PUBLICIDADE E POBREZA: Um Estudo de Recepção Maria Eduarda da Mota Rocha Mestranda do Departamento de Sociologia, Universidade de São Paulo Este texto integra um estudo da recepção de mensagens publicitárias veiculadas pela TV em uma população pobre, embora não se detenha muito na análise direta dos tipos de discurso publicitário. É que, na verdade, a análise das modalidades de recepção do discurso publicitário nos indicou que o papel da publicidade na difusão de novos gostos e padrões de consumo é infinitamente mais complexo do que a relação aparentemente imediata entre mensagens e receptores específicos. Não que a análise desta relação seja dispensável, mas, no âmbito deste trabalho, preferimos tratar da publicidade como vetor de um processo socio-histórico mais abrangente: a consolidação da cultura de consumo entre uma população pobre e periférica. O objetivo, aqui, é pensar como este processo implicou num reequacionamento das necessidades e recursos da população em estudo, e quais os novos padrões de consumo que emergiram deste reequacionamento. Somente a partir deste quadro faz analisar as modalidades de recepção dos discursos publicitários, referindo-as ao fato de que, na verdade, estes discursos são potencializadores de dinâmicas sociais que não se esgotam em mensagens específicas. Aqui, buscou-se tão somente apontar um substrato comum à cultura de consumo, corporificada na publicidade, e as práticas de consumo mais valorizadas entre a população em estudo. Não está pressuposto que a eficácia da publicidade pode ser deduzida de uma relação direta entre mensagens específicas e o consumo subsequente dos produtos por elas promovidos. O que se pode perceber é que tanto a cultura de consumo, sobretudo através da publicidade, quanto as novas gerações do município em estudo, remetem-se ao consumo de bens industrializados como um processo altamente carregado de valor simbólico, instituído como um momento de auto-expressão e realização das mais íntimas aspirações. Para estabelecer esta matriz comum, que aponta para o papel da publicidade na promoção do consumo como lugar de diferenciação social, faz-se necessário analisar a transformação nos padrões de consumo da população em estudo. Isto, por sua vez, só é possível quando se tem em mente as formas de vida das populações pobres, vigentes no período anterior à etapa urbano-industrial do desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Este longo percurso de análise deriva da própria perspectiva adotada. Na medida em que a recepção é tomada como um processo cultural e político1, e não somente psicológico, é inócuo centrar a análise em um contato aparentemente direto e verticalizado entre a população e mensagens específicas. Embora a recepção possa ser abordada a partir de diferentes perspectivas teóricas2, será tomada neste trabalho como a análise da relação entre os meios de comunicação de massa e suas audiências, enfocadas em seu cotidiano, buscando ver quais as práticas que mediam a relação entre os conteúdos mediáticos e a vida dos sujeitos receptores3. A Teoria das Mediações, de Jesús Martín-Barbero, nos incita a pensar no cotidiano dos receptores como o espaço onde as demandas sociais e as competências culturais são convertidas na substância com que a indústria cultural configura os seus discursos. A recepção é, assim, arrancada da problemática funcionalista de causas e efeitos para fincar raízes no campo da cultura, no qual se desenham os diferentes “modos de ver” e os “usos sociais” dos bens culturais4. O foco da pesquisa em comunicação é deslocado dos meios para as práticas socioculturais mais amplas, ou, para 1 Uma parcela dos estudos culturais britânicos insiste na pertinência deste enfoque propriamente cultural da recepção, que, nas palavras de Ang, “não deveria restringir-se a este momento pseudo-íntimo do encontro entre a mídia e a audiência, mas deveria buscar os significados e sentidos diferenciados de padrões específicos de recepção, na articulação de relações de poder mais gerais”. ANG, Ien. “Culture and Communication: Towards an Ethnographic Critique of Media Consumption in the Transnational Media System”. In European Journal of Communication. London, Newbury Park, New Delhi: Sage, vol. 5, 1990, p. 239-260. Nesta perspectiva, ver sobretudo MORLEY, David. Televisíon, Audiências y Estudios Culturales. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1996. 2 Um panorama destas diferentes perspectivas de estudos de audiência, dentre os quais destacamos os estudos de recepção pode ser encontrado em: JENSEN, Klaus, ROSENGREN, Klaus. “Five Traditions in Search for the Audience”. In European Journal of Communication. London, Newbury Park, New Delhi: Sage, vol. 5, 1990, p. 207-238. 3 No Brasil, os estudos de recepção têm se concentrado na telenovela. Ver, principalmente: LEAL, Ondina Fachel. A Leitura Social da Novela das Oito. Petrópolis: Vozes, 1986. RONSINI, Veneza Mayora. Cotidiano Rural e Recepção da Televisão: O Caso de Três Barras. Dissertação de Mestrado, ECA/USP, 1993. JACKS, Nilda. A Recepção na Querência: Um Estudo da Audiência e da Identidade Cultural Gaúcha como Mediação Simbólica. Tese de doutoramento, São Paulo, ECA/USP, 1993. TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. “A TV Globo em Duas Comunidades Rurais da Paraíba - Um Estudo de Audiência” In A Encenação dos Sentidos - Mídia, Cultura e Política. BRAGA, J. Luiz et alli. (org.). Rio de Janeiro: Diadorim Editora, 1995, p. 210-220. 4 MARTÍN-BARBERO, Jesús. “Televisíon, Melodrama y Vida Cotidiana”. In Revista Diálogos de la Comunicacíon, n. 17, Lima, 1987, p. 49 e 55. Sobre sua abordagem nos estudos de recepção, ver também os artigos: “Identidade, Comunicacíon y Modernidad en América Latina”. In Contratexto, n. 4, Lima, falar como um dos principais operadores desse deslocamento, passa “dos meios às mediações” sociais que lhes conferem sentido e relevância5. Uma outra vertente vem complementar esta abordagem. Trata-se de uma parcela dos estudos culturais britânicos, para a qual os processos comunicativos acionados pelos meios de comunicação de massa só ganham sentido dentro de um sistema social e um momento histórico específicos6. Assim, autores como David Morley e Ien Ang trilham um caminho no qual a análise qualitativa e empírica da leitura dos conteúdos mediáticos no cotidiano dos receptores é combinada com uma ampla visão do sistema social que lhe dá suporte. No tocante à recepção de mensagens publicitárias, a análise deve privilegiar os comportamentos, valores e representações relativos ao consumo. Não cabe aqui discutir à exaustão as especificidades do discurso publicitário e de suas modalidades de recepção, sob pena de exceder as dimensões convenientes a um texto deste tipo. Por hora, vale mostra como a chegada do discurso publicitário, integrando um processo de modernização7 mais amplo da sociedade brasileira, está intimamente associado a profundas alterações na equação entre as necessidades e os recursos da população pobre em estudo. Buscamos, neste texto, traçar as linhas desse reequacionamento que, em termos mais genéricos, pode ser enunciado como a consolidação da cultura de consumo nesta população. O campo empírico da pesquisa é São Miguel dos Milagres, município situado no litoral norte de Alagoas, contando, por ocasião do último Censo, com quase 5000 habitantes8. A sua escolha deveu-se, sobretudo, ao fato de estar fisicamente distante de grandes centros urbanos, habilitando-nos a perceber como está se processando a consolidação da cultura de consumo nos extremos da sociedade brasileira. Uma segunda julho de 1989. “América Latina e os Anos Recentes: O Estudo de Recepção em Comunicação Social”. In SOUSA, Mauro Wilton de (org.). Sujeito - O Lado Oculto do Receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995. 5 MARTIN-BARBERO, Jesus. De los Medios a las Mediaciones - Comunicación, Cultura y Hegemonía. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1987. 6 Para um panorama desta abordagem na pesquisa de comunicação, ver WOLF, Mauro. Op. cit., p. 96. 7 No âmbito deste trabalho, entendemos por modernização o movimento de industrialização e urbanização acelerada da sociedade brasileira, sobretudo a partir dos anos 60 deste século. 8 O material que sustenta a análise tem uma origem variada, como normalmente ocorre numa pesquisa de campo prolongada. Mas o seu núcleo foram, sem dúvida, as 25 entrevistas e as 6 discussões em grupo realizadas segundo critérios de gênero e idade. A pesquisa limitou-se aos núcleos urbanos do município, e foi realizada durante duas estadias de dois meses, com intervalo de dez meses entre elas. razão é o fato de que, neste município, estão presentes as formas de vida historicamente gestadas no setor de subsistência, dentro da área açucareira. É objetivo deste trabalho discernir em que medida a consolidação de uma cultura de consumo implica na superação incondicional destas formas de vida, ou, em outras palavras, que novas equações entre necessidades e recursos têm redefinido as práticas de consumo nesta população, e qual o papel da publicidade neste processo. 1 - São Miguel: Origens e Transformações Comecemos, então, lembrando que São Miguel dos Milagres deve a sua formação à economia açucareira, à qual, de saída, atrelado. As formas de vida lá encontradas até pelo menos a década de setenta têm sua razão de ser no lugar e nas funções das populações pobres na órbita do açúcar. É fácil estabelecer a identidade entre as formas de vida gestadas no setor de subsistência, desde os primeiros tempos da colonização, e aquelas que aparecem nas histórias de vida referentes até os anos 70, no município. Ambas se fundam em uma parca produção pesqueira e agrícola, gêneros de subsistência eventualmente comercializados. Ambas ancoram-se em uma relação de dependência face à grande propriedade. Esta identidade reflete o fato de que a formação dos núcleos urbanos de São Miguel dos Milagres deu-se em função da constituição de um bolsão de pobreza nos entornos dos engenhos, sobretudo ao longo do século XIX. Por outro lado, não se pode demorar muito no desenho da formação de São Miguel dos Milagres, sob pena de não se alcançar o ponto de inflexão que foram os anos 70, na vida da população local. Foi neste período que São Miguel viveu as mais marcantes transformações de sua longa história, como conseqüência da ampliação e integração de um mercado nacional e da implantação de uma indústria cultural no país. Os anos 70 são o ponto para o qual, olhando retrospectivamente, vários feixes de transformações convergiram no sentido de uma mudança de maior alcance na vida da população local. Os investimentos públicos ampliaram os serviços de transporte, educação e comunicação do município, enquanto a urbanização acelerada fazia das grandes cidades os mercados consumidores cuja pressão pela ampliação da oferta de gêneros promoveu a integração da produção local em novos patamares. Apontar estas transformações nos ajuda a compreender os padrões de consumo locais em termos de recursos disponíveis para a população local. Uma vez traçado um panorama destas fontes de recursos, podemos constatar que o ingresso parcial da população pobre local, na forma e dimensão em que se dá, dispensou profundas transformações nas relações de propriedade, nas práticas políticas e nas relações de trabalho habituais. Como não é o foco deste trabalho, limitamos a apontar brevemente esta inserção de um consumo de bens industrializados num quadro no qual alguns elementos têm raízes seculares no Nordeste açucareiro. 2 - O Consumo Precário São os limites e as potencialidades da modernização da sociedade brasileira que transparecem na sutil combinação entre pobreza e consumo, no município. Remontar à origem socio-histórica das populações pobres do Nordeste açucareiro nos ajuda a estabelecer os termos desta conjugação aparentemente insustentável entre pobreza e consumo, pois indica uma relativa durabilidade das formas de vida, das relações de propriedade e das práticas políticas locais, que a modernização não ousou suplantar completamente. O cruzamento destas duas ordens de processos deu origem ao que chamamos de consumo precário. Ele é resultado da tensão entre a imersão no universo de valores e gostos subjacentes à cultura de consumo, por um lado, e a distância em relação aos meios regulares de obtenção de recursos para um consumo efetivo e regular, por outro lado. Este consumo precário é viabilizado pela conjugação entre as táticas de que se utiliza aquela população e os dispositivos de mercado voltados à efetivação da demanda latente representada pelas camadas de baixa renda. As táticas são basicamente o improviso e a informalidade. Já os dispositivos do mercado voltados à viabilização do consumo das populações pobres são: diversas formas de financiamento, dentre as quais o crediário é a mais comum; a segmentação do mercado, de modo a oferecer produtos de menor custo; redes alternativas de distribuição, notadamente os feirantes que percorrem pequenas localidades do Nordeste; formas ilegais de redução de custos, que vão desde a pirataria, até o contrabando e o caixa-dois. Entende-se, assim, porque este consumo não exclui a pobreza. Ao contrário, ao fundar-se na informalidade, perpetua uma situação de raízes profundas no Nordeste, na qual boa parte da população se viu marginalizada diante das atividades econômicas mais rentáveis, sendo confinadas ao que Caio Prado Júnior chamou de “setores inorgânicos da economia”.9 A principal diferença em relação ao passado é que as táticas desta população adquirem cada vez mais também o sentido de inserção no consumo “conspícuo”, e nisto repousa a importância da publicidade, como fator de redefinição de gostos e hábitos de consumo. 3 - Cultura de Consumo e Indústria Cultural Para entender como a publicidade desempenhou este papel, é preciso partir dos anos 60 e 70 como o período de formação de uma indústria cultural brasileira, articulada à consolidação de uma cultura de consumo no país. Mas antes, é necessário rastrear este processo que estamos chamando de cultura de consumo. Isto porque temos forte indícios de sua presença em São Miguel. As ramificações deste processo, no município, não por acaso, fazem-se visíveis na década de 70, como conseqüência de um movimento que transformou gradualmente os próprios pólos do capitalismo ocidental, para num segundo momento chegar ao Brasil, instaurando o que pode-se chamar, num sentido um tanto quanto flexível, de “cultura de consumo”. Tomaremos a cultura de consumo, por um lado, como a resultante do processo de expansão do volume de bens circulando e incorporando um número cada vez maior de pessoas ao consumo de produtos industrializados. Por outro lado, como aquela onde a dimensão simbólica do consumo destes bens é dilatada e adquire sentidos de distinção social e expressão pessoal cada vez mais importantes. Como conseqüência do aumento do volume de bens e da relativa popularização destes, a cultura de consumo pressupõe o advento da fase monopolista do capitalismo, Como diz Alan Tomlinson, “a produção em massa criou o consumo de massa”10. O capitalismo monopolista, ao ampliar a escala de produção favorece um consumo 9 PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1983. Duas citações deste autor se complementam para dar uma visão desses “setores inorgânicos da economia”: “O agregado é um trabalhador rural a quem o proprietário cede, em geral a título gratuito e em troca apenas de uma espécie de vassalagem e prestação de serviços, o direito de se estabelecer e explorar uma parte inaproveitada do domínio”; p. 158. E mais: “A agricultura que pratica é rudimentar, mais próxima do tipo caboclo. Se contribuía para o comércio com algum excesso, é em proporções relativamente pequenas, às vezes até esporadicamente, apenas.”, p. 291. massificado. Tomando impulso, nos países centrais, a partir do fim do século XIX, a fase monopolista do capitalismo apoia-se na formação de cartéis como bases da vida econômica11. A alta concentração do capital promove todas as condições para que sua reprodução dê-se em uma escala cada vez mais ampliada. E, uma vez que a ampliação da escala de produção faz crescer o próprio volume de produtos desovados no mercado, surgem novas necessidades no âmbito da circulação. A diversificação e a sofisticação crescente dos produtos atendem a esta exigência. No mesmo sentido, o desenvolvimento de técnicas cada vez mais acuradas aumenta a eficiência em todas as etapas do lançamento do produto, desde as pesquisas de mercado até as embalagens e os anúncios publicitários12. Mike Featherstone chama a atenção para o mesmo processo, mostrando como, historicamente, a cultura de consumo conforma-se a partir das primeiras décadas deste século, nos países centrais, quando o incremento da produção, provocado pelo desenvolvimento de novas técnicas de gestão científicas, de novas formas de organização do trabalho e de linhas de produção, deslocou a atenção para o pólo do escoamento e consumo do excedente. O crescimento dos salários e a criação do crédito ao consumidor vieram atender a esta exigência para o funcionamento dos mercados, já sob a égide do capitalismo monopolista. Mas foi preciso algo mais: “Os trabalhadores, que tinham se habituado à retórica do comedimento, trabalho árduo e sobriedade, tiveram que ser educados para apreciar um novo discurso centrado no estilo de vida hedonista, que redundava em novas necessidades e desejos”13. A publicidade seria a guardiã dessa nova “moral”, educando as pessoas em função de sensibilidades e gostos que as projetam numa vida cotidiana estetizada, onde a realidade material dos objetos é subordinada ao seu funcionamento enquanto signos. Esta estetização que, segundo Featherstone, é a 10 TOMLINSON, Alan. Consumption, Identity and Style - Marketing,, Meanings and the Packaging of Pleasure. London: Routledge, 1990, p. 21. 11 Para uma aproximação desta problemática junto ao contexto brasileiro ver, entre outros, MELLO, João Manuel Cardoso de. O Capitalismo Tardio. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 121 e SINGER, Paul. “Interpretação do Brasil - Uma Experiência Histórica de Desenvolvimento”. In FAUSTO, Boris (org.), História Geral da Civilização Brasileira III - O Brasil Republicano. São Paulo: Difel, 1986, vol. 4, p. 209-245 12 ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. A Embalagem do Sistema - A Publicidade no Capitalismo Brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1985, p. 29. 13 FEATHERSTONE, Mike. The Body in Consumer Culture. Mimeo, s.d., p. 19. (Tradução livre). característica principal das sociedades contemporâneas, resulta de que “as exposições, performances e espetáculos de uma vida cotidiana urbanizada estabelecem uma constante reativação dos desejos pelas imagens”14. À publicidade, neste contexto, cabe incrementar o valor simbólico dos objetos, através da manipulação de atributos que lhes são associados, conferindo-lhes sentidos que não são estreitamente dependentes de seu uso funcional. Estas tendências teriam ganhado força no século XX, nas sociedades avançadas do pós segunda guerra, onde o consumo de massa expandiu-se a níveis jamais vistos e o espetáculo passou a ser cultivado como a forma primordial de experiência, nos shoppings, museus, parques temáticos e, é claro, nos meios de comunicação de massa. Distanciando-se cada vez mais de uma ética puritana, essa cultura institucionaliza o consumismo, a busca de sensações e a vivência de emoções no âmbito do consumo, convertido, antes de tudo, em consumo de imagens. Já no Brasil, a formação de uma Indústria cultural teve lugar nos anos 60 e 70, quando já tinham sido satisfatoriamente atendidas as condições de uma modernização mais ampla nos principais países da América Latina. Nestór Canclini aponta os indicadores das mudanças estruturais em curso, no continente, a partir dos anos 50, quando lançaram-se as bases para as transformações que viriam ter lugar nas décadas seguintes: um desenvolvimento mais sustentado e diversificado, visível na multiplicação de indústrias com tecnologia avançada e no crescimento das importações industriais; a expansão do crescimento urbano, iniciado desde os anos 40; a ampliação do mercado de bens simbólicos, viabilizado também pelo aumento da escolarização; e, finalmente, a introdução de novas tecnologias comunicacionais, especialmente a TV, que contribuíram para a massificação e internacionalização das relações culturais e sobretudo apoiaram a venda de produtos industriais que passaram a ser produzidos na própria América Latina15. Vale lembrar que, naquele momento, vivíamos sob uma ditadura militar, cujos gestores tinham total interesse na integração da sociedade, tanto nos termos de um mercado nacional quanto naqueles das redes difusoras. A formação de uma indústria 14 FEATHERSTONE, Mike. Consumer Culture and Postmodernism. London: Sage Publications, s.d., p. 66. 15 CANCLINI, Nestór García. Culturas Híbridas, - Estratégias para Entrar y Salir de la Modernidad. México: Grijalbo, 1989, p. 82. cultural brasileira pode ser relacionada à vigência do regime autoritário, quando ela beneficiou-se de “maciços investimentos governamentais no setor de telecomunicações que, por sua vez, impulsionou o crescimento da indústria eletrônica”16, sobretudo através da EMBRATEL, com a criação de estações repetidoras e canais de microondas. É somente dentro desse quadro mais amplo que faz sentido pensar o papel da publicidade na difusão de novos gostos e hábitos no Brasil. Ela tentava educar as massas em função de novos gostos, mais adequados à realidade emergente. A publicidade, em sua forma empresarial, é conseqüência e promotora da ampliação dos mercados, processo no qual, “juntamente com a extensão dos instrumentos creditícios aos consumidores, contribui para abreviar o tempo de circulação das mercadorias, acelerar a rotação do capital e reforçar as necessidades de consumo”17. Nesta função primordial, a publicidade tornou-se um lastro central na nova forma de organização social que emergiu no Brasil dos anos 60 e 70. Esta ligação umbilical faz com que o seu projeto comunicativo confunda-se com os novos valores e gostos da cultura de consumo. Em última instância, a publicidade funciona buscando associar, a um produto específico, símbolos que extrapolam o seu uso funcional, instituindo, assim, o consumo como o espaço principal para a realização de aspirações e construção de identidades. Nesse sentido, promove tanto a estetização da vida quanto a estilização do consumo. Durante a fase expansiva de 1956-1961, a publicidade brasileira recebeu o seu impulso maior. Foi nesse período que a intensificação das trocas comerciais promovida pelas multinacionais começou a abarcar países não-desenvolvidos. O alto grau de desenvolvimento tecnológico destas empresas e o baixo custo da mão-de-obra no Brasil permitiu que aqui fossem alocadas certas linhas de produção. O crescimento do setor produtivo estatal e os investimentos em infra-estrutura promoveram as condições necessárias para a chegada dos grandes oligopólios18. O mercado nacional integrava-se em torno do pólo industrial de São Paulo. Neste contexto, um importante mecanismo para expandir o consumo foi a diversificação dos produtos em função da segmentação do 16 MICELI, Sérgio. “Entre no ar em Belíndia - A Indústria Cultural Hoje”. Cadernos IFCH. Campinas: UNICAMP, outubro de 1984. Sobre este assunto, ver também ORTIZ, Renato. A Moderna Tradição Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1988, p.118. 17 ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Op. cit., p. 49. mercado consumidor, sobretudo quando a incorporação progressiva de mercados locais deixou de sustentar a expansão em curso. Foi a partir daí que a expansão do mercado brasileiro passou a ser fundada cada vez mais na introdução de novos produtos e ocorreu uma significativa “diversificação do consumo das camadas de maior poder aquisitivo”19. A partir de então, os anúncios mudaram de tom: o apelo passou a centrar-se na satisfação de aspirações socialmente predominantes. E a sua feitura passou a contar com toda uma rede de profissionais capazes de elaborar essas aspirações e acoplá-las a produtos específicos. O processo cujas origens Featherstone apontava em cidades européias de fins do XIX, aconteceu no Brasil quase cem anos depois: institucionalizou-se a busca de sensações e de distinção social no âmbito do consumo. 3.2.2 - Publicidade Televisiva e Práticas de Consumo em São Miguel Em 1973 a TV foi introduzida em São Miguel dos Milagres, pela corrente de transformações que estavam integrando e ampliando o mercado nacional, sob a égide do governo militar. A supressão parcial das distâncias permitida pelo rádio e, mais tarde, pela TV, é o ponto de partida para entender o papel destes veículos na vida social de São Miguel dos Milagres. Lembremos que, no relato de D. Gena, a TV aparece como “um aparelho que a pessoa tá no Rio de Janeiro e você tá vendo daqui”. Esta marca da TV faz dela, para falar nos termos de Anthony Giddens, um importante vetor de “esvaziamento de espaço”, essencial para o dinamismo da modernidade, porque possibilita o “desencaixe”, que é o “deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e as sua restruturação através de extensões indefinidas de espaço-tempo”20. Esta sua característica básica lhe confere um importante papel na potencialização de dinâmicas sociais. Através deste ambiente de interlocutoriedade, os porta-vozes da cultura de consumo, notadamente a publicidade, promoveram novos hábitos e valores mais adequados às formas emergentes de organização da sociedade brasileira. Como se trata de um processo em curso há pelo menos duas décadas, não podemos afirmar cabalmente qual o peso que a publicidade televisiva teve no sentido de instituir estes novos padrões de 18 SINGER, Paul. Op. cit, p. 225 e ss. SINGER, Paul. Op. cit., p. 230. 20 GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 29. 19 consumo. Mas podemos apontar uma homologia entre as significações que ela tenta promover e aquelas que norteam as escolhas dos produtos, pela população local. Estas significações têm sua matriz comum no “consumo estilizado”. Numa cultura de consumo, não somente cresce a parcela da população incluída no consumo de bens industrializados, como dilata-se também o próprio papel do consumo na vida das pessoas. Este passa a ser, como pode-se inferir das análises de Featherstone e Bourdieu, o espaço onde fincam-se e renovam-se as distinções entre os grupos sociais. E esta mudança só é possível porque o consumo, nas sociedades modernas, deixa de ser meramente “funcional” para ser “estilizado”21. Alan Tomlinson percebe nitidamente esta alteração no sentido do consumo, quando compara os catálogos norte-americanos da virada do século com os anúncios publicitários dos anos 80. Se em 1900 os bens eram representados mimeticamente e a ênfase recaía sobre a integridade e funcionalidade dos produtos, nos anos 80 o que se via era o foco sobre o Tomlinson chama de “aura” dos produtos e seus efeitos sobre o consumidor22, o que “permite ao consumidor comprar passionalmente, expressar desejo subjetivo dentro das relações objetivamente frias e impessoais”23. O consumo torna-se o locus da construção de estilos de vida. Este é o plano no qual a publicidade exerce os seus efeitos mais relevantes, do ponto de vista sociológico: a promoção desta maneira de consumir e do conjunto de valores a ela subjacente. A análise da recepção de mensagens publicitárias, no município, sugere que este modo de consumir envolve dois aspectos fundamentais. O primeiro deles diz respeito ao mecanismo básico de funcionamento do discurso publicitário e de como este mecanismo reproduz-se nas práticas de consumo mais valorizadas em São Miguel dos Milagres. Trata-se da manipulação de atributos dos produtos como forma de obter prestígio, ou, em outras palavras, da promoção do consumo estilizado. Este é o nível mais profundo de funcionamento do discurso publicitário. O mecanismo que opera este funcionamento global da publicidade e que confere unidade ao seu discurso é a denominação. Segundo 21 TOMLINSON, Alan. Op. cit., p. 9. TOMLINSON, Alan. Op. cit. p. 9. Num sentido semelhante, Maria Arminda do Nascimento Arruda observa uma mudança de ton nos anúncios publicitários brasileiros, na passagem dos anos 60 para os 70. ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Op. cit., p. 110 e ss. 22 Peninou, a denominação é a primeira operação do discurso publicitário e consiste em “dar um nome próprio” ao produto que, através de marcas de individualidade que nele são depositadas, antropomorfiza-se 24. Desta operação deriva toda a importância da marca na deflagração dos sentidos do consumo de um dado produto, uma vez que “todo o discurso antropocêntrico que a publicidade faz a respeito dos objetos é concebível através da mediação da marca, que faz o objeto penetrar no circuito da ‘persona’, porque a marca, além do mais, é tratada como analogia da ‘persona’.”25. Diante disto se entende porque o efeito mais global da publicidade é a promoção do consumo estilizado. A manipulação de atributos dos produtos no intuito de construir uma imagem de quem os utiliza é um traço comum à publicidade e às práticas de consumo mais valorizadas em São Miguel. Ela só é possível porque os próprios produtos são antropomorfizados e convertidos em vitrines de atributos que, por definição, seriam humanos. A publicidade joga indefinidamente com a “liberdade”, a “beleza”, a “sedução”, a “fofura”, o “desembaraço”, etc., porque ela “tem que traduzir enunciados provenientes do mundo das coisas como, por exemplo, que um carro fará tantas milhas por galão de combustível, em uma forma que signifique algo em termos humanos”26. Este mecanismo permite entender também como o efeito global da publicidade é posto em marcha de modo relativamente independente da eficácia do anúncio em promover o consumo do produto específico. O que “fica” do discurso publicitário é um desejo difuso, expresso como “sei lá... eu queria tanta coisa” (Adriana, 16 anos). Este é o segundo aspecto observado na análise da recepção de mensagens publicitárias. Graficamente, a melhor expressão para ele foi dada por crianças e adolescentes que participaram das discussões em grupo: desenhando uma flor dentro de uma TV. A flor é tanto a alegoria de uma oferta gratuita, quanto o despertar dos sentidos de visão e olfato. A publicidade é um gesto de oferta que, através dos financiamentos “sem entrada”, por exemplo, anuncia-se como gratuito e “doa-se” como sons, cores e imagens que enchem os 23 TOMLINSON, Alan. Op. cit., p. 24. PENINOU. Apud TORNERO, J. M. Perez. Semiótica de la Publicidad. Barcelona: Editorial Mitre: 1982, p. 89. 25 PENINOU. Apud TORNERO. Op. Cit., p. 89. 24 olhos e excitam sentidos outros. Suas inovações formais, que podem conferir-lhe até um certo “ar subversivo”, não rompem com o essencial: a promoção de uma visão de mundo na qual o valor dos indivíduos e sua posição nas hierarquias de prestígio é atributo de estilos, preços e marcas dos produtos que consomem. É deste modo que a publicidade explicita e materializa o lugar do consumo na sociedade, como o âmbito no qual se erguem e se renovam as distinções sociais através da manipulação dos atributos simbólicos dos produtos. Em outras palavras, a publicidade promove o consumo estilizado. Para melhor entendê-lo, lembremo-nos que Bourdieu define o estilo de vida como “um conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos, mobília, vestimentas, linguagem ou héxis corporal, a mesma intenção expressiva, princípio da unidade de estilo que se entrega diretamente à intuição e que a análise destrói ao recortálo em universos separados”27. Guardemos então, a idéia de um consumo no qual os atributos simbólicos dos produtos são manipulados, em função de uma intenção expressiva, como forma de se obter prestígio. Este é o primeiro nível da identidade entre as significações mais estruturantes do discurso publicitário e as práticas de consumo mais apreciadas em São Miguel: fornecer símbolos a serem instrumentalizados pela intenção expressiva dos consumidores. Os jovens buscam, conscientemente, manipular seus hábitos de consumo com uma intenção expressiva nítida, adotando, assim, um consumo estilizado. Enquanto os adultos dizem atribuir mais importância ao dueto preço-qualidade na compra de um dado produto, os jovens confessam querer algo mais. Perguntando a um deles porque usava tênis preto sem meia, ouvimos a seguinte resposta: “É estilo mermo. Os menino usa sem meia e eu fui na ginga deles. É pra fazer figura”. Nas diferentes práticas cotidianas, transparece sentidos associados ao consumo de produtos que não podem ser reduzidos à sua função estrita. Entre os jovens, prevalece o fascínio pelos bens industrializados, que transparece em cada um dos subespaços simbólicos. No vestuário, na alimentação, nos gostos 26 WILLIANSON, Judith. Decoding Advertising - Ideology and Meaning in Advertising. London: Marion Boyars, 1985, p. 12. Esta é uma constatação interessante, embora discordemos das conclusões que a autora extrai dela. musicais percebe-se, sobretudo entre os jovens, uma grande afinidade com os gostos que eles atribuem a uma juventude urbana Estes gostos nos remetem ao segundo nível da identidade entre as significações estruturantes do discurso publicitário: aquele dos critérios de seleção dos produtos a serem consumidos. O principal dispositivo através do qual os indivíduos buscam diferenciar-se uma das outras e aproximar-se das classes superiores, em São Miguel, é o consumo de bens industrializados associados ao universo de classes médias altas urbanas. O gosto legitimado, em São Miguel, de uma maneira em geral, é aquele capaz de remeter o seu portador a um universo pretensamente contraposto ao local e que, como tal, pode conferir um destaque positivo a quem o ostenta. Em São Miguel dos Milagres, podemos reconstruir essa unidade de estilo sob a rubrica, decerto muito abrangente, de um gosto pelos bens industrializados associados às classes médias altas das grandes cidades. Os jovens tiveram acesso, desde a mais tenra idade, às “gramáticas” dos gostos urbanos mais difundidos. Em segundo lugar, também têm acesso aos já mencionados mecanismos que permitem a expressão destes gostos através do consumo de certos bens investidos de um grande potencial de ostentação destes estilos urbanos, como relógios digitais, camisetas tribais com inscrições em inglês, bermudas largas e compridas, tênis incrementados, bonés de times de basquete americanos, alimentos identificados como “trash food” e gêneros musicais que compõem os “hits do momento”. Dois critérios, quase sempre superpostos, são acionados na escolha dos produtos preferidos. O primeiro deles é a condição de bens industrializados. O consumo de bens industrializados adquire um sentido todo especial de uma pretensa negação da condição de pobreza por demandar, em princípio, o uso de moeda. Vale lembrar que boa parte dos recursos disponíveis para esta população não são monetarizados, visto que gerados através de atividades de subsistência. Isto faz com que o consumo de bens industrializados seja acionado como indicador da superação de uma condição de vida restrita à subsistência. Daí também a preferência por produtos cujo preço e a condição de não- 27 BOURDIEU, Pierre. “Gostos de Classe e Estilo de Vida”, ” in ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1982, p. 84. essencial devem ser os índices desta superação. Historicamente, os bens industrializados aparecem para esta população como senhas de acesso aos mercados nacional e, mais tarde, global. Como não produzia localmente bens industrializados, o fascínio por estes bens é natural, como indício de extrapolação dos estreitos limites da vida local. Em segundo lugar, procura-se uma adequação às modas urbanas, para ostentar uma pretensa superação da condição de “matuto”. O matuto é, para esta população, a própria figura do atraso. Emblema de um “tempo que já passou”, é tido como algo a ser superado através da integração ao mercado global, pretensamente obtida com o consumo de modismos urbanos. Daí ao culto ao Shopping Center, ao Digital e ao Inglês, alegorias que corporificam um tempo e um espaço que não são os do “matuto”: a “atualidade” e a “vastidão” do mercado global, contrapostos ao passado que lembra “atraso” e ao local que lembra “provinciano”. Na verdade, é toda uma trajetória de marginalização o que se busca deixar para trás com o consumo destes bens. No fim das contas, o que se quer é reconstruir a sua identidade cultural em novos termos, os de uma desejada integração ao mercado global. Os bens industrializados que compõem o universo das classes médias altas urbanas são acessados como os tickets de entrada para este consumo colorido e iluminado pelo discurso publicitário. Referências Bibliográficas - ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. A Embalagem do Sistema - A Publicidade no Capitalismo Brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1985. - BOCOCK, Robert. “Consumption and Lifestyles” in BOCOCK, Robert, THOMPSON, Kenneth (eds.). Social and Cultural Forms of Modernity. Oxford: Polity Press, 1992. - BOURDIEU, Pierre. “Gostos de Classe e Estilo de Vida” in ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1982. - CANCLINI, Nestór García. Culturas Híbridas - Estratégias para Entrar y Salir de la Modernidad. México: Grijalbo, 1989. - FEATHERSTONE, Mike. The Body in Consumer Culture. Mimeo, s.d. - ______________. Consumer Culture and Postmodernism. London: Sage Publications, s.d. - GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. 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