DESAFIOS DO MOVIMENTO FEMINISTA PARA A PROMOÇÃO DE UMA
CULTURA DE PAZ NA ESCOLA
Luís Eduardo Torres Bedoya
RESUMO
A perspectiva crítica político-cultural, promovida pelo movimento feminista para o
enfrentamento da violência, é fundamental para a promoção de uma Cultura de Paz. A partir
desta perspectiva, o artigo problematiza sobre a ótica resiliente pós-moderna que influencia
programas de Cultura de Paz na escola e oferece novos horizontes de compreensão para a
elaboração de propostas pedagógicas que apontem a solução efetiva dos problemas recorrentes
da violência suscitados pela modernidade e administrados pela cultura da pós-modernidade.
Cultura de Paz não é uma opção, é tarefa histórica impostergável.
Palavras-chave: cultura de paz, feminismo, escola, política pedagógica
DÉFIS DU MOUVEMENT FÉMINISTE POUR LA PROMOTION DE LA
CULTURE DE PAIX À L’ÉCOLE
RÉSUMÉ
La perspective critique politique-culturelle, choisie par le mouvement féministe pour
l’affrontement de la violence, est fondamentale pour la promotion de la Culture de Paix. À
partir de cette perspective, l’article discute l’optique résiliente de la postmodernité qui influence
les programmes de Culture de Paix à l’école et offre de nouveaux horizons de compréhension
pour l’élaboration des propositions pédagogiques qui indiquent la solution effective des
problèmes recurrents de violence suscités par la modernité et administrés par la culture de la
postmodernité. La Culture de Paix n’est pas une option, c’est un devoir historique inajournable.
Mots-clés: culture de paix, féminisme, école, politique pédagogique
O propósito deste artigo é duplo: problematizar, a partir da contribuição do
movimento feminista, sobre a perspectiva resiliente1 pós-moderna que influencia programas de
Cultura de Paz na escola; e desafiar a elaboração de propostas pedagógicas que sejam realmente
solução efetiva aos problemas recorrentes da violência suscitados pela cultura da modernidade
e administrados pela pós-modernidade.
1
O conceito de resiliência define-se, em sentido geral, como a capacidade que tem um ser humano de se
recuperar psicologicamente, quando é submetido às adversidades, violências e catástrofes na vida. Cfr.
PINHEIRO, 2004.
2
A violência cotidiana e a violência estrutural que hoje ameaça a vida humana em escala
mundial exigem um posicionamento sério e decidido para enfrentá-la em qualquer das suas
formas e expressões e, mas importante ainda, para superá-la. A luta feminista traz consigo uma
pedagogia de libertação que aponta à construção de uma nova ordem de vida, sem a
legitimação da violência que estabelece relacionamentos humanos em situação de opressão.
Cultura de Paz e pós-modernidade
Cultura de Paz é uma proposta alternativa ao fracassado programa civilizatório da
modernidade que teve como resultado, entre outros: o holocausto judeu, a prática sistemática
da violência e da tortura dos regimes ditatoriais na América Latina, a recente invasão do Iraque,
a devastação da natureza, o aquecimento global, a poluição do meio ambiente, a migração em
massa, a fome, a miséria de grandes setores da população mundial. Na constatação de estas
realidades, “claras e distintas”, a violência mostrou-se parte da cultura da modernidade, como
bem apontava BAUMAN (1998) em Modernidade e Holocausto. O apelo à violência colocou
em evidência sua profunda carência espiritual, tornando insuportável a existência humana, dos
seres vivos e do planeta. Pensar, logo existir, símbolo discursivo da essência da modernidade,
idealizado por Descartes, virou um pesadelo do qual se almeja o destino dos produtos
descartáveis.
Neste contexto epocal de crise e passagem para a chamada pós-modernidade surgiu o
movimento por uma Cultura de Paz. Sua origem remonta à fundação da UNESCO em 1945.
No entanto o termo foi oficializado em 1989 na declaração de Yamoussoukro, elaborada
durante a Conferência Internacional sobre a Paz na Mente dos Homens na Costa do Marfim.
Desde 1995 a Cultura de Paz foi adotada como Programa da UNESCO, sendo em 1998
proclamado o ano 2000 como o Ano Internacional pela Cultura de Paz. Compreende-se assim
que este movimento veio preencher, de início, o vazio existencial deixado pela cultura violenta
da modernidade. Como afirma GATTI (2005):
Instalou-se grande suspeita quanto aos ideais da modernidade, pela falência das
utopias criadas – seja como explicações científicas do real, seja como
proposições salvadoras – e não realizadas no cotidiano da cultura e da
sociedade modernas. O desejo de escapar a um mundo duro e a respeito de
cuja transformação não se tem esperança exacerba a individuação, a fuga da
realidade, a falta de ideais partilháveis, a afirmação da falta de sentido da vida...
Na pós-modernidade só permanecem no horizonte como passíveis de melhoria
as relações interpessoais próximas.
Neste quadro de realidade, sem expectativas de mudança de ordem estrutural, perante a
qual só parecia restar o cambio das atitudes e comportamentos individuais próximos emerge a
3
Cultura de Paz como atitude resiliente para a superação das adversidades da humanidade
atingida e dilacerada pelos sofrimentos desnecessários da modernidade.
Sem desmerecer o valor da resiliência na tentativa de compreender as respostas
criativas dos indivíduos na superação de situações adversas, violentas ou catastróficas, no
âmbito da psicologia e em outras áreas de saber, como bem explorado por PINHEIRO (2004),
o que colocamos em questão é a perspectiva resiliente de natureza privada que sobressai em
alguns programas de Cultura de Paz na escola, à procura da superação de quadros de violência
cotidiana, social, cultural, estrutural.
O problema é que na medida em que o foco desses programas seja o cultivo de
sentimentos e atitudes dos membros da comunidade escolar – professores/as, alunos/as,
funcionários/as, pais e mães de família - e a programação de algumas ações isoladas de
conscientização no bairro, e enquanto esses programas não apontem ao questionamento e
mobilização contra a ordem estrutural, social e doméstica, que promove e legitima a violência
na sociedade, com implicações nos relacionamentos entre as pessoas, a perspectiva resiliente no
fomento da Cultura de Paz torna-se ineficiente e, na prática, permissiva com a realidade da
violência gerada e incentivada pelo sistema moderno capitalista.
Não é do mesmo valor motivar atitudes resilientes em pacientes com câncer num
quadro clínico já constituído, que numa situação que favorece o desenvolvimento de algum
tipo de câncer. No primeiro caso, a resiliência cumpre uma necessária função benéfica pela qual
se faz possível a superação e até a reversão de processos cancerígenos visando a recuperação
plena da saúde das pessoas. No segundo caso, quando a situação de exposição a desenvolver
processos cancerígenos é imposta às pessoas, e se recorre a assistência sintomática das mesmas,
a motivação de atitudes resilientes pode converter-se em instrumento social e ideológico
permissivo de legitimação da prática da violência contra a saúde. Podemos ilustrar o que
queremos dizer com o que ocorre com a Associação Peter Pan de Fortaleza, Ceará, destinada
ao cuidado, reabilitação e melhoria de qualidade de vida de crianças com câncer.
2
Quando
alertados ao fato de que essa instituição tem como um dos seus benfeitores, quem sabe o maior
deles, a empresa Mc Donalds e seu instituto de apoio,3 que resiste a denúncias internacionais,
veiculadas pela web4 penalizando-a por oferecer produtos alimentícios suspeitos de conter
sustâncias cancerígenas de incidência em crianças, evidencia-se a postura permissiva da
2
Cfr.
http://www.app.org.br/interna.php?acao=modulos/noticias/noticia_integra.php&id=4321&foto=43212009
0618111940.jpg
3
Cfr. http://www.instituto-ronald.org.br/
4
Cfr. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/021122_macss3.shtml . Cfr Denúncia no Centro de
mídia independente
http://www.ativismo.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=74:mc-dia-infeliz-manifestao-dentro-de-shopping-em-so-paulo&catid=18:&Itemid=71
4
Associação Peter Pan com relação aos fatores e causas sócio-econômicas que ocasionam câncer
em crianças.
Daqui a analogia que podemos fazer com a concepção resiliente pós-moderna de certos
programas de Cultura de Paz como o da Universidade Holística Internacional de Brasília,
conhecida como UNIPAZ, fundada em 1987. Seguindo as palavras de seu fundador, Pierre
Weil,
a principal missão de UNIPAZ é desenvolver uma ação educacional que
dissemine a visão holística e uma cultura de paz e não-violência, possibilitando
ao homem o alcance de uma consciência plena de seus ideais de ser humano,
participante do processo de construção de uma sociedade na qual as relações
interpessoais sejam orientadas por uma clara noção do que seja tolerância e
fraternidade... O objetivo final de seus programas é, além da disseminação dos
ideais holísticos, provocar uma ação reparadora com reais repercussões na
sociedade e na própria natureza através de uma ação corretiva e educativa.
(WEIL: 2009)
Compreende-se assim que a Cultura de Paz seja, na sua concepção pós-moderna,
tentativa histórica de reconciliação da humanidade modernizada com suas vítimas, no caminho
necessário para o “progresso”. Assume-se a violência neste percurso como um fato inevitável,
porém, passível de ser administrada da melhor maneira possível, criando mecanismos e ações
de responsabilidade social que permitam, em foro privativo e institucional, a superação das
adversidades e tragédias que gera a violência institucionalizada. A leitura da realidade do criador
da UNIPAZ é ilustrativa:
A violência impera no mundo, seja nos países ricos ou pobres. As causas
aventadas, em geral, são o narcotráfico, a pobreza gerando a fome e o
fanatismo sob todas as suas formas ideológica, política, religiosa, racial, etc. O
aumento de excluídos sem nenhum compromisso cultural é também um fator
relevante.
Há, no entanto, um fator praticamente ignorado: a ausência de educação para a
Paz no mundo. (WEIL, 2009)
Desafios do movimento feminista
O questionamento que vem do movimento feminista é a respeito da legitimidade e da
fatalidade da violência social, em particular daquela que se abate contra mulheres e crianças.
Esses estudos apontam dimensionar as possibilidades e limites que os programas de Cultura de
Paz oferecem, enquanto alternativa à dinâmica social destrutiva, construída e inspirada pelo
sistema capitalista, favorecido pela cultura da modernidade.
5
Os estudos de gênero realizados principalmente pelo movimento feminista vêm
contribuindo significativamente para o estabelecimento de uma Cultura de Paz a partir do
desenvolvimento de relações igualitárias, justas e democráticas, entre homens e mulheres, na
sociedade, a partir do protagonismo destas na defesa e conquista do respeito à sua dignidade e
dos seus direitos, muitos deles secularmente negados.
É desde a perspectiva de luta contra a opressão e marginalização e de afirmação de
práticas libertadoras das mulheres na sociedade, em todas as esferas da sua atuação, que o
movimento feminista trás uma contribuição efetiva para uma Cultura de Paz. Trata-se de
questionamentos pertinentes para elucidar a diferencia existente entre o seu fomento numa
perspectiva pós-moderna, resiliente, e numa perspectiva de ação cultural pela liberdade, contra
a violência, pela paz.
Patriarcalismo é o conceito-chave para explicar as construções dos gêneros e de suas
relações entre si, que fazem da diferenciação biológica a divisão social entre homens e
mulheres, o princípio que funda e privilegia as prerrogativas de poder dos homens sobre as
mulheres. Divisão na qual se legitima a submissão das mulheres, naturalizando-se assim
relações desiguais, opressoras, exploradoras, marginalizadoras e violentas, das quais elas são as
principais vítimas. Com relação à Cultura de Paz o problema é que:
somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem
sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre
mecanismos de violência como o Estado, as classes, o projeto da tecno-ciência,
os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática
depredação. Essa cultura patriarcal gestou, também, a guerra como forma de
resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital,
hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera
permanentemente desigualdades, injustiças e violências... Todas estas forças se
articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos
desumaniza a todos. A essa cultura da violência há que se opor a cultura da paz.
(BOFF, 2008)
Por estas considerações podemos afirmar que na medida em que o sistema patriarcal
continua influenciando e reproduzindo-se na cultura sua ideologia e seus princípios, a
expectativa que podemos ter sobre a valorização e a construção de uma realidade de paz, será
relativa, embora não inútil. A questão fundamental é que sem ruptura com esta ordem, que
gera, cultiva e dissemina violência contra a vida, em todas suas formas de expressão, não será
possível construir essa outra cujo alicerce seja a Paz. Esta é a premissa da luta permanente do
movimento feminista:
A Marcha Mundial das Mulheres identifica o Patriarcado como o
6
sistema de opressão para com as mulheres, e o capitalismo como o sistema de
exploração de uma imensa maioria de mulheres e de homens por parte de uma
minoria. Estes sistemas se fortalecem mutuamente e fundamentam o sexismo,
misoginia, racismo, xenofobia, homofobia, colonialismo, imperialismo,
escravismo e trabalhos forçados. São a base de fundamentalismos e
integralismos que impedem a mulheres e homens ser livres. Geram pobreza e
exclusão, violam os direitos humanos, particularmente os das mulheres, e põem
em perigo a humanidade e o planeta. Por isso recusamos este mundo e
propomos construir outro, onde a integridade, a diversidade, os direitos e
liberdades de todas e todos sejam respeitados. Estes direitos se baseiam nos
valores de: igualdade, liberdade, solidariedade, justiça e paz. (VIGÁRIO 2005)
O movimento feminista tem-se posicionado criticamente sobre a violência patriarcal
desconstruindo o seu sustento ideológico-cultural e os mecanismos políticos de sua reprodução
no âmbito público e privado, como também tem debatido sistematicamente sobre a maneira de
combater-la e de cultivar uma nova forma de relacionamentos entre as pessoas fundada nos
princípios de igualdade, respeito e co-responsabilidade.
Na perspectiva feminista de formulação de propostas para uma Cultura de Paz
destacam-se, fundamentalmente, segundo Tatiana Moura, dois traços singularizadores:
Em primeiro lugar, a paz feminista veio desafiar a inevitabilidade da ordem
social dominante e da guerra, explicando a violência a partir da natureza
hierárquica da nossa sociedade... Em segundo lugar, para além de denunciar os
vários rostos da violência, a paz feminista inclui a defesa da transformação das
comunidades de uma forma positiva através de mecanismos não violentos...
Por isso, a proposta feminista passa também por uma re-conceptualização do
conceito de poder, substituindo a noção de “poder sobre” por uma noção de
“poder com”. Isto significaria a substituição do poder entendido como a
capacidade de obrigar e dominar por uma lógica de poder enquanto
responsabilidade e capacitação Esta proposta constitui talvez o maior
contributo das investigadoras para a paz feministas, por ser um projecto de
emancipação e de transformação social. (MOURA, 2004)
O importante é compreender que esta configuração patriarcal de vida humana foi
constitutiva da modernidade e continua-se na chamada pós-modernidade. Na modernidade de
maneira crua, clara e distinta. Modernidade é cultura eminentemente patriarcal, construída pelo
apelo à violência das realidades, colonizando-as, dividido-as, classificando-as, até submetê-las
ao imperativo categórico do progresso que oferece o conhecimento científico, instrumental e
racional (LANDER, 2005). A pós-modernidade é expressão cultural da resistência à ordem da
modernidade sem, contudo renunciar aos seus princípios fundamentais, entre os quais, a
preservação da prerrogativa patriarcal para a manutenção e desenvolvimento da vida. Daqui o
sentido da perspectiva resiliente da pós-modernidade. Se a modernidade trazia a inevitabilidade
do sofrimento pelo progresso, a pós-modernidade oferece a possibilidade de administrar os
efeitos da violência dada da maneira mais salutar possível, a partir da esfera do privado, sem
7
atentar ao espaço público onde se define a regulamentação dos relacionamentos sociais e da
reprodução da sociedade.
Por uma pedagogia libertadora da Cultura de Paz na escola
A escola é, sem dúvida, um dos espaços privilegiados para o cultivo da cultura de paz.
Privilegiado porque é espaço mediador do público e do privado, das políticas públicas e das
políticas “privativas” familiares. Também, por ser espaço de encontro inter-geracional, onde se
possibilita uma rica troca de experiências, saberes, aprendizados, conhecimentos, entre
alunos/as, pais e mães dos mesmos, professores/as e funcionários/as.
Charo Vigário, militante feminista, assinala criticamente este papel mediador da escola,
na execução de problemas de promoção humana:
Hoje se fala da necessidade e urgência de estabelecer programas de direitos de
cidadãs e cidadãos. Em muitos institutos de ensino secundário se estão levando
a cabo programas de resolução de conflitos por meios pacíficos. No entanto
isto não é suficiente se não se estende a um maior número de pessoas, se não
se democratiza no sentido de estendê-lo a todas as pessoas que compõem uma
comunidade, pois não é só uma tarefa de pessoas experientes...
Mas a escola, como qualquer outro âmbito educativo, não só tem a função de
analisar o dado, mas a função de ensinar a encontrar os recursos que dêem
sentido e consciência às vidas que estão presentes nestes espaços e que vão
além dos currículos instaurados ou das funções de ajuda ou orientação. Na sala
de aula não só existem alunas e alunos mas que por trás está o mundo das
famílias, do bairro, da cidade, dos meios de comunicação, da sociedade de
consumo. Estão os problemas trabalhistas, de sobrevivência, de imigração, de
violência, de doença, etc. A escola, portanto, pode servir de mediadora de
problemas e conflitos variados, dando sentido e precisão ao reflexionar sobre
eles junto com outras instâncias sociais. Creio que a escola, mas não somente
ela pode promover, porque se está fazendo já em alguns casos, a reflexão e o
tratamento dos conflitos que nela aparecem. (VIGÁRIO, 2005)
Eis a questão pertinente que levantamos com relação a programas educacionais para
uma Cultura de Paz na escola pública, entre os quais: o Programa Vivendo Valores na
Educação (VIVE) – “As possibilidades estão em nós e são nossas”, promovido
internacionalmente pela UNICEF, e promovido no Brasil, durante vários anos, pela ONG
Brahma Kumaris (MATOS, 2006); e o Programa nacional “Paz nas escolas”, promovida pelo
governo federal (MATOS, 2006). Também podemos citar a influência que têm a visão holística
na implementação educacional da Cultura da Paz. O trabalho de YUS (2002), Educação integral,
uma educação holística para o século XXI, e de JARES (2007), Educar para a paz em tempos difíceis,
trazem não só propostas pedagógicas, mas, sobretudo uma concepção educacional construída
com essa finalidade.
8
Sem desconhecer o valor destas experiências e de seus postulados para o fomento de
uma Cultura de Paz, faz-se necessário incorporar as contribuições do movimento feminista,
para de mãos dadas, junto aos esforços da educação holística e os programas de Cultura de Paz
nas escolas, abrir novas perspectivas suscitando novas práticas de atuação.
Na perspectiva feminista o foco para a superação da violência estrutural e cotidiana, e
dos conflitos inter-pessoais e sociais, frutos de uma sociedade desagregada e competitiva
resultado do modelo da modernidade, não estaria tanto em administrá-los numa ótica resiliente,
na esfera do particular, mas de assumi-los, desconstruindo-os numa perspectiva de mudança
cultural. O que implica assumir a violência como um problema político na esfera pública e
privada. O que não significa menosprezar o valor da educação holística e dos programas
educacionais, que considero coadjuvantes necessários para afirmação de uma alternativa
cultural à modernidade.
Entretanto, não podemos esquecer que:
A educação está imersa na cultura e não apenas vinculada às ciências, que
foram tomadas na modernidade como as únicas fontes válidas de formação e
capazes de oferecer tecnologias de ensino eficientes. A educação coloca-se, no
seu modo de existir no social, em ambientes escolares e similares, organizada
em torno de processos de construção e utilização dos significados que
conectam o homem com a cultura em que se insere e suas imagens, com
significados gerais, locais e particulares, ou seja, com significados que se fazem
públicos e compartilhados, mas cujo sentido se cria nas relações que medeiam
seu modo de estar nos ambientes e com as pessoas que estão. (GATTI, 2005)
Desde a perspectiva de Paulo Freire, Cultura de Paz na escola deveria ser, antes de
tudo, expressão de uma postura ética e política pública contra a violência. E deveria ser tratada
na escola, seguindo a concepção de Freire, como uma ação cultural, de comprometimento
ético-político, pela paz e pela liberdade. Ação cultural que pressupõe a mobilização da
sociedade em todas as esferas para combater a violência com a fundação de novas práticas
sociais:
“Na verdade, porém, por paradoxal que possa parecer, na resposta dos
oprimidos à violência dos opressores é que vamos encontrar o gesto de amor.
Consciente ou inconscientemente, o ato de rebelião dos oprimidos, que é
sempre tão ou quase tão violento quanto a violência que os cria, este ato dos
oprimidos, sim, pode inaugurar o amor. Enquanto a violência dos opressores
faz dos oprimidos homens proibidos de ser, a resposta destes à violência
daqueles se encontra infundida do anseio de busca do direito de ser. Os
opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem
igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de
oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso
da opressão. Por isto é que, somente os oprimidos, libertando-se, podem
libertar os opressores. Estes, enquanto classe que oprime, nem libertam, nem
9
se libertam. O importante, por isto mesmo, é que a luta dos oprimidos se faça
para superar a contradição em que se acham. Que esta superação seja o
surgimento do homem novo – não mais opressor, não mais oprimido, mas
homem libertando-se. Precisamente porque, se sua luta é no sentido de fazer-se
Homem, que estavam sendo proibidos de ser, não o conseguirão se apenas
invertem as termos da contradição. Isto é, se apenas mudam de lugar, nos
pólos da contradição.” (FREIRE: 1987, p.24)
Conclusão
A perspectiva crítica, político-cultural, promovida pelo movimento feminista para o
enfrentamento da violência é impostergável para a promoção de uma Cultura de Paz na escola.
Ele despertou e continua abrindo caminhos nesta direção. Há que tirar as armas dos violentos
que causam violência, e reconciliá-los com suas vitimas.
A perspectiva resiliente de programas de Cultura de Paz na escola é um sério empecilho
para efetivação da mesma. Pois, além de estimular a privatização dos esforços em prol da paz,
restrita a práticas atitudinais e comportamentais dos membros da escola, torna-se permissiva
enquanto, não discutindo as causas e fatores gerais da violência, no âmbito privado e público,
termina por assumir a naturalidade da violência. Cultura de Paz assume então o significado do
“melhor que podemos fazer” perante uma realidade de violência dada.
Cultura de Paz na escola, na perspectiva de Paulo Freire, exige uma postura ética e
política para afirmação de uma ação cultural para a liberdade e para a paz. À cultura da
violência, patriarcal, há que se opor a Cultura da Paz, democrática e entre iguais. Não se trata
de uma opção. É uma tarefa histórica que as vitimas da violência devem protagonizar.
Só desta forma será possível construir uma genuína Cultura de Paz. Foi este o
aprendizado compartilhado do mestre e educador em humanidade Paulo Freire por ocasião do
recebimento do “Prêmio UNESCO da Educação para a Paz”, em setembro de 1986:
De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes aprendi sobretudo que
a Paz é fundamental, indispensável, mas que a Paz implica lutar por ela. A Paz
se cria, se constrói na e pela superação de realidades sociais perversas. A Paz se
cria, se constrói na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio
em nenhum esforço chamado de educação para a Paz que, em lugar de desvelar
o mundo das injustiças o torna opaco e tenta miopizar as suas vítimas.
Referência bibliográfica
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2002
11
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