“O MUNDO NÃO É, O MUNDO ESTÁ SENDO”: PAULO FREIRE UM EDUCADOR E
FILÓSOFO DE UMA EXISTÊNCIA ENGAJADA
1
Edgar Pereira Coelho – Autor – (Professor de Filosofia no Departamento de Educação UFV.)
2
Marcelo Loures dos Santos – Co-autor – (Professor de Psicologia no Departamento de Educação da UFV.)
3
Willer Araujo Barbosa – Co-autor – (Professor de Filosofia no Departamento de Educação UFV.)
Resumo: Este texto visa problematizar alguns aspectos filosóficos do debate em torno das
questões do SER e da EXISTÊNCIA, experienciados por inúmeros filósofos e educadores, desde
a tradição grega, percorrendo os lampejos dos períodos antigo, medieval e contemporâneo.
Apresenta uma discussão sem uma pretensão conclusiva em torno do Ser e do Sendo, buscando
compreender os diversos olhares, em favor de um debate tão antigo e ao mesmo tempo
contemporâneo. Em um segundo momento explicita a práxis freiriana, que inclui e problematiza
filosoficamente a antiga questão no processo educacional mundial.
Palavras-Chave: Ser, Existência, Libertação.
J
á nos primórdios da filosofia antiga grega, havia grandes debates sobre as idéias
filosóficas em torno do Ser e do não Ser, o que perdura até hoje sem soluções definitivas,
mas com um elevado interesse dialógico entre as pessoas. Dentre os representantes de
modos diferentes de pensar, destacam-se Heráclito e Parmênides. Para o primeiro tudo
estava em constante devir, numa permanente metamorfose; para o segundo tal
afirmação não era possível, pois afirmava que o “Ser é e o não Ser não é”. A partir desse
embate se discute o princípio de identidade e se abre a questão para os filósofos
vindouros. De lá para cá muitas águas passaram debaixo da ponte, inúmeros outros
levantaram questões semelhantes, como é o caso de Shakespeare “ser ou não ser, eis a
questão”. Heidegger desenvolveu longo pensamento sobre o Ser e o tempo e tantos
outros na história da filosofia se debruçaram sobre esta temática.
Os Pré-Socráticos, de um modo geral, filósofos cosmológicos, buscavam encontrar a
origem material de todas as coisas. Era um primeiro esforço de saída de uma visão
meramente mítica para algo mais racional e filosófico. De algum modo buscavam
1
Graduação em Filosofia, PUCMG. (Diplomado em Educação UAU-Chile. Mestrado em Filosofia, UFJF.
Doutorado em Educação/Filosofia da Edcuação, USP.
email: [email protected]
2
Graduação em Psicologia, UFMG. Mestrado em Psicologia Social, USP. Doutorado em Psicologia,
PUCCAMP.
email: [email protected]
3
Graduação em Filosofia, UFMG. Especialização em Filosofia Contemporânea, UFMG. Doutorado em
Educação, UFSC.
email: [email protected]
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explicações sobre a origem da vida, que para alguns era a água, o ar, o calor, a terra,
para outros, os números – ou apeíron, que em grego significa o indeterminado.
Com um enfoque mais antropológico sobre a existência, o velho Sócrates implementa a
idéia de parturição da boa idéia, ou seja, a crítica a partir da ignorância e das
contradições. O Ser da verdade é aquele que age pela verdade por tê-la conhecido.
Nesta linha de pensamento, os dois mais importantes filósofos depois de Sócrates
continuam no diálogo em torno desse Ser ainda indesvendável. Platão, com sua marca
“histórica” do dualismo, supervaloriza o Ser espiritual em detrimento da corporalidade.
Possivelmente para ele o que era e o que deveria ser considerado tinha como ápice o
espírito, uma vez que o corpo não passava de um cárcere, de uma prisão da alma. Para
Aristóteles havia uma unicidade do Ser. Morrer em Platão significava a morte do corpo, e
para Aristóteles o Ser morria como um todo, uma vez que não era uma duplicidade. A
partir da citação logo a seguir fica um pouco mais evidente a idéia de como se dava a
compreensão desse binômio, ainda no mundo grego.
A metafísica de Aristóteles reformula a noção de ser. Essa noção era
interpretada por Parmênides e pelos seguidores da escola eleática de
modo unívoco: no seu poema Sobre o ser Parmênides de Eléia (século
VI a.C.) afirmava que “o que é – é o que é”, concluindo que o ser era
necessariamente único, pois a multiplicidade significaria a admissão da
existência do Não-ser, o que seria absurdo e inadmissível (PESSANHA.
1978, p. XX).
Como se percebe, ao contrário de Parmênides, Heráclito se coloca radicalmente oposto a
esse pensamento, uma vez que todas as coisas estariam em um fluxo contínuo em um
eterno movimentar-se. Essa polêmica exercerá influências no pensamento dos demais
filósofos gregos, como de resto em toda filosofia.
Os atomistas (Leucipo e Demócrito) quebraram essa unicidade do ser
eleático quando afirmaram que tanto era ser o corpóreo (os átomos)
quanto o incorpóreo (o vazio). Mas a solução atomista permanecia no
plano da física e não atingira toda a dimensão da questão levantada pelo
eleatismo. Platão retoma o problema e, na fase final de sua obra
(particularmente no diálogo Sofista), considera o ser e o não-ser como
dois dos gêneros supremos dentro da hierarquia das idéias e o
importante é que Platão renova a noção de não-ser, entendendo-o não
como um nada ou como o vazio: o não-ser seria o outro, a alteridade.
Cada existente surge assim como um jogo, em variadas proporções, do
mesmo (o que ele é) como o outro (o que não é ele, os demais
existentes (id.ibid.).
A trama continua, ao mesmo tempo, que se transforma em um problema filosófico e
antropológico de um embate permanente entre o Ser e o não Ser, dá bases inclusive
para o campo religioso buscar suas possíveis explicações para a existência da
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transcendência. Daí o estagirita e peripatético Aristóteles, na tentativa de movimentar o
conhecimento, o faz na academia e nos bosques daquele tempo caminhando, e tem seu
ponto de vista diferente de seu mestre Platão.
Aristóteles não considera satisfatória a solução platônica. Para
fundamentar a ciência do mundo físico – mundo múltiplo e mutável –
seria preciso romper mais fundo com o eleatismo. Substitui, então, a
concepção unívoca de ser, que o considera de modo único e absoluto –
impedindo a compreensão racional do movimento e da multiplicidade –
pela concepção analógica: o ser seria análogo, isto é, dotado de
diferentes sentidos. Essas diversas acepções do ser poderiam, segundo
Aristóteles, ser classificadas, da maneira mais ampla, segundo várias
categorias. Assim, qualquer termo que designa algo que é, designa ou
uma substância (um ser) ou um acidente (um modo de ser); porém os
modos de ser são vários e os acidentes podem significar uma
quantidade, ou uma qualidade, ou uma relação (duplo, menor, pai e
filho), ou o onde, ou o quando ou ainda uma posição (sentado), ou um
estado (vestido, equipado), ou uma ação (escrever), ou então uma
paixão (estar doente) (id.ibid).
Dificilmente o debate sobre o Ser passará fora dessa matriz grega e na maioria das
vezes é dela oriundo. Com o passar do tempo ela continua na reflexão de importantes
filósofos como Agostinho e Tomás de Aquino. Este buscará resgatar os princípios
aristotélicos e os cristianiza, assim como fez Agostinho com o pensamento platônico.
Dado que o ser de todas as coisas (exceto Deus) é sempre um ser
criado, a criação, se é verdade de fé como início das coisas no tempo, é
além disso verdade demonstrada como produção das coisas do nada e
como derivação, de Deus, de todo o ser. De fato, e tal como vimos, Deus
é o único ser que é tal pela sua própria essência, isto é, que existe
necessariamente e por si mesmo: as outras coisas obtêm dele o seu ser,
por participação; tal como o ferro se torna ardente pelo fogo. Também a
matéria-prima é criada. E todas as coisas do mundo formam uma
hierarquia ordenada segundo a sua maior ou menor participação no ser
de Deus (ABBAGNANO, 1984, p. 37, v. 4).
Como se percebe, São Tomás parte dos princípios aristotélicos e afirma a existência de
um Ser supremo de onde são emanadas todas as coisas. Diferentemente de Agostinho
que tem como base principal a fé, ele acrescenta a racionalidade como também como um
dos pressupostos para explicar a existência de um Ser chamado Deus, sem com isso
desvalorizar a experiência da fé.
Dando alguns saltos podemos focar os tempos mais atuais e verificar outros autores que
também tiveram uma ampla preocupação com os diversos aspectos do Ser.
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Na contemporaneidade nos deparamos com Heidegger, que desenvolve um pensamento
que nos ajuda a pensar o Ser, o tempo e inúmeras questões sobre a existência. Desde a
sua concepção este Ser está inexoravelmente submetido à temporalidade. Já nascemos
como seres para a morte. Apresenta em sua filosofia da existência algumas
possibilidades em torno do existir. O SER pode ser autêntico ou inautêntico. A
autenticidade consiste em o Ser assumir sua condição inexorável para a morte ou a
angústia cotidiana como um Ser que vive e se engaja, mas que ao mesmo tempo é um
Dasein, um Ser aí para a morte: “a existência autêntica é, assim segundo, Heidegger, a
única que compreende claramente e realiza emotivamente a nulidade radical da
existência” (ABBAGNANO, 1984, p. 147). O inautêntico estará sempre fugindo desta
complexidade em sua existência. Negando Ser uma faticidade a própria vida, delegando
para um segundo momento a sua própria morte, ao mesmo tempo, que tenta negá-la,
considerando que seja sempre algo para o outro e nunca para si. O nada será, portanto,
como um véu para os existentes. Daí pode-se notar a dificuldade em se comparar o nada
em Heidegger e o nada em Sartre, pois, pensando sartrianamente a vida do Ser terá
como seu último momento as despedidas funerais, e ali terminaria tudo. Para Heidegger
vive-se em um processo de “nadificações” e o nada é um véu, e se é um véu é alguma
coisa. Enquanto que para Sartre a morte põe fim em tudo, em Heidegger permanece uma
incógnita já que o nada é o véu.
II - E aí podemos nos inquirir o que tem a ver com isso o educador Paulo Freire? Já na
epígrafe deste texto iniciamos com ele mesmo dizendo em Pedagogia da Esperança, o
que nos leva a pensar. “Não sou se você não é, não sou, sobretudo, se proíbo você de
ser!” (FREIRE, 1997, p. 100). Não posso viver a minha vida proibindo que o outro viva a
sua, mas, mais que isso. É na medida em que minha existência busca viabilizar,
sustentar, contribuir para que a existência do outro aconteça, é que realmente somos. O
estar no mundo freiriano é para além dos “quietismos” e completudes; é uma permanente
busca de Ser mais. Jamais o Ser será completo, estará terminado, um Ser utópico já
ainda não. Uma permanente inconclusão, uma metamorfose, daí uma ligação explícita de
Paulo Freire com os antigos filósofos e sua longa tradição quando afirma que “o mundo
não é, o mundo está sendo” e se assim o é, o Ser também não é, está Sendo e estar
Sendo é mais amplo que Ser, o que se nos parece algo estático. A esperança freiriana
nos revela um movimento para uma busca de Ser no Sendo das constantes
incompletudes do que ele denominou de “inédito viável”.
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São inúmeros os momentos em que Paulo Freire pratica uma filosofia da libertação. O
que não se dá meramente no campo filosófico educacional, mas na medida em que
assumimos os conflitos e incorporamos as diversidades do viver e do conviver. Buscava
afirmar o ser humano como em uma constante transitividade das consciências o que nos
reporta aos antigos filósofos que também realizavam um trânsito da consciência alienada
para uma consciência racional, filosófica na busca do arché.
Não é o resultado exclusivo da transitividade de sua consciência, que o
permite auto-objetivar-se e, a partir daí, reconhecer órbitas existenciais
diferentes, distinguir um “eu” e um “não eu”. A sua transcendência está
também, para nós, na raiz de sua finitude. Na consciência que tem desta
finitude. Do ser inacabado que é e cuja plenitude se acha na ligação com
seu Criador. Ligação que, pela própria essência, jamais será de
dominação ou de domesticação, mas sempre de libertação (FREIRE,
2000, p. 48).
A partir desta perspectiva ele dialogará, praticamente em todas as suas obras, a partir da
ótica de um Ser oprimido. Partindo desta perspectiva escreveu Pedagogia do oprimido e
não uma pedagogia para o oprimido. Preocupado com a existência humana verifica que a
relação de opressão se faz presente em todas as realidades humanas. Além de ser uma
questão social é também uma questão relacional. O mesmo Ser que oprime em
determinado momento pode ser oprimido em outra circunstância. O que ele buscava era,
sobretudo, que as pessoas se colocassem a caminho e construíssem um rompimento
com esse estado de injustiças e, num processo educativo, sobrepujasse por meio de uma
educação como uma prática libertadora, e não domesticadora.
E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem
recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem
idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos
opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a
grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos − libertar-se a si e aos
opressores. Estes que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu
poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos
nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos
será suficientemente forte para libertar a ambos (FREIRE, 2000, p. 30).
A preocupação de Paulo Freire, como se pode observar, vai na linha do Ser-Sendo, de
um engajamento constante na sociedade onde se está inserido. O Ser é o Ser da
consciência na existência. Para isso há a necessidade de que o Ser se conscientize, caia
na conta de que não vive só, mas é como um Ser planetário e que todas as suas ações,
sejam elas positivas ou negativas, afetam de algum modo alguém, em algum lugar, como
se fora o imperativo categórico kantiano. Compreendendo essa complexidade da vida,
faz-se necessário assumir também a “conflitividade” inerente ao individual e ao coletivo,
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já que não se vive senão em sociedade. Busca-se uma conectividade planetária. Para o
enfrentamento dessas situações e circunstâncias há de marcar um lugar, uma opção
política, o que fica claro em um diálogo de Paulo Freire com Edmardo Serafim.
Quando eu disse que só quem pode viabilizar os processos de
conscientização e libertação é a esquerda política me refiro a uma
esquerda que não se sectarizou, porque uma sectarizada ela se faz tão
reacionária quanto à direita. Lembra que na introdução da Pedagogia do
Oprimido eu critico os dois tipos de reacionalismos quando ambos
pretendem apoderar-se da história. O sectário da direita pretende fazer
do amanhã a repetição do hoje, enquanto o sectário de esquerda
pretende que o amanhã esteja já pré-estabelecido. Estes dois tipos de
reacionalismos não podem fazer conscientização. Assim, só o homem de
esquerda radical, que é o crítico, aquele que corresponde em sua
reflexão ao que se entrega a um filosofar constante, pode, de fato, ser
agente da conscientização (FREIRE, apud, Oliveira et.al., 1981, p. 7475).
Paulo Freire foi aos poucos se tornando um sujeito planetário e sua obra se expandiu aos
quatro cantos do mundo, ao mesmo tempo que sua existência foi se tornando referência
para inúmeros autores globais de renome internacional e, com eles escreveu seus
inúmeros livros. Apenas para ilustrar citamos algumas co-autorias: escreveu com Moacir
Gadotti, Sérgio Guimarães, Carlos Torres, Ira Shor, Adriano Nogueira, Frei Betto,
Donaldo Macedo, Pichón-Rivière, Faundez. Em um dos livros com textos diversos,
organizado pelo Gadotti e Torres, escreve com mais de 10 autores, dentre tantos se faz
presente Romão, Brandão, Wanderley, Gutiérrez e o companheiro Luiz Inácio Lula da
Silva (o Lula), além de tantos outros. A grande maioria com quem escrevia advinha de
áreas diversas do conhecimento e o mais relevante é já é perceptível o seu gosto pela
escrita coletiva.
O que é notável na obra de Paulo Freire é que, ao mesmo tempo em que
é nitidamente dirigida a educadores e alfabetizadores, continua a ser
vigorosamente empregada por docentes em inúmeras disciplinas: teoria
literária, composição, filosofia, etnografia, ciência política, sociologia,
pedagogia, teologia etc. Ele deu à palavra “educador” um novo
significado, flexionando o termo de modo a abraçar múltiplas
perspectivas: intelectual fronteiriço, ativista social, pesquisador crítico,
agente moral, filósofo radical, revolucionário político. Mais do que
qualquer outro educador deste século, Freire conseguiu desenvolver
uma pedagogia de resistência à opressão. Além disso, ele viveu aquilo
que ensinava. Sua vida foi uma história de coragem, padecimento,
perseverança e crença inquebrantável no poder do amor (MCLAREN,
1999, p. 21).
Como se pode observar quem confirma as idéias gerais levantadas neste texto é Peter
McLaren, um americano freirianista que escreveu utopias provisórias, atualmente é
professor da Universidade de Los Angeles.
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Ao mesmo tempo que é reconhecido como um dos mais importantes
filósofos da libertação e como um pioneiro da alfabetização crítica e da
pedagogia crítica, seu trabalho continua a ser assumido principalmente
por grupos marginais de educadores, que trabalham fora da corrente
educacional dominante (op.cit. p. 22).
Neste sentido, Paulo Freire pode ser considerado como um filósofo preocupado com que
os analfabetos aprendam para além da escrita a fazerem uma leitura de mundo. Colocase ao lado dos que ele mesmo chamou de “lascados do mundo” e assim se torna o
problematizador de uma existência atual e para o existir no futuro. A idéia de que os
filósofos sejam meramente pensadores da realidade não coaduna com a práxis freiriana,
que neste ponto se compatibiliza ao princípio marxista de que a tarefa filosófico-educativa
é a transformação do mundo. Ao construir suas obras o fez em meio aos inúmeros
desafios que vivia em seu tempo.
Para se ter uma idéia, visitamos recentemente o Campo de Concentração de Tarrafal, em
Cabo Verde, África, por ocasião do VII Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire.
Para se ter uma idéia, realizamos uma entrevista com o professor Pedro Rolando dos
Reis Martins, que esteve nas prisões na cidade da Praia, em Cabo Verde, e
posteriormente no Campo de Concentração de Tarrafal e escreveu Testemunho de um
combatente (1995). Ele nos relatou que Paulo Freire visitou aquele campo de
concentração e passara por lá na ocasião que apoiava os projetos de libertação em Cabo
Verde e Guiné Bissau. Contribuiu juntamente com os guineenses na construção de
projetos de alfabetização de adultos daquele povo que trazia no corpo a marca de uma
longa guerra e de muitas destruições. Foram inúmeros círculos de cultura ali
compartilhados. Naquele período como se pode confirmar pelas Cartas à Guiné Bissau,
(1977), houve um grande avanço no processo de alfabetização e de ‘gentificação’
daquele povo. Nos dias atuais não podemos dizer a mesma coisa, pois a situação política
e social daquele país ainda é muito crítica e sofreu alguns retrocessos e tiveram o seu
presidente assassinado.
Tinha grande apreço às idéias do líder africano Amílcar Cabral, que deu a própria vida
pela libertação de Guiné Bissau e Cabo Verde.
A luta de libertação, que é a expressão mais complexa do vigor cultural
do povo, de sua identidade e de sua dignidade, enriquece a cultura e lhe
abre novas perspectivas de desenvolvimento. As manifestações culturais
adquirem um conteúdo novo e novas formas de expressão. Tornam-se
assim um instrumento poderoso de informação e de formação política,
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não somente na luta pela independência mas ainda na batalha maior
pelo progresso. (CABRAL, apud FREIRE, p. 90, 1977).
Assim podemos perceber nas diversas incursões realizadas por Paulo Freire, o quanto o
seu pensamento estava ligado às questões filosóficas e sociais de seu tempo: “para
Gramsci, como para Freire, o indivíduo é importante, mas a sociedade está acima do
sujeito. O homem é um Ser social, é um Ser de relações e só pode realizar-se na
sociedade” (SOUZA, 2003, p. 187). Paulo Freire, na linha de Marx, vai afirmar que “no
princípio de tudo está a ação, mas, como agir, se o mundo não está as suas mãos; se ele
(o homem) não se torna responsável sobre ele” (op.cit. p. 188).
Já no final da vida, Freire lança um pequeno livro que desejava ver conhecido e lido pelos
professores e então solicita aos editores, que fosse construído em papel jornal e que
custasse $3,00 e assim se fez e o livro atinge um milhão de cópias. Estava lançada a
Pedagogia da autonomia (1997). Quando sua saúde já estava frágil, lá vem Paulo Freire
afirmando a importância da autonomia do existente. A existência só tem sentido se vivida
para a autonomia. O educando constrói junto com o educador a sua própria autonomia. O
método de Paulo Freire reafirma-se não como um método de ensino, tampouco de uma
aprendizagem qualquer, mas da aprendizagem significativa do Ser, de um Ser mais. A
educação que ele divulga e acredita é diferente dos processos de domesticação e
treinamento de pessoas. É uma educação para que o sujeito se mude e se torne
transitivo no seu jeito de Ser. Como ele mesmo afirmava “uma educação que procurava
desenvolver a tomada de consciência e a atitude crítica, graças à qual o ser humano
escolhe e decide, liberta-o em lugar de submetê-lo, de domesticá-lo, de adaptá-lo”
(FREIRE, 1980, p. 35).
Uma das características dos grandes filósofos era e ainda é o diálogo e para Freire, o
diálogo foi mais do que um instrumento da comunicação humana, constituindo-se em
verdadeira categoria de Razão Dialético-dialógica. Não há, realmente, uma obra freiriana
sequer, que não passe necessariamente por um processo dialógico; como há, em todas
elas, uma preocupação reiterativa com os menosprezados do mundo. Ele buscava,
incondicionalmente, escutar e colocar no palco da história o sujeito oprimido dialogal, não
para se manter oprimido, mas para romper com os processos de opressão. Favorecia
inarredavelmente o trânsito das consciências, da ingenuidade para a consciência crítica,
sem que isso se tornasse uma violência para os existentes aprendentes, afinal, “o mundo
não é, mas está sendo”...
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