Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total
responsabilidade de seu(s) autor(es).
QUEM CUIDA DO IDOSO É QUEM SABE?
Arianne Carolina de Melo Araujoi
Belém – Pará - Brasil
RESUMO:
Na busca de práticas cuidadoras, que são a articulação da
oferta de ações de saúde e gestão do cuidado, considerar as
particularidades do histórico pessoal do usuário que busca um
serviço de saúde indicam que tais atitudes reconhecem o outro
como sujeito autônomo e capaz de decisões e escolhas, isto é,
capaz de aceitar ou rejeitar as ações propostas pelos
profissionais. A saúde coletiva se interessa pela diversidade e
singularidades das pessoas e dos indivíduos em seus modos
próprios de andar a vida, do adoecer ao morrer; e de como
representam esse processo, o qual nem sempre é atravessado
pelas instâncias governamentais responsáveis pela saúde
pública. Mas, a questão que emerge é a da inevitável
incompletude do saber do que é necessário a outrem,
pensando-a no viés da psicanálise de J. Lacan. Este trabalho
agrega em si os saberes da Psicologia, da Psicanálise, da
Gerontologia e da Saúde Coletiva, interrogando a
integralidade em saúde coletiva sob a ótica lacaniana, no
cuidado ofertado ao idoso.
Palavras-chave: Cuidado. Envelhecimento. Integralidade.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS:
A etimologia de curar e cuidar é a mesma. No dicionário (Houaiss, 2001),
curador é aquele que zela, cuidado tem função mantenedora. Cuidado vem do latim
cura ou ainda coera, palavra que faz referência a amizade e amor. Não é possível
desprezar a proximidade etimológica com cora, coração, símbolo do sentimento.
Outra possibilidade etimológica é de cogitare, cogitatus, que significa mostrar
interesse.
Entendemos como cuidado a arte realizada na interlocução de três elementos
fundamentais: técnica, intuição e sensibilidade. No entanto, os profissionais focam na
doença e nos riscos, com pouca ou reduzida sensibilidade profilática para atuar na
produção da saúde (Ferla et al, 2007). Identificar expectativas do usuário e operar o
cuidado nelas baseado é um desafio importante para a atenção à saúde que se quer
integral. (Ferla, 2007).
Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total
responsabilidade de seu(s) autor(es).
No que refere ao segmento idoso, políticas sociais podem ser potencialmente
benéficas especialmente no cenário brasileiro, onde uma demanda cada dia maior
denuncia uma insuficiente oferta de redes de serviços de saúde. (Pessoa et al, 2007, p
185). Na atualidade vigente, o velho é sempre o outro, porque ser velho é ser doente.
O sistema de saúde deve se qualificar para responder às demandas crescentes no
cuidado que se pretende competente com a saúde da população idosa. Relembrando o
caráter polissêmico do conceito de integralidade em saúde e suas várias possibilidades
de interlocução, achamos em Moreira (2009, p. 78):
“O conceito de integralidade permite uma primeira
interpretação: a psicologia é multifacetada, variada em seus
métodos de produção de conhecimento, ampla em sua
aplicação, nem sempre pautada no modelo teórico que lhe dá
origem ou a sustenta e valida, o que faz dela um campo de
ausência de integralidade ou onde a integralidade brilha por
sua ausência.”
Campos (2000) questiona qual a identidade da saúde coletiva e, indo além,
quem são os agentes da saúde coletiva. A saúde coletiva se interessa pela diversidade
e singularidades das pessoas e dos indivíduos em seus modos próprios de andar a vida
ou de produção de saúde (Ferla et al, 2007 apud Ceccim, 1988,2005), do adoecer ao
morrer; e de como representam esse processo, o qual nem sempre é atravessado pelas
instâncias governamentais responsáveis pela saúde pública.
E, pensando pelo viés da psicanálise de Lacan, a questão que emerge é da
inevitável incompletude do saber do que é necessário a outrem, uma vez que a
linguagem humana é falha por não haver significantes que possam responder a todas
as demandas que o Outro faz, no lugar de Mestre: “o furo da certeza do Outro,
demonstrando que o outro não sabe sobre o que fala, não conhece a verdade. É este
não saber exatamente que o torna mais sábio que os outros” (Vaz, 1990, p. 254).
Desta forma, o presente ensaio objetiva reunir contribuições da
Psicologia, Psicanálise, da Gerontologia e da Saúde Coletiva no cuidado
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ofertado ao idoso, interrogando a integralidade em saúde coletiva sob a ótica
lacaniana.
DIALOGANDO COM OS SABERES:
Contextualizar onde os conflitos emergem, alavancar prováveis parcerias e
situá-los social e historicamente em classes sociais, explicando a Psicologia atuando
na saúde coletiva. Para Moreira (2009, p. 77), “estamos a certa distância de adotar a
noção de que o ser humano necessita de atenção integral à saúde (...) como se a
Psicologia fosse uma ciência que nada tem a ver com a saúde da população e suas
urgências”. Ou seja, é como se as práticas de cuidado nesse campo de atuação e
conhecimento fossem alheias às agudas demandas da sociedade contemporânea.
Não se deve também esquecer de que a concepção de saúde está pautada em
paradigmas teóricos, devidamente delineados, para que não se perca dos sentidos de
saúde nos dias de hoje. Os paradigmas são de ordem biológica, registros psíquico,
antropológico, social e histórico; constituindo-se assim um campo plural de
conhecimentos do campo da saúde, onde normas sanitárias e o saber biomédico
definitivamente não respondem a todas as enunciações. Mesmo que a postura dos
profissionais seja fundamental para a integralidade, em vários casos a sua
concretização está ligada ao redimensionamento do trabalho, exigindo que agreguem
às atividades assistenciais atributos que respondam as necessidades reais dos usuários,
nas suas práticas. Encontramos em Campos (2000, p. 221) citando Carvalho (1996):
“Quer pela insuficiência do pensamento social incorporado à
saúde coletiva para impulsionar práticas e projetos sanitários
concretos, quer pela pressão exercida pelas agências
financiadoras e pela própria instituição universitária no sentido
de que a saúde coletiva adote, em sua construção teórica,
normas e procedimentos padrões bastante assemelhados aos da
medicina em particular ou aos da tecnociência em geral,
observa-se um crescimento de prestígio do objetivismo na
produção científica da área. Rever as relações entre sujeito e
objeto”.
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Pensando dialeticamente como o autor, a saúde coletiva é uma parte do campo
da saúde. Partindo desse pressuposto, concordamos com Herédia et al (2007, p. 15)
que coloca o envelhecimento enquanto tensionador da capacidade de compreensão e
do planejamento de políticas públicas específicas ao segmento, consequentemente,
sociais.
Socialmente indesejados em vários âmbitos, os idosos são negligenciados dos
serviços de saúde até os cômodos domiciliares, onde conflitos e violências de várias
ordens se interpõem e na atualidade se deseja a promoção do protagonismo social da
pessoa idosa com autonomia e independência, termos muito caros à Gerontologia. Na
trama dos conceitos integradores que tecem o envelhe-ser, as práticas cuidadoras e
suas tecnologias exigem uma formação profissional sólida e diferenciada de atuação:
a velhice se presentifica de modo absolutamente singular e se cristaliza com um semnúmero de peculiaridades.
Assim como na medicina surgiu a geriatria para fazer frente às necessidades
do velho enfermo, nas ciências sociais surgiu a gerontologia social, que percebe a
velhice como um problema social. Reconhecendo através de Papaléo Netto (2002) o
fenômeno do envelhecimento como multifacetado e multifatorial, a gerontologia
objetiva abordar os aspectos biológicos, sociais, psíquicos e legais, etc., de forma a
responder melhor ora pelo envelhecimento normal, ora pelo patológico, mas sob
qualquer prisma, ambas fornecem uma abrangente visão de atenção à saúde do idoso.
Contudo, o modelo biomédico inviabiliza a operacionalização de seus serviços
em rede, desde a formação acadêmica até suas ações no entendimento sob vários
vieses dos fatores predisponentes à saúde do idoso e suas condições, de forma a evitar
as iatrogenias1 e como elas se dão. A tecnologia do acolhimento aumenta o escopo de
ações que correspondam às necessidades de maior dificuldade no atendimento à saúde
do idoso e a integralidade da saúde no envelhecimento soma pontos e esforços
coletivos e inovadores.
1
O conceito de iatrogenia relaciona-se às condutas tomadas pelos vários membros da equipe e
relacionadas ao uso de tecnologias. Determinados métodos diagnósticos ou terapêuticos, que
apresentam hoje indicações na abordagem do doente, poderão no futuro ser alvos de complicações
ainda ignoradas, cuja prática que até então não era, passará a ser considerada iatrogênica.
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O adoecer aos olhos da Psicanálise é diferente de aos olhos da Medicina por
manifestar-se não apenas num organismo, mas num corpo marcado pela linguagem e
pela pulsão. Na busca de práticas cuidadoras, que são a articulação da oferta de ações
de saúde e gestão do cuidado, se encontra “que o melhor e o pior que a psicanálise
pôde produzir estão no advento das concepções de dor ou sofrimento psíquico”
(Kupermann, 2008, p. 68). Para além da atividade do pensamento, aos moldes
freudianos, viabilizam pensar aquilo que não foi pensado, as ditas idéias recalcadas.
Adiante, confirma (id.) que a desassociação entre cura e alívio dos sintomas ou
angústias dos que procuram atendimento abre precedentes que colocam a clínica
psicanalítica abaixo do referencial teórico.
A clínica em psicanálise pressupõe que o sujeito é produto de uma estrutura de
linguagem que "recorta o seu corpo" (Lacan, 1974, p. 19), e ressalta que não diz
respeito à anatomia, é para além da mesma. Tal estrutura é referente ao modo de
resposta de cada sujeito ao real da falta no Outro, falta essa com a qual todo ser
falante se confronta, pois a linguagem não pode dizer tudo. Como produto surge o
processo primário2, restando um gozo, e dele só sabemos, quando neurose, pelo
deciframento do sintoma, isto é: um nó de significantes que se constitui em cadeias
articuladas ao discurso; quando psicose, escutando os delírios e as alucinações.
Para a psicanálise, uma escuta efetiva implica em tomar a fala de cada sujeito
como genuína expressão de sua condição existencial. É importante lembrar que "uma
prática não precisa ser esclarecida para operar" (Lacan, 1974, p. 20). Na atualidade,
reconhecemos nas instituições promotoras de saúde muitos profissionais que, mesmo
não- analistas, consideram a fala de seus pacientes, ouvindo o seu testemunho sobre
essa verdade que nos determina a trabalhar, em vez de simplesmente ocultar o que
Lacan nomeia “humanitarismo sentimentalóide de encomenda”.
Daí a importância da aprendizagem contínua para além dos saberes prévios
que possibilite perceber as indicações que o próprio paciente traz para seu tratamento,
conselho de Freud para a clínica em psicanálise de modo geral: cada caso deve ser
2
Freud utiliza o termo “processo primário” ao abordar o Inconsciente como sistema, onde o
processo se caracteriza pela energia que circula livremente e pela mobilidade dos
investimentos.
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tomado em consideração como se fosse o primeiro e que o analista deve esvaziar-se
do que sabe para poder escutar. Esse saber, o de saber acompanhar por quem solicita
cuidados, na cronologia ou modelo em que o sujeito 3 suporta e não lhe é imposto
como tratamento, significa para o analista colocar o seu próprio saber em modo de
espera. Portanto, nada mais coerente que corroborar as necessárias denúncias que o
campo da integralidade em saúde, por si, faz. Seja como produtora, seja como
produto, desvelam a operacionalização de boa parte dos esforços já feitos no cuidado
à saúde do idoso e que apontam para uma emergente clínica ampliada tanto pela parte
dos profissionais, como pela parte dos usuários.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A prática traz a inegável realidade: não há especialidade que cure tudo. O
cuidar é praticar tolerância com o outro e consigo mesmo e, operacionalizado,
depende das tecnologias de cuidado, oferta de ações ou mesmo a gestão do cuidado
em saúde. Refletido continuamente, diminui a possibilidade de se tornar uma tarefa
incômoda. Sobre o manejo dos sintomas, Lacan dizia: podemos ultrapassar isso à
condição de fazermos uso disso.
A psicanálise se destaca nesse campo por estar diametralmente oposta à clínica
aos moldes, sobretudo, do discurso unilateral. Na clínica psicanalítica, o sujeito pode
irromper e o profissional que dele cuida deve desfazer-se do que previamente sabe
para estar absolutamente disponível para saber do Outro. Do lugar do psicanalista,
essa reflexão possibilita tanto o sustento do desejo do analista não reduzido somente
ao tratamento oferecido a cada sujeito, mas fundamentalmente uma discussão clínica,
para descobrir novos caminhos quiçá transferenciais de saberes que se desejam
integradores com os modos de andar a vida do idoso, em subjetividades que jamais
findam nesse longo e delicado processo de envelhe-ser.
BIBLIOGRAFIA:
Ferla AA. Clínica em movimento: cartografias do cuidado em saúde. Caxias do
Sul: Educs, 2007.
3
Deve-se destacar que o sujeito do inconsciente psicanalítico é atemporal e, por essa razão,
termos específicos à velhice não estão aqui presentes.
Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total
responsabilidade de seu(s) autor(es).
Ferla AA et al. Integralidade em saúde e envelhecimento: dobras, texturas e
desafios à formação dos profissionais de saúde. In: Herédia VBM et al (orgs.).
Envelhecimento, saúde e políticas públicas. Caxias do Sul, RS: Educs, 2007, pp.79112.
Freitas IBA et al (2207). Atendimento domiciliar ao idoso acamado: integralidade
do cuidado a partir da experiência de uma unidade básica de saúde. In: Herédia
VBM et al (orgs.). Envelhecimento, saúde e políticas públicas. Caxias do Sul, RS:
Educs, 2007, pp. 113-130.
Herédia VBM, De Lorenzi DR, Ferla AA. Envelhecimento, Saúde e políticas
Sociais. In: Herédia VBM et al (orgs.). Envelhecimento, saúde e políticas públicas.
Caxias do Sul, RS: Educs, 2007, pp. 09-22.
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Editora Objetiva, 2001.
Kupermann D. Presença sensível: criação e cuidado na clínica psicanalítica. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
LACAN J. Televisão (1974). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
LACAN J. Variantes do tratamento-padrão (1955). In: Escritos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998
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Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da
Saúde, 2006, Cadernos de Atenção Básica, 19.
Moreira ACG. Psicoterapia: por uma estratégia de integralidade. In: Ano da
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Papaléo Netto, M. O estudo da velhice no século XX: histórico, definição do
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Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002, pp. 02-12.
Pessoa LR et al. Cuidado ao idoso e envelhecimento: análise de novos dispositivos
para as políticas públicas. In: Herédia VBM et al (orgs.). Envelhecimento, saúde e
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Vaz NLL. Saber e gozo no discurso do mestre. Rio de Janeiro: Escola Letra
Freudiana, 1990, ano XI, n° 10/11/12, pp 251-55.
i
Mestranda em Psicologia, Universidade Federal do Pará (UFPa). Psicanalista (Centro de Estudos
Psicanalíticos - SP), Gerontóloga (Universidade São Camilo – SP), Psicóloga (UFPa) e Pedagoga
(Universidade da Amazônia – UNAMA). E-mail: [email protected] .
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