UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO DE LETRAS
ALESSANDRO BARNABÉ FERREIRA SANTOS
FIGURAÇÕES DA TERRA NATAL NA POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE
SENA
São Luís
2014
ALESSANDRO BARNABÉ FERREIRA SANTOS
FIGURAÇÕES DA TERRA NATAL NA POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE
SENA
Monografia apresentada ao Curso de Letras da
Universidade Federal do Maranhão como
requisito parcial para a obtenção do título de
Licenciado em Letras.
Orientadora: Profa. Dra. Márcia Manir Miguel
Feitosa
São Luís
2014
Santos, Alessandro Barnabé Ferreira.
Figurações da Terra natal na poesia de exílio de Jorge de Sena. __ 2014.
98 f.
Impresso por computador (Fotocópia).
Orientadora: Márcia Manir Miguel Feitosa.
Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Maranhão, Curso de
Letras, 2014.
1. Sena, Jorge de – Peregrinatio ad Loca Infecta (1969),
Análise literária 2. Poesia portuguesa 3. Exílio 4. Paisagem 5. Geografia
Humanista Cultural I. Título
CDU 82.09:911.3
ALESSANDRO BARNABÉ FERREIRA SANTOS
FIGURAÇÕES DA TERRA NATAL NA POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE
SENA
Monografia apresentada ao Curso de Letras da
Universidade Federal do Maranhão como
requisito parcial para a obtenção do título de
Licenciado em Letras.
Orientadora: Profa. Dra. Márcia Manir Miguel
Feitosa
Aprovada em _____/ _____ / _____
Banca Examinadora
____________________________________________________
Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa – DELER/UFMA
Orientadora
__________________________________________________
Prof. Dr. Rafael Campos Quevedo – DELER/UFMA
1º Examinador
____________________________________________________
Prof. Dr. Luciano da Silva Façanha – DEFIL/UFMA
2º Examinador
AGRADECIMENTOS
À minha avó materna, Maria Madalena, quem primeiro me educou e me forjou um espírito
disciplinado, do qual esta monografia é fruto.
Ao meu avô materno, Dagmar Launé, e ao avô paterno, Lourenço Costa, pelos mais preciosos
ensinamentos de vida. À tia Erotildes Cotas (in memoriam). Aos meus pais, Ana Cristina e
Edvaldo Ferreira, porque sem eles, nada seria. Aos meus irmãos, Igor Fernando, Edvaldo
Júnior e Lysandra, pela paciência que me dispensam diariamente no convívio familiar. Às
minhas tias maternas, Helena Silvia e Sílvia Helena, que desempenharam e desempenham
papel fundamental na minha educação. Ao meu tio materno, Raimundo Nonato, por tudo. Ao
Deyvidson e à Karoline, ao Wanderson e à Meryvanda, primos queridos. À tia Eunice, uma
mãe pra mim. À minha tia paterna Francisca Vanderlene, por tudo.
Aos amigos do Instituto Farina, minha segunda escola e meu segundo lar. Agradeço à
professora Nadja, responsável por Língua Portuguesa na 5ª série. Sem a nota 4.0 que ela me
deu em uma de suas avaliações, talvez (um talvez carregado de muita certeza), não teria me
apaixonado por língua portuguesa e, depois, por Literatura, no desejo de superar a anterior
deficiência na matéria. Aliás, um agradecimento caloroso ao professor Abílio Diniz pelos
verdadeiros passeios pelo que de melhor há em nossa literatura, quando da 7ª e 8ª séries.
Muito mais do que a palavra pode expressar, um imenso muito obrigado.
Aos amigos do Colégio Santa Teresa – alguns muitos, sequência da amizade construída no
Farina –, que também foi (e continua sendo) um lar para mim. Foi ali o espaço onde vivi
grandes experiências, algumas das quais responsáveis pela operação de metamorfoses
fundamentais para a minha formação ética. Não posso deixar de citar alguns nomes: Pollyana
Bastos (com quem tenho uma linda amizade que já atravessa década), Mariana Dias (amiga de
década por quem tenho muita admiração e enorme gratidão), Bruno Nunes (cuja lealdade
nunca perde, em mim, seu encanto), Ana Cláudia (a quem sempre admirei), Danielle
Machado (que me encanta ainda hoje pela inteligência firme e por seu caráter), Rebeca (cuja
maneira de ser me fascina), Ana Rosa (com quem aprendi a delícia que é abraçar diariamente
a quem se ama), Thiago Abreu (que também me ensinou que abraçar a quem se ama faz bem),
João Gabriel, Fernando Lobato e Paulo Mendes (por terem sido um marco divisor em minha
vida). Ilkelyne, Thainá Pacheco, Larissa Fernandes, Ingrid Sousa, Marx Wang, enfim, a toda
minha amada Turma 12/22/32 do Colégio Santa Teresa, o maior obrigado do mundo.
Ainda do Colégio Santa Teresa, agradeço imensamente os funcionários da coordenação
pedagógica: à Dulce Irene, por ter sido a melhor coordenadora que eu já tive em toda minha
vida escolar; pelo apoio dado sempre que precisava, pela injeção de ânimo quando parecia
que nada fazia sentido, mas, sobretudo, pelos puxões de orelha necessários. À querida
Raimundinha, apoio pedagógico e amiga incomparável. À Paula, aos funcionários da
biblioteca, obrigado. À Socorro Marinho, cujas aulas, sempre muito literárias, fortaleceram
minha inclinação para a área de Letras. Às professoras Analete Telles e Josenilde Cidreira,
ambas de Literatura, responsáveis por fortalecer minha inclinação para a Letras, em particular,
a Literatura. À Josenilde, sobretudo, por me fazer gostar do Modernismo português e de
Fernando Pessoa. Não há obrigado para agradecer propriamente a dimensão desse
aprendizado. Ao professor Uilton Mota, por ter sido o melhor professor de Filosofia que já
tive. À Maura Regina Brandão, que figura, até hoje, como a melhor professora de português
que já tive. Obrigado pelos desafios impostos, pela confiança e amizade.
Aos amigos da turma de Filosofia do 1o semestre de 2010: Deysielle Chagas, Rafael Sousa,
Aurélio Ramalho, Priscilla Oliveira, Wilson Viana, Marco Aurélio, dentre tantos outros com
os quais ainda hoje mantenho contato e grata amizade. Muito obrigado.
Aos amigos da turma de Letras do 2o semestre de 2010. Destaco a presença de Camilla
Maramaldo (Maumau), cuja companhia e amizade me são motivo de orgulho desde o
primeiro dia de aula na Letras. À Gabriela A. Maruyama, pela amizade linda que construímos
e porque, através dela, conheci o Marcos Lamy (namorado dela) – a quem também agradeço,
o Paulo, o Renan, o Mateusinho, Hermes e a Aline, pessoas super queridas. À Amanda
Oliveira, ao Nilson Filho, à Viviane Simões, ao Mario Queiroz, à Jaqueline, à Flávia Serra,
Dannielen, Juliana, Camila Tavares, Flávia Regina, Flávia Araújo, e aos demais, obrigado
pela convivência agradável ao longo de 4 anos. À Vanessa Barros, que agora cursa Letras na
UFMG, agradeço pelas conversas sempre muito inteligentes e, ao nosso modo, engraçadas.
Ainda da UFMA, um agradecimento imenso à Renata Ribeiro, minha veterana, amiga,
companheira de Twitter, de grupo de pesquisa, de paixão pela Literatura (Portuguesa) e sua
relação com a Filosofia, muito obrigado por tudo. Ao Claudemir Sousa, pela imensidão de
aprendizados de vida e da Academia que ele me proporcionou. À Vanessa Soeiro, à Alana
Barbosa (Penny) e à Ludmila Gratz, pela grata amizade dos últimos anos e por ter conhecido,
através dela, a Stéffani e Fernanda, a quem agradeço a força e a torcida para que eu
construísse a monografia. Ao Tammys, à Mizraim e o pessoal do NCL. E à Janete Serra, pelos
livros emprestados, pelos ensinamentos e pela amizade.
À professora Márcia Manir, pela generosidade e firmeza com que me orienta desde a
Iniciação Científica, do que, aliás, esta monografia é fruto. Sobretudo, obrigado pela
preocupação e cuidado comigo ao longo dessa peregrinação nem sempre sancta pelas Letras.
Ao professor Dino Cavalcante, por ter me feito ver a Literatura Maranhense melhor. À
professora Maura Melo, pelos valiosos ensinamentos sobre poesia e filosofia e pela paixão
compartilhada por Jorge Luis Borges. À professora Conceição Ramos, por ter me feito ver
aquilo que não enxergava, apesar da obviedade, que Literatura é língua. À professora Lucyana
Brilhante, cujo espírito e dedicação à Literatura Inglesa me fascinam. Por fim, à querida Dona
Conceição, por ser a melhor secretária de curso e por ser um dos seres humanos mais incríveis
que conheço. Imenso obrigado a todos vocês.
À poesia de Jorge de Sena, cuja densidade me fascinou desde o primeiro contato e que
constitui força motora de realização desta pesquisa. Ao Jorge de Sena, obrigado por seu
testemunho poético.
A todos os demais que contribuíram para a realização desta monografia, obrigado.
AVISO DE PORTA DE LIVRARIA
De amor e de poesia e de ter pátria
Aqui se trata: e que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.
Jorge de Sena
RESUMO
Análise da obra Peregrinatio ad loca infecta (1969), do poeta português contemporâneo Jorge
de Sena, sob o viés da Geografia Humanista Cultural, vertente de estudos da Geografia
clássica cuja espinha central de fundamentação passa pela obrigatória ideia de inserção do
elemento humano (o homem) na paisagem que o envolve para daí estabelecer as relações,
múltiplas e plurissignificativas, que com ela desenvolve; uma vertente de forte caráter
fenomenológico, portanto. O processo de análise que empreendemos, ao longo das linhas que
seguem, passa também pela consideração da experiência do exílio, o afastamento involuntário
da terra natal, na medida em que configura importante tópico que perpassa as atitudes, os
valores e mesmo a percepção do poeta português em relação à sua pátria, Portugal, e aos
espaços de exílio pelos quais peregrinou, em sequência cronológica: Brasil (1959-1965) e
Estados Unidos da América (1965-1978).
Palavras-chave: Poesia portuguesa. Jorge de Sena. Exílio. Paisagem. Geografia Humanista
Cultural.
ABSTRACT
Analysis of Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), work written by the Portuguese
contemporary poet Jorge de Sena, by the light of Cultural Humanistic Geography, a new area
of geographical studies whose principal aim was to reexamine the classical themes of
Geography science according to some postulates from Phenomenology philosophy. This
process has as consequence the immediate insertion of the subject perspective (human being)
inside study of their surrounding landscape, so that the geographer would be able to study the
multiple relationship men develop with the nature, landscape and, of course, with space and
place. This new area of studies has a strong phenomenological character, as we can perceive.
Our analysis procedure besides the treatment of landscape, and its perception by the “voice”
of the poem (Jorge de Sena himself), also consists into an analysis of the experience of exile,
that is perceived throughout the whole construction of the poems from Peregrinatio. The
theme of men found in exile, in a distant land far from his own turns out to be an important
one, as it appears to us as something that influences immensely the poet’s perception and his
vision of his own country, Portugal, and the perception of the spaces of exile he lived in, such
as: Brazil (1959-1965) and United States of America (1965-1978).
Keywords: Portuguese Poetry. Jorge de Sena. Exile. Landscape. Cultural Humanistic
Geography.
SUMÁRIO
1.
INTRODUÇÃO .................................................................................................... 11
2.
LITERATURA E PAISAGEM: PERCURSO HISTÓRICO ..................................... 17
2.1
DO CARTESIANISMO À EPOCHÉ FENOMENOLÓGICA ................... 17
2.2
GEOGRAFIA HUMANISTA CULTURAL: A IDEIA DE PAISAGEM ............ 21
3
PAISAGENS DE EXÍLIO: O CASO DA LITERATURA PORTUGUESA .................. 28
4
JORGE DE SENA ................................................................................................ 33
4.1
ESPAÇOS DE EXÍLIO: INTERCURSO BIOGRÁFICO ........................................ 33
4.2 A POÉTICA DO TESTEMUNHO: DO VER O MUNDO À VISÃO DE MUNDO ...... 39
5
ACERCA DE EXÍLIOS NA POESIA SENIANA ............................................ 46
5.1 ESPAÇOS DE PORTUGAL (1950-59): PRIMEIRO EXÍLIO ................................. 46
5.2 ESPAÇOS DE BRASIL (1959-65): SEGUNDO EXÍLIO ......................................... 56
5.3 ESPAÇOS DOS E.U.A. (1965-69): EXÍLIO DERRADEIRO .................................... 70
6
CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 79
REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 86
ANEXOS ................................................................................................................ 89
11
1
INTRODUÇÃO
Ao trabalho que ora segue, demos o nome de “Figurações da Terra natal
na poesia de exílio de Jorge de Sena”, o que evidencia pelo menos dois aspectos
direcionais sobre aquilo que se vai encontrar no texto, em termos de análise: 1) há uma
peregrinação de exílios efetuada por Jorge de Sena – poeta português nascido em 1919,
em Lisboa, e falecido em 1978, em Santa Bárbara (Califórnia), seu último e derradeiro
exílio –, a começar por seu exílio interno, no próprio Portugal, a quem simultaneamente
amou e odiou com iguais forças, como será adiante explicado; e que 2) se há uma
peregrinação de exílios, o sujeito, biográfico e poético, percorreu diversos lugares,
perscrutou inúmeras paisagens, enfim, testemunhou este mundo infecto e dele escreveu
testemunhos em poesia, porque só o testemunho é capaz de operar metamorfoses.
Talvez, então, melhor seria falar de exílios na poesia seniana, porque nunca
houve somente um, e mesmo no interior de sua pátria o poeta já se sentia exilado. De
fato, Sena muito pouco viveu a liberdade plena em Portugal. Em 1933, é implantado o
Estado Novo português, cuja figura central foi António de Oliveira Salazar – daí o
regime também ter recebido o nome de salazarismo –, estado que se caracterizaria pela
dura repressão das liberdades individuais, severo conservadorismo e autoritarismo no
tratamento das questões políticas e de outra ordem, censura1 de obras e do pensamento
livre, enfim, um estado altamente centralizador e ditatorial que levou milhares de
portugueses à partida para o exílio, dentre os quais Jorge de Sena que, apenas em 1974,
veria a cor da liberdade raiar novamente em solo português.
E já que é de espaços de exílios que esta pesquisa trata, começamos por
dizer que a peregrinação de Sena, fora Portugal, começa com seu exílio para o Brasil
(1959-65). O poeta chega a 7 de agosto no Recife, de onde segue para a Bahia, a fim de
participar do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (10 a 21 de
agosto), na Universidade da Bahia, para o qual havia sido convidado. Dado que sua
situação em Portugal se afigurava bastante complicada, devido a sua participação na
tentativa de golpe antissalazarista, o Golpe da Sé, que fracassou e expôs muita gente,
1
Jorge de Sena teve a publicação de As Evidências (1955), livro seu, censurada por algum tempo,
porque, de acordo com a PIDE, polícia salazarista e órgão responsável pela repressão e censura, o
livro era subversivo e pornográfico. Durante os interrogatórios, Sena negou essas duas dimensões da
obra, ao que, findado o regime salazarista, os admitiu de pronto.
12
Sena decide por ficar aqui no Brasil, para onde, poucos meses depois, vem toda sua
família. Seu segundo exílio se dá com a instauração do regime militar no Brasil:
temendo viver as mesmas experiências que vivera em Portugal, o poeta aceita ir para os
Estados Unidos, onde irá lecionar na University of Wisconsin como professor visitante
e, depois, na University of California, Santa Barbara (UCSB). Estados Unidos é, pois,
seu segundo exílio (ou terceiro, se levarmos em conta seu exílio interior, já no Portugal
distante de si), que vai de 1965 até 1978, ano de sua morte.
Os exílios de que brevemente falamos acima não são citados aleatoriamente,
porque cumprem papel essencial na poesia de Jorge de Sena, uma poesia que se constrói
pela circunstancialidade específica de ser o degredo, o exílio, seu fio condutor e, mais:
seu princípio formador. Eis o que nos diz o próprio Sena no prefácio de Poesia-III,
coletânea na qual se encontra a vasta produção poética dos exílios senianos e ao qual
chama ironicamente de “Isto não é um prefácio”: “Toda a poesia é circunstancial; e a
específica circunstacialidade dela será precisamente o que contribui para a particular
unidade desta Peregrinatio.” (SENA, 1969, p. 22)
Em Peregrinatio Ad Loca Infecta2, obra sobre a qual lançamos nosso olhar,
a fim de que observemos as relações do sujeito poético, que se confunde em
metamorfoses com o próprio sujeito biográfico, com os espaços de exílios por quais
percorreu, a circunstancialidade dos poemas se funde a uma das características centrais
da poética seniana: o testemunho. Em linhas gerais, para que não antecipemos a
temática, há certo consenso entre os estudiosos da obra de Jorge de Sena no que se
refere às suas linhas de força, três ao todo, quais sejam: testemunho, peregrinação e
metamorfose. O poeta peregrina por espaços diversos e, a partir daquilo que vê e ouve
(os sentidos têm, pois, função essencial para o poeta), é capaz e tem a obrigação ética de
testemunhar o mundo visto, para que daí seja operada a metamorfose deste mundo
infecto em que vivemos.
O testemunho se configura num compromisso ético e estético do poeta com
o mundo, porque não haveria possibilidade, em Sena, de essas duas dimensões estarem
2
Os poemas utilizados nesta pesquisa fazem parte do projeto de publicação da obra poética de Jorge de
Sena, empreendido pela Moraes Editores (Lisboa), na coleção Circulo de Poesia. Publicaram-se,
portanto, Poesia-I (Perseguição, Coroa da Terra, Pedra Filosofal, As Evidências, e o volume inédito
Post-Scriptum) de 1961 (2ª edição em 1977), Poesia-II (Fidelidade, Metamorfoses, Arte de Música)
de 1978 e Poesia-III (Peregrinatio ad Loca Infecta, Exorcismos, Camões dirige-se aos seus
contemporâneos, Conheço o Sal...e outros Poemas, Sobre esta Praia) de 1978 e Poesia-IV, com
poemas dispersos e inéditos.
13
apartadas uma da outra. Ao tecer seu testemunho, o poeta acaba por se distanciar da
poética do fingimento, explorada em sua maior grandeza por Fernando Pessoa, e das
demais poéticas e vertentes de escrita que se afiguravam no período de meados da
década de 50, em Portugal: o Surrealismo e o Neorrealismo. A poética do testemunho
não é a forma apriorística de tessitura de poemas; configura-se, antes, em exercício
poético que se verifica na essência dos primeiros poemas de Sena e é a ela que nos
interessa referenciar. Um testemunho realizado por meio da atuação viva dos sentidos
humanos relacionados ao “ver” e ao “ouvir”, o que implica um distanciamento
estratégico do objeto, mas não sua separação radical dele, ao que lembramos os versos
que ecoam em “Entre-Distância”, poema de Fidelidade (1958):
Entre-Distância
“De mim a ti eu ouço-te e convivo,
e dás-me o que és e eu perco e não conheço
enquanto mo não tires e não sejas
no dia a dia em que te perdes sendo.
A tua voz tão clara, as tuas mãos tão certas,
só de as lembrar são outras, como tu,
[...]
A uma distância infinda estamos, pois, tão perto,
[...]”
(SENA, 1978, p. 28)
Então, a poética do testemunho é também a poética do conhecer, porque
“ver” e “ouvir” fazem parte da percepção humana: através dos sentidos, conhecemos o
mundo e organizamos as experiências que influenciam em nossa visão de mundo e, na
de Sena, largamente. Ainda que a organização de uma visão de mundo como a de Jorge
de Sena pressuponha o distanciamento do objeto, isso se dá apenas para que o poeta
consiga melhor testemunhar o mundo vivido por que percorre, mesmo ideal que circula
no campo de significações dos versos finais do poema acima, quando o eu-lírico diz
que, se “A uma distância infida estamos”, onde a variação do verbo “estar”, “estamos”,
parece referir-se à situação geográfica em que se encontra o “sujeito” e o “objeto” da
experiência, é, porque “tão perto” estamos.
É a partir de Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), extenso roteiro
testamentário dos exílios do poeta, aquele que, por isso mesmo, é “quem muito viu e
viveu”, que esta pesquisa pretende se desenvolver. Jorge de Sena é um homem de
contrários, que o atraem muito mais que os maniqueísmos fáceis. Esta característica fica
14
evidente no exame de sua obra, sobretudo a que fora elaborada no período de seus
exílios, e permite-nos identificar que os contrários também são verificados na relação
que o eu-lírico, ou o Sena-ele mesmo, mantém com sua pátria, o distante Portugal: se,
numa via, há uma reconhecida afetividade, uma relação de topofilia entre o sujeito lírico
e o lugar natal, na contramão, há toda uma sensível tensão, alimentada pela dor do exílio
e pelo fato de não ser querido em sua própria pátria.
Ao reconhecermos a existência da tensão acima mencionada, centramos
nossos objetivos de estudo na investigação da relação geográfica, no que se refere à
ligação íntima sujeito-espaço, que o eu-lírico/Jorge de Sena mantém com o espaço natal
(Portugal) e, eventualmente, como se dá sua relação de pertença com o Brasil, primeiro
exílio, e os Estados Unidos, segundo e derradeiro exílio. Relação esta atravessada pela
experiência do degredo, sobre o qual recorreremos às reflexões argutas de Edward Said
(2003) para melhor entendê-lo. Nesse sentido, é reconhecida a importância das
reflexões promovidas nas últimas décadas pela Geografia Humanista Cultural, viés dos
estudos geográficos que valoriza o elemento homem (e a sua cultura) para a
compreensão da realidade geográfica, aqui concentradas na figura do geógrafo sinoamericano Yi-Fu Tuan (2012; 2013), bem como a importância de postulados de ordem
da Fenomenologia.
Desse modo, o trabalho que ora desenvolvemos é composto por cinco
capítulos, à parte a Introdução que o abre. Ficam as devidas observações introdutórias
acerca de cada um deles, para que, a partir daqui, o leitor tenha uma visão ainda mais
cristalina de nosso objeto de pesquisa, bem como do percurso metodológico e teórico
percorrido. Então, ao capítulo 2 - “LITERATURA E PAISAGEM: percurso histórico”,
imediatamente posterior à “Introdução”, cabe o tracejo sucinto da história de inserção
do viés fenomenológico, concepção de Husserl, nos estudos da Geografia, o que levou
ao surgimento da Geografia Humana e da Cultural, ambos vieses com preocupações
distintas, e, posteriormente, a própria Geografia Humanista Cultural (GHC). Ainda, este
capítulo subdivide-se em outros dois, que dão conta da ideia de “fenomenologia” nos
estudos geográficos e literários, alinhando-se à abordagem de análise que
empreendemos.
Partindo da ideia de “paisagem”, que ganha nova roupagem interpretativa
com abordagem humana da Geografia Humanista Cultural, o capítulo 3, “PAISAGENS
15
DE EXÍLIO: o caso da literatura portuguesa”, estabelece sua importância na construção
de um itinerário de exílios na literatura portuguesa, ou mesmo peregrinação, que parece
ter sido desde sempre a condição de existência do povo português. Dos trovadores
medievais que choravam, em suas trovas, a partida do ser amado(a), que partia para
além-mar em busca de novas terras para o reino português, aos exilados
contemporâneos, grupo no qual inserimos Jorge de Sena, há séculos de história, no
sentido de acontecimento, e mesmo enquanto fábula tecida pela verossimilhança, de
onde não escapam um Camões, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Pessoa e o
próprio Jorge de Sena.
Na esteira da História, enquanto sucessão de fatos e acontecimentos, e do
panorama de escritores e poetas portugueses que escreveram sobre o exílio, chegamos
ao próprio Jorge de Sena, quando, no capítulo 4, que leva seu nome, “JORGE DE
SENA”, expomos a biografia do poeta a partir de seus próprios poemas. Através da nota
autobiográfica que consta do “Prefácio À Segunda Edição” de Poesia-I (1977),
selecionamos, de uma larga produção poética, os poemas que melhor pudessem
descrever o poeta humano, sensível, favorável às liberdades individuais e a todas as
formas de amor, o marido amável, pai generoso e profissional exemplar que Sena fora
por toda a vida. Tudo isso se encontra no subcapítulo 4.1, “Espaços de exílio: intercurso
biográfico”, posto que o subcapítulo 4.2 seja dedicado à exposição da visão poética de
Sena, estruturada a partir da ideia transformadora do testemunho.
O capítulo 5, “DE EXÍLIOS NA POESIA SENIANA”, é dedicado
propriamente à análise da poesia de exílio de Jorge de Sena, que pode ser encontrada ao
longo de todas as três obras que compõem a coletânea Poesia-III (1978), Peregrinatio
ad loca infecta (1969), Exorcismos (1972), Camões dirigi-se aos seus contemporâneos
(1973), Conheço o sal... e outros poemas (1974) e Sobre esta praia (1977). Pela
dimensão deste trabalho, a seleção diz repeito apenas a poemas de Peregrinatio.
Seccionado em outros três subcapítulos, a ideia é que cada um deles represente
adequadamente, a partir da árdua seleção de poemas empreendida por nós, as visões da
Terra (natal) perpassadas pela experiência do exílio – daí receberem o nome de
Portugal, Brasil e Estados Unidos da América. A análise é construída a partir de um
olhar fenomenológico que busca não desembocar irremediavelmente na análise
fenomenológica clássica e recorre, igualmente, aos conceitos da GHC para melhor
16
compreensão dos valores e atitudes de que o poeta se vale para a transmissão da
experiência vivida por meio do testemunho.
Concluídas as análises, o capítulo 6 é dedicado às considerações finais do
trabalho, espaço onde arrematamos as ideias gerais desenvolvidas ao longo destas tantas
páginas, junto de um possível fecho para a compreensão do espaço de Portugal na vida
de Jorge de Sena. Para além, seguem anexos quatro textos de grande importância para a
compreensão teórica da poesia seniana, textos escritos pelo próprio Sena, notadamente:
o “Prefácio da primeira edição” e o “Prefácio à segunda edição”, ambos de Poesia-I
(1977), “Isto não é um Prefácio”, prefácio de introdução à Peregrinatio, que consta de
Poesia-III (1978) e a transcrição do poema “Carta aos meus filhos sobre os
fuzilamentos de Goya”, poema de 1959 e que consta da coletânea Poesia-II (1978).
17
2 LITERATURA E PAISAGEM: PERCURSO HISTÓRICO
2.1 DO CARTESIANISMO À EPOCHÉ FENOMENOLÓGICA
Edward Said (2003), crítico da corrente pós-colonialista, caracteriza parte da
moderna cultura ocidental como sendo a obra de exilados, emigrantes e refugiados,
posto que seja enorme a produção intelectual do período feita por desterrados de toda
natureza. De fato, o exílio, quando o entendemos como a prática do banimento de
sujeitos, feito por outros sujeitos, de um espaço geográfico que modernamente
chamamos pátria, é característica marcante das sociedades ocidentais desde tempos bem
remotos. Entretanto, parece que o século passado tem dados interessantes a fornecer no
que se refere aos estudos de seres humanos que foram compelidos ao abandono sumário
de sua terra natal e de suas experiências de fratura e dor. Parece-nos, pois, que os
processos históricos que aquele período vivenciou muito nos têm a oferecer para
entendermos os motivos da caracterização da moderna cultura ocidental.
Deste modo, do ponto de vista da história, é impossível não citarmos o
período de ocorrência das duas Grandes Guerras Mundiais, que levaram países diversos
do globo terrestre a se alinharem em conflitos longos, morosos e, sobretudo, sangrentos.
Ambas, responsáveis por intensas mudanças e reajustes nas estruturas econômicosociais e políticas do período. Não muito antes das duas guerras, os processos que
levaram à formação de estados modernos, com o conceito de nação e pátria atrelados a
eles, insuflam, de modo evidente, os conflitos que se formariam posteriormente.
O resultado das duas grandes guerras pode ser sentido de diversas maneiras
em cada um dos países que delas participaram: para que não nos alonguemos, fica claro
o levante do regime nazista na Alemanha do período pós-Primeira Guerra Mundial.
Governado por Adolf Hitler, notável defensor da supremacia ariana, o estado alemão,
que se encontrava moral e militarmente humilhado pela derrota sofrida anos antes em
batalha contra a França, instaura um regime altamente totalitarista 3 (basta que
3
Tzvetan Todorov, em seu O Homem Desenraizado, livro como que autobiografia, reflete sobre a sua
condição de sujeito exilado, por vontade própria (ainda que essa especificidade, “vontade própria”,
seja bastante questionável), de seu país natal (Bulgária) e que passa a viver permanentemente na
França, país que adota como lar, casa. A reflexão sobre o fenômeno do desenraizamento é importante
para pensar a ideia de totalitarismo, também abordada na obra em tela, e sobre o qual, nos fala
18
observemos o trabalho realizado com a ideologia alemã e a difusão do mito da
superioridade de algumas raças, a ariana como uma delas sobre as demais, o que levou
ao extermínio de milhares de judeus e outros setores da população alemã do período, ao
que ficou conhecido historicamente como holocausto), que, em sua última
consequência, aliada ao acontecimento de outros fatores, levou à ocorrência da Segunda
Grande Guerra.
Os eventos listados acima não passam despercebidos no curso da ciência e
da filosofia, e nem mesmo no desenvolvimento das vanguardas poéticas e do próprio
Modernismo que se desenvolve no século XX. Do ponto de vista histórico, são eventos
que vão marcar a grande fragmentação do homem moderno, tão bem poetizada por
Fernando Pessoa que, com sua poética do fingimento4, haveria de mostrar as diversas
virtualidades possíveis no ser do sujeito moderno; daí a constelação de heterônimos que
criou, dentre os mais destacados, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o
próprio Pessoa-ortônimo. A ciência e a filosofia do início do século vão experimentar
uma guinada radical nos modos de sua realização, a partir do empreendimento da
ruptura do pensamento moderno com a visão de mundo cartesiana, que prevaleceu por
longos séculos e ainda hoje lança focos de influência no modo de pensar dos sujeitos.
Tal ruptura (ou seu início) receberá o nome de Fenomenologia, a ciência dos
fenômenos, empreendida pelo filósofo alemão Edmund Husserl no início do século XX.
Diferentemente do que propunha a tradição filosófica ocidental calcada em
Hobbes, Locke e Descartes, e que perdurou no pensamento por mais de 300 anos,
acerca da separabilidade entre sujeito e objeto (intencionado) – uma vez que o sujeito só
tem a consciência de si mesmo, não dos objetos sobre os quais infere e descreve,
“predicamento egocêntrico” –, a fenomenologia entende que sujeito e objeto
4
Todorov: “Três grandes características do regime [totalitarista] apresentam-se ao olhar de quem
procure analisá-lo: 1) ele afirma ter uma ideologia; 2) usa o terror para orientar a conduta da
população; e 3) a regra geral de vida é a defesa do interesse particular e o reinado ilimitado da vontade
do poder.” (TODOROV, 1999, p. 33/34). Parece-nos que esses três caracteres movem o estado alemão
comandado por Hitler e, por isso, como totalitarista o identificamos.
Jorge de Sena teve em Camões e Fernando Pessoa dois grandes objetos de estudos: o primeiro o
acompanharia por toda a carreira (literária e docente); sobre o segundo, eis o que ele nos diz acerca da
poética do fingimento: “É certo que o «fingimento» dele [de Fernando Pessoa] não é, por forma
alguma, uma arte de iludir, mas antes a acentuação muito justa, exposta por uma individualidade
eminentemente analítica, de que as virtualidades que contemos são mais que o continente, e de que a
actividade poética sobreleva o que precariamente a cada instante nos dispomos ser.” (SENA, 1977, p.
25)
19
(intencionado) são partes integrantes de uma mesma experiência, que se dá na vida em
ação, “mundo vivido”, porque a relação sujeito-objeto (intencionado) é sempre pautada
na intencionalidade, “[...] o ensinamento de que cada ato de consciência que nós
realizamos, cada experiência que nós temos, é intencional: é essencialmente
‘consciência de’ ou uma ‘experiência de’ algo ou de outrem.” (SOKOLOWSKI, 2010,
p.17).
A fenomenologia centra seu interesse na experiência humana, nos modos
pelos quais os sujeitos veem e apreendem os fenômenos que lhes aparecem à
consciência, “[...] tenta restabelecer o sentido da filosofia encontrado em Platão. É, além
disso, [...] algo que confronta as questões levantadas pelo pensamento moderno.”
(SOKOLOWSKI, p. 10) E, justo por isso, é considerada a ciência das ciências, porque
não pertencente a um campo exclusivo e fechado do conhecimento.
Husserl, ao questionar e rejeitar o pensamento moderno em crise,
estabelece, como nos indica Eagleton (1996), que, se os fenômenos não são atingíveis a
nós, sujeitos, por meio da experiência ou de qualquer outro modo, como largamente nos
ensinou a tradição cartesiana, então, pelo menos, temos certeza do modo como eles se
nos aparecem à consciência:
Embora não possamos ter certeza da existência independente das coisas, diz
Husserl, podemos estar certos da maneira pela qual as vemos de imediato na
consciência, quer seja ilusória a coisa real que estamos vendo ou não. Os
objetos podem ser considerados não como coisas em si, mas como coisas
postuladas, ou “pretendidas”, pela consciência. Toda consciência é
consciência de alguma coisa. O ato de pensar e o objeto do pensamento estão
internamente relacionados, são mutuamente dependentes. (EAGLETON,
2003, p. 76)
Toda a consciência é consciência de algo ou alguma coisa, nos ensina um
dos postulados mais difundidos da fenomenologia husserliana, exposto nas linhas finais
da citação acima. Essa fórmula, de aparente fácil compreensão, revela muito sobre as
linhas de força que vão orientar os estudos fenomenológicos que Husserl irá
desenvolver, bem como seus diversos discípulos, dentre os quais, Merleau-Ponty e
Bachelard, e mesmo estudiosos de outros campos, como haveria de ocorrer com Eric
Dardel (2011), pioneiro nos estudos geográficos a usar conhecimentos de
fenomenologia na análise dos temas ligados à Terra. Dissemos, pois, que é de aparente
fácil compreensão (sem nenhum trocadilho com as aparências dos fenômenos
20
mencionados, ou não), porque o que o postulado revela é a relação de inseparabilidade
entre o sujeito apreendedor e o objeto apreendido.
Ora, se sujeito e objeto são inseparáveis, no plano da experiência e do
conhecimento, não passa mais a fazer sentido para os estudos em filosofia o caminho da
intensa subjetividade ao qual ela estava relegada. Muito menos sentido fará, para as
ciências que na fenomenologia irão se inspirar a fim de reverem a si mesmas, a
consideração dos temas que a elas competem sem a consideração dos sujeitos que os
percebem. Isso aparece de modo claro no percurso da Geografia que, assim como as
demais ciências do início do século XX, pautava suas atividades num cientificismo
rígido e cartesiano, responsável pela exclusão do homem na reflexão dos temas que lhe
competia.
Cumpre ainda mencionarmos que a Fenomenologia, dada sua dimensão de
ser “ciência das ciências”, porque trata dos modos pelos quais os fenômenos aparecem à
consciência dos sujeitos apreendedores, portanto, da experiência em si, iria também
influenciar os estudos literários, através do que ficou conhecido como crítica
fenomenológica, algo que, a partir da leitura de Eagleton (1996), se constituiria como
aplicação direta dos métodos e postulados da ciência dos fenômenos ao estudo do texto
literário, o que implica dizer que ao crítico cabe a atitude fenomenológica de
desnudamento de quaisquer informações referentes ao autor da obra, sua recepção por
parte dos leitores, e mesmo as condições de produção, enfim, conhecimentos que
impeçam a realização de uma crítica imanente da obra literária, a grande proposta desta
corrente:
Como acontece no isolamento do objeto real feito por Husserl, o contexto
histórico concreto da obra literária, seu autor, as condições de produção e a
leitura são ignorados. A crítica fenomenológica visa a uma leitura totalmente
“imanente” do texto, absolutamente imune a qualquer coisa for a dele. O
próprio texto é reduzido a uma pura materialização da consciência do autor:
todos os seus aspectos estilísticos e semânticos são percebidos como partes
orgânicas de um todo complexo, do qual a essência unificadora é a mente do
autor. Para conhecê-la, não devemos nos referir a nada que sabemos sobre o
autor – a crítica biográfica é proibida – mas tão somente aos aspectos de sua
consciência que se manifestam na obra em si. (EAGLETON, 2003, p. 81)
A leitura que empreendemos da poesia de exílio de Jorge de Sena, apesar de
recorrer em muitas ocasiões a reflexões propriamente fenomenológicas – e aqui mesmo
parece-nos haver um alinhamento entre o objeto de estudo, a poesia seniana, e o
21
método, na medida em que o próprio Sena demonstra, tanto na escritura de poemas
como na escritura crítica e ensaísta, enorme apreço pela concepção fenomenológica de
mundo empreendida por Husserl e demais estudiosos –, não nos parece ser
essencialmente fenomenológica, porque, se o exílio é circunstância e princípio formador
de Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), ainda que ali vislumbremos a figura do sujeito
lírico, sujeito que difere do autor, este mantém um laço de união com o sujeito
biográfico, sendo, então, de larga importância o exame da biografia do poeta para a
compreensão que se pretende dos poemas estudados.
Dito isto, passemos agora ao exame do processo de construção da Geografia
Humanista Cultural, bem como da inserção de parte do método fenomenológico no
estudo dos temas que competem à Geografia.
2.2 GEOGRAFIA HUMANISTA CULTURAL: A IDEIA DE PAISAGEM
A inclusão do homem/sujeito no tratamento dos temas geográficos, uma
clara e assumida influência da Fenomenologia, é responsável pelo surgimento de vieses
outros no campo dos estudos geográficos, quais sejam: a Geografia Humanista,
Geografia Cultural, e a posterior Humanista Cultural, que assumem a tarefa de revisar
os temas pertencentes essencialmente ao domínio da Geografia a partir do elemento
humano e do elemento cultura; não no sentido de buscar explicações e justificativas nos
dois elementos mencionados, mas de entender que ambos exercem influências no
funcionamento e estruturação do espaço que habitamos e que, portanto, merecem papel
de relevância.
Dessa maneira, cumpre agora que, além do repertório tradicional dos
estudos literários, resgatemos em específico as reflexões da Geografia de viés humanista
cultural e da filosofia moderna, sob a ótica da fenomenologia, cujo método fora
parcialmente incorporado ao novo modelo de análise dos temas geográficos
empreendidos por este novo viés de observação da geografia: a dicotomia espaço/lugar
e a noção de paisagem são, portanto, conceitos que muito frequentarão nosso trabalho,
no exercício de investigação e análise dos sentimentos de afetividade pelo lugar
22
(topofilia), tensão/conflito e a experiência do exílio que se verificam na tessitura de
Peregrinatio ad Loca Infecta.
Daí a importância do resgate histórico que agora faremos: a geografia do
início do século XX erigiu suas bases no pensamento cartesiano (século XVII). É a
partir da inquietação de um grupo de geógrafos, desejosos de um método de análise dos
dados geográficos que pudesse unir a percepção objetiva da realidade ao dado subjetivo,
o homem, que surge a Geografia Cultural e, posteriormente, a Humanista; atitude esta
certamente provocada pela leitura de escritos ligados à fenomenologia, que rompe com
o paradigma cartesiano ao efetuar o enlace sujeito-objeto no plano da experiência
vivida. Tratava-se, portanto, de uma ampliação do pensamento cartesiano através do
humanismo, uma tentativa de análise das ações e produtos da espécie humana a partir de
uma visão que incorpora os estudos das humanidades na leitura abrangente de temas
geográficos (TUAN apud HOLZER, 2008).
A influência do pensamento humanista, em outros termos: “[...] a idéia de
uma disciplina centrada no estudo da ação e da imaginação humanas e na análise
objetiva e subjetiva de seus produtos [...]” (HOLZER, 2008, p. 137), já se fazia presente
na reflexão científica desde a década de 20 do século XX, momento decisivo para o
desenvolvimento de perspectivas variadas dos estudos geográficos que serão de
fundamental importância não somente para a geografia humanista, mas para qualquer
viés do pensamento geográfico que se propusesse a romper com os preceitos de análise
matemático-cartesiana. O geógrafo Sauer, já em 1925, antecipando-se a toda
efervescência que os estudos humanistas viriam a despertar nos geógrafos e demais
estudiosos anos mais tarde, postulava o estudo das paisagens a partir do aporte
fornecido pela fenomenologia. Pelas palavras de Holzer, assim conhecemos a proposta
de Sauer:
[...] o estudo das paisagens – conceito síntese da geografia – deveria iniciarse com o estabelecimento de um sistema crítico delimitado pela
fenomenologia da paisagem como método de estudo da relação entre o
homem e o ambiente por ele formatado e transformado em habitat, em
paisagem cultural. (SAUER, 1983 apud HOLZER, 2008, p. 137).
Na esteira do pensamento de Sauer, seguirão muitos outros geógrafos
preocupados com o a desvinculação das amarras do cientificismo reinante na década:
John Kirtland Wright que, em 1947, discursaria com grande fervor, conclamando os
23
geógrafos ao estudo do imaginário que povoa a mente humana, alargando, assim, as
possibilidades de alcance da ciência geográfica para além do ambiente acadêmico,
segundo nos conta Holzer (2008). Outro nome de destaque, antes de falarmos da
importância de Yi-Fu Tuan não só para esta pesquisa, mas também para os estudos da
Geografia Humanista Cultural, é David Lowenthal que, na década de 60 do século XX,
revisita a obra de Wright, a fim de renovar a geografia cultural, levemente abalada pelo
avanço da geografia quantitativa/comportamental naquele período.
O reexame da trajetória da Geografia Humanista Cultural, que perpassa
igualmente pelo reexame da Fenomenologia, viés filosófico do qual a GHC é devedora,
não poderia ser feito sem a construção de algumas linhas que tratem da importância do
pensador Eric Dardel para o fortalecimento de uma ideia nova de paisagem, a ser
compreendida dentro do esquema dorsal da ciência fenomenológica. Foi no ano de 1953
que o geógrafo publica O Homem e a Terra: natureza da realidade geográfica (2011),
obra magistral e extremamente profunda dedicada ao estudo das relações que o sujeito
(homem) mantém com a Terra (espaço/paisagem). Esta obra ficou esquecida ao longo
de várias décadas, na medida em que era, à época de sua publicação, algo muito à frente
de seu tempo, como nos faz perceber o prefaciador da edição brasileira, Eduardo
Marandola Jr., publicada muito tardiamente no ano de 2011:
O Homem e a Terra é um típico caso de obra que estava muito à frente de seu
tempo, o que resultou numa longa espera para que seus frutos pudessem
aparecer. Esquecido durante décadas, mesmo na França, onde foi escrito e
publicado (é visto como uma obra fora do contexto universitário geográfico
da época, que por isso não produziu frutos imediatos), o livro, apesar de ter
sido importante no início do projeto humanista da Geografia estadunidense
nos anos de 1960 (há referências explícitas e implícitas nos trabalhos iniciais
de Yi-Fu Tuan, Anne Buttimer e Edward Relph, pelo menos), teve sua
difusão mais contundente com a publicação da tradução italiana em 1986.
(MARANDOLA JR., 2011, p. 11 apud DARDEL, 2011)
Dardel reelabora a concepção de espaço, desmembrando-o em espaços
diversos, para melhor análise desta categoria geográfica. Dessa maneira, o francês há de
abordar o surgimento dos espaços, bem como as representações simbólicas que deles
temos, a partir do postulado fenomenológico de ligação inseparável do homem com a
Terra. O surgimento do espaço material, o espaço aquático, aéreo, o espaço construído e
o próprio espaço geométrico são algumas das figurações do espaço físico de que fala
24
Dardel, também responsável por cunhar o conceito de geograficidade, a própria
condição de existência da realidade geográfica, “[...] suas ligações existenciais com a
Terra, ou se preferirmos, sua geografia original: a Terra como lugar, base e meio de sua
realização.” (DARDEL, 2011, p. 31). Aliás, é a partir do entendimento da Terra como
base de sustentação do sujeito que Dardel depreenderá sua concepção de paisagem, e
que, não por acaso, é a mesma que orienta este trabalho.
Nesse sentido, a paisagem, em Dardel, só pode existir a partir do sujeito que
a percebe, porque se configura em algo muito além de mero espaço a ser contemplado e
observado pelo sentido humano da visão, concepção, aliás, trazida por Michel Collot em
ensaio seu acerca das características da paisagem, a partir de concepções bem
específicas. Collot ressalta que: “Partirei de duas definições da palavra ‘paisagem’,
fornecidas respectivamente pelo dicionário Robert (‘Parte de uma região [pays] que a
natureza apresenta ao olho que a observa) e pelo Littré (‘Extensão de uma região que
se vê sob um único aspecto.’ [...]” (COLLOT, 2012, p. 12) 5 . A paisagem é
essencialmente o “espaço percebido” “[...] que não se limita a receber passivamente os
dados sensoriais, mas os organiza para lhes dar um sentido.” (COLLOT, 2012, p. 11). A
paisagem é, aqui e também em Dardel, uma construção.
A paisagem é a geografia compreendida como o que está em torno do
homem, como ambiente terrestre. Muito mais que uma justaposição de
detalhes pitorescos, a paisagem é um conjunto, uma convergência, um
momento vivido, uma ligação interna, uma “impressão”, que une todos os
elementos. [...] A paisagem se unifica em torno de uma tonalidade afetiva
dominante, perfeitamente válida ainda que refratária a toda redução
puramente científica. (DARDEL, 2011, p. 30/31)
Como ficou claro acima, em Dardel, a paisagem é também construção
mediada pelos sentidos, sobretudo o da visão. Caso não o fosse, ela seria tão somente a
justaposição de detalhes, de imagens e vivências por meio da experiência que se
esvairiam, não fosse a sua dimensão própria de unificar ativamente as duas dimensões
da experiência espacial: o sujeito que percebe a paisagem e o espaço que o circunda.
Posto que o geógrafo busque na fenomenologia a base de construção de seu conceito de
5
Pontos de vista sobre a percepção de paisagens (em francês, “Points de vue sur la perception des
paysagees”, foi originalmente publicado em ROGER, Alain (Dir.). La théorie du paysage em France
(197401995). Seyssel: Champ Vallon, 1995. P. 210-223.
25
geograficidade, é consequência decorrente disso, portanto, o fato de que o sujeito
estabelece com a paisagem uma relação de inseparabilidade, porque “[...] a paisagem
não é, em sua essência, feita para se olhar, mas a inserção do homem no mundo, lugar
de um combate pela vida, manifestação de seu ser com os outros, base de seu ser
social.” (DARDEL, 2011, p. 32). Assim nasce a concepção de paisagem que norteará os
estudos humanistas na Geografia.
No fluxo temporal, o ano de 1961 tem sua importância na história de
desenvolvimento da geografia cultural porque é o momento em que Tuan 6 começa a
advogar em favor de uma “[...] geografia dedicada ao estudo do amor do homem pela
natureza, denominada por ele de topofilia.” (HOLZER, 2008, p. 138) [grifos do autor].
Com isso Tuan redimensiona e dá novo gás para a geografia cultural, que já caminha
para se tornar humanista e, posteriormente, humanista cultural. Tuan, que fora leitor de
Dardel, como nos principia Marandola Jr., tem em sua concepção de topofilia e, por
conseguinte, na de espaço e na de lugar, clara alusão ao geógrafo francês, sobretudo no
tópico concernente à ligação afetiva que o homem nutre pela Terra.
Dito isso, chegamos em 1976, ano de publicação do artigo “Humanistic
Geography”, de Yi-Fu Tuan, no Annals of The Association of American Geographers,
importante veículo de disseminação das novas ideias no campo da Geografia e que tem
sua justa importância enquanto “declaração de independência” da Geografia Humanista
(HOLZER, 2008): é o momento em que esta nova modalidade de se pensar os assuntos
geográficos adquire autonomia frente às demais vertentes da geografia, ao passo que
ancora sua epistemologia nas reflexões de uma fenomenologia do imaginário poético
proposta por Bachelard, para se estabelecer uma vez mais na direção contrária à
tendência positivista ainda dominante nos estudos geográficos daquele período.
Tuan surge como um dos grandes nomes deste novo modo de se pensar e de
se fazer geografia e, a partir das leituras da obra do pensador francês Gaston Bachelard,
evidencia a forte conexão que se estabelece entre o saber geográfico de caráter
humanista cultural e a postura filosófica da fenomenologia. Tuan, portanto, propõe o
6
A importância da obra de Yi-Fu Tuan reside no fato de que ele promove a autonomia da Geografia
Humanista em relação à Geografia Clássica, isto é, com os estudos que empreendeu tanto em
Topofilia (2012) como em Espaço e Lugar (2013), ele funda uma vertente nova de estudos na
Geografia que há de ser ancorada fundamentalmente na Geografia Fenomenológica de Eric Dardel
(2011).
26
estudo da topofilia, o amor do homem pelo lugar. “A geografia se dedicaria ao estudo
das vivências, que se expandem do lar para paisagens mais amplas, da paisagem
humanizada para os cenários mais selvagens.” (HOLZER, 2008, p. 138) Como consta
detalhadamente em Tuan (2012),
A palavra “topofilia” é um neologismo, útil quando pode ser definida em
sentido amplo, incluindo todos os laços afetivos dos seres humanos com o
ambiente material. Estes diferem profundamente em intensidade, sutileza e
modo de expressão. A resposta ao meio ambiente pode ser basicamente
estética: em seguida, pode variar do efêmero prazer que se tem de uma vista,
até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito mais intensa que é
subitamente revelada. (TUAN, 2012, p. 135/6)
A “topofilia” é um elo, uma viva ligação que une o sujeito ao lugar (natal) e
que se relaciona de maneira muito íntima à noção de experiência, na medida em que é a
partir daquilo que ela nos propicia que preenchemos de bons sentimentos ou maus as
memórias e percepções dos lugares/espaços que nos cercam. A percepção de um dado
objeto, de um lugar, é singular a cada indivíduo e, portanto, é única no que se refere à
relação sujeito-objeto. É a partir da percepção íntima que temos do espaço e do lugar
que Tuan dá a partida para as suas reflexões, presentes, de modo especial, em Topofilia:
um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente (1980) e em Espaço e
lugar: a perspectiva da experiência (1983)7, conceituando estas duas categorias como:
“Espaço” e “lugar” são termos familiares que indicam experiências comuns.
Vivemos no espaço [...] O lugar é segurança e o espaço é liberdade: estamos
ligados ao primeiro e desejamos o outro. Não há lugar como o lar [...] Na
experiência, o significado de espaço freqüentemente se funde com o de lugar
[...] As idéias de espaço e lugar não podem ser definidas uma sem a outra.
(TUAN, 1983, p. 11)
São essas as reflexões que sustentarão nosso trabalho com a poesia de Jorge
de Sena. Para o exilado, formam-se duas paisagens: a paisagem do lar distante, da terra
natal, e a paisagem da terra que o “acolhe”. Said nos diz que: “O exílio baseia-se na
existência do amor pela terra natal e nos laços que nos ligam a ela – o que é verdade
7
Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente e Espaço e lugar: a
perspectiva da experiência foram lançadas pela primeira vez nos anos de 1980 e 1983,
respectivamente. Esgotadas por quase 30 anos, as duas ganharam recentemente uma reedição,
responsável por fazer circular mais ainda as reflexões tão valiosas de Tuan. As citações usadas para
esta pesquisa correspondem à edição mais recente.
27
para todo exílio não é a perda da pátria e do amor à pátria, mas que a perda é inerente à
própria existência de ambos.” (SAID, 2003, p. 59). A experiência do exílio, também,
“[...] é um estado de ser descontínuo.” (SAID, 2003, p. 50), que, enquanto o vivencia, é
obrigado a viver por entre-lugares, em uma espécie de “entre-distância”, para tomarmos
de empréstimo o título e também toda a ideia metafórica que se passa nos versos de um
dos mais belos poemas de Jorge de Sena e que se encontra no pequeno livro Fidelidade
(1958). Portanto, de modo interdisciplinar e plural é que se organiza a fundamentação
teórica desta pesquisa.
28
3 PAISAGENS DE EXÍLIO: O CASO DA LITERATURA PORTUGUESA
Dissemos mais acima que o século XX é a era do exilado, do expatriado e
do refugiado (SAID, 2003). Reafirmamos a assertiva e cumpre-nos agora traçar um
breve resgate das experiências de exílio na literatura portuguesa, o que nos compele à
verificação da história de Portugal e à formação do estado moderno português, um dos
primeiros reinos, junto do reino espanhol, a se organizar politicamente em torno de um
sistema político sólido, com seus símbolos e a ideia de pátria flutuando por todo o
território nacional.
Desse modo, é com a expansão ultramarina portuguesa que conseguimos
rastrear as primeiras manifestações do exílio em solo lusitano. De reduzidas dimensões
geográficas, tendo como fronteiras a Galiza ao norte, a Espanha a leste e o Oceano
Atlântico a sul e a oeste, que o cortam por todas as direções, resta ao estado português
expandir-se por territórios além-mar: “Reduzido território de menos de 90.000 km² [...]
Como empurrado contra o mar, toda a sua história, literária e não, atesta o sentimento de
busca dum caminho que só ele representa e pode representar.” (MOISÉS, 2008, p. 17).
O caminho escolhido é, e não poderia ter sido outro, o próprio mar.
Cruzando oceanos e mares, ao mesmo tempo abismo e glória, os portugueses
conseguiram conquistar inúmeros territórios nas Índias, no oriente e mesmo na América
do Sul, que foi repartida com a Espanha, tendo o Brasil ficado sob o domínio português.
Aquele é o mesmo mar que Fernando Pessoa de “português” o adjetivou, no belíssimo
poema “Mar Português” que figura em sua Mensagem (1934):
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
29
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(PESSOA, 2010, p. 75)
Por meio de versos que falam de glória e dor, Pessoa nos transporta para um
tempo distante do nosso, o tempo das conquistas portuguesas; portanto, séculos XV e
XVI de nossa era. Os dois primeiros versos (Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São
lágrimas de Portugal!), que poderiam ser de dúvida, ou incerteza, antes traduzem uma
certeza categórica que se tem na firme exclamação que fecha o verso: muito, muito do
teu sal decorre de lágrimas de Portugal. Lágrimas produzidas por mães, noivas, filhos
que, à espera da volta de seus parentes amados, choram em demasia à beira do Tejo, de
onde eles haviam partido.
O poeta do fingimento expõe a dor íntima dos portugueses que na pátria
ficaram para que, em seguida, coloque o leitor em questionamento da validade e
propósito de tanto sofrimento para a conquista dos territórios além-mar: “Quantos filhos
em vão rezaram!/ Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar!” O
poeta mesmo não parece sequer titubear, quando postula os já clássicos versos: “Valeu a
pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena.”, o que nos faz imaginar como
resposta para a pergunta exposta, que é também ornamentação da retórica empreendida
pelo poema, um sonoro sim, valeu a pena! Valeu a pena, porque, sobretudo, a alma
portuguesa é grande e nenhuma glória é conquistada sem perigos.
Aliás, o espaço aquático, largamente evocado pela figura do mar salgado,
carrega em seu centro de significados como espaço aberto, categoria discutida por Tuan
(2012)8, a própria dicotomia calmaria/perigo, de que também nos falará Eric Dardel9.
Fica, pois, ao fim do poema, a clara ideia de que o povo português é vitorioso.
8
“‘Aberto’ e ‘fechado’ são categorias espaciais significativas a muitas pessoas. [...] espaços abertos e
fechados também podem estimular sentimentos topofílicos. O espaço aberto significa liberdade, a
promessa de aventura, luz, o domínio público, a beleza formal e imutável [...].” (TUAN, 2012, p. 49)
9
“O mar é uma força envolvente, ambiência em seu sentido mais apropriado; ele é um elemento. A
tempestade revela brutalmente seu desejo de tragar. [...] Contra o homem, acima do homem, força
hostil e superior, o mar em fúria faz às vezes pensar que uma potência sem alma surge das entranhas
do mundo. [...] Habitualmente, o mar mostra um ‘humor’ mais pacífico. [...] Com mais frequência o
espaço em movimento das águas se apresenta como um espaço portador.” (DARDEL, 2011, p. 21)
30
Feita a exposição acima, interessa-nos, entretanto, outra ideia que circula
pelo poema pessoano e que se conecta à ideia de exílio português: o choro provocado
pela partida dos portugueses que ao mar se lançaram para a conquista de terras para o
reino. Sem querer, o reino de Portugal constrói uma nação de exilados, uma nação
daqueles que partem (e não dos que ficam) e, nesse sentido, talvez melhor exemplo que
as cantigas medievais não exista. Sobre a ideia de exílio e separação, Flávia Queiroz
(2006) nos diz:
Já na lírica medieval galego-portuguesa a coita de amor tinha como origem o
mal de ausência. Assim, como bem observa Carlos A. André, “A mulher,
sujeito lírico das cantigas de amigo, evocava com dor e saudade o seu
amado, que dela se apartava em serviço do rei e da honra” 10 [grifos
originais] (QUEIROZ, 2006, p. 30).
Diz-nos ainda Queiroz (2006), na sequência do texto, que o mal de ausência
irá percorrer toda a literatura produzida após o período medieval, atingindo a prosa dum
não menos Almeida Garrett e Alexandre Herculano. Para que não antecipemos a
cronologia de exílios na história portuguesa, de que mesmo aquele primeiro foi vítima,
tendo partido para a Inglaterra, em 1823, onde ficara por longos anos, cumpre citarmos
o caso do grande poeta em língua portuguesa, um dos maiores: Camões. Se Pessoa
evoca a grandeza de Portugal em seu “Mar Português”, o faz quase que em oposto à
Camões, que, em seu Os Lusíadas (1572), expõe toda a trajetória portuguesa nas
conquistas ultramarinas e tece críticas a toda essa ânsia pelo poder e as consequências
disso.
Foi Camões ele mesmo um dos cidadãos que se lançaram ao mar, “em
serviço do rei e da honra”, e, quando de sua volta, viveu em extrema penúria e foi
detratado de várias formas:
Com efeito, em fins de 1553, [Camões] chega às Índias. Em 1556, dá baixa, e
é nomeado ‘provedor mor dos bens de defuntos e ausentes’, em Macau. [...]
Acusado de prevaricação, vai a Goa defender-se, mas naufraga na foz do rio
Mecon: salva-se a nado, levando Os Lusíadas, como quer a lenda, [...].
Finalmente, chega a Goa, é encarcerado e solto pouco depois. Está-se em
1563. Quatro anos depois, em Moçambique, dá outra vez com costados na
cadeia por causa de dívidas. Posto em liberdade, arrasta uma vida miserável,
até que Diogo do Couto o encontra e se empenha em recambiá-lo para a
10
Segue integralmente a nota de rodapé referente à referência bibliográfica da citação, que acompanha a
citação exposta acima: ANDRÉ, C. A. Coimbra: Minerva, 1992, p. 439.
31
Pátria, aonde chega a 23 de abril de 1569. [...] Morre pobre e abandonado, a
10 de junho de 1580. (MOISÉS, 2008, p. 72)
Camões, o grande poeta, viveu as dores do exílio e morreu sem o devido
reconhecimento que só a posteridade lhe haveria de fornecer. Como dissemos acima,
encarnam a figura do exílio também os portugueses Almeida Garret e Alexandre
Herculano, ambos ligados à poética romântica do século XIX. Garrett, para além das
atividades de escritor que desenvolvia, exerceu atividades na política portuguesa do
período, algumas das quais por demais subversivas a ponto de o obrigarem a partir para
a Inglaterra em exílio, em 1823.
Outros muitos portugueses enveredaram pelo caminho do exílio, quer como
componente essencial de sua biografia, quer como componente estético e temático de
elaboração de suas obras, ao que parece ser o caso de alguns outros. Tal constatação nos
compele a enxergar Portugal como uma pátria de desterrados, pois que a experiência do
exílio é marca de uma nação que, desde os primórdios de sua formação, lançara-se ao
mar, a fim de conquistar territórios e percorrer o infinito. Por acaso ou não, uma nação
como esta é a de pertença de Jorge de Sena, poeta que sempre, desde a mais longínqua
juventude, se sentira exilado dentro de seu próprio país:
O exílio, uma migração específica, e o desenvolvimento também desta
matéria da sua produção polifacetada (investigador, historiógrafo, ensaísta,
poeta, ficcionista e schollar) tem a ver com esta conquista de tudo dizer (só
compatível com a democracia), que também de fora procura fazer entrar a
necessidade cá dentro de poder tudo dizer; donde o seu exílio adentrado,
como se pode ver pelo dispositivo dos prefácios e notas, paratextos com que
a partir de As Evidências, livro que logo que publicado foi confiscado pela
PIDE (polícia salazarista), em 1955, passará a acompanhar todos os seus
livros de poemas.” (LAGE, 2010, p. 24)11
Das cantigas medievais a Jorge de Sena, há um salto de muitos séculos de
história e literatura, produzidas, ambas, sob o espectro da experiência do exílio. Em
Jorge de Sena, a dimensão da dor e da fratura, aquela dor incurável de que nos fala
11
Volpe (2005) ao trabalhar com geografias de exílio na obra do escritor uruguaio Mario Benedetti,
lançou mão de estudos sobre o exílio, dentre os quais apresenta uma variante desta, chamada de
“insílio”, “[...] exílio residencial, ou insílio, de cunho sociológico, [...]” (VOLPE, 2005, p. 80) e, mais
adiante no texto, “Assim como o exílio territorial é uma ausência que pode ser compensada pela
nostalgia e pelo desejo de retorno ao país de origem, o insílio, no sentido aqui exposto, seria um vazio
que pode ser preenchido através do sonho de se desfazer a alienação, [...]” (VOLPE, 2005, p. 80). Dito
isto, parece-nos haver certa correspondência semântica entre o “insílio” e o exílio adentrado, próprio
da experiência de Jorge de Sena, de que nos fala Lage (2010).
32
Edward Said (2003), não só é dor pela perda da vida em solo pátrio, e mesmo o poeta é
grande crítico dos nacionalismos, aos quais lança um olhar bem desconfiado (basta que
observemos o poema “Em Creta, Com o Minotauro”, que compõe a obra que aqui se
coloca em análise). É dor por ser Portugal aquilo que é; dor por ver a liberdade
cerceada; dor pelo não reconhecimento. Dor que irá ser verificada na extrema tensão
entre amor/ódio, pertença/não-pertença ao Portugal sempre distante, paisagem de exílio
que se configura em imagem constante na visão do poeta e que, portanto, motiva esta
pesquisa.
33
4 JORGE DE SENA
4.1 ESPAÇOS DE EXÍLIO: INTERCURSO BIOGRÁFICO
Como expusemos no capítulo acima, este trabalho não se configura como
exercício de crítica fenomenológica, a aplicação dos postulados da ciência dos
fenômenos ao estudo do texto literário, ainda que, porventura, recorramos aqui e sempre
a certa compreensão e entendimento de mundo que acredita haver nas relações entre
sujeito (apreendedor) e objeto (apreendido) um laço de união, de inseparabilidade no
plano do conhecimento e da experiência. Este capítulo surge por nossas mãos com a
finalidade de esboçar um breve roteiro da biografia de Jorge de Sena. Para além da
biografia, relato de acontecimentos e datas que possam vir a importar bastante quando
da análise da obra em si, cumpre que realizemos a caracterização de uma personalidade
multifacetada como a deste poeta português. Caracterização, aliás, que passa pela
verificação de alguns dos poemas que compõem obras anteriores12 à Peregrinatio ad
Loca Infecta, e que muito nos dizem acerca do ser humano Jorge de Sena.
O exame da personalidade de Jorge de Sena por seus poemas tem seu peso,
porque, como poemas testemunhais, alicerçados em uma poética que se destaca como
oposta às formas de produção de literatura no período da década de 50 do século XX
português, a poesia não é construída de abstração ou de conteúdos que não venham da
própria vivência de mundo e experiência do poeta. Há um rastro de biografia
metamorfoseada em versos, em poesia, na obra do Jorge de Sena, e são estes rastros que
perseguiremos por todo este capítulo que é tecido, a começarmos por uma nota
autobiográfica que o poeta fez de si, apresentada durante o recebimento de prêmio
concedido à sua poesia, e que consta na abertura da coletânea Poesia-I.
Por ocasião do Encontro Internacional de Grado, na Itália, para o qual Jorge
de Sena fora convidado a participar, assim se descreveu o poeta português num texto
curto e profundo, uma autodefinição de si, relido em Roma em setembro de 1976,
poucos meses antes do recebimento de uma honraria que lhe haviam concedido: “ «Sou
pessoalmente contra qualquer igreja organizada ou qualquer partido organizado, mas
12
Tais poemas poderão ser encontrados na coletânea Poesia-I, sobretudo na obra Perseguição (1942), e
na coletânea Poesia-II, de onde nos chamam a atenção Fidelidade (1958) e Metamorfoses (1963).
34
reconheço o direito de qualquer pessoa a ser um membro seja do que for, desde que a
minha liberdade pessoal não seja com isso afectada. [...]»” (SENA, 1977, p. 19)13. O
exame de si mesmo não finda nessas linhas, que revelam a larga personalidade
humanitária e positivamente sensível às liberdades individuais que o poeta teve por toda
a vida.
Para Sena, é de fundamental importância a preservação da liberdade
individual, aquela que, bem exercida, não prejudica a liberdade dos demais seres
humanos. Mais que um compromisso consigo mesmo, o poeta assume um compromisso
humanitário, posto que a ética lhe é característica pessoal marcante, tanto na biografia
quando na poesia – e, aliás, é a própria ética, aliada à estética, um alicerce fundamental
para a poética do testemunho, de que falaremos adiante. Este compromisso humanitário
e ético alia-se de imediato a uma fidelidade sincera e generosa, como a que observamos
em “Sem Data”, poema de Perseguição (1942):
Sem Data
Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.
Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.
Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.
Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
Circula entre as folhas paradas,
Conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.
Apetece-me explicar, agora as asas dos anjos.
(SENA, 1977, p. 52)
Em “Sem Data”, o tema político e ético parecem ser imperativos, por duas
razões: de maneira geral, Perseguição, dividido em três partes, que apresentam blocos
temáticos bem construídos: na seção I, questões relacionadas ao tempo e ao espaço
parecem ser a grande tônica de discussão dos versos que a compõem; a seção II resgata
13
O texto que aqui resgatamos, para efeito de caracterização da personalidade de Jorge de Sena, figura
no prefácio à segunda edição de Poesia-I, colectânea de parte da obra poética seniana – 1ª edição de
1961 e a 2ª edição de 1977 –, que reúne as obras Perseguição (1942), Coroa da terra (1946), Pedra
Filosofal (1950), As Evidências (1955) e o inédito Post-Scriptum (1960). Segue em anexo.
35
temáticas da seção anterior, alongando-as em poemas que possuem, em geral, número
de versos bem superior aos versos curtos da precedente; quanto à seção III, de que “Sem
Data” faz parte, os poemas giram em torno do elemento religioso, cujo cerne ancora-se
na busca de uma divindade desconhecida e sobre a qual o sujeito lírico se põe em estado
de dúvida ou mesmo de troça.
O poema não pode deixar de testemunhar o mundo, porque a voz que grita
jamais pode deixar de gritar, e o poeta há de sempre peregrinar pelos espaços que o
circundam, a fim de cumprir seu compromisso assumido com a poesia (mundo) e
consigo mesmo.
Do ponto de vista da crença religiosa/espiritual, diz-nos o poeta, ainda no
texto de sua autodefinição: “Acredito que os deuses existem abaixo do Uno, mas neste
Uno não acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu que, de uma maneira de certo
modo hegeliana, pôs a vida e o seu destino nas mãos desse Deus cuja existência ou nãoexistência são a mesma coisa sem sentido.” (SENA, 1977, p. 20). Destino este que está
fundamentalmente ligado aos caminhos de exílio e dor pelos quais percorreu o poeta
português, duplamente fraturado por ocasião da insurgência de regimes militares em
Portugal, sua pátria, e no Brasil, seu primeiro destino de exílio, antes de se ver obrigado
a exilar-se nos Estados Unidos da América, que não sofreram o golpe da ditadura
militar.
Unidade
Meu Deus... Como posso eu falar-Te,
agora que todos tratam de falar conTigo?
Como posso eu deixar que a minha voz se misture,
se confunda,
se associe a outras para formar um coro?
...Mais um tempo de palavras
E lá estava eu a repetir o que eles dissessem.
Mesmo, eu nem quero falar-Te,
nem quero acreditar em Ti...
...não é seguro acreditar!...
quero duvidar, duvidar sempre,
embora cada vez mais convencido dos extremos da dúvida
e mais repartido entre ambos.
Não... Falar-Te, mas falar só eu.
36
Ajoelhar, mas na certeza de ajoelhar sozinho,
livremente...
Mas se alguma vez sentir essa certeza
ou me convencer de que entre os meus actos e os alheios
há, pelo menos, diferença de tempo, que o tempo vale alguma
coisa...
e o Instante for a desencadear-se...
– não será tudo apenas
uma convicção exagerada pelo orgulho mental,
uma convicção apressada pelo cansaço,
ou uma convicção provocada por Ti
... para me quebrar... por desprezo?
ou para me embalar... por piedade?
(SENA, 1977, p. 74)
Já em “Unidade”, poema da seção II, o sujeito lírico percebe a si mesmo
com grande dúvida. Uma dúvida que começa pela própria incerteza de existência de
certa Unidade, ou Uno, enfim, uma entidade capaz de reger o espaço e o tempo e o
próprio destino dos homens. O fato de o sujeito voltar-se a Deus, com letra inicial
maiúscula, o que exclui a possibilidade de se tratar de outro deus, ou deuses, que não o
da cristandade ocidental, aliado ao vocativo, em sinalização de prece, “Meu Deus...
Como posso eu falar-te,/ agora que todos tratam de falar conTigo”, chama atenção pela
atitude de respeito ao usar a grafia adequada dispensada à referência ao Deus cristão,
ainda que nele, em muito, o sujeito duvide: “nem quero acreditar em Ti.../ ... não é
seguro acreditar!... / quero duvidar, duvidar sempre,/ [...]”
A colocação das reticências, que acompanham o vocativo “Meu Deus” no
verso inicial, indicam ou sinalizam certa hesitação na enunciação do sujeito lírico,
mantida por todo o poema, cujos versos finais encerram eles mesmos numa dupla
interrogação. Quer dizer, o sujeito parece querer nos convencer de que há dúvida em seu
discurso quanto à crença no Uno, quando claramente não há, caso observemos os
versos: “Não... Falar-Te, mas falar só eu./ Ajoelhar, mas na certeza de ajoelhar
sozinho”, de onde “ajoelhar sozinho” é mais que um ajoelhar sem a presença dos
demais sujeitos, ávidos por crer em algo superior que lhes rege a vida; é ajoelhar com a
certeza de que nem mesmo um Deus existe, para o qual ajoelhar torna-se em ato sem
valor. Esta mesma estratégia linguística é encontrada no trecho autobiográfico de Sena
acerca de suas crenças pessoais, de que estas linhas de associação com sua escrita
37
poética são produto. Sujeito biográfico e sujeito lírico compartilham, pois, da mesma
crença numa descrença firme e consciente.
Jorge de Sena era contra qualquer espécie de ditadura, não porque havia
sofrido com elas (e sofreu, de fato), mas porque sua orientação intelectual, sua ética e
sua moral o compeliam a ser contra elas: “[...] politicamente, sou contra qualquer
espécie de ditadura (quer das maiorias, quer de minorias), e em favor da democracia
representativa. Não tenho quaisquer ilusões acerca desta – pode ser uma máscara para o
mais impiedoso dos imperialismos. Mas isso também o podem ser outros sistemas.”
(SENA, 1977, p. 20). Acerca da relação de Sena com a liberdade que tanto quis para seu
Portugal, o poema que segue nos tem muito a dizer.
«Quem a tem...»
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
(SENA, 1978, p. 45)
O poeta viveu em seu país pouquíssimos anos de liberdade democrática, daí
o ritmo desesperador do poema acima, a urgência e a vontade de querer que a liberdade
plena se materialize como ordem política. Sena nasceu em 1919, sete anos antes da
instauração da primeira ditadura militar portuguesa. De 1933, ano de instauração do
Estado Novo português, até 1959, ano em que parte para o Brasil, o poeta vivera sob o
regime totalitarista de António Oliveira Salazar, a chamada ditadura salazarista, sobre o
qual o poema lança um ímpeto: “Não hei-de morrer sem saber/ qual a cor da liberdade.”
O desejo por ver a cor da liberdade é muito maior que o regime político de ditadura.
38
Há, nos versos iniciais da estrofe segunda do poema, o estabelecimento de
uma dialética da pertença, no que se refere à afirmação que compreende o
pertencimento mútuo ao lugar natal, “desta terra em que nasci.”, e ao mundo, esfera
global, “Embora ao mundo pertença”. O sujeito lírico, ou a própria voz do sujeito
biográfico, reafirma seu compromisso ético com o mundo, para que “[...] sempre a
verdade vença”, muito embora o queiram “cego e mudo”, dois sentidos que não
aparecem por acaso nos versos, quando ambos configuram elementos essenciais da
poética do testemunho. “Ver” (o mundo) e “ouvir”, simétricos a “falar” e “emudecer”,
são fundamentais e, sem eles, o poeta estaria fadado a não testemunhar, fato que não se
materializa. Sena, na verdade, antes de morrer, viu seu Portugal, a um só tempo amado e
odiado, livre das ditaduras que o oprimiam por tanto tempo.
Pai de nove filhos, alguns dos quais portugueses, outra parte brasileira e
americana, Sena não fora um patriarca e, novamente, de reconhecida humanidade, fora
sempre a favor da liberdade de todas as formas de amor: “Moralmente falando, sou um
homem casado, pai de nove filhos, que nunca teve vocação para patriarca, e sempre foi
em favor de a mais completa liberdade ser garantida a todas as formas de amor e de
contacto sexual.” (SENA, 1977, p. 20) O poeta ainda adverte, com plena sabedoria,
acerca da liberdade: “Nenhuma liberdade estará jamais segura, em qualquer parte,
enquanto uma igreja, um partido, ou um grupo de cidadãos hiper-sensíveis, possa ter o
direito de governar a vida privada de alguém.” (SENA, 1977, p. 20)
Do ponto de vista da formação ideológica de Sena, a nota autobiográfica é
bem clara: “Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou
qualquer antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito. [...] Sou a favor
da paz e do entendimento entre as nações, e espero que o socialismo prevalecerá em
toda a parte.” (SENA, 1977, p. 20) Um marxista que leu a Fenomenologia husserliana,
fazendo-nos sentir a viva presença, em sua escritura, dos postulados fenomenológicos.
Para além do posicionamento filosófico de uma fina relação com o objeto da
experiência, Sena nunca subscrevera maniqueísmos fáceis, o que pode ser percebido em
seus escritos teóricos e, também, em sua escrita poética, testemunho próprio de uma
postura frente à vida que muito se aproxima de uma dialética, uma estética de opostos,
como nos fala o próprio Sena, a seguir:
39
Não subscrevo a divisão do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o Diabo
(estejam de cada lado estiverem). Apesar da minha formação hegeliana e
marxista, ou também por causa dela, os contrários são para mim mais
complexos do que a aceitação oportunista de maniqueísmos simplistas.
(SENA, 1977, p. 20).
Por fim, no parágrafo que segue à autodefinição, adicionado ao texto
original na ocasião de publicação da coletânea Poesia-I, fala o português orgulhoso de
sua pátria: “E agora basta, quando Portugal – a quem a minha obra primordialmente
pertence – tem de aprender a praticar as ironias democráticas, para sobreviver e ocupar,
no mundo, o lugar que lhe cabe de antiquíssima nação gloriosa.” E encerra com uma
prece: “[...] por uma vez, nesse país, que haja, na garantia da liberdade e da justiça,
lugar para todos, como tão raras vezes houve.” (SENA, 1977, p. 21) Aproximando-se de
Fernando Pessoa pela crença no destino glorioso de Portugal, logo distanciam-se por
Sena não crer que este destino se realizará com a vinda do Encantado, rei Dom
Sebastião.
Jorge de Sena é um homem de contrários, que o atraem muito mais que os
maniqueísmos fáceis. Esta característica fica evidente em sua autodefinição, e o exame
de sua obra, sobretudo a que fora elaborada no período de seus exílios, permite-nos
identificar que os contrários também são verificados na relação que o eu-lírico, ou o
Sena-ele mesmo, mantém com sua pátria: se, numa via, há uma reconhecida afetividade,
uma relação de topofilia entre o sujeito lírico e o lugar natal, na contramão, há toda uma
sensível tensão, alimentada pela dor do exílio, pelo fato de não ser querido em sua
própria pátria. Fica, pois, aqui a apresentação sumária da personalidade do poeta que
nunca deixou de reafirmar seu compromisso com o mundo, objeto de nossa análise nos
próximos capítulos.
4.2 A POÉTICA DO TESTEMUNHO: DO VER O MUNDO À VISÃO DE MUNDO
Jorge Fazenda Lourenço (2010), em seu estudo acerca da poesia de Jorge de
Sena, comenta que todo o seu trabalho talvez não seja mais que um extenso comentário
ao Prefácio da primeira edição da coletânea Poesia-I (1977), escrito em 27 de março do
ano de 1960, em Assis (São Paulo), quando o poeta já experienciava seu primeiro exílio.
40
Ali, Sena expõe, pela primeira e única vez, alguma teoria acerca da poética que o
acompanhou desde a produção dos primeiros poemas, largamente explorada na
produção de seus poemas de exílio: “Uma poesia que vive [...] de um sistema de
relações, cujos vetores se designam, aqui, por testemunho, metamorfose e peregrinação,
uma vez que o testemunho seniano não possui apenas uma componente documental,
biográfico.” (LOURENÇO, 2010, p. 19).
Já tratamos em capítulo anterior acerca da personalidade de Jorge de Sena
que, mesclada à sua biografia, manifesta-se indubitavelmente na construção de seus
poemas, efetivando a componente biográfica que é marca da poética que engendra.
Cabe aqui expormos o mecanismo de funcionamento do testemunho seniano, a fim de
que fiquem claras as relações entre a necessidade de dizer/escrever (frutos do
distanciamento que os sentidos do “ver” e do “ouvir” proporcionam) e a
circunstancialidade inerente aos poemas de exílios de Peregrinatio ad Loca Infecta. O
trabalho de Lourenço (2010), o texto em si o prova, não é apenas um comentário
extenso, é um verdadeiro trabalho de exegese bem sucedida da estrutura do testemunho
seniano, e é em sua esteira que ancoramos as reflexões que ora tecemos.
Começamos por dizer que Jorge de Sena engendra14 uma nova poética, a do
testemunho, ao se afastar das duas grandes movimentações estilístico-literárias no
Portugal do período que compreende as décadas de 40 e 50 do século XX em Portugal:
afasta-se, pois, do Neorrealismo, porque o compromisso com o discurso político
provocava certa ruptura entre a literatura e o labor estético. Dizer e denunciar
(engajamento) tornaram-se, de repente, muito mais importantes do que o modo de dizer
(esteticismo): as forças de presença neorrealista surgem, então, “[...] motivadas pelo
repúdio ao seu caráter estético [do movimento presencista] e pela descoberta da ficção
norte-americana e brasileira dos anos 30, de fisionomia sócio-realista.” (MOISÉS, 2008,
14
Sobre o processo de “criação” do testemunho seniano, segue: “A primeira e única explanação
da ‘teoria’ do testemunho poético surge, de um modo condensado, no Prefácio, de 1960, à primeira
edição de Poesia – I (1961), isto é, na primeira oportunidade que Jorge de Sena tem de reunir em
volume todas as suas colectâneas de poemas [...]. O que significa que a formulação do testemunho
poético não é uma construção apriorística, no sentido de uma teoria que comande a prática poética,
como no caso, por exemplo, do neo-realismo, condicionado, a partida, por uma ideologia política e
partidária. [...] A teoria do testemunho surge, assim, como a validação de uma prática poética em
progresso; ou melhor, como uma práxis que naquele Prefácio de 1960 se organiza enquanto dádiva de
uma consciência criadora, que, no acto de aferir-se, se revela.” (LOURENÇO, 2010, p. 105)
41
p. 391) E, mais, surge como reação literária ao contexto político opressor que o Portugal
do período vivia:
A maioria dos poetas surgidos a partir dos anos 30 forma-se num período
traumático da vida portuguesa, subsequente ao golpe militar de 1926 e à
instauração do Estado Novo (1933), cujos efeitos são agravados por dois
conflitos internacionais sucessivos e fortemente marcados do ponto de vista
ideológico: a Guerra Civil de Espanha (1936-39) e a Segunda Guerra
Mundial (1939-45). (LOURENÇO, 2010, p. 36)
O que a década de 40 observa, em termos de discussão literária, é um forte
embate entre a força presencista, cujas obras eram construídas por meio de alto
esteticismo, e a força neorrealista, de caráter puramente social: aqui, a obra torna-se
panfleto de exposição das ideias contrárias ao regime salazarista, relegando a um
segundo plano a estética e elaboração formal da obra.
Assim se reinstala, na disputa pela hegemonia da cena cultural que os neorealistas vão empreender contra os presencistas, uma série de antinomias:
entre a forma e o conteúdo, entre a poesia «pura» e poesia «socialmente
empenhada», entre arte «útil» e arte «inútil», entre poesia «de» arte e poesia
«sem» arte, etc. De facto, nunca é a poesia que está no centro da discussão, e
sim o tipo de ideologia que ela deve ou não veicular, tendo em vista a
satisfação de determinados propósitos político-partidários, [...].
(LOURENÇO, 2010, p. 41)
Em excerto presente na obra de Moisés (2008), Saraiva (1955) resume os
aspectos fundamentais da poética neorrealista, quais sejam: “uma visão mais completa e
integrada dos homens, a consciência do dinamismo da realidade e a identificação do
escritor com as forças transformadoras do mundo.” (SARAIVA, 1955, apud PEREIRA,
1956).
Muito embora Jorge de Sena construa uma poética fortemente calcada no
componente documental e biográfico, no sentido de dar voz às experiências de injustiça
e infidelidade que conseguiu experienciar por meio dos sentidos, o poeta parece não se
filiar à corrente neorrealista, porque há, em sua poesia, fina elaboração estética. Sena
fora poeta de alto nível, e esta assertiva é verdadeira tanto do ponto de vista do conteúdo
que consegue materializar em seus poemas, ao mesmo tempo visão e experiência
metamorfoseados em lírica, quanto da forma de que faz uso, tecendo de poemas em
versos livres e aparentemente desalinhados a clássicos sonetos.
42
Do exposto até agora, parece consequência lógica que Jorge de Sena haveria
de se filiar à poética presencista, dado seu apego ao lado estético da arte. Concluir tal
coisa do poeta do testemunho seria, entretanto, absurdo, posto que, em sua própria
autodescrição, lida quando da premiação pelo conjunto de sua obra, ele mesmo nos
revela que “Apesar da minha formação hegeliana e marxista, ou também por causa dela,
os contrários são para mim mais complexos do que a aceitação oportunista de
maniqueísmos simplistas.” (SENA, 1977, p. 20). Não é, portanto, o Presencismo,
enquanto poética orientadora e oposta ao Neorrealismo, que Sena há de perseguir.
Sena fora a um só tempo neorrealista, presencista, fingidor, surrealista e
romântico, sem jamais ter sido, por inteiro, nenhum desses. Tal flexibilidade estética e
poética permitiu ao poeta a criação de uma vasta e variada obra com características que
marcam a leitura daqueles que nela se aventuram. Da obra em si, um dos poemas que
mais parecem traduzir a poética do testemunho chama-se “Os Trabalhos e os Dias”,
presente na obra Coroa da Terra (1946), que figura na coletânea Poesia I. Sobre o
poema, Lourenço (2010) ainda tece comentários pertinentes que serão retomados aqui e
ali na tessitura deste texto:
Os Trabalhos e os Dias
Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos não sabem
de um caminho sem nada para regresso da vida
À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.
Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no principio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.
(SENA, 1977, p. 84)
43
O poema revela, através dos versos iniciais de sua primeira estrofe, a
relação implicada que há entre o sujeito e o ato de escrever, que é posto em simetria
com o ato de respirar, função biológica que nos condiciona a vida. Escrever, para a voz
do poema, e para o próprio Jorge de Sena, é condição de vida e sobrevivência, de onde o
sujeito que escreve, apreendedor da experiência, e o objeto de que fala o poema, a
experiência apreendida, jamais poderem estar apartados um do outro: “[...] como se a
mesa fosse o mundo inteiro/ e principio a escrever como se escrever fosse respirar/
[...]”. Para Lourenço (2010), o escrever, enquanto atividade vital, torna-se hábito, rotina:
“Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.” que, como componente integrante,
tem na memória e na intertextualidade grandes aliados: “Vem, teimosa, com a alegria de
eu ficar alegre,/ quando fico triste por serem palavras já ditas/ estas que vêm, lembradas,
doutros poemas velhos.” Palavras já ditas, referindo-se à tradição clássica de que é
devedor, porque a revisita e a si próprio.
Destacamos que o poema revela uma relação implicada entre o sujeito
(biográfico e lírico) e o ato da escrita. Reafirmamos esta assertiva, que nos leva a outro
aspecto da poética seniana: seu caráter fenomenológico:
[...]
Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.
O poeta está preso à mesa, assim como sujeito e objeto estão presos no
plano da experiência. Esta é, aliás, uma marca dos poemas de Sena: a nãoseparabilidade entre os dois componentes básicos da concretude de uma experiência,
como salientou Husserl com a criação da Fenomenologia: “A compreensão da relação
dialética entre o sujeito e objeto apreendido, ou seja, a questão da apreensão da
realidade, enunciada nos versos 14 e 16 de «Os Trabalhos e os Dias», afigura-se,
portanto, como uma questão nuclear para o entendimento da poética seniana.”
44
(LOURENÇO, 2010. p. 53) E porque tão íntimo deste mundo infecto, porque outro não
há, o poeta encara a poesia como “[...] uma perplexidade face à vanidade e à sem-razão
do mundo e, sobretudo, face ao desgaste da própria linguagem que diz o mundo (v. 9),
[...]” (LOURENÇO, 2010, p. 51).
A poética do testemunho haveria, portanto, de ancorar-se num certo
comprometimento do poeta para com o mundo; fruto, de certo modo, de sua orientação
filosófica voltada para o marxismo e para a fenomenologia:
A consideração da indissociabilidade do eu apreendedor e do mundo
apreendido («e desenhei uma rena para a caçar melhor») em que se baseia
toda a poética seniana, se tem raízes no materialismo dialéctico de Marx, com
consequências que mais adiante se verão em pormenor, pode, neste passo, ser
entendida no âmbito da fenomenologia de Husserl, «que deu uma estrutura
epistemológica ao meu marxismo indefectível» (CVF 49) (LOURENÇO,
2010, p. 53)
Esta orientação poética há que “exigir” do poema o ato último de provocar
metamorfoses. A poesia deve assumir uma postura ativa frente ao mundo e frente a tudo
aquilo que ela (aqui, a poesia é o próprio poeta) testemunha e que compõe a poética
aqui tratada. O próprio Sena argumenta sobre essa questão, quando coloca que: “Se o
‘fingimento’ é, sem dúvida, a mais alta forma de educação, de libertação e de
esclarecimento do espírito [...], o ‘testemunho’ é, na sua expectação, na sua discrição, na
sua vigilância, a mais alta forma de transformação do mundo, [...]” (SENA, 1977, p.
26). Daí a peregrinação infecta do poeta, que enxerga os lugares e espaços por onde
andou com alta sensibilidade, testemunhando-os do melhor modo possível.
Em Sena, portanto, há um trânsito de consciências: a realidade
pretensamente objetiva tornando-se, na tessitura da poesia, uma subjetividade implicada
e ética. Toda a consciência é consciência de alguma coisa, portanto a relação entre
sujeito e objeto é sempre de uma indissociabilidade. Sena estabelece um compromisso
com o mundo, o de testemunhá-lo, e, por isso, este mundo nunca lhe é alheio ou
indiferente, mesmo quando nos aparece fora do sujeito lírico. Testemunhar é um ato de
percepção que se dá pelo funcionamento dos sentidos humanos, sobretudo a visão e a
audição. A visão possui papel essencial na poética do testemunho. Ver e ouvir são um
distanciar-se para melhor observar um fenômeno e descrevê-lo por meio do poema
criado:
45
Este ver o mundo, que é também, ou sobretudo, um pensar o mundo, indica
claramente o papel da visão como instrumento ou órgão do testemunho
poético; e de uma testemunho que é meditação de mundo, [...]. Ver é, pois,
verbo seniano. Obsessivo e obsediante, conduz toda a sua poesia, quase
poema a poema. Ver, mas também olhar e contemplar, aparecem associados,
não raro adquirindo a valência de outros sentidos. Assim, a visão e o olhar
surgem como homólogos do desejo, do pensamento, e da fala. (LOURENÇO,
2010, p. 226)
O testemunho configura-se, assim, numa poética sensorial, porque o “ver” e
o “ouvir” são seus sentidos fundamentais, são a condição de sua existência. Configurase, também, numa poética combativa, porque visa à metamorfose. A poesia é capaz até
mesmo de operar metamorfoses na conotação clássica do sentido auditivo, a de
passividade (receptividade), caracterização que encontramos em Tuan (2012), e que se
torna um sentido operante, plenamente ativo e pronto para realizar transformações por
meio da experiência tornada lírica –, tal como Sena entende que a poesia deva ser.
[...] o testemunho seniano, até porque visa uma metamorfose, não é uma
atitude passiva ou estática, um olhar o mundo de um ponto fixo de
observação, sem mais. Testemunhar, em Jorge de Sena, é, fundamentalmente,
praticar o mundo, devendo entender-se aqui o mundo «como o conjunto [...]
de tudo quanto há ou pode haver consciência» (Lyotaard 42); ou seja, praticar
o mundo é, como mais atrás se dizia, «viver a presença do objecto»,
atentando nas várias faces com que ele se dá a aperceber, e entendendo por
objecto tudo aquilo, incluindo o próprio Eu, a que a consciência tenha acesso
ou saiba alcançar.[...] (LOURENÇO, 2010, p. 421)
É, portanto, por meio do “ver o mundo”, atitude essencialmente ativa,
que o poeta é capaz de realizar metamorfoses, e o ver passa a ser uma “visão de
mundo” com o objetivo lúcido de promover transformações. Nossa atenção agora
passa ao exame da poesia construída no âmago desta poética inovadora e sua relação
com a experiência circunstancial do exílio, traço biográfico que perpassa
longamente a poesia seniana. De Peregrinatio ad Loca Infecta agora falemos.
46
5 ACERCA DE EXÍLIOS NA POESIA SENIANA
5.1 ESPAÇOS DE PORTUGAL (1950-59): PRIMEIRO EXÍLIO
Jorge de Sena fora um sujeito exilado mesmo dentro de seu país natal.
Naquilo que chamamos de exílio adentrado, ou insílio, é que encontramos a maior força
da poesia seniana, uma poesia essencialmente circunstancial, porque assim seu criador
acreditava que devia ser toda a poesia. Uma poesia profundamente ética e, por isso,
compromissada em testemunhar, por meio dos sentidos humanos, tudo aquilo que se dá
à experiência do sujeito, inclusive o exílio e todas as suas vicissitudes. Uma poesia que,
por último, configura-se numa espécie de diário, de onde é possível notar a crescente
constância de datas ao fim de cada poema de cada livro – da presença de apenas anos,
em obras que constam de Poesia I e II, à obsessão historiográfica de alguns poemas de
Poesia III, como “Couraçado Potemkin”, seguido do local, dia e ano em que fora
produzido.
Tais características não são, como jamais o poderiam ser, alheias à
Peregrinatio ad Loca Infecta, coleção de poemas publicada originalmente em 1969 e
que se configura mesmo como diário poético das vivências de exílio do poeta. Um
itinerário por cuja leitura, ao leitor, é possibilitado o acesso às paisagens infectas deste
mundo pelo qual Sena nutria, com iguais forças, uma grande fé, esperança (de que o
mundo pudesse, enfim, tornar-se um mundo melhor), desesperança e aflição. Não por
acaso, o roteiro é aberto com uma seção diminuta de doze poemas, sob o título
“Portugal” e epigrafe camoniana: “Eis aqui, quase cume da cabeça/ de Europa toda, o
Reino Lusitano”. A seção confirma o estado de exílio adentrado do poeta, que se
reconhece ali como exilado, de fato.
O itinerário é infecto e recebeu este nome em oposição à Peregrinatio ad
loca sancta,15 porque
15
Peregrinatio ad Loca Infecta é “[...] caricatura de Peregrinatio ad Loca Sancta, espécie de guia e
relatório devoto, artístico e prático do peregrino da Terra Santa, que constitui um dos mais preciosos
documentos existentes para o estudo do latim vulgar. Terá sido composto por Etéria ou Egéria, ou
santa qualquer coisa, freira talvez de Braga, que, em 395 da nossa era, viajou à Palestina, ao Sinai, ao
Egipto e a Constantinopla. Como se vê, a mania portuguesa de viajar e relatar as peregrinações feitas é
antiga.” Nota explicativa de rodapé, (SENA, 1978, p. 23)
47
[...] esse período de 1959-69 foi e tem sido, principalmente e sobretudo, o dos
meus «exílios» americanos (do Sul e do Norte), com tudo o que de difícil e
de complexo uma tal situação implica, pela confrontação com diversas
culturas (ainda que, ironicamente, elas nos sejam familiares) que, para quem
não vive nelas em carácter evidentemente provisório, colocam agudamente
dolorosos problemas de identidade, e nos levam a meditar diversamente
sobre quem somos. (SENA, 1978, p. 23)
Entretanto, cabe ainda esclarecer que o adjetivo infecto não diz respeito a
qualquer espécie de amargura, ou mesmo desgosto do poeta em relação aos países que o
acolheram – o próprio poeta nos diz que vivera momentos essencialmente especiais e
agradáveis nos dois espaços de exílio, Brasil e Estados Unidos. Jorge de Sena optou por
caracterizar os locais pelo termo infecto, em oposição ao sancto, porque “[...] os poemas
[da coletânea] representam momentâneas descidas críticas do poeta ao seio da sua visão
de mundo.” (SENA, 1978, p. 23). Os poemas revelariam, pois, a grande força da poética
seniana, o ato de testemunhar16, mas haveriam, também, de revelar a grande tensão que
há na relação do sujeito lírico (e, por extensão, no caso de Sena, do próprio sujeito
biográfico) em relação ao seu país natal.
Das doze descidas à sua consciência crítica de poeta, que compõem a
totalidade da seção “Portugal”, e de ser-no-mundo, portanto, compromissado com uma
tarefa que compreende o além de sua existência mesma, “Dupla glosa”, poema
construído em homenagem ao também português (e poeta!) Ruy Cinatti, por ocasião de
seu aniversário, em 1952, apresenta alguns temas centrais da orientação poética e
temática da poesia de Sena:
Dupla glosa
«Não passam, Poeta, os anos sobre ti»
– eis o que em tempos uma vez me disse.
16
“Um dos aspectos mais desconcertantes da poesia de Jorge de Sena, sobretudo a partir de Peregrinatio
ad loca infecta (1969), que reúne poemas escritos entre 1959 e o ano da publicação da colectânea, e
com particular evidência nos escritos em viagem, é o facto de os poemas conterem uma quantidade de
informação sobre o domínio extratextual muitas vezes superior à das notas que acompanham alguns
deles. Com efeito, a partir de 1959 (que não é um marco rígido), a poesia seniana está não só
carregada de alusões e referências históricas, literárias e culturais, como de alusões e referências
biográficas, à história pessoal do autor. E em ambos os casos os títulos, as epígrafes, as dedicatórias,
as datas dos poemas, desempenham um papel substancial no que diz respeito à articulação entre
poesia e as suas circunstâncias, funcionando como ancoragem referencial, como índices de um
enraizamento num vivido.” (LOURENÇO, 2010, p. 141)
48
Não é bem a verdade; passam sobre ti
como por sobre os seres que perecem.
Apenas sempre tu soubeste como
se vive no intervalo entre os instantes.
Os anos passam; mas, desta passagem,
a permanente essência em nós se cumpre,
que para testemunho nascemos.
Mas de que falas tu? De ti? Do mundo?
Ou do intervalo em que te aceitas outro,
precisamente quando mais te julgam tu?
A pouco e pouco, nascerás de tudo.
Tu próprio, todavia, não disseste que
«anoitecendo a vida recomeça?»
(SENA, 1978, p. 29)
O poema, homenagem sincera com que Sena celebra a vida de Cinatti, tal
qual o faz com o poema de abertura da coletânea, no qual se dirige à Sophia de Mello
Breyner Andresen, perguntando-lhe, e como que para si mesmo, “Filhos e versos, como
os dás ao mundo?” (SENA, 1978, p. 27), versa acerca da passagem do tempo, da exata
circunstancialidade da vida. A primeira glosa é construída sob a égide do mote “’Não
passam, Poeta, os anos sobre ti’/ – eis o que em tempos uma vez me disse.” (SENA,
1978, p. 29), que revelam uma das marcas da poesia que se encontra em Peregrinatio: a
evidência da biografia do poeta, que pertence, num sentido e num primeiro momento, ao
domínio extratextual da poesia, e que, a partir do processo de escritura, é tornada
elemento interno do próprio texto.
De si, pelo que fica dito no mote inicial, Jorge de Sena mostra-se como
grande apreciador dos versos de Ruy Cinatti, daí não titubear em grafar “poeta” com
“P” maiúsculo, mas também mostra uma concepção original de tempo: o tempo eterno,
porque não passa sobre o homenageado. O poema não seria uma glosa, dupla, aliás,
caso não argumentasse, nas estrofes seguintes ao mote, sobre o que vai dito nos versos
iniciais, e é aí que encontramos outros rastros e evidências da concepção poética de
Sena, que gera uma poesia de alto caráter fenomenológico, porque incapaz de ver
sujeito e objeto como partes inseparáveis da experiência.
49
Por sobre Ruy Cinatti passa o tempo, e nem sua grandeza, grafada com “P”
maiúsculo, o torna inerte a esta condição, que é a de todo o ser mortal, como sugerem os
versos: “Não é bem verdade; passam sobre ti/ como por sobre os seres que percebem.”,
arrematados pela exposição, nas linhas que encerram a estrofe, de uma característica
pessoal atribuída ao homenageado do poema, e que é, também do próprio Sena, porque
“Apenas sempre tu soubeste como/ se vive no intervalo entre os instantes.” O exato
saber viver entre os “instantes” é a remissão à circunstancialidade da escrita seniana, o
registro do tempo (em) que se vive (experiência) na tessitura do poema.
Para Sena, a fugacidade do instante precisa ser capturada, atitude ativa na
qual estão envolvidos os processos da percepção sensorial, e que se desdobra no ato de
testemunhar o vivido, afinal é esta mesma “essência” que permanece a toda mudança
que o Tempo venha a empreender sobre os sujeitos a ele submetidos: “Os anos passam;
mas, desta passagem,/ a permanente essência em nós se cumpre,/ que para testemunho
só nascemos.” O testemunho, aqui, assume novamente seu caráter de compromisso que
o poeta tece com o mundo, que não lhe é alheio.
O exilado Sena fala de Cinatti como se falasse de si mesmo, uma estratégia
de tessitura do texto que orienta todo o poema, sobretudo quando o sujeito lírico
pergunta qual a matéria da poesia que o homenageado produz: “Mas de que falas tu? De
ti? Do mundo?”. O “ti” e o “mundo”, que surgem nesses versos como coisas apartadas,
no sentido de que pressupõem que a poesia pode ser construída por meio de dois
vetores: a confissão lírica, de onde o leitor pode observar a expressão de um sentimento
e uma visão de mundo essencialmente pessoal e privada, posto que, de outro modo, não
seria uma confissão; e a poesia que se constitui como expressão do mundo, um olhar
para a vida. Ambas, em suas ensismesmidades, não são suficientes para fornecer a
explicação da temática do poeta, como sugere o encerramento da estrofe: “Ou do
intervalo em que te aceitas outro,/ precisamente quando mais te julgam tu?”
O “intervalo em que aceitas outro” é o próprio anúncio da síntese entre o
“ti” e o “mundo”, que são, do ponto de vista da experiência fenomenológica,
respectivamente, o sujeito e o objeto. Síntese, aliás, que é parte do processo testemunhal
para o qual o poeta vive, posto que só o testemunho é a “essência” de tudo. Nesse
sentido, o poeta fala, a um tempo só, não apenas de “si”, e nem apenas do “mundo”; ele
testemunha por meio de versos que são um amálgama inseparável entre aqueles dois
50
componentes. Por fim, a poesia deve ser capaz, se é testemunho, de operar
metamorfoses, como sugere a estrofe final do poema: “A pouco e pouco, nascerás de
tudo,/ tu próprio, todavia, não disseste que/ ‘anoitecendo a vida recomeça’?”.
Metamorfoses nos e dos sujeitos, que se expandem para o mundo.
Fenomenologicamente compreendida, o posicionamento estético de Sena
consistirá na assunção de que toda a linguagem, sendo produção humana não
é necessariamente, quando poeticamente formulada ou usada, sinal de
subjectividade. Todo o sujeito é produtor de linguagem e, nessa medida,
mesmo quando se trate de enunciação literária, há sempre, mesmo que
mitigada, a presença de um sujeito, alguém que diz/ escreve. Dizer e
escrever, sendo poesia, têm de ser processos transformantes da percepção dos
dados do real e transfiguração desses dados por uma intelecção deles,
revelando as evidências, desmontando ou destruindo as aparências.
(CORTEZ, 2011. s/p)17
É importante que mantenhamos a ideia de ligação fenomenológica do
sujeito com o espaço, tanto no plano da experiência de vida do poeta como na tessitura
de sua poesia – a poesia seniana, aliás, como já deve ter ficado claro, é experiência de
vida, um “ver o mundo”, metamorfoseado em versos numa “visão de mundo”. Manter
tal ideia configura-se de importância fundamental porque a relação que o sujeito
mantém com os espaços de exílio - neste momento, Portugal - é de uma profunda
semelhança com o postulado fenomenológico e, talvez por isso mesmo, igualmente
dialético, como sugere o poema que segue, cujo título, “Vampiro”, sugere per si
algumas leituras que se sincronizam com o que discutimos até agora.
Vampiro
Ouço os gatos brincar. Saltam, perseguem-se.
Da rua, cuja noite um automóvel corta,
chegam-me risos, vozear distante.
Mais longe some-se o rodar de um eléctrico.
Tremem-me as mãos só de lembrar que pude
17
A versão completa do texto, cujo trecho citado nos ocorre agora, consta do “Ler Jorge de Sena”,
projeto abrigado por pesquisadores da obra de Jorge de Sena da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), reunindo farto material acerca da biografia, obra e fortuna crítica do poeta português,
podendo
ser
encontrada
através
do
seguinte
link:
<<
http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/ressonancias/pesquisa/estudos/43-jorge-de-sena-morrerei-porexilio-sempre-mas-fiel-ao-mundo-uma-ideia-de-poesia-como-descricao-e-independencia-emperegrinatio-ad-loca-infecta/ >>
51
abandonar-te ao teu desejo agudo,
quando tão junto ao meu o contiveste,
julgando que submisso eu te seguia.
Tremem-me as mãos, as coisas me são estranhas,
algo me agarra pela nuca e me arrebata
por sibilantes portas sucessivas
de que ouço os gonzos respirar-me a vida.
Os gatos brincam? Outro carro passa?
Outros regressam? Viram-te? Tiveram-te?
Sou eu quem está dentro de ti com eles?
Num vácuo de escamas luzidias,
o sono plúmbeo me rodeia, ataca
por ondas silenciosas e concêntricas.
como na morte dormirei, e digerindo
o sangue puro que te não bebi.
(SENA, 1978, p. 27)
“Vampiro”, escrito em 1950, é um poema noturno, posto que evoca um ser
sobrenatural, identificado com o grotesco, o vampiro, que, de acordo com a mitologia
correspondente, é o ser das trevas. O vampiro não vive durante o dia, porque,
amaldiçoado a viver à noite, quando deve se alimentar de sangue humano, condição
essencial para sua existência eterna, e é justamente a esse período noturno que o poema
se refere. De fato, toda a imagética dos versos ocorre durante a noite, quando o sujeito
lírico, o próprio vampiro em metáfora, observa a passagem do tempo, das pessoas,
enfim, a passagem da própria vida na cidade por meio dos sentidos: “Ouço os gatos a
brincar. Saltam, perseguem-se./ Da rua, cuja noite um automóvel corta,/ chegam-me
risos, vozear distante.” Num primeiro momento, o sujeito parece estar tão próximo a
toda essa existência, ao mesmo tempo familiar e estranha, a ponto de atacá-la e absorver
todo o sangue vertido em metáfora da própria cidade, ação que não conclui, posto que,
em seguida, aquilo que lhe parecia tão próximo, torna-se distância: “Mais longe some-se
o rodar de um eléctrico./ Tremem-me as mãos só de lembrar que pude/ abandonar-te ao
teu desejo agudo, [...]”
Cortez (2011, s. p.) aventa a hipótese de fusão entre os sujeitos do poema:
em que o sujeito do enunciado e da enunciação se misturam e narram,
elipticamente, os factos exteriores. A evocação [...]; a evocação, dizíamos,
logo se faz especulação, meditação (no acto de lembrar, as mãos do «eu»
tremem-lhe, pois que se inicia a escritura do poema?) e se chega à
clarividente certeza de que, recordando, «as coisas [lhe] são estranhas» e,
questionando tudo, o sujeito como que se divide, e cindido sabe que uma voz,
de fora, pergunta: «Os gatos brincam? Outro carro passa? / Outros
52
regressam? Viram-te? Tiveram-te? / Sou eu quem está dentro de ti com eles?
[...]»
Hipótese com que, aliás, concordamos, na medida em que o sujeito do enunciado
e o da enunciação passam a ser compreendidos enquanto sujeito biográfico e sujeito
lírico. Há uma metamorfose da experiência humana vivida, acerca do que nos sugerem
os seis primeiros versos, e não somente do poema, essencialmente sensoriais: visão e
audição, sobretudo, tornam-se sentidos primordiais. Se há, de fato, uma fusão operante
na tessitura do poema, seria licito aventarmos uma segunda hipótese no que se refere à
relação sujeito-objeto, aqui, já uma relação sujeito-espaço.
O sujeito lírico, vampiro, testemunha a vida que passa pela cidade para que,
daí, exponha a si mesmo, no que diz respeito à sua relação com o espaço em que vive.
Uma relação profundamente marcada pela peculiar tensão dialética da aproximação e do
afastamento, que, em síntese, é o conteúdo todo do poema. Parece-nos forte evidência
de que aí fala uma voz que é a do próprio Jorge de Sena a tratar de sua relação íntima
com Portugal, ao mesmo tempo próximo e distante, amado e odiado. O país natal e o
poeta são, no poema, a vítima e o vampiro, que desenvolvem uma espécie de dança nas
sombras, a própria dialética de que falamos acima.
Ora, se aventamos a possibilidade de fusão entre o sujeito e o espaço que o
medeia, cabe apontarmos para a enorme dificuldade com que essa fusão tenta operar. O
sujeito, no afã de possuir a Terra, parece possuir com estranhamento não digerido, como
aquele sangue que bebe o vampiro, marcado por fina tensão, afinal “Sou eu quem está
dentro de ti com eles/ [...] Como na morte dormirei, e digerindo/ o sangue puro que te
não bebi.”. Esta fina tensão entre o sujeito e a Terra, apresentada em estado de metáfora
pulsante que marca o fecho do poema, é o mesmo sentimento geral de que esta seção de
Peregrinatio é feita e que, portanto, é percebido no poema seguinte, que mesmo no tom
“noturno” aproxima-se de seu precedente.
Corre nos dois poemas, “Dupla glosa” e “Vampiro”, a mesma ideia de
percepção concernente ao espaço natal: uma dialética viva da “aproximação” e
“afastamento” da Terra, com a devida maiúscula com que Eric Dardel (2011) a grafou
em seus estudos pioneiros de temas geográficos a partir do princípio fenomenológico. O
sujeito lírico posiciona-se nas duas construções como alguém que observa o espaço
natal, sua pátria, materializada na descrição de paisagens que muito nos lembram o
Portugal de início do século XX. Observação que nos permite verificar o seu
53
afastamento sensível e geográfico. Se no primeiro poema, há o postulado da experiência
do poeta com seu objeto de evocação (Terra natal), o poema que segue é a exata
demonstração da complexidade de sentimentos que o sujeito mantém por esta Terra, o
próprio sangue que, apesar de puro, não fora bebido.
Há, portanto, ao que parece, uma aproximação da ideia fenomenológica de
ligação entre o sujeito (sujeito lírico e biográfico) e o objeto (Terra natal), no plano da
experiência, com a ideia de “espaço” e “lugar”, tal qual entendidos por Tuan (2012;
2013). Ao espaço, Tuan associa as ideias de liberdade e espaciosidade; ao lugar, as
ideias de segurança. É parte constituinte da vida o desejo por ambos, mesmo porque são
facetas inseparáveis com as quais a paisagem se nos apresenta, permitindo-nos
preenchê-la de valores os mais diversos. Para o sujeito dos poemas, Portugal, se dele se
fala, é “espaço” e “lugar” a todo momento preenchidos com a mais fina tensão que ata,
no corpo do poema, afetividade e aversão ao solo pátrio. Ideia preservada no poema que
segue, como assinalamos um pouco acima.
«Ave nocturna»
Ave nocturna ponte de cometas
Invalidada túnica de simples pregas
direi que me conheces quando pelas ruas
as luzes na manhã futura já se apagam
como pensamentos que se fecham sobre o impossível
nuvens douradas caudas era um peixe
tranquilamente preso a gestos de água fria
que entre pedras assa queres ah chamar-me
seguram-me se fujo o fogo queima
é uma verdade sabe-se tudo
o que eu diria te queimava ah nunca mais
nos passos vagos terei o sentido das colunas que se partem
[ao sopro
leve da tua passagem
nunca mais na treva encontrarei as marcas
luminosas que os teus dedos deixaram ao passar na minha
[fronte como
pétalas rasgadas de flores que pensei
como prados passados na chuva do teu sangue sobre o meu
Nunca mais auroras que nasciam
ventos que cruzavam com mais ventos
doutras eras
doutros lugares
de sítios
54
a que nunca fui senão comigo mesmo e aonde
levarei ardente nas mãos entreabertas
só memória das tuas
entre os dedos se partem
e são pedaços pousados no chão sujo
de tantas poluções perdidas
que os pés pisam
nesta viagem à beira de outro rio
negro oleoso crespo e oleoso e crespo como sabes
nunca mais.
(SENA, 1978, p. 28)
Há, em “Ave nocturna”, a permanência da dialética de aproximação e
afastamento que o poeta mantém em relação à cidade (extensão semântica do país, de
Portugal), que se manifesta com grande força no poema anterior, de onde recupera,
inclusive, a ideia de noite como espaço temporal adequado para a construção imagética
da experiência na cidade e no país Portugal. A “ave nocturna” poderia ser posta em
simetria ao “vampiro”, do que resulta, do ponto de vista do princípio argumentativo,
que a “ave nocturna” há de desempenhar aqui o papel de sujeito que vivencia a
experiência; portanto, aqui, é ela a exata metáfora do sujeito biográfico.
Aliás, ao colocarmos a figura da “ave nocturna” em justa simetria com a
imagem do “vampiro”, do poema precedente, surge aí outro aspecto de análise que
muito nos chama a atenção: a ideia de espaciosidade. Tuan (2013), ao tratar dos
sentimentos relacionados às experiências que os sujeitos têm com o “espaço” (abertura à
liberdade) e o “lugar” (lar), assim nos escreve sobre a espaciosidade:
Espaciosidade está intimamente associada com a sensação de estar livre.
Liberdade implica espaço, significa ter poder e espaço suficientes em que
atuar. [...] O fundamental é ter a capacidade para transcender a condição
presente, e a forma mais simples em que essa transcendência se manifesta é o
poder básico de locomover-se. Uma pessoa imóvel terá dificuldade em
dominar até as ideias elementares de espaço abstrato, porque tais ideais se
desenvolvem com o movimento – com a experiência direta do espaço por
meio do movimento. (TUAN, 2013, p. 70)
Ser a “ave nocturna” do poema e, também, o “vampiro” permitem ao poeta
exercer a plena sensação de liberdade, porque a ele é concedido o direito de peregrinar
pelos locais infectos. Lúcido da relação que mantém com sua Terra natal, e sem saber
55
quando haveria de ver novamente a “cor da liberdade” em Portugal, resta ao sujeito
lírico a peregrinação, completamente oposta à ideia de imobilidade, como é possível
notar a partir das palavras de Tuan. Peregrinar por espaços de exílio é, portanto, o
exercício próprio de uma liberdade conquistada quando Portugal experimentava
sentimento oposto, e, por isso mesmo, fora exilado; é um estender-se ao mundo.
No poema, escrito em 1951, a memória desempenha papel fundamental,
como percebe Cunha (2010), em seu estudo da poesia seniana a partir da ideia de
paisagem. Posto que seja movimento típico seu o de rememoração e o de esquecimento,
parece-nos novamente que o poema aproxima-se simetricamente de seu predecessor,
quando o sujeito tece os seguintes versos: “[...] direi que me conheces quando pelas
ruas/ as luzes na manhã futura já se apagam/ como pensamentos que se fecham sobre o
impossível”, resgatando a funcionalidade dos sentidos humanos (visão das luzes), que
captam a experiência retida pela memória.
A memória aqui desempenha uma função primordial: “ventos que cruzavam
com mais ventos / doutras eras / doutros lugares”. Os tempos e os lugares
parecem se fundir e confundir; passado e presente, lugares visitados apenas
na imaginação: “de sítios / a que nunca fui senão comigo mesmo e aonde /
levarei ardente nas mãos entreabertas / só memória das tuas” (CUNHA,
2010, p. 108)
De fato, os tempos e os lugares parecem operar certa fusão no poema, talvez
imageticamente permitida através de sua estrutura não linear, a estratégia de
espaçamento entre palavras que compõem um mesmo verso e a construção de versos
que, aparentemente, não contêm ligação forte, dentre outros caracteres que a forma do
poema nos apresenta. Se, no poema anterior, prevalece uma clara tensão aflitiva por
parte do sujeito lírico, que, a despeito da vontade de “sugar” de sua cidade a mais
resistente gota de sangue, tem sua vontade traduzida em impossibilidade, porque o mais
puro sangue não é bem digerido; se tudo isso é sugerido no poema anterior, a tônica de
“Ave nocturna” reside numa certa atitude conformativa, no sentido de que o sujeito
aceita o destino que lhe cabe cumprir: o de sua separação geográfica do espaço natal.
Por fim, resta ao sujeito rememorar a experiência vivida, eis porque a
memória exerce papel fundamental, não só, ao que parece, neste poema, mas em toda a
elaboração estética da seção “Portugal”. Jorge de Sena, um exilado dentro de seu
56
próprio país, e, posteriormente, exilado fora dele – e aqui é necessário que rejeitemos
qualquer referência ao exílio voluntário, posto que nunca ocorrera; não tivesse “optado”
pelo exílio, Sena provavelmente teria sido preso, ou coisa pior – encontra na memória o
meio para a realização de um resgate imagético (“ponte de cometas”, “ruas”, “luzes na
manhã”, “nuvens douradas”) e sonoro (“sopro leve”, “ouço os gatos brincar”, “rodar de
um eléctrico”) de um Portugal que, na época de produção daqueles poemas, caminhava
por se afigurar distante, do ponto de vista da geografia.
5.2 ESPAÇOS DE BRASIL (1959-65): SEGUNDO EXÍLIO
O estudo da obra de Jorge de Sena exige sempre atenção dobrada para a
percepção de miudezas que, muito mais que acessórias, compõem a força poética e
grandeza humana do poeta português. Ao passo que adentramos o universo de poemas
colididos na seção “Brasil” de Peregrinatio ad Loca Infecta, fica evidente a força do
detalhe, da miudeza, já prenunciada na epígrafe camoniana de abertura da seção
portuguesa. Há uma simetria entre o que vai dito na epígrafe e as linhas de força
temática daquela seção, mesmo procedimento utilizado na seção seguinte, aberta por
Heráclito que, em tradução para o português, diz: “(Porque, se a vida é breve, tantas
cousas/ buscamos? Para que terras alheias/ por outros sóis candentes? Quem da Pátria/
sai a si mesmo escapa)?”
Há, no verso último da estrofe heraclitiana, um questionamento que, não
fosse sua reconhecida autoria, diríamos pertencer ao próprio Sena. Afinal, o que o verso
põe em questão é a própria ideia de exílio e suas implicações para o sujeito que o vive
como estado de permanência, caso de Sena. Viver em exílio é viver apartado da Pátria, é
perder, num sentido, sua própria cidadania, para o quê escapar-se de si mesmo é opção?
Essas problemáticas ganham força lírica nos versos da seção “Brasil”, uma descida
crítica à consciência do sujeito biográfico em solo brasileiro, que sempre resgata,
resguardadas as devidas proporções, as imagens da terra portuguesa distante, como
ocorre com o poema seguinte, primeiro da seção.
57
Vespertino do Rio de Janeiro
Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
Na noite em que perpasso qual silêncio
não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.
Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.
(SENA, 1978, p. 37)
Este poema de 1959, início do exílio brasileiro de Sena, é composto por
duas paisagens que tomam conta do sentido visual do sujeito: a de Brasil, espacialmente
capturada pelo leitor; e a de Portugal, capturada por uma leitura possível da
extratextualidade da lírica. A definição geográfica do “vespertino”, no e do Rio de
Janeiro, é já o vislumbre da paisagem de que o sujeito falará ao longo do poema,
paisagem que abriga, aliás, dois espaços de valores antitéticos: os morros/favelas e o
mar imenso, numa dialética entre espaços abertos e espaços fechados, como nos dizem
os versos: “não sei se arranha-céus, ou se favelas/ que lado a lado arranham morros/
para sustento de miséria”. Favelas e arranha-céus, posto que sejam construções
arquitetônicas, possuem valores distintos, e não é esta a oposição central dos versos,
qual seja: a destes espaços se opondo à imensidão do mar: “Imenso mar,/ de altíssimas
sombrias transparências”. O mesmo mar enfrentado pelos portugueses, séculos antes da
composição deste poema que de certa maneira o recupera por evocação, é aquele que
separa o sujeito biográfico de sua terra natal18.
O mar, imenso mar, espaço de abertura e essencialmente simbolizado com a
vastidão e o sentimento de espaciosidade, é, na visão do poeta, paisagem que se impõe
18
Se aventarmos a hipótese de que o mar “português” que separa Jorge de Sena de seu Portugal distante
é o mesmo mar evocado quando das Grandes Navegações, das quais o reino português e o espanhol
foram os pioneiros, então, é lícito pensarmos que a lírica seniana, aqui, opera uma dupla
reminiscência: recupera a grandeza do mar, que é “português” desde sempre, apesar dos pesares e
infortúnios da modernidade em Portugal, e recupera o sentido de exílio que nele está contido, caso
lembremos que parte da lírica medieval é construída por meio do sentimento de ausência da pessoa
amada, que está além-mar, a serviço da coroa portuguesa.
58
entre o lugar, terra natal, e o si, “na noite em que perpasso qual silêncio./ Não sei se
amor me evita ou me protege,/ ou se é de amor que eu velo o brando sono/ ruidoso e
povoado.” A estrofe final arremata a ideia de ligação perdida com a pátria porque
composta de versos de fino erotismo, que insinuam a dor saudosa do sujeito por não ter
o objeto amado ao seu lado, para que, ambos, apreciem o vespertino que se encerra, “na
angústia dúplice de não ter-te ao lado.” Angústia, aliás, que é a própria tensão dialética
que o sujeito lírico enuncia desde a seção dedicada a Portugal, a de, a um só tempo,
amar e rejeitar criticamente a pátria que parece repeli-lo agora e sempre.
Se ao sujeito lírico – a quem, uma vez mais, o sujeito biográfico amalgamase, compartilhando sensações e pensamentos comuns – aparece-lhe à vista a imagem de
uma pátria ingrata, resta, então, a prática do testemunho poético, o que nos parece ser
aquele “encontro fortuito” que surge nos versos onze e doze de “Soneto ainda que não”,
e que é o mesmo procedimento explicativo encontrado em “Dupla glosa”, poema
anterior: “e torno realidade este fortuito/ encontro permanente que vivo.” É o encontro
entre o sujeito e o objeto de sua experiência, aqui o próprio exílio, como observamos no
poema que segue, de 1961, também da seção “Brasil”:
«Quem muito viu...»
Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;
e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.
(SENA, 1978, p. 50/51)
59
Depois de tudo aquilo que já discorremos acerca do testemunho poético e a
importância dos sentidos humanos para a sua execução, pareceria repetição
desnecessária falar do poema acima. É aparência pura a não necessidade de análise
desses versos, porque são neles em que, talvez pela primeira vez em Peregrinatio ad
Loca Infecta, apareçam imagens por demais evidentes da experiência do exílio e a visão
que o sujeito lírico tem dela. O título, por si, é prenhe de significados que
circunscrevem a interpretação do poema: porque o sujeito experienciou as sensações
diversas que os sentidos humanos podiam lhe proporcionar é que ele “muito
viu”/vivenciou – experiências “sanctas” e “infectas” – e, complementarmente, a
essencialidade do sentido da visão19 para o testemunho.
O sujeito que vive no exílio vive uma vida condensada, porque carrega as
visões da experiência passada no espaço natal. Assim, as mágoas que o poeta sentia em
relação a sua pátria, mágoa pela rejeição sofrida, tanto quanto as experiências positivas,
também constituem parte significativa da vida condensada. As humilhações decorrentes
da mágoa e do desprezo da crítica portuguesa em relação à sua obra, e tristes surpresas,
como o de ter sido compelido ao exílio. Condensada também porque visa novas
imagens nos espaços de exílio que o poeta há de habitar: “Quem muito viu, sofreu,
passou trabalhos,/ mágoas, humilhações, tristes surpresas;” Eric Dardel (2011) é preciso
ao falar dos sentimentos que o exílio provoca no Homem, na medida em que o
considera como ruptura brutal de um estado natural do sujeito, o de sua ligação
geográfica com a Terra, dentre os quais, a própria evocação do espaço natal, tornado
presença:
A realidade geográfica é, para o homem, então, o lugar onde ele está, os
lugares de sua infância, o ambiente que atrai sua presença. [...] O
afastamento, o exílio, a invasão tiram o ambiente do esquecimento e o fazem
aparecer sob a forma de privação, de sofrimento e de ternura. A nostalgia faz
o país aparecer como ausência, sobre o pano de fundo da expatriação, de uma
discordância profunda. Conflito entre o geográfico como interioridade, como
passado, e do geográfico totalmente externalizado, como presente.
(DARDEL, 2011, p. 34)
19
Sobre o sentido da visão, Tuan escreve: “Ver tem o efeito de colocar uma distância entre o eu e o
objeto. O que vemos está sempre lá fora. [...] Pensar cria distância. Os nativos se sentem à vontade
mergulhados na ambiência de seu lugar, mas, no momento em que pensam sobre o lugar, ele se torna
um objeto do pensamento ‘lá fora’.” (2013, p. 178) Ver, na poesia de exílio de Jorge de Sena, é,
portanto, um eterno e constante (re)pensar o lugar/Terra natal, na medida em que são descidas críticas
ao cerne de consciência do poeta, logo, pensamento materializado em lírica.
60
Quem vive no exílio, nas circunstâncias em que Jorge de Sena viveu
(implantação do regime militar), vive a situação de não cidadania, porque perde,
politicamente, os direitos de participar de tomadas de decisão em seu país. É ser
“privado em extremo da justiça justa;” porque a única “justiça” nunca poderia lhe ser
favorável, posto que a favor do regime que o compeliu ao degredo, e ter que percorrer
por terras e gentes, no sentido de conhecimento, com os sentimentos que o poeta
mantém pela pátria e os novos sentimentos que ele venha a cultivar pelos espaços de
afetividade que passa a habitar.
O poema encerra com um tom fatalista, porque estabelece simetria entre a
experiência do exílio e a experiência da morte: viver em exílio é morrer pouco a pouco,
não de maneira física, e sim de modo espiritual, porque essa é a natureza da relação que
o homem (sujeito) tem com a terra (objeto):
[...] da morte espiritual do homem a partir do abandono da pátria, está
presente na última estrofe do soneto. E, sob uma carga não apenas
referencial, mas assaz emotiva, na qual o poeta como que expõe sua vida, é
desfiada sua peregrinação ao longo de décadas de trabalho
poético.(QUEIROZ, 2006, p. 61)
Viver em exílio é, pois, morrer, na medida em que, uma vez apartados da
vivência plena, o homem e a Terra, resta apenas um corpo físico a ser levado pela morte
biológica. Há, como dissemos anteriormente, o estabelecimento de uma concepção da
experiência do exílio que se coaduna com a concepção do poeta. Por mais ambígua e
aflitiva que tenha sido a relação de Sena com Portugal, parece-nos que o poeta, mesmo
lançando um olhar estranhado às nacionalidades e patriotismos, atitude que toma conta
do magnífico “Em Creta, com o Minotauro”, parece reconhecer certa importância que o
espaço natal tem para os sujeitos, mesma ideia que Eric Dardel desenvolvera em seu O
Homem e a Terra: natureza da realidade geográfica (2011, p. 41):
Habitar uma terra, isso é em primeiro lugar se confiar pelo sono àquilo que
está, por assim dizer, abaixo de nós: base onde se aconchega nossa
subjetividade. Existir é para nós partir de lá, do que é mais profundo em
nossa consciência, do que é “fundamental”, [...] Antes de toda escolha, existe
esse “lugar” que não podemos escolher, onde ocorre a “fundação” de nossa
existência terrestre e de nossa condição humana. Podemos mudar de lugar,
nos desalojarmos, mas ainda é a procura de um lugar; nos é necessária a base
para assentar o Ser e realizar nossas possibilidades, um aqui de onde se
61
descobre o mundo, um lá para onde nós iremos. Todo homem tem seu país e
sua perspectiva terrestre própria. Aflição do exilado, do deportado, de quem
são retiradas as bases concretas e próprias de seu ser. Resta-lhe uma
quantidade de “objetos”: as árvores, as colinas, as casas, mas é sua própria
subjetividade que foi ferida, e todas as “razões” não podem lhe recuperar o
valor perdido desses “objetos”, falta poder “possuí-los” a partir de um
suporte. [grifos do autor]
Resta a Jorge de Sena uma porção significativa de imagens de Portugal, de
fato, mas estas não parecem que tenham perdido o valor original. Se, ao exilado, os
“objetos” da Terra pátria, como assinala Dardel, perdem sua capacidade de alcance
semântico porque lhes falta o suporte terrestre para lhes dar um espaço concreto de
realização, em Sena, os espaços de exílio é que parecem desempenhar tal função. Há, na
poesia de exílio de Sena, a recuperação quase que obsessiva dos espaços de Portugal, e,
mesmo quando é de Brasil ou Estados Unidos e/ou de Europa que ele insinua falar,
estes espaços mais parecem ser o suporte ideal para a recordação crítica, afinal trata-se
de uma peregrinação à consciência arguta do sujeito.
O tom geral que está presente nos versos de “«Quem muito viu...»” parece
ser o mesmo tom que figura na construção do poema seguinte. O poeta, em “Glosa de
Guido Cavalcanti”, de 1961, evoca a esperança desesperançada “Porque não espero de
jamais voltar/ à terra em que nasci; porque não espero,/ ainda que volte de encontrá-la
pronta/ a conhecer-me como agora sei/ que eu a conheço”. Se por um lado o sujeito
jamais espera regressar a Portugal, – ao que entendemos ser a pátria a que se espera
regressar, num novo exercício de aproximação do sujeito lírico com o sujeito biográfico
–, porque ciente da situação política de seu país e da impossibilidade de mudança breve;
há, por outro, a possibilidade de que, caso volte, ela, a pátria, não estaria pronta para
recebê-lo, como de fato sucedeu.
Glosa de Guido Cavalcanti
Porque não espero de jamais voltar
à terra em que nasci; porque não espero,
ainda que volte, de encontrá-la pronta
a conhecer-me como agora sei
que eu a conheço; porque não espero
sofrer saudades, ou perder a conta
dos dias que vivi sem a lembrar;
62
porque não espero nada, e morrerei
no exílio sempre, mas fiel ao mundo,
já que de outro nenhum morro exilado;
porque não espero, do meu poço fundo,
olhar o céu e ver mais que azulado
esse ar que ainda respiro, esse ar imundo
por quantos que me ignoram respirado;
porque não espero, espero contentado.
(SENA, 1978, p. 53)
Jorge de Sena, por ter sido aquele que muito viu e, portanto, testemunhou
em poesia sua visão, tendo sofrido as mais variadas antinomias do exílio, é incapaz de
enxergar a pátria do mesmo modo como quando não era ainda exilado. Aliás, as visões
de Portugal, mesmo quando ali ainda estava, já eram por si só bastante críticas e isentas
de qualquer ufanismo cego; em parte porque, em solo pátrio, foi ele já um exilado, e
porque o pensamento crítico e questionador sempre o acompanharam. Em seu segundo
exílio, aquelas visões se fortalecem junto da certeza de que, agora mesmo que aparece
um “novo” Sena – novo porque moldado pelas experiências de exílio impregnadas em
sua biografia –, incapaz de se render ao patriotismo de rebanho, deverá jamais ser
compreendido em solo pátrio.
De fidelidade fala ainda o poema, quando, no oitavo verso, seguido do
novo, que inicia a terceira estrofe, diz “[...], e morrerei/ no exílio sempre, mas fiel ao
mundo,”. Uma fidelidade ao mundo, não a Portugal, porque o compromisso de Sena é
com a humanidade, explicitando a forte ética que orienta sua vida. Uma ética que é, ao
mesmo tempo, estética na medida em que, como dissemos em ocasião anterior, a poesia
seniana tem por força poética o testemunho do que foi “ouvido” e, sobretudo, “visto”, e
que deve passar à poesia com todo o cuidado estilístico que a poesia deve ter, sem
esquecer-se de sua função primordial: operar metamorfoses.
O poeta recupera o tema da morte em exílio que figura no poema anterior;
mas, se, naquele, os versos prenunciam a morte espiritual do sujeito que vê a si distante
da Terra pátria, aqui, além dessa possibilidade semântica, há a previsão da morte física.
É nos espaços de exílios que o sujeito há de morrer, como, de fato, ocorreu na biografia
de Sena. Com efeito, somente no ano de 2009 os restos mortais de Sena foram
trasladados dos Estados Unidos, seu último espaço de exílio, para a pátria que tanto o
63
rejeitou em vida; rejeição que figura nos versos décimo terceiro e quarto do poema:
“[...] esse ar imundo/ por quantos que me ignoram respirado;”.
Há, na estrofe terceira, a imagem do poço fundo, de onde o sujeito lírico vê
o céu azul, “porque não espero, do meu poço fundo,/ olhar o céu e ver mais que
azulado”, a própria representação da ideia que orienta sua peregrinação: descida crítica
à sua consciência. É do espaço do poço fundo que o sujeito lança mão de sua esperança,
porque figura nos versos segundo e terceiro o seguinte “[...] porque não espero,/ ainda
que volte [à pátria],”, esperança de regresso que é também desesperança, na medida em
que a pátria nunca há de lhe entender naquilo que foi, grande poeta e sujeito
essencialmente humano. A imagem do poço fundo é essencial para o poema porque será
o espaço que desempenhará o papel substituto de “lar” para o poeta. Dardel e Tuan são
precisos quanto a isso:
Há, no lugar de onde a consciência se eleva para ficar de pé, frente aos seres
e aos acontecimentos, qualquer coisa de mais primitivo que o “lar”, o país
natal, o ponto de ligação, isso é, para os homens e os povos, o lugar onde eles
dormem, a casa, a cabana, a tenda, a aldeia. Habitar uma terra, isso é em
primeiro lugar se confiar pelo sono àquilo que está, por assim dizer, abaixo
de nós: base onde se aconchega nossa subjetividade. Existir para nós é partir
de lá, do que é mais profundo em nossa consciência, do que é “fundamental”
[...]. Antes de toda escolha, existe esse “lugar” que não pudemos escolher,
onde ocorre a “fundação” de nossa existência terrestre e de nossa condição
humana. Podemos mudar de lugar, nos desalojarmos, mas ainda é a procura
de um lugar; nos é necessária uma base para assentar o Ser e realizar nossas
possibilidades, um aqui de onde se descobre o mundo, um lá para onde nós
iremos. (DARDEL, 2011, p. 41) [grifos do autor]
O poço é o próprio substituto de “lar” para o sujeito do poema, é a base de
assentamento desse seu Ser, que deve recuperar as imagens de Portugal, o lugar não
escolhido, a terra natal, ao longo de toda sua produção voltada para o exílio.
Longe de ser uma esperança que morre desesperançada no vislumbre de o
sujeito, em algum tempo futuro, restabelecer a conexão com a Terra espacialmente
distanciada de si, o sujeito lírico há de buscar novos espaços e lugares de habitação, de
convivência, tendo sido Creta um deles. Lá é o espaço onde Jorge de Sena será abrigado
junto de um companheiro seu, o Minotauro. No poema “Em Creta, com o Minotauro”,
talvez o mais biográfico dos poemas de Peregrinatio ad Loca Infecta, o poeta estabelece
uma precisa simetria entre si e a figura mítica do minotauro a partir do tópico da
64
experiência do exílio. Ambos, Sena e o Minotauro, “metade boi e metade homem, como
todos os homens.”, foram compelidos ao degredo.
I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.
O poema, que se divide em cinco partes complementares e que narram uma
trajetória específica, a da peregrinação por entre espaços de exílio, apresenta, na porção
primeira, um breve introito à vida de Sena e a algumas problemáticas que a vida em
exílio impõe ao sujeito que o experiencia como condição permanente. O engenheiro,
nascido português, de uma linhagem portuguesa, daí a referência “de pais portugueses”,
que se sente estrangeiro em seu próprio país desde muito cedo, será, também, pai de
filhos brasileiros, porque, tendo o poeta tido nove filhos com Mécia de Sena, alguns
deles nascem no período do exílio brasileiro, e, como que anunciando seu terceiro
espaço de exílio, o poeta escreve que será “[...] talvez norte-americano quando lá
estiver.”, pondo em reflexão novamente o problema de (sua) identidade espacial.
Ainda sobre a questão da identidade nacional, Sena lança um olhar
extremamente suspeito em relação às nacionalidades, de onde emana a desconfiança
com que trata qualquer rigidez ou sentimento de pertença exacerbado que o sujeito
possa nutrir por uma pátria. De uma perspectiva, poderíamos aventar a possibilidade de
que assim Sena concebe os patriotismos por ter sido, ele mesmo, vítima de um certo
65
nacionalismo patológico que emerge no coração político de qualquer país assolado por
uma ditadura militar. Não nos esqueçamos do que nos escreve Said:
Chegamos ao nacionalismo e sua associação essencial ao exílio. O
nacionalismo é uma declaração de pertencer a um lugar, a um povo, a uma
herança cultural. Ele afirma uma pátria criada por uma comunidade de
língua, cultura e de costumes e, ao fazê-lo, rechaça o exílio, luta para evitar
seus estragos. Com efeito, a interação entre nacionalismo e exílio é como a
dialética hegeliana do senhor e do escravo, opostos que informam e
constituem um ao outro. Em seus primeiros estágios, todos os nacionalismos
se desenvolvem a partir de uma situação de separação. (SAID, 2003, p. 49)
A separação de que Said fala na linha última do trecho acima é, de fato, a
situação do exílio, que provoca a separação geográfica entre o sujeito e o lugar natal.
Tal separação pode exacerbar um nacionalismo já existente no sujeito, que, mesmo
tendo sido expulso de seu país por conta de certo nacionalismo patológico que é parte
integrante dos regimes totalitários, sente necessidade de restabelecer sua conexão
umbilical com a Terra natal, através do sentimento de nacionalismo, declaração
primeira e última de pertencimento a um lugar. Outra consequência do exílio é o
surgimento do sentimento de nacionalismo naqueles sujeitos exilados que não o
possuíam de pronto, ainda que sua não existência seja passível de questionamentos.
Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o
exílio é uma solidão vivida fora do grupo: a privação sentida por não estar
com os outros na habitação comunal. O exílio, ao contrário do nacionalismo,
é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão
separados das raízes, da terra natal, do passado. Em geral não têm exércitos
ou Estados, embora estejam com frequência em busca deles. Portanto, os
exilados sentem uma necessidade urgente de reconstituir suas vidas rompidas
e preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um
povo restaurado. (SAID, 2003, p. 50)
Em Sena, como que oposto a essas duas linhas de força, há o fortalecimento
de uma postura crítica em relação ao apego doentio à pátria, apego que justifica as mais
cruéis atitudes em nome da porção geográfica natal, e das quais o poeta fora vítima.
Atitude justificada, aliás, pelos versos com que reflete em torno dessa questão:
“Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,/ se usam e se deitam fora com
todo o respeito/ necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.” O poeta, em
explícita referência a Fernando Pessoa, na figura de seu semi-heterônimo Bernardo
66
Soares, diz que “Eu sou eu mesmo a minha pátria.”, em oposição à afirmação pessoana
de ligação da noção de pátria com a língua, quando escreve que “minha pátria é a língua
portuguesa.” A afirmação seniana provém de uma descida profundamente crítica do
poeta ao seio da ideia de nacionalismo, que ele prontamente rejeita, porque se coloca
como um sem-pátria, na medida em que ambos, pátria e sujeito, parecem repelir-se
mutuamente.
Ora, ao postular-se como um apátrida, caso pensemos na pátria como
realização espiritual de uma porção geográfica de terra, Sena volta para si mesmo e, se
nos parece por um momento oposto à ideia de Pessoa, de ser a pátria a própria língua,
esta possibilidade logo se dissipa em nossa mente quando o poeta claramente adverte:
“[...] A pátria/ de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações/ nasci.”. A
língua portuguesa, mesmo tendo sido a sua língua mãe por um acaso de gerações, de
que faz parte Camões, Fernando Pessoa e dentre tantos outros que Sena profundamente
admirou e estudou ao longo de sua vida, é o espaço de possibilidade de realizações do
ser do poeta, traduzindo-se em liberdade de tudo poder dizer, em poesia e prosa, aquilo
que a pátria geográfica cala:
Das entrelinhas do neo-realismo à sobrelinha seniana, a literatura é o espaço
de tudo dizer que dinamita o censurado. É um exílio literário, neste sentido
também exigido pela necessidade de tudo dizer, adentrado, porque se faz na
e pela língua; aliás, o exílio é de que tudo se diga na língua censurada cá
dentro. A notícia que chega é a da própria língua na expressão de tudo dizer.”
(LAGE, 2010, p. 25)
Por tudo isso, somente resta ao poeta o conforto de que o Minotauro o há de
compreender, porque igualmente exilado: “O Minotauro compreender-me-á./ Tem
cornos, como os sábios e os inimigos da vida/ É metade boi e metade homem, como
todos os homens.” Há um espelhamento entre essas duas presenças, a de Jorge de Sena
e a do Minotauro, de que nos fala Salles:
Por um espelho enigmático e distorcido mas, ainda assim, espelho, o poeta
vai traçando através da biografia do amigo Minotauro, pela citação e pela
simetria, sua própria vida: exilado em labirintos como o Minotauro, “metade
boi e metade homem” como o Minotauro e “todos os homens”, sábio e
inimigo da vida como todas as bestas, recluso em poesia como o “filho de
67
Pasifaë, irmão de um verso de Racine”. Aos poucos, a descrição da figura
mitológica e a auto-apresentação (“Nascido em Portugal, de pais portugueses
/ e pai de brasileiros no Brasil”…) vão se entrelaçando num único texto que,
ambivalente, funciona como um poema, singular, de biografias, no plural.
Unidas
pelo
diálogo,
as
figuras
híbridas
de
um
poeta
português/brasileiro/norte-americano e de uma criatura “metade boi e metade
homem” tornam-se impossíveis reflexos um do outro, tão diferentes quanto
podem ser escritor e besta mitológica, próximos como personagem e autor
que se faz também personagem de si mesmo, irmanados pela escritura a
ponto de se converterem em potenciais metáforas um do outro. (SALLES,
s/d. s/p)20
O espelhamento entre a figura do poeta e a do Minotauro somente é possível
porque o minotauro descrito em Sena, diferentemente da larga mitologia, é um ser
humanizado, tal qual ele mesmo. Distanciando-o da imagem de monstro a ser morto por
Teseu, o grande herói, o Minotauro seniano experiencia o exílio, porque condenado a
viver eternamente no labirinto em que o prenderam. Há quase que uma aproximação
entre a figura que aparece no poema “Em Creta, com o Minotauro” e o Minotauronarrador de “A casa de Astérion”, conto do argentino Jorge Luis Borges que consta da
coletânea O Aleph (1949). Na ficção borgeana, o leitor depara-se com a perspectiva da
criatura mitológica, tão vítima das circunstâncias que lhe foram impostas, tão vítima do
exílio, como o é o próprio Sena.
II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que
[se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho
20
A versão completa do texto, cujo trecho citado nos ocorre agora, consta do “Ler Jorge de Sena”,
projeto abrigado por pesquisadores da obra de Jorge de Sena da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), reunindo farto material acerca da biografia, obra e fortuna crítica do poeta português,
pode
ser
encontrada
através
do
seguinte
link:
<<
http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/ressonancias/pesquisa/ufrj/18-biografias-de-um-minotaurojorge-de-sena-e-a-vida-que-escreve-a-si-mesma/ >> Contudo, o texto fora publicado originalmente
em: Biografias de um Minotauro: Jorge de Sena e a vida que se escreve a si mesma.. In: Paula Morão;
Carina Infante do Carmo. (Org.). Escrever a Vida: Verdade e Ficção.. Escrever a Vida: Verdade e
Ficção.. 1ed.Lisboa: Campo das Letras, 2008, v. , p. 339-3
68
[da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.
III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu,porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras
informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.
Jorge de Sena e o próprio Minotauro hão-de conversar, em Creta, na língua
“volapuque”, uma língua artificial que não pertence ao poeta como língua materna e
muito menos à criatura mitológica. Esta língua, que os dois desconhecem e por isso
mesmo servirá como língua de comunicação, não se vincula a nenhuma pátria, a
nenhuma concepção de nacionalismo e, talvez, por isso o poeta a sugere com a
finalidade já exposta. Além de encerrar a ideia de criação de uma nova língua, em
oposição às línguas nacionais, tal qual o português, que representa as nações que dela se
servem, a estrofe terceira nos fala da sequência de tragédias e injustiças de que somos,
também, herdeiros de gerações milenares, “de toda esta merda douta que nos cobre há
séculos,/ cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos/ os escravos de
outros.”
IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver
69
[vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.
A tessitura deste poema é toda favorável à ideia antinacionalista que
aprisiona e condiciona os sujeitos em “camisas” que jamais devem ser despidas, para
recuperar a própria metáfora seniana, e que desemboca numa profunda rejeição da
existência da própria pátria, enquanto espaço de convivência estritamente necessário
para o sujeito. Mesmo o café que ambos tomam, poeta e criatura humanizada, não deve
pertencer à pátria alguma, porque importa pouco. Basta a própria essência do café para
garantir-lhe sua existência, assim como bastam a existência do poeta e, por extensão, a
do minotauro, para garantir-lhes a existência apátrida.
V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.
5/7/1965
Dito isso, o tom geral de “Em Creta, com o Minotauro” não se mostra
desvinculado da ideia central que circula nos poemas da seção “Brasil”, de Peregrinatio
ad Loca Infecta. Jorge de Sena, referindo-se ao Brasil enquanto pátria, quando diz ser
pai de brasileiros, o que se confirma em sua biografia, não ocorre injustificadamente a
composição do poema que, elaborado no ano de 1965, é o testemunho grandioso de uma
vivência em solo brasileiro que está para ser encerrada, na medida em que o golpe
militar já é parte da vida política do país e Sena temia sofrer represálias em função de
70
seus posicionamentos políticos. De outro prisma, é ainda o testemunho de uma vivência
que está para ser iniciada, a experiência do exílio derradeiro vivido nos Estados Unidos.
As imagens da pátria brasileira, assim como as imagens da pátria portuguesa, hão-de
ficar na memória de Jorge de Sena, que, agora, é responsável pela evocação de duas
vivências geográficas, a de Portugal, pátria natal, e a do Brasil, pátria acolhedora,
intensificando o processo de condensação das experiências espaciais relacionadas às
paisagens de exílio por onde habita.
5.3 ESPAÇOS DOS E.U.A. (1965-69): EXÍLIO DERRADEIRO
O ano de 1965 é marcado pelo último exílio a que Jorge de Sena seria
compelido. No dia 6 de outubro, partem o poeta e sua família para os Estados Unidos,
chegando primeiro a Nova Iorque, de onde seguem para o Madinson, onde Sena haveria
de assumir o cargo de Visiting Professor (Professor Visitante) na University of
Winsconsin. Tendo sido plenamente efetivado naquela instituição de ensino, o poeta
pede demissão da Faculdade de Ciências, Filosofia e Letras de Araraquara,
posteriormente UNESP-Assis. É desse período a produção dos poemas da seção
“Estados Unidos da América”, de Peregrinatio ad Loca Infecta, cujo lançamento
também se dá nesse mesmo período, no ano de 1969.
A poesia que vai escrita no espaço de exílio norte-americano tem como
imagem de evocação a paisagem do Madinson e proximidades, que fornecem, nesses
primeiros anos, um constructo sólido de lugar, entendido enquanto segurança e
identificado com a afetividade característica desses ambientes, que permite a elaboração
de uma poesia que, como na seção anterior e sempre, evoca um Portugal
simultaneamente perto e distante do sujeito que o rememora, o próprio Sena, para a
realização de sua finalidade última, a metamorfose. O luso-brasileiro, e professor
americano, haveria ainda de se transferir para a Califórnia, no ano de 1970, onde
assume o cargo de professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na University of
California, Santa Barbara (UCSB).
71
De Portugal ao Brasil e do Brasil aos Estados Unidos da América, “Do
Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos” é um poema que muito bem expressa a
transição de lugares de habitação e espaços de convivência que foram desde sempre
marca notável da biografia de Sena, que inunda de beleza humana a poesia
circunstancial com a qual firmou intenso compromisso. O título do poema já anuncia
sua temática, que há de ser a da peregrinação infecta aos espaços de exílio, posto que
estabeleça uma linha de união entre o Brasil, por meio do Trópico de Capricórnio, que
corta a porção sul e sudeste de seu território, justa parte onde Sena passou seu exílio
brasileiro, e os Estados Unidos, evocado pelos Grandes Lagos, paisagem que abriga a
maior porção de água doce do mundo.
Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos
Deste Outono em árvores despidas
que em mil ramículos cruzados o livor enredam
celeste e nevoento de que as águas
tão crespamente se embranquecem frias,
eu não sabia já. Envelhecia
num Verão chuvoso ou num Inverno claro
em que de noutras árvores a folhagem viva
apenas de ser verde persistia.
Agora não. Neste hirto esbracejar de tantos dedos
que o ar sem unhas cortam tão tranquilos,
melhor hei-de saber que o tempo passa
em que sou eu quem passa com o tempo
neste ficar do mundo, sempre renovado,
com que da nossa vida é feito o tempo alheio.
O poema é construído com a matéria do transcorrer do tempo, representado
pelo correr das estações climáticas. O tempo, aliás, que parece ser matéria de alta
frequência na poesia seniana, justamente por ser caracterizada como uma poesia da
circunstancialidade, de onde o tempo deve ser elemento fundamental, é o anúncio ou
mesmo a marca dos anos para Jorge de Sena, que, à medida que passam, solidificam o
processo de criação de memórias dos espaços dantes percorridos, já não mais presentes
no plano físico. É “Deste Outono em árvores despidas/ [...] num Verão chuvoso ou num
Inverno claro” o espaço de onde fala o poeta e também o tempo de onde emana seu
testemunho poético.
72
O tempo, esta matéria breve sentida no passar das estações, é metaforizado
ainda na imagem do próprio sujeito lírico, porque “melhor hei-de saber que o tempo
passa/ em que sou eu quem passa com o tempo/ neste ficar de mundo, sempre
renovado,/ com que da nossa vida é feito o tempo alheio.”, isto é, parece haver uma
constância, ou permanência, da ordem do mundo, neste eterno “ficar” de si, em
contraste com a eterna expansão que se dá no sujeito. O poeta já não mais fala do
espaço do Brasil, mas as imagens que nele tornaram-se permanência vívida hão de
frequentar sua memória poética, como se dá na construção desse poema de 1965, cuja
força de linha temática será recuperada no poema seguinte, “«Frígido vento...»”,
também do mesmo ano.
«Frígido vento...»
Frígido vento
que não retorna
ah que saudades tenho de ser jovem
quando como ele
passava gélido
queimando as faces
crestando as mãos
deixando em corpos
algo de mim
sem que ficasse
nem lá nem cá
menos de mim
ah que saudades
tenho de ter
sido como ele
o jovem que talvez será na memória
nos corpos em que o foi, como eles são
no meu memória de que o não sou mais.
[...]
(SENA, 1978, p. 85/86)
Em “«Frígido vento...»”, é nítida a importância da matéria tempo, daí sua
correspondência imediata com o poema anterior, porque os versos hão de abordar a
justa relação do homem com a experiência irremediável do transcorrer do tempo,
metaforizado, aqui, pelo “frígido vento”, que se refere ao esquema das estações
climáticas, também símbolo do transcorrer do tempo, temática do poema analisado
anteriormente. O sujeito sente a passagem do tempo com íntima dor porque sua
73
passagem própria é sinalizadora de um regresso que nunca ocorrerá, o de sua juventude,
como vai escrito aqui: “Frígido vento/ que não retorna/ ah que saudades tenho de ser
jovem” e, mas adiante, como que num desejo de ser como o vento e, assim, poder
regressar ao tempo de sua juventude, exclama “ah que saudades/ tenho de ter/ sido
como ele/ o jovem que talvez na memória/ nos corpos em que o foi, como eles são/ no
meu memória de que o não sou mais.”
O vento da juventude, que “passava gélido/ queimando as faces/ crestando
as mãos/ deixando em corpos/ algo de mim/ sem que ficasse/ nem lá nem cá”, não será o
mesmo vento que passa na idade adulta do sujeito lírico, pelo motivo óbvio encontrado
na distância temporal entre o instante da tessitura do poema e aquele da concretização
da experiência, muito anterior, ao que nos parece. Ainda que o sujeito pudesse sentir o
vento regressando, por alguma impossibilidade, nem o sujeito seria o mesmo de sua
juventude, daí o lamento exclamativo pelo regresso de sua juventude, e nem mesmo o
vento teria suas propriedades passadas, vento “[...] nunca mais/ gélido vento/
queimando as faces/ crestando as mãos/ deixando-as sujas/ de intimidade/ despudorada,
anônima e feliz.” Parece-nos, assim, que o vento, bem como as estações climáticas do
poema precedente, é metáfora para o próprio relacionamento conturbado que o sujeito
mantém com a pátria, uma relação de pertença e não-pertença, forças antagônicas
materializadas simultaneamente e numa tensão harmônica na lírica de Jorge de Sena.
Como o vento frígido que passa na juventude e que não mais regressa na
vida do poeta, senão por árduo exercício de recordação sensorial, e o transcorrer das
estações, que é o sinal vivo e expositivo da passagem do tempo na vida de Sena, é,
então, em tom conformativo que o sujeito assume a impossibilidade de viver novamente
na pátria portuguesa, mesmo quando o regime salazarista parece enfraquecer, quando
“Salazar retira-se definitivamente do controle português em 1968, deixando para
Marcelo Caetano a difícil missão de comandar uma nação à beira do colapso social e
propondo uma certa ‘abertura’ política, como última tentativa de manutenção do sistema
de governo” (QUEIROZ, 2006, p. 71). É dessa conformidade de exílio que é composta
a matéria de um poema como “Noutros Lugares”, que conclui o percurso analítico da
poesia seniana pelos espaços de Estados Unidos da América.
Noutros Lugares
74
Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam ou inda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
[...]
O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.
Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que não reata,
senão noutros lugares que não conheço.
“Noutros Lugares” é o poema que, talvez, melhor expresse as possibilidades
de relacionamento que os sujeitos podem manter com os lugares por quais percorrem,
dentro da seção “Estados Unidos da América”. Tendo sido escrito em 1967, ano em que
Sena é efetivado como professor de Literaturas Portuguesa e Brasileira do
75
Departamento de Espanhol e Português, da University of Winsconsin, e o ano mesmo
em que o poeta e sua família mudam de casa, dentro do próprio território de Madinson,
não é, talvez, a este lugar específico que o poema remete, senão a outros lugares bem
mais expressivos na trajetória do poeta. A casa, enquanto lugar, e a cidade, espaço, são a
base de evocação da temática do poema que sobre tempo e lugares há de versar.
O tempo é matéria moldadora de sujeitos, o que, num certo sentido, é a sua
essência mesma, caso lembremo-nos dos poemas anteriormente trabalhados e nos quais
a matéria temporal é sempre referida a certa vivência que jamais pode ser recuperada,
senão pela memória ativa. Viver em outros lugares que não a pátria, ainda que esta
pátria seja ingrata, como fora por muito tempo Portugal para Jorge de Sena, não
significa viver numa impossibilidade de se ser feliz, “Não é que ser possível ser feliz
acabe,[...]”, porque o tempo, “o tempo nos afina e nos apura [...]” e, mais, fortalece o
sentimento de conformidade em relação à impossibilidade de habitar os espaços da
pátria como dantes o sujeito habitara.
Assim como passa o tempo por sobre as pessoas, afinando-as e apurando-as,
passa o tempo, também, por sobre os lugares, expondo uma característica sua pouco
lembrada: sua finitude. A estrofe segunda inicia com um verso revelador: “É que os
lugares acabam. Ou ainda antes/ de serem destruídos, as pessoas somem [...]” A
existência de um lugar só é possível a partir da ideia de acolhimento e afetividade, em
contraste com a ideia de espaço, que implica amplidão e liberdade. Ora, acolhimento e
afetividade só são possíveis de se relacionar a um lugar se entendidos como parte da
experiência humana. Não existe, pois, a ideia de lugar apartada da existência e
experiência humana, daí que os lugares acabem não por destruição, porque mesmo aí
eles poderiam sobreviver em memória, mas porque não há mais quem os habite. Essa
concepção de lugar/espaço a partir da experiência humana é fundamental na Geografia
Humanista Cultural, como fica claro no escrito de Tuan que segue:
Na experiência, o significado de espaço frequentemente se funde com o de
lugar. “Espaço” é mais abstrato do que “lugar”. O que começa como espaço
indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e
o dotamos de valor. [...] As ideias de “espaço” e “lugar” não podem ser
definidas uma sem a outra. A partir da segurança e estabilidade do lugar
estamos cientes da amplidão, da liberdade e da ameaça do espaço, e viceversa. (TUAN, 2013, p. 14)
76
Dardel, ao escrever algumas belíssimas linhas acerca de certa concepção de
paisagem diametralmente oposta à concepção clássica, que a entende enquanto cenário a
ser visto e apreciado, o que pressupõe claramente uma cisão entre sujeito apreciador
(homem) e o objeto apreciado (paisagem), como se de duas coisas distintas se falasse,
parece ser de grande auxílio ao que estamos querendo expor. Não que as paisagens
sejam
lugares
(algumas
podem
ser),
mas
sua
condição
de
existência
é
fundamentalmente a mesma da do lugar, ambos compreendidos numa perspectiva
fenomenológica: “A paisagem pressupõe uma presença do homem, mesmo lá onde
toma a forma de ausência. Ela fala de um mundo onde o homem realiza sua existência
como presença circunspecta e atarefada.” (DARDEL, 2011, p. 32)
O poema encerra com o resgate do tempo passado que, para o sujeito lírico,
não se traduz em saudade, mas raiva: “Se do que vi ou tive uma saudade sinto,/ feita de
raiva e do vazio gélido,/ não é saudade, não.” Novamente evocados para a composição
da poesia circunstancial, os sentidos cumprem aqui sua função de viabilizadores da
experiência vivida que, num segundo momento, transforma-se em memória
rememorada e em conhecimento intelectual de mundo. Daquilo que o poeta viu e teve,
num tempo que não lhe é mais acessível, resta agora não mais uma saudade tipicamente
portuguesa: “[...] Mas muito apenas/ o horror de não saber como se sabe agora/ o
mesmo que aprendi.”, o horror mesmo de só agora, tendo o poeta descido ao cerne de
sua consciência crítica, enxergar sua pátria despido de quaisquer sentimentos que não
sejam a tristeza e o rancor, talvez, de ser a vida este “[...] hábito quebrado que se não
reata,/ senão noutros lugares que não conheço.”
Foi desses lugares que o sujeito lírico desconhece, entretanto, que o próprio
Jorge de Sena produziu seus poemas de exílio, cuja circunstancialidade nunca fora
alterada. A meio do poema vão os seguintes versos: “Apenas sei que as circunstâncias
mudam/ e que os lugares acabam. E que a gente/ não volta ou não repete, [...]. De fato,
as circunstâncias que regem o exílio podem mudar, conforme as variáveis que a ele
estão atreladas; para Sena, infelizmente, essas circunstâncias nunca mudaram, de onde
morre o poeta um eterno exilado, mesmo quando em sua pátria já não mais o sistema
político era controlado pelo regime militar. Portugal, por outro lado, espaço que tem
larga frequência na poesia seniana, jamais acabou para o poeta, que o visitaria algumas
vezes antes de falecer, vítima de câncer.
77
Procedendo às últimas análises deste capítulo, cumpre ainda que reservemos
algumas linhas para tratar da seção “Notas de regresso à Europa”, uma seção à parte na
composição de Peregrinatio ad Loca Infecta, composta essencialmente por poemas
construídos durante os meses em que Jorge de Sena passou na Europa, onde visitou
diversos países, cidades, monumentos e, inclusive, regressou a Portugal – Sena até
mesmo realizou procedimento cirúrgico ali. Dissemos que se configura como seção à
parte porque o período de fixação do poeta, em cada um desses outros lugares da
Europa, é por demais curto para que identifiquemos qualquer traço de exílio e dor
incurável. Aliás, a ida à Europa é completamente voluntária, o que por si descaracteriza
a experiência do exílio, que pressupõe o oposto.
Não por acaso, Sena escolhe como epígrafe de “Notas de um regresso à
Europa” uma estrofe de Safo, onde lemos,
Ao lar, Vésper, tu fazes que regressem todos
Que a radiante Aurora aos longes conduziu:
Ovelhas ao redil, as cabras aos apriscos,
E os filhos para ao pé de sua mãe.
Regressar à Europa e, numa extensão muito mais íntima e precisa, regressar a
Portugal, é, para Sena, o regresso à mãe permitido por Vésper. Uma mãe ingrata, de
certo, mas ainda sim uma mãe. Os poemas que figuram nesta seção são
fundamentalmente espaciais, no sentido de que são quase como quadros, representações
imagéticas dos lugares vistos, das paisagens, dos monumentos, enfim, de tudo aquilo
que o poeta viu durante sua viagem pela Europa. Fica, por fim, o poema “Relatório”,
com data de 1969, e que retrata em poesia o itinerário europeu feito por Sena quando de
seu regresso à “Europa, minha terra [...]” (SENA, 1978, 105):
Relatório
Sessenta cidades (com os museus, as ruas, castelos,
[catedrais, etc.)
em doze paízes em quatro meses (very american)
além de manuscritos em várias bibliotecas, conferências
78
em Londres, Paris, Bruxelas, Nimega, Utrecht,
e os príncipes de Portugal (medievais e Renascença pela
[Europa adiante),
e alguns cinemas, exposições, teatros, muita vadiagem
altamente imoral (mais os desejos que as ocasiões),
e honestos encontros com amigos velhos e com amigos novos,
um incidente de fronteira, muitas entrevistas,
leituras públicas de poemas, um calor de glória
(oh efêmera, já Salomão sabia), uma
operação à vesícula. E numa tarde chuvosa
o navio largando. Os amigos sob os guarda-chuvas.
E a falta de palavras com os que estavam a bordo
a despedir-se. E na bruma tempestuosa
subitamente
nada.
O poema é fundamentalmente biográfico, característica que se confirma no
momento em que o confrontamos com a biografia do poeta, especificamente se
detivermos nossa atenção ao ano de 1968, que compreende o período em que Sena
obtém quatro meses de licença semestral que lhe fora concedida pela University of
Winsconsin e que acabou por coincidir com a concessão, via Fundação Calouste
Gulbenkian, de uma bolsa de pesquisa, que lhe permitiu, pela primeira vez, um regresso
à Europa, a 6 de setembro do ano acima citado. Consta da linha cronológica presente no
“Ler Jorge de Sena”, organizada por Raquel Menezes e Gilda Santos, que o poeta
visitou as seguintes cidades, sempre com alguma atividade investigativa que justificasse
a visita: “Inglaterra, Escócia, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Alemanha, França,
Áustria, Suíça, Itália, Espanha e Portugal, aonde chega às vésperas do Natal” (s/p)
Precisamente, 12 países, a excetuar-se Portugal, que não integra o
somatório. O poema chega mesmo a relatar o episódio do “incidente na fronteira”,
quando Jorge de Sena é retido por 24 horas pela PIDE (Polícia do Regime Militar), em
22 de dezembro, na fronteira espanhola. É liberado depois de alguns telefonemas e
contatos. Não escapa, também, o procedimento cirúrgico ao qual fora submetido para a
retirada de cálculos na vesícula, feita já na terra pátria, em 19 de janeiro de 1969. O
poeta regressaria aos Estados Unidos somente em 14 de fevereiro do mesmo ano e, ao
despedir-se, “[...] a falta de palavras com os que estavam a bordo/ a despedir-se. E na
bruma tempestuosa/ subitamente/ nada.” Nem mesmo a saudade restará. Encerra-se,
assim, o itinerário infecto de Jorge de Sena.
79
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Cumpre agora, quando alcançamos as considerações finais desta pesquisa,
que pontuemos alguns aspectos gerais que estruturam a poesia seniana, já abordados em
capítulos anteriores, bem como que reafirmemos o paralelo entre eles e o modo peculiar
de “ver” a pátria, a um só tempo amada e odiada, que ganha dimensão
extraordinariamente poética na poesia do português, engenheiro de formação, Jorge de
Sena. Talvez seja justamente na importância dada à dialética dos contrários com que
Sena vislumbra a Terra natal que resida o ponto alto de nossas considerações finais, na
medida em que há aí mais que a declaração de sentimentos ambíguos pela pátria, mas o
atestado de um amor, uma inseparabilidade experiencial que teima em não ser
reconhecida efusivamente pelo sujeito.
Jorge de Sena temia não ver a “cor da liberdade” no distante Portugal, temia
não ver sua pátria “amada” e o povo que nela habita e sofre, liberta das forças de
governo ditatoriais, aliadas a um regime de forte caráter totalitarista. Essa angústia
tipicamente seniana, porque aparece como forte traço em sua biografia, deixa rastros
nítidos na poesia do poeta que, ao tecer um poema como o “«Quem a tem...»”, de 1956,
nos deixa a ver que, para si, a liberdade é princípio fundamental para a convivência
entre homens. Versos como os que agora nos ocorrem citar novamente: “Mas, embora
escondam tudo/ e me queiram cego e mudo,/ não hei-de morrer sem saber/ qual a cor da
liberdade”. (SENA, 1978, p. 45) atestam a importância desse princípio para o poeta,
cuja exposição, por meio da análise produzida, esperamos ter ficado clara, mesmo
porque emerge como força de elaboração e certa justificativa da lírica do testemunho.
Quando Portugal é finalmente liberto das forças conservadoras que o
dominavam, Sena ainda lecionava nos Estados Unidos, onde deu continuidade a sua
brilhante carreira de professor de literaturas brasileira e portuguesa, iniciada em seu
segundo espaço de exílio, o Brasil. Caso resgatemos novamente a biografia de Sena, nos
é dado a conhecer, através de relatos de pessoas próximas ao poeta, que ele esperava ser
chamado de volta a Portugal para dar sua contribuição ao projeto de renovação e
reestruturação da nação portuguesa pós-salazarismo,
como
sempre desejou.
Infelizmente, Sena não foi chamado por nenhuma universidade, órgão, nada, fato que
intensifica a mágoa que sempre guardara de seu país natal, a despeito da notável
80
afetividade, talvez mesmo topofilia, no termos de Tuan, que lhe permite evocar o solo
natal com um tom sempre único.
Há na poesia de Jorge de Sena, de fato, alguns traços que lhe garantem
unicidade e grandeza. Admira, de início, o fato de o poeta ter resistido às poéticas que
orientavam a produção literária na primeira metade do século XX, período em que se dá
o início da vida literária de Sena. Sua personalidade, sempre muito mais atraída pelo
jogo de contrários, a característica dialética, permite-lhe absorver o que de melhor havia
do Neorrealismo português, qual seja o seu caráter político-social de engajamento, de
onde surge a urgência do testemunho, a um só tempo compreendendo a capacidade de o
sujeito “ver” e “ouvir” o mundo que o cerca, o mundo da vida, e transformar a
visão/audição do mundo em poesia testemunhal, cujo fim último é a própria
metamorfose.
Diametralmente oposto, o poeta haveria de absorver da poética presencista a
fina preocupação com o labor estético, dimensão, aliás, esquecida pelos neorrealistas.
Em Sena, é perceptível, caso detenhamos nossa atenção à forma poética, a preocupação
com o refinamento do poema. Não se trata de dizer que ele entendia a poesia como algo
mecânico, matéria bruta a ser lapidada até o ponto de refino ideal, e muito menos que a
forma esteja apartada de seu conteúdo. Como deve ter ficado claro, forma e conteúdo
surgem no exato momento, de onde uma não existe sem o outro. No poeta desterrado de
si mesmo e de sua pátria, isso é nítido, na medida em que a circunstancialidade da obra
é a exata forma de seu conteúdo, a experiência imediata e repensada.
A poesia de Jorge de Sena é circunstancial porque motivada pelos eventos
imediatos de que ela fala. É uma poesia carregada de História, do ponto de vista do
transcurso dos fatos, enfim, História tal qual Aristóteles nos ensina na Poética, bem
como prenhe, também, de uma história que é essencialmente pessoal e pertencente ao
poeta. Ocorre que, aqui, opera-se uma “fusão” conflituosa entre essas duas pontas da
sucessão linear dos fatos, porque, se de exílios e experiências de reconhecida
afetividade e rancor é que fala a poesia de Sena, é, portanto, igualmente da História
portuguesa que ela haveria de falar, uma vez que evoca um período específico da vida
portuguesa, o cerceamento da liberdade em solo pátrio, que forma toda uma geração de
desterrados dos quais Sena é figura ilustre. Sobre essa relação História e história,
Lourenço (2010) é preciso:
81
A poesia seniana vai caracterizar-se por uma tensão integradora entre o que
sucedeu (o acontecimento, o documental, o histórico) e o que poderia ter
sucedido (o real imaginado), entre facto e ficção, entre testemunho e
metamorfose. E vai ser essa capacidade de criar realidade ou possibilidades
de sentido (que é a parte de fingimento poético que há no testemunho [...]) o
que, justamente, permitirá ao testemunho poético superar o seu lado
documental, ou o confinamento a uma referencialidade imediata.
(LOURENÇO, 2010, p. 249)
O caráter de circunstancialidade da poesia seniana é, aliás, a concreta
possibilidade que o leitor tem de alcançar outra característica sua: a forte presença da
biografia do poeta na tessitura dos poemas. Ora, se a poesia deve constituir-se em
testemunho poético, tal testemunho só pode ocorrer dentro do escopo de acontecimento
da experiência imediata que o sujeito tem com o mundo. É por meio da peregrinação e
da andança em lugares e espaços por vezes infectos, como o são os lugares de
Peregrinatio ad Loca Infecta, que o poeta, descendo ao cerne de sua consciência, foi
capaz de recolher o máximo da vivência e transformá-la em poesia. E viver a
experiência, em Sena, é estar num plano de indissociabilidade entre si e o objeto
apreendido, relação esta que há de aparecer, também, na relação do poeta com a poesia:
Assim, a poética seniana, de raiz fenomenológica, «não aceita que haja entre
sujeito e objecto, separação total» (MM 98), já que, «mesmo progressista,
uma concepção do mundo será sempre viciosamente ideológica, se não for
referida filosoficamente ao que se aplica» (EHC 9). Daí que a poesia, do
ponto de vista de Jorge de Sena, não seja a criação de um objecto verbal
estranho às circunstâncias de tempo e de espaço em que se move o poetaautor [...]; e que o poema contenha marcas autobiográficas, enquanto sinais,
vestígios ou memória de uma inescapável historicidade. Mas o facto de a
poesia ser marcada por uma forte carga referencial não implica, só por si, um
subjectivismo egotista. (LOURENÇO, 2010, p. 54)
Toda a citação acima é riquíssima porque expõe o procedimento
fenomenológico operado na poesia seniana, fundamentalmente atada às circunstâncias
de tempo (cronológico, ao que nos lembramos da obsessão quase que historiográfica do
poeta em datar os poemas, sobretudo os que estão em Peregrinatio, como se quisesse
construir um diário poético) e espaço, de onde a divisão da obra em estudo não é, por
acaso, construída com os títulos de “Portugal”, “Brasil”, “Estados Unidos da América”
e as “Notas de um regresso à Europa”. A própria existência de Jorge de Sena é
82
fenomenológica porque tem em seu cerne uma viva dialética do (e entre) o sujeito e o
objeto.
Uma dialética que se configura na tensão explícita com que o sujeito
enxerga a pátria, personificada na figura dos críticos da primeira metade do século XX,
que não o leram devidamente; e por uma eterna esperança desesperançada de ver ainda
a liberdade raiar em solo português. Na poesia seniana, muito embora sujeito e objeto
estejam amalgamados no mesmo plano da experiência, e talvez por isso mesmo, a visão
que o sujeito lírico e biográfico tem da pátria é marcada por fina angústia, por ser
Portugal aquilo que se tornou: uma pátria consideravelmente fraca diante de seu
passado.
É esta visão do desterrado que permitiu a Sena descer criticamente às raízes
do seio de sua pátria e denunciar toda espécie de nacionalismos e patriotismos, como
ocorre no grandioso “Em Creta, com o Minotauro”, e, tão impressionante quanto, num
poema de igual temática como o é “Raízes”, de 1972. O poema, que recebe datação
precisa, “Porto, 25 de Agosto de 72”, é talvez o testemunho vivo e preciso de como o
poeta se vê diante de questões relacionadas à pátria e que é de profundo
desenraizamento. Desenraizamento que, se impossível no plano experiencial, é
perfeitamente realizável no plano estético.
Raízes
Raízes? Nem mesmo todas as plantas têm,
E o termo cheira às gritarias de Barrès
[...]
Raízes? Como – por metáfora – se ganham
ou se perdem? Sendo filho? Sendo pai? As duas coisas?
Vivendo aqui na pátria ou mais ou menos do que quantos anos?
Perderam-nas Camões e Mendes Pinto no Oriente?
Ganhou-as Eça nos seus exílios de cônsul?
Manteve-as fumos de ópio aquele Camilo
apenas Pessanha por Macau? Ganhou-as
Pessoa tão inglês de sul das Áfricas,
no seu tão esperto exílio de Lisboa?
E o Vieira padre e brasileiro na Bahia,
largara-as lá por Roma à Cristina da Suécia?
Miguéis em Nova-York? O Pimentel das Memórias
perdeu-as em São Paulo? Este país – que sempre isto pergunta –
aonde tem raízes? Certamente que
83
à volta de Paria – com um milhão de raízes
a fazer filhos (e não porque em Paris
se escreva ou se traduza o lido em Portugal)
E isto é velho como o mundo: ao grego Heródoto
uns gregos que ele achou pelos Egitos,
aos quais – tu quoque... – perguntou pelas raízes,
apontaram-lhe num gesto (lusitano)
qual a raiz que tinham radicado neles.
Raízes outras há: os mortos que nos dormem
na terra em que nascemos, na terra onde morreram,
e nos vivem na vida que não tendes nesta Europa finis –
pilritos fêmeas de outro mundos machos.
(SENA, 1978, p. 206/207)
O poema acima confirma a concepção de Sena de ser um desenraizado de
sua própria pátria. As raízes de que fala o sujeito lírico são mesmo aquelas com as quais
os sujeitos tendem a identificar sua fundamental ligação com seu lugar natal, como
reforçador de certa identidade. Para o poeta, entretanto, as “raízes” devem ser vistas
sempre com larga desconfiança, sobretudo quando traduzem-se na impossibilidade de se
deixar, ainda que temporariamente, ou mesmo permanentemente, a pátria. “Raízes?
Nem mesmo todas as plantas as têm”, diz o poeta, que se põe em relação de simetria
com as plantas, isto é, se, para elas, as raízes são componente fundamental, e, mesmo
assim, nem todas as plantas as têm, também o sujeito há de viver, ainda que apartado de
suas raízes.
Jorge de Sena recupera séculos de história da vida portuguesa, evocando
para o poema nomes de alguns dos mais ilustres portugueses que também sofreram, ou
talvez não, as vicissitudes do exílio da pátria. Daí que cita Camões, Mendes Pinto, Eça,
Camilo Pessanha, o próprio Fernando Pessoa, Padre Antônio Vieira, e outros,
recuperando, assim, toda uma história de exílios, do qual o próprio poeta é fluxo na
contemporaneidade. “Raízes” é o poema mesmo que, não fazendo parte do escopo de
análise sobre o qual nos debruçamos ao longo desta pesquisa, demonstra a própria
dialética do homem com a Terra, aqui, o país natal, e por isso o trazemos nestas linhas
que se apresentam como últimas.
Ter raízes é reconhecer-se morto, porque só eles encontram-se num estado
de permanente imobilidade espacial: “Raízes outras há: os mortos que nos dormem/ na
terra em que nascemos, na terra onde morreram [...]”, ou, pelos menos, achava o poeta
àquele tempo – Sena morrera em Santa Barbara, Califórnia, como dissemos, mas
84
recentemente, a 11 de setembro de 2009, teve seus restos mortais trasladados para
Portugal, onde foi recebido em uma cerimônia belíssima que contou com a leitura21 de
seus poemas, inclusive a do magnífico “Carta aos meus filhos sobre os Fuzilamentos de
Goya”, poema que consta da obra Metamorfoses (1963), colidido em Poesia II. Daí que,
se, em vida, a relação do poeta com a pátria fora sempre marcada por tensão, depois da
morte, ao menos, pode Sena descansar em solo pátrio, agora sem os antigos rancores de
antes.
Como consideração última, aparelhada às demais, cumpre que destaquemos
que, em Sena, a Terra natal exerce importância fundamental, sobretudo em Peregrinatio
ad Loca Infecta, o próprio exercício poético de evocação das paisagens do Portugal
geograficamente distante. O poeta, e isso fica claro ao longo dos tantos poemas aqui
abordados, não especifica ou particulariza lugares íntimos de afetividade, como a casa,
o lar, porque sua poesia demanda algo muito maior e que é a própria Terra natal. Ao
poeta, não interessa a casa com todos os seus compartimentos e delimitações interiores,
mas importa-lhe a noção de lar e segurança, ideias atreladas ao conceito de lugar que se
expande aos domínios da pátria, pelos menos idealmente, na medida em que o próprio
poeta não se sentia seguro em solo pátrio, daí ter partido para o exílio. Trata-se de
espaços bem mais amplos, espaços de nações, territórios geográficos. Em Sena, a pátria,
que está distante, por isso mesmo está tão próxima de si: “ver” e “ouvir” Portugal,
escrever sobre ele, em poesia ou crítica, é maneira ou mesmo declaração íntima de
pertencimento ao solo natal, que também é uma não-pertença; ideias contrárias
perfeitamente realizáveis no ser do poeta, como a análise de sua poesia buscou mostrar.
Esta pesquisa tratou de questões concernentes a espaços de exílio,
peregrinação por locais infectos e sanctos, pela extensão do amor ao lugar à pátria,
ainda que um amor feito de tensão e contrários. A Geografia Humanista Cultural
mostrou-se de enorme relevância para o esclarecimento dessas questões, na medida em
que nos permitiu analisar a vivência da/na Terra natal por meio da experiência do
sujeito, Jorge de Sena. Com a GHC, veio implicado o tratamento da Fenomenologia,
cuja presença alargou os horizontes desta pesquisa, que, aliás, jamais pretendeu fornecer
respostas definitivas – senão instigar o debate –, mas perscrutar questões pontuais e
21
“Carta aos meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, poema construído com alta carga de
sensibilidade e que tem como ponto de partida a tela “Três de Maio”, de Goya. Pode ser visto em
leitura magistral empreendida por Eunice Muñoz, na cerimônia de trasladação dos restos mortais de
Jorge de Sena, no link que segue: << http://www.youtube.com/watch?v=5AGtWEcEQos >>
85
importantes da/na poética deste poeta que assume acentuada importância no quadro
geral da literatura de língua portuguesa contemporânea.
86
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VOLPE, Miriam L. Geografias de Exílio. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2005.
89
ANEXOS
90
ANEXO A
Prefácio da primeira edição. In: Poesia I. 2ª Ed. Lisboa: Círculo de Poesia – Moraes
Editores, 1977, p. 23-30.
[...]
É muito de intenção que eu falo de versinhos sem arte. A arte poética não é, na poesia
que se quer verdadeira, mais do que a ciência, melhor ou pior informada, racional ou
intuitivamente obtida, de exprimirmo-nos responsavelmente. As artes da poesia,
exercidas para a produção artística de versos, não são essa, que é uma arte de ser, mas
antes do parecer. E o parecer, precisamente por mimético, precisamente por conforme,
precisamente por adulador, muitas vezes esconde, sob pretensas audácias que apenas
são esperadas, aquele poeta que o autor poderia ter sido. Os meus complexos de
inferioridade, tão numerosos e variados, nunca me consentiram este caminho fácil, esta
arte de parecer, este faltar à verdade. Não que a poesia seja, ou deva ser quanto a mim,
confissão. Creio a nossa vida humana por de mais precária, por de mais solitária, por de
mais intransmissível e única, para que os outros mereçam o pouco que sejamos e é tudo
o que nos assiste possuir. A confissão é, sem dúvida, uma parte do que entra na
transfiguração que a actividade poética opera; mas confissão que a poesia não
transforme, confissão que a arte aperfeiçoe, é ainda uma forma de parecer, uma maneira
de oferecermos aos outros uma facilidade de interesse – ainda que ás vezes por vias de
execução pública –, que, no fundo, garanta aquela liberdade de apenas sermos, que não
há quem não busque, deste ou daquele jeito, que mais não seja no modo com que fogee
a tê-la. Também para mim, a poesia não é de facto um fingimento. Se algumas vezes
tentei elucidar e defender essa poética que um Pessoa constituiu base do seu ser poético,
o fiz sempre contra mim, levado pelo sentimento de que nos urge compreender e aceitar
uma outra proposição mais nossa. É certo que o «fingimento» dele não é, por forma
alguma, uma arte de iludir, mas antes a acentuação muito justa, exposta por uma
individualidade eminentemente analítica, de que as virtualidades que contemos são mais
que o continente, e de que a actividade poética sobreleva o que precariamente a cada
instante nos dispomos ser. O seu «fingimento» valeu como uma lição e um exemplo,
que estão longe de ter sido compreendidos num país em que ser-se poeta é ser-se um
profissional do sentimento oportuno. Mas repugnou-me sempre a parte de artifício, no
mais elevado sentido de técnica de apreensão das mais virtualidades, que um tal
91
«fingimento» implica. Porque só artificialmente, embora no plano da poesia e não no
das artes distractivas, nos é possível assumir extrinsecamente, exteriormente, a
multiplicidade vária que, dentro de nós, é uma família incómoda, uma sociedade
inquieta, um mundo angustiado. Há muito de orgulho desmedido nesse «fingimento»,
que contrasta, quanto a mim, com a humildade expectante, a atenção discreta, a
disponibilidade vigilante, como que, dando de nós mais que nós mesmos,
testemunhamos do mundo que nos cerca, como do mundo que, vivendo-o, nós próprios
cercamos do nosso material cuidado. É que à poesia, melhor que a qualquer outra forma
de comunicação, cabe, mais que compreender o mundo, transformá-lo. Se a poesia é,
acima de tudo, nas relações do poeta consigo mesmo e com os seus leitores, uma
educação, é também, nas relações do poeta com o que transforma em poesia, e com o
acto de transformar e com a própria transformação efectuada – o poema –, uma
actividade revolucionária. Se o «fingimento» é, sem dúvida, a mais alta forma de
educação, de libertação e de esclarecimento do espírito enquanto educador de si próprio
e dos outros, o «testemunho» é, na sua expectação, na sua discrição, na sua vigilância, a
mais alta forma de transformação do mundo, porque nele, como ele e através dele, que é
antes de mais linguagem, se processa a remodelação dos esquemas feitos, das ideias
aceites,
dos
hábitos
sociais
inconscientemente
vividos,
dos
sentimentos
convencionalmente aferidos. Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia,
cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o forra) nos vai
revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas
principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a
que o sejam de facto. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma, e por
isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas
função) de tudo, e de sofrer na consciência ou nos afectos tudo, recusando ao mesmo
tempo as disciplinas em que outros serão mais pródigos, ou o isolamento de que muitos
serão mais ciosos – eis o que foi, e é, para mim, a poesia.
[...]
Nesse itinerário espiritual alegórico terei «perseguido» a verdade até a «coroa da terra»,
onde me descobri a «pedra filosofal», cuja posse permite discernir as «evidências», às
quais a minha poesia exprime «fidelidade» sem limites. Cronologicamente, porém,
como apontei, os livros sobrepõem-se bastante, e um deles se intercala. É por isso que,
para mim, a data tem uma importância que parecerá ridícula e presunçosa a muitos. Não
direi que a poesia é um diário íntimo, ou o registo dos factos significativos de uma
92
autobiografia espiritual. Mas tenho para mim – opositor declarado de todas as formas de
idealismo (e não idealidade) e inimigo feroz de todos os aspectos espúrios da
sobrevivência – que ao tempo só escapamos com alguma dignidade, na medida em que,
sem subserviência, o tornamos co-responsável dos nossos escritos. Eu não acredito na
imortalidade de coisa alguma; e, embora um poema deva valer por si próprio, como
obra independente do autor e da sequência da criação a que este se foi dando, eu todavia
penso que é mais importante, humanamente, o espírito de peregrinar que o facto
conclusivo de haver visitado lugares santos. Na peregrinação que é a nossa vida, muito
mais somos visitados do que visitamos. Diário íntimo ou fastos espiritualmente
autobiográfico – a poesia é menos e é mais do que isso. A co-responsabilidade do tempo
e nossa, que é a única garantia de uma autenticidade – pois que será esta senão a busca
de uma verdade que esta para lá da actividade estética, e que a actividade estética não
tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada? –, ultrapassa
precisamente o solipsismo inerente mesmo à mais convivente das criações poéticas, e
concede à poesia uma paradoxal objectividade que as fabricações da perfeição artística
são incapazes de atingir, por demasiado dependentes do gosto, quando o testemunho
vale pela reflectida espontaneidade que apela e apelará sempre para a comunhão de
todos os inquietos, todos os insatisfeitos, todos os que exigem do mundo, para os outros,
a generosidade que lhes foi negada.
[...]
Assis, S. Paulo, Brasil, 27 de Março de 1960.
93
ANEXO B
Prefácio à segunda edição. In: Poesia I. 2ª Ed. Lisboa: Círculo de Poesia – Moraes
Editores, 1977, p. 9-21.
[...]
Permitam-me que termine estas linhas citando a definição que dei de mim, quando
escrevi o texto que me havia sido solicitado para o Encontro Internacional do Grado, na
Itália, e que li em Roma, em Setembro de 1976, encontro esse que precedeu a honra
insigne de haver-me sido concedido em Abril deste ano o Grande Prémio Internacional
de Poesia Etna-Taormina de 1977, ao conjunto de minha obra, sem que, para tal, se
tenham movido as mínimas influências diplomáticas em meu favor (e que aliás seriam
descabidas, dada a organização do prémio que é eefectivamente uma honra
extraordinário que recebi tanto por mim como por Portugal a cuja literatura pertenço).
Não é que proponha «explicar-me». Mas creio que isso resume e ilumina o que eu sou,
nas minha convicções que, pior ou melhor, a minha poesia reflecte. Naquele escrito (que
aparecerá em Portugal na reedição ampliada de Dialécticas da Literatura, a qual terá o
título de Dialécticas Teóricas da Literatura), eu digo o seguinte: «Sou pessoalmente
contra qualquer igreja organizada ou qualquer partido organizado, mas reconheço o
direito de qualquer pessoa a ser um membro seja do que for, desde que a minha
liberdade pessoal não seja com isso afectada. Religiosamente falando, posso dizer que
sou católico mas não um cristão – o que apenas significa que respeito na Igreja Católica
todo o velho paganismo que ela conservou nos rituais, nos dogmas, etc., sob vários
disfarces, tal como a Reforma protestante não soube fazer. Acredito que os deuses
existem abaixo do Uno, mas neste Uno não acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu
que, de uma maneiro certo modo hegeliana, pôs a sua vida e o seu destino nas mãos
desse Deus cuja existência ou não-existência são a mesma coisa sem sentido.
Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou qualquer
antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito. Mas, politicamente, sou
contra qualquer espécie de ditadura (quer das maiorias, quer de minorias), e em favor da
democracia representativa. Não tenho quaisquer ilusões acerca desta – pode ser uma
máscara para o mais impiedoso dos imperialismos. Mas isso também o podem ser
outros sistemas. Sou a favor da paz e do entendimento entre as nações, e espero que o
socialismo prevalecerá em toda a parte, mantendo todas as liberdades e a democracia
representativa. Não subscrevo a divisão do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o
Diabo (estejam de cada lado estiverem). Apesar da minha formação hegeliana e
marxista, ou também por causa dela, os contrários são para mim mais complexos do que
a aceitação oportunista de maniqueísmos simplistas. Moralmente falando, sou um
homem casado e pai de nove filhos, que nunca teve vocação para patriarca, e sempre foi
em favor de a mais completa liberdade ser garantida a todas as formas de amor e de
contacto sexual. Nenhuma liberdade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto
uma igreja, um partido, ou um grupo de cidadãos hiper-sensíveis, possa ter o direito de
governar a vida privada de alguém. Do mesmo modo, não devemos nunca pactuar com
94
a ideia de que qualquer reforma vale o preço de uma vida humana. Mais do que nunca,
num mundo onde as vidas humanas se tornaram tão baratas que podem ser gastas por
milhões, aos escritores cumpre resistir. Podemos ter revoluções: mas tenhamos
esperança de que nelas as pessoas podem morrer por acidente, mas nunca assassinadas».
E por agora basta, quando Portugal – a quem a minha obra primordialmente pertence –
tem de se aprender a praticar as ironias democráticas, para sobreviver e ocupar, no
mundo, o lugar que lhe cabe de antiquíssima nação gloriosa: por uma vez, nesse país,
que haja, na garantia da liberdade e da justiça, lugar para todos, como tão raras vezes
houve. Do país subitamente falei. De lugares na literatura é melhor não dizer mais nada.
Santa Bárbara, Julho de 1977.
95
ANEXO C
SENA, Jorge de. Isto não é um Prefácio. In: Poesia III. Lisboa: Círculo de Poesia –
Moraes Editores, 1978, p. 21-24.
ISTO NÃO É UM PREFÁCIO – 1969
[...]
Sendo este livro organizado com poemas avulsos (em que todavia os motivos, as
alusões, os temas, etc., recorrem com uma frequência de que só naturalmente me
apercebi ao co piá-los para publicação), não possui ele, como acontece com a maioria
das colectâneas poéticas dete mundo e do outro, o mesmo tipo de unidade, que os
poemas de Metamorfoses e de Arte de Música necessariamente tiveram, embora nestas
duas séries as variações de tom e de ritmo sejam relativamente amplas. E há, entre os 71
poemas, vários que são circunstanciais, no sentido de terem sido suscitados por e
dirigidos contra acontecimentos notórios, ou no de terem tomado alguns escritores
como pretexto de existirem. Toda a poesia e circunstancial; e a específica
circunstancialidade deca será precisamente o que contribui para a particular unidade
desta Peregrinatio: de certo modo, um diário poético dos anos 1959-69, paralelamente à
composição das duas séries sobre obras de arte (plásticas ou musicais). São assim, eles e
os outros aqui incluídos, como que um selecção de comentários do próprio poeta à sua
situação no mundo, mais individualmente e mais referencialmente do que aquelas duas
séries – meditações transpostas – permitam.
Além de serem a outra face da, permitam-me o termo, majestade de Metamorfoses e de
Arte de Música, corresponde a maioria destes poemas, na minha vida, àquele período
que, do rondar dos quarenta anos até a aproximação dos cinquenta, ninguém cruza
impunemente, não porque possamos sentir que nos foge a força física, mas porque,
sentido-nos ainda capazes do impudor da juventude, é esta que de nós se afasta,
preferindo-nos o jovem que deixamos de ser: e não há nesse sentido nada mais doloroso
do que ser-se, em troca, paternalmente atraente, por graça do que não deixa de ser como
que incesto. Acrescente-se que esse período de 1959-69 foi e tem sido, principalmente e
sobretudo, o dos meus «exílios» americanos (do Sul e do Norte), com tudo o que de
difícil e de complexo uma tal situação implica, pela confrontação com diversas culturas
96
(ainda que, ironicamente, elas nos sejam familiares) que, para quem não vive nelas em
carácter evidentemente provisório, colocam agudamente dolorosos problemas de
identidade, e nos levam a meditar diversamente sobre quem somos.
Por tudo isso dói que dei a esta colectânea o nome de Peregrinatio ad loca infecta, já
que os poemas representam momentâneas descidas críticas do poeta ao seio da sua visão
de mundo. Tendo eu partido de Portugal para o Brasil, onde fiquei, em Agosto de 1959,
e do Brasil para os Estados Unidos da América do Norte em Outubro de 1965, para só
regressar meses, desde as vésperas do Natal a meados de Fevereiro de 19969, a
coincidência dos presentes poemas com aquele período de «peregrinações» é
praticamente total. Mas nãos e deve de maneira alguma, supor que a ideia de
«peregrinação aos lugares infectos» possa ser assimilada a uma expressão de amarguras
de ser-se um «peregrino da América», como tenho sido, e da Europa por fim, há cerca
de dez anos. Seria isso injusto e mesmo ingrato para com alegrias e triunfos que o Brasil
e a América do Norte me proporcionaram, se bem que bem tudo fossem ou sejam rosas.
Mas, por certo, nestes dez anos, eu não visitei apenas – como sempre fiz – «loca
infecta» da alma: vivi, fosse onde fosse, no lugar infecto que é o nosso mundo de hoje,
em que brutalmente, insidiosamente, e teimosamente persiste, seja em que hemisfério
ou regime, uma concepção do mundo e da vida como um tirânico vale de lágrimas. Há
dois mil anos quase que suportamos o equívoco divino (paradoxalmente mais visível
nos países protestantes do que nos católicos) de um Messias ter nascido em Belém da
Palestina (of all places, como se diz em inglês), e não em Atenas, em Alexandria, ou
mesmo nas margens dos rios sagrados da Índia... Não quer isso dizer que não haja neste
livro bastante sarcasmo, amargo, ou desesperado, alguns momentos de profunda
reconciliação.. Sim: mas com aquela outra «pequenina luz» de que uma vez falei em
1950, há cerca de vinte anos, quando nenhum dos poemas deste livro havia sido escrito.
Madison, Maio de 1969.
97
ANEXO D
SENA, Jorge de. Poesia II. Lisboa: Circulo de Poesia – Moraes Editores, 1978, p. 125128.
CARTA AOS MEUS FILHOS
SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de
sangue. »
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam
vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
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que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sêmen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa — essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga —
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Lisboa, 25/6/1959
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO