QUANDO NÃO É APENAS A MÍDIA, MAS TAMBÉM O PRÓPRIO INDIVÍDUO UM
REPRODUTOR DE IDEIAS
José Douglas Alves dos Santos1
Aísha Kaderrah Dantas Melo2
Resumo
Nos espaços da internet a produção de conhecimento é uma possibilidade constante, porém,
mesmo saindo dos meios de comunicação de massa e passando para as culturas digitais vemos
práticas que se encaixariam muito bem nesses primeiros meios; discursos vistos na televisão
são reproduzidos na internet. Dentro dessas ideias reproduzidas estão muitos discursos de
ódio e preconceito contra determinados grupos. São processos de esvaziamento do indivíduo
que passam a repercutir em suas ações – e no caso das redes sociais, em suas publicações –,
são também processos de formação, de educação que apontam para um consumo desenfreado
de tantas coisas e para a reflexão sobre poucas. Foi então uma imagem divulgada na rede
mundial de internet, a propulsora de muitas reflexões presentes neste artigo. Trata-se de uma
pesquisa bibliográfica, ancorada na Análise do Discurso enquanto instrumento técnico para
analisar a imagem e o comentário que a acompanha.
Palavras-chave: Comunicação. Internet. Produção e reprodução de conhecimentos.
QUANDO NÃO É APENAS A MÍDIA, MAS TAMBÉM O PRÓPRIO INDIVÍDUO UM
REPRODUTOR DE IDEIAS
Notas introdutórias
“Reflexões calmas, inclusive as mais calmas,
ainda são melhores do que as decisões desesperadas.”
(Franz Kafka)
Vivenciamos um período em que a informação circula na “rede” e logo as pessoas se
apropriam dela, fazendo uso os mais diversos de suas fontes e compartilhando com as mais
1
Escritor, Pedagogo, Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade
Federal de Sergipe, (PPGED/UFS); bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES). E-mail: [email protected]
2
Pedagoga, Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de
Sergipe, (PPGED/UFS); bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
E-mail: [email protected]
612
variadas interpretações. Há um importante efeito neste processo, quando percebemos que o
acesso à produção de conhecimento não se restringe mais a um único grupo.
As culturas digitais, através da internet, possibilitam um acesso quase ininterrupto às
informações, sempre atualizando o assunto com novos dados e pontos de vista de seus
usuários, que compartilham via blogs, facebook, twitter, fóruns, entre outras das chamadas
“redes sociais”. Há também algumas complicações nesse processo, afinal, muitos conteúdos
são interpretados, apropriados e difundidos através da propagação de discursos de ódio contra
determinados grupos ou assuntos.
São diversos os teóricos que abordam temas relacionados a essas culturas digitais, às
competências que elas desenvolvem, e que vêm apontando “[...] para uma mesma situação:
estamos em rede, interconectados com um número cada vez maior de pontos e com uma
freqüência que só faz crescer” (COSTA, 2005, p. 236). Termos como inteligência emergente,
Coletivos inteligentes, ou Redes inteligentes são amplamente discutidos. Questionamos-nos,
porém, diante da difusão e promoção de tantos discursos de ódio e intolerância.
A internet revolucionou as maneiras de o ser humano se comunicar. Essa
inovadora tecnologia da informação, cujo diferencial é a extrema rapidez e a
vasta amplitude de suas operações, permite ao homem externar seus
pensamentos, suas opiniões, suas escolhas, externar a si próprio das mais
variadas formas e a um largo espectro de outros homens que, como ele,
também se projetam no ciberespaço. Dadas as múltiplas possibilidades de
compartilhamento informacional entre diferentes pessoas, oriundas de
diferentes culturas e conhecedoras de diferentes áreas do saber, muito se fala
sobre a formação de uma inteligência coletiva na rede. Entretanto, se o
mundo virtual serve como mecanismo privilegiado de projeção do ser
humano, tal qual um espelho, ele também virtualmente reflete os aspectos
pouco promissores da realidade palpável (SILVA; NICHEL; MARTINS;
BORCHARDT, 2011, p. 446).
Manifestada sobre a insígnia de “liberdade de expressão”, muitos internautas
simplesmente parecem dispensar o senso crítico quando acessam as redes sociais e se
comunicam com outras pessoas. Costa (2015, s/p) enfatiza que “[...] a intensa exposição à
mídia, sem o contraponto do senso crítico, pode ser uma prática perigosa”. Percebemos aí que
a lógica antes vista no consumo dos meios de comunicação de massa – o do consumo passivo
e da reprodução – se mantém. Mesmo diante de um mecanismo que possibilita muitas outras
formas de uso.
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Freitas e Castro (2013) afirmam que “[...] quando manifesto, o discurso do ódio
repercute como expressão do pensamento” (p. 344), como referência para aquele que recebe a
informação. Se eu compartilho determinada informação numa página social, os “leitores”,
“seguidores”, “amigos”, terão como referência o meu discurso sobre o que é veiculado.
“Assim, a palavra veiculada oralmente, dirigida ao público trará impacto imediato, mas, se
impressa e publicada, poderá promover um dano que permanecerá ao longo do tempo. [...]”
(FREITAS e CASTRO, 2013, p. 344).
Este texto objetiva refletir sobre a apropriação e difusão dos discursos na cultura
digital. Esclarecemos tratar- se de uma pesquisa bibliográfica que, segundo Fonseca (2002, p.
32), “[...] é feita a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas
por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites. [...]”.
Ancoramo-nos na Análise do Discurso para refletir sobre a imagem e o comentário discutidos
no texto, visto que a análise do discurso “[...] leva em conta o homem e a língua em suas
concretudes, não enquanto sistemas abstratos. Ou seja, considera os processos e as condições
por meio dos quais se produz a linguagem. Assim fazendo, insere o homem e a linguagem à
sua exterioridade, à sua historicidade” (SILVA, 2005, p. 16).
Quando não é apenas a mídia, mas também o próprio indivíduo um reprodutor de ideias
Quando a grande mídia (ou mídia hegemônica) começa a utilizar de suas habituais
“palavras de efeito” contra os movimentos sociais, sobretudo o MST, não nos surpreendemos;
afinal, é prática comum. “[...] Folha, Veja, Globo e seus inúmeros veículos, inundaram o país
com articulistas, colunistas e comentaristas conservadores. Poetas, geógrafos, filósofos,
psiquiatras e até jornalistas se revezavam no papel, na TV, na internet e no rádio [...]”
(TELES, 2014, s/p). São pessoas anunciadas como especialistas para que se coloque ali a
credibilidade desejada.
Nos espanta porém, que no processo de transição de uma mídia centralizadora para
uma mídia descentralizada são os próprios usuários que passam a reproduzir ideias e a serem
os ditos “especialistas”. Se antes era a grande mídia a responsável pela promoção de
informações supérfluas, agora é também o agente receptor da mensagem que o faz. Não é
mais somente a mídia, mas também o indivíduo o responsável por essa “catarse coletiva”
(MARINHO, 2012).
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Eu não diria que a maioria da população é idiota, imbecil, vazia. Diria que é
idiotizada, imbecilizada, esvaziada, infantilizada, via técnicas publicitárias
[...] criminosas, com a ajuda inestimável da sabotagem da educação pública
e da interferência na educação privada, por pressão dos que controlam as
marionetes políticas. Por que se chama os gastos públicos de “custo social” e
não de “investimento na população”? Porque está implantado no
inconsciente coletivo que “custo” precisa ser contido, cortado, diminuído ao
máximo. Investimento pressupõe retorno. E, no caso, o retorno seria uma
população educada, pensante, crítica, capaz de decidir seus caminhos e de
perceber as falácias das elites apresentadas por seu porta-voz, a mídia
privada. Tudo o que a classe dos dominantes não quer (MARINHO, 2012, p.
16).
Nesse processo, a mídia hegemônica continua sendo a grande fonte da
“desinformação”, e aquele indivíduo que não foi educado a criar e pensar, se torna uma
espécie de multiplicador, pois ele se apropria dessa “desinformação” e a propaga não apenas
no discurso oral, mas também no discurso escrito, digital.
Como exemplo deste fato, trabalharemos aqui com uma imagem postada na rede
social facebook e sua interpretação. Na imagem (abaixo), vemos uma garota com camisa e
boné do MST, comendo – esperando a comida ou esperando alguém, não se pode afirmar de
certeza – enquanto tecla em algum aparelho digital, reconhecido na legenda postada junto à
imagem como sendo um IPhone 6.
Integrante do MST fazendo uma boquinha no Outback, teclando em seu IPhone 6. Que tal isso? De uma
internauta em: PROL - Povo Revoltados ON LINE (Legenda da Imagem no facebook, abril de 2014).
Consideramos importante então situar esse movimento. O Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra, formado oficialmente em 1984 (LUCINI, 2007; BETTO,
2014), é “[...] hoje, o mais importante movimento social brasileiro” (BETTO, 2014, s/p) e
615
“[...] um dos movimentos sociais de maior expressão no Brasil e no mundo” (LAUREANO;
MOREIRA, 2009, p. 11).
A magnitude da ação deste movimento social pode ser compreendida nas palavras do
grande pensador uruguaio Eduardo Galeano, quando ele afirmou que o MST “[...] deveria
ganhar medalhas e não represálias” (BRASIL, 2009, s/p). Mas a grande mídia hegemônica no
Brasil prefere acusar este Movimento de todas as barbaridades possíveis a reconhecer sua
importância e suas conquistas.
Mais significativa e esclarecedora são as palavras de outro grande pensador latinoamericano, Celso Furtado (1998), ao refletir a respeito da força e dos objetivos do
Movimento. Segundo o economista brasileiro:
A única força social nova com grande capacidade de mobilização, entre nós,
é o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, cujos objetivos são
elementares: questionamento da velha divisão patrimonial das terras que
atrasou o Brasil secularmente; investimento em pequenas propriedades, no
sentido de promover a formação nas áreas rurais de uma sociedade civil mais
estruturada (FURTADO, 1998, p. 78-79).
Quase vinte anos depois o panorama é bem semelhante: “O Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra – MST é um dos movimentos sociais do campo que, na história do
Brasil, sobressai-se pelas suas ações, conquistas e, principalmente, pela sua organização”
(LUCINI, 2007, p. 20). Ainda assim, é recorrente observamos diversas imagens negativas
sobre ele na mídia hegemônica.
Algumas palavras são base do discurso de ordem para boa parte dessa grande mídia,
quando trata do MST. Algumas como: “[...] violação ao patrimônio [...]” (LUCINI, 2007, p.
40), “[...] invasão, baderna e arcaico [...] (GUILHERME, 2008, p. 119)”, “[...] radicalismos,
violência [...]” (JÚNIOR; MONTEIRO; MELO; ORLANDO, 2012), e “[...] criminosos [...]”
(MAGALHÃES; SOBRIHO, 2010, p. 39) são das mais recorrentes e encontradas nos
discursos difundidos aos espectadores.
Todo esse processo de divulgação midiática produz “[...] uma imagem do Movimento
Sem Terra, uma identidade que é assimilada pela opinião pública, bem como pelos próprios
sujeitos Sem Terra” (LUCINI, 2007, p. 38). Para o público em geral, “distante” do
Movimento, que acompanha as repercussões de suas ações via mídia impressa, televisiva ou
digital, a apropriação do discurso midiático influencia amplamente na formação do imaginário
social coletivo sobre o MST.
616
E um dos aspectos mais relevantes condiz justamente no discurso de superioridade e
de ódio em relação aos participantes dos movimentos sociais, quase sempre os “vilões” da
história narrada. Como podemos perceber em casos recentes e semelhantes divulgados pela
mídia; em São Paulo – “Grupos de mulheres do MST invade fábrica e destrói pesquisas
genéticas3” – e no Rio Grande do Sul – “O terror contra o saber4”.
Não acreditamos que a mídia seja a única formadora de opinião, mas
compreendemos o seu papel na socialização das ações de um grupo como o
MST. Assim, ao noticiar-se a destruição do laboratório da Aracruz Celulose
no RS, os contornos das manchetes mostravam a ação, com forte apelo
emocional para a destruição de anos de trabalho, socializando a ação, mas
também produzindo “opiniões”, implícitas no recorte realizado pela
imprensa e, em muitas situações, explicitadas na palavra e expressões
fisionômicas dos jornalistas (LUCINI, 2007, p. 40-41).
Estes casos fazem com que a mídia hegemônica reafirme seu discurso de ódio contra o
Movimento Sem Terra, alimentando um sentimento de falsa superioridade em muitos dos que
recebem a informação e a compartilham nas redes sociais. “Cria-se um sentimento de
superioridade humana, com base em referências sociais, acredita-se [...] que a miséria e a
pobreza são males inevitáveis e que a “culpa”, em grande parte, é dos próprios pobres e
miseráveis. Eles não se esforçam, são vagabundos e não querem nada” (MARINHO, 2012, p.
60).
Voltemos à imagem da garota com a camisa e o boné do MST dentro de um recinto,
ao que parece pela descrição na legenda, de distinção econômica e social, bem como o
aparelho que segura em mãos. O recinto em si retratado na imagem diz respeito, pelo que
podemos observar na legenda, ao Outback5, e o aparelho na mão da garota, também pela
legenda, trata-se de um IPhone 66.
Título da matéria do Jornal Nacional, no dia 05 de abril de 2015, retratando a “invasão” de mulheres do MST a
uma empresa de papel e celulose do interior paulista. Disponível no link http://g1.globo.com/jornalnacional/noticia/2015/03/grupo-de-mulheres-do-mst-invade-fabrica-e-destroi-pesquisas-geneticas.html.
3
Título da matéria da Veja, edição 1947, 15 de março de 2006, sobre mulheres que “destruíram laboratório com
mais de uma década de pesquisas”, disponível no link: http://veja.abril.com.br/150306/p_088.html.
4
5
Rede de restaurantes Outback Steakhouse, com 64 restaurantes espalhados pelo Brasil, em sua maioria na
região Sul/Sudeste; em menor quantidade na região Nordeste/Centro-Oeste e em nenhum na região Norte, como
é possível notar no site da empresa: http://www.outback.com.br/institucional/?uri=quem-somos.
“O iPhone 6 é o smartphone da Apple anunciado em setembro de 2014 rodando o sistema operacional iOS 8. O
aparelho possui uma tela de 4,7 polegadas HD Retina com 1334 x 750 pixels de resolução, com 326 ppi. O
6
617
Diante da imagem e da legenda nela contida, convém fazer algumas considerações a
respeito do processo de mudança social e humana presente nas sociedades modernas, como o
Brasil, sobretudo a partir do ano de 2002, em ocorrência do primeiro mandato do presidente
Luis Inácio “Lula” da Silva. Contra essa virtude da ignorância, exercitemos o nosso senso
crítico.
Com efeito, a produção de uma sociedade consensual para o consumo
necessita produzir identificações que instituam identidades, necessárias para
o consumo que produz e se realimenta dessas identificações para manter-se e
reproduzir-se. Os mecanismos utilizados para essa produção de identidades
são os mais diversos e de tal maneira nos constituem, que se inscrevem em
nosso próprio corpo, nas formas de estar em grupo e no mundo (LUCINI,
2007, p. 193).
Como nos indica Eduardo Marinho (2012, p. 71) “ninguém pode se dizer isento de
induções inconscientes. Desde pequenos recebemos cargas maciças de publicidade [...]”. E
isso não se restringe a classes sociais ou cor da pele, por exemplo. Todos estão sujeitos a este
processo que objetiva incentivar o consumismo desenfreado.
Sobre a imagem, o primeiro ponto da análise recai sobre uma simples indagação:
quem garante que esta imagem não foi forjada justamente para se criar entre as redes sociais
uma sensação de que aquilo que o MST promove como discurso está distante do que seus
componentes praticam no cotidiano? Facilmente percebemos o desconhecimento que a pessoa
que divulga esse conteúdo tem do Movimento dos Trabalhares Rurais Sem Terra.
Que garantias uma imagem pode dar de legitimidade, a ponto de se poder afirmar que
a pessoa então fotografada é integrante do Movimento? Podemos pensar ainda que as pessoas
têm preferências políticas, e fazem uso de certos artefatos culturais – como uma camisa e um
boné, por exemplo – para expor essa sua preferência.
Analisemos um exemplo simples: indivíduos que torcem para determinado clube de
futebol geralmente gostam de usar camisas, mochilas, bonés e outros objetos que identifiquem
eles com o clube para que torcem. Então perguntamos: qual o problema de alguém que têm
uma preferência política de esquerda, ou que é simpatizante do Movimento, utilizar uma
dispositivo tem 6,8 mm de espessura e possui um processador A8 com 64 bits e um coprocessador M8. A
câmera traseira do iPhone é de 8 megapixels com flash duplo. A câmera frontal tem 1,2 megapixels. O iPhone 6
tem três opções de cor: prateado, dourado e cinza. O aparelho foi lançado no Brasil em 14 de novembro, por
preços a partir de R$ 3.199 (referente ao iPhone 6 de 16 GB)”, descrição disponível no link:
http://www.techtudo.com.br/tudo-sobre/iphone-6.html.
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camisa e um boné que por acaso sejam do MST em espaços não apenas de socialização, mas
também de consumo?
A modernização tecnológica, necessária, não significa que necessitemos
abandonar o que constitui a soberania dos povos e das nações, a saber, o
conhecimento como um dos aspectos da cultura nacional. A soberania de um
povo se conquista e se mantém no âmbito do acesso e da socialização das
conquistas tecnológicas com seus cidadãos, promovendo, assim, condições
para que os homens tenham acesso à dignidade, que ela não necessite ser
mendigada (LUCINI, 2007, p. 194).
Sendo esta pessoa representada na foto integrante ou não do Movimento Sem Terra,
porque ela não poderia, ou teria o direito de estar no Outback com seu IPhone 6 ou qualquer
outro lugar com um aparelho semelhante? É preocupante imaginar que em pleno século XXI
ainda existam pessoas que pensem que determinados sujeitos não podem se misturar com
outros.
Sim, houve nos últimos anos uma melhoria de vida para muitos brasileiros. Hoje
algumas pessoas, de condição financeira mais baixa, têm condições de escolher entre viajar de
ônibus ou de avião, de frequentar certos espaços de consumo e de sociabilidade antes
reservados apenas a classe média e a classe alta. Entretanto, é bom ter em mente que esta
“ascensão” também não passa mais de “falácia política” que de efetiva melhoria de vida.
O que é a ascensão da classe C? É tipo leite que a gente comprava, leite tipo
C, aí tinha o tipo A, da fazenda... A gente já ficou numa caixinha de novo,
entendeu? É dinheiro? A ascensão da classe C é dinheiro? Classe C de quê,
de nota C? Porque você não tirou nem A, nem B? tem que dar um ou dois
passinhos atrás pra... A alma flutua, o corpo precisa de alimento, se não tem
leite a criança chora, dependendo do livro, uma arma você compra pelo
décimo do preço desse livro. E que ascensão é essa? Alguém nos ajude,
Lázaro, a entender; porque senão a gente só vai reproduzir o que andam
dizendo por aí. Mas a gente vê o rosto do nosso povo, e o nosso povo é nota
A, A+ (CRIOLO, 2014, s/p).
Mesmo que exista o acesso a determinados ambientes outrora destinados somente a
indivíduos de classe sociais financeiramente mais favorecidas, os problemas não
desaparecem, na verdade eles continuam de forma explícita para a maioria da população.
Crianças nos sinais, violência nas ruas, escolas públicas sucateadas, professores mal
remunerados e mal preparados para o exercício docente, postos de saúde em situação
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alarmante, espaços de lazer ainda visivelmente distantes dos morros e das favelas. A cidade
respira contradição.
E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,
Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs
(Chico Science & Nação Zumbi, trecho da música “A Cidade”, do
disco “Da Lama ao Caos”, de 1994).
Algumas considerações
Ao analisar uma imagem e sua legenda postadas numa rede social foi possível suscitar
diversas questões. Mesmo que a pessoa vista na foto seja integrante do MST – o que não
sabemos ao certo –, ela tem o direito de estar ali, independente das avaliações –
preconceituosas ou não – que queiram fazer sobre o fato. Porém, as regalias concedidas a
determinados grupos leva muitos a acreditarem na diferenciação de direitos.
Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e
econômica, vagando entre o sonho e o desespero, existem 4.800.000 famílias
de rurais sem terras. A terra está ali, diante dos olhos e dos braços, uma
imensa metade de um país imenso, mas aquela gente [...] não pode lá entrar
para trabalhar, para viver com a dignidade simples que só o trabalho pode
conferir, porque os voracíssimos descendentes daqueles homens que
primeiro haviam dito: “Esta terra é minha”, e encontraram semelhantes seus
bastante ingênuos para acreditar que era suficiente tê-lo dito, esses rodearam
a terra de leis que os protegem, de polícias que os guardam, de governos que
os representam e defendem, de pistoleiros pagos para matar (SARAMAGO,
1997).
Contradições que nos fazem repensar o funcionamento de uma sociedade democrática
e tão profundamente desigual. Que faz qualquer um repensar a reprodução de velhos
discursos há tanto tempo difundidos pela mídia hegemônica e que lança aos pobres uma
condição de “culpa” diante do estado de miséria habitual.
Imaginamos que Milton Santos teria muito a dizer se tivesse que ouvir certos tipos de
“acusações”: pobres utilizando tecnologias. Evidente, a concepção política que ele tinha a
respeito do uso das tecnologias é outra que não a de mero recurso de consumo e
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entretenimento. No entanto, ele acreditava ser possível transformar a sociedade e o processo
de globalização por meio do uso adequado destes recursos.
Pensando ainda no poder e no crescente alcance das tecnologias pensamos também na
cultura popular, que agora não apenas acessa, mas se serve dos meios técnicos antes
destinados somente ao consumo de uma parcela da sociedade. Hoje, com a forte concorrência
e um mercado produtor em alta, os preços dos produtos costumam cair muito rapidamente,
sendo assim consumidos por pessoas de todas as origens sociais.
Se o processo tecnológico abrange todas as esferas da sociedade, porque só uns podem
ter e fazer uso de determinadas técnicas? Com a utilização consciente destas ferramentas
podemos ter uma luta social mais ativa e participativa, mais abrangente, contribuindo assim
para um desenvolvimento que possibilite uma outra globalização. Não que isso venha a
acontecer com os sujeitos sentados em frente à TV ou num restaurante qualquer, mas são
apresentadas novas possibilidades de atuação social.
Não se encontra na mídia hegemônica espaço para uma melhor elaboração e
problematização dos assuntos referidos aos movimentos populares e sociais, como o MST.
Nem sequer se discute com mais propriedade os motivos da existência destes movimentos,
porque desta forma eles estariam tratando também de alguns dos principais motivos que
geram as desigualdades sociais em nosso país.
Por mais que haja indignação e desejo de se revoltar publicamente, o que muitas vezes
ocorre é uma difusão/propagação de certas informações sem um "filtro" de fundamentação
necessária (como pode ser a da imagem aqui comentada, por exemplo). Seguindo a lógica da
mera publicidade genérica e barata (contra a esquerda, a direita, o PT, ou qualquer outra
bandeira ou partido) vêm outras pessoas, menos atentas a tais detalhes, sem a devida
consciência da repercussão que aquilo pode acarretar, e não só curtem como também
compartilham tal informação, sem considerar o equívoco/erro que podem estar cometendo
(algo, por sinal, bastante sério diante do atual cenário de discursos de ódio difundidos pelas
redes sociais e estimulado pela grande mídia).
Afinal, percebemos uma questão simples. A rapidez trazida pela era digital acelerou
também a necessidade de resposta das pessoas. diante de um fato, todos querem dar sua
opinião imediatamente. Talvez uma breve ponderação tivesse evitado alguns comentários
feitos diante da imagem publicada. Sem intenções de encerrar discussões, percebemos então a
621
complexidade de um fenômeno que ganha espaço numa sociedade que precisa ainda aprender
a pensar bem antes de simplesmente reproduzir discursos.
No final das contas, pode até parecer um mero detalhe, este fato de compartilhar quase
às cegas toda notícia que nos atinge (para o bem ou para o mal). Todavia, os detalhes podem
fazer uma grande diferença. Sabemos que comunicar algo, assim como educar alguém, exige
responsabilidade. Preferimos, então, continuar refletindo e percebendo os tantos detalhes
cotidianos.
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Quando não é apenas a mídia, mas também o próprio