MÁRCIA APARECIDA CAMPOS FURTADO
DERRISÃO NO GÊNERO ANEDOTÁRIO POLÍTICO
MATO-GROSSENSE
Dissertação apresentada ao Programa
de
Mestrado
em
Estudos
da
Linguagem da Universidade Federal de
Mato Grosso - UFMT, como parte dos
requisitos para obtenção do título de
Mestre em Estudos de Linguagem.
Área de concentração: Ensino Aprendizagem de Língua
Orientador: Professor Doutor Roberto Leiser Baronas.
Cuiabá – MT
2005
F992d
Furtado, Márcia Aparecida Campos.
Derrisão no gênero anedotário político mato-grossense./
Márcia Aparecida Campos Furtado. – Cuiabá: a autora, 2005.
110p.
Orientador: Prof.Dr. Roberto Leiser Baronas.
Dissertação. Universidade Federal de Mato Grosso.
Instituto de Linguagem. Campus de Cuiabá.
1. Lingüística. 2. Análise do discurso. 3. Gênero
4. Derrisão. 5. Língua. 6. Linguagem. I. Título.
CDU 81’42
2
3
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a minha família,
particularmente a meu esposo e meus filhos que
não raras vezes,resignada e pacientemente,
suportaram minhas ausências. Também pelos gestos e
palavras de apoio nos momentos de cansaço e
desalento no decorrer deste estágio
de crescimento intelectual.
4
AGRADECIMENTOS
Agradeço...
A Deus, pela vida, pela saúde, e pela concessão de mais essa realização.
Aos meus pais, por terem me ensinado os princípios para uma vida digna.
A minha sogra e meu sogro que, nas dificuldades dessa empreitada,
confortaram-me com sábias palavras, sempre acompanhadas de orações pelo
restabelecimento do meu ânimo.
Ao meu orientador, Professor Dr. Roberto Leiser Baronas pela oportunidade,
confiança, ensinamentos e, sobretudo, por acreditar nesse projeto.
Às professoras Drª Maria Inês P. Cox e Drª Vanice Mª de O. Sargentini pelas
valiosas sugestões e comentários dados quando da realização do meu exame de
qualificação, contribuindo sobremaneira com referências e apontamentos preciosos
e oportunos para complementação da nossa pesquisa.
Ao professor Dr. Marcos Antonio M. Vieira pelas valiosas contribuições na
realização dessa pesquisa, seja pelos ensinamentos da disciplina por ele ministrada,
seja como integrante da banca examinadora, e principalmente pela atenção nos
momentos de dificuldade.
Ao professor Dr. Manoel Mourivaldo, que incentivou-me no início dessa
jornada, que transformou-se num grande amigo, e ao partir, deixou muitas
saudades.
Aos funcionários do Instituto de Linguagem, especificamente à secretaria do
MeEL pelo atendimento prestado, sempre com cordialidade.
À minha querida amiga Mônica, pela agradável companhia, pelas grandiosas
contribuições e por ouvir-me, incentivar e dar força nos momentos de fragilidade.
A todos os colegas que, de alguma maneira contribuíram para a travessia de
mais esta etapa, em especial a Joelma, Maria Domingas e Robson, pela amizade e
contribuições, imprescindíveis ao desenvolvimento desse trabalho.
À Secretaria de Estado de Educação, por licenciar-me das atividades
docentes para que pudesse dedicar-me integralmente ao desenvolvimento final
desse trabalho.
À minha colega de trabalho Sônia Pozeti pela paciência, compreensão e
apoio nos momentos de tensão. E finalmente, a todos que, direta ou indiretamente,
contribuíram para a realização dessa pesquisa.
5
RESUMO
FURTADO, M.A.C. Derrisão no gênero anedotário político Mato-grossense.
Esta dissertação se constitui numa análise do funcionamento discursivo da
derrisão no gênero anedotário político mato-grossense. Nossa hipótese é que a
derrisão, neste gênero, se apresenta como um contra-argumento construído
discursivamente, uma vez que o enunciador apresenta uma avaliação a respeito da
enunciação, evidenciando que a derrisão não pode ser explicada fora da relação
interdiscursiva que possibilita todo o dizer. Com base no pressuposto de que a
derrisão acontece sob a determinação de vários fatores, dentre eles a memória
discursiva, o interdiscurso, o poder, o compartilhamento de conhecimento entre
enunciador e receptor, este estudo da derrisão defende que esta forma de
apresentação da linguagem não pode ser explicada sem que relacionemos a
linguagem às condições (lugares institucionais) de seu uso e a produção de
posições subjetivas em relação ao contingente social das formações discursivas (o
que pode e deve ser dito numa conjuntura histórica), o que evidencia que o sentido
não reside em lugares pré-determinados de propriedades da língua; além disso, a
derrisão não pode ser teorizada de fora da história e de sua determinação social,
porque os elementos lingüísticos e históricos estão em constante relação de
interação e conflito. Nessa perspectiva, este trabalho elegeu o anedotário político
como corpus de investigação da derrisão e, para explicar seu funcionamento
discursivo nos textos selecionados, lança mão dos conceitos desenvolvidos no
interior da análise do discurso de origem francesa derivada de Michel Pêcheux, os
conceitos de cena enunciativa de Dominique Maingueneau, o conceito de memória
discursiva de Jean-Jacques Courtine, de derrisão de Simone Bonnafous, e de poder
de Michel Foucault, vistos como elementos de constituição do sentido na
instauração da derrisão nos textos.
Palavras-chave: Análise do discurso, anedotário político e derrisão.
6
RESUMÉ
FURTADO,M.A.C. Dérision dans le genre anecdotique politique Mato-grossense
Cette dissertation si constitue dans une analyse du fonctionnement discursif
de dérision dans les genre anecdotique politique mato-grossense. Notre hypothèse
est que la dérision, dans cette genre, si présente comme un contre-argument
discursivement construit, une fois que l'enunciador présente une évaluation
concernant l'articulation, démontrant que la dérision ne peut pas être expliquée en
dehors de la relation interdiscursif qui fait l'énonciation toute possible. Sur la base
dans le presupposé de que la dérision se produit sous la détermination de plusieurs
facteurs, parmi eux la mémoire discursif, l’interdiscours, la puissance, le partage de
la connaissance entre l'enunciador et récepteur, cette étude de la dérision défend
que cette forme de présentation de la langage ne peut pas être expliquée sans se
lier la langue aux conditions (endroits institutionnelles) de son utilisation et de la
production des positions subjectives par rapport au contingent social des formations
discursifs (ce que peut et doit être dit dans une conjoncture historique), le quel mettre
en évidence que le sens n'habite pas dans les endroits avant-déterminés des
propriétés de la langue; de plus, la dérision ne peut pas être théorizée hors de
l'histoire et de sa détermination sociale, parce que les éléments linguistiques et
historiques sont dans la relation constante d'interaction et conflit. Dans cette
perspective, ce travail a élu l’anecdotique politique comme corpus d’investigation de
la dérision et, pour expliquer son fonctionnement discursif dans les textes choisis, il
jette main des concepts développés à l'intérieur de l'analyse du discours d'origine
française dérivée de Michel Pêcheux, comme les concepts de scène énunciative de
Dominique Maingueneau, dans le concept de la mémoire discursif de Jean-Jacques
Courtine, de dérision de Simone Bonnafous, et du pouvoir de Michel Foucault, vu
comme éléments de constitution dans l'instauration de la dérision dans les textes.
Mots-clè: analyse du discours, anecdotique politique et dérision
7
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...................................................................................................... 9
CAPÍTULO 1
Poderes da derrisão, criatividade e agressividade: primeiras impressões
18
1.1 Derrisão: uma violência politicamente correta?.............................................
18
1.2 Breve passagem na retórica e na lingüística.................................................
23
1.3 Derrisão: tensão entre o literal e o figurado.................................................... 29
1.4 Língua falada x escrita, poder e derrisão......................................................
35
CAPÍTULO 2
O acontecimento discursivo na mídia..............................................................
44
2.1 Informando e formatando opinião...................................................................
44
2.2 Os Gêneros do discurso e o sentido..............................................................
47
2.3 Os gêneros presentes no suporte jornalístico................................................
56
2.4 O gênero anedotário político mato-grossense ............................................... 57
CAPÍTULO 3
O espetáculo político na mídia........................................................................
65
3.1 Dramatização e violência simbólica................................................................ 65
3.2 O acontecimento político como palco para manifestação da derrisão...........
68
3.3 Derrisão no anedotário político mato-grossense...........................................
72
Considerações finais ........................................................................................
90
Referências Bibliográficas...............................................................................
96
Anexos ..............................................................................................................
100
8
INTRODUÇÃO
Frente
aos
deslizamentos
ocorridos
na
política
contemporânea,
e
apresentados ao público pela mídia como uma espécie de espetáculo, faz-se
necessário considerar sua dimensão sócio-histórica, bem como as irrupções
singulares no cenário político nacional, mais especificamente no mato-grossense.
Contemplando o relacionamento da política com a mídia, propomo-nos
investigar o seu papel na disseminação de efeitos de sentido negativos a respeito do
uso do português brasileiro por alguns políticos do estado de Mato Grosso.
Ancorada na pretensa existência de um paradoxo que instala uma distância
próxima e uma proximidade longínqua, a mídia se atribui a função de “descobrir a
verdade por trás dos véus” e de revelá-la aos expectadores. Entre as verdades
desveladas está o modo como o político faz uso da língua que é veiculado pela
mídia como alvo de zombaria, de derrisão.
Embora não seja sistematicamente estudada aqui no Brasil, a derrisão tem
sido usada com freqüência na conversação cotidiana e/ou nos discursos
institucionalizados, como o discurso da mídia e o discurso político, para citar apenas
alguns exemplos. Mas como se organiza esse efeito particular de discurso que
atesta o fato de que o sentido pode ser sempre agressivo ao(s) outro(s)?
Para a análise da derrisão como um recurso discursivo de descaracterização
do outro, buscamos sustentação nos pressupostos teórico-metodológicos da Análise
do Discurso de orientação francesa com o objetivo de descrever o processo de
produção e circulação da derrisão numa perspectiva outra que não a da retórica. De
posse desse objetivo e dos recursos metodológicos adotados, pretendemos mostrar
a sua “acontecência” na determinação de elementos envolvidos na interpretação,
como aqueles pertencentes à esfera das relações históricas que constituem os
9
sujeitos participantes do processo de produção e circulação dos sentidos na
linguagem: compartilhamento de valores sociais e culturais que delineiam o
imaginário das comunidades discursivas, fundamentais para explicar a constituição
dos sentidos.
Enquanto parte de um projeto de pesquisa maior, em andamento, intitulado
“Derrisão em Textos Imagéticos e Verbais: uma leitura discursiva da mídia impressa
brasileira”1, o trabalho em questão toma como base teórica os pressupostos da
Análise do Discurso
derivada de Michel Pêcheux e os conceitos de memória
discursiva (de Jean-Jacques Courtine), de derrisão (de Simone Bonnafous) e de
poder (de Michel Focault) para analisar como o discurso midiático impresso matogrossense, sob a ideologia da neutralidade, da imparcialidade e da objetividade, ao
tornar público determinados acontecimentos políticos, configurando-os como fatos
verídicos por intermédio do uso do gênero anedótico, contribui para a sedimentação
e cristalização do preconceito lingüístico existente em nossa sociedade, assim como
de forma derrisória, fornece condições de enunciabilidade para a descaracterização
do discurso político produzido atualmente em nossa sociedade.
Buscaremos contribuições também nas reflexões de Bakhtin sobre o estatuto
dialógico da linguagem e nos elementos para caracterização do gênero discursivo,
fundamental na análise de nosso objeto, além de outras correntes teóricas, como a
lingüística textual, a sociolingüística, a lingüística histórica, que serão necessárias
para o desenvolvimento de nosso trabalho.
Como corpus de análise, elegemos textos do caderno Opinião, da coluna Em
Tempo, do Jornal A Gazeta, periódico de grande circulação no Estado de Mato
Grosso, veiculados no primeiro semestre do ano de 2004. Os gêneros discursivos
1
O projeto de pesquisa é coordenado pelo Prof. Dr. Roberto Leiser Baronas e desenvolvido paralelamente na
Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT e na Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT.
10
em questão trazem aspectos do uso da linguagem que fogem à norma canônica do
português.
Para análise da derrisão no gênero anedotário político mato-grossense,
nossa hipótese é a de que ela se instaura no jogo discursivo que cria uma cena
enunciativa2, oportuna para a proliferação do sentido derrisório.
Assumir uma análise da linguagem em seu funcionamento discursivo exige
que se tome a língua na sua relação com o histórico, como parte do trabalho
simbólico. Isso implica introduzir na análise da constituição do sentido a relação dos
sujeitos com a língua na determinação das práticas sociais em cuja configuração os
sentidos são constituídos pelo imaginário coletivo e pelas representações culturais
que cercam essa relação, o que exige um deslocamento no escopo da investigação
da análise dos fenômenos da língua para a análise das discursividades.
Adotando o ponto de vista de que o discurso político mato-grossense
veiculado pelo jornal A Gazeta, no caderno Opinião, mais especificamente na coluna
Em Tempo, configura-se como um gênero discursivo, nossa pesquisa pressupõe a
necessidade do reconhecimento e da descrição do gênero anedotário político matogrossense. É o que tentaremos fazer entre outras questões no desenvolvimento
deste trabalho.
Acreditamos que esse gênero constitui um espaço discursivo propício à
instauração da derrisão, que é sinalizada na arquitetura textual, deixando entrever,
de forma sempre sutil, a opinião construída derrisoriamente sobre um tema relativo à
cena política e/ou social do Estado, ou sobre uma figura do cenário político. Tais
2
No entendimento de Maingueneau (2005, p. 75) a cena enunciativa integra de fato três cenas, as quais
denomina de “cena englobante, cena genérica e cenografia. A cena englobante corresponde ao tipo de discurso;
ela confere ao discurso seu estatuto pragmático: literário, religioso, filosófico... A cena genérica é a do contrato
associado a um gênero, a uma instituição discursiva: o editorial, o sermão, o guia turístico, a visita médica...
Quanto à cenografia, ela não é imposta pelo gênero, ela é construída pelo próprio texto: um sermão pode ser
enunciado por meio de uma cenografia professoral, profética, etc”.
11
sinalizações ou são registradas na superfície textual ou são negociadas no processo
de interação entre os atores do evento sócio-histórico chamado discurso.
Um estudo sobre a derrisão que adote o discurso como escopo, nos parece
relevante pelos seguintes aspectos. Primeiramente, pode nos fornecer um
conhecimento do funcionamento da linguagem e da construção dos sentidos em
texto e, assim, pode demarcar os processos semânticos dos diferentes usos da
linguagem. Oferecer contribuições para entendermos a relação entre gênero do
discurso e sentido, desde que tomemos como pressuposto teórico que cada gênero
institui um quadro enunciativo de referência que associa configurações formais e
elementos enunciativos constitutivos do sentido como, por exemplo, a relação
enunciador/enunciatário e a interdiscursividade. Permite explicar a materialização
dos processos discursivos envolvidos na derrisão. Por último, uma abordagem
discursiva da derrisão pode nos oferecer contribuições para explicar o efeito de
sentido derrisório que pode ser apreendido pelo leitor/interlocutor.
Descrever o processo de produção e circulação da derrisão em uma
perspectiva discursiva, a partir da análise de sua manifestação no anedotário político
mato-grossense, a fim de explicar o trabalho discursivo responsável pela
produção/circulação do sentido derrisório, procurando mostrar que o recurso desse
gênero manipula os efeitos da interpretação, e de certa forma resguarda a mídia do
questionamento e da desaprovação da opinião pública, se constitui no objetivo geral
de nossa pesquisa.
Dentre os objetivos específicos, propusemo-nos a fazer inicialmente a
descrição do gênero anedotário político mato-grossense. Analisar os indícios do
ritual enunciativo (cena enunciativa, relação enunciador/enunciatário) na constituição
da derrisão nos textos que compõem o corpus. Explicar a participação da memória e
12
do interdiscurso na produção/circulação da derrisão. Explicar a derrisão, observando
a relação entre os elementos de constituição do gênero discursivo. Verificar em que
medida o uso da derrisão contribui para a ridicularização do discurso político.
Observar de que modo a variedade não-padrão da língua pode ser objeto da
derrisão. E, por último, contribuir para a discussão sobre o ensino da leitura e da
interpretação crítica nos Ensinos Fundamental e Médio na escola brasileira.
Na tentativa de que nossa pesquisa possa oferecer respostas aos objetivos
acima, haveremos de focalizar a derrisão enquanto processo de interpretação, no
jogo discursivo que se instaura entre os participantes do evento discursivo. Assim,
nossa pesquisa enfatiza as seguintes hipóteses: Primeiramente, os elementos que
funcionam como indícios de interpretação da derrisão são da ordem da
materialidade discursiva, por isso a derrisão deve ser investigada na consideração
da relação da linguagem com a história, o que justifica uma abordagem discursiva
para explicar seu funcionamento. Depois, a análise da derrisão exige que se
observem as relações que se estabelecem entre o enunciador e os destinatários, daí
que os elementos pragmáticos que cercam a interlocução derrisória não podem ser
desprezados. Por último, cremos que o gênero anedótico cria uma cena enunciativa
particular, que se constitui num dos índices “da condição do legível em relação ao
próprio legível” (PÊCHEUX, 1999).
Confiantes de que a derrisão pode funcionar como um elemento significativo
para a compreensão do funcionamento da linguagem, procuraremos observar esse
fenômeno na esteira das relações intersubjetivas e históricas que garantem a
irrupção do sentido como mecanismo de estruturação da linguagem, sustentando
que um estudo da derrisão contribui para o entendimento das inter-relações sociais,
13
uma vez que, considerada na perspectiva do discurso, ela oferece elementos que
explicam a dimensão social, interativa e polêmica da linguagem.
Quando adotamos o discurso como escopo de investigação da derrisão,
estamos concebendo que ela ocorre no espaço da interpretação e, para isso
mobiliza elementos que se manifestam na materialidade discursiva, fornecendo
índices para a sua interpretação, mas que, às vezes, não são tão evidentes,
ocorrendo como manifestação da memória discursiva3, que se apresenta de modo
bastante sutil, materializada no nível do interdiscurso4. É por essa complexidade na
sua constituição que, muitas vezes, não é fácil identificar a derrisão. Devemos
considerar, ainda, que o sentido derrisório atribuído a um discurso, envolve o
reconhecimento da atitude avaliadora do enunciador pelos destinatários, relacionada
às determinações das comunidades discursivas, nas quais enunciador e destinatário
se inscrevem.
Assim, os sentidos são produzidos no interior de cada comunidade,
considerando seus valores, o imaginário coletivo que configura o saber das
diferentes comunidades discursivas existentes na sociedade, e que nos possibilita
dizer que o que é tomado como derrisório por um grupo de destinatários, pode não
ser para outro grupo, o que sustenta a asserção de historicidade de sentido.
Um estudo da derrisão como algo produzido no/pelo discurso, insere-se num
campo de investigação cuja metodologia de análise deve primar pela abordagem
qualitativo-interpretativa. Em se tratando do discurso, tal como o concebemos neste
trabalho, tal abordagem não pode deixar de considerar que os sentidos não são
literais e que um trabalho de interpretação de um fenômeno da linguagem necessita
explicar os sentidos, atentando para a opacidade da linguagem. Se a derrisão
3
4
Saberes compartilhados pelos interlocutores.
Relação multiforme com outros discursos que circulam na sociedade.
14
significa na relação entre ditos e não-ditos, a análise que empreenderemos tomará
essa relação, que para nós é inclusiva e diferencial.
Nossa perspectiva é de que o dito mantém com o não-dito uma relação
polêmica imprescindível para a construção do sentido, e não uma relação
secundária, como postulam algumas correntes dos estudos da linguagem. Se, como
afirma Orlandi (1999), na Análise do Discurso há rudimentos que não escapam ao
não-dizer, como a noção de interdiscurso, a de ideologia, a de formação discursiva,
usaremos delas para explanar o funcionamento discursivo da derrisão, dentre outras
formuladas pela Análise do Discurso para explicar o sentido. Assim, delineado nosso
campo teórico-metodológico, especificamos os procedimentos de abordagem do
nosso objeto de estudo. Pretendemos primeiramente, observar nos textos
selecionados para o corpus, que foram veiculados na mídia impressa matogrossense – jornal A Gazeta de Cuiabá, coluna Em Tempo - durante o ano de 2004,
envolvendo o período da campanha municipal, procurando evidenciar que o recurso
do gênero anedótico embalsama a interpretação e de certa forma protege a mídia do
questionamento, das sanções negativas, por intermédio da derrisão. Depois,
diagnosticar a derrisão numa perspectiva que a considera um efeito particular de
discurso capaz de permitir interpretações múltiplas, contudo não todas, pois elas são
afetadas por fatores discursivos como a memória, o interdiscurso, as formações
discursivas, as comunidades discursivas, o caráter dialógico da linguagem, a cena
enunciativa. E também, observar a relação entre os elementos de composição do
gênero e do sentido.
Os procedimentos acima nos levam a avaliar a derrisão como um
procedimento discursivo, pois possibilitam enxergar a convergência da linguagem
15
com as condições de produção, bem como com as posições subjetivas em relação
ao contingente social da conjuntura histórica, que propiciam o sentido derrisório.
Quanto a sua disposição, a presente pesquisa é constituída de três capítulos
e algumas considerações finais, que estão dispostos da seguinte maneira:
No capítulo 1, partimos da concepção da derrisão, construindo uma espécie
de panorama histórico, com passagem pela retórica e pela lingüística, objetivando
capturar elementos que possam nos auxiliar na explicação da derrisão numa
perspectiva discursiva. Fizemos também uma retrospectiva histórica e social dos
estudos lingüísticos, a fim de utilizá-la na análise da derrisão, haja vista ser
determinados usos da linguagem o principal instrumento tomado como elemento
derrisório nos textos selecionados.
No capítulo 2, acionamos conceitos desenvolvidos na Análise do Discurso de
orientação francesa, com foco nos elementos do ritual enunciativo, no trabalho
discursivo do sujeito e da memória discursiva, e na concepção do estatuto dialógico
da linguagem e de gênero discursivo propostos por Bakhtin, a fim de vinculá-los à
explicação da derrisão no corpus.
No capítulo 3, sistematizamos as análises dos elementos constitutivos dos
deslizamentos sofridos pelo discurso político nas últimas décadas. Tratamos o
discurso político pelo seu caráter eminentemente polêmico como um espaço
propício à manifestação da derrisão, observando-se a participação da memória e da
cena enunciativa, bem como do enunciador e do interlocutor no processo de
negociação do sentido derrisório.
Nas considerações finais, retomamos elementos que definem a derrisão na
perspectiva do discurso, enfatizando o papel da memória, da cena enunciativa, do
trabalho discursivo do sujeito e do gênero na constituição do sentido derrisório, e,
16
produzindo um efeito de fim, fizemos indicações das possíveis contribuições que um
trabalho efetivo com os textos selecionados para análise, possam viabilizar práticas
inovadoras de leitura, que não somente aquelas em que ler se constitui numa
viagem a bordo do sentido único do texto.
17
CAPÍTULO 1
Poderes da derrisão, criatividade e agressividade: primeiras impressões
"Uma palavra que vem ‘bem’
que pode matar ou humilhar,
sem que se suje as mãos”.
(P. Desproges)5
1.1 Derrisão: uma violência politicamente correta?
Segundo Baronas (2004, p. 156) a derrisão pode ser considerada um dos
recursos enunciativos mais antigos advinda da época clássica, batizada pelos
retóricos clássicos como “tropos zombeteiro”, estratégia retórica utilizada para
desqualificar o opositor, por meio da zombaria. Atualmente, ”o tropos zombeteiro”,
despido de seu caráter psicologizante, foi reelaborado, passando a ser concebido
pelos teóricos do discurso como derrisão. Embora não seja uma estratégia
lingüística nova, enquanto termo técnico ainda é pouco conhecido no Brasil. Na
França, em (1947), Marcel Pagnol já desenvolvia estudos sobre o riso derrisório:
“Diga-me de que tu ris que te direi o que tu és”6, na tentativa de entender os sentidos
do riso e os efeitos sociais que ele pode estabelecer na sociedade.
Os estudos desenvolvidos por Simone Bonnafous (2003) sobre a derrisão
definem-na como uma linha tênue entre o humor e a ironia, ou a associação do
cômico e da agressividade, que a caracteriza e a diferencia da pura injúria. Segundo
a autora, o uso do recurso derrisório foi muito expressivo no discurso político e na
imprensa política francesa do entre-guerras, especialmente na imprensa fascista e
5
6
Apud Nelly Feurehahn.In Revue. Dèrision – contestacion, 2001.
No original, Dis-moi de quoi tu ris, et je te dirai qui t’es.
18
no discurso francês, que se alimentaram de zombarias, gracejos, trocadilhos e jogos
de palavras irônicas. Nesse contexto, houve jogos discursivos que envolveram a
invenção verbal e a composição, feitos por meio de sufixações pejorativas,
terminações eruditas e paródicas, truncamentos e deformações.
Diferentemente da ironia que se apresenta “subvertendo a fronteira entre o
que é assumido e o que não é pelo leitor” (Maingueneau, 1997, p.98), uma vez que
o significado irônico acontece pela mobilização de uma complexidade de fatores
discursivos responsáveis pela produção e recepção de sentidos, a derrisão se
inscreve na materialidade lingüística do que se diz, com o desígnio de desqualificar
o destinatário. No entendimento de Baronas (2005, p.108), não obstante, os efeitos
do seu dizer são abrandados ora pelo efeito humorístico que provoca, ora pela
mobilização de discursos já regularizados na sociedade. No caso da ironia, o locutor
não assume explicitamente sua alocução, deixando para o destinatário esta
responsabilidade. Convém especificar que a derrisão presente nos textos que
compõem o corpus, terá sempre implícita ou explicitamente um valor metadiscursivo,
isto é, um uso e um comentário sutil para justificar esse uso”.
A derrisão também não se reduz ao riso, como se faz parecer. O termo
derrisão significa nos dicionários: riso desprezante e desdenhoso. O termo derrisório
significa algo que é dito por derrisão, e, por conseguinte, por analogia, algo que é
insignificante, negligenciável, ridículo, vão. Tornar ridículo, desprezar, sublinhar a
insignificância, são os traços associados à derrisão que permitem distingui-la das
noções de riso cômico ou de humor. A derrisão carrega uma dimensão de
contestação, de crítica à ordem estabelecida ou aos princípios largamente aceitos
numa sociedade ou num grupo. É este elemento de contestação dos valores sociais
que nos interessa aqui e que servirá de fio condutor deste trabalho. Propomo-nos a
19
conduzir uma análise discursiva da derrisão. O objetivo é estudar como o discurso
político ou autoridades políticas são alvos da derrisão, e também usuários desse
efeito particular de discurso, por meio dos diversos códigos ou convenções que são
postos em evidência. Pretende-se desvendar os modos como a derrisão é posta
como uma prática discursiva, a sua modalidade, a sua motivação, o seu impacto
social, político e cultural.
A derrisão é um dos exemplos de manifestação da linguagem pelo qual
podemos observar a fluidez do sentido, seu deslizamento. Assumir que, na língua,
os sentidos não são transparentes, significa assumir que eles surgem na relação da
língua com a história, que há condições sócio-históricas para a sua enunciabilidade.
As relações entre derrisão e poderes sociais ou políticos transitam, assim, de uma
dialética entre contestação e regulação. A derrisão sócio-política segue as mesmas
lógicas que o carnaval do seu tempo, assegura uma inversão simbólica e temporária
da ordem política, possuindo virtudes revolucionárias inegáveis. A esse respeito,
convém não subestimar a capacidade destrutiva da derrisão sócio-política,
associando-a a perspectivas de resistência sociais e individuais. A derrisão ritualiza
também a contestação, usando de uma violência simbólica que reprime, por
conseguinte, em parte, os riscos de violência nos poderes. A derrisão pode, por um
lado,
servir
de
recurso
criativo
para
confrontar
convenções
julgadas
demasiadamente rígidas e, por outro, pode contribuir para a continuidade dos
sistemas de dominação, valores ou códigos culturais dominantes.
No processo de civilização dos costumes, conforme por Norbert Elias (1939),
(apud. Arnaud Mercier, 2001), o indivíduo entrou numa situação de impotência, pois
se tornou escravo dos numerosos códigos da vida em sociedade, aos quais deve
respeitar.
Além disso, o poder e as suas instituições monopolizam a violência,
20
legitimando os seus atos pela idéia do consentimento geral e individual. Estas
instituições têm por objeto captar e dirigir as agressões naturais, que se encontram
assim conectadas, desarmadas e estruturadas. A vida em sociedade impõe um
recuo da violência sobre a base de uma troca contratual: o abandono da
agressividade individual contra a proteção assegurada coletivamente pelo poder.
O recurso da derrisão também permite exceder, ou para melhor dizer,
contornar a censura, fazer triunfar o “eu” e o princípio de diversão, apelando para um
prazer de transgressão tolerável. Transformar algo em derrisão e em riso é um meio
para liberar a agressividade contida, reprimida, inexprimível por outro modo. O riso é
então, uma válvula de escape da agressividade, por meio do qual o indivíduo pode
descarregar-se sem risco das próprias tensões agressivas. Não é por acaso que os
poderosos tornam-se alvo preferido da derrisão. E a força de tal liberação da
agressividade acontece de forma sutil, sem prejuízos imediatos.
A derrisão revela-se de grande interesse porque se apresenta como um
recurso de produção de sentido muito recorrente no cotidiano das pessoas, podendo
ser encontrada na conversação cotidiana informal e nos textos escritos que circulam
na sociedade.
Por traduzir sentimentos ligados ao riso, está quase sempre
associada ao humor. A derrisão pode se associar ao humor, mas com ele não se
confunde, devido, sobretudo, ao seu caráter desestabilizador.
Todas as produções são ancoradas sobre uma mistificação, um jogo com as
nossas crenças que constituem, assim, um saltar crítico essencial à sociabilidade
cômica. Com efeito, se as manifestações são múltiplas, referem-se sempre aos
costumes. A sociabilidade cômica trata das práticas sociais e - embora mais
confusamente - das normas que as justificam. Os valores implícitos que estruturam o
funcionamento de um grupo humano, admitidos ou contestados, são o verdadeiro
21
desafio derrisório, e neste ponto a derrisão participa de uma dinâmica sócioemocional, pois exerce efeitos variáveis sobre as trocas. Implicação, sedução,
zombaria do desvio à norma estabelecida ou subversão desta mesma norma, um
vasto campo oferece-se à análise. Pretende-se aqui investigar a ordem derrisória
nas suas diversas manifestações de violência cômica e lançar uma suspeita sobre o
"politicamente correto" destes prazeres ambíguos.
No folclore há muitas estratégias de uso da derrisão. Parece que a diversão é
o único objetivo. Mas, sob o talhe de uma sabedoria óbvia, todo o talento cômico de
Molière exprime esta verdade aparentemente universal:
"Nada é mais agradável do que rir
Quando se ri às custas do outro“.7
A cultura cômica tradicional apresenta-se geralmente como um jogo inocente,
e a derrisão uma expressão natural. Todavia, a legitimidade desta desordem
falaciosamente trazida a certos objetos convencionais nunca é posta em causa. Ela
aparentemente apresenta mais cumplicidade com as histórias engraçadas ou os
desenhos humorísticos. Contudo, à sua maneira, a faceta da derrisão ilumina os
relatórios reais, os estatutos e os papéis das pessoas na sociedade.
Do ponto de vista do sentido derrisório em relação às formações discursivas,
há suspeita de que a derrisão pode reforçar posições ideológicas conservadoras ou
funcionar
como
recurso
de
desmantelamento,
dessacralizando
discursos
cristalizados e enrijecidos sob a égide do poder, do autoritarismo e da opressão,
desestabilizando
posturas,
desafiando
preconceitos,
atacando
opiniões
e
ridicularizando comportamentos:
A derrisão pode igualmente servir de recurso criativo contra as
convenções julgadas demasiadamente rígidas, antes por sua vez se
7
Apud Arnaud Mercier, 2001.
22
destruir na autoderrisão em numa nova contestação. Tolerada e/ ou
dominada pelos poderes, a derrisão pode, por conseguinte, também
contribuir para a continuidade dos sistemas de dominação, valores
ou códigos culturais dominantes. (MERCIER, 2001, p. 10)8
É por esse funcionamento político da derrisão que não se pode deixar de fora
os participantes desse ato: o enunciador, a vítima, os interpretadores, o objeto da
derrisão, o ritual pragmático e enunciativo que cerca esse funcionamento, as
formações discursivas de onde os sentidos provêm, questões que ainda serão
discutidas nesse estudo.
Graças às mudanças ocorridas no campo das teorias sobre a linguagem, que
trouxeram para reflexão tanto a relação da linguagem com sua exterioridade, quanto
sobre os papéis dos participantes na teorização do sentido, hoje é possível introduzir
no estudo da derrisão elementos como “poder” e “subjetividade”. Esses
deslocamentos vão marcar o surgimento de uma investigação sobre a linguagem,
que não mais a considera capaz de ser descrita na sua imanência, mas no jogo de
funcionamento, no qual se consegue trazer para a reflexão a relação da língua com
a história.
1.2 Breve passagem pela retórica e pela lingüística
A concepção de que a linguagem comporta uma norma e um desvio em
relação a ela, desvio que pode ser classificado como subordinado, acessório,
excedente, exterior, ornamental e supérfluo, origina-se do interior da retórica
No original: La dérision peut également servir de ressource créatrice pour l’art contre des conventions jugées trop rigides,
avant que de se rigidifier à son tour et s`anéantir dans l’autodérision soit dans une nouvelle contestation. Tolérée et maîtrisée
par les pouvoirs, la dérision peut donc aussi contribuer à la pérennisation des systèmes de domination, des valeurs ou des
codes culturels dominants. Arnaud Mercier - Laboratoire Communication et Politique, CNRS, Paris/Université de Nice. Revista
HERMES 29.2001, p.10.
8
23
clássica e contribui para a instalação do conceito de figura nos estudos da
linguagem. A noção de figura utilizada para explicar o uso da linguagem, que se
distanciava das formas normatizadas da língua, tem grande aceitação por diferentes
áreas de investigação da linguagem. Mesmo naquelas leituras que argumentam
estar fundamentadas na ótica saussureana dos estudos lingüísticos, a noção de
figura como desvio condiciona a leitura das idéias lingüísticas de Saussure,
configurando uma interpretação que coloca a figura como desvio em relação ao que
é sistemático – la langue – e, portanto, pertencente a parole. Nesse rumo de
interpretação, não haveria espaço para explicar, por exemplo, a ambigüidade da
linguagem com base na teoria de Saussure, que toma a língua como sistema. Uma
leitura desse tipo encontra-se em Orlandi, quando esta discute a literalidade da
linguagem, ao afirmar que “a noção de literalidade não é questionada de forma
explícita na lingüística clássica: ou já está suposta, ou é apenas mencionada nas
várias teorias da linguagem”.(ORLANDI, 1986, p. 68).
A teoria lingüística que ficou conhecida como imanente deu primazia à
descrição das relações internas ao sistema, destacando-se nos estudos da forma
lingüística. Isso afasta do interesse de investigação o sentido, dado seu caráter
fluido, metamórfico, impossível de ser sistematizado, considerando os princípios de
uma ciência que se constituía nos marcos do positivismo, no qual Saussure ancorou
a teoria lingüística e no qual ele precisava se apoiar para alcançar o estatuto
cientifico requerido na época. Essa leitura do pensamento de Saussure costuma
delinear epistemologicamente as bases do estruturalismo, que, por sua vez, encaixa
no perfil de uma corrente filosófico-lingüística compreendida nos estudos do Circulo
Bakhtiniano como “Objetivismo Abstrato”. Enquanto o objetivismo abstrato se
24
fecharia nas formas da língua a outra corrente, o subjetivismo idealista9 se deteria no
pensamento e no psiquismo individual. Para Bakhtin-Voloschinov a lingüística de
Saussure comporta no seu quadro epistemológico e metodológico as seguintes
características:
A língua é um sistema imutável de formas lingüísticas submetidas a
uma norma fornecida tal qual a consciência individual e peremptória
para esta.
As leis da língua são essencialmente leis lingüísticas específicas
que estabelecem relações entre os signos lingüísticos no interior de
um sistema fechado. Essas leis são objetivas e relativas a toda
consciência subjetiva.
A ligação lingüística específica nada tem a ver com os valores
ideológicos (artísticos, cognitivos ou outros). Não se encontra, na
base dos fatos lingüísticos, nenhum motor ideológico. Entre a
palavra e seu sentido não existe nenhum vínculo natural e
compreensível para a consciência, nem vínculo artístico.
Os atos individuais de fala constituem, do ponto de vista da língua,
simples refrações ou variações fortuitas, ou mesmo deformações
das formas normativas. Mas são justamente esses atos individuais
de fala que explicam a mudança histórica das formas da língua;
enquanto tal, a mudança é, do ponto de vista do sistema, irracional
e mesmo desprovida de sentido. Entre o sistema da língua e sua
história não existe nem vínculo, nem afinidade de motivos. Eles são
estranhos entre si.(BAKHTIN,1995, p. 82-3).10
10
Síntese nossa.
25
Essa leitura bakhtiniana das idéias de Saussure, que tem base nos
apontamentos do Curso de Lingüística Geral, dá margem a se asseverar que dentro
dessa lingüística não haveria espaço para as questões ligadas ao sentido, uma vez
que o autor não incorporou à descrição das formas elementos exteriores ao sistema.
Entretanto, mesmo fazendo uma dura crítica ao que chama de objetivismo abstrato,
o círculo bakhtiniano vai reconhecer e reformular a idéia de língua como sistema,
deixando claro que este sistema se desenvolve a partir das formas que Saussure
consideraria exteriores a ele.
As postulações de Bakhtin (Volochinov) nascem nesse novo quadro,
antecipando as orientações da lingüística moderna. Questionando Saussure, o
teórico russo parte do princípio de que a língua é um fato social que se funda nas
necessidades de comunicação. A linguagem passa a ser vista como um fator
preponderante da interação social em que o outro tem parte na constituição do
sentido. Essa articulação entre o lingüístico e o social vincula a linguagem à
ideologia. Para Bakhtin (2004, p. 36), sendo a palavra o fenômeno ideológico por
excelência, representa o modo mais puro e sensível de relação social. Sob essa
ótica, a palavra não deve ser tomada como abstração, mas como a materialização
do signo ideológico.
Martins (2002, p. 126), em relação à dialética saussureana, observa que ela é
histórica, e nela o indivíduo é produto-produtor, ativo-passivo, mesmo que a sua
participação não se dê de forma consciente e voluntária. É como se houvesse na
natureza, inerente ao ser humano, uma busca de harmonia, de simetria, de
regularidade, apenas. Essa dialética é também dinâmica e seu dinamismo provém
tanto de seu caráter temporal e sócio-histórico, quanto de seu caráter mais
puramente semiológico, de constituição de forma lingüística. Para Martins (2002, p.
26
127) “a dialética de Saussure envolve não só elementos negativos e diferenciais,
mas também positivos e distintivos”.
Nesse sentido, fora de qualquer consideração de uma dialética, a lingüística
saussureana não apresenta espaço para a língua mostrar algum tipo de relação com
o simbólico. Isso estaria filiando a lingüística àquelas ciências que trabalham com
espaços discursivos logicamente estabilizados, espaços que tentam unificar a
multiplicidade heteroclítica dos fenômenos de “uma estrutura representável e
homogênea” (Pêcheux, 1990, p. 35). Tais espaços correspondem ao que Pêcheux
chama de ciências régias. Elas trabalham no sentido de homogeneizar o real, fazer
“uma cobertura lógica de regiões heterogêneas do real” (Pêcheux, 1990, p. 38). O
enquadramento da lingüística num núcleo duro da ciência, como se seu objeto fosse
como os objetos das ciências naturais e matemáticas, impede qualquer visão de sua
dinâmica e de sua mobilidade histórica.
Pêcheux encontra no conceito de valor estabelecido por Saussure, e no qual
se presentifica, a contradição operada pelo corte saussureano, o nó necessário para
propor o conceito de discurso. Sobre “o nodal da ruptura saussureana”, Pêcheux
considera o valor como princípio da subordinação da significação, uma vez que a
história da lingüística esteve “exposta do seu próprio interior aos efeitos complexos
do processo histórico e político do conjunto no qual a sua história se produz”
(Pêcheux, 1998, p. 41), pois, ao longo de seu desenvolvimento, a lingüística e seu
objeto foram recebendo diferentes interpretações: sociológicas, psicológicas,
lógicas, bio-psico-funcionais, pragmáticas e históricas.
A tendência de enquadramento da lingüística a um núcleo duro lógico – das
ciências régias – e que sustenta as leituras que vêem uma imanência na língua que
não se abre aos espaços heterogêneos do real, fecha a lingüística para o estudo de
27
enunciados que não se enquadrem nos universos discursivos logicamente
estabilizados. Pêcheux, no entanto, postula:
É imperioso reconhecer que toda língua natural é, também, e antes
de tudo, a condição de existência de universos discursivos não
estabilizados logicamente, próprios ao espaço sócio-histórico dos
rituais ideológicos, discursivos, filosóficos, enunciados políticos,
expressão cultural e estética. (PÊCHEUX, 1998, p. 50).
Reconhecida à existência de tais universos de discurso, Pêcheux afirma que,
nessa categoria de universos discursivos, a ambigüidade e o equívoco constituem
um fato estrutural incontornável e não podem ser concebidos como amolecimento de
um núcleo duro lógico. No bojo dessa reflexão, o objeto da lingüística aparece
atravessado por uma divisão entre esses dois universos discursivos, cuja fronteira é
difícil de determinar, mas sua eficácia é a possibilidade que tais universos oferecem
de especular com as aparências lógicas, para fazer pensar melhor o deslizamento
do sentido. Na verdade, o que Pêcheux propõe é que se pense a língua como um
corpo atravessado por falhas, ou seja, submetido à irrupção interna da falta. Se
dessa maneira ela for tomada, haverá espaços para pensarmos os jogos de
duplicidade, os sentidos múltiplos que uma construção pode assumir, não como um
desvio, mas como algo que se legitima no próprio da língua.
Há muitas formas de significar, pois a matéria significante tem plasticidade, é
plural. A linguagem é um sistema de relações de sentidos, onde, a princípio, todos
os sentidos são possíveis. Entretanto, uma palavra, uma proposição não tem sentido
próprio, literal, nem tampouco sentidos derivados a partir dessa literalidade. Mas,
afinal, o que é então dar sentido? E, principalmente, o que é dar um sentido
derrisório?
28
1.3 Derrisão: tensão entre o literal e o figurado
A definição mais corrente e talvez mais tradicional toma o sentido literal como
o sentido exato, denotativo de uma palavra. Por essa concepção, o sentido literal é
aquele que a palavra tem independentemente de qualquer contexto. Se considerado
o contexto, o sentido seria derivado. Orlandi (1986, p. 69) questiona a natureza do
sentido literal assim definido e afirma que ele varia em diferentes autores. Uns
enfatizam o fato de que é a unidade, o abstrato, o virtual, o sistemático, o discreto.
Outros destacam mais seu caráter básico e inerente e acrescentam que ele é fluido
e só se precisa no contexto. Assim, a derivação produz a precisão, uma vez que os
sentidos é que são determinados. Desse modo, segundo Orlandi, paradoxalmente, o
sentido literal é um e está em todos os casos possíveis, também paradoxalmente, o
contexto é o que delimita e o que, no plural, é que multiplica, subtrai os limites do
sentido.
Depois de tecer considerações sobre a posição de alguns lingüistas a
respeito do sentido literal, que não só relativiza, mas coloca o sentido primitivo já
como uma construção do analista, a pesquisadora propõe que: “a variação é
inerente aos sentidos e não há, de antemão, um sentido do qual derivam outros; há
tantos sentidos quantos forem os contextos de utilização, ou seja, quantos se
efetivarem no mundo”. (ORLANDI, 1986, p. 71).
Ressalvamos, nos estudos sobre o sentido, que uns defendem a existência
de um sentido literal independentemente do contexto; outros concebem que o
contexto determina a literalidade. A instituição de um sentido literal estabelece como
conseqüência a existência de um sentido figurado, tradicionalmente definido como
um modo de expressar-se que se afasta do modo corrente do falar cotidiano, uma
espécie de sentido menor. Daí passa-se a considerar a figura como desvio. Seu uso
29
seria explicado, dependendo do campo de estudo, como ornamentação do discurso
(retórica clássica e estilística), como uma violação do princípio cooperativo, por meio
da máxima da qualidade que é violada (pragmática, por meio das implicaturas de
Grice, que considera a figura como uma implicatura), como uma maneira de
estabelecer uma diferença entre o sentido da enunciação e o sentido da sentença essa não muda de sentido, é o falante que lhe dá um sentido diferente (teoria dos
atos fala de Searle).
O conceito de figura tem sua origem na retórica clássica, mas passou a ser
adotado, como pode ser visto em nossa rápida exposição, em diferentes abordagens
lingüísticas, embora tenha sido re-significado por várias delas. Pereira (1999),
comenta a visão de figura tal qual desenvolvida na retórica clássica. Explica que a
tradição das teorias nas retóricas clássicas francesas contempla as figuras como um
desvio em relação à norma – seja um desvio no âmbito do significante, seja no
âmbito do significado – desvio que é classificado como subordinado, acessório,
excedente, exterior, ornamental e supérfluo. Os problemas relativos aos conceitos,
como a distinção entre figuras e tropos, decorrem, em grande parte, do aspecto
teórico mais geral, quer dizer, do modo como é estabelecido o postulado do desvio e
da forma. Por norma, nesse contexto, devemos entender tudo que resulta de um
sistema razoavelmente instituído, isto é, uma língua, seu sistema gramatical,
envolvendo um léxico com um mínimo de estabilidade e regras sintáticas definidas.
Se o sistema, como um todo, é instável, em decorrência, partes dele também o
serão. Os desvios correspondem, então, àquilo que escapa ao normatizado na
língua, ou seja, num mundo organizado hierarquicamente, com um eixo, ao qual
respondia o cenário teórico dos retóricos que pressupunham a norma, o literal, o
padrão.
30
Os usos da linguagem figurada e dos tropos fazem parte do ser humano em
todas as épocas e línguas e consistem nas associações entre palavras. Por isso, é
importante notar que os argumentos sobre a existência de uma figura de linguagem,
e de como se produz o desvio, indica uma disparidade de concepções. Constata-se
que o mecanismo de associação entre a imagem de um objeto e a impressão
acústica de uma palavra, associa-se no cérebro pelo mesmo princípio, como
preconiza Saussure a respeito do signo lingüístico.
Mas, a partir da década de sessenta, aparecem novas teses sobre o sentido,
que vão representar uma reviravolta no seu tratamento. Novos estudos filosóficos,
lingüísticos e psicanalíticos produzirão uma série de transformações que irão definir
novas maneiras de conceber a linguagem, diversamente da lingüística anterior que
não questionou a concepção de transparência da linguagem pressuposta pelos
estudos retóricos e filosóficos até então desenvolvidos. Um novo olhar com enfoque
no social e no histórico irão redefinir a concepção de sujeito nos debates no interior
das ciências humanas.
E uma das primeiras questões que fizeram ranger os estudos do sentido
apareceu nos estudos de Michel Pêcheux, que questionou como a ciência da
linguagem poderia incorporar a investigação semântica. Elaborada a partir de suas
reflexões sobre o corte saussureano, essa questão orientou para a reformulação do
conceito de parole e para a formulação de um dispositivo de análise dos processos
discursivos:
Essa relação entre o discurso e o dispositivo de análise cria um
novo objeto que não é um dado empírico, que é diferente de
“enunciado”, que é diferente de “texto”, pois vai ser colocado em
relação com a História. (GREGOLIN, 2001, p. 12).
31
A partir desse momento, o analista passa a refletir sobre a relação necessária
entre o dizer e as condições de produção desse dizer. É nessa concepção que se
fala na exterioridade como elemento constitutivo dos sentidos. Não mais um sentido
definido na imanência do sistema, não mais explicado pela tensão entre o literal e o
figurado, não mais um sentido que se verifica na relação do pensamento com a
linguagem, na transparência dessa relação. Desde então, faz-se necessário buscar
evidências na materialidade do discurso. Agora o procedimento exigirá desfazer-se
da evidência do sentido para buscá-lo na opacidade do dizer, na relação que
mantém com o que, mesmo estando fora, lhe é constitutivo. Essa nova concepção
da composição dos sentidos evoca para o interior das reflexões sobre o discurso a
indispensável teorização sobre como acontece a relação da língua com a história na
produção, circulação e interpretação dos sentidos.
Emana dessa questão a obrigação de se iniciar a explanação a partir do
funcionamento discursivo, que envolverá outros conceitos como interdiscurso, cena
enunciativa, memória e formação discursiva. A noção de interdiscurso relaciona-se à
idéia de memória discursiva, pois é ela quem torna possível todo dizer. Já o
interdiscurso inscreve a memória no fio do discurso e isso “afeta o modo como o
sujeito significa em uma situação discursiva dada”. (ORLANDI, 1999, p. 31).
Concebida por Foucault num momento de investigação filosófica sobre as
condições históricas e discursivas nas quais se constituem os sistemas de saber, e
reformulada por Pêcheux, a noção de formação discursiva ocupa um lugar central na
articulação entre língua e discurso. Foucault sugere o estabelecimento de “regras de
formação”, que se apresentam como um sistema de relações entre objetos, tipos
enunciativos, conceitos e estratégias. Segundo ele, são elas que possibilitam a
32
determinação dos elementos que compõem os discursos e consubstanciam uma
formação discursiva. Assim, define-a, como:
Um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas
no tempo e no espaço que definiram uma época dada, e para uma
área social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições
de exercício da função enunciativa. (FOUCAULT, 1986, p. 71-8).
Concebida desse modo, a formação discursiva possibilita que o indivíduo seja
sujeito de seu discurso, podendo, numa determinada conjuntura histórica, concordar
ou não com o sentido que deve dar às palavras e, sobretudo, falar de forma
diferente usando a mesma língua. E, conquanto uma formação discursiva determine
a seus falantes “o que deve ser dito”, buscando a homogeneidade discursiva, as
marcas do pré-construído lhe garantem a heterogeneidade e a instabilidade, visto
que os efeitos das contradições ideológicas de classe são recuperáveis em cada
discurso.
Pêcheux desenvolveu o conceito de memória discursiva, que, segundo esse
filósofo francês, é, sobretudo, inscrita em práticas simbólicas, de ordem social e
histórica, não tendo, portanto, nenhuma associação psicológica:
a memória discursiva seria aquilo que, face a um texto que surge
como acontecimento a ler, vem restabelecer os “implícitos” (quer
dizer, mas tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e
relatados, discursos transversos, etc.) de que sua leitura necessita:
a condição do legível no próprio legível. (PÊCHEUX, 1997, p. 52).
Assim, na produção de sentidos, é preciso entender a relação do
interdiscurso com o intradiscurso, isto é, entre o dito e o que se irá dizer; de que
maneira acontece essa relação. O interdiscurso representa o eixo vertical onde
residem os já ditos, e no eixo horizontal – o intradiscurso seria então o eixo da
formulação, ou seja, do que poderia ainda ser dito. Dessa forma, entende-se que
33
todo dizer, na realidade, sustenta-se na confluência dos dois eixos, em que memória
e formulação atual concorrem para a constituição dos sentidos.
Ao falar em elementos constitutivos do sentido, é relevante mencionar a cena
enunciativa, a situação de comunicação. Toda enunciação ocorre em um espaço
instituído, definido por um gênero de discurso, mas também sobre a dimensão
construtiva do discurso que se coloca em cena. A cena enunciativa é ao mesmo
tempo de onde vem o discurso e o que esse discurso engendra. Ela dá legitimidade
ao discurso, ela é necessária para se contar uma história, fazer uma denúncia,
apresentar propostas, etc.
São elementos constitutivos da cena enunciativa, além da figura de um
enunciador e a correlativa de um co-enunciador, uma cronografia (um momento) e
uma topografia (um lugar), rudimentos necessários ao surgimento do discurso.
Segundo Maingueneau (1998), os gêneros discursivos que mais recorrem a
cenografias são aqueles que visam agir sobre o destinatário, a modificar suas
convicções, como por exemplo, o discurso político.
Apresentado esse conjunto, que é fundamental para entender os sentidos,
surge a impressão do sujeito ser a origem do que diz e irrompe a ilusão de
transparência da linguagem. Mas, nem linguagem, nem sentido, nem sujeito são
transparentes. Tendo, pois, uma materialidade, constituem-se em processos em que
a língua, a história e a ideologia mantêm uma relação de imbricamento.
No próximo item, veremos como a relação usos da linguagem e poder são
fundamentais para a atribuição de sentidos, especialmente do derrisório.
34
1.4 Língua falada x escrita, poder e derrisão
Como Foucault (1969), havemos de lembrar que o sujeito é pensado como
uma função enunciativa entre outras. O que conta é o lugar que ele ocupa para ser
sujeito do que diz. E isso tem significado: dá-lhe uma identidade.
Assim, no quadro da política nacional e da mídia principalmente, ainda é
comum pessoas “eruditas” alarmarem-se diante do desempenho verbal, sobretudo,
oral – do conjunto de seus protagonistas.
A associação entre uma determinada variedade lingüística e a escrita é o
resultado histórico indireto de oposições entre grupos sociais usuários das diferentes
variedades. Todos sabem da existência das inúmeras variedades lingüísticas, mas
ao mesmo tempo em que se reconhece a variação lingüística como um fato,
observa-se que a sociedade brasileira tem uma extensa tradição em considerar a
variação numa escala valorativa, que leva a rotular os usos característicos de cada
variedade como certos ou errados, aceitáveis ou não, pitorescos, cômicos, etc.
Na realidade, o que leva uma variedade lingüística a ser associada de modo
estável com a escrita é a ascensão política e econômica do grupo que faz uso de tal
variedade. Deste modo, a partir de uma determinada memória cultural, uma
variedade lingüística usada pelos grupos do poder são repostas como alguma coisa
de fundamental na identidade nacional, enquanto portadora de uma tradição e de
uma cultura.
Nos últimos séculos da Idade Média, a associação de uma determinada
variedade lingüística ao poder da escrita foi uma operação que respondeu a
reivindicações políticas e culturais. A língua considerada “o modelo” era o latim, e as
demais línguas associadas com a escrita tiveram que passar por um árduo processo
de adequação lexical e sintática. Por esse motivo, as línguas românicas demoraram
35
tanto a serem consideradas variedades escritas de complexidade comparável ao
latim.
Um segundo passo no procedimento de fixação de uma norma foi fundado
pela associação da variedade já estabelecida como língua escrita com a tradição
gramatical greco-latina. Assim, desenvolve-se toda uma perspectiva ideológica da
tradição objetivando justificá-la.
A razão da existência de gramática numa língua pode ser concebida como
uma forma de preservar o uso lingüístico de ser corrompido pela “ignorância”,
devendo, então sobressair o uso dos sábios, isto é, criar um manual com regras de
bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que desejam se expressar
adequadamente.
Deste modo, com a gramaticalização11 da língua, formaram-se grupos que
funcionam como guardiões do idioma e lutam para conservar sua identidade, e
também decidem o que é correto, tentando evitar que as variedades populares (de
menor valor social) se incorporem à norma padrão. Por uma questão de valoração
que já mencionamos, há uma tendência dos puristas em considerarem as variações
lingüísticas, ou seja, as alterações introduzidas no uso da língua pelas novas
gerações como deturpações, degeneração e degradação.
Neste embate, não se deve menosprezar também a influência das academias
nacionais de letras da língua, pois de acordo com Gnerre:
Tais academias podem ter tido ou manter até o presente uma
complexa função de intermediárias entre o poder político e
econômico, de um lado, e o conjunto de valores e ideologias a
serem associados ou já associados com a língua. As academias
podem interferir ao chamar a atenção da nação para obras literárias
11
Processo pelo qual uma determinada língua passa no curso de sua evolução Segundo Aurox (2001) a gramaticalização de
uma língua se constitui na sua inserção em determinado instrumento lingüístico: gramáticas, dicionários, manuais didáticos,
etc.
36
e ao selecionar o léxico ”aceitável” da língua e a gramática “oficial”.
(GNERRE, 1998, p. 19-20).
A esse respeito, Bagno (2002) afirma que a ABL (Academia Brasileira de
Letras) é composta por “pessoas ignorantes dos desdobramentos da pesquisa
científica acerca da língua”, mas que se julgam aptas para tomar decisões e
estabelecer escolhas em detrimento de 170 milhões de falantes do português
brasileiro, até mesmo dos mais escolarizados, que não tem direito a participar das
decisões a respeito de sua língua materna.
Citando Bourdieu (1977), Gnerre (1998, p. 5) escreveu que as pessoas falam
para serem “ouvidas” às vezes para serem respeitadas e também para exercer uma
influência no ambiente em que se realizam os atos lingüísticos. “O poder da palavra
é o poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e centrá-la num ato
lingüístico”, enfatiza ainda que os lugares onde mais se evidenciam, são também os
mais extremos, tais como no discurso político, no sermão religioso, na aula, etc.
Todavia, as produções lingüísticas só adquirem o devido valor se realizadas
no contexto sócio-cultural adequado, pois há regras que determinam a produção
correta dos atos de fala, uma vez que:
Todo ser humano tem que agir verbalmente de acordo com tais
regras, isto é, tem que saber: a) quando pode falar e quando não
pode; b) que tipo de conteúdos referenciais lhe são consentidos; c)
que tipo de variedade lingüística é oportuno que seja usada. Tudo
isso com relação ao contexto lingüístico e extralingüístico em que o
ato verbal é produzido. A presença de tais regras é importante não
só para o falante, mas também para o ouvinte, que com base em
tais regras, pode ter alguma expectativa em relação à produção
lingüística do falante (GNERRE, 1998, p. 6).
Se a linguagem serve para comunicar, serve também para não comunicar,
como assevera Michel Pêcheux (1982), ou seja, pode ser utilizada para barrar o
entendimento de informações por muitos setores da sociedade, por exemplo,
37
sabemos que grande parcela da população, especificamente os indivíduos com
pouca instrução escolar, pouco conseguem apreender das notícias políticas de um
jornal televisivo, por exemplo. Desse modo, a linguagem pode funcionar como um
filtro da comunicação de informações, uma língua de madeira (Pêcheux, 1982)
ficando o privilégio de entender o implícito somente àqueles que dominam a
linguagem padrão e os conteúdos a ela associados. Assim, é necessário um amplo
conhecimento sócio-político para se ter acesso à compreensão e principalmente à
produção das mensagens de caráter sócio-político.
Adquirir os conhecimentos relevantes e produzir mensagens está
ligado, em primeiro lugar, à competência nos códigos lingüísticos de
nível alto. Para produzir ou ampliar a faixa dos eventuais receptores
das mensagens políticas e culturais é suficiente ajustar a sintaxe, o
quadro de referências e o léxico. (GNERRE, 1998, p. 21).
Nesse ponto, entendemos que para se ter acesso amplo e irrestrito a
qualquer estilo de produção e recepção de informações, faz-se necessário não
somente o conhecimento da língua escrita, mas também do universo conceitual e
referencial ao grupo social onde acontece o processo. Deste paradigma fazem parte
os jargões profissionais, as gírias, os termos técnicos, os clichês, as frases feitas
que circulam nos grupos, os estrangeirismos (comuns na área de informática), enfim
particularidades que as tornam quase incompreensíveis aos demais grupos, não só
pela variedade lingüística usada, mas principalmente pelas complexidades e
especificidades
dos
conteúdos
e
referenciais.
O
desconhecimento
das
peculiaridades dos usos de um determinado grupo pode comprometer a
comunicação - emissão/recepção de informações intervariedades. “A começar do
nível mais elementar de relações com o poder, a linguagem constitui o arame
farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder” (GNERRE, 1998, p. 22).
38
Notadamente, nas últimas décadas, lingüistas e professores têm se
debruçado sobre as questões referentes à norma lingüística. Tal fato se justifica pela
preocupação com as incoerências e as imposições que o termo “norma” comporta,
haja vista a existência de uma contradição de base entre a ideologia democrática e a
ideologia que está implícita na existência de uma norma lingüística:
A função central de todas as linguagens especiais é social: elas têm
um real valor comunicativo, mas excluem da comunicação as
pessoas da comunidade lingüística externa ao grupo que usa a
linguagem especial e, por outro lado, têm a função de reafirmar a
identidade dos integrantes do grupo reduzido que tem acesso à
linguagem especial (GNERRE, 1998, p. 23).
Dessa forma, a norma lingüística serve como instrumento para diminuir o
conflito de base entre o valor intrinsecamente igual dos seres humanos – idéia
fundamental da democracia - e a realidade, na qual os indivíduos têm valor social
diferenciado medido pelo uso que faz da língua. Assim, a criação de uma norma
lingüística permitiria a padronização do uso e resolveria o conflito, uma vez que
todos os seres humanos, ao fazer uso da mesma norma, tornar-se-iam iguais.
Entretanto somos conscientes que isso não funciona, pois toda sociedade é
heterogênea, logo formada de camadas sociais, nas quais interferem outros fatores
que, por sua vez, repercutem diretamente na linguagem, dando origem às
variedades e toda relação discursiva é constitutivamente polêmica.
Apesar de lenta, uma série de pequenas mudanças ocorreu nas gramáticas
normativas ao longo do tempo. Se compararmos as gramáticas de diferentes
épocas, perceberemos alterações. Acontece que a língua falada muda numa
velocidade muito maior, por isso mantém uma distância abissal entre esta e aquela.
Contudo, tal como nos valores morais, éticos e na religião, na norma lingüística não
aparece uma crítica velada quanto a fases anteriores. Antes a impressão transmitida
39
é de continuidade, como acontece com relação aos dogmas e crenças, que também
sofreram interferência da sociedade moderna, se comparada em relação ao século
XV até o atual, no entanto o que se transmite a idéia de estabilização.
Da mesma maneira que os valores éticos e morais, as gramáticas normativas,
mesmo que lentamente, sofreram modificações, também a oferta de ensino passou
por um processo de aceleração, pois atualmente a sociedade vivencia uma maior
oferta de educação formal, que tende a difundir o conhecimento da norma lingüística
e deste modo reduzir a distância entre os grupos sociais e oportunizar chances
iguais a todos. Acontece que, por motivos diversos, muitos são os que, nos
processos seletivos a que são submetidos, são barrados e, aqueles que conseguem
êxito, passam a fazer parte de um “contingente social de apoio aos fundamentos de
discriminação com base na legitimação do saber e da língua que eles formalmente
dispõem” (GNERRE, 1998, p. 38).
Há que se ter consciência também de que o acesso à educação formal
fornece ao cidadão alguns parâmetros que o levará a reconhecer as posições
sociais por intermédio do mapa de estratificação social, como observa Gnerre “com
alguns diacríticos” importantes para demarcar o seu lugar na sociedade, ou seja, um
aparelho a mais para medir a desigualdade social. Nesta perspectiva, a educação
visa a atender as exigências do Estado Burocrático moderno que necessita de
pessoas hábeis, mais produtivas e abertas para sistemas de comunicação
uniformizadas, e prontas para interagir na sociedade.
Todavia, para alcançar o sucesso profissional não basta ter o conhecimento
único das normas lingüísticas. Esta se torna uma possibilidade falaciosa se levarmos
em consideração que a visão da língua formal é muito restrita, pois enfatiza somente
as estruturas lingüísticas, desconsiderando fatos como sotaque, prosódia, ritmo,
40
controle do tempo, polemicidade discursiva e outros aspectos que não são
considerados formalmente como parte da língua, mas que obviamente são
relevantes na real comunicação face a face, assim como a postura corporal e o
olhar, que mesmo não estando legislados na gramática normativa, entram no
julgamento pelo qual uma pessoa tem que passar para provar que “domina” os
procedimentos da comunicação. Esta reflexão nos leva a abstrair uma discriminação
que vai além do simples domínio das normas lingüísticas, e ainda, que a gramática
normativa é um código incompleto, porque não dá conta de todas as particularidades
das atividades que envolvem a linguagem humana.
Além dos problemas elencados, percebemos que ainda existe uma grande
confusão entre língua falada e escrita, como se ambas fossem a mesma coisa. Na
verdade, trata-se de duas vertentes do mesmo fenômeno, ou seja, constituem duas
modalidades de uso da língua, e mesmo que façam parte do mesmo sistema, elas
possuem características próprias. Entretanto, isto não significa que fala e escrita
devam ser vistas de forma dicotômica, estanque como acontece ainda hoje. Há
entre elas uma espécie de continuum.
Como adiantamos no início deste trabalho, dada a sua complexidade, em
alguns momentos será necessário recorrer a teorias que não pertencem à área de
predomínio deste tabalho. Vale considerar que embora mobilizemos proposições
empíricas de outros campos que não os da análise do discurso, isso não implica
necessariamente a sua mobilização epistemológica. Ingedore V. Koch (2000) em
sua obra “O texto e a construção do sentido” quando fez uma breve exposição sobre
língua falada e língua escrita, argumentou que a fala é:
• relativamente não planejável de antemão, o que decorre de
sua natureza altamente interacional, isto é, ela necessita ser
41
localmente planejada e replanejada a cada novo “lance” do jogo da
linguagem;
• durante a fala o planejamento e a verbalização ocorrem
simultaneamente, porque emerge no momento da interação;
• dinâmica;
• o fluxo discursivo apresenta descontinuidades freqüentes,
determinadas por uma série de fatores de ordem cognitivo-interacional,
as quais têm, portanto, justificativas pragmáticas relevantes.
Quanto à escrita, Ingedore disse que:
• é resultado de um processo;
• é planejada, podendo-se fazer rascunhos, proceder a revisões
e correções.
Diante do exposto, podemos inferir que a fala é básica no aprendizado de
uma língua. Ela é adquirida por praticamente todos os usuários antes que possam
ler ou escrever. A língua falada mobiliza a personalidade na íntegra, devido,
sobretudo, a interação imediata com o ambiente e as pessoas. Enquanto que a
escrita é planejada, e talvez por isso, mobilize a personalidade menos integralmente.
A confrontação oral é de importância básica em todas as sociedades, mas na
nossa, dada sua complexidade letrada, ela é encoberta e suplementada pelo papel
da escrita, que tem procurado insistentemente influenciar e moldar novos padrões
de fala.
Por tudo que precede, entendemos que, desde a mais tenra idade, as línguas,
ou melhor, as muitas variedades de uma língua estão em constante tensão. E esta
tensão tem origem histórica, como vimos no início deste texto.
42
Entretanto, vale salientar que o nó da questão lingüística não é a distinção
entre linguagem oral e linguagem escrita, pois essa discussão acaba sendo pouco
producente. O que deve estar em questão mesmo, são as diferentes formas de
dizer, determinadas por diferentes situações comunicativas, produzidas por
diferentes condições de enunciabilidade e não simplesmente o fato da materialidade
do dito pertencer à modalidade oral ou escrita, regidas por uma espécie de contexto
de produção geral e indiferenciado.
Passaremos agora a discutir como a circulação de discursos na mídia,
interpretados via memória discursiva e interdiscurso, observados pelo viés da
linguagem, contribui para a construção dos sentidos.
43
CAPÍTULO 2
O acontecimento discursivo na mídia
“A palavra é corpo que significa: o
enunciado não se separa nem do ato social
da enunciação, nem de uma presença que
se dá, se gasta ou se perde na nominação”.
(Michel de Certeau)
2.1 Informando e formatando opinião
Nessa parte do trabalho, analisaremos características da mídia impressa - o
jornal impresso, tentando entender como e para quem é produzido, de que maneira
circula, como se diferencia de outras formas de comunicação e expressão, e mais
especificamente, como mobiliza o gênero anedotário para organizar informações e
formatar opiniões.
Começando pela parte física de um jornal impresso, sabemos que ele é
organizado em cadernos. Cada caderno é destinado a um público. No vocabulário
da imprensa, cada gênero ou tipo de texto recebe designação específica: notícia,
reportagem, artigo, resenha, entrevista, etc. O jornal, assim como os outros suportes
discursivos, orienta-se por meio de manuais, que prescrevem entre outras
particularidades, que esse veículo de comunicação tem por função mostrar a
realidade diária de forma transparente, sem mediações, visando apenas informar,
transmitir os acontecimentos ao público. Entretanto, sabemos que a linguagem
jornalística é formativa, parcial e não neutra, tendo em vista que a realidade dos
acontecimentos é também construída a partir de determinadas condições de
enunciabilidade, pois por mais que se tente, não há como prever um sentido único
44
para as palavras, e é isso que caracteriza o processo de significação, evidenciando
que também no texto jornalístico, embora se apresente sob a ideologia da
neutralidade, os sentidos podem ser outros.
De fato, o objetivo do jornal deveria ser informar, pois o leitor o lê para
manter-se informado. Todavia, a linguagem e suas especificidades na esfera
jornalística fatalmente selecionam os acontecimentos, organizando-os de modo a
interpretar a “realidade”, a fazer uma leitura, e apontar algumas conclusões.
Levando em conta essa perspectiva, vamos observar as configurações de
construção
dessa
instância
de
comunicação,
identificando,
entre
outras
peculiaridades, as marcas que conferem ao texto jornalístico e aos vários gêneros
discursivos que nele circulam a dimensão da leitura, interpretação e reconstrução do
mundo, e não de linguagem transparente, de veículo neutro de informação e
acontecimentos. Estamos reconhecendo aqui as implicações das formas de
produção, circulação e recepção desse veículo e, necessariamente, a inserção do
leitor nessas formas, pois, na hipótese de os meios de comunicação não serem
formadores de opinião, fornecem pelo menos “rotas de interpretação” (GREGOLIN,
2003).
Na composição visual do conjunto, dentro dos limites da formatação gráfica,
compete à edição buscar as soluções mais criativas para expor os assuntos, seja na
produção de imagens fotográficas e desenhos ou mesmo na elaboração dos títulos.
Na organização, observamos que há um detalhamento rigoroso para que o jornal
impresso seja reconhecido como tal, visando, sobretudo que este não seja
confundido com outro veículo. Isso pode ser constatado, imediatamente, na
organização dos cadernos e das páginas, na variedade de tipos e tamanhos de
45
letras utilizados, nas mais distintas combinações, que envolvem texto-foto, fotolegenda, texto-ilustração, até a existência de “manuais de redação” dirigidos aos
que, dentro dessa atividade exclusiva que é o jornalismo, conhecem muito bem os
gêneros e os tipos de texto que nele circulam, bem como as peculiaridades dos
jornais nos quais atuam.
Por
exemplo,
na primeira
página,
além
dos
títulos
resumindo
os
acontecimentos mais importantes, há vários outros elementos distribuídos
rigorosamente para produzir um efeito de informação ampla sobre um conjunto de
acontecimentos relevantes e, ao mesmo tempo, seduzir o leitor para a leitura do que
ali se enuncia.
Por isso, o leitor deve estar atento às formas de construção de sentidos e
efeitos de significação que acontecem a partir da organização do plano de
expressão do jornal, que jamais ocorre de forma gratuita, antes visa representar a
realidade para seu público.
Se a preocupação básica do jornal é com a notícia, com os acontecimentos
em si, qual a função da charge, da crônica, do chiste no espaço jornalístico?
Reportando-se a Paulo Mendes Campos, para quem a função do jornal é abrir uma
janela para o mundo, Sá (1999) nos apresenta a seguinte resposta:
Aberta a janela, cumpre ensinar o leitor a ver mais longe, muito além
do factual. Isto só é possível quando o fato, os personagens e a
preocupação estética revelada na estruturação do texto se
associam, para que o resultado final alcance a empatia com o leitor.
Uma empatia que significa a cumplicidade entre quem escreve e
quem lê, mas também a elaboração de uma linguagem que traduza
para o leitor, as muitas linguagens cifradas no mundo. (SÁ, 1999, p.
56).
Portanto, é preciso reavaliar o papel do jornal atualmente, pois com as
diversas mídias que dão a notícia em tempo real, o jornal impresso tem exercido
46
também a função de discutir, comentar as informações, e assim tem aberto mais
espaço ao pitoresco, permitindo-lhe capturar o lado trágico ou cômico das coisas,
suscitando o riso como uma forma de questionar e mostrar determinadas
contradições existentes na sociedade.
Mas, se o campo social do sentido é movente, o que caracteriza um
determinado gênero, no complexo movimento discursivo do qual se alimentam as
representações do imaginário coletivo? Como acontece o diálogo entre diferentes
gêneros em determinado espaço social e cultural, como o jornal? Estas são
questões importantes que precisam ser articuladas para apreendermos a dinâmica
dos gêneros na produção social dos sentidos no suporte jornalístico. A seguir,
tentaremos deslindar esta questão.
2.2 Os gêneros do discurso e o sentido
Em nossa prática cotidiana, desempenhamos muitas atividades, todas são
entremeadas pela linguagem. Algumas são mesmo atividades específicas de
linguagem, isto é, só acontecem pelo uso da língua, por meio de textos orais e
escritos, como as aulas, as bulas de remédio, os e-mails, os formulários ou os
documentos em geral, entre uma infinidade de outros, que paralelamente, usam
outras formas de linguagem, por exemplo, as artes plásticas ou visuais, a dança, a
música instrumental, os sinais de trânsito, o Código Morse, etc.
Assim, na organização de uma determinada sociedade, há uma multiplicidade
de práticas definidoras de diversas atividades que não são as mesmas em diferentes
contextos. As práticas linguageiras que têm lugar nas diferentes esferas de
atividades humanas não são as mesmas – ainda que, às vezes, possam ser
47
parecidas e estejam relacionadas às de outros campos -, todavia não são os
mesmos textos orais e escritos e a linguagem que neles circulam, porque os
contextos ou situações não são os mesmos.
Deste modo, a comunicação verbal só é possível por meio de algum gênero,
o que quer dizer que, na produção de sentidos, o gênero desempenha um papel
importante, não pelos traços formais que o individualizam, mas pela sua
funcionalidade sócio-comunicativa. Assim sendo, o que caracteriza a escolha de um
gênero por um sujeito é uma das formas que ele encontra para produzir sentido
quando se insere em atividades comunicativas, caracterizando, assim o gênero
como uma prática discursiva.
Os gêneros são as formas específicas de ser dos textos de determinada
esfera de atividade. E essas formas envolvem os formatos dos textos, ou seja, seu
caráter de composição; aquilo que podemos dizer neles, seus temas, o tipo de
linguagem, o estilo que podemos usar, mais ou menos formal. Estamos concebendo
gênero na perspectiva de Bakhtin, para quem a linguagem deve ser pensada na sua
relação com as diferentes esferas de atividades humanas. Assim para esse autor:
A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e
escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes de uma
ou outra esfera de atividade humana. O enunciado reflete as
condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas,
não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja,
pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais,
fraseológicos e gramaticais-, mas também, e, sobretudo, por sua
construção composicional. (BAKHTIN, 1997, p. 279).
Os gêneros discursivos apresentam extrema diversidade e incluem desde os
diálogos do cotidiano, as exposições científicas até os textos artísticos. Isso porque
cada texto está vinculado, necessariamente, a uma atividade, a um gênero ou a um
48
conjunto de gêneros, dependendo da atividade, e é dessas circunstâncias que
recebe a expressividade determinada, típicas do gênero dado.
Em Estética da Criação Verbal, Bakhtin (1997) apresenta, na caracterização
do gênero discursivo, três conceitos que se inter-relacionam fortemente:
• conteúdo temático: que é o sentido de um texto completo, por isso mesmo
individual e não reiterável. Expressa uma situação histórica concreta, a
origem do texto e também é determinado pelas formas lingüísticas e pelos
elementos não-verbais da situação e do contexto mais amplo que o envolvem.
• estilo: é a seleção ou escolha que fazemos das formas lingüísticas - das
palavras que selecionamos, as formas gramaticais responsáveis pelo
acabamento do tema do texto. O estilo está “vinculado a unidades temáticas
determinadas e, o mais importante, a determinadas unidades composicionais:
tipos de estruturação e de conclusão de um todo; tipos de relações que se
estabelecem entre o falante e outros participantes da comunicação discursiva
(os ouvintes ou com os leitores, com os interlocutores, com o discurso alheio
etc.)”.
• construção composicional: a estrutura e a organização do texto. É resultante
de vários fatores, tais como a necessidade da situação de interação e as
cristalizações históricas, ou seja, a tradição que esses usos geraram.
Com base nessa caracterização, observamos que acontece a coerção dos
gêneros discursivos sobre os enunciados. E, desse modo, nossa prática discursiva
se molda às formas dos gêneros.
49
Esses três elementos (conteúdo temático, estilo e construção
composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado,
e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de
comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é,
claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora
seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que
denominamos gêneros do discurso. (BAKHTIN, 1997, p. 279).
Ao dizer que os gêneros são enunciados típicos, o pesquisador russo não
está afirmando que são estanques e imóveis, antes são adaptáveis sóciohistoricamente. Graças a essa plasticidade e flexibilidade existem tantos gêneros
discursivos quantas as situações sociais convencionais onde são concretizados em
suas funções também convencionais.
Contudo, é importante distinguir a noção de gênero textual da noção de
modalidades retóricas ou modalidades discursivas. Enquanto os gêneros textuais
constituem tipos específicos de textos, as modalidades retóricas ou discursivas
constituem as estruturas e as funções textuais tradicionalmente reconhecidas como
narrativas, descritivas, argumentativas, procedimentais e exortativas. Essas
modalidades são estratégias utilizadas para organizar a linguagem, muitas vezes
independentemente das funções comunicativas associadas aos gêneros textuais
específicos. Assim, com freqüência, um único texto contém mais do que uma dessas
modalidades. Por exemplo, uma carta pessoal pode conter trechos narrativos (um
histórico do que a pessoa que escreve tem feito recentemente), trechos descritivos
(como é o lugar onde está morando), trechos procedimentais (instruções para
alguém lhe enviar dinheiro), trechos exortativos (incentivando um irmão, digamos, a
uma determinada conduta) e mesmo trechos argumentativos (defendendo uma
determinada perspectiva ou visão de alguma coisa). Enquanto as modalidades
retóricas constituem um número extremamente reduzido, os gêneros textuais
50
existem em número muito maior. Assim, os gêneros constituem textos de ordem tão
variada, tais como anúncios, convites, atas, avisos, programas de auditório, bulas,
cartas, comédias, contos de fada, convênios, crônicas, editoriais, ementas, ensaios,
entrevistas, circulares, contratos, decretos, discursos políticos, histórias, instruções
de uso, letras de música, leis, mensagens, notícias, novelas, orações, pareceres,
piadas, poemas, portarias, projetos, receitas, regimentos, relatórios, reportagens,
prestação de serviços, requerimentos, romances, sermões, sumários, telegramas,
palestras, briga de namorados e trabalhos científicos, entre muitos outros.
Em seu trabalho “Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e
aplicadas”, Rojo (2002), mediante um levantamento12 de pesquisas que tomam por
base as Teorias de Gêneros, constatou que seria conveniente dividi-las em duas
vertentes, ambas radicadas em diferentes releituras da herança bakhtiniana. A
primeira, Teoria dos Gêneros do Discurso, centrava-se no estudo das situações de
produção dos enunciados ou textos e em seus aspectos sócio-históricos e a
segunda, Teoria dos Gêneros de Textos, na descrição da materialidade textual. Por
meio desta proposição, apreendemos que o que separa a teoria dos gêneros do
discurso da teoria dos gêneros textuais é uma linha muito tênue, a qual, como não é
objetivo deste trabalho, não vamos discutir verticalmente.
Para melhor visualizar como a linguagem se inter-relaciona com as estruturas
sociais, é interessante compreender melhor a noção de estrutura. Discutimos a
seguir esta noção de acordo com o sociólogo inglês Anthony Giddens (1991), para
quem as estruturas são constituídas e existem como resultado do uso que as
pessoas fazem de ‘regras e recursos’. Vejamos, pois, como regras e recursos se
mesclam para formar estruturas. As regras são as normas, as convenções e os
12
Trata-se de um balanço apresentado em junho de 2000, no XV Encontro Nacional da ANPOLL.
51
significados por intermédio dos quais as pessoas se orientam, ao compreenderem e
desempenharem ações sociais. Os recursos são as posses e as capacidades que as
pessoas têm que lhes permitem exercer controle sobre o meio ambiente e sobre
outros indivíduos. As regras e os recursos formam estruturas porque se repetem no
espaço e no tempo e criam esquemas ou maquetes de expectativas dentro dos
quais as pessoas agem, comunicam e comportam-se. Em termos ‘reais’, a maioria
das estruturas existe apenas como traços mentais, isto é, as pessoas têm
conhecimento tácito, sabem como agir em determinada situação e esperam, por
outro lado, certo comportamento das outras pessoas. Situações e formas de agir e
compreender se repetem, constituindo estruturas mais ou menos tácitas. É claro
que, embora as estruturas se repitam no tempo e no espaço, tensões sempre
existem e, como resultado, mudanças e formações de novas estruturas podem
acontecer constantemente.
É também por intermédio das regras que os indivíduos criam estruturas de
significação, como, por exemplo, significado atrelado a diferentes tipos de
comportamentos e discursos. A sociedade em si constitui uma estrutura e os
eventos sociais, incluindo o uso de gêneros discursivos, constituem estruturas
menores que tomam forma, são reproduzidas e/ou vão mudando paulatinamente,
dentro da estrutura social.
Devido à existência de diferentes estruturas de dominação, legitimação e
significados, diferentes gêneros discursivos são exigidos para a condução de
diferentes atividades sociais, e os textos adquirem formas e significados mais ou
menos específicos dependendo da estrutura social onde ocorrem. Existe sempre
uma relação dialética entre discurso e estrutura social de modo que, ao fazermos
52
uso de gêneros discursivos, nós constituímos estruturas sociais e simultaneamente,
reproduzimos tais estruturas.
A teoria acima faz um contra-ponto com a teoria bakhtiniana do dialogismo
lingüístico, pois na perspectiva da interação social, Bakhtin considera o dialogismo
como princípio fundador da linguagem. Ignorar esse princípio seria o mesmo que
negar a ligação existente entre a linguagem e a vida. Na visão deste autor, os
gêneros discursivos são reconhecidos como propriedades discursivas que se
relacionam com as práticas sociais. Partindo desta concepção, podemos entender
que há uma relação íntima entre os processos históricos de formação dos gêneros e
as ações humanas.
Mesmo não constituindo objetivo teórico dos trabalhos da análise do discurso
de linha francesa, mantém cognação com a teoria do gênero de Bakhtin o conceito
de formação discursiva de Michel Pêcheux, definida como aquilo que se pode e se
deve dizer em uma formação ideológica definida, isto é, a partir de uma posição de
classe no interior de uma conjuntura dada.
Ainda sobre gênero, não poderíamos deixar de vincular as idéias expressas
por Foucault (1986). Para esse teórico, a escolha realizada por uma sociedade entre
todas as codificações possíveis do discurso determina seu sistema de gênero: uma
codificação historicamente ajustada e relativamente estabilizada de práticas
discursivas associadas a um padrão cujos monumentos formam um patrimônio, uma
memória coletiva que funciona como um horizonte de expectativas para os leitores e
como modelos de escritura para os autores. Essa historicidade determina que os
gêneros sofram coerções tanto da ideologia quanto da matéria lingüística,
assinalando o que pode e deve ser dito e como deve ser enunciado mediante um
53
conjunto de regras determinadas no tempo e no espaço, em uma dada época, para
uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística e as condições
de exercício da função enunciativa. (idem : 136). Assim, para Foucault, há um jogo
de relações regido por leis que determinam a enunciabilidade na prática discursiva:
entre o esquecimento e a tradição, o arquivo de uma época faz aparecerem as
regras de uma prática que permite aos enunciados subsistirem e/ou modificarem-se
regularmente.
No texto A ordem do discurso (1970), o autor apresenta e discute os
mecanismos de controle, seleção, organização e redistribuição dos discursos e dos
sujeitos, por meio dos quais ambos seriam ordenados de forma que seus perigos e
poderes sejam conjurados. Segundo ele, esses mecanismos dividem-se em:
externos ao discurso, internos, e de rarefação (seleção) dos sujeitos.
Os mecanismos de exclusão são externos e dividem-se em: rejeição – há
discursos que são condenados a não circularem, a não terem sua existência
reconhecida (como o discurso do louco, por exemplo); proibição - há assuntos
proibidos, e também circunstâncias em que não é permitido dizer algo, assim como
há sujeitos que são proibidos de proferir alguma coisa; vontade de verdade – a
oposição entre o verdadeiro e o falso é produzida institucional e historicamente, com
a valorização e distribuição do discurso que se considera verdadeiro.
Os mecanismos de controle do acontecimento discursivo, conforme Foucault,
partem do próprio discurso, e por isso é denominado de mecanismo interno de
controle. Pode dar-se sob a forma de comentário, que geralmente é dominado pelo
texto fundador, mas este também é dominado por aquele, uma vez que o comentário
limita o acaso do discurso pelo jogo de uma identidade que tem a forma de
54
repetição; autor - para Foucault, o autor não é um indivíduo, mas uma função –
“função autor” – que dá unidade e coerência ao discurso, limitando-lhe o acaso pelo
jogo de uma identidade que tem a forma da repetição.
Quanto aos mecanismos de rarefação, seleção dos sujeitos, segundo ele,
dividem-se em: ritual – define qualificações e papéis dos sujeitos; sociedade de
discurso (conservam e produzem discursos, fazendo-os circularem em espaço
restrito, isto é, são poucos os sujeitos que podem fazer parte delas); doutrina realiza a sujeição do sujeito ao discurso que se pode proferir no seu interior;
apropriação social dos discursos – somente os sujeitos que pertencem a
determinados sistemas é que estão autorizados a formular determinados discursos.
O discurso produzido por esses sujeitos deve estar nos limites fixados pela
disciplina, a qual, por sua vez, determina tanto o que é verdadeiro e o que é falso
dentro de suas fronteiras “científicas”, quanto o discurso que pode circular no seu
interior, assim como o que é indizível.
“Não importa quem fala, mas o que ele diz não é dito de qualquer lugar, é
considerado, necessariamente, no jogo de uma exterioridade” (Foucault, 1998, p.
141/2). Isso insinua que o sujeito ocupa um lugar na trama social, e ao produzir um
certo discurso, nele floresce sua identidade, mostrando, portanto, quem ele é, ou
seja, a que comunidade discursiva pertence e que mecanismos regulam seu falar.
Esse processo de identificação aponta que o sujeito se inscreve em uma
formação discursiva e não em outra. Nesse sentido é conveniente observar que o
sujeito é atravessado pela ideologia. Não uma ideologia consciente, mas como efeito
da relação do sujeito com a língua e com a história, em sua necessidade conjunta.
55
Estendendo a política de fechamento para a atuação dos formadores de
opinião, especificamente, o jornal impresso, com base nos mecanismos de controle
do discurso e do sujeito, postulados por Foucault, procuraremos evidenciar como
esse meio de comunicação produz um fechamento das possibilidades de trabalho
com a língua, age contra a heterogeneidade e imprevisibilidade do discurso, interfere
na imagem que a sociedade faz da língua e, como autorizado, adentra pelo sistema
de apropriação do conhecimento lingüístico, excluindo de seus domínios formas
outras de conceber a língua e lidar com ela. A seguir, tentaremos delinear os
gêneros que circulam no espaço do jornal impresso e suas implicações para a
produção de sentido pretendido.
2.3 Os gêneros presentes no suporte jornalístico
Ao estudar os gêneros jornalísticos no Brasil, Melo (1985) retoma a obra de
Luiz Beltrão, pesquisador que estudou sistematicamente esse assunto. A
classificação feita por Beltrão atende a critérios funcionais, de acordo com as
funções que os textos desempenham em relação ao leitor: informar, explicar ou
orientar. A partir dessas funções, propõe três categorias básicas:
• jornalismo informativo: notícia, reportagem, história de interesse humano e
informação pela imagem;
• jornalismo interpretativo: reportagem em profundidade;
• jornalismo opinativo: editorial, artigo, crônica, opinião ilustrada e opinião do
leitor.
56
Entretanto, Melo reduz essa classificação a duas categorias:
• jornalismo informativo: nota, notícia, reportagem e entrevista;
• jornalismo operativo: editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crônica,
caricatura e carta.
Com base nessa classificação, é possível observar que os gêneros do
discurso não se limitam especificamente ao literário, ao jornalístico, ao técnico ou ao
científico: são, na verdade, modelos gerais, que são escolhidos, adaptados e
readaptados de acordo com a atividade, circunstâncias, e momento de realização,
visto que não são estanques, mas sim relacionados com o momento sócio-histórico.
No quadro do jornalismo operativo, assim classificado por Melo, podemos
sugerir mais uma tipologia de gênero jornalístico: o gênero anedotário político, que
se pode considerar uma transmutação do discurso político, por intermédio de
propriedades de dinamicidade e variabilidade. Esse processo pode ser observado na
produção de textos que circulam na mídia, determinados pelas práticas de produção
e recepção que elas inauguram. Deste modo, as singularidades de um gênero
midiático são determinadas pelas estratégias que indicam uma certa especialização
da área na qual ele se produz, refletindo as práticas sócio-históricas envolvidas
nessa especificidade. É desse modo que os gêneros são transpostos de uma
especificidade a outra, mantendo o vínculo com sua origem, mas reconfigurando-se
no novo contexto sócio-cultural, também ele, específico.
57
2.4 O gênero anedotário político mato-grossense
Ao considerarmos a possibilidade de dar visibilidade, no sentido de gênero
bakhtiniano, à existência do gênero anedotário político mato-grossense, levamos em
consideração, além da propriedade de provocar o riso, várias regularidades, tais
como o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo verbal, como se
pode verificar, em linhas gerais, a seguir:
• conteúdo temático: trata de temas políticos, que, na maioria das vezes,
referem-se a questões regionais, pois busca empatia com os leitores da
coluna, ou seja, com os interpretadores;
• construção composicional: obedece a uma regularidade, mantendo sempre
a mesma estrutura organizacional (apresentação e exposição, ficando a
conclusão por conta do leitor), aparecendo sempre numa determinada coluna,
num mesmo espaço, mesma fonte (tipo e tamanho da letra) e, geralmente no
lado direito da mesma página (3 A) e apresenta sintaxe complexa. O colunista
não assina seus textos, e não deixa indícios de autoria. Os textos
caracterizam-se ainda por apresentar protagonistas de um grupo social
determinado. O registro lingüístico é informal, exceto na introdução elaborada
pelo apresentador/narrador, que posteriormente, apela para o uso das
estruturas de citação, como marca de heterogeneidade mostrada, ou seja,
insere as falas dos participantes no discurso direto para enfatizar a autoria
das mesmas. Com o enunciado vêm as palavras, o estatuto do enunciador e
do enunciatário, o modo de enunciação, a intertextualidade. É notável o
conflito entre o corpo citante, e o elemento citado, sendo que o último é
recriminado pelo fato de alimentar-se de uma discursividade incompatível com
aquela da enunciação que o apresenta, ou seja, é notavelmente rejeitado pelo
58
corpo citante. Trata-se de desqualificar o elemento citado, mostrando que ele
viola as regras do jogo. Tenta-se tirar-lhe o direito legítimo à palavra,
independentemente do conteúdo.
• estilo: geralmente ocorre a introdução por meio de um narrador que não se
identifica, mas demonstra um ponto de vista onisciente, uma vez que explana
o texto como se conhecesse todos os fatos e pensamentos de seus
personagens. Tem por forte característica o propósito de escárnio, ou seja,
despertar o riso derrisório por algum “deslize” cometido por autoridades
políticas, no caso dos textos que compõem o corpus, no que tange ao uso da
linguagem, ou pelos artifícios eleitoreiros empregados.
Vejamos um exemplo:
Em dezembro de 1995, dois meses após a eleição para governador, Dante de
Oliveira, então no PDT, fez uma viagem à Ásia, em compainha do ex-deputado
Antônio Joaquim, hoje conselheiro do TCE. Ao chegar em Pequim, ninguém
agüentava mais experimentar pratos da exótica culinária oriental. Fanático por um
espeto na brasa, Joaquim foi convidado para almoçar numa churrascaria brasileira.
Toda a comitiva o acompanhou. Ao chegar no restaurante, os mato-grossenses
depararam-se com um típico ambiente brasileiro, com prateleiras abarrotadas de
litros de cachaça. Entre um gole e outro, Joaquim foi abordado por um gerente:
- E aí, deputado, tudo bem? Tive o prazer de votar no senhor para
deputado estadual em 1986, lá em Barra do Garças.
Antonio Joaquim, eufórico, disparou:
- Viu só, governador? Sou muito melhor de voto do que o senhor.
Tenho voto até na China!
21 de fevereiro de 2004 – edição nº 4543 - (anexo A).
59
O que estamos considerando “gênero anedotário político”, nos limites do
nosso estudo, está circunscrito ao espaço de circulação midiático em Mato Grosso e
refere-se, de certa forma, a textos mistos, porque neles se descreve um
acontecimento, mas não se deixa de emitir uma opinião. Os assuntos são abordados
de modo a provocar o riso nos leitores e, por meio dele, proteger o colunista, ou
seja, o articulista-enunciador de sofrer qualquer censura sobre o conteúdo
controverso que apresenta. Inserindo-se na ordem do discurso polêmico, esse
gênero distingue-se de outros dessa natureza que circulam na mídia, como o
editorial, que traz uma marca autoral associada a uma assinatura.
Enquanto a posição que é veiculada num editorial usualmente não representa
o discurso da empresa, do grupo jornalístico, enquanto representante de uma certa
posição ideológica que configura a formação discursiva desse grupo, uma vez que
traz a assinatura do autor, no gênero anedotário político, a posição ideológica do
articulista pode estar necessariamente vinculada à posição do jornal enquanto
representante de um grupo, pois, contrariamente, não é assinado pelo colunista.
É relevante frisar que as personalidades políticas mais recorrentes nos textos
do corpus, são aquelas que já exerceram ou exercem cargos públicos de vereador,
deputado, prefeito e, quando da publicação dos textos pelo jornal A Gazeta, não
ocupavam mais os referidos cargos. Quanto aos partidos políticos, também são
recorrentes, na grande maioria, aqueles que não estavam
em evidência no
momento. Identificamos apenas dois casos de citação de personalidades da política
mato-grossense atual: o do então candidato à reeleição em (2002), senador Jonas
Pinheiro, filiado ao PFL, partido que na ocasião das eleições estaduais estava
coligado ao PPS, que tinha como candidato a eleição o então governador Blairo
Maggi, que, aliás, num dos textos aparece como enunciador citado, mas é ele quem
60
usa recursos derrisório contra os repórteres/jornalistas, reforçando a hipótese acima,
ou seja, as posições sócio-ideológicas do grupo de comunicação A Gazeta.
Vejamos mais um exemplo:
Em 1994, o então vereador por Rondonópolis, Pedro Lourenço da Silva Neto,
o Pedro da Draga (PMDB), resolveu integrar uma comitiva de cinco colegas
parlamentares para participar de um encontro de vereadores em Recife. Mal
embarcou no avião no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, Pedro da
Draga já começou a tomar whisky. Após a decolagem, ele acompanhou atentamente
as informações do comandante da aeronave. Semi-alfabetizado, o vereador, então,
resolveu também dar o seu recado para o desespero de seus colegas vereadores.
Foi à frente e discursou:
- Eu quero agradecer aqui as palavras amáveis do motorista desse
avião e dizer a todos que somos vereadores de Rondonópolis e que vamos
participar de um congresso. Que todos também tenham uma boa viagem!
01 de fevereiro de 2004. – nº 4523 - (anexo B)
Neste exemplo, que não difere da maioria dos textos da coluna Em tempo, o
articulista joga com os discursos silenciados, os pontos de vista divergentes,
preconceitos cristalizados na sociedade, redes de significações que constituem a
exterioridade constitutiva dos sentidos como efeito do trabalho da memória e do
interdiscurso, ao fazer comentários sobre o enunciador que logo entrará em ação. O
enunciador citado é aqui exposto derrisoriamente, porque infringiu uma regra básica
da coerência semântica ao usar um vocábulo que não pertence a um campo
semântico específico, no caso “motorista” no lugar de “piloto”, que do ponto de vista
do enunciador citante, criou uma incoerência semântica ao substituir um substantivo
61
por outro, haja vista que ambos não são hipônimos. Ou seja, não funcionam como
sinônimos, muito embora sabemos que não há sinônimos perfeitos. A título de
exemplo, como disse Beth Brait13, quando vamos substituir os pneus do nosso carro,
o fazemos porque estão carecas e não calvos.
No próximo texto, o político é exposto ao escárnio por sua capacidade de tirar
proveito até das situações mais difíceis. O articulista recorre às estratégias que
alguns candidatos lançam para angariar votos.
Na última quinta, a direção do PPS de Várzea Grande, sob o comando do
pré-candidato a prefeito Murillo Domingos, se reuniu para discutir estratégias e a
possibilidade do partido fazer parte do fórum suprapartidário, composto por oito
legendas (PHS, PDT, PL, PP, PSDB, PSB, PT e PC do B). Um ex-secretário do
município, cuja esposa é pré-candidata a vereadora, disse, na reunião, que vai
procurar algumas pessoas as quais ajudou e fez o seguinte comentário:
- Dei 3.830 caixões e vou atrás!
- Mas como?
O ex-secretário tentou explicar:
- Eu vou atrás dos parentes vivos e que votam! Os mortos, esses não
tem jeito, já foram!
04 de fevereiro de 2004. – nº 4526 - (anexo C).
Como se evidencia, o colunista vale-se de artifício para suscitar o riso, da
estratégia empregada pela pré-candidata para conquistar os futuros eleitores, o
chamado toma-lá-dá-cá, que se convenha, é um tanto original - dar caixões, e
depois ir atrás. O que provoca o riso aqui é a incoerência gerada pela construção
(Dei 3.830 caixões e vou atrás!) que à primeira vista, choca, pois ninguém seria tão
13
Em palestra proferida no final do semestre de 2004 na UFMT.
62
insano a ponto de tentar resgatar um caixão, ou um defunto para levá-lo a urna para
votar!
Neste próximo texto, o político também é exposto à mofa por sua capacidade
de tirar proveito até das situações mais embaraçosas, por sua capacidade de
simulação e habilidade para reverter à situação a seu favor.
O médico Carolino Gomes dos Santos, que foi prefeito de Barra do Garças
(82/86), é um dos políticos da região do Araguaia que mais freqüenta velório e
também festas de aniversário. O seu estilo populista marcou época. Na reta final de
sua campanha vitoriosa a prefeitura barra-garcense, em 1981, Carolino resolveu
fazer um verdadeiro arrastão pelos bairros, chamado corpo-a-corpo. Ao chegar na
casa de um morador, o então candidato, demonstrando intimidade familiar, foi logo
perguntando para um que o atendeu:
- Cadê sua mãe Tereza?
O rapaz respondeu:
- Ela morreu!
Carolino, desconcertado, emendou:
- Morreu pra você, filho ingrato, porque pra mim ela continua viva e
morando em meu coração!
07 de janeiro de 2004. – nº 4498 - (anexo D).
Outra regularidade nos textos coletados é a contextualização histórica feita
pelo escritor da coluna Em Tempo, nos textos.
Como se pode constatar, o colunista apresenta o seu protagonista, diz sua
profissão, condição de escolaridade, situa o leitor da região geográfica (onde
ocorreu o evento discursivo) e cronográfica (do momento), ou seja, do ano em que
se deu o acontecimento, e tece comentários subjetivos sobre o enunciador: Quem?
O médico Carolino Gomes dos Santos; Onde e quando? Na reta final de sua
campanha vitoriosa a prefeitura barra-garcense, em 1981; Comentários: é um dos
63
políticos da região do Araguaia que mais freqüenta velório e também festas de
aniversário. O seu estilo populista marcou época.
É justamente nos comentários que estão as pistas que permitem avaliar o
sentido derrisório constituído nos textos. Se voltarmos aos exemplos já mostrados,
poderemos confirmar mais essa regularidade. Contudo, acreditamos não ser
necessário destacar esses elementos em todos os textos, pois eles estão muito bem
marcados na introdução de cada um.
Acreditamos que os exemplos mostrados, embora quantitativamente poucos,
sejam suficientes para levantar a possibilidade da existência do gênero anedotário
político mato-grossense, haja vista as regularidades presentes em todos eles, seja
no conteúdo temático, na construção composicional ou no estilo. E, como em todo
discurso, é nesse jogo de dizeres que se repetem ou se opõem que se dá a
heterogeneidade discursiva. Isso significa que os sentidos orientam-se em espaços
contraditórios que instauram a polêmica e os deslocamentos.
Considerando que a descrição acima evidencia a possibilidade concreta, no
sentido de um gênero bakhtiniano fundado numa esfera da atividade jornalística, da
existência do gênero anedotário político mato-grossense, e ressalvando que tal
evento discursivo merece estudos mais aprofundados, que perpassam os limites
desta dissertação, passaremos, no próximo capítulo, ao desenvolvimento das
análises, enfatizando a presença do sentido derrisório nos textos que constituem o
corpus, partindo dos comentários tecidos pelo enunciador citante para justificar os
usos lingüísticos dos protagonistas, ancorados substancialmente nas variedades
lingüísticas usadas pelos mesmos, que funcionam como ‘terrenos férteis’ para o
afloramento do preconceito lingüístico, através de mecanismos como a derrisão, nos
deslizamentos do discurso político.
64
CAPÍTULO 3
O espetáculo político na mídia
“O exercício do poder, ou sua conquista,
sempre compreendeu uma dimensão
imaginária. A política é uma questão tanto
de imagens e representações quanto de
ética e de relações de força”.
(Achache)
3.1 Dramatização e violência simbólica
Neste capítulo pretendemos discutir os deslizamentos que o discurso político
vem sofrendo nas últimas décadas do século XX, até sua acentuação nos dias
atuais, bem como o uso abundante de recursos de linguagem para configurar esses
deslizamentos.
Frente ao surgimento dos fenômenos contemporâneos, constata-se que o
discurso político está em crise nas sociedades ocidentais. Nos Estados Unidos, por
exemplo, nas últimas duas décadas, revela-se o “não investimento dos cidadãos,
em face às funções públicas, evidenciando a desconfiança progressiva dos
americanos em relação às suas instituições governamentais”. (Yankelovich 1982;
Vavakova, 1990).
Na França, a partir dos anos 70, como prova da incredulidade e indiferença
aos discursos políticos, há um crescimento espantoso nos recordes de abstenção
eleitoral, conseqüência da difamação dos discursos e das instituições públicas,
pilares da exploração eleitoral.
No Brasil, por extensão, com a dissolução da ditadura militar, a
“espetacularização” da política brasileira foi um meio encontrado para reverter, ou
65
pelo menos, minimizar o desinteresse, o descrédito e a incredulidade frente ao
discurso político.
Essa nova ordem que se instaura, demanda mudanças drásticas no discurso
político, e abre um novo campo promissor aos estudos desta modalidade de
comunicação radicalmente nova. Os longos discursos cedem lugar a formas breves,
de pequenas frases. Neste novo contexto, privilegia-se a astúcia verbal em
detrimento da estratégia discursiva. Nessa nova modalidade de discurso político,
passa a existir o indivíduo falante (o candidato), enquanto o aparelho político se
apagaria: cada um falaria em seu nome e, portanto, as vozes não seriam mais
partidárias, mas pessoais. O discurso político é assim submetido a uma dupla
exigência: de um lado _ uma injunção à verdade: O discurso é então o “falar verdadeiro” e exprimiria em sua transparência as próprias coisas. Do outro lado,
haveria um imperativo de simplicidade: o discurso é o “falar – francamente”, língua
ordinária, banalização cotidiana das idéias políticas. (COURTINE, 2003 : 23).
O que se percebe na verdade é que, por influência da mídia, há uma
racionalização do espaço político, e no campo do discurso o reinado das formas
breves é o primeiro elemento das transformações da fala pública. Comunicar em
política passou a ser usar o mínimo de palavras fundamentais, perpetrar frases
curtas e empregar algumas fórmulas. “Rebaixado de suas grandezas teóricas,
assegurando um serviço ideológico mínimo, o discurso é então compreendido como
o produto homogeneizado de um consumo de massa”. (idem : 23).
Por outro lado, as formas didáticas da eloqüência política clássica, moldadas
pela instituição escolar são substituídas por configurações novas, que submetem os
conteúdos políticos às reivindicações das práticas de escrita e de leitura
convenientes
ao
aparelho
visual
e
audiovisual
de
informação.
Acontece
66
simultaneamente, uma nova divisão da verdade no campo político, que tende fugir
das demarcações tradicionais (direita/esquerda) para se dividir de acordo com as
categorias do arcaico e do moderno. As formas longas, suspeitas de ambigüidade,
opacas e mentirosas pertencem à categoria do arcaico, ao passo que as formas
breves e modernas, vivas e claras, na sua retórica despida e sintaxe liminar, dizem
respeito ao moderno.
Courtine (2003, p. 23 - 4), em “Os deslizamentos do espetáculo político”,
assevera ter ocorrido uma série de transformação no discurso político e aponta um
conjunto de características dessa “nova” linguagem política, entre as quais a
brevidade, a conversação, o homem privado sobre o personagem público como os
elementos principais dessas recentes transformações na linguagem política.
Para essas mudanças no campo discursivo tem papel altamente expressivo a
mídia, fenômeno designado como “politização da mídia”. Hoje já não se faz política
sem a presença marcante da mídia, que assumiu o papel de apresentar os
candidatos e difundir suas propostas ao público, como tem acontecido atualmente
através do chamado “horário eleitoral gratuito”.
o enfraquecimento do Estado-providência não somente possibilitou
o deslocamento das estratégias midiático-publicitátias do mercado
(instância do foro privado) para o cerne do campo político (lugar da
res publica), mas também fomentou a atuação politizada da
sociedade civil. Em outras palavras, o encolhimento do raio de ação
estatal teria estabelecido, em contrapartida, a ampliação da
política/moral para o espaço privado/ético.(PIOVEZANI, 2003, p.
57).
Segundo Piovezani, ancorada na pretensa existência de um paradoxo que
instala uma distância próxima e uma proximidade longínqua, a mídia se atribui à
função de “descobrir a verdade por trás dos véus” e de revelá-la aos expectadores.
A partir desse paradoxo entre a proximidade que é garantia de boa visão, e a
67
distância que assegura a isenção e a objetividade, a mídia assume o papel de portavoz que promete representar uma dada coletividade e, ao mesmo tempo, confrontarse com os agentes políticos, pois com seu olhar envolto e secreto, consegue
desvelar o oculto ou sublinhar o que aparentemente passaria despercebido, ou seja,
a mídia tenta recuperar a legitimidade.
Subsidiada na pretensa existência, no espaço político, de um nível
profundo (e, por isso mesmo, mais real), ou de uma dupla dimensão
– a da manifestação (aparência) e a da imanência (essência) - , a
mídia reivindica a legitimidade de sua laboração politizada, na
medida em que diante daquilo que não é, mas que se manifesta
como sendo ou aquilo que é, mas que apresenta não ser, a postura
crítico-heurística que ela toma cumpre a função de deslindar o
obtuso, de reverter o real. (idem : 57).
É o que podemos compreender na aspiração do jornalista que escreve a
coluna Em tempo. Ele tenta divulgar para a sociedade as particularidades
lingüísticas de muitos dos nossos representantes, bem como os estratagemas
politiqueiros de que alguns candidatos lançam mão para chegarem ao tão
ambicionado poder.
Dando prosseguimento a este estudo, nosso propósito é analisar como o
gênero anedotário político tem se mostrado promissor à proliferação de recursos
derrisórios, artifício amplamente usado para desqualificar e mostrar a inversão do
discurso político.
3.2- O acontecimento político como palco para manifestação da derrisão
Como demonstramos desde as primeiras páginas deste trabalho, nossa
proposta é discutir o funcionamento discursivo da derrisão no gênero anedotário
político mato-grossense. Nesse gênero, o sujeito do discurso ou articulista comenta
ou apresenta um acontecimento político/social, revelando de forma mascarada seu
68
ponto de vista acerca desse acontecimento, usando deliberadamente de
comentários, que permitem, por meio da memória discursiva, delegar o seu caráter
derrisório.
Apesar de já ter sido muito estudado e constituir-se fonte para inúmeros
trabalhos acadêmicos, o discurso político mato-grossense não foi ainda analisado
tomando-se o uso das variedades lingüísticas como motivo de derrisão, o que
justificaria entre outras razões, a nossa escolha para desenvolvimento dessa
pesquisa.
Lançar o olhar sobre um aspecto pouco conhecido em nosso meio acadêmico
e levar ao conhecimento público a capacidade de uma verve que, por mais
agressiva que possa parecer, tem a força de nos enredar pelo riso, é sem dúvida um
grande desafio. Por outro lado, talvez sejam os riscos um tanto atenuados, frente à
crise política no cenário nacional, na qual cotidianamente, somos praticamente
obrigados a assistir extasiados às trocas de amabilidades verbais derrisórias entre
os nossos “respeitáveis” representantes no panorama político nacional, onde, como
não poderia ser diferente (haja vista a histórica trajetória de corrupção no estado), há
representantes dos políticos mato-grossenses envolvidos nos recentes episódios de
corrupção.
Desde o surgimento de mais um neologismo no Congresso Nacional - o termo
“mensalão” que designa o pagamento de propina mensal a parlamentares para
apoiar o governo federal na aprovação de seus projetos, desencadeou-se uma crise
política, envolvendo inicialmente representantes do PT, PTB e PL e depois
abrangendo inúmeros partidos, o mensalão já determinou a abertura de duas CPIs
(Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as denúncias, e nos forçou ao
(des)prazer de acompanhar durante a realização de depoimentos dos envolvidos, o
69
uso exorbitante de derrisão durante os confrontos nos depoimentos à Comissão de
Ética. Um exemplo, que certamente não passou despercebido aos ouvidos dos
telespectadores, foi o embate verbal entre os deputados do PTB do Rio de Janeiro,
Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto do PL, levado ao ar inúmeras vezes pelas
mídias, quando este, irritado com o companheiro que traiu a aliança, entregando
todo o esquema, rebateu mais uma vez as acusações daquele:
__ Vossa excelência veio mais uma vez enxovalhar essa casa, e não
apresentou nenhuma prova... (Valdemar Costa Neto).
Ao que Roberto Jefferson, subvertendo e pervertendo a fala e o pensamento
deste, retrucou:
__ (...) respeito os gostos de vossa excelência, que tem fama de mulherengo
e jogador...
Mediante tal enfrentamento, o contestante Valdemar calou-se, pois estava
evidenciado que os rumos das acusações sairiam da esfera pública e entraria na
particular, ou seja, passaria a expor peculiaridades de sua vida privada, o que
tornaria sua situação ainda mais desconfortável. O uso de adjetivos pejorativos foi o
recurso derrisório perfeito encontrado pelo oponente para vencer seu adversário.
Outro episódio, no qual houve um show de elementos derrisórios, foi no
enfrentamento de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e o já acima citado
deputado Roberto Jefferson, no dia 02 de agosto de 2005 quando aquele depunha
também na Comissão de Ética a respeito de seu suposto envolvimento no esquema
de corrupção do chamado mensalão, onde peremptoriamente, negou todas as
acusações, fato que levou o oponente Roberto Jefferson a fazer a seguinte
declaração:
70
- Vossa Excelência é famoso por intimidar as pessoas. Tenho medo de vossa
excelência. Vossa excelência me provoca os mais primitivos instintos!
Esse pronunciamento do deputado Roberto Jefferson nos permite fazer a
leitura de que ele, naquele momento, considerava o também deputado José Dirceu
um homem desprezível, mentiroso, vil, e por tamanha desfaçatez, seria capaz de
atacá-lo. Há neste discurso uma mistura destrutiva de derrisão e ironia.
Assim, é necessário lembrar que, infelizmente, do mesmo modo como a
corrupção tornou-se uma prática constante por alguns políticos na história deste
país, há muito tempo o discurso político faz amplo uso da derrisão, ou seja,
associação do humor e da agressividade para descaracterizar o oponente. Vale
lembrar que a derrisão caracteriza-se ainda sob a forma de gracejos, trocadilhos,
jogos de palavras irônicos, sufixações pejorativas, terminações eruditas e paródicas,
truncamentos
e
deformações,
antífrases14,
discursos
diretos,
citações
confessionais15, presença de “sic” sarcástico para ressaltar equívocos ortográficos,
entre outros recursos, visando ridicularizar o outro.
Como acontece no cenário mundial e nacional, também na política estadual
temos exemplos de políticos que recorrem ao uso da derrisão ou são alvo desta,
como por exemplo, o governador do Estado de Mato Grosso - Senhor Blairo Maggi,
que contrariamente a outros políticos aburguesados, tomou como símbolo de
diferenciação de seu governo ‘as botinas’ numa menção ao homem do campo,
propendendo conotar que também é um deles, e como tal, desenvolverá políticas
voltadas para o incentivo do agro-negócio. Notadamente, esta postura do senhor
governador não foi bem vista no cenário nacional, pois lhe rendeu o título de maior
devastador de florestas do país. Desta maneira, podemos compreender que o
14
A antífrase, ao assinalar um escândalo, elimina todo julgamento de aprovação ou desaprovação, permitindo aos adversários
irem até as últimas conseqüências.
15
Consiste em atribuir o discurso a uma fonte confiável para os propósitos do locutor.
71
símbolo das botinas funcionou como um recurso derrisório, pois, ao contrário do que
se esperava, corroborou para desconstruir a boa imagem do político Blairo Maggi no
panorama nacional. Vale ressaltar que essa polêmica veio à tona logo após a revista
Época publicar que o então governador de Mato Grosso seria o vice do senhor
Geraldo Alkmin, governador de São Paulo, para as próximas eleições presidenciais.
No tópico seguinte, analisaremos com mais propriedade o uso do recurso
derrisório no discurso político mato-grossense.
3.3 Derrisão no anedotário político mato-grossense
É necessário salientar também que pessoas públicas, estando aí inclusos os
políticos, mantêm um relacionamento geralmente conflituoso com as mídias. E,
neste cenário, os jornalistas são também, inevitavelmente, vítimas de uma estratégia
de derrisão in praesentia, que visa tirar a legitimidade de seu papel e de seu
estatuto, e ao mesmo tempo, permite ao entrevistado esquivar-se de certas
questões embaraçosas.
Como um bom exemplo, apresentamos mais um texto da Coluna Em tempo:
Na última terça, a petista Serys Slhessarenko aproveitou um discurso
proferido da tribuna do Senado e dedicou um minuto de críticas e ataques ao
governo Blairo Maggi. Ela o chamou, por exemplo, de “truculento”. Ontem, ao chegar
no Centro de Eventos do Pantanal para participar da solenidade de posse de Ary
Leite na presidência do TCE, Maggi foi interceptado pelos jornalistas que queriam
repercutir as declarações da senadora. Cauteloso, o governador disse que tinha até
viajado ontem com Serys e, em tom irônico, comentou:
- Na universidade, eu jogava truco e era rápido. Agora fiquei sabendo que sou
truculento!
21 de janeiro de 2004, edição nº 4522 -(anexo E)
72
Neste texto, o governador Blairo Maggi, bem ao estilo lepenista16, esquiva-se
de dar explicações a uma questão bastante embaraçosa e como alternativa, recorre
ao recurso derrisório do jogo de palavras: truco/truculento, conseguindo ludibriar as
expectativas dos jornalistas, forçando-os a dar a entrevista por encerrada, ou seja,
por meio de um nocaute verbal, levou-os a lona. Numa expressão popular – ‘caloulhes o bico’.
Considerando-se a língua como uma atividade que constitui os sujeitos e é
constituída por eles ininterruptamente, tendo em vista necessariamente sua
historicidade, isto é, sua relação com um contexto socioideológico, com as suas
condições de produção, é necessário atentar para o funcionamento discursivo e para
a polissemia do discurso: suas condições de produção lhe restringem os sentidos, e,
ao mesmo tempo, podem ampliar suas possibilidades, porque os sujeitos e os
contextos sociais em que se inserem são heterogêneos. Isso quer dizer que, ao
internalizar a palavra do outro e lançar uma contra-palavra, o sujeito está
produzindo, necessariamente, uma nova palavra, como ficou evidente no texto
acima.
Um dos postulados mais produtivos desenvolvidos pela análise do discurso
refere-se à heterogeneidade discursiva, o que nos leva a conceber que o dizer é
atravessado por outros dizeres e que a unicidade do sujeito inexiste nesse processo
de constituição dos sentidos, ou seja, o sujeito não é fonte autônoma do sentido. O
que equivale dizer que a idéia de uma heterogeneidade constitutiva dos processos
discursivos introduz, na abordagem do sentido, uma exterioridade que é constitutiva
do dizer e do sujeito, que só se estabelece nas relações com o exterior.
16
Derivado de Jean Marie Le Pen – candidato de extrema direita da Frente Nacional francesa, famoso pelo uso da truculência
verbal.
73
A interpretação também trabalha com as marcações de memória discursiva.
Para percebê-la funcionando em um texto, devemos seguir as pegadas das
representações que uma sociedade constrói de seus temas. A memória se faz
presente no momento em que o discurso se relaciona com sua exterioridade, o que
se apresenta como ausente, participa da constituição do sentido, marcando-se sob a
forma de implícitos.
Partindo do princípio que a mídia é formadora de opinião, principalmente os
meios de comunicação de massa, como os jornais, que têm maior alcance e sabem
muito bem fazer uso dessa potencialidade, então, tudo que é levado ao público,
comporta o desejo de influenciar o leitor, e o objetivo que podemos apreender da
coluna Em tempo, é que seu autor, um representante da sociedade letrada que pode
opinar sobre o uso da língua, e como representante desse grupo tem sua voz
exposta num meio de comunicação de ampla circulação, pretende mostrar de que
forma determinados políticos se comportam socialmente, principalmente com
relação ao uso da língua materna.
Na análise da derrisão edificada pela cena enunciativa, observaremos o
trabalho de autoria que organiza o texto, compondo a cena como ponto de partida
para a interpretação do sentido derrisório. A cena assume, assim, uma das
dimensões constitutivas do discurso, pois oferece elementos para sua interpretação,
ao mesmo tempo em que determina o lugar social dos enunciadores, bem como a
formação discursiva destes.
Veremos como o articulista, habilmente desenvolve o texto, colocando em
cena um discurso outro, que ele de antemão problematiza, mas por meio de uma
crítica sutil, tenta mascarar sua posição, como forma de manter um distanciamento
em relação ao discurso que apresenta.
74
É o que passaremos a analisar a partir de agora, nos textos que compõem o
corpus.
Em 82, o então sapateiro Cícero, conhecido por "Padim Ciço", resolveu
disputar
candidatura
de
vereador
em
Barra
do
Garças
pelo
PMDB.
Semialfabetizado, Padim Ciço (Padrinho Cícero), hoje com 65 anos, se tornou
conhecido no município. Ele tinha um jeito engraçado de se manifestar em
público. Os erros gramaticais, aliados às dificuldades de pronúncia, provocava
ruído de comunicação. No primeiro discurso que fez em palanque, Padim Ciço
acabou, sem querer, se indispondo com o ex-deputado estadual por dois
mandatos José de Arimatéia, que estava no palanque, do seu lado. Empolgado,
Padim Ciço afirmou:
- Meus amigos, cheguei na Barra do Galça (Garças) e joguei uma sumente
(semente). Essa sumente (semente) germinou e daí nasceu uma grande alve
(árvore). E essa alve (árvore) deu muitas fruitas (frutas) e Zé de Arimatéia é uma
dessas fruitas (frutas).
Irritado com aquela história e achando que Padim Ciço (Padrinho Cícero)
estava se referindo a ele de maneira pejorativa, Arimatéia tomou o microfone do
candidato a vereador e emendou:_ Fruita é a puta que....!!!
07 de março de 2004, edição nº 4.557 -(anexo F).
Chamou-nos a atenção esse texto, não só pelas marcas lingüísticas que
evidenciam a língua materna do enunciador citado, mas especialmente pelas
“falhas” detectadas, mesmo na escrita monitorada do enunciador citante, que
infringe regras da Gramática Normativa, ao usar, por exemplo, a regência incorreta
do verbo
estar, que exige o uso da preposição a e não de, como escreve o
colunista: “estava no palanque, do seu lado”, ao invés de “ao seu lado”.
75
Quanto ao discurso do enunciador citado, detectamos o lambdacismo17
presente nas palavras <galça> e <alve>, que sinaliza a consciência dele em relação
ao valor social da língua materna na sociedade, e sobre os julgamentos a que está
submetida nos mercados lingüísticos. Esse fenômeno, também chamado de
hipercorreção, nada mais é do que a manifestação do desejo de se apropriar das
formas lingüísticas de maior valor no mercado de bens simbólicos. O falante, ao
pronunciar alve<árvore, realizou um fenômeno que tem se mostrado uma tendência
na língua portuguesa: a redução de palavras proparoxítonas a oxítonas Há também
os arcaísmos <fruitas> e <sumente>. Na primeira palavra identificamos uma
ditongação, fenômeno considerado por Penha (1997, p. 33-35) como resquício de
língua antiga, ou seja, forma arcaica, que atualmente quase não se encontra nos
usos da língua. Na segunda palavra, encontramos uma alteração do <e> para <u>,
no início da primeira sílaba, caso bastante raro nos dias atuais, mas que é
facilmente encontrado nos textos antigos. Santiago-Almeida (2005) afirma a
ocorrência do fenômeno na palavra <sumana> na Baixada Cuiabana.
Discursivamente, pode-se dizer que há restrição ao discurso do vereador
porque ele infringiu regras que definem as qualificações que devem possuir os
indivíduos que falam publicamente, que devem ocupar determinadas posições e
formular determinados tipos de enunciados. E o discurso político, assim como os de
outras esferas sociais, não pode se dissociar dessa prática, que determina para os
sujeitos falantes propriedades particulares e papéis preestabelecidos. Entre estes
papéis, subentende o de um sujeito que faz uso da modalidade culta da língua. E, a
mídia, para quem o único padrão de língua aceitável é o prescrito nas gramáticas
normativas, vê na língua falada pelas pessoas, como faz questão de marcar o
17
Troca do fonema <r> pelo <l>.
76
colunista por meio do termo “semi-alfabetizado”, uma infração grave, que merece
destaque punitivo, como se fazia na Idade Média com aqueles que cometiam algum
crime e eram severamente castigados em público para servirem de um exemplo a
não ser seguido. Assim, ao transcrever a fala do personagem do seu texto, o
colunista faz questão de fazê-lo integralmente somente das particularidades que
convém ao seu propósito, que é ridicularizar, expor a zombaria através do riso
derrisório, o protagonista do acontecimento discursivo que publica, deixando claro,
que para ele, o enunciador citante, o conceito de idioma é norma culta escrita.
Por isso, ao trabalhar com textos midiáticos, não se deve menosprezar a
interferência dos comentaristas na formação de opinião. Para Dumazedier (1966, p.
26), tais profissionais desempenham um papel altamente expressivo no que se
refere à exploração da opinião pública, com propósitos de nutrição de expectativas
sociais. Assim, além de servirem de intérpretes do objeto que serve de estímulo à
participação social, “são naturalmente os elos de correntes diferentes de opiniões,
podendo muitas vezes servir de orientação num rumo não muito legítimo” (p.26).
Deste modo, contribuem decisivamente para formar as tendências de opinião
pública ao divulgarem posições ou interpretações de fatos favoráveis ou
desfavoráveis ao poder político vigente, ou a grupos de interesse que atuam na
sociedade. Operando um recorte da realidade, podem por um mecanismo de
manipulação, fazer com que o real não se mostre, seja através da omissão,
atenuação ou falseamento de dados, como as contradições que subjazem às
relações sociais. Pela seleção e mudança das formas de articulação do espaço e da
realidade, a ideologia escamoteia o modo de ser do mundo. Esse modo de ser do
mundo veiculado pelos discursos, recortado por uma instituição ou classe social num
dado sistema, retrata, ainda que de forma enviesada, uma visão de mundo.
77
Do nosso ponto de vista, é o que faz o colunista do Jornal A Gazeta no
Caderno de opiniões, coluna Em Tempo, que, ao tentar desqualificar o discurso que
publica, levanta falsas questões a respeito da língua, análises sem qualquer base
científica. No texto abaixo, o comentarista faz uma conjectura comprometedora,
repleta de equívocos, preconceitos lingüísticos e culturais. Vejamos:
Em 2002, assim que o PPS definiu oficialmente a candidatura de Blairo Maggi
a governador, o então candidato à reeleição, senador Jonas Pinheiro, que estava no
interior do Estado, telefonou do seu celular para a direção nacional do PFL com
vistas a comunicar a decisão. Mato-grossense de Santo Antônio de Leverger, Jonas
tem dificuldade em algumas pronúncias e troca, por exemplo, a letra "l" pelo "r", o
que, em lingüística, se chama "corruptela de linguagem". Falando em voz alta, Jonas
disse para o interlocutor:
- Olha, nós escolhemos o candidato a governador!
- Quem é?
- É o Brailo!
O senador repetiu o nome três vezes e mesmo assim o interlocutor não
entendeu. Como alternativa, pediu:
- Senador, tá difícil! Soletre por favor!
Jonas Pinheiro, respondeu:
- Então, anote aí: B – L - A – I – R – O.
17 de fevereiro de 2004, edição nº 4539 -(anexo G).
Surpreendeu-nos o comentário do colunista de que o senador Jonas Pinheiro
tem dificuldade em algumas pronúncias, pois o observei recentemente enquanto
falava em uma propaganda eleitoral na televisão e não constatei nenhuma
dificuldade de articulação. Como se percebe, o jornalista se investe de um poder de
análise lingüística que não lhe é legítimo, para fazer um julgamento – por sinal
equivocado, sobre o uso de termos técnicos da lingüística. Quem transita pelos
meandros da lingüística sabe que a denominação para o fenômeno em questão é
78
rotacismo, e não “corruptela de linguagem”, como equivocadamente o jornalista
nomeia o fenômeno, e faz com que o seu enunciar sobre a língua se transforme na
materialização de preconceitos e estereótipos, contribuindo para a sedimentação e
cristalização do preconceito lingüístico tão latente em nossa sociedade. Ele deveria
saber que as variedades lingüísticas têm suas origens em fatores culturais, sociais e
econômicos, e, num país tão desigual como o Brasil que não conseguiu
democratizar nem mesmo a comida, longe está de democratizar as estruturas e os
usos lingüísticos.
Nós, estudiosos da língua, sabemos que a sociedade brasileira é
caracteristicamente heterogênea e multifacetada, principalmente no que concerne à
questão da linguagem, e a baixada cuiabana não é exceção, haja vista a existência
de conflitos entre as variedades lingüísticas, como em toda parte do país. Por isso,
faz-se necessário retomarmos os conceitos de normal e normativo. Entende-se por
normal o que é habitual, costumeiro, isto é, o conjunto de regularidades detectáveis
numa realidade de usos da língua. E por normativo, entende-se o sistema ideal, não
real de valores que é imposto dentro de uma comunidade. Ancorados nestes
conceitos, podemos afirmar que na Baixada Cuiabana há um uso normal do fonema
<r> em detrimento do fonema <l> nos encontros consonantais, ou seja, o rotacismo
é uma característica normal no uso da língua por essa comunidade de falantes
nativos, uma vez que pesquisas realizadas revelam sua atual produtividade, embora
desprestigiada socialmente. Santiago-Almeida (2000, p. 173) apresenta o resultado
de uma pesquisa feita entre falantes com mais de 50 anos, com pouca escolaridade
e história de vida ligada lingüística e culturalmente à Baixada Cuiabana, na qual
verificou que o rotacismo acontece em 100% dos casos nos encontros consonantais
na oralidade. Cox (2005, p. 109) nos dá exemplo de rotacismo em textos escritos,
79
desde os menos formais e monitorados, como anotações pessoais de um aluno de
informática, que ao anotar os procedimentos básicos para se criar uma pasta, grafou
o termo <cricar>, até os mais formais e monitorados, como uma carta de
apresentação redigida por um advogado, na qual aparece grafada a palavra
<preiteada>. Há poucos dias, ao fazer compras num supermercado, ao aproximarme do balcão de frios, deparei-me com a palavra <picles> grafada como <picres>.
Ou seja, mais uma prova de que o rotacismo não faz parte apenas da oralidade,
mas também está presente até mesmo na escrita formal e monitorada.
Para se entender a forte presença do rotacismo na Baixada Cuiabana, faz-se
necessária uma busca na história da constituição da língua portuguesa e desta
capital e região, pois para analisar um aspecto lingüístico, não se deve menosprezar
a história externa, nem tampouco a interna, pois ambas influenciam diretamente nas
particularidades lingüísticas. Voltando às origens da língua portuguesa, podemos
identificar o rotacismo em suas diversas fases. Cox (2005, p.101) fez um
levantamento sobre essas hipóteses, e cita Maia (1986) que apresenta uma
pesquisa em textos do galego-português18 no período que compreende do século XIII
ao XVI, onde encontrou a atuação acentuada do rotacionismo, isto é, registro da
letra <r> um detrimento do <l> nas posições CCV e elenca muitas ocorrências.
Exemplos: preito (1278), prazo (1278), obrigamos (1329), obrigaçõ (1474).
Durante o processo de instituição da escrita do português, muitas dessas
palavras foram gramatizadas com <r>, todavia uma pequena parte continua com <l>,
apoiando-se na legitimidade da etimologia latinizante. Outro fator relevante, é que no
processo de formação das línguas românicas, o rotacismo foi decisivo para
estabelecer diferenças entre o latim, o português, o francês e o espanhol, como se
18
Período da Língua Portuguesa entre o século XIII e meados do século VIX, compreendido como a fase arcaica da língua.
80
pode constatar através do quadro proposto por Bagno (1997, p. 40), transcrito
abaixo.
Latim
Francês
Espanhol
Português
Ecclesia
Égise
Iglesia
Igreja
Blasiu
Blaise
Blas
Brás
Plaga
Plage
Playa
praia
Como se vê, o rotacismo é um fenômeno lingüístico cuja presença é marcante
desde a formação da Língua Portuguesa na Península Ibérica até sua expansão
pelo mundo. Na África, há noticias de sua presença no Crioulo de Cabo Verde, em
Portugal temos registros de rotacismo até na obra prima da Língua Portuguesa “Os
Lusíadas” de Camões onde encontramos inúmeros casos de troca do <l> pelo <r>,
como em: frauta (canto I, verso 5), frecha (canto X, 46), ingrês (canto VI, 47), pruma
(canto II, 98) e pubrica (canto VII, 34). E no Brasil sua presença é expressiva,
principalmente em algumas regiões, como o interior de São Paulo, pelos sertões de
Minas, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná, Rio grande Sul e até pelo
Nordeste, por onde os bandeirantes se encarregaram de difundir o dialeto formado
no planalto piratiningano, conforme Santiago-Almeida (2000, p.7). Isso explica a
ampla existência do rotacismo na Baixada Cuiabana, que foi povoada, sobretudo por
bandeirantes e monçoeiros vindos principalmente de Piracicaba, interior paulista,
considerado o berço do dialeto caipira19. Ao chegar aqui, a interação dos
bandeirantes com os povos indígenas, mais especificamente com o povo bororo,
cuja língua não dispõe do fonema <l> em seu sistema fonológico, o rotacismo
encontrou as condições favoráveis para se fortalecer e perdurar até o presente
século.
19
Dialeto resultante da interação entre o português arcaico tardio e as línguas indígenas e africanas (Cox 2005).
81
Cox (2005) propõe uma explicação plausível para o fortalecimento do
rotacismo na região da grande Cuiabá, da seguinte forma:
a sua persistência e intensidade no falar cuiabano estão,
certamente, ligadas à difícil e escassa comunicação da região com
outras partes do país ao menos até as primeiras décadas do século
XX, à falta de escolas e, conseqüentemente, ao baixíssimo grau de
letramento da população, à quase inexistência da imprensa, à
distância do aparelho estatal com sua burocracia e linguagem formal
e protocolar, entre outros fatores de unificação (COX, p. 104).
Para efeito da conclusão de análise deste texto, vamos dizer que temos a
tendência quase que compulsiva de rotular de erradas as formas lingüísticas que
fazem
correlação
estreita
com
classe
social,
ainda
que,
consciente
ou
inconscientemente, façamos uso destas mesmas formas. Mesmo assim, queremos
que prevaleçam as marcas dos grupos de prestígio.
Vejamos no texto a seguir como a mídia usa de um saber metalingüístico para
fazer um julgamento e desqualificar o sujeito falante:
Nas eleições de 1998, o então governador Carlos Bezerra (PMDB) foi
participar de um comício em Alta Floresta. No palanque estavam, além dele, alguns
deputados e vários candidatos, além de Joarez Gomes, secretário-chefe da Casa
civil, e o assessor da Assembléia Legislativa, Pedro Tercy. Quando o locutor
anunciou que o deputado Osvaldo Paiva, da Grande Cáceres, iria falar, a platéia
começou rir. Joarez, incomodado com a risada em coro, perguntou:
- Escuta, estamos cagados?
E as pessoas continuaram rindo. Bastou Paiva começar o discurso para
Joarez entender o porquê do riso. Semi-alfabetizado, Paiva tinha mania de pluralizar
as palavras e iniciou o discurso dizendo:
- Povos (povo) de Colíderes (Colíder), povos (povo) de Altas Florestas (Alta
Floresta), de Sinopes (Sinop), de Apiacazes (Apiacaz)...
Texto publicado em 09 de junho de 2004 - (anexo H).
82
O que se percebe, neste texto, é que o elemento que suscitou o riso na
platéia, foi, indubitavelmente, a generalização no uso do plural. Mais uma vez
deparamo-nos com o caso de hipercorreção. Talvez por medo de incorrer no erro, o
falante é impelido a produzir o que os puristas classificariam como “pérolas” da
língua portuguesa. Na verdade o que é estigmatizado é a falta de concordância.
Desejando se comportar de acordo com a norma ideal, o candidato torna a
regra de concordância produtiva demais. Neste texto, o pitoresco é explorado como
recurso derrisório marcador de forma lingüística de menor prestígio social, pois
fornece indícios de que o usuário possui baixo grau de conhecimento a respeito de
sua língua materna. Isto é, o falante está dispondo de construções que podem ser
classificadas como “formas socialmente marcadas”, pertencentes ao rol das que têm
menor valor na sociedade letrada, e, como numa sociedade uma variedade
lingüística vale o que valem as pessoas que dela fazem uso, logo se percebe os
valores atribuídos ao discursante, que é desrespeitado pela platéia enquanto fala.
Ademais, o emprego do coletivo povo no plural e dos substantivos que nomeiam as
cidades, é avaliado negativamente e rotulado de erro, rótulo que, automaticamente,
é aplicado a todas as características físicas e psicológicas, bem como a outros
comportamentos sociais do falante que se serve dela. O suposto erro lingüístico
parece desencadear uma série de avaliações derrisórias sobre o indivíduo, numa
cadeia de causas e conseqüências que, por ser meramente ideológica, é
necessariamente falsa: alguém fala errado porque pensa errado. O outro lado desta
moeda ideológica é fácil de imaginar: quem fala certo, pensa certo... .
No texto seguinte, veremos mais uma vez o uso de mecanismos derrisórios,
com vistas a desqualificar o sujeito do discurso. Neste caso, como em outros já
mostrados, o articulista faz uso do vocábulo, por sinal recorrente nos textos
83
analisados: semi-alfabetizado - para justificar os erros lingüísticos cometidos pelo
enunciador. Bahktin (1995) escreveu que “A palavra está sempre carregada de um
conteúdo ideológico ou vivencial” (p. 95) e continua sua assertiva dizendo que nós
reagimos somente àquelas que despertam em nós “ressonâncias ideológicas ou
concernentes à vida”. Desse modo, o termo semi-alfabetizado é carregado de
significado, além do dicionarizado ‘quase analfabeto’, denota também aquele que
‘quase não sabe’ em contraponto a alfabetizado, que é aquele que sabe.
Apreendemos, que a ideologia de língua para mídia é a gramática, pois os fios
condutores do discurso que se evidencia neste, como nos demais textos por nós
analisados neste trabalho, são extremante preconceituosos. Vejamos mais um
exemplar:
Ananias Martins de Souza, falecido em 1995, foi vereador por quatro
mandatos em Rondonópolis. Semi-alfabetizado, era um figura cômica. Em 1988, o
então prefeito Fausto Faria (PMDB) encaminhou um projeto à câmara concedendo o
reajuste salarial ao funcionalismo, cujo percentual proposto foi questionado por
infringir a Constituição. Ananias foi à tribuna, criticou o prefeito e, ao final do
discurso, comentou:
- Esse projeto é anticoncepcional!
O plenário caiu em gargalhada. O vereador Odinarte Borges (PSB) tentou
corrigir o colega:
- Ananias, não é anticoncepcional. É inconstitucional.
Ananias, então, voltou à tribuna:
- Ah!, eu descobri que vocês estão rindo de mim porque falei
antiiiiiiiconcepcional. Mas esse projeto não deixa de se anticoncepcional porque com
um salário desse não dá para o trabalhador ter filhos.
27 de janeiro de 2004, edição nº 4518 - (anexo I).
Do que ri, o ouvinte ou interlocutor deste discurso? Provavelmente
impulsionado pela surpresa do uso de uma palavra parecida foneticamente com
84
outra <anticoncepcional> por <inconstitucional>, e também pela descoberta de algo
familiar no âmbito fonológico, mas distante semanticamente.
Na realidade, o contestante (visto que tomou a tribuna para protestar contra
um determinado projeto do prefeito), inconscientemente, lançou mão do recurso da
analogia, que de acordo com Ismael Coutinho (1976, p. 150) “é o princípio pelo qual
a linguagem tende a unificar-se, reduzindo as formas irregulares e menos freqüentes
a outras regulares e freqüentes”. Como se pode perceber, o termo inconstitucional é
pouco familiar ao vereador em questão, ao passo que anticoncepcional parece bem
mais corriqueiro.
Na mesma gramática de Ismael Coutinho parece um julgamento de valor em
relação a quem recorre à analogia: “São as pessoas que se encontram em
condições menos favoráveis para usarem da razão, como os ignorantes e as
crianças, nas suas tentativas para serem compreendidas” (ídem, p. 151). É comum
ouvirmos crianças no período de aquisição da língua materna procederem à
analogia, principalmente quanto ao uso de alguns verbos como trazi, fazi, em
comparação com comi, pedi, etc. Todavia, é chocante a forma valorativa e
preconceituosa com que os indivíduos que usam a analogia são avaliados até
mesmo por pessoas com conhecimento profundo a respeito dos usos da língua,
como os gramáticos. Deste modo, é até compreensível o julgamento equivocado
daquelas consideradas leigas a respeito do assunto. No rol dos leigos acredito que
não podem ser arrolados os jornalistas, porque se estes se permitem emitir juízo de
valor a respeito da linguagem de seus personagens, evidencia que possuem um
conhecimento de língua que os autorizem a fazer tal julgamento.
No texto que se segue, o sentido derrisório é construído a partir do uso
inadequado dos pronomes de tratamento e possessivos. Na verdade, este uso
85
revela uma consciência do enunciador com relação ao grau de formalidade exigido
pela situação. Todavia, apesar dessa consciência, o falante demonstra não ter o
domínio desse uso, caindo na teia do imperdoável crítico da linguagem. Vejamos:
Dois vereadores marcaram época em Rondonópolis nas décadas de 1980 e
1990. Representante do Distrito da Vila Operária, Ananias Martins de Souza (PFL), que
faleceu em 1995, exerceu quatro mandatos. O comerciante e pecuarista Pedro
Lourenço da Draga (PMDB), foi vereador por cinco mandatos consecutivos. Semialfabetizados, ambos eram tidos na política como figuras cômicas. Em 1991, numa das
sessões ordinárias da câmara municipal, Ananias discursava da tribuna, enquanto
Pedro da Draga tentava interrompê-lo, insistentemente. Irritado com aquela situação,
Ananias alertou o colega parlamentar:
- Quando minha excelência estiver falando, sua excelência cala a boca!
23 de janeiro de 2004, edição nº 4514 - (anexo J).
Aqui se evidencia o pensamento de Foucault de que o falar é um poder do
qual queremos nos apoderar; caso contrário, não haveria necessidade de se
desenvolver mecanismos de controle e de vigilância. O sujeito fala para exercer o
poder, tanto que o enunciador não permitiu rebaixar-se do posto de “excelência”,
uma vez que também era vereador e deveria ser reconhecido como tal.
Ao colunista, cabe o seguinte questionamento: em que ele se baseia para
afirmar que o enunciador do discurso é semi-alfabetizado? Acreditamos que a
maneira como as pessoas falam não pode ser tomada como parâmetro para medir
seu grau de letramento20, ou então o que diríamos do ex-ministro da Casa Civil,
deputado José Dirceu que para negar as acusações a ele atribuídas, afirmou
veementemente que era “Inocêncio”21 de todas elas? Mediante o exposto,
20
Potencialidades básicas, que consiste no conjunto de práticas sociais que usam a escrita como sistema simbólico, ou
condição que assume aquele que aprende a ler e escrever.
21
Publicado na revista Veja nº 32 de 10 de agosto de 2005.
86
entendemos que ao assinalar a condição de letramento do sujeito do discurso, o
jornalista o faz com a intenção de desqualificá-lo, mas, por meio do riso provocado
derrisoriamente, pode esquivar-se das possíveis responsabilidades, caso seja
acusado por algum leitor de zombar do acontecimento discursivo citado em sua
coluna, porque a derrisão aí se constrói por intermédio do conhecimento que se tem
do valor social estabelecido historicamente sobre as variedades lingüísticas, haja
vista que os sentidos são construídos na relação que os discursos mantêm com
outros circulantes na sociedade e que formam o imaginário social dos sujeitos
envolvidos no processo discursivo, ou seja, há o reconhecimento de já-ditos, que
possibilitam ao sujeito realizar um deslocamento de sentido, que deixa entrever
neste gesto a presença de outro discurso, que é problematizado, deslocado e resignificado.
É pertinente lembrar que todos os textos selecionados para este trabalho
apresentam fortes indícios de que são produtos da oralidade, haja vista os
indicativos de que foram apreendidos no ato de sua pronunciação, muitos deles
proferidos em palanques ou tribunas e outros em diálogos informais, ficando
explícita a escrita monitorada somente na introdução elaborada pelo colunista.
Como apresentamos anteriormente, mesmo sendo a fala e a escrita os dois lados de
uma mesma moeda, ambas possuem características próprias, o que nos autoriza a
dizer que não podem ser tomadas uma como sinônima da outra, ou seja, a fala não
é representação da escrita, pelo contrário: a escrita é uma tentativa de
representação da fala.
Assim, o colunista ao nomear a fala de seus protagonistas como cômica,
engraçada, com ruído de comunicação, ou apresentar os próprios falantes como
semi-alfabetizados, cômicos, beberrões, inconvenientes ou comentar os expedientes
87
inusitados adotados para conquistar votos, está dando pistas para a interpretação
derrisória, pois há, na sociedade, uma memória discursiva de efeito de sentido
negativo para essas qualidades ou ações, que são menosprezados até no meio
onde acontecem.
Pela leitura que fizemos dos textos, percebemos que neles há indícios do que
acontecia na Idade Média, quando as autoridades eram ridicularizadas e criticadas
por intermédio de representações. A esse respeito Bahktin escreveu o livro A Cultura
Popular na Idade Média (1965). Segundo ele, as formas da cultura cômica popular
da Idade Média, entre elas as festas carnavalescas, os palhaços, los bufones22 e a
literatura paródica em geral, constituíam um âmbito de expressão popular que
permitia uma visão do mundo distinta da oficial, isto é, a visão da igreja e do Estado.
Frente à perenidade das regras que regiam o mundo, expressadas nas festas
oficiais, o riso constituía uma liberação transitória na qual se eliminavam as relações
hierárquicas,
subvertiam-se
as
regras
e
ignoravam-se
os
tabus.
Essas
manifestações caracterizavam-se principalmente por reverterem a lógica original das
coisas, ou seja, na inversão carnavalesca, o mundo invertido se converte em norma.
Assim, ao eliminar o temor ao mistério, ao mundo e ao poder, opunha-se à mentira e
à adulação, e permitia-se revelar ousadamente a verdade do mundo e do poder. Ao
permitir a visualização de novas perspectivas, a inversão paródica do mundo rompia
com os tabus, bem como com a visão de mundo imutável imposta pelo poder.
Assim, percebemos que com os deslizamentos sofridos pelo discurso político,
houve também uma inversão do sujeito político, pois não é mais necessário recorrer
a representações. Atualmente é possível zombar publicamente dos poderosos
(políticos), citando nomes, cargos, partidos, coligações, apontando-lhes os pontos
22
Bobo da corte.
88
fracos, os erros. Ao chamá-los de figuras cômicas, como faz o colunista, está
equiparando-os a palhaços, bobos da corte e de certa forma, subtraindo-lhes o
poder.
Convém ressalvar que em todos os casos de derrisão analisados, percebe-se
uma tentativa de resguardar a alta cultura, uma vez que transparece a pretensão do
enunciador citante de restituir a visão dominante do uso da língua materna – da
norma padrão, pois os políticos tomados como alvo de zombaria, de derrisão, são
aqueles que não detém o domínio desse uso.
Enfim, o riso é próprio do homem, sem dúvida, mas às vezes ele irrompe por
lugares sérios, sob a capa do agente provocador pronto a sabotar.
É o que
podemos perceber nos textos que a primeira leitura parece uma simples e inocente
piada. Contudo, o discurso humorístico é acima de tudo crítico, principalmente no
que tange ao humor político. Freud já dizia que jamais se poderiam classificar as
piadas políticas entre as inocentes. Além disso, As coisas “murmuram um sentido
que nossa linguagem precisa apenas fazer manifestar-se” (Foucault, 2004, p. 48).
Desse modo o que podemos perceber é a forte presença do uso de mecanismos
derrisórios, com vistas a descaracterizar os enunciadores em questão, por estes não
fazerem uso da norma canônica do português brasileiro, sinalizando que não são os
mais indicados para representar o povo de sua cidade, uma vez que não possuem o
domínio da modalidade de prestígio da língua, também não terão atitudes coerentes
com a função do cargo, que exige o saber pensar, a criação de projetos relevantes
para o bem da população, entre eles a prioridade à Educação, como é de praxe dos
discursos políticos.
89
Considerações finais
Sem qualquer pretensão de querer fechar ou ter esgotado o tema
desencadeador desse trabalho: derrisão no anedotário político mato-grossense,
abordamos o que julgamos ser fundamental para nossa reflexão, buscando, ao
mesmo tempo esclarecer por meio das análises apresentadas, os objetivos que
foram inicialmente propostos. Temos a certeza de que nesse terreno há ainda muito
que ser pesquisado, haja vista tratar-se de uma temática pouco explorada nos meios
acadêmicos, o que pudemos constatar pela dificuldade para encontrar textos em
português que debatessem o assunto.
Com base teórica na análise do discurso de orientação francesa, nosso
estudo da derrisão concebeu-a como um fenômeno discursivo do sujeito com/sobre
os sentidos e no reconhecimento desse trabalho pelo interpretador, o que pressupõe
a negociação ou compartilhamento de pontos de vista, valores sociais e culturais
comungados entre os participantes do processo de construção do sentido derrisório.
Concluímos que o processo de constituição da derrisão instaura-se num
diálogo entre discursos, marcando sua constituição interdiscursiva, bem como o
reconhecimento de sua localização em um lugar sócio-ideológico de onde os
sentidos são produzidos. Nesse trabalho interdiscursivo, produz-se o deslocamento
de já-ditos, da memória que se re-significa, possibilitando a produção/interpretação
da derrisão.
Observamos no desenvolvimento desse trabalho, que a derrisão apresenta-se
sempre impregnada de um caráter de avaliação do enunciador citante em relação
ao discurso que problematiza. Tal avaliação é consecutivamente realizada sob as
90
condições sócio-históricas que configuram a formação discursiva na qual se insere o
sujeito que escreve na coluna.
O que nos permite essa avaliação é a forma como se constitui lingüísticodiscursivamente o tom que o enunciador citante imprime ao texto, e que pode ser
observado na constituição da cena enunciativa que, em última instância, denuncia o
tom derrisório com que ele organiza o discurso, e fornece pistas sobre o lugar sócioideológico onde os sentidos são produzidos, apontando para sua formação
discursiva. Deste modo, se observa do ponto de vista da interpretação, que a
derrisão acontece no reconhecimento pelo interpretador do lugar que ocupa o sujeito
do discurso, permitindo-lhe falar de um modo e não de outro.
Outro aspecto que mereceu nossa atenção de como a derrisão acontece, foi
o fato de que ela envolve tanto um procedimento discursivo do enunciador citante,
que deseja que o sentido derrisório seja percebido, quanto das atribuições de
sentido e avaliações do interpretador. Nessa linha de raciocínio, o interpretador da
derrisão também é agente, porque sem sua percepção das pistas fornecidas, a
derrisão não aconteceria. Assim, a derrisão não pode ser garantida apenas pelo fato
de alguém ter a intenção de fazê-la. Na realidade, ela acontece porque as
comunidades
discursivas
dispõem
de
elementos
histórico-sociais
e
de
conhecimentos acerca do ritual enunciativo que funcionam no momento da
interpretação.
Concluir este texto significa apenas concluir a reflexão que empreendemos
para explicar o funcionamento da derrisão no anedotário político mato-grossense,
considerando a constituição do sentido derrisório na relação da língua com a
história. Vimos que tal relação é constitutiva do trabalho simbólico do sentido, o que
91
levou-nos a conceber os textos que circularam na coluna Em Tempo do Jornal A
Gazeta selecionados para essa pesquisa, como unidades lingüísticas e históricas.
Ressaltamos que esse estudo da derrisão no anedotário político matogrossense objetivou contribuir para levantar elementos de caracterização e
descrição desse gênero, pois acreditamos que é fundamental para a produção de
sentidos pelo sujeito, o gênero no qual o discurso se inscreve.
No caso dos textos analisados, a derrisão se dá no deslocamento de valores
instituídos por uma memória e que não pode ser desconsiderada na caracterização
do ritual enunciativo, como elemento de constituição do sentido derrisório. Ademais,
esperamos que esse trabalho possa ser uma contribuição a todos os interessados
em estudar o processo de construção dos sentidos pela linguagem, porque, como
pudemos observar no decorrer dessa dissertação, a derrisão aparece como um
mecanismo no qual a produção dos sentidos ocorre no espaço entre o criador e seu
interpretador e, assim, não deixa de tocar nos milhares de fios que constituem o
discurso.
Ao encerrarmos este trabalho, enquanto professora da Educação Básica, não
poderíamos deixar de pensar na situação de ensino-aprendizagem de língua
materna. Por esse motivo, sugerimos que os textos selecionados como corpus de
análise para essa dissertação, ou seja, os textos pertencentes ao gênero anedotário
político mato-grossense, sejam utilizados como material de leitura e reflexão sobre a
linguagem,
na
escola.
Acreditamos
que
esta
proposta
é
imprescindível
principalmente à clientela/alunos do Ensino Médio e da Educação de Jovens e
Adultos, pois possuem mais maturidade, e enfrentam mais freqüentemente o
preconceito lingüístico na sociedade, haja vista a luta destes pela inserção no
mercado de trabalho.
92
Como linha delineadora desta proposta, tomamos as sugestões apresentadas
pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, diretrizes que norteiam os currículos e
seus conteúdos mínimos, propondo como novo caminho para solução de muitos
impasses na área educacional, os gêneros textuais como objeto de ensino.
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, os conteúdos de
Língua Portuguesa encontram-se distribuídos em dois eixos de práticas discursivas:
usos de linguagem e reflexão sobre a língua e a linguagem. Aqui, ressaltamos o
eixo “usos de linguagem”, o qual tem como enfoque o caráter enunciativo desta, o
que permite nomear as seguintes preocupações de estudo: a historicidade da
linguagem; o contexto de produção dos enunciados; a produção de textos orais e
escritos; o modo como o contexto de produção contribui para a organização do
discurso, ou seja, para as tipologias comunicacionais (gêneros e suportes).
Os PCNs
foram elaborados
com base em leituras de Bakhtin, que
argumenta que dentro de uma dada situação lingüística o falante/ouvinte produz
uma estrutura comunicativa que se configurará em formas-padrão relativamente
estáveis de enunciados, a partir de contextos sociais e históricos. Em outras
palavras, tais formas estão sujeitas a alterações em sua estrutura, dependendo do
contexto de produção e dos falantes/ouvintes que os produzem, os quais atribuem
sentidos a determinado discurso. Logo, são muitas e variadas as formas dos
gêneros textuais. (BAKHTIN, 2000, p. 279).
Com esta postulação, vê-se que os modos de organização do discurso e dos
enunciados são resultantes da situação de produção; assim, é necessário delinear
os gêneros do discurso, citando a situação de produção, o tema, a forma
composicional, as marcas lingüísticas e disponibilizá-los aos alunos. Para tal, é
93
importante considerar que o modo como se operam as escolhas discursivas,
fatalmente irão influenciar no sentido. Assim, um tipo de texto é o resultado de
várias operações de linguagem efetuadas no curso do processo de produção.
Acreditamos que os textos por nós sugeridos servirão como motivação para o
desenvolvimento das aulas e que o humor pode funcionar como um recurso
promissor para a argumentação crítica, e provavelmente incitará o debate sobre as
idéias trazidas nos textos a respeito dos discursos silenciados e dos preconceitos já
cristalizados, mas que não deixam de interferir em nossas vidas cotidianamente.
No tocante à ação pedagógica, pensamos que disponibilizar aos alunos
modelos de textos não é o bastante, é preciso encaminhar uma reflexão maior sobre
o uso de cada um deles, do mesmo modo, considerar o contexto de uso e os seus
interlocutores. Por isto, é imprescindível abarcar a questão dos gêneros discursivos
como um aspecto central do trabalho com a linguagem na escola, para que a
produção e a compreensão da linguagem se realizem de modo significativo, como
se definiu a princípio, o texto como unidade de ensino e os gêneros como objeto
deste.
Assim, quanto maior for o contato do aluno com os diferentes tipos de textos,
quer sejam oriundos da esfera social cotidiana (diálogos, currículos, solicitações...),
quer sejam provenientes de uma esfera pública e mais complexa de interação verbal
(discurso científico, jornalístico, romance...) maior será a sua capacidade de
identificar e de refletir sobre os mecanismos lingüísticos e extralingüísticos que
constituem o processo comunicativo; em particular, aqui, o gênero anedotário
político, sua produção, circulação e os efeitos de sentido que podem produzir,
94
principalmente, no tocante à disseminação do julgamento de valor a respeito dos
usos lingüísticos.
Em suma, acreditamos que, para que as postulações apresentadas se
configurem em mecanismos de mudança e de promoção do saber, é imprescindível
que se realize um trabalho sistemático com gêneros que circulam na sociedade,
visando principalmente aguçar a criticidade dos educandos, para que estes possam
ver nas linhas e entrelinhas dos discursos, o que não está posto/explícito na
superfície do texto. Assim, certamente, far-se-á a imperiosa contribuição ao ensino
de leitura e produção de textos na escola.
95
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99
ANEXOS
Textos do jornal A Gazeta de Cuiabá, caderno Opinião, coluna Em Tempo
100
101
102
103
104
105
Cuiabá, Domingo, 07 de março de 2004 >> A Gazeta >> 3A
____________________________________________________________
Em tempo
E
m 82, o então sapateiro Cícero,
conhecido por "Padim Ciço",
resolveu disputar candidatura de
vereador em Barra do Garças pelo
PMDB. Semialfabetizado, Padim Ciço
(Padrinho Cícero), hoje com 65 anos,
se tornou conhecido no município. Ele
tinha um jeito engraçado de se
manifestar em público. Os erros
gramaticais, aliados às dificuldades de
pronúncia,
provocava
ruído
de
comunicação. No primeiro discurso
que fez em palanque, Padim Ciço
acabou, sem querer, se indispondo
com o ex-deputado estadual por dois
mandatos José de Arimatéia, que
estava no palanque, do seu lado.
Empolgado, Padim Ciço afirmou:
- Meus amigos, cheguei na Barra do
Galça (Garças) e joguei uma sumente
(semente). Essa sumente (semente)
germinou e daí nasceu uma grande
alve (árvore). E essa alve (árvore) deu
muitas fruitas (frutas) e Zé de
Arimatéia é uma dessas fruitas (frutas).
Irritado com aquela história e achando
que Padim Ciço (Padrinho Cícero)
estava se referindo a ele de maneira
pejorativa,
Arimatéia
tomou
o
microfone do candidato a vereador e
emendou:
_ Fruita é a puta que ....!!!
Anexo F
106
Cuiabá, terça feira, 17 de Fevereiro de 2004 >> A Gazeta >> 3A
Em tempo
E
m 2002, assim que o PPS definiu
oficialmente a candidatura de Blairo
Maggi a governador, o então candidato à
reeleição, senador Jonas Pinheiro, que
estava no interior do Estado, telefonou
do seu celular para a direção nacional do
PFL com vistas a comunicar a decisão.
Mato-grossense de Santo Antônio de
Leverger, Jonas tem dificuldade em
algumas pronúncias e troca, por
exemplo, a letra "l" pelo "r", o que, em
lingüística, se chama "corruptela de
linguagem". Falando em voz alta, Jonas
disse para o interlocutor:
-Olha, nós escolhemos o candidato a
governador!
- Quem é?
- É o Brailo!
- O senador repetiu o nome três vezes e
mesmo assim o interlocutor não
entendeu. Como alternativa, pediu:
Senador, ta difícil!. Soletre por favor!
- Jonas Pinheiro, respondeu:
- Então, anote aí: B – L- A – I – R – O.
Anexo G
107
Cuiabá, quarta feira, 09 de Junho de 2004 >> A Gazeta >> 3A
Em tempo
N
as eleições de 1998, o então
governador Carlos Bezerra (PMDB)
foi participar de um comício em Alta
Floresta. No palanque estavam, além
dele, alguns deputados e vários
candidatos, além de Joarez Gomes,
secretário-chefe da Casa civil, e o
assessor da Assembléia Legislativa,
Pedro Tercy. Quando o locutor anunciou
que o deputado Osvaldo Paiva, da
Grande Cáceres, iria falar, a platéia
começou rir. Joarez, incomodado com a
risada em coro, perguntou:
_ Escuta, estamos cagados?
E as pessoas continuaram rindo.
Bastou Paiva começar o discurso para
Joarez entender o porquê do riso. Semialfabetizado, Paiva tinha mania de
pluralizar as palavras e iniciou o discurso
dizendo:
_ Povos (povo) de Colíderes (Colíder),
povos (povo) de Altas Florestas (Alta
Floresta), de Sinopes (Sinop), de
Apiacazes (Apiacaz)...
Anexo H
108
109
110
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MÁRCIA APARECIDA CAMPOS FURTADO DERRISÃO NO