VI Encontro Nacional da Anppas
18 a 21 de setembro de 2012
Belém – PA – Brasil
SABERES E PRÁTICAS EDUCATIVAS SOCIOAMBIENTAIS QUE
EMERGEM DO FAZER FARINHA NA AMAZÔNIA PARAENSE
Cirlene do Socorro Silva da Silva(SEDUC/UEPA)
Socióloga, professora, integrante do Grupo de Pesquisa GRUPEMA (UEPA)
[email protected]
Maria das Graças da Silva(UEPA)
Socióloga, Professora do programa de Pós Graduação-Educação da Universidade do Estado do
Pará
[email protected]
Este inscrito trata dos saberes e das práticas educativas de camponeses produtores de farinha de uma
comunidade da Amazônia nomeada de Santo Antonio do Piripindeua, localizada no município de Mãe
do Rio, nordeste do Estado do Pará.
Visa analisar as relações de (con)vivência, o processo de
construção e transmissão de saberes e práticas educativas que são desenvolvidos no espaço de três
casas de farinha, nomeadas de Familiar, Mutirão e Comunitária. Tem como enfoque o saber cuidar da
casa de farinha, saber que emerge da organização e apropriação dos espaços das casas de farinha dessa
Comunidade. Assim se propõe a contribuir para a análise desses saberes e práticas, historicamente
invisibilizados pelo conhecimento acadêmico, quase sempre orientado pelo pensamento cartesiano.
Para o desenvolvimento da pesquisa, caracterizada como qualitativa e de campo, que de acordo com
Minayo (2000, p.105), o campo “é o recorte espacial que corresponde à abrangência, em termos
empíricos, do recorte teórico correspondente ao objeto da investigação”, foram utilizados para a
produção dos dados os seguintes procedimentos: a observação participante, fundamentada na
necessidade de registrar os relatos detalhados de situações raramente obtidos, apenas por entrevistas.
A preferência pela entrevista semi-estruturada permitiu que tivesse a liberdade de retirar alguma
pergunta, modificar a ordem ou mesmo improvisar outras. Foram 10 entrevistas ao todo, considerou-se
experiência, tempo e conhecimento das práticas sociais e amostragem por gênero, pois em algumas
situações havia papéis diferenciados no fazer farinha, detalhe relevante na análise de estudos culturais.
Outra fonte de informação utilizada foi a fotoetnografia, cuja função foi de fazer os registros, de
documentar as ocorrências cotidianas, no fazer da farinha, que posteriormente foram analisadas como
textos.Tem como pressuposto que o espaço rural enquanto espaço de relações e de produção de
VI Encontro Nacional da Anppas
18 a 21 de setembro de 2012
Belém – PA – Brasil
cultura pode ser referenciado na idéia de que não há grupo humano estável porque, além de ter sua
vida social, tem também a sua memória, a sua história e a sua cultura Brandão (2007). Para esse autor,
essa complexa teia e trama que envolve esses conhecimentos consistem na experiência de uma cultura,
de sua partilha recíproca e de seu aprendizado, e está contida nas diversas formas dos seres humanos
ocuparem o planeta, socializarem a natureza e criarem modos de vida. A partir da sistematização dos
dados e informações é possível afirmar que o saber cuidar orienta-se para uma prática educativa
socioambiental, pois os camponeses produtores de farinha demonstram uma preocupação em cuidar da
casa e dos utensílios como uma estratégia de proteger e fortalecer a imagem de produtores de farinha
de qualidade, o que confere ao produto uma valorização e uma preferência no mercado local.
Nesse sentido, o “saber cuidar” emerge no fazer farinha a partir da limpeza dos espaços da casa, nos
gestos que higienizam os instrumentos de trabalho. É um saber forjado no “diálogo de saberes [...] no
encontro entre a vida e o conhecimento, numa confluência de identidade e saberes” (LEFF, 2008, p.
183). Ou de acordo com Boff (2008), implica ter intimidade, sentir, acolher e respeitar, entrar em
sintonia com as coisas. Dessa forma, os resultados do estudo indicaram que há uma demanda por
formações que não se reportem apenas ao fazer farinha, mas que contribuam para o estabelecimento
de outras lógicas de produção que não comprometa o equilíbrio ambiental e que venham permitir a
continuidade dos sujeitos na comunidade. No entanto, as agências de formação ou de
acompanhamento técnico não têm desenvolvido processos educativos satisfatórios que possibilite a
melhoria de algumas práticas, dentre elas a prática da higienização para um ambiente de produção
saudável do ponto de vista dos sujeitos entrevistados. Esse fato demonstra também a insuficiência de
uma política de Estado que fortaleça o “diálogo de saberes” dos agricultores e dos saberes produzidos
pela academia e por essas agências. Ao trazer essas questões, a expectativa é de que elas possam ser o
ponto de partida para outros percursos de pesquisas e de reflexões, pois no campo da educação, em
contexto não escolar, em relação à agricultura familiar camponesa amazônica, ainda são poucos os
estudos com enfoque nos saberes culturais e nas práticas socioeducativas desses sujeitos.
Referências
SILVA, Cirlene do Socorro Silva da. Casas de farinha: espaço de (con)vivências, saberes e práticas
educativas. 2011. 179 f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade do Estado do Pará, Belém,
2011.
SILVA, Maria das Graças da Silva. O cuidar da casa e do ambiente. In: TEIXEIRA, Elizabeth (Org). Rede de
saberes e afetos. Belém. 2008.
VI Encontro Nacional da Anppas
18 a 21 de setembro de 2012
Belém – PA – Brasil
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano-compaixão pela terra. 15 ed. Petrópolis. RJ. Vozes,
2008.
______. A Educação como Cultura. Campinas - São Paulo: Mercado da Letras, 2002.
CASTRO, Edna. Território, Biodiversidade e Saberes de Populações Tradicionais. In:
DIEGUES, Antonio Carlos. Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos. 2
ed. HUCITEC, 2000.
Download

Acesse o artigo completo aqui