“O MUNDO NÃO É, O MUNDO ESTÁ SENDO”: PAULO FREIRE UM EDUCADOR E FILÓSOFO DE UMA EXISTÊNCIA ENGAJADA 1 Edgar Pereira Coelho – Autor – (Professor de Filosofia no Departamento de Educação UFV.) 2 Marcelo Loures dos Santos – Co-autor – (Professor de Psicologia no Departamento de Educação da UFV.) 3 Willer Araujo Barbosa – Co-autor – (Professor de Filosofia no Departamento de Educação UFV.) Resumo: Este texto visa problematizar alguns aspectos filosóficos do debate em torno das questões do SER e da EXISTÊNCIA, experienciados por inúmeros filósofos e educadores, desde a tradição grega, percorrendo os lampejos dos períodos antigo, medieval e contemporâneo. Apresenta uma discussão sem uma pretensão conclusiva em torno do Ser e do Sendo, buscando compreender os diversos olhares, em favor de um debate tão antigo e ao mesmo tempo contemporâneo. Em um segundo momento explicita a práxis freiriana, que inclui e problematiza filosoficamente a antiga questão no processo educacional mundial. Palavras-Chave: Ser, Existência, Libertação. J á nos primórdios da filosofia antiga grega, havia grandes debates sobre as idéias filosóficas em torno do Ser e do não Ser, o que perdura até hoje sem soluções definitivas, mas com um elevado interesse dialógico entre as pessoas. Dentre os representantes de modos diferentes de pensar, destacam-se Heráclito e Parmênides. Para o primeiro tudo estava em constante devir, numa permanente metamorfose; para o segundo tal afirmação não era possível, pois afirmava que o “Ser é e o não Ser não é”. A partir desse embate se discute o princípio de identidade e se abre a questão para os filósofos vindouros. De lá para cá muitas águas passaram debaixo da ponte, inúmeros outros levantaram questões semelhantes, como é o caso de Shakespeare “ser ou não ser, eis a questão”. Heidegger desenvolveu longo pensamento sobre o Ser e o tempo e tantos outros na história da filosofia se debruçaram sobre esta temática. Os Pré-Socráticos, de um modo geral, filósofos cosmológicos, buscavam encontrar a origem material de todas as coisas. Era um primeiro esforço de saída de uma visão meramente mítica para algo mais racional e filosófico. De algum modo buscavam 1 Graduação em Filosofia, PUCMG. (Diplomado em Educação UAU-Chile. Mestrado em Filosofia, UFJF. Doutorado em Educação/Filosofia da Edcuação, USP. email: [email protected] 2 Graduação em Psicologia, UFMG. Mestrado em Psicologia Social, USP. Doutorado em Psicologia, PUCCAMP. email: [email protected] 3 Graduação em Filosofia, UFMG. Especialização em Filosofia Contemporânea, UFMG. Doutorado em Educação, UFSC. email: [email protected] “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 COELHO, Edgar Pereira; BARBOSA, Willer Araujo; SANTOS, Marcelo Loures dos -2- explicações sobre a origem da vida, que para alguns era a água, o ar, o calor, a terra, para outros, os números – ou apeíron, que em grego significa o indeterminado. Com um enfoque mais antropológico sobre a existência, o velho Sócrates implementa a idéia de parturição da boa idéia, ou seja, a crítica a partir da ignorância e das contradições. O Ser da verdade é aquele que age pela verdade por tê-la conhecido. Nesta linha de pensamento, os dois mais importantes filósofos depois de Sócrates continuam no diálogo em torno desse Ser ainda indesvendável. Platão, com sua marca “histórica” do dualismo, supervaloriza o Ser espiritual em detrimento da corporalidade. Possivelmente para ele o que era e o que deveria ser considerado tinha como ápice o espírito, uma vez que o corpo não passava de um cárcere, de uma prisão da alma. Para Aristóteles havia uma unicidade do Ser. Morrer em Platão significava a morte do corpo, e para Aristóteles o Ser morria como um todo, uma vez que não era uma duplicidade. A partir da citação logo a seguir fica um pouco mais evidente a idéia de como se dava a compreensão desse binômio, ainda no mundo grego. A metafísica de Aristóteles reformula a noção de ser. Essa noção era interpretada por Parmênides e pelos seguidores da escola eleática de modo unívoco: no seu poema Sobre o ser Parmênides de Eléia (século VI a.C.) afirmava que “o que é – é o que é”, concluindo que o ser era necessariamente único, pois a multiplicidade significaria a admissão da existência do Não-ser, o que seria absurdo e inadmissível (PESSANHA. 1978, p. XX). Como se percebe, ao contrário de Parmênides, Heráclito se coloca radicalmente oposto a esse pensamento, uma vez que todas as coisas estariam em um fluxo contínuo em um eterno movimentar-se. Essa polêmica exercerá influências no pensamento dos demais filósofos gregos, como de resto em toda filosofia. Os atomistas (Leucipo e Demócrito) quebraram essa unicidade do ser eleático quando afirmaram que tanto era ser o corpóreo (os átomos) quanto o incorpóreo (o vazio). Mas a solução atomista permanecia no plano da física e não atingira toda a dimensão da questão levantada pelo eleatismo. Platão retoma o problema e, na fase final de sua obra (particularmente no diálogo Sofista), considera o ser e o não-ser como dois dos gêneros supremos dentro da hierarquia das idéias e o importante é que Platão renova a noção de não-ser, entendendo-o não como um nada ou como o vazio: o não-ser seria o outro, a alteridade. Cada existente surge assim como um jogo, em variadas proporções, do mesmo (o que ele é) como o outro (o que não é ele, os demais existentes (id.ibid.). A trama continua, ao mesmo tempo, que se transforma em um problema filosófico e antropológico de um embate permanente entre o Ser e o não Ser, dá bases inclusive para o campo religioso buscar suas possíveis explicações para a existência da “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 “O MUNDO NÃO É, O MUNDO ESTÁ SENDO”: PAULO FREIRE UM EDUCADOR E FILÓSOFO DE UMA EXISTÊNCIA ENGAJADA -3- transcendência. Daí o estagirita e peripatético Aristóteles, na tentativa de movimentar o conhecimento, o faz na academia e nos bosques daquele tempo caminhando, e tem seu ponto de vista diferente de seu mestre Platão. Aristóteles não considera satisfatória a solução platônica. Para fundamentar a ciência do mundo físico – mundo múltiplo e mutável – seria preciso romper mais fundo com o eleatismo. Substitui, então, a concepção unívoca de ser, que o considera de modo único e absoluto – impedindo a compreensão racional do movimento e da multiplicidade – pela concepção analógica: o ser seria análogo, isto é, dotado de diferentes sentidos. Essas diversas acepções do ser poderiam, segundo Aristóteles, ser classificadas, da maneira mais ampla, segundo várias categorias. Assim, qualquer termo que designa algo que é, designa ou uma substância (um ser) ou um acidente (um modo de ser); porém os modos de ser são vários e os acidentes podem significar uma quantidade, ou uma qualidade, ou uma relação (duplo, menor, pai e filho), ou o onde, ou o quando ou ainda uma posição (sentado), ou um estado (vestido, equipado), ou uma ação (escrever), ou então uma paixão (estar doente) (id.ibid). Dificilmente o debate sobre o Ser passará fora dessa matriz grega e na maioria das vezes é dela oriundo. Com o passar do tempo ela continua na reflexão de importantes filósofos como Agostinho e Tomás de Aquino. Este buscará resgatar os princípios aristotélicos e os cristianiza, assim como fez Agostinho com o pensamento platônico. Dado que o ser de todas as coisas (exceto Deus) é sempre um ser criado, a criação, se é verdade de fé como início das coisas no tempo, é além disso verdade demonstrada como produção das coisas do nada e como derivação, de Deus, de todo o ser. De fato, e tal como vimos, Deus é o único ser que é tal pela sua própria essência, isto é, que existe necessariamente e por si mesmo: as outras coisas obtêm dele o seu ser, por participação; tal como o ferro se torna ardente pelo fogo. Também a matéria-prima é criada. E todas as coisas do mundo formam uma hierarquia ordenada segundo a sua maior ou menor participação no ser de Deus (ABBAGNANO, 1984, p. 37, v. 4). Como se percebe, São Tomás parte dos princípios aristotélicos e afirma a existência de um Ser supremo de onde são emanadas todas as coisas. Diferentemente de Agostinho que tem como base principal a fé, ele acrescenta a racionalidade como também como um dos pressupostos para explicar a existência de um Ser chamado Deus, sem com isso desvalorizar a experiência da fé. Dando alguns saltos podemos focar os tempos mais atuais e verificar outros autores que também tiveram uma ampla preocupação com os diversos aspectos do Ser. “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 COELHO, Edgar Pereira; BARBOSA, Willer Araujo; SANTOS, Marcelo Loures dos -4- Na contemporaneidade nos deparamos com Heidegger, que desenvolve um pensamento que nos ajuda a pensar o Ser, o tempo e inúmeras questões sobre a existência. Desde a sua concepção este Ser está inexoravelmente submetido à temporalidade. Já nascemos como seres para a morte. Apresenta em sua filosofia da existência algumas possibilidades em torno do existir. O SER pode ser autêntico ou inautêntico. A autenticidade consiste em o Ser assumir sua condição inexorável para a morte ou a angústia cotidiana como um Ser que vive e se engaja, mas que ao mesmo tempo é um Dasein, um Ser aí para a morte: “a existência autêntica é, assim segundo, Heidegger, a única que compreende claramente e realiza emotivamente a nulidade radical da existência” (ABBAGNANO, 1984, p. 147). O inautêntico estará sempre fugindo desta complexidade em sua existência. Negando Ser uma faticidade a própria vida, delegando para um segundo momento a sua própria morte, ao mesmo tempo, que tenta negá-la, considerando que seja sempre algo para o outro e nunca para si. O nada será, portanto, como um véu para os existentes. Daí pode-se notar a dificuldade em se comparar o nada em Heidegger e o nada em Sartre, pois, pensando sartrianamente a vida do Ser terá como seu último momento as despedidas funerais, e ali terminaria tudo. Para Heidegger vive-se em um processo de “nadificações” e o nada é um véu, e se é um véu é alguma coisa. Enquanto que para Sartre a morte põe fim em tudo, em Heidegger permanece uma incógnita já que o nada é o véu. II - E aí podemos nos inquirir o que tem a ver com isso o educador Paulo Freire? Já na epígrafe deste texto iniciamos com ele mesmo dizendo em Pedagogia da Esperança, o que nos leva a pensar. “Não sou se você não é, não sou, sobretudo, se proíbo você de ser!” (FREIRE, 1997, p. 100). Não posso viver a minha vida proibindo que o outro viva a sua, mas, mais que isso. É na medida em que minha existência busca viabilizar, sustentar, contribuir para que a existência do outro aconteça, é que realmente somos. O estar no mundo freiriano é para além dos “quietismos” e completudes; é uma permanente busca de Ser mais. Jamais o Ser será completo, estará terminado, um Ser utópico já ainda não. Uma permanente inconclusão, uma metamorfose, daí uma ligação explícita de Paulo Freire com os antigos filósofos e sua longa tradição quando afirma que “o mundo não é, o mundo está sendo” e se assim o é, o Ser também não é, está Sendo e estar Sendo é mais amplo que Ser, o que se nos parece algo estático. A esperança freiriana nos revela um movimento para uma busca de Ser no Sendo das constantes incompletudes do que ele denominou de “inédito viável”. “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 “O MUNDO NÃO É, O MUNDO ESTÁ SENDO”: PAULO FREIRE UM EDUCADOR E FILÓSOFO DE UMA EXISTÊNCIA ENGAJADA -5- São inúmeros os momentos em que Paulo Freire pratica uma filosofia da libertação. O que não se dá meramente no campo filosófico educacional, mas na medida em que assumimos os conflitos e incorporamos as diversidades do viver e do conviver. Buscava afirmar o ser humano como em uma constante transitividade das consciências o que nos reporta aos antigos filósofos que também realizavam um trânsito da consciência alienada para uma consciência racional, filosófica na busca do arché. Não é o resultado exclusivo da transitividade de sua consciência, que o permite auto-objetivar-se e, a partir daí, reconhecer órbitas existenciais diferentes, distinguir um “eu” e um “não eu”. A sua transcendência está também, para nós, na raiz de sua finitude. Na consciência que tem desta finitude. Do ser inacabado que é e cuja plenitude se acha na ligação com seu Criador. Ligação que, pela própria essência, jamais será de dominação ou de domesticação, mas sempre de libertação (FREIRE, 2000, p. 48). A partir desta perspectiva ele dialogará, praticamente em todas as suas obras, a partir da ótica de um Ser oprimido. Partindo desta perspectiva escreveu Pedagogia do oprimido e não uma pedagogia para o oprimido. Preocupado com a existência humana verifica que a relação de opressão se faz presente em todas as realidades humanas. Além de ser uma questão social é também uma questão relacional. O mesmo Ser que oprime em determinado momento pode ser oprimido em outra circunstância. O que ele buscava era, sobretudo, que as pessoas se colocassem a caminho e construíssem um rompimento com esse estado de injustiças e, num processo educativo, sobrepujasse por meio de uma educação como uma prática libertadora, e não domesticadora. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos − libertar-se a si e aos opressores. Estes que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos (FREIRE, 2000, p. 30). A preocupação de Paulo Freire, como se pode observar, vai na linha do Ser-Sendo, de um engajamento constante na sociedade onde se está inserido. O Ser é o Ser da consciência na existência. Para isso há a necessidade de que o Ser se conscientize, caia na conta de que não vive só, mas é como um Ser planetário e que todas as suas ações, sejam elas positivas ou negativas, afetam de algum modo alguém, em algum lugar, como se fora o imperativo categórico kantiano. Compreendendo essa complexidade da vida, faz-se necessário assumir também a “conflitividade” inerente ao individual e ao coletivo, “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 COELHO, Edgar Pereira; BARBOSA, Willer Araujo; SANTOS, Marcelo Loures dos -6- já que não se vive senão em sociedade. Busca-se uma conectividade planetária. Para o enfrentamento dessas situações e circunstâncias há de marcar um lugar, uma opção política, o que fica claro em um diálogo de Paulo Freire com Edmardo Serafim. Quando eu disse que só quem pode viabilizar os processos de conscientização e libertação é a esquerda política me refiro a uma esquerda que não se sectarizou, porque uma sectarizada ela se faz tão reacionária quanto à direita. Lembra que na introdução da Pedagogia do Oprimido eu critico os dois tipos de reacionalismos quando ambos pretendem apoderar-se da história. O sectário da direita pretende fazer do amanhã a repetição do hoje, enquanto o sectário de esquerda pretende que o amanhã esteja já pré-estabelecido. Estes dois tipos de reacionalismos não podem fazer conscientização. Assim, só o homem de esquerda radical, que é o crítico, aquele que corresponde em sua reflexão ao que se entrega a um filosofar constante, pode, de fato, ser agente da conscientização (FREIRE, apud, Oliveira et.al., 1981, p. 7475). Paulo Freire foi aos poucos se tornando um sujeito planetário e sua obra se expandiu aos quatro cantos do mundo, ao mesmo tempo que sua existência foi se tornando referência para inúmeros autores globais de renome internacional e, com eles escreveu seus inúmeros livros. Apenas para ilustrar citamos algumas co-autorias: escreveu com Moacir Gadotti, Sérgio Guimarães, Carlos Torres, Ira Shor, Adriano Nogueira, Frei Betto, Donaldo Macedo, Pichón-Rivière, Faundez. Em um dos livros com textos diversos, organizado pelo Gadotti e Torres, escreve com mais de 10 autores, dentre tantos se faz presente Romão, Brandão, Wanderley, Gutiérrez e o companheiro Luiz Inácio Lula da Silva (o Lula), além de tantos outros. A grande maioria com quem escrevia advinha de áreas diversas do conhecimento e o mais relevante é já é perceptível o seu gosto pela escrita coletiva. O que é notável na obra de Paulo Freire é que, ao mesmo tempo em que é nitidamente dirigida a educadores e alfabetizadores, continua a ser vigorosamente empregada por docentes em inúmeras disciplinas: teoria literária, composição, filosofia, etnografia, ciência política, sociologia, pedagogia, teologia etc. Ele deu à palavra “educador” um novo significado, flexionando o termo de modo a abraçar múltiplas perspectivas: intelectual fronteiriço, ativista social, pesquisador crítico, agente moral, filósofo radical, revolucionário político. Mais do que qualquer outro educador deste século, Freire conseguiu desenvolver uma pedagogia de resistência à opressão. Além disso, ele viveu aquilo que ensinava. Sua vida foi uma história de coragem, padecimento, perseverança e crença inquebrantável no poder do amor (MCLAREN, 1999, p. 21). Como se pode observar quem confirma as idéias gerais levantadas neste texto é Peter McLaren, um americano freirianista que escreveu utopias provisórias, atualmente é professor da Universidade de Los Angeles. “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 “O MUNDO NÃO É, O MUNDO ESTÁ SENDO”: PAULO FREIRE UM EDUCADOR E FILÓSOFO DE UMA EXISTÊNCIA ENGAJADA -7- Ao mesmo tempo que é reconhecido como um dos mais importantes filósofos da libertação e como um pioneiro da alfabetização crítica e da pedagogia crítica, seu trabalho continua a ser assumido principalmente por grupos marginais de educadores, que trabalham fora da corrente educacional dominante (op.cit. p. 22). Neste sentido, Paulo Freire pode ser considerado como um filósofo preocupado com que os analfabetos aprendam para além da escrita a fazerem uma leitura de mundo. Colocase ao lado dos que ele mesmo chamou de “lascados do mundo” e assim se torna o problematizador de uma existência atual e para o existir no futuro. A idéia de que os filósofos sejam meramente pensadores da realidade não coaduna com a práxis freiriana, que neste ponto se compatibiliza ao princípio marxista de que a tarefa filosófico-educativa é a transformação do mundo. Ao construir suas obras o fez em meio aos inúmeros desafios que vivia em seu tempo. Para se ter uma idéia, visitamos recentemente o Campo de Concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, África, por ocasião do VII Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire. Para se ter uma idéia, realizamos uma entrevista com o professor Pedro Rolando dos Reis Martins, que esteve nas prisões na cidade da Praia, em Cabo Verde, e posteriormente no Campo de Concentração de Tarrafal e escreveu Testemunho de um combatente (1995). Ele nos relatou que Paulo Freire visitou aquele campo de concentração e passara por lá na ocasião que apoiava os projetos de libertação em Cabo Verde e Guiné Bissau. Contribuiu juntamente com os guineenses na construção de projetos de alfabetização de adultos daquele povo que trazia no corpo a marca de uma longa guerra e de muitas destruições. Foram inúmeros círculos de cultura ali compartilhados. Naquele período como se pode confirmar pelas Cartas à Guiné Bissau, (1977), houve um grande avanço no processo de alfabetização e de ‘gentificação’ daquele povo. Nos dias atuais não podemos dizer a mesma coisa, pois a situação política e social daquele país ainda é muito crítica e sofreu alguns retrocessos e tiveram o seu presidente assassinado. Tinha grande apreço às idéias do líder africano Amílcar Cabral, que deu a própria vida pela libertação de Guiné Bissau e Cabo Verde. A luta de libertação, que é a expressão mais complexa do vigor cultural do povo, de sua identidade e de sua dignidade, enriquece a cultura e lhe abre novas perspectivas de desenvolvimento. As manifestações culturais adquirem um conteúdo novo e novas formas de expressão. Tornam-se assim um instrumento poderoso de informação e de formação política, “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 COELHO, Edgar Pereira; BARBOSA, Willer Araujo; SANTOS, Marcelo Loures dos -8- não somente na luta pela independência mas ainda na batalha maior pelo progresso. (CABRAL, apud FREIRE, p. 90, 1977). Assim podemos perceber nas diversas incursões realizadas por Paulo Freire, o quanto o seu pensamento estava ligado às questões filosóficas e sociais de seu tempo: “para Gramsci, como para Freire, o indivíduo é importante, mas a sociedade está acima do sujeito. O homem é um Ser social, é um Ser de relações e só pode realizar-se na sociedade” (SOUZA, 2003, p. 187). Paulo Freire, na linha de Marx, vai afirmar que “no princípio de tudo está a ação, mas, como agir, se o mundo não está as suas mãos; se ele (o homem) não se torna responsável sobre ele” (op.cit. p. 188). Já no final da vida, Freire lança um pequeno livro que desejava ver conhecido e lido pelos professores e então solicita aos editores, que fosse construído em papel jornal e que custasse $3,00 e assim se fez e o livro atinge um milhão de cópias. Estava lançada a Pedagogia da autonomia (1997). Quando sua saúde já estava frágil, lá vem Paulo Freire afirmando a importância da autonomia do existente. A existência só tem sentido se vivida para a autonomia. O educando constrói junto com o educador a sua própria autonomia. O método de Paulo Freire reafirma-se não como um método de ensino, tampouco de uma aprendizagem qualquer, mas da aprendizagem significativa do Ser, de um Ser mais. A educação que ele divulga e acredita é diferente dos processos de domesticação e treinamento de pessoas. É uma educação para que o sujeito se mude e se torne transitivo no seu jeito de Ser. Como ele mesmo afirmava “uma educação que procurava desenvolver a tomada de consciência e a atitude crítica, graças à qual o ser humano escolhe e decide, liberta-o em lugar de submetê-lo, de domesticá-lo, de adaptá-lo” (FREIRE, 1980, p. 35). Uma das características dos grandes filósofos era e ainda é o diálogo e para Freire, o diálogo foi mais do que um instrumento da comunicação humana, constituindo-se em verdadeira categoria de Razão Dialético-dialógica. Não há, realmente, uma obra freiriana sequer, que não passe necessariamente por um processo dialógico; como há, em todas elas, uma preocupação reiterativa com os menosprezados do mundo. Ele buscava, incondicionalmente, escutar e colocar no palco da história o sujeito oprimido dialogal, não para se manter oprimido, mas para romper com os processos de opressão. Favorecia inarredavelmente o trânsito das consciências, da ingenuidade para a consciência crítica, sem que isso se tornasse uma violência para os existentes aprendentes, afinal, “o mundo não é, mas está sendo”... “Existência e Arte” - Revista Eletrônica do Grupo PET – Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano V – Número V – Janeiro a Dezembro de 2010 “O MUNDO NÃO É, O MUNDO ESTÁ SENDO”: PAULO FREIRE UM EDUCADOR E FILÓSOFO DE UMA EXISTÊNCIA ENGAJADA -9- Referências: ABBAGNANNO, Nicola. História da filosofia. Lisboa: Presença, 1984. COELHO, Edgar Pereira. Cartas de Paulo freire: o diálogo como caminho e pedagogia. São Paulo: USP, tese de doutorado, 2005. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1998. ______. A Educação na Cidade. 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