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PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DISTANCIAMENTO ENTRE OS GÊNEROS
TEXTUAIS EDITORIAL E ARTIGO DE OPINIÃO
Maria Francisca Oliveira Santos (UFAL/UNEAL)
[email protected]
RESUMO
Considerando que os gêneros opinativos, como quaisquer outros, são variáveis, processuais e
dinâmicos, e que esses gêneros apresentam caracteres que os distinguem uns dos outros, este trabalho
estuda as especificidades que marcam os gêneros editorial e artigo de opinião, detendo-se não
somente no que há de aproximação e distanciamento entre esses gêneros, mas também nos elementos
geradores de questionamento quanto à descoberta da sua identidade. Para essa análise, adotam-se as
categorias dos estudos retóricos, como auditório social, retor, competência retórica, argumentos, em
Abreu (2004), Meyer (2007), Perelman & Olbrechts-Tyteca (1996), Reboul (2000), Marcuschi
(2008), além de outros e as contribuições dos estudos textuais, voltadas para as ideias de
referenciação, sequência discursiva, domínio discursivo, em Koch (2002, 2003 e 2004), Beaugrande
& Dressler (1981), Marcuschi (2002 e 2008), Travaglia (1996), Silveira (1999), dentre outros. Assim,
a análise dos gêneros destacados tem um cunho interpretativo à luz da fundamentação teórica
apontada, evidenciando os elementos constitutivos de caráter retórico-textual, os quais permitem um
estudo das relações interpessoais entre retores (editorialista e articulista) e auditório social (leitores do
jornal), ensejando a identificação e o cotejo dos gêneros em estudo. A relevância do trabalho está em
propiciar uma reflexão acerca da identidade dos gêneros em destaque, podendo as suas contribuições
extrapolarem o ambiente da sala de aula para outros cenários discursivos.
PALAVRAS-CHAVE
Gêneros textuais; Editorial; Artigo de opinião
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Este trabalho, intitulado Pontos de aproximação e distanciamento entre os gêneros
textuais editorial e artigo de opinião, centra-se na análise das especificidades inerentes aos
gêneros textuais/discursivos editorial e artigo opinativos, considerando seu caráter dinâmico
e plástico, revelado não somente nos aspectos referentes à estrutura, mas também àqueles
ligados à relação social, segundo a qual cada gênero permite que os diversos interactantes
(produtores textuais) efetuem suas funções comunicativas. Assim, o editorial, que se
apresenta, dentre outras características, pela sua impessoalidade, explicada pela não assinatura
do editorialista, muitas vezes, é flexível em revistas e jornais, havendo os assinados cuja
assinatura endossa o pensamento da empresa, e os não assinados, representando todo o
pensamento ideológico do impresso em que está inserido. O artigo opinativo, por sua vez,
traduz-se pelo tratamento do assunto, exibindo, em sua linha formativa estrutural, a invenção,
a disposição, a elocução, a ação e a memória, apresentando duas feições: a doutrinária, que se
centra em questões atuais e a científica, que aponta o avanço da ciência.
Com essa apresentação, estudar os pontos que aproximam e distanciam os dois
gêneros em tela constitui o objetivo principal deste trabalho, tomando para isso os estudos
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retórico-textuais. A retórica aparece como a arte de argumentar, persuadindo o outro (leitor)
pelo discurso, conduzindo-o à execução do que o produtor de texto deseja que seja efetivado.
Além disso, enfocam-se as funções defendidas por essa área do conhecimento: a
hermenêutica, que se explica pela interpretação do dito textual; a persuasiva, que se justifica
pela arte de persuadir pelo discurso, usando, no caso, o editorial e o artigo de opinião; a
pedagógica, que se impõe pela arte de ser, e a heurística, que se explica pela descoberta
textual.
Por outro lado, aparecem os fundamentos textuais, que defendem a língua(gem)
como uma atividade sociodiscursiva, realizada em interação, ou melhor dizendo, “uma
atividade social, histórica e cognitiva, desenvolvida de acordo com as práticas socioculturais
e, como tal, obedece a convenções de uso fundadas em normas socialmente instituídas”
(MARCUSCHI, 2008, p. 64); o texto, como uma unidade de sentido, necessitando para isso
de uma situação discursiva, de interlocutores, das categorias de espaço e tempo e de um
propósito claro e definido; e de elementos da linguagem, analisados em sua visão global,
especificada pela análise vocabular e referencial.
Para a execução deste trabalho, parte-se da elaboração de um questionamento, que
assim se resume: Quais as características dos gêneros opinativos editorial e artigo,
considerando a literatura existente? Quais os pontos de aproximação e distanciamento entre
os dois gêneros? A resposta a essas perguntas constitui o grande objetivo deste trabalho, que
toma como materiais de análise os citados gêneros, em um jornal de circulação local, na
cidade de Maceió-Alagoas.
Pelo fato de os estudos, ligados à linha retórico-textual, apresentarem pouca literatura
e pesquisa no que se refere às idiossincrasias de cada gênero, isso motiva a execução deste
trabalho. É importante ainda por ser uma boa alternativa de estudos para os comunicólogos,
linguistas, professores, dentre outras profissões que têm a linguagem como mediadora das
ações humanas.
2. OS ASPECTOS RETÓRICO-TEXTUAIS
Entende-se a retórica como “a análise dos questionamentos que são feitos na
comunicação interpesssoal e que a suscitam ou nela se encontram” (MEYER, 2007, p. 26).
Assim entendida, focaliza-se nessa definição a presença de um orador (ethos), de um auditório
(pathos) e de um discurso, tudo isso representado, em sequência, por um articulista, pelos
leitores (para serem movidos, é preciso que haja sedução, convencimento a partir de um
acordo que se centra nas suas paixões e crenças) e pelos próprios gêneros (logos, que
representa a palavra). Assume-se a posição de orador aquele que se serve do discurso para não
somente descrever, explicar e justificar uma opinião, mas também para conduzir o outro a sua
aceitação; a de auditório se justifica pela aceitação ou não da realidade exposta pelo orador, a
qual pode apresentar-se de maneira justa, bela e mesmo útil a fim de adquirir concordância
com a proposta nela contida (FERREIRA, 2010, p. 13).
Para a efetivação do discurso retórico, representado pelo editorial e pelo artigo de
opinião, observa-se a presença de um contexto retórico, que agrega um conjunto de elementos
da história, cultura, sociedade, dentre outros, os quais influenciam o ato de produzir e de
receber um discurso. Desse modo, o editorial representa o pensamento acerca de um tema
defendido por uma cadeia ideológica de uma empresa onde está situado o editorialista; o
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artigo de opinião também representa o pensamento do produtor textual, que assume a autoria
do texto, apenas publicado com a assertiva dos representantes do jornal de circulação.
O sistema retórico de que tratam os gregos apresenta as seguintes partes: a invenção,
a disposição, a elocução e a ação. A esse esquema, os romanos acrescentam a memória.
Entende-se por invenção todo o acervo de argumentos, provas e ideias de que se serve o retor
para a persuasão do objeto que defende; a disposição compreende a maneira de dispor as
partes do discurso, as quais são formadas pelo exórdio, narração, confirmação, digressão e
peroração (REBOUL, 2000, p. 55-60); a elocução diz respeito às escolhas no plano
expressivo, com o objetivo de haver a adequação entre forma e conteúdo; a ação efetiva-se
pela própria ação que efetiva o discurso, envolvendo os suprassegmentais e a gestualidade; e,
finalmente, a memória que se explica pela retenção de um material, sobretudo quando o
discurso se diz oral (MOSCA, 2004, p. 28-30).
Quanto aos elementos constitutivos da disposição, aparece o exórdio que é a parte do
discurso que se apresenta no início, assumindo uma função fática, centrada no auditório
retórico; a seguir tem-se a narração em que aparece a exposição dos fatos que vão sustentar a
causa, devendo apresentar-se de maneira objetiva. Ainda existem a confirmação, a digressão e
a peroração, entendendo-se a primeira como um conjunto de provas, sendo seguida pela
refutação com a finalidade de não aceitar os argumentos contrários; a segunda é prevista no
discurso jurídico para o momento de relaxamento; a última se volta a tudo que é posto no final
do discurso.
Para percorrer essa composição, os retores (editorialista e articulista) podem utilizar
uma linguagem com argumentos, assim classificados: a) os quase lógicos, que se apoiam em
fórmulas matemáticas; b) os que se fundam na estrutura do real, que são dependentes da
experiência e não da lógica; c) os que fundamentam a estrutura do real, que podem ser
exemplificados pela analogia, cuja noção principal se baseia em se dizer que o exemplo
reforça a regra; e d) os que dissociam as noções, que fazem pares distintos, exemplificados
pela aparência e realidade (REBOUL, 2000, p.163).
Ainda nesse fazer retórico, os retores devem apresentar competência retórica que se
explica pela habilidade de persuadir pelo discurso com o uso apropriado de recursos retóricolinguísticos. Dessa forma, entram também os articuladores e organizadores textuais,
especificando dentre eles os modalizadores que explicam a possibilidade de uma mesma
modalidade ser expressa por vários recursos linguísticos, ou diferentemente, um mesmo
indicador modal apontar modalidades diferentes. No primeiro caso, o retor poderá argumentar,
dizendo: é necessário/é possível/é certo que a situação econômica melhore, em que aparece
uma mesma ideia (melhoria da situação econômica); no entanto, há sentidos diferentes, pois
em é necessário=urgência, em é possível=possibilidade e em é certo=certeza.
Diferentemente, um mesmo indicador modal como “dever” poderá indicar
modalidades diferentes como em: a) Os professores devem ir à luta; b) A situação deve
melhorar; e c) A aula deve estar começando. Em a), há a indicação de obrigatoriedade; em b),
de possibilidade e em c), de probabilidade.
Numa ação conjunta de artifícios da retórica e dos estudos textuais, os retores
(editorialista e articulista) persuadem o auditório (leitores) pelo discurso (o logos), efetivandose em gêneros específicos, quais sejam o artigo de opinião e o editorial, os quais são
entendidos como ações sociodiscursivas, as quais permitem que o falante/leitor possa agir
sobre o mundo e dizer o mundo, possibilitando, desse modo, construir esse mundo
(MARCUSCHI, 2002). Os gêneros aparecem na perspectiva da fala e da escrita dentro de um
Continuum Tipológico das práticas sociais de produção textual.
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3. OS PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DISTANCIAMENTO EM O EDITORIAL E O
ARTIGO DE OPINIÃO
O artigo de opinião e o editorial são considerados gêneros do jornalismo opinativo,
por se agruparem na área da opinião, sendo a estrutura da mensagem codeterminada por
variáveis cujo controle é da instituição jornalística com duas funções: a de autoria e a de
angulagem, esta centrada na perspectiva temporal ou espacial que atribui sentido à opinião.
Nisso, está a aproximação entre os citados gêneros, distinguindo-se, inicialmente, pela própria
definição, pois enquanto o editorial “expressa a visão do jornal a respeito de um problema que
está ocorrendo no momento da publicação do texto” (CEREJA e MAGALGÃES, 2000, p.
193), o artigo “trata de uma matéria jornalística onde alguém (jornalista ou não) desenvolve
uma ideia e apresenta a sua opinião” (MELO, 2003, p. 121). O que se tem, no caso, é que o
editorial trabalha com a visão do jornal, enquanto no artigo a visão provém de alguém exterior
ao jornal.
Continuando nos aspectos divergentes, dir-se-ia que o editorial possui como atributo
a indicação de especificidades como a impessoalidade, por não se tratar de matéria assinada, o
que permite o uso da terceira pessoa do singular ou do plural; a topicalidade, por exibir tema
bem delimitado; e a condensabilidade, por se tratar de material bem claro. Referindo-se ao
conteúdo, diz-se que o editorial é informativo, que esclarece; normativo, que exorta e
ilustrativo, que tem a função de educar. Em relação ao estilo, o referido gênero pode ser
intelectual, que racionaliza e emocional, que sensibiliza. Enfim, quanto à natureza, o editorial
é dividido em promocional, que é coerente com o pensamento da empresa; circunstancial, que
tem um cunho imediatista e polêmico, que se diz contestador.
Diferentemente do gênero apresentado, o artigo aponta vários elementos peculiares,
explicados pelo tratamento dado ao tema uma vez que, segundo ele, os julgamentos são mais
ou menos provisórios, pelo fato de serem escritos enquanto os fatos ainda estão em processo
de configuração; pela argumentação, que é baseada no próprio conhecimento e na
sensibilidade do articulista; pela tendência não considerada de modo geral, por situar-se em
edições convencionais do jornal ou mesmo da revista. Ainda nessa linha, o artigo apresenta
duas feições: a doutrinária e a científica. A primeira se destina a analisar questões atuais,
dando sugestão ao público para vê-las ou julgá-las; a última, a científica, tem a finalidade de
tornar público “o avanço da ciência, repartindo com os leitores novos conhecimentos, novos
conceitos“ (MELO, 2003, p. 124).
4. O EDITORIAL E O ARTIGO DE OPINIÃO: AMOSTRAGEM
O trabalho caracteriza-se principalmente como de cunho qualitativo uma vez que
analisa os dados em processo, estando em contato com os problemas que envolvem a
temática, além de buscar respostas para as questões levantadas, que são referentes à análise
dos pontos de aproximação e distanciamento entre os gêneros editorial e artigo de opinião.
Seguem-se assim os pressupostos de Moreira (2002, p. 57) para quem a pesquisa qualitativa
apresenta como características, dentre outras: a) flexibilidade no processo de conduzir a
pesquisa; b) ênfase na subjetividade, em vez de na objetividade; e c) foco na interpretação, em
vez de na quantificação.
Para o seu real funcionamento, buscam-se também dados quantitativos que se
referem à recorrência do ponto linguístico de análise pelo fato de o universo da pesquisa ser
composto por uma quantidade de jornais, reservada durante dois meses, nos quais se destacam
o editorial e o artigo, ambos opinativos. Do total de jornais, é retirada uma amostragem de
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20% para análise. Assim, no processo da “análise da informação, as técnicas estatísticas
podem contribuir para verificar informações e reinterpretar observações qualitativas,
permitindo conclusões objetivas” (RICHARDSON, 1999, p. 89).
Para este trabalho, foram retirados um artigo de opinião e um editorial, escolhidos
aleatoriamente. A análise desses gêneros apresenta um cunho interpretativo à luz da literatura
que subsidia essa análise, considerando-se não somente os aspectos concernentes aos estudos
da retórica, mas também aos itens referentes às marcas textuais que vão indicar o que os
gêneros têm em comum e em que se diferenciam, contribuindo, desse modo, para o melhor
entendimento do assunto em destaque.
4.1 O ARTIGO DE OPINIÃO: ANÁLISE RETÓRICO-LINGUÍSTICA
O artigo de opinião Desarmar, ou armar a população? exibe, no seu título, uma
pergunta retórica, proclamando o auditório social a uma reflexão acerca da problemática que
assola a sociedade alagoana: o desarmamento. Isso tem trazido na prática várias discussões
uma vez que, com essa medida, é o bandido quem tem armas, a sociedade não a tem, ficando
totalmente à sua mercê.
O citado artigo apresenta uma estrutura retórica, com um retor expresso, discorrendo
acerca de uma temática cujos argumentos são provisórios uma vez que até o próprio título já
começa pelo questionamento: armar ou desarmar? Assim se diferencia do editorial, embora
dele se aproxime por ter como este a estrutura da mensagem determinada pela instituição
jornalística. A exibição a seguir mostra os diversos movimentos de que se compõe o texto em
foco
Desarmar, ou armar a população?
O instinto de autodefesa faz parte da genética do ser humano
que se corporifica nas células e estrutura óssea que resultam no
biônimo bio-psíquico formando deste modo o homo sapiens, isto é,
o homem inteligente capaz de distinguir o bem do mal. O exemplo
dessa assertiva iremos encontrar nos primórdios da humanidade,
precisamente nas cavernas, onde o homem neolítico usava todos os
tipos de armas primitivas para se defender dos ataques dos animais
ferozes
Depois de revivermos nossas origens, urge analisarmos o
que pretendem nossos parlamentares obter na consulta a ser feita ao
povo através do plebiscito, onde saberá se realmente a sociedade
brasileira deverá entregar suas armas e munições aos órgãos
policiais, no sentido que a mesma desarmada possa viver em
perfeita harmonia e paz social. Será com essa atitude espontânea, a
violência cotidiana urbana ou rural diminuirá na atual conjuntura,
bem assim o número incomensurável de assassinatos e delitos
diversos deixaria de ser notícia diária na mídia nacional e
internacional? Entendemos que não, porque a fonte e a
comercialização de armas de origem clandestina não estão nas mãos
dos homens e mulheres de bem e sim no poder da bandidagem,
daqueles e daquelas que estão às margens das leis. Precisamos
urgentemente extirpar as células cancerígenas das mentes doentias
dos que praticam crimes de pistolagem, assaltos à mão armada,
assaltos aos estabelecimentos bancários, violação e até remoção de
caixas eletrônicos, sequestros, narcotráfico e outros tipos de delitos
que são responsáveis pelo comércio desenfreado de armas que se
espalha a cada minuto por este Brasil Continental, gerando desta
forma recursos financeiros na aquisição de armas e munições, as
Nesta parte, tem-se o exórdio em que o
articulista inicia a exposição, discorrendo
acerca do “instinto de autodefesa”, servindo
da paráfrase como elemento retórico com o
objetivo de explicar o termo homo sapiens.
Observa-se a presença do modalizador
“precisamente” com o objetivo de clarear o
lugar onde o exemplo da assertiva aparece.
Narração: Neste fragmento, o retor usa
modalizadores de forma expressiva, além de
vocábulos carregados de forte carga
semântica. Ilustram os fragmentos a seguir::
“urge analisarmos”,
“a sociedade brasileira deverá entregar...”
“precisamos urgentemente extirpar...”, além
de expressões de forte carga semântica
“células cancerígenas”
“crimes de pistolagem”
“sequestros, narcotráfico e outros tipos de
delitos”.
Os modalizadores “urge”, “dever”, as
expressões de forte conteúdo semântico
ajudam na persuasão pelo discurso do
auditório social.
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mais sofisticadas do planeta.
As estatísticas mostram diariamente o crescimento da
delinquência de um modo geral na nossa Pátria. Até parece uma
epidemia incontrolável.
Feita essa análise, concluímos na hora presente ser
desnecessária a consulta ao povo brasileiro. Precisamos sim, dobrar
a vigilância das nossas fronteiras e intensificarmos as ações
preventivas e repressivas do aparato policial em nossa Pátria,
detectando os focos de apoio dos criminosos, reduzindo, a curto
prazo, a maior idade, no sentido do menor de 18 anos, quando na
prática de delitos ser considerado imputável na aplicação de penas,
no sentido da impunidade não servir de incentivo, principalmente
para juventude delinquente que se escuda na imputabilidade da
faixa etária que é portadora.
Aqui há uma continuação da análise,
mostrando o argumento das estatísticas que
comprovam o que foi afirmado. Há o
surgimento da pressuposição quando se diz:
Até parece uma epidemia incontrolável:
tem-se a aparência de uma epidemia – o
posto; o pressuposto é que não existe a
aparência.
Aqui há uma confirmação pelo argumento
das estatísticas.
Aqui se encontra a fase da peroração, é o
final do discurso, quando o retor, utilizando
o modalizador “precisar”, proclama os
leitores, incluindo-se também, a serem
vigilantes em relação à prática de delitos
por menores.
ROCHA, Nilton. Desarmar, ou armar a população? Gazeta de Alagoas, A4, 07 jun. 2011.
O retor, para discorrer sobre a temática referente ao armamento ou desarmamento da
população, naturalmente, organizou as ideias (invenção) com as quais tenta persuadir o
auditório social (os leitores). Assim feito, iniciou o seu texto (exórdio), buscando um
argumento bem geral (do geral para o particular), o do “instinto de autodefesa” de que o ser
humano dispõe na sua estrutura “biopsíquica”, que faz esse homem distinguir o bem do mal.
Usando o argumento do exemplo, o retor centra-se “precisamente” (modalizador) no homem
das cavernas, ocasião durante a qual o homem usava primitivamente as armas para defesa.
No segundo parágrafo, onde se encontra a disposição de argumentos, aparece a ideia
do surgimento de um plebiscito, por meio do qual a população seria consultada sobre a
temática. No desejo de explicitude dessa ideia, o retor utiliza vários modalizadores como
“urge analisarmos” e “deverá entregar” que indicam urgência nas ações, para depois
modalizar diferente, ao dizer que, assim sendo, a sociedade poderá viver “em harmonia e paz
social”. Aparece também como ênfase do que é dito uma pergunta retórica posta em
perspectiva futura, como se lê: “Será com essa atitude espontânea, a violência cotidiana
urbana ou rural diminuirá na atual conjuntura, bem assim o número incomensurável de
assassinatos e delitos diversos deixaria de ser notícia diária na mídia nacional e
internacional?”. O próprio retor refuta essa ideia, para o que apresenta a razão, afirmando que
as armas estão nas mãos dos bandidos, e não nas “mãos dos homens e mulheres de bem”. O
retor se serve ainda de modalizador, de caráter deôntico como: “precisamos urgente”,
auxiliado por expressões de carga semântica expressiva como: “células cancerígenas”,
“crimes de pistolagem”, “assaltos à mão armada”, “sequestros”, “narcotráfico”, além de
outras, que geram recursos para a aquisição de armas sofisticadas.
A seguir, o retor, continuando a ideia proposta do item anterior, lembra as
estatísticas, uma vez que estas demonstram o crescimento da delinquência no país. Há, pois,
uma confirmação de argumentos, pela referência às estatísticas.
No final (peroração), o retor vê desnecessário o plebiscito mencionado no início, para
o que fomenta os leitores, incluindo-se neles, a serem vigilantes das “nossas fronteiras” e
produtores de “ações preventivas e repressivas do aparato policial”, que campeia nossa pátria.
Para isso, aponta algumas ações como a descoberta dos “focos de apoio a criminosos”,
apontando a redução da maior idade, pois evita que a impunidade não seja incentivo para a
prática da delinquência juvenil.
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4.2 O EDITORIAL: ANÁLISE RETÓRICO-LINGUÍSTICA
O editorial, que se apresenta a seguir, mostra o pensamento do jornal apelando para
duas palavras carregadas de conteúdo semântico: a lógica e a prevenção. A primeira permite
que os fatos sigam o real exigido; a segunda conclama a sociedade para a realização de ações
preventivas quanto à realização de “treino para racha”.
Lógica e prevenção
Em consequência das investigações desenvolvidas a partir do acidente fatal
Exórdio – Apresentação do problema
num “treino para racha” no interior alagoano, descobriu-se que era roubado com
o
a introdução de dois fatos novos:
veículo onde perdeu a vida um colaborador deste tipo de contravenção. Além disso,
uma pessoa que perde a vida; o
o condutor da picape sinistrada estaria respondendo por dois homicídios.
condutor que responde por dois
homicídios.
Esta dupla constatação chama a atenção para a necessidade de uma fiscalização A constatação remete a uma posição
mais eficiente nas rodovias e em eventos em todo o Estado de Alagoas.
de mais fiscalização em rodovias e
eventos.
Uso
do
paralelismo
(categorias de espaço): nas rodovias e
em eventos.
Talvez alguns considerem paranoica a reivindicação por fiscalização perene. Narração – Os posicionamentos por
Uns justificarão falta de condições operacionais para tal, outros nisso enxergarão meio do paralelismo: alguns....uns... e
“uma tentativa de cercear a liberdade individual com o estabelecimento de um estado outros...
policial” ou sandices do tipo. Mas mais rigor na fiscalização é indispensável
Sem dúvida que não é fácil nem barato manter aceso um sistema fiscalizador Refutação – Aqui mostra a
em todo Estado, conferindo documentações de veículos e seus condutores em todas impossibilidade de viabilização do
as estradas, vias e vielas. Mas, com um pouco mais de planejamento estratégico, item anterior.
mais investimentos tecnológicos e racionalização criativa dos recursos humanos é
possível aumentar em muito a cobertura preventiva dos automotores que trafegam
em Alagoas.
Um dos elementos indispensáveis para um planejamento menos burocratizado Aqui ainda continua a apresentação de
dessas ações é a identificação das maiores possibilidades de ocorrências delituosas. argumentos
pela
definição,
Todas essas competições “esportivas” são sobejamente divulgadas. Podem e devem competições esportivas. Isso é
ser priorizadas como alvo. Este é só um exemplo numa miríade de ideias de brilho enfatizado pelos modais “poder” e
mediano, sem nada de genial. A lógica precisa voltar a ser usada como elemento “dever”, além de “precisar”.
crucial na definição de cenários.
Quantas “competições” deste tipo seguem sendo organizadas em Alagoas? Peroração – Dá-se o final, havendo o
Quais os carros (tunados ou não) arriscados pelos donos nessas empreitadas? Seguir surgimento de perguntas retóricas, que
esta via é um bom começo.
mantêm a atenção entre retor
e
auditório.
LÓGICA e prevenção. Gazeta de Alagoas. 07 jun. 2011.
Assim refletindo, o retor organizou seus posicionamentos (invenção) acerca da
temática a ser desenvolvida. Desse modo, no início (exórdio), apresenta o problema “acidente
fatal ‘num treino de racha’”, de onde aparecem dois fatos aparentemente implícitos, os quais
são ligados à morte de uma pessoa (o colaborador) e à certeza de o condutor responder por
dois homicídios.
A seguir (narração), o retor ratifica o que disse anteriormente, empregando a palavra
de ordem “necessidade” que indica mais fiscalização nas rodovias e em eventos em todo o
Estado de Alagoas, servindo-se do paralelismo que sequencia categorias de espaço (nas
rodovias e em todo o Estado de Alagoas) e de tempo (em eventos). Dando continuidade,
serve-se ainda da categoria do paralelismo, quando dispõe assim os argumentos: “alguns
considerem paranoica a reivindicação por fiscalização perene”; “uns justificarão falta de
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condições operacionais para tal”; e, “outros nisso enxergarão ‘uma tentativa de cercear a
liberdade individual com o estabelecimento de um estado policial’”.
A seguir, o retor reconhece ser difícil manter “um sistema fiscalizador em todo
Estado”; no entanto reconhece que, em havendo determinadas condições de funcionalidade
para o planejamento estratégico, bem como para a existência de “investimentos tecnológicos”
e maior racionalização dos “recursos humanos”, pode-se vislumbrar a prevenção para
automotores que circulam em território alagoano.
Depois, há a apresentação da confirmação do exposto, quando o retor anuncia que é
preciso identificar as ocorrências de delito, tomando como exemplo o caso das competições
esportivas que são amplamente divulgadas, devendo para estas haver um planejamento menos
burocratizado.
O retor finaliza seu texto (peroração), servindo-se de perguntas retóricas com as
quais questiona acerca do número de competições que acontece em Alagoas e da
especificidade de carros, “tunados ou não”, cujos donos os colocam na competição, afirmando
que essa atitude seria um bom começo de ações. A memória se dá, pois o retor guarda em sua
memória todo o fazer retórico.
Os dois gêneros, conforme orientações mostradas, apresentam especificidades
próprias, aproximando-se, pela exibição dos momentos retóricos, como a invenção, a
disposição e a elocução. Analisar esses elementos constitutivos, bem como encontros dos
elementos retórico-críticos neles existentes, constituiu o objetivo central deste trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Trabalhar com gêneros opinativos representa lidar com textos revigorados pela ação
entre o retor (articulista/editorialista) e o auditório social (leitores), os quais juntos contribuem
para organizar o fazer retórico, cabendo ao primeiro a chamada competência retórica, segundo
a qual, deve engenhosamente empregar os momentos retóricos (invenção, disposição,
elocução, ação e memória), com o intuito de persuadir esse auditório pelo discurso.
Os dois gêneros analisados aproximam-se pelas especificidades ligadas ao fato de
serem conjuntamente opinativos, exibirem momentos retóricos específicos, além de elementos
da linguagem que sustentam o logos (temática) a ser transmitido. Se, por um lado, o artigo de
opinião exibe mais modalizadores como “precisar”, “urgir”, dentre outros, e perguntas
retóricas, assim se apresenta por força da sua exibição da temática e da diagramação no jornal.
Da mesma forma, se o editorial busca elementos da repetição, como o paralelismo e
modalizadores, assim o faz, para, em espaço menor, também enunciar enfaticamente os seus
argumentos.
Diferentemente, os dois gêneros se distanciam pelos caracteres linguísticos que
interferem na impessoalidade da linguagem, não havendo, no editorial, categorias que
identifiquem a autoria jornalística, embora se saiba que a temática discutida segue a
racionalidade do jornal. Expressões do tipo “descobriu-se”, “alguns consideram”, dentre
outras, mostram a impessoalidade neste gênero textual. Em lado oposto, está o artigo de
opinião, que exibe autoria evidenciada por formas do tipo: “depois de revivermos...”, “urge
analisarmos”, dentre outras, que mostram haver autoria especificada, cabendo dizer que se
trata da voz de um produtor de texto que ecoa fora dos umbrais do jornal em evidência.
Com o exposto, as perguntas propostas, no início, alusivas às características dos
gêneros editorial e artigo de opinião e aos pontos de aproximação e distanciamento que os
especificam, foram explicadas e justificadas neste trabalho. Isso é de relevância para os
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comunicólogos, linguistas, antropólogos, dentre outros profissionais, que têm a linguagem
como elemento mediador e executor das relações sociais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SP: Ateliê Editorial, 2004.
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FERREIRA, Luiz Antonio. Leitura e persuasão: princípios de análise retórica. São Paulo:
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KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. O texto e a construção dos sentidos. 6. ed. São Paulo:
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Maria Francisca Oliveira Santos