Teoria Crítica, meios de comunicação e (de) formação da subjetividade:
os aspectos políticos/ideológicos das produções televisivas e os desafios
pedagógicos da escola
David Silva Bet
RESUMO
A demanda contemporânea que exalta e exige os valores sociais ditos positivos
perpassa pelo exaustivo e embrutecedor processo de afirmação da cultura
estabelecida. Associado a este processo, temos os poderosos recursos da publicidade e
da propaganda em sua investida a seduzir os indivíduos à prática do consumo.
Vendendo mais do que produtos, os modos de comportamento são sutilmente
administrados e contextos ideológicos são transmitidos pelas mensagens publicitárias
sob a roupagem de ingênuas situações cotidianas. Vender a “vida dos indivíduos” é a
tentativa de fazer do estereótipo, da fantasia e da ilusão o próprio real, o dado, o
imediato: geração da falsa consciência. Nessa perspectiva e sob a orientação das
leituras das obras de Theodor Adorno e Herbert Marcuse, propomos um debate acerca
dos conteúdos da televisão e seus impactos no ambiente escolar. Uma vez que este
meio de comunicação pode se converter em veículo de ideologias que impedem o
desenvolvimento das habilidades crítico/reflexivas dos indivíduos e, com efeito,
militam a favor da miséria e da labuta, a escola, ao invés de promover uma formação
voltada à emancipação dos homens, pode ser outro agente de controle social. Nesse
sentido, a educação para o esclarecimento não pode ficar alheia às novas tecnologias.
Ao contrário, lançar mão de um mecanismo de informação como a televisão poderia
ser um eficiente meio para a formação, desde que seu conteúdo seja voltado não a um
fim específico, mas a um princípio: a vida em todas as suas manifestações
(cultural/política/econômica) e na denúncia dos abusos que perpetuam as diversas
formas de servidão.
PALAVRAS-CHAVE: Falsa Consciência; Modos de Comportamento; Televisão; Teoria
Crítica.
O seguinte trabalho tem por objetivo expor algumas considerações a respeito
do texto Televisão e Formação de Theodor Adorno e estreitar esse exame com outras
perspectivas de pesquisadores da Teoria Crítica, em especial, a obra A Ideologia da
Sociedade Industrial de Herbert Marcuse. Nesse sentido, propomos uma reflexão
acerca dos meios de comunicação e sua influência na educação.

Graduado em Filosofia pela Unesp – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FFCMarília, 2007). Especialista em Filosofia Contemporânea pela Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais (PUC-Poços, 2011). Integrante do grupo de pesquisa Teoria Crítica e Educação promovido pelo
PPGE – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (2012
- atual). Endereço eletrônico: [email protected]
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O texto é uma descrição do debate realizado entre os professores Theodor
Adorno e Hellmut Becker sobre a influência da televisão na formação dos estudantes
das Escolas Superiores de Educação Popular da Alemanha.
Em um primeiro momento, destacamos a conceituação do termo formação
(Bildung). Em seguida, apontaremos ao problema decorrente do uso dos meios de
comunicação bem como da necessidade do exame de seu conteúdo. A guisa de
conclusão, levantaremos a questão da atualidade dos problemas levantados por
Adorno e Marcuse no que tange à emergência das novas tecnologias e seu impacto no
ambiente escolar.
Adorno inicia sua exposição chamando a atenção à observação do duplo
significado do conceito de formação (Bildung). Quanto ao primeiro sentido, o autor
afirma que a televisão pode ser um eficiente veículo para a formação cultural, uma vez
que através da televisão podem ser transmitidos programas com fins pedagógicos.
Quanto ao segundo sentido, em contrapartida a televisão pode deformar a consciência
das pessoas em função de um conteúdo que não envolva a questão cultural ou a
possibilidade de uma reflexão crítica.
A esse respeito, qual seja, os efeitos do consumo ou exposição ao conteúdo da
televisão, Adorno afirma que até o dado momento nenhuma pesquisa conseguiu êxito
para estabelecer se o comportamento humano pode ou não ser influenciado pela
televisão. No entanto, Adorno afirma:
Suspeito muito do uso que se faz em grande escala da televisão, na
medida em que creio que em grande parte das formas em que se
apresenta, ela seguramente contribui para divulgar ideologias e
dirigir de maneira equivocada a consciência dos espectadores
(ADORNO, 2010, p. 77).
Nesse contexto, o exame se volta ao conteúdo da televisão bem como aos
riscos imanentes à exposição ideológica que esse veículo pode operar por sua natureza
e alcance global. Nas palavras do professor Becker, o problema da televisão se
caracteriza [...] quanto ao perigo de sedução que ela representa [...] (ADORNO, 2010,
p. 78). O exame do conteúdo, nessa perspectiva, perpassa a produção, o uso, o
consumo e os interesses dos produtores de programas televisivos. A pergunta que se
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instala na discussão é “como aprender a ver tv?”; ou, em um sentido mais amplo, quais
seriam os processos de ensino-aprendizagem próprios aos meios de comunicação e em
que medida estes podem contribuir para a formação do indivíduo, ou seja, esclarecêlo?
Sobre este aspecto, Adorno propõe que o conceito de informação seja mais
adequado à televisão. Pensar que a informação seja mera transmissão de fatos, ou
seja, apresentação do dado, do imediato, requer certos cuidados. Uma informação
pode ser administrada, manipulada, produzida. Por isso Adorno salienta que mesmo
não havendo pesquisas precisas sobre os efeitos que a televisão exerce sobre as
pessoas, não deixa de ser necessário o exame da forma como seus conteúdos são
produzidos e principalmente quais são os interesses de seus produtores.
Segundo o professor Renato Franco, em seu artigo A televisão segundo
Adorno1, a televisão é fruto da indústria cultural e, com isso, seu conteúdo majoritário
procura afirmar, produzir e reproduzir o sistema estabelecido. Para atender a esta
demanda, o modo pelo qual a televisão atua e vende seus produtos tende a relacionar
o espectador a uma dimensão de entretenimento e repouso ao passo que a
possibilidade de crítica reflexiva é obscurecida ou rechaçada a um intelectualismo
enfadonho:
A indústria cultural não impõe arbitrariamente ao consumidor
passivo, desprovido de qualquer tipo de expectativa cultural, um tipo
de linguagem ou uma determinada configuração cultural, mas a
produz de forma planejada, de modo a satisfazer o que esse
indivíduo, esgotado e culturalmente atrofiado pela truculência do
processo de trabalho – além de previamente transformado em
consumidor –, pode almejar a fim de, repousando, esquecer as
agruras experimentadas no dia-a-dia. (FRANCO, 2008, p. 115)
Quais seriam as alternativas para reverter essa situação decepcionante?
Segundo as discussões entre Becker e Adorno no texto Televisão e Formação, quatro
passos serviriam como um fio norteador objetivando uma tv para a formação:
O primeiro passo seria pela escolha de programas pautados em uma oferta que
1
In: DURÃO, FábioAkcelrud; ZUIN, Antônio; VAZ, Alexandre Fernandez (org.) A indústria cultural hoje.
São Paulo: Boitempo, 2008.
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tenha por objetivo a apreensão do conhecimento por categorias lógico demostráveis,
situadas em seu contexto histórico-material, ou seja, de acordo com as possibilidades
objetivas de seu tempo2.
O segundo passo consiste no desenvolvimento, desde o início, das aptidões
críticas dos indivíduos a fim de protegê-los das identificações ideológicas irrefletidas. O
terceiro passo caberia ensinar o indivíduo a questionar a presunção das propagandas
em sua investida comercial ao associar seus produtos ao cotidiano dos indivíduos bem
como à suas necessidades básicas3. O quarto e ultimo passo, seria a orientação para
2
Quanto ao método, a Teoria Crítica tem como base teórica o idealismo hegeliano, contudo, rejeita a
tese de que o fluxo de transformações contínuas que determinam a vida humana – a História – seja, em
última análise, a manifestação da “Razão Absoluta”, ou seja, do Espírito do Mundo. Ao contrário, a vida
não se efetiva a partir da razão como fonte geradora de sentido, mas sim por meio do trabalho social,
ou seja, da articulação dos indivíduos para atender o necessário desenvolvimento das condições
materiais de existência (roupa, teto, alimentação e certo nível de cultura). Ao atender estas condições,
são atendidas todas as formas de constituição da vida social. Para tanto, a Teoria Crítica ressalta, em
concordância com Marx, a importância das observações acerca dos processos pelos quais o homem
procurou elaborar as “ferramentas” para produzir as condições materiais: os meios de produção, que
são por si mesmos, históricos, logo, compreendê-los é fundamental para situar a gênese dos problemas
sociais. Uma vez que o contexto social se estrutura a partir das condições históricas e materiais que
determinam a vida humana, ignorar seus fundamentos, interesses, fins e modos de controle, acarreta
em uma espécie de comodismo e alienação que ofusca a percepção dos mecanismos de repressão e
controles sociais. Nessa perspectiva, é preciso observar o contexto econômico da sociedade bem como
sua estratificação: a luta de classes. Estas definem quem são os que controlam os meios de produção e
quem são os explorados pelo mesmo. Assim, a Teoria Crítica:[...] não é uma hipótese de trabalho
qualquer que se mostra útil para o funcionamento do sistema dominante, mas sim um momento
inseparável do esforço histórico de criar um mundo que satisfaça às necessidades e forças humanas [...]
ela intenciona emancipar o homem de uma situação escravizadora [...] (HORKHEIMER, 1980, p. 156).
3
O filósofo Herbert Marcuse afirma que as necessidades que ultrapassam o nível biológico são agentes
de pré-condicionamentos desenvolvidos pelas instituições sociais comuns. Com efeito, o conteúdo e os
objetivos dessas necessidades são históricos, pois visam a atender às demandas das estruturas políticoeconômicas de cada época. Dessa forma, a própria objetividade das necessidades são históricas. O
pesquisador Douglas Kellner ao abordar o conceito de ideologia afirma: “*...+ Mas a crítica da ideologia
também está interessada no modo como a ideologia ludibria os indivíduos levando-os a aceitar as
condições sociais e os modos de vida da atualidade. A ideologia apresenta como naturais, como senso
comum, condições que são fruto de uma construção histórica, como se fosse natural Rambo massacrar
centenas de indivíduos e depois voltar-se para o governo e seus computadores”. (KELLNER, 2001, p.
147). O sentido dessa afirmação repousa na seguinte constatação: se existem duas espécies de
necessidades, uma biológica e inata e outra produzida e condicionada pelas corporações, a esta ultima
os homens não detêm qualquer controle. Esse tipo de necessidade é heterônoma, exterior; são frutos
de uma organização social que, para se sustentar, precisa “domesticar” os indivíduos que a compõe.
Para Marcuse, a função das necessidades heterônomas não consiste senão em afirmar o interesse da
classe dominante a partir da repressão. Em outras palavras, são mecanismos psicológicos responsáveis
em determinar os instintos, os pensamentos e os comportamentos na teia de uma sociedade totalitária.
Nas palavras de Marcuse, *...+ Pois “totalitária” não é apenas uma coordenação política terrorista da
sociedade, mas também uma coordenação técnico-econômica não-terrorista que opera através da
manipulação de interesses adquiridos. (MARCUSE, 1969, p. 24-25).
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que o indivíduo não se esqueça que a televisão é oriunda dos mecanismos da
produção da indústria cultural e, por sua natureza, os meios de comunicação procuram
transmitir seus conteúdos administrados como dados imediatos, criando uma
aparência de verdade, de real, ou, consequentemente, uma falsa ideia de
neutralidade. Nas palavras de Franco:
[...] Adorno não deixa nenhum tipo de margem para insistirmos em
afirmar o caráter supostamente neutro do meio. Ao contrário, sua
análise incide exatamente no caráter fundante dele. A televisão
aparece desse modo como uma espécie de progresso técnico no
interior da própria indústria cultural, capaz inclusive de permitir a
produção deliberada de uma imagem do mundo, destinada a ser
tomada como se fosse o mundo mesmo. Concebida dessa forma, ela
é diretamente conectada com a lógica social da dominação e se
reveste de caráter político. (FRANCO, 2008, p. 113)
Entender a televisão a partir de seu “caráter político” pressupõe, segundo
Adorno, entende-la como ideologia. Para tanto, o autor destaca dois aspectos da
análise.
Em um primeiro momento, a televisão como ideologia procura produzir uma falsa
consciência4, ou seja, transmite as informações previamente administradas e
carregadas de um conjunto de valores defendidos socialmente como positivos. Estes
manobram a crítica dos indivíduos acerca das origens históricas das informações e de
suas finalidades. Em outro sentido, o filósofo Herbert Marcuse em sua obra A ideologia
da sociedade industrial afirma que este procedimento acarreta no exercício de
identificação5 e de repetição (mimese) dos comportamentos socialmente aceitos. As
4
Nesta sociedade que consome falsas necessidades como objetos, o sistema totalitário sufoca e
entorpece no interior de sua estrutura todas as possibilidades de negação ao Estado do Bem Estar. O
caráter racional da irracionalidade da época pós-industrial se alicerça no estado psicológico denominado
“Consciência Feliz”. Enquanto o mercado produz e entrega os bens e serviços satisfazendo os desejos
imediatos dos indivíduos, e estes desejos, por si mesmos, espelhos da vida cotidiana, o plano das ideias
e da imaginação permanece imerso na afirmação racional dos fatos e das experiências concretas,
delineando o “real”. Para Marcuse, estamos diante do novo conformismo, *...+ que é uma faceta da
racionalidade tecnológica traduzida em comportamento social [...] (MARCUSE, 1969, p. 92).
5
O indivíduo é manipulado/persuadido a se identificar. Os meios para que este processo se efetive são
múltiplos. A identificação é um efeito da dominação ideológica dos mecanismos de controle. Para o
filósofo Douglas Kellner, “A ideologia, pois, é uma retórica que tenta seduzir os indivíduos para que
estes se identifiquem com o sistema dominante de valores, crenças e comportamentos. Reproduz as
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informações televisivas, como potências de produção de falsa consciência, se
convertem em agentes de controle social.
Em um segundo momento e, em menção ao contexto de identificação acima
citado, a televisão apresenta um caráter ideológico-formal: ela se apresenta como [...]
único conteúdo da consciência, desviando as pessoas por meio da fartura de sua oferta
daquilo que deveria se constituir propriamente como seu objeto e sua prioridade [...]
(ADORNO, 2010, p. 80). O seu poder de sedução é viciante. Prova disso, Becker e
Adorno, ao mencionarem a questão do dado e do imediato, discutem sobre a
implicação político/ideológica das telenovelas acerca da transmissão da vida cotidiana.
Para Becker, as encenações produzem representações estereotipadas de
situações
cotidianas6.
Nesse
sentido,
a
televisão
transmite
modelos
de
comportamentos que condizem aos ditames sociais bem como aos desejos financeiros
dos produtores. Para Adorno, [...] essas novelas são politicamente muito mais
prejudiciais do que jamais foi qualquer programa político. (ADORNO, 2010, p. 81). Com
efeito, o caráter inofensivo da apresentação cotidiana dos costumes esconde os
mecanismos de acomodação e de atrofia da reflexão crítica. É preciso resistir,
investigar os meios de comunicação e levantar a questão da formação ou deformação
veiculada por seus programas. Nesse caso, a discussão envolve interesses
condições reais de existência desses indivíduos, mas de uma forma mistificada na qual eles não
conseguem reconhecer a natureza negativa e historicamente construída, portanto modificável, de sua
sociedade *...+” (KELLNER, 2001, p. 147).
6
Estereotipadas na medida em que apresentam uma realidade ilusória e fictícia. Ao associarem o
produto a condições de extremo prazer, luxo, riqueza e alegria, a indústria publicitária vende mais que
uma mercadoria – impõe, juntamente com a falsa necessidade de consumir, um modo de vida que se
consolida através da satisfação destas falsas necessidades. Um exemplo grosseiro: basta observar por
menos de 15 minutos o conteúdo das novelas transmitidas no chamado “horário nobre”. Geralmente o
Brasil é apresentado como paraíso edênico e as atividades da micro burguesia empresarial são
emancipadas como modelo de prosperidade e de “boa vida” a partir do trabalho. Nesse sentido, os
problemas sociais são abordados de maneira simplista, unilateral e conservadora, que “olha de cima”: o
marginal tem a vida que escolheu, pois as oportunidades são para todos aqueles que se dispõem a
“trabalhar honestamente”. Os vilões, ricos ou pobres, são punidos, os enamorados casam, os
desafortunados prosperam, enfim, no contexto do universo fantasioso das novelas o sistema é fechado,
perfeito e suas anomalias são re-ajustadas ou excluídas. Todas as tensões são aliviadas como no velho
chavão “final feliz”. Qual o sentido, o objetivo ou a finalidade da venda dessas situações fantasiosas
desenvolvidas a partir de aspectos cotidianos da vida? Para Marcuse, a objetivação do real a partir do
cotidiano fixa o fato imediato, ou seja, a coisa e sua função são indissociáveis na lógica do sistema
totalitário. Nesse sentido, a imagem devidamente preparada para essa forma de difusão vende mais que
um produto, ela é essencialmente ideológica. Logo, é uma retórica da imagem.
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político/pedagógicos. Nas palavras de Adorno:
[...] por toda parte onde a televisão aparentemente se aproxima das
condições da vida moderna, porém ocultando os problemas
mediante rearranjos e mudanças de acento, gera-se efetivamente
uma falsa consciência [...] (ADORNO, 2010, p. 83)
Nesse sentido, a falsa consciência passa por um processo onde o indivíduo
assume por seus os modelos ideias (estereotipados) de ilusão: é a identificação entre o
indivíduo e o conteúdo transmitido. Marcuse faz referência a este processo de
identificação e aponta sua consequência atroz: a capacidade da sociedade
contemporânea de produzir para destruir e, em seguida, reconstruir; a formação de
necessidades que inibem o protesto e que perpetuam uma existência decepcionante,
repressiva e limitada, anuncia a perturbadora característica desta sociedade, qual seja,
o caráter racional de sua irracionalidade: “*...+ As criaturas se reconhecem em suas
mercadorias; encontram sua alma em seu automóvel, hi-fi, casa em patamares,
utensílios de cozinha *...+” (MARCUSE, 1969, p. 29). Para a manutenção do capitalismo
é viável despertar no trabalhador (que nas formas pré-industriais era agente de
negação do sistema) o desejo irresistível de consumo. Ao aplanar as tensões entre as
satisfações do patrão e do proletariado, a consciência da servidão gerada pelo aparato
produtivo e tecnológico é inibida sob formas de geração de necessidades e
comodidades que testemunham o progresso tecnológico e seus benefícios. A
consciência da organização exaustiva e desumana do universo do trabalho poderia
gerar a revolta contra o capital. Com efeito, a revisão de sua estrutura implicaria na
sua destruição definitiva, possibilitando a consolidação de alternativas para a
construção de uma nova estrutura social. Mas, ao que parece as coisas não são tão
simples. Os agentes de coesão social são instrumentos ideológicos poderosos. Sua
influência é sigilosa, obscura, entorpecedora.
Sobre esse aspecto, Adorno faz menção à estética. A resistência, segundo o
autor, deve de dar quanto a tentativa de ideologização da vida feita pela televisão. As
habilidades críticas despertas no sujeito deveriam possibilitar a percepção dos
conteúdos como pseudorealidades, fantasia, ilusão. Ou ao menos, exigir que
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honestamente os programas admitam que seus interesses não são imparciais ou
neutros:
[...] esta harmonização da vida e esta deformação da vida são
imperceptíveis para as pessoas, porque acontecem nos bastidores.
Uso o termo “bastidores” num sentido amplo. Eles são tão perfeitos,
tão realistas, que o contrabando ideológico se realiza sem ser
percebido, de modo que as pessoas absorvem a harmonização
oferecida sem as menos se dar conta do que lhes acontece. Talvez
até mesmo acreditem estar se comportando de modo realista. E
justamente aqui é necessário resistir. (ADORNO, 2010, p. 86)
A esse respeito, cabe uma breve exposição acerca do universo da propaganda e
seu “realismo”. A professora Marilena Chauí realizou um estudo intitulado Simulacro e
Poder: uma análise da mídia7, onde são destacadas as características dos mecanismos
de produção desse meio de comunicação de massas.
Para a propaganda alcançar seu objetivo (comercial), duas exigências devem
ser atendidas. A primeira reside no fato da propaganda construir suas mensagens
apoiadas nos valores preconizados pela sociedade na qual está inserida. A segunda
consiste no desenvolvimento do pré-condicionamento: [...] precisa despertar desejos
que o consumidor não possuía e que o produto não só desperta como, sobretudo,
satisfaz [...] (CHAUÍ, 2006, p. 38).
Chauí afirma que no inicio da propaganda comercial (entre o século XIX e XX) o
conteúdo de suas mensagens elogiavam ou exaltavam as qualidades do produto
apresentado: a durabilidade dos móveis, a eficácia de cura dos remédios, o conforto
das viagens de ônibus, etc. Para tanto, especialistas participavam da produção do
produto, ou então, celebridades apresentavam os produtos como fiéis consumidores.
Nesse período, a imagem do produto era associada à durabilidade, assim, a sua marca
era apresentada como duradoura. A criação dos slogans, melodias simples e rimas
auxiliavam na memorização imediata entre a marca e o produto, ou seja, a imagem e o
objeto.
No entanto, com o advento do período pós-industrial, mudanças significativas
7
CHAUÍ, Marilena.Simulacro e Poder: uma análise da mídia. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. 2006.
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alteraram os anseios e os interesses da sociedade do consumo: produtos descartáveis,
instantâneos, imediatos e transitórios, enfim, a era do desperdício e da “praticidade”.
As chamadas pesquisas de mercado concluíram [...] que as vendas dependiam da
capacidade de manipular desejos do consumidor e até mesmo de criar desejos nele
[...] (CHAUÍ, 2006, p. 39). Os produtos que nas fases iniciais da propaganda eram
apresentados pelas suas qualidades, durabilidade e características, nesse novo
contexto tem suas imagens articuladas para satisfazer os desejos a eles relacionados,
como exemplo, a felicidade, a beleza, o prazer sexual, a prosperidade, enfim,
elementos que valorizam o Estado do Bem-Estar. [...] Em outras palavras, a
propaganda ou publicidade comercial passou a vender imagens e signos e não as
próprias mercadorias. (CHAUÍ, 2006, p. 39). Nas palavras de Chauí:
A propaganda comercial também se apropria de atitudes, opiniões e
posições críticas ou radicais existentes na sociedade, esvazia e
banaliza seu conteúdo social ou político e as investe em um produto,
transformando-as em moda consumível e passageira. Feminismo,
guerrilha revolucionária, movimentos culturais de periferia, liberação
sexual, direitos humanos, etc., arrancados do contexto que lhes dá
sentido, são transformados em imagens que vendem produtos. Mas
não só isso. A publicidade não se contenta em construir imagens com
as quais o consumidor é induzido a identificar-se. Ela as apresenta
como realização de desejos que o consumidor sequer sabia ter e que
agora, seduzido pelas imagens, passa a ter [...] (CHAUÍ, 2006, p. 40).
Com efeito, podemos observar um problema com relação à produção de
desejos pela indústria da propaganda. Segundo Adorno, existe uma dificuldade para
estabelecer pesquisas específicas ou, em outros termos, uma investigação sociológica
empírica sobre a influência da televisão no comportamento das pessoas. Seus efeitos
envolveriam uma análise psicanalítica, uma vez que adentramos no mundo dos
desejos e das necessidades. Contudo, mesmo que por enquanto estes efeitos sejam
insondáveis, o fenômeno televisivo pode e deve ser examinado e, para o autor, é
incontestável que sua estrutura esteja envolta em elementos de afirmação da
realidade estabelecida. Dessa forma, milita a favor da alienação e do conformismo dos
indivíduos, abandonados de si mesmos e de suas causas históricas e materiais.
Mas a televisão não é o único meio que deve ser investigado. Os indivíduos
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estão expostos a diversos veículos ideológicos, como revistas, jornais, rádio, internet,
enfim, uma vasta oferta de consumo de modos de comportamento. Assim, como fica a
educação, a formação e a emancipação no contexto das novas tecnologias? Estas, com
efeito, são produtos da indústria do consumo e veículos das produções da indústria
cultural. Como poderia existir, diante dessas dificuldades, uma alternativa de mudança
e de resistência a partir do próprio meio tecnológico? Em outro sentido, seria possível
uma televisão educativa? Ou para situarmos a atualidade da discussão, quais seriam os
desafios para uma proposta pedagógica emancipatória quanto ao uso dos novos
recursos, como a internet, celulares, computadores e demais recursos tecnológicos?
Como elaborar um conteúdo que desenvolva as habilidades críticas e reflexivas em
contraste com o universo do entretenimento e do embrutecimento intelectual, bem
como da atrofia das condições decepcionantes do capital?
Após as leituras de Adorno e Marcuse, propomos uma possibilidade, embora
tímida e otimista em relação aos agentes que financiam os programas televisivos. A
princípio seria preciso uma política de programação que abra espaço a programas
especiais que não tenham por objetivo atender às grandes massas (por estas
despertarem nos produtores interesses meramente financeiros), chamados de
programação para as minorias qualificadas. Consequentemente, esses programas não
poderiam ter pretensões lucrativas. Com efeito, entendemos que dessa forma os
recursos e investimentos do setor privado em tal proposta poderiam ser muito
limitados. Contudo, se esses mesmos recursos fossem repassados a partir de políticas
públicas, ou seja, financiados pelo Estado8, a televisão educativa ganharia contornos
mais nítidos de sua importância social, uma vez que não estaria ligada diretamente às
exigências do mercado. No entanto, sua finalidade deveria ser cuidadosamente
estabelecida – a formação cultural – para que essa televisão não se converta em palco
de disputas partidárias. Com essa oferta, o grande público ao menos teria a
8
Uma vez que no Brasil a composição dos dirigentes do Estado está atrelada às articulações e
financiamentos partidários, entendemos que a atuação das políticas públicas assumem perfis diversos e,
devido a isso, seria difícil uma gestão que atue com certa neutralidade ideológica. No entanto,
acreditamos que uma vez estabelecidos os recursos destinados à promoção de uma tv educacional, esta
se constituirá como um setor de utilidade pública, com seu estatuto e autonomia para cumprir com seus
objetivos formativos.
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oportunidade de acesso a outras leituras culturais, buscando, segundo Adorno, [...] ao
contato das outras pessoas, no que provavelmente o meio do choque, o meio da
ruptura será mais produtivo do que o gradualismo [...] (ADORNO, 2010, p. 93). Nessa
perspectiva, as implicações sociológicas da televisão seriam debatidas a partir de
moldes dialéticos, ou seja, entre os organizadores de programas especiais e os de
programação geral. A escola, nesse sentido, ganharia um importante meio de
divulgação da produção acadêmica e das demais informações sobre a cultura, bem
como uma orientação sobre o uso adequado dos recursos tecnológicos a favor da
emancipação. Nesse sentido, a formação para o esclarecimento através das novas
tecnologias se converteria, na escola, em ferramenta de resistência política e de luta
contra a servidão humana.
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