PRODUÇÃO DE ETANOL A PARTIR DE HIDROLISADO OBTIDO POR TRATAMENTO HIDROTÉRMICO DE FARELO DE MANDIOCA1 IRENE MIUKI SAITO2 & CLÁUDIO CABELLO3 1 Parte da tese de doutorado da 1ª autora intitulado: Produção de hidrolisados e fibras a partir de resíduo da industrialização da mandioca submetido a pré-tratamento hidrotérmico. 2 Aluna de Pós-Graduação em Agronomia – Energia na Agricultura - FCA/UNESP, Botucatu/SP, Brasil, [email protected] 3 Orientador, docente e diretor do CERAT – Centro de Raízes e Amidos Tropicais/UNESP, Botucatu/SP, Brasil, [email protected] RESUMO: O presente trabalho teve por objetivo avaliar a produção de etanol a partir de hidrolisado (rico em glicose) proveniente de tratamento hidrotérmico desenvolvido por uma metodologia adequada para hidrólise do amido residuário existente no farelo de mandioca. Os resultados obtidos mostraram que as melhores condições para o processo de hidrólise foram: tempo de processo 35 minutos; temperatura de 140°C; concentração do catalisador de 2,5 % (m.s); umidade de 90,5% e rotação de 50 rpm., obtendo-se nestas condições: concentração de glicose no hidrolisado de 7,26%; concentração de 100mg/L de compostos fenólicos e rendimento de recuperação do amido residuário de 102,9%. Amostras do hidrolisado obtido foram testadas como substrato de processo fermentativo, mostrando que os compostos fenólicos não afetaram a fermentação, produção de 2,89% (p/p) de etanol e fator de conversão de 0,46 (m/m). Palavras chave: resíduo, etanol, fermentação PRODUCTION OF ETHANOL FROM HYDROLYSATE OBTAINED BY TREATMENT HYDROTERMIC OF CASSAVA WASTE SUMMARY The present work had as purpose to produce ethanol from hydrolysate, with high leved of glucose, obtained in hydrotermal treatment developed by a adjusted methodology for starch hydrolysis. The results showed that best process conditions were: of process time 35 minutes; of temperature 140°C; concentration of the catalyst of 2.5 % (w/w); moisture of 90.5% and 50 rotation of rpm., getting itself in these conditions: glucose concentration in the hydrolysate of 7.26%; concentration of 100mg/L of phenolic compounds starch of 102.9%. Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - Hydrolysate samples was tested as substrat in fermentation process and phenolic compounds showed any to inhibit effect, occurring a production of 2.89% (w/w) of ethanol and the factor of conversion of 0.46 (w/w). Keywords: residue, ethanol, fermentation 1 INTRODUÇÃO O desenvolvimento de novas tecnologias para tratamentos dos materiais lignocelulósicos tem sido vista com bons olhos do ponto de vista econômico ao considerar-se a sua utilização como substrato em processos para produção de etanol (KRISHNA et al., 2000; RÉCZEY et al., 2004). Diversos processos são desenvolvidos para utilização desses materiais transformando-os em compostos químicos e produtos com alto valor agregado como álcool, enzimas, ácidos orgânicos, aminoácidos, etc. A utilização de resíduos agroindustriais em bioprocessos é uma alternativa racional para produção de substratos e uma contribuição para solucionar o problema localizado de poluição. (PANDEY et al., 2000; PRIMO-YÚFERA et al., 1995). O etanol obtido através da fermentação de açúcares utilizando um catalisador biológico, como as leveduras, vem sendo considerado uma importante fonte de energia alternativa e ambientalmente de pouca agressividade e, conseqüentemente, estes processos de produção vem sendo investigado em todos os seus aspectos. Buscando minimizar custos de produção barateando o processo, a utilização de materiais lignocelulósicos tem se mostrado promissora fonte de carboidrato para o substrato fermentativo, no qual se incluem a utilização de resíduos agroindustriais de matérias primas agrícolas como o trigo e a mandioca. (SUN et. al., 2002) As unidades de processamento da mandioca para produção de polvilho azedo e doce e féculas produzem um material sólido identificado por farelo ou polpa residual, o qual tem sido sub aproveitado na alimentação de animais. A problemática ambiental decorrente dessa atividade agroindustrial despertou a atenção de pesquisadores, os quais passaram a sugerir propostas mais rentáveis de aproveitamento desse descarte, como a produção de xarope de glicose, etanol e produto alimentício fibroso para consumo humano (RAUPP et al., 2002). O farelo de mandioca é um resíduo sólido da extração de amido e que ainda contém alto teor do mesmo (60 a 70% em peso seco) mas é descartado e causa problemas ao meio ambiente. A recuperação deste amido residual por tratamento físico ou biológico é que tem sido objeto de pesquisas visando a melhoria dos processos, com o objetivo de agregar valor à matéria prima consumida. Em média uma agroindústria de produção de fécula de mandioca gera cerca de 930 Kg de farelo com aproximadamente 88 a 90% de umidade para cada 1000 Kg de raiz processada apresentando uma concentração de amido Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 35 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - residual que pode variar de 55,8 a 78,1 kg. Estes números variam devido a diferenças na eficiência de extração dos equipamentos de processo e também quanto às características das raízes processadas. Estudos sobre o aproveitamento dos resíduos gerados buscam soluções economicamente viáveis para tornar mais eficiente o sistema produtivo e menor o seu impacto ambiental (LEONEL et al., 2000; CEREDA, 1996; SAMPAIO et al., 1994). O tratamento hidrotérmico utilizando água a temperaturas de 170 a 220°C tem sido aplicado para pré-tratamento de material lignocelulósico objetivando a solubilização de ligninas, hemiceluloses e disponibilizando estes polímeros para posterior tratamento enzimático que levam à produção de glicose e outros sacarídeos passíveis de utilização em bioprocessos de interesse comercial (CHUM, et al., 1990; SREENATH ET AL., 1999; SUN & CHENG, 2002). Durante a hidrólise, entretanto, são produzidas compostos tóxicos derivados de furfurais (2-furaldeído e 5-hidróximetil-2-furaldeído), compostos fenólicos degradados e ácidos orgânicos que muitas vezes podem inibir ou afetar indesejavelmente a atuação de catalisadores biológicos em bioprocessos interferindo na fermentabilidade quando estão em concentrações acima de 1% em peso (WOICIECHOWSKI et al., 2002). O controle do processo de hidrólise objetiva minimizar as concentrações de compostos tóxicos e diferentes tratamentos vem sendo empregados para a melhoria da capacidade de fermentação destes hidrolisados hemicelulósicos (NILVEBRANT et al., 2001; PALMQVIST et al., 2000). Este trabalho teve como objetivo avaliar a produção de etanol utilizando hidrolisado obtido por tratamento hidrotérmico de farelo de mandioca como substrato do processo fermentativo com leveduras. Os parâmetros operacionais utilizados para produção do hidrolisado foram definidos em outras pesquisas nas quais apresentaram resultados considerados satisfatórios. 2 MATERIAL E MÉTODOS 2.1 Farelo de mandioca Foram utilizadas amostras de farelo de mandioca coletadas na Fecularia Lótus Indústria e Comércio Ltda. (Farelo 1) e na Fecularia Haloteck-Fadel Ltda. (Farelo 2), ambas na cidade de Assis/SP. As coletas foram obtidas no final do processo de extração da fécula de um mesmo lote de matéria prima, embaladas em sacos de PVC em porções de aproximadamente 2,0 kg e estocadas em congelador a –20°C. Os farelos foram caracterizados de acordo com a metodologia na AOAC (1990), quanto ao teor de umidade, concentração de matéria graxa, proteínas, fibras totais, teor de cinzas, concentração de açúcares solúveis e pH. 36 Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - 2.2 Determinação da concentração de amido no farelo Uma amostra do farelo seco foi moída e peneirada em malha 0,250 mm. Foi tomada amostra de 200 mg, secada em estufa a 105ºC e em seguida colocada em erlenmeyer de 250 mL ao qual foi adicionado 42 mL de água destilada e 50 µL de solução de enzima α-amilase comercial Termamyl 120L (Novo Nordisk). Após homogeinização, o erleymeier foi colocado no banho maria com agitação suave e sob temperatura de 90ºC durante 20 minutos. Após este tempo, foram adicionados 2,5 mL de solução tampão acetato 2 M para ajuste do pH a 4,8 e adicionado 50 µL de solução de enzima amiloglucosidase comercial AMG 400. Após banho maria a 60ºC e agitação suave por 120 minutos, todo o conteúdo foi transferido para balão de 250 mL e completado o volume com água deionizada. A seguir foi tomado alíquota de 5,0 mL desta solução e transferida para balão volumétrico de 100 mL e neutralizada com 100 µL de solução de NaOH 2M. Esta solução foi usada para determinação da concentração de açúcar redutor pelo método de Somogy/Nelson cujo resultado foi multiplicado pelo fator 0,9 e resultando na concentração percentual de amido na amostra. 2.3 Processo de hidrólise do farelo O processo de hidrólise foi efetuado em um reator de aço inoxidável com capacidade total para 150 litros, equipado com sistema de agitação, controle de temperatura e aquecimento realizado pela jaqueta a vapor com pressão de 6 kg/cm2. Utilizando parâmetros operacionais já definidos por outros trabalhos de pesquisas, cargas de 30,0 kg de cada uma das amostras de farelo de mandioca foram submetidas às seguintes condições de tratamento: tempo de processo 35 minutos; temperatura de 140°C; concentração do catalisador H2SO4 de 2,5 % sobre a m.s; umidade de 90,5% e rotação de 50 rpm. Após o término do processo, o reator recebeu uma suspensão de óxido de cálcio a 50% sob agitação contínua até que o pH atingisse entre 7,0 e 7,3 e em seguida mantido em agitação por 1 hora até ser filtrado em tecido de polipropileno com vazamento de 1µm instalado num filtro tipo prensa. O líquido filtrado foi medido e recebeu solução de ácido fosfórico concentrada lentamente e sob agitação até que o pH atingisse 5,5. Após 1 hora, a solução foi filtrada em filtro tipo cartucho de fibra sintética com vazamento de 1µm para remoção de particulados finos. Este hidrolisado tratado foi disponibilizado para os ensaios de fermentação. Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 37 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - 2.4 Ensaios da fermentação alcoolica Amostras de 150 mL do hidrolisado tratado foram colocadas em 5 frascos erlenmeyer com capacidade de 250 mL e foi adicionada a cada frasco 3,0 gramas de extrato de levedura e 7,5 gramas de levedura fresca prensada. Após homogeinização do conteúdo, os frascos foram colocados em câmara de agitação a 150 rpm sob temperatura controlada de 30ºC . Depois de 12 horas o processo foi terminado, o conteúdo dos frascos foi filtrado e o vinho foi reservado para verificação da concentração de álcool etílico, ácidos orgânicos, compostos fenólicos, furfurais, 5-hidroxi-metil-furfural, glicose, etanol, metanol e glicerol por técnicas cromatográficas. 2.5 Determinações de álcoois, ácidos orgânicos, furfurais e 5-HMF As concentrações dos álcoois, ácidos orgânicos, furfurais e 5-HMF foram determinadas em cromatógrafo líquido de alta eficiência (HP série 1100), empregando-se as seguintes condições: coluna BIO RAD AMINEX HPX-87H (300 x 7,8 mm); temperatura da coluna 50°C; detector de índice de refração (IR). Como fase móvel foi utilizado solução de ácido sulfúrico 0,006 M previamente desgaseificada, com fluxo de 0,6mL/min e o volume da amostra injetada 20µL. As amostras foram devidamente filtradas em filtro de membrana (DURAPORE) em PVDF, 0,22µm de poro, 13 mm de diâmetro, hidrofílica, branca e lisa. 2.6 Determinações de açúcares As concentrações de glicose, xilose, manose e galactose foram detectadas e quantificadas em cromatógrafo líquido de alta eficiência (HP série 1100), empregando-se as seguintes condições: coluna BIO RAD AMINEX HPX-87P (300 x 7,8 mm); temperatura da coluna de 80ºC; detector de índice de refração (RI). Como fase móvel foi utilizado água deionizada e desgaseificada, com fluxo de 0,6 mL/min e o volume da amostra injetada 20 µL. As amostras foram devidamente filtradas em filtro de membrana (DURAPORE) em PVDF, 0,22 µm de poro, 13 mm de diâmetro, hidrofílica, branca e lisa. As concentrações de açúcares redutores (AR) foram também realizadas segundo o método de Somogy (1945) e Nelson (1944). 38 Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - 2.7 Determinação de compostos fenólicos A quantidade de compostos fenólicos nas amostras de hidrolisado foi analisada pelo método Folin-Denis (AOAC, 1990). As amostras de 0,1 mL de hidrolisado foram colocadas em tubo de ensaio, acrescentado 8,4 mL de água destilada, 0,5 mL de reagente de Folin-Denis preparado conforme metodologia da AOAC (1990) e 1,0 mL de solução saturada de carbonato de sódio. A seguir os tubos foram agitados por 30 minutos e em seguida determinada a absorbância em espectrofotômetro em comprimento de onda de 760 nm. A curva padrão previamente calibrada com padrão de ácido tânico PA foi utilizada para determinação do valor das concentrações. 2.8 Rendimento do processo de hidrólise O rendimento do processo de hidrólise foi definido como a porcentagem de amido que foi removido do farelo e transformado em glicose. Considerando a utilização de um fator de conversão de 90%, assumiu-se que “100,0 g de amido produzem 100,0 g de glicose”. A fórmula fica definida como: Rend (%) = _conc. glicose no hidrolisado x 100 conc. amido no farelo 3 RESULTADOS E CONCLUSÕES As análises para caracterização dos farelos produziram os resultados que podem ser observados na Tabela 1. Estes valores são específicos para os lotes de farelos pois há variações de raízes que apresentam valores diferentes de composição. Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 39 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - Tabela 1 – Valores da análise centesimal das amostras de Farelo 1 e Farelo 2. Umidade % % Matéria seca Proteína (6,25) Amido Matéria graxa Açúcares solúveis Cinzas Fibras totais PH Farelo 1 86,15 Farelo 2 86,20 1,37 61,0 0,30 6,88 2,54 16,64 5,7 1,59 60,4 0,25 4,94 2,10 15,41 5,5 Observa-se que as concentrações de amido residuário são semelhantes e os teores de açúcares solúveis provavelmente são devido à ação de microrganismos degradadores do material. Os resultados dos ensaios para produção dos hidrolisados utilizando os parâmetros operacionais anteriormente definidos, estão demonstrados na Tabela 2 onde os valores apresentam a média de dois processos realizados para cada um dos farelos estudados. Os valores destes parâmetros foram também especificados considerando resultados obtidos anteriormente. 40 Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - Tabela 2 – Média dos resultados de ensaios de hidrólise realizados em duplicata. Etapa Massa de farelo Umidade Densidade Concen amido Massa de catalisador (H2SO4) Farelo 1 30,0 kg 90,5% 1,06 g/mL 6,3% 71,3 g Farelo 2 30,0 kg 90,5% 1,06 g/mL 6,3% 71,3 g Parâmetros Temperatura Tempo residência 140ºC 35 min 140ºC 35 min Condicionamento Neutralizante CaO2 50% pH inicial pH final 345 mL 0,1 7,4 230 mL 0,1 7,7 Filtração Resíduos lignocelulósicos Massa Umidade Amido qualitativo 8,62 kg 85,58 % ausente 7,25 kg 86,39 % ausente 20,3 L 8,3 0,59 % 20,8 L 7,0 0,65 % Hidrolisado Volume Brix ART Os resultados apresentam valores mássicos muito próximos, exceto com relação à concentração de sólido solúveis indicado pelo Brix que no hidrolisado do Farelo 2 está inferior ao do Farelo 1. Isto pode ser devido à variedade de mandioca processada pois ocorre diferenças também na massa de resíduos sólidos retidos pela filtragem. Em processos industriais a torta do filtro é lavada para remoção por arraste de todos os compostos de interesse o que não foi realizado aqui nos ensaios para não diluir o hidrolisado a valores muito baixo e inadequados para testes de fermentabilidade. Nos resultados das análises realizadas no hidrolisados observa-se que a intensidade do processo não gerou concentrações detectáveis daqueles compostos exceto compostos fenólicos. Segundo Taherzadeh (1999) estes compostos nestas concentrações não afetam um processo fermentativo utilizando leveduras como catalisador. Na Tabela 3, estão demonstrados os valores de glicose e o cálculo do rendimento dos processos. Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 41 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - Tabela 3 – Valores médios de dois ensaios da concentração de glicose, furfurais, hidroximetilfurfural, compostos fenólicos verificados no hidrolisado e o rendimento dos processos. Glicose (%) 6,53 6,88 Material Farelo 1 Farelo 2 Furfurais (%) - 5-HMF (%) - Fenólicos mg/ml 0,06 0,05 Rendimento (%) 98% 100% O processo de hidrólise retirou todo o amido residuário do farelo e juntamente com outros açúcares solúveis presentes produziram uma concentração final em glicose em torno de 6,5% que em termos de utilização industrial requer a concentração do caldo para 15% visando um processo mais eficiente de fermentação segundo Lima et al. (2001). Os ensaios feitos com os hidrolisados foram realizados e amostras do vinho fermentado foram sendo coletadas até que verificou-se o esgotamento da fonte de carboidratos indicado pela concentração de açúcares redutores em torno de 0,5%. O tempo total de fermentação foi de 12 horas. Na Tabela 4, estes valores podem ser observados. Tabela 4 – Valores de tempo de fermentação, concentração inicial e final de açúcares redutores (AR), concentração de etanol e fator de conversão. Ensaio (hidrolisado) Farelo 1 Farelo 2 Tempo (horas) 12 12 AR inicial (%) 6,53 6,88 AR final (%) 0,59 0,65 Etanol (%) 2,57 2,89 Fator conversão 0,46 0,46 O fator de conversão relaciona a quantidade de etanol produzida em relação à concentração de glicose e estequiometricamente o valor teórico seria de 51,1% ou 0,51. Segundo Lima et al. (2001) valores de conversão em torno de 90% ou seja 0,46 são considerados adequados para processos industriais. Segundo mesmo autor, estudos sobre eficiências fermentativas demonstraram que o fator de conversão variou entre 0,43 a 0,47. Considerando que os ensaios, utilizando o hidrolisado, apresentaram conversão de 0,46 conclui-se que o mesmo não apresentou efeito inibidor à fermentação. Amostras do vinho fermentado produzido foram submetidas a análises cromatográficas para avaliação da concentração dos principais componentes e os resultados podem ser observado na Tabela 5. 42 Energ. Agric., Botucatu, vol. 21, n.3, 2006, p.34-44 Saito & Cabello - Produção de etanol a partir de hidrolisados ... - Tabela 5 – Concentrações em massa de etanol, metanol, glicerol, glicose e ácido acético em amostras de vinho fermentado de hidrolisado de farelos de mandioca. Vinho Fermentado Farelo 1 Farelo 2 Etanol (%) 2,57 2,89 Metanol (%) 0,06 0,05 Glicerol (%) 0,24 0,21 Glicose (%) 0,14 0,11 Ac.Acético (%) - O glicerol é produto secundário da fermentação e está acoplado à manutenção do equilíbrio oxido-redutor da célula que é alterado pela presença de ácidos orgânicos, estresse osmótico e excesso de biomassa. Os resultados indicam ausência de ácidos orgânicos e a baixa concentração inicial de açúcares e deste modo os teores de glicerol ficaram menores de 5% da concentração de glicose inicial, indicando também que o processo fermentativo desenvolveu-se adequadamente (LIMA et al., 2001). 4 CONCLUSÕES Considerando ausência de compostos químicos que apresentam efeitos inibidores à fermentação alcoólica em hidrolisados produzidos com farelos de mandioca e considerando também os resultados apresentados pelas análises químicas aplicadas ao vinho fermentado, conclui-se que, o processo de produção de hidrolisado foi eficiente e adequado à aplicação como substrato de processo de fermentação etanólica. 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AOAC – ASSOCIATION OFFICIAL ANALYTICAL CHEMISTS Official methods of analysis. 15ª ed. Washington, 1990, 1298p. CHUM, H.L.; JOHNSON, D.K.; BLACK, S.K.; OVEREND, R.P. Pretreatment catalyst effects and the combined severity parameter. 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