Dança do Sabonete ÍNDICE APRESENTAÇÃO 1 Um Sonho Perfeito 2 Castelos na Areia 3 Hora do Prazer 4 Pequenas Esperanças 5 A Dura Realidade 6 Descobrindo Guimarães 7 Nova Identidade 8 Participação no IV SIACOT 9 Viagem a Itália 10 Esperando Papai Noel 11 O Presente Surpresa 12 A Oportunidade Tão Esperada 13 O Grande Impacto 14 Sedução e Encantamento 15 O primeiro Dia do Resto de Nossas Vidas 16 Registros Poéticos da Emoção 17 Um Natal em Família 22 Apresentando Paris Apresentação As alegrias, tristezas, decepções e dificuldades da vida de um homem que não desistiu de encontrar o amor verdadeiro, os primeiros relacionamentos afetivos, a primeira namorada, o primeiro amor e a semelhança com a referência feminina amada na adolescência. A Escola de Artes, o primeiro emprego como artista gráfico na empresa de arquitetos, engenheiros, economistas, geógrafos, historiadores e médicos que estudavam na Europa, os bailes pró-formatura dos colégios, o primeiro amor, a primeira musa, a sensibilidade das primeiras poesias. O primeiro escritório, os problemas políticos criados pela revolução político-militar de 1964, a Comissão de Reforma Agrária da cidade do Rio de Janeiro, a separação do seu amor e a decisão de morar em Paris. As condições financeiras para viajar, morar e estudar na Europa, a tristeza e o prazer de comunicar ao seu amor a decisão da viagem, da mudança de vida, de escola, de bairro, de cidade, de estado, de pais, de hemisfério. A viagem e o inevitável impacto de desembarcar na França, a gare de trens e a emoção de dizer: “Paris, si vous plait”. O apartamento no bairro Quartier Latin, o repertório cultural nos domingos açucarados de acesso grátis ao Museu do Louvre, o trabalho no escritório de arquitetura e viagem para conhecer a Escola de Arquitetura de Grenoble e o CRATerre, na França. A viagem para Roma, o trabalho na RAI, Rádio e Televisão Italiana, o Curso Superior de Desenho Industrial, a entrevista com o diretor da escola: “tu sei un bravo artista” e a experiência de ser professor e morar na Piazza Navona. A cidade de Barcelona e as imagens da Catedral da Sagrada Família, a Pensió Real, a Rambla de las Flores, a Plaza de La Catalunya, a Plaza Cristobán Colombo e os ícones da arquitetura de Gaudí. O retorno para o Brasil, o encontro com a família, o trabalho no Governo do Estado de São Paulo, a Universidade, o casamento, as filhas, a separação e o divórcio. O projeto de arquitetura e a construção do Grande Hotel, no Centro Oeste, financiado pela Empresa de Turismo, as Normas Técnicas, a Pós Graduação, a universidade do nordeste, a coordenação da faculdade de arquitetura. O Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra em Portugal, o Reitor da Universidade, as surpresas nas inscrições, os Anais do Congresso e o novo autor do Artigo Técnico. A falsa autoria do Presidente da Comissão de Ética do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo, o professor Said, a cidade de Guimarães e o Plano de Pesquisa do Curso de Pós Doutorado junto ao Departamento de Engenharia Civil da Uminho. O desinteresse dos organismos governamentais e a desistência do Brasil, a cidadania italiana: “Cei tutto perfetto, alora tu sei um bravo citadino italiano”. A mudança para Guimarães, o apartamento, o encontro da mulher ideal, a surpresa do divórcio e a oportunidade esperada para encontrar a felicidade. 1 - SONHO PERFEITO Depois de observar atentamente as atividades de Carlos, um engraxate que trabalhava no Largo Ubirajara, resolvi montar minha caixa de engraxate para trabalhar nos finais de semana ao lado da minha casa. Uma experiência que estimulou meu pai trocar o emprego de tecelão para montar uma barraca de macarrão e bolachas nas feiras livres, onde descobri o gosto e a vocação para desenhar. Os cursos de Desenho de Propaganda, Artes Gráficas no SENAI, Desenho, Pintura e Gravuras na FAAP que possibilitaram o primeiro emprego de desenhista na SAGMACS, escritório de arquitetos, engenheiros, economistas, médicos, sociólogos que estudavam na Europa. Os comentários interessantes, curiosos e engraçados sobre os acontecimentos que surgiram durante os eventos educacionais, técnicos ou turísticos, que, mesmo trabalhando, não podia deixar de ouvir e participar, despertando curiosidade e desejo de fazer a mesma viagem. Depois do movimento revolucionário político-militar de março de 1964, minhas relações pessoais, profissionais e estudantis ficaram prejudicadas, me obrigando sair de São Paulo para trabalhar em Cuiabá, como chefe do Setor de Desenhos do Governo do Estado de Mato Grosso. Retornando um ano depois para chefiar a equipe de desenhistas do Escritório do Consórcio das empresas HMD que iniciava os trabalhos para implantar o Projeto do Metropolitano de São Paulo, METRO, à noite trabalhava com a equipe de arquitetos que projetava o Teatro Municipal da cidade de Santos para a PRODESAN, criando condições financeiras para aceitar o “velado” convite para deixar o Brasil e morar, estudar e trabalhar na Europa, mais especificamente na cidade de Paris, França, que meus amigos da SAGMACS comentavam. Chegando à Paris, consegui um trabalho no escritório de arquitetura de André Lengaigne, fui estudar na Aliança Francesa e nos domingos, colocava pedrinhas de açúcar nos bolsos do casaco para me alimentar, enquanto enriquecia meu repertório cultural no Museu do Louvre. Quando acabaram os projetos do escritório, depois de conhecer o centro de tecnologia de Grenoble, na França, viajei para Roma e fui trabalhar na RAI, Radio e Televisione Italiana, e estudar desenho na Escola Superior de Desenho Industrial, no resultado dos testes o diretor Romulo Gianinni comentou: “Tu sei um bravo artista!”, me convidava para ser professor de Desenho Gráfico no 1º ano do Curso e morar num apartamento do prédio em que morava, na Piazza Navona. Depois de um ano em Paris e um ano em Roma, voltei para São Paulo para cursar a universidade. Assim que cheguei ao Brasil, além do emprego, comecei a namorar a mulher dos sonhos juvenis, que preenchia os lindos modelos armazenados no meu repertório de imagens, era a namorada que sonhava para ser a companheira definitiva. A imagem feminina, de beleza tão sonhada, agora estava ao meu lado, cabelos bem penteados, maquiada, bem vestida, roupa da moda com grife, perfumada, unhas pintadas, sapatos bem cuidados, desenvolvendo propostas inteligentes e naturais para a vida, aversiva ao cigarro, bebidas e drogas. Sempre muito simpática com todos os meus familiares, participava nas festas dos meus familiares, não importava saber de quem era a festa, desde o aniversário de um sobrinho distante até o casamento do irmão, colaborando, fazendo sala, ajudando na cozinha, fazendo “nossa” presença uma ordem para a próxima festa. Com propostas objetivas bem definidas sobre a política, economia e projetos sociais, uma militante estudantil fervorosa e participativa. Sempre bem vestida, era atraente, charmosa, fogosa e parecendo ser insaciável sexualmente, o que me deixava extremamente curioso e sedento para vivenciar aquele monumento de mulher. Os amigos e a família comentavam sobre a namorada, sugerindo maior seriedade no compromisso, para começar uma vida mais familiar. Acreditei. O namoro se intensifica, os carinhos vão ficando íntimos, ousados, com maior prazer, vivenciados com a mulher tão sonhada, iniciava a fase mais intensa do namoro. As viagens, os passeios e as festas não podiam passar do horário imposto pelos seus pais, em consequência disso, os programas não eram devidamente aproveitados, começando a incomodar os dois adultos, que desejavam viver, mais intensamente uma vida a dois. Uma forma de ficar livre desses limites incômodos seria assumir a grande decisão de formarem um casal, para deixar de terem seus destinos limitados e controlados pelos pais da namorada. A decisão é tomada em conjunto, o casamento está marcado, a cerimônia do casamento, que não podia ser na igreja, por que ela não acreditava na religião católica, esquecendo seus familiares e os meus que acreditavam e ficaram ressentidos com aquela decisão. Um detalhe importante que não dei a devida importância. Durante a festa, o juiz leu o livro de registro civil e emitiu a certidão de casamento e viajamos para a lua de mel. 2 – CASTELOS NA AREIA Para viver o sonho idealizado deixamos de perceber, ou não queremos perceber, importantes detalhes da personalidade da representante do modelo projetado. Na viagem de lua de mel surgiram novas características da “mulher ideal”, na primeira discussão sobre suas atitudes na nossa convivência. Assim que assinou o livro do Registro Civil, comemorava com alegria sua liberdade, depois de mudar para nosso apartamento, começava a mudar seus comportamentos naturais, demonstrando ser outra pessoa. Na verdade, comecei a ficar preocupado com o erro que estava cometendo, dois dias antes do casamento, depois de oferecer como presente de casamento, um corte de tecido tropical inglês, com um desenho xadrez em preto, cinza e branco, gigantes e maravilhosos, de extremo bom gosto, juntamente com o design do modelo de roupa que tinha desenvolvido. Produzi a embalagem com papelão colorido, duas pirâmides que se encaixavam pela base, onde coloquei o presente, assim que nos encontramos, entreguei o presente e as poesias, trocamos muitos beijos, carinhos e abraços, ela abriu o presente, leu as poesias, depois ficou tentando abrir a embalagem, com alguma ajuda, conseguiu separar as pirâmides, achou o tecido, olhou, deu um sorriso amarelo e colocou de lado. Nunca usou o tecido para fazer nada. Ainda tinha presente na memória as linda imagens das cidades de Paris, Roma, Veneza, Barcelona e a convivência com o povo europeu, fiquei preocupado com seu reduzido repertório cultural, apesar da sua beleza física e da postura política, econômica e social. Na volta da lua de mel, numa linguagem bem vulgar, o caldo iria engrossar, nos momentos em que o namorado conhece a namorada em toda sua essência: A utilização do banheiro, a higiene pessoal, as roupas íntimas, espalhadas pelo chão do banheiro, ou penduradas na torneira do chuveiro, a cozinha, o fogão, a louça suja na pia, a geladeira, o lixo, a louça das refeições sobre a mesa, a sala e o quarto de dormir ao levantar. A organização dos gastos para a casa, a programação de rádio e a decisão de “proibir” televisão no apartamento! Estava morando com outra mulher. Comecei a perceber que a vida a dois não seria fácil nem gostosa, como um dia sonhei. A namorada meiga, doce, carinhosa, alegre, organizada, penteada e perfumada, depois de casada, estava irreconhecível, um lindo sonho que virou pesadelo. Argumentando que, pelo simples fato de estarmos casados e sempre juntos, não era importante estar sempre arrumada, perfumada, agradável e meiga. A namorada se produz para ficar 3 ou 4 horas, exclusivamente com o namorado, agora isso não era necessário, pois estavam juntos 24 horas por dia. Ouvia tudo aquilo paralisado, sem saber como contraargumentar ou responder, estava atônito e sem saber como reagir. Dois meses depois do casamento, a namorada que tinha me seduzido, encantado e casado tinha se transformado em outra pessoa. Restava seu comportamento noturno, a cerimônia da preparação para dormir, com máscaras, cremes, rolos de plásticos cobertos com lenços estranhos. Tudo isso em cima de um corpo bonito, vestido com pijama sensual e charmoso, ela se travestia numa estranha criatura, sem nenhum charme. Estava deitando com um verdadeiro ET. Não há sensualidade ou excitação que resista. Na manhã seguinte, ao acordar, ela se transformava novamente, bem vestida e bem produzida para ir à faculdade, de onde retornava no final da noite, cansada, irritadiça e sempre com dor de cabeça, perguntando pelo seu jantar, depois tomava um banho e se transformava de novo para dormir, numa rotina enlouquecedora. Nessa época, trabalhava no Palácio do Governo, durante o período da tarde, permanecia em casa todas as manhãs e noites ouvindo o rádio, sonhando com a televisão “proibida”, preparando as refeições e fazendo palavras cruzadas. Aos sábados acordávamos um pouco mais tarde, depois dela tomar seu banho e tirar suas máscaras e rolos do cabelo, acontecia alguns momentos de sexo semanal. Ufa! Antes de sairmos para passar o final de semana na casa dos pais dela, fazíamos compras no supermercado ou na feira, raros momentos que surgia a antiga namorada, que rapidamente se modificava quando encontrava com seus pais e seus amigos, quando ela voltava a ser a filha e amiga de antes do namoro. Admirava sua transformação sem falar nada, aquela pessoa que um dia namorei, nunca mais apareceu. Seu comportamento num dia normal: 8 horas ela dormia fantasiada, 12 horas ela ficava na faculdade, e nas 4 horas restantes, tomava banho, passava cremes, enrolava cabelos, conversava, discutia e brigava comigo, sobre qualquer assunto. Era aquela estranha convivência que tinha trocado pela minha liberdade, poder conviver com os meus amigos, com minha família, minhas namoradas, além de deixar de viajar, que sempre foi minha grande paixão. A minha expectativa do relacionamento a dois, em nada se assemelhava àquilo. Era simplesmente tudo o que não queria num casamento. Creio que ninguém queria. Quando não tinha aula e o prazer poderia ser maior, era o momento em ela me convidava para visitar seus pais, almoçar e jantar, sem que ela precisasse fazer a comida e lavar a louça, argumentando que na casa dos seus pais tinha televisão, que segundo os conceitos dela, limitava os horizontes do ser humano. Assistir futebol nos estádios, nem pensar. Concordava com tudo aquilo, sem saber o que ou como fazer, na minha ingenuidade achava que os casamentos eram assim, fazia todos os tipos de concessões, até quando brigava com ela, em detrimento das mínimas exigências, tudo em favor do entendimento e paz no relacionamento. No terceiro mês, para não me sentir numa prisão de luxo, comecei a sair sozinho para fazer compras, entrar num cinema, procurar amigos e amigas, que já tinham casado, ou estavam namorando. Apesar daquela solidão, ainda não tinha procurado antigas namoradas, e muito menos olhava para outras mulheres com intenções de envolvimento, um comportamento normal de um homem sozinho. Acreditava no casamento, achei que tudo não passava de uma fase de adaptação, que um dia deveria ter um fim. Depois de seis meses, comecei a questionar meu comportamento como um todo e resolvi acabar com aquela farsa, delicadamente, sem conversar e sem brigar, apenas pedi para ela sair do apartamento e voltar para a casa dos seus pais, para repensar o casamento. Ela pouco discutiu, contra argumentou de maneira muito frágil e aceitou a minha decisão, voltou a morar na casa dos seus pais, por quarenta dias. Depois percebi que, coincidentemente, eram os dias de férias na sua faculdade, quer dizer, ela não tinha necessidade de se deslocar do bairro onde moravam seus pais, para ir à faculdade, no outro lado da cidade, fazer comidas e lavar a louça. Alguns dias antes de começarem as aulas, minha sogra veio me visitar e pedir para reconsiderar a decisão, nem que fosse para fazer a separação definitiva, mas que tivesse uma conversa mais séria com a sua filha. Numa conversa franca e amigável, expliquei os problemas surgidos durante o casamento, suas ausências, sua comodidade, a falta de tempo para namorar, com os quais, a sogra concordou. Deixei bem claro as exigências para aceitar novamente. No dia seguinte ela veio me visitar, utilizando os mesmos trejeitos da namorada, fazendo uma representação digna de indicação ao Oscar de melhor atriz, no papel do modelo da namorada, depois de uma longa conversa, séria, franca e decisiva, ela concordou e aceitou todas as minhas exigências, e voltou para iniciar nova convivência. A temporada artística daquele “novo relacionamento” não durou mais do que quatro meses, aos poucos, voltava ao seu comportamento “normal”. Resistindo muito, procurando algumas soluções e saídas alternativas, e sem encontrar, continuava a sair sozinho, fazendo as comprar e me divertindo com os amigos. Nem o sexo, que no começo era quase bom, tinha ficado frio e distante, a justificativa era a mesma. Ficava ouvindo, olhando e participando de tudo aquilo, sem saber o que fazer. Aparentemente, para fugir da autoridade dos seus pais, utilizava a autorização que o casamento fornecia, depois de conseguir, não sabia o que fazer com o casamento. Quando ela chegava da faculdade, ficava imaginando namorar, abraçar e beijar, num relacionamento sexual fantástico e maravilhoso, mas acabava assistindo as cenas da entrada no apartamento, comer alguma coisinha, trocava algumas palavras, deixava a louça para lavar, tomava seu banho, se mascarava e se colocava na cama para dormir sozinha. Quando o homem mora sozinho, não tem estímulos sexuais ao assistir o desfile de lingerie sensual, provocativa e surrealista pela casa antes de dormir. Perplexo e sem acreditar no que estava acontecendo, novamente, tinha me transformado em seu empregado doméstico. Resolvi que a partir daquele dia, somente cuidaria da louça que eu usava, não lavaria mais a sua louça, que ficava acumulada, em cima da pia, para ela lavar no final da semana. Uma imagem desastrosa. Preocupado e incomodado com a abstinência sexual, depois de muita insistência minha, estudamos outras formas para fazer sexo, sem que ela estivesse irritada, sensível ou com dores de cabeça. A primeira tentativa foi fazer sexo pela manhã, quando ela estaria descansada e sem nenhuma irritação. Era preciso acordar mais cedo, para tirar seus apetrechos de dormir, excedendo, quase sempre, o horário limite para ela sair de casa. Não deu certo. 3 – HORA DO PRAZER Com raras exceções, o sexo acontecia nas manhãs de sábado, aos domingos era impossível, sempre amanhecíamos na casa dos pais dela. Ela sugeriu a tentativa de marcar data e hora, para conseguir ter o prazer semanal, dessa forma ela poderia se preparar, conscientemente ou inconscientemente, para estar comigo, e não ficaria tão sensível na hora do sexo. Na primeira oportunidade com data marcada, me preparei, fiz uma comida especial, vinho na mesa, banho tomado, perfume, excitado, coloquei uma roupa sensual, procurava uma música bonita na rádio, e aguardando o momento dela chegar. Em alguma hora da noite ela chegaria. Ela chegou, entrou em casa com cara de poucos amigos, chateada, pois acontecera alguma coisa na faculdade, que ela não esperava, e dessa forma, ela não iria conseguir relaxar. Não pergunte como é que eu ficava. Acabei jantando sozinho, tomando muito vinho para conseguir dormir. A tentativa também não deu certo. Marcar hora para fazer sexo é algo surrealista. Predominava a tentativa do sexo aleatório, isto é, acontecia quando surgia a oportunidade. Numa das festas da sua faculdade, conversando com os maridos das amigas dela, procurei saber como eles resolviam esse tipo de problema, como era a sua relação com as esposas. Surpreendentemente descobri que, ninguém tinha esse tipo de problema, todos transavam duas ou três vezes por semana, fora os finais de semanas. Parece que só eu tinha sido escolhido a mulher errada. Uma noite comentei a história dos maridos das suas amigas, disse para me procurar quando estivesse descansada, pouco sensível e sem dor de cabeça, mas com desejos sexuais, como eu estava sempre disponível e com desejos, não haveria problemas de rejeição. Ela concordou imediatamente, esse comportamento gerou total desinteresse pelo sexo. Agora seu comportamento era outro, parecia estar livre de um castigo, de um sofrimento, ela se sentia muito mais solta e muito menos compromissada. Com esse comportamento, atingimos a marca de 45 dias sem sexo. Não me pergunte como resistia a tudo aquilo, não saberia explicar. De uma maneira geral, o sexo acontecia, em média, a cada 30 dias, um caixa de preservativos com 12 unidades durava mais de um ano! Quase perdia a validade. 4 – PEQUENAS ESPERANÇAS Depois de uma festa de aniversário, ela me procurou para fazer sexo. Fazia 45 dias que isso não acontecia. Depois de aproveitar a oportunidade sexual, quase bimestral, calmamente expliquei, de forma figurada e com muito bom humor, que tinha comprado a caixa com doze preservativos, estava durando quase um ano e meio, foi quando ela esbravejou: “Não me diga que você está contando?” Tentando não ser muito rude, pois ela poderia me castigar a ficar mais três meses sem sexo, respondi brincando, que a verba do preservativo precisava ser remanejada e poderia ser repassada para a verba da cerveja ou do vinho, uma vez que não estava sendo bem utilizada. Quer dizer, a última tentativa também não funcionou. Numa das relações bimestrais, ela acabou engravidando, e veio comunicar, argumentando, exatamente no mesmo dia e hora em que pedia para ela voltar para a casa dos seus pais. E agora seria de forma definitiva. Com esse forte argumento, ela me colocou numa das situações mais incríveis e inimagináveis que já tinha vivido. O que fazer agora. Aceitava ela de volta grávida, ou mandava para seus pais. Afinal a criança era minha, pelo menos acreditava nisso. Pensando na criança, de novo, acabei concordando. Foi outro erro estratégico, utilizava a última das minhas fantasias: com o nascimento da criança, ela seria obrigada a dedicar mais do seu tempo para com seu filho, e com isso, ficaria um tempo maior dentro de casa. Durante a gravidez, sua vida não mudou em nada, depois do nascimento, no primeiro período de amamentação, comprei um carro novo para ela ir à faculdade e voltar para amamentar o bebe, de três em três horas. Quando terminou o período de amamentação, quem fazia a mamadeira e alimentava a criança era minha mãe. Depois que minha mãe foi embora, a empregada alternava comigo a preparação e alimentação da criança, trocar as fraldas e colocar para dormir, dando liberdade para ela voltar a ficar o dia inteiro fora de casa. Todas as noites quem fazia a mamadeira e trocava as fraldas era eu. Mas eu gostava, era uma distração e uma nova companhia, agora tinha com quem ficar em casa. Talvez tenha sido a verdadeira intenção em deixar que ela ficasse em casa. Companhia. As crianças choram muito nos primeiros meses, a nossa criança chorava quase 18 horas por dia, fomos consultar um médico gastroenterologista, pois o pediatra achava que deveria haver algum problema com a digestão da criança. Depois da consulta, percebendo que a criança nada tinha de anormal, o médico perguntou sobre as atividades da mãe, e acabou receitando colocar uma colher de azeite na mamadeira, sugerindo que a criança cobrava maior presença da mãe junto dela com o choro. Nem por isso ela mudou seu comportamento. No verão tinha vendido a casa para comprar um terreno no litoral para construção de um pequeno hotel para melhorar minhas condições financeiras. Ela concordou em vender a casa, desde que alugasse um apartamento grande, com linda decoração e que tivesse piscina. Nos finais de semana, levava a criança para tomar sol na piscina e assistia as mulheres do prédio desfilarem de biquíni. Era delicioso, mas tinha um problema: o que fazer com aquela excitação. Durante as costumeiras discussões e ponderações sobre a abstinência sexual de um homem casado, ela chegou a me sugerir: “Porque você não procura outra mulher?” Apesar de tantos problemas de convivência, comportamentos, abstinência sexual e relacionamento pessoal, nasceram mais duas crianças, aumentando, sobremaneira a minha responsabilidade, pois ela continuava fora de casa, tinha concluído a faculdade, agora tinha o seu consultório e o seu emprego. Para que ela pudesse honrar todas suas obrigações fora de casa, ela sugeriu e aceitei morar com os pais dela, para que alguém cuidasse das crianças, que não a empregada. Morávamos na mesma casa, eu, ela, três crianças, avô, avó e uma bisavó, além da empregada. Com o passar dos tempos, ficava radical sua transformação, se caracterizando como uma mulher que precisava sair de casa, definir seus limites com maior liberdade, e o casamento impunha parâmetros que ela resolvia de forma pessoal e individual, não importando o que estava acontecendo com o marido e com os filhos, e agora com seus pais. 5 – DURA REALIDADE Depois de alguns anos de muita confusão com os avós, e com as crianças mais crescidas, voltamos a morar sozinhos. Numa tarde, ela veio calmamente me pedir para sair da casa, recebi a “ordem” aos prantos, não por ela, mas pelas minhas filhas, argumentei que era ela quem deveria ficar fora, uma vez que ela sempre do lado de “fora” de casa, seria mais normal a sua saída. Muito brava, ponderava que o lugar da mãe é com as filhas! Quando a mãe fica em casa, respondi. No retorno da minha viagem a Mato Grosso, para não sentir o grande impacto de sair da casa, fiquei no apartamento que tinha construído no quintal do escritório do hotel que estava construindo no Centro Oeste, onde passei a morar. Depois de 90 dias de tristeza, lágrimas e bebidas, num domingo de sol de folga da minha obra, fui para a praia e comecei a olhar e “ver” a beleza da praia, das mulheres, da natureza e das alegrias da vida, novamente. Parei de chorar e de beber, comecei a colar os cacos do casamento, na verdade estava me preparando para uma nova vida, que até poderia incluir uma pessoa, mas ocupava meu tempo nas obras dos hotéis, nas viagens e na pós-graduação. Acostumado à pressão do casamento, estranhava a liberdade de viajar e não avisar ou combinar datas e horários com ninguém, mas estranhava voltar para casa vazia e sem ninguém para me receber. Nos finais de semana, quando as crianças ficavam na minha companhia, preparava a churrasqueira, a carne, as saladas e as bebidas, comportamento que mudou quando fui morar para cuidar da doença da minha mãe. Nos almoços de sábados na casa da minha mãe, preparava bife de contra filé, frito com ovo a cavalo, salada de alface, tomate e ovo cozido e como sobremesa, minha mãe o ensinou a fazer o pudim de leite condensado, com ovos e leite, e para o lanche procurava variar entre o Mc Donalds, as pizzas e as Esfihas. Nos almoços dos domingos, comprava na feira, frutas, verduras, saladas, mariscos e ricota, preparava ravioles de ricota, como aperitivo teria os mariscos cosidos, pudim de sobremesa, um verdadeiro banquete. As crianças me ajudavam em tudo, uma verdadeira integração, que nunca houve na casa da minha ex-mulher. Depois do almoço, lavava a louça, com uma ou outra criança, comprava o jornal, ficava conversando, jogando ou brincando com as crianças até a hora do jantar, depois com muita tristeza, levava as crianças de volta para a casa da minha ex-mulher. Esse comportamento mudou quando minha mãe, depois de ficar muito doente, veio a falecer, quando decidi concluir minha pós-graduação e desenvolver a montagem do Workshop Internacional de Arquitetura de Terra. Depois de defender a Tese de Doutorado e trabalhar um longo ano como professor de projetos na universidade particular do nordeste brasileiro, realizando antigo sonho de ajudar as pessoas, morar em frente à praia, desfrutando do sol e da linda natureza. Tive enorme decepção como homem e professor, o preconceito demonstrava a satisfação com a vida que levam. A pobreza e a seca é assunto produzido pela mídia do sudeste. Depois de um longo e interminável ano, voltei e fui trabalhar como coordenador do curso de arquitetura de uma universidade particular na cidade de São Paulo, minha primeira experiência acadêmica, fora da sala de aula e das disciplinas de projetos de arquitetura, de percepção e representação das formas, e criatividade. Um dos professores, “meu amigo” de faculdade nos anos 1970, foi demitido de uma grande universidade, convidei para trabalhar comigo. Dois dias depois de ser contratado, o “meu amigo” professor me convida para participar no Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra, em Portugal. Além de dinheiro, precisava solicitar permissão à Reitoria para me ausentar da faculdade durante a realização do evento. O “meu amigo” professor sugeriu encaminhar o resumo de um artigo técnico baseado na síntese do meu trabalho de doutorado. Preparei o trabalho que o professor, depois de formatar atendendo as exigências da Secretaria do Congresso, encaminhou. Não tinha passado um mês, o “meu amigo” professor informava que o resumo do trabalho tinha sido aceito, e agora se fazia necessário preparar e encaminhar o trabalho técnico para fazer a inscrição no congresso. Emocionado e surpreso repensava a possibilidade de voltar à Europa e participar no meu primeiro Congresso Internacional de Arquitetura. Em paralelo com o trabalho da universidade, tinha concluído um estudo preliminar do Projeto de Arquitetura para a construção do condomínio da cooperativa dos metroviários, cuja remuneração ajudaria na compra das passagens, mas ainda precisava da autorização do Reitor, da verba para hospedagem e inscrição no congresso. Em agosto completava 12 meses como coordenador, melhorando o curso, montando novos cursos e projetando a nova distribuição física das salas de aulas, além de criar o projeto do campus. Tinha participado do congresso estadual de arquitetos no Rio de Janeiro, juntamente com esse mesmo professor “meu amigo”, com todas as despesas pagas pela Reitoria, que não concordou na participação do congresso de arquitetura em Minas Gerais. Mesmo assim resolvi encaminhar um Memorando Interno ao Pró Reitor, solicitando autorização para me ausentar durante 16 dias da coordenação do curso para viajar e participar no Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra, e uma ajuda de custo para viagem, inscrição e estadia. Anexei uma cópia do e-mail que a Secretaria do Congresso havia encaminhado, confirmando o aceite do trabalho e convocação para fazer a inscrição. Alguns dias depois, a secretária do Reitor me convoca para uma reunião, autorizando minha ausência da Coordenaria do Curso por 16 dias para participar do congresso e liberou uma verba de US$ 4,000.00 para despesas sem comprovantes. A única exigência do Reitor era conseguir um convênio com alguma universidade portuguesa. Com lágrimas nos olhos, muito emocionado abracei o reitor e agradeci muito pela oportunidade, afirmando, que nunca tinha sido reconhecido pelo meu trabalho, voltei para minha sala, onde fiquei sentado em frente ao computador, digerindo a notícia, nem fui almoçar. E precisava? Ás 18,00 horas chegavam os alunos e os professores para cumprimentar, e todos, sem exceção, perceberam um brilho especial nos meus olhos, uma euforia nas minhas palavras. Quando “meu amigo” professor veio me cumprimentar, comentei que ele estava autorizado a participar do Congresso de Coimbra com parte das despesas pagas pela universidade. Estava dividindo o prêmio recebido pela minha dedicação, com o “meu amigo professor”. Muito feliz por voltar à Europa depois de tantos anos, aquela era a minha primeira oportunidade de conhecer Portugal e rever as cidades que tinha morado, além de participar de um Congresso Internacional de Arquitetura. Depois de viajar para Milão, devidamente alojados, ofereci 1.000,00 € em dinheiro para ele, como pagamento de parte das despesas que a Reitoria tinha oferecido. Meio sem graça, recusou receber, preferindo que eu pagasse as despesas durante a viagem, aceitei e saímos em direção à Piazza Duomo para ver a Catedral de Milão, e no caminho fui parando, comprando e pagando doces e chocolates para os dois, depois na Piazza Duomo, no prédio da Galeria Rinascente fomos jantar uma bela macarronada com vinho, na saída ele me pediu dinheiro para comprar um “brioche” de 0,70 €, estranhando sua atitude, pois parecia mais um filho do que companheiro de viagem. Não consegui rever Veneza, Nápoles, Roma, Florença, Verona, Siena, entre outras cidades italianas, no final de semana viajamos para Lisboa, onde conheci a Gares Oriente, terminal rodo-ferroviário projetado e construído com a linda arquitetura do Santiago Calatrava. Amanheceu segunda feira, dia da Abertura do Congresso, viajamos de trem para Coimbra, no horário que perderíamos a Abertura do Congresso feita pelo Reitor de Universidade de Coimbra, que tinha marcado a reunião para entregar alguns documentos e conversar sobre o convênio. Fiquei muito irritado com ele, pois saímos uma semana antes de São Paulo e ainda assim conseguimos perder a Abertura Oficial do Congresso. Depois do almoço de boas vindas e confraternização oferecida pela Secretaria do Congresso, emocionado com a beleza da arquitetura da universidade, fui conversar com o reitor da universidade. Na reunião levei o “meu amigo”, que adotou um comportamento estranho, de quem tinha marcado a reunião, postura relaxada e sem nenhum respeito, falava e dava gargalhadas em voz alta, conduzindo a reunião, até que o reitor perguntou para ele a pauta da reunião, muito sem jeito “meu amigo” me passou a palavra, apresentei minhas desculpas pelo comportamento dele e entreguei os documentos e solicitava um convênio com a minha universidade. O reitor agradeceu e ficou de marcar nova reunião, que não aconteceu. De novo irritado com seu comportamento, fomos à Secretaria pagar as inscrições e receber os Anais do Congresso, e procurar o artigo técnico impresso, quando encontrei, entendi porque a alegria do professor não tinha sido tão grande quando recebeu a notícia de que eu participaria do congresso. O Artigo Técnico, que seria apresentado no congresso, síntese da minha Tese de Doutorado e 30 anos de pesquisa, estava impresso e apresentava o primeiro autor, o professor “meu amigo”, me colocando como segundo autor e uma professora que fez a tradução do texto indicada como terceira autora, uma atitude constrangedora que gerou um enorme desconforto entre nós. Com outro agravante, o “meu amigo” professor resolveu não apresentar o trabalho, justificava que seu inglês era deficiente, ele esqueceu que tinha sido convidado e concordado ser apresentador de duas salas do congresso, em inglês. Ele não queria apresentar o trabalho porque não saberia esclarecer eventuais dúvidas no final da apresentação, que deveriam ser encaminhadas para mim, demonstrando, em público, sua falsa autoria. Depois de muita pressão, “meu amigo” professor não participava do congresso para ficar no hotel, treinando apresentar o trabalho num tempo maior do que 25 minutos, que era o tempo máximo permitido pela comissão. Depois da confusa leitura do trabalho, no intervalo, o professor “meu amigo” me procurava com alguns congressistas com dúvidas e conhecer o autor do trabalho. No mesmo dia “meu amigo” professor remarcou sua passagem antecipou seu retorno para São Paulo, para evitar maiores constrangimentos, segundo o “bilhete” que deixou escrito sobre a minha cama. Não deixei “meu amigo” professor sair do hotel sem me devolver as despesas que tinha feito com ele, dos brioches às refeições, passando pelas estadias e viagens. Assisti às apresentações restantes e na visita técnica a cerâmica, oferecida pelo congresso. Depois das despedidas, o apresentador da sala, professor Said, me convidou para conhecer sua universidade e conversar sobre o convênio. Na manhã do dia seguinte que terminou o congresso, viajei de trem para a cidade de Guimarães, conhecer a Universidade do Minho o Departamento de Engenharia Civil. 6 – DESCOBRINDO GUIMARÃES Chegando à Guimarães me hospedei no Hotel Ibis, próximo ao terminal de ônibus nacionais e internacionais, no centro comercial da cidade ao lado do maior supermercado de Guimarães, o Continente. No dia seguinte, pela manhã, fui conversar com o Professor Said, conhecer seu Departamento e sua universidade para tratar do convênio entre as universidades. Depois fui conhecer a cidade de Guimarães, localizada ao norte de Portugal, em meios às suas igrejas, jardins, praças, muitas pastelarias, que na verdade são doceiras, pequenos restaurantes, diversas pensões e seus cafés, com suas mesas e cadeiras nas calçadas, sempre ocupadas. A esquina do quadro de anúncios fúnebres, os jornaleiros, os engraxates que se oferecem para limpar os sapatos dos fregueses, que ficam em pé e encostado na parede enquanto seus sapatos são limpos e polidos, o mercado da cidade, os supermercados, além da enorme quantidade de estudantes da Universidade do Minho, que circulam pela cidade. Guimarães é uma cidade muito antiga, com um lindo e antigo centro histórico que tem muitas flores e vegetações rasteiras, grandes árvores com folhagens coloridas, muito bonitas, que oferecem um peculiar perfume aos seus parques e jardins. A cidade desenvolveu-se em torno do seu centro histórico, que apresenta uma arquitetura antiga bem característica. A grande maioria dos jovens que moram em Guimarães são estudantes da Universidade do Minho, que tem outro Campus na cidade de Braga. Isso fica muito evidente quando da festa dos calouros, a enorme quantidade de jovens com suas grandes capas negras e os chapéus triangulares. Guimarães era uma cidade muito bonita, com lindo castelo que tem numa das suas paredes, em frente à Praça Don Fernandes Henrique, o texto “AQUI NASCEU PORTUGAL”, com um lindo jardim, que termina na igreja Nossa Senhora dos Últimos Dias. O centro histórico apresenta uma infinidade de ruas pequenas e estreitas, recheadas de casas pequeninas e médias, com seus muros de pedras. Na parte externa ao centro histórico, a cidade tem uma equilibrada mistura entre as arquiteturas antigas e modernas, com casas muito bonitas, algumas bem grandes, mas todas muito bem cuidadas. Numa tarde entrei numa pastelaria para comprar um determinado pastel de amêndoas, o atendente disse que não tinha, os que estavam na vitrine tinha sido produzidos no dia anterior. Era o mesmo pastel que um dia tinha comprado e fiquei comendo durante quatro dias, ficava um pouco mais duro a cada dia, mas continuava muito bom. Decidi respeitar e não comprei, mesmo sendo do dia anterior, pois era quase indiferente depois de amanhecido, respeitava o profissionalismo do pasteleiro. Voltando ao Brasil e a minha faculdade, por toda a empatia desenvolvida junto ao professor Said, e pela indiferença das outras universidades, resolvemos optar pelo convênio com universidade Uminho de Guimarães. Os fatos que aconteceram no Congresso de Coimbra repercutiram aqui no Brasil, depois de muita pressão, “meu amigo” professor, solicitou demissão, e antes de sair organizou um movimento junto ao Reitor e professores objetivando minha saída, predominava sua versão da história, afinal ele estava Presidente da Comissão de Ética do CREA SP, e no mês seguinte, após o Reconhecimento da Faculdade pelo MEC, fui afastado da Coordenação do Curso de Arquitetura e Urbanismo, e depois de seis meses fui demitido da Coordenação dos dois cursos superiores. Preparei um longo documento que demonstrava e comprovava as atitudes do “meu amigo” professor, antes, durante e depois do Congresso de Coimbra e apresentei ao CREA-SP, depois de alguns meses recebi uma ADVERTÊNCIA por colocar em risco a atividade do arquiteto “meu amigo”./ Presidente da Comissão de Ética do CREA-SP!!! Com muita indignação, elaborei uma resposta fazendo uso das palavras do Ruy Barbosa: “De tanto ver crescer as nulidades, de ver crescer as injustiças.....tenho VERGONHA DE SER HONESTO”. Na viagem à Guimarães para tratar do convênio, o professor Said sugeriu que eu preparasse um Plano de Pesquisa para apresentar no curso de Pós Doutoramento do Departamento de Engenharia Civil. Por outro lado, os últimos acontecimentos em São Paulo me estimularam morar, estudar e trabalhar na cidade de Guimarães. Não queria apenas mudar de cidade, precisava mudar de vida, começar tudo de novo e precisava me organizar. Para estudar e trabalhar em Guimarães precisava morar em Portugal, com bolsa de estudos ou cidadão europeu com condições de se manter na cidade. Depois de alguns meses, utilizei o mesmo o Plano de Pesquisa para a Universidade Uminho, para solicitar uma Bolsa de Auxílio na Fundação de Apoio a Pesquisa do Estado de São Paulo. 7 – NOVA IDENTIDADE “Estratto dei Registri degli Atti di Nascita” Como alternativa, procurei pela advogada Savian que cuidava da alteração dos sobrenomes dos meus pais nos documentos necessários para obtenção da minha cidadania italiana. Os dois últimos documentos que faltavam era a Certidão de Nascimento do meu avô, o “Estratto dei Registri degli Atti di Nascita”, na cidade Cremona, onde meu avô havia nascido, e a “Mancata”, o Atestado do Ministério da Justiça comprovando que meu avô não havia sido naturalizado brasileiro. Estava de posse da Certidão de Casamento do meu avô, Certidão de Nascimento do meu pai, Certidão de Casamento do meu pai, Atestado de Óbito do meu pai e da minha mãe, com os nomes retificados e os meus documentos. A advogada Savian, encaminhou a documentação para Dra. Incerti, advogada que trabalhava na cidade de Vinhedo, que encaminharia para o Consulado Italiano de Campinas fazer a tradução, junto a um Tradutor Juramentado, e depois legalizaria a tradução junto ao Consulado Italiano. Nesse momento a FAPESP apresenta a resposta NEGATIVA ao meu pedido de bolsa, alegando a falta de interesse técnico e de público interessado. Depois da minha graduação na FAU, cansei de tentar colocar o sistema construtivo de projetar e construir as moradias ecológicas, econômicas e com elevada qualidade tecnológica junto às associações, cooperativas, organizações não governamentais, organismos municipais, estaduais e federais, sem nenhum sucesso. Seria incompatível que a Fundação de Estudos e Pesquisas pudesse oferecer uma Bolsa de Estudos para aprimorar a tecnologia de construção ecológica que os organismos governamentais não faziam nenhuma questão de utilizar para atender a demanda do povo. A negativa da bolsa de estudos era a última gota que faltava para transbordar. Eu queria sair daqui, aliás, eu precisava sair daqui. Com a documentação concluída, traduzida e legalizada, tinha condições para dar entrada no Consulado Italiano, em São Paulo, onde compareci com advogada Savian. A fila de espera para os interessados apresentar documentação e solicitar a cidadania era de 15 anos. Comentei o fato com a advogada Incerti, de Vinhedo, que dizia que alguns clientes dela deram entrada na documentação diretamente na Itália, para solicitar cidadania italiana. Informava o e-mail de um cliente que conseguiu a cidadania morando na Itália, depois de algumas trocas de e-mails, seu cliente informava os passos que ele tinha dado: além de viajar para a cidade de Perugia, me indicava todos os órgãos da cidade, seus respectivos endereços, bem como os nomes das pessoas para fazer o Contrato de Moradia e a Residência. No mês junho de 2005, a minha documentação estava completa, inclusive a “mancata”, tornando possível planejar a viagem para Itália. Naquele mesmo mês, o Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Minho da cidade de Guimarães, comunicou o aceite do meu Plano de Pesquisa para o Curso de Pós Doutorado, e para completar minha alegria, tinha sido convidado a participar do IV SIACOTSeminário Internacional de Construções em Arquitetura de Terra, em Reguengos de Monsaráz, no Alentejo, sul de Portugal, que seria realizado de 7 a 12 de setembro de 2005. A participação no Seminário exigia um Artigo Técnico, escolhi a síntese da Tecnologia de Construção Ecológica em Arquitetura de Terra, o novo design dos blocos que permitem fazer seu assentamento através de simples encaixes, horizontais, verticais, anteriores e posteriores, sem a necessidade de utilizar argamassa, cola ou barro que tinha indicado para as construções dos apartamentos da cooperativa de Guarulhos. Na verdade era o mesmo design de bloco que tinha proposto elaborar para a pesquisa de Pós-Doutorado na Uminho. Atendendo a sugestão do meu orientador, para testar os encaixes do novo design, produzi algumas miniaturas dos blocos em madeira balsa. Depois de diversas experiências, cheguei ao formato definitivo, e para avaliar sua utilização preparei 12 maquetes, em escala para conferir os encaixes, os dois furos, necessários para passagem das tubulações e fiações, fazendo ajustes necessários para produção grande escala. O BTC, Bloco de Terra Compactada não era muito conhecido e difundido na Europa, para demonstrar a “massa, a qualidade e a aparência” do bloco de terra compactada, levei como amostra um bloco de terra prensada das minhas obras. Além da apresentação das imagens técnicas do trabalho, o Congresso permitia a exposição de um cartaz síntese da apresentação do trabalho apresentado, nas dimensões de 100 x 70 centímetros, para ficar exposto na sala de Amostras durante a realização do evento. Preparei a viagem para final do mês de agosto de 2005, comprei a passagem pela Swissair, que fazia escala em Zurique. Durante o voo pela Alitália de Zurique e Lisboa, foi oferecido um pequeno sanduíche e um suco, ao desembarcar procurei o ônibus urbano que me deixaria no terminal rodo-ferroviário da Gare Oriente, procurei um dos seus restaurantes do Shopping Vasco da Gama para almoçar um delicioso bacalhau assado, com purê de batatas, maionese e cerveja preta superbook. Depois da linda viagem de 4,00 horas cheguei a Guimarães. Na viagem anterior tinha me hospedado no Hotel das Trinas, onde fui me hospedar por aquela noite, na manhã seguinte saí para procurar a Secretaria da Universidade do Minho, que me encaminhou para o Setor de Alunos estrangeiros, para assumir a reserva do meu apartamento no Alojamento, externo ao Campus da Universidade. Em seguida fui conversar com o professor Said, mostrei o trabalho que seria apresentado no Seminário, juntamente com todas as maquetes de madeira balsa e o bloco original, ele ficou satisfeito e disse que eu tinha ido além da sua expectativa com o design dos blocos e achou o bloco da obra uma verdadeira maravilha. Somando minhas despesas em Guimarães, gastava 300€ de aluguel, 150€ de alimentação na universidade e nos restaurantes, com viagens, 50€, visitando França, Itália e Espanha. Jantando em casa, gastava 500€, somando um valor equivalente a R$ 1.250,00, metade dos R$ 2.500,00 que gastava com a minha moradia em São Paulo. 8 - Participação no IV SIACOT Seminário Íbero-Americano de Construções com Terra Dois dias antes de iniciar o Seminário Internacional, viajei para a cidade do Porto, depois até Lisboa para pegar um ônibus para Évora, de onde saia um ônibus para Monsaráz. Chegando ao Convento de Orada, um espaço maravilhoso que tinha uma arquitetura muito antiga, totalmente restaurada, apresentando a implantação dos seus espaços em torno de um jardim de forma quadrada e na parte externa, nos fundos do Convento, uma parte era um jardim e uma parte livre, onde encontrei os participantes iniciando a parte prática do Seminário: a preparação da mistura de terra, a prensagem dos tijolos, a construção de uma pequena parede com alvenaria, e a construção de uma pequena cobertura em arco. Depois de concluídos os trabalhos práticos, a coordenadora do evento me levou até o hotel indicado pela Secretaria do Seminário que eu tinha feito a reserva, nesse caminho a arquiteta Mariana, coordenadora do evento, me informou que depois da abertura oficial feita pelas autoridades portuguesas, o meu trabalho técnico foi escolhido para fazer Abertura e Primeira Apresentação Técnica do III Seminário Internacional de Arquitetura de Terra, uma notícia que me deu muita alegria e satisfação, ao mesmo tempo, muita tensão. A decisão da coordenadora se deu ao fato da informação que ela tinha sobre o meu trabalho profissional, o meu currículo apresentava maior quantidade de área construída de arquitetura ecológica do Brasil e a segunda metragem construída no mundo. Precisava me preparar para a apresentação da manhã seguinte, repassar o texto e imagens, conferindo alguns detalhes para a palestra, estava eufórico com a notícia de da Abertura do Seminário Internacional. Na manhã seguinte, depois do café da manhã, coloquei uma linda gravata e meu terno de coordenador e fui até a praça, no local marcado pela secretaria do seminário, para aguardar o ônibus que levaria todos os participantes do seminário, que estavam alojados nos demais hotéis localizados no caminho do centro da cidade até o Convento de Orada. A cada parada do ônibus subiam vários participantes, encontrei diversos amigos, alguns de São Paulo, o Márcio Hofmann, um ex-aluno de Santa Bárbara d´Oeste, o Norberto, professor da Faculdade do Recife, Jorge Miguel, professor português que conheci no congresso de Coimbra, a Célia Alves, pesquisadora do Ceped, da Bahia, e Hugo Houban, professor do Craterre, de Grenoble, França, que aceitou meu convite e veio participar no Workshop Internacional sobre Arquitetura de Terra apresentado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, evento que organizei logo após a apresentação da minha Dissertação de Mestrado. Após concluir a minha inscrição, peguei os Anais do Seminário e o crachá, me acomodei na plateia e no horário marcado, as autoridades, devidamente apresentadas pela coordenadora do evento, Arquiteta Mariana, deu início à cerimônia de abertura do seminário, concluída a cerimônia, em seguida deu início à apresentação dos trabalhos técnicos, chamando pelo meu nome para fazer a primeira apresentação técnica, informando o título do meu trabalho. Eu estava nervoso, tenso e ansioso, pois nunca tinha apresentado um trabalho num seminário internacional, estava literalmente apavorado. No congresso de Coimbra o trabalho foi apresentado pelo outro professor; como sempre, estava muito seguro de mim, me encaminhei para o palco coloquei o arquivo para iniciar a apresentação das imagens do meu trabalho, que deveria ser concluído em 25 minutos. Depois de me apresentar, iniciei as explicações das imagens e conseguindo apresentar em 27 minutos, fiquei sentado ao lado na mesa, para ver mais duas apresentações, quando finalizamos as apresentações, o apresentador abriu para as perguntas, respondemos todas as perguntas sobre os trabalhos, e demos por encerrado os trabalhos daquela manhã. Estava ainda muito nervoso, fui para a área do almoço, mas antes passei pela sala de exposições para ver expostos o meu bloco compactado, as maquetes dos blocos de madeira balsa, e o painel, agora montado, com um texto síntese e fotos dos trabalhos construídos que foram utilizados na minha apresentação. Coloquei o meu cartão de visitas nos blocos e nas maquetes. Chegando pelo outro lado da sala pude perceber diversas pessoas montando maquetes com meus pequenos blocos e analisando o bloco original de BTC, que era, de longe, o mais bonito e eficiente dos blocos que estavam lá expostos. O Seminário se prolongou por mais três dias da forma mais tranquila possível, conheci diversas técnicas de construção para áreas com terremotos e diversos projetos bem preparados para utilização de taipa e adobe. Encontrei outros arquitetos brasileiros, alemães, italianos e portugueses, no período da manhã do último dia de apresentação dos trabalhos técnicos, a coordenadora do evento apresentou a arquiteta que coordenaria o próximo Seminário Internacional de Arquitetura de Terra, e seria na América do Sul, mais especificamente em Buenos Aires, na Argentina. Na tarde que terminou o Seminário, voltei para o hotel, onde deixei minha bagagem maior e saí de Monsaráz para Évora, onde pegaria um ônibus para Madri e depois chegar à Milão, próxima da cidade onde iria buscar a Certidão de Nascimento do meu avô. Depois de 6,00 horas de viagem, cheguei à Madri, com lindo entardecer, desci e na parte interna da enorme rodoviária, fui procurar a passagem para Milão, de trem ou de ônibus, e descobri que era muito caro para chegar até Milão, em torno de 120,00, fazendo as contas imaginei mais €150,00 para voltar. 9 - Viagem à Itália Lembrei as palavras da Perla, arquiteta argentina do seminário, que estava no mesmo hotel, me informando que poderia voar para Itália, com passagem econômica comprada pela Internet. Como estava com pouco dinheiro, resolvi voltar para Guimarães. Fui procurar o mesmo ônibus que cheguei, para voltar até Èvora, pegar a bagagem em Monsaráz e depois viajar para Guimarães. O primeiro ônibus sairia ás 7,00 horas da manhã seguinte, comprei a passagem, mas essa decisão me obrigaria passar a noite na rodoviária de Madri, eu e mais uma centena de passageiros. Ás 7,00 horas o onibus parte para Évora, numa linda viagem de volta à Monsaráz. Chegando em Évora, peguei o onibus para Monsaráz, fui até o hotel que tinha deixado a bagagem, parei no caminho para comer um pequeno almoço, depois voltei para Évora e depois embarquei para Lisboa. Desci na Gare Oriente, onde fui jantar num dos restaurantes do Shopping, depois fui até outra rodoviária procurar um onibus para a cidade do Porto, de onde tomaria o trem maravilhoso que me levaria até Guimarães. Chegando em Guimarães descobri na rodoviária passeios para Itália, onde encontrei passagem Guimarães / Nice / Milão e Milão / Nice / Guimarães, que custava 99,00€ e sairia no dia seguinte, um sábado, 10 horas da manhã e chegaria em Milão no domingo por volta das 18,00 horas, comprei a passagem, em seguida passei pelo Supermercado do Shopping Continente que está localizado ao lado da Rodoviária para comprar yogurtes, pães, queijos doces para preparar lanches para me alimentar nas diversas paradas do ônibus, durante as 30 horas de viagem, que pudesse na levar na minha pequena mala marrom, juntamente com algumas trocas de roupas e artigos de higiene, e poder economizar alguns euros. No sábado, como sempre acontece, pontualmente as 10,00 horas a viagem iniciou e o ônibus começou a percorrer a maioria das cidades de Portugal, para pegar pasageiros, era uma verdadeira Rota de Turismo Potuguesa, inclusive com paradas técnicas e para alimentação. Descobri que não era só eu que fazia o lanche fora do Restaurante determinado pelo motorista do ônibus, mais da metade dos passageiros desciam com seus sanduiches e bebidas. Em todos os locais que os onibus param, existe um lugar especial para os passageiros que preferem lanchar fora do restaurante indicado pelos motoristas. Depois de atravessar Portugal, chegamos na fronteira com a Espanha, que é sempre uma passagem complicada, além dos passaportes, os guardas trazem os cachorros para dentro do ônibus, tiraram 6 malas do bagageiro, escolhem um passageiro e pedem para ele abrir a sua bagagem, examinando tudo. Não encontraram nada em nenhuma mala, apenas fizeram um dos passageiros abrir sua bagagem, sem nada encontrar, liberam o ônibus, que entra na cidade da fronteira e para num posto para alimentação por quase uma hora, depois segue viagem passando por algumas cidades como Salamanca, Málaga, Sevilha, Granada, Madri, Murcia, Valência, Saragoza e Cadiz, entre outras. Na viagem anterior, quando tinha ido de Évora até Madri, os guardas da fronteira depois de recolher e examinar os passaportes, separam 3 passageiras brasileiras e fizeram descer do ônibus, depois de algum tempo, os guardas liberam o ônibus que segue viagem sem as passageiras escolhidas. Já na Espanha, quando paramos para fazer o lanche, perguntei ao motorista o destino das passageiras, ele me respondeu que ficaram detidas para serem deportadas, estavam sem o visto de entrada para a Espanha. Por volta das 3,00 horas da manhã, paramos no Posto Rodoviário próximo da fronteira da Espanha com França, ao lado do Posto de Alimentação, onde todos os passageiros, dos ônibus, oriundos das mais diversas partes da Europa, fazem a troca de ônibus, gerando uma enorme confusão e muitas horas paradas, mas que no final das contas, todos descobrimos o ônibus certo para o nosso destino. O ônibus que estava passaria pelas cidades de Lyon, Cannes, Marselha, fazendo uma parada em Nice para troca de ônibus e depois sairia para Toulouse, Lion, Cannes, Marselha, na França, e chegava até a fronteira da Itália, passando por Gênova e depois Milão. Chegamos em Milão por volta das 18,00 horas, junto ao terminal metroviário da Estação Ferroviária de San Giovanne, com alguma dificuldade para comprar a passagem de metrô na máquina automática, com a ajuda de um passageiro, consegui chegar na Estação Ferroviária Central para verificar horário e comprar a passagem para Cremona. O trem sairia ás 6,00 da manhã, e a passagem custava só 12,00 €, muito feliz por custar mais barato voltar à terra do meu avô, comprei a passagem. Com a passagem na mão, mais relaxado, pois estava com 100,00 € para o pagamento da estadia em Guimarães e 220,00 € para as passagens de ida e volta a Cremona, além das refeições e viagens para o aeroporto, sobrando 194,00 €. Fui para o centro da cidade procurar a pizzaria que já conhecia, e fui me deliciar com a pizza “quattre fromages” maravilhosa e beber a cerveja mais deliciosa ainda, devidamente alimentado, fui andando até a Galeria Vittório Emanuelle, chegar até a Piazza Duomo, onde está a Catedral Duomo de Milão e o Teatro Scala, que é meu ponto preferido em Milão. Como estava muito frio, procurei a Rinascente, um Grande Magazine comercial localizado na Piazza Duomo, de onde se pode comer vendo as esculturas da Catedral Duomo, entrei e pedi um “cioccolato” quente, leite com chocolate, mas de forma muito densa, parece leite condensado e um brioche, fiquei admirando as pessoas e as vitrines das lojas de moda e de design. Voltei passeando até a Estação Ferroviária Central, cheguei por volta da meia-noite, no interior da Estação Ferroviária percebi que os guardas começavam a fechar as portas, diferente da Estação de Madrid, as pessoas que estavam dentro poderiam permanecer abrigados do frio e da chuva fina que caia, dessa forma passei a noite andando, sentando e lanchando, até o dia amanhecer. Ás 5,30 horas o trem que pegaria para Cremona encosta no binário 7, depois de convalidar o bilhete, embarquei, estava tão ansioso para chegar que fui o primeiro a embarcar no vagão indicado e procurar um sanitário, pois os sanitários da Estação também fecham à meia noite, em seguida localizei o meu assento. Pontualmente ás 6,00 horas o trem começa a se movimentar, dando início à minha viagem para buscar o meu documento. Pela informação do painel da Estação Ferroviária Central, Cremona seria a quinta estação em que o trem deveria parar e que, devido à escuridão da noite de inverno, não se não conseguia ver o nome da estação em que o trem estava parando, fiquei então contando as estações e na quinta estação desci, já na plataforma descobri que a cidade era Lodi e não deu tempo de voltar ao trem. Fui até a bilheteria e me informaram que agora deveria pegar um outro trem com direção para a cidade de Piacenza, onde desceria e esperaria um outro trem para Torino e poder descer em Cremona. Seguindo as instruções acabei chegando na estação de Cremona por volta das 10,00 horas, saindo da estação juntos aos demais passageiros, estava arrepiado e muito emocionado, olhava para todos os lados, procurando não sei o que, mas estava me identificando com a cidade que um dia assistiram meus bisavós partirem com meu avô no colo. Uma emoção inenarrável e inigualável. Na banca de jornal da praça fui perguntar como deveria fazer para chegar a Comune Sesto ed Uniti, me indicaram o ônibus que sairia do terminal rodoviário da cidade por volta das 11,00 horas e, antes de subir, perguntei ao motorista onde desceria para chegar na Questura de Sesto ed Uniti, me informando que era na periferia da cidade, depois de percorrer a cidade, chegamos à Sesto ed Uniti, o motorista mostrou o ponto, que era encostado ao prédio, acabei chegando na Questura por volta das 11,30 horas, faltando alguns minutos para fechar para o almoço, depois só abriria as 16,00 horas. “Doppo pomerigio”. Agradeci ao motoista, desci e fui procurar a seção de documentação para pedir o “Estratto dei Registri degli Atti di Nascita” do meu avô, assim que cheguei me atenderam, enquanto a senhora pegava o livro fiquei lendo o aviso no quadro: A Comune Sesto ed Uniti tinha 282 habitantes, e naquele ano, tinham morrido 17 pessoas, aconteceram 32 casamentos e nasceram 28 crianças. Não havia passado um minuto, a funcionária procurou o livro, imprimiu a cópia e me entregou o tão sonhado documento. Sorrindo de felicidade comentei com a funcionária em meu italiano misturado com espanhol e portugues, que tinha viajado 13 horas de avião do Brasil até a Lisboa e mais 30 horas de ônibus de Portugal até Milão e 3 horas até Cremona, e 2 horas até a Questura da Comune, e 40 segundos para a funcionária achar o livro, tirar uma cópia e me dar o tão sonhado documento. Ela sorrindo disse: “A viaggio per documentazione sono cosi”. Com o documento na mão, conferindo o nome do meu avô, perguntei quanto custava aquela cópia, ela sorrindo me respondeu: “Niente piú”, em portugues seria o mesmo que não custa nada, com lágrimas nos olhos de emoção, agradeci muitíssimo: “Mile grazie signora, mile grazie” e fui saindo devagarzinho olhando e admirando o documento, já na porta da rua, dobrei e guardei na minha maleta e fui andando em direção ao ponto de ônibus, saboreando aquele momento, fiquei imaginando como seria quando pegasse a Carta D´identitá e o Passaporto Italiano. Ainda fui dar uma volta pelos arredores da cidade, era uma pequena cidadezinha do interior, pouca gente, lindas casinhas, muito limpas e arrumadas, pequenas lojas, alguns pequenos restaurantes, sentei numa das praças em frente a uma igreja, admirando a paisagem urbana, comendo um dos últimos lanches que tinha levado e depois fui para o ponto do ônibus que me traria de volta para a estação de trem no centro da cidade. Fui procurar um hotel, queria dormir na cidade, e aproveitei para dar uma volta na cidade, que era bem maior e muito mais bonita do que o Sesto ed Uniti, localizada na sua área rural, mas a chuva ficou mais forte, além do frio que fazia, impedindo que o meu passeio fosse maior pelo centro, interrompi a busca do hotel, voltei correndo para a estação de trem, para pegar o primeiro trem que me traria de volta até Milão, onde cheguei as 19,00 horas. O frio era o mesmo, mas não estava chovendo, era preciso encontrar um hotel, para tomar um bom banho, descansar e dormir bem, pois ainda teria um dia inteiro e uma noite em Milão, o ônibus para Guimarães sairia só na manhã do outro dia. Depois de percorrer diversos hotéis, encontrei um hotel de 40€ a diária, depois de um belo banho, jantei um o último lanche que tinha levado, feliz, praticamente desmaiei de sono. Pela manhã, acordei com o barulho característicos dos bondes que percorrem as ruas de Milão, além das pessoas conversando na rua, mesmo assim fiquei na cama refazendo toda a minha viagem de vinda e imaginando como deveria ser a viagem de volta, admirando o documento italiano do meu avô, muito feliz levantei por volta das 10,00 horas, para tomar outro banho e deixar o hotel. Já na rua, fui até um pequeno mercado que tinha ao lado do hotel, onde comprei yogurt, queijinhos e alguns biscoitos e fui passear pela cidade, sempre em direção à Piazza Duomo, agora estava mais leve e feliz. Resolvi almoçar uma macarronada com vinho, num dos Restaurantes do Magazine Rinacente, ao lado da Piazza Duomo, aonde voce pode montar seu prato, depois fiquei passeando entre as lojas que existem ao redor da Catedral de Milão e nas grandes avenidas que ligam até o Parque que está localizado o Castelo Sforzesco, sempre olhando vitrines de design de móveis e roupas de inverno, tinha toda a tarde e a noite para voltar à estação de San Giovanni para procurar o ônibus que me traria de volta à Guimarães. No começo da noite peguei o metrô para Estação do Terminal Rodo-Ferroviária de San Giovanne, para esperar a saída do ônibus, preocupado com o abrigo daquela noite, pois o ônibus sairia ás 6,00 horas da manhã da praça do terminal, fui procurar alguma pensão, hotel, pousada ao redor da estação, e não encontrei nada parecido, muito menos uma pizzaria para poder jantar. Encontrei um supermercado para fazer algumas compras, visando fazer meu jantar e refazer os lanches para a viagem de volta. À meia noite, como era esperado, o chefe da estação veio, muito educadamente, me convidar para sair, pois ele fecharia as portas e só abriria às 5,00 horas da manhã, tive que sair e ficar andando pelas ruas para espantar o frio e me escondendo da chuva fina sob as coberturas dos pontos de ônibus, andando em volta da praça até amanhecer, contando os minutos que faltavam para a estação abrir. Descobri quantos passos tem uma volta, os minutos que levava para completar uma volta ao redor da praça onde ficavam os pontos de ônibus. Quando parava a chuva, passeava pelas ruas em torno da praça. Às cinco horas da manhã, finalmente a estação ferroviária abriu, e a lanchonete começava a servir os passageiros, depois de tomar um “cioccolato” e comer o brioche ainda quente, pude perceber os ônibus encostarem ao longo da praça e depois de muito procurar, fui me esconder da chuva dentro do ônibus que me levaria para Nice, aonde pegaria outro ônibus para Guimarães. Viemos em quatro passageiros dentro do ônibus, passamos pelas encostas de Milão, assistindo amanhecer nas plantações cobertas com plástico transparente, numa paisagem muito bonita, em seguida chegamos a Gênova, parando na fronteira francesa, bem menos agressiva que a fronteira espanhola, depois dos guardas conferirem os passaportes, a viagem continuou para Nice, na França, onde deveríamos trocar de ônibus. Ao marcar a minha passagem percebi que a grande maioria dos passageiros que embarcaria comigo era de origem polonesa, alguns outros eram italianos, franceses e portugueses. Nessa viagem acabei vendo algo que me deixou, no mínimo, assustado. O ônibus depois que sai de Milão, passa por Genova, e parava na fronteira Itália e França, onde os passageiros trocam de ônibus. Nessa viagem os companheiros de viagem eram, na sua grande maioria, poloneses, e no ônibus existia uma TV com videocassete, que foi ligada para colocarem um filme, que para minha surpresa tinha uma dublagem diferenciada, uma mesma voz masculina ficava transmitindo o filme, isto é, ele fazia a voz do homem, da mulher, da criança, do velho e de qualquer outro personagem que surgisse no filme, em polonês, sem legendas ou som. Isso aconteceu nos dois filmes que passaram, não havia música ou nenhum outro som a não ser a fala do homem que de certa forma “transmitia” a história do filme. Fiquei imaginando que poderia ser censura ou falta de técnica para fazer a tradução, mas no aquilo era, no mínimo estranho. A viagem previa uma troca de ônibus em Nice, onde também havia parado na viagem de vinda que teve duas horas para pegar o outro ônibus, devido ao pequeno tempo, fiz uma pequena excursão para conhecer aquela parte da cidade. O ônibus para Guimarães iria demorar 5 horas para sair, dando tempo para ver o outro lado da Rodoviária que ainda não tinha visto, e descobri um local maravilhoso, um bairro onde todas as casas tinham se transformaram em pequenas lojas de comidas, roupas, objetos de artesanato, jogos, produtos importados, roupas velhas e ainda tinha uma feira ao ar livre no espaço interior ao pequeno bairro. Estava maravilhado com as imagens das lojas e todas aquelas pessoas andando ou sentadas comendo e conversando, fiquei passeando, sem me dar conta da garoa que caia, até encontrar uma Boulangerie, onde se vende pães, queijos e doces, comprei uma baguete, um queijo e um doce, fui ao lado e comprei uma meia garrafa de vinho “nacional”, e saí passeando, sob a chuva fininha, comendo, bebendo e admirando as lojas, os artigos expostos, as pessoas e a feira de peixes, frutas e legumes. Resgatava meus tempos que morava em Paris. Os franceses adoram frutos do mar, encontrei todos os que eu conhecia e outros que não tinha visto: ostras gigantes, lulas, polvos, camarões de todos os tamanhos e lagostas gigantes, mas estava feliz comendo o meu pão, queijo e vinho, até voltar para a estação pegar o ônibus que passaria ainda por Cannes, Marselha, Toulouse, Bordeaux e Lyon entre outras lindas cidades francesas. Depois de trocar de ônibus na fronteira da França, entramos na Espanha, passando por Salamanca, Sevilha, Murcia, Madrid, Valência, Granada e Cádiz, entre outras lindas cidades espanholas, até voltar a fazer o tour pelas cidades de Portugal chegando à Rodoviária de Guimarães no outro dia por volta das 14,00 horas. Fiquei ainda mais quatro dias trabalhando na universidade em Guimarães, esperando a viagem de volta. No dia anterior à saída, fui me despedir do professor Said e das pessoas da minha sala, depois de pagar a minha estadia e combinar a entrega das chaves, fiz um lanche à noite, dormi e ao levantar estava chovendo, mesmo assim saí do apartamento e fiquei aguardando a chuva passar no vão coberto da entrada do prédio, assim que diminuiu a chuva, fui andando até a Rodoviária esperar o ônibus para Lisboa que saia ao meio dia, precisava chegar a Lisboa um pouco antes das 18,00, em tempo de confirmar a passagem na loja da Swissair. O avião sairia às 7,00 horas da manhã do dia seguinte, quer dizer, passaria outra noite andando pelo aeroporto, ocupando os diversos bancos de espera, conhecendo os espaços que já tinham os ornamentos das festas natalinas e encontrando todos os passageiros que embarcariam antes que eu, já estava ficando acostumado com a cena do aeroporto vazio. Amanheceu, novos passageiros vão chegando, devolvendo o ambiente mais comum e normal de um aeroporto, vozerio e barulhos dos passageiros em busca do chek-in e do local de embarque, as tristezas das despedidas de uns e as alegrias das chegadas de outros. Cheguei à Zurique por volta das 10 horas, me encaminharam para outra parte do Aeroporto, que não tinha nenhum supermercado para comprar o suco de cenoura com beterraba, nem avelãs, então fui procurar por algum lanche, e descobri que um sanduiche custava cerca de R$40,00, mais uma cerveja de R$ 15,00, o que me fez desistir, acabei almoçando e lanchando duas barras de chocolate que custava R$ 8,00 a barra. O aeroporto é maravilhoso, totalmente iluminado pelos vidros que tem em todas as suas paredes externas, de onde se podia ver de um lado, a linda imagem da cidade, e do outro lado, a imagem maravilhosa dos Alpes. Fiquei me deliciando com o chocolate e com as imagens da cidade que o aeroporto oferecia. Por volta das 22,00 horas, esse lindo ambiente começa a se transformar com os passageiros brasileiros que vão chegando lentamente e criando um ambiente mais brasileiro e pouco silencioso e menos bonito. O avião saiu à meia noite de Zurique. Depois do convite recebido da universidade portuguesa, e com a documentação da cidadania pronta, resolvi programar minha mudança de São Paulo para Guimarães, de forma rápida desmontei o apartamento em São Paulo, doando móveis e roupas para instituições de caridade e levando coisas mais importantes para o apartamento de minha filha, em São Paulo. Comprei passagem para Milão, pela KLM, que obriga os passageiros a entrar na Europa por Amsterdan, num domingo à noite, embarquei para Itália para conseguir minha cidadania italiana, que permitiria ficar morando em Guimarães como cidadão europeu. Com alguns euros e a documentação necessária, embarquei para Itália, seguindo todos os passos sugeridos para poder entregar a documentação de cidadania. Depois de conhecer Amsterdan, conseguiu embarcar para Milão, pela Alitália, assim que cheguei à Milão, eram quase 13 horas, procurei pelo ônibus especial que me levaria até a Estação Ferroviária Central de Milão, e depois de 1 hora e 50 minutos estava no trem que me levaria até a cidade de Perugia, onde deveria fazer o Permesso de Soggiorno, um dos documentos que autoriza o turista a ficar na Itália por três meses para fazer a Residência, e depois conseguir pegar o Atestado de Residência para poder dar entrada na documentação dos meus familiares. A viagem de trem para o sul da Itália é sempre maravilhosa, passando pelas estações de Florença, Bologna, Bari, Terontola, Nápoles, Roma, entre outras lindas cidades italianas, gastando 40,00 € na passagem de trem, para a viagem de ida. Finalmente depois de 8 horas, entre viagem, paradas e saídas, chegando até a estação de Perugia por volta das 23,30 horas. Encontrei dois hotéis, um bem em frente à estação, mais simples e econômico, que não tinha vaga, e outro hotel, três quilômetros mais distante, que conseguiria “arrumar” uma vaga, por 70 €, que me recusei a pagar e fui voltando para a estação do trem. Já passava da meia noite, estava muito frio, com ventos gelados e muita garoa, voltando para a estação do trem onde tinha desembarcado, para tentar passar a noite em algum lugar coberto, esperar amanhecer e tentar chegar ao alojamento da Universidade para os Estrangeiros. Em frente à estação, tinham algumas pizzarias, que, devido ao horário, estavam fechando suas portas, mesmo assim parei e perguntei para uma das pessoas, num italiano meio misturado com espanhol, se ele conhecia algum hotel mais econômico ou um albergue, ele entrou no restaurante e logo depois veio com outra pessoa, que se apresentou ser o dono da pizzaria. Ele falava muito bem o idioma espanhol, dizendo que deixasse por sua conta, ele pediu um tempo e, logo depois que ele fechar sua pizzaria, me levaria no seu carro até a Universidade para Estrangeiros, que era próxima dos apartamentos aonde eu iria ficar hospedado, mas encontramos tudo fechado e não havia ninguém para dar qualquer tipo de informação. Afinal era mais de meia noite. O simpático italiano ainda me levou para dar umas voltas, pelas redondezas da universidade, na tentativa de encontrar algum hotel e não encontramos nada, todos os hotéis já estavam lotados. O simpático pizzaiolo italiano sugeriu que me hospedasse num hotel vizinho dali, que ficava numa estrada, que era o caminho para sua casa, muito contente, aceitei a carona, e fui me hospedar no hotel. Mesmo assim, tive que pagar 40,00 € pela diária, logo pela manhã, como o italiano deveria voltar para a cidade, para trabalhar na sua pizzaria, ele foi me buscar no hotel, aonde ele sempre tomava café, e levou-me de volta para Perugia, me deixou em frente à universidade, para ver a documentação, os apartamentos e acertar minha estadia em Perugia. Despedindo do pizzaiolo e agradecendo muito o seu empenho, ele me responde que estava acostumado com esse tipo de situação, e que, como sempre ele teve ajuda quando ele viajava, e sabia como era difícil enfrentar aquela situação, me contando sua passagem pelo nordeste do Brasil. Depois da despedida entrei na universidade e fui fazer a inscrição para a entrevista de solicitação do Permesso de Soggiorno, e depois fui até o escritório responsável pela locação dos apartamentos, indicado pela universidade. Não havia ninguém no escritório, eram mais de 11 horas da manhã, aproveitei e fui ver alguns apartamentos, que na verdade eram casas ou sobrados, e encontrei outros brasileiros que estava hospedado no condomínio, falei com o Leonardo, natural de Vitória do Espírito Santo, que estava aguardando sua documentação, ele já tinha conseguido o seu Permesso de Soggiorno em Milão, que é a melhor alternativa para dar o primeiro passo para conseguir a cidadania. Leonardo tinha feito a sua Residenza, em Perugia, que é o segundo passo, quando você apresenta na Comune um contrato de aluguel, comprovando que você mora na cidade, e depois fica aguardando o Vigile, que é o fiscal da Comune, que vem na sua casa comprovar a veracidade do contrato, uma vez comprovado a sua residência, você pode solicitar o Atestado de Residência e de posse desse documento, a Comune aceita receber toda a documentação dos seus familiares para conseguir sua cidadania. Depois de entregar a documentação, era preciso aguardar 45 dias, aproximadamente, tempo em que a documentação, depois de passar pelo Brasil, fica concluída. Também informou que o tempo de espera para pegar o Permesso de Soggiorno em Perugia era de 60 dias, depois mais 25 dias para conseguir a Certidão de Residência e mais 45 dias de espera da preparação da documentação para pegar a cidadania. Cerca de 130 dias. Leonardo conseguiu seu Permesso de Soggiorno na cidade de Milão, deu entrada na documentação num dia e foi retirar no dia seguinte, dizendo que Milão era a única cidade na Itália, que conseguia entregar o documento naquele prazo, só tinha um pequeno problema, vem escrito no documento, que você não pode morar ou trabalhar na Itália. Agradecendo pelas importantes informações, voltei para a Universidade para Estrangeiros e perguntei qual seria o tempo de espera para receber o Permesso de Soggiorno, e a resposta foi de 60 dias, agradeci e resolvi voltar para Milão na mesma hora. Fui procurar um ônibus que me levasse até a estação de trem aonde tinha desembarcado. O ônibus indicado passava pela praça onde se localizava a universidade, e percorre todo o centro histórico da cidade, que é, por sinal, muito bonito, com suas lindas e maravilhosas igrejas, castelos, monumentos, arcos e as indescritíveis ruas estreitas, com muitos carros estacionados. Não se conseguia ver perfeitamente a arquitetura das casas, devido a uma imensa quantidade árvores e de gente jovem, que caminhavam pelas ruas, por onde você olhava, encontrava os espaços abarrotados de estudantes. Perugia é uma cidade estudantil. Comprei a passagem para o primeiro trem que passaria por Perugia e me levaria para Milão, e pelo horário do trem, nem deu tempo para almoçar ou comer um lanche, ou pelo menos me despedir do simpático italiano, que tanto o ajudou na noite anterior. Queria chegar à Milão o mais cedo possível. Peguei o trem para Terontola, depois outro trem para Florenza e depois, finalmente para Milão. Na estação de Terontola, em que é preciso trocar de trem, comprei um sanduíche e uma cerveja, para almoçar no trem, chegando à estação de Milão por volta das 19 horas, depois de muito procurar encontrei um hotel com uma diária de 50€, que era o custo mais econômico encontrado, só por aquela noite, pois no dia seguinte, quando começava a Feira de Milão, o preço seria o dobro. Depois de me instalar, tomar um bom banho, fui jantar aquela deliciosa pizza em pedaços e tomar um vinho, voltei ao hotel e fui deitar, eram quase 22,00 horas, pedi toda ajuda possível, ao plano espiritual, e fui dormir, fiquei pensando em toda aquela situação. Concluindo que a melhor forma de conseguir o Permesso, a Residenza e o Atestado de Residenza, para poder encaminhar a documentação dos parentes, seria procurar uma Comune menor e vizinha de uma cidade grande, sem tantos estudantes. Com isso, algumas mensagens que vieram do plano espiritual que me acalmaram, depois de conseguir o Permesso de Soggiorno em Milão, que deveria ser em um dia, procuraria uma Comune menor para conseguir acelerar o processo. Dormi mais tranquilo. Pela manhã acordei, tomei um bom banho, arrumei minha pequena mala marrom para pequenas viagens, com todas as condições de passar alguns dias fora, e saindo do hotel, pedi para o gerente guardar minha mala maior, que pegaria alguns dias depois, e me dirigi para Questura de Milão, no endereço que o Leonardo tinha dado, cheguei lá por volta das 10 horas da manhã. Não era a Questura, e sim o Departamento de Imigrazzione, que na fila e logo atrás de mim surge um casal meio estranho, ele com uma idade em torno de 35 a 40 anos, mais ou menos bem vestido, ela, mais velha, não muito bem vestida, mas conversando em português, perguntei se eram brasileiros, disseram que sim, e me informaram que estavam em Milão para trabalhar, confirmando que, na Itália, só em Milão haveria condições de se pegar o Permesso de Soggiorno no mesmo dia. Depois de alguns dias, “morando” na Comune, poderia conseguir o Atestado de Residência, apesar do texto escrito no documento, pois havia uma lei italiana, que autoriza o turista, que vem buscar a documentação da cidadania, a morar e trabalhar, e sendo assim, é possível morar e trabalhar na Itália, mas para isso eu precisava contratar uma pensão, para me alojar, com alimentação, e o dono da pensão faria os contratos de aluguel, como se morasse ali, necessários para que se pudesse pegar os Permesso de Soggiorno e o Atestado de Residência. Havia outra preocupação que a minha advogada tinha alertado: pelas leis italianas, qualquer pessoa pode pedir o Permesso de Soggiorno, somente até 8 dias depois de entrar na Itália. Depois disso, será preciso viajar para um país fora da comunidade europeia e entrar novamente na Itália. Perguntei para o Luiz Alberto, meu novo amigo brasileiro, ainda na fila do Departamento de Imigração, qual era preço que a pensão cobrava, me responde ele que eram 220,00 € por mês, para dormir e mais 100,00 € por mês, pela alimentação. Além disso, cobrava 200,00 € para fazer o contrato de moradia, registrado na Comune, necessário para solicitar o Permesso, e 200,00 € para solicitar o Atestado de Residência, ou a Inscrição Anagráfica. Fazendo as contas rapidamente, achei que valia a pena, pois ficaria menos tempo na Itália, gastaria menos com hospedagens e poderia ir para Portugal mais depressa. Manifestei a vontade de conhecer o dono da pensão, suas acomodações e conversar com ele para aceitar a proposta, que era muito melhor do que a sugestão de ir para Perugia, esperar em torno de 85 dias para conseguir entregar a documentação, e 130 dias para pegar a cidadania. Luiz Alberto me levou de carro para a pensão, que na verdade era um apartamento localizado em Trezzano Sul Naviglio, uma cidade localizado ao lado de Milão, me apresentou o dono da pensão, Gilson, um brasileiro que tinha morado no Paraná, e tinha se mudado para Milão, fazia alguns anos. Encontrei na mesma pensão, outros brasileiros que estavam na situação semelhante à minha, depois do almoço, Gilson me levou para fazer o registro da minha hospedagem naquela cidade, uma das documentações exigidas pela Questura de Trezzano. À noite, por volta das 23hs, Luiz Alberto me levou até a fila de espera da senha para ser atendido no dia seguinte no Departamento de Imigração de Milão. A fila, que parecia ser do INSS, naquele horário já tinha 13 pessoas na nossa frente, algumas com cobertor e dormindo, outras sentadas com uma barraquinha para a proteção do frio e da chuva, e assim ficamos na fila, até ás 7 horas da manhã, quando abriria o Departamento para entregar a senha. Durante a madrugada, à medida que as horas iam passando, foi chegando gente, chegando gente e chegando gente, de taxi, ônibus e metrô, e pela manhã, se podia contar mais de 120 pessoas até o final da fila, aguardando para conseguir a senha. Gente de todas as cores, raças e nacionalidades, além de muitos brasileiros. Algumas horas de conversas na fila para ficar sabendo o motivo que levou Luis Alberto naquele Departamento, pagou a quantia de 8.000,00 € para se casar com uma mulher brasileira, que já tinha a cidadania italiana, aquela mesma que estava com ele na fila, para que ele pudesse conseguir, através do casamento, a sua cidadania italiana, pois ele não tinha origem italiana. Era outra maneira de se conseguir a segunda nacionalidade. Depois de uma longa noite de frio e muito cansaço, pois estava em pé desde a minha chegada, ouvindo muitas conversas, conhecendo vários outros brasileiros, espanhóis, peruanos, chilenos e bolivianos, africanos, conseguindo conversar em espanhol, além das outras pessoas, com outras nacionalidades, que não se sabia que idioma falava, mas que estavam na mesma situação que eu, em busca do Permesso de Soggiorno para conseguir a sua cidadania. Enfim amanheceu, e a uma garoa fria que caia desde a anoitecer, continuava, além dos ventos bem frios, ás 6,00 horas abria uma “padaria”, que fica ao lado do Departamento, fui juntamente com outros brasileiros tomar uma cioccolatta calda, comer um brioche, para esquentar o frio e acomodar a fome. Voltamos para a fila, o Departamento abriu pontualmente ás 7,00 horas, peguei a senha 13, entrei, saindo do frio e fiquei sentando no interior do prédio, para aquecer um pouco mais. Aquecido e descansado, e com a senha na mão, precisava completar a minha documentação, para ser atendido às 14,00 horas. Estava com todos os documentos exigidos pelo Departamento, só estavam faltando o seguro obrigatório, que é vendido na Itália, e um selo Bollo. Fui dar uma volta pelos arredores da cidade, procurando pelos bancos, para comprar o seguro, depois de correr metade da cidade, encontrei um escritório que faz o referido seguro, contra tudo, por 90 dias, pelo qual paguei 105,00€. Eram 10,00 horas da manhã, quando concluí a documentação, com muita fome, fui procurar um lugar para almoçar, na porta de saída do Departamento de Imigração, encontrei com duas pessoas conversando com o porteiro italiano, e percebeu que o porteiro entregou algumas senhas, no meio de muitas conversas e risadas. Convidei o Luis Alberto para almoçar uma pizza margherita e uma birra, que é a querida e velha cerveja brasileira, no Restaurante Farina e Pomodoro, paguei seu almoço, enquanto saboreava a pizza, ao lado de outras pessoas, ficamos sabendo que existem advogados que cobram até 500,00 € para fazer esse trabalho de documentação e o encaminhamento para obter a cidadania. Depois do almoço, com todos os documentos exigidos, fomos para o Departamento de Imigração, e ficamos aguardando a chamada do número da senha, descobrindo por que aquele cidadão, que pegou a senha ás 10,00 horas da manhã, foi atendido na minha frente, eram 12 pessoas chinesas, para pegar a sua documentação, em seguida chamaram a senha 27, me apresentei, fui entrevistado, apresentei toda a documentação exigida, entreguei todos os documentos e o funcionário me diz para aguardar ao lado, num outro guichê, onde seria chamado novamente. Trinta minutos depois, no outro guichê, chamaram meu nome e me entregaram o tão esperado Permesso de Soggionorno, no quarto dia depois que tinha entrado na Itália, meu primeiro documento italiano, fiquei muito feliz e emocionado, quase não estava acreditando. Na sexta feira, levantei, tomei café, queria ir buscar minha bagagem, mas era impossível sair para Milão, pois os ônibus estavam em greve, além de cair uma chuva fina, que durou o dia todo, fiquei andando pelo apartamento, fazendo palavras cruzadas e vendo televisão, um filme ou um jogo de futebol, voley, basquete, ou ainda programas da natureza que o pai do Gilson adorava. O pai do Gilson, era o homem que cozinhava na pensão, depois de outra noite mal dormida, amanheceu o sábado, tempo nublado, mas sem chuva e sem greve de ônibus, depois do café, perguntei como fazia para chegar até Milão, aproveitei e fui buscar a minha bagagem no hotel, aproveitei para passear de novo pela cidade de Milão, comprando doces e chocolates e depois voltei ao apartamento. No domingo de manhã, depois do café, fui dar uma volta, andando pela Comune de Trezzano Sul Naviglio em que estava “morando”, na segunda feira, fiquei fazendo pressão sobre o Gilson para fazerem o Atestado de Residência junto à Questura, que por alguma razão, dependia de outra pessoa. Na quarta feira, a Questura da Comune fechava às 12,00 horas, e para minha alegria, o Joelson apareceu na pensão ás 11,00 horas, para tomar um café, fui falar com ele, mas não daria tempo, pois a Questura da Comune tinha horários alternados, então decidimos marcar para o dia seguinte, na quinta feira, o mesmo dia que Joelson e o Célio, deveriam receber a visita do Vigile, fiscal da Questura da Comune, que viria conferir os seus endereços e sua moradia. Quando amanheceu quinta feira, levantei tomei um banho, depois do café e saí, juntamente com o Célio, e fomos até a Questura da Comune para fazer a minha Inscrição Anagráfica. Quando fomos atendidos, a funcionária italiana disse que, para me aceitar como morador daquela residência era necessário ser a mesma pessoa que tinha assinado o Contrato de Locação, o Joelson. Voltamos para o apartamento e fomos buscar o Joelson e o contrato de locação, e retornamos para a Questura da Comune. A Inscrição Anagráfica que fui fazer era para marcar uma data para o “vigile” conferir a minha moradia, que era no mesmo apartamento que o “vigile” naquela tarde, iria conferir as residências, do Joelson e do Célio. Antes que a funcionária italiana pudesse marcar a data da visita, sugeri para que o “vigile” que fosse conferir as residências do Joelson e do Célio pudesse conferir também a minha residência, uma vez que ele iria, naquela mesma tarde, conferir duas pessoas brasileiras, que moravam no mesmo apartamento que o meu, a funcionária parou, olhando para os lados, numa atitude de quem estava pensando e respondeu: “Vá Benne”. E colocou os meus documentos na mesma pasta do Joelson e do Célio. Voltamos para o apartamento eu, o Célio e o Joelson, para depois do almoço, aguardar o horário. Pontualmente, ás 15 horas, toca o interfone, era o “vigile”, uma mulher que veio para conferir a residência dos três brasileiros. Autorizamos sua entrada, ela subiu e foi conferir a sala, os quartos, cozinha e sanitários do apartamento, depois fez uma breve entrevista com cada um de nós, e disse que o Permesso do Soggiorno meu e do Célio, não permitiriam morar e nem trabalhar na Itália, essa frase estava escrito na base do documento. Argumentamos sobre a lei italiana, que dizia “Se for para pedir a Citadinanza, o turista pode morar e trabalhar”, a “Vigile” telefonou para seu superior e confirmou a informação, e disse que estava tudo em ordem. Naquela altura já estava branco de medo, respirei mais aliviado, quando a “vigile” estava se retirando, perguntei se poderia levar e apresentar minha documentação e dos meus parentes, na manhã seguinte, junto à Questura da Comune Trezzano Sul Navigle. A vigile disse que “si, cei possibile”. Outra noite mal dormida, mas desta vez, era porque estava muito mais feliz, pois sabia que iria sair do apartamento, no máximo no dia seguinte, pois não precisava mais ficar aguardando o Vigile para conferir minha moradia. Quando amanheceu, tomei um bom banho, um bom café, de posse da minha documentação, fui me apresentei na Questura da Comune. Estava eufórico. Ao dar entrada na documentação, outra funcionária me disse que era preciso fazer também o Atestado de Residência, mas poderia ser solicitado no setor ao lado, que me entregou em menos de 15 minutos. Voltei ao setor de Documentação para dar entrada dos documentos dos meus familiares. Todos os documentos foram conferidos letra por letra, linha por linha, página por página, e depois de tudo conferido e aceito, a funcionária me dizia: “Cei tutto perfeto, alora tu sei um bravo citadino italiani”, mas deveria voltar em 180 dias para fazer a carteira de identidade e o passaporte, agradecendo muito e muito feliz, sai da Questura da Comune sem precisar colocar os pés no chão, dando pulos de alegria. Já me sentia um cidadão europeu. Preparei a minha maleta marrom para pequenas viagens, deixei a mala maior na pensão e viajei para as cidades de Rossano, próximo da Sicília, no Sul da Itália, em seguida fui para a Estação Ferroviária Central de Milão comprar a passagem para viajar para Florença, Piacenza, Parma, Modena, Bologna, Firenza, Perugia, Roma e Nápoles, onde parei para jantar uma deliciosa pizza napolitana com vinho tinto, dormir e pela manhã, saborear uma ciocolatta calda e um brioche, continuei a viagem de trem para Salerno, Paola, Cosensa e Rossano, na Regio Calábria, vizinhas da Sicília, na ponta do continente. A viagem para o sul da Itália, de trem, é sempre maravilhosa. Contrariando minha expectativa, seus hotéis apresentam diárias semelhantes à Milão, pouco econômicas, e suas comidas são maravilhosas, mas os horários de trens eram muito diversificados, tornando a viagem muito cansativa. Em alguns casos, precisava ficar esperando por quatro horas na estação, para embarcar num outro trem, as distâncias eram muito grandes, enfim uma viagem muito cansativa, mas muito bonita, gastei um dinheiro que não podia gastar. Na primeira etapa da viagem de ida, devido ao horário de chegada, decidi ficar em Nápoles, e depois de me hospedar, fui ao lado do hotel, comer uma pizza napolitana, acompanhado com uma garrafa de vinho, dar uma linda volta pela cidade, que estava com problemas com a greve dos lixeiros, depois fui dormir e pela manhã, completei o passeio pela cidade, encontrando um local que tem na porta os brioches e a cioccolatta calda, encontrando uma loja de chocolate suíço com preço econômico, para ajudar na alimentação, e por volta das 11 horas da manhã, peguei o trem para Cosenza. Depois de 8 horas de viagem, desci uma estação antes, na Questura da Comune de Castiglione, por sugestão do fiscal do trem, pois a estação de Cosenza, segundo ele, ficava muito longe da cidade, e para encontrar hotel era preciso pegar um ônibus. Saindo da estação, me deparei com uma lindíssima cidade, com lojas de artigos muito caros, residências com uma arquitetura de primeiríssimo mundo mesmo, o que me deixava muito surpreso, talvez devido a minha expectativa de encontrar cidades menores e mais simples, e com isso tudo seria mais em econômico. Depois de muito procurar, fui me hospedar num hotel mais simples que tinha encontrado, com três estrelas, com uma diária de 60,00 €, sem café da manhã. Na manhã seguinte, peguei um ônibus que me levaria até a Questura da Comune de Cosenza, passeando pela bela cidade, descobri que Cosenza e Rossano eram cidades dos estudantes universitários, fazendo parte da Universidade da Reggio Calábria. Desci do ônibus no local indicado e fui andando até a Questura da Comune, depois de muito perguntar e procurar, os funcionários descobriram que não era lá que estava a carta de nascimento do avô do meu amigo, estava em Rossano, a funcionária havia telefonado para a Questura da Comune de Rossano e confirmado a informação, voltei de ônibus até a estação ferroviária comprar a passagem para chegar até Rossano, mais para o Sul da Itália. Chegando à Questura da Comune de Rossano, me informaram que todos os documentos dos cidadãos nascidos antes de 1900, estavam arquivados na Questura da Comune do Centro Histórico da cidade, que fechava em 10 minutos, e não haveria tempo de chegar naquela tarde, pelo horário de seu fechamento, sendo possível somente na manhã seguinte. Fato que me obrigou a procurar um hotel e dormir na cidade. Fiquei hospedado no único hotel que havia, tomei um banho, descansei e foi dar uma volta de reconhecimento da cidade, era bonita igual Cosenza, limpa, moderna e muito movimentada, voltei para jantar no hotel, seu restaurante oferecia um cardápio com três pratos, pão e vinho, depois de comer a primeira refeição naqueles dias, fui dormir. Assim que amanheceu, levantei e tomei um banho dos Deuses, e fui tomar o café da manhã e sai do hotel em busca da Questura da Comune da cidade, localizada no Centro Histórico de Rossano. Depois de pegar o ônibus, andar por 5 ou 6 quilômetros, cheguei ao alto da cidade. Era inacreditável a maravilhosa paisagem que estava vislumbrando, as ruas muito estreitas, com carros estacionados nos dois lados e o ônibus circulando entre eles, uma linda vista do mar, as casas coloridas grudadas nos morros, alguns prédios mais modernos, não menos coloridos, e todas as suas igrejas, além dos prédios públicos muito antigos e bem conservados. Ao entrar no ônibus, avisei o motorista, aonde queria descer, lá no alto do centro histórico, o motorista me avisou dizendo que tinha chegado ponto em que eu deveria muito triste, pelo fim do lindo tour pelo centro histórico de Rossano, mas não tinha jeito, tinha que descer, e procurar o prédio da Questura da Comune. Ao chegar ao prédio que o motorista havia informado, não estava mais ali a Questura da Comune, tinha mudado para o “Palazzo Giallo”, que estava localizado na rua depois de um túnel, que tinha 80 metros de cumprimento, atravessando um túnel da cidade, até chegar ao Palácio Amarelo, no outro lado do centro histórico, que ao chegar fiquei impressionado com a beleza simples, mas contundente de sua arquitetura amarela, que tinha como fundo o lindo azul do Adriático. No setor de documentação, quando me apresentei e queria a carta de nascimento que havia solicitado para a funcionária, ela respondeu que já estava pronta. Disse que estava pronta desde o dia anterior, após o telefonema da Concheta, sua amiga da Questura da Comune de Cosenza. Agora precisava voltar à civilização normal, precisava sair do morro que se localizava o Centro Histórico, de onde se pode ver a Ilha da Sicília, e voltar à cidade de Rosano, e deveria pegar de novo, o mesmo ônibus circular que me levou, enquanto aguardava o ônibus chegar, ficava admirando a linda paisagem do castelo amarelo, do mar e do céu azul que existe naquela parte da Itália, vendo as montanhas da Sicília, até que chegou o ônibus e fez outra a linda viagem, de volta. A estrada era a mesma, as ruas estreitas cheias de carros, eram as mesmas, as casas enfiadas no morro, eram as mesmas, os castelos e as igrejas eram as mesmas, até chegar até a estrada, para minha tristeza, e depois chegar até a estação de trem, para começar a viagem de volta, e depois das férias de 5 dias, estava de novo em Milão. Cheguei numa quinta feira, fui até a Questura da Comune de Trezzano Sul Naviglio para pegar a Carta de Identidade, e solicitar o Passaporte Italiano. Muito orgulhoso de mim, fui até o centro de Milão, onde comprei a passagem de avião para ir até a cidade do Porto, em Portugal, mas antes passaria o Natal em Paris. Queria vivenciar o período que morei em Paris, as luzes, a missa do galo, e as pessoas circulando pela cidade cheia de alegrias, de pacotes, no meio da neve, imagens que jamais esquecerei. 10 – ESPERANDO PAPAI NOEL Nunca tinha chegado a Paris de avião, aquela foi a primeira vez, desci no Aeroporto de Orly e peguei o metro que me deixaria na estação Saint Michel, no Quartier Latin, muito próximo do hotel que morava nos anos 1966. Quando sai da estação levei um susto, o bairro que era dos intelectuais e das artes tinha se transformado no bairro dos petit restaurant´s, com uma quantidade enorme de turistas, completamente diferente do bairro calmo e tranquilo de antigamente. Podia perceber pelos cafés que agora tinham suas mesas todas tomadas por turistas não tomavam um simples café e ficavam conversando, agora serviam alimentação, perdendo aquela antiga característica de bairro cultural. Mesmo assim, fui procurar um hotel, quando encontrei me assustei com o preço da diária, perguntei num bom francês ao porteiro, porque era tão caro, ele me respondeu que era o bairro do Quartier Latin! Poderia encontrar um hotel mais econômico próximo das estações ferroviárias, me lembrei da Gare Saint Lazare, que eu conhecia bem, voltei ao Metro, e desci na estação Saint Lazare, subi a Rue D´Amsterdan, passando por hotéis que as diárias se reduziam à medida que ia se afastando da Gare, chegando à Place du Clichy, dei a volta e desci a Rue du Clichy, aonde encontrei um hotel com uma diária mais compatível com meu bolso. Devidamente alojado, fui ver Paris de novo, estava maravilhado com as luzes das ruas, das lojas, que não sabia por aonde começar, estava na Boulevard Haussmann, entrei nas Galerias Lafayette, grande magazine, com lindas lojas, encontrei muitas pessoas bonitas, felizes e carregadas com presentes, ganhei brindes de perfumes, e fui ver outro grande magazine, Printemp´s, semelhante ao primeiro, com as mesmas características. Estava entardecendo, resolvi andar até a Place de la Madeleine, admirar a igreja e caminhar pela Rue de L´Arcade e depois Rue Royale para chegar na Place de la Concorde, com aquela linda e iluminada Roda Gigante, e depois caminhei pela Avenue Champs Elysées, para chegar até o Arco do Triunfo. Na volta passei pelo Grand Palais e Petit Palais, e fui ver a Torre Eiffel, que agora tinha suas estruturas iluminadas e tinha um farol no seu topo, devagar fui voltando para o hotel, procurando por um supermercado para comprar pão, queijo e vinho para lembrar os velhos tempos. Depois de fazer as compras, fui para o hotel me deliciar com os queijos e vinhos nacionais, depois dormir maravilhado com tudo aquilo, coloquei uma cerveja para gelar fora da janela, e pela manhã levantei, tomei um banho e continuei o passeio, fui procurar a Catedral Notre Dame, o Museu do Louvre, o Museu de Cluny e o Hotel que tinha morado nos anos de 1966. Continuando o passeio, almocei num daqueles petit´s restaurant´s e fui conhecer a Gare de Lyon. Como estava chovendo muito vim de metrô para o hotel, entrei e fiquei tomando vinho com pão e os deliciosos queijos, esperando a chuva passar. Assim que estiou, sai em direção à Eglise Sacre Coeur, passando pelo bairro de Pigalle, e depois de muito andar pelo Boulevard de Rochechouart, pelo Boulevard de Magenta, pelo Boulevard de Strasbourg e pelo Boulevard de Sebastopol, fui admirar o Centro George Pompidou, antigo Les Halles, ao lado da Ecole des Arts et Metiers, que tinha estudado, e no final da tarde estava na Rue de Rivoli, procurando o Palais Royal, residência do Rei Luiz XV, e fui voltando para o hotel, mas não deixei de passar pela Rue de la Parcheminerie, 59, onde tinha morado nos anos 1966. Depois passei pelo supermercado para reabastecer meu estoque de queijos e vinhos, além das deliciosas baguetes de pão. Encontrei, aproximadamente, mais de 400 tipos de queijos diferentes, entre eles o creme de camambert e os queijos de ervas, que simplesmente adorei. Era véspera da noite de Natal, comprei a champanhe nacional e coloquei na “minha” geladeira, e organizei a minha Ceia de Natal, que teria até Caviar. Para o meu jantar tinha comprado um sanduíche gigante, que tinha de tudo, atum, ovos, salada, tomate, queijo, presunto e pão. Fui deitar sonhando com o dia seguinte. Amanheceu, com tempo nublado, característico de quando vai nevar, levantei tomei meu banho e fui tomar o café da manhã, tinha comprado yogurtes e cremes de yogurtes, estava deliciosamente alimentado, voltei a passear pelo Boulevard Haussmann nos grandes magazines, olhando e tentando fotografar tudo, suas lojas, seus artigos, suas mulheres, suas fachadas iluminadas, suas vitrines que estavam apresentando uma orquestra de louças que tocavam e dançavam músicas natalinas, fiquei emocionado e assim passei o dia. Voltei para o hotel mais cedo, afinal precisava montar a minha ceia de Natal, e assim fiz, me deliciando, muito emocionado, mas muito feliz em passar o Natal em Paris. Na manhã seguinte fui para o Arc de la Defense, em Neully, município vizinho de Paris, era muito longe, mas o caminho era lindo, seguindo o Rio Sena, e preferi andar a pé, olhando e fotografando. Depois de andar 21 km, cheguei até o lindo prédio na Biblioteca Nacional, com linda muito moderna arquitetura. Este espaço era destinado aos projetos dos arquitetos de renome internacional e das construções edificadas com tecnologia de ponta, resultando uma paisagem completamente diferente de Paris. Antes de chegar ao edifício da Biblioteca Nacional, existe uma praça gigante, que tem em seu entorno edifícios moderníssimos, na praça uma série de pequenas barracas, quando fui verificar, encontrei uma feira de alimentação, com comidas de todos os lugares do mundo, com aroma irresistível, e as três comidas que experimentei eram sabores indescritíveis. Uma das barracas tinha como sua grande atração uma enorme frigideira, mais de 1,20 metros de diâmetro, onde preparava seu “cosido”, sempre mexendo com uma enorme colher de pau, era um cosido com pimentão, tomate, cebola fatiada, e alguns outros legumes que não reconheci, e pedaços de carne, tudo com muito azeite e diversos tipos de ervas, o cheiro chegava longe, apesar do vento gelado e da neve que começava a cair. Depois de passar o dia na feira, tentando ver todas as barracas, e suas comidas, seus brinquedos e suas roupas, comecei a andar de volta para o hotel, pois na manhã seguinte eu sairia do hotel e iria para o Aeroporto Charles de Gaulle pegar o avião para a cidade do Porto, que para chegar ao centro da cidade, existe um metrô de superfície, muito bonito, bem cuidado e que mostra todas as partes da cidade, e fui descer em Porto Champanhã, onde pegaria o trem para Guimarães, que não era menos bonito. Em Guimarães, depois chegar até a Universidade e procurar pela Andrea, a secretaria do seu orientador, para me colocar em contato com a pessoa que daria a chave do apartamento. Estava comprando um apartamento que tinha dois quartos, uma sala com varanda que apresentava uma linda paisagem da natureza que envolvia a cidade e uma parte da cidade. Para completar a mudança e preparar o apartamento ainda fiquei dois dias no hotel de Las Trinas, e depois fiz a mudança, tinha algumas coisas pessoais, mas ainda precisava comprar alguns equipamentos de quarto, sala e cozinha, além do seu o portátil, como eles chamam aqui o notebook. Agora no meu apartamento, com tudo quase em ordem, fui passear com o trem lindo até a cidade do Porto, almoçar num dos restaurantes que serve bolinhos de bacalhau e cerveja preta Sagres, depois passar pela Rua do Comércio e comer os doces de sobremesa, e ir até a loja da FNAC para comprar meu portátil DA Mac, o nome do Notebook em português, e voltei ao apartamento cheio de pacotes. Depois de estrear o meu novo computador, bonito e eficiente, instalei os programas que trouxe de São Paulo, inaugurei meu quarto de dormir, na minha primeira noite em Guimarães. No dia seguinte, no final da manhã fui para a Universidade, nas salas da Pós Graduação do Departamento de Engenharia Civil da Uminho. Para fazer a minha pesquisa de Pós Doutorado na universidade portuguesa, utilizava três manhãs por semana, deixando muito tempo para ler, escrever, estudar e passear. Estava morando próximo à universidade, onde fazia principais refeições, para os lanches de final de tarde comprava vinho português, francês, italiano ou espanhol, pão, queijos francês e alemão, frios espanhóis, e sobremesa com pasteis de Guimarães. Agora com a vida totalmente reorganizada, colando todos os “cacos”, me sinto um novo homem, uma nova pessoa, tinha até outra identidade, estava em condições para tentar me relacionar novamente. Ficaram doces reflexões sobre antigas namoradas, nenhuma especial, apenas algumas lembranças boas, dos namoros mais sérios, da namorada que virou noiva, sem nenhum ressentimento, a preparação para o casamento, que foi muito rápida, mas intensa e muito gostosa, até o momento da cerimônia, ficava imaginando como seria passar tudo aquilo de novo, com alguma outra pessoa. Apesar de gostar muito de uma casa térrea, com jardins de entrada e nos fundos, tinha encontrado e comprado um bonito apartamento, com dois quartos, uma linda e ampla sala, com varanda, muito bem localizado, próximo da universidade, num prédio novo e aconchegante, bonito, com uma arquitetura moderna, seus espaços internos e externos eram de extremo bom gosto. 11 – O PRESENTE SURPRESA Escolhi o apartamento em função da linda vista dos morros, que cercam a cidade, vista da sala, onde, durante os meses de agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro, o entardecer acontece com um maravilhoso “por do sol” até ás 21 horas. Depois da mudança, na primeira reunião de condomínios, encontrei todos os meus novos vizinhos, eram muito simpáticos e prestativos, mas também muito reservados, e no convívio com essa “nova grande família” que habitavam no prédio, começava a se destacar, um jovem casal que também tinha acabado de se mudar, recém-casados e moravam num apartamento vizinho ao meu, isso quer dizer que, mesmo sem querer, participava da vida deles, ouvindo algumas conversas, todos os momentos de carinhos e todas as brigas do casal, que apresentavam sempre um tom mais alto, como era de se esperar. Quando fazia compras no Continente, um imenso supermercado que existe próximo do prédio, ou quando participava das reuniões de condomínios, nas festividades do bairro e nos passeios que fazia pela praça, no meio da multidão, percebia a presença daquele casal de vizinhos, se destacando no meio das pessoas. Eles não tinham nada de especial. No começo, quando se mudaram para o prédio aparentavam ser muito tímidos e circulavam pelo prédio sem cumprimentar ninguém, não participava de todas aquelas chatíssimas reuniões de condomínio, depois de um tempo, começaram a se integrar com a vizinhança, e numa das reuniões eles se apresentaram e acabaram por ficar um pouco mais amistosos, participando mais assiduamente nas festas de alguns vizinhos e das reuniões do prédio. Algum tempo depois começava a me perguntar por que era tão grande o meu interesse pelo comportamento daquele casal. Quando me dava conta, eu já estava observando todas as reações do casal no convívio social, analisando seu comportamento nas pequenas discussões sobre compras, no estacionamento do carro, nas roupas escolhidas, nos horários de chegar, de sair para as festas e o relacionamento com os vizinhos, com o zelador e com os empregados do prédio. Na verdade, aqueles comportamentos me traziam antigas lembranças de recém-casado e, inevitavelmente, traziam algumas saudades, saudades dos momentos bons, e além de uma enorme inveja daquele casal, começava a perceber que tinha alguma coisa a mais, estava começando a ficar com ciúmes daquele marido. Comecei a descobrir que ela era uma bela mulher. Na verdade sentia ciúmes, raiva, tristeza, melancolia e até tristeza, sentimentos humanos e naturais, que não me furtava a tê-los de forma controlada, afinal faz parte do comportamento humano. Pelas saudades, pelas lembranças ou pela simples e inocente beleza daquela linda esposa, inconscientemente, estava desenvolvendo uma estreita convivência com o casal, se é que pode se falar assim, mas sempre à distância, com muito cuidado, discrição e muita atenção para que eles não percebessem minha dedicada observação. Dessa forma comecei a prestar mais atenção e procurar conhecer melhor as formas de convivência do casal. Fernanda, nossa linda personagem, tem uma imagem de mulher que sempre havia sonhado e fazia parte do meu repertório cultural e afetivo da imagem e do comportamento de uma mulher ideal. Ela era uma pessoa de fala mansa, delicada e muito cuidadosa com suas atitudes, meiga e muito doce, com um encantador sorriso, mas muito contido o que demonstrava ser, aparentemente, muito tímida, com lindo olhar azul, bastante dissimulado, entretanto muito observadora nos pequenos detalhes, com gestos delicados e finos. Tinha um tipo físico muito bonito, com estatura média, peso compatível, seios médios, cintura normal, quadris proporcionais, bumbum levemente pronunciado, pernas muito bem torneadas, joelhos bonitos e pés normais, de pele morena clara, cabelos castanhos lisos, cortados à altura dos ombros, lábios grossos, extremamente sensuais, dentes perfeitos, dedos finos e longos que formavam um par de mãos delicadas, enfim ela era um tipo de mulher quase perfeita, uma morena tipicamente espanhola, com ar e calor da mulher brasileira. Mas era uma mulher portuguesa, com certeza. Se pudesse fazer a escultura da minha mulher preferida, teria que pedir para ela ser o modelo, pois ela tinha tudo que eu gostava numa mulher, além de expressivos e lindos par de olhos azuis. Claro que devia ter alguns defeitos, mas não eram visíveis aparentemente. Ela era um modelo de pessoa fina, além de tudo era uma esposa extremamente doce, demonstrava isso nas conversas com seu marido, aparentemente fiel, nunca percebi ela olhar para qualquer outro homem, participativa e bastante companheira, deverá ser uma mãe cuidadosa e exemplar, pensava eu. Inconscientemente, estava analisando e constatando um perfil de mulher que sempre esteve no meu inconsciente, começava a entender agora porque tinha o casal em estreita observação, descobri que, na verdade, era ela a quem eu estava observando. Uma das características da sua personalidade, aparentemente, era uma pessoa que não se importava com o que os outros vão dizer, isto é, se ela tinha vontade de fazer um carinho, beijar, abraçar ou discutir com seu marido, ela fazia em qualquer lugar que estivesse, diante das pessoas ou não, ela não se importava, apesar de todas as reações de desconforto que seu marido sempre apresentava. São alguns dos detalhes que descrevo o casal que veio morar num apartamento vizinho ao meu, as características físicas e pessoais da Fernanda, demonstrando que ela chamou a minha atenção, e de uma forma muito contundente. Havia também o comportamento de casal, recém-casados, que me fazia reviver as lembranças da minha vida de casado, e a figura da Fernanda, me chamava muito mais atenção, porque ela tinha atitudes completamente diferentes da minha ex-mulher. A gente acaba sempre comparando, por mais que não queira lembrar. Ela apresentava um comportamento, nas mais diversas situações, que era exatamente como eu gostaria que minha ex-mulher fizesse. Como já escrevi acima, as comparações eram inevitáveis, por mais que eu disfarçasse ou não quisesse. A realidade é que tinha acabado de me mudar para este apartamento, tentando mudar toda a minha vida, tentando criar um novo mundo, para gerar novas expectativas de vida, com novas oportunidades, e aquele casal, por sua vez, depois de casados, também tinham vindo morar no apartamento deles, no mesmo prédio, deveriam estar procurando as mesmas coisas que eu. E que, de certa maneira, estávamos na mesma situação, vivenciando novas expectativas de vida. Divorciado há um determinado tempo, havia comprado aquele apartamento, estava tendo o prazer de estar mobiliando pela primeira vez o meu espaço de vivência, da forma que sempre quis e nunca havia conseguido, agora poderia escolher todos os móveis, geladeira, televisão, fogão, mesa, cadeiras, tapetes, luminárias, louças, talheres e as peças decorativas, sem ser repreendido por escolher peças com elevada qualidade, de alto custo, pela cor ou até pelo design dos móveis, estava agora, vivendo uma nova experiência de vida, uma nova liberdade. Depois de projetar a decoração do apartamento, estava começando a comprar e mobiliar minha nova casa. Estávamos vivendo em apartamentos distintos, mas muito próximos fisicamente, o apartamento do casal era vizinho ao meu. Os apartamentos estavam separados apenas por uma parede, no mesmo corredor, e por diversas vezes nos encontramos saindo ou chegando de elevador, ou no hall do principal do prédio, mas nunca houve uma troca de olhares entre nós. Nosso relacionamento sempre foi reduzido aos cumprimentos formais de convivência normal que deve existir entre vizinhos. Bom Dia. Boa Tarde. Boa Noite. Até Logo. A “proximidade” emocional que eu havia desenvolvido com aquele casal, apresentava cenas muito semelhantes aos momentos iniciais do meu relacionamento de recém-casado, resgatando cenas do meu casamento, com todos os prazeres, alegrias, tristezas, brigas, crises e problemas. Na minha sala de estar e de trabalho, havia colocado a minha prancheta, que na verdade era uma porta de vidro temperado, que tinha um tabuleiro de xadrez, demarcado com jato de areia numa das pontas, decorado com as peças de um jogo que havia comprado numa das minhas viagens à Barcelona, um espaço no centro havia deixado um espaço para poder desenhar e, na outra ponta o meu computador, onde ficava a maior parte do tempo, participando, mesmo não querendo, de quase todos os movimentos do casal, devido à proximidade física, se podia se ouvir com alguma clareza tudo o que eles conversavam, amavam, discutiam ou brigavam. Quando eu chegava ou saia de casa, sempre me surpreendia, inconscientemente procurando pelo casal, mais por ela, especificamente, e quando encontrava, ficava admirando e observando seus gestos e atitudes, suas roupas, seu penteado, quase sempre sem maquiagem, também estava sempre com muita atenção no seu marido, e com extremo cuidado para que ela não pudesse perceber. Durante as festas na praça, qualquer coisa era motivo para abraços, beijos, carinhos, sorrisos e todo o comportamento típico de um casal que ainda estava vivendo sua lua de mel. Alguns meses depois, comecei a perceber a ausência de Fernanda, só encontrava com seu marido, depois fiquei sabendo durante as reuniões de condomínio e pelas conversas com zelador, porque Fernanda estava “desaparecida” do prédio, estava grávida e precisava de alguns cuidados especiais, foi passar um tempo na casa de seus pais para aguardar o nascimento do nenê e seu total restabelecimento. Depois de algum tempo, numa das reuniões de condomínio, comentaram que tinha nascido uma menina e o nome escolhido foi Carolina. Não pude deixar de recordar da minha reação nos primeiros momentos de vida da minha primeira filha. Depois de internar minha ex-mulher no hospital e chamar o médico que iria fazer o parto, aguardar o parto normal, que não aconteceu, e depois acompanhar, de longe, a operação cesariana, quando chegou ao fim, as enfermeiras trouxeram a ex-mulher, ainda na maca, desacordada até o apartamento do hospital, perguntei ao médico se tinha corrido tudo bem, se a menina era perfeita e estava bem, aliviado fui descansar na cama de acompanhante que havia no quarto. Fui deitar, tentando dormir, mais calmo depois de tantos sobressaltos, da bolsa estourada, dos telefonemas para o médico e deslocamento para o hospital, a operação e num sobressalto me lembrei, mas e a criança? Como seria sua imagem? Como estaria? Levantei e fui rapidamente ao berçário para conhecer minha filha e ver como ela era e como estava passando, a enfermeira perguntou o número do apartamento e depois levantou o “pacotinho” mostrando seu rosto em frente ao vidro do Berçário. De volta à cama do quarto do hospital, me veio à cabeça a frase de um velho amigo, Veloso, ao nascer o seu primeiro filho: “Que bom, mas agora jamais terá sossego!”. “Imagina”, respondi: “depois eles crescem e casam.....!” Ele, sorrindo afirmou: “É.... mas ai vem os netos”! Realmente ele tinha razão, jamais tive sossego, e olha que ainda não vieram os netos. Mesmo sem querer estava participando de todos aqueles acontecimentos que envolviam o casal, como se estivessem acontecendo comigo, com uma pequena vantagem, eu já saberia como resolver, ou melhor, como havia resolvido, e ficava observando como eles iriam resolver, era apenas um mero espectador. Continuava comparando os comportamentos da mãe, do pai e, depois de alguns meses, da própria filha, mas isso tudo era muito compreensível, era uma maneira de poder suportar a distância e as saudades dos tempos passados, e ainda tentar descobrir, como poderia me comportar se viesse a ter um novo filho. Mais ou menos um ano depois a Carolina começava a andar, comecei a perceber que o casal não tinha mais os mesmos comportamentos de lua de mel, começaram a surgir algumas discussões, como era de se esperar, quando ele saia de casa ou quando chegava do trabalho, se ouvia, apesar da sua televisão estar ligada, palavras e atitudes muito semelhantes aos momentos que eu tinha participado quando meu casamento entrar em crise. A cada dia que se passava, se podia perceber uma determinada rispidez nos diálogos que tinham durante os passeios, quando levavam Carolina tomar sol na praça, ou nas discussões que tinham dentro do supermercado sobre determinadas compras, era visível suas feições aborrecidas quando compareciam nas festas que existiam no bairro. Ela tinha uma imagem transparente, sua imagem demonstrava todo seu estado de irritação, ele conseguia disfarçar um pouco mais. Quando saiam juntos de casa, a impaciência era uma característica que predominava no casal, os vibrantes diálogos tinham se transformado em verdadeiros monólogos. Não percebia as mãos dadas ou o abraço carinhoso, muito menos alguns beijos no rosto, atitudes que eram comuns no comportamento do casal. A convivência entre duas pessoas que tem origens, criações e formações diferentes, e que agora precisam de um tempo para superar a fase de adaptação à vinda da primeira filha, de convivência sob o mesmo teto, mas, aparentemente, eles estavam enfrentando a primeira crise conjugal. Quando Fernanda saia de casa, demonstrava que não estava muito feliz, sempre batendo a porta, andava apressada, aparentava estar muito frustrada, entristecida, sempre com o seu lindo rosto amargurado, não se conseguia ver mais o seu lindo sorriso. O mesmo não se podia dizer ao observar o comportamento do seu marido Roberto, que aparentava ser uma pessoa mais flexível, mais contida e muito reservada. Não aparentava tristeza nem alegria, mas conseguia perceber que não estava muito feliz através dos seus comportamentos. Ele procurava não participar mais dos jogos de futebol dos moradores do condomínio nos finais de semana, muito menos aparecia para nossas reuniões, sempre regada à cerveja e bolinhos de bacalhau depois dos jogos, e quando jogava bilhar, ele não apresentava a mesma calma ao perder, inclusive nas discussões sobre o jogo de futebol do Vitória de Guimarães que a televisão mostrava, todo seu comportamento demonstrava que estava com a sua paciência no limite. Na realidade, além de procurar disfarçar os seus problemas familiares e pessoais, perante a sociedade, ele deveria estar muito confuso com todas aquelas novidades na sua vida, no seu relacionamento pessoal, e assim como qualquer marido, ele também não sabia direito por onde começar a procurar o fio da meada. Conhecia cada passo das suas reações, tinha vivenciado tudo aquilo, todas aquelas reações, e durante o tempo que passei por tudo aquilo, fiquei tão confuso como ele ou até mais. Eu também não sabia por aonde começar e o que fazer para sair daquele momento ruim da minha vida, e imaginava que ele também deveria estar muito aflito com tudo que estava acontecendo na sua vida. De qualquer forma, aquele casal não era o mesmo que tinha se mudado para apartamento vizinho ao meu. Era compreensível que a forma de tratar a Fernanda não seria a mesma quando estava recémcasado, não se pode esperar um comportamento “em lua de mel” seja eterno, mas também, não precisava ser tão ríspido, pensava eu. De qualquer maneira, não era um comportamento que todos estavam acostumados a ver. O que mais se estranhava, era que ele quase não saia mais com a filha Carolina. Percebia que as saídas do Roberto ficavam mais constantes, retornando mais tarde do que o costume, mas estava sempre sozinho, uma vez ou outra com alguns amigos. Os casais amigos, que sempre visitavam o casal, pouco frequentava o apartamento deles, as únicas visitas constante eram dos pais da Fernanda. Considerando os mais recentes acontecimentos e o comportamento de ambos, tudo indicava que aquele relacionamento estava se deteriorando, e não eram meus olhos ou minha vontade. Não conseguia deixar de ficar muito triste com tudo aquilo, imaginando os momentos amargos que eles iriam passar, muito semelhante aos momentos que já tinha vivido e todo o sofrimento com muitas lágrimas derramadas, sem falar da criança, quem mais sofreria mais com a eventual separação. Pelas conversas que tinha com o zelador e com o pessoal do prédio, fiquei sabendo que grande parte das discussões girava em torno da ocupação de Fernanda, que destinava todas as horas disponíveis do dia com cuidados para com a criança, as compras, a empregada, a casa, com responsabilidades que, aparentemente, administrava muito bem. Determinados cuidados para com a casa, que deveriam recair na responsabilidade do seu marido, era exatamente o que ele não assumia ou ficava demorando muito para resolver pequenos problemas, que ao passar do tempo se tornam imensos problemas, escutava sempre ela reclamar da ausência do marido na casa para resolver esses problemas domésticos. Ele não cogitava tentar resolver e nem pedia ajuda ao zelador. Parecia que ele não estava participava daquela convivência familiar. Pequenos problemas com o chuveiro, a torneira do banheiro, o desentupimento dos bicos do fogão, chamar o técnico da geladeira, a instalação da antena da TV a cabo, quando solucionados, viram um assunto grave, de proporções astronômicas. Conhecia aquele filme, que aparentemente foi dirigido pelo mesmo diretor, mas os papeis dos personagens principais, estavam trocados. Na minha casa ela ficava sempre ausente dos problemas, das compras e da educação das crianças, enquanto que os problemas domésticos eram resolvidos na medida do possível. Roberto chegava sempre tarde em sua casa, a cada dia que passava, ele chegava mais tarde, e mesmo sem querer, eu acabava ouvindo sons muito semelhantes às reclamações, discussões, brigas, portas batendo, e depois, silêncio total. Na festa do segundo aniversário da Carolina, todos esses problemas vieram à tona perante as duas famílias. O casal alugou o salão de festa do prédio, com a ajuda de alguns empregados, e nos dias que se seguiram à festa, os comentários de todas as discussões que houve entre os convidados, que, aparentemente deveriam ser os pais da Fernanda e o Roberto, depois com os pais do Roberto, como se esperava, vieram em defesa do filho, quase aos gritos, deixando os demais convidados numa situação constrangedora, atitude que praticamente acabou com a festa. Agora a crise conjugal do casal estava devidamente apresentada para todo o condomínio. Nos finais de semana que se seguiram, aos sábados à tarde quando assistia o futebol pelo Campeonato Português na televisão, percebia o carro dos pais da Fernanda chegar para visitar o casal, em seguida Roberto aparecia para ver o jogo de futebol com o grupo masculino do condomínio, ficava no bar com alguns vizinhos, ou sozinho, até a noite, e na manhã do domingo, saia para lavar o carro, olhar as nuvens, e voltava à tarde para o hall do prédio, e ficava assistindo o futebol na TV com os demais vizinhos. Parece que não almoçava em casa com a família. Nos outros domingos, em que não tinham visitas, poderia encontrar o Roberto no espaço existente do prédio, juntamente com os demais vizinhos, jogando pebolim, na beira da piscina, ou vendo televisão. Apesar da Fernanda se encontrar na área da piscina, tomando sol com a Carolina, agora, ele raramente ficava com elas. Após o jogo, Roberto, sozinho, esticava as horas até a pastelaria e lá ficava conversando com outros amigos. Nos dias de semana, todas as tardes, na mesma hora, Fernanda saia de casa para levar sua filha na pré-escola, e depois no final da tarde, voltava para buscar a menina, e fazia as compras juntas no supermercado e depois na padaria, esse horário quase sempre coincidia com o meu horário de chegar da universidade. Outras vezes, num horário diferenciado, Fernanda saia de casa para levar Carolina ao parque, passear, brincar e tomar sol, mas sempre sozinhas do Roberto. Não era dedução minha, agora sempre constatava as saídas da Fernanda sozinha ou com a filha, sempre sem o Roberto. A minha sala era grande e o ambiente da mesa de vidro ficava em frente a uma grande janela, do outro lado estavam dois sofás e um pequeno bar, que ficava na parede junto à porta de entrada. Na verdade eu trabalhava na sala, ao lado da janela e da porta de entrada do corredor, e tinha o apartamento do casal de forma contígua, e devido a isso, participava de quase tudo, quando ela falava docemente com a filha, ou de forma ríspida com Roberto, era muito difícil deixar de escutar. Acompanhar todos os passos da Fernanda passou a ser um comportamento natural, porque ela era uma linda mulher, e sua beleza me emocionava, saber que existe uma mulher que pode ser tão diferente da minha ex-mulher, mas agora, principalmente, pela curiosidade sobre o desenrolar dos fatos que estavam acontecendo, praticamente na continuação da minha sala de estar. Era uma ocupação para meus momentos de folga, mas que na verdade tinha um determinado interesse no desenlace do caso. Fazia um enorme esforço para não ficar torcendo pela separação do casal, na verdade estava curioso em ver como eles resolveriam aqueles problemas, apesar de ter muitos cuidados para com minha intensa dedicação de observação. Às noites, se podia perceber quando o Roberto voltava do trabalho, a recepção que ela sempre fazia, antes do nascimento da filha, era sempre muito calorosa, e que depois foi ficando mais amena, e naqueles dias de crise conjugal, além de ser muito fria, havia algumas pequenas discussões. Ficava ouvindo a Fernanda perguntar por que chegou tarde, aonde tinha ido, o que tinha ido fazer e com quem estava. Fernanda reclamava sempre que, cada vez mais, ele via menos a filha, não estava acompanhando seu crescimento, e não demonstrava o menor interesse em saber de como tinha sido o dia delas. Ele, por sua vez, dizia estar sempre cansado, com pouco tempo para ele, que seu emprego estava por um fio, enfim essas histórias de queixas e reclamações, que nós todos já conhecemos. Depois da gritaria, não se ouviam vozes, era um enorme silêncio, se percebia o som da TV. Parecia que estava lá, sentado num dos sofás da sala deles, ouvindo os mesmos diálogos que eu tinha com minha exmulher, com uma única diferença, os papéis estava trocados, mas podia imaginar que os desejos eram os mesmos, as necessidades eram idênticas, e a vida dos dois estava ficando muito sacrificada, e a relação estava estremecida, esvaziada e esfriada. Por mais bonito que tenha sido o encontro, a fantasia, a sedução, o namoro e o casamento, o relacionamento não tem muita consistência para resistir àqueles desencantos todos, o sonho e a ilusão da vida a dois, começa e se desmanchar. A relação começa a se arrastar, até chegar ao fim. Mas o final do relacionamento só termina com a coragem de um dos dois, para assumir o rompimento, a separação e, posteriormente, o divórcio. E no caso deles, em nenhuma circunstância, a criança poderia ser um ponto de apoio para a manutenção daquela relação, uma vez que, aparentemente, o surgimento da Carolina teria gerado a mudança dos comportamentos e a consequentemente crise do casamento. A vida do casal se altera muito com o surgimento do filho, e o amor precisa ter uma base muito sólida para resistir às mudanças de comportamento do casal. O marido, que tinha atenção integral, agora deve dividir a atenção da esposa com a criança, gerando “ciúmes” do marido, que olhava para a criança como um “ser que invadia o seu espaço”. Ainda deveria ser considerado o comportamento sexual, que já tinha sido alterado com a gravidez, continuava com o nascimento da criança, desfigurando o corpo da mulher e seus desejos, deixando o marido num outro departamento, que, inconscientemente, passa a se sentir “rejeitado” ou “trocado” pela criança, o que não é verdade, mas esses pensamentos passam pela cabeça dos homens que não conseguem ter uma compreensão sobre essa nova fase da vida do casal, que, depois do nascimento do filho, se altera profundamente. No meu caso, quando a relação estava agonizando, dentro do relacionamento, sem perceber, nós começávamos a nos tratar como dois estranhos dentro de uma mesma casa, fazíamos as nossas comunicações mais urgentes e indispensáveis, sem usar as palavras, chegamos a usar as crianças para mandar recados. Quase não existia nem vontade de brigar, e chegamos a dormir em quartos separados, por não conseguir mais sobreviver juntos, até que um dia, minha ex-esposa acabou se cansando e resolveu colocar um fim na relação, e colocou-me, “delicadamente”, se é que existe isso, para fora de casa. Numa das minhas viagens de trabalho até Mato Grosso, ela me pediu para que não voltasse para aquela casa, que fosse para outro lugar. Na hora, tive um enorme susto, um choque, e uma crise de choro, fiquei pensando, não em mim, mas no que iria acontecer com as crianças, que, ao meu modo de ver, são as que mais sofreram com a separação. Pois ela saia de casa pela manhã bem cedo e voltava para casa à noite bem tarde, em todos os dias da semana, e nos finais de semana, aos sábados, ficava em casa, telefonando e conversando com as amigas, às noites me convidava para sair, o único dia que ela dedicava à família era o domingo, no almoço na casa da sua mãe e o lanche na casa da minha mãe. Agora que estava fora da casa, as crianças ficariam com a empregada. No começo, visitava as crianças todas as noites, para jantar, e depois colocar na cama fazendo pacotinho com as cobertas, para quando elas dormirem não se descobrirem, e contar histórias até elas caírem no sono. Saia de casa chorando, pois elas ficavam sozinhas na casa delas, e eu ficava sozinho na minha casa. Foi quando tive uma conversa com ela, porque ela não saia de casa, pois, apesar de todos os meus compromissos, sempre estive mais presente na casa e junto às crianças, ela me respondeu: “Que o lugar da mãe é junto das filhas!”. Justificando que ela tinha razão, mas a mãe deveria estar presente por mais tempo, senão o papel da mãe seria exercido pela empregada, que passaria o seu precário repertório cultural para as crianças no dia-a-dia. Se ela saísse de casa as crianças não iriam sentir tanta falta, como sentiram a minha ausência. E, lamentavelmente, foi o que aconteceu. A parte mais difícil foi sair da casa e avisar as crianças, chorando, que o pai não vai mais voltar para aquela casa, foi uma situação aterrorizante, para mim e para as crianças, só a mãe das crianças, apenas sorria, dizendo que chorar faz bem, não percebendo nada, como não tinha percebido tantas outras coisas. Na primeira noite que dormi fora de casa, em São Paulo, caí na realidade nua e crua, entendendo que alguém tinha que tomar aquela atitude. Eu não teria coragem de sair sozinho da casa diante das filhas. Mas não poderia ficar naquelas circunstâncias, estava muito desgastante para todos. Nesse momento histórico muito difícil, delicado e preocupante, para que se possa manter vivo, sóbrio e com dignidade, procurando seguir a vida, sem usar bebidas, drogas, bares ou boates, como fugas ou pontos de apoio. Havia abusado um pouco da bebida, durante os três primeiros meses, para não pensar em nada. Passava o dia meio “dopado”, como nunca havia bebido, qualquer pequeno copo me deixava embriagado. O meu trabalho profissional, naquele momento histórico, era a construção de um hotel na praia de uma cidade próximo à cidade de São Paulo, num domingo ensolarado, acordei pela manhã, tomei meu café e fui andar pela praia, dentro das pequenas ondas do mar, e percebi uma multidão de pessoas bonitas, alegres, bronzeadas e festivas, um grupo de mulheres bonitas, mais novas do que eu, que estavam sempre procurando alguém para se divertir ou se relacionar. A partir daquele domingo, parei de me esconder atrás de uma garrafa, e resolvi assumir minha nova vida, minha nova realidade, acabei, depois de alguns meses, encontrando uma nova namorada, fato que me deixava um pouco mais tranquilo, mas não conseguia esquecer a convivência com as crianças. Voltando ao que acontecia em Guimarães, o que se percebia era que a imensa paciência que Fernanda e sua filha tinham para com marido, não era correspondida, muito pelo contrário, era muito grande a insatisfação que ele tinha para com elas. Não me conformava com o comportamento que ele adotava, nem a maneira com que ele se correspondia àquela maravilhosa e deliciosa mulher, que eu, supostamente achava que ele tinha. Aparentemente, Roberto demonstrava, simplesmente, não saber o que fazer com Fernanda e Carolina. Com o passar dos meses, acabei ficando com muita pena dele, ele estava perdido naquela relação, e com aquela sua postura, nenhum casamento poderia resistir, por mais sólido que fosse. Imaginava que ele deveria ter suas razões para estar agindo daquela forma. O relacionamento entre a Fernanda e o Roberto estava extremamente semelhante às cenas características do final do meu casamento, e demonstravam que, aparentemente, que com aquele tipo de comportamento, o casal estaria muito mais próximo da separação, do que de uma reconciliação. Era exatamente o que estava acontecendo, em qualquer momento eles deveriam terminar aquela relação. De certa forma já deviam ter terminado, porque depois de uns tempos, Fernanda comparecia às festas, reuniões de condomínio e compras de supermercados, sempre acompanhada de sua filha ou sozinha. Roberto era sempre um grande ausente, aparecia em alguns dias da semana, e seus pais nunca mais visitaram o apartamento do casal. O que era um forte indício da separação. Após de 10 anos de divorciado, estava revivendo aqueles momentos de conflito doméstico, um comportamento que marcou muito minha vida, e devido a isso, ainda estava, até agora, com muito receio de assumir um novo relacionamento, apesar de toda a minha vontade, pois não gostaria de ter que passar por momentos, como esses, novamente. Inconsciente ou conscientemente, já tinha desenvolvido critérios muito rígidos para definir a escolha de uma nova parceira, mas não saberia explicar porque havia desenvolvido uma profunda admiração pela Fernanda, pela sua pessoa e pelo jeito de como ela tentava levar a sua relação conjugal, pela forma de se vestir, de falar, de se comportar perante a sociedade, utilizando toda a sua transparência de postura. Sem falar da sua imagem física e da sua extrema sensualidade, me que deixava emocionado. No início, quando eles se mudaram para este prédio, a minha admiração começou com uma simples percepção do seu comportamento social, quando ela estava na padaria, na simples conversa com o balconista ou ainda nos diálogos que mantinha junto ao porteiro e o zelador, ou com alguns dos nossos vizinhos, menos comigo. Nunca tinha conversado comigo, não houve oportunidade, nunca consegui ver o azul dos seus olhos, que estavam sempre sorrindo, nos meus olhos, ainda não tinha tido sido beneficiado pela beleza do seu olhar, também nunca percebi um olhar seu para qualquer atitude minha durante as reuniões, festas, nas ruas ou nos corredores do prédio. Quando ela surgia num espaço mais próximo ao meu, sempre procurava ocupar meu olhar, de forma muito dissimulado, para não me denunciar e poder ficar admirando sua postura, seu andar, seu corpo, seus cabelos, suas pernas, suas roupas, seus lábios e todo aquele seu jeito de ser, que aparentemente deveria ser muito delicioso de se conviver. Nunca tive coragem de olhar para seus olhos diretamente. A verdade era que nunca tinha encontrado seu olhar. Apenas ficava imaginando como deveria ser encontrar aquele lindo azul brilhante. Para me distrair, além de projetar residências, hotéis e shoppings, desenhar pôster e escrever um livro técnico da minha tecnologia construtiva, depois minhas memórias e agora um romance, ficava fantasiando na minha imaginação em como seria o meu comportamento com aquela mulher e com sua filha, e de como deveriam ser as minhas reações perante as atitudes que ela adotava, durante certos momentos das suas saídas e retornos na sua casa, nas festas, nas reuniões, nas compras e nas ruas. Sempre me imaginava estar no lugar do Roberto e o meu comportamento deveria ser totalmente diferente do comportamento adotado por ele, minhas atitudes seriam outras, e quais seriam as atitudes dela em relação às minhas atitudes, como ela corresponderia? Essa pergunta ficava me perseguindo dia e noite. Roberto era mais novo, com outro repertório cultural, diferente formação cultural e uma personalidade mais forte e bem característica. Graças ao desenvolvimento da minha profissão de designer e arquiteto, havia desenvolvido um apurado senso estético, com bom gosto pelas coisas bonitas, sejam eles objetos, móveis, carros, casas, quadros, fotos, desenhos, roupas e mulheres bonitas. Esse bom gosto só é superado pelo apurado sentido de observação, sempre conseguia perceber todos os detalhes, e o contexto das situações em que estas se apresentavam, segundo a minha ótica. Quando não conseguia perceber o que estava acontecendo, utilizava da minha criatividade e da fantasia que desenvolvia para poder compreender. Sempre tive muito interesse pelas mulheres bonitas, por corpo bem feito, não só pelas formas curvas, mas pelos seus ombros, colo, seios, barriguinha, bumbum e pernas, mas também pela aparência bem cuidada, e pela discreta sensualidade que somente algumas mulheres possuem e utilizam de maneira adequada. Apesar de todo esse bom gosto todo, procurava utilizar a minha intuição para escolher a parceira pelos aspectos estéticos, e sempre acabava errando. Com a Fernanda fui muito criterioso, não fui apressado, fui também muito cuidadoso, pois havia um interesse específico na Fernanda, que tinha, além de todas as qualidades já descritas, uma energia cativante, contagiante, para quem pudesse ou quisesse perceber, além de possuir alguma coisa a mais, ela tem um belíssimo par de olhos sorridentes e azuis, bem claros e uns lindos lábios carnudos. Fernanda era uma dessas poucas pessoas que conseguem sorrir com o olhar, o seu sorriso não deixava de chamar atenção, era maravilhoso ver sua boca entreaberta e seus dentes, perfeitos, emoldurados pelos seus lindos lábios, carnudos, com um lindo brilho, com muita delicadeza e sensualidade. Segundo o zelador do prédio, Fernanda não devia ter mais do que 25 anos de idade, estava formada em línguas, para ser secretária especial e também tinha concluído algum curso superior, que por qualquer razão, ela ainda não tinha conseguido exercer sua profissão dentro do mercado de trabalho, mas parece que não teve tempo, pois logo depois do seu casamento nasceu a Carolina. Essa era a conversa que ouvia do zelador, dos amigos, vizinhos do prédio, que conversavam com ela. O que eu sabia apenas era que ela, atualmente, trabalhava numa ótica, durante meio período vespertino, enquanto Carolina estava na escola, e no outro meio período matutino, ela cuidava da filha e da sua casa. Aparentemente, parecia ser uma ótima profissional, pois havia entrado na ótica como ajudante e, depois de alguns meses, estava ajudando a gerente, e agora passou a gerenciar a loja. Nos meus passeios pelo centro histórico da cidade, sempre procurava passar em frente a ótica, só para poder olhar para ela, quase comprei novos óculos de sol que não estava precisando. Também devia ser uma boa dona-de-casa, ficava imaginando, pela dedicação que tinha para com a filha, que sempre estava com roupas limpas e bem cuidadas, demonstrava ser uma mãe cuidadosa e carinhosa, por tudo o que podia observar durante aquele tempo que morava no prédio. Apesar da tristeza do momento em que Fernanda vivia, a realidade era bem mais animadora para mim, aparentemente, muito em breve, ela estaria livre e desimpedida. Essa era a informação que o zelador passava, até que, durante a última reunião de condomínio, Fernanda solicitou, de forma simples e clara, que todos os avisos e comunicações deveriam ser feitos para ela mesma, pois o Roberto não era mais morador do condomínio. Agora a noticia era oficial. Mesmo assim, imaginei ser importante aguardar ela se recompor, colar todos seus “cacos”, não era o momento de criar algum clima, pois ela deveria estar muito fragilizada. Entendo que as pessoas devem se primeiro se recuperar das feridas, para poder estar em condições de serem elas mesmas, para pode se apresentar para novo relacionamento. Seria necessário esperar desaparecer todos os vestígios do amor antigo. Essa sempre foi a minha tese e acredito que, se não houver esse espaço de tempo, as emoções e os sentimentos podem ser mal interpretados e ainda misturados com situações anteriores. Um passo mais apressado poderia por tudo a perder. Imaginei que seria necessário dar um tempo para ela assentar sua relação pessoal, digerir seu novo momento, organizar sua nova vida, sarar as feridas do relacionamento e acabar por se acostumar com a ideia da separação. Assimilar o conflito íntimo da culpa que a separação sempre acaba gerando, pois sempre achamos que somos culpados, o único culpado, o que não é necessariamente verdade, cabendo às duas pessoas partes iguais nessa culpa. Pelo menos aconteceu comigo. Decidi aguardar um momento oportuno, estava, na minha imaginação, respeitando sua dor e a apropriação que ela deveria fazer com aquele novo momento de sua vida. Pelo menos, foi o que eu procurei fazer, para conseguir enfrentar essa mesma situação. Meu comportamento estava mais otimista, agora existia uma pessoa linda, com conteúdo e livre, que estaria, teoricamente, procurando um parceiro, era a oportunidade de tentar me aproximar, mas teria que esperar um tempo suficiente para preparar uma estratégia. Não poderia errar a “abordagem de aproximação”. Os dias se sucediam, os finais de semana chegavam rapidamente, e num determinado sábado pela manhã, eu e o grupo dos moradores e jogadores de futebol, percebemos o Roberto na portaria do prédio, no triste ritual da mãe entregando a filha para o pai, com uma mochila de viagem, para passar o final de semana, pensei eu, em seguida ela se encaminhou para seu apartamento pisando firme e de forma rápida; Algum tempo depois de acabar o meu jogo de futebol, vim almoçar, e da janela da minha varanda, percebi ela descer e sair do prédio para encontrar com duas amigas. No decorrer dos primeiros sábados, em que ela deixava a Carolina com o pai, ela sempre saia com as mesmas duas amigas, mais ou menos no mesmo horário, logo após o almoço, e não escutava ela voltar, mas também não ficava esperando isso acontecer, assim que o filme acabava ou sono chegava, ia para minha cama. Depois de alguns finais de semanas, que também não fiquei contando, as suas amigas desapareceram, trocaram de lugar com um rapaz que, também ficava esperando na porta do prédio, e saiam juntos pela rua afora. Olhando pela minha varanda fui ficando muito irritado comigo mesmo, e não me perdoava por ter aguardado tanto tempo para ela se recuperar do casamento desfeito. Percebi que o tempo de recuperação pessoal dela, era bem diferente do meu. Ou ela estaria tentando apagar o fogo com fogo, pensava eu, para esquecer um amor colocamos outro no lugar, tentando “justificar” essa sua nova companhia, mas a grande verdade era que já estava morrendo de ciúmes dela. Seu novo amigo, vamos assim chamá-lo, tinha uma postura meio diferente, usava cabelo muito comprido, às vezes com um rabo de cavalo, modo de usar o cabelo um pouco raro hoje em dia, nunca estava bem vestido, com uma postura egocêntrica, introspectiva e tímida, aquelas pessoas que andam com o peito para dentro e ombros para fora, estava sempre com sua cabeça baixa, olhando para o chão, barba sempre por fazer, de pouca fala, não devia ter dentes, pois não se conseguia ver a cor de nenhum deles. Desculpe, estou sendo mordaz. Concordo que os opostos se atraem, mas aqueles dois formavam um casal muito estranho. Ela sempre bonita, um pouco mais alegre, mais risonha, sempre muito bem vestida e bem arrumada, o que claramente contrastava com a apresentação pessoal dele. Fiquei imaginando, alguma coisa ele deveria ser ou ter, para chamar a atenção dela, no mínimo, uma boa cabeça. No início, eles saiam logo depois do almoço, e voltavam à noite, depois de algum tempo as suas visitas ficaram metódicas, elas aconteciam em todos os sábados, mas eles não saiam mais, ele chegava por volta das 20 horas na porta do prédio, ouvia a campainha e a voz da Fernanda dizer que podia deixar subir. Nunca conseguiu ouvir quando ele saia, também não ficava esperando, era uma tortura para mim, e procurava assistir aos filmes que mais gostava exatamente naquele horário do sábado, isso quando não saia para comer uma pizza no restaurante da praça. Ficava me criticando, porque haveria de respeitar seu crescimento interno. Pelo visto ela nem pensou nisso, pois já estava em outro relacionamento. Triste, calado, não me perdoava por deixar passar a primeira grande oportunidade. Entretanto o meu maior problema agora era que não se ouvia qualquer conversa do casal, não percebia nenhum som daquele novo relacionamento, e com isso, não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo com a Fernanda e com o seu novo namorado. Não ouvia brigas, mas também não ouvia risadas, e muito menos discussões. Estava tudo numa grande incógnita, me deixando muito aflito por não conseguir perceber o que estaria acontecendo com o novo casal. Em alguns sábados chegava a desligar a TV, nem ouvia música para ficar em silêncio e nada escutava. Nas reuniões do condomínio, quando ela comparecia, apenas ficava ouvindo e nem conversava com as pessoas. Nas festas de bairro ela não comparecia. Fiquei imaginando um milhão de situações novas, era preciso fazer acontecer alguma coisa, alguma festa ou casamento, para que houvesse o comparecimento de todos os moradores do prédio, assim ele também poderia estar presente juntamente com seu “novo amigo” para que eu pudesse avaliar a situação do casal. E foi o que aconteceu exatamente depois de seis meses, 12 dias, 20 horas, e alguns minutos. Eu estava pouco preocupado? 12 - A OPORTUNIDADE TÃO ESPERADA O casal Mauro e Izabel, um dos vizinhos do prédio, que moravam no mesmo andar que o meu e o da Fernanda, anunciou na última reunião de condomínio que iria batizar sua filha e convidava a todos os moradores para o batizado na igreja São Jerônimo, muito próxima do prédio, e ofereceria uma recepção aos convidados no salão de festas da igreja. A igreja não era muito grande, mas era muito bonita, tinha uma arquitetura antiga, com formas sinuosas, e que eram acentuadas com fileiras de pequenas lâmpadas que ficavam acesas à noite, definindo o perfil da igreja, que apesar de muito antiga era bem conservada, e o salão de festas, próximo ao nosso prédio, era enorme. Numa determinada noite, a Izabel, mãe da menina que iria ser batizada, veio me convidar pessoalmente, assim como convidou a todos os moradores do prédio, e para poder melhor planejar a festa, era necessário saber a quantidade de pessoas que iriam comparecer, para isso estava fazendo um levantamento, apartamento por apartamento, claro que dei um jeito de saber quantos lugares a Fernanda havia reservado para a festa: dois lugares. Ela teria convidado seu novo amigo ou namorado para a festa. Tinha planejado algumas estratégias para tentar uma aproximação junto a Fernanda na noite da festa, isso exigia acompanhar toda a preparação da festa, tanto no apartamento da Izabel, como no salão de festas da Igreja, sempre na expectativa de poder encontrar com a Fernanda, mas não consegui meu intento, em nenhum momento. Enfim chegou a noite da festa, estava muito ansioso para vivenciar a festa do batizado, para conseguir coordenar a situação da organização e o acontecimento da festa, deveria seguir os passos da Fernanda pela janela da minha varanda. Tomei meu banho e me preparei para a festa bem antes do horário e fiquei na varanda acompanhando os acontecimentos. Num determinado momento o “namorado” chegou ao apartamento da Fernanda ficou conversou com ela, palavras irreconhecíveis, mas tinha um tom mais exaltado na sua voz, não escutei a voz dela. Silêncio total. Todo o pessoal do prédio havia combinado se encontrar por volta das 18 horas no hall de entrada do prédio, para sairmos juntos, de carro ou de ônibus para chegar até a igreja e assistir a cerimônia e participar da festa. A maioria dos vizinhos, dentro do horário combinado, desceu e nos encontramos no hall do prédio, onde a festa realmente começava, no espaço escolhido para as reuniões de condomínio, para depois ir pegar o ônibus urbano, que pelo seu itinerário, deixariam todos no ponto de ônibus localizado em frente à praça da igreja. A localização da igreja era próxima ao centro, e a maioria dos convidados preferiu utilizar ônibus urbano, que aos sábados à noite, circulavam bem vazios, e o preço da passagem era o mínimo, uma vez que em Guimarães o valor da passagem é cobrado em função das distâncias percorridas, mas no fundo era também uma forma dos convidados motoristas poderem beber um pouco a mais, afinal era festa. Com minha roupa nova, bem escolhida para usar na festa, usei minha colônia preferida, e juntamente com algumas pessoas, descemos no elevador, encontrando o hall do prédio já lotado dos vizinhos e fomos saindo para a rua, num gostoso aglomerado de pessoas que se cumprimentavam, se abraçavam conversando sobre as coisas da vida e da saúde e da festa, estávamos felizes e contentes, além de muito barulhentos. Saindo do prédio com o grupo de homens com quem jogava futebol na quadra do prédio, olhava para todos os lados, não pude deixar de perceber a presença da Fernanda na calçada do outro lado da rua, muito bem vestida, muito bonita, como sempre, estava bem arrumada, maquiada, penteada, mas com um semblante sério, estava aparentemente muito brava, conversando com o seu namorado, que se colocava com seus braços abertos, tentando responder, sempre num tom acima do normal. Depois de algumas palavras mais exaltadas, Fernanda ficou com as mãos apoiadas na cintura, em forma de açucareiro, acabou parando diante dele, agora sorridente, olhou para ele, disse qualquer coisa que fez com que ele abaixasse a cabeça, virou as costas e estava indo embora em direção oposta ao ponto de ônibus, sozinho da Fernanda. Aparentemente a Fernanda adotava uma atitude que demonstrava certa insistência, andando apressadamente atrás dele, segurando-o pelo braço, continuou ao seu lado falando e gesticulando muito, mas ele continuava indo embora, com sua cabeça sempre abaixada, fazendo movimentos de negação, ela foi ficando muito agitada, demonstrando estar muito brava, chamou por ele, no começo em voz baixa, depois em voz normal, finalmente acabou gritando o seu nome, sempre olhando firme para ele, que tinha lhe dado suas costas e foi embora deixando Fernanda falando sozinha. Com gestos rápidos e nervosos, demonstrando muita irritação, Fernanda acabou virando as costas para ele, e resolveu entrar sozinha no mesmo grupo de convidados que tomaria o ônibus para chegar à festa, ela tinha ficado umas 10 pessoas atrás de mim. Eu continuava conversando com os moradores do prédio, sempre procurando disfarçar muito o meu olhar, que se dividia entre as pessoas com quem conversava e com a Fernanda, queria participar daquela cena que me interessava e muito. Aguardava ansiosamente o seu desfecho, até que encostou o ônibus, as pessoas foram entrando e sentando, para o ônibus poder sair. Decidi esperar o próximo ônibus para tentar ir com ela no mesmo ônibus, além de poder ir sentado; seria um dos primeiros passageiros para pegar o próximo ônibus, por algum motivo Fernanda tinha ficado quase no final da fila. Atrás da Fernanda, encostou um rapaz que eu não conhecia, muito bem arrumado, deveria ter uma idade próxima à dela, não deveria ser morador do prédio, era uma pessoa que nunca tinha visto por ali, e devido a isso, não conseguia identificar, mas ele também se dirigia para o evento, ele demonstrava conhecer alguns dos nossos vizinhos, deveria ser algum convidado ou então parente da Izabel ou do Mauro, pensava eu. O fato concreto é que ele tinha uma presença marcante, estava trajando um bonito conjunto de calça e paletó da cor cinza, pelo seu corte e caimento, aparentava ser de boa qualidade, uma linda camisa branca e uma gravata listrada, delicadamente colorida, seus cabelos estavam um pouco mais compridos, mas estavam bem cuidados. Enquanto o ônibus não chegava, ele começou a conversar com a Fernanda, ela parecia estar ainda muito exaltada e aparentemente muito nervosa, com gestos rápidos e conversava num tom de voz ainda acima do normal, ele apenas respondia, com as suas mãos nos bolsos da calça, mas se percebia que ele estava surpreso com aproximação dela, que estava falando sem parar. Na frente da fila para pegar o ônibus, podia perceber Fernanda gesticulando muito, enquanto conversava, melhor dizendo, enquanto só ela falava, agitada, vez ou outra, dirigia o olhar para a direção em que seu namorado tinha ido embora, numa esperança de que ele ainda pudesse voltar, imaginava eu. O comportamento dela estava ficando muito animado em relação ao rapaz, estava sorrindo bastante, gesticulava muito, pegava nos braços do rapaz que estava ao seu lado. Meu ciúme estava saindo pela boca, derramava pelos olhos e molhava minha roupa, pois estava saindo pelos poros em forma de suor. Fernanda adotava um comportamento típico de uma namorada que deseja aparentar indiferença para com o namorado, pensando que ele talvez estivesse vendo a cena, e com isso fazia aquela demonstração, ou talvez para ela própria, que já estava bem e não precisava da companhia dele, continuei imaginando, na minha fantasia, que aquela cena era um comportamento normal, após uma briga de namorados. Na minha fantasia, o rapaz bem arrumado, que poderia ser algum parente da vizinha dona da festa, não deveria saber da briga da Fernanda com o namorado, e ele poderia estar imaginando, que aquela mulher estaria se insinuando, num comportamento um tanto quanto vulgar, demonstrando ser uma mulher comum e de fácil aproximação, não impondo nenhum respeito à sua pessoa com aquele seu comportamento tão excitado. Na frente da fila, eu estava numa situação muito desconfortável, ansioso e muito enciumado, pois aquele batizado era a primeira oportunidade de participar de um mesmo evento, em lugar fechado, com pessoas conhecidas em que ela estaria, pois as festas do bairro eram realizadas sempre em lugares mais abertos e com muito mais gente, aonde se perde a dimensão do espaço entre as pessoas e a aproximação fica sempre mais difícil, imaginava eu. Estava muito aflito, quase agoniado, assistindo agora a outra cena da Fernanda com o rapaz arrumadinho, no final da fila do ônibus, sem nada poder fazer. As pessoas que estavam à minha frente e atrás de mim, na fila, conversavam comigo, respondia algumas palavras, quase que automaticamente, nem deveria saber o que estava respondendo, mas minha atenção estava no final da fila. Quando o ônibus chegou, entrei e sentei num dos primeiros lugares, quase ao lado do motorista, todas as pessoas que estavam na fila entraram no ônibus, incluindo o tal rapaz arrumadinho, com exceção da Fernanda, que por qualquer razão não subiu, o motorista depois de cobrar o último passageiro, deu a partida. Talvez pelo fato dela querer esperar um pouco mais pelo seu namorado, por um eventual arrependimento dele, ou por querer viajar sentada, o fato era que ela resolveu ficar no ponto para tomar o próximo ônibus, mas o rapaz arrumadinho, por uma dessas ironias do destino, acabou sentando ao meu lado e aparentava estar muito preocupado, com a ausência da Fernanda no ônibus, pois ficava olhando para trás, procurando por ela, mas estava muito animado e, muito exaltado, se dirigiu a mim comentando sobre sua última “conquista” na fila daquele ônibus. Justamente comigo! Ele torcia as mãos, batia as palmas das mãos nos joelhos e me perguntava se eu morava no mesmo prédio, e se eu tinha visto com quem ele estava conversando, uma “tremenda mulher”, segundo suas palavras, quem era aquela morena bonita, era uma verdadeira “gata”, muito bonita, muito gostosa, dizendo que iria procurar por ela na festa e convidar para sair para algum outro lugar, demonstrando muita animação e queria conhecê-la melhor. Nessa conversa fiquei sabendo que o arrumadinho era sobrinho da Izabel, e sua tia deveria ter comentado que havia convidado todas as pessoas do prédio, ele ficou me crivando de perguntas sobre ela. Qual era seu apartamento, o que ela fazia, se era casada, separada, divorciada ou tinha namorado. Pelo interrogatório entendi que o rapaz, assim como eu, havia ficado encantado com ela, e não era para menos, ela estava muito bem arrumada e bonita, por isso aquele interesse repentino pela mulher que ele tinha descoberto há tão pouco tempo. Comentava, muito animadamente, que nunca tinha conhecido uma mulher assim e ficava perguntando se eu saberia sua idade, e todas essas perguntas que todo homem faz, quando se está muito afim de uma mulher. Procurei responder com muito cuidado, para não demonstrar qualquer ressentimento em relação àquele comportamento, a minha vontade era mandar ele para o espaço, mas comecei respondendo: “Se você quer mesmo saber, ela mora num apartamento bem ao lado do meu, conheço essa mulher há alguns anos, sei que está se divorciando, tem uma filha pequena, mas agora está namorando uma pessoa”. Continuei respondendo: “E que, exatamente, naquela mesma noite ao sair de casa, tinha acabado de ter uma briga com ele. Sei quase tudo da vida dela, da sua filha, dos seus gostos, seus hábitos, suas saídas, seus desejos, e sei até que ela não deve estar feliz com esse namorado, assim como não estava no seu casamento”. “Sabe o que ela precisa?” Continuei respondendo para o rapaz, que naquele momento estava com os olhos arregalados: “Encontrar um homem, sério e maduro, que saiba dar valor às suas qualidades de mulher e de esposa”. Esses eram os meus valores, a minha fantasia, mas mesmo assim continuei elogiando a Fernanda, falei de muitas coisas que sabia, sem nenhuma mentira e nenhum exagero. Na verdade, não estava respondendo às perguntas dele, estava fazendo o mais puro e sincero desabafo, que nunca tive a oportunidade de comentar com ninguém, a não ser comigo mesmo, mas que naquele momento, inconsciente ou conscientemente, estava cuidando dela, zelando pela sua integridade moral e física, tentando preservar sua imagem e contornar aquele eventual problema. Estava agindo com a mais pura emoção e com o coração, não com a razão. Por outro lado, estava tentando mostrar a verdadeira Fernanda, para aquele eventual novo concorrente na minha fantasia, e que, se ela desejar trocar pelo seu namorado, o arrumadinho deveria se preocupar em conhecer melhor a mulher que tinha conhecido naquela noite, que não seria uma mulher comum, e sim uma mulher especial, com muitas qualidades, e que não estaria a fim de um caso, mas de um compromisso sério, imaginava eu, mas que na verdade, estava tentando assustar e afastar aquele novo concorrente. O rapaz continuava bebendo as minhas palavras, estimulado pelas minhas explicações: “Ela precisa encontrar um homem que realmente a ame e a faça feliz, porque se esse novo companheiro conseguisse fazer isso, tenho certeza, que também será muito feliz. Ela não é uma dessas mulheres que sai com um homem, que conhece num primeiro encontro, é preciso um pouco mais de sedução, de seriedade e de respeito, afinal se você quer uma mulher assim, não seria ela.”, falando de uma forma até um tanto quanto irritado com tudo aquilo. Ele comentou ter 22 anos, não estava trabalhava, por estudar no segundo ano de economia na Universidade do Minho, aparentemente, devia ser de uma família com uma situação financeira estável. Continuei fazendo comentários, como se Fernanda fosse uma velha amiga. E não deixava de ser. Desatento e muito nervoso, deixei escapar algumas afirmações que estavam na minha fantasia, que eu achava ser verdade, ou melhor, queria que fosse verdade, mas que na verdade eu não sabia, mas coloquei com tanta convicção, que ele acreditou. Claro que o rapaz não sabia nada daquilo, mas estava tentando apresentar a Fernanda ao novo pretendente, mas de forma que ele pudesse tratá-la com um pouco mais de respeito e consideração. Fernanda não era uma mulher qualquer, eu apenas queria colocar as expectativas do arrumadinho nos seus devidos lugares, que pudesse reconsiderar seus préconceitos e pudesse tratar Fernanda como ela deveria ser tratada ou então que se afastasse dela. Coloquei mais ou menos nesses termos, como se eu fosse algum familiar dela. Se houvesse interesse por parte dela, e isso realmente poderia acontecer, pois nunca se sabe o que se passa na cabeça de uma mulher, mas que ficassem bem esclarecidas as atitudes que deveriam ser tomadas por parte do rapaz, uma vez que, agora, ele tinha quase todas as informações necessárias sobre a pessoa de quem ele estava tentando se aproximar. De repente percebi que estava falando como se fosse o pai dela Agora quem estava exaltado era eu, o rapaz apenas ouvia tudo, prestava muita atenção, ficava me olhando com os olhos arregalados, no começo meio incrédulo, depois meio assustado, e perguntou: “Mas tudo isso que você está falando é mesmo verdade? Ou você está me contando tudo isso para que eu desista de sair com ela?” Respondi de forma dura e meio ríspida: “Não tire conclusões apressadas, apenas estou sugerindo que se você for convidála para sair, deve tratá-la com muito respeito e dignidade, afinal ela não era apenas uma mulher, era um ser humano, e estava precisando ser tratada como tal”. Nessa curta viagem de ônibus do apartamento até a igreja, local da festa, não consegui ver as lindas paisagens da cidade, nem perceber o delicioso perfume das árvores das ruas e praças de Guimarães que desfilavam pelas amplas janelas do ônibus. Logo depois chegamos ao ponto do ônibus na praça da igreja, onde seria realizado o batizado e a festa. Em pé, antes de descer do ônibus, ainda fiz uma sugestão para que ele se colocasse no lugar dela, e ficasse imaginando como ele reagiria se alguém o tratasse da mesma forma, sem respeito e sem dignidade, apenas objetivando um comportamento físico e egoísta de uma relação a dois. Caminhando ao seu lado, depois de descer do ônibus, em direção à igreja, disse a ele que tinha a liberdade de fazer o que bem entendesse com ela, desde que ela aceitasse, é claro, mas que a tratasse muito bem e com dignidade, senão ele iria ter que se explicar comigo, falei meio bravo, numa ousada e derradeira tentativa de protegê-la e afastá-la de um eventual novo relacionamento, que eu, e apenas eu, julgava ser errado. Puro ciúme. Adotando, inconscientemente, esse comportamento ousado e corajoso, fiquei imaginando, na minha fantasia, que, devido a sua discussão com seu namorado, colocava o relacionamento em cheque, e devido a isso eu teria as mesmas chances que o arrumadinho teria com a Fernanda. Tenho certeza que não tinha conseguido esconder todo meu desconforto, minha irritação e uma profunda inveja, da eventual conquista que o rapaz tinha acabado de fazer. O rapaz arrumadinho teve a oportunidade que eu estava esperando há muito tempo, e deveria saber aproveitar, apesar de toda a minha torcida contra. Dentro da igreja, durante a cerimônia do batizado, tive a minha conversa com Deus, entre uma oração e outra, fiz as minhas reclamações, as minhas lamentações, as minhas perguntas, demonstrando estar extremamente contrariado com tudo aquilo que estava acontecendo, comigo e com uma mulher, que tinha tudo para ser uma futura companheira, que não era justo perder também esta oportunidade, entre outras reclamações. Mas Deus sabe o que faz, pensava eu. 13 - O GRANDE IMPACTO A minha discussão com o bom Deus foi muito intensa, de repente me dei conta que a cerimônia tinha acabado e igreja estava quase vazia, todos os convidados estavam se dirigindo ao salão de festas, levantei e saí meio apressado para entrar no grupo dos vizinhos que gostavam de futebol, que, quando possível, jogávamos uma partida de futebol, eu era muito procurado pela minha posição de artilheiro. Entramos no salão de festas, pude perceber que estava lindo e muito bem decorado, ficamos conversando e bebendo champanhe, eles bebiam para comemorar, se divertir e curtir a festa, eu bebia para tentar me distrair, estava procurando não pensar no eventual encontro dela com o arrumadinho, não queria ver os dois juntos na festa. Depois da quarta taça de champanhe, para minha surpresa, o arrumadinho sobrinho da Izabel, voltou a me procurar, me oferecendo uma taça de champanhe me chamou de lado e continuou a perguntar alguns detalhes da vida da Fernanda. Continuei comentando, entrando em alguns detalhes, reforçando os comentários que tinha feito antes, sempre com o objetivo de esclarecer o comportamento da Fernanda, que ainda não tinha chegado ao salão da festa, ou pelo menos ainda não tinha percebido sua presença. Contei algumas passagens da vida de casada dela, de algumas situações que ela tinha enfrentado com o ex-marido, outras com a sua filha Carolina, das discussões no supermercado, na praça e nas festas, numa tentativa de demonstrar que realmente conhecia Fernanda a fundo. Ou aparentava conhecer. Comentei determinadas situações que ocorreram entre o casal, com ricos detalhes, demonstrando a tristeza e decepção daquele tempo em que, ela pacientemente, aguardou para que sua relação de casamento se reestruturasse, e nada acontecia, a não ser o final do casamento. Afirmei que ela, simplesmente, não precisava ser feliz, ela merecia ser feliz, por ser a mulher que ela era e por todas suas qualidades, e depois de tudo o que ela havia passado durante seu casamento e separação. O rapaz parecia estar entendendo toda a minha explicação, que enfatizava as qualidades da Fernanda, como uma boa mulher, como boa mãe, como uma pessoa muito interessante e que, como tantas outras mulheres, que teve o azar de ter sido muito infeliz no primeiro casamento, e agora na sua nova tentativa de ser feliz, ela não poderia ser tratada como uma mulher qualquer, uma mulher que, depois de ter bebido um pouco a mais, teria um caso ou uma sexo casual no final de uma festa. Ela não era uma mulher qualquer, apesar de afirmar que cada um faz o que quer e depois se responsabiliza pela decisão assumida. Depois de ter feito um verdadeiro testemunho sobre a vida dela, ou melhor, um profundo desabafo, que nem eu sabia que sabia tanto sobre ela, tudo o que eu queria era mostrar ao rapaz que a Fernanda não era uma mulher qualquer, que não teria um comportamento vulgar, e que aqueles momentos dela falar mais alto, e de sair gritando o nome do namorado, depois, se posicionar em frente uma pessoa desconhecida, demonstrando algum interesse, era uma simples tentativa de gerar ciúmes para com o namorado, era apenas uma questão de momento, um momento histórico de raiva, de briga com um namorado, aparentemente problemático, e que, na verdade, ela tinha uma postura de mulher séria, prendada e de mãe de família. Para que ele não se enganasse. Estava tão preocupado tentando defendê-la de outro “concorrente”, que na minha fantasia, aparentemente, só queria transar com ela, que não percebi Fernanda entrar na festa, apesar de estar sempre olhando para a porta, para todos os cantos do salão à sua procura. Entrei nos grupos das pessoas que estavam alegres e sorridentes, cantando em pequenos corais, afinal era a minha primeira festa portuguesa. Voltando para o grupo do time dos jogadores de futebol, dos apaixonados por bola, onde me encaixava, para conversar animadamente sobre os últimos jogos do campeonato português e do Vitória de Guimarães, estava sempre ouvindo, falava algumas coisas, mas sempre observando, discretamente, todas as partes do salão, procurando por ela, depois de algum tempo consegui localizar Fernanda no meio do salão, conversando muito animadamente com algumas amigas, outros casais vizinhos, além do rapaz arrumadinho. Passado algum tempo, Fernanda e o rapaz arrumadinho, se retiraram para um espaço isolado do salão e ficaram conversando, aparentemente ele falava muito mais do que ela, que ouvia atentamente e de vez em quando parava para receber os cumprimentos, abraços e beijos de outros vizinhos. Resolvi não ficar olhando para o casal, para não registrar aquela triste cena, pois sabia que depois iria me lamentar e me castigar de novo por ter perdido outra oportunidade, e lentamente fui conversar com uma das pessoas que estava de costas para aquele lado do salão, que me deixava sem nenhuma visão dos dois conversando, pelo ciúme que estava me despertando, além do que eu não gostaria que ela notasse qualquer zelo para com ela. De repente, comecei a me dar conta do que eu tinha feito. Ao fazer todos aqueles comentários sobre a Fernanda e a sua vida, criava uma situação para que ela viesse perguntar ou pedir explicações sobre as palavras que havia comentado sobre ela com o arrumadinho, eu não saberia como justificar aquele meu inusitado comportamento no ônibus, para com uma pessoa que nem conhecia, muito menos, dar todas aquelas informações sobre ela. Consegui ficar ainda mais aflito do que já estava, tão aflito que comecei a tentar organizar meus pensamentos para uma eventual explicação, caso ela viesse procurar para me questionar. Aquela nova situação sobre o seu eventual questionamento das minhas palavras, sobre o comportamento dela e de toda a sua vida, criou um enorme desconforto para mim, comecei a ficar muito mais preocupado com o rumo que a conversa se desenvolvia entre o arrumadinho e a Fernanda. Apesar de não estar olhando, me posicionei para ter uma visão mais clara dos dois conversando, e estava com uma enorme dúvida: estaria ele tentando seduzir e convidando ela para sair, uma vez que agora possuía algumas informações importantes sobre ela, ou estaria conferindo as informações que eu havia comentado. Em ambos os casos, ela poderia não gostar do que eu tinha feito, afinal estava me intrometendo na vida dela, no que ela tinha toda a razão. O que eu tinha a ver com tudo aquilo. Aparentemente, nada! Para ela podia ser mais uma festa, um encontro casual, mas para mim era muito importante tudo aquilo que estava acontecendo, e agora sem ter feito nenhum planejamento, apenas agindo com impetuosidade, sem muito pensar, havia criado uma situação delicada em relação a ela, e não tinha nenhum controle, o que me deixou nervoso. Comecei a tomar mais champanhe para acalmar. Procurando não aparentar minha preocupação, o que era muito difícil, pois sempre demonstro tudo no meu olhar, sou uma pessoa muito transparente, continuei na roda dos amigos do futebol, conversando sobre futebol, a rodada do final de semana, as mudanças de técnicos, as inevitáveis gozações sobre os times em situações inferiores, os jogadores, por diversas vezes tive que falar sobre o churrasco brasileiro, que eles não acreditam de como existe o rodízio, e uma churrasqueira como uma das partes mais importante das casas. Mas esses assuntos não resistem muito tempo, acabam se esgotando e a conversa toma outros rumos, e o assunto mais preferido dos homens sempre são as mulheres, todos os homens que participavam do papo estavam casados, eu era a única exceção, e os comentários sobre a juventude e adolescência, das atrizes, das modelos e das vizinhas, e não podia deixar de surgir o assunto sobre a nova “desquitada” do prédio, a Fernanda. Os amigos tinham opinião sobre a tremenda mulher que ela demonstrava ser, ninguém sabia das suas qualidades pessoais, nem estavam preocupados em saber, só importava a beleza física e os comentários era sobre tudo o que eles sabiam, e que não era nada muito além dos assuntos surgidos nas reuniões de condomínio e dos assuntos que ocorre nas festas, sempre de forma superficial, e acabamos falando sobre política, custo de vida, profissão e empregos. Todos estavam com seus copos cheios de champanhe em uma das mãos e um salgadinho na outra, entre um comentário e outro, sorriam, olhavam para os lados, se ajeitavam para falar ou escutar os novos comentários, eu era o único no grupo que estava sem copo nas mãos, já tinha bebido um pouco demais para me refazer e esquecer toda aquela situação gerada com o arrumadinho e a Fernanda, agora estava esperando pelos salgadinhos da cozinha portuguesa, e os demais pratos que, aos poucos estavam sendo oferecidas pelos garçons. Tomar alguma bebida alcoólica, sem comer muito, sempre me fez mal, além do mais já tinha bebido o suficiente para, além de relaxar e conseguir parar de pensar na oportunidade perdida, e de novo não me perdoava, queria estar sóbrio o suficiente para responder um eventual questionamento da Fernanda. Estava mais conformado e aceitava a nova realidade. Quem sabe numa outra oportunidade, com outra pessoa, eu conseguiria. Quem sabe. Foram momentos tristes, intermináveis de muita reflexão, depois acabei me distraindo com as conversas, que à medida que vão se aprofundando é preciso prestar mais atenção, para poder dar qualquer opinião, agora estava num outro tempo, num comportamento de defesa e acabei me esquecendo da presença da Fernanda na festa, não me dei conta de quanto tempo tinha se passado depois que ela entrou na festa e ficou conversando com o rapaz arrumadinho. Depois de saborear alguns bolinhos de bacalhau, resolvi tomar mais champanhe, e quando estava procurando pelo garçom, não pude deixar de ver o rapaz arrumadinho sobrinho da Izabel, o atual “amigo” da Fernanda, numa animada conversa com outro grupo de rapazes e mulheres, mas, o mais importante era que estava sozinho dela. Mais do que depressa, procurei me recompor, e passei a ficar mais atento em relação às pessoas da festa, disfarçadamente comecei a procurar Fernanda por todo o salão, não estava encontrando, devia estar na cozinha, na sala de banho, como os portugueses chamam o sanitário, ou em qualquer outro lugar, pensava agora, um pouco mais calmo: O concorrente havia dado um espaço de tempo ou estava fora de combate. Pensava isso com um sorriso maldoso nos lábios. Um pouco era realidade, “o arrumadinho” estava conversando com outras pessoas, um pouco era fruto do excesso de champanhe que já tinha tomado. O fato é que agora ela poderia vir conversar e me pedir as devidas explicações, apesar de respirar mais aliviado, por um lado, ainda estava meio tenso por outro, mas sempre conferindo se o rapaz ainda estava na sua nova roda de amigos, bebendo, rindo e comendo. Não encontrei a Fernanda. Parece que eu tinha conseguido clarear aquela situação, pelo menos na minha cabeça, tinha preservado a Fernanda, possivelmente de mais uma relação indevida, dentro da minha doce fantasia, começava a pensar que, dessa forma o caminho poderia estar livre novamente, criando condições de pensar em qualquer outra estratégia de aproximação ainda naquela festa, afinal o evento estava acontecendo com ela presente, sem seu namorado e sem seu novo amigo, era uma oportunidade de ouro que começava a se apresentar. Mas onde estava Fernanda? Agora, enquanto conversava com o grupo de jogadores de futebol sobre a economia, a ecologia e as mulheres, além do futebol, comecei a imaginar e articular meus pensamentos para poder tentar explicar a minha atitude e poder tirar algum proveito daquilo tudo, e de vez em quando, meus olhos ficavam passeando pelo salão procurando por ela, e ainda não havia conseguido encontrar onde ela estava e, o pior, com estaria conversando agora. 14 – SEDUÇÃO E ENCANTAMENTO Estava prestando atenção na conversa dos vizinhos ao meu lado, depois de algum comentário mais engraçado, a roda se abre como num passe de mágica, todos os olhares se dirigem para uma nova pessoa que entra no grupo, empunhando duas taças “suadas” de champanhe, amparadas por lindos e delgados dedos que compunham duas delicadas mãos, na frente de um lindo sorriso e de dois lindos olhos azuis, emoldurados por lindos cabelos negros, e um maravilhoso vestido, mais ou menos justo, com detalhes em desenhos azuis, claros e escuros, essa pessoa não era nada mais, nada menos, do que a própria Fernanda, que entrava para o meu animado grupo de conversa. Não preciso dizer que meu coração disparou e parou, foram diversos ataques cardíacos, por diversas vezes, comecei a suar frio, olhava para os lados, colocava as duas mãos no bolso para não demonstrar qualquer nervosismo, mas era tarde de mais, não conseguia disfarçar, estava apavorado, tremendo, suando muito, parecia estar esperando a primeira namorada num primeiro encontro. Olhava para todos os lados, para baixo e, como sempre, nos outros momentos quando cruzava com ela, não olhava para seus olhos, somente para as duas “suadas” taças de champanhe. Não conseguia disfarçar o meu comportamento nervoso. Para disfarçar ainda mais, olhava para seus dedos e suas unhas, lindamente pintadas, seus sapatos, seu vestido, e sua linda e deliciosa boca entreaberta, procurando fugir dos seus olhos, na realidade estava com muito medo do que estava por acontecer naqueles próximos momentos. A maioria dos vizinhos conhecia a Fernanda, já tinham conversado com ela, mas todos pararam de conversar, ficaram mudos olhando atentamente para ela, que tinha conseguido chamar toda a atenção do grupo, com duas taças de champanhe erguidas em frente ao seu lindo rosto. Numa atitude de comprimento formal, delicada e lentamente, percorreu com seu lindo olhar azul, os olhos de todos os rapazes que estavam na roda, inclusive eu, ela era a única mulher, de repente seu olhar parou diante dos meus olhos que agora, corajosamente, olhava para os olhos dela, afinal precisava entender o que estava acontecendo. Ela ficou me olhando firmemente no fundo dos meus olhos, e eu olhando atentamente para o lindo azul do seu olhar, um momento marcante, numa situação que nunca tinha acontecido antes, olhar nos seus olhos e perceber ela olhava para mim, mas além daquele olhar azul maravilhoso, ela docemente me perguntava: “aceitas uma taça de champanhe?”. Ainda estava com as mãos vazias, sem nenhuma bebida, e a Fernanda estava se posicionando no centro do grupo, estendendo a sua mão direita na minha direção, me oferecendo uma taça de champanhe, com aquele seu lindo olhar azul brilhante e sorridente, um alegre e delicioso sorriso entre os lábios, numa postura inesquecível e extremamente ousada, mas muito graciosa e delicada. Também não aparentava nenhum comportamento de rancor ou desaprovação, não tinha nenhum comportamento de contestação ou questionamento, o que me deixou mais aliviado e um pouco mais tranquilo, apesar daquele momento de enorme tensão que estava vivendo na festa. A tensão agora era outra. Aparentemente era a mesma Fernanda que eu conhecia das festas, reuniões, praças, passeios, compras e junto aos elevadores do prédio. Ela tinha essa capacidade, com aquele impacto da sua entrada no grupo, me deixou completamente desarmado de todo e qualquer comportamento que eu pudesse ter um dia imaginado, planejado e me preparado. Fiquei estático, paralisado com a surpresa de sua presença na minha roda de amigos, com o azul do seu olhar nos meus olhos, com as suas palavras me oferecendo champanhe, fatos que me deixava totalmente desprevenido e desarmado. Apesar de todas as minhas expectativas, jamais imaginaria, em todos os planejamentos e fantasias que sempre criava nos meus momentos de solidão, uma situação como àquela, com aquele clima, com aquelas palavras, com aquelas pessoas. Comecei imaginar que talvez fosse pelo excesso de champanhe que tinha bebido, mas me dava conta que estava vivendo uma simples e linda realidade. Ainda mais eu, que gosto de planejar tudo antecipadamente, programando todas as possíveis reações e decisões, para não errar, estava agora sem poder acreditar no que estava acontecendo, muito sem jeito, olhei para os dois lados e para trás, não percebendo mais ninguém, na direção da taça que estava em sua linda mão, do seu olhar e do seu sorriso, concluí: Ela estava falando comigo! Ela estava falando comigo! Era preciso responder alguma coisa, meus pensamentos foram a mil por segundo. Foram frações de segundos, mas pareceram séculos, eu estava gelado, suado e trêmulo, mas a Fernanda continuava a olhar firmemente nos meus olhos, com a mão estendida na minha direção, esperando alguma resposta minha. Com um leve sorriso, muito sem graça, consegui perguntar, em voz muito baixa, com a boca meio fechada: “Para mim?”. Estava muito preocupado e com medo de responder normalmente, pois meu coração poderia escapar pela boca e ir parar no seu colo, pela enorme emoção, surpresa e alegria. “Sim, para você”, consegui ouvir sua voz responder. Estiquei minha mão e peguei a taça de champanhe, procurando tocar sua pele, queria sentir que o momento que estava vivendo era pura realidade, eu não estava sonhando, mas não consegui tocar nos seus lindos dedos. “Obrigado, estou mesmo precisando beber, para me refazer do susto”! Agradecendo pela sua gentileza, fiquei esperando, como todos os demais componentes do grupo, que ela sugerisse um brinde ao menino que estava sendo batizado. Todos os assuntos do grupo ficaram suspensos, ficamos todos sem saber o que fazer, uns se afastaram em duplas, os outros que ficaram, começaram a conversar entre eles, o fato é que ficamos praticamente sozinhos, um em frente ao outro, eu e a Fernanda. Agora mais próximos, ela respondeu: “Vamos brindar a um encontro”. Não sabia o que responder. Fiquei pensando, qual encontro ela estaria se referindo? De quem? Com quem? Estava perplexo, não sabia responder, muito menos o que fazer, mas estava feliz com ela ali na minha frente, apesar de não saber o que iria acontecer em seguida, eu estava trêmulo, com milhões de fatos, histórias, momentos e diversas outras coisas que estavam passando pela minha cabeça. Não conseguia raciocinar direito, nem conseguia pensar numa resposta mais sensata e mais inteligente, estava agora com uma chance tão sonhada, ansiosamente esperada, era um momento imperdível para poder mostrar quem era eu, com todas as minhas qualidades de homem, de profissional, e principalmente, apresentar toda a minha admiração e afeição por aquela mulher, que agora estava diante de mim, sorrindo, me olhando nos olhos e querendo brindar um encontro. Foram frações de segundos, tão infinitos quanto preciosos, muito importantes para que tivesse tempo para continuar procurando e escolhendo as palavras para poder apresentar, da forma mais correta possível, todos os meus pensamentos, ou ainda como poderia fazer para demonstrar que poderia ser um bom amigo, uma excelente companhia, mas tinha que ser muito rápido, tudo tinha que ser feito em fração de segundos, afinal ali estava a minha grande chance, não queria errar, não podia errar. Não saberia descrever todos os pensamentos que passaram pela minha cabeça naqueles momentos de pura aflição, não conseguia organizar nada, a tensão não me deixava pensar em nada, estava tão desprevenido que não conseguia rever todas as minhas estratégias criadas, pensadas, programadas e tão planejadas, em nenhuma delas tinha previsto essa situação, em nenhum momento esperava acontecer um encontro dessa forma, que me deixava numa situação muito incômoda e desconfortável. Naquele momento Fernanda estava diante de mim. A minha grande paixão, me deliciando com sua linda presença, proporcionando delicados momentos de puro prazer, de amor, que ficou durante tanto tempo contido, escondido, preservado, e que agora estava presente, bem diante de mim, olhando nos meus olhos, com uma taça de champanhe querendo comemorar um encontro. Meu Deus, mas esse encontro seria com quem? Perguntando para mim o que poderia fazer agora. O que poderia responder de forma inteligente, delicada, honesta e ao mesmo tempo romântica. “Um encontro?”, consegui perguntar, de novo com voz baixa e pausada, olhando firmemente nos seus olhos, ainda me segurando para não pular em cima dela e cobrir ela de beijos, muitos beijos, tantos beijos que ela já tinha recebido em sua vida, mas na verdade estava tentando ganhar alguns segundos para me refazer do susto daquela deliciosa e maravilhosa surpresa. “Ao encontro de duas pessoas”, disse ela, sempre sorrindo duplamente, com seus olhos e com seus lábios. “Que duas pessoas, a menina do batizado e Deus?”, perguntei, ainda tentando ganhar tempo. “Esse encontro faz muitas pessoas ficarem felizes”, continuei falando, contendo a minha respiração e minha voz para não gaguejar e para que ela não percebesse ou escutasse as batidas do meu coração. “E, pela sua reação, e pelos seus olhos”, ela continuou falando com o seu lindo sorriso...: “você parece que está meio assustado, com esse encontro, estaria muito surpreso, muito receoso, mas está aparentando determinada felicidade no seu olhar, ou será que estou enganada?” “Que encontro? Quais duas pessoas?” Respondi, e completei mais calmo: “Estou surpreso sim, com muita felicidade nos meus olhos!” Esse diálogo demorou séculos para acontecer, brindei com a sua taça e bebi a taça de champanhe quase num só gole, para me acalmar, e peguei outra taça de champanhe do garçom que oportunamente passava por ali, ofereci outra taça para ela, mas ela mal tinha tocado a champanhe com seus lábios, então ela, delicadamente, recusou. Agora, a conversa era somente comigo, o grupo de amigos percebeu que a conversa deveria ser particular e, delicadamente foram se afastando. Adotando uma postura mais segura, cruzou os braços, deixando a mão esquerda com a taça de champanhe de fora do seu lindo corpo e afirmou: “Acredito que hoje encontrei uma pessoa que, aparentemente, pode ser a pessoa que sempre procurei”, disse ela com muita convicção. E continuou com seu duplo e azulado sorriso: “Essa pessoa está aqui entre nós, nesta festa, por isso estou muito feliz e quero brindar com você”, dizia aquele monumento de mulher. Comecei a ficar mais calmo e feliz, mas ainda um pouco assustado e trêmulo, sem saber direito quem poderia ser aquela pessoa. Ou ela estaria demonstrando estar feliz e que eu não teria nada que falar sobre seus relacionamentos antigos ou novos! Poderia ser eu, ou poderia ser qualquer outro, inclusive o tal rapaz arrumadinho, e acabei respondendo: “Que bom saber que você está feliz, ainda mais por ter descoberto seu parceiro aqui na festa”. Só faltava perguntar, explicitamente, quem era ele, meu Deus! Na minha resposta estava tentando colocar toda a minha intenção de saber de quem ela estaria falando. Seria o rapaz arrumadinho? Ou será que ela estaria se referindo mim? Ela aparentava estar muito senhora da situação e me olhou fixamente, sempre sorridente, e perguntando incisivamente: “E quanto a você? Encontrou também alguém, aqui na festa, que te deixou nesse estado de surpresa, alegria e de felicidade?” Tentando aparentar uma tranquilidade totalmente inexistente, uma vez que ela tinha percebido a minha total surpresa, e comecei olhando para os lados e depois para o fundo azul dos seus olhos, respirei fundo e respondi de forma muito sincera e profunda, mas que na realidade era um verdadeiro desabafo: “Sim, é verdade, não só aqui na festa, mas sempre que vejo essa pessoa, em qualquer lugar, fico extremamente feliz, é uma pessoa que preenche, perfeitamente, toda a minha fantasia criada em torno da imagem e da postura de mulher, e quando ela surge na minha frente, de corpo presente, eu fico assim surpreso e encantado, só por saber que ela realmente existe, e que não era fruto de toda a minha fantasia e imaginação.” Falei de uma só vez e numa só respiração, para não engasgar ou gaguejar, era uma frase que tinha decorado. Outro gole de champanhe para continuar falando, tentando agora mostrar certo domínio da situação e me exibir um pouco mais: “E, por sinal, ela está presente na festa, mas eu não sabia se ela estaria feliz. Particularmente, eu fico muito contente só em saber que ela está feliz”. Ela reforçou entre dois goles de champanhe: “Eu creio que ela está muito feliz sim, está surpresa, um pouco chateada por não ter percebido antes, mas agora está eufórica, só por imaginar, que poderia ter, finalmente, encontrado alguém, que tem todas as condições para ser um parceiro adequado”. Ainda não estava totalmente seguro que ela poderia estar falando de minha pessoa, e para ter mais certeza, resolvi fazer uma provocação: “Pelo tempo que conheço e por tudo o que eu sei dela, tenho quase a certeza que ela nem sabe que existo. Será que estamos falando da mesma pessoa?” “Tim Tim”, disse ela, aceitando a provocação brindou comigo, sorvendo um pequeno gole de champanhe, depois, delicadamente, limpou seus lábios com a ponta da língua, e deu um delicado beijo no guardanapo. Morri de inveja daquele ridículo pedaço de papel que ficava olhando e sorrindo para mim. Também tomei um gole maior de champanhe, alias dois grandes goles, para tentar me acalmar diante daquela situação excitante e assustadora, mas deliciosa, uma situação que nunca planejei, sonhei ou imaginei. Era a oportunidade que tanto tinha sonhado e agora estava acontecendo, e ainda não estava acreditando. Adotando uma atitude firme, cruzando os braços, deixando apenas sua mão que segurava a taça de champanhe para fora do seu lindo corpo, respondeu: “Creio que ela sabe sim, ela sabe onde você mora e sabe seu nome, tenho certeza disso, você é que nunca prestou atenção que ela também olhava para você”. Iniciando um jogo, estávamos agora tentando nos descobrir um pouco mais, e dessa forma procurei avançar mais no “ataque”, afirmando: “Pelas minhas informações, ela estava separada, com um casamento se transformando em divórcio, e agora, pelo que consegui perceber, ela está namorando, e aparentemente, esta noite, teve apenas uma pequena briga com seu namorado e acabou vindo à festa sozinha, não sei se para se divertir, ou para fazer uma cena de ciúmes, conheceu outra pessoa. Amanhã tudo volta ao normal, eles fazem as pazes e ela acaba retomando seu namoro”. Consegui colocar todas essas palavras também de um só fôlego. Com seus olhos lindos azuis, ela deu um verdadeiro passeio pelo salão, procurando alguma coisa por todos os lados, concluiu: “Agora será muito difícil ela voltar! Seu namorado demonstrou estar ainda muito imaturo, para qualquer tipo de relacionamento e consequentemente muito inseguro, com poucas experiências na relação a dois. Além do mais, gostei de descobrir que preciso de um homem mais experiente, que sabe o que quer da vida, da profissão, da parceira e do relacionamento a dois”, disse ela olhando para as minhas mãos. “Essas palavras eram minhas, ela roubou da minha boca através da boca do arrumadinho”, consegui pensar. Respirando fundo, ela afirmou demonstrando muita certeza: “Ela não sabia de muitas coisas, descobriu durante o seu casamento, e agora quer refazer sua vida, esquecendo todo o seu passado, tentando recuperar o tempo perdido. Tenho certeza que ela vai deixar o namorado e vai procurar olhar a vida de forma diferente. Chega de tentar ser feliz. Agora ela vai ser feliz juntamente com um homem mais maduro”. Também disse tudo isso, de uma só vez, numa só respiração, olhando nos meus olhos, sorrindo e de uma forma muito convincente. Pronto! Era a resposta que queria ouvir, queria dar pulos de alegria e sair abraçando e beijando a todos, mas procurei me conter, respondendo: “Bom, se ela vai ficar feliz, eu também vou ficar feliz, muito feliz! Mas, será que ela realmente vai perceber que pode ser feliz? Deixando sua postura de namorada impulsiva?”. Resolvi perguntar, com toda a sinceridade e na profundidade do meu olhar, transmitindo aquela enorme energia positiva de felicidade. Queria saber se ela estava certa da sua postura, ou melhor, da sua nova postura. Em meio a esse jogo de cena, de afirmações, de dúvidas, de charme e de sedução, o então namorado da Fernanda, acabava por chegar ao salão de festas, estava na porta principal, e para variar, estava com o seu semblante fechado, sério e aparentemente muito bravo, tinha as suas duas mãos afundadas nos bolsos da calça, olhando para todos os lados, deveria estar procurando por ela. Quando seus olhos a encontrou, veio pisando duro e forte direto ao encontro da Fernanda, que estava ao meu lado. Ele veio se aproximando e tentando conversar com ela, mas continuava se atrapalhando com as palavras, seu jeito de se comunicar não parecia ser muito eficiente, apresentava uma postura que aparentava ter abusado da bebida, ou pior ainda, havia entrado em contato com algum tipo de droga. Ele apresentava um comportamento bastante alterado, se dirigindo a ela de forma exaltada, com voz alta, de forma um tanto quanto agressiva, de repente percebi um calor maior junto do meu corpo, percebi o corpo da Fernanda se encostando junto ao meu corpo, parecia estar buscando proteção, percebendo seus dedos próximos aos meus, procurando entrelaçá-los e por fim, depois de entrelaçar os seus dedos junto aos meus, pegou na minha mão. Ela assumiu uma postura firme e decisiva, olhou bem nos olhos do seu então namorado, e disse que tinha refletido muito sobre o que ele havia afirmado no início da noite, no apartamento e no ponto de ônibus, e agora estava decida dar outro rumo em sua vida, que iria reconsiderar a relação deles. Nossos dedos estavam, agora, entrelaçados, eu já estava começando a sentir o calor do seu corpo, quando ela encostou seu lindo corpo junto ao meu, de uma forma mais acintosa, para que seu então namorado pudesse ver, percebendo, que ela estava assumindo uma nova postura, inclusive fisicamente. O namorado parecia estar num outro mundo, não estava entendendo nada do que estava acontecendo, até que abaixando seu olhar encontrou a imagem da mão da Fernanda entrelaçada com a minha, levantou as pálpebras, franziu sua testa num olhar que estava entendendo tudo, abaixou sua cabeça e saiu num caminhar apressado em direção à porta de entrada, mais parecia estar marchando, com seus passos pesados, mas rápidos, ele foi se retirando, mas não sem antes dizer algumas palavras agressivas, em voz alta para quem quisesse ouvir. Fiquei tão petrificado com aquilo tudo que não consegui descobrir o que ele tinha falado. E nem queria, estava embevecido com as mãos da Fernanda e com seu lindo corpo. Nesse momento, ela se virou e colocou-se de frente para mim e olhando nos meus olhos, com seu lindo sorriso azul, e falou entre seus dentes: “Ela sempre esteve aqui”, disse baixinho, e continuou falando: “Mas sempre achou que você não gostava dela, não dando a atenção que merecia, e por uma questão de preservação pessoal, ela passou a desconsiderar a sua presença.” E foi se aproximando de uma forma assustadora, seus lábios foram ficando tão próximos, seus olhos, que eram tão grandes, foram se fechando e seu perfume foi ficando cada vez mais inebriante, quando me dei conta, tinha recebido um selinho da Fernanda. Agora com os olhos abertos, Fernanda dizia: ‘Afinal, podemos enfim brindar ao nosso encontro?”. Suando frio, minhas pernas tremiam, fazia um enorme esforço para não demonstrar toda a minha ansiedade e insegurança, mas agora estava diante de uma realidade e muito senhor daquela situação e muito mais confiante das minhas condições e com um raciocínio mais lógico e sensato, respondi firmemente: “Não! Eu não vou brindar ao nosso encontro! Porque, na realidade, já faz muito tempo que encontrei você, e você a mim. Mas podemos brindar ao começo da perfeita cumplicidade, do inseparável companheirismo e uma deliciosa dedicação!” “Na mais perfeita relação que deve existir entre duas pessoas”. O que ela sorrindo concordou e brindou. Bebemos a taça de champanhe e nos abraçamos fortemente e assim ficamos por vários minutos. Aquela cena toda devia ter demorado meia hora ou mais, nós dois ainda abraçados, fomos saindo da festa, sem falar com ninguém, sem se despedir de ninguém, como se o mundo fosse feito só de nós dois. Fomos caminhando de mãos dadas, em direção ao nosso condomínio, sem esperar qualquer condução, caminhando pela noite, sob a luz de uma linda lua crescente, que predominava no céu sem nuvens, respirando o perfume das ruas de Guimarães, como testemunho daquele encontro de duas pessoas, de mãos dadas, de almas algemadas, de corações unificados. Não sei dizer que horas eram, mas era tarde da noite, a cidade estava vazia de carros e de pessoas caminhando pelas ruas, que exalavam o perfume das árvores. Estávamos caminhando em silêncio, num silêncio de aceitação, de compreensão, de consentimento, de felicidade, de tranquilidade e de paz. Estava trazendo a Fernanda pela mão. Não trocamos uma só palavra durante o caminho, que por qualquer razão acabou ficando mais curto, pois chegamos muito depressa. Nem percebemos o tempo que passou. Quando chegamos ao portão de entrada do prédio em que morávamos, entramos e fomos procurar a porta do elevador, obviamente apertei o botão do meu andar, que coincidente era o mesmo que o dela, e ao sair do elevador, nos entreolhamos e sorrindo suavemente, ela perguntou baixinho: “E agora?” Respondi enfaticamente: “Sim, e agora?” “O que você quer fazer? Vamos dormir na alegria do nosso encontro ou no começo da nossa felicidade?” Fernanda, sempre sorrindo, curiosamente perguntou: “E qual é a diferença?”. Segurando suas mãos e olhando nos seus lindos olhos afirmei: “Se formos cada um para sua casa, vamos dormir profundamente felizes, devido à alegria de termos nos encontrado! Se formos dormir juntos, na sua ou na minha casa, começará a felicidade de descobrir o começo de um relacionamento, só que de forma mais intensa e mais completa”. Essa frase eu tinha planejado, com muito cuidado e que deveria ser colocada com muita sensualidade. E foi. Continuei falando, baixinho, segurando as mãos da Fernanda: “Não sei como você reage a estas mudanças seguidas. Não quero assustar e nem apressar você, mas há muito tempo em que sonho abraçar, beijar e poder ficar com você. Nem sei se agora vou conseguir, mas se você quiser vai ser a realização de um lindo sonho”. Ainda estávamos de mãos dadas e nos olhando, num diálogo delicado e profundo entre nossos olhares, num profundo êxtase, numa situação de perplexidade, para ambos, de que tudo aquilo realmente estava acontecendo, tudo estava tão bem, que qualquer decisão adotada, seria perfeita. Na minha a opinião, era preciso mais um tempo, para que os dois pudessem assimilar e acostumar com a ideia de estarem juntos, pois foi tudo tão rápido, muito mais para mim, do que para ela. Mas não deixava de ser, um grande susto para mim, que precisava preparar minha cabeça e minhas reações para uma nova relação, entretanto não queria desestimular as reações dela. Afinal era uma relação a dois. Ela dizia que ainda estava raciocinando com toda a leveza que a champanhe oferece, no sorriso de uma felicidade natural e não queria que o sonho acabasse, e que ela não gostaria de acordar e pensar que tudo aquilo não tivesse passado de um lindo sonho, e que gostaria de acordar ao meu lado, sabendo que poderia abraçar aquele sonho durante a noite toda e também pela manhã ao acordar, constatando aquela nova e linda realidade. Decidimos ir para a casa dela. Na sala ficamos nos olhando, se comunicando, se entendendo, sem precisar dizer nenhuma palavra, apenas se tocando de leve, com os dedos, com os lábios, muito mais para saber que aquilo tudo não era um sonho, e que ambos existiam de verdade, um para o outro. Esse comportamento durou algum tempo, até que o cansaço venceu e ela me convidou para tomarmos um banho juntos, para que ambos pudéssemos descobrir e conhecer nossos corpos, de forma delicada, gostosa, perfumada e com vibrante energia, que só a água pode oferecer. Era um momento mágico, caminhamos para a sala de banho, descobri que havia uma hidromassagem, delicadamente sugeri a retirada de uma peça de roupa de cada vez. Sabia que perderia, pois tinha menos roupa do que ela, mas mesmo assim fiz a proposta e foi aceita e começamos a nos despir enquanto a água quente completava a banheira, espalhando uma fumaça no ar, com os sais de banho perfumando o ambiente, ofuscando nossos olhares mais aguçados e curiosos. Conseguimos perceber os perfis dos corpos, começamos nos tocando através da fumaça, cada vez mais espessa, num ritual de descoberta delicada, suave, vagarosa e deliciosa, que aproximava os corpos com os longos beijos que trocamos, com os carinhos das nossas mãos, dos nossos braços e das nossas pernas. Era uma dança na penumbra, uma dança da espuma, uma dança do sabonete. Nossas mãos deslizavam pelos nossos corpos, montando esculturas das imagens desejadas, os corpos se contorciam no compasso de uma dança lenta e deliciosa. Essa dança se realizava sem nenhuma pressa, sem força, apenas carinhos, suaves carinhos, leves toques, delicados beijos superficiais. Uma leveza que também leva ao prazer, até que os corpos se encontraram, se tocaram e se penetraram, num delicado ritual de amor e prazer. Esse estava sendo o primeiro encontro de amor, de dois namorados tão sonhados. De dois namorados apaixonados, um pelo outro, há muito tempo. 15 - O PRIMEIRO DIA DO RESTO DE NOSSAS VIDAS Acordamos com um lindo amanhecer, da janela do seu quarto já se podia ver a o sol surgindo no horizonte, colocando fogo em uma pequena parte do céu, um novo dia estava amanhecendo, mas não era um dia qualquer que iniciava, não era um dia comum, era o primeiro dia do resto de nossas duas vidas. Depois de uma noite inteira de um intenso diálogo entre nossos corpos suados, ousados, ora trêmulos, ora agitados, ora cansados, numa comunicação quase que perfeita, quase sem palavras, com muita curiosidade e com muito amor, onde prevalecem os beijos, os carinhos, a delicadeza, tudo com extremo cuidado para com aquele delicados momentos, que foram poucos, e deveriam ser os únicos na vida de cada um de nós, num momento especial, que nenhum dos dois gostaria de cometer qualquer erro, ao mesmo tempo, queria vivenciar aquele novo tempo de nossas vidas de uma forma plena e completa. Eu deveria ter mais experiência do que ela, pelo menos na teoria, por toda a minha vivência, não do casamento, que foi quase nenhuma, mas das relações que tive com as antigas namoradas, por outro lado, ela havia me contado que seu exmarido tinha sido seu primeiro e único namorado, e dessa forma, delicadamente, procurei tomar algumas iniciativas, descobrindo cada milímetro do seu lindo corpo, me deliciando com seu jeito meigo, doce e muito fogoso, sem impor nenhum tipo de comportamento que pudesse por em risco aquele momento. Após diversos momentos de muita intimidade, ela estava mais a vontade, mais solta, apresentava um comportamento mais natural, quase sem inibição, e ficava me perguntando, em determinados momentos como poderia fazer certos carinhos, e se eu gostava desta ou daquela posição, quais outras eu conhecia, quais os tipos de carinhos dariam mais prazer, para mim e para ela. Percebi que ela estava se redescobrindo sexualmente, e o melhor de tudo isso era que ela estava adorando viver aquela nova experiência. Fernanda era realmente uma mulher muito interessante, conseguia ser doce e, ao mesmo tempo, mágica, completando a maioria das fantasias de qualquer homem, até mesmo os exigentes, que não era a minha característica principal, apesar de me entregar por inteiro e cobrar isso da companheira, mas com muita paciência e boa vontade. Depois das delícias do inesperado primeiro encontro, dos primeiros beijos, das descobertas pessoais, daquela ducha aquecida, perfumada e reveladora, dos beijos e carinhos mais íntimos, que no começo eram muito superficiais, e depois, lentamente, foram se intensificando, ficaram mais molhados e mais profundos, com movimentação intensa e combinada com todas as partes dos corpos, que era reduzido quando do total êxtase, do prazer, dos gemidos, e do relaxamento dos dois corpos, que se repetiram por diversas vezes. Fernanda dizia que nunca tinha sido tão bem tratada, estava insaciável, não parou em nenhum momento, me levando à loucura por diversas vezes, eu nunca havia combinado amor e paixão com sexo, era minha primeira experiência, mas ela também delirava de prazer, depois de um tempo estávamos exaustos, acabamos dormimos sem querer, era necessário refazer as energias dos corpos, mas já estava amanhecendo. Pelas reações que a Fernanda apresentava, dava para entender que nenhum dos dois tinha passado por uma experiência de amor e sexo como aquela, de prazer e entrega, de liberdade sem censura, de um amor tão puro. Apesar de todas minhas fantasias e meus pensamentos de como seria um encontro com Fernanda, em nenhum desses momentos imaginei que seria com aquele carinho todo, apesar das riquezas das minhas fantasias eróticas, entendi que esse primeiro encontro tinha sido muito mais do que uma simples busca do prazer, foi uma descoberta das formas dos corpos, da sensualidade, da sensibilidade, e da sexualidade de cada um. Estávamos nos descobrindo, um ao outro, mostrando todo o conhecimento que cada um de nós tinha do prazer e do amor que pode existir entre duas pessoas, com carinho e respeito, ambos procuramos a melhor forma de fazer todos os carinhos que pudesse dar mais prazer e excitação, procurando sentir, na mais intensa plenitude, os carinhos que recebia num lindo e delicioso jogo da sedução, de prazer, de entrega e de amor que estava unindo duas pessoas, agora sem medo, sem culpa, sem inibição ou qualquer outra preocupação. Era o amor verdadeiro. No inicio, um diálogo silencioso, uma linda poesia amorosa, onde o poeta e a musa se misturam nos gestos, nas palavras e nos corpos, que se confundem no encantamento e no prazer, de tal forma que não se consegue perceber aonde começa um corpo e aonde termina o outro, naquela verdadeira escultura em movimento da dança do amor e da excitação. Estava criando uma linda poesia sobre o lindo corpo da Fernanda, agora suado, excitado, arrepiado, molhado, e que, silenciosamente, procurava me acomodar nas curvas sinuosas do seu corpo, me apropriando, num doce movimento encaixava as pernas, os braços, as bocas, era uma verdadeira dança, com movimentos lentos, cuidadosos e compassados, que não precisava de música ou palavras, os olhares estavam inebriados, quase fechados, toda a magia daquela dança compassada, onde os corpos se encontram, atendendo todos os desejos, que era o fruto das mais lindas fantasias que existia no repertório cultural e sexual de cada um, com movimentos delicados, os corpos vão se encaixando, num ritmo lento, procurando um movimento comum, que demonstram uma nova forma de ter e dar muito prazer e de amar. A descoberta dos corpos, com ajuda das mãos, foi como fazer uma escultura, aonde os dedos vão, delicadamente, moldando uma argila, úmida e macia, na busca dos mais escondidos redutos do corpo, os dedos passeiam, aprofundando nas reentrâncias, elevando nas saliências, deslizando nas partes molhadas, umedecendo as partes secas, sempre buscando a melhor e mais bonita forma de definir as formas e os corpos. Estava descobrindo com os lábios, como sentir e se apropriar dos sabores do outro corpo, com uma delicada colaboração da língua, que facilita os caminhos a serem percorridos, que os lábios demonstram conhecer, em todos os seus atalhos, e de acordo com a sensibilidade das partes tocadas, os gemidos vão denunciando os caminhos mais precisos a serem percorridos e aonde deve se intensificar para aumentar o prazer. As pernas são verdadeiros pilares que sustentam essa dança, determinando os passos, acelerando o ritmo, permitindo a maior aproximação, e quando a escultura estiver quase pronta, elas se firmam tentando manter a posição do passo daquela dança por um tempo maior, numa estreita combinação com os braços, que além de manter seguro, controla, através das mãos, todos os movimentos daquela dança. Quando a escultura está concluída, o escultor e a escultura se unem num só momento de beleza plástica, com compassos mágicos, que vão se acelerando até uma explosão de prazer, que, aos poucos vai desfigurando aquela imagem, suada, cansada e ofegante, definindo agora cada um dos dois corpos cansados. Os sons, quase não são ouvidos, mas são ensurdecedores, penetrando no consciente de cada um dos dançarinos, dando maior ritmo àqueles movimentos corpóreos, apenas algumas palavras são pronunciadas, quase sem nexo e sem nenhum sentido, são ruídos soltos apenas para exalar a respiração, que está cada vez mais ofegante e cansativa. Terminada a escultura, a dança, os sons, a magia, enfim os corpos se soltam, os músculos relaxam, os olhares se cruzam, agora numa outra forma de diálogo, uma nova forma de aprovação, de compreensão, de permissão, de consentimento, de alegria e de ter o prazer da descoberta da arte de amar a dois. Com todos esses cuidados assegurados, ainda estávamos abraçados, dentro da hidromassagem, com a água massageando os dois corpos, que continuam deliciosamente juntos, mas não agarrados, trocando calor e perfume, com ajuda da ducha que continuava a exalar os sais de banho, depois de recuperar o fôlego e a respiração, trocamos então nossas primeiras palavras, depois daquela maravilhosa fusão dos seus corpos. Agora era o momento de começar a fazer todas as perguntas, e eram muitas, que estavam contidas há tanto tempo, era inevitável, agora mais do que nunca queria saber tudo sobre ela, estava tentando organizar toda a minha fantasia sobre ela. A pessoa que sonhava ser o meu ideal de mulher, de parceira e de companheira, para poder conhecer agora a verdadeira Fernanda, iniciando uma conversa que poderia demorar horas, dias, semanas, meses, e acredito que muitos anos para ela conseguir responder. Ainda havia as perguntas que, certamente ela deveria querer fazer. Muitas das minhas fantasias criadas e desenvolvidas estavam corretas, outras não estavam tão precisas, e algumas muito erradas, mas, de qualquer maneira, demonstrava que estava muito certo sobre o tipo de pessoa que ela demonstrava ser, correspondendo o seu tipo físico com sua personalidade, sua forma de ser, de fazer, de mostrar, de viver e de se apaixonar. Ficaram faltando aparar algumas arestas, mas isso seria com o passar do tempo e com a convivência mais estreita. Contei muita coisa sobre a minha vida, meus comportamentos, meus sonhos, minhas ilusões e desilusões, tentando mostrar toda a minha impetuosidade, a minha excessiva objetividade, o meu comportamento idealista, e a minha coragem para enfrentar a tudo e a todos, com exceção de quando tinha pela frente uma mulher bonita, ou uma mulher que tinha algum interesse. Naquelas horas nunca sabia direito como fazer, se ficava admirando e demonstrando que estava com vontade de conhecer melhor e se entregar, que na verdade já estava totalmente entregue, para aquela pessoa, mas ela ainda não sabia. Ou se demonstrava total indiferença, como forma para tentar atrair sua atenção. Não tinha ainda descoberto como demonstrar, todo aquele meu jeito carinhoso para a musa inspiradora, elaborando poesias, fotografando seus diversos ângulos, desenhando sua imagem ou ainda esculpindo seu corpo. Esse comportamento, sempre foi uma grande dúvida para mim. Fernanda estava sentada na cama, abraçando suas pernas apoiando seu lindo queixo nos joelhos e me olhava emudecida, como se eu fosse um ET. Aparentemente eu não deveria fazer parte do mundo em que ela vivia, e ela tinha razão. Estava, há muito tempo, tentando tirar o passaporte, para ter o direito de entrar naquele mundo novo, e viver uma nova vida. O comportamento da Fernanda era calmo, com gestos vagarosos, um leve sorriso que se apresentava nos seus maravilhosos lábios carnudos, além daquele lindo, penetrante e sorridente olhar azul, que agora estavam levemente encobertos por alguns cabelos negros, escorridos sobre seu rosto, que ela não fazia nenhuma questão de arrumar, ou de colocar para trás das orelhas. Fernanda começou a fazer algumas perguntas básicas, qual a minha idade, de onde era, o que fazia de verdade, além de estar em casa desenhando e escrevendo, qual era a minha situação familiar e por fim quais eram os meus ideais de mulher, de companheira, de cúmplice, de sexo, de vida para um relacionamento a dois, estava muito preocupada com a minha aceitação do fato de ela estar se divorciando, além do seu adicional familiar, tipo ganha um mais leva dois, sua filha, e demonstrou muito interesse em saber como que eu me sustentava. Comecei explicando que iria responder todas aquelas perguntas, uma a uma, algumas na forma de simples palavras, pois assim o exigiam as palavras, e as outras, um pouco mais complicadas, seriam respondidas na simples convivência, porque seria impossível responder apenas pelas palavras, que nunca conseguem demonstrar a verdadeira expressão dos sentimentos. Quase sempre a força que existe nas palavras não representa a verdadeira intenção dos atos comentados. Ela entendeu e concordou, dessa forma levantamos, nos enxugamos, ela vestiu o seu roupão de banho, e me ofereceu o roupão do seu ex-marido, e fomos para o quarto, descansar na cama, onde tiramos cada qual o seu roupão e nos colocamos sob as cobertas, uma vez que o frio já se fazia presente naquela época do ano em Guimarães, com aquela chuva fina e intermitente, tão característica da cidade. Estávamos na segunda quinzena de novembro. O diálogo continuava, comentei todas as passagens da minha vida profissional e acadêmica, o caso do congresso em Coimbra, que foi responsável pelo surgimento da cidade de Guimarães em minha vida, o retorno ao Brasil para organizar a mudança e depois a viagem de volta para Europa, começando pela Itália para poder pegar a minha cidadania, além de comentar sobre os meus livros e o meu trabalho na universidade portuguesa, e a adaptação à vida de Portugal. Continuava contando, superficialmente, meus passos, com muito cuidado, para tentar estabelecer alguns parâmetros, de forma que ela pudesse me conhecer, sem se assustar, não só através das minhas palavras, mas através das minhas atitudes, de toda a minha paciência, persistência, sensibilidade e muita paixão para ficar amando e esperando por uma mulher, que estava casada, com uma filha, apesar de que ela preenchia todas as minhas exigências de homem e de ser humano, mesmo não tendo nenhuma garantia de que um dia eu pudesse me aproximar dela. A verdade é que esperei por mais de três anos, conformado em participar da sua vida, somente assistindo a sua felicidade, até o nascimento de sua filha Carolina, que foi o tempo suficiente para ver suas reações, seus comportamentos e as suas posturas ante o casamento, o marido, a filha e a vida. Depois, com muita tristeza, por um lado, e alegria por outro, assistir o desmoronamento do seu casamento, que sinalizava uma nova esperança para o meu sonho até então impossível, de poder participar da vida de uma mulher, com a qual eu imaginava poder viver um amor perfeito, o que se pode chamar de um amor de amor. Completamente enrolada nas cobertas, deixava somente seu lindo rosto à mostra, Fernanda continuava a beber minhas palavras, olhando com seus olhos azuis e sorridentes agora molhados, boca úmida e coração acelerado, suas pernas sob as cobertas procuravam se entrelaçar com as minhas pernas e lentamente começamos a montar outra escultura, a quatro mãos, eu parei de falar, pois não conseguia mais raciocinar, organizar as palavras e os pensamentos, estava começando a participar daquela dança mágica novamente. De novo aconteceu um comportamento de poucas palavras e muita ação, muito carinho e de muito prazer, agora num espaço seco, que aconteceu durante o domingo inteiro, não sentimos falta de comer ou de beber, no final da tarde, agora mais cansados, porém mais satisfeitos e muito felizes, começamos a voltar para a vida comum, Fernanda lembrava que tinha que ir buscar sua filha, que o seu ex-marido deixaria na casa de sua mãe, no outro lado da cidade. Se desculpando pelo avançado da hora, Fernanda deveria sair, levantamos, tomamos outro banho demorado, com algumas sessões de massagem, que adoro fazer, e saímos, eu para minha casa e ela foi buscar sua filha Carolina. Depois de abrir a porta da minha casa, entrei e fiquei pensando se aquilo tudo tinha sido verdade, se não era um lindo filme de amor daqueles que passa na televisão, pois se fosse não iria mudar de canal ou muito menos desligar a televisão, não estava acreditando que, depois de tanto tempo, todas as minhas fantasias estavam se realizando, e se fosse um filme, não desejava que terminasse, pois começava ficar muito interessante aquele sonho de amor. Olhava todos os móveis de minha casa, que pareciam diferentes, não eram os mesmos, a cama não era tão convidativa, o banheiro era frio e a sala não era tão atraente como nos dias anteriores. Fui para a cozinha que é uma das partes da casa que mais gosto, fazer um café, estava nas nuvens, me deliciando com aqueles momentos, voltei para a sala sentei no sofá e fiquei revivendo todas as cenas que aconteceram na noite anterior, desde a minha saída para a festa, o encontro com o arrumadinho, a festa, o encontro com a Fernanda, até a volta para casa de mãos dadas com a Fernanda, começando a perceber que estava em uma nova casa, que agora aparentava estar muito mais vazia e fria, estava faltando alguma coisa, estava faltando gente, estava faltando calor humano, estava faltando amor. Estava faltando a Fernanda. Milhares de pensamentos passavam pela minha cabeça, todos de uma só vez, num verdadeiro turbilhão de imagens, e fiquei pensando, se tudo aquilo que tinha acontecido teria sido verdade e para valer, eu precisava redefinir alguns conceitos, tomar algumas decisões para assumir novas responsabilidades. Após a frustração do primeiro casamento, comecei a pensar que um casamento poderia ter maiores chances de dar certo, se as pessoas envolvidas mantiverem as suas individualidades, na simples tentativa de continuarem a viver o comportamento dos tempos que eram namorados, quando existe uma preparação especial para a convivência com a namorada por algumas horas, no jantar, no cinema, teatro, sexo, no banho e depois poder continuar a vivenciar suas individualidades, cada uma no seu espaço e na sua casa. Dessa forma, os comportamentos individuais, os hábitos diários como a troca da roupa íntima na saída do banho, a limpeza da louça após o jantar, a arrumação da casa, das compras e dos horários para dormir, trabalhar e preparação para dormir, que tinha ainda nos meus pensamentos, não venham interferir no relacionamento. Nesse novo relacionamento, precisava lembrar que existia uma criança na vida dela, que exigia educação, comportamentos, escola, comidas, roupas, hábitos, brinquedos, tornando tudo um pouco mais difícil. Na minha concepção, para manter aquela relação, seria muito importante começar a convivência com aproximações sucessivas, para que os dois pudessem se acostumar aos poucos com seus novos comportamentos. Imaginei que poderia ser etapa por etapa. Era preciso me acostumar com a nova ideia de ter, depois de muito tempo sozinho, uma nova companheira, e uma filha com quase 2 anos, que deveriam exigir algumas dedicações exclusivas, por parte da mãe, e que eu deveria entender, aceitar e participar. Depois de estar mais de 10 anos morando sozinho, poderia estranhar um pouco todo aquele envolvimento, e também não gostaria de me sentir sufocado, preso e sem tempo para as minhas atividades, e não queria sufocar a ela, pelos mesmos motivos que os meus, que ainda tinha a sua filha, e deveria querer ter um tempo para elas duas, na verdade estava querendo preservar a Fernanda, criando uma forma de poder preservar a individualidade de cada um de nós três. Todas essas ideias surgiram na noite seguinte ao nosso encontro, tinha pensado sozinho, mas era importante discutir com ela, eu não tinha a mínima ideia de quais eram seus pensamentos sobre essas atitudes a dois. Estava eufórico e vibrante, não conseguia me concentrar em nenhuma atividade, estava impaciente, resolvi sair de casa, não queria ficar em casa sozinho, no final do domingo, tinha o hábito de assistir filmes na TV, mas naquele domingo não conseguia ficar sentado, as imagens do nosso encontro predominavam na minha cabeça, resolvi dar um passeio pela praça, procurar uma pastelaria para tomar uma cerveja, comer um bolinho de bacalhau, depois um pastel doce português, e poder ficar horas na pastelaria, um hábito que já estava adquirindo, mas agora vivia um novo momento, estava “mostrando” para a cidade um novo cidadão, um cidadão que tinha uma namorada, uma amante, uma amiga, uma nova companheira, queria contar a todos que encontrava, mas não era preciso usar as palavras, a felicidade estava estampada no meu rosto, todos me perguntavam o que estava acontecendo, você esta tão diferente, eu respondia: “nada, nada”. Apesar de toda a minha intensa ansiedade, me sentia muito mais tranquilo, eu estava levitando e conseguia ver uma nova Guimarães, quase sem colocar os pés no chão, as mesmas ruas, as mesmas casas, as igrejas e as praças, se apresentavam com novas aparências, com novo perfume exalado pelas folhas das árvores, as pessoas estavam mais bonitas, alegres e felizes, os doces mais gostosos, a cerveja mais saborosa. Estava enfim com outro astral e com novas energias, e dessa forma começava a ver um novo mundo, um novo tempo. Depois de ver a cidade com novos olhos, voltei para casa, tentar ler, ou ver um filme na televisão, mas não conseguia fazer uma coisa e nem outra, Fernanda estava presente em todos os lugares. Lembro sua imagem que via pela janela da minha sala, ainda na rua, na praça, na festa e depois na volta da festa sob a luz do luar de mãos dadas comigo. Continuava percorrendo minha casa, fazendo tudo que sempre fazia, mas agora de forma automática, estava com ela no pensamento, em tudo em que tocava, mexia, comia, de alguma maneira, e por qualquer razão, ela vinha na minha lembrança. Fiquei recordando todo o nosso diálogo, no salão de festa do batizado, o silêncio de nossas palavras, num comportamento de permissão e aprovação, que prevaleceu durante o caminho percorrido até chegar ao prédio e na sua casa, a enorme discussão entre nossos olhares, em silêncio, antes de entrar no banho, todos os carinhos que antecederam ao banho, e os carinhos que aconteceram durante o banho, o prazer na ducha, depois na cama, as massagens com as mãos, com o corpo e com os lábios, deixando-a trêmula de prazer. Estava ficando excitado, só de lembrar tudo aquilo. Estava extremamente feliz, precisava eternizar aqueles momentos, de alguma maneira, para que pudesse vivê-los novamente, demonstrando minha imensa felicidade decidi eternizar aquele momento, com algumas palavras especiais, escolhidas para representar aquela cena maravilhosa, que depois foram organizados, num pequeno texto, numa pequena poesia, que iria oferecer a Fernanda como uma singela forma de agradecimento por aqueles deliciosos e suaves momentos de amor, carinhos e prazer. 16 – REGISTROS POÉTICOS DA EMOÇÃO Um prazer que nunca havia conhecido e acreditava que, por toda sua postura, com todos aqueles movimentos, ela também não deveria ter experimentado o amor, o sexo, o carinho e o prazer, juntos. Foram escolhidas estas palavras: A DANÇA DO SABONETE Ainda não estava refeita Da dança tão perfeita No salão da festa Agora só me resta Sonhar ao seu lado, acordar Sonhar ao seu lado, beijar Ver seus olhos abrir Ver seus lábios sorrir Ver seus cabelos emaranhados Lindamente despenteados Seu corpo adormecido Seus gestos tão lentos Mas com lindos movimentos Me abraça longamente Me aperta sofregamente Me beija de corpo inteiro Num beijo molhado Num beijo penetrado Na dança das pernas Na dança do sexo Neste delicioso vai-e-vem Mesmo assim me beija Mesmo assim me deixa Loucamente arrepiado Nossos lábios colados Nossas línguas entrelaçadas Nossas mãos tão ávidas Percorrem nossos corpos suados Percorrem recantos molhados Penetram recantos profundos Acariciam elevações macias Num ritmo tão louco Que um dia é pouco Que uma semana tampouco Que um mês não vai dar Que um ano vai passar Com uma vida para fazer Para esse prazer não acabar No final naquele momento Num relaxamento feliz Você é quem diz De um banho precisar Carrego você no beijo Começo a te ensaboar Pedacinho por pedacinho Mas vejo todo quietinho Só um sabonete a vibrar Só um sabonete a corar Só um sabonete tão duro Que mesmo no escuro Sabe aonde vai passar Sabe aonde vai ficar Todo feliz o sabonete desce Primeiro na suas mãos Depois no seu seios Ele vibra Depois no seu umbigo Passando pela sua barriga Ele está feliz Chega nas suas pernas Ele fica triste Pois esperava passar No seu sexo generoso Mas ele não desiste Vai chegar nas suas coxas E chegar nos joelhos Ele continua olhando para trás Chegando nas pernas Vai direto aos seus pés Agora olha para cima Quer voltar por trás Quer passar na bundinha Não recrimino Lá vai ele feliz Lá vai ele durinho Passar pelo ladinho Passar pelo meio Quase penetrar Deixando ele gosar Ninguem percebe Por causa da espuma Mas ele chega nas costas Mais devagar e cansado Mas ainda entusiasmado Vai chegar no seu pescoço Descendo pelo seu colo Passando de novo por seus seios Ele de novo enrijece Vai chegar no seu sexo Ele fica muito animado Lá vai ele penetrando Junto com meus dedos Junto com a espuma Gozando de novo lá dentro Meus dedos nem desconfiam Meu sexo penetrando também O sabonete de fora olha Mortinho de inveja Mas feliz por participar Daquele banho inusitado Daquele banho prazeiroso Me pergunta baixinho Quando vamos de novo dançar??? Eram quase 21 horas, quando toca a campainha da porta, fui atender, eram as duas novas mulheres da minha nova vida. A Fernanda e a Carolina, que foram cumprimentar e conhecer a minha casa. Com muito jeito, a Fernanda me introduziu na vida da Carolina, como um vizinho e agora novo amigo. Entraram, sentamos e ficamos, eu e a Fernanda conversando animadamente, mas eu estava muito preocupado com a Carolina, de como conduzir melhor a minha aproximação, apesar de gostar muito de crianças, dei uma atenção especial à menina, afinal, era muito importante a minha aceitação. Num momento de distração da Carolina com o jogo de xadrez da minha mesa de vidro, perguntei como era a relação da menina com o pai, e como seu ex-marido se comportava em relação sua filha, e como Fernanda lidava com seu ele e com a recente separação. Aproveitando o momento, perguntei sobre o seu ex-namorado. E o que realmente havia acontecido naquela noite do batizado. Não houve tempo para ela responder nada, a Carolina voltou para seus braços, resolvi oferecer um doce que tinha feito no dia anterior, com café e leite, hábito italiano, e ficamos conversando sobre os hábitos da menina, sua escola, seus brinquedos, seus amiguinhos, essas coisinhas amenas para melhorar a aproximação. Eu sempre tive muita facilidade com crianças, afinal comecei a minha vida profissional como professor de escola infantil e sabia que ela poderia gostar de desenhar. Fui pegar canetas hidrográficas coloridas e papel, perguntando se ela gostava de desenho, e se gostaria de fazer alguns desenhos com ele, Carolina sentou-se ao lado da mãe e ficou desenhando toda a sua fantasia, no final ela muito animada pediu para marcar uma tarde para fazer novos desenhos. A nossa conversa ficou muito truncada com as conversas que a Carolina interrompia, mas ficamos os três juntos nos divertindo. Era um grande passo começar a integração familiar. Fernanda estava com a sua filha no colo e olhava para mim com um olhar tão cheio de ternura, de meiguice, de afetividade, ao mesmo tempo em que abraçava forte sua filha, um comportamento que encheu os meus olhos de lágrimas, que nunca havia recebido esse carinho todo, só com um simples olhar, ela, sorrindo dizia que nunca tinha vivido momentos de ternura como aqueles. Tanto seu ex marido, como seu ex namorado, nunca tiveram tanta ternura, cuidado, carinho e compreensão, suas conversas com eles sempre foram mais objetivas, nunca dedicaram um tempo, por menor que fosse à Carolina, e que desse jeito ela ia ficar muito mal acostumada, no sábado um banho de prazer e no domingo um banho de ternura. Afirmei que essa era realmente a intenção, deixar ela e a filha, tão mal acostumadas, que dessa maneira elas não teriam mais vontade de me deixar. Ela agradeceu com aquele seu sorriso lindo e perfumado, e disse que se for sempre assim eu estaria contratado, ela pagava em beijos. Respondi em seguida: “Se os seus beijos forem bons eu aceito, caso contrário devolvo todos eles, em dobro”. O tempo passou muito depressa, já estava na hora de colocar sua filha na cama, e dessa forma elas precisavam ir embora, com muita tristeza, segundo ela, nos despedimos com beijos e abraços bastante convencionais, e elas saíram de mãos dadas, antes de entrar no seu apartamento, ela falou baixinho que voltaria para dar um beijo de boa noite, e agradecer pelo maravilhoso primeiro dia do resto de nossas vidas. Enquanto esperava pelo seu beijo de boa noite, liguei o computador e comecei a registrar aquele momento bonito, e comecei a escrever outra poesia: CHEGOU Eu já estava desistindo Eu nem estava mais saindo Eu já estava me imbuindo Que essa mulher não existe Que toda essa ideia consiste Numa deliciosa fantasia Numa gostosa alegria De ter sempre comigo Essa figura feminina amiga Essa figura feminina companheira Essa figura feminina sensual Esta figura feminina Que é tudo que um homem quer Para poder ser feliz na vida Com uma tristeza incontida Estava abandonando a fantasia Estava aceitando a filosofia De viver assim sozinho Até que você surge devagarzinho Surpreendendo de mansinho Demonstrando de forma concisa Tudo que uma mulher precisa Para ser essa mulher maravilhosa Para ser essa mulher deliciosa Para ser essa companheira Que eu sempre procurei Por mais que eu olhei Encontrar não conseguia Até que surgiu você Iluminando esse novo caminho Para esta vida inteirinha Que poderá seguir bem juntinha Desse sorriso lindo Dessa simpatia infinda Dessa criatura tão linda Que acabei de descobrir Que enfim você....CHEGOU Depois de mais ou menos uma hora, Fernanda voltou, participando da parte final da poesia, entrou na sala lentamente e veio me abraçar por trás e beijando minha nuca e orelha, dizendo que tinha sido o tempo dela colocar a menina na cama e dar um jeito na casa, e veio me agradecer por aqueles momentos tão lindos, depois foi sentar no sofá, se ajeitou cruzando suas lindas pernas, e começou a responder as perguntas que eu tinha feito sobre o seu ex marido, contar sobre o seu comportamento, e depois comentar sobre o que tinha acontecido com seu ex namorado. Quanto ao Roberto, seu ex marido, afirmava que ele era uma pessoa difícil, filho único de uma família que estava muito bem de vida, foi muito mimado e sempre teve tudo o que quis, era incapaz de ouvir um não, como resposta, de qualquer coisa que fosse, nem ter que dividir suas coisas com outras pessoas, num comportamento extremamente egoísta, era formado em administração de empresas e começava trabalhar na área. Fernanda dizia que, no seu modo de ver, o casamento havia terminado, devido à competição inconsciente que havia entre eles, para saber quem era mais inteligente, quem ganhava mais dinheiro, enfim quem era melhor, e que de certa forma complicou ainda mais com a vinda de Carolina, que tomava muito tempo dela e ele não aceitava compartilhar nem participar. Roberto era incapaz de fazer qualquer coisa em casa, a não ser dormir, comer e conviver, de forma nada atenciosa, nem com ela e nem com a filha, e tinha concluído que Fernanda havia engravidado assim depressa, como forma de segurar o marido ou então ter uma pensão fácil, pois os pais dele estavam bem de vida. Fernanda dizia que na verdade o casamento acabou quando nasceu a Carolina. Ele jamais aceitou ter que dividir ela com a filha, demonstrando um comportamento de amor egoísta e muito possessivo. Fiquei impressionado com suas palavras, e perguntei como ela não tinha conseguido perceber a forma de ser do seu ex marido, durante o namoro, antes de se casar. “Enquanto estamos namorando tudo é festa, tudo é ilusão, tudo é fantasia”, respondeu com um enorme sorriso. Com o que eu concordava plenamente com ela. Quanto a seu ex namorado, Fernanda dizia que tinha conhecido numa festa, na casa de uma de suas amigas, que era irmã dele, comentou que ele era muito inteligente, mas tinha sérios problemas de convivência, não conseguia ter amigos homens ou mulheres, estava sempre com a impressão que todos queriam se aproveitar dele e do seu dinheiro, segundo ela, ele era um verdadeiro gênio, mas tinha um comportamento de eremita, por isso ele não queria vir até a festa do batizado alegando ser muito difícil conhecer novas pessoas e ter que ouvir e contar coisas, que, no seu conceito nem sempre eram verdades. Argumentando que ela tinha sido premiada com dois homens fora de série, e se ela tinha refletido sobre isso, e como tinha sido, com os dois, em relação aos carinhos e ao sexo. Ela definiu simplesmente: “Uma verdadeira droga”! Começava a concluir que ela era uma mulher com poucos conhecimentos sobre sexo, sensualidade, sensibilidade, sedução, cumplicidade, isso tinha seus encantos, seu lado bom, mas também seu lado negativo. Era preciso começar desde o princípio, com muito cuidado para criar seu repertório pessoal de forma adequada. Agora tinha certeza, não poderia tratar Fernanda como uma mulher, fazer grandes investidas, poderia colocar tudo a perder, poderia assustar, era preciso tratá-la como uma adolescente, por não estar devidamente preparada, era preciso montar uma estratégia especial para, gradativamente, demonstrar os segredos do sexo, do amor e do relacionamento. Imprimi a poesia CHEGOU e mostrei para ela, dizendo que era a segunda de uma longa série, que faria para minha musa. Comecei a explicar, enquanto ela lia a poesia, o que seria uma musa, qual seu papel perante o artista. Estava falando sozinho, percebi que ela não estava escutando nada, ela estava com os olhos fixos na poesia e chorava baixinho, depois aos prantos, delicadamente se colocou nos meus braços na ponta do sofá, me abraçando fortemente, dizendo, que realmente, não poderia ser verdade, que eu não era de verdade, que eu era isto e aquilo, as palavras que as mulheres falam quando estão apaixonadas, e que ela não merecia tudo aquilo. Abracei e deixei ela se acalmar, para depois comentar sobre o surgimento da poesia. Ainda abraçados, expliquei que não seria fácil ser a musa e companheira de uma pessoa sensível, mas que daria muito prazer. Dizendo que as palavras foram escritas por mim, mas foram inspiradas no comportamento dela, nas palavras dela, na pessoa dela, por isso, a poesia era ela, o meu trabalho foi perceber e interpretar aquela emoção, encontrar as palavras adequadas e colocar de forma mais adequada no papel. E devido a isso estava dando a poesia para ela, como emanou dela, deveria voltar para ela. Abri uma garrafa de vinho português, coloquei pão fresquinho na mesa, para comer com queijos franceses e alemães, um velho hábito que havia adquirido nos tempos que morava em Paris. Adorava queijo tipo camembert, gorgonzola, queijo fundido, tipo reino e continuamos a conversar. Ela quase não bebia, comeu um pouco dos queijos com pão, me perguntando aonde tinha adquirido aquele hábito de comer daquele jeito. Expliquei que em Paris, depois de se fazer a refeição do almoço ou jantar, é servido essa tábua de queijos, que deve ser saboreada com pão e vinho, depois a sobremesa e finalmente o licor. Ajuda a relaxar e pensar, mas continuava a falar sozinho, pois ela continuava a reler a poesia e me fez prometer que não deixaria mais ela, e para que eu ficasse sempre ao seu lado ela faria qualquer coisa. Expliquei que essas decisões mais permanentes na nossa vida é o tempo que vai organizando, com a nossa conivência e aprovação, e que ela tinha tudo aquilo que eu queria numa companheira, para não se preocupar, era só continuar a ser ela mesma, sempre, do mesmo jeito que sempre viveu, só que agora ao meu lado. Apesar de estar no meu apartamento, deliciosamente ela me convidou para ir conhecer o meu quarto, uma vez que meu banheiro não tinha hidromassagem, e usar a casa dela casa agora não seria possível, devido a sua filha estar dormindo, o que não seria muito conveniente. Fomos andando lentamente, ela caminhava lentamente na frente, eu caminhava abraçando-a por trás, e fomos andando, com os corpos colados, andando no mesmo compasso, entrando em direção ao sofá que tinha no quarto, comecei a tirar sua roupa com um verdadeiro banho de beijos, peça por peça, cada peça que ela retirava, ela ganhava beijos, muitos beijos, exatamente no local que ficava desnudado, até conseguir colocar ela deitada, totalmente nua, na sua cama. Aquela cena era uma das minhas imagens preferidas, tinha sonhado com aquela cena durante anos seguidos, e que agora, inexplicavelmente estava ali, imóvel diante daquela mulher maravilhosa, nua, com seu lindo corpo arrepiado e estendido, com seus braços abertos, me convidando para deitar com ela, para aproveitar ao máximo aquele delicioso momento, fui me despindo com muita lentidão, estava curtindo o primeiro momento de introdução dela no meu apartamento. Sem a pressa e a curiosidade, mas com os mesmos cuidados da noite anterior, começamos a nos abraçar, como um longo beijo de corpo inteiro, e ficamos por alguns minutos naquele beijo, depois vieram mais beijos, longos e demorados, que percorreram o corpo inteiro da Fernanda, no seu colo, seus seios, sua barriguinha lisinha, seu umbigo, suas coxas, seus joelhos, pernas, pés e dedinhos dos pés, com muito carinho coloquei ela de lado e depois de bruços, para começar a viagem de volta. Iniciando pela sola dos pés, percorri os tornozelos, pernas, as coxas, sempre uma de cada vez, passando pelas suas nádegas, e que nádegas ela tinha, chegando até suas costas, e com mais cuidado fui até o pescoço, fiquei rodeando até poder chegar até suas orelhas, olhos, face e, finalmente nos seus lábios. Fernanda tinha seus olhos fechados, suas mãos paradas, suas pernas imóveis, mas seu coração estava disparado, seus poros arrepiados, e nesse momento senti seu sexo completamente molhado, exalando um odor de prazer e excitação, foi quando ela se levanta e começa a fazer a mesma massagem no meu corpo, com seus lábios e língua, percorrendo todos os redutos do meu corpo, demorando mais tempo em alguns lugares, do que em outros, me deixando totalmente sem controle de mais nada. Com muito custo segurei a explosão de prazer, queria colocar ela em cima do meu corpo, deixando controlar todos os movimentos, suas pernas que apertavam as minhas, seu sexo aconchegava o meu, seus seios se escondiam na minha boca e na minha mão, suas mãos e seus cabelos acariciavam meu rosto e sua boca estava perdidamente ocupada em não me deixar falar, dessa forma os gemidos do prazer saíram pelas narinas e por todos os poros dos corpos. Dos dois. E assim ficamos, naquela posição, por minutos intermináveis, comecei a falar bem baixinho, junto ao seu ouvido, palavras delicadas, de carinho, de descoberta, de prazer, comentando o quanto ela me deixava realizado como homem, que seu jeito de dar prazer com seu corpo, com sua boca e com suas mãos, era experiência nova para mim, e que estava adorando tudo aquilo. Existia ainda o carinho e a afeição que estavam desenvolvendo, um pelo outro, e isso ajuda muito na relação a dois, todos os carinhos são recebidos, sem censura ou preconceitos, pelo companheiro, que procura ter um comportamento recíproco, tornando o ato sexual um ato de amor e carinho. Era exatamente isso o que estava acontecendo entre os dois namorados, algo que nunca tinha vivenciado com minha ex mulher ou com outra pessoa. Logo depois levantei e fui buscar o óleo de amêndoas que usava para fazer massagens, comecei a massagear seu corpo todo, iniciando pelos seus pés, chegando até o pescoço e depois ela se virou e voltou pelas costas, numa massagem delicada com os dedos e palmas das mãos, até chegar aos seus pés de novo. Fiz aquilo com muito cuidado, chegando ao seu sexo, e fez exatamente o que ela estava pedindo, chegar ao prazer com a delicadeza dos meus beijos. No momento em que ela teve o seu prazer, pude perceber a delicadeza dos seus gemidos, na sua forma de anunciar seu orgasmo. Fomos tomar um banho, um começou a dar banho no outro, com direito a massagens e tudo mais, não conseguimos evitar um novo prazer sob as águas do chuveiro, com os corpos ainda ensaboados, o que dá um prazer ainda maior. Depois, ele me enxugou, vestiu o meu roupão, e fui buscar um roupão para mim que estava no meu armário, saímos da sala de banho, ela colocou sua roupa e fomos nos despedir, afinal ela morava longe, ao lado da minha porta de saída. Dessa forma aconteceu o primeiro encontro entre nós no meu apartamento, fui me deitar, e quem disse que conseguia dormir, apesar de todo o cansaço, fazia muito tempo que não tinha duas noites de prazer, ainda mais daquela forma, com alguém que tinha uma grande admiração e afeição. Voltei para a sala, sentei no computador decidido a registrar aquele delicioso momento, começando a escrever novas poesias. Princesa, ou devo dizer namorada, amada, amante, companheira, cúmplice, mulher, não consegui dormir pensando em tudo o que está acontecendo entre nós, e para alegrar mais um pouco você, aqui vai UM BOM DIA Mais uma vez Obrigado Por este novo amanhecer Onde as flores com novas cores As frutas com melhores sabores Até o sol com mais calor Os pássaros cantam mais bonito E voam mais aflitos Mostrando mais alegria Mostrando nova energia Só para te dar Bom Dia ! Tornando suave seu amanhecer Alegrando seu entardecer Cuidando do seu adormecer Em busca de um sonho mais puro Em busca de seu ideal Nem sempre tão real Nem sempre fantasia Mas com toda sua energia Com toda sua alegria De um novo amanhecer De uma nova esperança Que acaba de nascer Cercada de poesia Cercada de fantasia Que me enche de vaidade Transbordando felicidade Só em poder te conhecer Já é motivo de alegria Pelo prazer de te dizer BOM DIA E neste lindo dia que vc faz nascer, com novo sol, novas cores, novos perfumes das flores, novas alegrias da vida, novos sabores das frutas, novas esculturas do amor, novas fantasias, novos passos na dança, novas formas de prazer e novas formas de se amar Imaginei eternizar todos aqueles momentos com ela, traduzir em poesias, só precisava escolher as palavras certas, e poder devolver para ela. A segunda feira amanheceu, depois de mais uma noite agitada, descobrí por que não conseguia dormir, não estava querendo acordar daquele sonho, mas o sono e o cansaço venceram, ao acordar percebi que aquele novo dia não seria igual aos dias anteriores e ainda tinha certeza, que os próximos seriam muito melhores. Olhava tudo com novos olhos, apesar de estar na época natalina, tudo se apresentava de forma mais bonita, festiva e alegre, as ruas, as lojas com suas vitrines repletas de motivos natalinos e as igrejas iluminadas, na realidade era um momento histórico especial para mim, onde o prazer de encontrar uma companheira e um amor, estava se misturando com as festas do Natal, que particularmente adorava, pois traziam lindas lembranças da infância, dos meus pais e de Paris, quando passei o meu primeiro Natal sozinho. Numa época em que o “espírito natalino” transforma as pessoas, que se tornam melhores, ficam bondosas, caridosas e pacientes, demonstrando um sentimento, que deveria durar o ano todo, sempre desejava para meus amigos e inimigos, que aquele espírito de Natal fosse permanente. Mas sempre acabava descobrindo, tristemente, que apenas eu convivia com o espírito natalino permanente, durante o ano todo, no meu coração. Estava curioso em saber de como seriam aquelas festas, tendo a Fernanda ao lado, como seria com sua filha, com seus pais, e com sua famíla, as comidas, as bebidas e toda a comemoração, a troca de presentes, enfim uma festa familiar, uma festa que, devido a minha separação, não lembrava mais como era. Quando da minha separação, tinha aceitado um acordo com minha ex mulher, para que as crianças ficassem com a mãe durante as festas de Natal, devido a troca de presentes com a família dela e com os primos, tipo de festa que não tinha com a minha família, em troca, durante as festas de Ano Novo, as crianças passariam comigo. Depois que separei, passava o Natal com minha mãe, e quando ela faleceu ficava comemorando as festas natalinas sózinho, não por falta de convites, por mais que me convidassem, Natal é sempre uma festa familiar, e uma pessoa estranha à família, não deixava ninguém à vontade. Tudo isso na minha cabeça, mas nem por isso deixava montar um lindo presépio, de preparar minha ceia, montando sempre uma linda mesa, como minha mãe fazia, que ficava arrumada até a noite do dia seguinte, com todas as comidas que mais gostava, além de todas as frutas de Natal, frutas frescas, muita champanhe e muito vinho, que ajudava a superar aqueles momentos. Quando era criança, meus pais sempre fizeram uma linda e gostosa ceia de Natal, com diversas comidas sobre uma mesa decorada, com frutas frescas e frutas secas, com diversos pratos de comidas enfeitados, rabanadas, na sala sempre tinha árvore de Natal e um Presépio, que eu sempre montava com papel pedra e serragem sobre um espelho que imitava um lago, com presentes colocados nas meias penduradas, outros sob a árvore, numa linda festa, que durava até o dia seguinte. Quando amanhecia o dia de Natal, meu pai levava o pernil que tinha temperado na tarde anterior para assar no forno da padaria, na hora do almoço ia buscar e vinha pela rua espalhando o delicioso cheiro da carne bem temperada, arrumava a mesa para o almoço, com raviole de ricota que m inha mãe fazia, que sempre ajudei a fazer e dois ou três tipos de saladas, frutas e as bebidas. Essas festas a gente nunca mais esqueçe. Quando era casado, sempre montei a árvore de Natal para as crianças, mas depois que sai da casa, sabia que a mãe das crianças não montava árvore de Natal, nem preparava o Presépio, nem trocavam presentes com as filhas, e também não tinha ceia, todas as comemorações eram feitas na casa dos avós das crianças. Sem árvore, sem presépio, sem o brilho característico de uma festa natalina, mas tinha o amigo secreto para fazer uma troca formal de presentes pessoal e sem nenhum charme. A festa do Reveillon, aparentava ser mais tranquila, mas ainda não sabia como seria em Guimarães, alguns professores fariam uma festa na universidade, haveria uma despedida no último dia do ano, mas nada estava combinado. Pensei em conversar com ela, sobre isso tudo, e saber como seriam seus planos. Empolgado, continuei registrando os meus sentimentos de alegria, felicidades e muito amor através de algumas palavras encontradas: Benvinda Dentro de uma diária rotina A persistência que ninguém imagina Preenchendo uma enorme solidão Com vazio no enorme coração Numa busca incessante De alguém interessante De alguém mais inteligente De alguém mais bonito De alguém menos aflito De uma pessoa mais especial De uma pessoa normal De alguém para poder amar De alguém para poder compartilhar De uma pessoa para ter ao meu redor De uma companheira que saiba o que é amor Entro naquela festa tão esperada Entro naquela festa tão sonhada Com opções infinitas Encontro a pessoa mais bonita Com um perfil que nem acredito Com um perfil tão sonhado Com sua imagem ampliada Com sua imagem colorida Encontro um meigo olhar Com um sorriso de encantar Com um corpo esculpido Com um ar tão querido Uma imagem que não resisto Uma imagem que me deixa aflito Porque ela demora Entrou faz uma toda hora Será que ela vai entender Será que ela vai corresponder Com todo o carinho esperado Com todo o amor desejado Na festa ela agora chegou Na festa ela me procurou Na festa ela me falou Ela é tão linda pessoalmente Ela existe realmente Ela me deixou encantado Ela me deixou apaixonado! Ela me deixou com esperanças! Preciso para ela isso dizer Mas como fazer para ela entender Que toda essa revolução Modificou meu coração Onde ela veio buscar estadia, Para fazer permanente moradia, Para ser um habitante eterno Fernanda, Seja Benvinda Estava ficando totalmente apaixonado, com tudo que estava acontecendo, tinha tanta coisa para falar, para contar, para vivenciar com ela, que, naquele momento ele só conseguia escrever, para fazer com que ela, depois de ler e refletir, fosse assimilando todas as minhas mensagem, com a força das palavras, de forma que ela não tivesse nada ao seu redor, que pudesse interferir, na sua forma de percepção e apropriação daquele conteúdo. E continuei interpretando e registrando as minhas energias: Benvinda ao meu canto Com todo seu encanto Com todo seu prazer Com todo meu prazer Prazer em te conhecer Prazer em te fazer feliz Prazer em te fazer sorrir Obrigado, Fernanda por você existir Obrigado por me deixar te seduzir Obrigado por me deixar Remanejar seu futuro Em busca de um sonho mais puro Em busca de seu ideal Nem sempre tão real Nem sempre fantasia Mas com toda sua energia Com toda sua alegria De um novo amanhecer De uma nova esperança Que acaba de nascer Cercada de poesia Cercada de fantasia Com muita fotografia Com muita vaidade Cheia de felicidade Que me enche de vaidade De poder estar com você Estava muito curioso em conhecer sua forma de ver a vida, suas reações e suas decisões, estava conhecendo o seu corpo, superficialmente, seu sorriso, sua imagem, sua sensualidade e sua sexualidade, até agora só conhecia algumas imagens, que tinha guardado na minha memória, desde quando ela apareceu na minha vida, ao se mudar para o prédio, quando comecei a montar a minha primeira escultura, que não passava de um sonho impossível, afinal ela era uma mulher casada, e posteriormente com uma filha. Queria demonstrar, o quanto ela havia me impressionado, e de certa forma queria retribuir, com gestos, com palavras faladas ou escritas, com carinhos, com afeição e compreensão, tentando oferecer um apoio, uma segurança, um companheirismo, que acreditava que ela ainda não tinha conhecido. Com todos os cuidados possíveis para não assustar minha nova companheira, não gostaria que ela se sentisse superprotegida e, dessa forma, envolvida num manto que ninguém poderia descobrir. Por outro lado não queria colocá-la numa vitrine, para que todos pudessem ver, mas não pudessem interagir, conversar e conhecer a criatura incrível que ela era, queria exatamente ao contrário, poder mostrar a ela o quanto poderia estar cuidando, adorando, seduzindo e me apaixonando por ela, em comparação com seus antigos companheiros, para não haver termos de comparação. Era preciso que ela percebesse o mundo à sua volta, para poder reconhecer as pessoas que cuidam e zelam por ela, apaixonado ou não. Escrever era uma das formas que havia encontrado para traduzir aquele novo momento, aquela nova relação: Agora ficou mais fácil Fechar os olhos ao adormecer Agradecendo por vc acontecer Agradecendo por vc existir Agora estou sempre a sorrir Mesmo enquanto dormir O lindo sonho de se ter Ficou mais fácil amanhecer Abrir os olhos para o novo dia Lembrando com alegria Que agora tenho companhia Que agora tenho poesia Que agora tenho inspiração Que preenche meu coração Que torna alegre o dia a dia Que demora mais para amanhecer Que demora mais para entardecer Nessa solidão no meio da multidão Sempre procurando seu rosto Até então desconhecido Mas já muito querido Como será sua imagem Como será seu sorriso Como será seu olhar Mas tenho tanta certeza Que irei adorar Tanta coisa fez melhorar Tanta coisa fez acontecer Que só posso te agradecer Por você poder existir Só por você sorrir, enfim E ainda gostar de mim Ser do jeito que pedi para Deus Com aqueles carinhos seus Com toda a empolgação do sexo Que me deixa agora sem nexo Mas com muita felicidade Mas com muita vaidade De poder ter alguém de verdade Escolhendo as palavras para escrever todos meus sentimentos, e que apesar de ter sido um único final de semana, ela já tinha enriquecido o meu cotidiano, que sempre foi um comportamento de espera, de um amor à distância. Na verdade, por todos os anos que estive esperando por ela, não deixava de ficar imaginando, até para sobreviver de forma mais feliz, um dia estar passando por momentos semelhantes, escrevendo poesias, algumas já estavam escritas, fiquei aguardando um momento oportuno para poder entregar, que ainda não tinha surgido, mesmo depois da sua separação. Aguardava uma oportunidade ímpar, que na minha intuição, iria aparecer. E apareceu. Os dias vão passando Cada vez é maior a minha alegria De pode te dizer bom dia Depois da imensa escuridão Que inundava meu coração Nasce agora uma esperança Deixando-me feliz como criança E fico montando seus traços E fico imaginando seus passos E fico imaginando sua figura Que adquire imagem tão pura E fico imaginando seu jeito Que adquirem mil trejeitos E fico imaginando seus lábios E fico imaginando seus beijos E fico imaginando seus olhos Que expressam tanta ternura Assim acabo minha escultura Da mulher que é uma doçura De alma tão pura Com coração tão meigo Com corpo tão lindo Que acabo sorrindo Que acabo dormindo Quando amanheceu a segunda feira, levantei, tomei meu café e fui para a universidade, trabalhei a manhã inteira na minha pesquisa, almocei no restaurante da universidade, mas estava sozinho, apesar daquela enorme multidão de alunos e professores conversando, rindo e cantando pelos corredores, comemorando o final do ano e as festas do Natal. Voltei para casa no final da tarde, passei pela praça onde Fernanda tinha o hábito de ir passear com a Carolina, estava querendo encontrar com elas fora das nossas casas, para entregar as poesias e convidá-la para um jantar no restaurante da praça, numa tentativa de estreitar a convivência com a menina, e desfrutar da companhia da Fernanda. Não sabia se tinha chegado tarde ou não, mas a praça estava triste e vazia delas, continuei meu caminho para casa. Quando cheguei em casa, tive o impulso de bater na sua porta, mas por qualquer receio, entrei na minha casa, fui tomar um banho, preparar o lanche e sentar para trabalhar, tentar ler um livro ou assistir algum filme na TV, com muita vontade de procurar por ela, mas não queria ser muito invasivo, decidi procurar por ela mais tarde. Não passaram mais do que alguns minutos, bateram na minha porta, qual não foi a minha imensa alegria ao abrir a porta, lá estavam elas duas bem arrumadas, como se fosse para uma festa, e me convidaram para tomar um chá da tarde, em qualquer uma das inúmeras pastelaria que existem em Guimarães, que eu poderia sugerir. Aceitei o delicioso convite, voltei para imprimir as poesias e desligar o computador e a TV, e saímos do prédio, no caminho comentei das poesias e prometi entregar para na pastelaria. Na praça principal do centro velho da cidade, bem em frente a igreja, a Prefeitura tinha montado uma árvore de Natal gigante, um lindo triangulo montado com inúmeras linhas de lâmpadas, se tornando uma atração pela sua linda iluminação, escolhemos a pastelaria que ficava mais ao lado, sentamos em uma das mesas da calçada, escolhemos os pedidos, e ela começou abrir as folhas e começou a ler, devorando as letras, as folhas e as poesias. Estava emudecida e com lágrimas nos olhos, olhando para meus olhos firmemente, e me disse, com voz baixa e pausada, nunca tinha sido eternizada, e que jamais alguém conseguiu fazer com que ela sentisse aquela emoção, aquele bem estar, nenhum dos seus dois namorados tinha feito algo parecido. Fiquei feliz, por ela ter gostado, e não ter se assustado com as inúmeras declaração de amor ao mesmo tempo, tinha receio de afogar o amor, com tanto amor, disse para ela, que tudo aquilo era um “material” acumulado durante anos, e que só faltava o momento propício para entregar para ela. Quando chegaram os pastéis, o chá, o leite e o café, começamos a conversar como tinha sido aquele primeiro dia, e a Carolina perguntava para a mãe quando iam desenhar de novo. Fernanda comentou que a filha falou dos desenhos o dia todo, inclusive na sua escola, combinamos em começar a desenhar no dia seguinte, logo depois que elas voltassem do parque, e eu da universidade. E no dia seguinte, levei todo o material de desenho, papel, tintas e muita vontade, e fui trabalhar na casa da Fernanda, que ficou ao lado da filha, perguntando se ela também poderia participar, achei muito interessante e começamos. Foi uma tarde incrível, as duas gostaram muito, fizeram uma boa quantidade de desenhos bonitos, em seguida colamos os trabalhos produzidos nas paredes da sala e no quarto da Carolina, para que elas pudessem apreciar as “obras de arte”, sugeri que elas dessem um título a cada um deles. Em seguida Fernanda levantou e foi para a cozinha, me deixando na sala com sua filha, ainda estavam cuidando de alguns trabalhos, um desenho que tinha como tema a praça, a mesma praça que ela vai todas as tardes, ela desenhou as árvores, os bancos, as crianças e a sua mãe, perguntei pelo pai dela, ela respondeu que ele estava sempre trabalhando, não tinha tempo de ir na praça. Ficamos desenhando e conversando por algum tempo, até que a Fernanda nos convidou para sentarmos na sala de jantar, ela tinha preparado um pequeno lanche, se desculpava pela qualidade da sua comida, mas tinha feito qualquer coisa com pressa, pois estava precisando fazer compras do mes no supermercado, perguntando se eu gostaria de ir com ela, os olhos da Carolina sorriram e perguntou se poderia ir junto também, Fernanda olhou sorridente e com ar de felicidade, e combinamos de ir logo depois do jantar. Enquanto ela foi trocar de roupa e arrumar a Carolina, fui lavar a louça, e depois saimos passeando em direção ao supermercado, na que sua entrada principal, estava repleta de brinquedos, grande quantidade de roupas e depois algumas comidas convencionais, além de todo os artigos para as festas de final de ano. Ficamos muito tempo para comprar tudo o que ela precisava, acabei vindo buscar o carro para trazer as compras todas, e voltamos para casa dela, ajudei a organizar as compras na sua cozinha, imaginei que ela precisasse de alguma ajuda, perguntei timidamente, no que ela me respondeu prontamente: “ajuda não, mas gostaria da sua companhia, você tem condições de ficar aqui? Depois eu te levo em casa” disse num sorriso malicioso. E assim, ficamos outra noite na sua casa, sua filha ainda desenhava pelos cantos da sala, Fernanda lia as poesias, eu continuava a escrever mais alguns testemunhos, de todo aquele amor contido, que depois passaria para o computador. PARA UMA LINDA PRINCESA 1 É muito bom estar com você É muito bem saber que você está comigo Adormeci muito feliz e contente Por tudo que acontece com a gente Pelo nosso entendimento Pela nossa afinidade Por um amor tão bonito Por todo carinho que demonstra por mim Por todo carinho que tenho por você Deixou de ser uma paixão arrebatadora Para ser uma afeição profunda O dia amanheceu diferente Com toda aquela gente Me sentia sozinho, mas muito feliz Me sentia sozinho, mas um ser iluminado Me sentia um homem premiado Por ter recebido essa preciosa criatura Com uma linda e deliciosa postura De ser uma mulher tão madura De ser uma mulher tão atraente De ser uma mulher tão contente Levando amor e alegria Que veio iluminar a minha vida Que veio dar sentido a minha existência Mostrando o amor na sua essência Mostrando a plenitude de amar Obrigado por você me amar Obrigado por me deixar te amar PARA UMA LINDA PRINCESA 2 Estava extremamente ansioso Estava profundamente angustiado Amanheceu e não tinha te encontrado Ainda não tinha com você conversado Mas eu estava inacreditavelmente feliz Eu estava inacreditavelmente a sorrir Como há muito não sorria Como há muito não acontecia Até acho que merecia Mas Deus exagerou na qualidade Me proporcionou essa realidade De uma mulher tão bonita De uma mulher tão interessante De uma mulher tão fascinante Que até perguntei para Deus Se todos esses beijos são meus ? Se todos esses carinhos são para mim ? E Ele disse que sim Não sei como agradecer Não sei o que fazer Pois sem ela não sei mais viver Aprendi a esperar por você Aprendi a sonhar com você Aprendi a amar você Aprendi a aprender Tudo sobre o amor Que só você sabe fazer Com toda sua inexperiência Com toda sua paciência Com toda sua paixão A inundar meu coração PARA UMA LINDA PRINCESA 3 O momento está chegando Parece que estou sonhando O sonho está se realizando Com seu perfume de mulher bonita Com seus gestos de mulher ainda aflita Para os segredos do amor conhecer Já estou imaginando Suas roupas ir tirando Seu lindo corpo desnudando Ao mesmo tempo que vou beijando Aquele corpo tão sonhado Aquela mulher tão fantasiada Aquela mulher tão desejada Agora nas minhas mãos Inteira na minha frente Toda nua, que nem acredito Que os beijos intensifico Os carinhos se aceleram Os corpos se misturam Tornando uma só figura Numa imagem tão pura Não existem palavras Para descrever os contornos Que adquirem os lindos corpos Num delicioso movimento Agora é o momento De tornar você mulher Lentamente me ajeito Naquele delicioso leito Aguardo sua posição Ajeitando a penetração Com olhar curioso Sorriso malicioso Respiração ofegante Movimento elegante Formando agora um único corpo Admirava aquela imagem Não era menina nem era mulher Acontecendo naquele momento Seu primeiro prazer tão desejado PARA UMA LINDA PRINCESA 4 Não conseguia imaginar Aquela delicia realizar Aumentando meu prazer Não deixando ela se conter Conhecendo todo aquele prazer Sua fisionomia se transformou Da tensão de quando começou Do tesão que acumulou Estavam agora realizados Todos seus sonhos molhados Me dando enorme alegria Do jeito que sorria Com juvenil maestria E pelo jeito que me olhava E por tudo que me apertava E queria fazer outra vez Me pedia com certa altivez De mulher muito experiente Me olhava exultante Me olhava mais confiante Buscando nova posição Me dando nova opção De conhecer seu corpo De oferecer novos prazeres De conhecer novos prazeres Posturas desconhecidas Nunca antes vividas Com essa intensidade Com essa umidade Com todo esse movimento Que funde meu pensamento Ao completar essa mulher Com minha masculinidade Aumentando a minha vaidade De poder proporcionar De fazer você se transformar Conhecendo todo esse prazer Alterando sua respiração Acelerando sua pulsação Aumentando a sudação Vibrando de paixão Roubando, enfim, seu coração PARA UMA LINDA PRINCESA 5 Nunca poderia imaginar Aonde poderíamos chegar Só pelo fato de encontrar você Poder viver o cotidiano com você Fazer poesia para você Me deixa muito contente Com alegria contagiante Transformando essa mulher Do jeito que um homem quer Da forma que um homem adora Suavemente como agora Docemente aflora Profundamente A magia do amor A delícia do pudor De tudo poder fazer Para ter todo prazer Que você nunca irá esquecer Esses momentos tão íntimos Esses momentos infinitos Esses momentos tão lindos De entrega total De energia vital De prazer completo De sexo predileto Para toda sua vida PARA UMA LINDA PRINCESA 6 O doce toque das suas mãos A magia do seu olhar O sorriso mais lindo do mundo De paixão me inundo De amor me encanto Deixam meus olhos em prantos De prazer que nunca conheci antes Mesmo em momentos distantes Agora chegou o momento De querer você namorar De querer você encantar De se entregar aos beijos De se entregar às carícias Com determinada malícia Deixar molhada de prazer Exalando delicioso perfume Exaltando sua sexualidade Até agora tão contida Até agora tão reprimida Liberando suavemente Essa emoção diferente Essa emoção contagiante De prazer fazer você delirar De prazer fazer você se deliciar De não mais querer parar Do prazer que você vai me dar Nunca antes assim havido Nunca antes assim conhecido Nunca assim intensamente vivido Já era tarde da noite, Carolina havia dormido no sofá, obrigando Fernanda a levar sua filha para a cama, em seguida veio sentar ao meu lado para falar das poesias recebidas, e das outras tantas já preparadas, ela não sabia como demonstrar tamanha alegria, tamanha felicidade. Não sabia o que fazer e muito menos por onde começar se abraçava, se beijava, se chorava, estava parecendo uma criança que tinha acabado de receber um brinquedo que desejava há muito tempo. Sugeri continuar a nossa conversa no dia seguinte, após a aula de desenhos da sua filha, me despedi e fui para minha casa, agora mais triste e vazia da Fernanda, mas cheia de energia que a nova vida estava fornecendo. Tomei um chá e fui dormir, pensando em todas as palavras que havia escrito para ela, fiquei tentando refazer todos os movimentos para descobrir se não tinha esquecido nada. Pela manhã, depois da primeira refeição fui para a universidade e antes de voltar para casa dei uma linda nas poesias para poder imprimir, depois do almoço, fui fazer alguns testes da minha pesquisa, quando concluídos, sai para passar no supermercado comprar algumas coisas e voltei para casa, me preparei para uma linda cerimônia. Depois do banho, uma água de colônia que usava para os encontros femininos, quando eu os tinha, que era raro, e devido a isso, o vidro ainda estava cheio, em Portugal aquele era o primeiro dos encontros, fui em direção à porta do apartamento da Fernanda, bati na porta da Fernanda, que se abre e um lindo par de olhos azuis, emoldurando um delicioso sorriso, que sempre me surpreendia, surge na minha frente e me convida para entrar, sentar e tomar um café, antes de começar o nosso trabalho de desenhos, atividade que ela adorava participar. Carolina veio devagarzinho, me cumprimentou e sentou no canto da sala, pegando os pincéis, as canetas, as tintas e as folhas de papeis, e começou a desenhar, sentei ao seu lado e depois veio a Fernanda, oferecendo um café, enquanto tomava o café, a Fernanda usava o tempo para ficar saboreando as demais poesias, e não conseguia segurar as lágrimas nos olhos, sem chorar, mas estava visivelmente emocionada, sentou ao lado da filha e também começou a desenhar. Comecei a desenhar o registro daquela cena, as três pessoas envolvidas com cores, formas, desenhos, carinhos, muita emoção e sem nenhuma palavra, apenas uma música suave de fundo. Mais tarde, Fernanda pede licença dizendo que vai preparar o jantar da Carolina, aproveitei para sugerir um jantar no restaurante Atlântico, perto do Supermercado Continente, naquela noite teria, entre outros pratos, um bacalhau com purê de batata, que eu simplesmente adorava, ou poderia escolher vitela assada com fritas e tripas à moda da casa. Ela olhou para Carolina, como que pedisse a sua aprovação, e resolveram, depois de acabarem os trabalhos, colocaram uma roupa mais agasalhada e fomos jantar no restaurante, no caminho, comentei sobre os seus planos para as festas de Natal e Ano Novo, ela respondeu que aquele seria o primeiro Natal, depois da sua separação, e precisaria conversar com o seu ex marido, mas teria quase a certeza que ficaria com a filha, na casa dos seus pais, e com relação ao Ano Novo ainda não saberia dizer. Fernanda tinha quase certeza que a Carolina ficaria com pai, que deveriam passar o Ano Novo, juntos na casa do pai, com seus avos paternos. Entramos no restaurante e pedimos bacalhau para os três, vinho para nós dois e refrigerante para a menina, enquanto preparavam os pratos, ela me fez a mesma pergunta: “Aonde você vai passar as festas?” Respondi que planejava passar o Natal em Paris, lembrando os velhos tempos em que morava lá, mas agora com surgimento daquelas duas mulheres, estava sem saber o que fazer. Ela abriu seus olhos e me pergunta: “Mas você vai sozinho? Vai encontrar alguém?” Com um sorriso contido, respondi: “Até sexta feira passada pensava em ir sozinho, pois não conhecia ninguém interessante para apresentar Paris, e também não tinha ninguém para encontrar em Paris, mas depois daquele sábado, comecei a pensar que poderia levar vocês duas, mas festas de Natal, a família é sempre mais importante”. Ela concordou e me prometeu se organizar, conversar com Roberto e depois me diria o que eles tinham resolvido, durante o jantar ela ficou insistindo para que eu participasse das festas com elas duas, independente de onde elas passariam. No ano anterior, elas tinham passado o Natal na casa delas, e os pais dela vieram para a ceia e a troca de presentes, os pais do Roberto passaram para cumprimentar e trazer o presente para a neta. Era uma solução que ela achava bem interessante, dessa forma, eu seria o novo convidado daquelas duas lindas mulheres. 17 – UM NATAL EM FAMÍLIA Na verdade, ela fazia questão de me apresentar aos pais dela, pois já havia comentado com eles pelo telefone, e aquele seria um ótimo momento, se eu concordasse, é claro. Expliquei que seria o meu primeiro Natal em família, depois de 14 anos, mas que ficaria muito feliz, não só em participar, mas também em ajudar a fazer alguma coisa, preparar comidas e doces, fazer compras e enfeitar a sala para receber o Papai Noel. Com essa palavra mágica, a Carolina arregalou os olhos e disse que já tinha feito o seu pedido e estava muito ansiosa para ganhar o seu presente. Fernanda ficava olhando para mim com muita curiosidade, perguntando se, além de tudo eu também cozinhava, e dizia que, realmente eu não existia. Em princípio concordamos com a ideia, mas faltavam todos os detalhes, que seriam discutidos num outro dia. Em meio a nossa conversa, o garçom trouxe nosso pedido, o bacalhau com o azeite, com um aroma bem característico, com a maionese muito menos ácida, era o que mais chamava atenção, depois o sabor e a delicadeza do purê. Não era possível continuar a nossa conversa, a fome invadiu a mesa, o vinho estava servido, e depois, para sobremesa, pedimos pastel de amêndoas, depois o licor. Era a refeição que eu fazia nos finais de semana. Levantamos e fomos embora em direção ao prédio, depois cada um para sua casa, depois de trocar algumas palavras em frente a nossa porta, me despedi e entrei no meu apartamento. Ainda não tinha passado meia hora e dois belos olhos azuis e sorridentes estavam na minha porta, ela tinha vindo para me dizer boa noite. Após colocar Carolina na cama e ela veio conversar melhor sobre as festas, entrar em detalhes sobre as comidas e continuar a me conhecer melhor, ela dizia que eu tinha uma surpresa a cada dia. Afinal ela iria me apresentar aos seus pais. Decidimos assumir o namoro, e dessa forma, eu poderia ser apresentado aos seus pais, sem maiores problemas, quanto à festa, ela conversaria com sua mãe e depois avisaria. Depois de tudo encaminhado, ela resolveu ler as poesias para que eu fosse detalhando algumas passagens, aproveitou e começava a contar sobre sua vida, sobre seus sonhos, suas fantasias, suas frustrações e realizações, dizia tudo isso segurando as minhas mãos entre as suas, olhando nos meus olhos. Assim ficamos até tarde da noite, estávamos já cansados e com muito sono, acompanhei-a até a sua porta, quando ela me abraçou apertado por algum tempo, com lágrimas nos olhos, mas sem chorar, me agradecia por tudo, e fomos dormir. No dia seguinte, assim que cheguei da universidade, Fernanda estava me esperando na porta do prédio, dizendo que sua filha tinha uma festa de aniversário na escola e, depois da festa, iria dormir na casa da amiga aniversariante, dessa forma ela estava liberada para fazerem qualquer coisa, discutir a festa, as comidas, fazer compras e fazer um jantar, depois namorar um pouco e depois tomar uma ducha, palavras dela. Parece que ela havia gostado no nosso romance molhado. NOVO AMANHECER Parecia um dia comum Mas igual não houve nenhum Começou com um amanhecer diferente Eu não estava triste nem contente Apenas receptivo das energias recebidas Que sempre transformaram minha vida Otimizando minhas alegrias Otimizando a felicidade dos meus dias Agora eu sabia que ela existia de verdade Aquela pessoa tão sonhada Que eu tinha esculpido na minha mente Estava agora na minha frente Estava agora falando comigo Estava agora me mostrando Tudo aquilo que um dia sonhei... Tudo aquilo que sempre esperei Me deixando feliz a sonhar Por todo o tempo que esperei Por todas as horas que sonhei Por todos os minutos que passei Estava com você no pensamento Uma luz apareceu na minha sala Iluminando minha vida Iluminando meu coração Demonstrando o que é o amor Foi muito difícil esperar Foi muito gostoso sonhar Imaginar toda aquela fantasia Imaginar todo aquele sonho Imaginar todo aquele encanto Assegurar que tinha encontrado Uma criatura maravilhosa Uma criatura bonita Uma criatura tão meiga Uma criatura inteligente Uma criatura tão gente Que me deixa contente Só por saber que ela existe Sou muito agradecido Por me fazer de novo feliz Por me fazer de novo sorrir Obrigado FERNANDA, por você existir Subimos e fomos para a sua casa preparar e planejar a festa de Natal. Conversamos sobre as comidas, as bebidas, os ornamentos da sala, incluindo o presépio, a montagem da árvore, e a forma de como seriam feitas as compras. Muito ocupado com a listagem, a preparação e a organização da lista de compras, não tinha notado sua ausência da sala, mas logo em seguida ela surge na sala vestindo sua compra de Natal, uma lingerie, lindíssima, azul clara, muito curta, combinando com a cor dos seus olhos, e veio me abraçar pelas costas, cobrindo-me de beijos, dizendo baixinho aos meus ouvidos, que estava desfilando a roupa que usaria para a noite de Natal, não para a festa de Natal, e queria saber se eu aprovaria. Vestida daquele jeito, não consegui nem pensar, era a primeira vez que olhava aquela verdadeira obra de arte, lindas rendas moldando um lindo corpo, totalmente embevecido pela sua beleza, charme e sensualidade, comecei a dizer que não aprovaria, pois para mim, a roupa predileta que já havia escolhido para ela, eram dois lindos brincos que ela ganharia, mas não me incomodaria se ela se apresentasse daquele jeito, pois iria ter o prazer de poder desnudar seu corpo aos beijos. Ainda não tinha perguntado se ela podia fazer uma demonstração, em alguns minutos, depois de milhões de beijos ela estava nua, em pé, na frente da cadeira que estava sentado e começava a ajudar a tirar a minha roupa, ambos desvestidos, fomos para a sala de banho, entrar naquela penumbra que ducha deliciosa tinha criado, estava ligada e com os sais de banho. Era praticamente um replay do nosso primeiro encontro. Só não existiam todos os medos, os excessivos cuidados e inseguranças individuais. Agora era o nosso jeito de amar que estava se consolidando. JEITO DE AMAR Estava no meio da multidão Olhando as pessoas passarem Num momento de magia você surgia Sempre sorridente e sempre alegre você me abraçava Com muita energia “beijava” você de corpo inteiro, Trazia para meu apartamento Com todas as comidas e sobremesas prontas, Era uma energia tão forte Ao trocarmos todos aqueles beijos Entrava com você no quarto Linda, livre, leve e solta, Deitado esperava você Que chegava devagarzinho, Sentando, ajoelhando, deitando Todos os beijos trocados Tantos os beijos trocados Estávamos quase em transe, Naquele momento preciso Que nem sei como começava Que nem sei como acabava, Sei que a gente adorava Você se deliciava só com os toques, Com os carinhos e com os beijos, Ainda mais, depois do prazer primeiro, Voltávamos em meio aos beijos Almoçar e tomar sucos Depois tinha a sobremesa, Que começava na sua boca Terminava na cama, Numa forma inusitada de beijar, Acariciar, dar e receber prazer, Ainda sinto seu corpo aqui, Sua vibração, o seu cheiro, Sabendo me fazer ser feliz Sabendo me fazer saber amar, E a forma bonita de se entregar, É uma linda e tranquila forma de amar Depois de horas na ducha, com todas as massagens, todos os carinhos, fazendo aquela dança fantástica, maravilhosa, depois de muito prazer, tomamos um banho e fomos para o quarto de dormir, deitados, tudo estava recomeçando, agora de uma forma menos molhada, agora de uma forma mais livre, pois se tinha mais espaço, nesse momento começa um verdadeiro banho de beijos, preparando para uma nova dança, uma nova escultura, que termina bem depois, sob as cobertas, sem falar uma única palavra, com uma única testemunha, sua lingerie, que a tudo assistia do chão da sala. Quando acordamos, pela manhã, levantei e preparei um café da manhã, cortei um melão que ela gostava, aqueci o pastel, fiz um café e um suco de laranja, fui procurar uma bandeja, desenhei uma flor nos papéis de desenho da Carolina, recortei e coloquei numa taça, e, aos beijos, fui percorrendo seu corpo para que ela pudesse acordar arrepiada e excitada. A imagem dos seus olhos azuis brilhando ao ver a bandeja, com a flor de papel na taça e o café servido, foi indescritível, maravilhosa. Não sei se encontraria palavras que pudessem retratar aquela felicidade, aquela sua alegria, que me deixava muito feliz, enfim tinha encontrado alguém que tinha o mesmo repertório sensual. Ela acorda e se espreguiça deliciosamente, se ajeita na cama para poder sentar, colocar o travesseiro sobre suas pernas cruzadas para apoiar a bandeja. Dessa forma amanhecemos, de uma forma diferente, ficamos conversando sobre as comidas e a festa, até ela poder concluir seu pequeno almoço, quando levantei para ir buscar a lista de compras, para resolver alguns detalhes, e antes de sair da cama, ao lado da bandeja, ela procura me abraçar, beijar, fazendo carinhos com seus olhos fechados e tudo estava recomeçando, estávamos dançando de novo aqueles passos deliciosos. Ainda com tempo, fui para a universidade tentar trabalhar, mas meu pensamento estava no azul dos olhos dela, que o céu não me deixava esquecer, depois do almoço no restaurante universitário, voltei para levar Fernanda no supermercado Continente, e começar a fazer as compras de Natal, lugar que eu adorava ir, devido a sua enorme quantidade de produtos, sempre cheio de gente, conhecia todos os cantos e todas as ofertas. Dias depois conheci o supermercado Froiz, tinha tudo o que Continente oferecia, era mais bonito, tinha menor preço e muito menos gente. Terminada as compras, carregamos no meu carro, e voltamos para sua casa, estava tocando seu telefone, ela foi atender apressadamente, era sua mãe, depois de algumas palavras, fazia sinal de positivo para mim, desligou o telefone dizendo que estava tudo, praticamente acertado, para a realização da festa de Natal no apartamento dela. Saímos de novo para outras compras, agora no mercado municipal, que lembrava um pouco o novo mercado municipal de São Paulo, durante as compras, Fernanda comentava sua conversa com a mãe, que tinha ficado muito curiosa em me conhecer, seu pai já estava sabendo, mas queria saber alguns detalhes, e que seria a surpresa no dia da festa, além dos presentes. Adorei fazer as compras com ela, sempre tinha uma segunda ou terceira opção, adorava discutir os preços, procurando, sem muita convicção, os preços mais econômicos, assim passamos a tarde, comprando, beijando, decidindo, beijando montando o cardápio, beijando e decidindo sobre os presentes e as bebidas. Foi, o que se podia dizer uma tarde feliz. Ainda não conhecia o mercado municipal, sabia que existia, passava sempre em frente nos finais de semana e feriados, quando as pessoas vão fazer suas compras, e não deixam faltar os pacotes com flores, sem exceção, todos compravam flores, dos mais diversos tipo e cores, mas nunca tive a curiosidade de fazer compras. Depois descobri que Fernanda também fazia isso, na sua sala sempre tinha um vaso com flores, que ela trocava a cada 2 ou 3 dias. No almoço do Natal, na casa da Fernanda, a casa era ornamentada com flores, nos diversos vasos espalhados pela sala e cozinha, embelezando e perfumando a casa, combinando com perfuma que existe na cidade, e na universidade, que existe um enorme jardim, quase uma floresta, com diversos tipos de árvores, que tem suas flores de cores diferentes, e suas folhagens de cor muito variada, tornando a paisagem bonita e muito perfumada. Voltamos para casa da Fernanda para guardar as compras, mas não havia tempo para organizar tudo, Fernanda precisava ir buscar sua filha Carolina, me despedi e fui para minha casa, tentar trabalhar um pouco e colocar os meus papeis em ordem, tinha sido o dia da faxineira. Faltavam dois dias para o Natal e era preciso preparar os pratos mais elaborados, passei os dois dias na casa da Fernanda, mas não dormia lá, mas ficava ajudando na cozinha, desenhando com sua filha, saindo para comprar alguma coisa que faltava, namorando, num comportamento que não fazia há muito tempo, mas que acabei me acostumando rapidamente, pois era muito gostoso estar fazendo tudo aquilo. No dia 24, com os preparativos quase prontos, fizemos um pequeno almoço rápido para nós três, fui colocar os presentes sob a árvore que tinha montado, ao lado do pequeno presépio, que não tinha os mesmos bichos, nem a mesma ponte e o mesmo espelho que representava o lago, mas tinha uma pequena cabana semelhante àquela que durante minha infância tinha na minha casa no Brasil. Também não tinha encontrado o papel-pedra, mas ficou bonito. Quando ficou tudo pronto, peguei alguns pedaços de pão, uma peça de queijo gorgonzola e abri uma garrafa de vinho, e fiquei sentado, em silêncio, me deliciando com aquela nova imagem e os novos sabores da minha vida, logo depois chegou Carolina procurando seu presente e a Fernanda veio em seguida, ficamos os três naquele ambiente iluminado, alegre e feliz, Carolina começou a desenhar o Papai Noel, mas estava muito curiosa e ansiosa para abrir os presentes, Fernanda ajudando na organização da colocação dos presentes, e eu fotografando e registrando a cena maravilhosa. Em seguida fui para minha casa tomar um banho, me arrumando para a festa e voltar para a casa da Fernanda, estava conversando com ela sobre a mesa de jantar quando tocou a campainha, ela foi atender e, pelas conversas percebi que seus pais tinham chegado, ela veio me buscar me pegou pela mão e me apresentou como seu namorado, depois das apresentações as perguntas mais comuns, era sobre o meu trabalho, minha vida no Brasil, depois sua mãe foi para a cozinha com a Fernanda, ficamos na sala eu, seu pai e a Carolina. Fiquei sabendo um pouco mais da vida da Fernanda e dos seus pais, que eram pessoas simples, trabalhadoras e muito amorosas para com a família. Seu pai estava aposentado, tinha sido um contador famoso em Guimarães, e sua mãe era uma esposa dedicada. A Fernanda e sua mãe acabaram de montar a mesa de Natal, eu e seu pai formos ajudar com as bebidas, por volta das 23 horas, quando as igrejas anunciam a chegada do Natal, tocando os sinos chamando para a missa do galo, seu pai abriu uma garrafa de champanhe e começamos a brindar pelo Natal até chegar meia noite, quando a família se abraça, dança e chora de felicidade, os três com a Carolina no colo. Fiquei assistindo a tudo, muito admirado, nunca tinha vista tanta felicidade junta, me sentia um pouco deslocado, era a minha imagem de uma festa familiar, mas em seguida eles vieram mais perto e me incluíram naquele abraço familiar. Logo depois seus pais se afastaram com a Carolina, foram para a árvore de Natal e começaram a distribuir os presentes. A Fernanda ainda ficou algum tempo abraçada comigo, dizia baixinho que aquele Natal seria inesquecível, e me deu um presente de Natal, quando abri era uma linda caneta tinteiro, dizia que era para continuar a escrever poesias para ela. Perguntei por que só eu teria direito a ganhar duas vezes, já tinha recebido o meu presente, por que o Papai Noel teria sido tão generoso comigo. Ela perguntou muito curiosa: “Qual seria o outro presente? Pode me mostrar?”. Segurando na sua mão, expliquei que ela já conhecia, e muito bem, e que tinha sido o melhor presente que eu já tinha recebido na minha vida, e estava comigo fazia alguns dias, e tinha desembrulhado e havia gostado muito. Era exatamente o presente que todo ano eu pedia ao Papai Noel: “Uma linda e deliciosa namorada, amiga, amada, amante, companheira, cúmplice, parceira e ainda tinha de brinde muita sensualidade”. Retribui o presente para ela, um delicioso perfume francês e para a Carolina um enorme jogo de canetas para desenho, tinha escolhido um perfume para sua mãe e uma colônia para seu pai. Eram presentes meio impessoais, característicos de quem não conhece bem as pessoas. Depois da gostosa festa de abertura de presentes e alegria de receber os abraços, fui juntamente com Fernanda buscar os pratos preparados e iniciamos a ceia e ficamos em festa quase que a noite toda, tipo de festa que tinha quando criança, mas já estava quase amanhecendo, a Carolina tinha adormecido no sofá. Quando seus pais se despediram, e foram embora, ficamos eu e ela na sala, admirando todos os presentes ganhos, os papéis ainda jogados no chão da sala, a mesa posta, as luzes da árvore de Natal piscando, ela levantou-se e foi colocar o boneco do menino Jesus no berço, se voltou para mim, e de novo me agradeceu por aquela festa tão linda. Respondi que sua família era linda, ela com lágrimas nos olhos dizia que nunca teve uma festa assim, seu ex marido era muito difícil, e não se dava bem com seus pais. Por outro lado, comentava que os pais dela gostaram de mim, que havia causado uma boa impressão. Retribui dizendo que também tinha gostado deles, e que estava tudo se encaixando. Fernanda queria dormir comigo, mas estava em dúvida quanto a sua filha, afinal ela tinha ido dormir muito tarde e deveria acordar mais tarde, mas não tinha muito sentido a menina acordar sem ninguém na sua casa ou comigo na cama da sua mãe, e devido a isso, decidimos dormir cada um na sua casa. Com muita tristeza nos despedimos, e fui dormir na minha cama, vazia dela. Pela manhã, preparei o mesmo café da manhã da noite primeira, só que desta vez era para duas pessoas, e fui levar a bandeja do café na sua cama, entrei silenciosamente no seu apartamento, fui direto para seu quarto, aos beijos fui acordar aquele delicioso presente de Natal, que acordou sorrindo e depois de me abraçar e beijar muito, ficamos conversando sobre a festa e tomando nosso café. Eram mais ou menos 10 horas da manhã, quando o telefone toca tirando o silêncio da sala, era seu ex marido querendo saber quando ele poderia vir pegar a Carolina para almoçar com ele e seus pais, ouvi quando conversaram alguns detalhes e marcaram para que ele viesse por volta do meio dia, pois a menina ainda dormia. Voltei para minha casa, enquanto Fernanda foi acordar sua filha, dar um banho e preparar sua filha para sua saída, mas antes ela tomou um pequeno café da manhã enquanto Fernanda foi se trocar para esperar o seu ex marido, que foi mais ou menos pontual. Lembrando os velhos tempos, ainda ouvia o interfone da sua sala. Fernanda desceu para levar a menina, subindo logo em seguida, e veio ao meu encontro perguntando o que eu queria fazer, almoçar na casa dela ou ir para a casa dos seus pais, que tinham telefonado convidando. Deixei ao seu critério, pois estando com ela, tanto fazia, apenas não teriam muita liberdade, mas afirmei que seria bom conhecer melhor os pais dela, e dessa forma, fomos para a casa deles. Agora estava conhecendo uma casa portuguesa, além da casa da Fernanda, e confessou que nunca tinha comido tão bem, foram quatro tipos de pratos, duas sobremesas, duas saladas, e flores, muitas flores, pela casa que não era muito grande, e na sala havia uma pequena árvore de Natal, lembrança de quando Fernanda era criança. O pai da Fernanda, depois de se aposentar, montou uma pastelaria, fazia de tudo, era proprietário, cozinheiro e garçom, tinha um ajudante na cozinha e uma balconista, e sua mãe era do lar, eram pessoas simples, falavam um português muito carregado, quase não se entendia, mas conseguimos manter uma boa conversa, eles estavam muito preocupados com o fato de que eu era mais velho, ter filhos, e estar agora em Portugal a trabalho, mas na verdade eles estavam muito preocupados com a minha volta ao Brasil, trazendo a filha e a neta, deixando muito longe deles. Comentando a tranquilidade que tinha sido a festa de Natal, eles estavam preocupados com a minha postura, pois com o antigo marido da Fernanda as festas eram motivos de nervosismo, por alguma razão, sempre surgia alguma discussão, e agora tinha sido uma coisa mais natural e gostosa, com assuntos que se conversa nas festas de família. Perguntaram sobre meu trabalho na universidade e quais as minhas expectativas para o futuro. Demonstrei a eles que não sairia de Portugal, nem da Europa, talvez eu pudesse mudar para Itália, pois estava montando um convênio com uma universidade de Torino, mas eram planos para serem cumpridos num médio prazo, faria algumas viagens ao Brasil, onde moravam minhas filhas, e algumas pessoas da minha família. Eles me perguntavam sobre o meu casamento, queriam saber os motivos da separação e se eu gostava da minha ex-mulher. Com alguma impaciência, resumi os fatos em algumas palavras, procurando demonstrar toda a minha felicidade com a descoberta da Fernanda, que sempre tinha procurado uma pessoa como ela, pois era completamente diferente da minha antiga esposa, se é que se pode dizer assim, e tentando transmitir a eles todo a minha alegria de ter encontrado uma pessoa como a Fernanda, para que eles se sentirem mais tranquilos pelo fato de eu ser um homem divorciado. Fernanda chegou e ficou assistindo a tudo, em determinado momento ela veio sentar ao meu lado começou a participar da conversa, contando alguns detalhes do casamento dela e que tinha encontrado alguns problemas que eram os mesmos que os meus, e dessa forma a gente se identificava na escolha errada que ambos fizemos. Seu pai, como todo bom português, não se conformava, pois no seu tempo não era assim. Expliquei que no tempo do meu pai também não era, mas que no tempo da Carolina, as coisas seriam mais diferentes ainda, talvez nem existisse mais casamentos, isso seria uma nova forma de vida e que a gente teria que se acostumar. Ficamos assim até a Carolina chegar com o pai, fato que aconteceu por volta das 20 horas, quando fizemos um lanche com a Carolina e seus avôs, depois viemos embora para casa da Fernanda, a menina veio cheia de presentes e trazia um pequeno presente para a Fernanda, que era por parte do seu ex marido. Ao chegarem ao prédio, ela foi para a sua casa e eu para a minha. Ainda na porta ela me dizia que vinha me dizer boa noite. E veio, como sempre, me dizer uma boa noite de forma deliciosa, comportamento que já estava me acostumando. 18 – APRESENTANDO PARIS Um dia após o Natal, Fernanda comentou que tinha combinado que a Carolina passaria o Reveillon com o pai, e os pais dele, e que estaríamos liberados para fazermos qualquer programa. Depois de vir morar na Europa, antes de encontrar Fernanda e de acontecer tudo aquilo, havia planejado passar o Ano Novo em Paris, estava com saudades daquela cidade, fazia alguns anos que não visitava a cidade que tanto gosto, e agora tinha mais uma razão para voltar e apresentar Paris para ela. Seria a minha primeira viagem com ela, não sabia muito bem como conduzir o convite, resolvi sugerir uma viagem, ela achou que seria gostoso a gente ficar sozinhos num lugar diferente: “mas para onde?” Ela perguntou. Expliquei que tinha planejado uma viagem até Paris, além de ser uma cidade que ela ainda não conhecia, queria voltar e além de matar as minhas saudades de passear pelo Rio Sena, ver as barraquinhas dos livros, os artistas, os Cafés dos grandes Boulevards, poder admirar a Catedal de Notre Dame, o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel, o Museu do Louvre e rever Quartier Latin, e a rua que tinha morado anos antes, mas na verdade estava querendo apresentar Paris a ela. Ela levou um choque, nunca tinha pensado em conhecer a França, argumentou que não falava francês, mas aceitou a idéia de conhecer a capital francesa. Fomos até o centro velho de Guimarães procurar a agência de viagens, encontramos uma promoção que preenchia nossa ou a minha, expectativa, uma excursão de avião que saia da cidade do Porto no dia 28, ficaria até o dia 4 de janeiro em Paris e voltava para a cidade do Porto, por 405,00 €, por pessoa. Decidimos comprar. A distância de Guimarães até a cidade do Porto é pequena, pode ser percorrida com um trem lindo e muito gostoso, que sempre utilizava para passar o final de semana naquela cidade, e da estação do trem tem uma ligação de metrô para chegar ao Aeroporto é superficial, proporcionando uma linda viagem pelas ruas da cidade. O metrô da cidade do Porto foi construído sobre as ruas, que na verdade lembra os antigos bondes de São Paulo, mas com uma beleza indiscutível, suas estações são verdadeiras obras esculturais, com linda arquitetura, que transforma a viagem num espetáculo de turismo e prazer aos olhos. Além da qualidade dos trens, tem uma novidade, na mesma estação, passam os trens com quatro direções diferentes, e você escolhe a direção que deseja, um dos destinos é o Aeroporto, que por sinal é muito bonito e moderníssimo. Embarcamos ás 16 horas dia 28 de dezembro, e chegamos três horas depois no aeroporto Charles de Gaulle, assim que desembaraçamos as bagagens, procurei o metro que nos levaria até o centro da cidade, próximo ao hotel reservado pelo “pacote” comprado na agência de viagens de Guimarães, que ficava no bairro Ópera, próximo à Place de La Republique. Havia outras pessoas no mesmo voo que estariam no mesmo hotel, assim que nos acomodamos saímos para a rua, minha ansiedade era muito grande em ver Paris novamente, agora ao lado da Fernanda. Bem próximo, ao lado do hotel, está localizado o Jardim de Luxemburgo, um imenso espaço urbanizado e florido, que segundo as histórias, era o jardim do Castelo onde morava o rei Luis XV, Palais Royal, muito bem cuidado, com lindas flores, folhagens e árvores, mas predomina uma vegetação mais baixa, que deve ser aparada semanalmente para manter as formas do seu maravilhoso desenho, um espaço para se ficar observando durante horas, era sempre muito visitado pelos turistas. O Jardim de Luxemburgo fica ao lado da Rue de Rivoli, que ficam as lojas mais luxuosas, a Place Vendôme, o Hotel Regina, e passamos pelo Jardin des Tuileries, onde fica o Museu do Louvre, queria rever a Pirâmide de Cristal, que passou a ser a entrada principal do Museu, entramos no Louvre e passamos a tarde pelo sempre maravilhoso espaço cultural, quando anoiteceu, saímos e fomos ver os Arcos do Jardim des Tuileries, que ficavam numa mesma reta, de um lado a Catedral de Notre Dame, os Arcos de Constantin, a Place de la Concorde e do outro lado o fundo o Arco do Triunfo. Não sabia aonde ir primeiro, queria mostrar tudo ao mesmo tempo para Fernanda, sugeri mostrar o bairro que tinha morado, o Quartier Latin, seguimos pelo Rio Sena até a Catedral Notre Dame, que fica numa ilha, cercada pelo Rio Sena, atravessamos as pontes e fomos em direção ao Boulevard Saint Germain de Prés, atravessamos o Boulevard Saint Michel e chegamos ao jardim da Place de la Catedral de Notre Dame. Trazia ainda na memória o meu primeiro dia em Paris, assim que tinha chegado e me hospedado no meu hotel, vim conhecer pessoalmente o primeiro ponto turístico da cidade. Entramos na igreja, olhamos ao seu redor, ela estava adorando tudo aquilo, imagine eu, fotografei tudo o que achei bonito, isto é, tudo, e voltamos para o outro lado da Place, atravessamos a ponte e estávamos no Quartier Latin, que agora tinha se transformado um bairro de alimentação, todas as pequenas livrarias tinham se transformadas em pequenos restaurantes, alguns de comidas tradicionais, mas a grande maioria de comidas típicas internacionais, para todas as culturas que visitam a cidade e aquele bairro. Fui levar Fernanda ver onde tinha ficado por algum tempo, na Rue de la Parcheminerie, 59, na outra ponta da rua estava o Museu de Cluny, entramos pelas ruas do bairro, chegamos no espaço da Universidade de Paris, onde encontramos as livrarias e os cafés dos estudantes, apesar de ser noite, estavam lotados. Estava muito empolgado, mostrando e explicando para ela todos os detalhes da cidade, fazia 6 horas que estávamos andando, perguntei para ela se estava cansada, pois estava muito calada, me respondeu que ainda não, mas aparentemente feliz disse estar com fome, fizemos o caminho de volta até o Prédio do Louvre e seguimos para a rua do hotel. Procurei um supermercado, queria comprar queijo, pão e vinho para lanchar no hotel. Fui encontrar numa rua bem acima da Place de La Republique, onde compramos os queijos, os vinhos e uma baguete de pão e voltamos ao hotel. Depois de um delicioso banho a dois, com todos os carinhos possíveis, fomos nos deliciar com aqueles queijos, a baguete e o vinho, que ela adorou e me disse agora entender a minha ansiedade e o meu gosto por tudo aquilo, era mesmo a delícia que eu tinha comentado. Tinha encontrado um queijo fundido feito à base de ervas, em quadradinhos, mas que tinha um sabor maravilhoso; estava vivendo num paraíso particular, tinha a Fernanda, Paris, os queijos, os vinhos e aquele pão maravilhoso. Era tudo o que sempre tinha sonhado, depois de muito comentar sobre as maravilhas que encontramos na cidade, fomos dormir. Para planejar os passeios do dia, o hotel forneceu uma pequena planta da cidade, combinamos de ir caminhando ver o interior do Palais Royal, depois passar pela Place de La Concorde, e ir pela Avenue Champs Elyseés, agora com diversas barracas de comidas, doces, roupas, perfumes e bebidas, que estavam localizadas logo após a Place de la Concórdia, até a cruzar a Avenue onde estão localizados o Gran Palais e Petit Palais, depois chegar à Place Etoile, onde fica o Arco do Triunfo, num entroncamento de 8 avenidas. Atravessamos o túnel subterrâneo para mostrar o Arco do Triunfo de perto. Queria mostrar os grandes magazines, e voltamos pela Avenue Champs Elyseés, até a rue da Eglise de la Madeleine, subimos até chegar ao Boulevard Haussman, onde estão as Galerias Lafayettes e a Printemps, entramos para olhar, conhecer e talvez algumas compras. Tinha sido uma bela caminhada, e Fernanda estava cansada, encontramos um pequeno restaurante, para almoçar, esticamos o almoço para nos refazer da caminhada, vendo a planta da cidade, mostrei o caminho para ver a Torre Eiffel, que ela estava curiosa para ver. Estava muito frio, demoramos um pouco para chegar, pois passamos antes pelo Petit Palais, em frente ao Grand Palais, que fica no caminho, vimos as praças e os prédios que eu queria ver de novo, ao chegar ao Jardim da Torre Eiffel e Museu de la Marine, encontramos diversas barracas, semelhantes às que encontramos na avenue Champs Elysées, que vendiam comidas típicas de diversos países, vinho quente e artigos de Natal, além de artesanato, o cheiro de comida era convidativo, ela resolveu fazer o lanche por ali mesmo. Mais à noite subimos até o terceiro andar da Torre Eiffel, para ver a cidade iluminada, e descemos a pé, para curtir a cada degrau, no jardim da Praça da Torre Eiffel, caminhamos até o Museé de la Marine, e depois fomos de volta ao hotel, cansados mas felizes. Ela me perguntava por que tinha ido embora daquela linda cidade, não soube responder. Tomamos outro delicioso banho e fomos para cama, para dormir. Quando amanheceu, tomamos café e programamos almoçar num restaurante árabe que tinha visto no Quartier Latin, fizemos o passeio de barco pelo Rio Sena, mas não havia muitas barraquinhas de livros abertas devido ao inverno. Escolhemos o restaurante entramos e pedimos Cuscus, que é um prato baseado em trigo, que pode ser servido com diversas opções, escolhemos com linguiça de porco, e uma taça de vinho. Ao sair do restaurante, escolhemos para sobremesa o doce Wafel, coberto com chocolate e creme. Era a mesma refeição que fazia quando morava sozinho em Paris. Devidamente alimentados e descansados combinamos de ir até o Beaubourg George Pompideau, outro lindo espaço cultural, de construção moderna, que eu ainda não tinha conhecido, foi construído no local em que funcionava o antigo Marchée Les Halles, entramos e passamos a tarde vendo a exposição de artistas franceses. Ao anoitecer, quando saímos, passamos pela École dês Arts et Metiers, onde estudei, depois voltamos pelo Rio Sena até o hotel. Na manhã seguinte, inauguramos o metro parisiense para chegar ao espaço onde estão localizados os prédios construídos com tecnologia de ponta, Arc de la Defense, localizado em Neully, município vizinho a Paris, queria ver o Edifício da Biblioteca Municipal, e os maravilhosos prédios comerciais que existem naquele espaço. No caminho compramos o pão com chocolate, que é uma delicia. Na praça onde está localizado o Edifício da Biblioteca Municipal, tinha uma feira de alimentação, semelhante à que encontramos nos Jardins da Torre Eiffel, de novo aquele aroma delicioso no ar, depois de ver e fotografar os prédios todos, entrar num pequeno shopping na mesma praça, fomos fazer o lanche numa daquelas barracas. O mais difícil foi escolher qual tipo de lanche e qual a barraca, eram todas muito saborosas e cheirosas. Escolhemos uma barraca de comida típica francesa e comemos um sanduíche