RENATA MARTINS DA SILVA PRADO Análise da Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) em cirurgias de exodontia de terceiros molares inferiores São Paulo 2013 RENATA MARTINS DA SILVA PRADO Análise da Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) em cirurgias de exodontia de terceiros molares inferiores Versão Original Tese apresentada à Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, para obter o título de Doutor, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas. Área de Concentração: Clínica Integrada Orientadora: Profª. Drª. Sibele Sarti Penha São Paulo 2013 Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. Catalogação da Publicação Serviço de Documentação Odontológica Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo Prado, Renata Martins da Silva. Análise da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) em cirurgias de exodontia de terceiros molares inferiores / Renata Martins da Silva Prado; orientadora Sibele Sarti Penha. -- São Paulo, 2013. 105 p.: il. : fig., tab.; 30 cm. Tese (Doutorado) -- Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas. Área de Concentração: Clínica Integrada. -- Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Versão original. 1. Ansiedade ao Tratamento Odontológico. 2. Extração Dentária. 3. Terceiro Molar - Cirurgia. 4. Sistema Cardiovascular. 5. Pressão Sanguínea. I. Penha, Sibele Sarti. II. Título. Prado RMS. Análise da Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) em cirurgias de exodontia de terceiros molares inferiores. Tese apresentada à Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Ciências Odontológicas. Aprovado em: / /2013 Banca Examinadora Prof(a). Dr(a).________________________________________________________ Instituição: ________________________Julgamento: ________________________ Prof(a). Dr(a).________________________________________________________ Instituição: ________________________Julgamento: ________________________ Prof(a). Dr(a).________________________________________________________ Instituição: ________________________Julgamento: ________________________ Prof(a). Dr(a).________________________________________________________ Instituição: ________________________Julgamento: ________________________ Prof(a). Dr(a).________________________________________________________ Instituição: ________________________Julgamento: ________________________ Dedico esse trabalho: aos meus pais, Terezinha e Edevaldo, sempre meu Porto Seguro, por todas as oportunidades e torcida diária. Vocês seguem sendo o meu maior estímulo. ao meu irmão Júnior, sempre com muitas palavras doces e gestos de admiração e carinho. ao meu marido Gustavo, a quem devo todo apoio, estímulo e paciência. Esse trabalho, mais uma vez, é também seu. e a minha pequena filha Mariana, que tão profundamente me olha e me faz querer ser uma pessoa maior e melhor. AGRADECIMENTOS À Profa. Dra. Sibele Sarti Penha, minha querida orientadora, pela amizade e por ter confiado em mim e nas minhas ideias e escolhas. Trabalhar com você é sempre fácil e agradável. Obrigada. Ao Prof. Dr. Rodney Garcia Rocha, sempre com suas palavras de apoio e incentivo. Obrigada pela oportunidade. À Prof. Dra. Maria Aparecida Borsatti, minha primeira orientadora, de quem diariamente procuro absorver o quanto posso de conhecimento e virtude. À Profa. Dra. Carina Domaneschi pelo convívio e amizade, sempre doce. Sua dedicação e amor ao trabalho me inspiram. Aos professores da disciplina de Clínica Integrada, Carlos Alberto Adde, Flávio Eduardo Guillin Perez, Inês Aparecida Buscariolo, Isabel de Freitas Peixoto, José Leonardo Simone, Marcelo Munhões Romano, Maria Aparecida Borsatti, Mário Sérgio Soares e Waldyr Antonio Jorge por estarem sempre disponíveis em passar ensinamentos a todos. Aos amigos Kazue Kanegane, Helena Regina Tornelli e Maurício José Tornelli que me ensinam muito, a cada minuto de convívio. Obrigada por toda ajuda, força e estímulo. Guardo nossas horas de trabalho com muito carinho e gratidão. Como foi gostoso seguir com vocês por perto. Obrigada! Aos meus colegas de pós graduação Tiago, Camila, Roberta, Talita, Valdirene, pelo respeito e companheirismo. Ao colega Bruno Daniel Nader Marcos, pela ajuda nas pesquisas e convívio sempre divertido. Às secretarias e técnicas da Disciplina de Clínica Integrada e do Departamento de Estomatologia: Vera, Cecília, Vilma, Regina, Márcia e Nina e às funcionárias da comissão de pós-graduação da FOUSP: Cátia, Nair, Donata e Alessandra. Às bibliotecárias Glauci, Vânia e Cláudia pela ajuda nas pesquisas e na finalização do trabalho. Ao Prof. Dr. Ubiratan de Paula Santos pela inspiração inicial, ajuda e sugestões valiosíssimas. Aos funcionários da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. À CAPES, pelo fomento à pesquisa. E mais uma vez, agradeço a meu marido Gustavo. Não bastasse todo seu conhecimento médico, acadêmico, dedicação, prazer em ensinar e cientificismo, me ajudou com seu tempo precioso, paciência, estímulo, curiosidade e amor. Não há uma linha aqui que não tenha sido criada com sua ajuda. E meu especial agradecimento aos voluntários de nosso estudo, por me confiarem seu tempo, paciência e preciosos batimentos cardíacos. “A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: “Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…” Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída… Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de áreas pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi.” Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérola RESUMO Prado RMS. Análise da Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) em cirurgias de exodontia de terceiros molares inferiores [tese]. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Odontologia; 2013. Versão Original. Embora amplamente utilizados no monitoramento durante o tratamento odontológico, pesquisas questionam a sensibilidade de medidas como da Pressão Arterial e Frequência Cardíaca na detecção precoce de anormalidades cardiocirculatórias iniciais e, sobretudo, das respostas autonômicas ao estresse mental e às drogas administradas durante procedimentos cirúrgicos. A Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), isto é, a variação do intervalo RR batimento-abatimento, é reconhecida como uma sensível preditora de eventos cardiovasculares graves como arritmias, isquemia miocárdica e morte súbita, além de trazer informações sobre a atividade do sistema nervoso autônomo. O objetivo deste estudo foi avaliar a aplicabilidade da análise da VFC (obtida a partir da utilização de frequencímetro portátil) na mensuração de respostas fisiológicas durante cirurgias odontológicas. 33 pacientes, ASA 1, com indicação de extração de terceiros molares inferiores foram avaliados em 3 momentos: entrevista, cirurgia e pós-operatório, com intervalos de uma semana. Também foi avaliada a ansiedade ao tratamento odontológico e relato de evento traumático prévio. A VFC foi obtida após processamento dos intervalos RR registrados com o frequencímetro Polar RS800. Foram analisadas as variáveis do domínio tempo (SDNN e rMSSD) e frequência (razão LF/HF). Concomitantemente foram medidas Pressão Arterial Sistólica (PAS), Diastólica (PAD), Média (PAM), Frequência Cardíaca (FC) e variáveis eletrocardiográficas. Nesta amostra de voluntários saudáveis, a ansiedade ao tratamento odontológico e o antecedente de experiências traumáticas não se mostraram correlacionados à maior intensidade de dor pós-operatória. Não foram observadas alterações da PAS, PAD, PAM, FC, tampouco alterações eletrocardiográficas relevantes ao longo das fases cirúrgicas. Com relação à VFC, houve redução do SDNN entre a fase basal e a fase anestesia. Gênero, idade, ansiedade e tabagismo passivo não determinaram comportamentos diferentes nas variáveis estudadas. O presente estudo demonstrou viabilidade da inclusão do estudo da VFC em protocolos clínicos de avaliação do comportamento do aparelho cardiovascular em procedimentos odontológicos. O estudo da VFC através de frequencímetros de pulso, instrumentos de baixo custo, ampla disponibilidade e fácil manuseio, pode prestar-se como uma ferramenta útil em estudos de segurança cardiovascular de novos fármacos e procedimentos. Palavras-chave: Ansiedade ao tratamento odontológico. Variabilidade da frequência cardíaca. Pressão arterial. Terceiro molar. ABSTRACT Prado RMS. Analysis of heart rate variability (HRV) in lower third molar surgeries [Thesis]. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Odontologia; 2013. Versão Original. Although widely used in monitoring during dental treatment, researches question the sensitivity measures such as Blood Pressure and Heart Rate (HR) in the early detection of cardiovascular abnormalities early and especially of autonomic responses to mental stress and drugs administered during surgical procedures. The Heart Rate Variability (HRV), the variation of the RR interval beat-to-beat, is recognized as a significant predictor of serious cardiovascular events such as arrhythmias, myocardial ischemia and sudden death, in addition to providing information about the activity of autonomic nervous system. The aim of this study was to evaluate the applicability of HRV analysis (obtained from the use of portable frequency meter) in measuring physiological responses during dental surgery. 33 patients, ASA 1, indicating the extraction of third molars were evaluated in three stages: interview, surgery and postoperatively at intervals of a week. Was also assessed anxiety during dental treatment and reported prior traumatic event. HRV was obtained after processing of RR intervals recorded with the frequency meter Polar RS800. The variables analyzed were in the time domain (SDNN and rMSSD) and frequency (LF / HF ratio). Concomitantly were measured systolic blood pressure (SBP), diastolic (DBP), Medium (PAM), HR and electrocardiographic variables. In this sample of healthy volunteers, anxiety during dental treatment and previous traumatic experiences were not correlated to the intensity of postoperative pain. No changes were observed in SBP, DBP, MAP, HR, nor relevant electrocardiographic changes along the surgical stages. Regarding to HRV, the SDNN decreased between the baseline phase and phase anesthesia. Gender, age, anxiety, and passive smoking didn’t determine different behaviors in studied variables. The present study demonstrated feasibility of including the study of HRV in clinical protocols for assessing the behavior of the cardiovascular system in dental procedures. The study of HRV by pulse frequency meters, instruments low cost, wide availability and easy handling, it may lend itself as a useful tool in studies of cardiovascular safety of new drugs and procedures. Keywords: Dental Anxiety. Heart Rate Variability. Blood Pressure. Third molar. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 4.1 - Classificação de Pell e Gregory (1933)...................................................41 Figura 4.2 - Frequencímetro Polar RS800cx..............................................................43 Figura 4.3 - Eletrocardiógrafo, eletrodos e conectores para o aparelho e para o microcomputador....................................................................................43 Figura 4.4 - Captura de tela de exame do software Wincardio 5.0............................44 Figura 4.5 - Captura da tela do monitor automático de pressão nã o-invasivo CRITICARE System®, Inc, modelo Scholar II........................................44 Figura 5.1 - Histograma de distribuição de idade dos voluntários, conforme frequência...............................................................................................50 Figura 5.2 - Histograma de distribuição da escolaridade dos voluntários, conforme frequência das faixas..............................................................................50 Figura 5.3 - Histograma de distribuição faixas de renda familiar dos voluntários, conforme frequência...............................................................................51 Figura 5.4 - Prevalência de ansiedade e antecedente de experiência traumática no consultório odontológico, diagrama de Venn..........................................51 Figura 5.5 - Frequência Cardíaca, Pressão Arterial Sistólica, Diastólica e Média – ANOVA medidas repetidas ....................................................................55 Figura 5.6 - Variáveis Eletrocardiográficas - ANOVA medidas repetidas.................57 Figura 5.7 - Variabilidade da Frequência Cardíaca – ANOVA medidas repetidas.....59 Tabela 5.1 - Características demográficas, antropométricas e clínicas da população estudada................................................................................................49 Tabela 5.2 - Escala MDAS de ansiedade e EVA de dor no pós-operatório, conforme o gênero.................................................................................................52 Tabela 5.3 - Variáveis eletrocardiográficas, triagem..................................................52 Tabela 5.4 - Escala de dor (EVA), conforme antecedente de experiência traumática ou ansiedade em ambiente odontológico..............................................53 Tabela 5.5 - Correlação entre as variáveis demográficas e antropométricas e escalas de dor e ansiedade, teste de Spearman................................................54 Tabela 5.6 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme idade.60 Tabela 5.7 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme gênero....................................................................................................61 Tabela 5.8 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme exposição à poluição tabágica ambiental (PTA) domiciliar....................62 Tabela 5.9 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme antecedente de experiência traumática e/ou ansiedade.......................63 Tabela 5.10 - Efeito das variáveis de contraste gênero, idade, ansiedade e/ou trauma e exposição à PTA sobre as variáveis hemodinâmicas FC, PAS, PAD e PAM – valor de p obtido pelo teste de ANOVA de duas entradas................................................................................................64 Tabela 5.11 - Efeito das variáveis de contraste gênero, idade, ansiedade e/ou trauma e exposição à PTA sobre as variáveis eletrocardiográficas intervalo PR, complexo QRS e intervalo QTc – valor de p obtido pelo teste de ANOVA de duas entradas.......................................................65 Tabela 5.12 - Efeito das variáveis de contraste gênero, idade, ansiedade e/ou trauma e exposição à PTA sobre as transformadas logarítimicas naturais das variáveis da VFC SDNN, rMSSD, LF, HF, LF/HF – valor de p obtido pelo teste de ANOVA de duas entradas.................................65 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ASA American Society of Anesthesiologists ASA I Paciente saudável e normal, de acordo com o índice da ASA Cols. colaboradores DAS Dental Anxiety Scale DP Desvio padrão ECG Eletrocardiograma EVA Escala Visual Analógica FC Frequência Cardíaca HF High-frequency HRV Heart Rate Variability IASP International Association for the Study of Pain IMC Índice de massa corporal IQ Intervalo Interquartil LF Low-frequency Log Logarítimo MDAS Modified Dental Anxiety Scale NN Intervalos normais – batimento a batimento PA Pressão arterial PAD Pressão arterial diastólica PAS Pressão arterial sistólica PAM Pressão arterial média pNN50 % de NN consecutivos com diferença superior a 50 milissegundos rMSSD Root mean square successive differences RR Intervalos NN SDNN The standard deviation of NN intervals SNA Sistema nervoso autônomo SNAP Sistema nervoso autônomo parassimpático SNAS Sistema nervosa autônomo simpático SPSS Statistical Package for the Social Sciences TPA Tabagismo Passivo Ambiental VFC Variabilidade da freqüência cardíaca LISTA DE SÍMBOLOS % porcento mg miligrama ms milissegundo Hz Hertz N2O Óxido nitroso Kg quilograma mmHg milímetros de mercúrio nu unidades normatizadas ° graus min minuto mL mililitro mm milímetro ® marca registrada h hora TM trademark – marca registrada ≤ menor ou igual a > maior < menor ≥ maior ou igual a p nivel de significância n número de pessoas – tamanho da amostra ± mais ou menos = igual + mais SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 15 2 REVISÃO DA LITERATURA ................................................................................. 18 3 PROPOSIÇÃO ....................................................................................................... 39 4 MATERIAL E MÉTODOS ...................................................................................... 40 5 RESULTADOS ....................................................................................................... 48 6 DISCUSSÃO .......................................................................................................... 67 7 CONCLUSÕES ...................................................................................................... 79 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 80 APÊNDICES ............................................................................................................. 94 ANEXOS ................................................................................................................. 105 15 1 INTRODUÇÃO O atendimento odontológico pode gerar estresse, medo e ansiedade. Porém, não estão definidas as razões que levam ao desenvolvimento de ansiedade ao tratamento odontológico. Vários fatores podem ser relacionados, como experiências traumáticas, medo e expectativa de sentir dor, histórias envolvendo sofrimento contadas por outras pessoas. As reações individuais ao estresse incluem respostas comportamentais, cognitivas, motoras e fisiológicas, entre as quais alterações dinâmicas da modulação autonômica da frequência cardíaca. Ao longo das duas últimas décadas, tem-se correlacionado as alterações disfuncionais do Sistema Nervoso Autônomo (SNA) à mortalidade cardiovascular e eventos agudos graves, como arritmias, angina, infarto e morte súbita (American Heart Association, 1996; American College of Cardiology/American Heart Association, 2007). Parâmetros hemodinâmicos como a Pressão Arterial Sistólica (PAS), Diastólica (PAD) e a Frequência Cardíaca (FC) são frequentemente utilizados como marcadores fisiológicos dos efeitos do aumento da atividade do Sistema Nervoso Simpático durante o estresse. As reações cardiovasculares a situações de estresse são resultantes da redução do tônus parassimpático vagal e pela estimulação (agonismo) dos receptores adrenérgicos alfa e beta, resultando num aumento do cronotropismo, inotropismo e resistência vascular periférica. O resultado final é um aumento da PAS, PAD e FC. Os padrões reativos dessas variáveis hemodinâmicas durante uma situação de estresse dependem da resposta de cada indivíduo. Um aumento na resistência vascular periférica, em algumas pessoas, leva a um contínuo aumento na pressão arterial, que é responsável por um declínio na frequência cardíaca, através de reflexos desencadeados pelos barorreceptores. Uma resposta efetora predominantemente cardíaca, em outras pessoas, leva a um aumento na frequência, com declínio reflexo da pressão arterial (Herbert et al., 1994; Sherwood et al. 1990). Embora largamente utilizados no monitoramento durante tratamento odontológico, pesquisas questionam a atual validade da PA e FC na detecção precoce de anormalidades cardiocirculatórias que podem ocorrer em situações de 16 emergência (Borea et al., 1991; Marks e Groch, 2000; Convertino, 2012; Wu et al., 2013). Nos últimos trinta anos, diversos estudos têm demonstrado que as variações nos intervalos batimento-a-batimento (intervalos RR) expressam de forma sensível a modulação autonômica do ritmo cardíaco. A variabilidade da frequência cardíaca (VFC), comumente apresentada através de variáveis que descrevem a dispersão dos intervalos RR em determinadas séries temporais, pode ser entendida como o balanço entre as interferências dinâmicas do sistema nervoso simpático (de efeito cronotrópico positivo) e parassimpático (cronotrópico negativo); o primeiro encurtando os intervalos RR e o último prolongando-os. Este equilíbrio dinâmico, assim chamado balanço simpato-vagal, demonstra que, em condições normais, o sistema cardiovascular saudável exibe sua capacidade adaptativa a cada batimento. A redução dessa variabilidade revela-se, portanto, como uma situação anormal em que frente à dinâmica do ambiente e do próprio organismo, indivíduos doentes, sob efeito de determinados medicamentos ou mesmo submetidos a situações estressoras podem ter um embotamento desta resposta adaptativa, manifesta por um comportamento mais monótono da frequência cardíaca ao longo do tempo. A VFC tem sido reconhecida como um estratificador do risco de arritmias, eventos isquêmicos e instabilidade hemodinâmica. Observou-se que baixos valores de VFC indicam atividade simpática elevada, diminuição do tônus parassimpático e um aumento no risco de arritmias malignas, particularmente em pacientes com doenças cardíacas (Casolo et al., 1992; La Rovere et al., 2001; Mine et al., 2008; Marijon et al., 2009; Hillebrand et al., 2013; Watanabe et al., 2013), mas também são observados, entre outras situações, em pacientes com doenças metabólicas (Singh et al., 2000; Rodriguez-Colón et al., 2011) e distúrbios psicológicos e psiquiátricos (Rechlin et al., 1994; Yeragani et al., 1998; Agelink et al., 2002; Boettger et al., 2006; Bar et al., 2007; Miu et al., 2009; Henry et al., 2010). Sabe-se, também, que a VFC é fortemente afetada por situações de estresse, como consultas e tratamentos odontológicos e sugerem que ela seria um marcador sensível da atividade autonômica nessas situações (Matsumura et al., 1998; Nakamura et al., 2001; Montebugnoli et al., 2004). Alterações dinâmicas do equilíbrio do sistema nervosa autônomo, muitas vezes imperceptíveis em exames eletrocardiográficos e em variáveis cardiovasculares do exame físico (pressão arterial sistêmica e frequência cardíaca, 17 por exemplo) poderiam ser então flagradas com a avaliação da VFC, método que pretendemos estudar e, possivelmente incluir na rotina dos estudos de segurança de procedimentos e drogas já em curso e em planejamento. 18 2 REVISÃO DA LITERATURA O medo é comum no tratamento odontológico e pode ser definido como uma resposta emocional a um indício de perigo imediato. Trata-se de uma reação instantânea a uma ameaça presente, caracterizada pelo ímpeto de fugir, e resulta em uma ativação do sistema nervoso simpático (Rhudy; Meagher, 2000). A ansiedade é capaz de desencadear reações orgânicas que preparam o indivíduo para a manutenção e preservação de seu meio e vida. Os sintomas mais comuns são taquicardia, palpitações, pré-cordialgia ou pontadas no peito, tremores das mãos, sudorese, fraquezas, tonturas, náuseas, diarreias e pode ocorrer a Síndrome da Hiperventilação, endurecimento das extremidades, dormência ao redor da boca e nos dedos das mãos e dos pés (Pereira et al., 1995). No entanto, quando presente em níveis elevados, compromete o desempenho da pessoa, fazendo com que esta apresente comportamento inadequado para a situação vivenciada, caracterizando um quadro patológico (Bernik et al., 2002). A percepção do perigo é individual caracterizada pelo medo – que é uma reação imediata a uma ameaça presente - e pela ansiedade – referida como uma emoção existencial ligada à incerteza se algo vai dar certo ou não. A ansiedade e o medo são emoções frequentemente relacionadas; o que diferencia essas duas emoções é que o medo mobiliza o organismo para reagir, enquanto a ansiedade leva a um aumento na receptividade sensorial (Rhudy; Meagher, 2000). 2.1 Ansiedade no Tratamento Odontológico: Segundo Corah (1969), a ansiedade ao tratamento odontológico é mais específica que a ansiedade geral, sendo uma resposta do indivíduo ao estresse típico da situação. Cohen et al., em 2000, expõem que o medo do desconhecido ou a incerteza a respeito do tratamento, com ênfase na expectativa de dor, são fatores que contribuem para a etiologia da ansiedade ao tratamento odontológico. Indivíduos com ansiedade dental são mais propensos a ter uma condição de saúde bucal ruim, em comparação com indivíduos que são menos ansiosos. A fobia dental 19 estaria assim, presa a um ciclo vicioso, onde o medo e a dor podem impedir uma boa higienização oral e tratamento adequado (Berggren; Meynert, 1984). O termo “ansiedade ao tratamento odontológico” cobre uma gama de emoções que vão desde um sentimento de apreensão à extrema ansiedade ou fobia odontológica (DSM IV – TR) (American Psychiatric Association, 2000), que pode levar, inclusive ao abandono de tratamentos necessários. Apesar de vários procedimentos no consultório odontológico serem capazes de levar o paciente ao medo, a ansiedade relatada ao uso da injeção para anestesia, certamente é um dos de maior resposta psicológica. A fobia ligada à injúria pela injeção anestésica pode levar o indivíduo a evitar tratamentos até que seus problemas sejam inadiáveis e, por vezes, mais traumáticos (Malamed, 2003). A ansiedade ao atendimento odontológico pode ser aferida através de parâmetros subjetivos - com a utilização de escalas de ansiedade - e objetivos, através da avaliação de alterações fisiológicas. 2.1.1 Escala de Ansiedade e Experiências Traumáticas Prévias Em 1969, Corah desenvolveu a Dental Anxiety Scale (DAS). A DAS é uma escala de fácil e rápido preenchimento, relacionada a como o paciente pensa e acredita sentir o procedimento. Isso, porém, nem sempre reflete o comportamento do paciente no consultório - uma vez que as reações de medo são incontroláveis. Apesar de existirem outros métodos para se medir a ansiedade, essas alternativas tendem a ser longas, não sendo muito convenientes para uma situação clínica. Desde de sua validação DAS foi utilizada em diversos trabalhos, e traduzida para o português por Pereira et al. (1995). Alterações na escala de Corah (1969) foram feitas por Humphris et al. (1995), que acrescentaram uma pergunta sobre anestesia e padronizaram as respostas, passando então a ser chamada de “Modified Dental Anxiety Scale (MDAS)”. Em 2003, Kanegane et al. validaram a escala MDAS em português, através de um estudo realizado em um grupo de pacientes de atendimento de urgência no Brasil. Assim, com a utilização de técnicas para diferenciar pacientes ansiosos, o cirurgião-dentista poderá se prevenir e tomar providências para diminuir esta 20 ansiedade durante o atendimento odontológico (Corah et al., 1978). Os autores concluíram também que em relação ao gênero, as mulheres são mais ansiosas do que os homens. Locker et al. (1999) relataram que experiências condicionantes, medo e expectativa de dor, influências familiares e fobias sociais contribuem para a ansiedade ao tratamento odontológico. Thomson et al. (2000) classificaram os pacientes ansiosos ao tratamento odontológico em dois grupos; o endógeno (indivíduos vulneráveis a desenvolver algum distúrbio de ansiedade) e o exógeno (indivíduos que tiveram alguma experiência condicionante). Segundo Eli et al. (2004), esta experiência condicionante pode ser adquirida tanto por modelos dos pais, amigos ou parentes, como por vivência própria. Desta maneira, é possível aceitar que procedimentos odontológicos como as cirurgias orais, atinjam níveis bastante altos de ansiedade, apesar de serem procedimentos que comumente não ameaçam a vida, mas podem tornar essas experiências estressantes (Jöhren et al., 2000). Segundo Rhudy e Meagher (2000), a maioria dos indivíduos que antecipam umacontecimento imprevisível poderiam experimentar uma dor maior do que aqueles que já foram expostos ao evento. O medo do tratamento odontológico é a maior barreira para a procura por atendimento. Em um estudo desenvolvido por Cohen et al. (2000), com indivíduos que apresentavam medo ao tratamento odontológico, estes tinham maior número de dentes perdidos e menos dentes restaurados comparados com aqueles que não tinham nenhuma associação forte com qualquer das barreiras para o atendimento. No Brasil, Cesar et al. (1999) concluíram que, entre os motivos citados para não ir ao cirurgião-dentista nos últimos doze meses numa pesquisa domiciliar, foi encontrado que 56% não vão porque acham que não precisam, 14% porque não têm condições financeiras e 3,2% declararam que não o fazem por medo. As experiências aversivas não se originam apenas de situações dolorosas, mas também podem ocorrer da interação social entre paciente e profissional. Maggirias e Locker (2002) concluíram que estas experiências interpessoais são mais importantes que a dor no desenvolvimento de ansiedade ao tratamento dentário. Vários autores sugerem que pacientes com medo frente ao tratamento odontológico frequentemente referem experiências traumáticas prévias no 21 consultório odontológico, como origem da ansiedade relacionada ao tratamento (de Jongh et al., 1995; Milgrom et al., 1995; Locker et al., 1996; Poulton et al., 2001). 2.1.2 Prevalência Grande parte da população dos Estados Unidos (80%) apresenta alguma ansiedade ao tratamento odontológico e 5 a 14% apresentam grau elevado de ansiedade, conforme descrito pelos autores Wong e Lytle (1991). Os autores relataram ainda que diferentes procedimentos proporcionam respostas distintas, acarretando graus variáveis de ansiedade, além das respostas individuais. Foram classificados como alto nível de ansiedade os tratamentos endodônticos e as cirurgias orais; como nível moderado, as restaurações e os procedimentos para a confecção de próteses; e baixo nível de ansiedade, as profilaxias e os exames clínicos iniciais. Fatores como desconhecimento do tratamento, experiências prévias negativas, experiências dentárias traumáticas, mau comportamento profissional, procedimentos que envolvam o uso de anestesia local, percepção e expectativa do paciente com relação ao tratamento que será realizado podem ser evidenciados como possíveis causas. Apesar dos avanços no controle da dor em todo o mundo, dados sobre a prevalência de ansiedade frente ao atendimento odontológico ainda estão na proporção de 10-15% (Chanpong et al., 2005, Skaret et al., 1998) permanecendo como um obstáculo significativo a uma parte consistente da população, ocasionando evasão de cuidados dentários (Cohen et al., 2000; Sharif, 2010). Klingberg e Broberg (2007) ao analisarem a literatura publicada entre 1982 a 2006 estimam a prevalência de ansiedade a fatores odontológicos no mundo, em 9%. Estudos realizados na Suécia (Hakeberg et al., 1992), EUA (Ronis, 1994) e na Dinamarca, demonstraram prevalência de 6,7%, 10% e 10,2% da população, respectivamente. No mundo em desenvolvimento há pouca literatura sobre o assunto. Em uma amostra de indivíduos adultos residentes na região metropolitana de Toronto - Canadá (Locker et al., 1996) utilizando a escala DAS, encontraram uma prevalência de 10,9% de indivíduos ansiosos. Dentre esses indivíduos ansiosos, 22 94,5% declararam ter vivenciado uma experiência ruim no dentista anteriormente. Houve diferença entre as mulheres e os homens, sendo que as primeiras tinham níveis de ansiedade quase duas vezes maior. Em um segundo trabalho (1999), os mesmos autores analisaram 1420 pacientes. A prevalência da ansiedade foi de 16,4% dos indivíduos e não houve diferença entre os gêneros. Carvalho et al. (2012), afirmam que o medo e a ansiedade a fatores odontológicos existem de fato na população brasileira, mostrando valores superiores à média mundial. Seus resultados demonstraram que 2 em cada 8 brasileiros avaliados neste estudo apresentaram moderada ou severa ansiedade frente ao tratamento odontológico. No estudo, as respostas dos pacientes evidenciam que a maioria teve uma experiência prévia de odontalgia, gerando elevada ansiedade a cada atendimento. Mulheres, idade superior a 20 anos, não possuir acesso a internet e/ou jornais, baixa frequência de higiene oral, visita ao dentista ser por busca de tratamento curativo ou por dor (ao invés de um check-up) e experiência de odontalgia são variáveis preditivas significantes, sugerindo que além da falta de recursos econômicos, o descaso com a saúde bucal, o gênero e a idade podem aumentar o grau de ansiedade. Os escores de ansiedade foram maiores entre os pacientes com menor escolaridade e baixa renda familiar, estando em semelhança à população indiana (Acharya, 2008), onde escores de ansiedade são maiores entre os de menor escolaridade. Por esses achados, tudo sugere que além do grau de escolaridade, a classe social e a falta de recursos econômicos em países em desenvolvimento como o Brasil e a Índia, possam aumentar os níveis de estresse, diferentemente do que é observado em sociedades desenvolvidas. Hakeberg et al. (1992) em estudo semelhante realizado com pacientes suecos, demonstraram que nesta sociedade o nível de escolaridade ou renda não apresentou correlação significantiva à ansiedade odontológica, evidenciando o envolvimento cultural da população. Entre pacientes que procuraram atendimento de urgência no Brasil, na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, 28,2% eram ansiosos em relação ao tratamento. As mulheres declararam ser ansiosas com mais frequência que os homens. Quase a metade dos entrevistados (46,48%) relatou alguma história prévia traumática. Não houve relação entre a faixa etária, a renda e o grau de escolaridade e a ansiedade (Kanegane et al., 2003). 23 Ferreira et al. (2004), em uma pesquisa realizada no Brasil (Universidade de Fortaleza-Ceará), com pacientes da Clínica Integrada, selecionados aleatoriamente, obtiveram resultados semelhantes. Houve uma prevalência de 18% de indivíduos altamente ansiosos, sendo que as mulheres apresentaram escores mais altos que os homens. Além disto, neste estudo, concluiu-se que a comparação entre indivíduos normais e ansiosos mostrou não haver diferença na distribuição deles relacionada à escolaridade e renda familiar; entretanto os pacientes mais ansiosos evitaram com mais frequência o tratamento odontológico, faltando às consultas ou procurando o cirurgião-dentista com menor assiduidade. Em outro estudo realizado com pacientes que compareceram ao Plantão de Urgências da Faculdade de Odontologia de Piracicaba/UNICAMP, foi correlacionado a influência da dor e da ansiedade sobre a pressão arterial.A análise dos dados mostrou diferenças estatisticamente significativas entre os gêneros e a ansiedade, sendo que as mulheres exibiram maior ansiedade do que os homens, porém não foram verificadas diferenças estatisticamente significativas entre as faixas etárias com relação ao grau de ansiedade. Todos os pacientes que participaram desse estudo apresentaram dor de dente e a ansiedade esteve presente nos diferentes níveis verificados pela escala de ansiedade de Corah (Rodrigues et al., 2011). No estudo de Humphris et al. (1995) os autores não encontraram relação da ansiedade com a renda e o grau de escolaridade, porém como conclusão observaram que as mulheres e os indivíduos mais jovens são mais ansiosos do que seus pares. Méndez et al. (2009), no estudo da influência da ansiedade na duração da cirurgia de terceiro molar inferior e recuperação no pós-operatório da mesma, concluíram que pacientes com alto traço de ansiedade dental tendem a exigir maior tempo de cirurgia e tem pior recuperação pós-operatória. A ansiedade-traço também parecem estar relacionados à ansiedade no tratamento odontológico (Lago-Méndez et al., 2006). Além disso, mulheres costumam apresentar um nível maior de ansiedade ao tratamento comparadas aos homens. É provável, portanto, que o gênero tenha um efeito importante na ansiedade ao tratamento odontológico (Armfield et al., 2006; Liddell, Locker, 1997; Rodríguez-Vázquez et al., 2008). O estudo de Liau et al. (2008), mostrou que a escala de ansiedade de Corah (DAS) é ferramenta útil para estimar o impacto da ansiedade na frequência cardíaca 24 durante a anestesia local, no bloqueio do nervo mandibular, em cirurgias de exodontias. Os pacientes mais jovens apresentaram os maiores índices na escala de ansiedade. Os pacientes jovens com altos níveis de ansiedade foram os que mais reportaram eventos traumáticos prévios. Alta ansiedade, ser jovem e evento traumático prévio foram correlacionados com maiores aumentos na frequência cardíaca durante a anestesia (dor à injeção). A ansiedade, como medida pela DAS, poderia reduzir o limiar de dor, aumentando a percepção de dor associada à administração de anestésicos local para o procedimento. A anestesia local é amplamente utilizada em odontologia. A administração do vasoconstritor em combinação com o anestésico local é uma fonte de catecolaminas exógenas que, quando combinada à liberação de catecolaminas endógenas (induzidas pela ansiedade de antecipação ao procedimento odontológico) pode levar a efeitos cardiovasculares adversos indesejados. Alguns autores sugerem que o aumento na frequência cardíaca e alterações na pressão arterial durante procedimentos odontológicos resultam da liberação de catecolaminas endógenas do estresse emocional (Meyer, 1987; Hondrum, 1985); outros, entretanto, consideram a resposta cardiovascular apresentada ser influenciada pela ação farmacológica do anestésico local (Meechan et al., 2002; Tolas et al., 1982). Segundo Raab et al. (1998) é fundamental tomar medidas para redução do estresse ao atendimento odontológico, principalmente se considerarmos que muitos pacientes cardiopatas ou em terapias medicamentosas diversas, frequentemente recebem tratamentos considerados menos invasivos com a intenção que esses procedimentos não levem a grandes cargas psicológicas, ainda que possam existir soluções odontológicas mais apropriadas para seus casos. É frequente encontrar pacientes que, diante da possibilidade da realização da cirurgia odontológica, apresentem receios e preocupações, muitos dos quais irreais, sobre possíveis intercorrências durante a realização da extração, causando grande ansiedade. 25 2.2 Respostas cardiovasculares durante procedimentos odontológicos Muitos procedimentos odontológicos são associados a uma marcante resposta cardiovascular, que pode ser evocada por estímulos nociceptivos, ansiedade e, em casos particulares, também algumas drogas, como bases anestésicas, vasoconstritores ou alguns agonistas (Meyer, 1987; Brand; AbrahamInpijn, 1996; Liau et al., 2008; Alemany-Martinez et al., 2008; Dillane; Finucane, 2010; Tornelli, 2012). Esses efeitos são normalmente bem tolerados em indivíduos saudáveis, mas podem se constituir num fator de estresse potencialmente deletério em pacientes com cardiopatias, sobretudo os coronariopatas e portadores de insuficiência cardíaca e arritmias (Campbell et al., 1996; Meechan et al., 2002; Montebugnoli; Prati, 2002; Laragnoit et al., 2009; Lambrecht et al., 2011). Uma criteriosa anamnese pré-operatória pode identificar pacientes com risco aumentado de complicações cardiovasculares ou descompensação de suas doenças de base; nestas situações, alguns exames complementares e eventualmente uma avaliação médica podem orientar estratégias específicas para redução ou manejo dos riscos de eventos adversos no ambiente odontológico (Campbell et al., 1996; Raab et al., 1998; Lambrecht et al., 2011). No curso de procedimentos cirúrgicos de rotina ou na execução de protocolos de pesquisa clínica sobre segurança de novos procedimentos ou drogas, muitas vezes faz-se necessário o monitoramento intra-operatório do paciente (ou voluntário), visando a identificação de eventos adversos e a caracterização mais completa e precisa do perfil de segurança do procedimento ora avaliado (Borea et al., 1991; Blinder et al., 1996; Yoshiyuki et al., 2001; Meral et al., 2005; Alemany-Martinez et al., 2008). 2.2.1 Medidas Diretas – Pressão Arterial, Frequência Cardíaca, Eletrocardiograma Apesar das controvérsias em relação ao significado dos achados eletrocardiográficos e das alterações na dinâmica cardiovascular observados em estudos clínicos em odontologia, alguns autores advogam que, eventualmente, pequenas perturbações dessa homeostase, mesmo que assumidas como pré- 26 clínicas, podem compor um cenário de maior risco de eventos adversos cardiovasculares, especialmente quando somadas ao estresse emocional (e consequente liberação de catecolaminas endógenas) ou à administração de doses elevadas de vasoconstritores adrenérgicos e anestésicos locais (Brand; AbrahamInpijn, 1996; Laragnoit et al., 2009; Dillane; Finucane, 2010). A análise do eletrocardiograma (ECG) pode fornecer subsídios à identificação de pacientes cirúrgicos de alto risco cardíaco. O ECG possibilita o diagnóstico de arritmias, distúrbios de condução, isquemia ou necrose miocárdica, sobrecargas cavitáriase sugerir distúrbios eletrolíticos. Além disso, um traçado basal pode ser importante para análise evolutiva em ambiente de pesquisa, quando ocasionalmente se avaliam os efeitos e potenciais interações de bases anestésicas, vasoconstritores e das próprias respostas fisiológicas ao estresse cirúrgico ou à ansiedade (AbrahamInpijn et al., 1988; Moffa; Sanches, 2001; Mine et al., 2008; Romano et al., 2012; Tornelli, 2012). Alterações na atividade elétrica do miocárdio pela ação moduladora autonômica, decorrentes da resposta à ansiedade e ao estresse emocional podem gerar distúrbios do ritmo cardíaco, chegando em alguns casos à fibrilação ventricular. O registro eletrocardiográfico apresenta 5 elementos de variação de potencial (ondas ou complexos) e 3 intervalos e segmentos que os separam. Assim, tem-se a onda P, o complexo QRS e a onda T que perfazem os 5 elementos, e o intervalo e segmento PR, o intervalo e segmento ST e o segmento T, perfazem os 3 intervalos e segmentos que separam os 5 elementos supracitados (Barbosa, 1976). A onda P representa a onda de despolarização da musculatura atrial (ativação atrial) da qual propaga radialmente pelo nó sinoatrial para o nó atrioventricular. O complexo QRS consiste na despolarização da musculatura ventricular. Já, o segmento ST é a parte correspondente entre o fim do complexo QRS e o começo da onda T, representando aproximadamente o estado de despolarização ou a duração da excitabilidade da musculatura ventricular. Anormalidades neste segmento podem indicar insuficiência coronária ou infarto do miocárdio. A onda T consiste na repolarização ventricular. Num estudo clínico desenvolvido para investigar possíveis alterações eletrocardiográficas induzidas pela mepivacaína associada à epinefrina em diferentes concentrações, Bjorlin e Malmborg (1966), avaliaram os registros obtidos 27 no pré- e trans-operatório durante procedimentos cirúrgicos convencionais, em 61 pacientes. Destes, 42% (26 pacientes) apresentaram alguma alteração nos exames, como taquicardias sinusais, extrassístoles supra-ventriculares, alterações inespecíficas da repolarização ventricular e outros achados, sobretudo de baixa relevância clínica. Os autores concluíram que a ansiedade seria uma possível causa dessas alterações, embora não tenham utilizado método de avaliação de ansiedade. Ryder (1970) analisou a ocorrência de alterações hemodinâmicas e eletrocardiográficas em 97 procedimentos de cirurgia oral menor com anestesia local utilizando lidocaína 2% com norepinefrina 1:80.000.Neste estudo, nove pacientes (9,2%) exibiram arritmias, sendo cinco deles ectopias ventriculares, duas extrasístoles atriais e três bradicardias sinusais. Destes pacientes, três apresentaram síncope. A frequência cardíaca aumentou durante a exodontia e manteve-se sem alteração durante a anestesia. Neste estudo, os autores discutem sobre a etiologia das alterações no ritmo, assim como sua significância clínica, e as atribuem possivelmente a acidentes de injeção intravascular da solução com vasoconstritor adrenérgico. Em um estudo clínico conduzido por Barkin e Middleton (1978), foram avaliados registros eletrocardiográficos contínuos durante cirurgias de exodontias de 225 pacientes sem comprometimento sistêmico anestesiados com lidocaína 2% associada à epinefrina 1:100.000. Excluindo as taquicardias sinusais, foram encontrados 36 casos de arritmias cardíacas (16% dos pacientes), sendo que, desse total, 32 foram extra-sístoles ventriculares. Cinco das arritmias foram consideradas como de grande relevância clínica, ocasionando alterações no tratamento. Sob a justificativa de que metade dessas arritmias não teria sido detectada se apenas a avaliação convencional (registro dos sinais vitais no pré-operatório e, ocasionalmente, no intra-operatório) tivesse sido utilizada os autores concluem o estudo indicando a monitoração cardíaca contínua durante todos os procedimentos odontológicos. Durante a realização de cirurgias orais menores para exodontias, com uso de lidocaína 2 % associada à epinefrina 1:100.000, Hasse et al. (1986) avaliaram a resposta da pressão arterial sistêmica e parâmetros eletrocardiográficos. Os autores observaram que a incidência de infra-desnivelamento do segmento ST foi significantemente maior em pacientes cardiopatas comparativamente aos nãocardiopatas, indicando ocorrência de isquemia miocárdica durante o tratamento 28 nesses pacientes. Comparando a ocorrência desse evento entre as fases do procedimento cirúrgico, não foram observadas diferenças significativas entre os grupos, sugerindo que a administração do anestésico local não se mostrou mais estressante que o procedimento de exodontia em si. O estudo demonstra ainda que alterações eletrocardiográficas podem ocorrer mesmo com baixas doses de anestésicos locais e vasoconstritores, sugerindo que os próprios procedimentos invasivos possam atuar como agentes estressores do sistema cardiovascular, sobretudo em indivíduos susceptíveis. Pacientes com suspeita clínica ou diagnóstico de cardiopatias, deveriam, segundo os autores, consultar um médico previamente ao atendimento dentário, para o qual estariam indicadas técnicas de redução do estresse emocional. Investigando possíveis alterações na pressão arterial, frequência cardíaca e eletrocardiograma durante exodontias com uso de anestésico local, Abraham-Inpijn et al. (1988) avaliaram 40 pacientes alocados em 4 grupos, conforme os quartis de distribuição dos valores basais da pressão arterial. Foi observado aumento na pressão arterial em todos os grupos, sendo de maior magnitude o incremento pressórico nos pacientes com maiores valores basais. A frequência cardíaca, por sua vez, aumentou de forma semelhante em todos os grupos, não tendo permitido detectar um padrão hiper-reativo entre os hipertensos. As alterações eletrocardiográficas observadas foram arritmias em 9 pacientes; destes, 6 extrasístoles ventriculares e, em outro, uma extra-sístole bigeminada. Um paciente com 82 anos de idade apresentou extra-sístoles supraventriculares multifocais, e uma jovem com 27 anos de idade, sem comprometimento sistêmico, nem fatores predisponentes, apresentou ausência de atividade elétrica (assistolia) por 10 segundos. Para a avaliação da incidência de isquemia miocárdica em pacientes submetidos a tratamento odontológico rotineiro foi observada a ocorrência de infradesnivelamento do segmento ST (maior ou igual a 1 mm) no registro do ECG. Foram realizados procedimentos periodontais em 20 pacientes com histórico de cardiopatia isquêmica, que estavam em tratamento de rotina para a manutenção do tratamento periodontal (Vanderheyden et al., 1989). Neste estudo foi utilizada lidocaína a 2% com epinefrina 1:100.000, injetada lentamente com teste de aspiração sanguínea prévia. Nenhum episódio de isquemia do miocárdio foi observado, embora tenha-se notado entre os pacientes significativo aumento na pressão arterial e frequência 29 cardíaca. Os autores relataram que seus resultados podem ter sido influenciados pelo fato de que seus pacientes estavam acostumados ao tratamento e que, portanto, o procedimento não causou estresse, diferenciando-se de outros trabalhos previamente publicados que atribuíram ao estresse do procedimento a ocorrência desses eventos. Em 32 voluntários jovens saudáveis (idades entre 16 e 30 anos), Rodrigo et al. (1990) compararam a incidência de arritmias durante cirurgia para exodontia de terceiros molares inclusos realizadas com a solução anestésica de lidocaína a 2 % com epinefrina 1:80.000 isolada ou associada a 1 mg de midazolam aplicado via intravenosa. No grupo com sedação, 28,5% dos pacientes desenvolveram arritmias, enquanto no grupo onde foi utilizado apenas o anestésico local, apenas 7,1% desenvolveram arritmias. A mais frequente arritmia encontrada foi a ectopia ventricular. Essa maior porcentagem das arritmias encontradas no grupo midazolam foi observada durante o momento da administração intravenosa do fármaco. Os autores discutem que, reconhecendo-se o baixíssimo potencial arritmogênico e cardiodepressor dessa droga, especialmente em tão baixa dose, uma possível explicação para a maior ocorrência de arritmias neste grupo poderia ser atribuída à ansiedade em si, ou seja, a punção venosa propriamente dita e a expectativa da ação farmacológica do medicamento poderiam ter influenciado o desfecho avaliado. Blinder et al. (1996), num protocolo para estudo de segurança cardiovascular da mepivacaína 3% sem vasoconstritor como anestésico local para cirurgias de exodontia em pacientes com comprometimento cardíaco, avaliaram 40 voluntários através dos registros eletrocardiográficos contínuos colhidos através de Holter. Analisaram-se o número de batimentos prematuros, depressão do segmento ST e ritmo cardíaco durante 2 horas após a injeção do anestésico local e durante as 22 horas subsequentes. Houve alterações em 35% dos pacientes, que ocorreram durante as primeiras duas horas após a injeção de anestésico local. Oito pacientes apresentaram extra-sístoles ventriculares, um voluntário apresentou extra-sístoles atriais, dois apresentaram episódios de fibrilação atrial, um apresentou taquicardia ventricular não-sustentada, doze apresentaram infra-desnivelamento do segmento ST associado à taquicardia sinusal, um paciente apresentou apenas taquicardia sinusal e outro apenas infra-desnivelamento do segmento ST. Dos 16 pacientes que utilizavam digoxina, 12 apresentaram alterações no ECG. Os autores sugeriram que pacientes que utilizam digoxina, seja pelo viés de seleção de terem provavelmente 30 insuficiência cardíaca, seja pelo potencial arritmogênico intrínseco da droga, apresentam alto recomendaram a risco estes de complicações pacientes em monitorização tratamento odontológico cardiovascular durante e o procedimento cirúrgico. Para estudar a incidência e significância das arritmias em cirurgias orais em pacientes geriátricos, foram selecionados 40 pacientes (24 mulheres e 16 homens), sendo 20 com terapia medicamentosa para doenças cardiovasculares e 20 não medicados (Campbell et al., 1996). Os autores observaram arritmias consideradas sem risco em 17 pacientes (42,5%). Foram encontradas mais alterações no período anterior à anestesia local (lidocaína 2% e epinefrina 1:100.000) e durante o procedimento cirúrgico quando comparado ao período da anestesia local. Nenhuma diferença estatisticamente significativa foi relatada em relação à distribuição dos achados quando separados os voluntários quanto à idade, ao sexo ou ao uso de medicamentos. Os autores concluíram que, embora as arritmias em tratamentos ambulatoriais de pacientes idosos sejam comuns, são consideradas de caráter benigno e o uso de medicamentos não necessariamente é um preditor de sua ocorrência. Alterações na concentração plasmática de lidocaína e epinefrina, assim como nos parâmetros cardiovasculares hemodinâmicos, eletrocardiográficos e saturação de oxigênio foram investigadas após injeção de 2,0 mL de lidocaína 2% associada à epinefrina 1:100.000 (versus lidocaína 2% sem vasoconstritor) para realização de procedimento cirúrgico odontológico, em 17 pacientes saudáveis (Meral et al., 2005). As coletas de sangue venoso foram obtidas nos tempos: T -30´, T 0 (ou anestésico), T3´, T30´ e T60 minutos da cirurgia. Segundo os pesquisadores, a presença de epinefrina, assim como o próprio anestésico, foi considerada segura, pois induziu mínima alteração hemodinâmica e eletrocardiográfica em pacientes saudáveis durante a realização de procedimento cirúrgico. Cento e oitenta pacientes, sem comprometimento sistêmico, foram avaliados por Liau et al. (2008) em cirurgias odontológicas, utilizando 2 tubetes de lidocaína 2% com epinefrina 1:100.000, em bloqueio pterigomandibular. Após anestesia, foi observada elevação da frequência cardíaca em todos os grupos avaliados (leve, moderada e severa ansiedade ao tratamento odontológico - segundo escala de Corah), sendo que mais intensa elevação, ocorreu no último grupo. Não foram observadas alterações nas pressões sistólica e diastólica. Houve significativa 31 alteração no exame de eletrocardiograma dos pacientes aos 5 e 10 minutos após a anestesia. Alterações no exame, apresentadas aos 5 minutos após a injeção anestésica, como taquicardias, estavam presentes em 1,5%, 11% e 50% dos pacientes com leve, moderada e severa ansiedade, respectivamente (com diferença entre os grupos). Extra-sistoles ventriculares e fibrilação atrial foram observadas em poucos pacientes (0-8,3%), sem variação significativa entre os grupos. Ainda nos pacientes que apresentaram intensidade severa de ansiedade ao tratamento odontológico, foi observada significativa dor na puntura da injeção. Para avaliar uma possível associação entre a dispersão do intervalo QT e a pressão arterial foram avaliados registros eletrocardiográficos obtidos em 56 pacientes submetidos a cirurgias dentais (Matsumura et al., 2001). Embora tenha havido correlação entre os valores basais da pressão arterial diastólica e do intervalo QTc, evolutivamente não houve alteração significativa dessas variáveis no curso do procedimento. A pressão arterial sistólica e a frequência cardíaca, por sua vez, aumentaram significativamente durante a anestesia e a exodontia. Utilizando como anestésico local a mepivacaína a 2%, associada à epinefrina (1:100.000) para realização de cirurgias de implantes dentários em 18 pacientes ASA I, Romano et al. (2009) avaliaram os registros eletrocardiográficos obtidos nas etapas clínicas: período basal, anestesia local, incisão muco-periostal, na perfuração do leito ósseo, colocação do implante, sutura e 20 minutos após o termino do procedimento cirúrgico. Os registros pontuais de 12 derivações foram colhidos a cada 2 minutos; o registro da derivação DII foi obtido de maneira contínua, com mensuração automática de frequência cardíaca, da duração e amplitude das ondas P, da duração do segmento PR, de eventuais desnivelamentos do segmento ST, da duração do complexo QRS e dos intervalos, RR, QT e QTc (corrigido). A frequência cardíaca aumentou nas fases da anestesia e da incisão, tendo atingido seu valor máximo durante a perfuração óssea. A duração dos intervalos RR e QT diminuíram durante as fases de incisão e perfuração. Em relação às arritmias foram detectadas taquicardia e bradicardia sinusais, arritmia sinusal, extra-sístoles supraventriculares e ventriculares, além da inversão da onda T. O mesmo grupo de pesquisadores (Romano et al., 2012) também observou alterações eletrocardiográficas durante cirurgias para a colocação de implantes dentários sob anestesia local com mepivacaína 2% associado à epinefrina 1:100.000, utilizando midazolam ou placebo no pré-operatório. O estudo foi realizado 32 em 18 pacientes ASA I, 10 homens e 8 mulheres, sendo que 2 destes foram submetidos duas vezes ao procedimento, totalizando 20 procedimentos. Foram utilizados eletrocardiogramas obtido pelo software Wincardio, que permitiu o registro de 12 derivações a cada 2 minutos, o registro contínuo do traçado em D2 durante todo o experimento, e a mensuração automática dos seguintes parâmetros eletrocardiográficos: frequência cardíaca, duração e amplitude da onda P, duração do segmento PR, desnivelamento do segmento ST, duração do complexo QRS, duração dos intervalos QT e QTc. O procedimento foi dividido em 7 etapas: (1) período basal; (2) durante a anestesia local; (3) durante a incisão muco-periostal; (4) durante a perfuração do leito ósseo; (5) durante a colocação do implante; (6) durante a sutura e (7) 20 minutos após o término do procedimento. A frequência cardíaca aumentou durante as fases de anestesia, incisão e perfuração, quando atingiu seu valor máximo. A duração dos intervalos RR e QT diminuíram durante as fases de incisão e perfuração. Foram encontrados alguns valores alterados para a duração da onda P, do complexo QRS e dos intervalos QT e QTc. Os achados eletrocardiográficos observados foram a taquicardia sinusal, bradicardia sinusal, arritmia sinusal, extra-sístole supraventricular, extra-sístole ventricular e inversão da onda T. Concluiu-se que a cirurgia para a colocação de implantes dentários pode induzir alterações eletrocardiográficas, visto que ocorreram em 60% dos pacientes. As arritmias mais frequentes encontradas foram extra-sistolia e taquicardia sinusal. As fases anestesia, incisão e perfuração apresentaram maiores valores de frequência cardíaca e menores valores para duração dos intervalos RR e QRS. Com a crescente demanda de atendimento de pacientes idosos e a considerável prevalência de portadores de múltiplas comorbidades (sobretudo cardiovasculares), diversos estudos seguem pesquisando o perfil de segurança dos fármacos (anestésicos, vasoconstritores e outros), procedimentos (especialmente os de maior porte, como cirurgias) e a interação desses com os efeitos da ansiedade ao tratamento odontológico. Neste cenário, a inserção de metodologias direcionadas ao estudo dos impactos diretos e instantâneos da modulação do sistema nervoso autônomo sobre a dinâmica cardiovascular, entre as quais se destaca principalmente a avaliação da variabilidade da frequência cardíaca (VFC), vem ganhando espaço principalmente por seu poder preditor de eventos cardiovasculares graves e de ser razoavelvente exequível no ambiente de consultório. 33 2.2.2 Sistema Nervoso Autônomo e Variabilidade da Frequência Cardíaca Muitas das funções orgânicas são continuamente monitoradas (por aferências nervosas) e ativamente moduladas por eferências do sistema nervoso autônomo. Quando um estímulo estressante ou potencialmente nocivo é identificado, deflagrase uma resposta adaptativa através da ativação do sistema nervoso autônomo simpático (SNAS). Quase que imediatamente, as reações cardiovasculares, respiratórias e hormonais são ativadas pela liberação de adrenalina pela medula das adrenais e de noradrenalina pelos neurônios simpáticos centrais e periféricos. A ação do SNAS sobre o sistema cardiovascular evoca aumento do débito cardíaco principalmente através do efeito inotrópico e cronotrópico positivo das catecolaminas endógenas; paralelamente, induz também aumento da ventilação através da dilatação da musculatura lisa peri-brônquica. Esta resposta está ligada ao início do alarme e ao estágio de “luta-fuga” (Tsigos; Chrousos, 2002; King; Hegadoren, 2002; Davis; Granger, 2009). De maneira antagônica, as eferências do sistema nervoso autônomo parassimpático (SNAP) efetuam as vias contra-regulatórias desse equilíbrio dinâmico através, principalmente, de fibras colinérgicas. O efeito dessas duas vias regulatórias sobre o nó sinusal, marca-passo natural do ritmo cardíaco, traduz-se na condição normal de flutuação da frequência cardíaca. Essa variabilidade da frequência cardíaca (VFC) indica a integridade de uma complexa rede regulatória composta pelas interferências do sistema nervoso central sobre o sistema nervoso autônomo (SNA), do SNA sobre o ritmo cardíaco e das aferências nervosas sobre ambos. O estudo da VFC, realizado através das análises das variações (periódicas e não periódicas) dos intervalos batimento-abatimento (intervalos RR consecutivos), permite avaliar a integridade dessas vias regulatórias e os efeitos de variáveis externas sobre a homeostase do sistema cardiovascular (Hartikainen et al., 1998). A análise da VFC no domínio do tempo (variáveis não periódicas) consiste na exploração de medidas de dispersão dos intervalos RR normais (assim chamados intervalos NN) ao longo de uma determinada série temporal registrada com eletrocardiograma, holter ou frequencímetros portáteis. Neste domínio, as variáveis mais estudadas são o SDNN (desvio padrão dos intervalos NN), rMSSD (raiz quadrada da média das diferenças quadradas de NN consecutivos) e pNN50 34 (porcentagem de NN consecutivos com diferença superior a 50 milissegundos). Através de modelagens matemáticas (como a Transformada de Fourier) das sequências de intervalos RR, podem ser extraídas as variâncias específicas da frequência cardíaca de determinados padrões oscilatórios, arbitrariamente separados por faixas de frequência. Habitualmente descrevem-se os padrões de interferência da VFC em baixa frequência (0,04 - 0,15Hz), resultado da interação da atividade do SNAS com o braço efetor parassimpático da resposta baro-reflexa, e alta frequência (0,15 - 0,40Hz), determinada principalmente pela influência do ritmo respiratório sobre a atividade do SNAP, através do reflexo vagal (arritmia sinusal ventilatória). A razão LF/HF, por isso, é tratada como o balanço simpato-vagal. (Hartikainen et al., 1998). O declínio da variabilidade da frequência cardíaca, resultado de redução do tônus parassimpático e aumento da estimulação simpática, sinaliza situações de menor adaptabilidade do SNA e prediz aumento do risco cardiovascular (Servant et al., 2009). Além disso, a VFC tem demostrado ser um indicador confiável para estadiamento e prognóstico de pacientes com doenças cardiovasculares (Casolo et al., 1992; Nolan et al., 1998; La Rovere et al., 2001; American College of Cardiology/American Heart Association, 2007; Marijon et al., 2009; Watanabe et al., 2013) e diabete (Singh et al., 2000; Turker et al., 2013; Wu et al., 2013). Em outros cenários, alguns estudos também demonstraram que pacientes com transtornos de ansiedade e depressão exibem menores parâmetros de VFC que voluntários sem distúrbios mentais (Rechlin et al., 1994; Yeragani et al., 1998; Agelink et al., 2002; Bar et al., 2007; Servant et al., 2009; Henry et al., 2010). Fisiologicamente, a variabilidade da frequência cardíaca é, pois, uma medida da modulação autonômica, humoral e intrínseca da frequência cardíaca. Como uma medida da regulação autonômica da excitação, a VFC traz informações sobre a habilidade do sistema nervoso em organizar uma resposta homeostática conforme a demanda da situação. Evidências recentes sugerem também que a VFC pode servir como um índice objetivo de emotividade (Appelhans; Luecken, 2006). Estados emotivos diversos e as dimensões psico-afetivas da dor evocam um grau de excitação fisiológica que prepara o corpo para responder a condições ambientais, e essa resposta é mediada por ativação do SNA (Hagemann et al., 2003). Baseado na hipótese de que a dor (como sintoma físico e por sua dimensão emocional) poderia interferir na modulação autonômica ou que, ainda, essa 35 modulação pode regular vias inibitórias da dor e alterar a percepção (limiar e intensidade) dos estímulos nociceptivos, Appelhans e Luecken (2008) estudaram a associação da VFC e sensibilidade à dor evocada por estímulos térmicos de temperaturas sucessivamente decrescentes. Consistentemente com as expectativas dos autores, maiores valores de LF predisseram menores índices de percepção de dor, flagrados por maiores limiares e menores intensidades de desconforto. Esse achado sugere, segundo os autores, que diferenças individuais na sensibilidade à dor podem ser entendidas como uma possível tradução da emotividade através de uma resposta autonômica adaptativa de ativação de vias inibitórias da dor; um padrão de resposta emocional-comportamental-orgânica de um estado basal a uma condição reativa-adaptativa. No âmbito geral de avaliação da correlação da VFC com desfechos cirúrgicos, Ushiyama et al. (2008) avaliaram o estresse cirúrgico e o desenvolvimento de complicações pós-operatórias em 30 pacientes submetidos a cirurgias digestivas diversas. Os pacientes foram acompanhados no pré-operatório e no primeiro e sétimos dias de pós-operatório. Foi avaliada a relação da variabilidade da frequência cardíaca e a duração das cirurgias, o volume total de sangue perdido e o desenvolvimento de complicações no pós-operatório. A frequência cardíaca média teve aumento ao longo das etapas avaliadas e os índices da VFC, diminuição. Esses índices também mostraram alteração significativa com relação à duração da cirurgia e perda de sangue no primeiro dia de pós-operatório. Apenas o índice SDNN mostrou diminuição nos pacientes com complicação pós-operatória. Os autores apontam que a VFC provê informações úteis com respeito ao estresse cirúrgico e ao risco de complicações pós-operatórias. 2.2.3 Variabilidade da Frequência Cardíaca e Odontologia Matsumura et al. (1998), no primeiro estudo clínico que incorporou a avaliação da VFC em odontologia, avaliaram 40 pacientes separados em dois grupos de acordo com a idade (menores versus maiores de 40 anos) submetidos a exodontias sob anestesia local com lidocaína 2% e epinefrina 1:80.000. Neste protocolo, foram registradas a pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica, a 36 frequência cardíaca e a VFC obtida por análise espectral (variáveis do domíno da frequência) de sequências temporais de intervalos RR obtidos a partir de HolterECG. Os autores observaram em todos os pacientes elevação da PAS e da frequência cardíaca na etapa da anestesia. Ambos os grupos evoluíram com redução da HF na etapa da anestesia, de maior magnitude nos pacientes mais jovens. Nesta etapa, a razão LF/HF, que sinaliza o balanço simpatovagal, apresentou elevação nos jovens e redução nos mais velhos, confirmando os achados de um desvio da modulação autonômica reativa para um predomínio simpático entre os jovens e parassimpático nos voluntários maiores de 40 anos. Os autores hipotetizaram que a resposta simpática vista entre os jovens poderia ser uma reação fisiológica ao estresse e à anestesia com vasoconstritor, fato não observado entre os idosos por possível embotamento dessa resposta pelo uso dos anti-hipertensivos ou por disautonomia. A observação dos pesquisadores de que os idosos, ao apresentarem um padrão de resposta discordante entre a pressão arterial e a ativação do SNA mostraram que as reações cardiovasculares ao estresse cirúrgico e emocional - e também à administração do vasoconstritor adrenérgico podem ser bastante diversas, de acordo com perfis individuais de reatividade cardíaca e vascular e também conforme os reflexos regulatórios, como já descrito por Lawler et al. (2001). Com isso, os autores concluíram que frente à gama de variações no perfil de resposta hemodinâmica durante um procedimento cirúrgico odontológico, a avaliação da VFC pode ser uma ferramenta acurada de evidenciação dos processos regulatórios do SNA e de predição do risco de eventos cardiovasculares. O mesmo grupo de pesquisadores (Miura et al., 2000), avaliou 18 pacientes hipertensos e 18 normotensos entre 25 e 74 anos submetidos a cirurgias de extração dental sob anestesia local com lidocaína 2% e epinefrina 1:80.000 através da mesma metodologia e observou aumento da PAS, PAD e FC durante a extração em ambos os grupos. O comportamento da VFC, no entanto, mostrou-se diferente quando comparados hipertensos e normotensos. Enquanto entre os normotensos houve queda do componente de alta frequência (HF) da VFC, sinalizando uma supressão do tônus vagal, nos hipertensos, diferentemente, essa variável não exibiu alteração evolutiva. A razão LF/HF apresentou redução nos dois grupos (durante a fase anestesia nos hipertensos e na fase cirúrgica entre os normotensos), mostrando um efeito resultante do predomínio do parassimpático, o que entre os 37 hipertensos pode ser interpretado como uma redução da eferência simpática reflexa cardíaca ou potencial bloqueio medicamentoso. Yoshiyuki et al. (2001) avaliaram a atividade do Sistema Nervoso Autônomo através da análise da VFC na anestesia e durante cirurgia periodontal em 10 pacientes. Foram analisados pressão arterial, frequência cardíaca e variabilidade da frequência cardíaca em seus espectros de frequência: LF e HF, assim como a razão LF/HF. A pressão e a frequência cardíaca não apresentaram alterações significativas ao longo dos procedimentos. Houve aumento significativo na razão LF/HF, o que indicaria uma mudança no balanço autonômico, com predomínio do sistema simpático, 3 minutos antes, durante e 3 minutos após a anestesia e antes da cirurgia periodontal. A mudança em LF/HF 3 minutos após a anestesia foi observada no momento de pico da concentração plasmática de epinefrina, vasoconstritor associado ao anestésico local utilizado. Os autores concluíram que os resultados sugerem que esse aumento foi causado por estresse mental antes da anestesia e do procedimento cirúrgico e estresse físico durante a anestesia (além da epinefrina do anestésico local). Por outro lado, a cirurgia periodontal, sob eficiente anestesia local, não deflagrou alterações da VFC, apesar de se acreditar que a cirurgia periodontal seria um tratamento estressante. Segundo os pesquisadores, o comportamento da variabilidade da frequência cardíaca refletiria sensivelmente o efeito do estresse mental e físico, além do agonismo adrenérgico do vasoconstritor do anestésico local e, portanto, seria uma útil ferramenta de avaliação das respostas cardiovasculares durante o tratamento odontológico. Montebugnoli et al. (2004) avaliaram 25 pacientes saudáveis (15 homens e 10 mulheres, com idade média de 40 anos) submetidos a cirurgia de exodontia de molares sob anestesia local com mepivacaína 2% e epinefrina 1:100.000. Durante os procedimentos foram registradas a pressão arterial sistêmica, a frequência cardíaca e a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) a partir do valor de SDNN coletado de um monitor cardíaco integrado ao equipo odontológico. Os autores observaram que ao longo das etapas do procedimento não foram flagradas alterações significativas da pressão arterial, em contraste com a frequência cardíaca, que exibiu elevação na etapa de extração e redução na fase de recuperação. O SDNN, por sua vez, evoluiu de forma quase especular com a frequência cardíaca, apresentando queda estatisticamente significativa nas fases anestesia e extração, seguida de elevação na fase de recuperação. Pelos 38 resultados, os autores advogaram maior sensibilidade da VFC em evidenciar alterações autonômicas e cardiovasculares discretas, muito embora não tenha sido realizado qualquer outro teste que se prestasse como padrão-ouro na detecção dessas alterações. Como limitação do estudo observa-se que não foi coletada informação sobre possíveis variáveis de confusão, como ansiedade ao tratamento odontológico. Okushima et al. (2008) num estudo aleatorizado e controlado com 26 voluntários jovens e saudáveis, avaliaram o efeito da sedação consciente com óxido nitroso (N2O) sobre a VFC e observaram um deslocamento do balanço simpatovagal para um predomínio parassimpático no grupo intervenção (N 2O), expressos pela manutenção dos valores de HF (em oposição à queda observada no grupo controle, sem sedação consciente) e de LF (comparada à elevação entre os voluntários do grupo controle), o que de certa trouxe questionamentos sobre os efeitos cardiovasculares do N2O, dados os estudos que já apontaram aumento da resistência vascular periférica, aumento da concentração plasmática de catecolaminas e aumento de disparos de nervos simpáticos d músculos esqueléticos (Eisele; Smith, 1972; Ebert; Kampine, 1989; Ebert, 1990). Uma limitação apontada pelos autores para a extrapolação desses resultados ao cenário de prática clínica reside no fato de que no estudo realizado não houve procedimento cirúrgico ou administração de anestésico e vasoconstritor, variáveis que possivelmente determinariam respostas autonômicas, além de interagirem com a resposta emocional do paciente ao procedimento cirúrgico por si. No ambiente odontológico, nas linhas de pesquisa de segurança de procedimentos e fármacos, ainda não se dispõe de literatura acerca da aplicabilidade de métodos simplificados de aquisição de dados de VFC a partir de frequencímetros portáteis, já validados para essa finalidade em outros cenários (Gamelin et al., 2006; Nunan et al., 2008; Vanderlei et al., 2008; Nunan et al., 2009; Weippert et al., 2010). Neste sentido, pelas consistentes evidências de que a análise da VFC pode acrescentar sensibilidade ao estudo das variações do comportamento do SNA e identificação de indivíduos ou situações de elevado risco cardiovascular, o presente estudo se propõe não apenas a avaliar a viabilidade da incorporação de um método já consagrado, mas também trazer a possibilidade de simplificar essa metodologia através do uso de dispositivos de manejo facilitado e baixo custo. 39 3 PROPOSIÇÃO O objetivo primário deste estudo é avaliar a aplicabilidade da análise da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) na mensuração de respostas fisiológicas à intervenção cirúrgica odontológica (exodontia de terceiro molar inferior). Como objetivos secundários, têm-se os seguintes: Estudo da viabilidade de utilização de frequencímetros portáteis como instrumento de coleta de dados para análise da VFC no ambiente odontológico, e; Estudo do comportamento das variáveis hemodinâmicas (pressão arterial e frequência cardíaca), eletrocardiográficas e da VFC ao longo da cirurgia de exodontia de terceiro molar inferior. 40 4 CASUÍSTICA-MATERIAL E MÉTODOS Esse projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) com o número FR 33567 Protocolo 88/2010 (Anexo A). Todos os pacientes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A). 4.1 CASUÍSTICA O tamanho da amostra foi definido a partir do cálculo do número de indivíduos necessários à observação de alterações de magnitude superior a 15% na frequência cardíaca e pressão arterial, parâmetros habitualmente utilizados em estudos de segurança cardiovascular de procedimentos odontológicos. Como não há estudos prévios de aferição de variáveis da variabilidade da frequência cardíaca com uso de cardio-frequencímetros portáteis no ambiente odontológico, o tamanho da amostra foi arbitrariamente superestimado em 50% (30 voluntários) e acrescido de mais 10% para compensar médias históricas de abandonos de protocolo nos estudos da Clínica Integrada do Departamento de Estomatologia da FOUSP, totalizando 33 pacientes. Desta forma, trinta e três pacientes foram selecionados de maneira consecutiva no Setor de Urgência Odontológica e na Clínica da Disciplina de Clínica Integrada da FOUSP, mediante o preenchimento dos seguintes critérios: - ausência de doença sistêmica (Physical Status Classification System ASA I – American Society of Anesthesiologists, 2011); - indicação de exodontia de terceiro molar inferior. O dente deve estar erupcionados, sem cárie, e seguir a classificação de Pell e Gregory (1933): classe I, posição A (Figura 4.1); - idade igual ou acima de 18 anos; - no caso de pacientes do sexo feminino, não estar grávida; - não fazer uso de medicamento antidepressivo ou anti-inflamatório; 41 Classe I* Posição A** Figura 4.1 - Classificação de Pell e Gregory (1933). *Classe I - Existe espaço suficiente entre o ramo e a distal do segundo molar para acomodação do diâmetro mésio-distal do terceiro molar. **Posição A - A porção mais alta do terceiro molar está acima ou no plano oclusal. 4.2 MÉTODOS Os pacientes selecionados foram avaliados em 3 momentos. 4.2.1 Entrevista (dia 1) As entrevistas e os procedimentos ocorreram sempre às 9h da manhã e a temperatura da sala foi mantida a 23º Celsius. Foi feita a anamnese para triagem dos pacientes (Apêndice B) e aos pacientes que atendessem aos critérios de inclusão da pesquisa, foi solicitada também uma radiografia periapical do dente com indicação para cirurgia, para confirmação da classificação de Pell e Gregory (1933). No mesmo dia da entrevista, o paciente foi informado da dinâmica do protocolo e agendado para atendimento na Clínica de Pesquisa do Departamento de Estomatologia. Após concordarem em participar da pesquisa através de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A), foi preenchido o protocolo de pesquisa do paciente (Apêndice C). Além de dados demográficos como idade, gênero, escolaridade e renda familiar, o índice de massa corpórea, tabagismo passivo (exposição diária domiciliar ou laboral à poluição tabágica ambiental) e a circunferência abdominal foram 42 coletados. Os pacientes foram questionados também quanto a possíveis experiências em algum evento causador de medo, frente ao tratamento odontológico. Em caso de resposta afirmativa, foram anotados detalhes. A “ansiedade ao tratamento odontológico” foi medida pela MDAS (Modified Dental AnxietyScale – Apêndice D) validada para o português (Kanegane et al., 2003). Esta escala é composta de cinco perguntas, com cinco opções de resposta cada. Para cada resposta é dado um valor, que somados, resultam num escore, que pode variar de 5 a 25. Foram considerados ansiosos os pacientes que tiveram valores da escala MDAS superior a 15. 4.2.1.1 avaliação cardiovascular Os pacientes permaneceram 20 minutos em repouso, na posição sentada. Após esse período, foi colocada a cinta torácica ajustável do frequencímetro Polar RS800cx (Polar ElectroÖy, Kempele, Finland), na altura do quarto espaço intercostal (Figura 4.2). Os dados obtidos pelo frequencímetro foram transferidos para o software Polar ProTrainer 5 (PPT-5) - que acompanha o frequencímetro - através do sensor infravermelho. O software PPT-5 contém um algoritmo automático de filtragem e interpolação de intervalos RR. As séries de batimentos cardíacos foram corrigidas para eliminação de artefatos e batimentos aberrantes através do recurso automático de filtragem nas configurações padrão. Após o procedimento automático de filtragem de ruídos e batimentos precoces, as séries temporais de frequências cardíacas instantâneas (tacogramas) foram submetidas à análise visual para remoção (ferramenta de recorte) de eventuais extra-sístoles remanescentes. As sequências de intervalos RR normais (intervalos NN) foram então exportadas do software PPT-5 como arquivos de texto e importadas pelo programa Kubios HRV Analysis Softwarev2.1 (Biomedical Signal Analysis Group; Department of Applied Physics, University of Kuopio, Finland) para o processamento automático da variabilidade da frequência cardíaca conforme recomendado pela European Society of Cardiology e North American Society of Pacing and Electrophysiology (1996). Foram analisadas as variáveis do domínio do tempo (SDNN e rMSSD) e frequência (LF e HF, em unidades normatizadas e razão LF/HF). 43 Figura 4.2 - Frequencímetro Polar RS800cx. Fonte fotos: www.polar.com. Para registro eletrocardiográfico em repouso (exame de triagem para arritmias ventriculares e supra-ventriculares, alterações de condução e distúrbios de repolarização) foi utilizado o Eletrocardiógrafo ECG Digital (Micromed Biotecnologia, Brasil) de 12 derivações, com monitoramento por 20 minutos. O software proprietário WinCardio®, versão 5.0 (Micromed Biotecnologia) foi utilizado como a interface para microcomputador e processamento dos dados (Figuras 4.3 e 4.4). Figura 4.3 a- Eletrocardiógrafo (ECG Digital Micromed Biotecnologia) b- Eletrodos c- Conectores para o aparelho e para o microcomputador 44 Figura 4.4 - Captura de tela de exame do software Wincardio 5.0 (12 derivações). Simultaneamente, fez-se a monitorização multiparamétrica (cardioscópio, pressão arterial não-invasiva intermitente) inicial, por 20 minutos com o monitor automático de pressão não-invasivo CRITICARE System®, Inc, modelo Scholar II (Figura 4.5). Os dados obtidos a cada 2 minutos foram impressos e usou-se a média dos valores. Figura 4.5 – Captura da tela do monitor automático de pressão não-invasivo CRITICARE System®, Inc, modelo Scholar II. Os dados coletados nesse momento receberam a denominação “triagem”. 45 4.2.2 Cirurgia (dia 2) No dia do procedimento cirúrgico (uma semana após a triagem), antes do início da coleta de dados, os voluntários permaneceram 20 minutos em repouso. Novamente, foram colhidos os mesmos dados cardiovasculares que na Entrevista (dia1). As cirurgias foram sempre iniciadas as 9:00h da manhã, sempre pelo mesmo cirurgião-dentista. O paciente foi colocado na posição sentada na cadeira odontológica semi-reclinada a 45° durante todo monitoramento. Os registros do frequencímetro, eletrocardiógrafo e monitor multiparamétrico foram adquiridos ao longo da cirurgia até 20 minutos após o término da mesma. Para efeito de análise evolutiva e comparação das variáveis ao curso do procedimento, foram considerados, além do registro basal “Cirurgia 0” (20 minutos antes da cirurgia) os seguintes tempos cirúrgicos: Fase “Cirurgia 1” (imediatamente após anestesia local), “Cirurgia 2” (luxação) e “Cirurgia 3”, 20 minutos após o término do procedimento. Os procedimentos de antissepsia extra e intraoral foram realizados com digluconato de clorexidina a 2% e 0,12%, respectivamente. Em seguida, todos os passos de paramentação cirúrgica e cuidados para manter a cadeia asséptica no campo operatório foram seguidos. O procedimento iniciou-se pela anestesia por bloqueio pterigomandibular com 2 tubetes (1,8 mL) de cloridrato de mepivacaína a 2% com norepinefrina 1:100.000 (Mepinor 2% DFL®). Quando necessário, foi feita complementação anestésica. A velocidade de injeção foi de aproximadamente 1,0 mL/min, assim cada tubete foi injetado num intervalo de aproximadamente 2 minutos, evitando-se, desta forma, dor excessiva que pudesse levar o paciente ao estresse. Utilizaram-se, para reduzir o risco de injeção intravascular, seringas carpules com dispositivo para aspiração. A sequência cirúrgica foi de incisão e sindesmotomia, luxação, avulsão e sutura. 46 4.2.3 Pós-operatório (dia 3) Uma semana após o procedimento cirúrgico, o paciente retornou à Clínica de Pesquisa do Departamento de Estomatologia, às 9:00h, para avaliação pósoperatória, nova coleta de dados e remoção da sutura. Nesse momento, foi aplicada a Escala Visual Analógica para avaliação de dor no pós-operatório (Apêndice E). 4.2.4 Registro Eletrocardiográfico: Além dos tempos já descritos, foi prevista a realização de eletrocardiograma adicional caso houvesse queixa de palpitações, tontura, dor torácica, dispneia ou sinais clínicos suspeitos, como palidez, hipertensão (ou hipotensão), taquicardia superior a 120 batimentos por minuto (bpm) ou bradicardia sintomática ou inferior a 50 bpm. Para análise final, foram coletadas as seguintes variáveis eletrocardiográficas contínuas, em todos os pacientes: - Frequência cardíaca, em batimentos por minuto (bpm); - Duração do segmento PR, em milissegundos (ms); - Duração do complexo QRS, em milissegundos (ms); - Duração do segmento QT corrigido (QTc), em milissegundos (ms); Além das variáveis acima, a presença dos seguintes eventos foi registrada na forma de variáveis categóricas: - Infradesnivelamento do segmento ST maior ou igual a 1mm em duas derivações contíguas; - Supradesnivelamento do segmento ST maior ou igual a 1mm em duas derivações contíguas; - Extrassístoles de complexo QRS largo (ventriculares ou supraventriculares com condução aberrante) isoladas, pareadas, em salvas ou taquicardias não sustentadas; - Extrassístoles de complexo QRS estreito (supraventriculares) isoladas, pareadas, em salvas ou taquicardias supraventriculares; 47 - Alterações dinâmicas da onda T. 4.2.5 Métodos Estatísticos: Os dados sócio-demográficos e antropométricos da população estudada foram submetidos à análise estatística descritiva. Variáveis qualitativas e categóricas são expressas em números absolutos e porcentagens. Variáveis contínuas, por médias e desvio padrão – quando de distribuição normal – ou mediana e intervalo interquartil, se distribuição assimétrica. Para comparação de valores de variáveis contínuas entre grupos, foi realizado o Teste T (se distribuição normal) ou Teste Mann-Whitney, quando distribuição assimétrica. Para análise exploratória das possíveis correlações entre as variáveis demográficas (gênero, idade, presença de ansiedade ou histórico de evento traumático), intensidade de dor pós-operatória e desfechos cardiovasculares (alterações hemodinâmicas e eletrocardiográficas), foi realizado o teste de correlação de Spearman, conforme as amostras. A comparação de variáveis ao longo das etapas do protocolofoi realizada pelo teste de análise de variância (ANOVA) para medidas repetidas. Para exploração das múltiplas comparações entre as etapas foram realizados testes post-hoc deTukey. Para avaliação de eventuais diferenças nos comportamentos evolutivos das variáveis dependentes entre diferentes subgrupos foi adotado o teste de ANOVA de duas vias para medidas repetidas. Alguns dados necessitaram sofrer transformações numéricas como a logarítmica para preencher a condição de normalidade dos resíduos das amostras, necessária às modelagens executadas. Foi adotado o valor de 0,05 para significância estatística. Para as análises utilizou-se o programa IBM SPSS v20.0 para Windows® (IBM Corporation, Armonk, NY, USA). 48 5 RESULTADOS Trinta e três pacientes foram recrutados e ingressaram no protocolo de pesquisa. Desses, dois não compareceram à segunda consulta (cirurgia) e um não retornou à avaliação pós-operatória, perfazendo um total de 30 pacientes com registros completos. 5.1 Caracterização da população estudada A mediana da idade dos voluntários foi de 23 anos, sendo 18 dos pacientes (54,5%) do gênero feminino (Tabela 5.1). Quanto à caracterização demográfica da população, trata-se de uma amostra de indivíduos jovens e de elevado nível educacional (Figuras 5.1 e 5.2). Nota-se ainda um perfil socioeconômico elevado, com mais de 50% da amostra estudada apresentando renda familiar acima de R$ 5.000,00 (Figura 5.3). As demais características antropométricas e variáveis clínicas coletadas na avaliação inicial encontravam-se dentro dos limites da normalidade. A prevalência de ansiedade ao tratamento odontológico, definida pela pontuação igual ou superior a 16 na escala MDAS (Modified Dental Anxiety Scale), foi baixa (4 voluntários), assim como também foi pouco descrita a experiência traumática prévia no cenário de atendimento odontológico (4 pacientes). Um voluntário apresentou o registro concomitante de ansiedade e antecedente de experiência traumática, como descrito no diagrama da figura 5.4. 49 Tabela 5.1 - Características demográficas, antropométricas e clínicas da população estudada (n=33) Variáveis Valores Idade (anos), mediana (IQ 25-75%) Gênero feminino, n (%) Peso (Kg), média ± DP Altura (m), média ± DP IMC, média ± DP Circunferência Abdominal (cm), média ± DP Tabagismo Passivo, n (%) 23 (21 - 31) 18 (54,5%) 65,16 ± 12,80 1,68 ± 0,098 23,06 ± 3,69 79,97 ± 11,02 11 (33%) Evento Traumático Prévio, n (%) Ansiedade ao tratamento odontológico*, n (%) MDAS#, mediana (IQ 25-75%) FC (bpm), média ± DP PAS (mmHg), média ± DP 4 (12,1%) 4 (12,1%) 9 (7-12,5) 71,18 ± 10,89 121,18 ± 11,80 PAD (mmHg), média ± DP PAM (mmHg), média ± DP SDNN (ms), mediana (IQ 25-75%) rMSSD (ms), mediana (IQ 25-75%) LF (nu), mediana (IQ 25-75%) HF (nu), mediana (IQ 25-75%) 70,12 ± 7,21 89,88 ± 7,75 124 (79 - 168) 79 (36 - 85) 63 (56-72) 35 (27-43) LF/HF, mediana (IQ 25-75%) 2,21(1,20-2,59) Legenda: DP: desvio padrão IQ 25-75%: intervalo interquartil IMC: Índice de Massa Corpórea * definida como MDAS 16 FC: frequência cardíaca PAS: pressão arterial sistólica PAD: pressão arterial diastólica PAM: pressão arterial média SDNN: standard deviation of the NN intervals rMSSD: root mean square successive difference LF: low frequency HF: high frequency 50 Figura 5.1 - Histograma de distribuição de idade dos voluntários, conforme frequência Figura 5.1 Figura 5.2 - Histograma de distribuição da escolaridade dos voluntários, conforme frequência das faixas Figura 5.2 Legenda: Status Educacional: 1(fundamental incompleto), 2 (fundamental completo), 3 (médio incompleto), 4 (médio completo), 5 (superior incompleto), 6 (superior completo). 51 Figura 5.3 - Histograma de distribuição faixas de renda familiar dos voluntários, conforme frequência Figura 5.3 Legenda: Renda (faixa salarial): 1 (até R$500,00),2 (de R$501,00 a R$1500,00), 3 (de R$1501,00 até R$3000,00), 4 (de R$3001,00 até R$5000,00), 5 (Mais de R$5000,00) Figura 5.4 - Prevalência de ansiedade e antecedente de experiência traumática no consultório odontológico, diagrama de Venn Figura 5.4 52 Quanto à exploração da amostra em relação às possíveis diferenças entre os gêneros, nota-se que não houve diferença estatisticamente significativa nas pontuações das escalas MDAS e EVA (Escala Visual Analógica) para ansiedade e dor, respectivamente (Tabela 5.2). Tabela 5.2 - Escala MDAS de ansiedade e EVA de dor no pós-operatório, conforme o gênero. Escala EVA de Dor (cm), mediana (IQ 25-75%) Escala MDAS de Ansiedade, mediana (IQ 25-75%) Feminino n=18 2 (0 - 4) 9 (6,75-10) Masculino n=12 p* 1 (0 - 2) 8 (7 - 13) 0,215 0,580 Legenda: * teste Mann-Whitney. Com respeito às variáveis eletrocardiográficas basais dos voluntários (Tabela 5.3), todos os pacientes apresentaram exames normais (ritmo sinusal normal), sem ocorrência de distúrbios de condução (atrioventriculares ou ventriculares), alterações de repolarização, sinais eletrocardiográficos sugestivos de isquemia miocárdica aguda, áreas inativas, ou quaisquer outros achados anormais. Os valores medidos dos intervalos PR, QRS e QT corrigido (QTc) encontravam-se dentro dos limites da normalidade. Tabela 5.3 - Triagem, variáveis eletrocardiográficas n=30) Variável Valores PR(ms), média ± desvio padrão 142,83 ± 24,45 QRS (ms), média ± desvio padrão 87,97 ± 12,69 QTc(ms), média ± desvio padrão 400,83 ± 32,16 Alargamento de intervalo PR, n (%) 0 (0%) Alargamento de complexo QRS, n (%) 0 (0%) Alargamento de intervalo QTc, n (%) 0 (0%) Desnivelamento do segmento ST, n (%) 0 (0%) Extra-sístoles ou taquicardias supraventriculares, n (%) 0 (0%) Extra-sístoles ou taquicardias ventriculares, n (%) 0 (0%) Bradicardias sintomáticas ou com FC<50bpm, n (%) 0 (0%) 53 O antecedente de experiência traumática prévia no ambiente odontológico não esteve associado a maiores relatos de dor no pós-operatório, como pode ser observado na tabela 5.4. Tabela 5.4 - Escala de dor (EVA), conforme antecedente de experiência traumática e/ou ansiedade em ambiente odontológico Escala EVA de Dor (cm), mediana (IQ 25-75%) Sim** (n=6) Não*** (n=24) p* 2 (0,75-3,25) 0,5 (0-3) 0,254 Legenda: * teste Mann-Whitney ** Ansiosos e/ou com experiência traumática prévia *** Não-ansiosos e/ou sem antecedente de experiência traumática Ao analisar as correlações entre as variáveis sócio-demográficas, antropométricas e os valores das escalas de ansiedade (MDAS) e dor (EVA), notase que não houve correlação estatisticamente significativa entre ansiedade (expressa na escala MDAS) e dor com as demais variáveis estudadas (Tabela 5.5). O achado de coeficiente de correlação negativo entre as variáveis MDAS e renda familiar, pode expressar uma associação que, embora fraca (coeficiente=-0,349; p=0,047), sinalize uma tendência de se observarem maiores valores da escala MDAS entre voluntários de menor renda. Da mesma forma, a renda esteve positiva e fracamente correlacionada (coeficiente=0,345; p=0,049) à escolaridade, evidenciando uma tendência de observação de maiores faixas de renda entre os voluntários de estratos educacionais mais altos. Correlações positivas também foram encontradas entre a idade, IMC e circunferência abdominal, tomadas duas a duas. Observou-se também uma tendência de achado de maiores valores de IMC entre voluntários de menor renda. Outro achado com significância estatística foi a correlação (fraca e negativa) entre idade e renda. 54 Tabela 5.5 - Correlação entre as variáveis demográficas e antropométricas e escalas de dor e ansiedade, teste de Spearman Idade CAb IMC MDAS EVA Escolaridade Renda Idade CAb IMC MDAS EVA Escolaridade Renda Coeficiente 1 0,348 0,372 0,203 -0,276 -0,099 -0,396 Significância . 0,047 0,033 0,256 0,14 0,583 0,022 Coeficiente 1 0,586 0,125 -0,043 -0,2 -0,115 Significância . 0 0,488 0,823 0,266 0,524 Coeficiente 1 0,178 0,021 -0,322 -0,352 Significância . 0,323 0,912 0,067 0,045 Coeficiente 1 0,093 -0,084 -0,349 Significância . 0,626 0,641 0,047 Coeficiente 1 -0,185 0,122 Significância . 0,328 0,52 Coeficiente 1 0,345 Significância . 0,049 Coeficiente 1 Significância . Legenda: CAb: Cicunferência abdominal 5.2 Avaliação do comportamento evolutivo das variáveis hemodinâmicas A evolução da pressão arterial sistêmica (PAS, PAD e PAM) e da FC ao longo das etapas do estudo (triagem, tempos cirúrgicos e retorno do sétimo dia de pósoperatório) não foi marcada por diferenças estatisticamente significativas, como se pode observar na Figura 5.5. 55 Figura 5.5 - Frequência Cardíaca, Pressão Arterial Sistólica, Diastólica e Média – ANOVA medidas repetidas Figura 5.5 Legenda: Cir0: registro basal (20 minutos antes da cirurgia); Cir1: (imediatamente após anestesia local); Cir2: luxação; Cir3: 20 minutos após o término do procedimento; 7PO: pós operatório 7 dias após a cirurgia. 56 5.3 Avaliação do comportamento evolutivo das variáveis eletrocardiográficas No curso das etapas do estudo, não foram constatados eventos eletrocardiográficos adversos de quaisquer natureza, quais fossem arritmias, bloqueios, distúrbios da repolarização ou evidências de isquemia miocárdica (desnivelamentos do segmento ST ou inversão da onda T). Na triagem de detecção de diferenças de médias entre as medidas repetidas (teste ANOVA MR) dos intervalos PR, QRS e QTc, observaram-se alterações estatisticamente significativas ao longo de todas as fases do protocolo (Figura 5.6). Realizando os testes de múltiplas comparações pelo procedimento de Tukey (Apêndice G), o intervalo PR teve alteração estatisticamente significativa em relação às fases Triagem e as seguintes: fases Cir0, Cir2, Cir3 e 7PO; os demais períodos não guardaram diferenças estatisticamente significativas entre si. A duração do complexo QRS também foi marcada por diferenças significativas entre a fase Triagem e as demais, assim como entre as fases basal (Cir0) e anestesia (Cir1). De forma similar, para a duração do intervalo QT corrigido, o teste de Tukey para múltiplas comparações, resultou em diferenças significativas apenas entre a Triagem e as fases Cir0 e Cir1. 57 Figura 5.6 - Variáveis Eletrocardiográficas - ANOVA medidas repetidas. Figura 5.6 Legenda: Cir0: registro basal (20 minutos antes da cirurgia); Cir1: (imediatamente após anestesia local); Cir2: luxação; Cir3: 20 minutos após o término do procedimento; 7PO: pós operatório 7 dias após a cirurgia. 58 5.4 Avaliação do comportamento evolutivo da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) O comportamento da VFC ao longo das etapas clínicas foi de um decremento estatisticamente significativo do SDNN e do LF. Após a análise post-hoc das múltiplas comparações pelo procedimento de Tukey (Apêndice H), confirmou-se apenas a redução do SDNN entre a fase basal e a fase anestesia (Figura 5.7). As demais variáveis não expressaram alteração evolutiva com significância estatística. 59 Figura 5.7 - Variabilidade da Frequência Cardíaca – ANOVA medidas repetidas Figura 5.7 Legenda: Cir0: registro basal (20 minutos antes da cirurgia); Cir1: (imediatamente após anestesia local); Cir2: luxação; Cir3: 20 minutos após o término do procedimento; 7PO: pós operatório 7 dias após a cirurgia; sdnnLOG: logaritmo natural de SDNN; rmssdLOG: logaritmo natural de rMSSD;lfLOG: logaritmo natural de LF; hfLOG: logaritmo natural de HF; lfhfLOG: logaritmo natural da razão LF/HF. 60 5.5 - Análises post-hoc de subgrupos nas condições basais, conforme variáveis de contraste idade, gênero, exposição domiciliar à poluição tabágica ambiental (PTA) e ansiedade e/ou antecedente de evento traumático Na exploração de possíveis contrastes das condições basais entre subgrupos conforme faixas etárias (acima versus menor ou igual à mediana), notamos que as pressões arteriais sistólica, diastólica e média eram maiores no subgrupo de idade mais elevada (Tabela 5.6). Dentre as variáveis eletrocardiográficas, o intervalo QTc apresentou diferença estatística com tendência de se aproximar de seu limite superior (440ms), nos pacientes com idade igual ou menor que a mediana (23 anos). Em relação à FC e VFC os subgrupos não diferiram entre si. Tabela 5.6 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme idade ≤ mediana n=14 >mediana n=16 p FC (bpm) média ± DP 74,53 ± 12,21 67,63 ± 8,24 0,068* PAS (mmHg) média ± DP 116,59 ± 7,46 PAD (mmHg) média ± DP 66,59 ± 6,12 73,88 ± 6,47 0,002* PAM (mmHg) média ± DP 86,12 ± 5,83 93,88 ± 7,68 0,003* 136,00 ± 24,35 148,82 ± 23,67 0,156* QRS (ms) média ± DP 83,71 ± 6,13 91,69 ± 15,72 0,086* QTc (ms) média ± DP 419,09 ± 26,78 384,88 ± 28,22 0,002* SDNN (ms) mediana (IQ 25-75%) 118 (84-168) 113(67-168) 0,827# rMSSD (ms) mediana (IQ 25-75%) 68(40-130) 60(31-78) 0,296# LF (nu) mediana (IQ 25-75%) 60(52-70) 62(58-75) 0,527# HF (nu) mediana (IQ 25-75%) 39(29-47) 37(24-41) 0,536# PR (ms) média ± DP LF/HF mediana (IQ 25-75%) Legenda: * Teste t # Teste Mann-Whitney 126,06 ± 13,73 0,019* 1,56 (1,10-2,40) 1,66(1,40-3,09) 0,972# 61 Em relação ao gênero, os voluntários diferiram nas condições basais apenas quanto à pressão arterial sistólica (p=0,002), maior entre os homens, e ao SDNN (p=0,015), também maior entre os indivíduos do sexo masculino (Tabela 5.7). Em relação às demais variáveis avaliadas, os dois subgrupos não apresentaram diferenças estatisticamente significativas. Tabela 5.7 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme gênero Homens n=15 Mulheres n=18 p FC (bpm) média ± DP 67,40 ± 10,06 74,33 ± 10,81 0,100* PAS (mmHg) média ± DP 127,53 ± 12,69 115,89 ± 8,03 0,002* PAD (mmHg) média ± DP 72,20 ± 7,60 68,39 ± 6,59 0,401* PAM (mmHg) média ± DP 93 ± 8,24 87,28 ± 6,44 0,073* 157,47 ± 27,66 166,61 ± 25,22 0,325* QRS (ms) média ± DP 83,67 ± 9,06 79,44 ± 9,21 0,215* QTc (ms) média ± DP 392,47 ± 9,59 395,17 ± 33,80 0,789* PR (ms) média ± DP 88,50 (60,75 - 125) 0,015# SDNN (ms) mediana (IQ 25-75%) 129 (111 - 172) rMSSD (ms) mediana (IQ 25-75%) 62 (39 - 112) 63 (28,25 - 79,75) 0,532# LF (nu) mediana (IQ 25-75%) 60 (51 - 72) 63 (56 - 81) 0,361# HF (nu) mediana (IQ 25-75%) 39 (27 - 48) 36 (18 - 43) 0,361# 1,56 (1,06 - 2,58) 1,75 (1,30 - 4,35) 0,307# LF/HF mediana (IQ 25-75%) Legenda: * Teste t # Teste Mann-Whitney Quanto ao antecedente de tabagismo passivo (exposição domiciliar à poluição tabágica ambiental), observamos também valores mais elevados da pressão arterial sistólica, diastólica e média nos voluntários expostos, comparados aos não-expostos. Houve diferença quanto às variáveis eletrocardiográficas QRS e QTc entre os dois grupos analisados. Não se observou diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto à FC e VFC (Tabela 5.8). 62 Tabela 5.8 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme exposição à poluição tabágica ambiental (PTA) domiciliar Não-expostos n=19 Expostos n=11 p FC (bpm) média ± DP 73,27 ± 11,44 67,00 ±8,71 0,121* PAS (mmHg) média ± DP 117,00 ± 7,00 129,55 ± 15,08 0,002* PAD (mmHg) média ± DP 68,00 ± 6,03 74,36 ± 7,77 0,014* PAM (mmHg) média ± DP 87,00 ± 5,72 94,91 ± 9,06 0,006* 144,68 ± 28,26 139,64 ± 16,69 0,595* QRS (ms) média ± DP 84,32 ± 9,17 94,27 ± 15,70 0,036* QTc (ms) média ± DP 409,84 ± 29,24 385,27 ± 32,26 0,042* SDNN (ms) mediana (IQ 25-75%) 97(64-167) 129(107-172) 0,382# rMSSD (ms) mediana (IQ 25-75%) 63(29-96) 62(55-83) 0,966# LF (nu) mediana (IQ 25-75%) 60(55-69) 64(58-76) 0,659# HF (nu) mediana (IQ 25-75%) 38(30-44) 35(23-41) 0,666# 1,57(1,11-2,31) 1,81(1,40-3,26) 0,827# PR (ms) média ± DP LF/HF mediana (IQ 25-75%) Legenda: * Teste t # Teste Mann-Whitney Discriminando os voluntários quanto ao antecedente de ansiedade (MDAS ≥ 16) e/ou experiência traumática no ambiente odontológico (em contraste aos nãoansiosos e sem experiência traumática prévia), não se notou diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto às variáveis analisadas (Tabela 5.9). 63 Tabela 5.9 - Características basais hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca dos voluntários, conforme antecedente de experiência traumática e/ou ansiedade Sem ansiedade/trauma n=24 Com ansiedade/trauma n=6 p FC (bpm) média ± DP 71,54 ± 10,28 69,86 ±13,77 0,723* PAS (mmHg) média ± DP 119,50 ± 11,12 127,43 ± 13,03 0,116* PAD (mmHg) média ± DP 69,58 ± 6,27 72,14 ± 10,36 0,412* PAM (mmHg) média ± DP 89,23 ± 7,63 92,29 ± 8,32 0,363* PR (ms) média ± DP 142,38 ± 26,10 144,67 ± 18,16 0,840* QRS (ms) média ± DP 86,27 ± 11,68 95,17 ± 15,11 0,122* QTc (ms) média ± DP 400,96 ± 33,71 400,33 ± 27,81 0,967* SDNN (ms) mediana (IQ 25-75%) 118(82-171) 98(49-149) 0,585# rMSSD (ms) mediana (IQ 25-75%) 62(37-94) 63(26-83) 0,931# LF (nu) mediana (IQ 25-75%) 61(56-73) 60(46-67) 0,463# HF (nu) mediana (IQ 25-75%) 37(26-43) 39(32-53) 0,480# 1,63(1,30-2,76) 1,31(0,87-2,03) 0,717# LF/HF mediana (IQ 25-75%) Legenda: * Teste t # Teste Mann-Whitney 5.6 Análises post-hoc de subgrupos quanto ao comportamento evolutivo das variáveis hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de variabilidade da frequência cardíaca, conforme variáveis de contraste idade, gênero, exposição domiciliar à poluição tabágica ambiental e ansiedade e/ou antecedente de evento traumático Para efeito de exploração do comportamento dinâmico das variáveis dependentes ao longo das etapas do estudo nos diferentes subgrupos, os voluntários foram separados conforme as variáveis de contraste gênero, idade (maiores versus menores ou iguais à mediana), antecedente de ansiedade e/ou experiência traumática prévia (versus sem ambos antecedentes) e exposição 64 (versus não-expostos) à poluição tabágica ambiental (PTA). Os resultados encontram-se descritos nas tabelas 5.10, 5.11 e 5.12. Neste modelo de regressão, estimam-se as significâncias dos efeitos das variáveis de contraste, da variável fase e da interação entre a variável fase e a variável de contraste. Por interação das variáveis independentes entende-se, por exemplo, que o efeito da fase experimental na determinação do valor de uma variável dependente seja diferente entre indivíduos do gênero masculino e feminino, hipoteticamente. Por no presente caso não existir significado prático do intercepto da equação de regressão, seu valor de significância não foi incluído nas tabelas. Como o alvo da exploração não são diferenças absolutas dos valores das variáveis dependentes nos subgrupos, algo já avaliado na condição basal, e como essa análise não foi pré-planejada, visto não ter havido prévio pareamento de grupos, interessa à presente investigação se o efeito das fases cirúrgicas (qual seja incremental ou decremental) foi diferente nos subgrupos então delineados; em suma, se houve ou não interação entre as variáveis independentes. Tabela 5.10 - Efeito das variáveis de contraste gênero, idade, ansiedade e/ou trauma e exposição à PTA sobre as variáveis hemodinâmicas FC, PAS, PAD e PAM – valor de p obtido pelo teste de ANOVA de duas entradas* Gênero Idade Ansiedade/Trauma Exposição à PTA Gênero Fase Gênero*Fase Idade Fase Idade*Fase Ansiedade/Trauma Fase Ansiedade/Trauma*Fase PTA Fase PTA*Fase FC 0,001 0,335 0,834 0,007 0,338 0,824 0,011 0,626 0,770 0,010 0,348 0,461 PAS 0,004 0,292 0,819 <0,001 0,233 0,648 0,097 0,619 0,981 <0,001 0,168 0,868 PAD 0,002 0,414 0,998 <0,001 0,345 0,423 0,167 0,575 0,987 <0,001 0,240 0,716 PAM 0,006 0,176 0,995 <0,001 0,110 0,445 0,048 0,191 0,795 <0,001 0,098 0,815 Legenda: *: Modelo linear geral univariado: variável dependente = intercepto +var1 (variável de contraste) + var2 (fase) + interação var1*var2. 65 Tabela 5.11 - Efeito das variáveis de contraste gênero, idade, ansiedade e/ou trauma e exposição à PTA sobre as variáveis eletrocardiográficas intervalo PR, complexo QRS e intervalo QTc – valor de p obtido pelo teste de ANOVA de duas entradas* Gênero Idade Ansiedade/Trauma Exposição à PTA PR 0,437 0,002 0,700 0,236 0,001 0,569 0,489 0,004 0,630 0,334 0,004 0,656 Gênero Fase Gênero*Fase Idade Fase Idade*Fase Ansiedade/Trauma Fase Ansiedade/Trauma*Fase PTA Fase PTA*Fase QRS 0,280 <0,001 0,334 0,715 <0,001 0,950 0,560 <0,001 0,206 0,775 <0,001 0,513 QTc 0,732 0,005 0,204 0,102 0,003 0,121 0,078 0,002 0,362 0,583 0,029 0,156 Legenda: *: Modelo linear geral univariado: variável dependente = intercepto + var1 (variável de contraste) + var2 (fase) + interação var1*var2. Tabela 5.12 - Efeito das variáveis de contraste gênero, idade, ansiedade e/ou trauma e exposição à PTA sobre as transformadas logarítmicas naturais das variáveis da VFC SDNN, rMSSD, LF, HF, LF/HF – valor de p obtido pelo teste de ANOVA de duas entradas* Gênero Idade Ansiedade/Trauma Exposição à PTA Gênero Fase Gênero*Fase Idade Fase Idade*Fase Ansiedade/Trauma Fase Ansiedade/Trauma*Fase PTA Fase PTA*Fase SDNN 0,002 0,046 0,924 0,649 0,055 0,366 0,436 0,882 0,260 0,762 0,128 0,616 rMSSD 0,032 0,926 0,812 0,796 0,919 0,376 0,087 0,944 0,821 0,318 0,979 0,529 LF 0,137 0,021 0,342 0,814 0,025 0,517 0,005 0,016 0,616 0,248 0,020 0,857 HF 0,105 0,461 0,459 0,561 0,489 0,595 0,007 0,336 0,661 0,122 0,449 0,839 LF/HF 0,114 0,122 0,143 0,665 0,140 0,545 0,006 0,073 0,526 0,186 0,115 0,822 Legenda: *: Modelo linear geral univariado: variável dependente = intercepto + var1 (variável de contraste) + var2 (fase) + interação var1*var2. Pelo observado nas Tabelas 5.10, 5.11, 5.12, embora tenham-se flagrado diferenças nos valores das variáveis dependentes atribuíveis ao gênero, idade, ansiedade/trauma e exposição à PTA, não foram observadas interações das variáveis independentes anteriores com a fase experimental na determinação de efeito sobre os desfechos estudados, o que permite assumir que o comportamento 66 dessas variáveis dependentes não foi diferente comparando-se os subgrupos. A significância estatística do efeito da variável "fase" nesta análise post-hoc não foi considerada por ser derivado de análise de subgrupo e já ter sido alvo de exploração nos campos 5.2, 5.3 e 5.4 desta seção de resultados 67 6 DISCUSSÃO O presente estudo apresenta uma abordagem exploratória das complexas interações entre variáveis clínicas e cirúrgicas sobre as manifestações reativas do sistema cardiovascular e das modulações autonômicas que determinam essas respostas. Frente às já reconhecidas investigações sobre segurança cardiovascular de anestésicos locais, vasoconstritores e procedimentos cirúrgicos orais, a lacuna neste campo específico do conhecimento é a incorporação de novos métodos diagnósticos que atendam às necessidades de rápida curva de aprendizado, baixo custo e sensibilidade diagnóstica. Ademais, a busca por métodos diagnósticos neste cenário traduz a necessidade de se direcionar o foco da investigação a um objeto mais profundo que as variáveis hemodinâmicas e eletrocardiográficas – desfechos finais ou epifenômenos da resposta homeostática cardiovascular – que poderia ser o registro das próprias respostas fisiológicas que culminariam ulteriormente nessas macro-alterações. Ocorre que a avaliação direta da atividade do sistema nervoso autônomo (SNA) demandaria procedimentos bastante complexos e de implementação inviável no ambiente cirúrgico odontológico, como a microeletroneurografia, a dosagem seriada de catecolaminas e metanefrinas plasmáticas e a cintilografia miocárdica com 123 I-meta-iodobenzilguanidina (MIBG) (Perrone- Filardi, 2011; Barbosa et al., 2012; Asahina et al., 2013). Mesmo alguns testes nãoinvasivos de menor complexidade, como o teste de inclinação (tilt-table test) e a manobra de Valsalva (Weimer, 2010) demandariam certa estrutura, além da dificuldade de conciliação com a posição e imobilidade exigidas do paciente durante a cirurgia odontológica. Neste sentido, a proposição de uma metodologia já consagrada na análise de manifestações dinâmicas do SNA – e de predição de eventos adversos cardiovasculares – como é o caso da variabilidade da frequência cardíaca (VFC), pode atender aos propósitos investigativos de manifestações precoces ou discretas de respostas fisiológicas durante procedimentos anestésicos e cirúrgicos (Mazzeo et al., 2011). 68 6.1 Métodos Empregados A aquisição dos dados de intervalos RR tradicionalmente é realizada a partir de eletrocardiógrafos de precisão ou monitores Holter com qualidade suficiente para taxas de amostragens superiores a 250Hz e algoritmos internos com acurácia suficiente para detecção de complexos QRS e eliminação de batimentos precoces ou aberrantes (European Society of Cardiology e North American Society of Pacing and Electrophysiology, 1996). A escolha pelo uso de monitores portáteis de frequência cardíaca (frequencímetros de pulso) resultou da busca por métodos menos dispendiosos e de operação mais simplificada. Neste aspecto, diversos autores já realizaram estudos para validação desses frequencímetros comercialmente disponíveis encontrando resultados bastante consistentes. Gamelin et al. (2006), num estudo com 18 voluntários saudáveis e fisicamente ativos do sexo masculino, demonstraram alta correlação (r=0,99; p<0,001) entre os registros de intervalos RR colhidos através do frequencímetro Polar S810 e o eletrocardiógrafo Physiotrace (Estaris, Lille, France). Comparados os valores (de cada variável do domínio da frequência e do tempo) obtidos pelos dois métodos através de teste T, os autores não encontraram diferenças estatisticamente significativas em todas elas, exceto no RMSSD durante a etapa clínica de coleta de dados na posição ereta. Com este mesmo intuito, Vanderlei et al. (2008) confirmaram a validação do frequencímetro Polar S810 na coleta de dados de séries de intervalos RR no repouso e exercício em 15 voluntários saudáveis e jovens. Em ambos estudos, o processamento das séries temporais de intervalos RR obtidas pelos dois métodos (ECG e Polar) foi realizado pelo mesmo programa a fim de eliminar o viés de diferenças advindas do processamento e cálculo. Isso todavia se constituiu numa limitação à reprodutibilidade desses achados, uma vez que habitualmente se empregam os programas fornecidos conjuntamente com cada equipamento. Neste sentido, para avaliar a concordância de valores das variáveis da VFC obtidas por diferentes programas, sobretudo para validar a utilização do software fornecido em conjunto com o monitor Polar (Polar Precision), Nunan et al. (2008) avaliaram 33 voluntários jovens e saudáveis através do registro simultâneo da 69 frequência cardíaca através do monitor Medical Graphics CardiO2 (Medical Graphics Corporation, St Paul, MN, USA) e do frequencímetro Polar S810. Foram realizadas comparações e testes de correlação e intercambialidade tanto entre os registros de intervalos RR quanto das variáveis da VFC obtidos pelos dois diferentes softwares, o Polar Precision e o CardioPerfect (CardioControl, Delft, The Netherlands). Os autores demonstraram que ambos os métodos (cada dispositivo combinado ao programa proprietário oferecido) produziram valores intercambiáveis (sem diferença estatisticamente significativa) de sequências temporais de RR, mas o mesmo não ocorreu com os valores das variáveis da VFC, o que foi atribuído à maior robustez analítica e precisão de processamento do programa CardioPerfect, atributos não atingidos pelo Polar Precision. O mesmo grupo de pesquisadores (Nunan et al., 2009) realizou outro estudo subsequente com resultados conflitantes ao primeiro; desta vez validando não apenas o frequencímetro Polar S810, mas também o software Polar Precision tanto para a aquisição das séries temporais de RR, quanto para o processamento das mesmas para cálculo da VFC. No ano de 2009, a série S (a qual pertencia o modelo S810) dos frequencímetros Polar foi descontinuada, sendo substituída pela série de monitores RS. O fabricante (Polar Electro OY, Kempele, Finland) dos dispositivos informou aos autores dos estudos (Nunan et al., 2009) que a série RS utiliza os mesmos algoritmos de detecção de ondas R assim como os mesmos procedimentos de análise de VFC da série precedente, justificando que os achados então apresentados para os frequencímetros S810 e software Polar Precision são aplicáveis aos modelos da série RS (à qual pertence o modelo empregado no presente estudo, o RS800cx) e ao software que o acompanha, o Polar ProTrainer. Como na ocasião do delineamento do presente estudo ainda havia certa incerteza acerca da acurácia do processamento das séries de RR pelo programa Polar ProTrainer, e para minimizar o "efeito caixa-preta" da geração automatizada dos valores da VFC sem uma clara demonstração dos métodos empregados, preferiu-se utilizar o software Kubios HRV, amplamente utilizado em estudos de VFC (Roy et al., 2009; Sookan; McKune, 2012; Reyes et al., 2012). Quanto a utilização do registro eletrocardiográfico, optamos no presente estudo por adotar essa metodologia devido a tratar-se de um procedimento já bastante utilizado em protocolos de pesquisa de segurança cardiovascular de fármacos e procedimentos cirúrgicos (Little et al., 1990; Blinder et al., 1996; Naguib 70 et al., 1998; Heavner, 2002; Romano et al., 2009; Romano et al., 2012). Ademais, a possibilidade de leitura instantânea do eletrocardiograma (ECG), especialmente numa intercorrência clínica, possibilita a constatação imediata de complicações como arritmias, distúrbios de condução, sinais de isquemia miocárdica ou evidências de distúrbios eletrolíticos (Campbell et al., 1996; Blinder et al., 1998; Lambrecht et al., 2011). Por isso, e pela possibilidade de comparação dos achados presentes dos diferentes métodos entre si e com os previamente descritos na literatura, optou-se por manter o ECG. Em relação à aferição da pressão arterial sistêmica e da frequência cardíaca, muito embora possa ser prescindível em procedimentos de baixa complexidade e em pacientes sem fatores de risco para complicações, dado o intuito do presente estudo de se investigar e propor um modelo mais completo de avaliação cardiovascular, essa coleta de dados foi mantida. Empregou-se, também, o registro formal de possíveis variáveis de confusão, como a ansiedade, medida através da escala MDAS (Kanegane et al., 2003) e o antecedente de experiências traumáticas durante atendimento odontológico. A antecipação emocional do tratamento odontológico pode induzir uma resposta ao estresse psicológico com a liberação de cortisol e catecolaminas endógenas (King; Hegadoren, 2002; Tsigos; Chrousos, 2002; Davis; Granger, 2009), o que se traduz em respostas adaptativas mensuráveis na dinâmica do sistema nervoso autônomo, da condução e ritmo cardíaco e nas variáveis hemodinâmicas. A MDAS é uma escala de fácil e rápida aplicação, que facilita sua utilização em protocolos de pesquisa. A escolha por esta escala também deveu-se à inclusão da última pergunta sobre anestesia, um dos momentos mais reconhecidamente estressores de um procedimento cirúrgico. No entanto, esta escala não traduz o sentimento ou a condição emocional do sujeito num determinado momento, mas sim a sua percepção especificamente relacionada ao tratamento odontológico. Como se trata de um questionário, há ainda a possibilidade dos pacientes adequarem sua resposta ao que imaginam ser o “correto” e desta forma pode nos reduzir a sensibilidade de detecção de transtornos de ansiedade ou de ansiedade especifica neste cenário (Tornelli, 2011). Da mesma forma, a exposição à poluição tabágica ambiental (assumida como o convívio diário com fumante no ambiente domiciliar ou laboral), reconhecidamente relacionada a repercussões na frequência cardíaca e pressão arterial (Barnoya; 71 Glantz, 2006; Dunbar et al. 2013), também foi registrada e incluída (juntamente com gênero, idade e ansiedade/experiência traumática) não apenas nas análises de subgrupos das condições basais, como também nas modelagens estatísticas para comparação da evolução das variáveis estudadas ao longo dos procedimentos. O registro de dor no sétimo dia pós-operatório (uma vez que a anestesia plena no intra-operatório era um requisito sine qua non para a execução do procedimento) foi uma variável coletada a fim de se flagrar pacientes potencialmente mais susceptíveis à nocicepção de procedimentos cirúrgicos ou às dimensões afetivas tardias da dor pós-operatória. 6.2 População Avaliada Este estudo avaliou uma amostra consecutiva de voluntários jovens, saudáveis e de elevado nível educacional. Pelo método de recrutamento de voluntários através de avisos afixados nas unidades assistenciais da Clínica Integrada da FOUSP, existe uma tendência de maior adesão entre alunos e funcionários, ou eventualmente pacientes já matriculados nas clínicas, entre os quais, todavia, devido ao perfil demográfico da população assistida, o preenchimento de todos os critérios de elegibilidade é menos frequente. Outro possível fator determinante sobre o perfil etário da população pode ser considerado um viés intrínseco de indicação. Normalmente, os pacientes que recebem indicação para a exodontia do terceiro molar inferior são jovens, devido à falta de espaço ósseo para o dente erupcionar causando pericoronarites recorrentes (Jerjes et al., 2009), por indicação ortodôntica ou por mau posicionamento na arcada. Para os pacientes mais velhos, o motivo mais comum para esta indicação é pela interferência na oclusão, sendo necessária sua remoção para melhor reabilitação protética. Desse modo, essa concentração da população estudada num perfil de mediana de idade nos 23 anos, pode ter também determinado a baixa prevalência de experiências traumáticas no ambiente odontológico e sobretudo ansiedade ao tratamento odontológico, afecção de prevalência maior em idades mais avançadas (Carvalho et al., 2012). Outra explicação, numa abordagem histórica, é a baixa prevalência de antecedente de doença cariosa entre jovens nascidos após os anos 72 1980, década de marcante aumento na fluoretação da água tratada fornecida pelas redes de abastecimento no estado de São Paulo (Alves et al., 2012). Além disso, a cirurgia de exodontia de terceiro molar costuma ser um procedimento eletivo; pacientes ansiosos geralmente evitam ou adiam a procura ao cirurgião-dentista (Maggirias; Locker, 2002; Ferreira et al., 2004), e frequentemente apresentam maior número de dentes perdidos e menos dentes restaurados (Cohen et al., 2000), o que pode canalizá-los para a procura (quando inevitável) preferencial a serviços de urgência. Sendo assim, torna-se difícil trazer pacientes com ansiedade ao tratamento odontológico para participar deste tipo de estudo, cuja dinâmica necessita que ele compareça ao menos três vezes à consulta, incluindo um procedimento cirúrgico. Outra forma de explicar as interações que podem ter determinado a baixa prevalência de ansiedade relacionada ao atendimento odontológico na amostra estudada é que tal manifestação pode, segundo vários autores (Locker et al., 1999; Thomson et al., 2000; Kanegane et al., 2003; Eli et al., 2004), ter uma natureza reativa a um evento traumático prévio, sendo então os pacientes mais velhos, com maior probabilidade de já os terem experimentado, mais sujeitos a apresentar ansiedade ao tratamento odontológico. Em relação ao gênero vários estudos apontaram que as mulheres são mais ansiosas do que os homens (Corah et al., 1978; Humphris et al., 1995; Locker et al., 1996; Kanegane et al., 2003; Ferreira et al., 2004; Rodrigues et al., 2011). Neste trabalho o resultado encontrado é semelhante ao de Locker et al. (1999), onde não foi encontrada diferença entre os gêneros, que pode ter acontecido devido ao pequeno número de pacientes com ansiedade, podendo não refletir a realidade geral da população. Dada a baixa ocorrência de voluntários com escore MDAS ≥ 16 e de pacientes com evento traumático prévio, eles foram reunidos em um grupo único para as análises estatísticas (Tornelli, 2011). Pesquisas de Locker et al. (1999) e de Eli et al. (2004) mostram que experiências condicionantes, vivenciadas ou não pelo próprio paciente, contribuem para a ansiedade ao tratamento odontológico. A dor no sétimo dia pós-operatório (7o PO) foi uma queixa espontânea pouco frequente. A baixa mediana do valor da EVA tanto nos homens (1), quanto entre as mulheres (2), sem diferença estatisticamente significativa entre os gêneros, pode ser atribuível à limitada magnitude do trauma cirúrgico de exodontias de terceiros molares erupcionados. Cada experiência de dor vivida tem, simplificadamente, sua 73 dimensão objetiva (relacionada ao fato gerador, ao estímulo nociceptivo propriamente dito) e uma dimensão subjetiva (resposta afetiva), que influenciam juntas a interpretação das experiências subsequentes (International Association for the study of Pain, 2013). De forma indissociável à experiência de dor, a ansiedade ao tratamento odontológico (e o antecedente de experiências traumáticas no consultório odontológico) poderiam interferir na percepção individual da dor apontada no 7o PO, podendo inclusive evocar relatos de dor maiores do que aquele esperado pelo cirurgião (ou pesquisador) para o 7 o PO (Rhudy; Meagher, 2000). Nessa situação hipotética, este registro de dor poderia orientar explorações de explicações para eventuais diferenças flagradas nas variáveis estudadas nessa etapa tardia do procedimento. 6.3 Resultados Nas condições basais, as variáveis hemodinâmicas, eletrocardiográficas e de VFC foram todas contidas dentro dos limites da normalidade. Especificamente em relação ao estudo eletrocardiográfico da população avaliada, no período basal, a totalidade dos exames foi caracterizada por ritmo sinusal normal sem quaisquer alterações de condução ou repolarização. Não foram flagrados casos de QT longo, condição conhecidamente predisponente a maiores riscos de eventos adversos, sobretudo arritmias ventriculares (Hughes et al, 1966; Moffa; Sanches, 2001; Vanderheyden et al., 1989; Piccirillo et al., 1999). Também não ocorreram casos de prolongamento do intervalo PR, marcador de lentificação do tempo de condução atrioventricular e preditor de risco de bradiarritmias (Carpenter et al., 1992; Liu et al., 1995). Embora não se tenha previamente delineado uma separação dos sujeitos do protocolo em grupos, optou-se por realizar análises exploratórias visando a identificar eventuais variáveis de contrastes entre os voluntários que possam constituir um substrato para o desenho de futuros estudos comparativos. As diferenças entre os subgrupos deverão ser entendidas, pois, como resultados geradores de hipótese. 74 Não foram observadas diferenças entre as variáveis estudadas na análise de subgrupos conforme o antecedente de ansiedade ou experiência traumática no consultório odontológico. Ademais, a notável heterogeneidade numérica dos grupos não permitiria maiores explorações ou ajustes. A pressão arterial nas condições basais, ainda dentro dos limites da normalidade, foi mais elevada entre os homens, entre os voluntários mais velhos, e nos pacientes expostos à poluição tabágica ambiental, resultados já apontados por estudos prévios (Dunbar et al., 2013; Wills et al., 2011). Das variáveis eletrocardiográficas registradas no momento basal do estudo, observaram-se valores maiores do intervalo QT corrigido (QTc) entre os voluntários com idade inferior à mediana, o que reforça os achados já descritos em estudos prévios (Johnson; Ackerman, 2009) quanto à dispersão dos valores normais do QTc em diferentes faixas etárias. Em relação à variabilidade da frequência cardíaca, notou-se que a idade e a exposição tabágica ambiental não determinaram diferenças dos valores medianos conforme os subgrupos avaliados. Quando comparados os gêneros, observou-se valores maiores do SDNN entre os homens, corroborando os achados da metaanálise de Nunan et al. (2010), que demonstraram para todas as variáveis do domínio do tempo valores ligeiramente superiores entre os homens. Com respeito ao comportamento evolutivo das variáveis estudadas, não foram registradas alterações dinâmicas estatisticamente significativas da pressão arterial e da frequência cardíaca ao longo das etapas clínicas do protocolo. Quanto às variáveis eletrocardiográficas, não foram registradas arritmias, alterações da repolarização ventricular sugestivas de isquemia ou distúrbios de condução. O estudo do comportamento dinâmico dos intervalos PR, QRS e QTc evidenciou uma tendência de aumento dos três intervalos no tempo cirúrgico Cir1 (imediatamente após anestesia local); tal elevação, ainda que estatisticamente significativa, não ultrapassou os limites superiores da normalidade para qualquer um dos três intervalos estudados, o que limita a sua interpretação dado o improvável significado clínico deste achado, sobretudo em indivíduos saudáveis. Ressalva pode-se fazer à extrapolação hipotética desses resultados para condições mais extremas, fossem com doses mais elevadas da base anestésica, ou com populações mais suscetíveis, mesmo assumindo-se a mepivacaína como uma das bases anestésicas de menor cardiotoxicidade (Bruelle et al.,1996; Malamed, 2012), menor lipossolubilidade, 75 menor potência de bloqueio de canais de sódio voltagem-dependentes e menor efeito vasodilatador, especialmente quando comparada a outras bases anestésicas de menos frequente utilização, como a etidocaína e a tetracaína (Heavner, 2002; Dillane; Finucane, 2010). Não obstante sua reconhecida segurança cardiovascular pelo já exposto, há relato de alargamento do intervalo QRS (culminando em bloqueio de ramo esquerdo transitório) em procedimento cirúrgico ginecológico sob anestesia epidural com mepivacaína 3% em mulher de 65 anos (Asao et al., 1996), assim como descrição de maiores incidências de eventos adversos eletrocardiográficos após uso desta base anestésica em pacientes cardiopatas, sobretudo em uso de digoxina (Blinder et al.,1996). Por o presente estudo ter incluído apenas voluntários saudáveis, é compreensível a diferença na incidência de eventos adversos ao compará-lo com trabalhos previamente publicados, como os de Williams et al. (1963), Hasse et al. (1986), Little et al. (1990), Campbell et al. (1996), que evidenciaram 26 a 42,5% de incidência de arritmias durante procedimentos cirúrgicos odontológicos em pacientes com antecedentes cardiovasculares. Um obstáculo a essa comparação consiste na diferença metodológica entre o presente estudo, com registros eletrocardiográficos pontuais de 12 derivações, e os trabalhos citados, que utilizaram o registro eletrocardiográfico contínuo. Neste aspecto, contudo, o aparente ganho de sensibilidade desses estudos com a utilização de registro eletrocardiográfico contínuo trouxe consigo uma limitação intrínseca, que é a aquisição de traçado em apenas uma derivação (normalmente D2), como realizada também nos estudos de Romano et al. (2009) e Romano et al. (2012), implicando não representar os aspectos locais das alterações eletrocardiográficas “parede a parede”, condição essencial à pesquisa de manifestações isquêmicas regionais, como as alterações do segmento ST e onda T (Munerato, 2010). Mesmo em se tratando de intervenções cirúrgicas em pacientes sem antecedentes cardiovasculares, alguns estudos (Hughes et al., 1966; Rodrigo et al.,1990; Blinder et al., 1998) apontaram uma incidência notadamente maior de arritmias, chegando até a 60% (Romano et al., 2009), o que em parte pode ser explicado pela inclusão de alguns eventos de discutível relevância clínica, como taquicardia sinusal sem repercussão hemodinâmica, bradicardia sinusal sem repercussão hemodinâmica, arritmia sinusal, extra-sístoles supraventriculares e 76 alterações da repolarização ventricular entre os achados então denominados “arritmias”. Com relação ao comportamento evolutivo da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) ao longo das etapas clínicas do protocolo, notamos uma redução estatisticamente significativa do SDNN entre a etapa basal e a fase Cir1 (imediatamente após anestesia local), o que denota a queda da VFC expressa por sua variável direta (não transformada) no domínio do tempo. Essa diminuição da dispersão dos intervalos RR normais da série temporal de 300s imediatamente após a injeção do anestésico local pode sinalizar uma redução do tônus parassimpático ou aumento da atividade simpática (ou ambos). Como, todavia, não foram objetivadas alterações das variáveis do domínio da frequência, isto é, como não houve diferença estatisticamente significativa das transformadas LF, HF e razão LF/HF, não podemos afirmar de forma inequívoca qual via efetora foi responsável por essa redução na VFC. Tal fenômeno pode ser resultante de uma resposta adaptativa ao (ainda que pequeno) efeito vasodilatador da base anestésica, do efeito direto da epinefrina administrada como vasoconstritor associado ao anestésico local (Malamed, 2012) ou ainda do componente autonômico da resposta fisiológica ao stress mental (e ansiedade antecipatória) da administração injetável do anestésico local ou do procedimento cirúrgico por si (Gottdiener et al., 1994; Nakamura et al., 2001). Essa última variável independente (ansiedade ao tratamento odontológico e antecedente de experiência traumática no ambiente odontológico), embora prevista no delineamento do estudo, não determinou efeito sobre as variáveis hemodinâmicas, eletrocardiográficas e sobre a própria VFC, mas a interpretação desses achados (ou da ausência dos mesmos) pode ter sido limitada pela baixa prevalência de ansiedade na amostra de voluntários estudada. As demais variáveis de contraste utilizadas nas modelagens post hoc também não se mostraram determinantes de diferentes comportamentos entre os subgrupos. A queda da VFC apontada após a administração do anestésico local corrobora os achados flagrados nos jovens no estudo de Matsumura et al. (1998). Miura et al. (2000), estudando as potenciais diferenças no comportamento da VFC entre hipertensos e normotensos, evidenciaram resultados conflitantes, visto que ao mesmo tempo em que flagraram uma redução do tônus parassimpático apenas nos normotensos, a resultante do balanço simpatovagal foi um predomínio de ação parassimpática nos dois grupos. Como o impacto potencial de cada classe de droga 77 anti-hipertensiva não foi aferido através de ajustes dos modelos ou análises de subgrupo, e como não foram registradas as prevalências de ansiedade entre os voluntários, notadamente uma variável de confusão, os autores não puderam explicar de forma inequívoca o significado dos achados descritos. O presente estudo, embora apresente certa semelhança metodológica com o trabalho de Montebugnoli et al. (2004), tem com este também certos contrastes. A redução da VFC constatada em ambos e amplamente reconhecida como um fator de risco para arritmias, morte súbita e eventos coronarianos, foi registrada no referido estudo através de um dispositivo sem validação conhecida, não disponível comercialmente e por isso de difícil reprodução. Ademais, a assunção de que o simples flagrar de diferenças estatisticamente significativas numa variável fisiológica ao curso dos procedimentos do protocolo de pesquisa a faz mais sensível que as demais não alteradas peca por falta de rigor científico, uma vez que o cálculo da sensibilidade de um método (e descoberta de seus falsos-negativos), assim como de sua especificidade (e percepção dos seus falsos-positivos), demanda a comparação dos achados deste exame aos de um padrão-ouro, o que não foi realizado. O ineditismo do presente estudo se mostra na incorporação da coleta de dados de intervalos RR através de frequencímetros de pulso, dispositivos ampla e comercialmente disponíveis, de baixo custo (comparados aos monitores cardíacos convencionais e dispositivos de Holter-ECG), fácil manejo e extensa validação nesta finalidade. Outro aspecto deste trabalho não empregado até então, foi o ajuste dos modelos de análise para incluir variáveis que poderiam se comportar como possíveis vieses de confusão para a interpretação dos achados, como o registro de ansiedade ao tratamento odontológico, o antecedente de experiência traumática no consultório odontológico e a exposição ao tabagismo passivo. 6.4 Limitações Uma limitação intrínseca do presente estudo é a inclusão apenas de indivíduos jovens e saudáveis. Desse fato, assim como esperado, até certo ponto, as alterações encontradas foram de pequena magnitude; essas pequenas diferenças absolutas por vezes sem significância estatística, evocam-se a hipótese 78 de que o tamanho da amostra estudada tenha sido insuficiente para evidenciar maiores achados. A não inclusão de pacientes com comorbidades, notadamente mais suscetíveis a eventos adversos cardiovasculares (Casolo et al., 1992; La Rovere et al., 2001; Mine et al., 2008; Marijon et al., 2009; Malamed, 2012; Hillebrand et al., 2013; Watanabe et al., 2013), critério de elegibilidade frequente em estudos de viabilidade de novos métodos diagnósticos ou proposição de novas modalidades terapêuticas, pode também ter limitado os achados. 79 7 CONCLUSÕES O presente estudo demonstrou viabilidade da inclusão da análise da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) a partir de dados coletados de frequencímetros portáteis num protocolo de avaliação do comportamento do aparelho cardiovascular durante procedimento cirúrgico odontológico. Ademais, demonstrou-se redução da VFC após a administração do anestésico local, comparando-se à fase basal. Pressão arterial e frequência cardíaca não se alteraram durante o procedimento. Não ocorreram arritmias, distúrbios de condução ou alterações eletrocardiográficas sugestivas de inquemia ao longo dos procedimentos. O estudo da VFC através de frequencímetros de pulso, instrumentos de baixo custo, ampla disponibilidade e fácil manuseio, pode prestar-se como uma ferramenta útil em estudos de segurança cardiovascular de novos fármacos e procedimentos no cenário odontológico, sobretudo por fornecer substrato comportamento dinâmico do sistema nervoso autônomo. à avaliação do 80 REFERÊNCIAS1 Abraham-Inpijn L, Borgmeijer-Hoelen A, Gortzak RA. Changes in blood pressure, heart rate, and electrocardiogram during dental treatment with use of local anesthesia. J Am Dent Assoc. 1988;116(4):531-6. Acharya S. Factors affecting dental anxiety and beliefs in an Indian population. J Oral Rehabil. 2008;35(4):259-67. Agelink MW, Boz C, Ullrich H et al. Relationship between major depression and heart rate variability. Clinical consequences and implications for antidepressive treatment. 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Hemodynamic and catecholamine changes after recurrent ventricular fibrillation. J Emerg Med. 2013 Feb;44(2):543-9. 94 APÊNDICE A –Termo de consentimento esclarecido do paciente para pesquisa Nome do paciente:_____________________________________________________________ As informações contidas nesta ficha foram fornecidas pela pós-graduanda Renata Martins da Silva Prado e pela orientadora Profa. Dra. Sibele Sarti Penha, com a finalidade de firmar acordo por escrito mediante o qual, o voluntário da pesquisa autoriza sua participação, com pleno conhecimento da natureza dos procedimentos, com a capacidade de livre arbítrio e sem qualquer coação. 1.Título do Trabalho Experimental: Variabilidade da Frequência Cardíaca na Avaliação do Estresse em Cirurgias de Exodontia de Terceiro Molar Inferior. 2. Objetivos: Avaliar características subjetivas relacionadas à ansiedade ao tratamento odontológico e objetivas, como parâmetros cardiovasculares. 3. A extração de 3º molar pode proporcionar ao paciente além da ansiedade resultante da expectativa, estresse devido ao grau de dificuldade encontrado na execução do tratamento. 4. Procedimentos da Fase Experimental: Após a triagem prévia e no dia agendado, o paciente será atendido no Consultório de Pesquisa do Departamento de Estomatologia, onde toda a infraestrutura será preparada para a dinâmica da experiência. O paciente será colocado sentado à cadeira odontológica semirreclinada (45 com o chão). Na 1ª consulta, o paciente será submetido a um questionário (escala MDAS) e terá sua pressão arterial registrada. Serão aferidas outras informações cardiocirculatórias através do frequencímetro e do registro do eletrocardiograma. Na segunda consulta, uma semana após a consulta inicial, o paciente terá novamente medidas as informações cardiovasculares durante o procedimento odontológico. Iniciaremos, então, o experimento pela anestesia por bloqueio com 1 tubete de mepivacaína a 2% ® associada a noraepinefrina (DFL ). A velocidade de injeção será de aproximadamente 1,0 ml/min, assim cada tubete dental será injetado num intervalo de aproximadamente 2 minutos, evitando-se desta forma, dor excessiva que possa levar o paciente ao estresse, possivelmente alterando os resultados. Após aguardarmos 5 minutos do final da anestesia local, iniciaremos os procedimentos cirúrgicos. Ao término do procedimento cirúrgico, o paciente será colocado novamente numa posição de 45 graus com o solo, permanecendo assim por 20 minutos. 5. Possíveis Desconforto ou Risco: Após uma explicação detalhada dos resultados será esclarecido a extensão e a evolução, os riscos gerais e particulares do tratamento planejado e os objetivos pretendidos, e será esclarecido também, de modo inteligível as possíveis consequências e complicações dos procedimentos clínicos de forma clara através do prontuário cirúrgico anexo, o qual constará como documentação para efeitos legais. 6. Benefícios do Experimento: O paciente terá como benefício a exodontia de terceiro molar inferior, com indicação de extração. 7. Informações: Os pacientes envolvidos no experimento possuem a garantia de que receberão as respostas a qualquer pergunta ou esclarecimento de qualquer dúvida acerca dos procedimentos, bem como a liberdade de se retirarem do experimento a qualquer momento, independentemente do estágio em que se encontram os trabalhos. Em caso de dano, decorrente do estudo, declaramos garantia que os pesquisadoras, Prof. Dra. Sibele Sarti Penha / Renata Martins da Silva Prado, prestarão assistência integral no endereço desta Instituição, Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, telefones 3091-7813; no Departamento de Estomatologia, Disciplina de Clínica Integrada. 8. Declaração de conformidade para o tratamento cirúrgico: Após uma explicação detalhada dos resultados, foi esclarecida a extensão e evolução, os riscos gerais e particulares do tratamento planejado e os objetivos pretendidos. Foi me esclarecido também, de modo inteligível, as possíveis consequências e complicações dos procedimentos clínicos. Foi 95 discutido o tempo total que se investirá e as restrições físicas e outras limitações que se darão para a cicatrização da cirurgia. 9.Consentimento pós-informação: É de meu conhecimento que não depende só do cirurgião e de seus auxiliares 100% do êxito planejado para este tratamento, mas que farão todo possível para alcançá-lo, e tendo ponderado as alternativas do tratamento, decidi-me pela cirurgia prevista. Eu confirmo que tive tempo suficiente de fazer todas as perguntas que me interessam, assim como de tomar a minha resolução sobre a cirurgia. Com isso, dou meu consentimento para essa cirurgia. Estou de acordo em ser notificado sobre o controle da cirurgia e me declaro disposto a cumpri-los. É de meu conhecimento que a higienização regular da região operada e um controle profissional são de importância vital para a manutenção da saúde bucal. Eu, ____________________________________, portador do R.G. nº __________, abaixo assinado, certifico que após ter lido as informações acima e ter sido suficientemente esclarecido(a) pela doutoranda Renata Martins da Silva Prado, estou plenamente de acordo com a realização do experimento. Desta forma, autorizo e garanto a participação no trabalho de pesquisa acima exposto. São Paulo, ______ de _______________ de 20_____ Assinatura:____________________________________ 96 APÊNDICE B – Ficha de anamnese preenchida para triagem prévia Nome________________________________________RG:____________________________ Endereço________________________________________________CEP_________________ Tel._____________________________ Data nasc.___/___/______ 1) Você está sentindo algum tipo de dor ou desconforto no momento?____________________ 2)Você está fazendo algum tratamento médico atualmente?________ Se sim, qual motivo? ____________________________________________________________________________ 3)Está tomando alguma medicação? Qual (is)?______________________________________ ____________________________________________________________________________ 4) Você já teve alguma reação alérgica a algum medicamento, alimento ou outro produto? ____________________________________________________________________________ 5) Você já se submeteu a anestesia local no dentista? ________________________________ 6) Teve algum tipo de reação adversa a essa anestesia? ______________________________ 7) Você já foi submetido a alguma cirurgia ou foi hospitalizado?_________________________ 8) Você já recebeu transfusão de sangue?__________________________________________ 9) Já teve hemorragia?_________________________________________________________ 10) Qual(is) destes sintomas ou doenças você tem ou já teve? Hipertensão pneumonia diabetes Hipotensão tuberculose perda de peso (+5 kg) Dor de cabeça sinusite ganho de peso (+5kg) Asma febre reumática hepatite ou icterícia Bronquite gastrite distúrbios hepáticos Epilepsia anemias doenças venéreas Problemas renais desmaio distúrbios psíquicos 11) Se sente cansado com frequência?_____________________________________________ 12) Sente falta de ar?___________________________________________________________ 13) Tem dificuldade de respirar quando está deitado? _________________________________ 14) Sente dor no peito depois de esforço ou sob tensão?_______________________________ 15) Quando mediu a sua PA pela última vez ?__________Como estava?__________________ 16) Tem alguma doença cardíaca congênita ou adquirida (ex.: mal de chagas...)? ____________________________________________________________________________ 17) Tem ou teve algum sintoma ou doença não citado acima? ____________________________________________________________________________ 18) Você esta grávida? _________________________________________________________ 19) Está no período menstrual? __________________________________________________ 20) Você fuma? _______________________________________________________________ 21) Faz uso de bebidas alcoólicas ou outras drogas? _________________________________ Peso:______________ (Kg) Altura:______________ (m) 2 Índice de Massa Corpórea (IMC): ___________ (Kg/m ) Circunferência Abdominal: _________ (cm) Eu declaro, para todos os fins legais, que prestei esclarecimentos corretos sobre meu estado de saúde, nada omitindo no questionário que respondi. Ass._____________________________________ data ____/____/___ 97 APÊNDICE C - Questionário individual – Protocolo de pesquisa Nome:__________________________________________________________ Data:___/___/______ 1) Idade:____anos 2) Gênero: ( )Fem. ( )Masc. 3) Grau de escolaridade: a) fundamental incompleto b) fundamental completo c) médio incompleto d) médio completo e) superior incompleto f) superior completo 4) Renda familiar: a) menos de 1 Salário Mínimo b) de 1 a 3 Salários Mínimos c) de 3 a 6 Salários Mínimos d) de 6 a 10 Salários Mínimos e) mais de 10 Salários Mínimos 5) Houve algum evento que tenha vivenciado que possa ser causador de medo do tratamento odontológico? ( ) Não ( ) Sim Qual?_______________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ______________________________________________ 98 APÊNDICE D – MODIFIED DENTAL ANXIETY SCALE 1) Se você tiver que ir ao dentista amanhã, como você se sentiria? a) Relaxado. b) Meio desconfortável. c) Tenso. d) Ansioso. e) Tão ansioso que começo a suar ou começo a me sentir mal. 2) Quando você está esperando na sala de espera do dentista, como você se sente? a) Relaxado. b) Meio desconfortável. c) Tenso. d) Ansioso. e) Tão ansioso que começo a suar ou começo a me sentir mal. 3) Quando você está na cadeira odontológica esperando que o dentista comece a trabalhar nos seus dentes com a turbina, como você se sente? a) Relaxado. b) Meio desconfortável. c) Tenso. d) Ansioso. e) Tão ansioso que começo a suar ou começo a me sentir mal. 4) Você está na cadeira odontológica para ter seus dentes limpos. Enquanto você aguarda o dentista pegar os instrumentos que ele usará para raspar seus dentes perto da gengiva, como você se sente? a) Relaxado. b) Meio desconfortável. c) Tenso. d) Ansioso. e) Tão ansioso que começo a suar ou começo a me sentir mal. 5) Se você estiver para ser anestesiado em sua gengiva, acima de um dente superior posterior, como você se sentiria? a) Relaxado. b) Meio desconfortável. c) Tenso. d) Ansioso. e) Tão ansioso que começo a suar ou começo a me sentir mal. 99 APÊNDICE E- Avaliação do Pós-Operatório - 1 semana Marcar na linha qual a intensidade da dor neste momento: Sem dor Pior dor imaginável 100 APÊNDICE F – Protocolo de registros das fases cirúrgicas Nome: _____________________________________________________________ Dia 1 - Registro Basal da Consulta Inicial (entrevista) : Data ___/___/___ horário:________ Dia 2 - Registros do Procedimento Cirúrgico: Data ___/___/___ 20 minutos antes (Basal):___________________________________________ 5 minutos antes da anestesia (5a):____________________________________ Anestesia local(al): _______________________________________________ 5 minutos depois da anestesia (5d):___________________________________ Incisão/ Sindesmotomia (inc): _______________________________________ Luxação (lux):____________________________________________________ Avulsão (avul):___________________________________________________ Sutura (sut):_____________________________________________________ 20 minutos em repouso após a cirurgia (20d):___________________________ Dia 3 - Registro Basal do Pós-Operatório (pós-operatório): Data ___/___/___ horário: ________ 101 APÊNDICE G – Variáveis eletrocardiográficas ao longo das etapas do estudo, comparações múltiplas (análise post hoc do teste de Anova para medidas repetidas) Variável Dependente (I) Fases (II) Fases PR (ms) Triagem Cir0-Basal 0,015 Cir1 0,643 Cir2 0,016 Cir3 0,008 7PO 0,003 Cir1 0,716 Cir2 1,000 Cir3 1,000 7PO 0,998 Cir2 0,658 Cir3 0,617 7PO 0,463 Cir3 1,000 7PO 1,000 Cir3 7PO 1,000 Variável Dependente (I) Fases (II) Fases QRS (ms) Triagem Cir0-Basal Cir0-Basal Cir1 Cir2 Cir0-Basal Cir1 Cir2 Cir3 p p 0,027 Cir1 <0,001 Cir2 <0,001 Cir3 <0,001 7PO <0,001 Cir1 0,045 Cir2 0,401 Cir3 0,256 7PO 0,174 Cir2 0,898 Cir3 0,923 7PO 0,966 Cir3 1,000 7PO 1,000 7PO 1,000 102 Variável Dependente (I) Fases (II) Fases QTc (ms) triagem Cir0-Basal 0,008 Cir1 0,120 Cir2 0,019 Cir3 0,760 7PO 0,163 Cir1 0,990 Cir2 1,000 Cir3 0,262 7PO 0,875 Cir2 0,996 Cir3 0,768 7PO 0,999 Cir3 0,372 7PO 0,928 7PO 0, 899 Cir0-Basal Cir1 Cir2 Cir3 p 103 APÊNDICE H – Variabilidade da frequência cardíaca ao longo das etapas do estudo, comparações múltiplas (análise post hoc do teste de Anova para medidas repetidas) p (I vs J) Variável Dependente (I) Fase (J) Fase Log SDNN Triagem Cir0=Basal 1,000 Cir1 0,203 Cir2 0,349 Cir3 0,698 7PO 1,000 Cir1 0,044 Cir2 0,292 Cir3 0,628 7PO 0,999 Cir2 1,000 Cir3 0,960 7PO 0,361 Cir3 0,994 7PO 0,542 Cir3 7PO 0,859 Variável Dependente (I) Fase (J) Fase Log LF Triagem Cir0=Basal 1,000 Cir1 1,000 Cir2 0,058 Cir3 0,968 7PO 1,000 Cir1 1,000 Cir2 0,051 Cir3 0,885 7PO 0,996 Cir2 0,051 Cir3 0,956 7PO 1,000 Cir3 0,338 7PO 0,118 7PO 0,993 Cir0=Basal Cir1 Cir2 Cir0=Basal Cir1 Cir2 Cir3 p (I vs J) 104 Variável Dependente (I) Fase (II) Fase HF (nu) Triagem Cir0=Basal 1,000 Cir1 1,000 Cir2 0,339 Cir3 1,000 7PO 1,000 Cir1 1,000 Cir2 0,319 Cir3 1,000 7PO 1,000 Cir2 0,332 Cir3 1,000 7PO 1,000 Cir3 0,523 7PO 0,430 Cir3 7PO 1,000 Variável Dependente (I) Fase (II) Fase Razão LF/HF Triagem Cir0=Basal 1,000 Cir1 0,991 Cir2 0,978 Cir3 1,000 7PO 0,999 Cir1 0,994 Cir2 0,970 Cir3 1,000 7PO 1,000 Cir2 0,767 Cir3 0,978 7PO 1,000 Cir3 0,992 7PO 0,887 7PO 0,996 Cir0=Basal Cir1 Cir2 Cir0=Basal Cir1 Cir2 Cir3 p p 105 ANEXO A - Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP.