4º ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE PESQUISA – ENGRUP, São Paulo, pp. 884-911, 2008. TERRITORIALIDADES DA REFORMA AGRÁRIA EM MINAS GERAIS: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A COMPREENSÃO DAS LUTAS NO CAMPO NO PERÍODO 2000- 2006 TERRITORIALITY AGRARIA REFORM IN MINAS GERAIS: A CONTRIBUTION TO THE UNDERSTANDING OF OF THE DISPUTE FOR THE LAND DURING 2000-2006 João Cleps Junior1 [email protected] Eduardo Rozetti de Carvalho1 [email protected] Gilberta Maria Pires Oliveira Souza Benedetti1 [email protected] Humberto Tomaz Gonzaga1 [email protected] Luciana Carvalho e Souza1 [email protected] Resumo Este trabalho apresenta os resultados da pesquisa “Territorialização da Luta pela Terra em Minas Gerais: projeto DATALUTA”, cujo objetivo foi analisar as ocupações, movimentos sociais e os assentamentos rurais criados em Minas Gerais no período de 2000 a 2006. Destaca também as diferentes modalidades de manifestações no campo por meio da sistematização e análise das reportagens noticiadas pela mídia impressa mineira. Mostra uma concentração de conflitos nas regiões Noroeste de Minas, Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e Norte de Minas, evidenciando que os principais 1 Universidade Federal de Uberlândia – UFU; Laboratório de Geografia Agrária – LAGEA; Núcleo de Estudos Agrários e Territoriais – NEAT. 885 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL focos de tensão social estão relacionados com as áreas de maior concentração fundiária e a expansão do agronegócio no período recente. Palavras-Chave: Luta pela Terra, Ocupações, Assentamentos Rurais, Movimentos Socioterritoriais, Conflitos Sociais. Abstract This paper presents the results of the research “Territorialização da Luta pela Terra em Minas Gerais: projeto DATALUTA”, whose objective was to analyse the land’s occupations, socials movements and the land settlements that were created in Minas Gerais, Brazil, in the period of 2000 to 2006. And point out too, the differences modalities of manifestation in the field, through the classification and analysis of the newspaper’s reports that were reported by the printed media of Minas Gerais. It shows a certain concentration of conflicts in the regions “Noroeste de Minas, Triângulo Mineiro/ Alto Paranaíba e Norte de Minas”. Evidencing that the principals focus of social’s tension are related with the areas that have more land concentration and the expansion of the agribusiness in the recent period. Keywords: Dispute for the land, Land’s Occupation, Field Settlements, Socioterritoriais movements, Socials Conflicts. Introdução O estudo da questão agrária e em específico os dados da luta pela terra constituem temas importantes e desafio para os pesquisadores quanto à obtenção e sistematização das informações sobre as ações dos movimentos socioterritoriais, frente às ocupações e formas distintas de manifestações sociais. Outro problema de pesquisa ocorre também porque as entidades responsáveis trabalham com diferentes metodologias de pesquisa, de modo que os dados sobre um mesmo tema, por vezes, são apresentados de formas diferentes. Para compreensão da Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 886 questão agrária brasileira, as principais referências para os estudiosos e interessados são limitadas. O projeto DATALUTA foi criado em 1998 em São Paulo, com o objetivo de elaborar um banco de dados das ocupações de terra, assentamentos rurais e movimentos socioterritoriais envolvidos nos conflitos agrários. A criação do DATALUTA facilitou o acesso às informações aos pesquisadores e órgãos ligados a problemática da Reforma Agrária, devido à sistematização dos dados que se encontravam disponíveis nos diferentes formatos. Desde então, por meio da elaboração do banco de dados, os pesquisadores da REDE DATALUTA vêm ampliando as escalas de análise e aprimorando os critérios de sistematização. O DATALUTA Minas Gerais foi criado em 2005 por meio de um convênio de cooperação entre o Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária NERA e o Laboratório de Geografia Agrária – LAGEA, da Universidade Federal de Uberlândia. Atualmente o DATALUTA constitui-se em uma rede de grupos de pesquisas localizados em três estados brasileiros: o NERA (Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária) no Estado de São Paulo, e os convênios com o LAGEA (Laboratório de Geografia Agrária), da Universidade Federal de Uberlândia em Minas Gerais e com o GEOLUTAS (Laboratório de Geografia das Lutas no Campo e na Cidade) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus de Marechal Rondon. As informações organizadas no banco de dados DATALUTA resultam do levantamento de dados em escala municipal e a sua representação em três escalas geográficas: nacional, estadual e microrregional, correlacionadas a quatro versões: ocupações, assentamentos, estrutura fundiária e movimentos socioterritoriais. Estas análises são divulgadas todos os anos com a publicação digital do Relatório DATALUTA. O relatório é publicado anualmente, sempre condizente ao ano anterior ao de vigência, contendo as análises do conjunto de versões/categorias selecionadas. Também vem reforçar a importância da metodologia utilizada pelo NERA e a Comissão Pastoral da Terra - CPT desde o final da década de 1980, demonstrando sua eficácia para compreensão da dinâmica dos movimentos socioterritoriais. 887 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL No que diz respeito ao registro e análise das ações dos movimentos socioterritoriais bem como o levantamento das ações dos movimentos registrados pela mídia impressa e digital realizadas possui especificidades no âmbito dos núcleos de pesquisas envolvidos no DATALUTA. Principalmente pelos trabalhos básicos realizados pela equipe do NERA, é feita a sistematização dos dados sobre os movimentos sociais, reunindo as informações disponibilizadas pelas três principais entidades que documentam as ações dos movimentos socioterritoriais: a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Ouvidoria Agrária (OAN) do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. Além disso, os próprios movimentos também divulgam e confirmam os dados coletados pela pesquisa DATALUTA. A partir dessa metodologia, os dados obtidos são organizados em uma única tabela por meio da confrontação dos dados disponibilizados pelas diferentes fontes (DATALUTA, OAN e CPT). A título de exemplo, estão catalogados cerca de 80 movimentos socioterritoriais que tiveram pelo menos uma atuação no período de 2000 a 2006. A partir dos dados da pesquisa, tem sido possível identificar e espacializar a ação dos movimentos sociais no Estado de Minas Gerais e Triângulo Mineiro e, por outro lado, compreender a problemática da Reforma Agrária e o grau de intensificação dos conflitos no campo brasileiro. Atualmente o banco de dados tem servido de referência para pesquisadores nestas instituições, além de um grande reconhecimento entre as instituições que organizam os dados primários e demais estudiosos do desenvolvimento rural e da questão agrária no Brasil e no exterior. Assim, este trabalho busca contribuir para a construção de metodologia e análise dos conflitos no campo em Minas Gerais com ênfase às ocupações de terras, movimentos sociais e os assentamentos rurais criados no período de 2000 a 2006, bem como apresentar aspectos importantes para a compreensão das questões básicas que envolvem as manifestações no campo. Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 888 As manifestações sociais e a mídia Do ponto de vista teórico, é importante assinalar que para entender as manifestações sociais, devemos inicialmente resgatar o processo de desigualdade quanto à distribuição de terras e a hegemonia do latifúndio no campo, resultando nas formas de resistências que começaram a emergir em todo o território brasileiro. Índios, negros escravos, imigrantes e trabalhadores rurais iniciaram um processo de luta em todo o país, defendendo melhores condições de trabalho, vida e de acesso à terra desde o período da colonização. Considerando que no Dataluta são realizados o registro dos movimentos socioterritoriais, bem como das formas de ações desses movimentos disponíveis na mídia impressa e digital, buscamos sistematizar a caracterizar as formas de manifestações atuais (últimos cinco anos), a partir dos registros diários as informações básicas (qualitativas) consultando aproximadamente mais de vinte fontes no estado. Considerando o período recente, buscou-se sistematizar os principais movimentos sociais atuantes no Estado, bem como analisar as suas formas diferenciadas de manifestação, com foco para a questão agrária e a luta pela terra. O principal tipo são as ocupações de terras de domínio privado, que são aquelas manifestações noticiadas pelos jornais e pela mídia de uma maneira geral. Esta ocorre em propriedades rurais passíveis de desapropriação e/ou em processo de aquisição/compra pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA, para criação de assentamentos. A finalidade deste tipo de manifestação é uma forma de pressão para que se estabeleça políticas de criação de assentamento e conseqüentemente desenvolvimento da reforma agrária, conforme é destacado em reportagem: 889 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL Cerca de 200 famílias do Movimento Terra, trabalho e Liberdade (MTL) ocuparam [...] a Fazenda Cachoeirinha [...] o objetivo é pressionar o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a cumprir um acordo feito com o MTL ainda em 2003. [...] a intenção das famílias é ficar em caráter definitivo na área. [...] a Fazenda Cachoeirinha já esta sendo negociada. (Jornal CORREIO, 2005). Esse tipo de manifestação é relatado pela mídia também aparece com depoimentos de lideranças que constitui ferramenta importante para análise e compreensão do problema da luta pela terra, conforme demonstra a declaração de integrante de um movimento social ao Jornal da Manhã de Uberaba-MG, quando ocorreu a ocupação de uma área no Triângulo Mineiro: [...] a ocupação é um protesto contra a atuação do governo estadual no processo de reforma agrária. “O Estado de Minas Gerais tem muitas áreas públicas que poderiam ser utilizadas para a reforma agrária e não estão sendo aproveitadas”, [...] cobrou mais emprenho do governo. (JORNAL DA MANHÃ, 2006). Como pode ser observado, no caso em especifico, a manifestação foi realizada a partir da reivindicação e necessidade de ampliar as áreas destinadas à reforma agrária em Minas Gerais, visto que no estado existem diversas áreas passiveis de ocupação e de reforma agrária. Assim, o movimento realiza uma ocupação em forma de protesto com a finalidade de reivindicar a sua efetivação pelo governo estadual. Ainda visando alcançar o propósito de criação de assentamentos rurais, os movimentos têm realizado manifestações públicas no que tange à ocupação de prédios públicos, estradas, rodovias e áreas não passíveis de ocupação seguinte realizada pelo Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 890 Movimento dos Sem Terra na sede do Incra em Minas Gerais, conforme ilustrado na reportagem divulgada no Jornal Vale do Aço de Ipatinga-MG: Cerca de 150 integrantes do MST [...] deixaram ontem à tarde a sede do Incra [...] onde permaneciam acampados [...]. Segundo o MST, eles deixaram o saguão do prédio depois de serem recebidos pelos representantes da instituição, quando foi prometido que até o fim do ano 800 famílias serão assentadas no Estado. O movimento pretendia permanecer no local por tempo indeterminado. (JORNAL VALE DO AÇO, 2006) Outro exemplo encontramos na seguinte na seguinte reportagem publicada no Jornal Correio de Uberlândia-MG do dia 01 de junho de 2005: Cerca de 2 mil pessoas [...] do Fórum Social do Triângulo [...] interditaram dois pontos na rodovia BR-153, no cruzamento com a MG255, local conhecido como Trevão de Frutal. [...] Após a reunião em Uberlândia, mesmo sem uma definição sobre as reivindicações, os manifestantes liberaram as rodovias. (CORREIO, 2005) Neste caso, a manifestação se deu com o bloqueio de rodovias e como na reportagem anterior, os manifestantes liberaram o trecho após negociação com representantes dos poderes públicos ligados à questão da terra. Outra estratégia de luta e de conscientização dos trabalhadores é aquela que ocorre no interior dos movimentos sociais de luta pela terra, por meio de cursos, palestras, encontros, debates, entre outros. Exemplo dessa modalidade de manifestação pode ser verificado durante a realização do V Congresso do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, realizado em Brasília-DF em junho de 2007, onde foram desenvolvidos cursos e palestras para seus participantes, e principalmente ocorreram 891 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL debates sobre as políticas e dinâmicas de ação do movimento para os anos seguintes, como pode ser verificado a seguir: O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) realiza [...] o maior congresso de sua história. [...] são a instância máxima na estrutura de poder da organização, com a função de definir os seus rumos por um período em torno de cinco anos. [...] É um encontro para debates políticos e ideológicos. (CEDEFES, 2007) Esse tipo de manifestação ocorre com a participação de movimentos sociais em locais públicos, a exemplo de prédios do INCRA. Neste caso, registramos em universidades e escolas a montagem de acampamentos (barracos de lona), como forma de atrair simpatizantes e/ou chamar a atenção/interesse para o problema da reforma agrária, como ocorreu em Uberlândia-MG em 07 de novembro de 2005: Integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) estão acampados no Campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Eles querm mostrar a vida que levam aos universitários e por isso vão participar da Calourada. [...] Os Sem Terra foram convidados para participar da Calourada, evento organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) para receber os novos alunos da universidade. [...] estudantes e Sem Terra devem participar do grito dos excluídos. Um protesto que reúne diversos movimentos sociais durante as comemorações pelo Dia da Independência. (MEGA MINAS, 2005). Lembramos que os protestos podem ou não contar com o apoio do governo e da população, seja na divulgação ou até mesmo na organização dos mesmos. Cabe, no entanto, uma investigação mais específica a respeito das reivindicações do movimento em particular que muitas vezes vão além da simples reivindicação da reforma agrária. Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 892 Além das manifestações apresentadas, outra maneira que os movimentos encontram para expressar os interesses e luta pela reforma agrária ocorre através da participação e engajamento político, ao buscar eleger candidatos ligados ao movimento ou então promover apoio a determinados candidatos e partidos políticos que possuem alguma identificação de militância com os trabalhadores sem-terras. Um exemplo dessa modalidade pode ser verificado em artigo publicado no site do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, do dia 15 de junho de 2007. Um ato político realizado nesta quinta, dia 14, em Brasília, marcou o apoio de dezenas de governadores e parlamentares ao Movimento Sem Terra. A atividade ocorreu durante o 5º Congresso do movimento, que termina nesta sexta, dia 15. Uma das presenças mais aplaudidas foi a do governador do Maranhão, Jackson Lago, cujo passado político traz passagens como a amizade com Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas das décadas de 50 e 60. Sentindo-se em um "santuário" da luta pela reforma agrária, Lago destacou a importância dos apoios políticos conquistados pelo MST na sua história. (CASSOL, 2007) Todas essas manifestações possuem um propósito comum, chamar a atenção das autoridades para a realidade do campo e principalmente agilizar o processo de reforma agrária, com a criação de novos assentamentos. A territorialização das ocupações de terras No Estado de Minas Gerais, assim como no Brasil, a ocupação é um importante meio de acesso à terra, visto que a entrada em latifúndios improdutivos tem sido a principal ação da luta dos movimentos socioterritoriais. É por meio das ocupações, que os trabalhadores rurais expropriados realizam as suas lutas. A ocupação deve ser considerada como uma ação que os trabalhadores semterra desenvolvem, lutando contra a expropriação causada pelo sistema capitalista, em 893 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL específico os latifundiários. Portanto, a ocupação é uma materialização da luta de classes. Na análise de Fernandes (2001), o processo de ocupação é dividido em duas partes a ocupação de uma área determinada e ocupação massiva, conforme ele destaca, A principal diferença desses tipos está no fato que, no primeiro, o tamanho da área é critério para a mobilização e organização das famílias. Dependendo do tamanho da área pode ser uma ocupação de pequenos grupos ou até numerosos grupos, massificando a luta. No segundo, a mobilização e organização têm como critério assentar todas as famílias sem-terra, ocupando quantas áreas forem necessárias. (FERNANDES, 2001, p.10). Por outro lado, para entendermos a dinâmica de atuação dos movimentos socioterritoriais de Minas Gerais, devemos considerar as principais diferenças internas (dentro do próprio movimento) e externas (em relação a outros movimentos), porém estes com anseio transformador em comum da realidade em que vivem, travando embates nas esferas políticas, físicas e legais, conforme destaca Fernandes, [...] movimento social e movimento socioterritorial são um mesmo sujeito coletivo ou grupo social que se organiza para desenvolver uma determinada ação em defesa de seus interesses, em possíveis enfrentamentos e conflitos, com objetivo de transformação da realidade. (FERNANDES, 2004, p.52). Nesse sentido, o conceito de movimento socioterritorial é uma tentativa de desfragmentação do espaço e do território. Pode-se, então, fazer uma leitura mais ampla a partir do conceito de movimento socioterritorial, pois conforme destaca Fernandes, “ela sempre será uma leitura parcial, porque a totalidade da realidade é um Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 894 processo coletivo que só pode ser compreendida no movimento de todos” (FERNANDES, 2004, p.53). Nesse contexto, alguns movimentos transformam espaços em territórios, também se territorializam e são desterritorializados e se reterritorializam, carregando em suas ações pretensões de suas territorialidades. Lembramos que a transformação do espaço em território acontece por meio da conflitualidade, sendo que os territórios se movimentam, também, pela conflitualidade, uma vez que as formas de organização social, as relações e as ações acontecem no espaço, como apontado por Fernandes (2005). A espacialização e atuação dos movimentos em Minas Gerais nos remetem à teoria do processo geográfico e territorial dos movimentos de luta pela terra, no qual os movimentos sociais do campo podem ser classificados como movimentos isolados ou territorializados. Segundo Fernandes, os movimentos socioterritoriais isolados são aqueles que atuam em uma determinada microrregião ou num espaço geográfico equivalente (2005, p. 32) como municípios concentrados, e os movimentos socioterritoriais territorializados, são caracterizados como, [...] aqueles que atuam em diversas macrorregiões e formam uma rede de relações com estratégias políticas que promovem e fomentam a sua territorialização. Todos os movimentos territorializados começam como movimentos isolados. Estes ao se territorializarem e romperem com a escala local, se organizam em redes e ampliam suas ações e dimensionam seus espaços. (FERNANDES, 2005, p. 31). Os movimentos socioterritoriais em Minas Gerais No que tange aos movimentos sociais de luta no campo em Minas Gerais no período de 2000 a 2006, de acordo com o Projeto DATALUTA–MG, foram registrados mais de 24 movimentos socioterritoriais. Em nível nacional, segundo a Agência Brasil, “[...] quando se fala em ocupação de terra no Brasil [...] existem hoje no país 68 movimentos de sem-terra” (CRUZ, 2008), dessa forma avalia-se que a quantidade de 895 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL movimentos em Minas Gerais, mesmo para um curto período, de 2000 a 2006, condiz com a realidade de número elevado de movimentos de luta por terra, perfazendo 35% do total. Deste total, cerca de 296 ocupações de terras foram efetuadas por movimentos nomeados, e 50 ocupações efetuadas por movimentos com nomes não identificados, por movimentos quilombolas, movimentos Indígenas e por sindicatos de trabalhadores rurais – sindicatos municipais individualizados e não ligados à CONTAG. Juntos, os movimentos socioterritoriais foram responsáveis por 346 ocupações de terras no período de 2000 a 2006, quando reunidos os dados do Quadro 1. Dentre os movimentos estudados, observa-se que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST foi o movimento mais atuante em Minas Gerais, realizando 145 ocupações de terras, 42% do total, e mobilizando também o maior número de famílias nessas ocupações, que totalizam aproximadamente 17,9 mil famílias, 48% do total no período em questão. Lembramos que esse número não representa diretamente o número de famílias que estão no movimento, mas sim o somatório de famílias que participaram das ocupações registradas de 2000 a 2006 em Minas Gerais. Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 896 Quadro 1 – Minas Gerais: Movimentos Socioterritoriais Atuantes, segundo o Número de Ocupações, Famílias e Municípios com Ocupações de 2000-2006 Municípios Movimentos Socioterritoriais Ocup Fam com Ocup Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST 145 17966 62 Fed. dos Traba. na Agricultura do Estado de Minas Gerais - FETAEMG 25 1632 21 Movimento de Libertação dos Sem Terra - MLST 16 3730 8 Liga Operária Camponesa - LOC 16 1288 8 Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas - LCPNM 15 1392 12 Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG 14 1240 11 Movimento de Terra, Trabalho e Liberdade - MTL 13 1475 5 Federação da Agricultura Familiar - FETRAF 10 480 4 Movimento de Libertação dos Sem Terra de Luta - MLSTL 5 665 5 Comissão Pastoral da Terra - CPT 5 554 4 Organização dos Trabalhadores Camponeses - OTC 4 430 4 Movimento de Luta pela Terra - MLT 4 162 4 Movimento Populares pelos Sem Terra - MPST 3 322 2 Movimento Independente 3 265 1 Movimento Popular pela Reforma Agrária - MPRA 3 216 2 Centro de Agricultura Alternativa - CAA 2 370 2 Fórum Sindical dos Trabalhadores - FST 2 200 1 Caminho de Libertação dos Sem Terra - CLST 2 151 2 Liga dos Camponeses Pobres do Centro Oeste - LCPCO 2 440 2 Movimento dos Trabalhadores Rurais - MTR 2 79 1 Liga dos Camponeses Pobres - LCP 2 58 2 Associação das Comunidades Remanescentes - ACUTRMU 1 40 1 Comissões Camponesas de Luta - CCL 1 12 1 ASTT 1 5 1 Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (não ligados a CONTAG) 25 2837 23 Movimentos Quilombolas 9 920 3 Movimentos Indígenas 2 78 2 Movimentos Não Identificados 14 713 10 Fonte: LAGEA, DATALUTA-MG, 2008. Org.: CARVALHO, E.R.; GONZAGA, H.T.; SOUZA, L.C. 2008. 897 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL A espacialização das ocupações de terras em Minas Gerais: 2000-2006 Quanto a realidade das ocupações de terras, Minas Gerais tem sido considerado um dos estados com maior número de ocupações e elevada atuação de movimentos de luta pela terra, tanto que no período de 1988 a 2005, o Estado foi o 5° colocado com maior número de ocupações entre as outras unidades da federação e o sendo na região Sudeste (DATALUTA, 2005). De acordo com os dados do DATALUTA, foram registrados de 2000 a 2006 346 ocupações de terras em diferentes municípios do Estado de Minas Gerais (Mapa 1), demonstrando sua relevância nacional quanto aos conflitos por terra. Dos 346 municípios existentes em Minas Gerais, 109 municípios tiveram ocupações de terras registradas. Mapa 1 – Minas Gerais: Número de Ocupações de Terras por Município no período de 2000-2006 Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 898 De acordo com os dados da tabela 1, é possível verificar os 10 municípios com maior número de ocupações de terras no estado de Minas Gerais, que juntos são responsáveis, por 42% das ocupações de terras e 45 % aproximadamente do número de famílias que participaram das ocupações de terras. Tabela 1 – Minas Gerais: Municípios com maior número de Ocupações no período 2000-2006 Ranking Nome do Município Ocupações Famílias 1° Unaí 28 2704 2° Uberlândia 24 4432 3° Buritis 15 1975 Montes Claros 15 1144 5° Porteirinha 11 420 6° Araxá 8 210 Capitão Enéas 8 522 Prata 8 872 Frei Inocêncio 7 1484 Ituiutaba 7 597 Manga 7 633 Uruana de Minas 7 860 9° Fonte: LAGEA, DATALUTA-MG, 2008. Org.: CARVALHO, E.R.; GONZAGA, H.T.; SOUZA, A.G.; SOUZA,L.C., 2008. Os municípios de Unaí e Uberlândia se destacaram na luta pela terra em Minas Gerais, uma vez que esses foram, sem dúvidas, os municípios com maior número de ocupações e de famílias, somando 15% das ocupações e 18% do número de famílias presentes nas ocupações ocorridas no estado no período de 2000 a 2006. Quando analisada por região, observa-se grande diversidade na quantidade de ocupações de terras e localização geográfica. Verificou-se que entre 2000 a 2006 apenas a região de Campos das Vertentes não registrou ocupações de terras. Por outro lado, o Norte de Minas e o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba se destacaram no 899 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL número de ocupações de terras, acumulando respectivamente 29% e 28% das ocupações do estado (Tabela 2). Tabela 2 – Minas Gerais: Número de Ocupações e Municípios com Ocupações segundo as mesorregiões geográficas no período de 2000-2006 Mesorregião Ocupações Número Municípios Norte de Minas Quant % Quant % 102 29 32 29 Triângulo Mineiro/Alto 28 22 Paranaíba 98 24 Noroeste de Minas 68 20 11 10 Jequitinhonha 24 7 9 8 Vale do Rio Doce 17 5 8 7 Metropolitana BH 16 5 10 9 Vale do Mucuri 6 2 5 5 Oeste de Minas 5 1 4 4 Sul/Sudoeste de Minas 5 1 2 2 Central Mineira 3 1 2 2 Zona da Mata 2 1 2 2 Campos das Vertentes 0 0 0 0 Total 346 100 109 100 Fonte: LAGEA, DATALUTA-MG, 2008. Org.: CARVALHO, E.R.; GONZAGA, H.T.; SOUZA, L. C., 2008. Por fim, quando analisada anualmente, as ocupações de terras ocorridas entre 2000 a 2006 são diferenciadas, possuindo relações com determinados momentos políticos e governos, principalmente, sendo elevadas nos períodos eleitorais. Assim, o maior número de ocupações ocorreu no ano de 2003, com 62 ocupações. Entretanto, ,conforme pode ser observado no gráfico 1, há pouca variação no número de Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 900 ocupações em Minas Gerais, que apresentou anualmente um número elevado deste tipo de manifestação. Gráfico 1 - Minas Gerais: Número de Ocupações no período de 2000-2006 70 62 61 60 59 57 50 50 38 N° 40 30 20 19 10 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Ano Fonte: LAGEA, DATALUTA-MG, 2008. Org.: CARVALHO, E.R.; GONZAGA, H.T.; SOUZA,L.C., 2008. A distribuição espacial destas ocupações ocorreu de maneira concentrada em determinadas regiões e municípios, em geral naqueles com maior número de propriedades de terras passíveis à desapropriação para fins de reforma agrária. Além disso, as ocupações também coincidem com os municípios com maior extensão territorial, fator levado em consideração pelos movimentos de luta pela terra. Os Assentamentos rurais no Brasil e no Estado de Minas Gerais A partir da década de 1990, o governo federal desenvolveu um processo de apresentar a questão da reforma agrária divulgando números “expressivos” na 901 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL quantidade de assentamentos rurais criados no Brasil. Essa tendência mostra-se claramente através de um jogo de interesses entre as esferas públicas e privadas em que a primeira busca minimizar os problemas advindos do impasse das ocupações de terras pelos movimentos sociais,. Em geral, a questão da reforma agrária tem dido solucionada com a política pública de criação de assentamentos rurais, que promove acesso a terra às famílias de sem terras, com a busca da diminuição dos conflitos sociais no campo. Entretanto, tais iniciativas não cobrem a real demanda de milhares de famílias sem-terra e acampadas existentes no país, e, sobretudo, não contribuem em termos significativos para a desconcentração da estrutura fundiária brasileira. Dados recentes divulgados pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) e pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), obtidos pela reportagem do Jornal Brasil de Fato de 2006 (MELO, 2006), por exemplo, mostra que o governo Lula assentou apenas 26.951 mil famílias em projetos criados em 2005, a partir da desapropriação de terras. Esse contingente é bem inferior as 127.506 mil famílias que o governo afirma ter assentado em 2005. De acordo com o próprio documento do MDA, a questão é que o governo contabiliza também como reforma agrária: projetos criados antes de 2005 e assentamentos em terras públicas. FERNANDES (2006) analisa que os dados de 2005 dão continuidade ao que o governo petista tem feito desde o início de seu mandato. Segundo o autor, do total de 245 mil famílias que diz ter assentado nestes três anos, apenas 25% são fruto de novas desapropriações, as outras 75% são de regularização e reordenamento fundiário e de projetos de colonização em terras públicas (ou seja, terras que já pertencem à União). Dessa forma, pode-se perceber que pouco se alterou na concentração fundiária no país. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), neste mesmo documento, afirma que reconhece os números de famílias assentadas em 2005 de 26.951 mil famílias e a importância das outras 49.203 mil famílias assentadas em terras públicas para a “regularização fundiária no país”, mas explica que não poderiam ser contabilizadas como beneficiadas por um processo de reforma agrária, afirmando que estes dois números são legítimos e o restante é “inchaço”. Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 902 No entanto, a discussão acerca da reforma agrária e da realidade dos assentamentos rurais não se esgota apenas sobre o quantitativo de projetos criados ao longo dos anos, mas suscita, no momento presente, reflexões e propostas acerca das alternativas de desenvolvimento dessas áreas, sua organização interna mediante vários aspectos, associados ao processo produtivo, organização social, recursos naturais, etc., bem como a sustentação e consolidação dos projetos no decorrer dos anos. Além desses números, é importante salientar também, a “qualidade” dos assentamentos rurais brasileiros. Como destaca Leite (2000) esta qualidade mostra ainda alguns desafios que milhares de famílias reproduzem em seu cotidiano, após a conquista da terra, referindo-se ao momento de instalação e reprodução, o qual ocorre a partir da criação oficial do projeto de assentamento e de seu desenvolvimento nos primeiros anos de existência. [...] após a chegada à terra, delimitação de lotes e início da produção [...] novas questões se colocam: a necessidade, muitas vezes, de disputar os créditos de implantação e do Procera, a imposição de formas associativas, a diferenciação política que ela produz (ou consolida) entre os assentados, a busca de mercado para os produtos, a manifestação de uma série de carências com relação as formas de escoar o que é produzido, a obtenção de insumos, as carências com relação à saúde, educação, transporte, etc. (LEITE, 2000). Desse modo, por intermédio dos avanços e retrocessos verificados sobre esse conjunto de situações vividas nos projetos de assentamento, como as descritas por este mesmo autor, é que podemos ter indicadores para qualificar e avaliar os planos e ações executadas pelas sucessivas gestões de governos, propaladas como política de reforma agrária. Em termos qualitativos, essas ações, em sua maioria, não têm alcançado patamares satisfatórios de desenvolvimento e estruturação dos projetos de 903 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL assentamentos criados, notadamente no cumprimento de demandas básicas das populações assentadas, como infra-estrutura, saúde, educação, qualidade ambiental e atividade produtiva. Essa realidade provocou uma distribuição espacial generalizada de assentamentos rurais por todas as regiões do país, com assentamentos cercados de latifúndios por todos os lados. Esse desarranjo é uma das muitas evidências da não existência de uma política de reforma agrária. Pois o que determinou a implantação desses assentamentos foram lutas populares e conjunturas políticas e não um projeto estruturado pelo Estado. (FERNANDES, 2003). De acordo com Fernandes (1999), com base no DATALUTA, os primeiros assentamentos rurais do estado de Minas Gerais foram criados em 1986, frutos de uma luta árdua travada entre o governo Federal e Estadual, principalmente com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que foi em princípio um dos primeiros movimentos sociais a se instalarem no estado. Cleps Jr (2007) afirma que apesar do crescimento da presença do MST, verificase também a atuação de outros movimentos dentro do Estado. De acordo com a pesquisa DATALUTA, em Minas Gerais registraram-se, em 2005, mais de vinte movimentos e organizações de luta pela terra, dos quais alguns refletem a segmentação ocorrida nos últimos anos. Dentre eles pode-se citar: MLT - Movimento Terra Trabalho e Liberdade; MLST - Movimento de Libertação dos Sem Terra; MLSTL Movimento Libertação dos Sem Terra (MLST de Luta); FETAEMG - Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais, entre outros. Os dados relacionados na tabela a seguir mostram o número de assentamentos criados no estado entre os anos de 2000 a 2006. Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 904 Tabela 3 – Municípios com maior Número de Assentamentos em Minas Gerais no Período 2000 a 2006. Média da área Região do Número de Número de Área Estado Assentamentos famílias Total (ha) 1 Uberlândia Triângulo 8 467 9.736 20,84 2 Buritis Noroeste 7 344 10.891 31,65 3 Arinos Noroeste 6 591 16.418 27,78 4 Manga Norte 5 121 6.514 53,83 5 Matias Cardoso Norte 5 601 25.399 42,26 6 Formoso Noroeste 4 347 14.537 41,89 7 Juvenília Norte 4 187 8.099 43,31 8 Unaí Noroeste 4 196 7.897 40,29 9 Prata Triângulo 3 415 8.358 20,13 Leste 3 112 5.149 45,97 Município 10 Resplendor recebida por família (ha) Fonte: LAGEA, DATALUTA-MG, 2008. Como pode ser verificado, os municípios que apresentaram maior número de assentamentos foi Uberlândia, com oito assentamentos implantados no período de 2000 a 2006, seguido por Buritis com sete e Arinos com seis. Além destes, outros municípios que receberam projetos de reforma agrária, em sua maioria, estão localizados nas regiões do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Noroeste e Norte de Minas Gerais. A diversidade dos assentamentos rurais de acordo com as regiões do Estado é um processo complexo, como ocorre também com os tipos e a quantidade de movimentos socioterritoriais. De acordo com o INCRA, em cada região do Estado as atividades produtivas desenvolvidas apresenta especificidades quanto a sua organização socioprodutiva. Nos assentamentos existentes em Minas Gerais,, a atividade pecuária ainda é a predominante, tanto a leiteira como a de corte. Na pecuária leiteira, podem ser citados como como exemplo o P.A. 26 de Outubro em Pompéu e o P.A. Fruta D’Danta em João Pinheiro e alguns PA’s do município de Lagoa Grande, que apesar de possuírem 905 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL problemas e dificuldades inerentes aos assentamentos de reforma agrária, se sobressaem pelo volume da produção. Nos municípios de Paracatu e Prata (P.A. José dos Anjos), por exemplo, destaca-se o artesanato, principalmente a partir da união das mulheres assentadas. Outro exemplo são os assentamentos localizados em Grão Mogol e Nova União que produzem com qualidade plantas medicinais e sementes crioulas. Estes estão inseridos nas regiões Norte e Jequitinhonha e apresentam famílias de trabalhadores rurais com maior perfil para a atividade agrícola, sendo normalmente oriundas do meio rural, possuindo assim um saber e conhecimentos tradicionais (INCRA, 2008). Já as regiões do Triângulo/Alto Paranaíba apresentam um perfil mais heterogêneo de famílias, indo desde os oriundos do meio rural até os de origem urbana. Os assentamentos desta região não sofrem da mesma intensidade os efeitos da seca prolongada, como os do Norte de Minas, embora a disponibilidade de água seja sempre um fator a ser priorizado. Os PA’s do Triângulo apresentam um quadro mais conflituoso, demandando sempre mais esforços do INCRA para tentar resolver os problemas relacionados à situação ocupacional, assistência técnica, créditos etc. Já a diferença da média da área recebida por família varia de uma forma geral pelo valor do módulo fiscal da região. De acordo com o INCRA, o módulo fiscal é um parâmetro ponderado que leva em consideração as peculiaridades de cada região, dentre alguns fatores o tipo de exploração predominante e renda média obtida por esta, que está diretamente associada ao tipo de solo, clima, relevo, etc. O módulo serve para a classificação do imóvel rural quanto ao tamanho, na forma da Lei Federal nº. 8.629/93. É expresso em hectares e fixado para cada município. Por isso, esta diferença entre o número de hectares recebidos por família nas regiões do Triângulo Mineiro e a do Norte do Estado como foi mostrado na tabela 2. Devemos considerar ainda a nova realidade da questão agrária brasileira e que os assentamentos de uma forma geral vêm enfrentando: a expansão do agronegócio, como um processo de disputa territorial formado por intensa conflitualidade. Por essa razão “a reforma agrária deixou de ser uma questão setorial e se transformou em uma questão territorial. Campesinato, latifúndio e agronegócio são diferentes modelos de desenvolvimento do campo, que se territorializam e são desterritorializados na disputa permanente pelo controle territorial”. (DATALUTA, 2008). Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 906 No contexto da questão agrária brasileira, um novo sentimento parece surgir desse recente processo organizativo: a preocupação em se fazer políticas que possam estruturar melhor os assentamentos rurais. Vê-se hoje antes de tudo, a necessidade de construir e cultivar espaços que possam ser de uma certa forma lugares sustentáveis e profícuos para uma melhor relação humana. Considerações Finais O trabalho buscou apresentar aspectos básicos sobre a questão agrária em Minas Geriais, particularmente sobre as ocupações de terras de 2000 a 2006 e a espacialização e especificidades nas regiões mineiras. As regiões, Norte de Minas e Triangulo Mineiro/Alto Paranaíba, concentraram mais de 50% das ocupações registradas no período, além de que, no que tange o movimento social, o movimento que mais atuou com ocupações foi o Movimento dos trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, sendo responsável por 42% do total de ocupações com movimentos identificados. No que concerne às manifestações no campo, foi possível observar a existência de quatro diferentes tipos de ações: 1) a manifestação com ocupação: ocorrem mediante a ocupação de propriedades rurais passíveis de desapropriação para a reforma agrária e ocupações de propriedades urbanas, como prédios públicos; 2) manifestações públicas: que ocorrem como forma de chamar atenção sobre uma questão elegida pelos movimentos, como bloqueio de estradas e principalmente ocupações de áreas não passíveis de reforma agrária; 3) manifestações internas dos movimentos: que ocorrem mediante o desenvolvimento de mobilizações internas dos movimentos, como cursos, palestras e assembléias; 4) manifestações de apoio político: ocorrem com o apoio ou candidatura de integrantes com mesmo foco político. Devemos ressaltar, contudo, que através da continuidade do estudo, poderemos ampliar as já definidas e diferentes modalidades de manifestação dos movimentos de luta pela terra. Nos últimos anos, registrou-se um crescimento da presença do MST, verifica-se também a atuação de outros movimentos dentro do Estado. De acordo com a pesquisa 907 4º ENGRUP, São Paulo, 2008 CLEPS JÚNIOR, J. et ALL DATALUTA, em Minas Gerais registraram-se, em 2005, mais de vinte movimentos e organizações de luta pela terra, dos quais alguns refletem a segmentação ocorrida nos últimos anos. Dentre eles pode-se citar: MLT - Movimento Terra Trabalho e Liberdade; MLST - Movimento de Libertação dos Sem Terra; MLSTL - Movimento Libertação dos Sem Terra (MLST de Luta); FETAEMG - Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais, entre outros. Quanto aos assentamentos rurais, foi possível verificar que os municípios que desenvolvem maior número de assentamentos rurais no período 2000 a 2006 também se relacionam àqueles com maior número de ocupações, com destaque para Uberlândia, Buritis e Arinos que mesmo não concentrando grande número estão sediados em algumas das áreas de maior conflito por terras do Estado de Minas Gerais. Verifica-se, contudo, uma grande diversidade socioprodutiva nos assentamentos rurais, cujas características de algumas regiões foram identificadas e pesquisadas pelos membros do Grupo de Pesquisa. Territorialidades da reforma agrária em Minas Gerais: uma contribuição para a compreensão das lutas no campo no período 2000- 2006, pp. 884-911. 908 Referências CASSOL, D. MST recebe apoio de Jackson Lago, ex-governadores e parlamentares. MST, São Paulo. 15 jun. 2007. < http://www.mst.org.br/mst/home.php> Acesso: 05 jul. 2007. CATANI, D. B.; BASTOS, M. H. C, A imprensa periódica e a história da educação. 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