Dança do Sabonete
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
1 Um Sonho Perfeito
2 Castelos na Areia
3 Hora do Prazer
4 Pequenas Esperanças
5 A Dura Realidade
6 Descobrindo Guimarães
7 Nova Identidade
8 Participação no IV SIACOT
9 Viagem a Itália
10 Esperando Papai Noel
11 O Presente Surpresa
12 A Oportunidade Tão Esperada
13 O Grande Impacto
14 Sedução e Encantamento
15 O primeiro Dia do Resto de Nossas Vidas
16 Registros Poéticos da Emoção
17 Um Natal em Família
22 Apresentando Paris
Apresentação
As alegrias, tristezas, decepções e dificuldades da vida de um
homem que não desistiu de encontrar o amor verdadeiro, os
primeiros relacionamentos afetivos, a primeira namorada, o
primeiro amor e a semelhança com a referência feminina
amada na adolescência.
A Escola de Artes, o primeiro emprego como artista gráfico
na empresa de arquitetos, engenheiros, economistas,
geógrafos, historiadores e médicos que estudavam na
Europa, os bailes pró-formatura dos colégios, o primeiro
amor, a primeira musa, a sensibilidade das primeiras
poesias.
O primeiro escritório, os problemas políticos criados pela
revolução político-militar de 1964, a Comissão de Reforma
Agrária da cidade do Rio de Janeiro, a separação do seu
amor e a decisão de morar em Paris.
As condições financeiras para viajar, morar e estudar na
Europa, a tristeza e o prazer de comunicar ao seu amor a
decisão da viagem, da mudança de vida, de escola, de bairro,
de cidade, de estado, de pais, de hemisfério.
A viagem e o inevitável impacto de desembarcar na França, a
gare de trens e a emoção de dizer: “Paris, si vous plait”. O
apartamento no bairro Quartier Latin, o repertório cultural nos
domingos açucarados de acesso grátis ao Museu do Louvre, o
trabalho no escritório de arquitetura e viagem para conhecer a
Escola de Arquitetura de Grenoble e o CRATerre, na França.
A viagem para Roma, o trabalho na RAI, Rádio e Televisão
Italiana, o Curso Superior de Desenho Industrial, a entrevista
com o diretor da escola: “tu sei un bravo artista” e a experiência
de ser professor e morar na Piazza Navona.
A cidade de Barcelona e as imagens da Catedral da Sagrada
Família, a Pensió Real, a Rambla de las Flores, a Plaza de La
Catalunya, a Plaza Cristobán Colombo e os ícones da
arquitetura de Gaudí.
O retorno para o Brasil, o encontro com a família, o trabalho no
Governo do Estado de São Paulo, a Universidade, o
casamento, as filhas, a separação e o divórcio. O projeto de
arquitetura e a construção do Grande Hotel, no Centro Oeste,
financiado pela Empresa de Turismo, as Normas Técnicas, a
Pós Graduação, a universidade do nordeste, a coordenação da
faculdade de arquitetura.
O Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra em
Portugal, o Reitor da Universidade, as surpresas nas
inscrições, os Anais do Congresso e o novo autor do Artigo
Técnico. A falsa autoria do Presidente da Comissão de Ética do
Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de
São Paulo, o professor Said, a cidade de Guimarães e o Plano
de Pesquisa do Curso de Pós Doutorado junto ao
Departamento de Engenharia Civil da Uminho.
O desinteresse dos organismos governamentais e a
desistência do Brasil, a cidadania italiana: “Cei tutto perfetto,
alora tu sei um bravo citadino italiano”. A mudança para
Guimarães, o apartamento, o encontro da mulher ideal, a
surpresa do divórcio e a oportunidade esperada para encontrar
a felicidade.
1 - SONHO PERFEITO
Depois de observar atentamente as atividades de Carlos, um
engraxate que trabalhava no Largo Ubirajara, resolvi montar
minha caixa de engraxate para trabalhar nos finais de semana
ao lado da minha casa. Uma experiência que estimulou meu
pai trocar o emprego de tecelão para montar uma barraca de
macarrão e bolachas nas feiras livres, onde descobri o gosto e
a vocação para desenhar.
Os cursos de Desenho de Propaganda, Artes Gráficas no
SENAI, Desenho, Pintura e Gravuras na FAAP que
possibilitaram o primeiro emprego de desenhista na
SAGMACS, escritório de arquitetos, engenheiros, economistas,
médicos, sociólogos que estudavam na Europa.
Os comentários interessantes, curiosos e engraçados sobre os
acontecimentos que surgiram durante os eventos educacionais,
técnicos ou turísticos, que, mesmo trabalhando, não podia
deixar de ouvir e participar, despertando curiosidade e desejo
de fazer a mesma viagem.
Depois do movimento revolucionário político-militar de março
de 1964, minhas relações pessoais, profissionais e estudantis
ficaram prejudicadas, me obrigando sair de São Paulo para
trabalhar em Cuiabá, como chefe do Setor de Desenhos do
Governo do Estado de Mato Grosso.
Retornando um ano depois para chefiar a equipe de
desenhistas do Escritório do Consórcio das empresas HMD
que iniciava os trabalhos para implantar o Projeto do
Metropolitano de São Paulo, METRO, à noite trabalhava com a
equipe de arquitetos que projetava o Teatro Municipal da
cidade de Santos para a PRODESAN, criando condições
financeiras para aceitar o “velado” convite para deixar o Brasil e
morar, estudar e trabalhar na Europa, mais especificamente na
cidade de Paris, França, que meus amigos da SAGMACS
comentavam.
Chegando à Paris, consegui um trabalho no escritório de
arquitetura de André Lengaigne, fui estudar na Aliança
Francesa e nos domingos, colocava pedrinhas de açúcar nos
bolsos do casaco para me alimentar, enquanto enriquecia meu
repertório cultural no Museu do Louvre.
Quando acabaram os projetos do escritório, depois de
conhecer o centro de tecnologia de Grenoble, na França, viajei
para Roma e fui trabalhar na RAI, Radio e Televisione Italiana,
e estudar desenho na Escola Superior de Desenho Industrial,
no resultado dos testes o diretor Romulo Gianinni comentou:
“Tu sei um bravo artista!”, me convidava para ser professor de
Desenho Gráfico no 1º ano do Curso e morar num apartamento
do prédio em que morava, na Piazza Navona. Depois de um
ano em Paris e um ano em Roma, voltei para São Paulo para
cursar a universidade.
Assim que cheguei ao Brasil, além do emprego, comecei a
namorar a mulher dos sonhos juvenis, que preenchia os lindos
modelos armazenados no meu repertório de imagens, era a
namorada que sonhava para ser a companheira definitiva.
A imagem feminina, de beleza tão sonhada, agora estava ao
meu lado, cabelos bem penteados, maquiada, bem vestida,
roupa da moda com grife, perfumada, unhas pintadas, sapatos
bem cuidados, desenvolvendo propostas inteligentes e naturais
para a vida, aversiva ao cigarro, bebidas e drogas.
Sempre muito simpática com todos os meus familiares,
participava nas festas dos meus familiares, não importava
saber de quem era a festa, desde o aniversário de um sobrinho
distante até o casamento do irmão, colaborando, fazendo sala,
ajudando na cozinha, fazendo “nossa” presença uma ordem
para a próxima festa. Com propostas objetivas bem definidas
sobre a política, economia e projetos sociais, uma militante
estudantil fervorosa e participativa. Sempre bem vestida, era
atraente, charmosa, fogosa e parecendo ser insaciável
sexualmente, o que me deixava extremamente curioso e
sedento para vivenciar aquele monumento de mulher.
Os amigos e a família comentavam sobre a namorada,
sugerindo maior seriedade no compromisso, para começar
uma vida mais familiar. Acreditei. O namoro se intensifica, os
carinhos vão ficando íntimos, ousados, com maior prazer,
vivenciados com a mulher tão sonhada, iniciava a fase mais
intensa do namoro.
As viagens, os passeios e as festas não podiam passar do
horário imposto pelos seus pais, em consequência disso, os
programas não eram devidamente aproveitados, começando a
incomodar os dois adultos, que desejavam viver, mais
intensamente uma vida a dois. Uma forma de ficar livre desses
limites incômodos seria assumir a grande decisão de formarem
um casal, para deixar de terem seus destinos limitados e
controlados pelos pais da namorada.
A decisão é tomada em conjunto, o casamento está marcado, a
cerimônia do casamento, que não podia ser na igreja, por que
ela não acreditava na religião católica, esquecendo seus
familiares e os meus que acreditavam e ficaram ressentidos
com aquela decisão. Um detalhe importante que não dei a
devida importância. Durante a festa, o juiz leu o livro de registro
civil e emitiu a certidão de casamento e viajamos para a lua de
mel.
2 – CASTELOS NA AREIA
Para viver o sonho idealizado deixamos de perceber, ou não
queremos perceber, importantes detalhes da personalidade da
representante do modelo projetado. Na viagem de lua de mel
surgiram novas características da “mulher ideal”, na primeira
discussão sobre suas atitudes na nossa convivência. Assim
que assinou o livro do Registro Civil, comemorava com alegria
sua liberdade, depois de mudar para nosso apartamento,
começava a mudar seus comportamentos naturais,
demonstrando ser outra pessoa. Na verdade, comecei a ficar
preocupado com o erro que estava cometendo, dois dias antes
do casamento, depois de oferecer como presente de
casamento, um corte de tecido tropical inglês, com um desenho
xadrez em preto, cinza e branco, gigantes e maravilhosos, de
extremo bom gosto, juntamente com o design do modelo de
roupa que tinha desenvolvido.
Produzi a embalagem com papelão colorido, duas pirâmides
que se encaixavam pela base, onde coloquei o presente, assim
que nos encontramos, entreguei o presente e as poesias,
trocamos muitos beijos, carinhos e abraços, ela abriu o
presente, leu as poesias, depois ficou tentando abrir a
embalagem, com alguma ajuda, conseguiu separar as
pirâmides, achou o tecido, olhou, deu um sorriso amarelo e
colocou de lado. Nunca usou o tecido para fazer nada.
Ainda tinha presente na memória as linda imagens das cidades
de Paris, Roma, Veneza, Barcelona e a convivência com o
povo europeu, fiquei preocupado com seu reduzido repertório
cultural, apesar da sua beleza física e da postura política,
econômica e social.
Na volta da lua de mel, numa linguagem bem vulgar, o caldo
iria engrossar, nos momentos em que o namorado conhece a
namorada em toda sua essência: A utilização do banheiro, a
higiene pessoal, as roupas íntimas, espalhadas pelo chão do
banheiro, ou penduradas na torneira do chuveiro, a cozinha, o
fogão, a louça suja na pia, a geladeira, o lixo, a louça das
refeições sobre a mesa, a sala e o quarto de dormir ao
levantar.
A organização dos gastos para a casa, a programação de rádio
e a decisão de “proibir” televisão no apartamento! Estava
morando com outra mulher. Comecei a perceber que a vida a
dois não seria fácil nem gostosa, como um dia sonhei. A
namorada meiga, doce, carinhosa, alegre, organizada,
penteada e perfumada, depois de casada, estava
irreconhecível, um lindo sonho que virou pesadelo.
Argumentando que, pelo simples fato de estarmos casados e
sempre juntos, não era importante estar sempre arrumada,
perfumada, agradável e meiga. A namorada se produz para
ficar 3 ou 4 horas, exclusivamente com o namorado, agora isso
não era necessário, pois estavam juntos 24 horas por dia.
Ouvia tudo aquilo paralisado, sem saber como contraargumentar ou responder, estava atônito e sem saber como
reagir. Dois meses depois do casamento, a namorada que
tinha me seduzido, encantado e casado tinha se transformado
em outra pessoa. Restava seu comportamento noturno, a
cerimônia da preparação para dormir, com máscaras, cremes,
rolos de plásticos cobertos com lenços estranhos. Tudo isso
em cima de um corpo bonito, vestido com pijama sensual e
charmoso, ela se travestia numa estranha criatura, sem
nenhum charme. Estava deitando com um verdadeiro ET. Não
há sensualidade ou excitação que resista.
Na manhã seguinte, ao acordar, ela se transformava
novamente, bem vestida e bem produzida para ir à faculdade,
de onde retornava no final da noite, cansada, irritadiça e
sempre com dor de cabeça, perguntando pelo seu jantar,
depois tomava um banho e se transformava de novo para
dormir, numa rotina enlouquecedora.
Nessa época, trabalhava no Palácio do Governo, durante o
período da tarde, permanecia em casa todas as manhãs e
noites ouvindo o rádio, sonhando com a televisão “proibida”,
preparando as refeições e fazendo palavras cruzadas. Aos
sábados acordávamos um pouco mais tarde, depois dela tomar
seu banho e tirar suas máscaras e rolos do cabelo, acontecia
alguns momentos de sexo semanal. Ufa!
Antes de sairmos para passar o final de semana na casa dos
pais dela, fazíamos compras no supermercado ou na feira,
raros momentos que surgia a antiga namorada, que
rapidamente se modificava quando encontrava com seus pais e
seus amigos, quando ela voltava a ser a filha e amiga de antes
do namoro. Admirava sua transformação sem falar nada,
aquela pessoa que um dia namorei, nunca mais apareceu.
Seu comportamento num dia normal: 8 horas ela dormia
fantasiada, 12 horas ela ficava na faculdade, e nas 4 horas
restantes, tomava banho, passava cremes, enrolava cabelos,
conversava, discutia e brigava comigo, sobre qualquer assunto.
Era aquela estranha convivência que tinha trocado pela minha
liberdade, poder conviver com os meus amigos, com minha
família, minhas namoradas, além de deixar de viajar, que
sempre foi minha grande paixão.
A minha expectativa do relacionamento a dois, em nada se
assemelhava àquilo. Era simplesmente tudo o que não queria
num casamento. Creio que ninguém queria. Quando não tinha
aula e o prazer poderia ser maior, era o momento em ela me
convidava para visitar seus pais, almoçar e jantar, sem que ela
precisasse fazer a comida e lavar a louça, argumentando que
na casa dos seus pais tinha televisão, que segundo os
conceitos dela, limitava os horizontes do ser humano.
Assistir futebol nos estádios, nem pensar. Concordava com
tudo aquilo, sem saber o que ou como fazer, na minha
ingenuidade achava que os casamentos eram assim, fazia
todos os tipos de concessões, até quando brigava com ela, em
detrimento das mínimas exigências, tudo em favor do
entendimento e paz no relacionamento.
No terceiro mês, para não me sentir numa prisão de luxo,
comecei a sair sozinho para fazer compras, entrar num cinema,
procurar amigos e amigas, que já tinham casado, ou estavam
namorando. Apesar daquela solidão, ainda não tinha procurado
antigas namoradas, e muito menos olhava para outras
mulheres com intenções de envolvimento, um comportamento
normal de um homem sozinho. Acreditava no casamento, achei
que tudo não passava de uma fase de adaptação, que um dia
deveria ter um fim. Depois de seis meses, comecei a
questionar meu comportamento como um todo e resolvi acabar
com aquela farsa, delicadamente, sem conversar e sem brigar,
apenas pedi para ela sair do apartamento e voltar para a casa
dos seus pais, para repensar o casamento.
Ela pouco discutiu, contra argumentou de maneira muito frágil
e aceitou a minha decisão, voltou a morar na casa dos seus
pais, por quarenta dias. Depois percebi que, coincidentemente,
eram os dias de férias na sua faculdade, quer dizer, ela não
tinha necessidade de se deslocar do bairro onde moravam
seus pais, para ir à faculdade, no outro lado da cidade, fazer
comidas e lavar a louça.
Alguns dias antes de começarem as aulas, minha sogra veio
me visitar e pedir para reconsiderar a decisão, nem que fosse
para fazer a separação definitiva, mas que tivesse uma
conversa mais séria com a sua filha. Numa conversa franca e
amigável, expliquei os problemas surgidos durante o
casamento, suas ausências, sua comodidade, a falta de tempo
para namorar, com os quais, a sogra concordou. Deixei bem
claro as exigências para aceitar novamente.
No dia seguinte ela veio me visitar, utilizando os mesmos
trejeitos da namorada, fazendo uma representação digna de
indicação ao Oscar de melhor atriz, no papel do modelo da
namorada, depois de uma longa conversa, séria, franca e
decisiva, ela concordou e aceitou todas as minhas exigências,
e voltou para iniciar nova convivência.
A temporada artística daquele “novo relacionamento” não
durou mais do que quatro meses, aos poucos, voltava ao seu
comportamento “normal”. Resistindo muito, procurando
algumas soluções e saídas alternativas, e sem encontrar,
continuava a sair sozinho, fazendo as comprar e me divertindo
com os amigos. Nem o sexo, que no começo era quase bom,
tinha ficado frio e distante, a justificativa era a mesma. Ficava
ouvindo, olhando e participando de tudo aquilo, sem saber o
que fazer.
Aparentemente, para fugir da autoridade dos seus pais,
utilizava a autorização que o casamento fornecia, depois de
conseguir, não sabia o que fazer com o casamento. Quando
ela chegava da faculdade, ficava imaginando namorar, abraçar
e beijar, num relacionamento sexual fantástico e maravilhoso,
mas acabava assistindo as cenas da entrada no apartamento,
comer alguma coisinha, trocava algumas palavras, deixava a
louça para lavar, tomava seu banho, se mascarava e se
colocava na cama para dormir sozinha.
Quando o homem mora sozinho, não tem estímulos sexuais ao
assistir o desfile de lingerie sensual, provocativa e surrealista
pela casa antes de dormir. Perplexo e sem acreditar no que
estava acontecendo, novamente, tinha me transformado em
seu empregado doméstico. Resolvi que a partir daquele dia,
somente cuidaria da louça que eu usava, não lavaria mais a
sua louça, que ficava acumulada, em cima da pia, para ela
lavar no final da semana. Uma imagem desastrosa.
Preocupado e incomodado com a abstinência sexual, depois
de muita insistência minha, estudamos outras formas para
fazer sexo, sem que ela estivesse irritada, sensível ou com
dores de cabeça. A primeira tentativa foi fazer sexo pela
manhã, quando ela estaria descansada e sem nenhuma
irritação. Era preciso acordar mais cedo, para tirar seus
apetrechos de dormir, excedendo, quase sempre, o horário
limite para ela sair de casa. Não deu certo.
3 – HORA DO PRAZER
Com raras exceções, o sexo acontecia nas manhãs de sábado,
aos domingos era impossível, sempre amanhecíamos na casa
dos pais dela. Ela sugeriu a tentativa de marcar data e hora,
para conseguir ter o prazer semanal, dessa forma ela poderia
se preparar, conscientemente ou inconscientemente, para estar
comigo, e não ficaria tão sensível na hora do sexo.
Na primeira oportunidade com data marcada, me preparei, fiz
uma comida especial, vinho na mesa, banho tomado, perfume,
excitado, coloquei uma roupa sensual, procurava uma música
bonita na rádio, e aguardando o momento dela chegar. Em
alguma hora da noite ela chegaria.
Ela chegou, entrou em casa com cara de poucos amigos,
chateada, pois acontecera alguma coisa na faculdade, que ela
não esperava, e dessa forma, ela não iria conseguir relaxar.
Não pergunte como é que eu ficava. Acabei jantando sozinho,
tomando muito vinho para conseguir dormir. A tentativa
também não deu certo. Marcar hora para fazer sexo é algo
surrealista. Predominava a tentativa do sexo aleatório, isto é,
acontecia quando surgia a oportunidade.
Numa das festas da sua faculdade, conversando com os
maridos das amigas dela, procurei saber como eles resolviam
esse tipo de problema, como era a sua relação com as
esposas. Surpreendentemente descobri que, ninguém tinha
esse tipo de problema, todos transavam duas ou três vezes por
semana, fora os finais de semanas. Parece que só eu tinha
sido escolhido a mulher errada.
Uma noite comentei a história dos maridos das suas amigas,
disse para me procurar quando estivesse descansada, pouco
sensível e sem dor de cabeça, mas com desejos sexuais, como
eu estava sempre disponível e com desejos, não haveria
problemas de rejeição. Ela concordou imediatamente, esse
comportamento gerou total desinteresse pelo sexo. Agora seu
comportamento era outro, parecia estar livre de um castigo, de
um sofrimento, ela se sentia muito mais solta e muito menos
compromissada. Com esse comportamento, atingimos a marca
de 45 dias sem sexo. Não me pergunte como resistia a tudo
aquilo, não saberia explicar.
De uma maneira geral, o sexo acontecia, em média, a cada 30
dias, um caixa de preservativos com 12 unidades durava mais
de um ano! Quase perdia a validade.
4 – PEQUENAS ESPERANÇAS
Depois de uma festa de aniversário, ela me procurou para fazer
sexo. Fazia 45 dias que isso não acontecia. Depois de
aproveitar a oportunidade sexual, quase bimestral, calmamente
expliquei, de forma figurada e com muito bom humor, que tinha
comprado a caixa com doze preservativos, estava durando
quase um ano e meio, foi quando ela esbravejou: “Não me diga
que você está contando?”
Tentando não ser muito rude, pois ela poderia me castigar a
ficar mais três meses sem sexo, respondi brincando, que a
verba do preservativo precisava ser remanejada e poderia ser
repassada para a verba da cerveja ou do vinho, uma vez que
não estava sendo bem utilizada. Quer dizer, a última tentativa
também não funcionou.
Numa das relações bimestrais, ela acabou engravidando, e
veio comunicar, argumentando, exatamente no mesmo dia e
hora em que pedia para ela voltar para a casa dos seus pais. E
agora seria de forma definitiva.
Com esse forte argumento, ela me colocou numa das situações
mais incríveis e inimagináveis que já tinha vivido. O que fazer
agora. Aceitava ela de volta grávida, ou mandava para seus
pais. Afinal a criança era minha, pelo menos acreditava nisso.
Pensando na criança, de novo, acabei concordando. Foi outro
erro estratégico, utilizava a última das minhas fantasias: com o
nascimento da criança, ela seria obrigada a dedicar mais do
seu tempo para com seu filho, e com isso, ficaria um tempo
maior dentro de casa. Durante a gravidez, sua vida não mudou
em nada, depois do nascimento, no primeiro período de
amamentação, comprei um carro novo para ela ir à faculdade e
voltar para amamentar o bebe, de três em três horas. Quando
terminou o período de amamentação, quem fazia a mamadeira
e alimentava a criança era minha mãe.
Depois que minha mãe foi embora, a empregada alternava
comigo a preparação e alimentação da criança, trocar as
fraldas e colocar para dormir, dando liberdade para ela voltar a
ficar o dia inteiro fora de casa. Todas as noites quem fazia a
mamadeira e trocava as fraldas era eu. Mas eu gostava, era
uma distração e uma nova companhia, agora tinha com quem
ficar em casa. Talvez tenha sido a verdadeira intenção em
deixar que ela ficasse em casa. Companhia.
As crianças choram muito nos primeiros meses, a nossa
criança chorava quase 18 horas por dia, fomos consultar um
médico gastroenterologista, pois o pediatra achava que deveria
haver algum problema com a digestão da criança. Depois da
consulta, percebendo que a criança nada tinha de anormal, o
médico perguntou sobre as atividades da mãe, e acabou
receitando colocar uma colher de azeite na mamadeira,
sugerindo que a criança cobrava maior presença da mãe junto
dela com o choro. Nem por isso ela mudou seu
comportamento.
No verão tinha vendido a casa para comprar um terreno no
litoral para construção de um pequeno hotel para melhorar
minhas condições financeiras. Ela concordou em vender a
casa, desde que alugasse um apartamento grande, com linda
decoração e que tivesse piscina.
Nos finais de semana, levava a criança para tomar sol na
piscina e assistia as mulheres do prédio desfilarem de biquíni.
Era delicioso, mas tinha um problema: o que fazer com aquela
excitação. Durante as costumeiras discussões e ponderações
sobre a abstinência sexual de um homem casado, ela chegou a
me sugerir: “Porque você não procura outra mulher?” Apesar
de tantos problemas de convivência, comportamentos,
abstinência sexual e relacionamento pessoal, nasceram mais
duas crianças, aumentando, sobremaneira a minha
responsabilidade, pois ela continuava fora de casa, tinha
concluído a faculdade, agora tinha o seu consultório e o seu
emprego. Para que ela pudesse honrar todas suas obrigações
fora de casa, ela sugeriu e aceitei morar com os pais dela, para
que alguém cuidasse das crianças, que não a empregada.
Morávamos na mesma casa, eu, ela, três crianças, avô, avó e
uma bisavó, além da empregada. Com o passar dos tempos,
ficava radical sua transformação, se caracterizando como uma
mulher que precisava sair de casa, definir seus limites com
maior liberdade, e o casamento impunha parâmetros que ela
resolvia de forma pessoal e individual, não importando o que
estava acontecendo com o marido e com os filhos, e agora
com seus pais.
5 – DURA REALIDADE
Depois de alguns anos de muita confusão com os avós, e com
as crianças mais crescidas, voltamos a morar sozinhos. Numa
tarde, ela veio calmamente me pedir para sair da casa, recebi a
“ordem” aos prantos, não por ela, mas pelas minhas filhas,
argumentei que era ela quem deveria ficar fora, uma vez que
ela sempre do lado de “fora” de casa, seria mais normal a sua
saída.
Muito brava, ponderava que o lugar da mãe é com as filhas!
Quando a mãe fica em casa, respondi. No retorno da minha
viagem a Mato Grosso, para não sentir o grande impacto de
sair da casa, fiquei no apartamento que tinha construído no
quintal do escritório do hotel que estava construindo no Centro
Oeste, onde passei a morar.
Depois de 90 dias de tristeza, lágrimas e bebidas, num
domingo de sol de folga da minha obra, fui para a praia e
comecei a olhar e “ver” a beleza da praia, das mulheres, da
natureza e das alegrias da vida, novamente. Parei de chorar e
de beber, comecei a colar os cacos do casamento, na verdade
estava me preparando para uma nova vida, que até poderia
incluir uma pessoa, mas ocupava meu tempo nas obras dos
hotéis, nas viagens e na pós-graduação. Acostumado à
pressão do casamento, estranhava a liberdade de viajar e não
avisar ou combinar datas e horários com ninguém, mas
estranhava voltar para casa vazia e sem ninguém para me
receber. Nos finais de semana, quando as crianças ficavam na
minha companhia, preparava a churrasqueira, a carne, as
saladas e as bebidas, comportamento que mudou quando fui
morar para cuidar da doença da minha mãe.
Nos almoços de sábados na casa da minha mãe, preparava
bife de contra filé, frito com ovo a cavalo, salada de alface,
tomate e ovo cozido e como sobremesa, minha mãe o ensinou
a fazer o pudim de leite condensado, com ovos e leite, e para o
lanche procurava variar entre o Mc Donalds, as pizzas e as
Esfihas.
Nos almoços dos domingos, comprava na feira, frutas,
verduras, saladas, mariscos e ricota, preparava ravioles de
ricota, como aperitivo teria os mariscos cosidos, pudim de
sobremesa, um verdadeiro banquete. As crianças me
ajudavam em tudo, uma verdadeira integração, que nunca
houve na casa da minha ex-mulher. Depois do almoço, lavava
a louça, com uma ou outra criança, comprava o jornal, ficava
conversando, jogando ou brincando com as crianças até a hora
do jantar, depois com muita tristeza, levava as crianças de
volta para a casa da minha ex-mulher.
Esse comportamento mudou quando minha mãe, depois de
ficar muito doente, veio a falecer, quando decidi concluir minha
pós-graduação e desenvolver a montagem do Workshop
Internacional de Arquitetura de Terra. Depois de defender a
Tese de Doutorado e trabalhar um longo ano como professor
de projetos na universidade particular do nordeste brasileiro,
realizando antigo sonho de ajudar as pessoas, morar em frente
à praia, desfrutando do sol e da linda natureza. Tive enorme
decepção como homem e professor, o preconceito
demonstrava a satisfação com a vida que levam. A pobreza e a
seca é assunto produzido pela mídia do sudeste. Depois de um
longo e interminável ano, voltei e fui trabalhar como
coordenador do curso de arquitetura de uma universidade
particular na cidade de São Paulo, minha primeira experiência
acadêmica, fora da sala de aula e das disciplinas de projetos
de arquitetura, de percepção e representação das formas, e
criatividade.
Um dos professores, “meu amigo” de faculdade nos anos 1970,
foi demitido de uma grande universidade, convidei para
trabalhar comigo. Dois dias depois de ser contratado, o “meu
amigo” professor me convida para participar no Congresso
Internacional de Arquitetura de Coimbra, em Portugal. Além de
dinheiro, precisava solicitar permissão à Reitoria para me
ausentar da faculdade durante a realização do evento.
O “meu amigo” professor sugeriu encaminhar o resumo de um
artigo técnico baseado na síntese do meu trabalho de
doutorado. Preparei o trabalho que o professor, depois de
formatar atendendo as exigências da Secretaria do Congresso,
encaminhou. Não tinha passado um mês, o “meu amigo”
professor informava que o resumo do trabalho tinha sido aceito,
e agora se fazia necessário preparar e encaminhar o trabalho
técnico para fazer a inscrição no congresso.
Emocionado e surpreso repensava a possibilidade de voltar à
Europa e participar no meu primeiro Congresso Internacional
de Arquitetura. Em paralelo com o trabalho da universidade,
tinha concluído um estudo preliminar do Projeto de Arquitetura
para a construção do condomínio da cooperativa dos
metroviários, cuja remuneração ajudaria na compra das
passagens, mas ainda precisava da autorização do Reitor, da
verba para hospedagem e inscrição no congresso.
Em agosto completava 12 meses como coordenador,
melhorando o curso, montando novos cursos e projetando a
nova distribuição física das salas de aulas, além de criar o
projeto do campus. Tinha participado do congresso estadual de
arquitetos no Rio de Janeiro, juntamente com esse mesmo
professor “meu amigo”, com todas as despesas pagas pela
Reitoria, que não concordou na participação do congresso de
arquitetura em Minas Gerais. Mesmo assim resolvi encaminhar
um Memorando Interno ao Pró Reitor, solicitando autorização
para me ausentar durante 16 dias da coordenação do curso
para viajar e participar no Congresso Internacional de
Arquitetura de Coimbra, e uma ajuda de custo para viagem,
inscrição e estadia. Anexei uma cópia do e-mail que a
Secretaria do Congresso havia encaminhado, confirmando o
aceite do trabalho e convocação para fazer a inscrição.
Alguns dias depois, a secretária do Reitor me convoca para
uma reunião, autorizando minha ausência da Coordenaria do
Curso por 16 dias para participar do congresso e liberou uma
verba de US$ 4,000.00 para despesas sem comprovantes. A
única exigência do Reitor era conseguir um convênio com
alguma universidade portuguesa.
Com lágrimas nos olhos, muito emocionado abracei o reitor e
agradeci muito pela oportunidade, afirmando, que nunca tinha
sido reconhecido pelo meu trabalho, voltei para minha sala,
onde fiquei sentado em frente ao computador, digerindo a
notícia, nem fui almoçar. E precisava? Ás 18,00 horas
chegavam os alunos e os professores para cumprimentar, e
todos, sem exceção, perceberam um brilho especial nos meus
olhos, uma euforia nas minhas palavras.
Quando “meu amigo” professor veio me cumprimentar,
comentei que ele estava autorizado a participar do Congresso
de Coimbra com parte das despesas pagas pela universidade.
Estava dividindo o prêmio recebido pela minha dedicação, com
o “meu amigo professor”. Muito feliz por voltar à Europa depois
de tantos anos, aquela era a minha primeira oportunidade de
conhecer Portugal e rever as cidades que tinha morado, além
de participar de um Congresso Internacional de Arquitetura.
Depois de viajar para Milão, devidamente alojados, ofereci
1.000,00 € em dinheiro para ele, como pagamento de parte das
despesas que a Reitoria tinha oferecido. Meio sem graça,
recusou receber, preferindo que eu pagasse as despesas
durante a viagem, aceitei e saímos em direção à Piazza
Duomo para ver a Catedral de Milão, e no caminho fui parando,
comprando e pagando doces e chocolates para os dois, depois
na Piazza Duomo, no prédio da Galeria Rinascente fomos
jantar uma bela macarronada com vinho, na saída ele me pediu
dinheiro para comprar um “brioche” de 0,70 €, estranhando sua
atitude, pois parecia mais um filho do que companheiro de
viagem.
Não consegui rever Veneza, Nápoles, Roma, Florença, Verona,
Siena, entre outras cidades italianas, no final de semana
viajamos para Lisboa, onde conheci a Gares Oriente, terminal
rodo-ferroviário projetado e construído com a linda arquitetura
do Santiago Calatrava. Amanheceu segunda feira, dia da
Abertura do Congresso, viajamos de trem para Coimbra, no
horário que perderíamos a Abertura do Congresso feita pelo
Reitor de Universidade de Coimbra, que tinha marcado a
reunião para entregar alguns documentos e conversar sobre o
convênio.
Fiquei muito irritado com ele, pois saímos uma semana antes
de São Paulo e ainda assim conseguimos perder a Abertura
Oficial do Congresso. Depois do almoço de boas vindas e
confraternização oferecida pela Secretaria do Congresso,
emocionado com a beleza da arquitetura da universidade, fui
conversar com o reitor da universidade.
Na reunião levei o “meu amigo”, que adotou um
comportamento estranho, de quem tinha marcado a reunião,
postura relaxada e sem nenhum respeito, falava e dava
gargalhadas em voz alta, conduzindo a reunião, até que o reitor
perguntou para ele a pauta da reunião, muito sem jeito “meu
amigo” me passou a palavra, apresentei minhas desculpas pelo
comportamento dele e entreguei os documentos e solicitava
um convênio com a minha universidade. O reitor agradeceu e
ficou de marcar nova reunião, que não aconteceu. De novo
irritado com seu comportamento, fomos à Secretaria pagar as
inscrições e receber os Anais do Congresso, e procurar o artigo
técnico impresso, quando encontrei, entendi porque a alegria
do professor não tinha sido tão grande quando recebeu a
notícia de que eu participaria do congresso.
O Artigo Técnico, que seria apresentado no congresso, síntese
da minha Tese de Doutorado e 30 anos de pesquisa, estava
impresso e apresentava o primeiro autor, o professor “meu
amigo”, me colocando como segundo autor e uma professora
que fez a tradução do texto indicada como terceira autora, uma
atitude constrangedora que gerou um enorme desconforto
entre nós.
Com outro agravante, o “meu amigo” professor resolveu não
apresentar o trabalho, justificava que seu inglês era deficiente,
ele esqueceu que tinha sido convidado e concordado ser
apresentador de duas salas do congresso, em inglês. Ele não
queria apresentar o trabalho porque não saberia esclarecer
eventuais dúvidas no final da apresentação, que deveriam ser
encaminhadas para mim, demonstrando, em público, sua falsa
autoria.
Depois de muita pressão, “meu amigo” professor não
participava do congresso para ficar no hotel, treinando
apresentar o trabalho num tempo maior do que 25 minutos, que
era o tempo máximo permitido pela comissão. Depois da
confusa leitura do trabalho, no intervalo, o professor “meu
amigo” me procurava com alguns congressistas com dúvidas e
conhecer o autor do trabalho. No mesmo dia “meu amigo”
professor remarcou sua passagem antecipou seu retorno para
São Paulo, para evitar maiores constrangimentos, segundo o
“bilhete” que deixou escrito sobre a minha cama. Não deixei
“meu amigo” professor sair do hotel sem me devolver as
despesas que tinha feito com ele, dos brioches às refeições,
passando pelas estadias e viagens. Assisti às apresentações
restantes e na visita técnica a cerâmica, oferecida pelo
congresso. Depois das despedidas, o apresentador da sala,
professor Said, me convidou para conhecer sua universidade e
conversar sobre o convênio. Na manhã do dia seguinte que
terminou o congresso, viajei de trem para a cidade de
Guimarães, conhecer a Universidade do Minho o
Departamento de Engenharia Civil.
6 – DESCOBRINDO GUIMARÃES
Chegando à Guimarães me hospedei no Hotel Ibis, próximo ao
terminal de ônibus nacionais e internacionais, no centro
comercial da cidade ao lado do maior supermercado de
Guimarães, o Continente. No dia seguinte, pela manhã, fui
conversar com o Professor Said, conhecer seu Departamento e
sua universidade para tratar do convênio entre as
universidades.
Depois fui conhecer a cidade de Guimarães, localizada ao
norte de Portugal, em meios às suas igrejas, jardins, praças,
muitas pastelarias, que na verdade são doceiras, pequenos
restaurantes, diversas pensões e seus cafés, com suas mesas
e cadeiras nas calçadas, sempre ocupadas. A esquina do
quadro de anúncios fúnebres, os jornaleiros, os engraxates que
se oferecem para limpar os sapatos dos fregueses, que ficam
em pé e encostado na parede enquanto seus sapatos são
limpos e polidos, o mercado da cidade, os supermercados,
além da enorme quantidade de estudantes da Universidade do
Minho, que circulam pela cidade.
Guimarães é uma cidade muito antiga, com um lindo e antigo
centro histórico que tem muitas flores e vegetações rasteiras,
grandes árvores com folhagens coloridas, muito bonitas, que
oferecem um peculiar perfume aos seus parques e jardins. A
cidade desenvolveu-se em torno do seu centro histórico, que
apresenta uma arquitetura antiga bem característica. A grande
maioria dos jovens que moram em Guimarães são estudantes
da Universidade do Minho, que tem outro Campus na cidade
de Braga. Isso fica muito evidente quando da festa dos
calouros, a enorme quantidade de jovens com suas grandes
capas negras e os chapéus triangulares.
Guimarães era uma cidade muito bonita, com lindo castelo que
tem numa das suas paredes, em frente à Praça Don Fernandes
Henrique, o texto “AQUI NASCEU PORTUGAL”, com um lindo
jardim, que termina na igreja Nossa Senhora dos Últimos Dias.
O centro histórico apresenta uma infinidade de ruas pequenas
e estreitas, recheadas de casas pequeninas e médias, com
seus muros de pedras.
Na parte externa ao centro histórico, a cidade tem uma
equilibrada mistura entre as arquiteturas antigas e modernas,
com casas muito bonitas, algumas bem grandes, mas todas
muito bem cuidadas. Numa tarde entrei numa pastelaria para
comprar um determinado pastel de amêndoas, o atendente
disse que não tinha, os que estavam na vitrine tinha sido
produzidos no dia anterior. Era o mesmo pastel que um dia
tinha comprado e fiquei comendo durante quatro dias, ficava
um pouco mais duro a cada dia, mas continuava muito bom.
Decidi respeitar e não comprei, mesmo sendo do dia anterior,
pois era quase indiferente depois de amanhecido, respeitava o
profissionalismo do pasteleiro.
Voltando ao Brasil e a minha faculdade, por toda a empatia
desenvolvida junto ao professor Said, e pela indiferença das
outras universidades, resolvemos optar pelo convênio com
universidade Uminho de Guimarães. Os fatos que aconteceram
no Congresso de Coimbra repercutiram aqui no Brasil, depois
de muita pressão, “meu amigo” professor, solicitou demissão, e
antes de sair organizou um movimento junto ao Reitor e
professores objetivando minha saída, predominava sua versão
da história, afinal ele estava Presidente da Comissão de Ética
do CREA SP, e no mês seguinte, após o Reconhecimento da
Faculdade pelo MEC, fui afastado da Coordenação do Curso
de Arquitetura e Urbanismo, e depois de seis meses fui
demitido da Coordenação dos dois cursos superiores. Preparei
um longo documento que demonstrava e comprovava as
atitudes do “meu amigo” professor, antes, durante e depois do
Congresso de Coimbra e apresentei ao CREA-SP, depois de
alguns meses recebi uma ADVERTÊNCIA por colocar em risco
a atividade do arquiteto “meu amigo”./ Presidente da Comissão
de Ética do CREA-SP!!! Com muita indignação, elaborei uma
resposta fazendo uso das palavras do Ruy Barbosa: “De tanto
ver crescer as nulidades, de ver crescer as injustiças.....tenho
VERGONHA DE SER HONESTO”.
Na viagem à Guimarães para tratar do convênio, o professor
Said sugeriu que eu preparasse um Plano de Pesquisa para
apresentar no curso de Pós Doutoramento do Departamento de
Engenharia Civil. Por outro lado, os últimos acontecimentos em
São Paulo me estimularam morar, estudar e trabalhar na
cidade de Guimarães. Não queria apenas mudar de cidade,
precisava mudar de vida, começar tudo de novo e precisava
me organizar.
Para estudar e trabalhar em Guimarães precisava morar em
Portugal, com bolsa de estudos ou cidadão europeu com
condições de se manter na cidade. Depois de alguns meses,
utilizei o mesmo o Plano de Pesquisa para a Universidade
Uminho, para solicitar uma Bolsa de Auxílio na Fundação de
Apoio a Pesquisa do Estado de São Paulo.
7 – NOVA IDENTIDADE
“Estratto dei Registri degli Atti di Nascita”
Como alternativa, procurei pela advogada Savian que cuidava
da alteração dos sobrenomes dos meus pais nos documentos
necessários para obtenção da minha cidadania italiana. Os
dois últimos documentos que faltavam era a Certidão de
Nascimento do meu avô, o “Estratto dei Registri degli Atti di
Nascita”, na cidade Cremona, onde meu avô havia nascido, e a
“Mancata”, o Atestado do Ministério da Justiça comprovando
que meu avô não havia sido naturalizado brasileiro.
Estava de posse da Certidão de Casamento do meu avô,
Certidão de Nascimento do meu pai, Certidão de Casamento
do meu pai, Atestado de Óbito do meu pai e da minha mãe,
com os nomes retificados e os meus documentos. A advogada
Savian, encaminhou a documentação para Dra. Incerti,
advogada que trabalhava na cidade de Vinhedo, que
encaminharia para o Consulado Italiano de Campinas fazer a
tradução, junto a um Tradutor Juramentado, e depois
legalizaria a tradução junto ao Consulado Italiano.
Nesse momento a FAPESP apresenta a resposta NEGATIVA
ao meu pedido de bolsa, alegando a falta de interesse técnico
e de público interessado. Depois da minha graduação na FAU,
cansei de tentar colocar o sistema construtivo de projetar e
construir as moradias ecológicas, econômicas e com elevada
qualidade tecnológica junto às associações, cooperativas,
organizações não governamentais, organismos municipais,
estaduais e federais, sem nenhum sucesso.
Seria incompatível que a Fundação de Estudos e Pesquisas
pudesse oferecer uma Bolsa de Estudos para aprimorar a
tecnologia de construção ecológica que os organismos
governamentais não faziam nenhuma questão de utilizar para
atender a demanda do povo. A negativa da bolsa de estudos
era a última gota que faltava para transbordar. Eu queria sair
daqui, aliás, eu precisava sair daqui.
Com a documentação concluída, traduzida e legalizada, tinha
condições para dar entrada no Consulado Italiano, em São
Paulo, onde compareci com advogada Savian. A fila de espera
para os interessados apresentar documentação e solicitar a
cidadania era de 15 anos. Comentei o fato com a advogada
Incerti, de Vinhedo, que dizia que alguns clientes dela deram
entrada na documentação diretamente na Itália, para solicitar
cidadania italiana.
Informava o e-mail de um cliente que conseguiu a cidadania
morando na Itália, depois de algumas trocas de e-mails, seu
cliente informava os passos que ele tinha dado: além de viajar
para a cidade de Perugia, me indicava todos os órgãos da
cidade, seus respectivos endereços, bem como os nomes das
pessoas para fazer o Contrato de Moradia e a Residência. No
mês junho de 2005, a minha documentação estava completa,
inclusive a “mancata”, tornando possível planejar a viagem
para Itália. Naquele mesmo mês, o Departamento de
Engenharia Civil da Universidade do Minho da cidade de
Guimarães, comunicou o aceite do meu Plano de Pesquisa
para o Curso de Pós Doutorado, e para completar minha
alegria, tinha sido convidado a participar do IV SIACOTSeminário Internacional de Construções em Arquitetura de
Terra, em Reguengos de Monsaráz, no Alentejo, sul de
Portugal, que seria realizado de 7 a 12 de setembro de 2005.
A participação no Seminário exigia um Artigo Técnico, escolhi a
síntese da Tecnologia de Construção Ecológica em Arquitetura
de Terra, o novo design dos blocos que permitem fazer seu
assentamento através de simples encaixes, horizontais,
verticais, anteriores e posteriores, sem a necessidade de
utilizar argamassa, cola ou barro que tinha indicado para as
construções dos apartamentos da cooperativa de Guarulhos.
Na verdade era o mesmo design de bloco que tinha proposto
elaborar para a pesquisa de Pós-Doutorado na Uminho.
Atendendo a sugestão do meu orientador, para testar os
encaixes do novo design, produzi algumas miniaturas dos
blocos em madeira balsa. Depois de diversas experiências,
cheguei ao formato definitivo, e para avaliar sua utilização
preparei 12 maquetes, em escala para conferir os encaixes, os
dois furos, necessários para passagem das tubulações e
fiações, fazendo ajustes necessários para produção grande
escala.
O BTC, Bloco de Terra Compactada não era muito conhecido e
difundido na Europa, para demonstrar a “massa, a qualidade e
a aparência” do bloco de terra compactada, levei como amostra
um bloco de terra prensada das minhas obras. Além da
apresentação das imagens técnicas do trabalho, o Congresso
permitia a exposição de um cartaz síntese da apresentação do
trabalho apresentado, nas dimensões de 100 x 70 centímetros,
para ficar exposto na sala de Amostras durante a realização do
evento. Preparei a viagem para final do mês de agosto de
2005, comprei a passagem pela Swissair, que fazia escala em
Zurique.
Durante o voo pela Alitália de Zurique e Lisboa, foi oferecido
um pequeno sanduíche e um suco, ao desembarcar procurei o
ônibus urbano que me deixaria no terminal rodo-ferroviário da
Gare Oriente, procurei um dos seus restaurantes do Shopping
Vasco da Gama para almoçar um delicioso bacalhau assado,
com purê de batatas, maionese e cerveja preta superbook.
Depois da linda viagem de 4,00 horas cheguei a Guimarães.
Na viagem anterior tinha me hospedado no Hotel das Trinas,
onde fui me hospedar por aquela noite, na manhã seguinte saí
para procurar a Secretaria da Universidade do Minho, que me
encaminhou para o Setor de Alunos estrangeiros, para assumir
a reserva do meu apartamento no Alojamento, externo ao
Campus da Universidade.
Em seguida fui conversar com o professor Said, mostrei o
trabalho que seria apresentado no Seminário, juntamente com
todas as maquetes de madeira balsa e o bloco original, ele
ficou satisfeito e disse que eu tinha ido além da sua expectativa
com o design dos blocos e achou o bloco da obra uma
verdadeira maravilha. Somando minhas despesas em
Guimarães, gastava 300€ de aluguel, 150€ de alimentação na
universidade e nos restaurantes, com viagens, 50€, visitando
França, Itália e Espanha. Jantando em casa, gastava 500€,
somando um valor equivalente a R$ 1.250,00, metade dos R$
2.500,00 que gastava com a minha moradia em São Paulo.
8 - Participação no IV SIACOT Seminário Íbero-Americano
de Construções com Terra
Dois dias antes de iniciar o Seminário Internacional, viajei para
a cidade do Porto, depois até Lisboa para pegar um ônibus
para Évora, de onde saia um ônibus para Monsaráz. Chegando
ao Convento de Orada, um espaço maravilhoso que tinha uma
arquitetura muito antiga, totalmente restaurada, apresentando a
implantação dos seus espaços em torno de um jardim de forma
quadrada e na parte externa, nos fundos do Convento, uma
parte era um jardim e uma parte livre, onde encontrei os
participantes iniciando a parte prática do Seminário: a
preparação da mistura de terra, a prensagem dos tijolos, a
construção de uma pequena parede com alvenaria, e a
construção de uma pequena cobertura em arco.
Depois de concluídos os trabalhos práticos, a coordenadora do
evento me levou até o hotel indicado pela Secretaria do
Seminário que eu tinha feito a reserva, nesse caminho a
arquiteta Mariana, coordenadora do evento, me informou que
depois da abertura oficial feita pelas autoridades portuguesas,
o meu trabalho técnico foi escolhido para fazer Abertura e
Primeira Apresentação Técnica do III Seminário Internacional
de Arquitetura de Terra, uma notícia que me deu muita alegria
e satisfação, ao mesmo tempo, muita tensão.
A decisão da coordenadora se deu ao fato da informação que
ela tinha sobre o meu trabalho profissional, o meu currículo
apresentava maior quantidade de área construída de
arquitetura ecológica do Brasil e a segunda metragem
construída no mundo. Precisava me preparar para a
apresentação da manhã seguinte, repassar o texto e imagens,
conferindo alguns detalhes para a palestra, estava eufórico
com a notícia de da Abertura do Seminário Internacional.
Na manhã seguinte, depois do café da manhã, coloquei uma
linda gravata e meu terno de coordenador e fui até a praça, no
local marcado pela secretaria do seminário, para aguardar o
ônibus que levaria todos os participantes do seminário, que
estavam alojados nos demais hotéis localizados no caminho do
centro da cidade até o Convento de Orada. A cada parada do
ônibus subiam vários participantes, encontrei diversos amigos,
alguns de São Paulo, o Márcio Hofmann, um ex-aluno de Santa
Bárbara d´Oeste, o Norberto, professor da Faculdade do
Recife, Jorge Miguel, professor português que conheci no
congresso de Coimbra, a Célia Alves, pesquisadora do Ceped,
da Bahia, e Hugo Houban, professor do Craterre, de Grenoble,
França, que aceitou meu convite e veio participar no Workshop
Internacional sobre Arquitetura de Terra apresentado na
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, evento que organizei
logo após a apresentação da minha Dissertação de Mestrado.
Após concluir a minha inscrição, peguei os Anais do Seminário
e o crachá, me acomodei na plateia e no horário marcado, as
autoridades, devidamente apresentadas pela coordenadora do
evento, Arquiteta Mariana, deu início à cerimônia de abertura
do seminário, concluída a cerimônia, em seguida deu início à
apresentação dos trabalhos técnicos, chamando pelo meu
nome para fazer a primeira apresentação técnica, informando o
título do meu trabalho. Eu estava nervoso, tenso e ansioso,
pois nunca tinha apresentado um trabalho num seminário
internacional, estava literalmente apavorado. No congresso de
Coimbra o trabalho foi apresentado pelo outro professor; como
sempre, estava muito seguro de mim, me encaminhei para o
palco coloquei o arquivo para iniciar a apresentação das
imagens do meu trabalho, que deveria ser concluído em 25
minutos.
Depois de me apresentar, iniciei as explicações das imagens e
conseguindo apresentar em 27 minutos, fiquei sentado ao lado
na mesa, para ver mais duas apresentações, quando
finalizamos as apresentações, o apresentador abriu para as
perguntas, respondemos todas as perguntas sobre os
trabalhos, e demos por encerrado os trabalhos daquela manhã.
Estava ainda muito nervoso, fui para a área do almoço, mas
antes passei pela sala de exposições para ver expostos o meu
bloco compactado, as maquetes dos blocos de madeira balsa,
e o painel, agora montado, com um texto síntese e fotos dos
trabalhos construídos que foram utilizados na minha
apresentação. Coloquei o meu cartão de visitas nos blocos e
nas maquetes.
Chegando pelo outro lado da sala pude perceber diversas
pessoas montando maquetes com meus pequenos blocos e
analisando o bloco original de BTC, que era, de longe, o mais
bonito e eficiente dos blocos que estavam lá expostos. O
Seminário se prolongou por mais três dias da forma mais
tranquila possível, conheci diversas técnicas de construção
para áreas com terremotos e diversos projetos bem preparados
para utilização de taipa e adobe.
Encontrei outros arquitetos brasileiros, alemães, italianos e
portugueses, no período da manhã do último dia de
apresentação dos trabalhos técnicos, a coordenadora do
evento apresentou a arquiteta que coordenaria o próximo
Seminário Internacional de Arquitetura de Terra, e seria na
América do Sul, mais especificamente em Buenos Aires, na
Argentina.
Na tarde que terminou o Seminário, voltei para o hotel, onde
deixei minha bagagem maior e saí de Monsaráz para Évora,
onde pegaria um ônibus para Madri e depois chegar à Milão,
próxima da cidade onde iria buscar a Certidão de Nascimento
do meu avô. Depois de 6,00 horas de viagem, cheguei à Madri,
com lindo entardecer, desci e na parte interna da enorme
rodoviária, fui procurar a passagem para Milão, de trem ou de
ônibus, e descobri que era muito caro para chegar até Milão,
em torno de 120,00, fazendo as contas imaginei mais €150,00
para voltar.
9 - Viagem à Itália
Lembrei as palavras da Perla, arquiteta argentina do seminário,
que estava no mesmo hotel, me informando que poderia voar
para Itália, com passagem econômica comprada pela Internet.
Como estava com pouco dinheiro, resolvi voltar para
Guimarães. Fui procurar o mesmo ônibus que cheguei, para
voltar até Èvora, pegar a bagagem em Monsaráz e depois
viajar para Guimarães. O primeiro ônibus sairia ás 7,00 horas
da manhã seguinte, comprei a passagem, mas essa decisão
me obrigaria passar a noite na rodoviária de Madri, eu e mais
uma centena de passageiros. Ás 7,00 horas o onibus parte
para Évora, numa linda viagem de volta à Monsaráz.
Chegando em Évora, peguei o onibus para Monsaráz, fui até o
hotel que tinha deixado a bagagem, parei no caminho para
comer um pequeno almoço, depois voltei para Évora e depois
embarquei para Lisboa. Desci na Gare Oriente, onde fui jantar
num dos restaurantes do Shopping, depois fui até outra
rodoviária procurar um onibus para a cidade do Porto, de onde
tomaria o trem maravilhoso que me levaria até Guimarães.
Chegando em Guimarães descobri na rodoviária passeios para
Itália, onde encontrei passagem Guimarães / Nice / Milão e
Milão / Nice / Guimarães, que custava 99,00€ e sairia no dia
seguinte, um sábado, 10 horas da manhã e chegaria em Milão
no domingo por volta das 18,00 horas, comprei a passagem,
em seguida passei pelo Supermercado do Shopping
Continente que está localizado ao lado da Rodoviária para
comprar yogurtes, pães, queijos doces para preparar lanches
para me alimentar nas diversas paradas do ônibus, durante as
30 horas de viagem, que pudesse na levar na minha pequena
mala marrom, juntamente com algumas trocas de roupas e
artigos de higiene, e poder economizar alguns euros.
No sábado, como sempre acontece, pontualmente as 10,00
horas a viagem iniciou e o ônibus começou a percorrer a
maioria das cidades de Portugal, para pegar pasageiros, era
uma verdadeira Rota de Turismo Potuguesa, inclusive com
paradas técnicas e para alimentação. Descobri que não era só
eu que fazia o lanche fora do Restaurante determinado pelo
motorista do ônibus, mais da metade dos passageiros desciam
com seus sanduiches e bebidas.
Em todos os locais que os onibus param, existe um lugar
especial para os passageiros que preferem lanchar fora do
restaurante indicado pelos motoristas. Depois de atravessar
Portugal, chegamos na fronteira com a Espanha, que é sempre
uma passagem complicada, além dos passaportes, os guardas
trazem os cachorros para dentro do ônibus, tiraram 6 malas do
bagageiro, escolhem um passageiro e pedem para ele abrir a
sua bagagem, examinando tudo.
Não encontraram nada em nenhuma mala, apenas fizeram um
dos passageiros abrir sua bagagem, sem nada encontrar,
liberam o ônibus, que entra na cidade da fronteira e para num
posto para alimentação por quase uma hora, depois segue
viagem passando por algumas cidades como Salamanca,
Málaga, Sevilha, Granada, Madri, Murcia, Valência, Saragoza e
Cadiz, entre outras.
Na viagem anterior, quando tinha ido de Évora até Madri, os
guardas da fronteira depois de recolher e examinar os
passaportes, separam 3 passageiras brasileiras e fizeram
descer do ônibus, depois de algum tempo, os guardas liberam
o ônibus que segue viagem sem as passageiras escolhidas. Já
na Espanha, quando paramos para fazer o lanche, perguntei
ao motorista o destino das passageiras, ele me respondeu que
ficaram detidas para serem deportadas, estavam sem o visto
de entrada para a Espanha.
Por volta das 3,00 horas da manhã, paramos no Posto
Rodoviário próximo da fronteira da Espanha com França, ao
lado do Posto de Alimentação, onde todos os passageiros, dos
ônibus, oriundos das mais diversas partes da Europa, fazem a
troca de ônibus, gerando uma enorme confusão e muitas horas
paradas, mas que no final das contas, todos descobrimos o
ônibus certo para o nosso destino. O ônibus que estava
passaria pelas cidades de Lyon, Cannes, Marselha, fazendo
uma parada em Nice para troca de ônibus e depois sairia para
Toulouse, Lion, Cannes, Marselha, na França, e chegava até a
fronteira da Itália, passando por Gênova e depois Milão.
Chegamos em Milão por volta das 18,00 horas, junto ao
terminal metroviário da Estação Ferroviária de San Giovanne,
com alguma dificuldade para comprar a passagem de metrô na
máquina automática, com a ajuda de um passageiro, consegui
chegar na Estação Ferroviária Central para verificar horário e
comprar a passagem para Cremona. O trem sairia ás 6,00 da
manhã, e a passagem custava só 12,00 €, muito feliz por
custar mais barato voltar à terra do meu avô, comprei a
passagem.
Com a passagem na mão, mais relaxado, pois estava com
100,00 € para o pagamento da estadia em Guimarães e 220,00
€ para as passagens de ida e volta a Cremona, além das
refeições e viagens para o aeroporto, sobrando 194,00 €. Fui
para o centro da cidade procurar a pizzaria que já conhecia, e
fui me deliciar com a pizza “quattre fromages” maravilhosa e
beber a cerveja mais deliciosa ainda, devidamente alimentado,
fui andando até a Galeria Vittório Emanuelle, chegar até a
Piazza Duomo, onde está a Catedral Duomo de Milão e o
Teatro Scala, que é meu ponto preferido em Milão.
Como estava muito frio, procurei a Rinascente, um Grande
Magazine comercial localizado na Piazza Duomo, de onde se
pode comer vendo as esculturas da Catedral Duomo, entrei e
pedi um “cioccolato” quente, leite com chocolate, mas de forma
muito densa, parece leite condensado e um brioche, fiquei
admirando as pessoas e as vitrines das lojas de moda e de
design.
Voltei passeando até a Estação Ferroviária Central, cheguei
por volta da meia-noite, no interior da Estação Ferroviária
percebi que os guardas começavam a fechar as portas,
diferente da Estação de Madrid, as pessoas que estavam
dentro poderiam permanecer abrigados do frio e da chuva fina
que caia, dessa forma passei a noite andando, sentando e
lanchando, até o dia amanhecer. Ás 5,30 horas o trem que
pegaria para Cremona encosta no binário 7, depois de
convalidar o bilhete, embarquei, estava tão ansioso para
chegar que fui o primeiro a embarcar no vagão indicado e
procurar um sanitário, pois os sanitários da Estação também
fecham à meia noite, em seguida localizei o meu assento.
Pontualmente ás 6,00 horas o trem começa a se movimentar,
dando início à minha viagem para buscar o meu documento.
Pela informação do painel da Estação Ferroviária Central,
Cremona seria a quinta estação em que o trem deveria parar e
que, devido à escuridão da noite de inverno, não se não
conseguia ver o nome da estação em que o trem estava
parando, fiquei então contando as estações e na quinta
estação desci, já na plataforma descobri que a cidade era Lodi
e não deu tempo de voltar ao trem.
Fui até a bilheteria e me informaram que agora deveria pegar
um outro trem com direção para a cidade de Piacenza, onde
desceria e esperaria um outro trem para Torino e poder descer
em Cremona. Seguindo as instruções acabei chegando na
estação de Cremona por volta das 10,00 horas, saindo da
estação juntos aos demais passageiros, estava arrepiado e
muito emocionado, olhava para todos os lados, procurando não
sei o que, mas estava me identificando com a cidade que um
dia assistiram meus bisavós partirem com meu avô no colo.
Uma emoção inenarrável e inigualável.
Na banca de jornal da praça fui perguntar como deveria
fazer para chegar a Comune Sesto ed Uniti, me indicaram o
ônibus que sairia do terminal rodoviário da cidade por volta das
11,00 horas e, antes de subir, perguntei ao motorista onde
desceria para chegar na Questura de Sesto ed Uniti, me
informando que era na periferia da cidade, depois de percorrer
a cidade, chegamos à Sesto ed Uniti, o motorista mostrou o
ponto, que era encostado ao prédio, acabei chegando na
Questura por volta das 11,30 horas, faltando alguns minutos
para fechar para o almoço, depois só abriria as 16,00 horas.
“Doppo pomerigio”.
Agradeci ao motoista, desci e fui procurar a seção de
documentação para pedir o “Estratto dei Registri degli Atti di
Nascita” do meu avô, assim que cheguei me atenderam,
enquanto a senhora pegava o livro fiquei lendo o aviso no
quadro: A Comune Sesto ed Uniti tinha 282 habitantes, e
naquele ano, tinham morrido 17 pessoas, aconteceram 32
casamentos e nasceram 28 crianças. Não havia passado um
minuto, a funcionária procurou o livro, imprimiu a cópia e me
entregou o tão sonhado documento.
Sorrindo de felicidade comentei com a funcionária em meu
italiano misturado com espanhol e portugues, que tinha viajado
13 horas de avião do Brasil até a Lisboa e mais 30 horas de
ônibus de Portugal até Milão e 3 horas até Cremona, e 2 horas
até a Questura da Comune, e 40 segundos para a funcionária
achar o livro, tirar uma cópia e me dar o tão sonhado
documento. Ela sorrindo disse: “A viaggio per documentazione
sono cosi”.
Com o documento na mão, conferindo o nome do meu avô,
perguntei quanto custava aquela cópia, ela sorrindo me
respondeu: “Niente piú”, em portugues seria o mesmo que não
custa nada, com lágrimas nos olhos de emoção, agradeci
muitíssimo: “Mile grazie signora, mile grazie” e fui saindo
devagarzinho olhando e admirando o documento, já na porta
da rua, dobrei e guardei na minha maleta e fui andando em
direção ao ponto de ônibus, saboreando aquele momento,
fiquei imaginando como seria quando pegasse a Carta
D´identitá e o Passaporto Italiano.
Ainda fui dar uma volta pelos arredores da cidade, era uma
pequena cidadezinha do interior, pouca gente, lindas casinhas,
muito limpas e arrumadas, pequenas lojas, alguns pequenos
restaurantes, sentei numa das praças em frente a uma igreja,
admirando a paisagem urbana, comendo um dos últimos
lanches que tinha levado e depois fui para o ponto do ônibus
que me traria de volta para a estação de trem no centro da
cidade.
Fui procurar um hotel, queria dormir na cidade, e aproveitei
para dar uma volta na cidade, que era bem maior e muito mais
bonita do que o Sesto ed Uniti, localizada na sua área rural,
mas a chuva ficou mais forte, além do frio que fazia, impedindo
que o meu passeio fosse maior pelo centro, interrompi a busca
do hotel, voltei correndo para a estação de trem, para pegar o
primeiro trem que me traria de volta até Milão, onde cheguei as
19,00 horas. O frio era o mesmo, mas não estava chovendo,
era preciso encontrar um hotel, para tomar um bom banho,
descansar e dormir bem, pois ainda teria um dia inteiro e uma
noite em Milão, o ônibus para Guimarães sairia só na manhã
do outro dia. Depois de percorrer diversos hotéis, encontrei um
hotel de 40€ a diária, depois de um belo banho, jantei um o
último lanche que tinha levado, feliz, praticamente desmaiei de
sono.
Pela manhã, acordei com o barulho característicos dos bondes
que percorrem as ruas de Milão, além das pessoas
conversando na rua, mesmo assim fiquei na cama refazendo
toda a minha viagem de vinda e imaginando como deveria ser
a viagem de volta, admirando o documento italiano do meu
avô, muito feliz levantei por volta das 10,00 horas, para tomar
outro banho e deixar o hotel. Já na rua, fui até um pequeno
mercado que tinha ao lado do hotel, onde comprei yogurt,
queijinhos e alguns biscoitos e fui passear pela cidade, sempre
em direção à Piazza Duomo, agora estava mais leve e feliz.
Resolvi almoçar uma macarronada com vinho, num dos
Restaurantes do Magazine Rinacente, ao lado da Piazza
Duomo, aonde voce pode montar seu prato, depois fiquei
passeando entre as lojas que existem ao redor da Catedral de
Milão e nas grandes avenidas que ligam até o Parque que está
localizado o Castelo Sforzesco, sempre olhando vitrines de
design de móveis e roupas de inverno, tinha toda a tarde e a
noite para voltar à estação de San Giovanni para procurar o
ônibus que me traria de volta à Guimarães.
No começo da noite peguei o metrô para Estação do Terminal
Rodo-Ferroviária de San Giovanne, para esperar a saída do
ônibus, preocupado com o abrigo daquela noite, pois o ônibus
sairia ás 6,00 horas da manhã da praça do terminal, fui
procurar alguma pensão, hotel, pousada ao redor da estação, e
não encontrei nada parecido, muito menos uma pizzaria para
poder jantar. Encontrei um supermercado para fazer algumas
compras, visando fazer meu jantar e refazer os lanches para a
viagem de volta. À meia noite, como era esperado, o chefe da
estação veio, muito educadamente, me convidar para sair, pois
ele fecharia as portas e só abriria às 5,00 horas da manhã, tive
que sair e ficar andando pelas ruas para espantar o frio e me
escondendo da chuva fina sob as coberturas dos pontos de
ônibus, andando em volta da praça até amanhecer, contando
os minutos que faltavam para a estação abrir. Descobri
quantos passos tem uma volta, os minutos que levava para
completar uma volta ao redor da praça onde ficavam os pontos
de ônibus. Quando parava a chuva, passeava pelas ruas em
torno da praça.
Às cinco horas da manhã, finalmente a estação
ferroviária abriu, e a lanchonete começava a servir os
passageiros, depois de tomar um “cioccolato” e comer o
brioche ainda quente, pude perceber os ônibus encostarem ao
longo da praça e depois de muito procurar, fui me esconder da
chuva dentro do ônibus que me levaria para Nice, aonde
pegaria outro ônibus para Guimarães. Viemos em quatro
passageiros dentro do ônibus, passamos pelas encostas de
Milão, assistindo amanhecer nas plantações cobertas com
plástico transparente, numa paisagem muito bonita, em
seguida chegamos a Gênova, parando na fronteira francesa,
bem menos agressiva que a fronteira espanhola, depois dos
guardas conferirem os passaportes, a viagem continuou para
Nice, na França, onde deveríamos trocar de ônibus.
Ao marcar a minha passagem percebi que a grande maioria
dos passageiros que embarcaria comigo era de origem
polonesa, alguns outros eram italianos, franceses e
portugueses. Nessa viagem acabei vendo algo que me deixou,
no mínimo, assustado. O ônibus depois que sai de Milão,
passa por Genova, e parava na fronteira Itália e França, onde
os passageiros trocam de ônibus. Nessa viagem os
companheiros de viagem eram, na sua grande maioria,
poloneses, e no ônibus existia uma TV com videocassete, que
foi ligada para colocarem um filme, que para minha surpresa
tinha uma dublagem diferenciada, uma mesma voz masculina
ficava transmitindo o filme, isto é, ele fazia a voz do homem, da
mulher, da criança, do velho e de qualquer outro personagem
que surgisse no filme, em polonês, sem legendas ou som. Isso
aconteceu nos dois filmes que passaram, não havia música ou
nenhum outro som a não ser a fala do homem que de certa
forma “transmitia” a história do filme. Fiquei imaginando que
poderia ser censura ou falta de técnica para fazer a tradução,
mas no aquilo era, no mínimo estranho. A viagem previa uma
troca de ônibus em Nice, onde também havia parado na
viagem de vinda que teve duas horas para pegar o outro
ônibus, devido ao pequeno tempo, fiz uma pequena excursão
para conhecer aquela parte da cidade.
O ônibus para Guimarães iria demorar 5 horas para sair, dando
tempo para ver o outro lado da Rodoviária que ainda não tinha
visto, e descobri um local maravilhoso, um bairro onde todas as
casas tinham se transformaram em pequenas lojas de
comidas, roupas, objetos de artesanato, jogos, produtos
importados, roupas velhas e ainda tinha uma feira ao ar livre no
espaço interior ao pequeno bairro.
Estava maravilhado com as imagens das lojas e todas aquelas
pessoas andando ou sentadas comendo e conversando, fiquei
passeando, sem me dar conta da garoa que caia, até encontrar
uma Boulangerie, onde se vende pães, queijos e doces,
comprei uma baguete, um queijo e um doce, fui ao lado e
comprei uma meia garrafa de vinho “nacional”, e saí
passeando, sob a chuva fininha, comendo, bebendo e
admirando as lojas, os artigos expostos, as pessoas e a feira
de peixes, frutas e legumes.
Resgatava meus tempos que morava em Paris. Os franceses
adoram frutos do mar, encontrei todos os que eu conhecia e
outros que não tinha visto: ostras gigantes, lulas, polvos,
camarões de todos os tamanhos e lagostas gigantes, mas
estava feliz comendo o meu pão, queijo e vinho, até voltar para
a estação pegar o ônibus que passaria ainda por Cannes,
Marselha, Toulouse, Bordeaux e Lyon entre outras lindas
cidades francesas. Depois de trocar de ônibus na fronteira da
França, entramos na Espanha, passando por Salamanca,
Sevilha, Murcia, Madrid, Valência, Granada e Cádiz, entre
outras lindas cidades espanholas, até voltar a fazer o tour pelas
cidades de Portugal chegando à Rodoviária de Guimarães no
outro dia por volta das 14,00 horas. Fiquei ainda mais quatro
dias trabalhando na universidade em Guimarães, esperando a
viagem de volta. No dia anterior à saída, fui me despedir do
professor Said e das pessoas da minha sala, depois de pagar a
minha estadia e combinar a entrega das chaves, fiz um lanche
à noite, dormi e ao levantar estava chovendo, mesmo assim saí
do apartamento e fiquei aguardando a chuva passar no vão
coberto da entrada do prédio, assim que diminuiu a chuva, fui
andando até a Rodoviária esperar o ônibus para Lisboa que
saia ao meio dia, precisava chegar a Lisboa um pouco antes
das 18,00, em tempo de confirmar a passagem na loja da
Swissair.
O avião sairia às 7,00 horas da manhã do dia seguinte, quer
dizer, passaria outra noite andando pelo aeroporto, ocupando
os diversos bancos de espera, conhecendo os espaços que já
tinham os ornamentos das festas natalinas e encontrando
todos os passageiros que embarcariam antes que eu, já estava
ficando acostumado com a cena do aeroporto vazio.
Amanheceu, novos passageiros vão chegando, devolvendo o
ambiente mais comum e normal de um aeroporto, vozerio e
barulhos dos passageiros em busca do chek-in e do local de
embarque, as tristezas das despedidas de uns e as alegrias
das chegadas de outros.
Cheguei à Zurique por volta das 10 horas, me encaminharam
para outra parte do Aeroporto, que não tinha nenhum
supermercado para comprar o suco de cenoura com beterraba,
nem avelãs, então fui procurar por algum lanche, e descobri
que um sanduiche custava cerca de R$40,00, mais uma
cerveja de R$ 15,00, o que me fez desistir, acabei almoçando e
lanchando duas barras de chocolate que custava R$ 8,00 a
barra. O aeroporto é maravilhoso, totalmente iluminado pelos
vidros que tem em todas as suas paredes externas, de onde se
podia ver de um lado, a linda imagem da cidade, e do outro
lado, a imagem maravilhosa dos Alpes. Fiquei me deliciando
com o chocolate e com as imagens da cidade que o aeroporto
oferecia. Por volta das 22,00 horas, esse lindo ambiente
começa a se transformar com os passageiros brasileiros que
vão chegando lentamente e criando um ambiente mais
brasileiro e pouco silencioso e menos bonito. O avião saiu à
meia noite de Zurique.
Depois do convite recebido da universidade portuguesa, e com
a documentação da cidadania pronta, resolvi programar minha
mudança de São Paulo para Guimarães, de forma rápida
desmontei o apartamento em São Paulo, doando móveis e
roupas para instituições de caridade e levando coisas mais
importantes para o apartamento de minha filha, em São Paulo.
Comprei passagem para Milão, pela KLM, que obriga os
passageiros a entrar na Europa por Amsterdan, num domingo à
noite, embarquei para Itália para conseguir minha cidadania
italiana, que permitiria ficar morando em Guimarães como
cidadão europeu.
Com alguns euros e a documentação necessária, embarquei
para Itália, seguindo todos os passos sugeridos para poder
entregar a documentação de cidadania. Depois de conhecer
Amsterdan, conseguiu embarcar para Milão, pela Alitália, assim
que cheguei à Milão, eram quase 13 horas, procurei pelo
ônibus especial que me levaria até a Estação Ferroviária
Central de Milão, e depois de 1 hora e 50 minutos estava no
trem que me levaria até a cidade de Perugia, onde deveria
fazer o Permesso de Soggiorno, um dos documentos que
autoriza o turista a ficar na Itália por três meses para fazer a
Residência, e depois conseguir pegar o Atestado de
Residência para poder dar entrada na documentação dos meus
familiares.
A viagem de trem para o sul da Itália é sempre maravilhosa,
passando pelas estações de Florença, Bologna, Bari,
Terontola, Nápoles, Roma, entre outras lindas cidades
italianas, gastando 40,00 € na passagem de trem, para a
viagem de ida. Finalmente depois de 8 horas, entre viagem,
paradas e saídas, chegando até a estação de Perugia por volta
das 23,30 horas. Encontrei dois hotéis, um bem em frente à
estação, mais simples e econômico, que não tinha vaga, e
outro hotel, três quilômetros mais distante, que conseguiria
“arrumar” uma vaga, por 70 €, que me recusei a pagar e fui
voltando para a estação do trem. Já passava da meia noite,
estava muito frio, com ventos gelados e muita garoa, voltando
para a estação do trem onde tinha desembarcado, para tentar
passar a noite em algum lugar coberto, esperar amanhecer e
tentar chegar ao alojamento da Universidade para os
Estrangeiros.
Em frente à estação, tinham algumas pizzarias, que, devido ao
horário, estavam fechando suas portas, mesmo assim parei e
perguntei para uma das pessoas, num italiano meio misturado
com espanhol, se ele conhecia algum hotel mais econômico ou
um albergue, ele entrou no restaurante e logo depois veio com
outra pessoa, que se apresentou ser o dono da pizzaria.
Ele falava muito bem o idioma espanhol, dizendo que deixasse
por sua conta, ele pediu um tempo e, logo depois que ele
fechar sua pizzaria, me levaria no seu carro até a Universidade
para Estrangeiros, que era próxima dos apartamentos aonde
eu iria ficar hospedado, mas encontramos tudo fechado e não
havia ninguém para dar qualquer tipo de informação. Afinal era
mais de meia noite.
O simpático italiano ainda me levou para dar umas voltas,
pelas redondezas da universidade, na tentativa de encontrar
algum hotel e não encontramos nada, todos os hotéis já
estavam lotados. O simpático pizzaiolo italiano sugeriu que me
hospedasse num hotel vizinho dali, que ficava numa estrada,
que era o caminho para sua casa, muito contente, aceitei a
carona, e fui me hospedar no hotel.
Mesmo assim, tive que pagar 40,00 € pela diária, logo pela
manhã, como o italiano deveria voltar para a cidade, para
trabalhar na sua pizzaria, ele foi me buscar no hotel, aonde ele
sempre tomava café, e levou-me de volta para Perugia, me
deixou em frente à universidade, para ver a documentação, os
apartamentos e acertar minha estadia em Perugia.
Despedindo do pizzaiolo e agradecendo muito o seu empenho,
ele me responde que estava acostumado com esse tipo de
situação, e que, como sempre ele teve ajuda quando ele
viajava, e sabia como era difícil enfrentar aquela situação, me
contando sua passagem pelo nordeste do Brasil. Depois da
despedida entrei na universidade e fui fazer a inscrição para a
entrevista de solicitação do Permesso de Soggiorno, e depois
fui até o escritório responsável pela locação dos apartamentos,
indicado pela universidade.
Não havia ninguém no escritório, eram mais de 11 horas da
manhã, aproveitei e fui ver alguns apartamentos, que na
verdade eram casas ou sobrados, e encontrei outros brasileiros
que estava hospedado no condomínio, falei com o Leonardo,
natural de Vitória do Espírito Santo, que estava aguardando
sua documentação, ele já tinha conseguido o seu Permesso de
Soggiorno em Milão, que é a melhor alternativa para dar o
primeiro passo para conseguir a cidadania.
Leonardo tinha feito a sua Residenza, em Perugia, que é o
segundo passo, quando você apresenta na Comune um
contrato de aluguel, comprovando que você mora na cidade, e
depois fica aguardando o Vigile, que é o fiscal da Comune, que
vem na sua casa comprovar a veracidade do contrato, uma vez
comprovado a sua residência, você pode solicitar o Atestado
de Residência e de posse desse documento, a Comune aceita
receber toda a documentação dos seus familiares para
conseguir sua cidadania.
Depois de entregar a documentação, era preciso aguardar 45
dias, aproximadamente, tempo em que a documentação,
depois de passar pelo Brasil, fica concluída. Também informou
que o tempo de espera para pegar o Permesso de Soggiorno
em Perugia era de 60 dias, depois mais 25 dias para conseguir
a Certidão de Residência e mais 45 dias de espera da
preparação da documentação para pegar a cidadania. Cerca
de 130 dias.
Leonardo conseguiu seu Permesso de Soggiorno na cidade de
Milão, deu entrada na documentação num dia e foi retirar no
dia seguinte, dizendo que Milão era a única cidade na Itália,
que conseguia entregar o documento naquele prazo, só tinha
um pequeno problema, vem escrito no documento, que você
não pode morar ou trabalhar na Itália.
Agradecendo pelas importantes informações, voltei para a
Universidade para Estrangeiros e perguntei qual seria o tempo
de espera para receber o Permesso de Soggiorno, e a resposta
foi de 60 dias, agradeci e resolvi voltar para Milão na mesma
hora. Fui procurar um ônibus que me levasse até a estação de
trem aonde tinha desembarcado.
O ônibus indicado passava pela praça onde se localizava a
universidade, e percorre todo o centro histórico da cidade, que
é, por sinal, muito bonito, com suas lindas e maravilhosas
igrejas, castelos, monumentos, arcos e as indescritíveis ruas
estreitas, com muitos carros estacionados. Não se conseguia
ver perfeitamente a arquitetura das casas, devido a uma
imensa quantidade árvores e de gente jovem, que caminhavam
pelas ruas, por onde você olhava, encontrava os espaços
abarrotados de estudantes. Perugia é uma cidade estudantil.
Comprei a passagem para o primeiro trem que passaria por
Perugia e me levaria para Milão, e pelo horário do trem, nem
deu tempo para almoçar ou comer um lanche, ou pelo menos
me despedir do simpático italiano, que tanto o ajudou na noite
anterior. Queria chegar à Milão o mais cedo possível. Peguei o
trem para Terontola, depois outro trem para Florenza e depois,
finalmente para Milão.
Na estação de Terontola, em que é preciso trocar de trem,
comprei um sanduíche e uma cerveja, para almoçar no trem,
chegando à estação de Milão por volta das 19 horas, depois de
muito procurar encontrei um hotel com uma diária de 50€, que
era o custo mais econômico encontrado, só por aquela noite,
pois no dia seguinte, quando começava a Feira de Milão, o
preço seria o dobro. Depois de me instalar, tomar um bom
banho, fui jantar aquela deliciosa pizza em pedaços e tomar um
vinho, voltei ao hotel e fui deitar, eram quase 22,00 horas, pedi
toda ajuda possível, ao plano espiritual, e fui dormir, fiquei
pensando em toda aquela situação. Concluindo que a melhor
forma de conseguir o Permesso, a Residenza e o Atestado de
Residenza, para poder encaminhar a documentação dos
parentes, seria procurar uma Comune menor e vizinha de uma
cidade grande, sem tantos estudantes.
Com isso, algumas mensagens que vieram do plano espiritual
que me acalmaram, depois de conseguir o Permesso de
Soggiorno em Milão, que deveria ser em um dia, procuraria
uma Comune menor para conseguir acelerar o processo. Dormi
mais tranquilo. Pela manhã acordei, tomei um bom banho,
arrumei minha pequena mala marrom para pequenas viagens,
com todas as condições de passar alguns dias fora, e saindo
do hotel, pedi para o gerente guardar minha mala maior, que
pegaria alguns dias depois, e me dirigi para Questura de Milão,
no endereço que o Leonardo tinha dado, cheguei lá por volta
das 10 horas da manhã.
Não era a Questura, e sim o Departamento de Imigrazzione,
que na fila e logo atrás de mim surge um casal meio estranho,
ele com uma idade em torno de 35 a 40 anos, mais ou menos
bem vestido, ela, mais velha, não muito bem vestida, mas
conversando em português, perguntei se eram brasileiros,
disseram que sim, e me informaram que estavam em Milão
para trabalhar, confirmando que, na Itália, só em Milão haveria
condições de se pegar o Permesso de Soggiorno no mesmo
dia.
Depois de alguns dias, “morando” na Comune, poderia
conseguir o Atestado de Residência, apesar do texto escrito no
documento, pois havia uma lei italiana, que autoriza o turista,
que vem buscar a documentação da cidadania, a morar e
trabalhar, e sendo assim, é possível morar e trabalhar na Itália,
mas para isso eu precisava contratar uma pensão, para me
alojar, com alimentação, e o dono da pensão faria os contratos
de aluguel, como se morasse ali, necessários para que se
pudesse pegar os Permesso de Soggiorno e o Atestado de
Residência.
Havia outra preocupação que a minha advogada tinha alertado:
pelas leis italianas, qualquer pessoa pode pedir o Permesso de
Soggiorno, somente até 8 dias depois de entrar na Itália.
Depois disso, será preciso viajar para um país fora da
comunidade europeia e entrar novamente na Itália. Perguntei
para o Luiz Alberto, meu novo amigo brasileiro, ainda na fila do
Departamento de Imigração, qual era preço que a pensão
cobrava, me responde ele que eram 220,00 € por mês, para
dormir e mais 100,00 € por mês, pela alimentação. Além disso,
cobrava 200,00 € para fazer o contrato de moradia, registrado
na Comune, necessário para solicitar o Permesso, e 200,00 €
para solicitar o Atestado de Residência, ou a Inscrição
Anagráfica.
Fazendo as contas rapidamente, achei que valia a pena, pois
ficaria menos tempo na Itália, gastaria menos com
hospedagens e poderia ir para Portugal mais depressa.
Manifestei a vontade de conhecer o dono da pensão, suas
acomodações e conversar com ele para aceitar a proposta, que
era muito melhor do que a sugestão de ir para Perugia, esperar
em torno de 85 dias para conseguir entregar a documentação,
e 130 dias para pegar a cidadania.
Luiz Alberto me levou de carro para a pensão, que na verdade
era um apartamento localizado em Trezzano Sul Naviglio, uma
cidade localizado ao lado de Milão, me apresentou o dono da
pensão, Gilson, um brasileiro que tinha morado no Paraná, e
tinha se mudado para Milão, fazia alguns anos. Encontrei na
mesma pensão, outros brasileiros que estavam na situação
semelhante à minha, depois do almoço, Gilson me levou para
fazer o registro da minha hospedagem naquela cidade, uma
das documentações exigidas pela Questura de Trezzano. À
noite, por volta das 23hs, Luiz Alberto me levou até a fila de
espera da senha para ser atendido no dia seguinte no
Departamento de Imigração de Milão. A fila, que parecia ser do
INSS, naquele horário já tinha 13 pessoas na nossa frente,
algumas com cobertor e dormindo, outras sentadas com uma
barraquinha para a proteção do frio e da chuva, e assim
ficamos na fila, até ás 7 horas da manhã, quando abriria o
Departamento para entregar a senha.
Durante a madrugada, à medida que as horas iam passando,
foi chegando gente, chegando gente e chegando gente, de taxi,
ônibus e metrô, e pela manhã, se podia contar mais de 120
pessoas até o final da fila, aguardando para conseguir a senha.
Gente de todas as cores, raças e nacionalidades, além de
muitos brasileiros.
Algumas horas de conversas na fila para ficar sabendo o
motivo que levou Luis Alberto naquele Departamento, pagou a
quantia de 8.000,00 € para se casar com uma mulher
brasileira, que já tinha a cidadania italiana, aquela mesma que
estava com ele na fila, para que ele pudesse conseguir, através
do casamento, a sua cidadania italiana, pois ele não tinha
origem italiana. Era outra maneira de se conseguir a segunda
nacionalidade.
Depois de uma longa noite de frio e muito cansaço, pois estava
em pé desde a minha chegada, ouvindo muitas conversas,
conhecendo vários outros brasileiros, espanhóis, peruanos,
chilenos e bolivianos, africanos, conseguindo conversar em
espanhol, além das outras pessoas, com outras
nacionalidades, que não se sabia que idioma falava, mas que
estavam na mesma situação que eu, em busca do Permesso
de Soggiorno para conseguir a sua cidadania. Enfim
amanheceu, e a uma garoa fria que caia desde a anoitecer,
continuava, além dos ventos bem frios, ás 6,00 horas abria
uma “padaria”, que fica ao lado do Departamento, fui
juntamente com outros brasileiros tomar uma cioccolatta calda,
comer um brioche, para esquentar o frio e acomodar a fome.
Voltamos para a fila, o Departamento abriu pontualmente ás
7,00 horas, peguei a senha 13, entrei, saindo do frio e fiquei
sentando no interior do prédio, para aquecer um pouco mais.
Aquecido e descansado, e com a senha na mão, precisava
completar a minha documentação, para ser atendido às 14,00
horas.
Estava com todos os documentos exigidos pelo Departamento,
só estavam faltando o seguro obrigatório, que é vendido na
Itália, e um selo Bollo. Fui dar uma volta pelos arredores da
cidade, procurando pelos bancos, para comprar o seguro,
depois de correr metade da cidade, encontrei um escritório que
faz o referido seguro, contra tudo, por 90 dias, pelo qual paguei
105,00€.
Eram 10,00 horas da manhã, quando concluí a documentação,
com muita fome, fui procurar um lugar para almoçar, na porta
de saída do Departamento de Imigração, encontrei com duas
pessoas conversando com o porteiro italiano, e percebeu que o
porteiro entregou algumas senhas, no meio de muitas
conversas e risadas.
Convidei o Luis Alberto para almoçar uma pizza margherita e
uma birra, que é a querida e velha cerveja brasileira, no
Restaurante Farina e Pomodoro, paguei seu almoço, enquanto
saboreava a pizza, ao lado de outras pessoas, ficamos
sabendo que existem advogados que cobram até 500,00 €
para fazer esse trabalho de documentação e o
encaminhamento para obter a cidadania.
Depois do almoço, com todos os documentos exigidos, fomos
para o Departamento de Imigração, e ficamos aguardando a
chamada do número da senha, descobrindo por que aquele
cidadão, que pegou a senha ás 10,00 horas da manhã, foi
atendido na minha frente, eram 12 pessoas chinesas, para
pegar a sua documentação, em seguida chamaram a senha
27, me apresentei, fui entrevistado, apresentei toda a
documentação exigida, entreguei todos os documentos e o
funcionário me diz para aguardar ao lado, num outro guichê,
onde seria chamado novamente.
Trinta minutos depois, no outro guichê, chamaram meu nome e
me entregaram o tão esperado Permesso de Soggionorno, no
quarto dia depois que tinha entrado na Itália, meu primeiro
documento italiano, fiquei muito feliz e emocionado, quase não
estava acreditando.
Na sexta feira, levantei, tomei café, queria ir buscar minha
bagagem, mas era impossível sair para Milão, pois os ônibus
estavam em greve, além de cair uma chuva fina, que durou o
dia todo, fiquei andando pelo apartamento, fazendo palavras
cruzadas e vendo televisão, um filme ou um jogo de futebol,
voley, basquete, ou ainda programas da natureza que o pai do
Gilson adorava.
O pai do Gilson, era o homem que cozinhava na pensão,
depois de outra noite mal dormida, amanheceu o sábado,
tempo nublado, mas sem chuva e sem greve de ônibus, depois
do café, perguntei como fazia para chegar até Milão, aproveitei
e fui buscar a minha bagagem no hotel, aproveitei para passear
de novo pela cidade de Milão, comprando doces e chocolates e
depois voltei ao apartamento.
No domingo de manhã, depois do café, fui dar uma volta,
andando pela Comune de Trezzano Sul Naviglio em que
estava “morando”, na segunda feira, fiquei fazendo pressão
sobre o Gilson para fazerem o Atestado de Residência junto à
Questura, que por alguma razão, dependia de outra pessoa.
Na quarta feira, a Questura da Comune fechava às 12,00
horas, e para minha alegria, o Joelson apareceu na pensão ás
11,00 horas, para tomar um café, fui falar com ele, mas não
daria tempo, pois a Questura da Comune tinha horários
alternados, então decidimos marcar para o dia seguinte, na
quinta feira, o mesmo dia que Joelson e o Célio, deveriam
receber a visita do Vigile, fiscal da Questura da Comune, que
viria conferir os seus endereços e sua moradia.
Quando amanheceu quinta feira, levantei tomei um banho,
depois do café e saí, juntamente com o Célio, e fomos até a
Questura da Comune para fazer a minha Inscrição Anagráfica.
Quando fomos atendidos, a funcionária italiana disse que, para
me aceitar como morador daquela residência era necessário
ser a mesma pessoa que tinha assinado o Contrato de
Locação, o Joelson. Voltamos para o apartamento e fomos
buscar o Joelson e o contrato de locação, e retornamos para a
Questura da Comune.
A Inscrição Anagráfica que fui fazer era para marcar uma data
para o “vigile” conferir a minha moradia, que era no mesmo
apartamento que o “vigile” naquela tarde, iria conferir as
residências, do Joelson e do Célio. Antes que a funcionária
italiana pudesse marcar a data da visita, sugeri para que o
“vigile” que fosse conferir as residências do Joelson e do Célio
pudesse conferir também a minha residência, uma vez que ele
iria, naquela mesma tarde, conferir duas pessoas brasileiras,
que moravam no mesmo apartamento que o meu, a funcionária
parou, olhando para os lados, numa atitude de quem estava
pensando e respondeu: “Vá Benne”. E colocou os meus
documentos na mesma pasta do Joelson e do Célio.
Voltamos para o apartamento eu, o Célio e o Joelson, para
depois do almoço, aguardar o horário. Pontualmente, ás 15
horas, toca o interfone, era o “vigile”, uma mulher que veio para
conferir a residência dos três brasileiros. Autorizamos sua
entrada, ela subiu e foi conferir a sala, os quartos, cozinha e
sanitários do apartamento, depois fez uma breve entrevista
com cada um de nós, e disse que o Permesso do Soggiorno
meu e do Célio, não permitiriam morar e nem trabalhar na
Itália, essa frase estava escrito na base do documento.
Argumentamos sobre a lei italiana, que dizia “Se for para pedir
a Citadinanza, o turista pode morar e trabalhar”, a “Vigile”
telefonou para seu superior e confirmou a informação, e disse
que estava tudo em ordem. Naquela altura já estava branco de
medo, respirei mais aliviado, quando a “vigile” estava se
retirando, perguntei se poderia levar e apresentar minha
documentação e dos meus parentes, na manhã seguinte, junto
à Questura da Comune Trezzano Sul Navigle. A vigile disse
que “si, cei possibile”.
Outra noite mal dormida, mas desta vez, era porque estava
muito mais feliz, pois sabia que iria sair do apartamento, no
máximo no dia seguinte, pois não precisava mais ficar
aguardando o Vigile para conferir minha moradia. Quando
amanheceu, tomei um bom banho, um bom café, de posse da
minha documentação, fui me apresentei na Questura da
Comune.
Estava eufórico. Ao dar entrada na documentação, outra
funcionária me disse que era preciso fazer também o Atestado
de Residência, mas poderia ser solicitado no setor ao lado, que
me entregou em menos de 15 minutos. Voltei ao setor de
Documentação para dar entrada dos documentos dos meus
familiares.
Todos os documentos foram conferidos letra por letra, linha por
linha, página por página, e depois de tudo conferido e aceito, a
funcionária me dizia: “Cei tutto perfeto, alora tu sei um bravo
citadino italiani”, mas deveria voltar em 180 dias para fazer a
carteira de identidade e o passaporte, agradecendo muito e
muito feliz, sai da Questura da Comune sem precisar colocar
os pés no chão, dando pulos de alegria. Já me sentia um
cidadão europeu.
Preparei a minha maleta marrom para pequenas viagens,
deixei a mala maior na pensão e viajei para as cidades de
Rossano, próximo da Sicília, no Sul da Itália, em seguida fui
para a Estação Ferroviária Central de Milão comprar a
passagem para viajar para Florença, Piacenza, Parma,
Modena, Bologna, Firenza, Perugia, Roma e Nápoles, onde
parei para jantar uma deliciosa pizza napolitana com vinho
tinto, dormir e pela manhã, saborear uma ciocolatta calda e um
brioche, continuei a viagem de trem para Salerno, Paola,
Cosensa e Rossano, na Regio Calábria, vizinhas da Sicília, na
ponta do continente. A viagem para o sul da Itália, de trem, é
sempre maravilhosa.
Contrariando minha expectativa, seus hotéis apresentam
diárias semelhantes à Milão, pouco econômicas, e suas
comidas são maravilhosas, mas os horários de trens eram
muito diversificados, tornando a viagem muito cansativa. Em
alguns casos, precisava ficar esperando por quatro horas na
estação, para embarcar num outro trem, as distâncias eram
muito grandes, enfim uma viagem muito cansativa, mas muito
bonita, gastei um dinheiro que não podia gastar.
Na primeira etapa da viagem de ida, devido ao horário de
chegada, decidi ficar em Nápoles, e depois de me hospedar, fui
ao lado do hotel, comer uma pizza napolitana, acompanhado
com uma garrafa de vinho, dar uma linda volta pela cidade, que
estava com problemas com a greve dos lixeiros, depois fui
dormir e pela manhã, completei o passeio pela cidade,
encontrando um local que tem na porta os brioches e a
cioccolatta calda, encontrando uma loja de chocolate suíço
com preço econômico, para ajudar na alimentação, e por volta
das 11 horas da manhã, peguei o trem para Cosenza.
Depois de 8 horas de viagem, desci uma estação antes, na
Questura da Comune de Castiglione, por sugestão do fiscal do
trem, pois a estação de Cosenza, segundo ele, ficava muito
longe da cidade, e para encontrar hotel era preciso pegar um
ônibus. Saindo da estação, me deparei com uma lindíssima
cidade, com lojas de artigos muito caros, residências com uma
arquitetura de primeiríssimo mundo mesmo, o que me deixava
muito surpreso, talvez devido a minha expectativa de encontrar
cidades menores e mais simples, e com isso tudo seria mais
em econômico. Depois de muito procurar, fui me hospedar num
hotel mais simples que tinha encontrado, com três estrelas,
com uma diária de 60,00 €, sem café da manhã. Na manhã
seguinte, peguei um ônibus que me levaria até a Questura da
Comune de Cosenza, passeando pela bela cidade, descobri
que Cosenza e Rossano eram cidades dos estudantes
universitários, fazendo parte da Universidade da Reggio
Calábria.
Desci do ônibus no local indicado e fui andando até a Questura
da Comune, depois de muito perguntar e procurar, os
funcionários descobriram que não era lá que estava a carta de
nascimento do avô do meu amigo, estava em Rossano, a
funcionária havia telefonado para a Questura da Comune de
Rossano e confirmado a informação, voltei de ônibus até a
estação ferroviária comprar a passagem para chegar até
Rossano, mais para o Sul da Itália.
Chegando à Questura da Comune de Rossano, me informaram
que todos os documentos dos cidadãos nascidos antes de
1900, estavam arquivados na Questura da Comune do Centro
Histórico da cidade, que fechava em 10 minutos, e não haveria
tempo de chegar naquela tarde, pelo horário de seu
fechamento, sendo possível somente na manhã seguinte.
Fato que me obrigou a procurar um hotel e dormir na cidade.
Fiquei hospedado no único hotel que havia, tomei um banho,
descansei e foi dar uma volta de reconhecimento da cidade,
era bonita igual Cosenza, limpa, moderna e muito
movimentada, voltei para jantar no hotel, seu restaurante
oferecia um cardápio com três pratos, pão e vinho, depois de
comer a primeira refeição naqueles dias, fui dormir.
Assim que amanheceu, levantei e tomei um banho dos Deuses,
e fui tomar o café da manhã e sai do hotel em busca da
Questura da Comune da cidade, localizada no Centro Histórico
de Rossano. Depois de pegar o ônibus, andar por 5 ou 6
quilômetros, cheguei ao alto da cidade. Era inacreditável a
maravilhosa paisagem que estava vislumbrando, as ruas muito
estreitas, com carros estacionados nos dois lados e o ônibus
circulando entre eles, uma linda vista do mar, as casas
coloridas grudadas nos morros, alguns prédios mais modernos,
não menos coloridos, e todas as suas igrejas, além dos prédios
públicos muito antigos e bem conservados.
Ao entrar no ônibus, avisei o motorista, aonde queria descer, lá
no alto do centro histórico, o motorista me avisou dizendo que
tinha chegado ponto em que eu deveria muito triste, pelo fim do
lindo tour pelo centro histórico de Rossano, mas não tinha jeito,
tinha que descer, e procurar o prédio da Questura da Comune.
Ao chegar ao prédio que o motorista havia informado, não
estava mais ali a Questura da Comune, tinha mudado para o
“Palazzo Giallo”, que estava localizado na rua depois de um
túnel, que tinha 80 metros de cumprimento, atravessando um
túnel da cidade, até chegar ao Palácio Amarelo, no outro lado
do centro histórico, que ao chegar fiquei impressionado com a
beleza simples, mas contundente de sua arquitetura amarela,
que tinha como fundo o lindo azul do Adriático.
No setor de documentação, quando me apresentei e queria a
carta de nascimento que havia solicitado para a funcionária, ela
respondeu que já estava pronta. Disse que estava pronta
desde o dia anterior, após o telefonema da Concheta, sua
amiga da Questura da Comune de Cosenza.
Agora precisava voltar à civilização normal, precisava sair do
morro que se localizava o Centro Histórico, de onde se pode
ver a Ilha da Sicília, e voltar à cidade de Rosano, e deveria
pegar de novo, o mesmo ônibus circular que me levou,
enquanto aguardava o ônibus chegar, ficava admirando a linda
paisagem do castelo amarelo, do mar e do céu azul que existe
naquela parte da Itália, vendo as montanhas da Sicília, até que
chegou o ônibus e fez outra a linda viagem, de volta. A estrada
era a mesma, as ruas estreitas cheias de carros, eram as
mesmas, as casas enfiadas no morro, eram as mesmas, os
castelos e as igrejas eram as mesmas, até chegar até a
estrada, para minha tristeza, e depois chegar até a estação de
trem, para começar a viagem de volta, e depois das férias de 5
dias, estava de novo em Milão. Cheguei numa quinta feira, fui
até a Questura da Comune de Trezzano Sul Naviglio para
pegar a Carta de Identidade, e solicitar o Passaporte Italiano.
Muito orgulhoso de mim, fui até o centro de Milão, onde
comprei a passagem de avião para ir até a cidade do Porto, em
Portugal, mas antes passaria o Natal em Paris. Queria
vivenciar o período que morei em Paris, as luzes, a missa do
galo, e as pessoas circulando pela cidade cheia de alegrias, de
pacotes, no meio da neve, imagens que jamais esquecerei.
10 – ESPERANDO PAPAI NOEL
Nunca tinha chegado a Paris de avião, aquela foi a primeira
vez, desci no Aeroporto de Orly e peguei o metro que me
deixaria na estação Saint Michel, no Quartier Latin, muito
próximo do hotel que morava nos anos 1966. Quando sai da
estação levei um susto, o bairro que era dos intelectuais e das
artes tinha se transformado no bairro dos petit restaurant´s,
com uma quantidade enorme de turistas, completamente
diferente do bairro calmo e tranquilo de antigamente. Podia
perceber pelos cafés que agora tinham suas mesas todas
tomadas por turistas não tomavam um simples café e ficavam
conversando, agora serviam alimentação, perdendo aquela
antiga característica de bairro cultural.
Mesmo assim, fui procurar um hotel, quando encontrei me
assustei com o preço da diária, perguntei num bom francês ao
porteiro, porque era tão caro, ele me respondeu que era o
bairro do Quartier Latin! Poderia encontrar um hotel mais
econômico próximo das estações ferroviárias, me lembrei da
Gare Saint Lazare, que eu conhecia bem, voltei ao Metro, e
desci na estação Saint Lazare, subi a Rue D´Amsterdan,
passando por hotéis que as diárias se reduziam à medida que
ia se afastando da Gare, chegando à Place du Clichy, dei a
volta e desci a Rue du Clichy, aonde encontrei um hotel com
uma diária mais compatível com meu bolso. Devidamente
alojado, fui ver Paris de novo, estava maravilhado com as luzes
das ruas, das lojas, que não sabia por aonde começar, estava
na Boulevard Haussmann, entrei nas Galerias Lafayette,
grande magazine, com lindas lojas, encontrei muitas pessoas
bonitas, felizes e carregadas com presentes, ganhei brindes de
perfumes, e fui ver outro grande magazine, Printemp´s,
semelhante ao primeiro, com as mesmas características.
Estava entardecendo, resolvi andar até a Place de la
Madeleine, admirar a igreja e caminhar pela Rue de L´Arcade
e depois Rue Royale para chegar na Place de la Concorde,
com aquela linda e iluminada Roda Gigante, e depois caminhei
pela Avenue Champs Elysées, para chegar até o Arco do
Triunfo. Na volta passei pelo Grand Palais e Petit Palais, e fui
ver a Torre Eiffel, que agora tinha suas estruturas iluminadas e
tinha um farol no seu topo, devagar fui voltando para o hotel,
procurando por um supermercado para comprar pão, queijo e
vinho para lembrar os velhos tempos.
Depois de fazer as compras, fui para o hotel me deliciar com os
queijos e vinhos nacionais, depois dormir maravilhado com
tudo aquilo, coloquei uma cerveja para gelar fora da janela, e
pela manhã levantei, tomei um banho e continuei o passeio, fui
procurar a Catedral Notre Dame, o Museu do Louvre, o Museu
de Cluny e o Hotel que tinha morado nos anos de 1966.
Continuando o passeio, almocei num daqueles petit´s
restaurant´s e fui conhecer a Gare de Lyon.
Como estava chovendo muito vim de metrô para o hotel, entrei
e fiquei tomando vinho com pão e os deliciosos queijos,
esperando a chuva passar. Assim que estiou, sai em direção à
Eglise Sacre Coeur, passando pelo bairro de Pigalle, e depois
de muito andar pelo Boulevard de Rochechouart, pelo
Boulevard de Magenta, pelo Boulevard de Strasbourg e pelo
Boulevard de Sebastopol, fui admirar o Centro George
Pompidou, antigo Les Halles, ao lado da Ecole des Arts et
Metiers, que tinha estudado, e no final da tarde estava na Rue
de Rivoli, procurando o Palais Royal, residência do Rei Luiz
XV, e fui voltando para o hotel, mas não deixei de passar pela
Rue de la Parcheminerie, 59, onde tinha morado nos anos
1966. Depois passei pelo supermercado para reabastecer meu
estoque de queijos e vinhos, além das deliciosas baguetes de
pão.
Encontrei, aproximadamente, mais de 400 tipos de queijos
diferentes, entre eles o creme de camambert e os queijos de
ervas, que simplesmente adorei. Era véspera da noite de Natal,
comprei a champanhe nacional e coloquei na “minha”
geladeira, e organizei a minha Ceia de Natal, que teria até
Caviar. Para o meu jantar tinha comprado um sanduíche
gigante, que tinha de tudo, atum, ovos, salada, tomate, queijo,
presunto e pão. Fui deitar sonhando com o dia seguinte.
Amanheceu, com tempo nublado, característico de quando vai
nevar, levantei tomei meu banho e fui tomar o café da manhã,
tinha comprado yogurtes e cremes de yogurtes, estava
deliciosamente alimentado, voltei a passear pelo Boulevard
Haussmann nos grandes magazines, olhando e tentando
fotografar tudo, suas lojas, seus artigos, suas mulheres, suas
fachadas iluminadas, suas vitrines que estavam apresentando
uma orquestra de louças que tocavam e dançavam músicas
natalinas, fiquei emocionado e assim passei o dia.
Voltei para o hotel mais cedo, afinal precisava montar a minha
ceia de Natal, e assim fiz, me deliciando, muito emocionado,
mas muito feliz em passar o Natal em Paris. Na manhã
seguinte fui para o Arc de la Defense, em Neully, município
vizinho de Paris, era muito longe, mas o caminho era lindo,
seguindo o Rio Sena, e preferi andar a pé, olhando e
fotografando. Depois de andar 21 km, cheguei até o lindo
prédio na Biblioteca Nacional, com linda muito moderna
arquitetura. Este espaço era destinado aos projetos dos
arquitetos de renome internacional e das construções
edificadas com tecnologia de ponta, resultando uma paisagem
completamente diferente de Paris. Antes de chegar ao edifício
da Biblioteca Nacional, existe uma praça gigante, que tem em
seu entorno edifícios moderníssimos, na praça uma série de
pequenas barracas, quando fui verificar, encontrei uma feira de
alimentação, com comidas de todos os lugares do mundo, com
aroma irresistível, e as três comidas que experimentei eram
sabores indescritíveis.
Uma das barracas tinha como sua grande atração uma enorme
frigideira, mais de 1,20 metros de diâmetro, onde preparava
seu “cosido”, sempre mexendo com uma enorme colher de
pau, era um cosido com pimentão, tomate, cebola fatiada, e
alguns outros legumes que não reconheci, e pedaços de carne,
tudo com muito azeite e diversos tipos de ervas, o cheiro
chegava longe, apesar do vento gelado e da neve que
começava a cair.
Depois de passar o dia na feira, tentando ver todas as
barracas, e suas comidas, seus brinquedos e suas roupas,
comecei a andar de volta para o hotel, pois na manhã seguinte
eu sairia do hotel e iria para o Aeroporto Charles de Gaulle
pegar o avião para a cidade do Porto, que para chegar ao
centro da cidade, existe um metrô de superfície, muito bonito,
bem cuidado e que mostra todas as partes da cidade, e fui
descer em Porto Champanhã, onde pegaria o trem para
Guimarães, que não era menos bonito.
Em Guimarães, depois chegar até a Universidade e procurar
pela Andrea, a secretaria do seu orientador, para me colocar
em contato com a pessoa que daria a chave do apartamento.
Estava comprando um apartamento que tinha dois quartos,
uma sala com varanda que apresentava uma linda paisagem
da natureza que envolvia a cidade e uma parte da cidade. Para
completar a mudança e preparar o apartamento ainda fiquei
dois dias no hotel de Las Trinas, e depois fiz a mudança, tinha
algumas coisas pessoais, mas ainda precisava comprar alguns
equipamentos de quarto, sala e cozinha, além do seu o portátil,
como eles chamam aqui o notebook.
Agora no meu apartamento, com tudo quase em ordem, fui
passear com o trem lindo até a cidade do Porto, almoçar num
dos restaurantes que serve bolinhos de bacalhau e cerveja
preta Sagres, depois passar pela Rua do Comércio e comer os
doces de sobremesa, e ir até a loja da FNAC para comprar
meu portátil DA Mac, o nome do Notebook em português, e
voltei ao apartamento cheio de pacotes.
Depois de estrear o meu novo computador, bonito e eficiente,
instalei os programas que trouxe de São Paulo, inaugurei meu
quarto de dormir, na minha primeira noite em Guimarães. No
dia seguinte, no final da manhã fui para a Universidade, nas
salas da Pós Graduação do Departamento de Engenharia Civil
da Uminho.
Para fazer a minha pesquisa de Pós Doutorado na
universidade portuguesa, utilizava três manhãs por semana,
deixando muito tempo para ler, escrever, estudar e passear.
Estava morando próximo à universidade, onde fazia principais
refeições, para os lanches de final de tarde comprava vinho
português, francês, italiano ou espanhol, pão, queijos francês e
alemão, frios espanhóis, e
sobremesa com pasteis de
Guimarães.
Agora com a vida totalmente reorganizada, colando todos os
“cacos”, me sinto um novo homem, uma nova pessoa, tinha até
outra identidade, estava em condições para tentar me
relacionar novamente. Ficaram doces reflexões sobre antigas
namoradas, nenhuma especial, apenas algumas lembranças
boas, dos namoros mais sérios, da namorada que virou noiva,
sem nenhum ressentimento, a preparação para o casamento,
que foi muito rápida, mas intensa e muito gostosa, até o
momento da cerimônia, ficava imaginando como seria passar
tudo aquilo de novo, com alguma outra pessoa. Apesar de
gostar muito de uma casa térrea, com jardins de entrada e nos
fundos, tinha encontrado e comprado um bonito apartamento,
com dois quartos, uma linda e ampla sala, com varanda, muito
bem localizado, próximo da universidade, num prédio novo e
aconchegante, bonito, com uma arquitetura moderna, seus
espaços internos e externos eram de extremo bom gosto.
11 – O PRESENTE SURPRESA
Escolhi o apartamento em função da linda vista dos morros,
que cercam a cidade, vista da sala, onde, durante os meses de
agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro, o
entardecer acontece com um maravilhoso “por do sol” até ás
21 horas.
Depois da mudança, na primeira reunião de condomínios,
encontrei todos os meus novos vizinhos, eram muito simpáticos
e prestativos, mas também muito reservados, e no convívio
com essa “nova grande família” que habitavam no prédio,
começava a se destacar, um jovem casal que também tinha
acabado de se mudar, recém-casados e moravam num
apartamento vizinho ao meu, isso quer dizer que, mesmo sem
querer, participava da vida deles, ouvindo algumas conversas,
todos os momentos de carinhos e todas as brigas do casal, que
apresentavam sempre um tom mais alto, como era de se
esperar.
Quando fazia compras no Continente, um imenso
supermercado que existe próximo do prédio, ou quando
participava das reuniões de condomínios, nas festividades do
bairro e nos passeios que fazia pela praça, no meio da
multidão, percebia a presença daquele casal de vizinhos, se
destacando no meio das pessoas.
Eles não tinham nada de especial. No começo, quando se
mudaram para o prédio aparentavam ser muito tímidos e
circulavam pelo prédio sem cumprimentar ninguém, não
participava de todas aquelas chatíssimas reuniões de
condomínio, depois de um tempo, começaram a se integrar
com a vizinhança, e numa das reuniões eles se apresentaram
e acabaram por ficar um pouco mais amistosos, participando
mais assiduamente nas festas de alguns vizinhos e das
reuniões do prédio. Algum tempo depois começava a me
perguntar por que era tão grande o meu interesse pelo
comportamento daquele casal. Quando me dava conta, eu já
estava observando todas as reações do casal no convívio
social, analisando seu comportamento nas pequenas
discussões sobre compras, no estacionamento do carro, nas
roupas escolhidas, nos horários de chegar, de sair para as
festas e o relacionamento com os vizinhos, com o zelador e
com os empregados do prédio.
Na verdade, aqueles comportamentos me traziam antigas
lembranças de recém-casado e, inevitavelmente, traziam
algumas saudades, saudades dos momentos bons, e além de
uma enorme inveja daquele casal, começava a perceber que
tinha alguma coisa a mais, estava começando a ficar com
ciúmes daquele marido. Comecei a descobrir que ela era uma
bela mulher.
Na verdade sentia ciúmes, raiva, tristeza, melancolia e até
tristeza, sentimentos humanos e naturais, que não me furtava a
tê-los de forma controlada, afinal faz parte do comportamento
humano. Pelas saudades, pelas lembranças ou pela simples e
inocente beleza daquela linda esposa, inconscientemente,
estava desenvolvendo uma estreita convivência com o casal,
se é que pode se falar assim, mas sempre à distância, com
muito cuidado, discrição e muita atenção para que eles não
percebessem minha dedicada observação. Dessa forma
comecei a prestar mais atenção e procurar conhecer melhor as
formas de convivência do casal.
Fernanda, nossa linda personagem, tem uma imagem de
mulher que sempre havia sonhado e fazia parte do meu
repertório cultural e afetivo da imagem e do comportamento de
uma mulher ideal. Ela era uma pessoa de fala mansa, delicada
e muito cuidadosa com suas atitudes, meiga e muito doce, com
um encantador sorriso, mas muito contido o que demonstrava
ser, aparentemente, muito tímida, com lindo olhar azul,
bastante dissimulado, entretanto muito observadora nos
pequenos detalhes, com gestos delicados e finos. Tinha um
tipo físico muito bonito, com estatura média, peso compatível,
seios médios, cintura normal, quadris proporcionais, bumbum
levemente pronunciado, pernas muito bem torneadas, joelhos
bonitos e pés normais, de pele morena clara, cabelos
castanhos lisos, cortados à altura dos ombros, lábios grossos,
extremamente sensuais, dentes perfeitos, dedos finos e longos
que formavam um par de mãos delicadas, enfim ela era um tipo
de mulher quase perfeita, uma morena tipicamente espanhola,
com ar e calor da mulher brasileira. Mas era uma mulher
portuguesa, com certeza.
Se pudesse fazer a escultura da minha mulher preferida, teria
que pedir para ela ser o modelo, pois ela tinha tudo que eu
gostava numa mulher, além de expressivos e lindos par de
olhos azuis. Claro que devia ter alguns defeitos, mas não eram
visíveis aparentemente.
Ela era um modelo de pessoa fina, além de tudo era uma
esposa extremamente doce, demonstrava isso nas conversas
com seu marido, aparentemente fiel, nunca percebi ela olhar
para qualquer outro homem, participativa e bastante
companheira, deverá ser uma mãe cuidadosa e exemplar,
pensava eu.
Inconscientemente, estava analisando e constatando um perfil
de mulher que sempre esteve no meu inconsciente, começava
a entender agora porque tinha o casal em estreita observação,
descobri que, na verdade, era ela a quem eu estava
observando.
Uma das características da sua personalidade, aparentemente,
era uma pessoa que não se importava com o que os outros vão
dizer, isto é, se ela tinha vontade de fazer um carinho, beijar,
abraçar ou discutir com seu marido, ela fazia em qualquer lugar
que estivesse, diante das pessoas ou não, ela não se
importava, apesar de todas as reações de desconforto que seu
marido sempre apresentava. São alguns dos detalhes que
descrevo o casal que veio morar num apartamento vizinho ao
meu, as características físicas e pessoais da Fernanda,
demonstrando que ela chamou a minha atenção, e de uma
forma muito contundente. Havia também o comportamento de
casal, recém-casados, que me fazia reviver as lembranças da
minha vida de casado, e a figura da Fernanda, me chamava
muito mais atenção, porque ela tinha atitudes completamente
diferentes da minha ex-mulher.
A gente acaba sempre comparando, por mais que não queira
lembrar. Ela apresentava um comportamento, nas mais
diversas situações, que era exatamente como eu gostaria que
minha ex-mulher fizesse. Como já escrevi acima, as
comparações eram inevitáveis, por mais que eu disfarçasse ou
não quisesse.
A realidade é que tinha acabado de me mudar para este
apartamento, tentando mudar toda a minha vida, tentando criar
um novo mundo, para gerar novas expectativas de vida, com
novas oportunidades, e aquele casal, por sua vez, depois de
casados, também tinham vindo morar no apartamento deles,
no mesmo prédio, deveriam estar procurando as mesmas
coisas que eu. E que, de certa maneira, estávamos na mesma
situação, vivenciando novas expectativas de vida.
Divorciado há um determinado tempo, havia comprado aquele
apartamento, estava tendo o prazer de estar mobiliando pela
primeira vez o meu espaço de vivência, da forma que sempre
quis e nunca havia conseguido, agora poderia escolher todos
os móveis, geladeira, televisão, fogão, mesa, cadeiras, tapetes,
luminárias, louças, talheres e as peças decorativas, sem ser
repreendido por escolher peças com elevada qualidade, de alto
custo, pela cor ou até pelo design dos móveis, estava agora,
vivendo uma nova experiência de vida, uma nova liberdade.
Depois de projetar a decoração do apartamento, estava
começando a comprar e mobiliar minha nova casa.
Estávamos vivendo em apartamentos distintos, mas muito
próximos fisicamente, o apartamento do casal era vizinho ao
meu. Os apartamentos estavam separados apenas por uma
parede, no mesmo corredor, e por diversas vezes nos
encontramos saindo ou chegando de elevador, ou no hall do
principal do prédio, mas nunca houve uma troca de olhares
entre nós.
Nosso relacionamento sempre foi reduzido aos cumprimentos
formais de convivência normal que deve existir entre vizinhos.
Bom Dia. Boa Tarde. Boa Noite. Até Logo. A “proximidade”
emocional que eu havia desenvolvido com aquele casal,
apresentava cenas muito semelhantes aos momentos iniciais
do meu relacionamento de recém-casado, resgatando cenas
do meu casamento, com todos os prazeres, alegrias, tristezas,
brigas, crises e problemas.
Na minha sala de estar e de trabalho, havia colocado a minha
prancheta, que na verdade era uma porta de vidro temperado,
que tinha um tabuleiro de xadrez, demarcado com jato de areia
numa das pontas, decorado com as peças de um jogo que
havia comprado numa das minhas viagens à Barcelona, um
espaço no centro havia deixado um espaço para poder
desenhar e, na outra ponta o meu computador, onde ficava a
maior parte do tempo, participando, mesmo não querendo, de
quase todos os movimentos do casal, devido à proximidade
física, se podia se ouvir com alguma clareza tudo o que eles
conversavam, amavam, discutiam ou brigavam.
Quando eu chegava ou saia de casa, sempre me surpreendia,
inconscientemente procurando pelo casal, mais por ela,
especificamente, e quando encontrava, ficava admirando e
observando seus gestos e atitudes, suas roupas, seu
penteado, quase sempre sem maquiagem, também estava
sempre com muita atenção no seu marido, e com extremo
cuidado para que ela não pudesse perceber. Durante as festas
na praça, qualquer coisa era motivo para abraços, beijos,
carinhos, sorrisos e todo o comportamento típico de um casal
que ainda estava vivendo sua lua de mel. Alguns meses
depois, comecei a perceber a ausência de Fernanda, só
encontrava com seu marido, depois fiquei sabendo durante as
reuniões de condomínio e pelas conversas com zelador,
porque Fernanda estava “desaparecida” do prédio, estava
grávida e precisava de alguns cuidados especiais, foi passar
um tempo na casa de seus pais para aguardar o nascimento do
nenê e seu total restabelecimento.
Depois de algum tempo, numa das reuniões de condomínio,
comentaram que tinha nascido uma menina e o nome
escolhido foi Carolina. Não pude deixar de recordar da minha
reação nos primeiros momentos de vida da minha primeira
filha. Depois de internar minha ex-mulher no hospital e chamar
o médico que iria fazer o parto, aguardar o parto normal, que
não aconteceu, e depois acompanhar, de longe, a operação
cesariana, quando chegou ao fim, as enfermeiras trouxeram a
ex-mulher, ainda na maca, desacordada até o apartamento do
hospital, perguntei ao médico se tinha corrido tudo bem, se a
menina era perfeita e estava bem, aliviado fui descansar na
cama de acompanhante que havia no quarto.
Fui deitar, tentando dormir, mais calmo depois de tantos
sobressaltos, da bolsa estourada, dos telefonemas para o
médico e deslocamento para o hospital, a operação e num
sobressalto me lembrei, mas e a criança? Como seria sua
imagem? Como estaria?
Levantei e fui rapidamente ao berçário para conhecer minha
filha e ver como ela era e como estava passando, a enfermeira
perguntou o número do apartamento e depois levantou o
“pacotinho” mostrando seu rosto em frente ao vidro do
Berçário. De volta à cama do quarto do hospital, me veio à
cabeça a frase de um velho amigo, Veloso, ao nascer o seu
primeiro filho: “Que bom, mas agora jamais terá sossego!”.
“Imagina”, respondi: “depois eles crescem e casam.....!” Ele,
sorrindo afirmou: “É.... mas ai vem os netos”! Realmente ele
tinha razão, jamais tive sossego, e olha que ainda não vieram
os netos. Mesmo sem querer estava participando de todos
aqueles acontecimentos que envolviam o casal, como se
estivessem acontecendo comigo, com uma pequena vantagem,
eu já saberia como resolver, ou melhor, como havia resolvido,
e ficava observando como eles iriam resolver, era apenas um
mero espectador.
Continuava comparando os comportamentos da mãe, do pai e,
depois de alguns meses, da própria filha, mas isso tudo era
muito compreensível, era uma maneira de poder suportar a
distância e as saudades dos tempos passados, e ainda tentar
descobrir, como poderia me comportar se viesse a ter um novo
filho.
Mais ou menos um ano depois a Carolina começava a andar,
comecei a perceber que o casal não tinha mais os mesmos
comportamentos de lua de mel, começaram a surgir algumas
discussões, como era de se esperar, quando ele saia de casa
ou quando chegava do trabalho, se ouvia, apesar da sua
televisão estar ligada, palavras e atitudes muito semelhantes
aos momentos que eu tinha participado quando meu
casamento entrar em crise.
A cada dia que se passava, se podia perceber uma
determinada rispidez nos diálogos que tinham durante os
passeios, quando levavam Carolina tomar sol na praça, ou nas
discussões que tinham dentro do supermercado sobre
determinadas compras, era visível suas feições aborrecidas
quando compareciam nas festas que existiam no bairro. Ela
tinha uma imagem transparente, sua imagem demonstrava
todo seu estado de irritação, ele conseguia disfarçar um pouco
mais.
Quando saiam juntos de casa, a impaciência era uma
característica que predominava no casal, os vibrantes diálogos
tinham se transformado em verdadeiros monólogos. Não
percebia as mãos dadas ou o abraço carinhoso, muito menos
alguns beijos no rosto, atitudes que eram comuns no
comportamento do casal. A convivência entre duas pessoas
que tem origens, criações e formações diferentes, e que agora
precisam de um tempo para superar a fase de adaptação à
vinda da primeira filha, de convivência sob o mesmo teto, mas,
aparentemente, eles estavam enfrentando a primeira crise
conjugal.
Quando Fernanda saia de casa, demonstrava que não estava
muito feliz, sempre batendo a porta, andava apressada,
aparentava estar muito frustrada, entristecida, sempre com o
seu lindo rosto amargurado, não se conseguia ver mais o seu
lindo sorriso. O mesmo não se podia dizer ao observar o
comportamento do seu marido Roberto, que aparentava ser
uma pessoa mais flexível, mais contida e muito reservada. Não
aparentava tristeza nem alegria, mas conseguia perceber que
não estava muito feliz através dos seus comportamentos.
Ele procurava não participar mais dos jogos de futebol dos
moradores do condomínio nos finais de semana, muito menos
aparecia para nossas reuniões, sempre regada à cerveja e
bolinhos de bacalhau depois dos jogos, e quando jogava bilhar,
ele não apresentava a mesma calma ao perder, inclusive nas
discussões sobre o jogo de futebol do Vitória de Guimarães
que a televisão mostrava, todo seu comportamento
demonstrava que estava com a sua paciência no limite.
Na realidade, além de procurar disfarçar os seus problemas
familiares e pessoais, perante a sociedade, ele deveria estar
muito confuso com todas aquelas novidades na sua vida, no
seu relacionamento pessoal, e assim como qualquer marido,
ele também não sabia direito por onde começar a procurar o fio
da meada. Conhecia cada passo das suas reações, tinha
vivenciado tudo aquilo, todas aquelas reações, e durante o
tempo que passei por tudo aquilo, fiquei tão confuso como ele
ou até mais. Eu também não sabia por aonde começar e o que
fazer para sair daquele momento ruim da minha vida, e
imaginava que ele também deveria estar muito aflito com tudo
que estava acontecendo na sua vida. De qualquer forma,
aquele casal não era o mesmo que tinha se mudado para
apartamento vizinho ao meu. Era compreensível que a forma
de tratar a Fernanda não seria a mesma quando estava recémcasado, não se pode esperar um comportamento “em lua de
mel” seja eterno, mas também, não precisava ser tão ríspido,
pensava eu.
De qualquer maneira, não era um comportamento que todos
estavam acostumados a ver. O que mais se estranhava, era
que ele quase não saia mais com a filha Carolina. Percebia que
as saídas do Roberto ficavam mais constantes, retornando
mais tarde do que o costume, mas estava sempre sozinho,
uma vez ou outra com alguns amigos.
Os casais amigos, que sempre visitavam o casal, pouco
frequentava o apartamento deles, as únicas visitas constante
eram dos pais da Fernanda. Considerando os mais recentes
acontecimentos e o comportamento de ambos, tudo indicava
que aquele relacionamento estava se deteriorando, e não eram
meus olhos ou minha vontade.
Não conseguia deixar de ficar muito triste com tudo aquilo,
imaginando os momentos amargos que eles iriam passar,
muito semelhante aos momentos que já tinha vivido e todo o
sofrimento com muitas lágrimas derramadas, sem falar da
criança, quem mais sofreria mais com a eventual separação.
Pelas conversas que tinha com o zelador e com o pessoal do
prédio, fiquei sabendo que grande parte das discussões girava
em torno da ocupação de Fernanda, que destinava todas as
horas disponíveis do dia com cuidados para com a criança, as
compras, a empregada, a casa, com responsabilidades que,
aparentemente, administrava muito bem.
Determinados cuidados para com a casa, que deveriam recair
na responsabilidade do seu marido, era exatamente o que ele
não assumia ou ficava demorando muito para resolver
pequenos problemas, que ao passar do tempo se tornam
imensos problemas, escutava sempre ela reclamar da ausência
do marido na casa para resolver esses problemas domésticos.
Ele não cogitava tentar resolver e nem pedia ajuda ao zelador.
Parecia que ele não estava participava daquela convivência
familiar.
Pequenos problemas com o chuveiro, a torneira do banheiro, o
desentupimento dos bicos do fogão, chamar o técnico da
geladeira, a instalação da antena da TV a cabo, quando
solucionados, viram um assunto grave, de proporções
astronômicas. Conhecia aquele filme, que aparentemente foi
dirigido pelo mesmo diretor, mas os papeis dos personagens
principais, estavam trocados.
Na minha casa ela ficava sempre ausente dos problemas, das
compras e da educação das crianças, enquanto que os
problemas domésticos eram resolvidos na medida do possível.
Roberto chegava sempre tarde em sua casa, a cada dia que
passava, ele chegava mais tarde, e mesmo sem querer, eu
acabava ouvindo sons muito semelhantes às reclamações,
discussões, brigas, portas batendo, e depois, silêncio total.
Na festa do segundo aniversário da Carolina, todos esses
problemas vieram à tona perante as duas famílias. O casal
alugou o salão de festa do prédio, com a ajuda de alguns
empregados, e nos dias que se seguiram à festa, os
comentários de todas as discussões que houve entre os
convidados, que, aparentemente deveriam ser os pais da
Fernanda e o Roberto, depois com os pais do Roberto, como
se esperava, vieram em defesa do filho, quase aos gritos,
deixando
os
demais
convidados
numa
situação
constrangedora, atitude que praticamente acabou com a festa.
Agora a crise conjugal do casal estava devidamente
apresentada para todo o condomínio. Nos finais de semana
que se seguiram, aos sábados à tarde quando assistia o
futebol pelo Campeonato Português na televisão, percebia o
carro dos pais da Fernanda chegar para visitar o casal, em
seguida Roberto aparecia para ver o jogo de futebol com o
grupo masculino do condomínio, ficava no bar com alguns
vizinhos, ou sozinho, até a noite, e na manhã do domingo, saia
para lavar o carro, olhar as nuvens, e voltava à tarde para o
hall do prédio, e ficava assistindo o futebol na TV com os
demais vizinhos. Parece que não almoçava em casa com a
família.
Nos outros domingos, em que não tinham visitas, poderia
encontrar o Roberto no espaço existente do prédio, juntamente
com os demais vizinhos, jogando pebolim, na beira da piscina,
ou vendo televisão. Apesar da Fernanda se encontrar na área
da piscina, tomando sol com a Carolina, agora, ele raramente
ficava com elas. Após o jogo, Roberto, sozinho, esticava as
horas até a pastelaria e lá ficava conversando com outros
amigos.
Nos dias de semana, todas as tardes, na mesma hora,
Fernanda saia de casa para levar sua filha na pré-escola, e
depois no final da tarde, voltava para buscar a menina, e fazia
as compras juntas no supermercado e depois na padaria, esse
horário quase sempre coincidia com o meu horário de chegar
da universidade.
Outras vezes, num horário diferenciado, Fernanda saia de casa
para levar Carolina ao parque, passear, brincar e tomar sol,
mas sempre sozinhas do Roberto. Não era dedução minha,
agora sempre constatava as saídas da Fernanda sozinha ou
com a filha, sempre sem o Roberto. A minha sala era grande e
o ambiente da mesa de vidro ficava em frente a uma grande
janela, do outro lado estavam dois sofás e um pequeno bar,
que ficava na parede junto à porta de entrada.
Na verdade eu trabalhava na sala, ao lado da janela e da porta
de entrada do corredor, e tinha o apartamento do casal de
forma contígua, e devido a isso, participava de quase tudo,
quando ela falava docemente com a filha, ou de forma ríspida
com Roberto, era muito difícil deixar de escutar. Acompanhar
todos os passos da Fernanda passou a ser um comportamento
natural, porque ela era uma linda mulher, e sua beleza me
emocionava, saber que existe uma mulher que pode ser tão
diferente da minha ex-mulher, mas agora, principalmente, pela
curiosidade sobre o desenrolar dos fatos que estavam
acontecendo, praticamente na continuação da minha sala de
estar. Era uma ocupação para meus momentos de folga, mas
que na verdade tinha um determinado interesse no desenlace
do caso.
Fazia um enorme esforço para não ficar torcendo pela
separação do casal, na verdade estava curioso em ver como
eles resolveriam aqueles problemas, apesar de ter muitos
cuidados para com minha intensa dedicação de observação.
Às noites, se podia perceber quando o Roberto voltava do
trabalho, a recepção que ela sempre fazia, antes do
nascimento da filha, era sempre muito calorosa, e que depois
foi ficando mais amena, e naqueles dias de crise conjugal,
além de ser muito fria, havia algumas pequenas discussões.
Ficava ouvindo a Fernanda perguntar por que chegou tarde,
aonde tinha ido, o que tinha ido fazer e com quem estava.
Fernanda reclamava sempre que, cada vez mais, ele via
menos a filha, não estava acompanhando seu crescimento, e
não demonstrava o menor interesse em saber de como tinha
sido o dia delas. Ele, por sua vez, dizia estar sempre cansado,
com pouco tempo para ele, que seu emprego estava por um
fio, enfim essas histórias de queixas e reclamações, que nós
todos já conhecemos. Depois da gritaria, não se ouviam vozes,
era um enorme silêncio, se percebia o som da TV.
Parecia que estava lá, sentado num dos sofás da sala deles,
ouvindo os mesmos diálogos que eu tinha com minha exmulher, com uma única diferença, os papéis estava trocados,
mas podia imaginar que os desejos eram os mesmos, as
necessidades eram idênticas, e a vida dos dois estava ficando
muito sacrificada, e a relação estava estremecida, esvaziada e
esfriada. Por mais bonito que tenha sido o encontro, a fantasia,
a sedução, o namoro e o casamento, o relacionamento não
tem muita consistência para resistir àqueles desencantos
todos, o sonho e a ilusão da vida a dois, começa e se
desmanchar. A relação começa a se arrastar, até chegar ao
fim. Mas o final do relacionamento só termina com a coragem
de um dos dois, para assumir o rompimento, a separação e,
posteriormente, o divórcio.
E no caso deles, em nenhuma circunstância, a criança poderia
ser um ponto de apoio para a manutenção daquela relação,
uma vez que, aparentemente, o surgimento da Carolina teria
gerado
a
mudança
dos
comportamentos
e
a
consequentemente crise do casamento. A vida do casal se
altera muito com o surgimento do filho, e o amor precisa ter
uma base muito sólida para resistir às mudanças de
comportamento do casal. O marido, que tinha atenção integral,
agora deve dividir a atenção da esposa com a criança, gerando
“ciúmes” do marido, que olhava para a criança como um “ser
que invadia o seu espaço”.
Ainda deveria ser considerado o comportamento sexual, que já
tinha sido alterado com a gravidez, continuava com o
nascimento da criança, desfigurando o corpo da mulher e seus
desejos, deixando o marido num outro departamento, que,
inconscientemente, passa a se sentir “rejeitado” ou “trocado”
pela criança, o que não é verdade, mas esses pensamentos
passam pela cabeça dos homens que não conseguem ter uma
compreensão sobre essa nova fase da vida do casal, que,
depois do nascimento do filho, se altera profundamente.
No meu caso, quando a relação estava agonizando, dentro do
relacionamento, sem perceber, nós começávamos a nos tratar
como dois estranhos dentro de uma mesma casa, fazíamos as
nossas comunicações mais urgentes e indispensáveis, sem
usar as palavras, chegamos a usar as crianças para mandar
recados. Quase não existia nem vontade de brigar, e
chegamos a dormir em quartos separados, por não conseguir
mais sobreviver juntos, até que um dia, minha ex-esposa
acabou se cansando e resolveu colocar um fim na relação, e
colocou-me, “delicadamente”, se é que existe isso, para fora de
casa. Numa das minhas viagens de trabalho até Mato Grosso,
ela me pediu para que não voltasse para aquela casa, que
fosse para outro lugar. Na hora, tive um enorme susto, um
choque, e uma crise de choro, fiquei pensando, não em mim,
mas no que iria acontecer com as crianças, que, ao meu modo
de ver, são as que mais sofreram com a separação.
Pois ela saia de casa pela manhã bem cedo e voltava para
casa à noite bem tarde, em todos os dias da semana, e nos
finais de semana, aos sábados, ficava em casa, telefonando e
conversando com as amigas, às noites me convidava para sair,
o único dia que ela dedicava à família era o domingo, no
almoço na casa da sua mãe e o lanche na casa da minha mãe.
Agora que estava fora da casa, as crianças ficariam com a
empregada.
No começo, visitava as crianças todas as noites, para jantar, e
depois colocar na cama fazendo pacotinho com as cobertas,
para quando elas dormirem não se descobrirem, e contar
histórias até elas caírem no sono. Saia de casa chorando, pois
elas ficavam sozinhas na casa delas, e eu ficava sozinho na
minha casa.
Foi quando tive uma conversa com ela, porque ela não saia de
casa, pois, apesar de todos os meus compromissos, sempre
estive mais presente na casa e junto às crianças, ela me
respondeu: “Que o lugar da mãe é junto das filhas!”.
Justificando que ela tinha razão, mas a mãe deveria estar
presente por mais tempo, senão o papel da mãe seria exercido
pela empregada, que passaria o seu precário repertório cultural
para as crianças no dia-a-dia.
Se ela saísse de casa as crianças não iriam sentir tanta falta,
como sentiram a minha ausência. E, lamentavelmente, foi o
que aconteceu. A parte mais difícil foi sair da casa e avisar as
crianças, chorando, que o pai não vai mais voltar para aquela
casa, foi uma situação aterrorizante, para mim e para as
crianças, só a mãe das crianças, apenas sorria, dizendo que
chorar faz bem, não percebendo nada, como não tinha
percebido tantas outras coisas. Na primeira noite que dormi
fora de casa, em São Paulo, caí na realidade nua e crua,
entendendo que alguém tinha que tomar aquela atitude. Eu não
teria coragem de sair sozinho da casa diante das filhas. Mas
não poderia ficar naquelas circunstâncias, estava muito
desgastante para todos.
Nesse momento histórico muito difícil, delicado e preocupante,
para que se possa manter vivo, sóbrio e com dignidade,
procurando seguir a vida, sem usar bebidas, drogas, bares ou
boates, como fugas ou pontos de apoio. Havia abusado um
pouco da bebida, durante os três primeiros meses, para não
pensar em nada. Passava o dia meio “dopado”, como nunca
havia bebido, qualquer pequeno copo me deixava embriagado.
O meu trabalho profissional, naquele momento histórico, era a
construção de um hotel na praia de uma cidade próximo à
cidade de São Paulo, num domingo ensolarado, acordei pela
manhã, tomei meu café e fui andar pela praia, dentro das
pequenas ondas do mar, e percebi uma multidão de pessoas
bonitas, alegres, bronzeadas e festivas, um grupo de mulheres
bonitas, mais novas do que eu, que estavam sempre
procurando alguém para se divertir ou se relacionar.
A partir daquele domingo, parei de me esconder atrás de uma
garrafa, e resolvi assumir minha nova vida, minha nova
realidade, acabei, depois de alguns meses, encontrando uma
nova namorada, fato que me deixava um pouco mais tranquilo,
mas não conseguia esquecer a convivência com as crianças.
Voltando ao que acontecia em Guimarães, o que se percebia
era que a imensa paciência que Fernanda e sua filha tinham
para com marido, não era correspondida, muito pelo contrário,
era muito grande a insatisfação que ele tinha para com elas.
Não me conformava com o comportamento que ele adotava,
nem a maneira com que ele se correspondia àquela
maravilhosa e deliciosa mulher, que eu, supostamente achava
que ele tinha. Aparentemente, Roberto demonstrava,
simplesmente, não saber o que fazer com Fernanda e Carolina.
Com o passar dos meses, acabei ficando com muita pena dele,
ele estava perdido naquela relação, e com aquela sua postura,
nenhum casamento poderia resistir, por mais sólido que fosse.
Imaginava que ele deveria ter suas razões para estar agindo
daquela forma.
O relacionamento entre a Fernanda e o Roberto estava
extremamente semelhante às cenas características do final do
meu casamento, e demonstravam que, aparentemente, que
com aquele tipo de comportamento, o casal estaria muito mais
próximo da separação, do que de uma reconciliação. Era
exatamente o que estava acontecendo, em qualquer momento
eles deveriam terminar aquela relação.
De certa forma já deviam ter terminado, porque depois de uns
tempos, Fernanda comparecia às festas, reuniões de
condomínio e compras de supermercados, sempre
acompanhada de sua filha ou sozinha. Roberto era sempre um
grande ausente, aparecia em alguns dias da semana, e seus
pais nunca mais visitaram o apartamento do casal. O que era
um forte indício da separação.
Após de 10 anos de divorciado, estava revivendo aqueles
momentos de conflito doméstico, um comportamento que
marcou muito minha vida, e devido a isso, ainda estava, até
agora, com muito receio de assumir um novo relacionamento,
apesar de toda a minha vontade, pois não gostaria de ter que
passar por momentos, como esses, novamente.
Inconsciente ou conscientemente, já tinha desenvolvido
critérios muito rígidos para definir a escolha de uma nova
parceira, mas não saberia explicar porque havia desenvolvido
uma profunda admiração pela Fernanda, pela sua pessoa e
pelo jeito de como ela tentava levar a sua relação conjugal,
pela forma de se vestir, de falar, de se comportar perante a
sociedade, utilizando toda a sua transparência de postura. Sem
falar da sua imagem física e da sua extrema sensualidade, me
que deixava emocionado.
No início, quando eles se mudaram para este prédio, a minha
admiração começou com uma simples percepção do seu
comportamento social, quando ela estava na padaria, na
simples conversa com o balconista ou ainda nos diálogos que
mantinha junto ao porteiro e o zelador, ou com alguns dos
nossos vizinhos, menos comigo.
Nunca tinha conversado comigo, não houve oportunidade,
nunca consegui ver o azul dos seus olhos, que estavam
sempre sorrindo, nos meus olhos, ainda não tinha tido sido
beneficiado pela beleza do seu olhar, também nunca percebi
um olhar seu para qualquer atitude minha durante as reuniões,
festas, nas ruas ou nos corredores do prédio.
Quando ela surgia num espaço mais próximo ao meu, sempre
procurava ocupar meu olhar, de forma muito dissimulado, para
não me denunciar e poder ficar admirando sua postura, seu
andar, seu corpo, seus cabelos, suas pernas, suas roupas,
seus lábios e todo aquele seu jeito de ser, que aparentemente
deveria ser muito delicioso de se conviver. Nunca tive coragem
de olhar para seus olhos diretamente. A verdade era que nunca
tinha encontrado seu olhar. Apenas ficava imaginando como
deveria ser encontrar aquele lindo azul brilhante.
Para me distrair, além de projetar residências, hotéis e
shoppings, desenhar pôster e escrever um livro técnico da
minha tecnologia construtiva, depois minhas memórias e agora
um romance, ficava fantasiando na minha imaginação em
como seria o meu comportamento com aquela mulher e com
sua filha, e de como deveriam ser as minhas reações perante
as atitudes que ela adotava, durante certos momentos das
suas saídas e retornos na sua casa, nas festas, nas reuniões,
nas compras e nas ruas. Sempre me imaginava estar no lugar
do Roberto e o meu comportamento deveria ser totalmente
diferente do comportamento adotado por ele, minhas atitudes
seriam outras, e quais seriam as atitudes dela em relação às
minhas atitudes, como ela corresponderia?
Essa pergunta ficava me perseguindo dia e noite. Roberto era
mais novo, com outro repertório cultural, diferente formação
cultural e uma personalidade mais forte e bem característica.
Graças ao desenvolvimento da minha profissão de designer e
arquiteto, havia desenvolvido um apurado senso estético, com
bom gosto pelas coisas bonitas, sejam eles objetos, móveis,
carros, casas, quadros, fotos, desenhos, roupas e mulheres
bonitas.
Esse bom gosto só é superado pelo apurado sentido de
observação, sempre conseguia perceber todos os detalhes, e o
contexto das situações em que estas se apresentavam,
segundo a minha ótica. Quando não conseguia perceber o que
estava acontecendo, utilizava da minha criatividade e da
fantasia que desenvolvia para poder compreender.
Sempre tive muito interesse pelas mulheres bonitas, por corpo
bem feito, não só pelas formas curvas, mas pelos seus ombros,
colo, seios, barriguinha, bumbum e pernas, mas também pela
aparência bem cuidada, e pela discreta sensualidade que
somente algumas mulheres possuem e utilizam de maneira
adequada.
Apesar de todo esse bom gosto todo, procurava utilizar a
minha intuição para escolher a parceira pelos aspectos
estéticos, e sempre acabava errando. Com a Fernanda fui
muito criterioso, não fui apressado, fui também muito
cuidadoso, pois havia um interesse específico na Fernanda,
que tinha, além de todas as qualidades já descritas, uma
energia cativante, contagiante, para quem pudesse ou
quisesse perceber, além de possuir alguma coisa a mais, ela
tem um belíssimo par de olhos sorridentes e azuis, bem claros
e uns lindos lábios carnudos. Fernanda era uma dessas
poucas pessoas que conseguem sorrir com o olhar, o seu
sorriso não deixava de chamar atenção, era maravilhoso ver
sua boca entreaberta e seus dentes, perfeitos, emoldurados
pelos seus lindos lábios, carnudos, com um lindo brilho, com
muita delicadeza e sensualidade.
Segundo o zelador do prédio, Fernanda não devia ter mais do
que 25 anos de idade, estava formada em línguas, para ser
secretária especial e também tinha concluído algum curso
superior, que por qualquer razão, ela ainda não tinha
conseguido exercer sua profissão dentro do mercado de
trabalho, mas parece que não teve tempo, pois logo depois do
seu casamento nasceu a Carolina.
Essa era a conversa que ouvia do zelador, dos amigos,
vizinhos do prédio, que conversavam com ela. O que eu sabia
apenas era que ela, atualmente, trabalhava numa ótica,
durante meio período vespertino, enquanto Carolina estava na
escola, e no outro meio período matutino, ela cuidava da filha e
da sua casa.
Aparentemente, parecia ser uma ótima profissional, pois havia
entrado na ótica como ajudante e, depois de alguns meses,
estava ajudando a gerente, e agora passou a gerenciar a loja.
Nos meus passeios pelo centro histórico da cidade, sempre
procurava passar em frente a ótica, só para poder olhar para
ela, quase comprei novos óculos de sol que não estava
precisando.
Também devia ser uma boa dona-de-casa, ficava imaginando,
pela dedicação que tinha para com a filha, que sempre estava
com roupas limpas e bem cuidadas, demonstrava ser uma mãe
cuidadosa e carinhosa, por tudo o que podia observar durante
aquele tempo que morava no prédio. Apesar da tristeza do
momento em que Fernanda vivia, a realidade era bem mais
animadora para mim, aparentemente, muito em breve, ela
estaria livre e desimpedida. Essa era a informação que o
zelador passava, até que, durante a última reunião de
condomínio, Fernanda solicitou, de forma simples e clara, que
todos os avisos e comunicações deveriam ser feitos para ela
mesma, pois o Roberto não era mais morador do condomínio.
Agora a noticia era oficial. Mesmo assim, imaginei ser
importante aguardar ela se recompor, colar todos seus “cacos”,
não era o momento de criar algum clima, pois ela deveria estar
muito fragilizada.
Entendo que as pessoas devem se primeiro se recuperar das
feridas, para poder estar em condições de serem elas mesmas,
para pode se apresentar para novo relacionamento. Seria
necessário esperar desaparecer todos os vestígios do amor
antigo. Essa sempre foi a minha tese e acredito que, se não
houver esse espaço de tempo, as emoções e os sentimentos
podem ser mal interpretados e ainda misturados com situações
anteriores.
Um passo mais apressado poderia por tudo a perder. Imaginei
que seria necessário dar um tempo para ela assentar sua
relação pessoal, digerir seu novo momento, organizar sua nova
vida, sarar as feridas do relacionamento e acabar por se
acostumar com a ideia da separação. Assimilar o conflito íntimo
da culpa que a separação sempre acaba gerando, pois sempre
achamos que somos culpados, o único culpado, o que não é
necessariamente verdade, cabendo às duas pessoas partes
iguais nessa culpa. Pelo menos aconteceu comigo.
Decidi aguardar um momento oportuno, estava, na minha
imaginação, respeitando sua dor e a apropriação que ela
deveria fazer com aquele novo momento de sua vida. Pelo
menos, foi o que eu procurei fazer, para conseguir enfrentar
essa mesma situação.
Meu comportamento estava mais otimista, agora existia uma
pessoa linda, com conteúdo e livre, que estaria, teoricamente,
procurando um parceiro, era a oportunidade de tentar me
aproximar, mas teria que esperar um tempo suficiente para
preparar uma estratégia. Não poderia errar a “abordagem de
aproximação”. Os dias se sucediam, os finais de semana
chegavam rapidamente, e num determinado sábado pela
manhã, eu e o grupo dos moradores e jogadores de futebol,
percebemos o Roberto na portaria do prédio, no triste ritual da
mãe entregando a filha para o pai, com uma mochila de
viagem, para passar o final de semana, pensei eu, em seguida
ela se encaminhou para seu apartamento pisando firme e de
forma rápida; Algum tempo depois de acabar o meu jogo de
futebol, vim almoçar, e da janela da minha varanda, percebi ela
descer e sair do prédio para encontrar com duas amigas.
No decorrer dos primeiros sábados, em que ela deixava a
Carolina com o pai, ela sempre saia com as mesmas duas
amigas, mais ou menos no mesmo horário, logo após o
almoço, e não escutava ela voltar, mas também não ficava
esperando isso acontecer, assim que o filme acabava ou sono
chegava, ia para minha cama.
Depois de alguns finais de semanas, que também não fiquei
contando, as suas amigas desapareceram, trocaram de lugar
com um rapaz que, também ficava esperando na porta do
prédio, e saiam juntos pela rua afora. Olhando pela minha
varanda fui ficando muito irritado comigo mesmo, e não me
perdoava por ter aguardado tanto tempo para ela se recuperar
do casamento desfeito.
Percebi que o tempo de recuperação pessoal dela, era bem
diferente do meu. Ou ela estaria tentando apagar o fogo com
fogo, pensava eu, para esquecer um amor colocamos outro no
lugar, tentando “justificar” essa sua nova companhia, mas a
grande verdade era que já estava morrendo de ciúmes dela.
Seu novo amigo, vamos assim chamá-lo, tinha uma postura
meio diferente, usava cabelo muito comprido, às vezes com um
rabo de cavalo, modo de usar o cabelo um pouco raro hoje em
dia, nunca estava bem vestido, com uma postura egocêntrica,
introspectiva e tímida, aquelas pessoas que andam com o peito
para dentro e ombros para fora, estava sempre com sua
cabeça baixa, olhando para o chão, barba sempre por fazer, de
pouca fala, não devia ter dentes, pois não se conseguia ver a
cor de nenhum deles. Desculpe, estou sendo mordaz.
Concordo que os opostos se atraem, mas aqueles dois
formavam um casal muito estranho.
Ela sempre bonita, um pouco mais alegre, mais risonha,
sempre muito bem vestida e bem arrumada, o que claramente
contrastava com a apresentação pessoal dele. Fiquei
imaginando, alguma coisa ele deveria ser ou ter, para chamar a
atenção dela, no mínimo, uma boa cabeça.
No início, eles saiam logo depois do almoço, e voltavam à
noite, depois de algum tempo as suas visitas ficaram
metódicas, elas aconteciam em todos os sábados, mas eles
não saiam mais, ele chegava por volta das 20 horas na porta
do prédio, ouvia a campainha e a voz da Fernanda dizer que
podia deixar subir. Nunca conseguiu ouvir quando ele saia,
também não ficava esperando, era uma tortura para mim, e
procurava assistir aos filmes que mais gostava exatamente
naquele horário do sábado, isso quando não saia para comer
uma pizza no restaurante da praça.
Ficava me criticando, porque haveria de respeitar seu
crescimento interno. Pelo visto ela nem pensou nisso, pois já
estava em outro relacionamento. Triste, calado, não me
perdoava por deixar passar a primeira grande oportunidade.
Entretanto o meu maior problema agora era que não se ouvia
qualquer conversa do casal, não percebia nenhum som
daquele novo relacionamento, e com isso, não tinha a mínima
ideia do que estava acontecendo com a Fernanda e com o seu
novo namorado.
Não ouvia brigas, mas também não ouvia risadas, e muito
menos discussões. Estava tudo numa grande incógnita, me
deixando muito aflito por não conseguir perceber o que estaria
acontecendo com o novo casal. Em alguns sábados chegava a
desligar a TV, nem ouvia música para ficar em silêncio e nada
escutava. Nas reuniões do condomínio, quando ela
comparecia, apenas ficava ouvindo e nem conversava com as
pessoas. Nas festas de bairro ela não comparecia.
Fiquei imaginando um milhão de situações novas, era preciso
fazer acontecer alguma coisa, alguma festa ou casamento,
para que houvesse o comparecimento de todos os moradores
do prédio, assim ele também poderia estar presente
juntamente com seu “novo amigo” para que eu pudesse avaliar
a situação do casal. E foi o que aconteceu exatamente depois
de seis meses, 12 dias, 20 horas, e alguns minutos. Eu estava
pouco preocupado?
12 - A OPORTUNIDADE TÃO ESPERADA
O casal Mauro e Izabel, um dos vizinhos do prédio, que
moravam no mesmo andar que o meu e o da Fernanda,
anunciou na última reunião de condomínio que iria batizar sua
filha e convidava a todos os moradores para o batizado na
igreja São Jerônimo, muito próxima do prédio, e ofereceria uma
recepção aos convidados no salão de festas da igreja.
A igreja não era muito grande, mas era muito bonita, tinha uma
arquitetura antiga, com formas sinuosas, e que eram
acentuadas com fileiras de pequenas lâmpadas que ficavam
acesas à noite, definindo o perfil da igreja, que apesar de muito
antiga era bem conservada, e o salão de festas, próximo ao
nosso prédio, era enorme.
Numa determinada noite, a Izabel, mãe da menina que iria ser
batizada, veio me convidar pessoalmente, assim como
convidou a todos os moradores do prédio, e para poder melhor
planejar a festa, era necessário saber a quantidade de pessoas
que iriam comparecer, para isso estava fazendo um
levantamento, apartamento por apartamento, claro que dei um
jeito de saber quantos lugares a Fernanda havia reservado
para a festa: dois lugares. Ela teria convidado seu novo amigo
ou namorado para a festa.
Tinha planejado algumas estratégias para tentar uma
aproximação junto a Fernanda na noite da festa, isso exigia
acompanhar toda a preparação da festa, tanto no apartamento
da Izabel, como no salão de festas da Igreja, sempre na
expectativa de poder encontrar com a Fernanda, mas não
consegui meu intento, em nenhum momento.
Enfim chegou a noite da festa, estava muito ansioso para
vivenciar a festa do batizado, para conseguir coordenar a
situação da organização e o acontecimento da festa, deveria
seguir os passos da Fernanda pela janela da minha varanda.
Tomei meu banho e me preparei para a festa bem antes do
horário e fiquei na varanda acompanhando os acontecimentos.
Num determinado momento o “namorado” chegou ao
apartamento da Fernanda ficou conversou com ela, palavras
irreconhecíveis, mas tinha um tom mais exaltado na sua voz,
não escutei a voz dela. Silêncio total. Todo o pessoal do prédio
havia combinado se encontrar por volta das 18 horas no hall de
entrada do prédio, para sairmos juntos, de carro ou de ônibus
para chegar até a igreja e assistir a cerimônia e participar da
festa.
A maioria dos vizinhos, dentro do horário combinado, desceu e
nos encontramos no hall do prédio, onde a festa realmente
começava, no espaço escolhido para as reuniões de
condomínio, para depois ir pegar o ônibus urbano, que pelo
seu itinerário, deixariam todos no ponto de ônibus localizado
em frente à praça da igreja.
A localização da igreja era próxima ao centro, e a maioria dos
convidados preferiu utilizar ônibus urbano, que aos sábados à
noite, circulavam bem vazios, e o preço da passagem era o
mínimo, uma vez que em Guimarães o valor da passagem é
cobrado em função das distâncias percorridas, mas no fundo
era também uma forma dos convidados motoristas poderem
beber um pouco a mais, afinal era festa. Com minha roupa
nova, bem escolhida para usar na festa, usei minha colônia
preferida, e juntamente com algumas pessoas, descemos no
elevador, encontrando o hall do prédio já lotado dos vizinhos e
fomos saindo para a rua, num gostoso aglomerado de pessoas
que se cumprimentavam, se abraçavam conversando sobre as
coisas da vida e da saúde e da festa, estávamos felizes e
contentes, além de muito barulhentos.
Saindo do prédio com o grupo de homens com quem jogava
futebol na quadra do prédio, olhava para todos os lados, não
pude deixar de perceber a presença da Fernanda na calçada
do outro lado da rua, muito bem vestida, muito bonita, como
sempre, estava bem arrumada, maquiada, penteada, mas com
um semblante sério, estava aparentemente muito brava,
conversando com o seu namorado, que se colocava com seus
braços abertos, tentando responder, sempre num tom acima do
normal.
Depois de algumas palavras mais exaltadas, Fernanda ficou
com as mãos apoiadas na cintura, em forma de açucareiro,
acabou parando diante dele, agora sorridente, olhou para ele,
disse qualquer coisa que fez com que ele abaixasse a cabeça,
virou as costas e estava indo embora em direção oposta ao
ponto de ônibus, sozinho da Fernanda.
Aparentemente a Fernanda adotava uma atitude que
demonstrava certa insistência, andando apressadamente atrás
dele, segurando-o pelo braço, continuou ao seu lado falando e
gesticulando muito, mas ele continuava indo embora, com sua
cabeça sempre abaixada, fazendo movimentos de negação,
ela foi ficando muito agitada, demonstrando estar muito brava,
chamou por ele, no começo em voz baixa, depois em voz
normal, finalmente acabou gritando o seu nome, sempre
olhando firme para ele, que tinha lhe dado suas costas e foi
embora deixando Fernanda falando sozinha. Com gestos
rápidos e nervosos, demonstrando muita irritação, Fernanda
acabou virando as costas para ele, e resolveu entrar sozinha
no mesmo grupo de convidados que tomaria o ônibus para
chegar à festa, ela tinha ficado umas 10 pessoas atrás de mim.
Eu continuava conversando com os moradores do prédio,
sempre procurando disfarçar muito o meu olhar, que se dividia
entre as pessoas com quem conversava e com a Fernanda,
queria participar daquela cena que me interessava e muito.
Aguardava ansiosamente o seu desfecho, até que encostou o
ônibus, as pessoas foram entrando e sentando, para o ônibus
poder sair. Decidi esperar o próximo ônibus para tentar ir com
ela no mesmo ônibus, além de poder ir sentado; seria um dos
primeiros passageiros para pegar o próximo ônibus, por algum
motivo Fernanda tinha ficado quase no final da fila.
Atrás da Fernanda, encostou um rapaz que eu não conhecia,
muito bem arrumado, deveria ter uma idade próxima à dela,
não deveria ser morador do prédio, era uma pessoa que nunca
tinha visto por ali, e devido a isso, não conseguia identificar,
mas ele também se dirigia para o evento, ele demonstrava
conhecer alguns dos nossos vizinhos, deveria ser algum
convidado ou então parente da Izabel ou do Mauro, pensava
eu.
O fato concreto é que ele tinha uma presença marcante, estava
trajando um bonito conjunto de calça e paletó da cor cinza, pelo
seu corte e caimento, aparentava ser de boa qualidade, uma
linda camisa branca e uma gravata listrada, delicadamente
colorida, seus cabelos estavam um pouco mais compridos,
mas estavam bem cuidados.
Enquanto o ônibus não chegava, ele começou a conversar com
a Fernanda, ela parecia estar ainda muito exaltada e
aparentemente muito nervosa, com gestos rápidos e
conversava num tom de voz ainda acima do normal, ele
apenas respondia, com as suas mãos nos bolsos da calça,
mas se percebia que ele estava surpreso com aproximação
dela, que estava falando sem parar. Na frente da fila para
pegar o ônibus, podia perceber Fernanda gesticulando muito,
enquanto conversava, melhor dizendo, enquanto só ela falava,
agitada, vez ou outra, dirigia o olhar para a direção em que seu
namorado tinha ido embora, numa esperança de que ele ainda
pudesse voltar, imaginava eu.
O comportamento dela estava ficando muito animado em
relação ao rapaz, estava sorrindo bastante, gesticulava muito,
pegava nos braços do rapaz que estava ao seu lado. Meu
ciúme estava saindo pela boca, derramava pelos olhos e
molhava minha roupa, pois estava saindo pelos poros em
forma de suor.
Fernanda adotava um comportamento típico de uma namorada
que deseja aparentar indiferença para com o namorado,
pensando que ele talvez estivesse vendo a cena, e com isso
fazia aquela demonstração, ou talvez para ela própria, que já
estava bem e não precisava da companhia dele, continuei
imaginando, na minha fantasia, que aquela cena era um
comportamento normal, após uma briga de namorados.
Na minha fantasia, o rapaz bem arrumado, que poderia ser
algum parente da vizinha dona da festa, não deveria saber da
briga da Fernanda com o namorado, e ele poderia estar
imaginando, que aquela mulher estaria se insinuando, num
comportamento um tanto quanto vulgar, demonstrando ser uma
mulher comum e de fácil aproximação, não impondo nenhum
respeito à sua pessoa com aquele seu comportamento tão
excitado.
Na frente da fila, eu estava numa situação muito
desconfortável, ansioso e muito enciumado, pois aquele
batizado era a primeira oportunidade de participar de um
mesmo evento, em lugar fechado, com pessoas conhecidas em
que ela estaria, pois as festas do bairro eram realizadas
sempre em lugares mais abertos e com muito mais gente,
aonde se perde a dimensão do espaço entre as pessoas e a
aproximação fica sempre mais difícil, imaginava eu. Estava
muito aflito, quase agoniado, assistindo agora a outra cena da
Fernanda com o rapaz arrumadinho, no final da fila do ônibus,
sem nada poder fazer. As pessoas que estavam à minha frente
e atrás de mim, na fila, conversavam comigo, respondia
algumas palavras, quase que automaticamente, nem deveria
saber o que estava respondendo, mas minha atenção estava
no final da fila.
Quando o ônibus chegou, entrei e sentei num dos primeiros
lugares, quase ao lado do motorista, todas as pessoas que
estavam na fila entraram no ônibus, incluindo o tal rapaz
arrumadinho, com exceção da Fernanda, que por qualquer
razão não subiu, o motorista depois de cobrar o último
passageiro, deu a partida.
Talvez pelo fato dela querer esperar um pouco mais pelo seu
namorado, por um eventual arrependimento dele, ou por querer
viajar sentada, o fato era que ela resolveu ficar no ponto para
tomar o próximo ônibus, mas o rapaz arrumadinho, por uma
dessas ironias do destino, acabou sentando ao meu lado e
aparentava estar muito preocupado, com a ausência da
Fernanda no ônibus, pois ficava olhando para trás, procurando
por ela, mas estava muito animado e, muito exaltado, se dirigiu
a mim comentando sobre sua última “conquista” na fila daquele
ônibus. Justamente comigo!
Ele torcia as mãos, batia as palmas das mãos nos joelhos e me
perguntava se eu morava no mesmo prédio, e se eu tinha visto
com quem ele estava conversando, uma “tremenda mulher”,
segundo suas palavras, quem era aquela morena bonita, era
uma verdadeira “gata”, muito bonita, muito gostosa, dizendo
que iria procurar por ela na festa e convidar para sair para
algum outro lugar, demonstrando muita animação e queria
conhecê-la melhor. Nessa conversa fiquei sabendo que o
arrumadinho era sobrinho da Izabel, e sua tia deveria ter
comentado que havia convidado todas as pessoas do prédio,
ele ficou me crivando de perguntas sobre ela. Qual era seu
apartamento, o que ela fazia, se era casada, separada,
divorciada ou tinha namorado. Pelo interrogatório entendi que o
rapaz, assim como eu, havia ficado encantado com ela, e não
era para menos, ela estava muito bem arrumada e bonita, por
isso aquele interesse repentino pela mulher que ele tinha
descoberto há tão pouco tempo. Comentava, muito
animadamente, que nunca tinha conhecido uma mulher assim
e ficava perguntando se eu saberia sua idade, e todas essas
perguntas que todo homem faz, quando se está muito afim de
uma mulher.
Procurei responder com muito cuidado, para não demonstrar
qualquer ressentimento em relação àquele comportamento, a
minha vontade era mandar ele para o espaço, mas comecei
respondendo: “Se você quer mesmo saber, ela mora num
apartamento bem ao lado do meu, conheço essa mulher há
alguns anos, sei que está se divorciando, tem uma filha
pequena, mas agora está namorando uma pessoa”.
Continuei respondendo: “E que, exatamente, naquela mesma
noite ao sair de casa, tinha acabado de ter uma briga com ele.
Sei quase tudo da vida dela, da sua filha, dos seus gostos,
seus hábitos, suas saídas, seus desejos, e sei até que ela não
deve estar feliz com esse namorado, assim como não estava
no seu casamento”. “Sabe o que ela precisa?”
Continuei respondendo para o rapaz, que naquele momento
estava com os olhos arregalados: “Encontrar um homem, sério
e maduro, que saiba dar valor às suas qualidades de mulher e
de esposa”. Esses eram os meus valores, a minha fantasia,
mas mesmo assim continuei elogiando a Fernanda, falei de
muitas coisas que sabia, sem nenhuma mentira e nenhum
exagero.
Na verdade, não estava respondendo às perguntas dele,
estava fazendo o mais puro e sincero desabafo, que nunca tive
a oportunidade de comentar com ninguém, a não ser comigo
mesmo, mas que naquele momento, inconsciente ou
conscientemente, estava cuidando dela, zelando pela sua
integridade moral e física, tentando preservar sua imagem e
contornar aquele eventual problema. Estava agindo com a mais
pura emoção e com o coração, não com a razão.
Por outro lado, estava tentando mostrar a verdadeira Fernanda,
para aquele eventual novo concorrente na minha fantasia, e
que, se ela desejar trocar pelo seu namorado, o arrumadinho
deveria se preocupar em conhecer melhor a mulher que tinha
conhecido naquela noite, que não seria uma mulher comum, e
sim uma mulher especial, com muitas qualidades, e que não
estaria a fim de um caso, mas de um compromisso sério,
imaginava eu, mas que na verdade, estava tentando assustar e
afastar aquele novo concorrente.
O rapaz continuava bebendo as minhas palavras, estimulado
pelas minhas explicações: “Ela precisa encontrar um homem
que realmente a ame e a faça feliz, porque se esse novo
companheiro conseguisse fazer isso, tenho certeza, que
também será muito feliz. Ela não é uma dessas mulheres que
sai com um homem, que conhece num primeiro encontro, é
preciso um pouco mais de sedução, de seriedade e de
respeito, afinal se você quer uma mulher assim, não seria ela.”,
falando de uma forma até um tanto quanto irritado com tudo
aquilo.
Ele comentou ter 22 anos, não estava trabalhava, por estudar
no segundo ano de economia na Universidade do Minho,
aparentemente, devia ser de uma família com uma situação
financeira estável. Continuei fazendo comentários, como se
Fernanda fosse uma velha amiga. E não deixava de ser.
Desatento e muito nervoso, deixei escapar algumas afirmações
que estavam na minha fantasia, que eu achava ser verdade, ou
melhor, queria que fosse verdade, mas que na verdade eu não
sabia, mas coloquei com tanta convicção, que ele acreditou.
Claro que o rapaz não sabia nada daquilo, mas estava
tentando apresentar a Fernanda ao novo pretendente, mas de
forma que ele pudesse tratá-la com um pouco mais de respeito
e consideração. Fernanda não era uma mulher qualquer, eu
apenas queria colocar as expectativas do arrumadinho nos
seus devidos lugares, que pudesse reconsiderar seus préconceitos e pudesse tratar Fernanda como ela deveria ser
tratada ou então que se afastasse dela. Coloquei mais ou
menos nesses termos, como se eu fosse algum familiar dela.
Se houvesse interesse por parte dela, e isso realmente poderia
acontecer, pois nunca se sabe o que se passa na cabeça de
uma mulher, mas que ficassem bem esclarecidas as atitudes
que deveriam ser tomadas por parte do rapaz, uma vez que,
agora, ele tinha quase todas as informações necessárias sobre
a pessoa de quem ele estava tentando se aproximar. De
repente percebi que estava falando como se fosse o pai dela
Agora quem estava exaltado era eu, o rapaz apenas ouvia
tudo, prestava muita atenção, ficava me olhando com os olhos
arregalados, no começo meio incrédulo, depois meio
assustado, e perguntou: “Mas tudo isso que você está falando
é mesmo verdade? Ou você está me contando tudo isso para
que eu desista de sair com ela?”
Respondi de forma dura e meio ríspida: “Não tire conclusões
apressadas, apenas estou sugerindo que se você for convidála para sair, deve tratá-la com muito respeito e dignidade, afinal
ela não era apenas uma mulher, era um ser humano, e estava
precisando ser tratada como tal”.
Nessa curta viagem de ônibus do apartamento até a igreja,
local da festa, não consegui ver as lindas paisagens da cidade,
nem perceber o delicioso perfume das árvores das ruas e
praças de Guimarães que desfilavam pelas amplas janelas do
ônibus. Logo depois chegamos ao ponto do ônibus na praça da
igreja, onde seria realizado o batizado e a festa. Em pé, antes
de descer do ônibus, ainda fiz uma sugestão para que ele se
colocasse no lugar dela, e ficasse imaginando como ele
reagiria se alguém o tratasse da mesma forma, sem respeito e
sem dignidade, apenas objetivando um comportamento físico e
egoísta de uma relação a dois. Caminhando ao seu lado,
depois de descer do ônibus, em direção à igreja, disse a ele
que tinha a liberdade de fazer o que bem entendesse com ela,
desde que ela aceitasse, é claro, mas que a tratasse muito
bem e com dignidade, senão ele iria ter que se explicar comigo,
falei meio bravo, numa ousada e derradeira tentativa de
protegê-la e afastá-la de um eventual novo relacionamento,
que eu, e apenas eu, julgava ser errado.
Puro
ciúme.
Adotando,
inconscientemente,
esse
comportamento ousado e corajoso, fiquei imaginando, na
minha fantasia, que, devido a sua discussão com seu
namorado, colocava o relacionamento em cheque, e devido a
isso eu teria as mesmas chances que o arrumadinho teria com
a Fernanda. Tenho certeza que não tinha conseguido esconder
todo meu desconforto, minha irritação e uma profunda inveja,
da eventual conquista que o rapaz tinha acabado de fazer.
O rapaz arrumadinho teve a oportunidade que eu estava
esperando há muito tempo, e deveria saber aproveitar, apesar
de toda a minha torcida contra. Dentro da igreja, durante a
cerimônia do batizado, tive a minha conversa com Deus, entre
uma oração e outra, fiz as minhas reclamações, as minhas
lamentações, as minhas perguntas, demonstrando estar
extremamente contrariado com tudo aquilo que estava
acontecendo, comigo e com uma mulher, que tinha tudo para
ser uma futura companheira, que não era justo perder também
esta oportunidade, entre outras reclamações. Mas Deus sabe o
que faz, pensava eu.
13 - O GRANDE IMPACTO
A minha discussão com o bom Deus foi muito intensa, de
repente me dei conta que a cerimônia tinha acabado e igreja
estava quase vazia, todos os convidados estavam se dirigindo
ao salão de festas, levantei e saí meio apressado para entrar
no grupo dos vizinhos que gostavam de futebol, que, quando
possível, jogávamos uma partida de futebol, eu era muito
procurado pela minha posição de artilheiro. Entramos no salão
de festas, pude perceber que estava lindo e muito bem
decorado, ficamos conversando e bebendo champanhe, eles
bebiam para comemorar, se divertir e curtir a festa, eu bebia
para tentar me distrair, estava procurando não pensar no
eventual encontro dela com o arrumadinho, não queria ver os
dois juntos na festa.
Depois da quarta taça de champanhe, para minha surpresa, o
arrumadinho sobrinho da Izabel, voltou a me procurar, me
oferecendo uma taça de champanhe me chamou de lado e
continuou a perguntar alguns detalhes da vida da Fernanda.
Continuei comentando, entrando em alguns detalhes,
reforçando os comentários que tinha feito antes, sempre com o
objetivo de esclarecer o comportamento da Fernanda, que
ainda não tinha chegado ao salão da festa, ou pelo menos
ainda não tinha percebido sua presença.
Contei algumas passagens da vida de casada dela, de
algumas situações que ela tinha enfrentado com o ex-marido,
outras com a sua filha Carolina, das discussões no
supermercado, na praça e nas festas, numa tentativa de
demonstrar que realmente conhecia Fernanda a fundo. Ou
aparentava conhecer.
Comentei determinadas situações que ocorreram entre o casal,
com ricos detalhes, demonstrando a tristeza e decepção
daquele tempo em que, ela pacientemente, aguardou para que
sua relação de casamento se reestruturasse, e nada acontecia,
a não ser o final do casamento. Afirmei que ela, simplesmente,
não precisava ser feliz, ela merecia ser feliz, por ser a mulher
que ela era e por todas suas qualidades, e depois de tudo o
que ela havia passado durante seu casamento e separação.
O rapaz parecia estar entendendo toda a minha explicação,
que enfatizava as qualidades da Fernanda, como uma boa
mulher, como boa mãe, como uma pessoa muito interessante e
que, como tantas outras mulheres, que teve o azar de ter sido
muito infeliz no primeiro casamento, e agora na sua nova
tentativa de ser feliz, ela não poderia ser tratada como uma
mulher qualquer, uma mulher que, depois de ter bebido um
pouco a mais, teria um caso ou uma sexo casual no final de
uma festa. Ela não era uma mulher qualquer, apesar de afirmar
que cada um faz o que quer e depois se responsabiliza pela
decisão assumida.
Depois de ter feito um verdadeiro testemunho sobre a vida
dela, ou melhor, um profundo desabafo, que nem eu sabia que
sabia tanto sobre ela, tudo o que eu queria era mostrar ao
rapaz que a Fernanda não era uma mulher qualquer, que não
teria um comportamento vulgar, e que aqueles momentos dela
falar mais alto, e de sair gritando o nome do namorado, depois,
se posicionar em frente uma pessoa desconhecida,
demonstrando algum interesse, era uma simples tentativa de
gerar ciúmes para com o namorado, era apenas uma questão
de momento, um momento histórico de raiva, de briga com um
namorado, aparentemente problemático, e que, na verdade, ela
tinha uma postura de mulher séria, prendada e de mãe de
família. Para que ele não se enganasse.
Estava tão preocupado tentando defendê-la de outro
“concorrente”, que na minha fantasia, aparentemente, só queria
transar com ela, que não percebi Fernanda entrar na festa,
apesar de estar sempre olhando para a porta, para todos os
cantos do salão à sua procura. Entrei nos grupos das pessoas
que estavam alegres e sorridentes, cantando em pequenos
corais, afinal era a minha primeira festa portuguesa.
Voltando para o grupo do time dos jogadores de futebol, dos
apaixonados por bola, onde me encaixava, para conversar
animadamente sobre os últimos jogos do campeonato
português e do Vitória de Guimarães, estava sempre ouvindo,
falava
algumas
coisas,
mas
sempre
observando,
discretamente, todas as partes do salão, procurando por ela,
depois de algum tempo consegui localizar Fernanda no meio
do salão, conversando muito animadamente com algumas
amigas, outros casais vizinhos, além do rapaz arrumadinho.
Passado algum tempo, Fernanda e o rapaz arrumadinho, se
retiraram para um espaço isolado do salão e ficaram
conversando, aparentemente ele falava muito mais do que ela,
que ouvia atentamente e de vez em quando parava para
receber os cumprimentos, abraços e beijos de outros vizinhos.
Resolvi não ficar olhando para o casal, para não registrar
aquela triste cena, pois sabia que depois iria me lamentar e me
castigar de novo por ter perdido outra oportunidade, e
lentamente fui conversar com uma das pessoas que estava de
costas para aquele lado do salão, que me deixava sem
nenhuma visão dos dois conversando, pelo ciúme que estava
me despertando, além do que eu não gostaria que ela notasse
qualquer zelo para com ela.
De repente, comecei a me dar conta do que eu tinha feito. Ao
fazer todos aqueles comentários sobre a Fernanda e a sua
vida, criava uma situação para que ela viesse perguntar ou
pedir explicações sobre as palavras que havia comentado
sobre ela com o arrumadinho, eu não saberia como justificar
aquele meu inusitado comportamento no ônibus, para com uma
pessoa que nem conhecia, muito menos, dar todas aquelas
informações sobre ela.
Consegui ficar ainda mais aflito do que já estava, tão aflito que
comecei a tentar organizar meus pensamentos para uma
eventual explicação, caso ela viesse procurar para me
questionar.
Aquela nova situação sobre o seu eventual questionamento
das minhas palavras, sobre o comportamento dela e de toda a
sua vida, criou um enorme desconforto para mim, comecei a
ficar muito mais preocupado com o rumo que a conversa se
desenvolvia entre o arrumadinho e a Fernanda. Apesar de não
estar olhando, me posicionei para ter uma visão mais clara dos
dois conversando, e estava com uma enorme dúvida: estaria
ele tentando seduzir e convidando ela para sair, uma vez que
agora possuía algumas informações importantes sobre ela, ou
estaria conferindo as informações que eu havia comentado. Em
ambos os casos, ela poderia não gostar do que eu tinha feito,
afinal estava me intrometendo na vida dela, no que ela tinha
toda a razão.
O que eu tinha a ver com tudo aquilo. Aparentemente, nada!
Para ela podia ser mais uma festa, um encontro casual, mas
para mim era muito importante tudo aquilo que estava
acontecendo, e agora sem ter feito nenhum planejamento,
apenas agindo com impetuosidade, sem muito pensar, havia
criado uma situação delicada em relação a ela, e não tinha
nenhum controle, o que me deixou nervoso. Comecei a tomar
mais champanhe para acalmar.
Procurando não aparentar minha preocupação, o que era muito
difícil, pois sempre demonstro tudo no meu olhar, sou uma
pessoa muito transparente, continuei na roda dos amigos do
futebol, conversando sobre futebol, a rodada do final de
semana, as mudanças de técnicos, as inevitáveis gozações
sobre os times em situações inferiores, os jogadores, por
diversas vezes tive que falar sobre o churrasco brasileiro, que
eles não acreditam de como existe o rodízio, e uma
churrasqueira como uma das partes mais importante das
casas.
Mas esses assuntos não resistem muito tempo, acabam se
esgotando e a conversa toma outros rumos, e o assunto mais
preferido dos homens sempre são as mulheres, todos os
homens que participavam do papo estavam casados, eu era a
única exceção, e os comentários sobre a juventude e
adolescência, das atrizes, das modelos e das vizinhas, e não
podia deixar de surgir o assunto sobre a nova “desquitada” do
prédio, a Fernanda. Os amigos tinham opinião sobre a
tremenda mulher que ela demonstrava ser, ninguém sabia das
suas qualidades pessoais, nem estavam preocupados em
saber, só importava a beleza física e os comentários era sobre
tudo o que eles sabiam, e que não era nada muito além dos
assuntos surgidos nas reuniões de condomínio e dos assuntos
que ocorre nas festas, sempre de forma superficial, e
acabamos falando sobre política, custo de vida, profissão e
empregos.
Todos estavam com seus copos cheios de champanhe em uma
das mãos e um salgadinho na outra, entre um comentário e
outro, sorriam, olhavam para os lados, se ajeitavam para falar
ou escutar os novos comentários, eu era o único no grupo que
estava sem copo nas mãos, já tinha bebido um pouco demais
para me refazer e esquecer toda aquela situação gerada com o
arrumadinho e a Fernanda, agora estava esperando pelos
salgadinhos da cozinha portuguesa, e os demais pratos que,
aos poucos estavam sendo oferecidas pelos garçons.
Tomar alguma bebida alcoólica, sem comer muito, sempre me
fez mal, além do mais já tinha bebido o suficiente para, além de
relaxar e conseguir parar de pensar na oportunidade perdida, e
de novo não me perdoava, queria estar sóbrio o suficiente para
responder um eventual questionamento da Fernanda.
Estava mais conformado e aceitava a nova realidade. Quem
sabe numa outra oportunidade, com outra pessoa, eu
conseguiria. Quem sabe. Foram momentos tristes,
intermináveis de muita reflexão, depois acabei me distraindo
com as conversas, que à medida que vão se aprofundando é
preciso prestar mais atenção, para poder dar qualquer opinião,
agora estava num outro tempo, num comportamento de defesa
e acabei me esquecendo da presença da Fernanda na festa,
não me dei conta de quanto tempo tinha se passado depois
que ela entrou na festa e ficou conversando com o rapaz
arrumadinho.
Depois de saborear alguns bolinhos de bacalhau, resolvi tomar
mais champanhe, e quando estava procurando pelo garçom,
não pude deixar de ver o rapaz arrumadinho sobrinho da
Izabel, o atual “amigo” da Fernanda, numa animada conversa
com outro grupo de rapazes e mulheres, mas, o mais
importante era que estava sozinho dela. Mais do que depressa,
procurei me recompor, e passei a ficar mais atento em relação
às pessoas da festa, disfarçadamente comecei a procurar
Fernanda por todo o salão, não estava encontrando, devia
estar na cozinha, na sala de banho, como os portugueses
chamam o sanitário, ou em qualquer outro lugar, pensava
agora, um pouco mais calmo: O concorrente havia dado um
espaço de tempo ou estava fora de combate.
Pensava isso com um sorriso maldoso nos lábios. Um pouco
era realidade, “o arrumadinho” estava conversando com outras
pessoas, um pouco era fruto do excesso de champanhe que já
tinha tomado.
O fato é que agora ela poderia vir conversar e me pedir as
devidas explicações, apesar de respirar mais aliviado, por um
lado, ainda estava meio tenso por outro, mas sempre
conferindo se o rapaz ainda estava na sua nova roda de
amigos, bebendo, rindo e comendo. Não encontrei a Fernanda.
Parece que eu tinha conseguido clarear aquela situação, pelo
menos na minha cabeça, tinha preservado a Fernanda,
possivelmente de mais uma relação indevida, dentro da minha
doce fantasia, começava a pensar que, dessa forma o caminho
poderia estar livre novamente, criando condições de pensar em
qualquer outra estratégia de aproximação ainda naquela festa,
afinal o evento estava acontecendo com ela presente, sem seu
namorado e sem seu novo amigo, era uma oportunidade de
ouro que começava a se apresentar. Mas onde estava
Fernanda?
Agora, enquanto conversava com o grupo de jogadores de
futebol sobre a economia, a ecologia e as mulheres, além do
futebol, comecei a imaginar e articular meus pensamentos para
poder tentar explicar a minha atitude e poder tirar algum
proveito daquilo tudo, e de vez em quando, meus olhos ficavam
passeando pelo salão procurando por ela, e ainda não havia
conseguido encontrar onde ela estava e, o pior, com estaria
conversando agora.
14 – SEDUÇÃO E ENCANTAMENTO
Estava prestando atenção na conversa dos vizinhos ao meu
lado, depois de algum comentário mais engraçado, a roda se
abre como num passe de mágica, todos os olhares se dirigem
para uma nova pessoa que entra no grupo, empunhando duas
taças “suadas” de champanhe, amparadas por lindos e
delgados dedos que compunham duas delicadas mãos, na
frente de um lindo sorriso e de dois lindos olhos azuis,
emoldurados por lindos cabelos negros, e um maravilhoso
vestido, mais ou menos justo, com detalhes em desenhos
azuis, claros e escuros, essa pessoa não era nada mais, nada
menos, do que a própria Fernanda, que entrava para o meu
animado grupo de conversa.
Não preciso dizer que meu coração disparou e parou, foram
diversos ataques cardíacos, por diversas vezes, comecei a
suar frio, olhava para os lados, colocava as duas mãos no
bolso para não demonstrar qualquer nervosismo, mas era tarde
de mais, não conseguia disfarçar, estava apavorado, tremendo,
suando muito, parecia estar esperando a primeira namorada
num primeiro encontro. Olhava para todos os lados, para baixo
e, como sempre, nos outros momentos quando cruzava com
ela, não olhava para seus olhos, somente para as duas
“suadas” taças de champanhe. Não conseguia disfarçar o meu
comportamento nervoso.
Para disfarçar ainda mais, olhava para seus dedos e suas
unhas, lindamente pintadas, seus sapatos, seu vestido, e sua
linda e deliciosa boca entreaberta, procurando fugir dos seus
olhos, na realidade estava com muito medo do que estava por
acontecer naqueles próximos momentos. A maioria dos
vizinhos conhecia a Fernanda, já tinham conversado com ela,
mas todos pararam de conversar, ficaram mudos olhando
atentamente para ela, que tinha conseguido chamar toda a
atenção do grupo, com duas taças de champanhe erguidas em
frente ao seu lindo rosto.
Numa atitude de comprimento formal, delicada e lentamente,
percorreu com seu lindo olhar azul, os olhos de todos os
rapazes que estavam na roda, inclusive eu, ela era a única
mulher, de repente seu olhar parou diante dos meus olhos que
agora, corajosamente, olhava para os olhos dela, afinal
precisava entender o que estava acontecendo. Ela ficou me
olhando firmemente no fundo dos meus olhos, e eu olhando
atentamente para o lindo azul do seu olhar, um momento
marcante, numa situação que nunca tinha acontecido antes,
olhar nos seus olhos e perceber ela olhava para mim, mas
além daquele olhar azul maravilhoso, ela docemente me
perguntava: “aceitas uma taça de champanhe?”.
Ainda estava com as mãos vazias, sem nenhuma bebida, e a
Fernanda estava se posicionando no centro do grupo,
estendendo a sua mão direita na minha direção, me
oferecendo uma taça de champanhe, com aquele seu lindo
olhar azul brilhante e sorridente, um alegre e delicioso sorriso
entre os lábios, numa postura inesquecível e extremamente
ousada, mas muito graciosa e delicada. Também não
aparentava
nenhum
comportamento
de
rancor
ou
desaprovação, não tinha nenhum comportamento de
contestação ou questionamento, o que me deixou mais aliviado
e um pouco mais tranquilo, apesar daquele momento de
enorme tensão que estava vivendo na festa. A tensão agora
era outra.
Aparentemente era a mesma Fernanda que eu conhecia das
festas, reuniões, praças, passeios, compras e junto aos
elevadores do prédio. Ela tinha essa capacidade, com aquele
impacto da sua entrada no grupo, me deixou completamente
desarmado de todo e qualquer comportamento que eu pudesse
ter um dia imaginado, planejado e me preparado. Fiquei
estático, paralisado com a surpresa de sua presença na minha
roda de amigos, com o azul do seu olhar nos meus olhos, com
as suas palavras me oferecendo champanhe, fatos que me
deixava totalmente desprevenido e desarmado. Apesar de
todas as minhas expectativas, jamais imaginaria, em todos os
planejamentos e fantasias que sempre criava nos meus
momentos de solidão, uma situação como àquela, com aquele
clima, com aquelas palavras, com aquelas pessoas. Comecei
imaginar que talvez fosse pelo excesso de champanhe que
tinha bebido, mas me dava conta que estava vivendo uma
simples e linda realidade.
Ainda mais eu, que gosto de planejar tudo antecipadamente,
programando todas as possíveis reações e decisões, para não
errar, estava agora sem poder acreditar no que estava
acontecendo, muito sem jeito, olhei para os dois lados e para
trás, não percebendo mais ninguém, na direção da taça que
estava em sua linda mão, do seu olhar e do seu sorriso,
concluí:
Ela estava falando comigo! Ela estava falando comigo! Era
preciso responder alguma coisa, meus pensamentos foram a
mil por segundo. Foram frações de segundos, mas pareceram
séculos, eu estava gelado, suado e trêmulo, mas a Fernanda
continuava a olhar firmemente nos meus olhos, com a mão
estendida na minha direção, esperando alguma resposta
minha. Com um leve sorriso, muito sem graça, consegui
perguntar, em voz muito baixa, com a boca meio fechada:
“Para mim?”. Estava muito preocupado e com medo de
responder normalmente, pois meu coração poderia escapar
pela boca e ir parar no seu colo, pela enorme emoção,
surpresa e alegria.
“Sim, para você”, consegui ouvir sua voz responder. Estiquei
minha mão e peguei a taça de champanhe, procurando tocar
sua pele, queria sentir que o momento que estava vivendo era
pura realidade, eu não estava sonhando, mas não consegui
tocar nos seus lindos dedos. “Obrigado, estou mesmo
precisando beber, para me refazer do susto”! Agradecendo
pela sua gentileza, fiquei esperando, como todos os demais
componentes do grupo, que ela sugerisse um brinde ao menino
que estava sendo batizado. Todos os assuntos do grupo
ficaram suspensos, ficamos todos sem saber o que fazer, uns
se afastaram em duplas, os outros que ficaram, começaram a
conversar entre eles, o fato é que ficamos praticamente
sozinhos, um em frente ao outro, eu e a Fernanda. Agora mais
próximos, ela respondeu: “Vamos brindar a um encontro”. Não
sabia o que responder.
Fiquei pensando, qual encontro ela estaria se referindo? De
quem? Com quem? Estava perplexo, não sabia responder,
muito menos o que fazer, mas estava feliz com ela ali na minha
frente, apesar de não saber o que iria acontecer em seguida,
eu estava trêmulo, com milhões de fatos, histórias, momentos e
diversas outras coisas que estavam passando pela minha
cabeça.
Não conseguia raciocinar direito, nem conseguia pensar numa
resposta mais sensata e mais inteligente, estava agora com
uma chance tão sonhada, ansiosamente esperada, era um
momento imperdível para poder mostrar quem era eu, com
todas as minhas qualidades de homem, de profissional, e
principalmente, apresentar toda a minha admiração e afeição
por aquela mulher, que agora estava diante de mim, sorrindo,
me olhando nos olhos e querendo brindar um encontro.
Foram frações de segundos, tão infinitos quanto preciosos,
muito importantes para que tivesse tempo para continuar
procurando e escolhendo as palavras para poder apresentar,
da forma mais correta possível, todos os meus pensamentos,
ou ainda como poderia fazer para demonstrar que poderia ser
um bom amigo, uma excelente companhia, mas tinha que ser
muito rápido, tudo tinha que ser feito em fração de segundos,
afinal ali estava a minha grande chance, não queria errar, não
podia errar.
Não saberia descrever todos os pensamentos que passaram
pela minha cabeça naqueles momentos de pura aflição, não
conseguia organizar nada, a tensão não me deixava pensar em
nada, estava tão desprevenido que não conseguia rever todas
as minhas estratégias criadas, pensadas, programadas e tão
planejadas, em nenhuma delas tinha previsto essa situação,
em nenhum momento esperava acontecer um encontro dessa
forma, que me deixava numa situação muito incômoda e
desconfortável. Naquele momento Fernanda estava diante de
mim.
A minha grande paixão, me deliciando com sua linda presença,
proporcionando delicados momentos de puro prazer, de amor,
que ficou durante tanto tempo contido, escondido, preservado,
e que agora estava presente, bem diante de mim, olhando nos
meus olhos, com uma taça de champanhe querendo
comemorar um encontro.
Meu Deus, mas esse encontro seria com quem? Perguntando
para mim o que poderia fazer agora. O que poderia responder
de forma inteligente, delicada, honesta e ao mesmo tempo
romântica. “Um encontro?”, consegui perguntar, de novo com
voz baixa e pausada, olhando firmemente nos seus olhos,
ainda me segurando para não pular em cima dela e cobrir ela
de beijos, muitos beijos, tantos beijos que ela já tinha recebido
em sua vida, mas na verdade estava tentando ganhar alguns
segundos para me refazer do susto daquela deliciosa e
maravilhosa surpresa.
“Ao encontro de duas pessoas”, disse ela, sempre sorrindo
duplamente, com seus olhos e com seus lábios. “Que duas
pessoas, a menina do batizado e Deus?”, perguntei, ainda
tentando ganhar tempo. “Esse encontro faz muitas pessoas
ficarem felizes”, continuei falando, contendo a minha respiração
e minha voz para não gaguejar e para que ela não percebesse
ou escutasse as batidas do meu coração.
“E, pela sua reação, e pelos seus olhos”, ela continuou falando
com o seu lindo sorriso...: “você parece que está meio
assustado, com esse encontro, estaria muito surpreso, muito
receoso, mas está aparentando determinada felicidade no seu
olhar, ou será que estou enganada?” “Que encontro? Quais
duas pessoas?” Respondi, e completei mais calmo: “Estou
surpreso sim, com muita felicidade nos meus olhos!”
Esse diálogo demorou séculos para acontecer, brindei com a
sua taça e bebi a taça de champanhe quase num só gole, para
me acalmar, e peguei outra taça de champanhe do garçom que
oportunamente passava por ali, ofereci outra taça para ela,
mas ela mal tinha tocado a champanhe com seus lábios, então
ela, delicadamente, recusou. Agora, a conversa era somente
comigo, o grupo de amigos percebeu que a conversa deveria
ser particular e, delicadamente foram se afastando.
Adotando uma postura mais segura, cruzou os braços,
deixando a mão esquerda com a taça de champanhe de fora
do seu lindo corpo e afirmou: “Acredito que hoje encontrei uma
pessoa que, aparentemente, pode ser a pessoa que sempre
procurei”, disse ela com muita convicção. E continuou com seu
duplo e azulado sorriso: “Essa pessoa está aqui entre nós,
nesta festa, por isso estou muito feliz e quero brindar com
você”, dizia aquele monumento de mulher.
Comecei a ficar mais calmo e feliz, mas ainda um pouco
assustado e trêmulo, sem saber direito quem poderia ser
aquela pessoa. Ou ela estaria demonstrando estar feliz e que
eu não teria nada que falar sobre seus relacionamentos antigos
ou novos! Poderia ser eu, ou poderia ser qualquer outro,
inclusive o tal rapaz arrumadinho, e acabei respondendo: “Que
bom saber que você está feliz, ainda mais por ter descoberto
seu parceiro aqui na festa”. Só faltava perguntar,
explicitamente, quem era ele, meu Deus!
Na minha resposta estava tentando colocar toda a minha
intenção de saber de quem ela estaria falando. Seria o rapaz
arrumadinho? Ou será que ela estaria se referindo mim? Ela
aparentava estar muito senhora da situação e me olhou
fixamente, sempre sorridente, e perguntando incisivamente: “E
quanto a você? Encontrou também alguém, aqui na festa, que
te deixou nesse estado de surpresa, alegria e de felicidade?”
Tentando aparentar uma tranquilidade totalmente inexistente,
uma vez que ela tinha percebido a minha total surpresa, e
comecei olhando para os lados e depois para o fundo azul dos
seus olhos, respirei fundo e respondi de forma muito sincera e
profunda, mas que na realidade era um verdadeiro desabafo:
“Sim, é verdade, não só aqui na festa, mas sempre que vejo
essa pessoa, em qualquer lugar, fico extremamente feliz, é
uma pessoa que preenche, perfeitamente, toda a minha
fantasia criada em torno da imagem e da postura de mulher, e
quando ela surge na minha frente, de corpo presente, eu fico
assim surpreso e encantado, só por saber que ela realmente
existe, e que não era fruto de toda a minha fantasia e
imaginação.”
Falei de uma só vez e numa só respiração, para não engasgar
ou gaguejar, era uma frase que tinha decorado. Outro gole de
champanhe para continuar falando, tentando agora mostrar
certo domínio da situação e me exibir um pouco mais: “E, por
sinal, ela está presente na festa, mas eu não sabia se ela
estaria feliz. Particularmente, eu fico muito contente só em
saber que ela está feliz”.
Ela reforçou entre dois goles de champanhe: “Eu creio que ela
está muito feliz sim, está surpresa, um pouco chateada por não
ter percebido antes, mas agora está eufórica, só por imaginar,
que poderia ter, finalmente, encontrado alguém, que tem todas
as condições para ser um parceiro adequado”.
Ainda não estava totalmente seguro que ela poderia estar
falando de minha pessoa, e para ter mais certeza, resolvi fazer
uma provocação: “Pelo tempo que conheço e por tudo o que eu
sei dela, tenho quase a certeza que ela nem sabe que existo.
Será que estamos falando da mesma pessoa?” “Tim Tim”,
disse ela, aceitando a provocação brindou comigo, sorvendo
um pequeno gole de champanhe, depois, delicadamente,
limpou seus lábios com a ponta da língua, e deu um delicado
beijo no guardanapo. Morri de inveja daquele ridículo pedaço
de papel que ficava olhando e sorrindo para mim.
Também tomei um gole maior de champanhe, alias dois
grandes goles, para tentar me acalmar diante daquela situação
excitante e assustadora, mas deliciosa, uma situação que
nunca planejei, sonhei ou imaginei. Era a oportunidade que
tanto tinha sonhado e agora estava acontecendo, e ainda não
estava acreditando.
Adotando uma atitude firme, cruzando os braços, deixando
apenas sua mão que segurava a taça de champanhe para fora
do seu lindo corpo, respondeu: “Creio que ela sabe sim, ela
sabe onde você mora e sabe seu nome, tenho certeza disso,
você é que nunca prestou atenção que ela também olhava para
você”.
Iniciando um jogo, estávamos agora tentando nos descobrir um
pouco mais, e dessa forma procurei avançar mais no “ataque”,
afirmando: “Pelas minhas informações, ela estava separada,
com um casamento se transformando em divórcio, e agora,
pelo que consegui perceber, ela está namorando, e
aparentemente, esta noite, teve apenas uma pequena briga
com seu namorado e acabou vindo à festa sozinha, não sei se
para se divertir, ou para fazer uma cena de ciúmes, conheceu
outra pessoa. Amanhã tudo volta ao normal, eles fazem as
pazes e ela acaba retomando seu namoro”. Consegui colocar
todas essas palavras também de um só fôlego.
Com seus olhos lindos azuis, ela deu um verdadeiro passeio
pelo salão, procurando alguma coisa por todos os lados,
concluiu: “Agora será muito difícil ela voltar! Seu namorado
demonstrou estar ainda muito imaturo, para qualquer tipo de
relacionamento e consequentemente muito inseguro, com
poucas experiências na relação a dois. Além do mais, gostei de
descobrir que preciso de um homem mais experiente, que sabe
o que quer da vida, da profissão, da parceira e do
relacionamento a dois”, disse ela olhando para as minhas
mãos. “Essas palavras eram minhas, ela roubou da minha boca
através da boca do arrumadinho”, consegui pensar. Respirando
fundo, ela afirmou demonstrando muita certeza: “Ela não sabia
de muitas coisas, descobriu durante o seu casamento, e agora
quer refazer sua vida, esquecendo todo o seu passado,
tentando recuperar o tempo perdido. Tenho certeza que ela vai
deixar o namorado e vai procurar olhar a vida de forma
diferente. Chega de tentar ser feliz. Agora ela vai ser feliz
juntamente com um homem mais maduro”. Também disse tudo
isso, de uma só vez, numa só respiração, olhando nos meus
olhos, sorrindo e de uma forma muito convincente.
Pronto! Era a resposta que queria ouvir, queria dar pulos de
alegria e sair abraçando e beijando a todos, mas procurei me
conter, respondendo: “Bom, se ela vai ficar feliz, eu também
vou ficar feliz, muito feliz! Mas, será que ela realmente vai
perceber que pode ser feliz? Deixando sua postura de
namorada impulsiva?”.
Resolvi perguntar, com toda a sinceridade e na profundidade
do meu olhar, transmitindo aquela enorme energia positiva de
felicidade. Queria saber se ela estava certa da sua postura, ou
melhor, da sua nova postura. Em meio a esse jogo de cena, de
afirmações, de dúvidas, de charme e de sedução, o então
namorado da Fernanda, acabava por chegar ao salão de
festas, estava na porta principal, e para variar, estava com o
seu semblante fechado, sério e aparentemente muito bravo,
tinha as suas duas mãos afundadas nos bolsos da calça,
olhando para todos os lados, deveria estar procurando por ela.
Quando seus olhos a encontrou, veio pisando duro e forte
direto ao encontro da Fernanda, que estava ao meu lado. Ele
veio se aproximando e tentando conversar com ela, mas
continuava se atrapalhando com as palavras, seu jeito de se
comunicar não parecia ser muito eficiente, apresentava uma
postura que aparentava ter abusado da bebida, ou pior ainda,
havia entrado em contato com algum tipo de droga. Ele
apresentava um comportamento bastante alterado, se dirigindo
a ela de forma exaltada, com voz alta, de forma um tanto
quanto agressiva, de repente percebi um calor maior junto do
meu corpo, percebi o corpo da Fernanda se encostando junto
ao meu corpo, parecia estar buscando proteção, percebendo
seus dedos próximos aos meus, procurando entrelaçá-los e por
fim, depois de entrelaçar os seus dedos junto aos meus, pegou
na minha mão.
Ela assumiu uma postura firme e decisiva, olhou bem nos olhos
do seu então namorado, e disse que tinha refletido muito sobre
o que ele havia afirmado no início da noite, no apartamento e
no ponto de ônibus, e agora estava decida dar outro rumo em
sua vida, que iria reconsiderar a relação deles.
Nossos dedos estavam, agora, entrelaçados, eu já estava
começando a sentir o calor do seu corpo, quando ela encostou
seu lindo corpo junto ao meu, de uma forma mais acintosa,
para que seu então namorado pudesse ver, percebendo, que
ela estava assumindo uma nova postura, inclusive fisicamente.
O namorado parecia estar num outro mundo, não estava
entendendo nada do que estava acontecendo, até que
abaixando seu olhar encontrou a imagem da mão da Fernanda
entrelaçada com a minha, levantou as pálpebras, franziu sua
testa num olhar que estava entendendo tudo, abaixou sua
cabeça e saiu num caminhar apressado em direção à porta de
entrada, mais parecia estar marchando, com seus passos
pesados, mas rápidos, ele foi se retirando, mas não sem antes
dizer algumas palavras agressivas, em voz alta para quem
quisesse ouvir.
Fiquei tão petrificado com aquilo tudo que não consegui
descobrir o que ele tinha falado. E nem queria, estava
embevecido com as mãos da Fernanda e com seu lindo corpo.
Nesse momento, ela se virou e colocou-se de frente para mim
e olhando nos meus olhos, com seu lindo sorriso azul, e falou
entre seus dentes: “Ela sempre esteve aqui”, disse baixinho, e
continuou falando: “Mas sempre achou que você não gostava
dela, não dando a atenção que merecia, e por uma questão de
preservação pessoal, ela passou a desconsiderar a sua
presença.” E foi se aproximando de uma forma assustadora,
seus lábios foram ficando tão próximos, seus olhos, que eram
tão grandes, foram se fechando e seu perfume foi ficando cada
vez mais inebriante, quando me dei conta, tinha recebido um
selinho da Fernanda.
Agora com os olhos abertos, Fernanda dizia: ‘Afinal, podemos
enfim brindar ao nosso encontro?”. Suando frio, minhas pernas
tremiam, fazia um enorme esforço para não demonstrar toda a
minha ansiedade e insegurança, mas agora estava diante de
uma realidade e muito senhor daquela situação e muito mais
confiante das minhas condições e com um raciocínio mais
lógico e sensato, respondi firmemente: “Não! Eu não vou
brindar ao nosso encontro! Porque, na realidade, já faz muito
tempo que encontrei você, e você a mim. Mas podemos brindar
ao começo da perfeita cumplicidade, do inseparável
companheirismo e uma deliciosa dedicação!”
“Na mais perfeita relação que deve existir entre duas pessoas”.
O que ela sorrindo concordou e brindou. Bebemos a taça de
champanhe e nos abraçamos fortemente e assim ficamos por
vários minutos. Aquela cena toda devia ter demorado meia
hora ou mais, nós dois ainda abraçados, fomos saindo da
festa, sem falar com ninguém, sem se despedir de ninguém,
como se o mundo fosse feito só de nós dois.
Fomos caminhando de mãos dadas, em direção ao nosso
condomínio, sem esperar qualquer condução, caminhando pela
noite, sob a luz de uma linda lua crescente, que predominava
no céu sem nuvens, respirando o perfume das ruas de
Guimarães, como testemunho daquele encontro de duas
pessoas, de mãos dadas, de almas algemadas, de corações
unificados. Não sei dizer que horas eram, mas era tarde da
noite, a cidade estava vazia de carros e de pessoas
caminhando pelas ruas, que exalavam o perfume das árvores.
Estávamos caminhando em silêncio, num silêncio de aceitação,
de compreensão, de consentimento, de felicidade, de
tranquilidade e de paz. Estava trazendo a Fernanda pela mão.
Não trocamos uma só palavra durante o caminho, que por
qualquer razão acabou ficando mais curto, pois chegamos
muito depressa. Nem percebemos o tempo que passou.
Quando chegamos ao portão de entrada do prédio em que
morávamos, entramos e fomos procurar a porta do elevador,
obviamente apertei o botão do meu andar, que coincidente era
o mesmo que o dela, e ao sair do elevador, nos entreolhamos e
sorrindo suavemente, ela perguntou baixinho: “E agora?”
Respondi enfaticamente: “Sim, e agora?” “O que você quer
fazer? Vamos dormir na alegria do nosso encontro ou no
começo da nossa felicidade?” Fernanda, sempre sorrindo,
curiosamente perguntou: “E qual é a diferença?”. Segurando
suas mãos e olhando nos seus lindos olhos afirmei: “Se formos
cada um para sua casa, vamos dormir profundamente felizes,
devido à alegria de termos nos encontrado! Se formos dormir
juntos, na sua ou na minha casa, começará a felicidade de
descobrir o começo de um relacionamento, só que de forma
mais intensa e mais completa”.
Essa frase eu tinha planejado, com muito cuidado e que
deveria ser colocada com muita sensualidade. E foi. Continuei
falando, baixinho, segurando as mãos da Fernanda: “Não sei
como você reage a estas mudanças seguidas. Não quero
assustar e nem apressar você, mas há muito tempo em que
sonho abraçar, beijar e poder ficar com você. Nem sei se agora
vou conseguir, mas se você quiser vai ser a realização de um
lindo sonho”.
Ainda estávamos de mãos dadas e nos olhando, num diálogo
delicado e profundo entre nossos olhares, num profundo
êxtase, numa situação de perplexidade, para ambos, de que
tudo aquilo realmente estava acontecendo, tudo estava tão
bem, que qualquer decisão adotada, seria perfeita.
Na minha a opinião, era preciso mais um tempo, para que os
dois pudessem assimilar e acostumar com a ideia de estarem
juntos, pois foi tudo tão rápido, muito mais para mim, do que
para ela. Mas não deixava de ser, um grande susto para mim,
que precisava preparar minha cabeça e minhas reações para
uma nova relação, entretanto não queria desestimular as
reações dela.
Afinal era uma relação a dois. Ela dizia que ainda estava
raciocinando com toda a leveza que a champanhe oferece, no
sorriso de uma felicidade natural e não queria que o sonho
acabasse, e que ela não gostaria de acordar e pensar que tudo
aquilo não tivesse passado de um lindo sonho, e que gostaria
de acordar ao meu lado, sabendo que poderia abraçar aquele
sonho durante a noite toda e também pela manhã ao acordar,
constatando aquela nova e linda realidade.
Decidimos ir para a casa dela. Na sala ficamos nos olhando, se
comunicando, se entendendo, sem precisar dizer nenhuma
palavra, apenas se tocando de leve, com os dedos, com os
lábios, muito mais para saber que aquilo tudo não era um
sonho, e que ambos existiam de verdade, um para o outro.
Esse comportamento durou algum tempo, até que o cansaço
venceu e ela me convidou para tomarmos um banho juntos,
para que ambos pudéssemos descobrir e conhecer nossos
corpos, de forma delicada, gostosa, perfumada e com vibrante
energia, que só a água pode oferecer.
Era um momento mágico, caminhamos para a sala de banho,
descobri que havia uma hidromassagem, delicadamente sugeri
a retirada de uma peça de roupa de cada vez. Sabia que
perderia, pois tinha menos roupa do que ela, mas mesmo
assim fiz a proposta e foi aceita e começamos a nos despir
enquanto a água quente completava a banheira, espalhando
uma fumaça no ar, com os sais de banho perfumando o
ambiente, ofuscando nossos olhares mais aguçados e
curiosos.
Conseguimos perceber os perfis dos corpos, começamos nos
tocando através da fumaça, cada vez mais espessa, num ritual
de descoberta delicada, suave, vagarosa e deliciosa, que
aproximava os corpos com os longos beijos que trocamos, com
os carinhos das nossas mãos, dos nossos braços e das nossas
pernas.
Era uma dança na penumbra, uma dança da espuma, uma
dança do sabonete. Nossas mãos deslizavam pelos nossos
corpos, montando esculturas das imagens desejadas, os
corpos se contorciam no compasso de uma dança lenta e
deliciosa. Essa dança se realizava sem nenhuma pressa, sem
força, apenas carinhos, suaves carinhos, leves toques,
delicados beijos superficiais. Uma leveza que também leva ao
prazer, até que os corpos se encontraram, se tocaram e se
penetraram, num delicado ritual de amor e prazer. Esse estava
sendo o primeiro encontro de amor, de dois namorados tão
sonhados. De dois namorados apaixonados, um pelo outro, há
muito tempo.
15 - O PRIMEIRO DIA DO RESTO DE NOSSAS VIDAS
Acordamos com um lindo amanhecer, da janela do seu quarto
já se podia ver a o sol surgindo no horizonte, colocando fogo
em uma pequena parte do céu, um novo dia estava
amanhecendo, mas não era um dia qualquer que iniciava, não
era um dia comum, era o primeiro dia do resto de nossas duas
vidas.
Depois de uma noite inteira de um intenso diálogo entre nossos
corpos suados, ousados, ora trêmulos, ora agitados, ora
cansados, numa comunicação quase que perfeita, quase sem
palavras, com muita curiosidade e com muito amor, onde
prevalecem os beijos, os carinhos, a delicadeza, tudo com
extremo cuidado para com aquele delicados momentos, que
foram poucos, e deveriam ser os únicos na vida de cada um de
nós, num momento especial, que nenhum dos dois gostaria de
cometer qualquer erro, ao mesmo tempo, queria vivenciar
aquele novo tempo de nossas vidas de uma forma plena e
completa.
Eu deveria ter mais experiência do que ela, pelo menos na
teoria, por toda a minha vivência, não do casamento, que foi
quase nenhuma, mas das relações que tive com as antigas
namoradas, por outro lado, ela havia me contado que seu exmarido tinha sido seu primeiro e único namorado, e dessa
forma, delicadamente, procurei tomar algumas iniciativas,
descobrindo cada milímetro do seu lindo corpo, me deliciando
com seu jeito meigo, doce e muito fogoso, sem impor nenhum
tipo de comportamento que pudesse por em risco aquele
momento.
Após diversos momentos de muita intimidade, ela estava mais
a vontade, mais solta, apresentava um comportamento mais
natural, quase sem inibição, e ficava me perguntando, em
determinados momentos como poderia fazer certos carinhos, e
se eu gostava desta ou daquela posição, quais outras eu
conhecia, quais os tipos de carinhos dariam mais prazer, para
mim e para ela. Percebi que ela estava se redescobrindo
sexualmente, e o melhor de tudo isso era que ela estava
adorando viver aquela nova experiência.
Fernanda era realmente uma mulher muito interessante,
conseguia ser doce e, ao mesmo tempo, mágica, completando
a maioria das fantasias de qualquer homem, até mesmo os
exigentes, que não era a minha característica principal, apesar
de me entregar por inteiro e cobrar isso da companheira, mas
com muita paciência e boa vontade.
Depois das delícias do inesperado primeiro encontro, dos
primeiros beijos, das descobertas pessoais, daquela ducha
aquecida, perfumada e reveladora, dos beijos e carinhos mais
íntimos, que no começo eram muito superficiais, e depois,
lentamente, foram se intensificando, ficaram mais molhados e
mais profundos, com movimentação intensa e combinada com
todas as partes dos corpos, que era reduzido quando do total
êxtase, do prazer, dos gemidos, e do relaxamento dos dois
corpos, que se repetiram por diversas vezes.
Fernanda dizia que nunca tinha sido tão bem tratada, estava
insaciável, não parou em nenhum momento, me levando à
loucura por diversas vezes, eu nunca havia combinado amor e
paixão com sexo, era minha primeira experiência, mas ela
também delirava de prazer, depois de um tempo estávamos
exaustos, acabamos dormimos sem querer, era necessário
refazer as energias dos corpos, mas já estava amanhecendo.
Pelas reações que a Fernanda apresentava, dava para
entender que nenhum dos dois tinha passado por uma
experiência de amor e sexo como aquela, de prazer e entrega,
de liberdade sem censura, de um amor tão puro.
Apesar de todas minhas fantasias e meus pensamentos de
como seria um encontro com Fernanda, em nenhum desses
momentos imaginei que seria com aquele carinho todo, apesar
das riquezas das minhas fantasias eróticas, entendi que esse
primeiro encontro tinha sido muito mais do que uma simples
busca do prazer, foi uma descoberta das formas dos corpos, da
sensualidade, da sensibilidade, e da sexualidade de cada um.
Estávamos nos descobrindo, um ao outro, mostrando todo o
conhecimento que cada um de nós tinha do prazer e do amor
que pode existir entre duas pessoas, com carinho e respeito,
ambos procuramos a melhor forma de fazer todos os carinhos
que pudesse dar mais prazer e excitação, procurando sentir, na
mais intensa plenitude, os carinhos que recebia num lindo e
delicioso jogo da sedução, de prazer, de entrega e de amor
que estava unindo duas pessoas, agora sem medo, sem culpa,
sem inibição ou qualquer outra preocupação. Era o amor
verdadeiro.
No inicio, um diálogo silencioso, uma linda poesia amorosa,
onde o poeta e a musa se misturam nos gestos, nas palavras e
nos corpos, que se confundem no encantamento e no prazer,
de tal forma que não se consegue perceber aonde começa um
corpo e aonde termina o outro, naquela verdadeira escultura
em movimento da dança do amor e da excitação.
Estava criando uma linda poesia sobre o lindo corpo da
Fernanda, agora suado, excitado, arrepiado, molhado, e que,
silenciosamente, procurava me acomodar nas curvas sinuosas
do seu corpo, me apropriando, num doce movimento encaixava
as pernas, os braços, as bocas, era uma verdadeira dança,
com movimentos lentos, cuidadosos e compassados, que não
precisava de música ou palavras, os olhares estavam
inebriados, quase fechados, toda a magia daquela dança
compassada, onde os corpos se encontram, atendendo todos
os desejos, que era o fruto das mais lindas fantasias que
existia no repertório cultural e sexual de cada um, com
movimentos delicados, os corpos vão se encaixando, num
ritmo lento, procurando um movimento comum, que
demonstram uma nova forma de ter e dar muito prazer e de
amar.
A descoberta dos corpos, com ajuda das mãos, foi como fazer
uma escultura, aonde os dedos vão, delicadamente, moldando
uma argila, úmida e macia, na busca dos mais escondidos
redutos do corpo, os dedos passeiam, aprofundando nas
reentrâncias, elevando nas saliências, deslizando nas partes
molhadas, umedecendo as partes secas, sempre buscando a
melhor e mais bonita forma de definir as formas e os corpos.
Estava descobrindo com os lábios, como sentir e se apropriar
dos sabores do outro corpo, com uma delicada colaboração da
língua, que facilita os caminhos a serem percorridos, que os
lábios demonstram conhecer, em todos os seus atalhos, e de
acordo com a sensibilidade das partes tocadas, os gemidos
vão denunciando os caminhos mais precisos a serem
percorridos e aonde deve se intensificar para aumentar o
prazer. As pernas são verdadeiros pilares que sustentam essa
dança, determinando os passos, acelerando o ritmo, permitindo
a maior aproximação, e quando a escultura estiver quase
pronta, elas se firmam tentando manter a posição do passo
daquela dança por um tempo maior, numa estreita combinação
com os braços, que além de manter seguro, controla, através
das mãos, todos os movimentos daquela dança.
Quando a escultura está concluída, o escultor e a escultura se
unem num só momento de beleza plástica, com compassos
mágicos, que vão se acelerando até uma explosão de prazer,
que, aos poucos vai desfigurando aquela imagem, suada,
cansada e ofegante, definindo agora cada um dos dois corpos
cansados.
Os sons, quase não são ouvidos, mas são ensurdecedores,
penetrando no consciente de cada um dos dançarinos, dando
maior ritmo àqueles movimentos corpóreos, apenas algumas
palavras são pronunciadas, quase sem nexo e sem nenhum
sentido, são ruídos soltos apenas para exalar a respiração, que
está cada vez mais ofegante e cansativa.
Terminada a escultura, a dança, os sons, a magia, enfim os
corpos se soltam, os músculos relaxam, os olhares se cruzam,
agora numa outra forma de diálogo, uma nova forma de
aprovação, de compreensão, de permissão, de consentimento,
de alegria e de ter o prazer da descoberta da arte de amar a
dois.
Com todos esses cuidados assegurados, ainda estávamos
abraçados, dentro da hidromassagem, com a água
massageando os dois corpos, que continuam deliciosamente
juntos, mas não agarrados, trocando calor e perfume, com
ajuda da ducha que continuava a exalar os sais de banho,
depois de recuperar o fôlego e a respiração, trocamos então
nossas primeiras palavras, depois daquela maravilhosa fusão
dos seus corpos.
Agora era o momento de começar a fazer todas as perguntas,
e eram muitas, que estavam contidas há tanto tempo, era
inevitável, agora mais do que nunca queria saber tudo sobre
ela, estava tentando organizar toda a minha fantasia sobre ela.
A pessoa que sonhava ser o meu ideal de mulher, de parceira
e de companheira, para poder conhecer agora a verdadeira
Fernanda, iniciando uma conversa que poderia demorar horas,
dias, semanas, meses, e acredito que muitos anos para ela
conseguir responder. Ainda havia as perguntas que,
certamente ela deveria querer fazer.
Muitas das minhas fantasias criadas e desenvolvidas estavam
corretas, outras não estavam tão precisas, e algumas muito
erradas, mas, de qualquer maneira, demonstrava que estava
muito certo sobre o tipo de pessoa que ela demonstrava ser,
correspondendo o seu tipo físico com sua personalidade, sua
forma de ser, de fazer, de mostrar, de viver e de se apaixonar.
Ficaram faltando aparar algumas arestas, mas isso seria com o
passar do tempo e com a convivência mais estreita.
Contei muita coisa sobre a minha vida, meus comportamentos,
meus sonhos, minhas ilusões e desilusões, tentando mostrar
toda a minha impetuosidade, a minha excessiva objetividade, o
meu comportamento idealista, e a minha coragem para
enfrentar a tudo e a todos, com exceção de quando tinha pela
frente uma mulher bonita, ou uma mulher que tinha algum
interesse.
Naquelas horas nunca sabia direito como fazer, se ficava
admirando e demonstrando que estava com vontade de
conhecer melhor e se entregar, que na verdade já estava
totalmente entregue, para aquela pessoa, mas ela ainda não
sabia. Ou se demonstrava total indiferença, como forma para
tentar atrair sua atenção. Não tinha ainda descoberto como
demonstrar, todo aquele meu jeito carinhoso para a musa
inspiradora, elaborando poesias, fotografando seus diversos
ângulos, desenhando sua imagem ou ainda esculpindo seu
corpo. Esse comportamento, sempre foi uma grande dúvida
para mim. Fernanda estava sentada na cama, abraçando suas
pernas apoiando seu lindo queixo nos joelhos e me olhava
emudecida, como se eu fosse um ET. Aparentemente eu não
deveria fazer parte do mundo em que ela vivia, e ela tinha
razão. Estava, há muito tempo, tentando tirar o passaporte,
para ter o direito de entrar naquele mundo novo, e viver uma
nova vida. O comportamento da Fernanda era calmo, com
gestos vagarosos, um leve sorriso que se apresentava nos
seus maravilhosos lábios carnudos, além daquele lindo,
penetrante e sorridente olhar azul, que agora estavam
levemente encobertos por alguns cabelos negros, escorridos
sobre seu rosto, que ela não fazia nenhuma questão de
arrumar, ou de colocar para trás das orelhas.
Fernanda começou a fazer algumas perguntas básicas, qual a
minha idade, de onde era, o que fazia de verdade, além de
estar em casa desenhando e escrevendo, qual era a minha
situação familiar e por fim quais eram os meus ideais de
mulher, de companheira, de cúmplice, de sexo, de vida para
um relacionamento a dois, estava muito preocupada com a
minha aceitação do fato de ela estar se divorciando, além do
seu adicional familiar, tipo ganha um mais leva dois, sua filha, e
demonstrou muito interesse em saber como que eu me
sustentava.
Comecei explicando que iria responder todas aquelas
perguntas, uma a uma, algumas na forma de simples palavras,
pois assim o exigiam as palavras, e as outras, um pouco mais
complicadas, seriam respondidas na simples convivência,
porque seria impossível responder apenas pelas palavras, que
nunca conseguem demonstrar a verdadeira expressão dos
sentimentos. Quase sempre a força que existe nas palavras
não representa a verdadeira intenção dos atos comentados.
Ela entendeu e concordou, dessa forma levantamos, nos
enxugamos, ela vestiu o seu roupão de banho, e me ofereceu o
roupão do seu ex-marido, e fomos para o quarto, descansar na
cama, onde tiramos cada qual o seu roupão e nos colocamos
sob as cobertas, uma vez que o frio já se fazia presente
naquela época do ano em Guimarães, com aquela chuva fina e
intermitente, tão característica da cidade. Estávamos na
segunda quinzena de novembro.
O diálogo continuava, comentei todas as passagens da minha
vida profissional e acadêmica, o caso do congresso em
Coimbra, que foi responsável pelo surgimento da cidade de
Guimarães em minha vida, o retorno ao Brasil para organizar a
mudança e depois a viagem de volta para Europa, começando
pela Itália para poder pegar a minha cidadania, além de
comentar sobre os meus livros e o meu trabalho na
universidade portuguesa, e a adaptação à vida de Portugal.
Continuava contando, superficialmente, meus passos, com
muito cuidado, para tentar estabelecer alguns parâmetros, de
forma que ela pudesse me conhecer, sem se assustar, não só
através das minhas palavras, mas através das minhas atitudes,
de toda a minha paciência, persistência, sensibilidade e muita
paixão para ficar amando e esperando por uma mulher, que
estava casada, com uma filha, apesar de que ela preenchia
todas as minhas exigências de homem e de ser humano,
mesmo não tendo nenhuma garantia de que um dia eu
pudesse me aproximar dela.
A verdade é que esperei por mais de três anos, conformado em
participar da sua vida, somente assistindo a sua felicidade, até
o nascimento de sua filha Carolina, que foi o tempo suficiente
para ver suas reações, seus comportamentos e as suas
posturas ante o casamento, o marido, a filha e a vida. Depois,
com muita tristeza, por um lado, e alegria por outro, assistir o
desmoronamento do seu casamento, que sinalizava uma nova
esperança para o meu sonho até então impossível, de poder
participar da vida de uma mulher, com a qual eu imaginava
poder viver um amor perfeito, o que se pode chamar de um
amor de amor.
Completamente enrolada nas cobertas, deixava somente seu
lindo rosto à mostra, Fernanda continuava a beber minhas
palavras, olhando com seus olhos azuis e sorridentes agora
molhados, boca úmida e coração acelerado, suas pernas sob
as cobertas procuravam se entrelaçar com as minhas pernas e
lentamente começamos a montar outra escultura, a quatro
mãos, eu parei de falar, pois não conseguia mais raciocinar,
organizar as palavras e os pensamentos, estava começando a
participar daquela dança mágica novamente.
De novo aconteceu um comportamento de poucas palavras e
muita ação, muito carinho e de muito prazer, agora num
espaço seco, que aconteceu durante o domingo inteiro, não
sentimos falta de comer ou de beber, no final da tarde, agora
mais cansados, porém mais satisfeitos e muito felizes,
começamos a voltar para a vida comum, Fernanda lembrava
que tinha que ir buscar sua filha, que o seu ex-marido deixaria
na casa de sua mãe, no outro lado da cidade. Se desculpando
pelo avançado da hora, Fernanda deveria sair, levantamos,
tomamos outro banho demorado, com algumas sessões de
massagem, que adoro fazer, e saímos, eu para minha casa e
ela foi buscar sua filha Carolina.
Depois de abrir a porta da minha casa, entrei e fiquei pensando
se aquilo tudo tinha sido verdade, se não era um lindo filme de
amor daqueles que passa na televisão, pois se fosse não iria
mudar de canal ou muito menos desligar a televisão, não
estava acreditando que, depois de tanto tempo, todas as
minhas fantasias estavam se realizando, e se fosse um filme,
não desejava que terminasse, pois começava ficar muito
interessante aquele sonho de amor. Olhava todos os móveis de
minha casa, que pareciam diferentes, não eram os mesmos, a
cama não era tão convidativa, o banheiro era frio e a sala não
era tão atraente como nos dias anteriores.
Fui para a cozinha que é uma das partes da casa que mais
gosto, fazer um café, estava nas nuvens, me deliciando com
aqueles momentos, voltei para a sala sentei no sofá e fiquei
revivendo todas as cenas que aconteceram na noite anterior,
desde a minha saída para a festa, o encontro com o
arrumadinho, a festa, o encontro com a Fernanda, até a volta
para casa de mãos dadas com a Fernanda, começando a
perceber que estava em uma nova casa, que agora aparentava
estar muito mais vazia e fria, estava faltando alguma coisa,
estava faltando gente, estava faltando calor humano, estava
faltando amor.
Estava faltando a Fernanda. Milhares de pensamentos
passavam pela minha cabeça, todos de uma só vez, num
verdadeiro turbilhão de imagens, e fiquei pensando, se tudo
aquilo que tinha acontecido teria sido verdade e para valer, eu
precisava redefinir alguns conceitos, tomar algumas decisões
para assumir novas responsabilidades.
Após a frustração do primeiro casamento, comecei a pensar
que um casamento poderia ter maiores chances de dar certo,
se as pessoas envolvidas mantiverem as suas individualidades,
na simples tentativa de continuarem a viver o comportamento
dos tempos que eram namorados, quando existe uma
preparação especial para a convivência com a namorada por
algumas horas, no jantar, no cinema, teatro, sexo, no banho e
depois poder continuar a vivenciar suas individualidades, cada
uma no seu espaço e na sua casa.
Dessa forma, os comportamentos individuais, os hábitos diários
como a troca da roupa íntima na saída do banho, a limpeza da
louça após o jantar, a arrumação da casa, das compras e dos
horários para dormir, trabalhar e preparação para dormir, que
tinha ainda nos meus pensamentos, não venham interferir no
relacionamento.
Nesse novo relacionamento, precisava lembrar que existia uma
criança na vida dela, que exigia educação, comportamentos,
escola, comidas, roupas, hábitos, brinquedos, tornando tudo
um pouco mais difícil. Na minha concepção, para manter
aquela relação, seria muito importante começar a convivência
com aproximações sucessivas, para que os dois pudessem se
acostumar aos poucos com seus novos comportamentos.
Imaginei que poderia ser etapa por etapa. Era preciso me
acostumar com a nova ideia de ter, depois de muito tempo
sozinho, uma nova companheira, e uma filha com quase 2
anos, que deveriam exigir algumas dedicações exclusivas, por
parte da mãe, e que eu deveria entender, aceitar e participar.
Depois de estar mais de 10 anos morando sozinho, poderia
estranhar um pouco todo aquele envolvimento, e também não
gostaria de me sentir sufocado, preso e sem tempo para as
minhas atividades, e não queria sufocar a ela, pelos mesmos
motivos que os meus, que ainda tinha a sua filha, e deveria
querer ter um tempo para elas duas, na verdade estava
querendo preservar a Fernanda, criando uma forma de poder
preservar a individualidade de cada um de nós três.
Todas essas ideias surgiram na noite seguinte ao nosso
encontro, tinha pensado sozinho, mas era importante discutir
com ela, eu não tinha a mínima ideia de quais eram seus
pensamentos sobre essas atitudes a dois.
Estava eufórico e vibrante, não conseguia me concentrar em
nenhuma atividade, estava impaciente, resolvi sair de casa,
não queria ficar em casa sozinho, no final do domingo, tinha o
hábito de assistir filmes na TV, mas naquele domingo não
conseguia ficar sentado, as imagens do nosso encontro
predominavam na minha cabeça, resolvi dar um passeio pela
praça, procurar uma pastelaria para tomar uma cerveja, comer
um bolinho de bacalhau, depois um pastel doce português, e
poder ficar horas na pastelaria, um hábito que já estava
adquirindo, mas agora vivia um novo momento, estava
“mostrando” para a cidade um novo cidadão, um cidadão que
tinha uma namorada, uma amante, uma amiga, uma nova
companheira, queria contar a todos que encontrava, mas não
era preciso usar as palavras, a felicidade estava estampada no
meu rosto, todos me perguntavam o que estava acontecendo,
você esta tão diferente, eu respondia: “nada, nada”. Apesar de
toda a minha intensa ansiedade, me sentia muito mais
tranquilo, eu estava levitando e conseguia ver uma nova
Guimarães, quase sem colocar os pés no chão, as mesmas
ruas, as mesmas casas, as igrejas e as praças, se
apresentavam com novas aparências, com novo perfume
exalado pelas folhas das árvores, as pessoas estavam mais
bonitas, alegres e felizes, os doces mais gostosos, a cerveja
mais saborosa. Estava enfim com outro astral e com novas
energias, e dessa forma começava a ver um novo mundo, um
novo tempo.
Depois de ver a cidade com novos olhos, voltei para casa,
tentar ler, ou ver um filme na televisão, mas não conseguia
fazer uma coisa e nem outra, Fernanda estava presente em
todos os lugares. Lembro sua imagem que via pela janela da
minha sala, ainda na rua, na praça, na festa e depois na volta
da festa sob a luz do luar de mãos dadas comigo.
Continuava percorrendo minha casa, fazendo tudo que sempre
fazia, mas agora de forma automática, estava com ela no
pensamento, em tudo em que tocava, mexia, comia, de alguma
maneira, e por qualquer razão, ela vinha na minha lembrança.
Fiquei recordando todo o nosso diálogo, no salão de festa do
batizado, o silêncio de nossas palavras, num comportamento
de permissão e aprovação, que prevaleceu durante o caminho
percorrido até chegar ao prédio e na sua casa, a enorme
discussão entre nossos olhares, em silêncio, antes de entrar no
banho, todos os carinhos que antecederam ao banho, e os
carinhos que aconteceram durante o banho, o prazer na ducha,
depois na cama, as massagens com as mãos, com o corpo e
com os lábios, deixando-a trêmula de prazer.
Estava ficando excitado, só de lembrar tudo aquilo. Estava
extremamente feliz, precisava eternizar aqueles momentos, de
alguma maneira, para que pudesse vivê-los novamente,
demonstrando minha imensa felicidade decidi eternizar aquele
momento, com algumas palavras especiais, escolhidas para
representar aquela cena maravilhosa, que depois foram
organizados, num pequeno texto, numa pequena poesia, que
iria oferecer a Fernanda como uma singela forma de
agradecimento por aqueles deliciosos e suaves momentos de
amor, carinhos e prazer.
16 – REGISTROS POÉTICOS DA EMOÇÃO
Um prazer que nunca havia conhecido e acreditava que, por
toda sua postura, com todos aqueles movimentos, ela também
não deveria ter experimentado o amor, o sexo, o carinho e o
prazer, juntos. Foram escolhidas estas palavras:
A DANÇA DO SABONETE
Ainda não estava refeita
Da dança tão perfeita
No salão da festa
Agora só me resta
Sonhar ao seu lado, acordar
Sonhar ao seu lado, beijar
Ver seus olhos abrir
Ver seus lábios sorrir
Ver seus cabelos emaranhados
Lindamente despenteados
Seu corpo adormecido
Seus gestos tão lentos
Mas com lindos movimentos
Me abraça longamente
Me aperta sofregamente
Me beija de corpo inteiro
Num beijo molhado
Num beijo penetrado
Na dança das pernas
Na dança do sexo
Neste delicioso vai-e-vem
Mesmo assim me beija
Mesmo assim me deixa
Loucamente arrepiado
Nossos lábios colados
Nossas línguas entrelaçadas
Nossas mãos tão ávidas
Percorrem nossos corpos suados
Percorrem recantos molhados
Penetram recantos profundos
Acariciam elevações macias
Num ritmo tão louco
Que um dia é pouco
Que uma semana tampouco
Que um mês não vai dar
Que um ano vai passar
Com uma vida para fazer
Para esse prazer não acabar
No final naquele momento
Num relaxamento feliz
Você é quem diz
De um banho precisar
Carrego você no beijo
Começo a te ensaboar
Pedacinho por pedacinho
Mas vejo todo quietinho
Só um sabonete a vibrar
Só um sabonete a corar
Só um sabonete tão duro
Que mesmo no escuro
Sabe aonde vai passar
Sabe aonde vai ficar
Todo feliz o sabonete desce
Primeiro na suas mãos
Depois no seu seios
Ele vibra
Depois no seu umbigo
Passando pela sua barriga
Ele está feliz
Chega nas suas pernas
Ele fica triste
Pois esperava passar
No seu sexo generoso
Mas ele não desiste
Vai chegar nas suas coxas
E chegar nos joelhos
Ele continua olhando para trás
Chegando nas pernas
Vai direto aos seus pés
Agora olha para cima
Quer voltar por trás
Quer passar na bundinha
Não recrimino
Lá vai ele feliz
Lá vai ele durinho
Passar pelo ladinho
Passar pelo meio
Quase penetrar
Deixando ele gosar
Ninguem percebe
Por causa da espuma
Mas ele chega nas costas
Mais devagar e cansado
Mas ainda entusiasmado
Vai chegar no seu pescoço
Descendo pelo seu colo
Passando de novo por seus seios
Ele de novo enrijece
Vai chegar no seu sexo
Ele fica muito animado
Lá vai ele penetrando
Junto com meus dedos
Junto com a espuma
Gozando de novo lá dentro
Meus dedos nem desconfiam
Meu sexo penetrando também
O sabonete de fora olha
Mortinho de inveja
Mas feliz por participar
Daquele banho inusitado
Daquele banho prazeiroso
Me pergunta baixinho
Quando vamos de novo dançar???
Eram quase 21 horas, quando toca a campainha da porta, fui
atender, eram as duas novas mulheres da minha nova vida. A
Fernanda e a Carolina, que foram cumprimentar e conhecer a
minha casa. Com muito jeito, a Fernanda me introduziu na vida
da Carolina, como um vizinho e agora novo amigo. Entraram,
sentamos e ficamos, eu e a Fernanda conversando
animadamente, mas eu estava muito preocupado com a
Carolina, de como conduzir melhor a minha aproximação,
apesar de gostar muito de crianças, dei uma atenção especial
à menina, afinal, era muito importante a minha aceitação.
Num momento de distração da Carolina com o jogo de xadrez
da minha mesa de vidro, perguntei como era a relação da
menina com o pai, e como seu ex-marido se comportava em
relação sua filha, e como Fernanda lidava com seu ele e com a
recente separação. Aproveitando o momento, perguntei sobre
o seu ex-namorado. E o que realmente havia acontecido
naquela noite do batizado.
Não houve tempo para ela responder nada, a Carolina voltou
para seus braços, resolvi oferecer um doce que tinha feito no
dia anterior, com café e leite, hábito italiano, e ficamos
conversando sobre os hábitos da menina, sua escola, seus
brinquedos, seus amiguinhos, essas coisinhas amenas para
melhorar a aproximação. Eu sempre tive muita facilidade com
crianças, afinal comecei a minha vida profissional como
professor de escola infantil e sabia que ela poderia gostar de
desenhar.
Fui pegar canetas hidrográficas coloridas e papel, perguntando
se ela gostava de desenho, e se gostaria de fazer alguns
desenhos com ele, Carolina sentou-se ao lado da mãe e ficou
desenhando toda a sua fantasia, no final ela muito animada
pediu para marcar uma tarde para fazer novos desenhos. A
nossa conversa ficou muito truncada com as conversas que a
Carolina interrompia, mas ficamos os três juntos nos divertindo.
Era um grande passo começar a integração familiar. Fernanda
estava com a sua filha no colo e olhava para mim com um olhar
tão cheio de ternura, de meiguice, de afetividade, ao mesmo
tempo em que abraçava forte sua filha, um comportamento que
encheu os meus olhos de lágrimas, que nunca havia recebido
esse carinho todo, só com um simples olhar, ela, sorrindo dizia
que nunca tinha vivido momentos de ternura como aqueles.
Tanto seu ex marido, como seu ex namorado, nunca tiveram
tanta ternura, cuidado, carinho e compreensão, suas conversas
com eles sempre foram mais objetivas, nunca dedicaram um
tempo, por menor que fosse à Carolina, e que desse jeito ela ia
ficar muito mal acostumada, no sábado um banho de prazer e
no domingo um banho de ternura.
Afirmei que essa era realmente a intenção, deixar ela e a filha,
tão mal acostumadas, que dessa maneira elas não teriam mais
vontade de me deixar. Ela agradeceu com aquele seu sorriso
lindo e perfumado, e disse que se for sempre assim eu estaria
contratado, ela pagava em beijos. Respondi em seguida: “Se
os seus beijos forem bons eu aceito, caso contrário devolvo
todos eles, em dobro”.
O tempo passou muito depressa, já estava na hora de colocar
sua filha na cama, e dessa forma elas precisavam ir embora,
com muita tristeza, segundo ela, nos despedimos com beijos e
abraços bastante convencionais, e elas saíram de mãos dadas,
antes de entrar no seu apartamento, ela falou baixinho que
voltaria para dar um beijo de boa noite, e agradecer pelo
maravilhoso primeiro dia do resto de nossas vidas. Enquanto
esperava pelo seu beijo de boa noite, liguei o computador e
comecei a registrar aquele momento bonito, e comecei a
escrever outra poesia: CHEGOU
Eu já estava desistindo
Eu nem estava mais saindo
Eu já estava me imbuindo
Que essa mulher não existe
Que toda essa ideia consiste
Numa deliciosa fantasia
Numa gostosa alegria
De ter sempre comigo
Essa figura feminina amiga
Essa figura feminina companheira
Essa figura feminina sensual
Esta figura feminina
Que é tudo que um homem quer
Para poder ser feliz na vida
Com uma tristeza incontida
Estava abandonando a fantasia
Estava aceitando a filosofia
De viver assim sozinho
Até que você surge devagarzinho
Surpreendendo de mansinho
Demonstrando de forma concisa
Tudo que uma mulher precisa
Para ser essa mulher maravilhosa
Para ser essa mulher deliciosa
Para ser essa companheira
Que eu sempre procurei
Por mais que eu olhei
Encontrar não conseguia
Até que surgiu você
Iluminando esse novo caminho
Para esta vida inteirinha
Que poderá seguir bem juntinha
Desse sorriso lindo
Dessa simpatia infinda
Dessa criatura tão linda
Que acabei de descobrir
Que enfim você....CHEGOU
Depois de mais ou menos uma hora, Fernanda voltou,
participando da parte final da poesia, entrou na sala lentamente
e veio me abraçar por trás e beijando minha nuca e orelha,
dizendo que tinha sido o tempo dela colocar a menina na cama
e dar um jeito na casa, e veio me agradecer por aqueles
momentos tão lindos, depois foi sentar no sofá, se ajeitou
cruzando suas lindas pernas, e começou a responder as
perguntas que eu tinha feito sobre o seu ex marido, contar
sobre o seu comportamento, e depois comentar sobre o que
tinha acontecido com seu ex namorado.
Quanto ao Roberto, seu ex marido, afirmava que ele era uma
pessoa difícil, filho único de uma família que estava muito bem
de vida, foi muito mimado e sempre teve tudo o que quis, era
incapaz de ouvir um não, como resposta, de qualquer coisa
que fosse, nem ter que dividir suas coisas com outras pessoas,
num comportamento extremamente egoísta, era formado em
administração de empresas e começava trabalhar na área.
Fernanda dizia que, no seu modo de ver, o casamento havia
terminado, devido à competição inconsciente que havia entre
eles, para saber quem era mais inteligente, quem ganhava
mais dinheiro, enfim quem era melhor, e que de certa forma
complicou ainda mais com a vinda de Carolina, que tomava
muito tempo dela e ele não aceitava compartilhar nem
participar.
Roberto era incapaz de fazer qualquer coisa em casa, a não
ser dormir, comer e conviver, de forma nada atenciosa, nem
com ela e nem com a filha, e tinha concluído que Fernanda
havia engravidado assim depressa, como forma de segurar o
marido ou então ter uma pensão fácil, pois os pais dele
estavam bem de vida. Fernanda dizia que na verdade o
casamento acabou quando nasceu a Carolina.
Ele jamais aceitou ter que dividir ela com a filha, demonstrando
um comportamento de amor egoísta e muito possessivo. Fiquei
impressionado com suas palavras, e perguntei como ela não
tinha conseguido perceber a forma de ser do seu ex marido,
durante o namoro, antes de se casar. “Enquanto estamos
namorando tudo é festa, tudo é ilusão, tudo é fantasia”,
respondeu com um enorme sorriso. Com o que eu concordava
plenamente com ela.
Quanto a seu ex namorado, Fernanda dizia que tinha
conhecido numa festa, na casa de uma de suas amigas, que
era irmã dele, comentou que ele era muito inteligente, mas
tinha sérios problemas de convivência, não conseguia ter
amigos homens ou mulheres, estava sempre com a impressão
que todos queriam se aproveitar dele e do seu dinheiro,
segundo ela, ele era um verdadeiro gênio, mas tinha um
comportamento de eremita, por isso ele não queria vir até a
festa do batizado alegando ser muito difícil conhecer novas
pessoas e ter que ouvir e contar coisas, que, no seu conceito
nem sempre eram verdades. Argumentando que ela tinha sido
premiada com dois homens fora de série, e se ela tinha
refletido sobre isso, e como tinha sido, com os dois, em relação
aos carinhos e ao sexo. Ela definiu simplesmente: “Uma
verdadeira droga”! Começava a concluir que ela era uma
mulher com poucos conhecimentos sobre sexo, sensualidade,
sensibilidade, sedução, cumplicidade, isso tinha seus encantos,
seu lado bom, mas também seu lado negativo.
Era preciso começar desde o princípio, com muito cuidado para
criar seu repertório pessoal de forma adequada. Agora tinha
certeza, não poderia tratar Fernanda como uma mulher, fazer
grandes investidas, poderia colocar tudo a perder, poderia
assustar, era preciso tratá-la como uma adolescente, por não
estar devidamente preparada, era preciso montar uma
estratégia especial para, gradativamente, demonstrar os
segredos do sexo, do amor e do relacionamento.
Imprimi a poesia CHEGOU e mostrei para ela, dizendo que era
a segunda de uma longa série, que faria para minha musa.
Comecei a explicar, enquanto ela lia a poesia, o que seria uma
musa, qual seu papel perante o artista. Estava falando sozinho,
percebi que ela não estava escutando nada, ela estava com os
olhos fixos na poesia e chorava baixinho, depois aos prantos,
delicadamente se colocou nos meus braços na ponta do sofá,
me abraçando fortemente, dizendo, que realmente, não poderia
ser verdade, que eu não era de verdade, que eu era isto e
aquilo, as palavras que as mulheres falam quando estão
apaixonadas, e que ela não merecia tudo aquilo. Abracei e
deixei ela se acalmar, para depois comentar sobre o
surgimento da poesia. Ainda abraçados, expliquei que não
seria fácil ser a musa e companheira de uma pessoa sensível,
mas que daria muito prazer. Dizendo que as palavras foram
escritas por mim, mas foram inspiradas no comportamento
dela, nas palavras dela, na pessoa dela, por isso, a poesia era
ela, o meu trabalho foi perceber e interpretar aquela emoção,
encontrar as palavras adequadas e colocar de forma mais
adequada no papel. E devido a isso estava dando a poesia
para ela, como emanou dela, deveria voltar para ela.
Abri uma garrafa de vinho português, coloquei pão fresquinho
na mesa, para comer com queijos franceses e alemães, um
velho hábito que havia adquirido nos tempos que morava em
Paris. Adorava queijo tipo camembert, gorgonzola, queijo
fundido, tipo reino e continuamos a conversar. Ela quase não
bebia, comeu um pouco dos queijos com pão, me perguntando
aonde tinha adquirido aquele hábito de comer daquele jeito.
Expliquei que em Paris, depois de se fazer a refeição do
almoço ou jantar, é servido essa tábua de queijos, que deve
ser saboreada com pão e vinho, depois a sobremesa e
finalmente o licor.
Ajuda a relaxar e pensar, mas continuava a falar sozinho, pois
ela continuava a reler a poesia e me fez prometer que não
deixaria mais ela, e para que eu ficasse sempre ao seu lado ela
faria qualquer coisa. Expliquei que essas decisões mais
permanentes na nossa vida é o tempo que vai organizando,
com a nossa conivência e aprovação, e que ela tinha tudo
aquilo que eu queria numa companheira, para não se
preocupar, era só continuar a ser ela mesma, sempre, do
mesmo jeito que sempre viveu, só que agora ao meu lado.
Apesar de estar no meu apartamento, deliciosamente ela me
convidou para ir conhecer o meu quarto, uma vez que meu
banheiro não tinha hidromassagem, e usar a casa dela casa
agora não seria possível, devido a sua filha estar dormindo, o
que não seria muito conveniente.
Fomos andando lentamente, ela caminhava lentamente na
frente, eu caminhava abraçando-a por trás, e fomos andando,
com os corpos colados, andando no mesmo compasso,
entrando em direção ao sofá que tinha no quarto, comecei a
tirar sua roupa com um verdadeiro banho de beijos, peça por
peça, cada peça que ela retirava, ela ganhava beijos, muitos
beijos, exatamente no local que ficava desnudado, até
conseguir colocar ela deitada, totalmente nua, na sua cama.
Aquela cena era uma das minhas imagens preferidas, tinha
sonhado com aquela cena durante anos seguidos, e que agora,
inexplicavelmente estava ali, imóvel diante daquela mulher
maravilhosa, nua, com seu lindo corpo arrepiado e estendido,
com seus braços abertos, me convidando para deitar com ela,
para aproveitar ao máximo aquele delicioso momento, fui me
despindo com muita lentidão, estava curtindo o primeiro
momento de introdução dela no meu apartamento.
Sem a pressa e a curiosidade, mas com os mesmos cuidados
da noite anterior, começamos a nos abraçar, como um longo
beijo de corpo inteiro, e ficamos por alguns minutos naquele
beijo, depois vieram mais beijos, longos e demorados, que
percorreram o corpo inteiro da Fernanda, no seu colo, seus
seios, sua barriguinha lisinha, seu umbigo, suas coxas, seus
joelhos, pernas, pés e dedinhos dos pés, com muito carinho
coloquei ela de lado e depois de bruços, para começar a
viagem de volta.
Iniciando pela sola dos pés, percorri os tornozelos, pernas, as
coxas, sempre uma de cada vez, passando pelas suas
nádegas, e que nádegas ela tinha, chegando até suas costas,
e com mais cuidado fui até o pescoço, fiquei rodeando até
poder chegar até suas orelhas, olhos, face e, finalmente nos
seus lábios.
Fernanda tinha seus olhos fechados, suas mãos paradas, suas
pernas imóveis, mas seu coração estava disparado, seus poros
arrepiados, e nesse momento senti seu sexo completamente
molhado, exalando um odor de prazer e excitação, foi quando
ela se levanta e começa a fazer a mesma massagem no meu
corpo, com seus lábios e língua, percorrendo todos os redutos
do meu corpo, demorando mais tempo em alguns lugares, do
que em outros, me deixando totalmente sem controle de mais
nada. Com muito custo segurei a explosão de prazer, queria
colocar ela em cima do meu corpo, deixando controlar todos os
movimentos, suas pernas que apertavam as minhas, seu sexo
aconchegava o meu, seus seios se escondiam na minha boca
e na minha mão, suas mãos e seus cabelos acariciavam meu
rosto e sua boca estava perdidamente ocupada em não me
deixar falar, dessa forma os gemidos do prazer saíram pelas
narinas e por todos os poros dos corpos. Dos dois.
E assim ficamos, naquela posição, por minutos intermináveis,
comecei a falar bem baixinho, junto ao seu ouvido, palavras
delicadas, de carinho, de descoberta, de prazer, comentando o
quanto ela me deixava realizado como homem, que seu jeito
de dar prazer com seu corpo, com sua boca e com suas mãos,
era experiência nova para mim, e que estava adorando tudo
aquilo.
Existia ainda o carinho e a afeição que estavam
desenvolvendo, um pelo outro, e isso ajuda muito na relação a
dois, todos os carinhos são recebidos, sem censura ou
preconceitos, pelo companheiro, que procura ter um
comportamento recíproco, tornando o ato sexual um ato de
amor e carinho. Era exatamente isso o que estava
acontecendo entre os dois namorados, algo que nunca tinha
vivenciado com minha ex mulher ou com outra pessoa.
Logo depois levantei e fui buscar o óleo de amêndoas que
usava para fazer massagens, comecei a massagear seu corpo
todo, iniciando pelos seus pés, chegando até o pescoço e
depois ela se virou e voltou pelas costas, numa massagem
delicada com os dedos e palmas das mãos, até chegar aos
seus pés de novo. Fiz aquilo com muito cuidado, chegando ao
seu sexo, e fez exatamente o que ela estava pedindo, chegar
ao prazer com a delicadeza dos meus beijos. No momento em
que ela teve o seu prazer, pude perceber a delicadeza dos
seus gemidos, na sua forma de anunciar seu orgasmo. Fomos
tomar um banho, um começou a dar banho no outro, com
direito a massagens e tudo mais, não conseguimos evitar um
novo prazer sob as águas do chuveiro, com os corpos ainda
ensaboados, o que dá um prazer ainda maior. Depois, ele me
enxugou, vestiu o meu roupão, e fui buscar um roupão para
mim que estava no meu armário, saímos da sala de banho, ela
colocou sua roupa e fomos nos despedir, afinal ela morava
longe, ao lado da minha porta de saída.
Dessa forma aconteceu o primeiro encontro entre nós no meu
apartamento, fui me deitar, e quem disse que conseguia
dormir, apesar de todo o cansaço, fazia muito tempo que não
tinha duas noites de prazer, ainda mais daquela forma, com
alguém que tinha uma grande admiração e afeição. Voltei para
a sala, sentei no computador decidido a registrar aquele
delicioso momento, começando a escrever novas poesias.
Princesa, ou devo dizer namorada, amada, amante,
companheira, cúmplice, mulher, não consegui dormir pensando
em tudo o que está acontecendo entre nós, e para alegrar mais
um pouco você, aqui vai
UM BOM DIA
Mais uma vez Obrigado
Por este novo amanhecer
Onde as flores com novas cores
As frutas com melhores sabores
Até o sol com mais calor
Os pássaros cantam mais bonito
E voam mais aflitos
Mostrando mais alegria
Mostrando nova energia
Só para te dar Bom Dia !
Tornando suave seu amanhecer
Alegrando seu entardecer
Cuidando do seu adormecer
Em busca de um sonho mais puro
Em busca de seu ideal
Nem sempre tão real
Nem sempre fantasia
Mas com toda sua energia
Com toda sua alegria
De um novo amanhecer
De uma nova esperança
Que acaba de nascer
Cercada de poesia
Cercada de fantasia
Que me enche de vaidade
Transbordando felicidade
Só em poder te conhecer
Já é motivo de alegria
Pelo prazer de te dizer BOM DIA
E neste lindo dia que vc faz nascer, com novo sol, novas cores,
novos perfumes das flores, novas alegrias da vida, novos
sabores das frutas, novas esculturas do amor, novas fantasias,
novos passos na dança, novas formas de prazer e novas
formas de se amar
Imaginei eternizar todos aqueles momentos com ela, traduzir
em poesias, só precisava escolher as palavras certas, e poder
devolver para ela. A segunda feira amanheceu, depois de mais
uma noite agitada, descobrí por que não conseguia dormir, não
estava querendo acordar daquele sonho, mas o sono e o
cansaço venceram, ao acordar percebi que aquele novo dia
não seria igual aos dias anteriores e ainda tinha certeza, que
os próximos seriam muito melhores.
Olhava tudo com novos olhos, apesar de estar na época
natalina, tudo se apresentava de forma mais bonita, festiva e
alegre, as ruas, as lojas com suas vitrines repletas de motivos
natalinos e as igrejas iluminadas, na realidade era um
momento histórico especial para mim, onde o prazer de
encontrar uma companheira e um amor, estava se misturando
com as festas do Natal, que particularmente adorava, pois
traziam lindas lembranças da infância, dos meus pais e de
Paris, quando passei o meu primeiro Natal sozinho. Numa
época em que o “espírito natalino” transforma as pessoas, que
se tornam melhores, ficam bondosas, caridosas e pacientes,
demonstrando um sentimento, que deveria durar o ano todo,
sempre desejava para meus amigos e inimigos, que aquele
espírito de Natal fosse permanente. Mas sempre acabava
descobrindo, tristemente, que apenas eu convivia com o
espírito natalino permanente, durante o ano todo, no meu
coração.
Estava curioso em saber de como seriam aquelas festas, tendo
a Fernanda ao lado, como seria com sua filha, com seus pais,
e com sua famíla, as comidas, as bebidas e toda a
comemoração, a troca de presentes, enfim uma festa familiar,
uma festa que, devido a minha separação, não lembrava mais
como era.
Quando da minha separação, tinha aceitado um acordo com
minha ex mulher, para que as crianças ficassem com a mãe
durante as festas de Natal, devido a troca de presentes com a
família dela e com os primos, tipo de festa que não tinha com a
minha família, em troca, durante as festas de Ano Novo, as
crianças passariam comigo.
Depois que separei, passava o Natal com minha mãe, e
quando ela faleceu ficava comemorando as festas natalinas
sózinho, não por falta de convites, por mais que me
convidassem, Natal é sempre uma festa familiar, e uma pessoa
estranha à família, não deixava ninguém à vontade. Tudo isso
na minha cabeça, mas nem por isso deixava montar um lindo
presépio, de preparar minha ceia, montando sempre uma linda
mesa, como minha mãe fazia, que ficava arrumada até a noite
do dia seguinte, com todas as comidas que mais gostava, além
de todas as frutas de Natal, frutas frescas, muita champanhe e
muito vinho, que ajudava a superar aqueles momentos.
Quando era criança, meus pais sempre fizeram uma linda e
gostosa ceia de Natal, com diversas comidas sobre uma mesa
decorada, com frutas frescas e frutas secas, com diversos
pratos de comidas enfeitados, rabanadas, na sala sempre tinha
árvore de Natal e um Presépio, que eu sempre montava com
papel pedra e serragem sobre um espelho que imitava um
lago, com presentes colocados nas meias penduradas, outros
sob a árvore, numa linda festa, que durava até o dia seguinte.
Quando amanhecia o dia de Natal, meu pai levava o pernil que
tinha temperado na tarde anterior para assar no forno da
padaria, na hora do almoço ia buscar e vinha pela rua
espalhando o delicioso cheiro da carne bem temperada,
arrumava a mesa para o almoço, com raviole de ricota que m
inha mãe fazia, que sempre ajudei a fazer e dois ou três tipos
de saladas, frutas e as bebidas. Essas festas a gente nunca
mais esqueçe.
Quando era casado, sempre montei a árvore de Natal para as
crianças, mas depois que sai da casa, sabia que a mãe das
crianças não montava árvore de Natal, nem preparava o
Presépio, nem trocavam presentes com as filhas, e também
não tinha ceia, todas as comemorações eram feitas na casa
dos avós das crianças. Sem árvore, sem presépio, sem o brilho
característico de uma festa natalina, mas tinha o amigo secreto
para fazer uma troca formal de presentes pessoal e sem
nenhum charme.
A festa do Reveillon, aparentava ser mais tranquila, mas ainda
não sabia como seria em Guimarães, alguns professores
fariam uma festa na universidade, haveria uma despedida no
último dia do ano, mas nada estava combinado. Pensei em
conversar com ela, sobre isso tudo, e saber como seriam seus
planos. Empolgado, continuei registrando os meus sentimentos
de alegria, felicidades e muito amor através de algumas
palavras encontradas:
Benvinda
Dentro de uma diária rotina
A persistência que ninguém imagina
Preenchendo uma enorme solidão
Com vazio no enorme coração
Numa busca incessante
De alguém interessante
De alguém mais inteligente
De alguém mais bonito
De alguém menos aflito
De uma pessoa mais especial
De uma pessoa normal
De alguém para poder amar
De alguém para poder compartilhar
De uma pessoa para ter ao meu redor
De uma companheira que saiba o que é amor
Entro naquela festa tão esperada
Entro naquela festa tão sonhada
Com opções infinitas
Encontro a pessoa mais bonita
Com um perfil que nem acredito
Com um perfil tão sonhado
Com sua imagem ampliada
Com sua imagem colorida
Encontro um meigo olhar
Com um sorriso de encantar
Com um corpo esculpido
Com um ar tão querido
Uma imagem que não resisto
Uma imagem que me deixa aflito
Porque ela demora
Entrou faz uma toda hora
Será que ela vai entender
Será que ela vai corresponder
Com todo o carinho esperado
Com todo o amor desejado
Na festa ela agora chegou
Na festa ela me procurou
Na festa ela me falou
Ela é tão linda pessoalmente
Ela existe realmente
Ela me deixou encantado
Ela me deixou apaixonado!
Ela me deixou com esperanças!
Preciso para ela isso dizer
Mas como fazer para ela entender
Que toda essa revolução
Modificou meu coração
Onde ela veio buscar estadia,
Para fazer permanente moradia,
Para ser um habitante eterno
Fernanda, Seja Benvinda
Estava ficando totalmente apaixonado, com tudo que estava
acontecendo, tinha tanta coisa para falar, para contar, para
vivenciar com ela, que, naquele momento ele só conseguia
escrever, para fazer com que ela, depois de ler e refletir, fosse
assimilando todas as minhas mensagem, com a força das
palavras, de forma que ela não tivesse nada ao seu redor, que
pudesse interferir, na sua forma de percepção e apropriação
daquele conteúdo. E continuei interpretando e registrando as
minhas energias:
Benvinda ao meu canto
Com todo seu encanto
Com todo seu prazer
Com todo meu prazer
Prazer em te conhecer
Prazer em te fazer feliz
Prazer em te fazer sorrir
Obrigado, Fernanda por você existir
Obrigado por me deixar te seduzir
Obrigado por me deixar
Remanejar seu futuro
Em busca de um sonho mais puro
Em busca de seu ideal
Nem sempre tão real
Nem sempre fantasia
Mas com toda sua energia
Com toda sua alegria
De um novo amanhecer
De uma nova esperança
Que acaba de nascer
Cercada de poesia
Cercada de fantasia
Com muita fotografia
Com muita vaidade
Cheia de felicidade
Que me enche de vaidade
De poder estar com você
Estava muito curioso em conhecer sua forma de ver a vida,
suas reações e suas decisões, estava conhecendo o seu
corpo, superficialmente, seu sorriso, sua imagem, sua
sensualidade e sua sexualidade, até agora só conhecia
algumas imagens, que tinha guardado na minha memória,
desde quando ela apareceu na minha vida, ao se mudar para o
prédio, quando comecei a montar a minha primeira escultura,
que não passava de um sonho impossível, afinal ela era uma
mulher casada, e posteriormente com uma filha.
Queria demonstrar, o quanto ela havia me impressionado, e de
certa forma queria retribuir, com gestos, com palavras faladas
ou escritas, com carinhos, com afeição e compreensão,
tentando oferecer um apoio, uma segurança, um
companheirismo, que acreditava que ela ainda não tinha
conhecido.
Com todos os cuidados possíveis para não assustar minha
nova companheira, não gostaria que ela se sentisse
superprotegida e, dessa forma, envolvida num manto que
ninguém poderia descobrir. Por outro lado não queria colocá-la
numa vitrine, para que todos pudessem ver, mas não
pudessem interagir, conversar e conhecer a criatura incrível
que ela era, queria exatamente ao contrário, poder mostrar a
ela o quanto poderia estar cuidando, adorando, seduzindo e
me apaixonando por ela, em comparação com seus antigos
companheiros, para não haver termos de comparação.
Era preciso que ela percebesse o mundo à sua volta, para
poder reconhecer as pessoas que cuidam e zelam por ela,
apaixonado ou não. Escrever era uma das formas que havia
encontrado para traduzir aquele novo momento, aquela nova
relação:
Agora ficou mais fácil
Fechar os olhos ao adormecer
Agradecendo por vc acontecer
Agradecendo por vc existir
Agora estou sempre a sorrir
Mesmo enquanto dormir
O lindo sonho de se ter
Ficou mais fácil amanhecer
Abrir os olhos para o novo dia
Lembrando com alegria
Que agora tenho companhia
Que agora tenho poesia
Que agora tenho inspiração
Que preenche meu coração
Que torna alegre o dia a dia
Que demora mais para amanhecer
Que demora mais para entardecer
Nessa solidão no meio da multidão
Sempre procurando seu rosto
Até então desconhecido
Mas já muito querido
Como será sua imagem
Como será seu sorriso
Como será seu olhar
Mas tenho tanta certeza
Que irei adorar
Tanta coisa fez melhorar
Tanta coisa fez acontecer
Que só posso te agradecer
Por você poder existir
Só por você sorrir, enfim
E ainda gostar de mim
Ser do jeito que pedi para Deus
Com aqueles carinhos seus
Com toda a empolgação do sexo
Que me deixa agora sem nexo
Mas com muita felicidade
Mas com muita vaidade
De poder ter alguém de verdade
Escolhendo as palavras para escrever todos meus
sentimentos, e que apesar de ter sido um único final de
semana, ela já tinha enriquecido o meu cotidiano, que sempre
foi um comportamento de espera, de um amor à distância. Na
verdade, por todos os anos que estive esperando por ela, não
deixava de ficar imaginando, até para sobreviver de forma mais
feliz, um dia estar passando por momentos semelhantes,
escrevendo poesias, algumas já estavam escritas, fiquei
aguardando um momento oportuno para poder entregar, que
ainda não tinha surgido, mesmo depois da sua separação.
Aguardava uma oportunidade ímpar, que na minha intuição, iria
aparecer. E apareceu.
Os dias vão passando
Cada vez é maior a minha alegria
De pode te dizer bom dia
Depois da imensa escuridão
Que inundava meu coração
Nasce agora uma esperança
Deixando-me feliz como criança
E fico montando seus traços
E fico imaginando seus passos
E fico imaginando sua figura
Que adquire imagem tão pura
E fico imaginando seu jeito
Que adquirem mil trejeitos
E fico imaginando seus lábios
E fico imaginando seus beijos
E fico imaginando seus olhos
Que expressam tanta ternura
Assim acabo minha escultura
Da mulher que é uma doçura
De alma tão pura
Com coração tão meigo
Com corpo tão lindo
Que acabo sorrindo
Que acabo dormindo
Quando amanheceu a segunda feira, levantei, tomei meu café
e fui para a universidade, trabalhei a manhã inteira na minha
pesquisa, almocei no restaurante da universidade, mas estava
sozinho, apesar daquela enorme multidão de alunos e
professores conversando, rindo e cantando pelos corredores,
comemorando o final do ano e as festas do Natal.
Voltei para casa no final da tarde, passei pela praça onde
Fernanda tinha o hábito de ir passear com a Carolina, estava
querendo encontrar com elas fora das nossas casas, para
entregar as poesias e convidá-la para um jantar no restaurante
da praça, numa tentativa de estreitar a convivência com a
menina, e desfrutar da companhia da Fernanda. Não sabia se
tinha chegado tarde ou não, mas a praça estava triste e vazia
delas, continuei meu caminho para casa.
Quando cheguei em casa, tive o impulso de bater na sua porta,
mas por qualquer receio, entrei na minha casa, fui tomar um
banho, preparar o lanche e sentar para trabalhar, tentar ler um
livro ou assistir algum filme na TV, com muita vontade de
procurar por ela, mas não queria ser muito invasivo, decidi
procurar por ela mais tarde. Não passaram mais do que alguns
minutos, bateram na minha porta, qual não foi a minha imensa
alegria ao abrir a porta, lá estavam elas duas bem arrumadas,
como se fosse para uma festa, e me convidaram para tomar
um chá da tarde, em qualquer uma das inúmeras pastelaria
que existem em Guimarães, que eu poderia sugerir.
Aceitei o delicioso convite, voltei para imprimir as poesias e
desligar o computador e a TV, e saímos do prédio, no caminho
comentei das poesias e prometi entregar para na pastelaria. Na
praça principal do centro velho da cidade, bem em frente a
igreja, a Prefeitura tinha montado uma árvore de Natal gigante,
um lindo triangulo montado com inúmeras linhas de lâmpadas,
se tornando uma atração pela sua linda iluminação,
escolhemos a pastelaria que ficava mais ao lado, sentamos em
uma das mesas da calçada, escolhemos os pedidos, e ela
começou abrir as folhas e começou a ler, devorando as letras,
as folhas e as poesias.
Estava emudecida e com lágrimas nos olhos, olhando para
meus olhos firmemente, e me disse, com voz baixa e pausada,
nunca tinha sido eternizada, e que jamais alguém conseguiu
fazer com que ela sentisse aquela emoção, aquele bem estar,
nenhum dos seus dois namorados tinha feito algo parecido.
Fiquei feliz, por ela ter gostado, e não ter se assustado com as
inúmeras declaração de amor ao mesmo tempo, tinha receio
de afogar o amor, com tanto amor, disse para ela, que tudo
aquilo era um “material” acumulado durante anos, e que só
faltava o momento propício para entregar para ela. Quando
chegaram os pastéis, o chá, o leite e o café, começamos a
conversar como tinha sido aquele primeiro dia, e a Carolina
perguntava para a mãe quando iam desenhar de novo.
Fernanda comentou que a filha falou dos desenhos o dia todo,
inclusive na sua escola, combinamos em começar a desenhar
no dia seguinte, logo depois que elas voltassem do parque, e
eu da universidade. E no dia seguinte, levei todo o material de
desenho, papel, tintas e muita vontade, e fui trabalhar na casa
da Fernanda, que ficou ao lado da filha, perguntando se ela
também poderia participar, achei muito interessante e
começamos.
Foi uma tarde incrível, as duas gostaram muito, fizeram uma
boa quantidade de desenhos bonitos, em seguida colamos os
trabalhos produzidos nas paredes da sala e no quarto da
Carolina, para que elas pudessem apreciar as “obras de arte”,
sugeri que elas dessem um título a cada um deles. Em seguida
Fernanda levantou e foi para a cozinha, me deixando na sala
com sua filha, ainda estavam cuidando de alguns trabalhos, um
desenho que tinha como tema a praça, a mesma praça que ela
vai todas as tardes, ela desenhou as árvores, os bancos, as
crianças e a sua mãe, perguntei pelo pai dela, ela respondeu
que ele estava sempre trabalhando, não tinha tempo de ir na
praça.
Ficamos desenhando e conversando por algum tempo, até que
a Fernanda nos convidou para sentarmos na sala de jantar, ela
tinha preparado um pequeno lanche, se desculpava pela
qualidade da sua comida, mas tinha feito qualquer coisa com
pressa, pois estava precisando fazer compras do mes no
supermercado, perguntando se eu gostaria de ir com ela, os
olhos da Carolina sorriram e perguntou se poderia ir junto
também, Fernanda olhou sorridente e com ar de felicidade, e
combinamos de ir logo depois do jantar.
Enquanto ela foi trocar de roupa e arrumar a Carolina, fui lavar
a louça, e depois saimos passeando em direção ao
supermercado, na que sua entrada principal, estava repleta de
brinquedos, grande quantidade de roupas e depois algumas
comidas convencionais, além de todo os artigos para as festas
de final de ano. Ficamos muito tempo para comprar tudo o que
ela precisava, acabei vindo buscar o carro para trazer as
compras todas, e voltamos para casa dela, ajudei a organizar
as compras na sua cozinha, imaginei que ela precisasse de
alguma ajuda, perguntei timidamente, no que ela me
respondeu prontamente: “ajuda não, mas gostaria da sua
companhia, você tem condições de ficar aqui? Depois eu te
levo em casa” disse num sorriso malicioso.
E assim, ficamos outra noite na sua casa, sua filha ainda
desenhava pelos cantos da sala, Fernanda lia as poesias, eu
continuava a escrever mais alguns testemunhos, de todo
aquele amor contido, que depois passaria para o computador.
PARA UMA LINDA PRINCESA 1
É muito bom estar com você
É muito bem saber que você está comigo
Adormeci muito feliz e contente
Por tudo que acontece com a gente
Pelo nosso entendimento
Pela nossa afinidade
Por um amor tão bonito
Por todo carinho que demonstra por mim
Por todo carinho que tenho por você
Deixou de ser uma paixão arrebatadora
Para ser uma afeição profunda
O dia amanheceu diferente
Com toda aquela gente
Me sentia sozinho, mas muito feliz
Me sentia sozinho, mas um ser iluminado
Me sentia um homem premiado
Por ter recebido essa preciosa criatura
Com uma linda e deliciosa postura
De ser uma mulher tão madura
De ser uma mulher tão atraente
De ser uma mulher tão contente
Levando amor e alegria
Que veio iluminar a minha vida
Que veio dar sentido a minha existência
Mostrando o amor na sua essência
Mostrando a plenitude de amar
Obrigado por você me amar
Obrigado por me deixar te amar
PARA UMA LINDA PRINCESA 2
Estava extremamente ansioso
Estava profundamente angustiado
Amanheceu e não tinha te encontrado
Ainda não tinha com você conversado
Mas eu estava inacreditavelmente feliz
Eu estava inacreditavelmente a sorrir
Como há muito não sorria
Como há muito não acontecia
Até acho que merecia
Mas Deus exagerou na qualidade
Me proporcionou essa realidade
De uma mulher tão bonita
De uma mulher tão interessante
De uma mulher tão fascinante
Que até perguntei para Deus
Se todos esses beijos são meus ?
Se todos esses carinhos são para mim ?
E Ele disse que sim
Não sei como agradecer
Não sei o que fazer
Pois sem ela não sei mais viver
Aprendi a esperar por você
Aprendi a sonhar com você
Aprendi a amar você
Aprendi a aprender
Tudo sobre o amor
Que só você sabe fazer
Com toda sua inexperiência
Com toda sua paciência
Com toda sua paixão
A inundar meu coração
PARA UMA LINDA PRINCESA 3
O momento está chegando
Parece que estou sonhando
O sonho está se realizando
Com seu perfume de mulher bonita
Com seus gestos de mulher ainda aflita
Para os segredos do amor conhecer
Já estou imaginando
Suas roupas ir tirando
Seu lindo corpo desnudando
Ao mesmo tempo que vou beijando
Aquele corpo tão sonhado
Aquela mulher tão fantasiada
Aquela mulher tão desejada
Agora nas minhas mãos
Inteira na minha frente
Toda nua, que nem acredito
Que os beijos intensifico
Os carinhos se aceleram
Os corpos se misturam
Tornando uma só figura
Numa imagem tão pura
Não existem palavras
Para descrever os contornos
Que adquirem os lindos corpos
Num delicioso movimento
Agora é o momento
De tornar você mulher
Lentamente me ajeito
Naquele delicioso leito
Aguardo sua posição
Ajeitando a penetração
Com olhar curioso
Sorriso malicioso
Respiração ofegante
Movimento elegante
Formando agora um único corpo
Admirava aquela imagem
Não era menina nem era mulher
Acontecendo naquele momento
Seu primeiro prazer tão desejado
PARA UMA LINDA PRINCESA 4
Não conseguia imaginar
Aquela delicia realizar
Aumentando meu prazer
Não deixando ela se conter
Conhecendo todo aquele prazer
Sua fisionomia se transformou
Da tensão de quando começou
Do tesão que acumulou
Estavam agora realizados
Todos seus sonhos molhados
Me dando enorme alegria
Do jeito que sorria
Com juvenil maestria
E pelo jeito que me olhava
E por tudo que me apertava
E queria fazer outra vez
Me pedia com certa altivez
De mulher muito experiente
Me olhava exultante
Me olhava mais confiante
Buscando nova posição
Me dando nova opção
De conhecer seu corpo
De oferecer novos prazeres
De conhecer novos prazeres
Posturas desconhecidas
Nunca antes vividas
Com essa intensidade
Com essa umidade
Com todo esse movimento
Que funde meu pensamento
Ao completar essa mulher
Com minha masculinidade
Aumentando a minha vaidade
De poder proporcionar
De fazer você se transformar
Conhecendo todo esse prazer
Alterando sua respiração
Acelerando sua pulsação
Aumentando a sudação
Vibrando de paixão
Roubando, enfim, seu coração
PARA UMA LINDA PRINCESA 5
Nunca poderia imaginar
Aonde poderíamos chegar
Só pelo fato de encontrar você
Poder viver o cotidiano com você
Fazer poesia para você
Me deixa muito contente
Com alegria contagiante
Transformando essa mulher
Do jeito que um homem quer
Da forma que um homem adora
Suavemente como agora
Docemente aflora
Profundamente
A magia do amor
A delícia do pudor
De tudo poder fazer
Para ter todo prazer
Que você nunca irá esquecer
Esses momentos tão íntimos
Esses momentos infinitos
Esses momentos tão lindos
De entrega total
De energia vital
De prazer completo
De sexo predileto
Para toda sua vida
PARA UMA LINDA PRINCESA 6
O doce toque das suas mãos
A magia do seu olhar
O sorriso mais lindo do mundo
De paixão me inundo
De amor me encanto
Deixam meus olhos em prantos
De prazer que nunca conheci antes
Mesmo em momentos distantes
Agora chegou o momento
De querer você namorar
De querer você encantar
De se entregar aos beijos
De se entregar às carícias
Com determinada malícia
Deixar molhada de prazer
Exalando delicioso perfume
Exaltando sua sexualidade
Até agora tão contida
Até agora tão reprimida
Liberando suavemente
Essa emoção diferente
Essa emoção contagiante
De prazer fazer você delirar
De prazer fazer você se deliciar
De não mais querer parar
Do prazer que você vai me dar
Nunca antes assim havido
Nunca antes assim conhecido
Nunca assim intensamente vivido
Já era tarde da noite, Carolina havia dormido no sofá,
obrigando Fernanda a levar sua filha para a cama, em seguida
veio sentar ao meu lado para falar das poesias recebidas, e
das outras tantas já preparadas, ela não sabia como
demonstrar tamanha alegria, tamanha felicidade. Não sabia o
que fazer e muito menos por onde começar se abraçava, se
beijava, se chorava, estava parecendo uma criança que tinha
acabado de receber um brinquedo que desejava há muito
tempo.
Sugeri continuar a nossa conversa no dia seguinte, após a aula
de desenhos da sua filha, me despedi e fui para minha casa,
agora mais triste e vazia da Fernanda, mas cheia de energia
que a nova vida estava fornecendo. Tomei um chá e fui dormir,
pensando em todas as palavras que havia escrito para ela,
fiquei tentando refazer todos os movimentos para descobrir se
não tinha esquecido nada.
Pela manhã, depois da primeira refeição fui para a
universidade e antes de voltar para casa dei uma linda nas
poesias para poder imprimir, depois do almoço, fui fazer alguns
testes da minha pesquisa, quando concluídos, sai para passar
no supermercado comprar algumas coisas e voltei para casa,
me preparei para uma linda cerimônia.
Depois do banho, uma água de colônia que usava para os
encontros femininos, quando eu os tinha, que era raro, e
devido a isso, o vidro ainda estava cheio, em Portugal aquele
era o primeiro dos encontros, fui em direção à porta do
apartamento da Fernanda, bati na porta da Fernanda, que se
abre e um lindo par de olhos azuis, emoldurando um delicioso
sorriso, que sempre me surpreendia, surge na minha frente e
me convida para entrar, sentar e tomar um café, antes de
começar o nosso trabalho de desenhos, atividade que ela
adorava participar.
Carolina veio devagarzinho, me cumprimentou e sentou no
canto da sala, pegando os pincéis, as canetas, as tintas e as
folhas de papeis, e começou a desenhar, sentei ao seu lado e
depois veio a Fernanda, oferecendo um café, enquanto tomava
o café, a Fernanda usava o tempo para ficar saboreando as
demais poesias, e não conseguia segurar as lágrimas nos
olhos, sem chorar, mas estava visivelmente emocionada,
sentou ao lado da filha e também começou a desenhar.
Comecei a desenhar o registro daquela cena, as três pessoas
envolvidas com cores, formas, desenhos, carinhos, muita
emoção e sem nenhuma palavra, apenas uma música suave
de fundo. Mais tarde, Fernanda pede licença dizendo que vai
preparar o jantar da Carolina, aproveitei para sugerir um jantar
no restaurante Atlântico, perto do Supermercado Continente,
naquela noite teria, entre outros pratos, um bacalhau com purê
de batata, que eu simplesmente adorava, ou poderia escolher
vitela assada com fritas e tripas à moda da casa. Ela olhou
para Carolina, como que pedisse a sua aprovação, e
resolveram, depois de acabarem os trabalhos, colocaram uma
roupa mais agasalhada e fomos jantar no restaurante, no
caminho, comentei sobre os seus planos para as festas de
Natal e Ano Novo, ela respondeu que aquele seria o primeiro
Natal, depois da sua separação, e precisaria conversar com o
seu ex marido, mas teria quase a certeza que ficaria com a
filha, na casa dos seus pais, e com relação ao Ano Novo ainda
não saberia dizer.
Fernanda tinha quase certeza que a Carolina ficaria com pai,
que deveriam passar o Ano Novo, juntos na casa do pai, com
seus avos paternos. Entramos no restaurante e pedimos
bacalhau para os três, vinho para nós dois e refrigerante para a
menina, enquanto preparavam os pratos, ela me fez a mesma
pergunta: “Aonde você vai passar as festas?”
Respondi que planejava passar o Natal em Paris, lembrando os
velhos tempos em que morava lá, mas agora com surgimento
daquelas duas mulheres, estava sem saber o que fazer. Ela
abriu seus olhos e me pergunta: “Mas você vai sozinho? Vai
encontrar alguém?”
Com um sorriso contido, respondi: “Até sexta feira passada
pensava em ir sozinho, pois não conhecia ninguém
interessante para apresentar Paris, e também não tinha
ninguém para encontrar em Paris, mas depois daquele sábado,
comecei a pensar que poderia levar vocês duas, mas festas de
Natal, a família é sempre mais importante”.
Ela concordou e me prometeu se organizar, conversar com
Roberto e depois me diria o que eles tinham resolvido, durante
o jantar ela ficou insistindo para que eu participasse das festas
com elas duas, independente de onde elas passariam. No ano
anterior, elas tinham passado o Natal na casa delas, e os pais
dela vieram para a ceia e a troca de presentes, os pais do
Roberto passaram para cumprimentar e trazer o presente para
a neta. Era uma solução que ela achava bem interessante,
dessa forma, eu seria o novo convidado daquelas duas lindas
mulheres.
17 – UM NATAL EM FAMÍLIA
Na verdade, ela fazia questão de me apresentar aos pais dela,
pois já havia comentado com eles pelo telefone, e aquele seria
um ótimo momento, se eu concordasse, é claro. Expliquei que
seria o meu primeiro Natal em família, depois de 14 anos, mas
que ficaria muito feliz, não só em participar, mas também em
ajudar a fazer alguma coisa, preparar comidas e doces, fazer
compras e enfeitar a sala para receber o Papai Noel.
Com essa palavra mágica, a Carolina arregalou os olhos e
disse que já tinha feito o seu pedido e estava muito ansiosa
para ganhar o seu presente. Fernanda ficava olhando para mim
com muita curiosidade, perguntando se, além de tudo eu
também cozinhava, e dizia que, realmente eu não existia.
Em princípio concordamos com a ideia, mas faltavam todos os
detalhes, que seriam discutidos num outro dia. Em meio a
nossa conversa, o garçom trouxe nosso pedido, o bacalhau
com o azeite, com um aroma bem característico, com a
maionese muito menos ácida, era o que mais chamava
atenção, depois o sabor e a delicadeza do purê. Não era
possível continuar a nossa conversa, a fome invadiu a mesa, o
vinho estava servido, e depois, para sobremesa, pedimos
pastel de amêndoas, depois o licor. Era a refeição que eu fazia
nos finais de semana.
Levantamos e fomos embora em direção ao prédio, depois
cada um para sua casa, depois de trocar algumas palavras em
frente a nossa porta, me despedi e entrei no meu apartamento.
Ainda não tinha passado meia hora e dois belos olhos azuis e
sorridentes estavam na minha porta, ela tinha vindo para me
dizer boa noite. Após colocar Carolina na cama e ela veio
conversar melhor sobre as festas, entrar em detalhes sobre as
comidas e continuar a me conhecer melhor, ela dizia que eu
tinha uma surpresa a cada dia. Afinal ela iria me apresentar
aos seus pais.
Decidimos assumir o namoro, e dessa forma, eu poderia ser
apresentado aos seus pais, sem maiores problemas, quanto à
festa, ela conversaria com sua mãe e depois avisaria. Depois
de tudo encaminhado, ela resolveu ler as poesias para que eu
fosse detalhando algumas passagens, aproveitou e começava
a contar sobre sua vida, sobre seus sonhos, suas fantasias,
suas frustrações e realizações, dizia tudo isso segurando as
minhas mãos entre as suas, olhando nos meus olhos.
Assim ficamos até tarde da noite, estávamos já cansados e
com muito sono, acompanhei-a até a sua porta, quando ela me
abraçou apertado por algum tempo, com lágrimas nos olhos,
mas sem chorar, me agradecia por tudo, e fomos dormir. No
dia seguinte, assim que cheguei da universidade, Fernanda
estava me esperando na porta do prédio, dizendo que sua filha
tinha uma festa de aniversário na escola e, depois da festa, iria
dormir na casa da amiga aniversariante, dessa forma ela
estava liberada para fazerem qualquer coisa, discutir a festa,
as comidas, fazer compras e fazer um jantar, depois namorar
um pouco e depois tomar uma ducha, palavras dela. Parece
que ela havia gostado no nosso romance molhado.
NOVO AMANHECER
Parecia um dia comum
Mas igual não houve nenhum
Começou com um amanhecer diferente
Eu não estava triste nem contente
Apenas receptivo das energias recebidas
Que sempre transformaram minha vida
Otimizando minhas alegrias
Otimizando a felicidade dos meus dias
Agora eu sabia que ela existia de verdade
Aquela pessoa tão sonhada
Que eu tinha esculpido na minha mente
Estava agora na minha frente
Estava agora falando comigo
Estava agora me mostrando
Tudo aquilo que um dia sonhei...
Tudo aquilo que sempre esperei
Me deixando feliz a sonhar
Por todo o tempo que esperei
Por todas as horas que sonhei
Por todos os minutos que passei
Estava com você no pensamento
Uma luz apareceu na minha sala
Iluminando minha vida
Iluminando meu coração
Demonstrando o que é o amor
Foi muito difícil esperar
Foi muito gostoso sonhar
Imaginar toda aquela fantasia
Imaginar todo aquele sonho
Imaginar todo aquele encanto
Assegurar que tinha encontrado
Uma criatura maravilhosa
Uma criatura bonita
Uma criatura tão meiga
Uma criatura inteligente
Uma criatura tão gente
Que me deixa contente
Só por saber que ela existe
Sou muito agradecido
Por me fazer de novo feliz
Por me fazer de novo sorrir
Obrigado FERNANDA, por você existir
Subimos e fomos para a sua casa preparar e planejar a festa
de Natal. Conversamos sobre as comidas, as bebidas, os
ornamentos da sala, incluindo o presépio, a montagem da
árvore, e a forma de como seriam feitas as compras. Muito
ocupado com a listagem, a preparação e a organização da lista
de compras, não tinha notado sua ausência da sala, mas logo
em seguida ela surge na sala vestindo sua compra de Natal,
uma lingerie, lindíssima, azul clara, muito curta, combinando
com a cor dos seus olhos, e veio me abraçar pelas costas,
cobrindo-me de beijos, dizendo baixinho aos meus ouvidos,
que estava desfilando a roupa que usaria para a noite de Natal,
não para a festa de Natal, e queria saber se eu aprovaria.
Vestida daquele jeito, não consegui nem pensar, era a primeira
vez que olhava aquela verdadeira obra de arte, lindas rendas
moldando um lindo corpo, totalmente embevecido pela sua
beleza, charme e sensualidade, comecei a dizer que não
aprovaria, pois para mim, a roupa predileta que já havia
escolhido para ela, eram dois lindos brincos que ela ganharia,
mas não me incomodaria se ela se apresentasse daquele jeito,
pois iria ter o prazer de poder desnudar seu corpo aos beijos.
Ainda não tinha perguntado se ela podia fazer uma
demonstração, em alguns minutos, depois de milhões de beijos
ela estava nua, em pé, na frente da cadeira que estava sentado
e começava a ajudar a tirar a minha roupa, ambos desvestidos,
fomos para a sala de banho, entrar naquela penumbra que
ducha deliciosa tinha criado, estava ligada e com os sais de
banho. Era praticamente um replay do nosso primeiro encontro.
Só não existiam todos os medos, os excessivos cuidados e
inseguranças individuais. Agora era o nosso jeito de amar que
estava se consolidando.
JEITO DE AMAR
Estava no meio da multidão
Olhando as pessoas passarem
Num momento de magia você surgia
Sempre sorridente e sempre alegre você me abraçava
Com muita energia “beijava” você de corpo inteiro,
Trazia para meu apartamento
Com todas as comidas e sobremesas prontas,
Era uma energia tão forte
Ao trocarmos todos aqueles beijos
Entrava com você no quarto
Linda, livre, leve e solta,
Deitado esperava você
Que chegava devagarzinho,
Sentando, ajoelhando, deitando
Todos os beijos trocados
Tantos os beijos trocados
Estávamos quase em transe,
Naquele momento preciso
Que nem sei como começava
Que nem sei como acabava,
Sei que a gente adorava
Você se deliciava só com os toques,
Com os carinhos e com os beijos,
Ainda mais, depois do prazer primeiro,
Voltávamos em meio aos beijos
Almoçar e tomar sucos
Depois tinha a sobremesa,
Que começava na sua boca
Terminava na cama,
Numa forma inusitada de beijar,
Acariciar, dar e receber prazer,
Ainda sinto seu corpo aqui,
Sua vibração, o seu cheiro,
Sabendo me fazer ser feliz
Sabendo me fazer saber amar,
E a forma bonita de se entregar,
É uma linda e tranquila forma de amar
Depois de horas na ducha, com todas as massagens, todos os
carinhos, fazendo aquela dança fantástica, maravilhosa, depois
de muito prazer, tomamos um banho e fomos para o quarto de
dormir, deitados, tudo estava recomeçando, agora de uma
forma menos molhada, agora de uma forma mais livre, pois se
tinha mais espaço, nesse momento começa um verdadeiro
banho de beijos, preparando para uma nova dança, uma nova
escultura, que termina bem depois, sob as cobertas, sem falar
uma única palavra, com uma única testemunha, sua lingerie,
que a tudo assistia do chão da sala.
Quando acordamos, pela manhã, levantei e preparei um café
da manhã, cortei um melão que ela gostava, aqueci o pastel, fiz
um café e um suco de laranja, fui procurar uma bandeja,
desenhei uma flor nos papéis de desenho da Carolina, recortei
e coloquei numa taça, e, aos beijos, fui percorrendo seu corpo
para que ela pudesse acordar arrepiada e excitada.
A imagem dos seus olhos azuis brilhando ao ver a bandeja,
com a flor de papel na taça e o café servido, foi indescritível,
maravilhosa. Não sei se encontraria palavras que pudessem
retratar aquela felicidade, aquela sua alegria, que me deixava
muito feliz, enfim tinha encontrado alguém que tinha o mesmo
repertório sensual. Ela acorda e se espreguiça deliciosamente,
se ajeita na cama para poder sentar, colocar o travesseiro
sobre suas pernas cruzadas para apoiar a bandeja.
Dessa forma amanhecemos, de uma forma diferente, ficamos
conversando sobre as comidas e a festa, até ela poder concluir
seu pequeno almoço, quando levantei para ir buscar a lista de
compras, para resolver alguns detalhes, e antes de sair da
cama, ao lado da bandeja, ela procura me abraçar, beijar,
fazendo carinhos com seus olhos fechados e tudo estava
recomeçando, estávamos dançando de novo aqueles passos
deliciosos.
Ainda com tempo, fui para a universidade tentar trabalhar, mas
meu pensamento estava no azul dos olhos dela, que o céu não
me deixava esquecer, depois do almoço no restaurante
universitário, voltei para levar Fernanda no supermercado
Continente, e começar a fazer as compras de Natal, lugar que
eu adorava ir, devido a sua enorme quantidade de produtos,
sempre cheio de gente, conhecia todos os cantos e todas as
ofertas. Dias depois conheci o supermercado Froiz, tinha tudo
o que Continente oferecia, era mais bonito, tinha menor preço e
muito menos gente. Terminada as compras, carregamos no
meu carro, e voltamos para sua casa, estava tocando seu
telefone, ela foi atender apressadamente, era sua mãe, depois
de algumas palavras, fazia sinal de positivo para mim, desligou
o telefone dizendo que estava tudo, praticamente acertado,
para a realização da festa de Natal no apartamento dela.
Saímos de novo para outras compras, agora no mercado
municipal, que lembrava um pouco o novo mercado municipal
de São Paulo, durante as compras, Fernanda comentava sua
conversa com a mãe, que tinha ficado muito curiosa em me
conhecer, seu pai já estava sabendo, mas queria saber alguns
detalhes, e que seria a surpresa no dia da festa, além dos
presentes.
Adorei fazer as compras com ela, sempre tinha uma segunda
ou terceira opção, adorava discutir os preços, procurando, sem
muita convicção, os preços mais econômicos, assim passamos
a tarde, comprando, beijando, decidindo, beijando montando o
cardápio, beijando e decidindo sobre os presentes e as
bebidas. Foi, o que se podia dizer uma tarde feliz.
Ainda não conhecia o mercado municipal, sabia que existia,
passava sempre em frente nos finais de semana e feriados,
quando as pessoas vão fazer suas compras, e não deixam
faltar os pacotes com flores, sem exceção, todos compravam
flores, dos mais diversos tipo e cores, mas nunca tive a
curiosidade de fazer compras. Depois descobri que Fernanda
também fazia isso, na sua sala sempre tinha um vaso com
flores, que ela trocava a cada 2 ou 3 dias.
No almoço do Natal, na casa da Fernanda, a casa era
ornamentada com flores, nos diversos vasos espalhados pela
sala e cozinha, embelezando e perfumando a casa,
combinando com perfuma que existe na cidade, e na
universidade, que existe um enorme jardim, quase uma
floresta, com diversos tipos de árvores, que tem suas flores de
cores diferentes, e suas folhagens de cor muito variada,
tornando a paisagem bonita e muito perfumada.
Voltamos para casa da Fernanda para guardar as compras,
mas não havia tempo para organizar tudo, Fernanda precisava
ir buscar sua filha Carolina, me despedi e fui para minha casa,
tentar trabalhar um pouco e colocar os meus papeis em ordem,
tinha sido o dia da faxineira. Faltavam dois dias para o Natal e
era preciso preparar os pratos mais elaborados, passei os dois
dias na casa da Fernanda, mas não dormia lá, mas ficava
ajudando na cozinha, desenhando com sua filha, saindo para
comprar alguma coisa que faltava, namorando, num
comportamento que não fazia há muito tempo, mas que acabei
me acostumando rapidamente, pois era muito gostoso estar
fazendo tudo aquilo.
No dia 24, com os preparativos quase prontos, fizemos um
pequeno almoço rápido para nós três, fui colocar os presentes
sob a árvore que tinha montado, ao lado do pequeno presépio,
que não tinha os mesmos bichos, nem a mesma ponte e o
mesmo espelho que representava o lago, mas tinha uma
pequena cabana semelhante àquela que durante minha
infância tinha na minha casa no Brasil.
Também não tinha encontrado o papel-pedra, mas ficou bonito.
Quando ficou tudo pronto, peguei alguns pedaços de pão, uma
peça de queijo gorgonzola e abri uma garrafa de vinho, e fiquei
sentado, em silêncio, me deliciando com aquela nova imagem
e os novos sabores da minha vida, logo depois chegou
Carolina procurando seu presente e a Fernanda veio em
seguida, ficamos os três naquele ambiente iluminado, alegre e
feliz, Carolina começou a desenhar o Papai Noel, mas estava
muito curiosa e ansiosa para abrir os presentes, Fernanda
ajudando na organização da colocação dos presentes, e eu
fotografando e registrando a cena maravilhosa.
Em seguida fui para minha casa tomar um banho, me
arrumando para a festa e voltar para a casa da Fernanda,
estava conversando com ela sobre a mesa de jantar quando
tocou a campainha, ela foi atender e, pelas conversas percebi
que seus pais tinham chegado, ela veio me buscar me pegou
pela mão e me apresentou como seu namorado, depois das
apresentações as perguntas mais comuns, era sobre o meu
trabalho, minha vida no Brasil, depois sua mãe foi para a
cozinha com a Fernanda, ficamos na sala eu, seu pai e a
Carolina. Fiquei sabendo um pouco mais da vida da Fernanda
e dos seus pais, que eram pessoas simples, trabalhadoras e
muito amorosas para com a família.
Seu pai estava aposentado, tinha sido um contador famoso em
Guimarães, e sua mãe era uma esposa dedicada. A Fernanda
e sua mãe acabaram de montar a mesa de Natal, eu e seu pai
formos ajudar com as bebidas, por volta das 23 horas, quando
as igrejas anunciam a chegada do Natal, tocando os sinos
chamando para a missa do galo, seu pai abriu uma garrafa de
champanhe e começamos a brindar pelo Natal até chegar meia
noite, quando a família se abraça, dança e chora de felicidade,
os três com a Carolina no colo.
Fiquei assistindo a tudo, muito admirado, nunca tinha vista
tanta felicidade junta, me sentia um pouco deslocado, era a
minha imagem de uma festa familiar, mas em seguida eles
vieram mais perto e me incluíram naquele abraço familiar. Logo
depois seus pais se afastaram com a Carolina, foram para a
árvore de Natal e começaram a distribuir os presentes.
A Fernanda ainda ficou algum tempo abraçada comigo, dizia
baixinho que aquele Natal seria inesquecível, e me deu um
presente de Natal, quando abri era uma linda caneta tinteiro,
dizia que era para continuar a escrever poesias para ela.
Perguntei por que só eu teria direito a ganhar duas vezes, já
tinha recebido o meu presente, por que o Papai Noel teria sido
tão generoso comigo. Ela perguntou muito curiosa: “Qual seria
o outro presente? Pode me mostrar?”. Segurando na sua mão,
expliquei que ela já conhecia, e muito bem, e que tinha sido o
melhor presente que eu já tinha recebido na minha vida, e
estava comigo fazia alguns dias, e tinha desembrulhado e
havia gostado muito.
Era exatamente o presente que todo ano eu pedia ao Papai
Noel: “Uma linda e deliciosa namorada, amiga, amada, amante,
companheira, cúmplice, parceira e ainda tinha de brinde muita
sensualidade”. Retribui o presente para ela, um delicioso
perfume francês e para a Carolina um enorme jogo de canetas
para desenho, tinha escolhido um perfume para sua mãe e
uma colônia para seu pai.
Eram presentes meio impessoais, característicos de quem não
conhece bem as pessoas. Depois da gostosa festa de abertura
de presentes e alegria de receber os abraços, fui juntamente
com Fernanda buscar os pratos preparados e iniciamos a ceia
e ficamos em festa quase que a noite toda, tipo de festa que
tinha quando criança, mas já estava quase amanhecendo, a
Carolina tinha adormecido no sofá.
Quando seus pais se despediram, e foram embora, ficamos eu
e ela na sala, admirando todos os presentes ganhos, os papéis
ainda jogados no chão da sala, a mesa posta, as luzes da
árvore de Natal piscando, ela levantou-se e foi colocar o
boneco do menino Jesus no berço, se voltou para mim, e de
novo me agradeceu por aquela festa tão linda. Respondi que
sua família era linda, ela com lágrimas nos olhos dizia que
nunca teve uma festa assim, seu ex marido era muito difícil, e
não se dava bem com seus pais.
Por outro lado, comentava que os pais dela gostaram de mim,
que havia causado uma boa impressão. Retribui dizendo que
também tinha gostado deles, e que estava tudo se encaixando.
Fernanda queria dormir comigo, mas estava em dúvida quanto
a sua filha, afinal ela tinha ido dormir muito tarde e deveria
acordar mais tarde, mas não tinha muito sentido a menina
acordar sem ninguém na sua casa ou comigo na cama da sua
mãe, e devido a isso, decidimos dormir cada um na sua casa.
Com muita tristeza nos despedimos, e fui dormir na minha
cama, vazia dela. Pela manhã, preparei o mesmo café da
manhã da noite primeira, só que desta vez era para duas
pessoas, e fui levar a bandeja do café na sua cama, entrei
silenciosamente no seu apartamento, fui direto para seu quarto,
aos beijos fui acordar aquele delicioso presente de Natal, que
acordou sorrindo e depois de me abraçar e beijar muito,
ficamos conversando sobre a festa e tomando nosso café.
Eram mais ou menos 10 horas da manhã, quando o telefone
toca tirando o silêncio da sala, era seu ex marido querendo
saber quando ele poderia vir pegar a Carolina para almoçar
com ele e seus pais, ouvi quando conversaram alguns detalhes
e marcaram para que ele viesse por volta do meio dia, pois a
menina ainda dormia.
Voltei para minha casa, enquanto Fernanda foi acordar sua
filha, dar um banho e preparar sua filha para sua saída, mas
antes ela tomou um pequeno café da manhã enquanto
Fernanda foi se trocar para esperar o seu ex marido, que foi
mais ou menos pontual. Lembrando os velhos tempos, ainda
ouvia o interfone da sua sala. Fernanda desceu para levar a
menina, subindo logo em seguida, e veio ao meu encontro
perguntando o que eu queria fazer, almoçar na casa dela ou ir
para a casa dos seus pais, que tinham telefonado convidando.
Deixei ao seu critério, pois estando com ela, tanto fazia,
apenas não teriam muita liberdade, mas afirmei que seria bom
conhecer melhor os pais dela, e dessa forma, fomos para a
casa deles. Agora estava conhecendo uma casa portuguesa,
além da casa da Fernanda, e confessou que nunca tinha
comido tão bem, foram quatro tipos de pratos, duas
sobremesas, duas saladas, e flores, muitas flores, pela casa
que não era muito grande, e na sala havia uma pequena árvore
de Natal, lembrança de quando Fernanda era criança.
O pai da Fernanda, depois de se aposentar, montou uma
pastelaria, fazia de tudo, era proprietário, cozinheiro e garçom,
tinha um ajudante na cozinha e uma balconista, e sua mãe era
do lar, eram pessoas simples, falavam um português muito
carregado, quase não se entendia, mas conseguimos manter
uma boa conversa, eles estavam muito preocupados com o
fato de que eu era mais velho, ter filhos, e estar agora em
Portugal a trabalho, mas na verdade eles estavam muito
preocupados com a minha volta ao Brasil, trazendo a filha e a
neta, deixando muito longe deles.
Comentando a tranquilidade que tinha sido a festa de Natal,
eles estavam preocupados com a minha postura, pois com o
antigo marido da Fernanda as festas eram motivos de
nervosismo, por alguma razão, sempre surgia alguma
discussão, e agora tinha sido uma coisa mais natural e
gostosa, com assuntos que se conversa nas festas de família.
Perguntaram sobre meu trabalho na universidade e quais as
minhas expectativas para o futuro. Demonstrei a eles que não
sairia de Portugal, nem da Europa, talvez eu pudesse mudar
para Itália, pois estava montando um convênio com uma
universidade de Torino, mas eram planos para serem
cumpridos num médio prazo, faria algumas viagens ao Brasil,
onde moravam minhas filhas, e algumas pessoas da minha
família.
Eles me perguntavam sobre o meu casamento, queriam saber
os motivos da separação e se eu gostava da minha ex-mulher.
Com alguma impaciência, resumi os fatos em algumas
palavras, procurando demonstrar toda a minha felicidade com a
descoberta da Fernanda, que sempre tinha procurado uma
pessoa como ela, pois era completamente diferente da minha
antiga esposa, se é que se pode dizer assim, e tentando
transmitir a eles todo a minha alegria de ter encontrado uma
pessoa como a Fernanda, para que eles se sentirem mais
tranquilos pelo fato de eu ser um homem divorciado.
Fernanda chegou e ficou assistindo a tudo, em determinado
momento ela veio sentar ao meu lado começou a participar da
conversa, contando alguns detalhes do casamento dela e que
tinha encontrado alguns problemas que eram os mesmos que
os meus, e dessa forma a gente se identificava na escolha
errada que ambos fizemos.
Seu pai, como todo bom português, não se conformava, pois
no seu tempo não era assim. Expliquei que no tempo do meu
pai também não era, mas que no tempo da Carolina, as coisas
seriam mais diferentes ainda, talvez nem existisse mais
casamentos, isso seria uma nova forma de vida e que a gente
teria que se acostumar.
Ficamos assim até a Carolina chegar com o pai, fato que
aconteceu por volta das 20 horas, quando fizemos um lanche
com a Carolina e seus avôs, depois viemos embora para casa
da Fernanda, a menina veio cheia de presentes e trazia um
pequeno presente para a Fernanda, que era por parte do seu
ex marido. Ao chegarem ao prédio, ela foi para a sua casa e eu
para a minha. Ainda na porta ela me dizia que vinha me dizer
boa noite. E veio, como sempre, me dizer uma boa noite de
forma deliciosa, comportamento que já estava me
acostumando.
18 – APRESENTANDO PARIS
Um dia após o Natal, Fernanda comentou que tinha combinado
que a Carolina passaria o Reveillon com o pai, e os pais dele, e
que estaríamos liberados para fazermos qualquer programa.
Depois de vir morar na Europa, antes de encontrar Fernanda e
de acontecer tudo aquilo, havia planejado passar o Ano Novo
em Paris, estava com saudades daquela cidade, fazia alguns
anos que não visitava a cidade que tanto gosto, e agora tinha
mais uma razão para voltar e apresentar Paris para ela.
Seria a minha primeira viagem com ela, não sabia muito bem
como conduzir o convite, resolvi sugerir uma viagem, ela achou
que seria gostoso a gente ficar sozinhos num lugar diferente:
“mas para onde?” Ela perguntou. Expliquei que tinha planejado
uma viagem até Paris, além de ser uma cidade que ela ainda
não conhecia, queria voltar e além de matar as minhas
saudades de passear pelo Rio Sena, ver as barraquinhas dos
livros, os artistas, os Cafés dos grandes Boulevards, poder
admirar a Catedal de Notre Dame, o Arco do Triunfo, a Torre
Eiffel, o Museu do Louvre e rever Quartier Latin, e a rua que
tinha morado anos antes, mas na verdade estava querendo
apresentar Paris a ela.
Ela levou um choque, nunca tinha pensado em conhecer a
França, argumentou que não falava francês, mas aceitou a
idéia de conhecer a capital francesa. Fomos até o centro velho
de Guimarães procurar a agência de viagens, encontramos
uma promoção que preenchia nossa ou a minha, expectativa,
uma excursão de avião que saia da cidade do Porto no dia 28,
ficaria até o dia 4 de janeiro em Paris e voltava para a cidade
do Porto, por 405,00 €, por pessoa.
Decidimos comprar. A distância de Guimarães até a cidade do
Porto é pequena, pode ser percorrida com um trem lindo e
muito gostoso, que sempre utilizava para passar o final de
semana naquela cidade, e da estação do trem tem uma ligação
de metrô para chegar ao Aeroporto é superficial,
proporcionando uma linda viagem pelas ruas da cidade.
O metrô da cidade do Porto foi construído sobre as ruas, que
na verdade lembra os antigos bondes de São Paulo, mas com
uma beleza indiscutível, suas estações são verdadeiras obras
esculturais, com linda arquitetura, que transforma a viagem
num espetáculo de turismo e prazer aos olhos. Além da
qualidade dos trens, tem uma novidade, na mesma estação,
passam os trens com quatro direções diferentes, e você
escolhe a direção que deseja, um dos destinos é o Aeroporto,
que por sinal é muito bonito e moderníssimo.
Embarcamos ás 16 horas dia 28 de dezembro, e chegamos
três horas depois no aeroporto Charles de Gaulle, assim que
desembaraçamos as bagagens, procurei o metro que nos
levaria até o centro da cidade, próximo ao hotel reservado pelo
“pacote” comprado na agência de viagens de Guimarães, que
ficava no bairro Ópera, próximo à Place de La Republique.
Havia outras pessoas no mesmo voo que estariam no mesmo
hotel, assim que nos acomodamos saímos para a rua, minha
ansiedade era muito grande em ver Paris novamente, agora ao
lado da Fernanda.
Bem próximo, ao lado do hotel, está localizado o Jardim de
Luxemburgo, um imenso espaço urbanizado e florido, que
segundo as histórias, era o jardim do Castelo onde morava o
rei Luis XV, Palais Royal, muito bem cuidado, com lindas flores,
folhagens e árvores, mas predomina uma vegetação mais
baixa, que deve ser aparada semanalmente para manter as
formas do seu maravilhoso desenho, um espaço para se ficar
observando durante horas, era sempre muito visitado pelos
turistas.
O Jardim de Luxemburgo fica ao lado da Rue de Rivoli, que
ficam as lojas mais luxuosas, a Place Vendôme, o Hotel
Regina, e passamos pelo Jardin des Tuileries, onde fica o
Museu do Louvre, queria rever a Pirâmide de Cristal, que
passou a ser a entrada principal do Museu, entramos no
Louvre e passamos a tarde pelo sempre maravilhoso espaço
cultural, quando anoiteceu, saímos e fomos ver os Arcos do
Jardim des Tuileries, que ficavam numa mesma reta, de um
lado a Catedral de Notre Dame, os Arcos de Constantin, a
Place de la Concorde e do outro lado o fundo o Arco do
Triunfo.
Não sabia aonde ir primeiro, queria mostrar tudo ao mesmo
tempo para Fernanda, sugeri mostrar o bairro que tinha
morado, o Quartier Latin, seguimos pelo Rio Sena até a
Catedral Notre Dame, que fica numa ilha, cercada pelo Rio
Sena, atravessamos as pontes e fomos em direção ao
Boulevard Saint Germain de Prés, atravessamos o Boulevard
Saint Michel e chegamos ao jardim da Place de la Catedral de
Notre Dame. Trazia ainda na memória o meu primeiro dia em
Paris, assim que tinha chegado e me hospedado no meu hotel,
vim conhecer pessoalmente o primeiro ponto turístico da
cidade.
Entramos na igreja, olhamos ao seu redor, ela estava adorando
tudo aquilo, imagine eu, fotografei tudo o que achei bonito, isto
é, tudo, e voltamos para o outro lado da Place, atravessamos a
ponte e estávamos no Quartier Latin, que agora tinha se
transformado um bairro de alimentação, todas as pequenas
livrarias tinham se transformadas em pequenos restaurantes,
alguns de comidas tradicionais, mas a grande maioria de
comidas típicas internacionais, para todas as culturas que
visitam a cidade e aquele bairro.
Fui levar Fernanda ver onde tinha ficado por algum tempo, na
Rue de la Parcheminerie, 59, na outra ponta da rua estava o
Museu de Cluny, entramos pelas ruas do bairro, chegamos no
espaço da Universidade de Paris, onde encontramos as
livrarias e os cafés dos estudantes, apesar de ser noite,
estavam lotados.
Estava muito empolgado, mostrando e explicando para ela
todos os detalhes da cidade, fazia 6 horas que estávamos
andando, perguntei para ela se estava cansada, pois estava
muito calada, me respondeu que ainda não, mas
aparentemente feliz disse estar com fome, fizemos o caminho
de volta até o Prédio do Louvre e seguimos para a rua do hotel.
Procurei um supermercado, queria comprar queijo, pão e vinho
para lanchar no hotel. Fui encontrar numa rua bem acima da
Place de La Republique, onde compramos os queijos, os
vinhos e uma baguete de pão e voltamos ao hotel.
Depois de um delicioso banho a dois, com todos os carinhos
possíveis, fomos nos deliciar com aqueles queijos, a baguete e
o vinho, que ela adorou e me disse agora entender a minha
ansiedade e o meu gosto por tudo aquilo, era mesmo a delícia
que eu tinha comentado. Tinha encontrado um queijo fundido
feito à base de ervas, em quadradinhos, mas que tinha um
sabor maravilhoso; estava vivendo num paraíso particular,
tinha a Fernanda, Paris, os queijos, os vinhos e aquele pão
maravilhoso.
Era tudo o que sempre tinha sonhado, depois de muito
comentar sobre as maravilhas que encontramos na cidade,
fomos dormir. Para planejar os passeios do dia, o hotel
forneceu uma pequena planta da cidade, combinamos de ir
caminhando ver o interior do Palais Royal, depois passar pela
Place de La Concorde, e ir pela Avenue Champs Elyseés,
agora com diversas barracas de comidas, doces, roupas,
perfumes e bebidas, que estavam localizadas logo após a
Place de la Concórdia, até a cruzar a Avenue onde estão
localizados o Gran Palais e Petit Palais, depois chegar à Place
Etoile, onde fica o Arco do Triunfo, num entroncamento de 8
avenidas. Atravessamos o túnel subterrâneo para mostrar o
Arco do Triunfo de perto.
Queria mostrar os grandes magazines, e voltamos pela Avenue
Champs Elyseés, até a rue da Eglise de la Madeleine, subimos
até chegar ao Boulevard Haussman, onde estão as Galerias
Lafayettes e a Printemps, entramos para olhar, conhecer e
talvez algumas compras.
Tinha sido uma bela caminhada, e Fernanda estava cansada,
encontramos um pequeno restaurante, para almoçar,
esticamos o almoço para nos refazer da caminhada, vendo a
planta da cidade, mostrei o caminho para ver a Torre Eiffel, que
ela estava curiosa para ver.
Estava muito frio, demoramos um pouco para chegar, pois
passamos antes pelo Petit Palais, em frente ao Grand Palais,
que fica no caminho, vimos as praças e os prédios que eu
queria ver de novo, ao chegar ao Jardim da Torre Eiffel e
Museu de la Marine, encontramos diversas barracas,
semelhantes às que encontramos na avenue Champs Elysées,
que vendiam comidas típicas de diversos países, vinho quente
e artigos de Natal, além de artesanato, o cheiro de comida era
convidativo, ela resolveu fazer o lanche por ali mesmo.
Mais à noite subimos até o terceiro andar da Torre Eiffel, para
ver a cidade iluminada, e descemos a pé, para curtir a cada
degrau, no jardim da Praça da Torre Eiffel, caminhamos até o
Museé de la Marine, e depois fomos de volta ao hotel,
cansados mas felizes. Ela me perguntava por que tinha ido
embora daquela linda cidade, não soube responder.
Tomamos outro delicioso banho e fomos para cama, para
dormir. Quando amanheceu, tomamos café e programamos
almoçar num restaurante árabe que tinha visto no Quartier
Latin, fizemos o passeio de barco pelo Rio Sena, mas não
havia muitas barraquinhas de livros abertas devido ao inverno.
Escolhemos o restaurante entramos e pedimos Cuscus, que é
um prato baseado em trigo, que pode ser servido com diversas
opções, escolhemos com linguiça de porco, e uma taça de
vinho. Ao sair do restaurante, escolhemos para sobremesa o
doce Wafel, coberto com chocolate e creme. Era a mesma
refeição que fazia quando morava sozinho em Paris.
Devidamente alimentados e descansados combinamos de ir
até o Beaubourg George Pompideau, outro lindo espaço
cultural, de construção moderna, que eu ainda não tinha
conhecido, foi construído no local em que funcionava o antigo
Marchée Les Halles, entramos e passamos a tarde vendo a
exposição de artistas franceses. Ao anoitecer, quando saímos,
passamos pela École dês Arts et Metiers, onde estudei, depois
voltamos pelo Rio Sena até o hotel.
Na manhã seguinte, inauguramos o metro parisiense para
chegar ao espaço onde estão localizados os prédios
construídos com tecnologia de ponta, Arc de la Defense,
localizado em Neully, município vizinho a Paris, queria ver o
Edifício da Biblioteca Municipal, e os maravilhosos prédios
comerciais que existem naquele espaço. No caminho
compramos o pão com chocolate, que é uma delicia.
Na praça onde está localizado o Edifício da Biblioteca
Municipal, tinha uma feira de alimentação, semelhante à que
encontramos nos Jardins da Torre Eiffel, de novo aquele aroma
delicioso no ar, depois de ver e fotografar os prédios todos,
entrar num pequeno shopping na mesma praça, fomos fazer o
lanche numa daquelas barracas.
O mais difícil foi escolher qual tipo de lanche e qual a barraca,
eram todas muito saborosas e cheirosas. Escolhemos uma
barraca de comida típica francesa e comemos um sanduíche
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