Entrevista Deputado Marcello Siqueira busca solução para contratados F OTO S ILVANO S AKAI Deputado federal pelo PMDB de Minas Gerais, o ex-presidente de FURNAS, Marcello Lignani Siqueira fez, no dia 17 de junho, um pronunciamento no plenário da Câmara, alertando os parlamentares sobre a situação que a Empresa vem passando. FURNAS possui hoje 5.500 empregados, dos quais cerca de 2.400 são terceirizados, contratados durante o período em que a Companhia esteve incluída no Programa Nacional de Desestatização (PND) e, por isso, impedida de realizar concursos para atender suas necessidades funcionais. Nesta entrevista exclusiva para a Linha Direta, ele fala sobre sua preocupação em relação aos contratados, reconhece o empenho da atual Diretoria de FURNAS na busca de uma solução para o problema, defende uma saída política para o impasse e antecipa que ao lado dos também ex-presidentes da Empresa e atuais deputados federais, Eliseu Resende e Luiz Carlos Santos, levará a questão à análise do Ministério da Justiça. 4 • julho 2004 • Linha Direta nº 310 O que o levou a fazer o pronunciamento na Câmara Federal sobre a situação dos contratados de FURNAS? FURNAS sempre foi uma empresa de ponta no setor de energia elétrica brasileiro. Ao longo dos seus 47 anos, só foi crescendo em níveis de Brasil e internacional. No governo Fernando Henrique Cardoso, numa tentativa de desmonte do Estado brasileiro como um todo, eles quiseram privatizar FURNAS. Proibiram os concursos públicos e a Empresa, para continuar funcionando, teve que contratar empregados via empresas interpostas. Porém, a Justiça do Trabalho quer demitir este quadro de pessoal para colocar os concursados. Conclusão: a Empresa que tem hoje em torno de 5.500 funcionários, teria que demitir de uma só vez cerca de 2.400 pessoas. Isto coloca FURNAS em uma situação dificílima para seu funcionamento, porque a maioria das pessoas que seria demitida são técnicos que trabalham na geração, na transmissão e nas subestações. Como o senhor entende esta questão? Sei que isto é uma questão constitucional, mas está criado um problema que tem que ser resolvido politicamente. Não se pode ficar na letra fria do que está na Constituição e na interpretação da Justiça do Trabalho. Isto tem que ser tratado de uma forma que não quebre a operação da Empresa e nem traga problemas ao sistema elétrico brasileiro e às pessoas que lá estão trabalhando há 14, 12, 10 anos e, de repente, seriam demitidas, o que configuraria uma grave crise social. Qual o caminho para a solução deste problema? Eu acho que nós temos que começar esta discussão na Comissão de Minas e Energia da Câmara Federal, da qual faço parte. Temos que ter uma participação ampla envolvendo o parlamento brasileiro, Câmara e Senado, a Justiça do Trabalho etc. para buscarmos uma solução, um caminho. Este caminho não é ortodoxo e sim heterodoxo, que passa a ser político. Não se pode comprometer cerca de 50% da oferta de energia do país seguindo somente o que determina a Constituição. Como o senhor vê a posição do Ministério Público? A promotora não está errada. Ela está seguindo a letra fria da Constituição, só que a ela não cabe saber o que vai acontecer, quais são as conseqüências e o que acontecerá ao se aplicar somente a Constituição de forma rígida. E a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) para a criação de um quadro suplementar? Nós temos que mostrar para a promotora que existe uma decisão do TCU. Só que ela se baseia na Constituição. Porém, o direito não é uma ciência exata. Se essa lei está feita e ela vai prejudicar a atividade de uma empresa do porte de FURNAS e comprometer a oferta de energia para o país, a lei tem que ser modificada. Existe, inclusive, um projeto de emenda constitucional em tramitação no Congresso Nacional que tem como objetivo solucionar os problemas gerados pela terceirização no Brasil. Como é a tramitação deste projeto? Este projeto de emenda constitucional é correto. É uma forma política de se buscar uma solução. Ele tem que ser aprovado na Câmara com um quorum de 60% dos votos dos deputados, não é um quorum simples, é um encaminhamento muito complicado. Esta situação está presente em empresas como a Copasa, Chesf, Eletronorte, Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, empresas municipais e várias outras. Criou-se um emaranhado de situações que tem que ter uma solução política. Como o senhor está vendo a atuação da Diretoria de FURNAS nesta questão? Tenho acompanhado de perto este assunto junto a direção da casa e o presidente José Pedro Rodrigues de Oliveira está empenhado e sofrendo demais com este problema. Ele pegou uma coisa que na realidade não foi ele que criou. As pessoas foram admitidas na época do Dr. Elizeu Resende, na minha gestão, na do Dr. Ronaldo Fabrício, Dr. Luiz Laércio, Dr. Luiz Carlos Santos e Dr. Dimas Toledo. Quero lembrar que aqui na Câmara temos três ex-presidentes de FURNAS e que estamos buscando construir uma solução política para esta situação. Vamos, inclusive, levar este problema ao ministro da Justiça, Dr. Marcio Thomaz Bastos. Deputado, fale um pouco sobre a luta contra a privatização de FURNAS Para combater as tentativas de privatização de FURNAS, o então governador de Minas, Itamar Franco, fez um vôo simbólico ao dique de Capitólio (MG). Ninguém iria arrebentar o dique para passar as águas do rio Grande para a bacia do São Francisco. Eu fui naquele vôo. Lembro que a manobra da Polícia Militar de Minas cercando o lago de Furnas também foi simbólica. Um simbolismo que evitou que a Empresa fosse privatizada. Então, temos que recompor FURNAS. Ela está funcionando, mas não se pode mandar 2.400 pessoas embora de uma hora para outra. Como você vai treinar todo este pessoal em curto espaço de tempo? O que o senhor acha da participação da iniciativa privada no novo modelo do setor elétrico? Em minha opinião, o setor privado deve ser chamado a participar, mas ele deve entrar com capital de risco. Em sua maioria, eles querem entrar nos negócios sem risco nenhum. A primeira obra que envolveu a parceria público/privada no setor elétrico aconteceu em FURNAS para a construção da Usina de Serra da Mesa. Naquela época, a Empresa estava construindo Angra 2, a Usina de Corumbá e a Usina de Serra da Mesa e os recursos de FURNAS não davam para tocar estas três obras. Então propus ao presidente Itamar Franco fazer uma parceria para Serra da Mesa. Buscamos montar um consórcio com parceiros privados es- tratégicos: o Grupo Votorantin, um grande produtor de alumínio e que precisava de grandes blocos de energia; o Bradesco, sócio financeiro; e a Camargo Corrêa, com larga experiência em construção. Aliado a tudo isto, temos FURNAS, com grande capacidade técnica de operação e construção de usinas. Serra da Mesa está operando, atendendo a iniciativa privada e ao sistema elétrico brasileiro. É claro que isto pode continuar a ser feito, porém tem que se ter regras muito claras para o bom funcionamento das parcerias. O senhor defende a abertura do capital de FURNAS? Se FURNAS abrir seu capital, vendendo 49% de suas ações ordinárias e o governo ficando com o controle, quem manda é o governo e assim eu sou a favor. Isto acontece com a Petrobrás, com o Banco do Brasil que tem sócios privados minoritários. Acho que seria uma boa idéia também abrir o capital de FURNAS, porém o governo mantendo sempre o controle. O que não se pode é privatizar como foi feito no governo passado para se pagar juros da dívida externa. Aliás, apesar de votar junto com o governo eu sou um crítico da atual política econômica, porque ela atende às necessidades dos bancos. O capital financeiro quer participar de negócios com risco zero e manter ainda as altas taxas de juros. Além disso, esta política mantém algumas amarras que atendem aos interesses do capital financeiro. No caso de FURNAS, seus investimentos ainda estão atrelados à questão do déficit primário. Falta ao governo acabar com estas amarras para que as empresas públicas possam investir e criar as condições necessárias para a retomada do desenvolvimento. LEIA NA PÁGINA 31 SOBRE O REQUERIMENTO DE CRIAÇÃO DE UMA SUBCOMISSÃO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS PARA ANALISAR A QUESTÃO DOS TERCEIRIZADOS Linha Direta nº 310 • julho 2004 • 5