Narrativa Historiadora: uma Proposta do Realismo ao Cubismo
Pedro Felipe Marques Gomes Ferrari
Artigos
Narrativa Historiadora:
uma Proposta do Realismo ao Cubismo
Pedro Felipe Marques Gomes Ferrari, Doutorando em História pela
Universidade de Brasília (UnB)
[email protected]
Resumo: O seguinte artigo almeja questionar os modos de escrita utilizados
pela historiografia. Focando-se em debates trazidos pela micro-história, seguir
pela crítica absorvida por Lloyd Kramer a partir dos trabalhos de Hayden
White e Dominick LaCapra: repensar a estética da escrita e seu papel para a
configuração final da pesquisa. Neste sentido, apropriar-se do Cubismo (em
especial de análises críticas sobre Guillaume Apollinaire) como alternativa
possível. Contrapondo-o ao Realismo tão largamente utilizado, findar com uma
proposta entrevista a partir do trabalho de Giovanni Levi.
Palavras-chave: Narrativa. Escala. Micro-história
Abstract: The following article aims to question the ways of writing used by the
historiography. Focusing on debates brought about by micro-history, following
the critically absorbed by Lloyd Kramer from the work of Hayden White and
Dominick LaCapra: rethinking the aesthetics of writing and its role in the
final configuration of the research. In this sense, the appropriation of Cubism
(especially on critical analysis of Guillaume Apollinaire’s poetry) as a possible
alternative. In opposition to the Realism so widely appointed, culminate on a
proposition about Giovanni Levi’s work.
Keywords: Narrative. Scale. Micro-history
Certas vezes alheia ao restante da pesquisa historiográfica, a elaboração de sumários tem
sido, nas últimas décadas, colocada em um plano privilegiado do ofício. Considerada
1
A Família Puri foi vinculada pelo pesquisador Aryon Rodrigues ao tronco Macro-Jê. Dividida em 23 línguas,
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: editora da UNICAMP, 2007. p.
251.
2 Idem. Ibidem. p. 256.
3 KRAMER, Lloyd S. “Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio literário de Hayden White e
Dominck LaCapra” In: HUNT, Lynn. A nova história cultural. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
p. 155.
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enquanto mote principal da escrita, organiza a forma do texto – e, assim, compõe com toda
a preocupação teórica e heurística. Denuncia o papel ativo do historiador ao concatenar
de um modo próprio as cadências que impõe ao objeto por sua pena particular. Uma
nova seara é, portanto, aberta ao pesquisador: a problemática de suas escolhas e edifícios
narrativos.
Considerado como parte integrante do fazer, o contar da história resultaria de uma
concepção específica sobre o objeto analisado. Desta forma, a reflexão sobre suas
implicações é imprescindível. Afinal, como defendido por Paul Ricoeur, a representação
decorrente da narrativa historiográfica “não se acrescenta de fora à fase documental e à
fase explicativa, mas as acompanha e as sustenta”.1
Seria, afinal, um momento último da abordagem teórico-metodológica; carregaria no ritmo
que impõe ao texto uma forte carga reflexiva. Ao apresentar o trabalho a seus leitores,
desta forma entrar-se-ia em contato com o conteúdo; imbricada à epistemologia proposta,
ressalta uma determinada forma de conhecer o que é abordado.
Ao ser posta em cheque a forma de escrita, antigos paradigmas tornam-se problemáticos.
“Procura-se em vão uma ligação direta entre a forma narrativa e os acontecimentos
tais como se produziram de fato”, critica Paul Ricoeur.2 Pois a ressalva parece surgir
exatamente da ligação entre a fase da escrita (ou “representação historiadora”, como
nominado por Ricoeur) e as anteriores (“fase documental” e “explicação/compreensão”).
Em outras palavras, como trazer ao texto, seu ritmo e parágrafos, considerações já
tanto abordadas no âmbito teórico-metodológico? De quais modos a pluralidade pode
ser representada historiograficamente em um suporte plano e linear como o são nossos
artigos, dissertações, teses?
***
A voracidade com a qual, ao longo do século XX, a historiografia se valeu de outras
disciplinas é notável. Desde os Annales, com suas tantas “gerações”, aos intuitos microhistoriográficos italianos (e a consequente apropriação francesa destes questionamentos),
conceitos e abordagens foram reiteradamente revistos. Da “história das mentalidades” à
“história cultural” e à revisão da “história social”, bradam-se novos objetos, perspectivas,
abordagens.
Entretanto, o fazer último do historiador, detido pelo correr de suas próprias linhas e
a composição de seus capítulos, pouco fora afetado. Tal é extraído por Lloyd Kramer
dos trabalhos tanto de Hayden White quanto de Dominick LaCapra: a manutenção de
paradigmas literários próprios ao século XIX. Identifica a primazia de uma tendência
REVEL, Jacques. Proposições: ensaios de história e historiografia. Rio de Janeiro: ed. UERJ, 2009. p.
97.
5 BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 3ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 188.
6 Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 9ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1995. p. 381-389.
4
7
REVEL, Jacques (org). Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio
Vargas, 1998. p. 13.
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ao Realismo: “os historiadores querem descrever uma realidade que existe além da
interpretação ou fora dos textos em moldes que recapitulem o antigo desejo metafísico do
puro ser”, alinhava.3
Deste desejo resta a forja de uma linearidade na trama esmiuçada: replica-se o narrador
onisciente, uma cronologia retilínea e a homotesia dos pontos de vista. Exatamente por
valer-se destes recursos literários específicos, reitera na narrativa certas pressuposições
teóricas já há muito abandonadas – como, por exemplo, a assunção de uma realidade
prévia, absoluta e independente à narrativa. Uma discrepância, enfim, entre o fazer
historiográfico (em especial sua escrita) e as reflexões teóricas que o sustentam.
Jacques Revel sublinha
a deterioração, e até a decadência, dos grandes modelos teóricos que por longo
tempo pareceram garantir a possibilidade de uma inteligência global do mundo
sócio-histórico no interior de um quadro analítico e explicativo comum.4
Entretanto, no âmbito da escrita, os objetos continuam sendo submetidos à mesma lógica
e cadência próprias a um intuito homogeneizante e unificador.
Sobre o Realismo, pressuposições diametralmente opostas a estes reconhecimentos gerais
do fazer historiográfico (aqui levantados a partir de Revel) são notórios. Alfredo Bosi
assim caracteriza este movimento literário:
Desnudam-se as mazelas da vida pública e os contrastes da vida íntima; e
busca-se para ambas causas naturais (raça, clima, temperamento) ou culturais
(meio, educação) que lhes reduzem a muito a área de liberdade. O escritor
realista tomará a sério as personagens e se sentirá no dever de descobrir-lhes a
verdade, no sentido positivista de dissecar os móveis do seu comportamento.5
Cabe destacar, aqui, um ponto mais próximo ao Naturalismo, quer seja o entendimento
dos personagens como vítimas tanto do momento histórico quanto da raça e do meio
ambiente. Atitude esta que despertara dura crítica de Nelson Werneck Sodré.6
Neste sentido, caberia ao narrador (valendo-se de sua onisciência) descobrir a verdade
oculta e unívoca que rege a trama. É uma empreitada que, em boa medida, une Realistas e
Naturalistas. Trata-se, antes de tudo, do reconhecimento de um contexto pleno e unificado;
anterior e independente aos personagens, esta ambientação era, no final das contas, o
intuito primeiro da construção literária. Diante dela, os personagens são figurados apenas
como reflexões de uma lógica geral que a todos abarcaria.
8
Idem. Ibidem. p. 27.
9
Cf. CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: ed. Universidade/
UFRGS, 2002. p. 38-9.
10 KRAMER, Lloyd S. Op.cit. p. 142.
11 CHARTIER, Roger. Op.cit. p. 86.
12 KRAMER, Lloyd S. Op.cit. p. 161.
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Sobre experiências de microanálise em história, focando-se especificamente em
caminhos particulares de certos agentes, Revel nota uma proposta diferente. Sobre a
“contextualização”, defende uma característica especial: “privilegiar a experiência dos
atores reconstruindo em dela o contexto (ou antes os contextos) que lhe dá sentido e
forma”.7 Da homogeneidade suposta pelo Realismo à pluralidade de valorações. Para
ele, a construção destes tais “contextos” seria derivada dos personagens (ou, melhor, das
fontes) – não do interesse particular da escrita historiográfica.
Em outro ensaio publicado neste mesmo trabalho, Revel complementa tal assertiva.
Diz ser um papel fundamental da micro-história recusar “que existiria um contexto
unificado, homogêneo, dentro do qual e em função do qual os atores determinariam suas
escolhas”.8
De forma alguma estas reflexões esgotam-se atrás dos muros da micro-história. É deste
mesmo caráter a crítica feita por Roger Chartier às mentalidades, durante tanto tempo
tomadas como uma importante pedra de torque da historiografia.9 Porquanto imbuídas
de tons unívocos, pouco espaço daria à pluralidade. E, exatamente por homogeneizar os
sujeitos, em certos pontos seria semelhante àqueles intuitos do Realismo literário. Kramer
critica este mesmo reducionismo, mas em um panorama da narrativa – volta-se contra “a
tendência a ler tanto os textos quanto os contextos de forma unidimensional”.10
Entretanto, tais questionamentos deveriam ser mote de avaliação mesmo da escrita
historiográfica. Como reconhecido pelo próprio Chartier (e neste ponto remetendose a Ricoeur), a história “é sempre construída a partir das fórmulas que governam a
produção das narrativas”.11 De outro modo, a postura frente às fontes (privilegiando-se
a pluralidade) seria frustrada pela representação historiadora (ao enquadrar a escrita em
uma linearidade). Ao invés de sustentar a reflexão teórico-metodológica, a narrativa ruiria
toda sua carga e potencial explicativo.
A inconstância das fontes é tomada, portanto, como fundamental. Ao invés de extrair
alguma homotesia de determinada documentação, abre-se ao historiador exatamente o
duelo entre elas. Pontos de vista, enfim, que não se reduzem a uma única perspectiva –
usos e leituras díspares encaradas como o objeto próprio à historiografia. Urge, portanto,
levar este problema documental à organização do produto historiográfico.
Em outras palavras, as dissonâncias e multifacetações percebidas entre as fontes não
caberiam em um texto que se pretenda homogêneo e linear. A onisciência, o caminhar
unívoco do tempo e a constância de um único contexto, como propostos pelo Realismo,
deveriam ser revistos. Parece ser neste sentido que se ergue a afirmação de Kramer sobre
a necessidade do historiador “romper com as tendências unidimensionais”.12
Há aqui, entretanto, uma reflexão acerca do suporte primariamente ofertado ao historiador:
13 BERGER, John. Modos de ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 20.
14 AMORIM, Silvana Vieira da Silva. Giullaume Apollinaire: fábula e lírica. São Paulo: UNESP, 2003. p.
66.22
Há outra evidência do invulgar relevo atribuído pelas metrópoles européias à política indigenista
aqui desenvolvida por essa época. O simples fato de que Pombal tenha nomeado para o governo da região amazônica
seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, (Estado do Maranhão e Grão-Pará), é prova suficiente da ênfase
posta na solução desse problema. MOREIRA NETO. Op. Cit. p. 233.
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as linhas de seu texto. Sua pauta, organizando frases em parágrafos e parágrafos em
dissertações, limita o fazer. É, impreterivelmente, linear. Quaisquer tridimensionalidades
destes vários ângulos são frustradas, ao menos em um primeiro momento, pela
bidimensionalidade do papel sobre o qual corre sua tinta.
Alguma possível resposta, exatamente por se tratar da feitura do texto, poderia ser derivada
da teoria literária.
***
No raiar do século XX, certos intentos do modernismo tentaram redefinir as relações entre
a tridimensionalidade do representado e a intrínseca bidimensionalidade do suporte da
representação artística. Correntes, enfim, que desafiavam alguns dos pressupostos básicos
tanto do Realismo quanto do Naturalismo.
Até que ponto estas preocupações plásticas poderiam dialogar com empreendimentos da
teoria historiográfica?
Nas artes visuais, o Cubismo poderia oferecer importantes indicativas neste sentido. Seu
objetivo principal era fazer comportar na tela plana o redor do objeto representado. Não
significa, portanto, valer-se de pontos de fuga ou panoramas – intentava, ao contrário,
subtrair a primazia de quaisquer dos ângulos de observação. Ou seja, sintetizar no suporte
a pluralidade de distorções perspectivas. John Berger resume esta intenção como a almejar
“ter a totalidade das vistas possíveis, extraídas de pontos ao redor do objeto (ou pessoa)
sendo retratado”.13
Nesta superposição de distorções, o objeto é idealizado para além de sua experiência
concreta. A espacialidade (exatamente por se tratar da pluralidade de ângulos) é subvertida;
e, desta forma, beira certa abstração.
Aprofunda-se na reinvenção da perspectiva arriscada por Cézanne (pretendendo conferir
maior densidade, volume e composição aos objetos). Das intervenções pontuais deste
pintor pós-impressionista, Pablo Picasso e Georges Braque fizeram um ponto central da
métrica. Culminariam na decomposição do representado para sua remontagem pelo pincel
do artista. Posteriormente, artistas como Juan Gris oferecem outros usos (em especial da
escala cromática), mas seguindo o mesmo intento: fazer compor no suporte artístico a
experiência do volume.
É preciso destacar o caráter espacial desta apropriação do objeto. Afinal, sua vertente
visual privilegia a multiplicidade de ângulos e posicionamentos diante do representado.
Uma outra apropriação, literária, aproximaria esta postura de interesses mais pertinentes
à historiografia: ao invés do espaço, o tempo.
Quando da escrita do poema Le larron, Guillaume Apollinaire – posteriormente vinculado
à estética cubista na literatura – tece “uma grande ‘colcha de retalhos’ mítica, um monstro
15 Idem. Ibidem.
16 Idem. Ibidem.
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de raízes híbridas”.14 Orfeu, Afrodite, Prometeu: tais personagens, uma vez sobrepostos,
conforme analisado por Silvana Amorim, configurariam algo novo, inesperado às
referências originais utilizadas. Neste sentido, a autora destaca dois recursos utilizados
pelo poeta.
Em primeiro lugar, a “montagem”. Sobre ela, diz
que - ao contrário da colagem, relacionada com as artes visuais, com as relações
espaciais - diria respeito às relações temporais, às artes verbais e ressaltaria a
continuidade. Apollinaire, no caso, faz montagem de versos que se repetem no
interior de vários poemas, e toda essa matéria torna-se, então, poesia nova.15
Ao replicar menções, compõe um grande quadro de referências. Valendo-se de uma
multifacetação, explora de modo temporal o que nas artes plásticas era abordado no
espaço. Em outras palavras, cada qual dos poemas seria uma face da mesma composição
– transversalizados por versos específicos, estes “ângulos” (ainda que não espaciais)
arquitetariam um contexto. Eximindo-se de qualquer linearidade, seu discurso é imbricado
em si mesmo. E, desta forma, tenta vencer hierarquizações supostas pela cadência de um
início conduzindo ao fim de alguma trama; procura uma representação tridimensional a
despeito das limitações do suporte do qual se utiliza.
Um segundo recuso, a “intervenção dos valores simbólicos”. Seria perceptível ao se
apropriar de significações fundindo-as e a elas agregando diferentes sentidos em um
contexto outro – “modifica sobretudo os valores dos símbolos, dos mitos, das citações de
outros autores e suas próprias, dando-lhes nova roupagem”.16 Quer seja sobre Afrodite,
Prometeu ou os outros nomes dos quais se vale, desloca sentidos originais. Em sua
composição, cada qual destas menções são remontadas. Enfim, pendula temporalmente
entre seu texto e suas referências. Desta oscilação, erige novos contextos. Seu ir-e-vir,
portanto, suspende qualquer pretensão realista: baseia-se na sobreposição (remontando à
quase abstração do Cubismo plástico).
Na análise de Silvana Amorim, estas formas – a “montagem” e a “intervenção” –
significariam dois modos de abordagem daquilo proposto pelos versos de Apollinaire.
Esta, porquanto modo de intertextualidade reconfigurando suas referências segundo uma
“nova roupagem”, complementaria aquela, orientando a composição do próprio texto.
Aqui, a atenção à montagem empreendida pelo poeta – as referências internas aos versos
de seu poema. Dela poderia ser percebida uma alternativa mais clara ao paradigma
realista. Entretanto, este artifício apenas toma densidade a partir do outro, a intervenção
nos sentidos de outros textos, citados e fragmentados em toda sua poesia.
A constelação de peças desse mosaico a ser recomposto, conforme indicado por Silvana
Amorim, reposicionadas por meio da “intervenção de valores simbólicos”, abririam a
tantas outras referências. Em outras palavras, a poesia de Apollinaire não se esgota em si
mesma: depende de toda uma sorte de outros textos que sistematicamente reinventa.
17 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 3ª ed. Rio de Janeiro: NAU editora, 2005. p.
18.
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A utilização historiográfica desta modulação narrativa deveria ser crivada por uma outra
sorte de reflexões. O conhecimento empreendido por Apollinaire é marcado pela violência
– afinal, subverte sentidos originais de suas referências. Há uma aproximação plausível
à abordagem de Nietzsche tal como referida por Foucault: “o conhecimento só pode ser
uma violação das coisas a conhecer e não percepção, reconhecimento, identificação delas
ou com elas”.17
No trato historiográfico, a intervenção parece já ser bem abordada. Seria semelhante
à preocupação disseminada sobre o uso documental (no caso do historiador, os textos
alheios dos quais se serve e que, para Apollinaire, seriam as citações de Afrodite,
Prometeu, Orfeu). É a intertextualidade que define o próprio fazer – o cuidado com os
relatos e a assunção da postura ativa do historiador quando frente a eles. Afinal, não
apenas transcreve as linhas dos arquivos, mas confere-lhes cadeias, explicações – cruza
relatos, supõe sentidos. Ou melhor, aqui remetendo novamente ao conhecimento tal como
entendido por Foucault, violenta-os simbolicamente – bem como percebido por Silvana
Amorim sobre o poeta francês que se propõe a analisar.
É bem verdade que algumas nuances próprias à historiografia poderiam distanciar estes
dois usos (pelo historiador e pelo literato). Mas para tanto seria preciso enveredar em
um espaço entre a tal “fase documental” e a “explicação/compreensão” das quais nos
fala Ricoeur. E, no final das contas, este não é o propósito destas linhas – interessa-nos
a derradeira etapa, a escrita ou a “representação historiadora”. Aqui, faz-se necessário
repensar a montagem, as relações que o texto de Apollinaire trava consigo mesmo.
Se, como tratado anteriormente, é possível criticar um horizonte unívoco da realidade
histórica, pode-se tentar nesta corrente literária uma saída para a narrativa.
Exatamente por não se sujeitar a uma linearidade temporal, os poemas de Apollinaire
almejam uma fragmentação. O tempo é, neles, multifacetado pelas tantas referências
cruzadas em distintos versos. Da sutileza da linguagem empregada, estes cacos são passíveis
de serem reunidos em um todo semelhante às pinturas cubistas – suas formas, para além
da mera deformação, tentam sintetizar a pluralidade. E denunciam a impossibilidade de
redução da experiência a um único e coeso plano (ou, como historiograficamente referido,
modelo explicativo).
Trato da possibilidade de repensar a consideração do tempo na escrita da história.
Partindo-o, seria possível trazer à estética do texto discussões teórico-metodológicas já
há muito trabalhadas.
***
18 LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2006. p. 262.
19 LEVI, Giovanni. A herança imaterial: a trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII.
Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
p. 45.
20 Idem. Ibidem.
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Ao partir de certas inquietações próprias à análise micro-histórica, caberia refletir sobre
um destes trabalhos. Nele, salientar os modelos da narrativa e repensar o âmbito de sua
organização pela escrita.
Henrique Espada Lima, sobre os rumos traçados por Giovanni Levi diante do foco estreito
que propõe, chama ao debate a importância de se reconhecer a manipulação das relações
sociais tal como empreendida pelos sujeitos. Para tanto, o reconhecimento de estratégias
seria fundamental: não enquanto plenamente livre ou cioso das regras em questão, mas sim
executadas por “um ator que deveria agir dentro de uma sociedade (qualquer sociedade)
na qual os recursos materiais, culturais e cognitivos disponíveis eram distribuídos de
modo desigual”.18
Estas premissas seriam mais notoriamente testadas em um trabalho específico de Levi,
A Herança Imaterial. Nele, o historiador italiano busca uma “racionalidade específica
do mundo camponês”19 a ser vislumbrada em uma constelação de atitudes e formulações
sociais distintas. Para tanto, foca-se em um “minúsculo fragmento do Piemonte do século
XVII”, Santena. Complementa o autor:
esta racionalidade pode ser mais bem descrita se admitirmos que ela se
expressava não só através de uma resistência à nova sociedade que se expandia,
mas fosse também empregada na obra de transformação e utilização do mundo
social e natural. É neste sentido que usei a palavra estratégia.20
Por ora, o destaque de uma das premissas do historiador: as transformações macroscópicas
do tempo analisado. Os habitantes de Santena, logo analisados sob a estreita escala de sua
pesquisa, estariam imersos em um conjunto mais amplo de forças. De alguma forma,
propõe tratar da recepção destas mudanças – as estratégias campesinas diante de um
mundo que se reconfigura.
Para tanto, a narrativa pretendida por Levi torna-se sinuosa. Partindo da trajetória de
um exorcista, Giovan Battista Chiesa, segue no encalço dos motivos de seu sucesso.
Questiona-se sobre os motivos de tantos campesinos recorrerem à sua autoridade (e,
portanto, legitimá-la). Trazido à Inquisição para prestar esclarecimentos sobre suas
práticas, logo desaparece do registros. Ao deparar-se, em meio à documentação analisada,
com uma extensa listagem de exorcizados – nome, acometimento, lugar de origem –,
Giovanni Levi abre à narrativa outros caminhos.
Do trabalho que se suporia uma biografia do prático religioso, despontam tantas trajetórias
21 Idem. p. 254
22 Idem. p. 78.
23 Idem. p. 66.
24 REVEL, Jacques. “Prefácio” In: LEVI, Giovanni. A herança imaterial. Trajetória de um exorcista no Piemonte do
século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p. 27.
25 Idem. p. 28.
26 LIMA, Henrique Espada Lima. Op.cit. p. 262.
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pessoais (fazendo-se transversalizar a listagem de exorcizados a documentações de
outras naturezas) que, breve, cruzariam com o exorcista. Uma gama de estratégias
sociais possíveis, reiteradamente frustrada pela desventura, vem cotidianamente à tona.
O trato com a terra, concepções familiares para além dos laços meramente sanguíneos
– tantas são as estratégias sociais possíveis frente à incerteza. Irredutíveis a um modelo
homogeneizante, são tomadas pelo historiador como frutos de opções e manipulações das
possibilidades entrevistas em meio às dificuldades.
Em outras palavras, Giovanni Levi não se furta em reconhecer entre as fontes a ausência
de uma homotesia de estratégias. Estas são arquitetadas segundo recursos sociais
heterogeneamente dispersos.
Assim, o crivo do exorcista Giovan Battista Chiesa representaria uma outra alternativa
dentro deste quadro de possíveis. O recorrer aos exorcismos, segundo Levi, teria maior
sucesso primeiramente entre “os pobres e desesperados” pois estes “tinham mais
necessidade de justificar o porquê de suas desgraças”.21 Diante de males que transcendiam
a esfera local, Levi encontra a força do discurso de Giovan Battista:
o que Chiesa propunha era uma simplificação dentro dessa atmosfera que
aumentava a angústia diante de males que se desenvolviam pelos campos
e cujas causas eram novas e desconhecidas, pelo menos em sua extensão.
Passava-se, assim, de um modelo pluricausal a um nexo monocausal.22
Assim, estes tormentos “pela violência, pelo reumatismo, pela loucura, pela paralisia
e pela perda da audição e da visão”, relacionados a quadros mais amplos das
relações nas quais se insere Santena, são tomados pela tonalidade mais simples de
“uma guerra local contra o demônio”23 segundo suposto pelo exorcista.
Para Revel, esta parece ser a principal tonalidade da pesquisa de Levi:
estes homens são obcecados por ameaças individuais e coletivas que pesam sobre
eles: a incerteza das colheitas, a fragilidade da vida, a relação, constantemente
questionada, do grupo familiar com as exigências e as possibilidades de
exploração, a relação com o mundo exterior. Eles respondem a seu modo, que
é a matéria deste livro.24
É, enfim, colocar em pauta os modos possíveis pelos quais a comunidade “responde aos
acidentes da história”.25
É suposta, portanto, uma incerteza a partir da qual seriam desenhadas tais estratégias;
o descortinar da pesquisa privilegiaria, posto que baseada em modulações locais, as
segundas – seus modos e possibilidades.
27
28
29
30
Idem. p. 265.
RICOEUR, Paul. Op.cit. p. 226.
Idem. p. 229.
Idem. p. 237.
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A limitação destas posturas estratégicas, para Levi, seria de natureza social. Conforme
notado por Espada Lima, dar-se-ia “a partir dos recursos limitados que o seu lugar na
trama social lhe confere, em contextos nos quais a sua ação depende da interação com as
ações alheias”.26
Ao papel da explicação de mundo engendrada do discurso do exorcista estudado por
Giovanni Levi, Espada Lima chama de “organização cognitiva”.27 De toda forma, e
acompanhando o proposto pelo pesquisador italiano, enquadra a crise diante da qual
estavam os camponeses de Santena em quadros mais amplos àqueles construídos pelos
exorcizados: seria, afinal, um Piemonte “varrido pela guerra e pela fome da qual era em
grande parte consequência”.
Em outras palavras, supõe aprioristicamente um “modelo pluricausal” acerca destes
infortúnios. Dele, o “nexo monocausal” proposto pelo exorcista (a batalha contra o
demônio) seria apenas desvio.
Parece haver, segundo estas constatações, alguma indefinição nas estratégias tal
como entendidas por Levi. Ao mesmo passo que as situa em relação à instabilidade e
transformação política de um modelo político (e macroscópico) em crise, abre caminho
para um outro contexto representado pela cosmologia tal como entendida por Battista
Chiesa.
A unilateralidade da incerteza à estratégia, assim, seria desafiada pela possibilidade de
um caminho inverso.
Ao supor uma tonalidade monocausal aos males daqueles que o procuravam, o exorcista
termina por transformar a incerteza diante da qual estavam prostrados – e, portanto,
refiguram-se também as estratégias a serem consideradas. Ou seja, recorrer a Chiesa seria
estrategicamente transformar o contexto e, assim, reavivar as possibilidades de ação ao
abrir toda uma nova gama de possíveis.
Assim como em relação às estratégias, haveria, portanto, uma série de incertezas possíveis.
A construção destes infortúnios seria em si mesmo variável: como também submetidos ao
trato estratégico, são moldados topograficamente a partir dos contextos discursivos aos
quais se apela.
Paul Ricoeur parece incidentalmente abrir tal questionamento ao tratar do trabalho de
Giovanni Levi. Em uma breve frase, aparentemente composta mais por uma inquietação
do que por uma diretriz de análise, comenta: “será uma questão legítima saber se as
condutas postas sob o signo da estratégia tem por finalidade secreta ou confessa reduzir a
incerteza ou simplesmente compor com ela”.28
Nesse sentido, considerar a pluralidade de compreensões do infortúnio – e, portanto,
irredutíveis a um único modelo homotético – seria seguir pelo entendimento da noção
de representação como proposta por Ricoeur; por incluir o sujeito como seu animador,
“vai revelar recursos dialéticos que a ideia de mentalidade não deixava aparecer”.29 É
levando a cabo esta premissa que, posteriormente – e retomando a temática do receio –,
reformula que “as estratégias visando a reduzir a incerteza atestam de forma eloquente
que a incerteza não deve tornar-se, por sua vez, uma categoria não-dialética”.30
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Não apenas a estratégia seria maleável pelos sujeitos (e, assim, submetida ao tal quadro de
possíveis evidenciado por Levi), mas também o medo ao qual se refere enquanto solução;
no caso específico do exorcista de Santena, na impossibilidade de satisfatoriamente
exercer-se a primeira, transforma-se a segunda. O temor, enfim, não considerado como
unívoco.
A organização do livro de Levi, contudo, guia para uma apreensão diferente. Toma
como pressuposto uma realidade a priori e independente às fontes que analisa – quer
seja, a instabilidade macropolítica da região do Piemonte, suas guerras e disputas. Deste
contexto, inicia seu estudo.
Colocando nos termos aqui propostos, supõe um ponto de fuga, um horizonte ao qual toda
a perspectiva de suas linhas deve convergir. Subtrai a pluralidade a favor de um único
ângulo de observação.
Divido em três partes, seu livro, é bem verdade, avança e recua temporalmente. Começando
pela trajetória do exorcista Giovan Batista Chiesa, em seguida retrocede ao encalço das
vivências daqueles que em breve o procurariam. Ao final, atinge a biografia do pai de
Chiesa, um antigo e prestigiado negociador da comunidade – e dele supõe um prestígio
simbólico do qual o exorcista seria herdeiro.
De toda forma, deste recurso que aparenta ser uma investida contra a linearidade, resta a
reafirmação de uma cadência homogênea do tempo. Apenas inverte as relações entre os
eventos: parte de acontecimentos posteriores para gradualmente recuar. Sem dúvida, torna
instigante a leitura que, pouco a pouco, é apresentada a novos elementos; mas reitera a
homogenia de um contexto.
Preso a algumas reminiscências típicas de um Realismo literário, é impelido a certas
conclusões.
Do Cubismo tal como ora explorado, uma alternativa seria possível. Ao invés de organizar
a documentação em uma única trama historiográfica, enveredar-se por um mosaico de
arquiteturas. Desta forma, tomar cada qual das fontes (e consequentes composições que
31 KRAMER, Lloyd S. Op.cit. p. 138.
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supõem) como um ângulo possível do objeto examinado.
Em outras palavras, recontar a mesma história segundo diferentes versões. Ao invés de
vitimá-las a uma única trama, compor uma rapsódia na qual a pluralidade seja explorada.
Entre as tantas faces, a ausência de uma hierarquia (ou pontos de fuga) entre as fontes.
Cada qual das documentações analisada em seu volume próprio. Erguendo contextos
específicos e temporalidades singulares.
Interligando estas histórias aparentemente distintas, alguns elementos em comum. Tal
como realizado por Apollinaire, nomes que tornem possível a transversalidade da leitura.
Enfim, uma montagem que consiga abarcar narrativamente a tridimensionalidade das
apreensões de mundo.
Em especial sobre o trabalho de Giovanni Levi, tal empreitada tornaria possível focar não
apenas a pluralidade de estratégias, mas também de incertezas – estas encaradas como
formas de explicação do infortúnio. Entre elas, a interpretação monocausal do exorcista.
Um recurso narrativo, enfim, que abarcaria uma das preocupações teóricas mais salientadas
por Jacques Revel sobre a micro-história: a miríade plural de contextos perceptível ao
estreitar-se a escala de análise.
***
Segundo o ora proposto, a heterogeneidade já explorada em reflexões de cunho teórico
deveria ser acompanhada de novos usos da escrita.
Implica em um duplo movimento: de um lado, o reconhecimento da pluralidade de
contextos examináveis sobre o mesmo fato – mas em diferentes fontes; por outro, uma
possibilidade narrativa que contemple estas divergências contextuais sem reduzi-las a
uma linearidade.
A ordenação da realidade das fontes em um discurso, entretanto, não deve necessariamente
ser conduzida segundo a pressuposição de determinado modelo literário. Este, caso
tomado como escolha consciente, poderia fortalecer a impressão intentada pela pesquisa.
Por essa razão, o que ora indico é uma proposta.
Do diálogo mais intenso com a crítica literária, a historiografia poderia refletir sobre
sua própria escrita. Ao deixar de lado pressuposições sobre a narrativa, esta poderia ser
integrada de modo mais cônscio às bases teóricas.
Ao historiador, neste ponto de seu fazer entendendo-se como narrador, abrir-se-ia uma
gama de posturas possíveis diante do objeto.
Para tanto, contudo, faz-se urgente repensar paradigmas próprios à disciplina historiográfica.
Aceitar, portanto, a “ênfase sobre as contestações que desafiam tanto a aparente unidade
do passado quanto a ordem aparente das narrativas históricas que o descrevem”.31
Ou seja, transpor a ambiguidade à própria pena do historiador – e dela fazer o mote não
apenas de seu estudo, mas também de sua escrita.
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Referências
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