Relato de Experiência CONSTRUÇÕES GEOMÉTRICAS COM O USO DO APLICATIVO GEOGEBRA GT 01 – Educação Matemática no Ensino Fundamental: Anos Iniciais e Anos Finais Jeanne Leila Schneider Machado, Universidade Federal de Santa Maria –UFSMREGESD/Licenciatura em Matemática/EAD, EMEF Martinho Lutero, [email protected] Resumo: A partir da proposta de preparação, execução e avaliação de experiências de prática de ensino foi planejada e desenvolvida a atividade que utiliza o software Geogebra para trabalhar conceitos fundamentais de geometria plana com alunos das Séries Finais do Ensino Fundamental. Este artigo apresenta o relato desta prática pedagógica, bem como considerações acerca do uso do aplicativo em questão no processo de ensino-aprendizagem da Matemática. Palavras-chave: Geogebra; experiência pedagógica; geometria. Introdução Tendo em vista, a realização do trabalho proposto como requisito parcial de avaliação da disciplina de Seminário Integrador IV do Curso de Licenciatura em Matemática da REGESD - Rede Gaúcha de Educação à Distância, este objetiva apresentar uma proposta de prática pedagógica com o uso de tecnologias, sua fundamentação teórica, a consecução da mesma, bem como a análise e as reflexões sobre esta, viabilizando algumas conclusões neste contexto. A prática foi realizada com alunos de uma escola pública municipal do nono ano do Ensino Fundamental. A Escola em questão adota uma Filosofia, que permeia todo o trabalho pedagógico, voltada para a contemplação do binômio necessidades/interesses dos alunos. Não trabalha com reprovação, mas existe a busca de uma avaliação que conscientize sobre a evolução da aprendizagem em todas as dimensões humanas. Assume-se uma concepção do processo de ensino/aprendizagem que acredita que o aluno é capaz de construir seu conhecimento, tendo o professor o papel de organizador e mediador de situações de experiências pedagógicas. Relato de Experiência A turma tem 35 alunos, alguns com necessidades educacionais especiais. Por este e outros motivos (espaço físico, número de computadores, dificuldade de trabalhar em duplas nos computadores), contou-se com o apoio de alunos monitores da própria turma que, por estarem mais familiarizados com o uso do computador, puderam auxiliar os colegas. O trabalho apresenta uma abordagem bastante simples, entretanto sua sofisticação encontra-se no entrelaçamento das dinâmicas a serem utilizadas procurando agregar outros valores como a vivência de novas experiências de aprendizagens matemáticas, a reflexão sobre transformações em objetos e a percepção de que a informática pode tornar-se uma aliada para novas descobertas prazerosas, entre outras. Resumidamente, a proposta consistiu em construir retas paralelas e perpendiculares descobrindo características dos entes geométricos envolvidos nas mesmas, bem como desenhar uma colcha de retalhos utilizando combinações de polígonos regulares observando a posição dos segmentos de reta que os compõe e concluindo sobre a soma das medidas dos ângulos internos e externos de um polígono regular. Registre-se que os alunos, protagonistas da atividade, já tiveram a oportunidade de explorar o software Geogebra em outras oportunidades. Por isso, conhecem alguns dos seus recursos. Relato da Atividade Os conteúdos matemáticos abordados foram: retas paralelas e perpendiculares, polígonos regulares, classificação de polígonos de acordo com o número de lados, medidas dos ângulos internos de um polígono qualquer, medida dos ângulos externos de um polígono qualquer, idéia de congruência através do uso do aplicativo Geogebra. A escolha de utilização do mesmo encontra-se ligada ao fato deste possuir algumas características que se julga importante para que os alunos avancem nas suas concepções de aprendizagem. Trata-se de um aplicativo que, quando explorado em sua faceta geométrica, disponibiliza régua e compasso virtuais, possibilitando ao aluno refletir sobre suas construções através da exposição dos passos de construção redimensionando suas ações quando se faz necessário. Também contempla o desenvolvimento da autonomia e da criatividade, pois as respostas frente a uma situação problema apresentada poderá vir a ter várias soluções Relato de Experiência igualmente corretas. O aspecto de viabilizar a inserção de um texto torna o trabalho ainda mais completo, já que através da linguagem oral ou escrita o pensamento tende a tornar-se mais consistente. Algumas das vantagens da utilização do aplicativo em foco são expostas por Petla na sua apresentação da proposta de Unidade Didática: O Geogebra é um programa bastante intuitivo e auto-explicativo, adequado a usuário com conhecimentos avançados em informática ou para iniciantes, sendo que o conhecimento matemático é o ponto fundamental de sua utilização. Por ser um software livre há colaboração de vários programadores inclusive brasileiros os quais disponibilizaram uma versão totalmente em português, o que facilita muito sua utilização em nosso país (PETLA, 2008, p. 21). Foi necessário trabalhar em duplas devido ao número de integrantes da turma ser justamente o dobro dos computadores disponíveis na Sala de Informática. Entretanto, esta situação não gerou nenhum tipo de dificuldade. Assim, eles mesmos organizaram o tempo de troca e discutiram as construções que iam realizando. Também observaram o que os colegas ao seu lado estavam fazendo. Num destes momentos, surgiu uma situação interessante. Partindo da proposta de construir retas, uma das duplas utilizou a opção segmento de reta, ao invés de reta por dois pontos. Ao olhar para o trabalho do colega ao lado não conseguiam descobrir porquê a reta deste cobria todo o monitor. Assim, com o impasse que foi colocado para todo o grupo, chegamos à conclusão que as retas são infinitas, enquanto o segmento de reta tem origem e fim representando uma porção limitada da reta. O aplicativo possibilita a construção de uma reta a partir de dois pontos. Solicitouse aos alunos que exibissem o rótulo dos pontos e das retas para diferenciar sua nomenclatura. Um dos questionamentos que deveriam ser respondidos e inseridos na forma de texto dentro da própria tela de trabalho do Geogebra referia-se justamente a esta distinção entre a nomenclatura de ponto, letra maiúscula e reta, letra minúscula. Para realizar a proposta de construção de retas paralelas e perpendiculares, combinamos que não iríamos usar a opção disponível no aplicativo. Sugerimos o uso da circunferência, entretanto, outras construções poderiam ser exploradas. Alguns alunos, após construir a primeira reta tentaram a construção da segunda utilizando o recurso de simetria para construir a paralela. Uma dupla, ao descumprir o combinado, descobriu que Relato de Experiência através dos Passos da Construção, disponível no próprio aplicativo, era possível visualizar o que tinha sido realizado em cada trabalho, ou seja, o professor ou um colega poderia “desmascarar” o engodo. Neste momento, aproveitou-se para trabalhar as questões relativas ao cumprimento de regras pré-estabelecidas. Figura 1: Construções de retas e questionamentos Quando uma dupla concluía uma construção de retas paralelas ou perpendiculares, sugerimos que utilizassem a opção Mover e observassem se as características dos objetos eram mantidas. Em alguns casos, a figura se desconfigurava e os alunos realizaram discussões sobre a causa e como refazer a atividade, o que possibilitou a testagem de várias hipóteses, vindo de encontro a alguns dos objetivos da aula. Houve alguma resistência neste momento devido à frustração de descobrir que algo estava errado e era necessário refazer; mas, depois, reconheceram que esta aprendizagem também foi importante e que ao refazer já haviam conquistado uma autonomia que tornava desnecessária a ajuda da professora. Contextualizando esta vivência, temos a seguinte argumentação: O ponto de partida do desenvolvimento de conteúdos é a colocação de tarefas numa situação de desafio, de reflexão, de levantamento de hipóteses, de exercício de criatividade, cabendo ao aluno decidir a melhor maneira de encontrar o resultado e verificá-lo, buscando assim o desenvolvimento do raciocínio e da consciência crítica, absolutamente Relato de Experiência necessária para que seja um agente de mudanças capaz de participar da transformação da sociedade (TASHIMA, 2008, p.11). No questionário que foi aplicado, os alunos ressaltaram a diferença entre trabalhar com o recurso de régua e compasso virtual e a forma tradicional. No início do ano, eles tinham aprendido a utilizar o transferidor para medir ângulos. Assim, puderam comparar a rapidez e a precisão apresentada com o aplicativo, contrastando com a dificuldade que tiveram no manuseio do transferidor. Observou-se, também, através da análise do questionário, que alguns alunos não conheciam muitos polígonos além dos mais usuais, nem sua nomenclatura, nem o número de lados de que eram compostos, motivo pelo qual incluiu-se um quadro com estes itens a ser completado no planejamento. Como a escola trabalha com alunos em Atendimento Educacional Especializado nas classes regulares, alguns tiveram dificuldade para expressar-se por escrito. Entretanto, ao serem questionados oralmente foi possível constatar avanços em depoimentos como: “Aprendi que as retas perpendiculares formam um ângulo quadrado que o Geogebra diz que mede 90º” ou “Eu descobri que do lado de fora da figura aparecia 135º + 135º + 90º que dá 360º, achei importante saber que sempre dá esta medida”. Figura 2: Analisando os ângulos Uma das dificuldades apontadas foi que ao desenhar polígonos regulares, conforme os dois pontos que eram escolhidos, estes eram desenhados dentro de outro polígono já Relato de Experiência construído. Esta foi mais uma oportunidade de testar hipóteses para solucionar problemas e desenvolver a capacidade de investigação e de perseverança na busca de resultados. Figura 3: Testando outras possibilidades Mostrou-se oportuno flexibilizar a proposta inicial de “construir uma colcha de retalhos” aceitando outras criações que contemplassem a combinação de polígonos regulares sem deixar “espaços vazios” ou “sobreposição de polígonos”, a partir da manifestação de alguns alunos que expuseram o desejo de realizar diferentes desenhos. Interessantes alguns depoimentos manifestando surpresa em relação ao fato de ser possível estudar e aprender matemática no computador e o gosto por aprender desta forma destacando, ainda, a dimensão da troca de idéias entre as duplas. Um aluno concluiu que “sempre podemos ir além do que achamos e do que as pessoas pensam”. Outro aluno escreveu que “Agora a gente sabe realmente o que são as retas paralelas e perpendiculares. Assim ficou mais fácil de entender”. Ainda, “Parece que assim a matéria fala a nossa língua, é mais fácil, fica mais claro”. Uma dupla enfrentou problemas, provavelmente, devido a alguma falha do computador, pois perderam o trabalho em consequência de um toque não proposital no teclado. As alunas refizeram a construção, após a professora incentivá-las a isso. Relato de Experiência Figura 4: Concluindo a construção Figura 5: Explorando a criatividade Relato de Experiência Uma asserção que foi bastante frisada se refere à satisfação com o resultado visual do trabalho, o que vem de encontro ao que consta nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2008, p. 24), ao expor as reflexões sobre as principais características do saber matemático: “Em contrapartida, não se deve perder de vista os caracteres especulativo, estético não imediatamente pragmático do conhecimento matemático sem os quais se perde parte de sua natureza”. No final da atividade, tivemos um problema em relação à impressão dos trabalhos a serem expostos no mural da escola, pois a impressora da escola somente imprime em preto. Para não frustrar a expectativa dos alunos, foi necessário salvar os trabalhos num pen-drive e levar para imprimir em outro local. Figura 6: Exposição dos trabalhos no mural da escola Considerações finais Os objetivos foram plenamente atingidos no decorrer da atividade. Os alunos, inclusive, extrapolaram conquistando aprendizagens além do que foi proposto, fato Relato de Experiência verificado tanto pelos comentários durante as aulas, quanto no registro de suas conclusões inserindo textos no Geogebra e participando do registro coletivo em sala de aula. Salienta-se como um dos fatores que contribuíram no seu desempenho, a utilização do aplicativo Geogebra devido a sua característica de refazer com facilidade as construções verificando os “erros”, refletindo e reconstruindo a atividade. Como já foi citado, os alunos já haviam explorado este recurso em outras oportunidades. Logo, foi possível avaliar o avanço que demonstraram no seu manuseio e utilização. Com a aplicação deste trabalho, comprovamos que o uso de tecnologia no processo de ensino-aprendizagem pode possibilitar um grande desenvolvimento na capacidade, tanto dos alunos, quanto do professor de obter sucesso frente a desafios apresentados. Para tanto, torna-se pertinente uma parceria entre um planejamento reflexivo e certa flexibilidade frente às diversidades de tempo individual para a aquisição de novos conceitos. Apesar de não ter sido utilizado um método específico na elaboração, execução e reelaboração da unidade didática, as leituras do material teórico disponibilizado na disciplina de Seminário Integrador IV do curso de Licenciatura em MatemáticaREGESD/UFSM, forneceram subsídios, em termos de reflexão e embasamento, para a consecução da mesma. Pode-se considerar como instigante os resultados auferidos com a atividade sugerindo que planejamentos que levem em conta o binômio necessidade/interesse dos alunos tem maiores possibilidades de obter sucesso. Acredita-se que este trabalho poderá ter uma sequência com o uso deste e de outros aplicativos de Geometria Dinâmica para o desenvolvimento dos conceitos ora abordados, bem como de outros conceitos geométricos ou algébricos. Referências BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática. Terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/matematica.pdf. Acesso em 20 de novembro de 2010. PETLA, Revelino José. Geogebra – Possibilidades para o ensino da matemática. 2008. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/26819748/Geogebra-possibilidade-para-oensino-da-matematica. Acesso em 20 de novembro de 2010. Relato de Experiência TASHIMA, Marina Massaco. SILVA, Ana Lúcia da. As lacunas no Ensino-Aprendizagem Da Geometria. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portais/pde/arquivos/83-4.pdf. Acesso em 21 de novembro de 2010.