CONJUNTOS ÔMEGA-LIMITE PARA UMA CLASSE DE PERTURBAÇÕES DESCONTÍNUAS DA IDENTIDADE Marcos Luiz CRISPINO1 RESUMO: Será obtida uma condição suficiente para que a classe das componentes conexas de cada um dos conjuntos ômega-limite +(α) de Fα pelo intervalo [0,1], seja finita. Aqui, as funções Fα :[0,1]→[0,1] formam uma classe de perturbações descontínuas da identidade, e o parâmetro α pertence a um subconjunto de N. PALAVRAS-CHAVE: Sistemas dinâmicos discretos; equações de diferenças finitas. 1 Introdução Por causa da grande diversidade de aplicações, sistemas dinâmicos discretos e equações de diferenças finitas têm sido, ultimamente, objeto de interesse de grande número de pesquisadores. Balibrea et al. (2003) obtiveram uma caracterização dos conjuntos ômega-limite de funções Fα : [0,1]→[0,1] da forma F ( x, y ) = ( f 2 ( y), f1 ( x)) . Atratores para sistemas dinâmicos discretos periódicos foram estudados por Franke e Selgard (2003). Condições necessárias e suficientes para que a equação de diferenças finitas xn+1=βxn+g(xn) (onde g é uma função simples descontínua) tenha soluções de período 2k+1, 2m e (2k+1)2 m (onde k e m são inteiros positivos) foram obtidas por Yi e Zhou (2003). Neste artigo, será obtida, em primeiro lugar, uma condição suficiente para que a classe das componentes conexas de cada um dos conjuntos ômega-limite +(α), das funções Fα pelo intervalo [0,1], seja finita. Aqui, α = (α1, , α N ) pertence a um subconjunto de N, onde N ≥ 2 , e as funções Fα : [0,1]→[0,1] formam uma classe de perturbações descontínuas da identidade. Serão também deduzidas, a partir desta condição, propriedades importantes dos conjuntos +(α). 2 Notações e preliminares \ ∏∞ n=0 é o complementar do conjunto A relativamente ao conjunto . n é o produto cartesiano da família de conjuntos ( n)n∈ . 1 Departamento de Energia Nuclear, Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, CEP: 50740-540, Recife, PE, Brasil. E-Mail: [email protected] / [email protected] Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 7 Int( ), Cl( ), ∂( ) e D( ) são respectivamente o interior, o fecho, a fronteira e o conjunto dos pontos de acumulação do conjunto . Cl( ) é a classe das componentes conexas do conjunto . (x;r) é a bola aberta de centro x e raio r. ( ;r) é a bola aberta de raio r em torno do conjunto . µ( ) é a medida de Lebesgue do conjunto ⊆ . d(x,y) é a distância de x a y. d(x, ) é a distância de x ao conjunto distância do conjunto ao conjunto . seja: e d( , ) é a Seja N∈ , N≥2. Escolhida e fixada a partição ={s0, s1, ..., sN] do intervalo [0,1], ( )= ∏ Nj=1 ([− s j −1 ,1 − s j ] \ {0}) Em outros termos, ( ) é o conjunto dos vetores α=(α1, ...,αN)∈ seguintes condições: α j ≠ 0, j = 1, 2 , − s j −1 ≤ α j ≤ 1 − s j , N que cumprem as , N j = 1 , 2, ,N Para cada vetor α=(α1, ...,αN)∈ ( ), seja Fα : [0,1]→[0,1], definida do seguinte modo: Fα ( x) = x + α j , se s j −1 < x < s j , x, x = sj, se j = 1, ..., N j = 0, 1, ..., N As funções Fα formam uma classe de perturbações descontínuas da função identidade, a qual é indexada no conjunto ( )⊆ N. Os pontos de descontinuidade de Fα são os pontos da partição , que são também os pontos fixos das Fα. α, ), -(α α, ) são respectivamente as órbitas positiva e negativa de Fα pelo +(α conjunto . α,x), -(α α, x) são respectivamente +(α α,{x}), -(α α, {x}). +(α Bn(α α) é a classe das componentes conexas de Cl(Fαn([0, 1])), cujo interior é nãovazio. α) é o conjunto ômega-limite de Fα por [0,1]: +(α α)= +(α ∞ n =0 Cl(Fαn([0, 1])) Um conjunto ⊆[0,1] diz-se positivamente invariante, ou invariante por Fα quando Fα( )⊆ , e negativamente invariante por Fα quando Fα-1( )⊆ . α,x) é n-periódica, ou de período n, quando Fα n ( x) = x Seja n∈ , n≥1. Uma órbita +(α enquanto que Fα j ( x) ≠ x para j≤n-1. Uma órbita +(α α,x) diz-se não-periódica quando é um conjunto (enumerável) infinito. 8 Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 3 Resultados Lema 3-1: Seja ( ,d) um espaço métrico. Seja ( ) uma seqüência de subconjuntos não- vazios, compactos e conexos de com conjunto (não-vazio, compacto) conexo. n+1 ⊆ n para todo n. Então Demonstração: Supondo que seja desconexo, sejam não-vazios e disjuntos, de modo que: = 1∩ 1, 2 = ∞ n =0 n é um abertos-fechados em , (1) 2 O conjunto é compacto e, portanto, fechado. Sendo 1 e 2 fechados em , são (Lima, 1977, p.78) ambos fechados em . Como 1 ⊆ e 2 ⊆ , 1 e 2 são ambos compactos. Existem então conjuntos abertos disjuntos 1 , 2 ⊆ de modo que: j⊆ Para estes 1 , 2, 1 ∪ (2) j = 1, 2 tem-se: = O conjunto j, 1 2 sendo ∪ 2⊆ 1 ∪ (3) 2 aberto, existe (Dugundgi, 1966, p.225-6) n0∈ tal que: n ≥ n0 n⊆ 1 Seja n ≥ n0 arbitrário. n sendo conexo e 1, das afirmações mutuamente excludentes a seguir: n∩ 1= ∅ n∩ 2= ∅ Em virtude de (2) e do fato de ser ⊆ n, 1= ∅ n∩ 1= n∩ 2= ∅ n∩ 2= 2 1, 2 2 sendo abertos e disjuntos, vale uma tem-se: n∩ Ora, os conjuntos 1, Portanto, um dos conjuntos ∪ ∅ ∩ 1= ∅ ∅ ∩ 2= ∅ são disjuntos. Daí e de (1) segue 2 é vazio, contradição. ∩ j = j, j = 1, 2. Lema 3-2: Sejam ( ,d) um espaço métrico, ( n) uma seqüência de subconjuntos compactos não-vazios de com n+1 ⊆ n para todo n, e = ∞n =0 n. Então, ⊆ é uma componente conexa de se, e somente se, existe uma seqüência ( n)n∈ , com n ∈ Cn( n) e n+1 ⊆ n para todo n, de modo que = ∞ n=0 n. Demonstração: (i) Seja ∈ Cn( ) dada arbitrariamente. Como ⊆ ⊆ n para todo n, é, para todo n, um subconjunto conexo de n. Com efeito, é, para todo n, a imagem de in pela inclusão in → n, a qual é contínua. Por conseguinte, existe, para cada n, uma única componente conexa n de n tal que ⊆ n. Fica assim definida uma Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 9 seqüência ( n) : → = 0, 1, 2,... , tem-se: ∞ n =0 Cn( n+1 n ), ⊆ ⊆ com n, ∈ Cn( n n) para todo n. Como n+1 ⊆ n, n (4) n = 0, 1, 2, ... é, conforme o exposto anteriormente, um subconjunto conexo de n. Por isso, existe ∈ Cn( n) tal que n+1 ⊆ n. Para este n, tem-se ⊆ n+1 ⊆ n. Uma vez que vale também ⊆ n, tem-se: n+1 n ⊆ n. ⊆ n (5) n Como n, n são componentes conexas de n e é não-vazio, de (5) decorre Por conseguinte, a seqüência ( n) cumpre a condição: ⊆ Como ⊆ n ⊆ n ⊆ n+1 n, n = (6) n = 0, 1, 2, ... para todo n, de (6) resulta: ⊆ ∞ n =0 n ⊆ ∞ n =0 n (7) = Os n sendo componentes conexas dos n, são fechados em n, e, portanto, compactos. Logo, ( n) é uma seqüência de conjuntos compactos e conexos. Por (6) e pelo Lema 3-1, ∞n =0 n é um conjunto conexo. Resulta então de (7) e do fato de ser uma componente conexa de (e portanto um subconjunto conexo maximal de ) que: n ∞ n =0 = n (ii) Reciprocamente: Dada a seqüência ( n), com ( n) ∈ Cn( n) e n+1 ⊆ n para todo n, seja = ∞n =0 n. Pelo exposto no item (i) e pelo Lema 3-1, é compacto e conexo. Como ⊆ , existe uma única componente conexa de tal que ⊆ . Para este existe, conforme o item (i), uma seqüência ( n) ∈ ∏∞n =0 Cn( n) de modo que: n+1 ⊆ n, = ⊆ Do fato de ser ⊆ decorre n, n=0, 1, 2, ... , tem-se: ⊆ Sendo Portanto: n, n n ∩ ⊆ n, n=0, 1, 2, ... ∞ n =0 ⊆ ∞ n =0 n, n=0, 1, 2, ... Uma vez que vale também (8) n=0, 1, 2, ... componentes conexas de = n n = n, ∞ n =0 de (8) resulta n n = n para todo n. = o que conclui a demonstração. 10 Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 Observe-se que, para cada componente conexa ∞ n) ∈ ∏ n =0 ( ( n), ( Cn( n), com n+1 ⊆ n de existe uma única seqüência = ∞ n =0 para todo n, tal que n) são seqüências de subconjuntos de n∩ n para todo n. com = ∞ n =0 n = n. ∞ n =0 Com efeito: se n então ⊆ Lema 3-3: Sejam ( ,d), ( n) e como no Lema 3-2. Sejam p > 1 e 1, ..., p componentes conexas de . Então existe n0 ∈ de modo que, para todo n ≥ n0 , existem componentes conexas diferentes n(1), ..., n(p) de n tais que j ⊆ n(j), j = 1,..., p. Demonstração: Como os j, j = 1, ..., p, são componentes conexas de , são conjuntos compactos, pois são fechados em e é compacto. Assim sendo, para cada par de índices diferentes (i, j) ∈ {1, ..., p}2, tem-se d( i , j)>0. Seja: r = Min{d( i , j) : i, j =1, ... , p, i≠j} Em vista do exposto anteriormente, r > 0. Os j sendo compactos, as bolas abertas = ( j,r/2) são disjuntas duas a duas. Seja, para cada j ∈ {1, ..., p}, a seqüência ( n(j)) ∈ ∏∞n =0 Cn( n), (que existe, conforme o Lema 3-2) tal que: j = ∞n =0 n(j), j=1, ..., p. As bolas abertas j são conjuntos abertos que contêm j. Portanto, existe, para cada j=1, ..., p, (Dugundgi, 1966, p.225-6) m(j)∈ de modo que: j n ≥ m(j) n(j) ⊆ j Tomando n0 = Max{m(j) : j = 1, ..., p}, obtém-se: n ≥ n0 Como as bolas abertas disjuntas duas a duas. j n(j) ⊆ j, j = 1, ..., p. são disjuntas duas a duas, as n(j) são, para todo n ≥ n0, Lema 3-4: Seja ( ,T) um espaço topológico. Sejam U = ( 1, ..., n) uma classe finita de subconjuntos conexos não-vazios de e = n∞=0 j. Então, valem as seguintes propriedades: (a) A classe Cn( ) das componentes conexas de é finita, sendo o número de seus elementos menor ou igual a n. (b) Para todo ∈ Cn( ), tem-se = { ∈U: ⊆ }. Demonstração: Sendo os j conexos, existe, para cada j = 1, ..., n, uma única componente conexa j de tal que j ⊆ j. Fica então definida uma função G:U→ Cn( ), por G( j) = j, j = 1, ..., n. Dado ∈ Cn( ) arbitrário, seja x ∈ tal que x ∈ . Para este x, existe j = j(x) ∈ {1, ..., n} tal que x ∈ j. Como j é conexo e é uma componente conexa de , tem-se, pela maximalidade de , j ⊆ . Segue daí que G é sobrejetora. Como a classe U é finita, Cn( ) é também finita (Lima, 1995, Corolário 2, p.35), e o número de seus elementos é menor ou igual a n. Logo, a propriedade (a) segue. Seja ∈ Cn( ) dado arbitrariamente. É evidente que vale: Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 11 { ∈U : x∈ ⊆ }⊆ . (9) Em vista do exposto anteriormente, existe, para todo x ∈ , um conjunto e ⊆ . Portanto, De (9) e (10) resulta ⊆ { ∈U: ⊆ } = { ∈U: ⊆ }. ∈ U com (10) É importante lembrar aqui o significado do símbolo Bn(α): Bn(α) : { ∈ Cn(Cl(Fαn([0,1]))) : Int( )≠0} Lema 3-5: Dada a partição ={s0, s1, ..., sn} de [0,1], seja α=(α1, ..., αn) ∈ ( ) . Então, valem as seguintes propriedades: (a) Para todo intervalo aberto ⊆ [0,1] e para todo n ∈ existe um conjunto n = e existe uma classe finita Un = Un(α) de intervalos abertos de modo n(α) ⊆ { : ∈Un}. que Fαn( ) = n ∪ (b) Para todo n tem-se Fαn([0,1]) = ∪ são intervalos abertos. (c) A classe Cn(Cl(Fαn([0,1]))) é finita (d) Para todo y ∈ [Cl(Fαn([0,1]))]\ existe Demonstração: (i) Seja de Fα. Por esta razão, M (n) k =1 nk , onde os nk, k = 1, ..., M(n), ∈Bn(α) tal que y ∈ . ⊆ [0,1] um intervalo aberto. Os pontos sj ∈ Fα( )= Fα(( ∩ )∪( \ )) = ( ∩ )∪Fα( \ ) são pontos fixos (11) Do fato de ser: \ = N j =1 ( ∩(sj-1 , sj)) decorre: \ = P k =1 k, (12) onde P ≤ N e k é, para cada k = 1, ..., P, um intervalo aberto contido em (0,1)\ . A restrição Fα (sj-1 , sj) de Fα a (sj-1 , sj) é, para cada j = 1, ..., N, uma translação. Assim sendo, k = Fα( k) é, para todo k = 1, ..., P, um intervalo aberto. Decorre então de (11) e (12) que a propriedade (a) vale para n = 1. Admitamos que a propriedade (a) seja válida para n ≥ 1. Sejam então n ⊆ e Un={ n1, ..., nM} uma classe finita de intervalos abertos de modo que Fαn( ) = n ∪ Mj=1 nj. Tem-se: Fαn+1( ) = Fα(Fαn( )) = n ∪ Mj=1 Fα( nj) (13) Decorre de (13) e do exposto anteriormente que (a) é válida para n+1. Por conseguinte, (a) é válida para todo n≥1. Para n = 0, (a) é evidente. Logo, (a) é verdadeira para todo n∈ . 12 Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 (ii) Para provar (b), é suficiente aplicar a propriedade (a) já demonstrada à expressão: Fαn([0,1]) = ∪ N j =1 Fαn(sj-1 , sj). Por (b), existe, para cada n, uma classe finita { abertos tal que Fαn([0,1]) = ∪ kM=1( n ) nk . Portanto: Cl(Fαn([0,1])) = ∪ M (n) k =1 Cl ( nk : k = 1, ..., M(n)} de intervalos nk). De (14) e do Lema 3-4 decorre (c). Resulta também de (14) a igualdade: [Cl(Fαn([0,1]))]\ = kM=1( n ) ([Cl( nk)]\ ) Os nk sendo intervalos abertos, (d) segue. (14) (15) Teorema 3-6: Seja ={s0, s1, ..., sn} uma partição de [0,1]. Dado α ∈ ( ) , suponhamos que exista c = c(α) > 0 de modo que Min{µ( ) : ∈Bn(α)} ≥ c para n = 0, 1, 2, ... Nesta condição, valem as seguintes afirmações: (a) A classe das componentes conexas do conjunto ômega-limite +(α) de Fα por [0,1], é finita. (b) Existe n0∈ tal que, para todo n≥n0, Cn(Cl(Fαn([0,1]))) e Cn( +(α)) têm o mesmo número de elementos. Demonstração: (i) Pelo Lema 3-5, Cn(Cl(Fαn([0,1]))) é finita para todo n. Seja então Kn, n = 0, 1, 2, ..., o número de componentes conexas de Cn(Cl(Fαn([0,1]))). Resulta também do Lema 3-5 que, se ∉Bn(α) então ⊆ . Portanto, Cn(Cl(Fαn([0,1]))) possui, no máximo, N+1 componentes conexas de interior vazio. Pela condição do enunciado anteriormente, Cn(Cl(Fαn([0,1]))) possui, no máximo, 1/c componentes conexas de interior não-vazio. Em conseqüência, o conjunto {Kn : n ∈ é um subconjunto limitado de . Seja K o maior elemento do conjunto {Kn : n ∈ . Sendo +(α) = ∞ n n =0 Cl(Fα ([0,1])), resulta do Lema 3-3 que Cn( +(α)) é finita, e o número de seus elementos não excede K. (ii) Pela propriedade (a) já demonstrada, Cn( +(α)) é finita. Sejam então: Cn( +(α)) = { 1, ..., M} = {[a1,b1], ..., {[aM,bM]} ρ = Min{d( i, j) : i, j ∈ {1, ..., M}, i≠ j}. Sendo os j = [aj,bj] compactos, ρ>0. Logo, Min{ρ/2,c/2}>0. O conjunto dos extremos aj, bj dos intervalos j é finito. Logo, é possível obter r ∈ , 0<r< Min{ρ/2,c/2}, de modo que, para cada j = 1, ..., M, vale: ( ( j;r)\ j)∩[0,1] = ((aj-r,aj)∪ (bj,bj+r)) ∩ [0,1] ⊆ [0,1]\ (16) Seja então r ∈ (0, Min{ρ/2,c/2}) tal que (16) é satisfeita. Existe (Dugundgi, 1966, p.225-6) m1 ∈ tal que: Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 13 N ≥ m1 Cl(Fαn([0,1])) ⊆ M k =1 ( k ,r) (17) Pelo Lema 3-3, existe m2 ∈ de modo que existem, para todo n ≥ m2, componentes n conexas diferentes n1, ..., nM de Cl(Fα ([0,1])), tais que: k⊆ nk ⊆ ( k,r), k=1, ..., M (18) Seja n0=Max{m1,m2}. Dado n ≥ n0 , sejam n1, ..., nM componentes conexas diferentes de Cl(Fαn([0,1])) tais que (18) é satisfeita. Admitamos que Cl(Fαn([0,1])) possua alguma componente conexa diferente das n1, ..., nM. Sendo n ≥ m1, tem-se, conforme (17), ⊆ kM=1 ( k,r). Pela escolha de r feita anteriormente, as bolas abertas ( k,r) são disjuntas duas a duas. Portanto, existe um único k ∈ {1, ..., M} tal que ⊆ ( k,r). Para este k, tem-se também k ⊆ nk ⊆ ( k,r). Uma vez que ≠ nk , ∩ nk = ∅ , donde ∩ k = ∅. Assim sendo, ⊆ ( k,r)\ k. Como ⊆ [0,1] , tem-se: ⊆( ( k,r)\ k) ∩ [0,1] = ((ak-r,ak) ∪ (bk,bk+r)) ∩ [0,1] (19) Por (19) e pela escolha de r feita anteriormente, ⊆ [0,1]\ , logo Int( ) ≠ ∅, conforme o Lema 3-5. Pela hipótese do enunciado, µ( ) > c. Por outro lado, sendo conexo, tem-se ⊆ (ak-r,ak) ou ⊆ (bk,bk+r), donde µ( ) ≤ r < c/2, contradição. Daí segue a propriedade (b). Teorema 3-7: Seja α ∈ ( ), onde é uma partição do intervalo [0,1]. Suponhamos que Cn( +(α)) é finita. Então Int( +(α)) é não-vazio e positivamente invariante. Demonstração: (i) Para todo n ≥ 1, o conjunto n(α), dos x ∈ [0,1], para os quais a órbita +(α,x) é n-periódica (note que 1(α)= ), cumpre Fα( n(α)) = n(α), e portanto n(α) = Fαk( n(α)) ⊆ Cl(Fαk([0,1])) para todo k. Logo n(α) ⊆ +(α), para todo n ≥ 1. De acordo com o Teorema 4-1 de Crispino (1996, p.291), n(α) é aberto para todo n ≥ 2. Portanto, se n(α) ≠ ∅, para algum n ≥ 2, então Int( +(α)) é não-vazio. Se, por outro lado, n(α) é vazio para todo n ≥ 2, então existe, conforme o Corolário 4-8 de Crispino (1996, p.297), x∈[0,1] tal que +(α,x) é um conjunto (enumerável) infinito. Para este x, seja y∈ D( +(α,x)). Seja (yj) : → +(α,x) uma seqüência infinita (a qual existe) de modo que lim(yj)=y. Para cada j, existe (nj) ∈ tal que yj = Fαn(j)(x). A seqüência (yj) sendo infinita, o conjunto {n(j) : j ∈ } é infinito. Existe então uma seqüência (m(j)) em tal que m(j) < m(j+1) e lim Fαn(j)(x) = y. Logo, y ∈ +(α). Como y é arbitrário, segue D( +(α,x)) ⊆ j →∞ +(α). Pelo Teorema 4-5 de Crispino (1996, p.295), D( +(α,x)) é um conjunto infinito. Como Cn( +(α)) é finita, pelo menos uma das componentes conexas de +(α) é um intervalo de interior não-vazio. Logo, (a) segue. (ii) Dado arbitrariamente x ∈ Int( +(α)), admitamos Fα(x) ∈ ∂( +(α)). Então Fα(x) ≠ x, logo x∈[0,1]\ (de fato, se fosse x∈ ter-se-ia Fα(x) = x). Sendo Int( +(α)) e [0,1]\ ambos abertos, existe r > 0 de modo que: (x-r,x+r) ⊆ Int( +(α)) ∩ [0,1]\ 14 Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 Para este r, (x-r,x+r) ⊆ (sj-1,sj) para algum j ∈ {1, ..., N}. Logo, Fα((x-r,x+r)) = (x+aj-r,x+aj+r) = (Fα(x)-r, Fα(x)+r) Pelo Teorema 4-1 de Crispino (1997, p.842), +(α) é positivamente invariante. Por isso, (Fα(x)-r, Fα(x)+r) = Fα(x-r, x+r) ⊆ +(α). Por outro lado, da hipótese Fα(x) ∈ ∂( +(α)) segue (Fα(x)-r, Fα(x)+r)/ +(α) ≠ ∅, contradição. Logo, x ∉ ∂( +(α)). Pela invariância de +(α), tem-se Fα(x) ∈ +(α). Portanto, Fα(x) ∈ Int( +(α)). Daí conclui-se que Int( +(α)) é positivamente invariante. Corolário 3-8: Suponhamos Cn( +(α)) finita. Então, para todo x ∈[0,1] com infinita, existe m(x) ∈ tal que: n ≥ m (x ) +(α,x) Fαn(x) ∈ Int( +(α)) Demonstração: A fronteira ∂( +(α)) de +(α) é um conjunto finito. Portanto, se +(α,x) é infinita, então D( +(α,x)) ∩ Int( +(α)) ≠ ∅ (de fato, D( +(α,x)) é um conjunto infinito contido em +(α)). Assim sendo, existe y ∈ D( +(α,x)) ∩ Int( +(α)). Uma vez que Int( +(α)) é aberto, existe u ∈ +(α,x) ∩ Int( +(α)). Por conseguinte, Fαm(x)(x) ∈ Int( +(α)) para algum m(x) ∈ . Pelo Teorema 3-7, Int( +(α)) é positivamente invariante. Logo, n ≥ m(x) Fαn(x) ∈ Int( +(α)). Observações 3-9: (a) Para demonstrar a invariância positiva de Int( +(α)), (item (ii) da prova do Teorema 3-7) não é necessário supor Cn( +(α)) finita. Portanto, Int( +(α)) é, em qualquer caso, positivamente invariante. (b) Para todo y ∈ [0,1], Fα-1({y}) é um conjunto finito. Com efeito, existe, em cada intervalo (sn-1,sn) da partição , no máximo um ponto xn tal que Fα(xn)=y. Decorre daí (por indução em n) que Fα-n({y}) é, para todo n, um conjunto finito. Logo, se ⊆ [0,1] é um conjunto finito, então Fα-n( ) é finito para todo n. (c) Dado ⊆ [0,1], seja p ∈ . Sendo Fα-(q+1)( ) = Fα-1(Fα-q( )), tem-se, por indução em n: Fα-(p+1)( ) ⊆ Fα-p( ) Fα-(p+m)( ) ⊆ Fα-p( ), m=1, 2, ... Logo, Fα-(p+1)( ) ⊆ -(α, )= p n =0 Fα-n( ) (d) Se Fα-1(∂( +(α))) ⊆ +(α), então Fα-1(∂( +(α))) ⊆ ∂( +(α)), pois Int( +(α)) é, conforme o Teorema 3-7, positivamente invariante. (e) Dado n ∈ , seja x ∈ [0,1], tal que Fαn+1(x) ∈ ∂( +(α)), enquanto que Fαn(x) ∈ [0,1]\ ∂( +(α)). Suponhamos Fαk(x) ∈ +(α) para algum k ≤ n. Então Fαn(x) ∈ +(α), pela invariância positiva de +(α). Sendo Int( +(α)) positivamente invariante, não se pode ter Fαn(x) ∈ Int( +(α)), donde Fαn(x) ∈ ∂( +(α)). Desta contradição resulta Fαk(x) ∈ ∂( +(α)) para k = 0, ..., n. Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 15 Teorema 3-10: Seja α ∈ ( ), onde é uma partição do intervalo [0,1]. Suponhamos Cn( +(α)) finita. Nesta condição, a órbita negativa -(α,∂( +(α))) de Fα por ∂( +(α)) é um conjunto finito. Demonstração: Suponhamos -(α,∂( +(α))) infinita. Sendo Cn( +(α)) finita, ∂( +(α)) é também finita. Então (Observação 3-9-b) Fα-n(∂( +(α))) é, para todo n, um conjunto , finito. Logo, se fosse Fα-(n+1)(∂( +(α))) ⊆ Fα-n(∂( +(α))) para algum n ∈ (α,∂( +(α))) seria (Observação 3-9-c) um conjunto finito. Por conseguinte, a hipótese feita anteriormente leva a: Fα-(n+1)(∂( +(α)))\Fα-n(∂( +(α))) ≠ ∅, n = 0, 1, 2, ... que: Portanto existe (Observações 3-9-d e 3-9-e), para cada n ∈ (20) , xn ∈ [0,1], de modo Fαn+1(xn) ∈ ∂( +(α)) Fαk(xn) ∈[0,1]\ Seja = Fα-1(∂( +(α)))\ compacto, tem-se: +(α). +(α), (21) k=0, ..., n é um conjunto finito não-vazio. Sendo r=d( , +(α)) > 0 Uma vez que que: +(α) n≥m = ∞ n =0 +(α) (22) Cl(Fαn([0,1])), existe (Dugundgi, 1966, p.225-6) m ∈ Fαn([0,1]) ⊆ Cl(Fαn([0,1])) ⊆ ( +(α),r/2). , tal (23) Para este m existe, conforme o exposto anteriormente, xn ∈ [0,1] que cumpre, para n = m, as condições (21). Sendo Fαm+1(xm) = Fα(Fαm(xm)), Fαm(xm) ∈ Fα-1(∂( +(α))) (pois Fαm(xm) ∈ ∂( +(α)), conforme (21). Como Fαm(xm) ∈ [0,1]\ +(α), tem-se: Fαm(xm) ∈ e portanto: d(Fαm(xm), +(α)) ≥ d( , +(α)) = r Por outro lado, de (22) resulta: Fαm(xm) ∈ Desta contradição decorre que -(α, +(α)) ( +(α),r/2) é um conjunto finito. Teorema 3-11: Na condição do Teorema 3-6, valem as seguintes afirmações: (a) Int( +(α)) é não-vazio e positivamente invariante. (b) Para todo x ∈ [0,1] com -(α,x) infinita, existe m(x) ∈ tal que Fαn(x) ∈ Int( +(α)), qualquer que seja n maior ou igual a m(x). (c) A órbita negativa -(α,∂( +(α))) de Fα por ∂( +(α) é um conjunto finito. 16 Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 Demonstração: Com efeito, na condição do Teorema 3-6, a classe Cn( +(α)) das componentes conexas de +(α) é finita. Portanto, do Teorema 3-7, do Corolário 3-8 e do Teorema 3-9 segue o enunciado anteriormente. CRISPINO, M.L. Omega-limit sets for a class of discontinuous perturbations in the identity. Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004. ABSTRACT: In this work, we deduce a sufficient condition for the finiteness of the classes of connected components of the omega-limit sets +(α α) of functions Fα by the interval [0,1]. Here, functions Fα : [0,1]→[0,1] form a class of discontinuous perturbations in the identity map. KEYWORDS: Discrete dynamical systems; finite difference equations. Referências BALIBREA, F. et al. On limit sets of antitriangular maps. Topol. Appl., Amsterdam, 2003 (No prelo). BERGE, C. Espaces topologiques. Paris: Dunod, 1959. 272p. CRISPINO, M.L. Dinâmica de uma classe de perturbações descontínuas da identidade. In: SEMINÁRIO BRASILEIRO DE ANÁLISE, 44., 1996, Ribeirão Preto. Anais... Ribeirão Preto, Sociedade Brasileira de Matemática, 1996. p. 279-99. __________. Dinâmica de uma classe de perturbações descontínuas da identidade II. In: SEMINÁRIO BRASILEIRO DE ANÁLISE, 45., 1997, Florianópolis. Anais... Florianópolis, Sociedade Brasileira de Matemática, 1997, t.2, p.835-48. DUGUNDGI, J. Topology. Boston: Allyn and Bacon, 1966. 447p. FRANKE, J.E.; SELGRADE, J.F. Attractors for discrete deriodic dynamical systems. J. Math. Anal. Appl., San Diego, v.286, p.64-7, 2003. LIMA, E.L. Espaços métricos. Rio de Janeiro: IMPA, CNPq, 1977. 294p. __________. Curso de análise. Rio de Janeiro: IMPA, CNPq, 1995. v.1, 344p. YI, T.; ZHOU, Z. Periodic solutions of difference equations. J. Math. Appl., Amsterdam, v.286, p. 220-9, 2003. Recebido em 06.06.2002. Aprovado após revisão em 07.02.2003. Rev. Mat. Estat., São Paulo, v.22, n.1, p.7-17, 2004 17