ASPECfOS ARGUMENTATIVOS NAS NARRATIVAS
DO HOMEM PANTANEIRO
Maria das Dores Capitao Vigario MARCHI
(UFMS)
ABSTRACI': This work/ocuses the narratives o/the low lands man (pantaneiro). These
narratives deals with the presence 0/ deictics that in a language game "assure" the
veracity 0/ a talking and the building 0/ alternative worlds to the real world.
KEY-WORDS: Narrative, deictics, "Pantanal".
Na Universidade Federal de Mato Grosso do SulIUFMS, e desenvolvido um
projeto de pesquisa "Uma anillse de narrativas do homem pantaneiro", que tem como
objetivo primordial visualizar as narrativas do homem pantaneiro com vistas a
preservacao.
Ao analisar 0 corpus - narrativasl colhidas, nas redondezas do Passo da Lontra,
base de estudos da UFMS no Pantanal, atraves de gravacao - foram encontrados dois
tipos de narrativas que sao marcados pela presenca do fictfcio, do imaginario - nada
impede que fatos extraordinarios aconteeam. violando a lei natural. Os dois tipos de
narrativas foram chamados de casos por serem um conjunto de signos inscritos num
universo de sentidos que e parte do cotidiano.
Os casos foram divididos em caso/grande mentira e caso/sobrenatural. Neste
trabalho focalizaremos a narrativo/caso sobrenatural que tem toda uma aparencia de
verdade, mas que, contudo, apresenta invariavelmente elementos do sobrenatural,
recuperando mitos e lendas.
Nas lembrancas dos costumes passados, dos mistenos da mata e do rio, todos os
assuntos vao passando, examinados e lentos e sempre se verifica 0 uso de recursos, pelo
narrador/contador de hist6rias, que marcam a sua participacao no jogo da linguagem.
"A narrativa que prevalece ~ a re~
em que se contam as experiencias pessoais do 'narradorviajante'. vividas em mementos anteriores ao da enunci~o e que podem ser consideradas nie ordinUias e
nie habituais". FERREIRA & MARCHI (1995).
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orientando 0 seu discurso de maneira a que 0 outro 0 aceite - sublinham a veracidade do
seu dizer, isto e, criam urn efeito de verdade que pode ser compartilhado.
Na verdade quem ouve uma narrativa, ouve alguem dizendo algurna coisa de urna
certa maneira, 0 narrador/contador de hist6rias deixa transparecer a cumplicidade em
seu texto e tenta fazer com que 0 ouvinte reconhe~a, na narrativa, uma situa~ao
possivel. Em outras palavras, existe persuasao entre 0 locutor e 0 ouvinte e ela se
verifica atraves da impressao de que, nao s6 a situa~ao relatada e possivel de ser real,
como a de que a situ~ao esta sendo vivida ou revisitada enquanto a narrativa se
desenrola.
Por isso e por saber que e indiscutivel que, faz parte integrante da competencia de
qualquer falante, a capacidade de produzir e reconhecer discursos que retratam mundos
alternativos ao mundo real e que essa comperencia pressupoe 0 dominio de urn conjunto
de conven~oes que permite a particip~ao nurn jogo de linguagem - no caso 0 de
"contar hist6rias", este trabalho tern 0 objetivo de explicar 0 funcionamento de parte de
urn paradigrna formal: 0 dos operadores deiticos, especificamente, os deiticos espaciais,
os rnonstrativos2, 0 imperativo e as exclam~oes, como urn dos recursos argumentativos
que perrnitem 0 acesso, atraves da linguagem, a "mundos possiveis" e que "asseguram"
urn sentimento de verdade, ou de realidade, urna vez que, nas narrativas, esses deiticos
sao urn recurso freqtiente.
Vejamos a presen~a desses deiticos no casolsobrenatural:
Os deiticos, todos os elementos lingOisticos que servempara caracterizar, fazer
referencia a uma situa~ao de locu~ao, rem urn valor especial para a analise das
narrativaslcasos, urna vez que contar urna hist6ria nao e dar nomes a seres e objetos.
Contar e referendar, e estabelecer coordenadas a partir das quais se constr6em
"rnundos", isto e, modelos de configura~aocognitiva.
E como nao M possibilidade de referencia a nao ser em rel~ao a urn sistema de
coordenadas, representadas graficamente, por K. BUhler(1979), como linhas cruzadas
que se originam no ponto zero, colocando nesse ponto os deiticos eu-aqui-agora, a
deixis, pressupondo as coordenadas enunciativas e recriando-as no discurso, e 0
dispositivo gerador da possibilidade de referencia lingOistica, da constru~ao de
"mundos" (no sentido de esquemas configurativos do conhecimento da realidade).
o funcionamento dos deiticos atesta, geralmente, essa obrigat6ria incorpor~ao do
real (da situ~ao real da enunci~ao) que e mais habitualmente designada como
dependenciacontextual da linguagem. Mas uma observ~ao mais atenta revela que esse
funcionamento atesta tambem a possibilidade de transposi~ao "imaginaria" das
coordenadas enunciativas em que se assenta a viabilidade de constru~ao de mundos
alternativos ao mundo real.
E 0 que acontece na narrativa casolsobrenatural, os deiticos espaClatS, os
monstrativos, 0 imperativo e as exclamacoes como que trazem 0 lugar e 0 momento em
que 0 fate sobrenatural acontece para 0 momento em que ele esta sendo contado - eles
presentificam a cena, dando-nos a impressao de sua ocorrencia no exato momento que
esta sendo compartilhado pelos interlocutores, e 0 momento em que a narrativa esta
sendo contada.
Observemos, entao, nos exemplos, mais detalhadamente a presenca dos deiticos no
casolsobrenaturaL
••(...) a agua fervet levanta corixo, vira aquela coisa, voce se apavora (...) eu tava
pescando com urn pescador (...) Ele era muito mais pequeno do que eu, ele era rapaz
novo nessa epoca, entao ele disse que ali era 0 minhocao." (caso do Minhocao)
"( ...) quando eu trabalhava na fazenda de tratorista e sumiu uma rnenina com nove
anos de idade. Desapareceu. Ela tinha ido ld em cima, no poCo buscar agua pr6 bar
vizinho." (caso de assombracao)
"Af diz que ele se apavorO, derrubou a espingarda no chao, caiu de cirna da espera
e saiu correndo, chegou ld no acamparnento· quase alucinado." (caso de assombraciio)
"Sernpre tern uma devocaozinha ne, da uma rezadinha. Dei uma benzida no corpo,
af 0 trern atentado, ne, af eu pedi pra ele ne, qui num, num viessi ne, pertuba ne, quando
eu falei assim a rede arriO Id no chao." (caso de assombracao)
Os dernarcadores espaciais destacados tern urn referente quase sempre endof6rico,
mas parece-nos que proporcionam um processo de projeeao do texto para fora de si
mesmo, sob a forma de mundo, a evidencia real do espaCo assenta numa evidencia
imaginaria cornpartilhada pelo locutor e pelo ouvinte que parece concretizar um espaco
compartilhado e estabelecert assim, maior cumplicidade entre 0 ouvinte.
o ate de mostrar, de apontar, implica a evidencia deiticat quer dizer, a presenCa no
contexto real daquilo para que se aponta, contudo na narrativa casolsobrenatural os
deiticos este, aquele, esse servem para mostrar ou indicar fatos extradiscUlsivos, ou
seja, fatos de situacao que se remetem ao momento e ao lugar nao da producao do texto,
mas ao momento e ao lugar onde 0 fate acontece, trata-se de urna mostracao "in
absentia" - chama-set entlio, a atencao para 0 ambiente em que 0 fate acontece: tudo
como se os interlocutores vivessem a situacao no transcorrer da narrativa.
"Tiverarn que pegar ele e segurar que ele tava doidinho da vida porque aquele, 0
homern chegou a cavalo num porco e falou com ele (...).'t (caso de assombracao)
"( ...) levanta corixo, vira aquela coisa, voce se apavora e ve aquela coisa nesse
poco que nos ... " (caso do Minhocao)
AS exemplos ilustram 0 processo de constitui~lio de urn campo mostrativo
"imaginario", urn campo mostrativo induzido pelo pr6prio ate de mostra~ao "in
absentia" - percebe-se que nao M qualquer evidencia real que viabilize 0 ate de
mostrar.
as monstrativos fazem ponte para uma outra classe de deiticos: aqueles que
express am, no texto, urna gestualidade e que estlio representados, nestas narrativas,
especialmente por "assim" - os exemplos ilustram, de novo, 0 processo de constitui~ao
de urn campo mostrativo imaginario.
"Eu vi urn pexe que tinha uns, urn, urn tipo assim parecia uma, parecia urna, uma
turrilha mas urn bocado mals grande, grande, ele fez assim, oh! na frente da iancha." (
caso do Minhocao)
"AI tinba um bancao assim. Tirei a rede, aforrei uns pelego nu banclio (...)" (caso
de assombr~ao)
"- Olba, ce me espera ld no capao.
Era urn capao limpo que tinha assim, sabel" (caso do Pai do Mato)
Analisando as atualiza~oes do elemento lingUfstico "assim", verificamos que ele
pode ser convertido em "deste jeito", "desta maneira" e tem sempre urn correspondente
gestual - mais uma vez a inten~ao de presentificar a cena discursiva.
Os deiticos imperativos vivificam a situa~ao locutiva por estabelecer urn discurso
direto entre urn locutor e urn destinatario, sempre presentificados.
" ... AI no momento naqueles que chamei meu companheiro, tava ele e a esposa
dele e urn filho, falei:
- Oh! meu chara levante ai que eu vi uma coisa." (caso do Neguinho D'Agua)
" ...Tempo limpo nao tinba temporal, nao tinha enchente, nao tinha nada. Entlio eu
disse:
- Olba, vamos a/astd da( que esse eo minhocao." (caso do Minbocao)
"Diz que vinha urn cara, urn homem peludo a cavalo nurn porcao daquele, entao
ele falou:
- Nilo atira nao que amanada e minha." (caso de assombra~ao)
Verifica-se, entlio, que 0 imperativo e us ado lingUisticamente como uma maneira
de presentificar os momentos e as testemunhas - 0 que refor~a a veracidade, a
factualidade dos acontecimentos; sublinbe-se que os interlocutores aparecem sempre
nomeados: 0 companheiro pescador, 0 turista, urn homem peludo - 0 que nao tern outra
fun~ao a nao ser aquela de enfatizar a pertinencia do fato.
"Eu vi um pexe, que ele tinha uns (...) na frente da Ianeha e a onda dele balancou a
Iancha, eu tentei no Ierne (...) ala, puta-merda. "(easo do Minhoeao)
"Af depois de um ano, olha so! Depois de urn ano, entao tinha uns peseador
peseando no rio (...)" (easo do Pai do Mato)
"Me arrepio memo! Nao andei 300 metro depois que aeordei, levanto um
neguinho assim, Ievanto e foi pra la." ( easo Neguinho 0' Agua)
"M! Af ele se derreteu todo. Ele nunea mais eacou na vida dele." (easo de
assombracao)
"Qui eu deitei, qui eu quis pega no sono, minha rede tava em alta velocidade,
balangano cumigo. Eu acordei Ah! Nao e poss(vel Eu nao balanguei por que ta
balangano?" (easo de assombracao)
As palavras e expressoes exclamativas acusam alguem falando num exato
momento - 0 da reatualizacao do fato, no momenta de contata dos interlocutores do
casolsobrenaturaL
Percebe-se, entao, que os nossos "contadores de hist6rias" nesse querer configurar
mundos possfveis e conferir-lhes uma existencia textual sac essencialmente
argumentativos "orientam 0 seu discurso no sentido de determinadas conclusoes"
KOCH (1987: 19) preocupam-se em projetar um mundo e em 0 fazerexistir tamMm
para a seu interlocutor, imprimindo, assim, nas suas narrativas marcas lingiiIsticas, no
caso determinados tipos de deiticos que visam a presentificar uma cena discursiva,
chamando a atencao para a faetualidade e veracidade de "mundos possfveis"
alternativos ao real. Afinal, signifiear nao e apenas construir textos, e sobretudo agir no
e sobre 0 contexto, e essencialmente construir mundos.
RESUMO: Este trabalho Jocaliza as narrativas do homem pantaneiro. Estas narrativas
sao marcadas pela presenta de diiticos que num jogo de linguagem "asseguram" a
veracidade de urndizer e a construc:aode mundos alternativos ao mundo reaL
PALAVRAS-eRA VB: Narrativa, deiticos, "Pantanal".
BENJAMIM. Walter. (1975) 0 narmdor - Observafoes acerca da obm de Nicola" Lescov. In: Os
Pensadores XLVIII. S10 Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial. p.63.
FERREIRA, A. R. De A. L & MARCHI, M. Das D. C. V. (1995). Caso-Repol1ariio
Apresentado no XUII SeminArio do GEL em Ribeirio Prelo (no prelo).
KOCH. 1. G. V. (1987). Argllment",iio e lingllagem. Sio Paulo:
__
. (1990). CoerincUl textual. Sio Paulo: Contexlo.
Cortez.
no PanJanal.
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(UFMS) KEY-WORDS: Narrative, de