Detecção de Micotoxinas nas Operações de Separação por Tamanho e Massa Específica de Grãos de Milho 52 Lélia Vanessa Milane1, Lucas Jandrey Camilo2, Rodrigo Augusto Schultz2, Paulo Carteri Coradi3 RESUMO O objetivo deste trabalho foi detectar níveis de contaminação por aflatoxinas e fumonosinas frações de milho obtidos em separação por tamanho e massa específica. Foram amostrados trinta e cinco quilos de milho naturalmente contaminado em um silo armazenador, para análises de teor de água (%) (b.u.), massa específica (g cm3 ), contagem de colônias (UFC g-1) de Aspergillus sp. e Fusarium sp., análise total de aflatoxinas e fumonisinas. Os maiores níveis de concentrações de aflatoxinas e fumonisinas foram obtidos nas menores frações de milho. Na massa específica do milho entre 0,7 a 0,9 (g cm-3) foram observados os mais elevados níveis de contaminação. Na separação por peneiras e sistema de aspiração observouse redução dos níveis de contaminação de aflatoxina e fumonisinas em 60%, aproximadamente. Palavras-chave: contaminação, indústria, micotoxinas, processamento, qualidade. INTRODUÇÃO As micotoxinas mais comumente conhecidas são as aflatoxinas, pois representam um dos mais potenciais substâncias cancerígenas conhecidas Estudante de Mestrado em Agronomia, UFMS/CPCS-MS, Ant. Estrada para Faz. Campo Bom – Caixa postal 112 – Chapadão do Sul / MS – 79560-000, Fone: (0XX67) 3562-6320, [email protected] 1 Estudante de Graduação em Agronomia, UFMS/CPCS-MS 2 Eng° Agrícola, Professor Adjunto II, UFMS/CPCS, [email protected] 3 525 até agora em animais e humanos (Bhatnagar et al., 2004). Todos os países com regulamentos de micotoxinas têm limites para a aflatoxina B1 ou a soma das aflatoxinas B1, B2, G1, G2 em alimentos (FAO, 2004). Os suínos são altamente susceptíveis a aflatoxina, enquanto que, os ruminantes são menos (Weidenborner, 2001). As fumonisinas são geralmente encontrados em subprodutos dos processos que são usados para a ração animal (Coradi et al., 2013). Brera et al. (2004) investigou a distribuição dos níveis de aflatoxinas em várias frações de milho (germes, farelos, partículas maiores e menores, rações), em milhos convencionais e orgânicos. Para ambos os lotes, o germe, farelo e farinha mostrou-se um fator de concentração acentuada. Por outro lado, observou-se um fator de redução, de pelo menos quatro vezes a partir de matéria-prima, para produtos acabados. O processamento não tem efeito direto sobre o conteúdo de micotoxinas em grãos, mas altera a distribuição da toxina entre as diferentes frações, conforme indicado pela Rede EMAN Européia (EMAN, Rede Européia consciência micotoxinas). Assim, o objetivo deste trabalho foi detectar níveis de contaminação por aflatoxinas e fumonosinas em frações de milho obtidos em separação por tamanho e massa específica. MATERIAL E MÉTODOS O milho utilizado foi do tipo amarelo-duro, armazenado em condições naturais. Amostrou-se 35 kg de grãos milho para avaliações, com teores de água de 11,78%, massa específica de 1,2479 g.m-3, contaminação de 71,33 ppb e 4,2 ppm de aflatoxina e fumonisina total, respectivamente. Primeiramente, separouse o lote de 35 kg, em trinta e cinco amostras de 1 kg. Em seguida, fez-se a separação do milho por tamanho (maior, médio e menor) em cilindros de 22’ e 15’ (Carter-Day Company), girando a uma velocidade controlada de 30 rotações por minuto (rpm). Em seguida, as frações de milho foram separadas pela massa específica (alta e baixa) usando uma mesa de gravidade (Sutton Steele Company). A partir da obtenção das amostras de milho de baixa massa específica, fez-se a separação das partículas de milho de maior granulometria das menores, utilizando uma peneira manual de número 2540. Usando um sistema de aspiração (Kice Multipass Aspirator), separaram-se as partículas “poeira” das partículas finas do milho. Denominaram-se como “grãos maiores” todos os grãos de milho que não passaram pelo cilindro de 22’, enquanto que, “grãos médios” todos os grãos de milho que não passaram pelo cilindro de 15’ e para os “grãos menores” todos os grãos de milho que passaram pelo cilindro 15’. 526 Determinaram-se também, que os grãos com “baixa massa específica” foram os grãos de milho que passaram pelas bicas localizadas na posição inferior da mesa densimétrica, e “alta massa específica” para os grãos de milho que passaram pelas bicas da posição superior da mesa densimétrica. Consideraramse como grãos de “alta granulometria”, todos os grãos de milho retidos pela peneira manual de 2540, enquanto que, “baixa granulometria” todos os grãos de milho que passaram pela mesma peneira. Caracterizou-se, como fração “poeira” o pó de milho separado da massa de grãos de “baixa granulometria”. O teor de água dos grãos de milho foi determinado de acordo com as recomendações da AOAC (n 0. 968.11, 2000). A massa específica das frações de milho foi determinada com auxílio de um picnômetro (modelo SPY2, Quantachrome Corp., Sysset, NY), a qual tem seu funcionamento baseado nos princípios de Arquimedes. A contagem de colônias de Aspergillus sp. e Fusarium sp. em (UFC g -1) foi realizada de acordo com a metodologia descrita por Abarca et al. (1994). As análises de aflatoxinas totais (B1, B2, G1 e G2) e fumonisinas totais (FM1 e FM2), em três repetições foram realizadas com uso da metodologia Enzyme Linked Immunosorbent Assay (ELISA), utilizando o kit comercial AgraQuant ® da Romers Lab. (USDA, 1998). A análise estatística foi realizada com auxílio do programa SISVAR, versão 4.0 (Ferreira, 2000). Os resultados médios foram comparados pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. RESULTADOS E DISCUSSÃO Nas Tabelas 1 e 2, verificaram-se as separações da massa de grãos de milho pela massa específica, determinação dos teores de água e os níveis de contaminações microbiológicas e de micotoxinas. A massa específica (g cm-3) das frações separadas foi significativamente diferente. Os teores de água (%) determinados, entre as frações, não diferiram a 5% de probabilidade pelo teste de Tukey, enquanto que, os resultados das análises de fungos, e principalmente de micotoxinas tiveram diferenças significativas. Segundo Scott (1993), isto pode ser explicado, quando há formação de colônias de fungos e produção de micotoxinas no produto, em estágios anteriores a secagem, com possíveis teores e atividade de água acima de 12% (b.u.) e 0,65, respectivamente. Pode-se afirmar, que embora a secagem consiga reduzir os teores de água no produto, as micotoxinas formadas anteriormente a pós-colheita continuariam presentes, sendo esses os possíveis motivos pela identificação dos níveis de contaminação observados na Tabela 2. 527 Tabela 1. Análises do teor de água e massa específica das frações de milho, obtidos pela separação física (tamanho e massa específica) dos grãos Análises Físicas Separações Massa específica (g cm-3) Teores de água (%) AmostraInicial de Milho 1,2479 C 11,78 A Maior, Alta Massa Específica 14295 D 11,71 A Maior, Baixa Massa Específica 1,5027 D 11,78 A Médio, Alta Massa Específica 1,4193 D 11,91 A Médio, Baixa Massa Específica 1,2740 C 11,36 A Menor, Alta Massa Específica 1,2057 C 11,74 A Menor, Baixa Massa Específica 0,8805 B 11,52 A Alta Granulometria 0,8112 B 11,07 A Baixa Granulometria 0,7449 B 10,52 A Poeira,Baixa Granulometria 0,1158 A 10,46 A Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na coluna não tem diferença significativa a 5% de probabilidade. Tabela 2. Distribuição de Fusarium sp., Aspergillus sp., aflatoxinas e fumonisinas nas diferentes frações de milho obtidos pela separação física (tamanho e massa específica) dos grãos Microbiológicas Separações Micotoxinas Fusarium sp. (UFC).g-1 Aspergillus sp. (UFC).g-1 AFLAa total (ppb) Fb total (ppm) 31,33 A 65,67 B 71,3 C 4,2 D Maior, Alta Massa Específica 27,33A 25,33A 18,0A 0,5A Maior, Baixa Massa Específica 31,67A 59,00B 29,8B 0,7A Médio, Alta Massa Específica 46,67B 86,33C 96,3D 1,3 B Médio, Baixa Massa Específica 59,00 B 120,00 D 78,8 C 2,6 C Menor, Alta Massa Específica 57,33 B 236,33 F 85,0 C 2,9 C Menor, Baixa Massa Específica 139,67 C 171,33 E 98,5 D 9,5 E Alta Granulometria 131,45 C 177,35 E 160,3 E 9,4. E Baixa Granulometria 135,00 C 163,33 E 159,3E 9,1E Poeira,Baixa Granulometria 128,67 C 171,00 E 166,0 E 12,6 F AmostraInicial de Milho Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na coluna não tem diferença significativa a 5% de probabilidade. aAflatoxina, bFumonisina. 528 Observou-se nos resultados da Tabela 2, que a contagem de colônias da espécie Aspergillus (UFC.g-1 de produto) foram significativamente diferentes, entre os processos de separação, por tamanho e pela massa específica. Por outro lado, os índices de contaminação pela espécie Fusarium, apenas apresentou diferença significativa nos grãos de milho separados por tamanho (maior, médio e menor). Resultados semelhantes foram obtidos por Bohra e Purohit (2003), em um trabalho realizado em uma unidade de recebimento de milho. Os autores verificaram que houve infecção de Fusarium sp. entre 10% a 28% nas amostras avaliadas, sendo que, as frações finas do milho foram as mais infectadas, com até 6,4x104 (UFC.g-1), enquanto que, as frações maiores, como os grãos de milho inteiros, não foi observado infecção por fungos. As partículas grossas, finas e poeira que compunha a massa de grãos de milho representaram 54% da contaminação, em 1% do total do lote avaliado. Em contrapartida, os grãos de milho separados por tamanho representaram 45% da contaminação por aflatoxina em um total de 98% do lote. Não diferente foram observados para os níveis de concentrações de fumonisinas, quando 63% de contaminação foram oriundos das partículas grossas e finas do milho. Por outro lado, constatou-se que 36% dos grãos de milho separados pelo tamanho foram contaminados por fumonisinas. Comparando-se estes resultados com dados citados em literatura, observaram-se níveis de concentrações de fumonisinas variando de 0,1 µg g-1 em partículas grossas, para 1,1 µg g-1 em partículas finas (Fandohan et al., 2005; Coradi et al., 2014). Os mesmos autores em um novo estudo fizeram à separação dos grãos de milho de um lote, em cinco diferentes tamanhos e observaram que os maiores índices de contaminação por fungos da espécie Fusarium e concentrações de fumonisinas localizavam-se no pericarpo dos grãos, em gérmen de milho, partículas finas e na poeira da massa de grãos. Na separação por cilindro (tamanho), aspiração e peneiras observaram-se diferenças (Tabela 3) de contaminação, entre as frações do milho. Tabela 3. Avaliação da eficiência dos métodos utilizados para a separação física do milho na redução dos índices de contaminação Tipos de separações Frações (%) Fusarium sp. (%) Aspergillus sp. (%) Aflatoxinas (%) Fumonisinas (%) Cilindros/gravidade 98,92 B 40,55 B 50,96 B 38,65 B 30,32 A Peneiras 0,89 A 29,89 A 25,75 A 30,40 A 32,06 A Aspiração 0,51A 29,56 A 23,70 A 30,95 A 37,62 B Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na coluna não tem diferença significativa a 5% de probabilidade. 529 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CORADI, P. C.; LACERDA FILHO, A. F.; CHAVES, J. B. P.; SANTOS, R. R. Reduction of the contamination in the processes of feed production using the system of Hazard Analysis and Critical Control Points (HACCP). Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial, v. 8, p. 1188-1207, 2014. CORADI, P. C.; LACERDA FILHO, A. F.; CHAVES, J. B. P.; MELO, E. C. Effects of the feed processing in the reduction of the microbiological contamination on the final product. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, v. 15, p. 81-92, 2013. BHATNAGAR, D.; PAYNE, G. A.; CLEVELAND, T. E.; ROBENS, J. F. Mycotoxins: current issues in USA. In: BARUG, D., EGMOND, H. V., LOPEZ-GARCIA, R., OSENBRUGGEN, T. V., VISCONTI, A. (Eds.), Meeting the Mycotoxin Menace. Wageningen Academic Publishers, v. 10, p. 17-47, 2004. FAO. Food and Agriculture Organization. Worldwide regulations for mycotoxins in food and feed, Rome, 2004. WEIDENBORNER, M. Encyclopedia of Food Mycotoxins. Springer-Verlag, Berlin, 2001. BRERA, C.; DEBEGNACH, F.; GROSSI, S.; MIRAGLIA, M. Effect of industrial processing on the distribution of fumonisin B1 in dry milling corn fractions. Journal Food Protection, v. 67, p. 1261-1266, 2004. AOAC. Association of Official Analytical Chemists. Official methods of analysis of the Association of Official Analytical Chemists. 15 ed. Washington, 1990. USDA. United States Department of Agriculture. Design criteria and test performace specifications for quantitative aflatoxin and fumonisin test kits. Federal Grain Special Service Quality Assurance and Research Division, 1998. FERREIRA, D. F. Análises estatísticas por meio do Sisvar para Windows versão 4.0. In: Reunião Anual da Região Brasileira da Sociedade Internacional de Biometria, Anais...São Carlos, 255-258, 2000. SCOTT, P. M. Fumonisins. Int. J. Food Microbiol. v. 18, p. 257-270, 1993. FANDOHAN, P.; ZOUMENOU, D.; HOUNHOUIGAN, D. J.; MARASAS, W. F. O.; WINGFIELD, M. J.; HELL, K. Fate of aflatoxins and fumonisins during the processing of maize into food products in Benin. Int. J. Food Microbiol. v. 98, p. 249-259, 2005. BOHRA, N. K. and PUROHIT, D. K. Fungal toxicity with special reference to mycotoxins. J. Environ. Biol. v. 24, p. 213-221, 2003. 530