4 Economia internacional A economia mundial continua apresentando ritmo de crescimento sustentado e superior ao registrado historicamente, não obstante as diferentes intensidades observadas nos distintos blocos econômicos. Essa trajetória expansionista vem traduzindo condições financeiras favoráveis e a evolução positiva do setor corporativo em diversas economias. O ciclo econômico global permanece favorável às economias emergentes. A conjunção de fatores como comércio mundial em expansão, quadro benigno nos preços das commodities e liquidez global elevada, somada aos ajustes macroeconômicos efetuados nessas economias nos últimos anos, proporciona um cenário menos vulnerável a choques. Persistem, entretanto, vulnerabilidades importantes na economia mundial, representadas pelos déficits em transações correntes e fiscal nos Estados Unidos, com desdobramentos sobre a condução da política monetária naquele país, e pelo preço alto e volátil do petróleo. Embora esses fatores exerçam influência negativa sobre as perspectivas de manutenção do ritmo de crescimento mundial, o conjunto de condicionantes da evolução da economia global sugere a obtenção, em 2005, de significativa taxa de crescimento econômico. 4.1 Atividade econômica O PIB mundial cresceu 5% em 2004, de acordo com estimativas dos principais organismos internacionais, após ter registrado avanço de 3,9% em 2003. Consolidouse a expansão da economia norte-americana, cujo PIB aumentou 4,4% no ano, ante 3% em 2003. A China, que seguiu impulsionando o ritmo de crescimento econômico mundial por meio da absorção de volume crescente de exportações de outros países asiáticos e do resto do mundo, registrou o expressivo aumento de 9,5% do PIB, a despeito Março 2005 | Relatório de Inflação | 63 EUA, Japão e China – PIB1/ % 20 15 10 5 0 -5 II 2002 III IV I 2003 EUA II III IV I 2004 Japão II III IV China Fontes: Bureau of Economic Analysis , Economic and Social Research Institute, JP Morgan 1/ Variações trimestrais anualizadas e dessazonalizadas. de medidas administrativas adotadas em meados do ano visando evitar o superaquecimento da economia. No Japão, embora fossem registradas retrações no PIB do segundo ao quarto trimestres, a forte expansão ocorrida nos três primeiros meses do ano proporcionou elevação do PIB anual de 2,7% em 2004, o melhor desempenho desde 1996. Na Área do Euro, embora o ritmo de crescimento permaneça aquém do observado em outras regiões, a recuperação do PIB foi significativa, alcançando 2% no ano, comparativamente a 0,5% em 2003. A América Latina cresceu 5,5% em 2004, segundo estimativa da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), da Organização das Nações Unidas (ONU), beneficiando-se do aquecimento da economia mundial e, em particular, da evolução favorável dos termos de troca, com desdobramentos favoráveis sobre a taxa de desemprego da região, que recuou de 10,7%, em 2003, para 10%. Área do Euro – PIB1/ % 4 3 2 1 0 -1 -2 II 2002 III IV I 2003 Alemanha II III IV França I 2004 II III Itália IV Área do Euro Fonte: Eurostat 1/ Variações trimestrais anualizadas e dessazonalizadas. As perspectivas para a economia mundial em 2005 são favoráveis, embora se estime arrefecimento do ritmo de crescimento nas principais regiões. O PIB mundial deverá crescer em torno de 3,5%, impulsionado por expansões de 8,5% na China e de 3,5% nos Estados Unidos. Japão e Área do Euro deverão registrar avanços inferiores a 2%, enquanto a taxa de crescimento prevista para a América Latina deverá atingir 4%. Continuam contribuindo positivamente para o crescimento da economia mundial o patamar ainda reduzido das taxas de juros reais e a elevada lucratividade das empresas. Os principais fatores de risco ao desempenho da economia mundial são a instabilidade inerente aos déficits fiscal e em transações correntes da economia norteamericana, cujos efeitos imediatos devem ser discretos e concentrados na esfera dos mercados financeiros; a desaceleração da economia chinesa, o que, de acordo com a evolução recente de indicadores macroeconômicos, não deverá acontecer em 2005; e o processo de elevação acentuada dos preços do petróleo, cuja sustentação permanece incerta, e cujos impactos em 2004 foram superados com relativa tranqüilidade. EUA – Produtividade1/ % 10 8 6 4 2 0 -2 II 2000 IV II 2001 IV II 2002 IV II 2003 Fonte: Bureau of Labor Statistics 1/ Setor não agrícola. Variações trimestrais anualizadas e dessazonalizadas 64 | Relatório de Inflação | Março 2005 IV II 2004 IV Nesse contexto, ganha destaque o risco de que venha a ocorrer arrefecimento importante na economia norte-americana, em razão do possível esgotamento do ciclo recente de crescimento de sua produtividade, conforme sinalizado pelos resultados registrados nos dois últimos trimestres de 2004. A indagação relevante é se tal movimento significa redução substantiva no patamar de crescimento, o que poderia ocasionar pressões inflacionárias, caso a demanda agregada permaneça aquecida. O Federal Reserve (Fed), porém, estima que os ganhos de produtividade retornarão a níveis próximos aos observados recentemente, mas ressalta que o acompanhamento desse indicador será de vital importância para a condução da política monetária nos próximos meses. Inflação ao consumidor Variação anual % 4 3 2 1 0 -1 -2 Jan 2003 Mai Set Jan 2004 Mai EUA Japão Set Jan 2005 Área do Euro Reino Unido Fonte: Bureau of Labor Statistics, Eurostat e Bloomberg 4.2 Política monetária e inflação A inflação desacelerou-se nas principais economias neste início de ano. Esse movimento reflete os efeitos defasados da menor pressão dos preços do petróleo e a alta das taxas de juros, notadamente nos Estados Unidos. Assinale-se, entretanto, que a alta recente dos preços do petróleo, mesmo não ameaçando gravemente a estabilidade de preços, poderá eliminar, nos próximos meses, parte desse ganho inflacionário. Taxas de juros oficiais Taxas anuais % 5 4 3 2 1 0 Fev 2003 Jun Out EUA Fev 2004 Jun Área do Euro Out Fev 2005 Reino Unido Fonte: Federal Reserve , BCE e Banco da Inglaterra Inflação ao consumidor – Área do Euro Variação anual % 3 2 1 Jan 2003 Mai Set Jan 2004 Mai IPCH – núcleo Set Jan 2005 IPCH Fonte: Eurostat Inflação ao consumidor – Reino Unido Variação anual % 4 3 2 1 0 Jan 2003 Mai Set RPIX Jan 2004 Mai Set Jan 2005 Nos Estados Unidos, a manutenção do ritmo de crescimento econômico, a redução constante do hiato do produto e o nível corrente da inflação sinalizam que o Fed deverá dar continuidade ao processo de alta gradual da taxa de juros iniciado em junho de 2003. A taxa de juros oficial nos Estados Unidos em fevereiro, de 2,5% a.a., é superior à da Área do Euro, o que não se observava desde março de 2001. Na Área do Euro, a inflação em janeiro situou-se abaixo da meta oficial de 2% pela primeira vez desde abril do ano passado, ao mesmo tempo em que o núcleo da inflação diminuiu seu ritmo de expansão anual para 1,6%. Não obstante essa desaceleração, espera-se que o Banco Central Europeu (BCE) mantenha inalterada a condução da política monetária nos próximos meses, pois, embora o cenário de curto prazo sinalize a continuidade da depreciação do dólar, a elevação dos juros nos Estados Unidos tende a contribuir para a redução da apreciação do euro em relação ao dólar. O Banco da Inglaterra manteve a taxa repo oficial em 4,75% a.a. pelo quinto mês consecutivo. Embora tenha registrado alta nos últimos meses, a inflação anual ao consumidor encontra-se no nível confortável de 1,6%, abaixo da meta de 2% fixada para a estabilidade de preços. As evidências são de que a contração da política monetária tem sido bem sucedida no controle da demanda agregada e na correção dos desequilíbrios financeiros, como atestam a moderação das despesas de consumo e o menor ritmo do mercado imobiliário. IPC Fonte: Bloomberg Março 2005 | Relatório de Inflação | 65 Inflação ao consumidor – Japão Variação anual % 1,0 0,5 0,0 -0,5 -1,0 -1,5 Jan 2003 Mai Set Jan 2004 Mai IPC Set Jan 2005 IPC – Núcleo Os preços no Japão voltaram a apresentar retração em janeiro, e o núcleo da inflação permanece negativo. No mesmo sentido, a alta do índice de preços por atacado desacelerou-se neste início de ano, o que pode acarretar a diminuição do potencial de transmissão para os bens de consumo no futuro próximo. Nesse contexto, não existe previsão de alteração da postura da política monetária do Banco do Japão (BoJ), caracterizada pela política de juro zero e pela ampliação gradual do intervalo da meta oficial para as reservas do sistema bancário. Fonte: Bloomberg Apesar do crescimento econômico acima do previsto, a inflação na China apresentou forte recuo nos últimos cinco meses, afastando, ao menos temporariamente, os temores quanto aos riscos inflacionários decorrentes do sobreaquecimento industrial. A inflação ao consumidor, acumulada em doze meses, recuou de 5,3%, em agosto, para 1,9% em janeiro. Inflação ao consumidor – China Variação anual % 6 5 4 3 2 1 0 Jan 2003 Mai Set Jan 2004 Mai Set Jan 2005 Fonte: Bloomberg 4.3 Mercados financeiros internacionais Dois fenômenos merecem destaque na análise recente da evolução dos mercados financeiros: a continuidade do cenário de ampla liquidez internacional e de menor aversão ao risco e a sustentação das taxas de juros de longo prazo em patamar reduzido nos Estados Unidos. A busca por retornos mais elevados tem implicado melhoria continuada nas condições de financiamento para as economias emergentes, para o segmento de high yields e até mesmo para tomadores com baixa classificação de crédito (soberanos e privados). Esse movimento tem beneficiado inclusive os mercados acionários, especialmente nas economias emergentes. Retorno sobre títulos governamentais1/ % a.a. 5 4 3 2 1 0 Fev Abr 2003 Jun Ago Out Dez EUA Fev Abr 2004 Jun Alemanha Ago Out Japão Fonte: Bloomberg 1/ Média mensal dos rendimentos nominais dos títulos de 10 anos. 66 | Relatório de Inflação | Março 2005 Dez Fev 2005 Nos Estados Unidos, as taxas de menor prazo têm se mostrado mais sensíveis a alterações nas perspectivas para a evolução da política monetária em 2005 e em 2006, diretamente influenciadas pela divulgação de indicadores econômicos e pela interpretação dada às comunicações do Fed. A elevação gradativa da taxa de juros básica anual e a sinalização recorrente de continuidade da contração monetária por parte do Fed estão exercendo impacto relativamente moderado sobre a trajetória dos rendimentos dos títulos de longo prazo, o que tem favorecido a horizontalização da estrutura a termo das taxas de juros. No trimestre encerrado em fevereiro, o rendimento anual dos títulos de dois anos elevou-se, convergindo de forma consistente do patamar de 3% para 3,6%. No mesmo período, o rendimento dos títulos de dez anos apresentou comportamento diverso, declinando de 4,4% para 4%. A partir da segunda semana de fevereiro, o rendimento do papel de dez anos registrou elevações sucessivas, retornando ao patamar de 4,4% no fim desse mês. Os rendimentos dos títulos de dez anos do Japão e das economias européias têm apresentado comportamento alinhado com a evolução de títulos norte-americanos similares. A persistência das taxas de juros mais longas em patamares reduzidos reflete, também, o ceticismo quanto ao vigor da recuperação dessas economias, enfraquecendo as expectativas de elevação de suas taxas de juros básicas. Bolsas de valores – EUA 4.1.2002=100 110 105 100 95 90 85 10.12 20.1 26.2 2004 2.4 11.5 16.6 22.7 27.8 5.10 10.11 16.12 21.1 28.2 2005 DJIA Fonte: Bloomberg S&P 500 Nasdaq Bolsas de valores – Europa e Japão 4.1.2002=100 115 105 95 85 75 65 10.12 20.1 26.2 2004 2.4 11.5 16.6 22.7 27.8 5.10 10.11 16.12 21.1 28.2 2005 FTSE 100 Fonte: Bloomberg DAX 4.1.2002=100 240 210 180 150 120 2.4 11.5 16.6 22.7 27.8 5.10 10.11 16.12 21.1 28.2 2005 Coréia do Sul Fonte: Bloomberg Brasil Nesse contexto, no trimestre encerrado em fevereiro, os índices Dow Jones, Standard & Poor´s 500 e Nasdaq, dos Estados Unidos, variaram 3,2%, 2,4% e -2,4%, respectivamente, enquanto o Nikkei japonês aumentou 7,7%. Na Europa, os índices da Alemanha (DAX), da Inglaterra (FTSE 100), e da França (CAC) elevaram-se 5,4%, 5,6% e 7,3%, nessa ordem. Nas economias emergentes, destacam-se o aumento das cotações das bolsas de valores da Coréia (Kospi), 15,2%; do México (IPC), 13,8%; da Rússia (RTS), 12,2%; do Brasil (Ibovespa), 11%; e da Argentina (Merval), 31,7%. Nikkey 225 Bolsas de valores – Mercados emergentes 90 10.12 20.1 26.2 2004 A evolução dos mercados acionários, especialmente nos Estados Unidos, permanece muito sensível aos impactos da evolução dos preços do petróleo sobre o ritmo da recuperação da economia global. Os efeitos negativos dos elevados e voláteis preços do petróleo sobre a confiança, entretanto, têm sido parcialmente contrabalançados pelo movimento de migração de recursos para ativos mais rentáveis, impulsionando em particular as bolsas de valores das economias emergentes. México Uma conjunção de fatores favoráveis tem provocado o estreitamento sustentado dos spreads mensurados pelo Emerging Markets Bond Index Plus (Embi+): os reduzidos rendimentos nominais e reais dos ativos de renda fixa nas economias industriais, a gradual recuperação da economia global, a receptividade dos mercados à elevação da exposição ao risco e a consolidação dos fundamentos na maioria das economias emergentes. Nesse cenário, o Embi+ atingiu 341 pontos em 28 de fevereiro de 2005, o menor valor observado nos últimos cinco anos, enquanto os Embi+ da Rússia, Turquia, Brasil e Venezuela situaram-se em 179 pontos, 237 pontos, 391 pontos e 437 pontos, nessa ordem. Em comparação ao pico observado em 10 de maio de 2004, Março 2005 | Relatório de Inflação | 67 os prêmios de risco desses países declinaram 50%, 57%, 52% e 43%, respectivamente. Correções eventuais na trajetória dos prêmios, motivadas por realização de lucros, não estão descartadas, mas, excluindo-se a hipótese de choques relevantes nos mercados financeiros centrais, não há motivo para esperar, no médio prazo, uma reversão do cenário favorável vigente no mercado da dívida de economias emergentes. Emerging Markets Bond Index Plus (Embi+) p. b. 600 550 500 450 400 350 300 15.8 6.10 25.11 16.1 2004 8.3 28.4 17.6 9.8 28.9 17.11 7.1 28.2 2005 Fonte: Bloomberg Fluxos de capitais privados para países emergentes US$ bilhões 2003 2004 2005 1/ 2/ 1/ 1/ Out/04 Jan/05 Out/04 Jan/05 Conta-corrente 120,8 113,8 159,9 77,6 127,5 Capitais privados líquidos 210,7 225,9 279,1 229,4 275,9 122,5 137,6 165,3 142,7 176,6 Investimento direto 90,6 113,7 129,5 117,4 142,8 Portfólio 31,8 23,9 35,8 25,3 33,8 Ações Credores privados 88,2 88,3 113,8 86,7 99,3 Bancos comerciais 26,4 32,8 49,2 37,0 42,2 Não bancários 61,8 55,5 64,6 49,7 57,1 Fonte: IIF 1/ Previsão 2/ Estimativa Moedas – América Latina e Rússia 19.9.2003=100 120 110 100 90 80 5.9 24.10 12.12 30.1 19.3 10.5 28.6 16.8 4.10 22.11 10.1 28.2 2003 2004 2005 Rublo/Dolar Real/Dólar Peso mexicano/Dólar Fonte: Bloomberg Nesse sentido, o ambiente de ampla liquidez internacional também tem se traduzido na absorção de volumes crescentes de novas emissões de economias emergentes – soberanas e privadas – com maturidades cada vez maiores. O aumento do volume de captações e a extensão dos prazos têm sido observados em todas as regiões e setores, mas convém destacar as colocações bem sucedidas de papéis de trinta anos por economias latinoamericanas, que implicaram a elevação da maturidade média das emissões governamentais da região de 12,1 anos, em 2003, para 16,5 anos, nos três primeiros trimestres de 20043. Projeções divulgadas em janeiro pelo Institute of International Finance (IIF) indicam que os fluxos de capitais privados para economias emergentes em 2005 deverão experimentar redução de 1,1%, quando comparados aos fluxos de 2004, a despeito da previsão de crescimento de 6,8% dos investimentos estrangeiros diretos (IED) em 2005. Segundo o IIF, os fluxos relativos a investimentos em ações, a empréstimos bancários e a outros créditos privados deverão experimentar reduções de, respectivamente, 5,6%, 14,2% e 11,6%. Embora o comportamento esperado para os fluxos de capital em 2005 pareça contraditório, tanto em relação à evolução dos fluxos de capitais privados no ano anterior, quanto em relação ao quadro geral favorável descrito anteriormente, deve-se considerar que a estimativa referente a 2004 incorpora forte movimento de capitais especulativos para a China e para a Rússia no último trimestre daquele ano, em função de expectativas de apreciação das suas moedas frente ao dólar. As boas condições de oferta cambial e o otimismo prevalecente em relação a 2005 têm favorecido a continuidade, nos primeiros meses do ano, da tendência de apreciação de diversas moedas de países emergentes frente ao dólar norte-americano, inclusive de países asiáticos cujos 3/ BIS – Quarterly Review, dezembro de 2004, p.37. 68 | Relatório de Inflação | Março 2005 regimes cambiais vinham reiteradamente sustentando as cotações de suas moedas frente ao dólar. Moedas de países emergentes asiáticos 19.9.2003=100 120 110 100 90 80 5.9 24.10 12.12 30.1 19.3 10.5 28.6 16.8 4.10 22.11 10.1 28.2 2003 2004 2005 Won/Dólar D. Taiwan/Dólar Baht/Dólar RNB/Dólar Fonte: Bloomberg Cotações do dólar 120 110 100 90 80 5.9 24.10 12.12 30.1 19.3 10.5 28.6 16.8 4.10 22.11 10.1 28.2 2003 2004 2005 Iene/Dólar Euro/Dólar A redução do déficit do governo federal dos Estados Unidos nos primeiros meses do ano fiscal iniciado em outubro passado, a apresentação ao congresso de projeto de orçamento que propõe restrição de despesas no ano fiscal de 2006 e os primeiros movimentos políticos em relação à reforma do sistema previdenciário norte-americano favoreceram a apreciação do dólar frente às principais moedas de pagamento internacional. Esse movimento foi interrompido a partir de 11 de fevereiro, pela divulgação do elevado déficit comercial americano para dezembro. Nesse contexto, considera-se reduzido o risco de depreciação desordenada do dólar, na medida em que o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos e o seu crescente diferencial em relação às taxas prevalecentes na maior parte dos demais mercados financeiros de países desenvolvidos favorecem a sustentação do dólar no decorrer de 2005. Libra Esterlina/Dólar Fonte: Bloomberg 4.4 Comércio mundial EUA – Déficit comercial bilateral 1/ US$ bilhões 50 45 40 35 30 25 20 15 10 Jun 2002 Set Dez Mar 2003 Jun Set UE Dez Mar 2004 Jun China Set Japão Fonte: Bloomberg 1/ Média móvel trimestral. EUA – Déficit comercial por países e áreas selecionadas – 2004 Demais 15% Opep 11% 1/ América Central/Sul 2% Am. Norte 17% União Européia 17% Japão 11% China 23% Coréia 3% Fonte: U.S. Department of Commerce/Bureau of Economic Analysis 1/ A Venezuela está incluída somente na Opep. Dez Os fluxos de comércio internacional se desaceleraram no último trimestre de 2004, registrando-se deterioração do saldo comercial nos países da Área do Euro e no Japão. Essa tendência foi mais evidente nos Estados Unidos, cujo déficit comercial elevou-se a patamares históricos em outubro e em novembro. Na China, o comércio exterior seguiu tendência oposta, e as exportações se elevaram vigorosamente no trimestre, ante o arrefecimento da demanda doméstica por importações, refletindo as medidas de desaquecimento econômico adotadas nos meses precedentes. Além do recuo da demanda global, a apreciação do euro contribuiu para a redução no ritmo de crescimento das exportações dos países do bloco. A moderação nos preços das commodities, especialmente agrícolas, e a recuperação das economias locais foram responsáveis pela tendência declinante do superávit comercial em alguns dos principais países latino-americanos. As perspectivas são de que os fluxos de comércio mundial cresçam vigorosamente em 2005, porém a taxas inferiores às de 2004, de forma consistente com a redução prevista para o ritmo de expansão da atividade econômica global. Nesse sentido, o Banco Mundial estimou em 8,4% o crescimento do volume de comércio mundial em 2005, ante 10,2% em 2004. A estimativa do Fundo Monetário Março 2005 | Relatório de Inflação | 69 1/ Internacional (FMI) para 2005 comparativamente a 8,8% em 2004. China – Saldo comercial bilateral US$ bilhões 55 atinge 7,2%, 40 25 4.4.1 10 Commodities -5 -20 -35 Jun 2002 Set Dez Mar 2003 Ásia Jun Set Dez UE Mar 2004 Jun EUA Set Dez Japão Fonte: Bloomberg 1/ Média móvel trimestral. Indice de preço de commodities em DES 1995 = 100 130 As commodities metálicas mantiveram, no primeiro bimestre de 2005, o alto patamar de preços alcançado em 2003 e em 2004. A demanda chinesa permanece como o principal fator de pressão sobre esses preços, que deverão superar, em 2005, o patamar registrado no ano anterior. Essa perspectiva reflete o aumento de 3% no preço do cobre nos dois primeiros meses de 2005, atingindo a maior cotação nos últimos dezesseis anos, assim como o reajuste recente do minério de ferro que, em alguns contratos, atingiu 71,5%. 120 110 100 90 80 70 Jul 2002 Out Jan 2003 Abr Jul Out Jan 2004 Alimentos agrícolas Abr Jul Out Jan 2005 Metais Fonte: Fundo Monetário Internacional Após registrar forte recuo ao longo do segundo semestre de 2004 e atingir, em janeiro deste ano, a menor cotação desde junho de 2002, as cotações da soja em grão elevaram-se 20% em fevereiro, refletindo a quebra de safra na América do Sul, decorrente da longa estiagem. As previsões do mercado, no entanto, são de que as cotações da commodity não aumentem muito, dada a previsão de safra favorável nos Estados Unidos. O preço do café manteve trajetória ascendente nos dois primeiros meses do ano, acumulando alta de 15,5% no mercado futuro, diante da expectativa de oferta reduzida em 2005 e em 2006. O suco de laranja também poderá registrar forte valorização neste ano, devido à quebra de safra na Flórida. A cotação do açúcar, apesar de ter apresentado leve recuo em fevereiro, deve manter a tendência de alta iniciada em 2004, pois os estoques mundiais permanecem baixos e a demanda por álcool segue aquecida. 4.4.1.1 Petróleo O preço do barril de petróleo segue pressionado no primeiro bimestre do ano. A expectativa de uma demanda global maior que a previamente estimada, a depreciação do dólar, as reduções consecutivas do nível de produção mensal russa e o inverno rigoroso nos Estados Unidos, Europa e Ásia têm impedido o recuo das cotações da commodity. Petróleo – Mercado à vista US$ por barril 56 52 48 44 40 36 32 28 30.3 28.4 28.5 29.6 28.7 26.8 24.9 25.10 23.11 22.12 25.1 23.2 2004 2005 Brent WTI Fonte: Bloomberg 70 | Relatório de Inflação | Março 2005 Como a oferta e a demanda seguem ajustadas, nem mesmo fatores positivos, como a redução de 24% nas importações chinesas de petróleo em janeiro, ante as efetuadas no mesmo mês de 2004, ou a recuperação dos estoques mundiais de gasolina e óleo cru, têm sido suficientes para trazer maior tranqüilidade ao mercado. Assim, a cotação média do petróleo nos dois primeiros meses deste ano superou em aproximadamente 34% a registrada no primeiro trimestre do ano passado e, ainda, as cotações do petróleo no mercado futuro sinalizam a manutenção de preços elevados. Petróleo tipo Brent – Mercado futuro US$ por barril 52 50 48 46 44 42 40 Abr 2005 Jun 14.1.2004 Fonte: Bloomberg Ago Out 15.2.2004 Dez Fev 2006 4.5 Conclusão 1.3.2004 Os indicadores econômicos mais recentes, principalmente dos Estados Unidos e China, vêm confirmando que a atividade econômica mundial mantém o ritmo de expansão verificado no último trimestre de 2004, com impactos positivos na trajetória de crescimento sustentado da economia mundial no corrente ano. No entanto, persistem as incertezas quanto à ocorrência de alguns fatores de risco a esse crescimento, principalmente as relativas aos desequilíbrios estruturais nas principais economias mundiais, em especial nos Estados Unidos, cujos ajustes poderão limitar a expansão econômica global, e o comportamento volátil do preço do petróleo. No curto prazo, porém, persiste um cenário favorável para a evolução das taxas de juros internacionais, para o crescimento da economia dos Estados Unidos e do comércio internacional e para o dinamismo das economias emergentes. Essa perspectiva fundamenta-se na estabilidade das expectativas inflacionárias nas mais importantes áreas econômicas, o que propicia a evolução das políticas monetárias em padrão similar ao observado em 2004, de redução gradual de estímulos monetários. Março 2005 | Relatório de Inflação | 71