BELO MONTE: O ANTAGONISMO DO PROGRESSO Alexandra Martins Silva Centro de Estudos Sociais Universidade de Coimbra, Portugal [email protected] Introdução O presente artigo constitui-se em uma síntese do projeto de doutorado, iniciado em Outubro de 2009 e pretende a partir de uma abordagem histórica analisar um dos projetos hídricos mais controversos do Brasil, a barragem de Belo Monte. A escolha deste tema surgiu como consequência de um debate constante sobre os limites e as possibilidades de transformação física do espaço, através da construção de megaprojetos. Estas grandes obras, geralmente de caráter infra-estrutural, destacam-se por seus elevados investimentos nacionais, mas muitas vezes internacionais, e por custos ambientais e sociais incomensuráveis. Apresentam também, objetivos ambiciosos e uma crença irrestrita na tecnologia e na dominação da natureza, configurando-se muitas vezes como inquestionáveis do ponto de vista técnico. Nosso objetivo será refletir a partir da narrativa dos grandes projetos hidrelétricos, buscando compreender como empreendimentos desta magnitude, edificados em nome do “interesse nacional” e pensados para “um bem comum”, puderam causar tanta conflitualidade. A história das três maiores hidrelétricas do mundo – Itaipu (Brasil/Paraguai), Três Gargantas (China) e futuramente Belo Monte (Brasil) – constitui um exemplo claro de que a energia custou e custará um preço elevado a ser pago pelo meio ambiente e pelas populações que vivem (ou viviam) nos territórios afetados. Nesta perspectiva, será que a água que gera energia é apenas um recurso hídrico? Como podemos pensar na sustentabilidade de populações indígenas, camponesas, quilombolas, ribeirinhas sem este “recurso”? De fato, o estudo sobre a implementação de grandes empreendimentos, nos coloca um desafio que ultrapassa o entendimento destes enquanto obras de engenharia em si, suscitando indagações provenientes do campo econômico, político, ambiental e 1 social. Esta análise, torna-se necessária na medida que em muitos casos, os interesses e os conflitos gerados, sobrepuseram-se aos benefícios anunciados, acarretando graves problemas ao meio ambiente e aos grupos sociais afetados. Desse modo, estabelecendo como foco de análise o caso de Belo Monte, procuraremos analisar, ao longo de mais de três décadas, a relação conflituosa que se configurou entre decisão pública, populações, cultura e meio ambiente. Nossa intenção não corresponderá em apresentar um estudo pormenorizado da história de Belo Monte, mas expor algumas questões que consideramos imprescindíveis para o entendimento de uma temática, que tendo ramificações no passado, nos coloca sobretudo indagações relativas ao futuro. Partindo deste objetivo, buscamos na primeira parte do artigo, destacar o papel das grandes barragens e do modelo de produção de energia hídrica nos dias atuais, assim como analisar o protagonismo do caso de Belo Monte e suas consequentes transformações ao logo de décadas de conflitos. Na segunda parte, destacamos os distintos “usos” e “saberes” da água enquanto um recurso natural essencial para a nossa sobrevivência e as articulações e resistências em torno deste “recurso”, com particular ênfase nos grupos sociais envolvidos nesta disputa, as formas de ação coletiva engendradas e as próprias narrativas da controvérsia. Os procedimentos de pesquisa utilizados incluem: 1) análise da literatura científica relativa à sociologia da ciência e da tecnologia, sociologia do desenvolvimento, globalização, movimentos sociais e ação coletiva; 2) análise documental de materiais produzidos pelo governo, empresas de energia elétrica e movimentos sociais; 3) e futuramente a realização de entrevistas semi-estruturadas na região de Altamira, no Pará, buscando compreender mais profundamente o processo de participação pública durante o Licenciamento de Belo Monte, assim como os aspectos sociais, políticos, jurídicos e culturais relacionados as decisões públicas envolvidas no caso em estudo. O Papel das Barragens De acordo com as estimativas da Comissão Internacional de Grandes Barragens (ICOLD), na atualidade, os rios do mundo estão obstruídos por mais de quarenta mil 2 grandes barragens1, das quais apenas cinco mil foram construídas antes de 1950 (McCully, 2004:30). Estas grandes obras são definidas como estruturas construídas para represar água, podendo fechar um vale transversalmente, ou ter a finalidade de desviar um curso de água. Podem também apresentar múltiplas finalidades como: controle de cheias; mineração; correção torrencial; conservação da água; irrigação; abastecimento humano ou animal; piscicultura; recuperação de terras inundadas; navegação; turismo e lazer; e geração de energia hidrelétrica. Estes projetos tiveram o seu apogeu durante os anos sessenta e setenta, tendo declinado no final da década de oitenta, devido a uma crescente conscientização ambiental e uma maior pressão da sociedade civil relativamente aos seus impactos. Contudo, apesar do decréscimo no número de construções pelo mundo e da existência de uma literatura sociológica crítica face a estas grandes obras, temos ainda assistido a um aumento deste setor, principalmente na Ásia e na América Latina. O Brasil é o maior construtor de barragens da América Latina. As hidrelétricas representam um dos setores mais importantes da matriz energética, responsável por noventa e três por cento de toda energia consumida no país. Esta importância pode ser demonstrada através do número de barragens existentes (mais de duas mil), mas principalmente pelos projetos hídricos que continuam a ser elaborados e que serão edificados no futuro. O Plano Decenal de expansão de energia 2008-2017, indica a intenção de construção de mais vinte e oito barragens, sendo que quinze seriam instaladas na bacia Amazônica. A situação na Europa é bastante distinta, visto este continente já possuir muitos equipamentos hidráulicos e hidroelétricos. Bento destaca que os rios europeus estão amplamente administrados por barragens e represas, subsistindo poucos lugares propensos à sua implementação (Bento, 2011). No total, podemos contabilizar cerca de sete mil barragens no continente europeu, no qual a Espanha se destaca como o país com o maior número de obras, totalizando mil e duzentas empreendimentos. Esta opção energética também vem sendo motivo de descontentamento nestes países, e o caso espanhol também apresenta visibilidade, não só pelo número de barragens existentes em seu território, mas também pela mobilização de grupos sociais afetados comprometidos 1 Uma “Grande Barragem”, como usualmente define a ICOLD, deve ter altura de 15 metros ou 10 a 15 metros e armazenar mais de três milhões de metros cúbicos de água no reservatório (ICOLD). 3 com uma mudança na política de águas espanhola2. Quanto às suas diversas finalidades, como tivemos oportunidade de observar, os discursos dividem-se entre argumentações favoráveis e desfavoráveis à construção destas grandes obras. As discussões estão frequentemente associadas, em seu lado negativo, aos deslocamentos compulsórios, à degradação ambiental e ao desrespeito pelo próximo e pela natureza. Mas também, em seu lado positivo, à geração de energia e ao incentivo ao desenvolvimento regional/nacional. Configura-se assim um campo complexo de disputas, na medida em que compreende, entre vários aspectos, a participação de um número significativo de grupos sociais com objetivos e interesses diferenciados. Para o autor Oswaldo Sevá, a construção de barragens se constitui, em todo o mundo, num campo de disputas por terrenos e posições geográficas, e resultam em reordenamentos fundiários e agrícolas das regiões onde são implantadas. Acrescenta que, dada a sua dimensão técnica, econômica e territorial, tornam-se fatores de desorganização social e econômica, ao qual se segue uma re-organização das populações que aí residiam, e a entrada de novas atividades que se estabelecem no seu entorno (Sevá, 2008:11). De fato, podemos constatar que esta desestruturação advém da incompatibilidade existente entre a defesa de modos de vida e de relações econômicoculturais com o espaço ambiental, e a produção de energia através do barramento dos rios. No modelo de produção hídrica, a água é considerada como um recurso renovável e a produção de energia hidrelétrica é vista como mais ecológica do que qualquer outro sistema convencional de energia. No entanto, pesquisas recentes revelam que embora a energia de fonte hídrica seja tida como uma energia limpa e barata, esta causou e ainda causa um enorme custo sócio-ambiental, tornando os efeitos desta degradação devastadores e muitas vezes irreversíveis. Nos dias atuais a hidreletricidade significa vinte por cento de toda a energia produzida no mundo e para muitos ambientalistas a sua implementação caracterizou-se por uma lógica atroz que desrespeitou a utilização sustentável dos espaços, bem como as dinâmicas sócioculturais das comunidades tradicionais. 2 Como exemplo: “Coordinadora de Afectados por Grandes Embalses y Transvases” e “Amigos de la Terra España”. 4 McCully considera que esta forma de produção energética já desalojou entre trinta a sessenta milhões de pessoas em todo o mundo. Para o autor, as grandes barragens são muito mais do que máquinas que geram eletricidade e armazenam água. São expressões de cimento, rocha e terra da ideologia dominante na era tecnológica, ícones do desenvolvimento econômico e do progresso científico (McCully, 2004:03). Como vimos, historicamente, estes projetos foram edificados e representados como ícones de progresso e símbolos de modernidade em quase todos os países do mundo. Contudo, nos países em desenvolvimento, estes projetos tiveram repercussões ainda maiores, já que a edificação de barragens passou a ser associada com a construção da própria nação. Países como a Índia, Brasil e China, constituem exemplos de como estes projetos têm se revelado insustentáveis, do ponto de vista social e ambiental. O reconhecimento destas questões revelou claramente o processo de exclusão que a construção destes projetos provocou, na qual os mais afetados foram as populações indígenas, ribeirinhas, camponesas, quilombolas, entre outras. A importância da mitigação destes impactos nos últimos anos tem gerado conflitos que emergem da necessidade urgente do reconhecimento de que os rios, a fauna e a flora, possuem ligações profundas com a cultura e as tradições destes povos (Shiva, 1993). Nesse sentido, buscando uma análise que possa examinar toda esta complexidade a partir de um caso concreto, seria nosso propósito analisar a relação entre as transformações no meio ambiente, mas principalmente a resistência construída a partir da forte oposição dos movimentos populares, particularmente, de camponeses, indígenas, entre outros, cujas terras dos seus antepassados e modos de vida poderão ser inundados e submersos para sempre. Belo Monte: O antagonismo entre o meio ambiente e o desenvolvimento Nos últimos anos, temos observado no Brasil a retomada de iniciativas políticas voltadas para a viabilidade de megaprojetos, evidenciadas através de uma visão desenvolvimentista e pela crescente flexibilização da legislação ambiental. As consequências destas políticas têm elucidado o grande dissenso que vivemos hoje em dia, marcado de um lado, por uma preocupação global com a preservação da natureza e 5 de outro, pelo incremento/continuidade de políticas predatórias do ponto de vista ambiental, social e cultural. O caso que iremos analisar, traduz de forma exemplar este dissenso e infelizmente, para nós, caracteriza-se como uma “tragédia anunciada”, visto que a barragem se encontra neste momento em fase inicial de implementação. Belo Monte será a terceira maior barragem do mundo. Ao longo de mais de duas décadas, os consecutivos governantes brasileiros (ditatoriais, neoliberais e democráticos) tentaram sem sucesso empreender a construção da barragem. Este projeto acabou se transformando numa “controvérsia intemporal”, na medida em que as sucessivas Licenças Ambientais chumbadas pelos órgãos ambientais, impossibilitando a construção da obra, nunca colocaram um ponto final sobre o interesse por parte do governo em construir a barragem. Assim, levando em conta a complexidade que este caso envolve, Belo Monte poderia ser descrito a partir de variadas narrativas, que vão desde aspectos sociais, ambientais, econômicos, e políticos. Entre todas que nós poderíamos escolher, optamos pela narrativa histórica, buscado analisar os momentos em que os debates se intensificaram e na (ir)reversibilidade de uma decisão que se prolongou por décadas. O interesse inicial pela construção de barragens no rio Xingu surge na década de setenta e a partir deste período este projeto ganha visibilidade pública, transformando-se num símbolo de desenvolvimento do país, mas também de luta por parte das populações indígenas futuramente atingidas pelo projeto. De fato, podemos considerar a história da resistência à construção de Belo Monte tão antiga quanto a própria história deste projeto hídrico, já que ao longo de todos estes anos, esta oposição foi sendo edificada em relação aos futuros impactos que este projeto poderia acarretar. O Pará, região Norte do estado brasileiro, foi o estado escolhido para acolher o empreendimento. Esta região possui a maior parte do potencial hidroelétrico do país, contendo os maiores recursos hídricos do planeta, seguida pela Rússia e Canadá. O estado localiza-se na Amazônia Legal, uma área que engloba nove estados pertencentes à Bacia Amazônica, perfazendo uma superfície que corresponde a cerca de setenta por cento do território brasileiro. O Rio em questão é o Rio Xingu, conhecido por abrigar o Parque Indígena do Xingu, o primeiro parque indígena do Brasil3. Este Rio possui uma 3 Neste Parque vivem aproximadamente mais de cinco mil índios de quatorze etnias diferentes, pertencentes às quatro grandes famílias linguísticas indígenas do Brasil (Caribe, Aruaque, Macro-tupi e 6 biodiversidade única e sozinho contém mais espécies do que quase todos os rios da Europa juntos. Possui uma importância vital não apenas do ponto de vista de sua riqueza natural, mas principalmente por servir de alimento, de renda e de transporte para milhares de comunidades indígenas e ribeirinhas que vivem na região. A controvérsia inicia-se em 1975, com o início dos estudos do inventário hidrelétrico da Bacia do rio Xingu, no período de ditadura militar. O relatório final referente a estes estudos foi emitido em 1980 e a sua aprovação ocorreu em 1988. Este projeto, inicialmente chamado de Complexo Hidrelétrico do Xingu, incluía as hidrelétricas de Babaquara e Kararaô, e tinha como previsão uma capacidade instalada de 20.000 megawatts (Mw), e 18.000 quilômetros quadrados (km²) de área inundada. A incerteza quanto aos riscos sociais e ambientais acabou por provocar intensos protestos entre os povos indígenas, levando à organização, em 1989, do Primeiro Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, e consequentemente ao cancelamento do projeto original de construção do complexo de barragens. Este Encontro teve como objetivo protestar contra as decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios e acabou ganhando inesperada notoriedade, contando com a presença de três mil pessoas, da mídia nacional e estrangeira, além de movimentos ambientalistas e de movimentos sociais. O evento foi encerrado com um anúncio por parte da empresa responsável pelo empreendimento, de que, por significar uma agressão cultural aos índios, a usina batizada pela empresa de Kararaô (denominação utilizada pelos indígenas Kaiapó para grito de guerra) receberia um novo nome (Belo Monte) e nunca mais seriam utilizados nomes indígenas para representar usinas hidroelétricas. No início da década de noventa, o relatório final de estudos de viabilidade do aproveitamento de Belo Monte é enviado ao Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE), solicitando a sua aprovação e outorga de concessão. Esta decisão, contrastava com o sentimento de completa recusa entre as populações locais e Organizações Não Governamentais (ONGs) ambientais que desde 1989 lutavam pelo adiamento da obra. Poucos anos depois, é divulgado um novo projeto, apresentando alterações ao projeto original de Belo Monte, trazendo como benefícios a redução na área do reservatório (de 1.225 km² para 400 km²) e evitando a inundação da Área Macro-jê). De acordo com a Unesco, esta região representa o mais belo mosaico linguístico puro do país. 7 Indígena Paquiçamba. Em 2000, o Plano Plurianual de 2002-2003 contempla Belo Monte e considera esta como uma obra estratégica para elevar a oferta de energia do país. Um ano depois o Ministério Público move uma ação civil pedindo a suspensão dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA), considerados questionáveis do ponto de vista científico e técnico. Neste mesmo ano, o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu (MDTX) reúne 113 organizações sociais e elaboram o documento intitulado “SOS Xingu: Um chamado ao bom senso sobre o represamento dos rios na Amazônia”. Como vimos anteriormente, após a decisão de suspensão dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA), o governo brasileiro não desistiu da construção de Belo Monte, e, em 2003, a barragem ressurge, com um projeto diferente e novos discursos. Após três anos, o licenciamento da barragem é novamente interrompido, seguindo a incerteza quanto ao futuro da região. Contudo, em 2009, a “guerra” travada entre o Estado, as populações afetadas e o Ministério Público Federal adquire novos contornos, e após vinte anos de disputa, o projeto recebe pela primeira vez, a aprovação de uma de três Licenças Ambientais (Licença Prévia). Esta Licença foi aprovada com “quarenta condicionantes”, que incluem “ações de mitigação dos impactos do empreendimento” e foi permitida a partir das características técnicas, socioeconômicas e ambientais disponibilizadas pelo Estudo de Impacto Ambiental (EIA). O conflito se intensifica e enquanto os diversos grupos sociais ainda discutiam sobre a legitimidade do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) concede a Licença de Instalação Parcial, permitindo o início da implementação das obras. O desejo por parte do governo, em construir Belo Monte estava quase se materializando, quando em 25 de Fevereiro de 2011, a Justiça Federal do Pará suspendeu a Licença Parcial impedindo a continuação das obras. Para o Ministério Público Federal, A Licença não poderia ter sido autorizada pelo (IBAMA) já que as condicionantes impostas pelo próprio Instituto para o início das obras não tinham sido cumpridas. Apesar do esforço do Ministério Público Federal, algumas semanas após a suspensão da Licença, o Tribunal Regional Federal (TRF) autorizou a liberação para a sua continuidade, dando início à construção do canteiro da barragem. Desta forma, podemos perceber a importância do EIA para o processo de 8 licenciamento constituindo-se como uma peça fundamental para aprovação e implementação das três licenças ambientais necessárias para a construção do empreendimento. No entanto, o EIA enquanto estudo técnico, foi posto em causa por grupos sociais que afirmam que este representa na verdade interesses econômicos e políticos. De fato, a fragilidade e as falhas deste Estudo se mostraram evidentes após a realização de uma análise independente. Esta iniciativa, chamada de Painel de Especialistas, correspondeu à realização de uma “Análise Crítica do Estudo de Impacto Ambiental de Belo Monte”, elaborada por um grupo reconhecido, a nível nacional e internacional, de quarenta cientistas. Estes pesquisadores apresentaram ao IBAMA e à população em geral a convicção de que os impactos da barragem de Belo Monte serão maiores do que os levantados pelo EIA e em muitos aspectos irreversíveis e não passíveis de serem compensados. Apesar das críticas apresentadas pelos pesquisadores terem colocado em causa a qualidade e a confiabilidade dos dados apresentados pelo EIA, o governo se negou ao debate e manteve a sua decisão de seguir com o projeto. A partir deste momento, a polêmica de Belo Monte transforma-se de “intemporal” para cada vez mais “atual/real”, provocando mudanças importantes na percepção do papel do Estado, da Legislação ambiental e principalmente na concepção de direitos por parte da população brasileira. Neste aspecto, cabe destacar um conjunto de argumentos que foram sendo construídos por diversos setores sociais, que consideram a inviabilidade da barragem por questões que vão do econômico ao cultural, alegando que a sua construção será um dos maiores equívocos cometidos pelo governo e pelo Setor Elétrico brasileiro. O primeiro argumento, correspondente aos aspectos sociais, destaca que a obra representará a destruição do ecossistema que garante a vida de centenas de comunidades indígenas e tradicionais de uma das maiores reservas do país4. Além dos impactos incomensuráveis nos seus modos de vida e na sua cultura, ocorrerá também uma enorme pressão fundiária, ocupação desordenada do território, proliferação de doenças e diminuição da qualidade da água. A parte urbana será igualmente afetada, provocando o deslocamento compulsório de milhares de pessoas5. 4 Os povos indígenas da bacia do Xingu somam vinte e oito etnias (os Juruna, os Assurini do Xingu, os Araweté, os Parakanã, os Kararaô, os Xikrin do Bacajá, os Arara, os Kuruaia, entre outros). 5 Ao todo doze municípios serão afetados (Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu) e aproximadamente 250 mil 9 O segundo corresponde ao aspecto ambiental, visto que cerca de setenta por cento desta região consiste em áreas protegidas, incluindo unidades de conservação, áreas indígenas e quilombolas. Os efeitos cifram-se na inundação de vastas áreas de floresta e desviará um rio considerado único do ponto de vista da biodiversidade, bem como a emissão de gases de efeito de estufa, impactos biológicos coma a redução dos níveis da água do rio e danos na diversidade aquática, incluindo dezenas de espécies de peixes que só existem nesta região. O terceiro argumento refere-se aos aspectos econômicos da obra, principalmente no que diz respeito ao custo e às suas fontes de financiamento. Estima-se que a barragem custará mais de dez bilhões de reais e o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) do Brasil será o principal financiador da obra, comparticipando oitenta por cento dos custos. Assim a barragem irá custar muito mais do que o valor anteriormente previsto e será financiada com o dinheiro público, ou seja, o projeto mais controverso da história brasileira será pago com o dinheiro de todos os cidadãos. O quarto argumento corresponde à dimensão energética, e a alegação da ineficiência energética, uma vez que a barragem não irá gerar a energia prevista. Segundo os especialistas, durante boa parte do ano (entre seis a oito meses) a maioria das turbinas ficará parada e a sua potência máxima só será atingida por poucos meses. Este fato se relaciona-se com as características do rio Xingu e de quase todos os rios Amazônicos que possuem uma enorme variação do caudal ao longo do ano, diminuindo drasticamente o seu volume nos meses de seca. Para o pesquisador Philip Fearnside, trata-se de uma “mentira institucionalizada”, já que Belo Monte isoladamente será completamente inviável economicamente, pelo que às afirmações oficiais de que só haverá a construção de apenas uma barragem, poderão não corresponder à realidade (Fearnside, 2011). O quinto argumento centra-se nas questões políticas envolvidas, principalmente as irregularidades que foram cometidas durante a condução do processo. Neste aspecto, os argumentos apontam para a insuficiência de consultas públicas, na medida em que a maioria das comunidades não foram consultadas no processo de tomada de decisão, sendo informadas apenas de forma parcial e não tendo por isso oportunidade de escolha. O processo de audiência pública também não foi diferente, pois não respeitou os pessoas serão atingidas 10 requisitos mínimos de participação popular num estado democrático e de direito. Acrescenta-se ainda o não cumprimento das condicionantes referentes à Licença Prévia e à autorização de uma Licença Parcial, uma licença que não estava prevista na lei até então. Estes argumentos foram sendo elaborados, e corroborados a partir das análises do Painel de Especialistas, na medida em que a cada passo do Licenciamento Ambiental, as decisões por parte do governo e dos órgãos ambientais mostravam que as populações afetadas e a legislação ambiental se constituíam num grande obstáculo para a construção do empreendimento. Nesse sentido, nos parece evidente que as ações do governo foram realizadas apenas para justificar uma decisão que já tinha sido tomada anteriormente e se mostrou imutável aos argumentos inegáveis expostos por estes grupos. Contudo, cabe destacar que nosso objetivo não pretendeu em realizar um estudo minucioso de Belo monte, mas sim enfatizar que apesar de uma decisão ter se prolongado por mais de trinta anos, esta foi capaz de mobilizar fortemente as populações locais durante esse período. O embate foi caracterizado por grupos sociais que atuaram em diversos âmbitos - locais, regionais, nacionais e internacionais manifestando a sua oposição face às decisões implementadas pelo IBAMA, reivindicando a sua consequente democratização, e intensificando o debate sobre a participação das populações futuramente afetadas durante todo o processo de licenciamento da barragem. Através desta oposição, estes grupos acabaram por criar espaços privilegiados de debate, permitindo um maior questionamento em relação à (in)evitabilidade da construção de Belo Monte, possibilitando alargar os termos da discussão, buscando promover as energias alternativas ou outras alternativas a construção destes grandes empreendimentos. No caso brasileiro, a luta contra a construção de barragens tem conferido protagonismo a grupos sociais, os quais, ao lutarem contra a expropriação, acabaram por adicionar novos elementos ao tema da energia e ao modelo de desenvolvimento implementado pelo Estado. Considerações Finais: A água e os seus diversos “usos” 11 Neste artigo, tivemos como finalidade apresentar, através de um estudo de caso, algumas reflexões sobre a pesquisa realizada nestes últimos meses, assim como, uma pequena análise histórica dos processos ocorridos ao longo destes últimos trinta anos. Procurou-se evidenciar as consequências do processo de construção de grandes barragens, as quais afetaram grupos sociais historicamente vulnerabilizados. Nesse sentido, a análise de Belo Monte, constitui um exemplo paradigmático de como estes projetos ainda hoje representam um campo de diferenciados conflitos, cujo debate não diz respeito somente à implementação destas obras, mas ao próprio significado e propósito do desenvolvimento e dos caminhos para o promover. A controvérsia de Belo Monte se inicia na década de setenta, mas com aprovação da Licença Prévia por parte do IBAMA em Fevereiro de 2010 estabelece proporções ainda maiores. As formas de ação coletiva engendradas foram as mais diversas possíveis e acompanharam a conjuntura política e econômica pela qual o projeto de Belo Monte atravessou. De fato, após o anúncio da necessidade de construção da barragem por parte do Estado, as populações locais, na grande maioria indígenas, organizam Encontros e debates com o objetivo de protestar contra a construção de barragens na região, mas também discutir sobre o significado da floresta, do rio, da água para as populações indígenas e ribeirinhas. Nesta perspectiva, buscaram o reconhecimento de que a terra não seria considerada apenas como meio de produção, mas sobretudo como um espaço no qual se constrói coletivamente uma nova forma de organização social. Como tivemos oportunidade de observar, parece claro que não podemos caracterizar a energia hidroelétrica enquanto uma energia “limpa e barata”, assim como não podemos considerar o processo que envolveu o Licenciamento de Belo Monte como democrático. A narrativa de Belo Monte nos mostra que estas populações ficaram sempre à margem do processo decisional e vistas muitas vezes como um impedimento para o avanço da obra. Apesar da voz das populações afetadas não ter sido considerada nestes processos de decisão, esta fez-se ouvir através da sua resistência, utilizando como recurso fundamental, o forte sentido de identidade local, alicerçada nas suas comunidades, mas sobretudo no território. Desta forma, o território passa a ser reinventado como espaço de construção de identidades sociais e de novas redes de regulação social. A criação do Movimento Xingu Vivo para Sempre, expressa esta 12 necessidade, o medo do futuro e as incertezas quanto ao presente constituíram o principal estímulo para que este mosaico de identidades articulassem estratégias de resistência contra a construção de barragens na região e a favor de uma maior participação das populações afetadas durante o processo. A maioria destes grupos, lutam pela preservação da natureza, pelo respeito das populações indígenas e dos seus saberes, assim como pela diversidade cultural das populações. Como consequência destas lutas verificamos uma nova articulação ambiental, social e simbólica do conflito, em que o ambiente apropriado para a produção de energia elétrica através das barragens, não é compatível com o ambiente da existência sócio-cultural das populações camponesas, indígenas e ribeirinhas. Para Leff, estes movimentos de resistência são desencadeados por conflitos quanto ao acesso e ao controle de recursos, pela reapropriação social da natureza vinculada a processos de democratização, pela defesa do território, das suas identidades étnicas, da sua autonomia e dos seus estilos de desenvolvimento. São movimentos que definem as condições materiais de produção e os valores culturais das comunidades locais (Leff, 2004:445). A despeito das perdas culturais imensuráveis e dos efeitos simbólicos exercidos pelas barragens na vida destas populações, o que assistimos é uma violação constante dos seus direitos e a intensificação de práticas anti-democráticas, onde os aspectos econômicos têm sido o fator principal destas decisões. A Constituição Federal Brasileira (artigo 231) reconhece os direitos indígenas aos rios, lagos e demais recursos hídricos existentes nos seus territórios uma unidade indissociável entre água e terra, condição necessária para sua existência. Porém, o que o caso de Belo Monte nos apresenta é que na prática estes direitos estão sendo constantemente desrespeitados pelo Estado. A água que gera energia e a água que mantém viva a cultura de um povo, representa diferentes “usos”. O país vive em situação contraditória, na medida em que a energia considerada indispensável para o desenvolvimento do país, não supre as necessidades da população que dela necessita sendo destinada a projetos de mineração, siderurgia e outros tipos de indústrias eletrointensivas altamente poluentes, que são responsáveis por grande parte do consumo energético brasileiro. Infelizmente, não estamos tratando de questões novas, na medida que a história das grandes hidrelétricas na Amazônia, como o é caso das barragens de Tucuruí (1984) 13 e Balbina (1989) nos confirma o seu elevado custo ambiental e social. Estas duas grandes obras foram consideradas verdadeiros desastres em todos os aspectos – técnico, financeiro, social e ecológico. No entanto, o governo nega-se a aprender com os erros cometidos no passado e continua a insistir de forma cada vez mais autoritária que esta decisão está pautada pelo interesse da nação. Nos perguntamos, que nação é essa? Energia para quem, para o povo ou para as empresas eletrointensivas? Parece-nos claro que a concepção central de produção de energia em grandes barragens, ao invés de dinamizar a economia regional/nacional, aumenta as desigualdades sociais e econômicas6. Ao mesmo tempo, as populações atingidas revelam uma posição historicamente desfavorecida, contra a qual têm lutado, pelo direito de não mais serem vistas como simples atores coadjuvantes, mas sim como agentes da sua própria história. Esta história tem sido inscrita na Amazônia e em muitas regiões do Brasil através da resistência destas populações em abandonar as suas terras e todas as relações que sempre mantiveram com rio, ou seja, a sua casa. Referências Bibliográficas ACSELRAD, H (2004), “As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais”, In: Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: RELUME DUMARÁ. ARRIGHI, G (1998), A ilusão do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Editora Vozes. BECKER, B (1994), Amazônia. 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