TOPOGRAFIA DE MOIRÉ PARA A AVALIAÇÃO POSTURAL DE HOMENS
IDOSOS DE PORTO ALEGRE-RS
Flávia Porto1,2,3, Jonas Gurgel1,2,3, Gustavo Sepúlveda2,3
Orientador: Dr. Rodolfo Herberto Schneider1, Dr. Antônio Carlos A. de Souza1
1
Instituto de Geriatria e Gerontologia, PUCRS; 2Núcleo de Pesquisa em Biomecânica
Aeroespacial (NUBA), MicroG, FENG, PUCRS; 3Grupo de Avaliação e Pesquisa em
Atividade Física, FEFID, PUCRS
Contato: Avenida Ipiranga, n° 6681, Prédio 81, LAPAFI, PUCRS. Bairro Partenon.
CEP: 90619-900 – Porto Alegre-RS. Fone: (51) 3320-3500 ramal 4929
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Resumo: Este estudo objetivou analisar os desvios posturais (escolioses,
desalinhamentos das escápulas e hipercifoses torácicas) dos idosos de Porto Alegre
com base na Técnica de Moiré de Sombra. Usou-se software livre, em análise não
automatizada. Os resultados mostraram-se satisfatórios e fornece informações sobre o
perfil postural dos indivíduos.
INTRODUÇÃO
No Brasil, a proporção entre a quantidade de crianças e idosos duplicou entre
1980 e 2000. A estimativa é que em 2010 a população idosa represente cerca de 13% da
população total. Além disso, a expectativa de vida aumentou, destacando-se o Estado do
Rio Grande do Sul, com 71,4 anos [1]. Com uma maior longevidade, mudanças
corporais relacionadas ao envelhecimento vão ocorrendo, sendo que algumas ainda são
bem conhecidas podendo comprometer a qualidade de vida e, desta forma, podendo
diminuir a oferta de serviços e atendimentos realmente úteis a esta parcela da
população.
A postura corporal característica dos idosos é decorrente das mudanças
biológicas próprias do envelhecimento. Este estudo objetivou avaliar a postura dos
homens idosos de Porto Alegre com o uso da Técnica de Moiré de Sombra (TMS), que
é um método simples, de baixo custo e permite que muitas pessoas sejam avaliadas em
um curto espaço de tempo.
METODOLOGIA
Este estudo faz parte do Estudo Multidimensional dos Idosos de Porto Alegre,
que se caracteriza como transversal, exploratório e observacional com amostra de base
populacional para os fenômenos mais freqüentes na população idosa. A coleta de dados
se deu entre Janeiro a Setembro de 2006. A amostra deste estudo foi composta por 112
homens, com idade de 60 a 88 anos, que tiveram massa e estatura aferidas. Para a
aplicação da TMS, foram utilizados: grade, formada por estrutura em madeira no
formato de um quadrado vazado (lado = 600mm), na qual foram afixados os fios de
“nylon”, formando o retículo, com período de 1mm; câmera fotográfica digital (Marca
Canon, Modelo 7i); Tripé e; fonte de luz (100W). O ambiente foi escurecido com panos
pretos (tipo TNT) e luz apagada (exceto a fonte de luz). Os idosos permaneceram
descalços com suas costas nuas. Após, foram posicionados atrás da grade, de costas para
o objeto, em posição ortostática. Das costas de cada idoso, foram obtidas duas imagens
com 256 tons de cinza, que variam de 0 (preto) a 255 (branco). Foram verificados: os
desvios laterais da coluna torácica com medida dos ângulos articulares formados (em
graus) e caracterização das concavidades presentes; o desalinhamento das escápulas (em
graus) e; a hipercifose torácica. As imagens foram analisadas em software (Power Draw
2D Vector Application). A estatística descritiva foi feita em software (SPSS 11.5 for
Windows).
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUCRS
(N° de aprovação: 1.066/05-CEP, em 07/11/2005). Os voluntários participantes foram
informados sobre a pesquisa e esclareceram suas dúvidas com os pesquisadores. Após,
leram e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
RESULTADOS
Foram avaliados 112 homens, com idade média de 70,2 anos (±7,12), estatura de
167,4m (±0,7) e massa corporal de 76,5kg (±1.522). Apenas 78 idosos puderam ser
avaliados quanto aos desvios laterais da coluna. As maiores variações angulares
ocorrerem quando na presença de duplas-concavidades na coluna vertebral (Tabelas 1 e
2).
Tabela 1 – Detecção de desvios no plano frontal da coluna com a TMS.
1
2
3
4
Côncavo para direita
Côncavo para esquerda
Côncavo-convexo para direita
Côncavo-convexo para esquerda
18,8%
13,4%
17,9%
17,9%
Tabela 2 – Desvios laterais da coluna e os respectivos valores encontrados (em graus).
Ângulo mínimo
Ângulo máximo
Variação Angular
Mediana
Média
Desvio padrão
1
-5,38 (±0,7)
3,38 (±0,87)
8,7 (±1,16)
-0,24 (±0,53)
-0,76 (±0,48)
3,91 (±0,43)
2
-7,6 (±2,07)
6 (±1,26)
13,8 (±2,37)
-0,17 (±0,81)
-0,67 (±0,82)
5,36 (±0,76)
3
-4,5 (±0,96)
11,85 (±1,4)
16,3 (±1.66)
1,58 (±0,44)
2,44 (±0,5)
6,2 (±0,65)
4
-10,2 (±1,94)
8,05 (±1,02)
18,2 (±2,54)
-0,68 (±0,36)
-1,15 (±0,37)
6,42 (±0,76)
O desalinhamento das escápulas no plano frontal foi encontrado em 75% da
amostra, sendo de 0,6° (±5,54). Estipulou-se que valores positivos significavam que o
lado esquerdo encontrava-se mais alto. Já valores negativos, mostraram que este lado se
encontrava mais baixo que o direito. No plano sagital, foi avaliada a curvatura da região
torácica no plano sagital, com base na profundidade obtida através de fórmula [2]. Neste
caso, 103 idosos puderam ser avaliados e a profundidade média apresentada foi de
22,4mm (±0,85). Entretanto, a quantidade de franjas somadas a partir das centróides
escapulares (9±0,3) sugere que esta profundidade seja maior
DISCUSSÃO
O uso do fenômeno de Moiré para a avaliação topográfica de superfícies do
corpo humano foi empregado por Takasaki [2]. A TMS possui as vantagens de ser um
método não-invasivo [3,4], não necessitar de avaliadores altamente treinados para a
aplicação do método por ser simples [3,4,5], permitir que muitas pessoas sejam
avaliadas em curto espaço de tempo [3,4], ser replicável [3,5], apresentar baixo custo
[4,5]; poder vir a substituir a avaliação com o raio-X ou servir de método complementar
no diagnóstico de doenças [4].
Autores empregaram a TMS para o rastreamento de escoliose em crianças e
jovens nas escolas [4,6]. A análise médica das imagens de Moiré é baseada na simetria
das franjas de ambos lados em diferentes regiões do corpo [5], portanto uma análise de
predominância qualitativa [6]. Neste estudo propôs-se uma avaliação quantitativa,
porém não automática na detecção de deformidades do tronco.
O fato de alguns parâmetros não poderem ter sido avaliados em todos os idosos
é devido à qualidade das imagens ou o grau de deformidades apresentado. O protocolo
de avaliação das imagens não foi possível nesses casos.
Os desvios laterais da coluna foram apresentados por todos os idosos neste
estudo, sendo a variação angular mínima encontrada, de 8,7°. As maiores variações
angulares foram obtidas dos idosos que apresentaram curvaturas da coluna em S. É
possível que a grande variação encontrada possa ser devido a uma rotação da coluna,
comum nas escolioses.
O desnivelamento das escápulas no plano frontal foi ínfimo neste estudo.
Embora os resultados demonstrem uma maior prevalência de desvios da coluna no
plano frontal, parece que em nada interferem no posicionamento das escápulas.
Os resultados referentes à hipercifose torácica mostraram que os idosos se
distanciavam da linha média do corpo, em média, 2cm para frente (flexão), na região
torácica. Talvez este não seja um parâmetro real visto que a imagem aparentava uma
profundidade maior visto o número de franjas de Moiré que apareciam nas costas do
indivíduo. Ou seja, quanto maior o grau de flexão do tronco (hipercifosidade), maior o
número de linhas obtidas com a TMS.
Autores atentam para a necessidade de automatização do procedimento de
análise das imagens de Moiré. A avaliação baseada apenas na observação pode levar a
interpretações equivocadas do topograma, além de ser cansativa para o avaliador
quando uma grande quantidade de fotos é pretendida. Além disso, a informação
numérica do grau de deformidade da assimetria é útil na avaliação da deformidade
apresentada [7].
CONCLUSÃO
Este estudo traz resultados parciais da avaliação postural dos idosos de Porto
Alegre com base na TMS. O método, ainda, se encontra em aperfeiçoamento, mas já
demonstra vantagens. Estudos científicos que avaliaram a topografia de Moiré do corpo
de pessoas idosas ainda são incipientes, sendo o enfoque atual mais direcionado em
crianças e adolescentes.
REFERÊNCIAS
1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Perfil dos idosos responsáveis por
domicílios no Brasil 2000. Rio de Janeiro: IBGE; 2002.
2. Takasaki H. Moiré Topography. Applied Optics 1970 Jun 9(6):1467-72.
3. Ikeda T, Terada H. Development of the Moiré method with special reference to its
application to biostereometrics. Optics and Laser Technology 1981 Dez: 302-306.
4. Yeras AM, Penã RG, Junco R. Moiré topography: alternative technique in health care.
Optics and Lasers in Engineering 2003 40: 105-116.
5. Batouche M, Benlamri R. A computer vision system for diagnosing scoliosis. In: IEEE,
1994. p. 2623-28.
6. Adler NS, Csongradi J, Bleck EE. School screening for scoliosis – one experience in
California using clinical examination and Moiré Photography. The Western Journal of
Medicine 1984 Nov 141(5): 631-3.
7. Kim HS, Ishikawa S, Ohtsuka Y, Shimizu H, Shinomiya T, Viergever MA. Automatic
scoliosis detection based on local centroids evaluation on Moiré topographic images of
human backs. IEEE Transactions on Medical Imaging 2001 Dec 20(12): 1314-20.
Agradecimentos:
Os autores agradecem ao Prof. Dr. Márcio Pinho (FACIN/ PUCRS) pela sugestão do
software usado neste estudo. Os autores homenageiam o Prof. Dr. Antônio Carlos Araújo de
Souza (in memorian), idealizador do Estudo Multidimensional dos Idosos de Porto Alegre-RS.
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medida dos ângulos