabem da existência das inúmeras variedades lingüísticas, mas ao mesmo tempo em que se reconhece a variação lingüística como um fato, observa-se que a sociedade brasileira tem uma extensa tradição em considerar a variação numa escala valorativa, que leva a rotular os usos característicos de cada variedade como certos ou errados, aceitáveis ou não, pitorescos, cômicos, etc. Na realidade, o que leva uma variedade lingüística a ser associada de modo estável com a escrita é a ascensão política e econômica do grupo que faz uso de tal variedade. Deste modo, a partir de uma determinada memória cultural, uma variedade lingüística usada pelos grupos do poder são repostas como alguma coisa de fundamental na identidade nacional, enquanto portadora de uma tradição e de uma cultura. Nos últimos séculos da Idade Média, a associação de uma determinada variedade lingüística ao poder da escrita foi uma operação que respondeu a reivindicações políticas e culturais. A língua considerada “o modelo” era o latim, e as demais línguas associadas com a escrita tiveram que passar por um árduo processo de adequação lexical e sintática. Por esse motivo, as línguas românicas demoraram 35 tanto a serem consideradas variedades escritas de complexidade comparável ao latim. Um segundo passo no procedimento de fixação de uma norma foi fundado pela associação da variedade já estabelecida como língua escrita com a tradição gramatical greco-latina. Assim, desenvolve-se toda uma perspectiva ideológica da tradição objetivando justificá-la. A razão da existência de gramática numa língua pode ser concebida como uma forma de preservar o uso lingüístico de ser corrompido pela “ignorância”, devendo, então sobressair o uso dos sábios, isto é, criar um manual com regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que desejam se expressar adequadamente. Deste modo, com a gramaticalização11 da língua, formaram-se grupos que funcionam como guardiões do idioma e lutam para conservar sua identidade, e também decidem o que é correto, tentando evitar que as variedades populares (de menor valor social) se incorporem à norma padrão. Por uma questão de valoração que já mencionamos, há uma tendência dos puristas em considerarem as variações lingüísticas, ou seja, as alterações introduzidas no uso da língua pelas novas gerações como deturpações, degeneração e degradação. Neste embate, não se deve menosprezar também a influência das academias nacionais de letras da língua, pois de acordo com Gnerre: Tais academias podem ter tido ou manter até o presente uma complexa função de intermediárias entre o poder político e econômico, de um lado, e o conjunto de valores e ideologias a serem associados ou já associados com a língua. As academias podem interferir ao chamar a atenção da nação para obras literárias 11 Processo pelo qual uma determinada língua passa no curso de sua evolução Segundo Aurox (2001) a gramaticalização de uma língua se constitui na sua inserção em determinado instrumento lingüístico: gramáticas, dicionários, manuais didáticos, etc. 36 e ao selecionar o léxico ”aceitável” da língua e a gramática “oficial”. (GNERRE, 1998, p. 19-20). A esse respeito, Bagno (2002) afirma que a ABL (Academia Brasileira de Letras) é composta por “pessoas ignorantes dos desdobramentos da pesquisa científica acerca da língua”, mas que se julgam aptas para tomar decisões e estabelecer escolhas em detrimento de 170 milhões de falantes do português brasileiro, até mesmo dos mais escolarizados, que não tem direito a participar das decisões a respeito de sua língua materna. Citando Bourdieu (1977), Gnerre (1998, p. 5) escreveu que as pessoas falam para serem “ouvidas” às vezes para serem respeitadas e também para exercer uma influência no ambiente em que se realizam os atos lingüísticos. “O poder da palavra é o poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e centrá-la num ato lingüístico”, enfatiza ainda que os lugares onde mais se evidenciam, são também os mais extremos, tais como no discurso político, no sermão religioso, na aula, etc. Todavia, as produções lingüísticas só adquirem o devido valor se realizadas no contexto sócio-cultural adequado, pois há regras que determinam a produção correta dos atos de fala, uma vez que: Todo ser humano tem que agir verbalmente de acordo com tais regras, isto é, tem que saber: a) quando pode falar e quando não pode; b) que tipo de conteúdos referenciais lhe são consentidos; c) que tipo de variedade lingüística é oportuno que seja usada. Tudo isso com relação ao contexto lingüístico e extralingüístico em que o ato verbal é produzido. A presença de tais regras é importante não só para o falante, mas também para o ouvinte, que com base em tais regras, pode ter alguma expectativa em relação à produção lingüística do falante (GNERRE, 1998, p. 6). Se a linguagem serve para comunicar, serve também para não comunicar, como assevera Michel Pêcheux (1982), ou seja, pode ser utilizada para barrar o entendimento de informações por muitos setores da sociedade, por exemplo, 37 sabemos que grande parcela da população, especificamente os indivíduos com pouca instrução escolar, pouco conseguem apreender das notícias políticas de um jornal televisivo, por exemplo. Desse modo, a linguagem pode funcionar como um filtro da comunicação de informações, uma língua de madeira (Pêcheux, 1982) ficando o privilégio de entender o implícito somente àqueles que dominam a linguagem padrão e os conteúdos a ela associados. Assim, é necessário um amplo conhecimento sócio-político para se ter acesso à compreensão e principalmente à produção das mensagens de caráter sócio-político. Adquirir os conhecimentos relevantes e produzir mensagens está ligado, em primeiro lugar, à competência nos códigos lingüísticos de nível alto. Para produzir ou ampliar a faixa dos eventuais receptores das mensagens políticas e culturais é suficiente ajustar a sintaxe, o quadro de referências e o léxico. (GNERRE, 1998, p. 21). Nesse ponto, entendemos que para se ter acesso amplo e irrestrito a qualquer estilo de produção e recepção de informações, faz-se necessário não somente o conhecimento da língua escrita, mas também do universo conceitual e referencial ao grupo social onde acontece o processo. Deste paradigma fazem parte os jargões profissionais, as gírias, os termos técnicos, os clichês, as frases feitas que circulam nos grupos, os estrangeirismos (comuns na área de informática), enfim particularidades que as tornam quase incompreensíveis aos demais grupos, não só pela variedade lingüística usada, mas principalmente pelas complexidades e especificidades dos conteúdos e referenciais. O desconhecimento das peculiaridades dos usos de um determinado grupo pode comprometer a comunicação - emissão/recepção de informações intervariedades. “A começar do nível mais elementar de relações com o poder, a linguagem constitui o arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder” (GNERRE, 1998, p. 22). 38 Notadamente, nas últimas décadas, lingüistas e professores têm se debruçado sobre as questões referentes à norma lingüística. Tal fato se justifica pela preocupação com as incoerências e as imposições que o termo “norma” comporta, haja vista a existência de uma contradição de base entre a ideologia democrática e a ideologia que está implícita na existência de uma norma lingüística: A função central de todas as linguagens especiais é social: elas têm um real valor comunicativo, mas excluem da comunicação as pessoas da comunidade lingüística externa ao grupo que usa a linguagem especial e, por outro lado, têm a função de reafirmar a identidade dos integrantes do grupo reduzido que tem acesso à linguagem especial (GNERRE, 1998, p. 23). Dessa forma, a norma lingüística serve como instrumento para diminuir o conflito de base entre o valor intrinsecamente igual dos seres humanos – idéia fundamental da democracia - e a realidade, na qual os indivíduos têm valor social diferenciado medido pelo uso que faz da língua. Assim, a criação de uma norma lingüística permitiria a padronização do uso e resolveria o conflito, uma vez que todos os seres humanos, ao fazer uso da mesma norma, tornar-se-iam iguais. Entretanto somos conscientes que isso não funciona, pois toda sociedade é heterogênea, logo formada de camadas sociais, nas quais interferem outros fatores que, por sua vez, repercutem diretamente na linguagem, dando origem às variedades e toda relação discursiva é constitutivamente polêmica. Apesar de lenta, uma série de pequenas mudanças ocorreu nas gramáticas normativas ao longo do tempo. Se compararmos as gramáticas de diferentes épocas, perceberemos alterações. Acontece que a língua falada muda numa velocidade muito maior, por isso mantém uma distância abissal entre esta e aquela. Contudo, tal como nos valores morais, éticos e na religião, na norma lingüística não aparece uma crítica velada quanto a fases anteriores. Antes a impressão transmitida 39 é de continuidade, como acontece com relação aos dogmas e crenças, que também sofreram interferência da sociedade moderna, se comparada em relação ao século XV até o atual, no entanto o que se transmite a idéia de estabilização. Da mesma maneira que os valores éticos e morais, as gramáticas normativas, mesmo que lentamente, sofreram modificações, também a oferta de ensino passou por um processo de aceleração, pois atualmente a sociedade vivencia uma maior oferta de educação formal, que tende a difundir o conhecimento da norma lingüística e deste modo reduzir a distância entre os grupos sociais e oportunizar chances iguais a todos. Acontece que, por motivos diversos, muitos são os que, nos processos seletivos a que são submetidos, são barrados e, aqueles que conseguem êxito, passam a fazer parte de um “contingente social de apoio aos fundamentos de discriminação com base na legitimação do saber e da língua que eles formalmente dispõem” (GNERRE, 1998, p. 38). Há que se ter consciência também de que o acesso à educação formal fornece ao cidadão alguns parâmetros que o levará a reconhecer as posições sociais por intermédio do mapa de estratificação social, como observa Gnerre “com alguns diacríticos” importantes para demarcar o seu lugar na sociedade, ou seja, um aparelho a mais para medir a desigualdade social. Nesta perspectiva, a educação visa a atender as exigências do Estado Burocrático moderno que necessita de pessoas hábeis, mais produtivas e abertas para sistemas de comunicação uniformizadas, e prontas para interagir na sociedade. Todavia, para alcançar o sucesso profissional não basta ter o conhecimento único das normas lingüísticas. Esta se torna uma possibilidade falaciosa se levarmos em consideração que a visão da língua formal é muito restrita, pois enfatiza somente as estruturas lingüísticas, desconsiderando fatos como sotaque, prosódia, ritmo, 40 controle do tempo, polemicidade discursiva e outros aspectos que não são considerados formalmente como parte da língua, mas que obviamente são relevantes na real comunicação face a face, assim como a postura corporal e o olhar, que mesmo não estando legislados na gramática normativa, entram no julgamento pelo qual uma pessoa tem que passar para provar que “domina” os procedimentos da comunicação. Esta reflexão nos leva a abstrair uma discriminação que vai além do simples domínio das normas lingüísticas, e ainda, que a gramática normativa é um código incompleto, porque não dá conta de todas as particularidades das atividades que envolvem a linguagem humana. Além dos problemas elencados, percebemos que ainda existe uma grande confusão entre língua falada e escrita, como se ambas fossem a mesma coisa. Na verdade, trata-se de duas vertentes do mesmo fenômeno, ou seja, constituem duas modalidades de uso da língua, e mesmo que façam parte do mesmo sistema, elas possuem características próprias. Entretanto, isto não significa que fala e escrita devam ser vistas de forma dicotômica, estanque como acontece ainda hoje. Há entre elas uma espécie de continuum. Como adiantamos no início deste trabalho, dada a sua complexidade, em alguns momentos será necessário recorrer a teorias que não pertencem à área de predomínio deste tabalho. Vale considerar que embora mobilizemos proposições empíricas de outros campos que não os da análise do discurso, isso não implica necessariamente a sua mobilização epistemológica. Ingedore V. Koch (2000) em sua obra “O texto e a construção do sentido” quando fez uma breve exposição sobre língua falada e língua escrita, argumentou que a fala é: • relativamente não planejável de antemão, o que decorre de sua natureza altamente interacional, isto é, ela necessita ser 41 localmente planejada e replanejada a cada novo “lance” do jogo da linguagem; • durante a fala o planejamento e a verbalização ocorrem simultaneamente, porque emerge no momento da interação; • dinâmica; • o fluxo discursivo apresenta descontinuidades freqüentes, determinadas por uma série de fatores de ordem cognitivo-interacional, as quais têm, portanto, justificativas pragmáticas relevantes. Quanto à escrita, Ingedore disse que: • é resultado de um processo; • é planejada, podendo-se fazer rascunhos, proceder a revisões e correções. Diante do exposto, podemos inferir que a fala é básica no aprendizado de uma língua. Ela é adquirida por praticamente todos os usuários antes que possam ler ou escrever. A língua falada mobiliza a personalidade na íntegra, devido, sobretudo, a interação imediata com o ambiente e as pessoas. Enquanto que a escrita é planejada, e talvez por isso, mobilize a personalidade menos integralmente. A confrontação oral é de importância básica em todas as sociedades, mas na nossa, dada sua complexidade letrada, ela é encoberta e suplementada pelo papel da escrita, que tem procurado insistentemente influenciar e moldar novos padrões de fala. Por tudo que precede, entendemos que, desde a mais tenra idade, as línguas, ou melhor, as muitas variedades de uma língua estão em constante tensão. E esta tensão tem origem histórica, como vimos no início deste texto. 42 Entretanto, vale salientar que o nó da questão lingüística não é a distinção entre linguagem oral e linguagem escrita, pois essa discussão acaba sendo pouco producente. O que deve estar em questão mesmo, são as diferentes formas de dizer, determinadas por diferentes situações comunicativas, produzidas por diferentes condições de enunciabilidade e não simplesmente o fato da materialidade do dito pertencer à modalidade oral ou escrita, regidas por uma espécie de contexto de produção geral e indiferenciado. Passaremos agora a discutir como a circulação de discursos na mídia, interpretados via memória discursiva e interdiscurso, observados pelo viés da linguagem, contribui para a construção dos sentidos. 43 CAPÍTULO 2 O acontecimento discursivo na mídia “A palavra é corpo que significa: o enunciado não se separa nem do ato social da enunciação, nem de uma presença que se dá, se gasta ou se perde na nominação”. (Michel de Certeau) 2.1 Informando e formatando opinião Nessa parte do trabalho, analisaremos características da mídia impressa - o jornal impresso, tentando entender como e para quem é produzido, de que maneira circula, como se diferencia de outras formas de comunicação e expressão, e mais especificamente, como mobiliza o gênero anedotário para organizar informações e formatar opiniões. Começando pela parte física de um jornal impresso, sabemos que ele é organizado em cadernos. Cada caderno é destinado a um público. No vocabulário da imprensa, cada gênero ou tipo de texto recebe designação específica: notícia, reportagem, artigo, resenha, entrevista, etc. O jornal, assim como os outros suportes discursivos, orienta-se por meio de manuais, que prescrevem entre outras particularidades, que esse veículo de comunicação tem por função mostrar a realidade diária de forma transparente, sem mediações, visando apenas informar, transmitir os acontecimentos ao público. Entretanto, sabemos que a linguagem jornalística é formativa, parcial e não neutra, tendo em vista que a realidade dos acontecimentos é também construída a partir de determinadas condições de enunciabilidade, pois por mais que se tente, não há como prever um sentido único 44 para as palavras, e é isso que caracteriza o processo de significação, evidenciando que também no texto jornalístico, embora se apresente sob a ideologia da neutralidade, os sentidos podem ser outros. De fato, o objetivo do jornal deveria ser informar, pois o leitor o lê para manter-se informado. Todavia, a linguagem e suas especificidades na esfera jornalística fatalmente selecionam os acontecimentos, organizando-os de modo a interpretar a “realidade”, a fazer uma leitura, e apontar algumas conclusões. Levando em conta essa perspectiva, vamos observar as configurações de construção dessa instância de comunicação, identificando, entre outras peculiaridades, as marcas que conferem ao texto jornalístico e aos vários gêneros discursivos que nele circulam a dimensão da leitura, interpretação e reconstrução do mundo, e não de linguagem transparente, de veículo neutro de informação e acontecimentos. Estamos reconhecendo aqui as implicações das formas de produção, circulação e recepção desse veículo e, necessariamente, a inserção do leitor nessas formas, pois, na hipótese de os meios de comunicação não serem formadores de opinião, fornecem pelo menos “rotas de interpretação” (GREGOLIN, 2003). Na composição visual do conjunto, dentro dos limites da formatação gráfica, compete à edição buscar as soluções mais criativas para expor os assuntos, seja na produção de imagens fotográficas e desenhos ou mesmo na elaboração dos títulos. Na organização, observamos que há um detalhamento rigoroso para que o jornal impresso seja reconhecido como tal, visando, sobretudo que este não seja confundido com outro veículo. Isso pode ser constatado, imediatamente, na organização dos cadernos e das páginas, na variedade de tipos e tamanhos de 45 letras utilizados, nas mais distintas combinações, que envolvem texto-foto, fotolegenda, texto-ilustração, até a existência de “manuais de redação” dirigidos aos que, dentro dessa atividade exclusiva que é o jornalismo, conhecem muito bem os gêneros e os tipos de texto que nele circulam, bem como as peculiaridades dos jornais nos quais atuam. Por exemplo, na primeira página, além dos títulos resumindo os acontecimentos mais importantes, há vários outros elementos distribuídos rigorosamente para produzir um efeito de informação ampla sobre um conjunto de acontecimentos relevantes e, ao mesmo tempo, seduzir o leitor para a leitura do que ali se enuncia. Por isso, o leitor deve estar atento às formas de construção de sentidos e efeitos de significação que acontecem a partir da organização do plano de expressão do jornal, que jamais ocorre de forma gratuita, antes visa representar a realidade para seu público. Se a preocupação básica do jornal é com a notícia, com os acontecimentos em si, qual a função da charge, da crônica, do chiste no espaço jornalístico? Reportando-se a Paulo Mendes Campos, para quem a função do jornal é abrir uma janela para o mundo, Sá (1999) nos apresenta a seguinte resposta: Aberta a janela, cumpre ensinar o leitor a ver mais longe, muito além do factual. Isto só é possível quando o fato, os personagens e a preocupação estética revelada na estruturação do texto se associam, para que o resultado final alcance a empatia com o leitor. Uma empatia que significa a cumplicidade entre quem escreve e quem lê, mas também a elaboração de uma linguagem que traduza para o leitor, as muitas linguagens cifradas no mundo. (SÁ, 1999, p. 56). Portanto, é preciso reavaliar o papel do jornal atualmente, pois com as diversas mídias que dão a notícia em tempo real, o jornal impresso tem exercido 46 também a função de discutir, comentar as informações, e assim tem aberto mais espaço ao pitoresco, permitindo-lhe capturar o lado trágico ou cômico das coisas, suscitando o riso como uma forma de questionar e mostrar determinadas contradições existentes na sociedade. Mas, se o campo social do sentido é movente, o que caracteriza um determinado gênero, no complexo movimento discursivo do qual se alimentam as representações do imaginário coletivo? Como acontece o diálogo entre diferentes gêneros em determinado espaço social e cultural, como o jornal? Estas são questões importantes que precisam ser articuladas para apreendermos a dinâmica dos gêneros na produção social dos sentidos no suporte jornalístico. A seguir, tentaremos deslindar esta questão. 2.2 Os gêneros do discurso e o sentido Em nossa prática cotidiana, desempenhamos muitas atividades, todas são entremeadas pela linguagem. Algumas são mesmo atividades específicas de linguagem, isto é, só acontecem pelo uso da língua, por meio de textos orais e escritos, como as aulas, as bulas de remédio, os e-mails, os formulários ou os documentos em geral, entre uma infinidade de outros, que paralelamente, usam outras formas de linguagem, por exemplo, as artes plásticas ou visuais, a dança, a música instrumental, os sinais de trânsito, o Código Morse, etc. Assim, na organização de uma determinada sociedade, há uma multiplicidade de práticas definidoras de diversas atividades que não são as mesmas em diferentes contextos. As práticas linguageiras que têm lugar nas diferentes esferas de atividades humanas não são as mesmas – ainda que, às vezes, possam ser 47 parecidas e estejam relacionadas às de outros campos -, todavia não são os mesmos textos orais e escritos e a linguagem que neles circulam, porque os contextos ou situações não são os mesmos. Deste modo, a comunicação verbal só é possível por meio de algum gênero, o que quer dizer que, na produção de sentidos, o gênero desempenha um papel importante, não pelos traços formais que o individualizam, mas pela sua funcionalidade sócio-comunicativa. Assim sendo, o que caracteriza a escolha de um gênero por um sujeito é uma das formas que ele encontra para produzir sentido quando se insere em atividades comunicativas, caracterizando, assim o gênero como uma prática discursiva. Os gêneros são as formas específicas de ser dos textos de determinada esfera de atividade. E essas formas envolvem os formatos dos textos, ou seja, seu caráter de composição; aquilo que podemos dizer neles, seus temas, o tipo de linguagem, o estilo que podemos usar, mais ou menos formal. Estamos concebendo gênero na perspectiva de Bakhtin, para quem a linguagem deve ser pensada na sua relação com as diferentes esferas de atividades humanas. Assim para esse autor: A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes de uma ou outra esfera de atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais-, mas também, e, sobretudo, por sua construção composicional. (BAKHTIN, 1997, p. 279). Os gêneros discursivos apresentam extrema diversidade e incluem desde os diálogos do cotidiano, as exposições científicas até os textos artísticos. Isso porque cada texto está vinculado, necessariamente, a uma atividade, a um gênero ou a um 48 conjunto de gêneros, dependendo da atividade, e é dessas circunstâncias que recebe a expressividade determinada, típicas do gênero dado. Em Estética da Criação Verbal, Bakhtin (1997) apresenta, na caracterização do gênero discursivo, três conceitos que se inter-relacionam fortemente: • conteúdo temático: que é o sentido de um texto completo, por isso mesmo individual e não reiterável. Expressa uma situação histórica concreta, a origem do texto e também é determinado pelas formas lingüísticas e pelos elementos não-verbais da situação e do contexto mais amplo que o envolvem. • estilo: é a seleção ou escolha que fazemos das formas lingüísticas - das palavras que selecionamos, as formas gramaticais responsáveis pelo acabamento do tema do texto. O estilo está “vinculado a unidades temáticas determinadas e, o mais importante, a determinadas unidades composicionais: tipos de estruturação e de conclusão de um todo; tipos de relações que se estabelecem entre o falante e outros participantes da comunicação discursiva (os ouvintes ou com os leitores, com os interlocutores, com o discurso alheio etc.)”. • construção composicional: a estrutura e a organização do texto. É resultante de vários fatores, tais como a necessidade da situação de interação e as cristalizações históricas, ou seja, a tradição que esses usos geraram. Com base nessa caracterização, observamos que acontece a coerção dos gêneros discursivos sobre os enunciados. E, desse modo, nossa prática discursiva se molda às formas dos gêneros. 49 Esses três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso. (BAKHTIN, 1997, p. 279). Ao dizer que os gêneros são enunciados típicos, o pesquisador russo não está afirmando que são estanques e imóveis, antes são adaptáveis sóciohistoricamente. Graças a essa plasticidade e flexibilidade existem tantos gêneros discursivos quantas as situações sociais convencionais onde são concretizados em suas funções também convencionais. Contudo, é importante distinguir a noção de gênero textual da noção de modalidades retóricas ou modalidades discursivas. Enquanto os gêneros textuais constituem tipos específicos de textos, as modalidades retóricas ou discursivas constituem as estruturas e as funções textuais tradicionalmente reconhecidas como narrativas, descritivas, argumentativas, procedimentais e exortativas. Essas modalidades são estratégias utilizadas para organizar a linguagem, muitas vezes independentemente das funções comunicativas associadas aos gêneros textuais específicos. Assim, com freqüência, um único texto contém mais do que uma dessas modalidades. Por exemplo, uma carta pessoal pode conter trechos narrativos (um histórico do que a pessoa que escreve tem feito recentemente), trechos descritivos (como é o lugar onde está morando), trechos procedimentais (instruções para alguém lhe enviar dinheiro), trechos exortativos (incentivando um irmão, digamos, a uma determinada conduta) e mesmo trechos argumentativos (defendendo uma determinada perspectiva ou visão de alguma coisa). Enquanto as modalidades retóricas constituem um número extremamente reduzido, os gêneros textuais 50 existem em número muito maior. Assim, os gêneros constituem textos de ordem tão variada, tais como anúncios, convites, atas, avisos, programas de auditório, bulas, cartas, comédias, contos de fada, convênios, crônicas, editoriais, ementas, ensaios, entrevistas, circulares, contratos, decretos, discursos políticos, histórias, instruções de uso, letras de música, leis, mensagens, notícias, novelas, orações, pareceres, piadas, poemas, portarias, projetos, receitas, regimentos, relatórios, reportagens, prestação de serviços, requerimentos, romances, sermões, sumários, telegramas, palestras, briga de namorados e trabalhos científicos, entre muitos outros. Em seu trabalho “Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas”, Rojo (2002), mediante um levantamento12 de pesquisas que tomam por base as Teorias de Gêneros, constatou que seria conveniente dividi-las em duas vertentes, ambas radicadas em diferentes releituras da herança bakhtiniana. A primeira, Teoria dos Gêneros do Discurso, centrava-se no estudo das situações de produção dos enunciados ou textos e em seus aspectos sócio-históricos e a segunda, Teoria dos Gêneros de Textos, na descrição da materialidade textual. Por meio desta proposição, apreendemos que o que separa a teoria dos gêneros do discurso da teoria dos gêneros textuais é uma linha muito tênue, a qual, como não é objetivo deste trabalho, não vamos discutir verticalmente. Para melhor visualizar como a linguagem se inter-relaciona com as estruturas sociais, é interessante compreender melhor a noção de estrutura. Discutimos a seguir esta noção de acordo com o sociólogo inglês Anthony Giddens (1991), para quem as estruturas são constituídas e existem como resultado do uso que as pessoas fazem de ‘regras e recursos’. Vejamos, pois, como regras e recursos se mesclam para formar estruturas. As regras são as normas, as convenções e os 12 Trata-se de um balanço apresentado em junho de 2000, no XV Encontro Nacional da ANPOLL. 51 significados por intermédio dos quais as pessoas se orientam, ao compreenderem e desempenharem ações sociais. Os recursos são as posses e as capacidades que as pessoas têm que lhes permitem exercer controle sobre o meio ambiente e sobre outros indivíduos. As regras e os recursos formam estruturas porque se repetem no espaço e no tempo e criam esquemas ou maquetes de expectativas dentro dos quais as pessoas agem, comunicam e comportam-se. Em termos ‘reais’, a maioria das estruturas existe apenas como traços mentais, isto é, as pessoas têm conhecimento tácito, sabem como agir em determinada situação e esperam, por outro lado, certo comportamento das outras pessoas. Situações e formas de agir e compreender se repetem, constituindo estruturas mais ou menos tácitas. É claro que, embora as estruturas se repitam no tempo e no espaço, tensões sempre existem e, como resultado, mudanças e formações de novas estruturas podem acontecer constantemente. É também por intermédio das regras que os indivíduos criam estruturas de significação, como, por exemplo, significado atrelado a diferentes tipos de comportamentos e discursos. A sociedade em si constitui uma estrutura e os eventos sociais, incluindo o uso de gêneros discursivos, constituem estruturas menores que tomam forma, são reproduzidas e/ou vão mudando paulatinamente, dentro da estrutura social. Devido à existência de diferentes estruturas de dominação, legitimação e significados, diferentes gêneros discursivos são exigidos para a condução de diferentes atividades sociais, e os textos adquirem formas e significados mais ou menos específicos dependendo da estrutura social onde ocorrem. Existe sempre uma relação dialética entre discurso e estrutura social de modo que, ao fazermos 52 uso de gêneros discursivos, nós constituímos estruturas sociais e simultaneamente, reproduzimos tais estruturas. A teoria acima faz um contra-ponto com a teoria bakhtiniana do dialogismo lingüístico, pois na perspectiva da interação social, Bakhtin considera o dialogismo como princípio fundador da linguagem. Ignorar esse princípio seria o mesmo que negar a ligação existente entre a linguagem e a vida. Na visão deste autor, os gêneros discursivos são reconhecidos como propriedades discursivas que se relacionam com as práticas sociais. Partindo desta concepção, podemos entender que há uma relação íntima entre os processos históricos de formação dos gêneros e as ações humanas. Mesmo não constituindo objetivo teórico dos trabalhos da análise do discurso de linha francesa, mantém cognação com a teoria do gênero de Bakhtin o conceito de formação discursiva de Michel Pêcheux, definida como aquilo que se pode e se deve dizer em uma formação ideológica definida, isto é, a partir de uma posição de classe no interior de uma conjuntura dada. Ainda sobre gênero, não poderíamos deixar de vincular as idéias expressas por Foucault (1986). Para esse teórico, a escolha realizada por uma sociedade entre todas as codificações possíveis do discurso determina seu sistema de gênero: uma codificação historicamente ajustada e relativamente estabilizada de práticas discursivas associadas a um padrão cujos monumentos formam um patrimônio, uma memória coletiva que funciona como um horizonte de expectativas para os leitores e como modelos de escritura para os autores. Essa historicidade determina que os gêneros sofram coerções tanto da ideologia quanto da matéria lingüística, assinalando o que pode e deve ser dito e como deve ser enunciado mediante um 53 conjunto de regras determinadas no tempo e no espaço, em uma dada época, para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística e as condições de exercício da função enunciativa. (idem : 136). Assim, para Foucault, há um jogo de relações regido por leis que determinam a enunciabilidade na prática discursiva: entre o esquecimento e a tradição, o arquivo de uma época faz aparecerem as regras de uma prática que permite aos enunciados subsistirem e/ou modificarem-se regularmente. No texto A ordem do discurso (1970), o autor apresenta e discute os mecanismos de controle, seleção, organização e redistribuição dos discursos e dos sujeitos, por meio dos quais ambos seriam ordenados de forma que seus perigos e poderes sejam conjurados. Segundo ele, esses mecanismos dividem-se em: externos ao discurso, internos, e de rarefação (seleção) dos sujeitos. Os mecanismos de exclusão são externos e dividem-se em: rejeição – há discursos que são condenados a não circularem, a não terem sua existência reconhecida (como o discurso do louco, por exemplo); proibição - há assuntos proibidos, e também circunstâncias em que não é permitido dizer algo, assim como há sujeitos que são proibidos de proferir alguma coisa; vontade de verdade – a oposição entre o verdadeiro e o falso é produzida institucional e historicamente, com a valorização e distribuição do discurso que se considera verdadeiro. Os mecanismos de controle do acontecimento discursivo, conforme Foucault, partem do próprio discurso, e por isso é denominado de mecanismo interno de controle. Pode dar-se sob a forma de comentário, que geralmente é dominado pelo texto fundador, mas este também é dominado por aquele, uma vez que o comentário limita o acaso do discurso pelo jogo de uma identidade que tem a forma de 54 repetição; autor - para Foucault, o autor não é um indivíduo, mas uma função – “função autor” – que dá unidade e coerência ao discurso, limitando-lhe o acaso pelo jogo de uma identidade que tem a forma da repetição. Quanto aos mecanismos de rarefação, seleção dos sujeitos, segundo ele, dividem-se em: ritual – define qualificações e papéis dos sujeitos; sociedade de discurso (conservam e produzem discursos, fazendo-os circularem em espaço restrito, isto é, são poucos os sujeitos que podem fazer parte delas); doutrina realiza a sujeição do sujeito ao discurso que se pode proferir no seu interior; apropriação social dos discursos – somente os sujeitos que pertencem a determinados sistemas é que estão autorizados a formular determinados discursos. O discurso produzido por esses sujeitos deve estar nos limites fixados pela disciplina, a qual, por sua vez, determina tanto o que é verdadeiro e o que é falso dentro de suas fronteiras “científicas”, quanto o discurso que pode circular no seu interior, assim como o que é indizível. “Não importa quem fala, mas o que ele diz não é dito de qualquer lugar, é considerado, necessariamente, no jogo de uma exterioridade” (Foucault, 1998, p. 141/2). Isso insinua que o sujeito ocupa um lugar na trama social, e ao produzir um certo discurso, nele floresce sua identidade, mostrando, portanto, quem ele é, ou seja, a que comunidade discursiva pertence e que mecanismos regulam seu falar. Esse processo de identificação aponta que o sujeito se inscreve em uma formação discursiva e não em outra. Nesse sentido é conveniente observar que o sujeito é atravessado pela ideologia. Não uma ideologia consciente, mas como efeito da relação do sujeito com a língua e com a história, em sua necessidade conjunta. 55 Estendendo a política de fechamento para a atuação dos formadores de opinião, especificamente, o jornal impresso, com base nos mecanismos de controle do discurso e do sujeito, postulados por Foucault, procuraremos evidenciar como esse meio de comunicação produz um fechamento das possibilidades de trabalho com a língua, age contra a heterogeneidade e imprevisibilidade do discurso, interfere na imagem que a sociedade faz da língua e, como autorizado, adentra pelo sistema de apropriação do conhecimento lingüístico, excluindo de seus domínios formas outras de conceber a língua e lidar com ela. A seguir, tentaremos delinear os gêneros que circulam no espaço do jornal impresso e suas implicações para a produção de sentido pretendido. 2.3 Os gêneros presentes no suporte jornalístico Ao estudar os gêneros jornalísticos no Brasil, Melo (1985) retoma a obra de Luiz Beltrão, pesquisador que estudou sistematicamente esse assunto. A classificação feita por Beltrão atende a critérios funcionais, de acordo com as funções que os textos desempenham em relação ao leitor: informar, explicar ou orientar. A partir dessas funções, propõe três categorias básicas: • jornalismo informativo: notícia, reportagem, história de interesse humano e informação pela imagem; • jornalismo interpretativo: reportagem em profundidade; • jornalismo opinativo: editorial, artigo, crônica, opinião ilustrada e opinião do leitor. 56 Entretanto, Melo reduz essa classificação a duas categorias: • jornalismo informativo: nota, notícia, reportagem e entrevista; • jornalismo operativo: editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crônica, caricatura e carta. Com base nessa classificação, é possível observar que os gêneros do discurso não se limitam especificamente ao literário, ao jornalístico, ao técnico ou ao científico: são, na verdade, modelos gerais, que são escolhidos, adaptados e readaptados de acordo com a atividade, circunstâncias, e momento de realização, visto que não são estanques, mas sim relacionados com o momento sócio-histórico. No quadro do jornalismo operativo, assim classificado por Melo, podemos sugerir mais uma tipologia de gênero jornalístico: o gênero anedotário político, que se pode considerar uma transmutação do discurso político, por intermédio de propriedades de dinamicidade e variabilidade. Esse processo pode ser observado na produção de textos que circulam na mídia, determinados pelas práticas de produção e recepção que elas inauguram. Deste modo, as singularidades de um gênero midiático são determinadas pelas estratégias que indicam uma certa especialização da área na qual ele se produz, refletindo as práticas sócio-históricas envolvidas nessa especificidade. É desse modo que os gêneros são transpostos de uma especificidade a outra, mantendo o vínculo com sua origem, mas reconfigurando-se no novo contexto sócio-cultural, também ele, específico. 57 2.4 O gênero anedotário político mato-grossense Ao considerarmos a possibilidade de dar visibilidade, no sentido de gênero bakhtiniano, à existência do gênero anedotário político mato-grossense, levamos em consideração, além da propriedade de provocar o riso, várias regularidades, tais como o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo verbal, como se pode verificar, em linhas gerais, a seguir: • conteúdo temático: trata de temas políticos, que, na maioria das vezes, referem-se a questões regionais, pois busca empatia com os leitores da coluna, ou seja, com os interpretadores; • construção composicional: obedece a uma regularidade, mantendo sempre a mesma estrutura organizacional (apresentação e exposição, ficando a conclusão por conta do leitor), aparecendo sempre numa determinada coluna, num mesmo espaço, mesma fonte (tipo e tamanho da letra) e, geralmente no lado direito da mesma página (3 A) e apresenta sintaxe complexa. O colunista não assina seus textos, e não deixa indícios de autoria. Os textos caracterizam-se ainda por apresentar protagonistas de um grupo social determinado. O registro lingüístico é informal, exceto na introdução elaborada pelo apresentador/narrador, que posteriormente, apela para o uso das estruturas de citação, como marca de heterogeneidade mostrada, ou seja, insere as falas dos participantes no discurso direto para enfatizar a autoria das mesmas. Com o enunciado vêm as palavras, o estatuto do enunciador e do enunciatário, o modo de enunciação, a intertextualidade. É notável o conflito entre o corpo citante, e o elemento citado, sendo que o último é recriminado pelo fato de alimentar-se de uma discursividade incompatível com aquela da enunciação que o apresenta, ou seja, é notavelmente rejeitado pelo 58 corpo citante. Trata-se de desqualificar o elemento citado, mostrando que ele viola as regras do jogo. Tenta-se tirar-lhe o direito legítimo à palavra, independentemente do conteúdo. • estilo: geralmente ocorre a introdução por meio de um narrador que não se identifica, mas demonstra um ponto de vista onisciente, uma vez que explana o texto como se conhecesse todos os fatos e pensamentos de seus personagens. Tem por forte característica o propósito de escárnio, ou seja, despertar o riso derrisório por algum “deslize” cometido por autoridades políticas, no caso dos textos que compõem o corpus, no que tange ao uso da linguagem, ou pelos artifícios eleitoreiros empregados. Vejamos um exemplo: Em dezembro de 1995, dois meses após a eleição para governador, Dante de Oliveira, então no PDT, fez uma viagem à Ásia, em compainha do ex-deputado Antônio Joaquim, hoje conselheiro do TCE. Ao chegar em Pequim, ninguém agüentava mais experimentar pratos da exótica culinária oriental. Fanático por um espeto na brasa, Joaquim foi convidado para almoçar numa churrascaria brasileira. Toda a comitiva o acompanhou. Ao chegar no restaurante, os mato-grossenses depararam-se com um típico ambiente brasileiro, com prateleiras abarrotadas de litros de cachaça. Entre um gole e outro, Joaquim foi abordado por um gerente: - E aí, deputado, tudo bem? Tive o prazer de votar no senhor para deputado estadual em 1986, lá em Barra do Garças. Antonio Joaquim, eufórico, disparou: - Viu só, governador? Sou muito melhor de voto do que o senhor. Tenho voto até na China! 21 de fevereiro de 2004 – edição nº 4543 - (anexo A). 59 O que estamos considerando “gênero anedotário político”, nos limites do nosso estudo, está circunscrito ao espaço de circulação midiático em Mato Grosso e refere-se, de certa forma, a textos mistos, porque neles se descreve um acontecimento, mas não se deixa de emitir uma opinião. Os assuntos são abordados de modo a provocar o riso nos leitores e, por meio dele, proteger o colunista, ou seja, o articulista-enunciador de sofrer qualquer censura sobre o conteúdo controverso que apresenta. Inserindo-se na ordem do discurso polêmico, esse gênero distingue-se de outros dessa natureza que circulam na mídia, como o editorial, que traz uma marca autoral associada a uma assinatura. Enquanto a posição que é veiculada num editorial usualmente não representa o discurso da empresa, do grupo jornalístico, enquanto representante de uma certa posição ideológica que configura a formação discursiva desse grupo, uma vez que traz a assinatura do autor, no gênero anedotário político, a posição ideológica do articulista pode estar necessariamente vinculada à posição do jornal enquanto representante de um grupo, pois, contrariamente, não é assinado pelo colunista. É relevante frisar que as personalidades políticas mais recorrentes nos textos do corpus, são aquelas que já exerceram ou exercem cargos públicos de vereador, deputado, prefeito e, quando da publicação dos textos pelo jornal A Gazeta, não ocupavam mais os referidos cargos. Quanto aos partidos políticos, também são recorrentes, na grande maioria, aqueles que não estavam em evidência no momento. Identificamos apenas dois casos de citação de personalidades da política mato-grossense atual: o do então candidato à reeleição em (2002), senador Jonas Pinheiro, filiado ao PFL, partido que na ocasião das eleições estaduais estava coligado ao PPS, que tinha como candidato a eleição o então governador Blairo Maggi, que, aliás, num dos textos aparece como enunciador citado, mas é ele quem 60 usa recursos derrisório contra os repórteres/jornalistas, reforçando a hipótese acima, ou seja, as posições sócio-ideológicas do grupo de comunicação A Gazeta. Vejamos mais um exemplo: Em 1994, o então vereador por Rondonópolis, Pedro Lourenço da Silva Neto, o Pedro da Draga (PMDB), resolveu integrar uma comitiva de cinco colegas parlamentares para participar de um encontro de vereadores em Recife. Mal embarcou no avião no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, Pedro da Draga já começou a tomar whisky. Após a decolagem, ele acompanhou atentamente as informações do comandante da aeronave. Semi-alfabetizado, o vereador, então, resolveu também dar o seu recado para o desespero de seus colegas vereadores. Foi à frente e discursou: - Eu quero agradecer aqui as palavras amáveis do motorista desse avião e dizer a todos que somos vereadores de Rondonópolis e que vamos participar de um congresso. Que todos também tenham uma boa viagem! 01 de fevereiro de 2004. – nº 4523 - (anexo B) Neste exemplo, que não difere da maioria dos textos da coluna Em tempo, o articulista joga com os discursos silenciados, os pontos de vista divergentes, preconceitos cristalizados na sociedade, redes de significações que constituem a exterioridade constitutiva dos sentidos como efeito do trabalho da memória e do interdiscurso, ao fazer comentários sobre o enunciador que logo entrará em ação. O enunciador citado é aqui exposto derrisoriamente, porque infringiu uma regra básica da coerência semântica ao usar um vocábulo que não pertence a um campo semântico específico, no caso “motorista” no lugar de “piloto”, que do ponto de vista do enunciador citante, criou uma incoerência semântica ao substituir um substantivo 61 por outro, haja vista que ambos não são hipônimos. Ou seja, não funcionam como sinônimos, muito embora sabemos que não há sinônimos perfeitos. A título de exemplo, como disse Beth Brait13, quando vamos substituir os pneus do nosso carro, o fazemos porque estão carecas e não calvos. No próximo texto, o político é exposto ao escárnio por sua capacidade de tirar proveito até das situações mais difíceis. O articulista recorre às estratégias que alguns candidatos lançam para angariar votos. Na última quinta, a direção do PPS de Várzea Grande, sob o comando do pré-candidato a prefeito Murillo Domingos, se reuniu para discutir estratégias e a possibilidade do partido fazer parte do fórum suprapartidário, composto por oito legendas (PHS, PDT, PL, PP, PSDB, PSB, PT e PC do B). Um ex-secretário do município, cuja esposa é pré-candidata a vereadora, disse, na reunião, que vai procurar algumas pessoas as quais ajudou e fez o seguinte comentário: - Dei 3.830 caixões e vou atrás! - Mas como? O ex-secretário tentou explicar: - Eu vou atrás dos parentes vivos e que votam! Os mortos, esses não tem jeito, já foram! 04 de fevereiro de 2004. – nº 4526 - (anexo C). Como se evidencia, o colunista vale-se de artifício para suscitar o riso, da estratégia empregada pela pré-candidata para conquistar os futuros eleitores, o chamado toma-lá-dá-cá, que se convenha, é um tanto original - dar caixões, e depois ir atrás. O que provoca o riso aqui é a incoerência gerada pela construção (Dei 3.830 caixões e vou atrás!) que à primeira vista, choca, pois ninguém seria tão 13 Em palestra proferida no final do semestre de 2004 na UFMT. 62 insano a ponto de tentar resgatar um caixão, ou um defunto para levá-lo a urna para votar! Neste próximo texto, o político também é exposto à mofa por sua capacidade de tirar proveito até das situações mais embaraçosas, por sua capacidade de simulação e habilidade para reverter à situação a seu favor. O médico Carolino Gomes dos Santos, que foi prefeito de Barra do Garças (82/86), é um dos políticos da região do Araguaia que mais freqüenta velório e também festas de aniversário. O seu estilo populista marcou época. Na reta final de sua campanha vitoriosa a prefeitura barra-garcense, em 1981, Carolino resolveu fazer um verdadeiro arrastão pelos bairros, chamado corpo-a-corpo. Ao chegar na casa de um morador, o então candidato, demonstrando intimidade familiar, foi logo perguntando para um que o atendeu: - Cadê sua mãe Tereza? O rapaz respondeu: - Ela morreu! Carolino, desconcertado, emendou: - Morreu pra você, filho ingrato, porque pra mim ela continua viva e morando em meu coração! 07 de janeiro de 2004. – nº 4498 - (anexo D). Outra regularidade nos textos coletados é a contextualização histórica feita pelo escritor da coluna Em Tempo, nos textos. Como se pode constatar, o colunista apresenta o seu protagonista, diz sua profissão, condição de escolaridade, situa o leitor da região geográfica (onde ocorreu o evento discursivo) e cronográfica (do momento), ou seja, do ano em que se deu o acontecimento, e tece comentários subjetivos sobre o enunciador: Quem? O médico Carolino Gomes dos Santos; Onde e quando? Na reta final de sua campanha vitoriosa a prefeitura barra-garcense, em 1981; Comentários: é um dos 63 políticos da região do Araguaia que mais freqüenta velório e também festas de aniversário. O seu estilo populista marcou época. É justamente nos comentários que estão as pistas que permitem avaliar o sentido derrisório constituído nos textos. Se voltarmos aos exemplos já mostrados, poderemos confirmar mais essa regularidade. Contudo, acreditamos não ser necessário destacar esses elementos em todos os textos, pois eles estão muito bem marcados na introdução de cada um. Acreditamos que os exemplos mostrados, embora quantitativamente poucos, sejam suficientes para levantar a possibilidade da existência do gênero anedotário político mato-grossense, haja vista as regularidades presentes em todos eles, seja no conteúdo temático, na construção composicional ou no estilo. E, como em todo discurso, é nesse jogo de dizeres que se repetem ou se opõem que se dá a heterogeneidade discursiva. Isso significa que os sentidos orientam-se em espaços contraditórios que instauram a polêmica e os deslocamentos. Considerando que a descrição acima evidencia a possibilidade concreta, no sentido de um gênero bakhtiniano fundado numa esfera da atividade jornalística, da existência do gênero anedotário político mato-grossense, e ressalvando que tal evento discursivo merece estudos mais aprofundados, que perpassam os limites desta dissertação, passaremos, no próximo capítulo, ao desenvolvimento das análises, enfatizando a presença do sentido derrisório nos textos que constituem o corpus, partindo dos comentários tecidos pelo enunciador citante para justificar os usos lingüísticos dos protagonistas, ancorados substancialmente nas variedades lingüísticas usadas pelos mesmos, que funcionam como ‘terrenos férteis’ para o afloramento do preconceito lingüístico, através de mecanismos como a derrisão, nos deslizamentos do discurso político. 64 CAPÍTULO 3 O espetáculo político na mídia “O exercício do poder, ou sua conquista, sempre compreendeu uma dimensão imaginária. A política é uma questão tanto de imagens e representações quanto de ética e de relações de força”. (Achache) 3.1 Dramatização e violência simbólica Neste capítulo pretendemos discutir os deslizamentos que o discurso político vem sofrendo nas últimas décadas do século XX, até sua acentuação nos dias atuais, bem como o uso abundante de recursos de linguagem para configurar esses deslizamentos. Frente ao surgimento dos fenômenos contemporâneos, constata-se que o discurso político está em crise nas sociedades ocidentais. Nos Estados Unidos, por exemplo, nas últimas duas décadas, revela-se o “não investimento dos cidadãos, em face às funções públicas, evidenciando a desconfiança progressiva dos americanos em relação às suas instituições governamentais”. (Yankelovich 1982; Vavakova, 1990). Na França, a partir dos anos 70, como prova da incredulidade e indiferença aos discursos políticos, há um crescimento espantoso nos recordes de abstenção eleitoral, conseqüência da difamação dos discursos e das instituições públicas, pilares da exploração eleitoral. No Brasil, por extensão, com a dissolução da ditadura militar, a “espetacularização” da política brasileira foi um meio encontrado para reverter, ou 65 pelo menos, minimizar o desinteresse, o descrédito e a incredulidade frente ao discurso político. Essa nova ordem que se instaura, demanda mudanças drásticas no discurso político, e abre um novo campo promissor aos estudos desta modalidade de comunicação radicalmente nova. Os longos discursos cedem lugar a formas breves, de pequenas frases. Neste novo contexto, privilegia-se a astúcia verbal em detrimento da estratégia discursiva. Nessa nova modalidade de discurso político, passa a existir o indivíduo falante (o candidato), enquanto o aparelho político se apagaria: cada um falaria em seu nome e, portanto, as vozes não seriam mais partidárias, mas pessoais. O discurso político é assim submetido a uma dupla exigência: de um lado _ uma injunção à verdade: O discurso é então o “falar verdadeiro” e exprimiria em sua transparência as próprias coisas. Do outro lado, haveria um imperativo de simplicidade: o discurso é o “falar – francamente”, língua ordinária, banalização cotidiana das idéias políticas. (COURTINE, 2003 : 23). O que se percebe na verdade é que, por influência da mídia, há uma racionalização do espaço político, e no campo do discurso o reinado das formas breves é o primeiro elemento das transformações da fala pública. Comunicar em política passou a ser usar o mínimo de palavras fundamentais, perpetrar frases curtas e empregar algumas fórmulas. “Rebaixado de suas grandezas teóricas, assegurando um serviço ideológico mínimo, o discurso é então compreendido como o produto homogeneizado de um consumo de massa”. (idem : 23). Por outro lado, as formas didáticas da eloqüência política clássica, moldadas pela instituição escolar são substituídas por configurações novas, que submetem os conteúdos políticos às reivindicações das práticas de escrita e de leitura convenientes ao aparelho visual e audiovisual de informação. Acontece 66 simultaneamente, uma nova divisão da verdade no campo político, que tende fugir das demarcações tradicionais (direita/esquerda) para se dividir de acordo com as categorias do arcaico e do moderno. As formas longas, suspeitas de ambigüidade, opacas e mentirosas pertencem à categoria do arcaico, ao passo que as formas breves e modernas, vivas e claras, na sua retórica despida e sintaxe liminar, dizem respeito ao moderno. Courtine (2003, p. 23 - 4), em “Os deslizamentos do espetáculo político”, assevera ter ocorrido uma série de transformação no discurso político e aponta um conjunto de características dessa “nova” linguagem política, entre as quais a brevidade, a conversação, o homem privado sobre o personagem público como os elementos principais dessas recentes transformações na linguagem política. Para essas mudanças no campo discursivo tem papel altamente expressivo a mídia, fenômeno designado como “politização da mídia”. Hoje já não se faz política sem a presença marcante da mídia, que assumiu o papel de apresentar os candidatos e difundir suas propostas ao público, como tem acontecido atualmente através do chamado “horário eleitoral gratuito”. o enfraquecimento do Estado-providência não somente possibilitou o deslocamento das estratégias midiático-publicitátias do mercado (instância do foro privado) para o cerne do campo político (lugar da res publica), mas também fomentou a atuação politizada da sociedade civil. Em outras palavras, o encolhimento do raio de ação estatal teria estabelecido, em contrapartida, a ampliação da política/moral para o espaço privado/ético.(PIOVEZANI, 2003, p. 57). Segundo Piovezani, ancorada na pretensa existência de um paradoxo que instala uma distância próxima e uma proximidade longínqua, a mídia se atribui à função de “descobrir a verdade por trás dos véus” e de revelá-la aos expectadores. A partir desse paradoxo entre a proximidade que é garantia de boa visão, e a 67 distância que assegura a isenção e a objetividade, a mídia assume o papel de portavoz que promete representar uma dada coletividade e, ao mesmo tempo, confrontarse com os agentes políticos, pois com seu olhar envolto e secreto, consegue desvelar o oculto ou sublinhar o que aparentemente passaria despercebido, ou seja, a mídia tenta recuperar a legitimidade. Subsidiada na pretensa existência, no espaço político, de um nível profundo (e, por isso mesmo, mais real), ou de uma dupla dimensão – a da manifestação (aparência) e a da imanência (essência) - , a mídia reivindica a legitimidade de sua laboração politizada, na medida em que diante daquilo que não é, mas que se manifesta como sendo ou aquilo que é, mas que apresenta não ser, a postura crítico-heurística que ela toma cumpre a função de deslindar o obtuso, de reverter o real. (idem : 57). É o que podemos compreender na aspiração do jornalista que escreve a coluna Em tempo. Ele tenta divulgar para a sociedade as particularidades lingüísticas de muitos dos nossos representantes, bem como os estratagemas politiqueiros de que alguns candidatos lançam mão para chegarem ao tão ambicionado poder. Dando prosseguimento a este estudo, nosso propósito é analisar como o gênero anedotário político tem se mostrado promissor à proliferação de recursos derrisórios, artifício amplamente usado para desqualificar e mostrar a inversão do discurso político. 3.2- O acontecimento político como palco para manifestação da derrisão Como demonstramos desde as primeiras páginas deste trabalho, nossa proposta é discutir o funcionamento discursivo da derrisão no gênero anedotário político mato-grossense. Nesse gênero, o sujeito do discurso ou articulista comenta ou apresenta um acontecimento político/social, revelando de forma mascarada seu 68 ponto de vista acerca desse acontecimento, usando deliberadamente de comentários, que permitem, por meio da memória discursiva, delegar o seu caráter derrisório. Apesar de já ter sido muito estudado e constituir-se fonte para inúmeros trabalhos acadêmicos, o discurso político mato-grossense não foi ainda analisado tomando-se o uso das variedades lingüísticas como motivo de derrisão, o que justificaria entre outras razões, a nossa escolha para desenvolvimento dessa pesquisa. Lançar o olhar sobre um aspecto pouco conhecido em nosso meio acadêmico e levar ao conhecimento público a capacidade de uma verve que, por mais agressiva que possa parecer, tem a força de nos enredar pelo riso, é sem dúvida um grande desafio. Por outro lado, talvez sejam os riscos um tanto atenuados, frente à crise política no cenário nacional, na qual cotidianamente, somos praticamente obrigados a assistir extasiados às trocas de amabilidades verbais derrisórias entre os nossos “respeitáveis” representantes no panorama político nacional, onde, como não poderia ser diferente (haja vista a histórica trajetória de corrupção no estado), há representantes dos políticos mato-grossenses envolvidos nos recentes episódios de corrupção. Desde o surgimento de mais um neologismo no Congresso Nacional - o termo “mensalão” que designa o pagamento de propina mensal a parlamentares para apoiar o governo federal na aprovação de seus projetos, desencadeou-se uma crise política, envolvendo inicialmente representantes do PT, PTB e PL e depois abrangendo inúmeros partidos, o mensalão já determinou a abertura de duas CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as denúncias, e nos forçou ao (des)prazer de acompanhar durante a realização de depoimentos dos envolvidos, o 69 uso exorbitante de derrisão durante os confrontos nos depoimentos à Comissão de Ética. Um exemplo, que certamente não passou despercebido aos ouvidos dos telespectadores, foi o embate verbal entre os deputados do PTB do Rio de Janeiro, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto do PL, levado ao ar inúmeras vezes pelas mídias, quando este, irritado com o companheiro que traiu a aliança, entregando todo o esquema, rebateu mais uma vez as acusações daquele: __ Vossa excelência veio mais uma vez enxovalhar essa casa, e não apresentou nenhuma prova... (Valdemar Costa Neto). Ao que Roberto Jefferson, subvertendo e pervertendo a fala e o pensamento deste, retrucou: __ (...) respeito os gostos de vossa excelência, que tem fama de mulherengo e jogador... Mediante tal enfrentamento, o contestante Valdemar calou-se, pois estava evidenciado que os rumos das acusações sairiam da esfera pública e entraria na particular, ou seja, passaria a expor peculiaridades de sua vida privada, o que tornaria sua situação ainda mais desconfortável. O uso de adjetivos pejorativos foi o recurso derrisório perfeito encontrado pelo oponente para vencer seu adversário. Outro episódio, no qual houve um show de elementos derrisórios, foi no enfrentamento de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e o já acima citado deputado Roberto Jefferson, no dia 02 de agosto de 2005 quando aquele depunha também na Comissão de Ética a respeito de seu suposto envolvimento no esquema de corrupção do chamado mensalão, onde peremptoriamente, negou todas as acusações, fato que levou o oponente Roberto Jefferson a fazer a seguinte declaração: 70 - Vossa Excelência é famoso por intimidar as pessoas. Tenho medo de vossa excelência. Vossa excelência me provoca os mais primitivos instintos! Esse pronunciamento do deputado Roberto Jefferson nos permite fazer a leitura de que ele, naquele momento, considerava o também deputado José Dirceu um homem desprezível, mentiroso, vil, e por tamanha desfaçatez, seria capaz de atacá-lo. Há neste discurso uma mistura destrutiva de derrisão e ironia. Assim, é necessário lembrar que, infelizmente, do mesmo modo como a corrupção tornou-se uma prática constante por alguns políticos na história deste país, há muito tempo o discurso político faz amplo uso da derrisão, ou seja, associação do humor e da agressividade para descaracterizar o oponente. Vale lembrar que a derrisão caracteriza-se ainda sob a forma de gracejos, trocadilhos, jogos de palavras irônicos, sufixações pejorativas, terminações eruditas e paródicas, truncamentos e deformações, antífrases14, discursos diretos, citações confessionais15, presença de “sic” sarcástico para ressaltar equívocos ortográficos, entre outros recursos, visando ridicularizar o outro. Como acontece no cenário mundial e nacional, também na política estadual temos exemplos de políticos que recorrem ao uso da derrisão ou são alvo desta, como por exemplo, o governador do Estado de Mato Grosso - Senhor Blairo Maggi, que contrariamente a outros políticos aburguesados, tomou como símbolo de diferenciação de seu governo ‘as botinas’ numa menção ao homem do campo, propendendo conotar que também é um deles, e como tal, desenvolverá políticas voltadas para o incentivo do agro-negócio. Notadamente, esta postura do senhor governador não foi bem vista no cenário nacional, pois lhe rendeu o título de maior devastador de florestas do país. Desta maneira, podemos compreender que o 14 A antífrase, ao assinalar um escândalo, elimina todo julgamento de aprovação ou desaprovação, permitindo aos adversários irem até as últimas conseqüências. 15 Consiste em atribuir o discurso a uma fonte confiável para os propósitos do locutor. 71 símbolo das botinas funcionou como um recurso derrisório, pois, ao contrário do que se esperava, corroborou para desconstruir a boa imagem do político Blairo Maggi no panorama nacional. Vale ressaltar que essa polêmica veio à tona logo após a revista Época publicar que o então governador de Mato Grosso seria o vice do senhor Geraldo Alkmin, governador de São Paulo, para as próximas eleições presidenciais. No tópico seguinte, analisaremos com mais propriedade o uso do recurso derrisório no discurso político mato-grossense. 3.3 Derrisão no anedotário político mato-grossense É necessário salientar também que pessoas públicas, estando aí inclusos os políticos, mantêm um relacionamento geralmente conflituoso com as mídias. E, neste cenário, os jornalistas são também, inevitavelmente, vítimas de uma estratégia de derrisão in praesentia, que visa tirar a legitimidade de seu papel e de seu estatuto, e ao mesmo tempo, permite ao entrevistado esquivar-se de certas questões embaraçosas. Como um bom exemplo, apresentamos mais um texto da Coluna Em tempo: Na última terça, a petista Serys Slhessarenko aproveitou um discurso proferido da tribuna do Senado e dedicou um minuto de críticas e ataques ao governo Blairo Maggi. Ela o chamou, por exemplo, de “truculento”. Ontem, ao chegar no Centro de Eventos do Pantanal para participar da solenidade de posse de Ary Leite na presidência do TCE, Maggi foi interceptado pelos jornalistas que queriam repercutir as declarações da senadora. Cauteloso, o governador disse que tinha até viajado ontem com Serys e, em tom irônico, comentou: - Na universidade, eu jogava truco e era rápido. Agora fiquei sabendo que sou truculento! 21 de janeiro de 2004, edição nº 4522 -(anexo E) 72 Neste texto, o governador Blairo Maggi, bem ao estilo lepenista16, esquiva-se de dar explicações a uma questão bastante embaraçosa e como alternativa, recorre ao recurso derrisório do jogo de palavras: truco/truculento, conseguindo ludibriar as expectativas dos jornalistas, forçando-os a dar a entrevista por encerrada, ou seja, por meio de um nocaute verbal, levou-os a lona. Numa expressão popular – ‘caloulhes o bico’. Considerando-se a língua como uma atividade que constitui os sujeitos e é constituída por eles ininterruptamente, tendo em vista necessariamente sua historicidade, isto é, sua relação com um contexto socioideológico, com as suas condições de produção, é necessário atentar para o funcionamento discursivo e para a polissemia do discurso: suas condições de produção lhe restringem os sentidos, e, ao mesmo tempo, podem ampliar suas possibilidades, porque os sujeitos e os contextos sociais em que se inserem são heterogêneos. Isso quer dizer que, ao internalizar a palavra do outro e lançar uma contra-palavra, o sujeito está produzindo, necessariamente, uma nova palavra, como ficou evidente no texto acima. Um dos postulados mais produtivos desenvolvidos pela análise do discurso refere-se à heterogeneidade discursiva, o que nos leva a conceber que o dizer é atravessado por outros dizeres e que a unicidade do sujeito inexiste nesse processo de constituição dos sentidos, ou seja, o sujeito não é fonte autônoma do sentido. O que equivale dizer que a idéia de uma heterogeneidade constitutiva dos processos discursivos introduz, na abordagem do sentido, uma exterioridade que é constitutiva do dizer e do sujeito, que só se estabelece nas relações com o exterior. 16 Derivado de Jean Marie Le Pen – candidato de extrema direita da Frente Nacional francesa, famoso pelo uso da truculência verbal. 73 A interpretação também trabalha com as marcações de memória discursiva. Para percebê-la funcionando em um texto, devemos seguir as pegadas das representações que uma sociedade constrói de seus temas. A memória se faz presente no momento em que o discurso se relaciona com sua exterioridade, o que se apresenta como ausente, participa da constituição do sentido, marcando-se sob a forma de implícitos. Partindo do princípio que a mídia é formadora de opinião, principalmente os meios de comunicação de massa, como os jornais, que têm maior alcance e sabem muito bem fazer uso dessa potencialidade, então, tudo que é levado ao público, comporta o desejo de influenciar o leitor, e o objetivo que podemos apreender da coluna Em tempo, é que seu autor, um representante da sociedade letrada que pode opinar sobre o uso da língua, e como representante desse grupo tem sua voz exposta num meio de comunicação de ampla circulação, pretende mostrar de que forma determinados políticos se comportam socialmente, principalmente com relação ao uso da língua materna. Na análise da derrisão edificada pela cena enunciativa, observaremos o trabalho de autoria que organiza o texto, compondo a cena como ponto de partida para a interpretação do sentido derrisório. A cena assume, assim, uma das dimensões constitutivas do discurso, pois oferece elementos para sua interpretação, ao mesmo tempo em que determina o lugar social dos enunciadores, bem como a formação discursiva destes. Veremos como o articulista, habilmente desenvolve o texto, colocando em cena um discurso outro, que ele de antemão problematiza, mas por meio de uma crítica sutil, tenta mascarar sua posição, como forma de manter um distanciamento em relação ao discurso que apresenta. 74 É o que passaremos a analisar a partir de agora, nos textos que compõem o corpus. Em 82, o então sapateiro Cícero, conhecido por "Padim Ciço", resolveu disputar candidatura de vereador em Barra do Garças pelo PMDB. Semialfabetizado, Padim Ciço (Padrinho Cícero), hoje com 65 anos, se tornou conhecido no município. Ele tinha um jeito engraçado de se manifestar em público. Os erros gramaticais, aliados às dificuldades de pronúncia, provocava ruído de comunicação. No primeiro discurso que fez em palanque, Padim Ciço acabou, sem querer, se indispondo com o ex-deputado estadual por dois mandatos José de Arimatéia, que estava no palanque, do seu lado. Empolgado, Padim Ciço afirmou: - Meus amigos, cheguei na Barra do Galça (Garças) e joguei uma sumente (semente). Essa sumente (semente) germinou e daí nasceu uma grande alve (árvore). E essa alve (árvore) deu muitas fruitas (frutas) e Zé de Arimatéia é uma dessas fruitas (frutas). Irritado com aquela história e achando que Padim Ciço (Padrinho Cícero) estava se referindo a ele de maneira pejorativa, Arimatéia tomou o microfone do candidato a vereador e emendou:_ Fruita é a puta que....!!! 07 de março de 2004, edição nº 4.557 -(anexo F). Chamou-nos a atenção esse texto, não só pelas marcas lingüísticas que evidenciam a língua materna do enunciador citado, mas especialmente pelas “falhas” detectadas, mesmo na escrita monitorada do enunciador citante, que infringe regras da Gramática Normativa, ao usar, por exemplo, a regência incorreta do verbo estar, que exige o uso da preposição a e não de, como escreve o colunista: “estava no palanque, do seu lado”, ao invés de “ao seu lado”. 75 Quanto ao discurso do enunciador citado, detectamos o lambdacismo17 presente nas palavras <galça> e <alve>, que sinaliza a consciência dele em relação ao valor social da língua materna na sociedade, e sobre os julgamentos a que está submetida nos mercados lingüísticos. Esse fenômeno, também chamado de hipercorreção, nada mais é do que a manifestação do desejo de se apropriar das formas lingüísticas de maior valor no mercado de bens simbólicos. O falante, ao pronunciar alve<árvore, realizou um fenômeno que tem se mostrado uma tendência na língua portuguesa: a redução de palavras proparoxítonas a oxítonas Há também os arcaísmos <fruitas> e <sumente>. Na primeira palavra identificamos uma ditongação, fenômeno considerado por Penha (1997, p. 33-35) como resquício de língua antiga, ou seja, forma arcaica, que atualmente quase não se encontra nos usos da língua. Na segunda palavra, encontramos uma alteração do <e> para <u>, no início da primeira sílaba, caso bastante raro nos dias atuais, mas que é facilmente encontrado nos textos antigos. Santiago-Almeida (2005) afirma a ocorrência do fenômeno na palavra <sumana> na Baixada Cuiabana. Discursivamente, pode-se dizer que há restrição ao discurso do vereador porque ele infringiu regras que definem as qualificações que devem possuir os indivíduos que falam publicamente, que devem ocupar determinadas posições e formular determinados tipos de enunciados. E o discurso político, assim como os de outras esferas sociais, não pode se dissociar dessa prática, que determina para os sujeitos falantes propriedades particulares e papéis preestabelecidos. Entre estes papéis, subentende o de um sujeito que faz uso da modalidade culta da língua. E, a mídia, para quem o único padrão de língua aceitável é o prescrito nas gramáticas normativas, vê na língua falada pelas pessoas, como faz questão de marcar o 17 Troca do fonema <r> pelo <l>. 76 colunista por meio do termo “semi-alfabetizado”, uma infração grave, que merece destaque punitivo, como se fazia na Idade Média com aqueles que cometiam algum crime e eram severamente castigados em público para servirem de um exemplo a não ser seguido. Assim, ao transcrever a fala do personagem do seu texto, o colunista faz questão de fazê-lo integralmente somente das particularidades que convém ao seu propósito, que é ridicularizar, expor a zombaria através do riso derrisório, o protagonista do acontecimento discursivo que publica, deixando claro, que para ele, o enunciador citante, o conceito de idioma é norma culta escrita. Por isso, ao trabalhar com textos midiáticos, não se deve menosprezar a interferência dos comentaristas na formação de opinião. Para Dumazedier (1966, p. 26), tais profissionais desempenham um papel altamente expressivo no que se refere à exploração da opinião pública, com propósitos de nutrição de expectativas sociais. Assim, além de servirem de intérpretes do objeto que serve de estímulo à participação social, “são naturalmente os elos de correntes diferentes de opiniões, podendo muitas vezes servir de orientação num rumo não muito legítimo” (p.26). Deste modo, contribuem decisivamente para formar as tendências de opinião pública ao divulgarem posições ou interpretações de fatos favoráveis ou desfavoráveis ao poder político vigente, ou a grupos de interesse que atuam na sociedade. Operando um recorte da realidade, podem por um mecanismo de manipulação, fazer com que o real não se mostre, seja através da omissão, atenuação ou falseamento de dados, como as contradições que subjazem às relações sociais. Pela seleção e mudança das formas de articulação do espaço e da realidade, a ideologia escamoteia o modo de ser do mundo. Esse modo de ser do mundo veiculado pelos discursos, recortado por uma instituição ou classe social num dado sistema, retrata, ainda que de forma enviesada, uma visão de mundo. 77 Do nosso ponto de vista, é o que faz o colunista do Jornal A Gazeta no Caderno de opiniões, coluna Em Tempo, que, ao tentar desqualificar o discurso que publica, levanta falsas questões a respeito da língua, análises sem qualquer base científica. No texto abaixo, o comentarista faz uma conjectura comprometedora, repleta de equívocos, preconceitos lingüísticos e culturais. Vejamos: Em 2002, assim que o PPS definiu oficialmente a candidatura de Blairo Maggi a governador, o então candidato à reeleição, senador Jonas Pinheiro, que estava no interior do Estado, telefonou do seu celular para a direção nacional do PFL com vistas a comunicar a decisão. Mato-grossense de Santo Antônio de Leverger, Jonas tem dificuldade em algumas pronúncias e troca, por exemplo, a letra "l" pelo "r", o que, em lingüística, se chama "corruptela de linguagem". Falando em voz alta, Jonas disse para o interlocutor: - Olha, nós escolhemos o candidato a governador! - Quem é? - É o Brailo! O senador repetiu o nome três vezes e mesmo assim o interlocutor não entendeu. Como alternativa, pediu: - Senador, tá difícil! Soletre por favor! Jonas Pinheiro, respondeu: - Então, anote aí: B – L - A – I – R – O. 17 de fevereiro de 2004, edição nº 4539 -(anexo G). Surpreendeu-nos o comentário do colunista de que o senador Jonas Pinheiro tem dificuldade em algumas pronúncias, pois o observei recentemente enquanto falava em uma propaganda eleitoral na televisão e não constatei nenhuma dificuldade de articulação. Como se percebe, o jornalista se investe de um poder de análise lingüística que não lhe é legítimo, para fazer um julgamento – por sinal equivocado, sobre o uso de termos técnicos da lingüística. Quem transita pelos meandros da lingüística sabe que a denominação para o fenômeno em questão é 78 rotacismo, e não “corruptela de linguagem”, como equivocadamente o jornalista nomeia o fenômeno, e faz com que o seu enunciar sobre a língua se transforme na materialização de preconceitos e estereótipos, contribuindo para a sedimentação e cristalização do preconceito lingüístico tão latente em nossa sociedade. Ele deveria saber que as variedades lingüísticas têm suas origens em fatores culturais, sociais e econômicos, e, num país tão desigual como o Brasil que não conseguiu democratizar nem mesmo a comida, longe está de democratizar as estruturas e os usos lingüísticos. Nós, estudiosos da língua, sabemos que a sociedade brasileira é caracteristicamente heterogênea e multifacetada, principalmente no que concerne à questão da linguagem, e a baixada cuiabana não é exceção, haja vista a existência de conflitos entre as variedades lingüísticas, como em toda parte do país. Por isso, faz-se necessário retomarmos os conceitos de normal e normativo. Entende-se por normal o que é habitual, costumeiro, isto é, o conjunto de regularidades detectáveis numa realidade de usos da língua. E por normativo, entende-se o sistema ideal, não real de valores que é imposto dentro de uma comunidade. Ancorados nestes conceitos, podemos afirmar que na Baixada Cuiabana há um uso normal do fonema <r> em detrimento do fonema <l> nos encontros consonantais, ou seja, o rotacismo é uma característica normal no uso da língua por essa comunidade de falantes nativos, uma vez que pesquisas realizadas revelam sua atual produtividade, embora desprestigiada socialmente. Santiago-Almeida (2000, p. 173) apresenta o resultado de uma pesquisa feita entre falantes com mais de 50 anos, com pouca escolaridade e história de vida ligada lingüística e culturalmente à Baixada Cuiabana, na qual verificou que o rotacismo acontece em 100% dos casos nos encontros consonantais na oralidade. Cox (2005, p. 109) nos dá exemplo de rotacismo em textos escritos, 79 desde os menos formais e monitorados, como anotações pessoais de um aluno de informática, que ao anotar os procedimentos básicos para se criar uma pasta, grafou o termo <cricar>, até os mais formais e monitorados, como uma carta de apresentação redigida por um advogado, na qual aparece grafada a palavra <preiteada>. Há poucos dias, ao fazer compras num supermercado, ao aproximarme do balcão de frios, deparei-me com a palavra <picles> grafada como <picres>. Ou seja, mais uma prova de que o rotacismo não faz parte apenas da oralidade, mas também está presente até mesmo na escrita formal e monitorada. Para se entender a forte presença do rotacismo na Baixada Cuiabana, faz-se necessária uma busca na história da constituição da língua portuguesa e desta capital e região, pois para analisar um aspecto lingüístico, não se deve menosprezar a história externa, nem tampouco a interna, pois ambas influenciam diretamente nas particularidades lingüísticas. Voltando às origens da língua portuguesa, podemos identificar o rotacismo em suas diversas fases. Cox (2005, p.101) fez um levantamento sobre essas hipóteses, e cita Maia (1986) que apresenta uma pesquisa em textos do galego-português18 no período que compreende do século XIII ao XVI, onde encontrou a atuação acentuada do rotacionismo, isto é, registro da letra <r> um detrimento do <l> nas posições CCV e elenca muitas ocorrências. Exemplos: preito (1278), prazo (1278), obrigamos (1329), obrigaçõ (1474). Durante o processo de instituição da escrita do português, muitas dessas palavras foram gramatizadas com <r>, todavia uma pequena parte continua com <l>, apoiando-se na legitimidade da etimologia latinizante. Outro fator relevante, é que no processo de formação das línguas românicas, o rotacismo foi decisivo para estabelecer diferenças entre o latim, o português, o francês e o espanhol, como se 18 Período da Língua Portuguesa entre o século XIII e meados do século VIX, compreendido como a fase arcaica da língua. 80 pode constatar através do quadro proposto por Bagno (1997, p. 40), transcrito abaixo. Latim Francês Espanhol Português Ecclesia Égise Iglesia Igreja Blasiu Blaise Blas Brás Plaga Plage Playa praia Como se vê, o rotacismo é um fenômeno lingüístico cuja presença é marcante desde a formação da Língua Portuguesa na Península Ibérica até sua expansão pelo mundo. Na África, há noticias de sua presença no Crioulo de Cabo Verde, em Portugal temos registros de rotacismo até na obra prima da Língua Portuguesa “Os Lusíadas” de Camões onde encontramos inúmeros casos de troca do <l> pelo <r>, como em: frauta (canto I, verso 5), frecha (canto X, 46), ingrês (canto VI, 47), pruma (canto II, 98) e pubrica (canto VII, 34). E no Brasil sua presença é expressiva, principalmente em algumas regiões, como o interior de São Paulo, pelos sertões de Minas, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná, Rio grande Sul e até pelo Nordeste, por onde os bandeirantes se encarregaram de difundir o dialeto formado no planalto piratiningano, conforme Santiago-Almeida (2000, p.7). Isso explica a ampla existência do rotacismo na Baixada Cuiabana, que foi povoada, sobretudo por bandeirantes e monçoeiros vindos principalmente de Piracicaba, interior paulista, considerado o berço do dialeto caipira19. Ao chegar aqui, a interação dos bandeirantes com os povos indígenas, mais especificamente com o povo bororo, cuja língua não dispõe do fonema <l> em seu sistema fonológico, o rotacismo encontrou as condições favoráveis para se fortalecer e perdurar até o presente século. 19 Dialeto resultante da interação entre o português arcaico tardio e as línguas indígenas e africanas (Cox 2005). 81 Cox (2005) propõe uma explicação plausível para o fortalecimento do rotacismo na região da grande Cuiabá, da seguinte forma: a sua persistência e intensidade no falar cuiabano estão, certamente, ligadas à difícil e escassa comunicação da região com outras partes do país ao menos até as primeiras décadas do século XX, à falta de escolas e, conseqüentemente, ao baixíssimo grau de letramento da população, à quase inexistência da imprensa, à distância do aparelho estatal com sua burocracia e linguagem formal e protocolar, entre outros fatores de unificação (COX, p. 104). Para efeito da conclusão de análise deste texto, vamos dizer que temos a tendência quase que compulsiva de rotular de erradas as formas lingüísticas que fazem correlação estreita com classe social, ainda que, consciente ou inconscientemente, façamos uso destas mesmas formas. Mesmo assim, queremos que prevaleçam as marcas dos grupos de prestígio. Vejamos no texto a seguir como a mídia usa de um saber metalingüístico para fazer um julgamento e desqualificar o sujeito falante: Nas eleições de 1998, o então governador Carlos Bezerra (PMDB) foi participar de um comício em Alta Floresta. No palanque estavam, além dele, alguns deputados e vários candidatos, além de Joarez Gomes, secretário-chefe da Casa civil, e o assessor da Assembléia Legislativa, Pedro Tercy. Quando o locutor anunciou que o deputado Osvaldo Paiva, da Grande Cáceres, iria falar, a platéia começou rir. Joarez, incomodado com a risada em coro, perguntou: - Escuta, estamos cagados? E as pessoas continuaram rindo. Bastou Paiva começar o discurso para Joarez entender o porquê do riso. Semi-alfabetizado, Paiva tinha mania de pluralizar as palavras e iniciou o discurso dizendo: - Povos (povo) de Colíderes (Colíder), povos (povo) de Altas Florestas (Alta Floresta), de Sinopes (Sinop), de Apiacazes (Apiacaz)... Texto publicado em 09 de junho de 2004 - (anexo H). 82 O que se percebe, neste texto, é que o elemento que suscitou o riso na platéia, foi, indubitavelmente, a generalização no uso do plural. Mais uma vez deparamo-nos com o caso de hipercorreção. Talvez por medo de incorrer no erro, o falante é impelido a produzir o que os puristas classificariam como “pérolas” da língua portuguesa. Na verdade o que é estigmatizado é a falta de concordância. Desejando se comportar de acordo com a norma ideal, o candidato torna a regra de concordância produtiva demais. Neste texto, o pitoresco é explorado como recurso derrisório marcador de forma lingüística de menor prestígio social, pois fornece indícios de que o usuário possui baixo grau de conhecimento a respeito de sua língua materna. Isto é, o falante está dispondo de construções que podem ser classificadas como “formas socialmente marcadas”, pertencentes ao rol das que têm menor valor na sociedade letrada, e, como numa sociedade uma variedade lingüística vale o que valem as pessoas que dela fazem uso, logo se percebe os valores atribuídos ao discursante, que é desrespeitado pela platéia enquanto fala. Ademais, o emprego do coletivo povo no plural e dos substantivos que nomeiam as cidades, é avaliado negativamente e rotulado de erro, rótulo que, automaticamente, é aplicado a todas as características físicas e psicológicas, bem como a outros comportamentos sociais do falante que se serve dela. O suposto erro lingüístico parece desencadear uma série de avaliações derrisórias sobre o indivíduo, numa cadeia de causas e conseqüências que, por ser meramente ideológica, é necessariamente falsa: alguém fala errado porque pensa errado. O outro lado desta moeda ideológica é fácil de imaginar: quem fala certo, pensa certo... . No texto seguinte, veremos mais uma vez o uso de mecanismos derrisórios, com vistas a desqualificar o sujeito do discurso. Neste caso, como em outros já mostrados, o articulista faz uso do vocábulo, por sinal recorrente nos textos 83 analisados: semi-alfabetizado - para justificar os erros lingüísticos cometidos pelo enunciador. Bahktin (1995) escreveu que “A palavra está sempre carregada de um conteúdo ideológico ou vivencial” (p. 95) e continua sua assertiva dizendo que nós reagimos somente àquelas que despertam em nós “ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida”. Desse modo, o termo semi-alfabetizado é carregado de significado, além do dicionarizado ‘quase analfabeto’, denota também aquele que ‘quase não sabe’ em contraponto a alfabetizado, que é aquele que sabe. Apreendemos, que a ideologia de língua para mídia é a gramática, pois os fios condutores do discurso que se evidencia neste, como nos demais textos por nós analisados neste trabalho, são extremante preconceituosos. Vejamos mais um exemplar: Ananias Martins de Souza, falecido em 1995, foi vereador por quatro mandatos em Rondonópolis. Semi-alfabetizado, era um figura cômica. Em 1988, o então prefeito Fausto Faria (PMDB) encaminhou um projeto à câmara concedendo o reajuste salarial ao funcionalismo, cujo percentual proposto foi questionado por infringir a Constituição. Ananias foi à tribuna, criticou o prefeito e, ao final do discurso, comentou: - Esse projeto é anticoncepcional! O plenário caiu em gargalhada. O vereador Odinarte Borges (PSB) tentou corrigir o colega: - Ananias, não é anticoncepcional. É inconstitucional. Ananias, então, voltou à tribuna: - Ah!, eu descobri que vocês estão rindo de mim porque falei antiiiiiiiconcepcional. Mas esse projeto não deixa de se anticoncepcional porque com um salário desse não dá para o trabalhador ter filhos. 27 de janeiro de 2004, edição nº 4518 - (anexo I). Do que ri, o ouvinte ou interlocutor deste discurso? Provavelmente impulsionado pela surpresa do uso de uma palavra parecida foneticamente com 84 outra <anticoncepcional> por <inconstitucional>, e também pela descoberta de algo familiar no âmbito fonológico, mas distante semanticamente. Na realidade, o contestante (visto que tomou a tribuna para protestar contra um determinado projeto do prefeito), inconscientemente, lançou mão do recurso da analogia, que de acordo com Ismael Coutinho (1976, p. 150) “é o princípio pelo qual a linguagem tende a unificar-se, reduzindo as formas irregulares e menos freqüentes a outras regulares e freqüentes”. Como se pode perceber, o termo inconstitucional é pouco familiar ao vereador em questão, ao passo que anticoncepcional parece bem mais corriqueiro. Na mesma gramática de Ismael Coutinho parece um julgamento de valor em relação a quem recorre à analogia: “São as pessoas que se encontram em condições menos favoráveis para usarem da razão, como os ignorantes e as crianças, nas suas tentativas para serem compreendidas” (ídem, p. 151). É comum ouvirmos crianças no período de aquisição da língua materna procederem à analogia, principalmente quanto ao uso de alguns verbos como trazi, fazi, em comparação com comi, pedi, etc. Todavia, é chocante a forma valorativa e preconceituosa com que os indivíduos que usam a analogia são avaliados até mesmo por pessoas com conhecimento profundo a respeito dos usos da língua, como os gramáticos. Deste modo, é até compreensível o julgamento equivocado daquelas consideradas leigas a respeito do assunto. No rol dos leigos acredito que não podem ser arrolados os jornalistas, porque se estes se permitem emitir juízo de valor a respeito da linguagem de seus personagens, evidencia que possuem um conhecimento de língua que os autorizem a fazer tal julgamento. No texto que se segue, o sentido derrisório é construído a partir do uso inadequado dos pronomes de tratamento e possessivos. Na verdade, este uso 85 revela uma consciência do enunciador com relação ao grau de formalidade exigido pela situação. Todavia, apesar dessa consciência, o falante demonstra não ter o domínio desse uso, caindo na teia do imperdoável crítico da linguagem. Vejamos: Dois vereadores marcaram época em Rondonópolis nas décadas de 1980 e 1990. Representante do Distrito da Vila Operária, Ananias Martins de Souza (PFL), que faleceu em 1995, exerceu quatro mandatos. O comerciante e pecuarista Pedro Lourenço da Draga (PMDB), foi vereador por cinco mandatos consecutivos. Semialfabetizados, ambos eram tidos na política como figuras cômicas. Em 1991, numa das sessões ordinárias da câmara municipal, Ananias discursava da tribuna, enquanto Pedro da Draga tentava interrompê-lo, insistentemente. Irritado com aquela situação, Ananias alertou o colega parlamentar: - Quando minha excelência estiver falando, sua excelência cala a boca! 23 de janeiro de 2004, edição nº 4514 - (anexo J). Aqui se evidencia o pensamento de Foucault de que o falar é um poder do qual queremos nos apoderar; caso contrário, não haveria necessidade de se desenvolver mecanismos de controle e de vigilância. O sujeito fala para exercer o poder, tanto que o enunciador não permitiu rebaixar-se do posto de “excelência”, uma vez que também era vereador e deveria ser reconhecido como tal. Ao colunista, cabe o seguinte questionamento: em que ele se baseia para afirmar que o enunciador do discurso é semi-alfabetizado? Acreditamos que a maneira como as pessoas falam não pode ser tomada como parâmetro para medir seu grau de letramento20, ou então o que diríamos do ex-ministro da Casa Civil, deputado José Dirceu que para negar as acusações a ele atribuídas, afirmou veementemente que era “Inocêncio”21 de todas elas? Mediante o exposto, 20 Potencialidades básicas, que consiste no conjunto de práticas sociais que usam a escrita como sistema simbólico, ou condição que assume aquele que aprende a ler e escrever. 21 Publicado na revista Veja nº 32 de 10 de agosto de 2005. 86 entendemos que ao assinalar a condição de letramento do sujeito do discurso, o jornalista o faz com a intenção de desqualificá-lo, mas, por meio do riso provocado derrisoriamente, pode esquivar-se das possíveis responsabilidades, caso seja acusado por algum leitor de zombar do acontecimento discursivo citado em sua coluna, porque a derrisão aí se constrói por intermédio do conhecimento que se tem do valor social estabelecido historicamente sobre as variedades lingüísticas, haja vista que os sentidos são construídos na relação que os discursos mantêm com outros circulantes na sociedade e que formam o imaginário social dos sujeitos envolvidos no processo discursivo, ou seja, há o reconhecimento de já-ditos, que possibilitam ao sujeito realizar um deslocamento de sentido, que deixa entrever neste gesto a presença de outro discurso, que é problematizado, deslocado e resignificado. É pertinente lembrar que todos os textos selecionados para este trabalho apresentam fortes indícios de que são produtos da oralidade, haja vista os indicativos de que foram apreendidos no ato de sua pronunciação, muitos deles proferidos em palanques ou tribunas e outros em diálogos informais, ficando explícita a escrita monitorada somente na introdução elaborada pelo colunista. Como apresentamos anteriormente, mesmo sendo a fala e a escrita os dois lados de uma mesma moeda, ambas possuem características próprias, o que nos autoriza a dizer que não podem ser tomadas uma como sinônima da outra, ou seja, a fala não é representação da escrita, pelo contrário: a escrita é uma tentativa de representação da fala. Assim, o colunista ao nomear a fala de seus protagonistas como cômica, engraçada, com ruído de comunicação, ou apresentar os próprios falantes como semi-alfabetizados, cômicos, beberrões, inconvenientes ou comentar os expedientes 87 inusitados adotados para conquistar votos, está dando pistas para a interpretação derrisória, pois há, na sociedade, uma memória discursiva de efeito de sentido negativo para essas qualidades ou ações, que são menosprezados até no meio onde acontecem. Pela leitura que fizemos dos textos, percebemos que neles há indícios do que acontecia na Idade Média, quando as autoridades eram ridicularizadas e criticadas por intermédio de representações. A esse respeito Bahktin escreveu o livro A Cultura Popular na Idade Média (1965). Segundo ele, as formas da cultura cômica popular da Idade Média, entre elas as festas carnavalescas, os palhaços, los bufones22 e a literatura paródica em geral, constituíam um âmbito de expressão popular que permitia uma visão do mundo distinta da oficial, isto é, a visão da igreja e do Estado. Frente à perenidade das regras que regiam o mundo, expressadas nas festas oficiais, o riso constituía uma liberação transitória na qual se eliminavam as relações hierárquicas, subvertiam-se as regras e ignoravam-se os tabus. Essas manifestações caracterizavam-se principalmente por reverterem a lógica original das coisas, ou seja, na inversão carnavalesca, o mundo invertido se converte em norma. Assim, ao eliminar o temor ao mistério, ao mundo e ao poder, opunha-se à mentira e à adulação, e permitia-se revelar ousadamente a verdade do mundo e do poder. Ao permitir a visualização de novas perspectivas, a inversão paródica do mundo rompia com os tabus, bem como com a visão de mundo imutável imposta pelo poder. Assim, percebemos que com os deslizamentos sofridos pelo discurso político, houve também uma inversão do sujeito político, pois não é mais necessário recorrer a representações. Atualmente é possível zombar publicamente dos poderosos (políticos), citando nomes, cargos, partidos, coligações, apontando-lhes os pontos 22 Bobo da corte. 88 fracos, os erros. Ao chamá-los de figuras cômicas, como faz o colunista, está equiparando-os a palhaços, bobos da corte e de certa forma, subtraindo-lhes o poder. Convém ressalvar que em todos os casos de derrisão analisados, percebe-se uma tentativa de resguardar a alta cultura, uma vez que transparece a pretensão do enunciador citante de restituir a visão dominante do uso da língua materna – da norma padrão, pois os políticos tomados como alvo de zombaria, de derrisão, são aqueles que não detém o domínio desse uso. Enfim, o riso é próprio do homem, sem dúvida, mas às vezes ele irrompe por lugares sérios, sob a capa do agente provocador pronto a sabotar. É o que podemos perceber nos textos que a primeira leitura parece uma simples e inocente piada. Contudo, o discurso humorístico é acima de tudo crítico, principalmente no que tange ao humor político. Freud já dizia que jamais se poderiam classificar as piadas políticas entre as inocentes. Além disso, As coisas “murmuram um sentido que nossa linguagem precisa apenas fazer manifestar-se” (Foucault, 2004, p. 48). Desse modo o que podemos perceber é a forte presença do uso de mecanismos derrisórios, com vistas a descaracterizar os enunciadores em questão, por estes não fazerem uso da norma canônica do português brasileiro, sinalizando que não são os mais indicados para representar o povo de sua cidade, uma vez que não possuem o domínio da modalidade de prestígio da língua, também não terão atitudes coerentes com a função do cargo, que exige o saber pensar, a criação de projetos relevantes para o bem da população, entre eles a prioridade à Educação, como é de praxe dos discursos políticos. 89 Considerações finais Sem qualquer pretensão de querer fechar ou ter esgotado o tema desencadeador desse trabalho: derrisão no anedotário político mato-grossense, abordamos o que julgamos ser fundamental para nossa reflexão, buscando, ao mesmo tempo esclarecer por meio das análises apresentadas, os objetivos que foram inicialmente propostos. Temos a certeza de que nesse terreno há ainda muito que ser pesquisado, haja vista tratar-se de uma temática pouco explorada nos meios acadêmicos, o que pudemos constatar pela dificuldade para encontrar textos em português que debatessem o assunto. Com base teórica na análise do discurso de orientação francesa, nosso estudo da derrisão concebeu-a como um fenômeno discursivo do sujeito com/sobre os sentidos e no reconhecimento desse trabalho pelo interpretador, o que pressupõe a negociação ou compartilhamento de pontos de vista, valores sociais e culturais comungados entre os participantes do processo de construção do sentido derrisório. Concluímos que o processo de constituição da derrisão instaura-se num diálogo entre discursos, marcando sua constituição interdiscursiva, bem como o reconhecimento de sua localização em um lugar sócio-ideológico de onde os sentidos são produzidos. Nesse trabalho interdiscursivo, produz-se o deslocamento de já-ditos, da memória que se re-significa, possibilitando a produção/interpretação da derrisão. Observamos no desenvolvimento desse trabalho, que a derrisão apresenta-se sempre impregnada de um caráter de avaliação do enunciador citante em relação ao discurso que problematiza. Tal avaliação é consecutivamente realizada sob as 90 condições sócio-históricas que configuram a formação discursiva na qual se insere o sujeito que escreve na coluna. O que nos permite essa avaliação é a forma como se constitui lingüísticodiscursivamente o tom que o enunciador citante imprime ao texto, e que pode ser observado na constituição da cena enunciativa que, em última instância, denuncia o tom derrisório com que ele organiza o discurso, e fornece pistas sobre o lugar sócioideológico onde os sentidos são produzidos, apontando para sua formação discursiva. Deste modo, se observa do ponto de vista da interpretação, que a derrisão acontece no reconhecimento pelo interpretador do lugar que ocupa o sujeito do discurso, permitindo-lhe falar de um modo e não de outro. Outro aspecto que mereceu nossa atenção de como a derrisão acontece, foi o fato de que ela envolve tanto um procedimento discursivo do enunciador citante, que deseja que o sentido derrisório seja percebido, quanto das atribuições de sentido e avaliações do interpretador. Nessa linha de raciocínio, o interpretador da derrisão também é agente, porque sem sua percepção das pistas fornecidas, a derrisão não aconteceria. Assim, a derrisão não pode ser garantida apenas pelo fato de alguém ter a intenção de fazê-la. Na realidade, ela acontece porque as comunidades discursivas dispõem de elementos histórico-sociais e de conhecimentos acerca do ritual enunciativo que funcionam no momento da interpretação. Concluir este texto significa apenas concluir a reflexão que empreendemos para explicar o funcionamento da derrisão no anedotário político mato-grossense, considerando a constituição do sentido derrisório na relação da língua com a história. Vimos que tal relação é constitutiva do trabalho simbólico do sentido, o que 91 levou-nos a conceber os textos que circularam na coluna Em Tempo do Jornal A Gazeta selecionados para essa pesquisa, como unidades lingüísticas e históricas. Ressaltamos que esse estudo da derrisão no anedotário político matogrossense objetivou contribuir para levantar elementos de caracterização e descrição desse gênero, pois acreditamos que é fundamental para a produção de sentidos pelo sujeito, o gênero no qual o discurso se inscreve. No caso dos textos analisados, a derrisão se dá no deslocamento de valores instituídos por uma memória e que não pode ser desconsiderada na caracterização do ritual enunciativo, como elemento de constituição do sentido derrisório. Ademais, esperamos que esse trabalho possa ser uma contribuição a todos os interessados em estudar o processo de construção dos sentidos pela linguagem, porque, como pudemos observar no decorrer dessa dissertação, a derrisão aparece como um mecanismo no qual a produção dos sentidos ocorre no espaço entre o criador e seu interpretador e, assim, não deixa de tocar nos milhares de fios que constituem o discurso. Ao encerrarmos este trabalho, enquanto professora da Educação Básica, não poderíamos deixar de pensar na situação de ensino-aprendizagem de língua materna. Por esse motivo, sugerimos que os textos selecionados como corpus de análise para essa dissertação, ou seja, os textos pertencentes ao gênero anedotário político mato-grossense, sejam utilizados como material de leitura e reflexão sobre a linguagem, na escola. Acreditamos que esta proposta é imprescindível principalmente à clientela/alunos do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos, pois possuem mais maturidade, e enfrentam mais freqüentemente o preconceito lingüístico na sociedade, haja vista a luta destes pela inserção no mercado de trabalho. 92 Como linha delineadora desta proposta, tomamos as sugestões apresentadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, diretrizes que norteiam os currículos e seus conteúdos mínimos, propondo como novo caminho para solução de muitos impasses na área educacional, os gêneros textuais como objeto de ensino. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, os conteúdos de Língua Portuguesa encontram-se distribuídos em dois eixos de práticas discursivas: usos de linguagem e reflexão sobre a língua e a linguagem. Aqui, ressaltamos o eixo “usos de linguagem”, o qual tem como enfoque o caráter enunciativo desta, o que permite nomear as seguintes preocupações de estudo: a historicidade da linguagem; o contexto de produção dos enunciados; a produção de textos orais e escritos; o modo como o contexto de produção contribui para a organização do discurso, ou seja, para as tipologias comunicacionais (gêneros e suportes). Os PCNs foram elaborados com base em leituras de Bakhtin, que argumenta que dentro de uma dada situação lingüística o falante/ouvinte produz uma estrutura comunicativa que se configurará em formas-padrão relativamente estáveis de enunciados, a partir de contextos sociais e históricos. Em outras palavras, tais formas estão sujeitas a alterações em sua estrutura, dependendo do contexto de produção e dos falantes/ouvintes que os produzem, os quais atribuem sentidos a determinado discurso. Logo, são muitas e variadas as formas dos gêneros textuais. (BAKHTIN, 2000, p. 279). Com esta postulação, vê-se que os modos de organização do discurso e dos enunciados são resultantes da situação de produção; assim, é necessário delinear os gêneros do discurso, citando a situação de produção, o tema, a forma composicional, as marcas lingüísticas e disponibilizá-los aos alunos. Para tal, é 93 importante considerar que o modo como se operam as escolhas discursivas, fatalmente irão influenciar no sentido. Assim, um tipo de texto é o resultado de várias operações de linguagem efetuadas no curso do processo de produção. Acreditamos que os textos por nós sugeridos servirão como motivação para o desenvolvimento das aulas e que o humor pode funcionar como um recurso promissor para a argumentação crítica, e provavelmente incitará o debate sobre as idéias trazidas nos textos a respeito dos discursos silenciados e dos preconceitos já cristalizados, mas que não deixam de interferir em nossas vidas cotidianamente. No tocante à ação pedagógica, pensamos que disponibilizar aos alunos modelos de textos não é o bastante, é preciso encaminhar uma reflexão maior sobre o uso de cada um deles, do mesmo modo, considerar o contexto de uso e os seus interlocutores. Por isto, é imprescindível abarcar a questão dos gêneros discursivos como um aspecto central do trabalho com a linguagem na escola, para que a produção e a compreensão da linguagem se realizem de modo significativo, como se definiu a princípio, o texto como unidade de ensino e os gêneros como objeto deste. Assim, quanto maior for o contato do aluno com os diferentes tipos de textos, quer sejam oriundos da esfera social cotidiana (diálogos, currículos, solicitações...), quer sejam provenientes de uma esfera pública e mais complexa de interação verbal (discurso científico, jornalístico, romance...) maior será a sua capacidade de identificar e de refletir sobre os mecanismos lingüísticos e extralingüísticos que constituem o processo comunicativo; em particular, aqui, o gênero anedotário político, sua produção, circulação e os efeitos de sentido que podem produzir, 94 principalmente, no tocante à disseminação do julgamento de valor a respeito dos usos lingüísticos. Em suma, acreditamos que, para que as postulações apresentadas se configurem em mecanismos de mudança e de promoção do saber, é imprescindível que se realize um trabalho sistemático com gêneros que circulam na sociedade, visando principalmente aguçar a criticidade dos educandos, para que estes possam ver nas linhas e entrelinhas dos discursos, o que não está posto/explícito na superfície do texto. Assim, certamente, far-se-á a imperiosa contribuição ao ensino de leitura e produção de textos na escola. 95 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACHACHE, G. La communication: déclin ou extension de la politique? Esprit. Paris, 1999. AUROX, S. A revolução tecnológica da gramaticalização. Campinas: Pontes Editores, 2001. BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolingüística. São Paulo: Contexto, 1997. ________. Norma lingüística. São Paulo: Edições Loyola, 2001. ________. (org.). Lingüística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002. BAKHTIN, Mikhail. 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No primeiro discurso que fez em palanque, Padim Ciço acabou, sem querer, se indispondo com o ex-deputado estadual por dois mandatos José de Arimatéia, que estava no palanque, do seu lado. Empolgado, Padim Ciço afirmou: - Meus amigos, cheguei na Barra do Galça (Garças) e joguei uma sumente (semente). Essa sumente (semente) germinou e daí nasceu uma grande alve (árvore). E essa alve (árvore) deu muitas fruitas (frutas) e Zé de Arimatéia é uma dessas fruitas (frutas). Irritado com aquela história e achando que Padim Ciço (Padrinho Cícero) estava se referindo a ele de maneira pejorativa, Arimatéia tomou o microfone do candidato a vereador e emendou: _ Fruita é a puta que ....!!! Anexo F 106 Cuiabá, terça feira, 17 de Fevereiro de 2004 >> A Gazeta >> 3A Em tempo E m 2002, assim que o PPS definiu oficialmente a candidatura de Blairo Maggi a governador, o então candidato à reeleição, senador Jonas Pinheiro, que estava no interior do Estado, telefonou do seu celular para a direção nacional do PFL com vistas a comunicar a decisão. Mato-grossense de Santo Antônio de Leverger, Jonas tem dificuldade em algumas pronúncias e troca, por exemplo, a letra "l" pelo "r", o que, em lingüística, se chama "corruptela de linguagem". Falando em voz alta, Jonas disse para o interlocutor: -Olha, nós escolhemos o candidato a governador! - Quem é? - É o Brailo! - O senador repetiu o nome três vezes e mesmo assim o interlocutor não entendeu. Como alternativa, pediu: Senador, ta difícil!. Soletre por favor! - Jonas Pinheiro, respondeu: - Então, anote aí: B – L- A – I – R – O. Anexo G 107 Cuiabá, quarta feira, 09 de Junho de 2004 >> A Gazeta >> 3A Em tempo N as eleições de 1998, o então governador Carlos Bezerra (PMDB) foi participar de um comício em Alta Floresta. No palanque estavam, além dele, alguns deputados e vários candidatos, além de Joarez Gomes, secretário-chefe da Casa civil, e o assessor da Assembléia Legislativa, Pedro Tercy. Quando o locutor anunciou que o deputado Osvaldo Paiva, da Grande Cáceres, iria falar, a platéia começou rir. Joarez, incomodado com a risada em coro, perguntou: _ Escuta, estamos cagados? E as pessoas continuaram rindo. Bastou Paiva começar o discurso para Joarez entender o porquê do riso. Semialfabetizado, Paiva tinha mania de pluralizar as palavras e iniciou o discurso dizendo: _ Povos (povo) de Colíderes (Colíder), povos (povo) de Altas Florestas (Alta Floresta), de Sinopes (Sinop), de Apiacazes (Apiacaz)... Anexo H 108 109 110