1 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Subcomissão dos Municípios e Regiões ATA DA 1ª REUNIÃO ORDINÁRIA Às dez horas e cinqüenta e cinco minutos do dia sete de abril de mil novecentos e oitenta e sete, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na Sala B-3 do Anexo II da Câmara dos Deputados, em Brasília, D.F., para proceder à eleição do Presidente e dos VicePresidentes . Compareceram os seguintes Senhores Constituintes: Waldeck Ornelas, Eraldo Trindade, Luiz Alberto Rodrigues, José Dutra, Sérgio Brito, Mello Reis, Ivo Cersósimo, Geraldo Melo, Luiz Freire, Aloysio Chaves, Lavoisier Maia, Mauro Miranda e Denisar Arneiro. Assinaram ainda o livro de presença os Senhores Constituintes Raimundo Rezende e Raul Ferraz, suplentes. Assumiu a presidência, nos termos regimentais, o Constituinte Lavoisier Maia. Constatada a existência de quorum, foi declarada aberta a reunião. Em seguida, o Sr. Presidente determinou fosse feita a chamada dos presentes. Após terem sido anunciados os nomes dos candidatos, passou-se à eleição, havendo o Sr. Presidente em exercício convidado os Srs. Constituintes Ivo Cersósimo e Eraldo Trindade para servirem como escrutinadores. Aberta a urna, foram encontradas 13 (treze) sobrecartas, coincidindo com o número das assinaturas, tendo sido eleitos: Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, com 13 (treze) votos; Primeiro VicePresidente, Constituinte Mauro Miranda, com 12 (doze) votos favoráveis e 1 (um) voto nulo; Segundo Vice-Presidente, Constituinte José Dutra, com 13 (treze) votos. Após anunciar os nomes dos eleitos, o Sr. Presidente convidou-os a tomarem assento à mesa. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, usou da palavra para agradecer a indicação do seu nome para a presidência da Subcomissão. Designou Relator o Constituinte Aloysio Chaves e, a seguir, colocouse à disposição de seus pares, comprometendose a honrar a confiança nele depositada, declarando-se aberto a crítica e sugestões, que venham enriquecer os trabalhos. Em seguida. concedeu a palavra a quem dela quisesse fazer uso. Falaram os seguintes Srs. Constituintes; José Dutra, que agradeceu a sua eleição para a Segunda Vice-Presidência; Eraldo Trindade, que manifestou sua satisfação em pertencer a esta Subcomissão; Mauro Miranda, agradecendo a eleição para a Primeira Vice-Presidência, fez suas as palavras dos oradores que o antecederam; Ivo Cersósimo, ressaltando a ativa participação do Sr. Presidente, Luiz Alberto Rodrigues, na luta municipalista, parabenizou a Subcomissão por tê-lo na direção dos seus trabalhos; Denisar Arneiro, que enfatizou a importância desta Subcomissão, na qual está concentrada a esperança dos municípios brasileiros; Lavoisier Maia, declarando-se um representante do Nordeste, disse que a tônica da sua atuação seria a favor de sua região, tão discriminada; Luiz Freire externou sua preocupação no sentido de se evitar conflito de competência entre esta Subcomissão e outras, especificamente na área de tributação; Waldeck Ornelas externou a esperança de que fosse resgatada a autonomia dos municípios, através da nova Carta Constitucional; Geraldo Melo destacou a complexidade da Subcomissão face ao grande número de municípios brasileiros, lembrando a necessidade de um contato direto com prefeitos e vereadores. Com a palavra, o Constituinte Aloysio Chaves agradeceu sua designação para Relator da Subcomissão, declarando-se de espírito aberto para receber sugestões. Finalizando, o Sr. Presidente solicitou a colaboração de todos, quer na participação efetiva às reuniões, quer na apresentação de sugestões e subsídios. O Constituinte Eraldo Trindade sugeriu a elaboração de um documento comunicando a instalação deste órgão aos interes- sados em colaborar com o mesmo. O Sr. Presidente propôs fosse o assunto discutido na próxima reunião, o que foi aprovado por unanimidade. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a presente reunião, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. Para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. ANEXO À ATA DA 1ª REUNIÃO DA SUBCOMISSÃO DOS MUNICÍ PIOS E REGIÕES, REALIZADA EM 7-4-87 E PUBLICADA NO SUPLEMENTO AO DANC Nº 53, DE 1-5-87 O SR. PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – Fui incumbido de presidir a Subcomissão dos Municípios e Regiões, talvez por ser o mais velho, o que faço com muita honra. Inicialmente, verificarei se há quorum para deliberação. São vinte e um membros efetivos que integram esta Subcomissão. Presentes doze Srs. Constituintes, há número legal para começarmos a reunião e para deliberação. Peço à secretária que proceda à chamada dos presentes. (Procede-se à chamada) O SR PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – O número registrado para esta Subcomissão é de vinte Srs. Constituintes, mas acho que deveria ser de vinte e um, porque a Comissão de que ela faz parte é integrada por um número efetivo de sessenta e três membros, que, dividido por três dá vinte e um. Vamos passar então, à Ordem do Dia: eleição do Presidente e dos Vice-Presidentes. Antes disso, porém, vamos anunciar o nome dos candidatos apresentados – não sei se democraticamente, mas estam os numa democracia. Tenho à minha frente o nome dos candidatos. Desconheço o critério de apresentação desses nomes. Há algum Sr. Constituinte que o conheça? O candidato a Presidente é o Constituinte Luiz Alberto Rodrigues; para Primeiro-Vice, Mauro Miranda e, para Segundo-Vice, José Dutra. Há outros Srs. Constituintes que desejam ser candidatos a Presidente ou a Primeiro ou a Segundo-Vice? Se houver que se apresente, porque estamos num regime democrático e queremos fazer e vontade da maioria. Submeto à votação. Concedo a palavra ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Houve um acordo entre as Lideranças do PMDB e do PFL no sentido de garantir ao PFL a relatoria desta Subcomissão, e ao PMDB a Presidência, a Primeiro e a Segundo-Vice. Fui surpreendido no domingo com um telefonema do Senador Mário Covas, consultando-me se eu aceitaria disputar a Segunda Vice-Presidência. Creio que aconteceu o mesmo como os demais colegas. Parece-me que a apresentação chapa resulta de um entendimento entre os partidos. O SR. PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – Muito obrigado, Constituinte José Dutra. A explicação do que foi previamente estabelecido pelo acordo de Liderança foi dada, mas como estamos numa democracia plena... O SR. CONSTITUINTE ALOYSIO CHAVES: – Pela ordem, Sr. Presidente. O SR PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – Concedo a palavra a V. Ex.ª. O SR. CONSTITUINTE ALOYSIO CHAVES: – V. Ex.ª, Sr. Presidente, já consultou democraticamente a Subcomissão a esse respeito. Nosso ilustre colega José Dutra já deu uma aplicação que já é do conhecimento geral de todos. Há esse acordo. É fato público e notório já divulgado e noticiado. Um silêncio se seguiu à consulta de V. Ex.ª, portanto, não houve discrepância a esse respeito. Precisamos iniciar e desenvolver nossos trabalhos com presteza, para recuperar o tempo perdido. De sorte que, se não houver objeção, os colegas, honrando os compromissos partidários, poderão sufragar os nomes que forem indicados. O SR. PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – A colocação do Constituinte Aloysio Chaves é cabível, mas na condição de Presidente, tinha de levantar essas questões. Vamos passar à eleição, distribuindo as cédulas e convidando mais dois Srs. Constituintes para escrutinadores. O Sr. Constituinte José Dutra por exemplo. O SR. CONSTI TUINTE JOSÉ DUTRA: – Sou candidato. O SR. PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – Convido então os Constituintes lvo Cersósimo e Eraldo Trindade para escrutinadores. A Sra. Secretária procederá à chamada dos Srs. Constituintes, para iniciarmos a votação. (Processo de votação.) O SR PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – Será aberta a urna e contadas as cédulas. (pausa) Há 13 cédulas. Vamos iniciar a apuração. (Processo de apuração.) O SR. PRESIDENTE (Lavoisier Maia): – Vou proclamar o resultado da apuração: Para Presidente, Luiz Alberto Rodrigues: 13 votos. Para Primeiro-Vice-Presidente, Mauro Miranda: 12 votos. Para Segundo-Vice-Presidente, José Dutra,13 votos. Cumpri a minha missão. Agradeço aos escrutinadores e convido o Presidente eleito para presidir a reunião e o primeiro e o segundo VicePresidentes para tomarem assento à mesa. (Assume a Presidência o Constituinte Luiz Alberto Rodrigues.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A proclamação do resultado Já foi feita pelo Presidente anterior. No caso, já estamos empossados. Gostaria, inicialmente, de esclarecer aos companheiros de bancada e aos da Subcomissão de Municípios e Regiões que, na administração desse episódio, nesse trabalho interno e também de entendimento com os outros partidos, nosso nome foi honrado com a indicação para Presidente dessa Subcomissão. Agora, então, homologado por todos os membros, seguramente nos responsabiliza a, todos nós, os eleitos – Presidente e Vice-Presidentes. Estaremos trabalhando para honrar a confiança depositada, sempre aberto a receber as contribuições, as críticas e ajudas necessárias. Entenda como dizia o nobre Constituinte Luiz Freire, já estamos cansados de votar. É hora Portanto, de começar a trabalhar, no sentido de elaborar a Constituição. Queria solicitar aos Constituintes que ao se manifestarem, o façam sempre no microfone, porque temos um sistema de gravação que garantirá a fidelidade na transcrição da Ata desta reunião e de nossos trabalhos posteriores. Por outro lado, cumprindo o entendimento interpartidário das lideranças, compete ao Presidente designar o Relator desta Subcomissão, que, no caso, cabe ao Constituinte Aloysio Chaves, do PFL Fica, portanto, S. Ex.ª designado Relator. Gostaria de reafirmar o convite, para a convocação do Presidente da Comissão de Organização de Estado, o Constituinte José Thomaz Nonô, para que amanhã, às 10 horas, venhamos a nos reunir na sala própria, aqui ao lado, para ser feito um roteiro de trabalho da nossa Subcomissão como um todo. Está chegando uma outra informação à presidência, de que o Presidente da Comissão de Organização do Estado está convocando a Mesa desta Subcomissão para uma reunião, hoje, às 16 horas naquela Comissão. Queria convidar o Relator para também fazer parte da nossa Mesa. Repetindo: hoje à tarde haverá reunião com o relator, presidente e vice-presidentes desta Subcomissão, com o presidente da Comissão de Organização do Estado; amanhã, às 10 horas, na Comissão de Organização do Estado, também haverá reunião de todos os membros para o início dos trabalhos. Pergunto se algum Constituinte quer fazer uso da palavra (Pausa.) Com a palavra o Vice-Presidente José Dutra. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Gostaria de usar a palavra, neste momento apenas para agradecer aos Constituintes integrantes desta Subcomissão por haverem, como conseqüência de um acordo de liderança, sufragado meu nome para sua 2ª Vice-Presidência. Desejo também que me empenharei ao máximo no sentido de que esta Comissão possa desenvolver seu trabalho dentro do maior espírito democrático, porque me parece que agora está em Jogo não os interesses partidários, mas os interesses da Nação. É nesse sentido que todos devemos nos empenhar, para que possamos, ao término de nossos trabalhos, oferecer algo que represente o esforço todos aqueles que integram esta Subcomissão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Eraldo Trindade. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Gostaria, nesta ocasião, de parabenizar os presidentes eleitos e dizer que, na condição de representante do Território Federal do Amapá, me sinto satisfeito em fazer parte desta Subcomissão, porque trarei muitas propostas dos Municípios do nosso Território. Folgo em saber que o posicionamento do Vice-Presidente José Dutra é no sentido de que se faça um trabalho suprapartidário, no qual confio. Embora já tenha ouvido nos corredores da Câmera dos Deputados que as bancadas dos grandes Estados – aliás, já não me surpreende, porque ainda há pouco lembrava uma frase dita pelo Constituinte do Estado do Pará, Gerson Peres, que "em política só não se viu ainda boi voar", na realidade, muita coisa tenho visto nesta Casa que me tem deixado decepcionado, mas não desanimado – tentarão monopolizar o trabalho desta Constituinte. A minha colocação é a de que este é um trabalho dos Constituintes para o povo e não dos Constituintes para os partidos. Espero que esse espírito democrático prevaleça nesta Subcomissão. Estou trazendo as minhas idéias, disposto a somar e também a acatar as idéias dos nobres pares, a fim de que possamos, ao final dos nossos trabalhos, ter um resultado satisfatório. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o VicePresidente desta Subcomissão, Constituinte Mauro Miranda. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Quero agradecer profundamente aos companheiros Constituintes pela minha eleição como 1º Vice-Presidente. Faço minhas as palavras do Constituinte José Dutra, na defesa de um trabalho suprapartidário, de entendimento. E, como disse também nosso companheiro Constituinte, que esta Subcomissão seja, de fato, um exemplo de entendimento para as outras Comissões, sobretudo de entendimento da Nação, para e grandeza do Brasil. Desejo, ainda, renovar minha enorme disposição de trabalhar, de fazer com que se produza muito. Constituinte majoritário em 44 Municípios do Estado de Goiás, quero trabalhar, para que desta Subcomissão saiam os artigos necessários pesa tornar mais justo o municipalismo neste País. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Presidente indaga ao Plenário se há mais algum Constituinte que desejasse manifestar. (Pausa) Com a palavra o Constituinte Ivo Cersósimo. O SR. IVO CERSÓSIMO: – Caro Presidente Luiz Alberto, prezado VicePresidente Mauro Miranda, prezado Constituinte José Dutra, devo dizer da minha satisfação em ter na presidência da nossa Subcomissão de Municípios e regiões a figura do nobre Constituinte Luiz Alberto, meu companheiro da Frente Parlamentar Municipalista, a qual congrega a aspirações máximas do municipalismo brasileiro, e que, neste momento, se sente envaidecida por ter à frente dos trabalhos desta Subcomissão, que reputo uma das mais importantes da nossa Constituinte, a figura extraordinária de Luiz Alberto, de Minas Gerais. Regozijamonos com esse fato, porque a Frente Parlamentar Municipalista está muito bem representada nesta Subcomissão com a figura do nobre Constituinte Luiz Alberto na presidência dos nossos trabalhos, e muito bem representado o Brasil, como um todo, este Brasil que muito de nós espera, porque é no Município que está a essência da vida nacional. Esta Subcomissão teve a sorte e a felicidade de ter como relator figura exponencial e extraordinário da vida brasileira, que é o Senador Aloysio Chaves. Assim em nome dos nossos companheiros da Frente Municipalista e do interior brasileiro, expressamos certeza de que, nesta Subcomissão, procuraremos entender a verdadeira posição do municipalismo brasileiro. Aqui repousam as esperanças deste Brasil-município, que muito espera de nós e da Constituinte. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra aos nobres Constituintes, lembrando aos que eventualmente não forem citados nominalmente que se identifiquem, para efeito de melhor nos conhecermos e também para facilitar os registros desta reunião. O SR. CONSTITUINTE DENISAR ARNEIRO: – Sr. Presidente, Srs. componentes da Mesa, Sr. Relator, demais Constituintes: o que acabamos de ouvir, até agora, é realmente de importância muito grande. Se pensarmos que a nossa Subcomissão é aquela sobre a qual repousa a esperança de quatro mil e duzentos prefeitos e de todos os vereadores dos municípios, pelo Brasil afora, chegaremos à conclusão de que ela é uma das importantes desta Casa, porque dará o extrato da importância que estamos atribuindo ao Brasil municipal, que espera dos Constituintes uma Lei Maior que venha a dar àqueles que estão no interior dos rincões da nossa Pátria algo mais do que têm recebido até hoje. Tenho certeza de que os que se comprometeram a vir para esta Subcomissão estão aqui para trabalhar, e pela observação dos semblantes dos nossos companheiros, estou seguro também de que procurarão, por todas as formas não decepcionar, mas trazer alegria aos quatro mil e duzentos municípios brasileiros, aos seus prefeitos, aos seus vereadores e a toda a comunidade. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência concede a palavra ao nobre Constituinte Lavoisier Maia. O SR CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – É um prazer falar a esta Subcomissão. Senti-me honrado por ter sido escolhido para presidir ao início dos trabalhos da Subcomissão dos Municípios e Regiões. Fi-lo com muita honra e muito prazer e o mais democraticamente possível. 2 Na verdade, os candidatos haviam sido pré-estabelecidos, segundo critério da liderança, que respeito. Acho que não é mais hora de discutir isso, mas quero me posicionar, porque, desejando integrar esta Subcomissão, indiquei ao partido minha preferência pela Subcomissão de Municípios e Regiões, dentro da Comissão de Organização do Estado, e o fiz conscientemente. Fui eleito pelo Rio Grande do Norte, Estado pobre da região nordestina. Tenho alguma experiência no setor público, pois fui Governador do Rio Grande do Norte num dos períodos mais difíceis que vivemos naquele Estado. A tônica do meu comportamento, nesta Subcomissão, será no sentido de que se dê tratamento igualitário à região nordestina, por ser carente e discriminada no contexto nacional. Será esta a minha luta. Quero ainda dizer, Sr. Presidente, que confio totalmente na condução democrática dos trabalhos e no espírito de justiça de V. Ex.ª, como homem público. Preferi esta Subcomissão, porque fiz um governo dirigido aos municípios, que cada vez mais merecem a atenção do homem público brasileiro. Há inúmeros municípios pequenos e esquecidos, e devemos lutar pelo fortalecimento do municipalismo, no Brasil, pela destinação de maiores recursos a todos os municípios, em contraposição ao poder centralizador da União, atualmente existente. Mais uma vez, desejo dizer que aqui vim para trabalhar – e tudo farei nesse sentido –, para lutar pelo entendimento de que esta Subcomissão é uma das mais importantes no Congresso Constituinte. Temos muita responsabilidade e muito trabalho a realizar. Honra-me sobremaneira, caro Presidente, como Senador do Rio Grande do Norte, participar desta Subcomissão presidida por V. Ex.ª, homem de Minas Gerais – Estado que também integra o Polígono das Secas – que, por certo, terá sensibilidade para a nossa luta em prol da região nordestina, também muito bem representada pelo Constituinte José Dutra e pelo Relator, ilustre homem público, Aloysio Chaves, que tão bem conhecem os problemas do Norte e do Nordeste do Brasil. Sinto-me, portanto, muito à vontade, para fazer estas afirmações sinceras, no desejo de trabalhar de forma democrática e suprapartidária. Aqui, não há interesse de partido majoritário ou de partido minoritário. Aqui, há o interesse do povo brasileiro – de todos os municípios e de todas as regiões. Reafirmo, entretanto, meu posicionamento em defesa das Regiões Norte e Nordeste, que vêm sendo discriminadas no contexto nacional. Vamos trabalhar, com o espírito público que todos possuímos, para chegar a resultados positivos em favor do povo brasileiro. Muito obrigado a V. Ex.ª pela atenção a mim concedida. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o nobre Constituinte Mello Reis. O SR. CONSTITUINTE MELLO REIS: – Sr. Presidente, Sr. Relator, demais membros de Mesa, companheiros de trabalho, também venho para cá como ex-prefeito e ex-vereador, a fim de trazer minha contribuição a esta Comissão. Fui Prefeito de Juiz de Fora, durante seis anos; Presidente da Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Paraibuna e Presidente da Associação Mineira de Municípios. Sou homem também vinculado à luta municipalista. Espero poder dar a 3 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplente) minha modesta contribuição a esta sua comissão e pedir a nosso Presidente – se não houver objeção dos demais companheiros, já que somos poucos – que se fizesse constar da Ata desta reunião que todos os eleitos tiveram a mesma votação, já que ficou comprovado o engano de um de nossos companheiros quando manifestou o seu voto. Dessa forma, acho que é justo que na Ata de nossos trabalhos conste a mesma votação para todos os eleitos para a Mesa desta Subcomissão. Muito obrigado. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o Constituinte Luiz Freire. O SR. CONSTITUINTE LUIZ FREIRE: – Sr. Presidente, Sr. Relator, vários Constituintes já demonstraram aqui a importância desta Subcomissão, que trata de municípios e regiões, pelas distorções existentes por este País afora. Desejo, já nesta primeira reunião, transmitir um forte temor e preocupação exatamente com várias divisões dos trabalhos da Constituinte. Tenho muito medo, ao fazermos aqui um trabalho sério, onde se dêem atribuições, responsabilidades, direitos e deveres a municípios e regiões, que, nosso esforço caía no vazio, a partir do momento em que outra comissão ou subcomissão fizer a distribuição tributária, de forma que não beneficie o município. Assim nada de nosso trabalho, nada daquilo por que tanto lutamos poderá ser colocado em prática. Quero transmitir a V. Ex.ª essa preocupação, logo no primeiro dia de trabalho, assim como sugerir que encontremos uma forma de trabalho dentro daquilo que será real, com um permanente acompanhamento, principalmente pelas Comissões de Tributação e da área econômica, para que não nos estejamos esforçando em vão, ou tentando dar o município mais do que aquilo que vai ser possível de tirar-lhe. Sinto-me nesta Subcomissão um pouco como no Congresso Nacional, que tanto fala e tanto pensa, mas na hora de agir, de pôr em prática as idéias, não pode realmente realizá-las. É apenas uma preocupação que desejo deixar registrada, para que tenhamos sucesso e possamos ver, no futuro, o trabalho aqui desenvolvido se colocado em prática. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Waldech Ornélas. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Sr. Presidente registro com satisfação o fato de que não obstante a alargada dificuldade que os líderes teriam tido para compor as diversas Comissões e Subcomissões, nesta há uma característica homogênea: todos os que aqui estão manifestam expressamente um compromisso muito claro com os objetivos desta Subcomissão. Diz-se que o Brasil é um país municipalista, mas sabemos o quanto de esforço tem de ser feito pra resgatar a autonomia de nossos municípios. E, quando se fala na autonomia municipal geralmente a ênfase tem sido posta na reforma tributária. Sem dúvida alguma, isso é extremamente relevante. Temos, nesta Subcomissão, a oportunidade e o dever de esclarecer, de tornar expressas na nova Carta Constitucional as competências dos municípios, de maneira a estabele- cermos bases específicas que assegurem, no futuro, a sua autonomia. O Constituinte que me antecedeu levantou uma questão que me parece relevante: temos pelo menos três Subcomissões que tratam da questão "Município", sob vários enfoques. Esta Subcomissão trata do aspecto das competências administrativas e legislativas. Corremos o risco evidente de aqui definirmos competência e de que não sejam, na Subcomissão do Sistema Tributário aquinhoados os municípios com recursos suficientes para exercê-las. Por outro lado, há, na Comissão de Ordem Econômica, também uma Subcomissão que trata dos assuntos urbanos e de transportes. Como estamos numa reunião preparatória, quero sugerir a V. Ex.ª que, já hoje, às 16 horas, nas Mesas das diversas Subcomissões, conste uma proposta concreta e objetiva: a necessidade não só de haver reuniões conjuntas – que certamente existirão – das três Subcomissões desta Comissão, a fim de termos uma melhor discriminação das competências; evitando-se as competências concorrentes entre os diversos níveis de Governo, mas que também se comece a fazer um trabalho de sistematização, reunindo-se, se necessário e no momento oportuno, as Subcomissões de Municípios e Regiões, de Sistema Tributário e de Assuntos Urbanos e Transportes, para discutir e compatibilizar os assuntos e as matérias de interesse comum. Ainda nessa questão municipal, que se confunde com a urbana, teremos aqui, sem dúvida, a responsabilidade de trate das questões relativas às regiões metropolitanas, que na atual Carta Constitucional estão na área econômica, mas que, necessariamente, me parece, devam vir para o âmbito da competência das esferas de Governo, bem como dos aglomerados urbanos. Um outro aspecto, que me parece uma contribuição fundamental é a obrigação e o dever de incorporarmos ao texto da nova Constituição, da nova Carta brasileira, e questão das grandes regiões do País. Ouvimos hoje, o clamor contra o centralismo da União. O centralismo, para ser eliminado, precisa ser combatido através de duas vertentes: uma, a da descentralização, que se fará, sem dúvida, pelo fortalecimento dos Estados e Municípios e pelo estabelecimento do novo sistema tributário; mas há uma outra vertente que precisa se explorada – e esta Subcomissão, neste particular, tem uma condição ímpar, entre todas as Subcomissões da Constituinte – que é encarar e abordar a questão de desconcentração da União, através de um tratamento adequado ao problema das grandes regiões do País. Estas as palavras que desejo registrar neste momento inicial dos trabalhos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Geraldo Melo. O SR. CONSTITUINTE GERALDO MELO: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Constituintes, trago aqui uma preocupação: a da complexidade desta Subcomissão, que vai estudar, a fim de elaborar normas para a nova Constituição, os municípios do Oiapoque ao Chuí, as diferenças econômicas e as diferença de regiões de nosso País, que é um grande continente. Por isso, peço ao Sr. Presidente que firmemos contratos diretos com os prefeitos de todas as regiões, de todos os Estados do País. Os problemas, por exemplo, de Uberaba e Uberlândia são diferentes dos daqueles dos municípios de Pernambuco, do Piauí ou do Amazonas. Então, é preciso haver a presença de prefeitos, de vereadores desses municípios – não somente de uma região – da Região Sul ou de regiões mais desenvolvidas – mas também daquelas mais necessitadas, do Nordeste e do Norte do País. Essa é uma grande preocupação, pois não poderemos preparar uma legislação somente aos municípios do Sul, aos municípios mais ricos, aos municípios com maiores condições urbanas, mas que também atenda àquele município de Pernambuco que se chama Solidão. Fica manifestada, desde já, minha preocupação e reivindicação da participação, nesta Subcomissão desses humildes prefeitos das cidades mais distantes do País, a fim de que possamos dar, efetivamente, início a uma nova vida e a uma nova era para os municípios. Fui Prefeito do Município de Joboatão, em Pernambuco, segundo colégio eleitoral do Estado. Elegi-me só e tenho a intenção de voltar a ser prefeito desse município. Preocupome não somente com o município onde fui prefeito, mas com os municípios de todo o País, porque vi a dificuldade, senti na pele como é difícil administrar de "pires na mão", pedindo ao Governo, com pouca autonomia e autoridade para governar esse município. Deixo aqui a minha preocupação e espero que nesta Subcomissão encontremos o caminho certo para acabarmos com todas essas distorções. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao relator da Subcomissão, Constituinte Aloysio Chaves. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente desejo, inicialmente, manifestar a V. Ex.ª meu agradecimento e o reconhecimento pele indicação que fez do meu nome para relator desta Subcomissão, em atendimento a um compromisso interpartidário, retificado nesta reunião por V. Exª. Quero agradecer, também, as manifestações de vários companheiros desta Subcomissão e, de maneira sucinta, posicionar-me, no início de nossos trabalhos, como relator. Creio que a missão do relator é a de ouvir, examinar, ponderar, e colher a decisão majoritária da Subcomissão. Não pretendo escrever o que penso, mas devo, necessariamente, redigir aquilo que a Subcomissão decidir. Nessa condição, estou com o espírito aberto para o exame de todos os assuntos, de todas as matérias. Não trago tese nem idéia preconcebida. Creio que de nossos debates poderão aflorar as soluções capazes de contribuir para a elaboração de uma boa Constituição para este País. Vejo com grande satisfação que, nesta Subcomissão, reúnem-se parlamentares, homens públicos de larga experiência nos seus Estados. No plano nacional, desde a juventude, a experiência, o entusiasmo e a inspiração telúrica do Constituinte Eraldo Trindade – grande, imensa e freqüentemente vítima de sua própria grandeza – e dos demais companheiros do Nordeste, da Região Sul, do Centro-Oeste, que, inclusive, tiveram DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) experiência na administração, na gestão de vários municípios. Há uma preocupação – que também é minha – com relação à maneira de como poderão ser conduzidos esses trabalhos no âmbito da Constituinte. Já declarei, em pronunciamento feito em reunião da Assembléia Nacional Constituinte, que não tenho entusiasmo pessoal algum pela fórmula adotada. Acho essa metodologia complicada e penso que vai exigir de nós um trabalho de grande dedicação e paciência para tentar compor o texto constitucional. Não temos precedentes, no Brasil, de algum trabalho constituinte feito nos moldes do que agora nos propomos a realizar para elaborar essa nova Constituição. Não os tivemos nem com relação ao projeto inicial, em 1823, de Antônio Carlos, nem no projeto chamado "Rui Barbosa", que era de uma comissão na Proclamação de República, nem sequer no projeto Itamarati, em 1934, de Afrânio de Mello Franco, então Ministro das Relações Exteriores, pai do atual Senador Afonso Arinos. Em 1946 não tivemos um projeto, mas os Constituintes de 46 tomarem como base de suas discussões o Texto Constitucional de 1934. Fora do Brasil, também assim se procedeu em todos os países. Lembrei, também, à Constituinte que a famosa Constituição de Weimar foi praticamente escrita pelo Prof. Pr euss, da Universidade de Berlim, que era Ministro do povo naquela ocasião, assessorado pelo talento, pelo gênio de Max Weber. O fato espantoso é que esta comissão redigiu a famosa Constituição de Weimar do dia 9 ao dia 12 dezembro de 1918, Constituição que serviu depois, de modelo para as constituições européias e para as constituições do mundo inteiro. A Constituição austríaca, que se fez logo em seguida, foi praticamente redigida por Hans Kelsen, e assim sucessivamente. Inclusive na famosa Constituição francesa de 1958, que adotou esse parlamentarismo mitigado, foi Michel Debret quem coordenou todos os trabalhos, sob a inspiração de De Gaulle. Em todas as partes do mundo assim se trabalhou. Vamos partir do nada, digamos assim, tentar vários caminhos, mas esses caminhos se cruzam, e, muitas vezes, essas competências se superpõem, como aqui já foi anunciado, destacado e ressaltado. Quanto à parte fundamental da autonomia municipal, creio que não teremos maiores dificuldades, mas a parte tributária é o "calcanhar de Aquiles", o ponto essencial, fundamental, nevrálgico desta questão que, no entanto, escapa à nossa competência, transfere-se para outra Subcomissão. Por isso mesmo, quando da reunião preliminar, apresentei o projeto dessas normas preliminares que foram depois aprovadas – já as havia redigido previamente e, com relação ao projeto de Regimento, subscrevi um documento para servir aos debates, para dar início à discussão, sem nenhum compromisso pessoal nem partidário, podendo ser alterado. Mas, naquela ocasião, pedi que antes do encaminhamento, mesmo sem compromisso, introduzíssemos duas alterações no projeto que estava sendo apresentado pelo Deputado Bonifácio de Andrada: a primeira, no que dizia respeito ao segundo turno, que estava transformado em apenas uma revisão de redação; e, a segunda, sobre a comissão intitulada "de Redação". Mostrei aos colegas que não se tratava de uma Comissão de Redação, que trataria de simples composição de textos, de erros ou imperfeições gramaticais; era na realidade, uma comissão para dar organicidade ao texto, para compô-la, Para dar a unidade necessária imprescindível ao projeto da Constituição, em outras palavra, para sistematizar esses trabalhos. Sugeri esse nome – fruto de longa conversa que havia tido ames com o Senador Afonso Arinos de Mello Franco e lembrando do precedente adotado em Portugal, quando, também com esse nome, foram criadas comissões de sistematização, apenas de maneira diferente, comissões no âmbito da sistematização de cada partido –, e esse passou a ser a Comissão de Sistematização dentro da Constituinte para uniformizar os trabalhos, porque, não tenhamos dúvida alguma, quaisquer que sejam nossas tentativas, nossos esforços, vamos encontrar superposições de texto, normas conflitantes, repetitivas, omissões, erros, falhas na elaboração desse testo, feito simultaneamente por 24 Subcomissões. Este é um desafio. Só o tempo vai responder a todas essas dúvidas ou perplexidades mas, no que for possível, devemos envidar todos os esforços para superar esses obstáculos, esses óbices, e apresentar um texto que possa ser fundamentalmente o projeto da Constituição a ser encaminhado ao Plenário da Assembléia Nacional Constituinte. Agradeço, portanto, a ratificação feita por todos os companheiros dessa Indicação, que é um privilégio e uma prerrogativa de V. Ex.ª, como Presidente da Subcomissão, na forma do Regimento. Aqui serei apenas um instrumento, um porta-voz das decisões, das deliberações que esta Subcomissão tomar, disposto a trabalhar em perfeito entendimento e entrosamento com V. Ex.ª e com os demais membros da Mesa para que desse trabalho possa, realmente, no prazo que o Regimento assinou sair a contribuição que todos esperam no que concerne à organização dos municípios e das regiões, para a elaboração do texto constitucional do País. Agradeço a V. Ex.ª e aos meus caros colegas a indicação para Relator desta Subcomissão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência manifesta ao Plenário a sua satisfação por esta não ser uma reunião apenas de eleição de Mesa, mas, pelo que pudemos notar, está sendo também uma reunião de trabalho. Como Presidente, aproveito a oportunidade para me apresentar. Fui vereador, deputado estadual e, tendo exercido o cargo de Secretário de Estado de Planejamento e Coordenação Geral de Minas Gerais, pude contribuir, de maneira objetiva, concreta e prática, para o fortalecimento do município de Minas Gerais, através, principalmente, de consolidação das associações microrregionais que hoje cobrem todo aquele Estado. O municipalismo e o município têm sido no Brasil prioridade retórica, de discurso. Presidente desta Subcomissão faço particularmente uma manifestação de intenção, para que possamos trazer o município para o primeiro plano concreto das prioridades, dos recursos, das competências, não só na reforma tributária, mas também, na redistribuição dos recursos arrecadados pelo Governo Central. Para que nosso 4 trabalho não seja inócuo teremos duas vertentes a trabalhar. A primeira delas: trazer para a Constituinte as organizações, as associações, as frentes municipalistas, as associações de municípios e todos aqueles que trabalham e que têm dedicado seu tempo a esse assunto. Agradeço ao Deputado Ivo Cersósimo, porque na verdade, desde que aqui chegamos, estamos trabalhando em conjunto com ele com ele e outros deputados da bancada municipalista. Agora teremos um instrumento para dar seqüência a este trabalho. O Presidente tem certeza de que os trabalhos serão democráticos, que todas as iniciativas e sugestões serão absorvidas, debatidas, detalhadas, e, evidentemente, no consenso democrático da maioria, aproveitadas ou não. Concedo a palavra ao nobre Deputado Eraldo Trindade. O SR CONSTITUINTE (Eraldo Trindade): – Sr. Presidente, desejo deixar uma proposta, observando, evidentemente, o que foi dito pelos nossos Constituintes, já que há um espírito muito grande de participação em torno das prefeituras municipais. Sugiro que com a permissão do nobre Presidente e com a anuência dos demais Constituintes, formulemos um documento para enviarmos às prefeituras, dando conta que esta Subcomissão está aberta às propostas dos prefeitos e que, a partir de agora, vamos fazer realmente um trabalho, observando aquilo que está ligado à realidade das prefeituras e, como foi citado, do municipalismo deste País. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência colocará em votação na próxima reunião essa proposta do Constituinte Eraldo Trindade, que já fica anotada. Foi feita à Mesa uma sugestão, pelo Constituinte Mello Reis, de que na Ata de nossos trabalhos constasse votos idênticos para todos os eleitos. A Presidência consulta o Plenário. Os Sr. Constituintes que forem favoráveis, permaneçam como estão. (Pausa). Aprovado. Constará da Ata que todos os Constituintes, membros da Mesa, foram eleitos com a mesma votação. Nada mais havendo a tratar, vou encerrar os trabalhos da presente reunião, convocando outra para amanhã, às 10 horas, na Comissão de Organização do Estado. Cumprida sua finalidade, está encerrada a reunião. ANEXO À ATA DA 2ª REUNIÃO DA SUBCOMISSÃO DOS MUNICÍPIOS E REGIÕES, REALIZADAS EM 9-4-87 E PUBLICADA NO SUPLEMENTO AO DANC Nº 53, DE 1º-5-87. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Havendo número regimental declaro aberto os trabalhos da Subcomissão dos Municípios. A Presidência gostaria, inicialmente, de colocar para os Srs. Constituintes que, apesar da eleição que se processa na Casa, vamos iniciar nossos trabalhos, até para ver se conseguimos ter um pré-roteiro para o desenvolvimento das atividades rotineiras de nossa Subcomissão. Poderíamos começar e esta é a sugestão que o Presidente faz, recebendo subsídios para o ordenamento dos trabalhos a partir de agora. Já existe, e acredito que seja do conhecimento de todos os Constituintes, 5 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) cronograma elaborado pelo Constituinte Aloysio Chaves com a fixação dos prazos de acordo com o Regimento Interno da Assembléia Nacional Constituinte. Assim, teríamos 45 dias para apresentar nosso relatório à Comissão. E este prazo, de acordo com o fluxograma, se encerraria em 16 de maio. A primeira recomendação, o primeiro apelo que fazemos os Constituintes presentes é exatamente no sentido de que possamos ter a opinião da Subcomissão, já em termos, inclusive, de redação final, dentro deste prazo. Gostaríamos de ouvir os Constituintes a respeito de sugestões de roteiro para os nossos trabalhos. A Presidência indaga qual o Constituinte que deseja fazer uso da palavra ((Pausa.) Concedo a palavra ao Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente, independente acerto de que venhamos a fazer a respeito de entidades que devem se convidadas para expor perante a Subcomissão matéria pertinente aos nossos trabalhos, estive refletindo a respeito da maneira mais factível, mais prática de podermos superar dificuldades de prazo e, sobretudo, ponderando sobre as peculiaridades do processo adotado para elaboração deste projeto da Constituição. Talvez seja uma boa solução da qual a Subcomissão só virá a se beneficiar se adotamos, por exemplo, uma maneira informal de trabalho aqui. Seria um roteiro, um esquema de trabalho. O Projeto Afonso Arinos, no que diz respeito Justamente ao Estado federal como o projeto se apresenta? A competência da União federal, a competência, como União federal, aos Estados e aos Municípios, a intervenção federal, aos Estados, o Poder Legislativo dos Estados, o Poder Executivo dos Estados, o Poder Judiciário dos Estados, o Ministério Público dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios Federais, dos Municípios e Regiões. Não cabe aos municípios especificamente a matéria. O texto puro e simples deste anteprojeto seria distribuído, e nós, em função deste roteiro, iríamos trabalhar com base nas sugestões oriundas da Mesa, da Secretaria-Geral, das contribuições que os colegas apresentassem em Plenário, etc. Caso contrário, vamos discutir um assunto hoje, mais diante outro diferente, na sessão subseqüente outro assumo que seja suscitado, sem termos um roteiro prévio, sem uma espécie de itinerário, um caminho para percorrermos e chegarmos, dentro do prazo, a uma solução. Esse roteiro não implica compromisso com o texto, não cria dificuldades, embaraços. Só poderá facilitar nosso trabalho. Esta é a sugestão que faço aos companheiros. Aceite esta sugestão, mandaríamos tirar uma cópia do roteiro e o distribuiríamos aos colegas como orientação de trabalho, sem embargo de mandar tirar cópia também do texto de 1946. Por que mencionar o Projeto Afonso Arinos e não o de 1946? Porque o Projeto Afonso Arinos foi muito além do projeto de 1946, inclusive no tocante a certas prerrogativas e competências dos municípios e também das regiões metropolitanas. Quem quiser reunir o texto da Constituição de 1934, para obter outros subsídios, poderá fazê-lo, mas teríamos pelo menos um texto orientador destes trabalhos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência coloca à discussão do Plenário a sugestão do Relator. Concedo a palavra ao Constituinte Raul Ferraz. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Apenas para dizer – quando cheguei, o Senador estava no final de sua fala – que tomei conhecimento da proposta de S. Ex.ª no sentido de que seja distribuído o anteprojeto elaborado pela Comissão Afonso Arinos. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Na parte concernente à nossa Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Perfeitamente. Mas em outras Comissões também tem havido propostas semelhantes. Apenas gostaria de dizer que essa proposta é um tanto desnecessária. Compreendo a boa intenção do Senador, mas não há Constituinte que não tenha aquele texto, até porque foi amplamente divulgado pelo Congresso Nacional, pelas Mesas da Câmara e do Senado. Acho que não há um só Parlamentar que não tenha duas ou três vias desse trabalho. Portanto, acho que não é tarefa desta Subcomissão distribuir ou não esse trabalho. Acho que todos os Parlamentares que aqui estão têm compromissos com a opinião pública. Todos vieram para cá com o objetivo de desenvolver um trabalho, trazer a sua contribuição. Acho que não há Constituinte que não disse na televisão, nas rádios, nos jornais, nos palanques, nas reuniões, o que veio fazer aqui. O mais interessante seria a Subcomissão começar a trabalhar para saber qual é a contribuição que cada Parlamentar está trazendo. A partir daí, selecionaria quem viria debater nesta Subcomissão com o objetivo de ver se há um apoiamento para as propostas de cada Parlamentar. Quanto ao problema do acervo de obras que serão consultadas, de material amplamente distribuídos, acho que cada um já fez o seu estoque. Mas, de qualquer forma, reconheço que a intervenção do Relator em propor essa distribuição em toda procedência. S. Ex.ª está tentando dar sua contribuição. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Quero esclarecer, se o Presidente me permite, o ilustre colega, porque acho que S. Ex.ª não estava presente desde quando comecei essa explicação. Propus a criação de um esquema, um roteiro para fins de orientação, sem nenhum compromisso. Vamos receber as contribuições que já estão sendo encaminhadas através da Mesa da Assembléia Nacional Constituinte; vamos receber as contribuições desses companheiros que em palanque, em campanha eleitoral, se comprometeram com determinadas teses e proposições; vamos receber de segmentos de outras entidades representativas da sociedade brasileira. Todo esse material será examinado. Uma coisa não exclui a outra, nem ambas são incompatíveis. Seria uma maneira de visualizar, dentro, de um esquema, como poderíamos ir seqüenciando os debates para facilitar depois o trabalho do Reator. Foi este o objetivo da minha sugestão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao nobre Constituinte Waldek Ornelas. O SR. CONSTITUINTE WALDEK ORNELAS: – Receio que a reunião de hoje fique um pouco prejudicada, porque ainda não chegaram as sugestões que porventura estejam na Mesa, e eu próprio não apresentei, não formulei as minhas. Mas a mim também está preocupando, corroborando com o que disse o Deputado Raul Ferraz, o fato de a Subcomissão ter 45 dias para concluir seus trabalhos. Decorridos 30 dias, o Relator deverá apresentar seu anteprojeto. O ideal seria que esse anteprojeto fosse o resultado já de uma série de discussões realizadas aqui na Subcomissão. Ora, a próxima semana será inteiramente pedida em termos de reuniões. Estaremos trabalhando, evidentemente, a nível de elaboração e leitura de documentos, mas sem reuniões e lembro aos colegas que devemos destinar o mínimo de cinco reuniões à audiência de entidades representativas da sociedade. Então, acho que um roteiro, um cronograma seria importantíssimo, para que, não chegássemos ao fim dos 30 dias apenas ouvindo as entidades, sem discutir as idéias que por ventura sejam apresentadas, porque então já estaremos na fase de apresentação de emendas ao anteprojeto. Talvez tenhamos que fazer uma série de reuniões, mais do que as duas por semana previstas pela Comissão, para que possamos realmente, ganhar tempo em torno desse assunto. Passada a próxima semana, aceleraríamos as atividades, seja debatendo as sugestões e as teses apresentadas. De maneira que sugiro que hoje, inclusive, avancemos um pouco em relação a uma tentativa de roteiro; selecionando quais as entidades que serão ouvidas, que serão convidadas, porque, com relação à área municipalista, existe um conjunto de entidades organizadas. Com relação às regiões metropolitanas, às macrorregiões, não existem entidades organizadas, e não sei quais os segmentos, os setores da sociedade que estão mobilizados. Gostaria, inclusive, de ouvir um pouco os companheiros sobre esse assumo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Constituinte Edésio Frias e, posteriormente, ao Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Poderíamos o ouvir IBAM – Instituto Brasileiro de Auxílio aos Municípios, localizado no Rio de Janeiro, um organismo que já vem trabalhando há alguns aos com os municípios. Acredito que este organismo tem muito a dar, em termos de subsídios; até já distribuíram um folheto com sugestões. Acredito que a Presidência da Subcomissão poderia entrar em contato com o Presidente do IBAM, e este enviaria alguns representantes para que pudessem fazer aqui uma exposição sobre as necessidades dos municípios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Está anotada a sugestão do Sr. Constituinte. Com a palavra o Constituinte Maurício Fruet, que a havia solicitado anteriormente. Posteriormente falará o Constituinte Mello Reis. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Gostaria de fazer, inicialmente, uma pequena observação a respeito da sugestão do Relator, Constituinte Aloysio Chaves. Na próxima semana, com as sugestões que já existem, inclusive de Comis- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) são Afonso Arinos, talvez houvesse condições de a Subcomissão apresentar um esboço de posicionamento com relação às diversas propostas existentes. Creio que isso é perfeitamente viável, mesmo que essas sugestões possam receber um maior número de subsídios, além dos já formulados pela Comissão Afonso Arinos. Acredito que todos os companheiros – creio que há um consenso a esse respeito – estão superlotados de informações a respeito posicionamento de entidades, de prefeituras, de movimentos municipalistas; a respeito de teses que, eventualmente, vão ou não prevalecer, dependendo do desenvolvimento dos trabalhos. Mas é perfeitamente viável que esta Subcomissão tenha um esboço próprio. Se assim entenderem os companheiros, poderíamos até programar a próxima reunião. Com os subsídios dos companheiros e a competência do Relator Aloysio Chaves, poderíamos perfeitamente apresentar um esboço de proposta inicial de discussão na Subcomissão, o que é mais ou menos a idéia defendida por S. Ex.ª. Nada muda. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Gostaria de me situar melhor. Não posso, no pôrtico dos trabalhos, apresentar um esboço. Ainda não recebi sugestões nem da Mesa da Assembléia Nacional Constituinte, nem de nenhum dos colegas. Não sei quando virão, nem a natureza desses documentos. Então, não é possível, após uma instalação praticamente preliminar, apresentar na semana seguinte um esboço com idéias pessoais e não fruto da colaboração de todos. Acho que esse documento seria apenas informativo; seria um roteiro para nos permitir a abordagem dessa matéria, seria uma espécie de triagem de todas as sugestões recebidas; depois, chegaríamos, naturalmente, ao projeto. O projeto será apresentado ao final dos nossos trabalhos, após trinta dias de discussão. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Mas é a nossa proposta. Como não existe qualquer subsídio, a proposta é no sentido de que cada um dos componentes desta Subcomissão, no decorrer da próxima semana, elabore um trabalho preliminar e, na primeira reunião marcada, após a próxima semana, esses trabalhos seriam analisados. A partir daí, teríamos um esboço da Subcomissão. Tenho a impressão de que, com dois ou três dias, no máximo, teríamos condições de estruturar uma proposta que refletiria mais ou menos o pensamento desta Subcomissão e que serviria de documento básico para a discussão. O SR RELATOR (Aloysio Chaves):– Mas como, se não conhecemos as sugestões da Subcomissão? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Solicitaria ao Sr. Relator que deixasse o Sr. Constituinte terminar sua manifestação. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Tenho a impressão, se o Sr. Presidente permitir, de que este diálogo é esclarecedor. A proposta, pragmaticamente, é a seguinte: vamos admitir que o companheiro Raul Ferraz apresente um esboço, o Constituinte Edésio Frias apresente outro, o companheiro Waldeck Ornelas, outro. Na segunda-feira da próxima semana, da posse desses esboços, por meio de um processo de discussão, tentaríamos estabelecer uma proposta básica da Subcomissão para debate. Seria esta a melhor posição objetivamente. UM SR. CONSTITUINTE (Fora do microfone): – ...Cada um traz a sua sugestão, e retira-se um esboço em um prazo determinado. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Exatamente. Não seria nada definitivo, apenas um ponto de referência importante. Quanto ao segundo ponto, Sr. Presidente, com relação às sugestões de entidades que eventualmente pudéssemos convidar, acho que caberia uma pequena reflexão de nossa parte para que alguns segmentos – por exemplo, municípios de porte médio, de porte pequeno, de grande porte, de regiões diferenciadas do Brasil, entidades, associações de moradores de municípios de porte médio, de grande porte, de porte pequeno – fossem convidados para que pudéssemos ter uma visão do conjunto nacional. Com relação à sugestão do companheiro, acho-a muito válida. O IBAM realmente possui uma série de informações muito importantes e, ao lado do IBAM – só como referência ao companheiro Waldeck Ornelas – temos também um movimento municipalista muito organizado, a Associação Brasileira dos Municípios, que, de certa forma, não tem uma vinculação muito grande com o movimento municipalista, a Associação de Prefeitos das Capitais e, finalmente, a Associação dos Conselhos das Regiões Metropolitanas. Creio que por esse caminho teríamos um roteiro fácil para desenvolver um trabalho em busca de subsídios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): –A Presidência vai conceder a palavra ao Constituinte Mello Reis. O SR. CONSTITUINTE MEL LO REIS: – Acho que a preocupação demonstrada pelo companheiro Edésio Frias sobre a consulta ao IBAM é importantíssima, porque tive uma grande experiência de trabalho com esse órgão. A colaboração que esse Instituto pode prestar a nós todos é muito grande. Devemos ouvir, como já ficou aqui dito, outras entidades municipalistas. Creio que precisamos, realmente, ter um roteiro, um ponto de apoio. Por isso, sou favorável à sugestão do companheiro Aloysio Chaves no sentido de que usemos a proposta Afonso Arinos apenas como início, como ponto de sustentação não significando que estejamos endossando as propostas ali contidas. Era isso gostaria de observar. Acho que seria interessante para nós se todos pudéssemos trazer, não na próxima semana, a Semana Santa, mas na semana subseqüente, na terça-feira, das nossas áreas alguns subsídios para serem desenvolvidos. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Raul Ferraz que a havia solicitado anteriormente. Na seqüência, Waldeck Ornelas e, posteriormente, o Constituinte Lavoisier Maia O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Gostaria de pedir um espaço a esta Subcomissão, e não pode ser um espaço de poucos minutos, para defender um trabalho que tenho a respeito dos municípios brasileiros Confesso que tenho poucas chances de ver aprovado trabalho dessa natureza, com uma visão do que seria o município brasileiro, mas tenho absoluta certeza de que abordo o problema municipalista por um ângulo completamente novo jamais abordado no País 6 E mais ainda, todo o movimento municipalista brasileiro está completamente errado, porque apenas sobe e desce o País em diversas reuniões reivindicando coisas insignificantes, como mudança de alíquotas pequenas variações em alíquota, como se fosse esse o problema do município brasileiro. Queria pedir um prazo maior a esta Subcomissão, porque considero este assunto preliminar para a discussão. Gostaria de discutir, Sr. Presidente, o problema da posição do município no contexto da Federação. Acho que o município é o primo pobre da Federação talvez mais pobre ainda. O município é o local em que nascemos, crescemos, trabalhamos. vivemos. No entanto, vejo o municipalismo brasileiro ser dirigido não por prefeitos, mas por governadores. Torço pelo governador do meu partido e, se estivessem em São Paulo, teria voado nele. Nós, na Constituinte, não podemos ter pruridos partidários. Temos que defender teses, porque estamos comprometidos com elas. Então, devo dizer que está errado o municipalismo brasileiro quando é conduzido por governadores. Então, devo dizer que está errado o municipalismo brasileiro quando é conduzido por governadores. Vejo, por exemplo, que o movimento municipalista brasileiro aponta errado, porque quando lemos na Constituição Federal o que se diz sobre os poderes da União, no art 8º, que estabelece à competência da União, vemos um rosário imenso de assuntos que competem à União. Quando olhamos a Lei Orgânica dos Municípios de qualquer Estado, vemos também um rosário imenso do que compete aos municípios brasileiros. Mas quando V. Ex.ª olharem a Constituição Estadual, no capítulo da competência do Estado, vão-se surpreender: nada diz, levei um choque quando li sobre a competência do Estado na Constituição da Bahia Disse: "Esqueceram de colocar aqui qual é a competência do Estado". Esse texto apenas repete aquele artigo da Constituição Federal que diz: "Compete ao Estado tudo aquilo que, explícita ou implicitamente, não competir à união". Quando olhamos as atribuições do município é a mesma coisa, mas quando olhamos às do Estado, nada diz A Constituição do Estado da Bahia diz que compete ao Estado tudo aquilo que, explícita ou implicitamente, não competir à União, e que ela pode contratar funcionários públicos, armar sua máquina administrativa. Mais adiante, diz que não pode ser cobrado imposto sobre radiodifusão, que os tributos cobrados em campos de esporte não podem ser mais do que 6% – e só. Ou seja, dada diz sobre a competência do Estado de São Paulo, vi que a Constituição da Bahia foi criativa, porque na Constituição do Estado de São Paulo esta escrita que a bandeira de São Paulo tem tantas listas de tal cor que o hino de São Paulo é contado naquela data e que a capital de São Paulo é a cidade de São Paulo, ou seja, coisa que qualquer menino aprende não no primário, mas no pré-primário. Nem precisa aprender. Então, acho que o município deve reivindicar poderes. Vou fornecer um dado aos colegas. Quero chamar a atenção dos Srs. Constituintes para um fato. O município deve explorar, em favor dele, isto: existem 168 países no mundo; desses, 153 não tem a figura do Estado, ou seja, 92%. E mais nesses 153 países onde não existe o Estado o 7 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) município arrecada o que equivale, ao Brasil ao que o município e o Estado arrecadam juntos, exatamente porque o município é que tem atribuições E, no entanto, o movimento municipalista no Brasil é explorado pelos governadores com o objetivo de conseguirem mais recursos, para corromperem os prefeitos, o cabo eleitoral, o chefe político. "Está comigo, tem dinheiro; não está, não tem" – dizem. Eu fui prefeito e sei que é assim, e não me parece que a situação vá modificar-se. Sr. Presidente, tenho este trabalho e pretendo distribuí-lo entre os membros da Subcomissão. Gostaria de dispor de um pouco mais de tempo para debater esse assunto, porque ele me preocupa muito. Não tenho a pretensão de conseguir objetivos tão ousados como ele, mas tenho certeza de que posso mudar um pouco o sistema de luta dos municípios em defesa dos seus direitos. Era o que tinha a dizer. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. A presidência vai conceder a palavra ao próximo orador. Solicita aos demais Constituintes sugestões para o ordenamento dos trabalhos para as próximas reuniões É evidente que o Constituinte Raul Ferraz terá tempo suficiente para colocar sua sugestão no sentido da extinção dos Estados, inclusive, à nossa Subcomissão. A Presidência indagar quem quer fazer uso da palavra? (Pausa.) Com a palavra o Constituinte Lavoiser Maia. O SR. CONSTITUINTE LAVOISER MAIA: – Quero manifestar a minha inteira concordância com a sugestão de audiência do IBAM, especificamente como Instituto que tem amplos e profundos estudos realizados sobre os municípios, e com as demais sugestões aqui apresentadas. Sugiro também que seja ouvida a Confederação Nacional dos Municípios. O Constituinte Maurício Fruet lembra a Associação de Conselhos das Regiões, Metropolitanas Parece-me que é a única entidade, salvo a de prefeitos de capitais, que está também ligada, pela própria natureza, às regiões metropolitanas Não sei se o Instituto de Arquitetos tem desenvolvido algum trabalho especifico com relação às regiões metropolitanas. Esse órgão preocupa-se mais com a questão tão urbanística. Agora, com relação ao âmbito macrorreginal, Sr. Presidente, na estrutura do País, temos as superintendências regionais de desenvolvimento, os bancos de desenvolvimento, os bancos regionais e a SUFRAMA um caso à parte. Tenho a impressão de que talvez valesse a pena promover aqui um painel com superintendentes destas entidades regionais, SUDENE, SUDAM, SUDECQ SUDESUL e a própria Secretaria Especial de Região Sudeste, além da SUFRAMA, para que pudéssemos tirar algumas lições dessas experiências. Sem dúvida, a SUDENE é historicamente a mais completa. Creio que valeria e pana. Pois não, Deputado Maurício Fruet O SR CONSTITUINTE MAURICIO FRUET: – É muito importante termos uma idéia de quantas audiências teremos. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Para agendá-las. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Exatamente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O que está sendo colocado – a presidência pede licença para interferir – é um fato da maior Importância. Quer dizer, qual o número de audiências que poderíamos ter para ouvir esse pessoal. Se tivéssemos 45 dias de prazo... Vamos perder dez dias aproximadamente, e já perdemos alguns. Vou colocar esses fatos para o Relator. Peço ao Sr. Constituinte que continue a sua colocação. O SR. CONSTITUINTE LAVOISER MAIA: – Foi exatamente sobre esse fato que eu quis chamar a atenção na minha primeira intervenção. Quer dizer, não desejo, em hipótese alguma, Sr. Presidente, que cheguemos ao final dos trinta dias de prazo para a redação do anteprojeto sem termos ouvido todas as entidades representativas, sem que tenhamos tido tempo suficiente para discutir e avaliar as diversas proposições, inclusive as sugestões individuais. Além disso tudo, estou sentindo que o prazo é exíguo, porque são apenas trinta dias, com uma semana já perdida. Há outros aspectos fundamentais e relevantes sobre o assunto. Por exemplo, todas as pesquisas revelaram que os Constituintes desejam uma Constituição. Foi exatamente para isto que quis chamar a atenção na minha primeira intervenção. Sr. Presidente, não desejo, em hipótese alguma que, ao fim do prazo de trinta dias para apresentação do anteprojeto, não tenhamos ouvido as entidades representativas, tampouco desejo que, findo aquele prazo, não tenhamos tido tempo suficiente para discutir e avaliar as diversas proposições, e até mesmas sugestões individuais. Além disso sinto que o prazo é exíguo, pois uma semana já se passou. Por outro lado, há aspectos fundamentais e relevantes para que nos possamos situar a respeito. Todas as pesquisas revelaram que os Constituintes desejam uma Constituição sintética. Não ouvi até hoje, na Comissão, na Subcomissão, no Plenário, qualquer palavra a respeito de como se vai proceder, se vai buscar uma Constituição sintética, como isso vai ocorrer. Pessoalmente, defendo uma Constituição sintética. Ouço, com prazer, o nobre Constituinte. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Não se trata de jogar pimenta aqui. Se V. Ex.ª quer uma Constituição sintética, devo informar-lhe que, dos 153 países unitários existentes, nenhum tem uma Constituição com mais de cem artigos. A receita ideal para o Brasil é: um país unitário descentralizado, ou melhor, uma república municipalista brasileira. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Outro aspecto que eu levantaria – e não entendo a razão do pessimismo do nobre Constituinte Raul Ferraz em relação às considerações que fazia há pouco – é que a nossa Subcomissão, juntamente com a Subcomissão dos Estados, há de modificar, no meu entendimento, o sistema atual de competências entre os três níveis de governo, de governo maneira de maneira a diminuir efetivamente as competências concorrentes, a fim de haver uma alocação de recursos mais eficiente, procurando redimensionar a questão de competência do Estado em relação às competências remanescentes que caracterizam um Estado-membro da União. Assim, além de agendar essas audiências, modo a sobrarem reuniões para que possamos debater teses com a proposta pelo Constituinte Raul Ferraz, creio que teremos também de estabelecer alguns critérios em relação à maneira com que nos comportaremos. Particularmente, entendo que devemos estabelecer no texto constitucional o elenco de competências específicas do município. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Antes de passar a palavra ao nobre Constituinte Lavoisier Maia, a Presidência lembra aos Constituintes que devemos memorizar até obsessivamente que o prazo para encaminhamento do relatório desta Subcomissão à Comissão Geral foi até o dia 16 de maio. Pelo nosso roteiro, retornaríamos os trabalhos no próximo dia 22, quarta-feira, o que nos daria seguramente quatro semanas de trabalho, com três reuniões ordinárias por semana, perfazendo um total de doze sessões. A Presidência já tem aqui algumas sugestões de caráter objetivo, que serão votadas no final desta reunião. A questão do prazo precisa ser mentalizada, senão corremos o risco de ser atropelados por ele. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, pela ordem. (Intervenção fora do microfone. Inaudível) No dia 7 de maio, pelos meus cálculos, o anteprojeto já deverá ter sido apresentado pelo Relator, de acordo com o que dispõe o art 17 do Regimento Interno. Seria de 7 de abril a 7 de maio. O SR RELATOR (Aloysio Chaves):– Sr. Presidente, permita-me solicitar ao colega um aparte para dizer-lhe que não fale sem autorização da Mesa. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Pois não. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Com a sua permissão. Sr. Presidente, gostaria de dizer que o prazo está dividido da seguinte maneira: são trinta dias para a discussão das proposições, a partir da instalação desta Subcomissão. Encerrada a discussão, começa a correr o prazo para a apresentação, pelo Relator, do parecer, que dentro dos quinze dias subseqüentes deverá ser discutido e votado por este Plenário. Assim, o prazo para apresentarmos sugestões é de quinze dias. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Perdão, Constituinte Aloysio Chaves, já aos trinta dias deverá o Relator apresentar o anteprojeto, que será distribuído em avulso, a fim de que nos cinco dias seguintes, destinados à discussão, possa receber emendas de acordo com o 1º do art 17 do Regimento. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Sr. Presidente, peço a palavra para uma questão de ordem. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o nobre Constituinte. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Sr. Presidente, gostaria de fazer uma sugestão à Mesa. Sugiro que esta Presidência assim como estão fazendo as de outras Comissões, solicite ao Presidente da Assembléia Nacional Constituinte, Deputado Ulysses Guimarães, a prorrogação do prazo, que é exíguo. Pareceme que no dia 22 vencem os trinta dias para a apresentação de sugestões. Ora ainda estamos elegendo os Presidentes das DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Comissões e o prazo já se estão esgotando. É evidente que, se o Presidente não aceitar proposta de iniciativa da própria Mesa da Constituinte, alguém deverá recorrer ao Plenário. E sei que haverá esse recurso. Mas é necessário que todas as Comissões apontem a exigüidade do prazo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência vai dar seqüência dos trabalhos concedendo a palavra ao nobre Constituinte Lavoisier Maia No final, discutiremos esse assunto e votaremos. O SR CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Sr. Presidente, ouvi a preocupação dos Constituintes. Penso que, acima de tudo, devemos fazer um trabalho sério e bom. A proposta do Relator em relação ao anteprojeto do Senador Afonso Arinos parece-me razoável. Outras sugestões foram aqui apresentadas. Seremos pressionados pelos prefeitos de todo o País e devemos dispensar atenção a todos eles, eis que a nossa Comissão trata especificamente dos municípios. Os quatro mil e tantos municípios do Brasil vão-nos pressionar com reivindicações de toda a espécie. Isso me preocupa. Concordo com o colega, cujo propósito é o de melhorar a situação dos municípios brasileiros. Já houve uma melhora, mas penso que é preciso melhorar cada vez mais Trata-se do fortalecimento do município brasileiro Vejo que o colega é eminentemente municipalista. Isso é muito bom, porque o município fica a mercê das autoridades superiores do Governador do Estado, do Presidente da República. Vejam V. Ex.ª o município mais forte do País, o de São Paulo, vem ao Presidente da República pedir recursos; um município menor, que não tem condições de acesso à Presidência da República, dirige-se ao Governo do Estado. Então, é preciso haver um ordenamento nesse sentido. É uma preocupação que todos devemos ter. Outra questão que também me preocupa é a referente às regiões. Nós, que somos do Nordeste, como já disse na primeira intervenção – e vejo que aqui há alguns nordestinos – temos a grande responsabilidade de olhar para aquela região, que vem sendo discriminada ao longo das administrações públicas. Trata-se de uma das mais pobres e sofridas. Sendo esta Subcomissão a que trata dos municípios e regiões, penso que nos devemos preocupar com as nossas, mais com umas, menos com outras. Como as Regiões Norte e Nordeste são as mais pobres e discriminadas, creio que deve haver posições firmes em sua defesa, eis que elas merecem um tratamento, não diferenciado, mas igualitário em relação a outras Regiões do Brasil. Sr. Presidente, outra preocupação é com relação ao tempo, como já foi colocado pelos nobres Constituintes. Realizamos doze sessões, que é pouco. No meu entender, há duas alternativas: prorrogamos o prazo ou aumentamos o número de sessões, porque doze, creio, são absolutamente insuficientes. Era o que tinta a declarar nesta hora. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Constituinte Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Sr. Presidente, o Sr. Relator sugeriu que discutíssemos um roteiro a ser traçado, para, então, formu- larmos um documento-base e, através dele, discutirmos a matéria. Entretanto os art 13 e 30 do Regimento interno estabelecem os prazos. Não podemos fazer nenhum roteiro básico sem antes ouvir as sugestões dos Srs. Constituintes, das entidades. Acredito que podem até o dia 23 não poderemos fazer nenhum documento base, porque surgirão sugestões que podem até colaborar para a idéia do nosso companheiro que pretende terminar com os Estados. Eu sugeriria, então, que tratássemos hoje, especificamente, das entidades que iremos convidar, para que logo depois do dia 23, quando o Relator também disporá das sugestões eu os Constituintes de outras Comissões terão apresentado à nossa Subcomissão, possamos discutir esse roteiro base. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência convoca o Constituinte José Dutra para assumir o seu lugar à mesa. Com a palavra o Constituinte Mauro Miranda. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Sr. Presidente, eu sugeriria que convidássemos todas essas entidades municipais a que aqui viessem para um tipo de foro de debates primeiramente, entre elas, o que seria mais produtivo do que se trouxéssemos cada uma em separado. Quero dizer também, Sr. Presidente, que nós, Constituintes, gostaríamos de ter a possibilidade de trazer uma assessoria, pois há Constituintes aqui que têm mais precisão de expressão. Eu, por exemplo que sou engenheiro, talvez seja mais prático, mas menos competente na hora de fazer uma explanação. Seria uma assessoria de alto nível, a critério de cada um, para nos municiar nos debates com essas entidades. Acho que deveriam ser distribuídas a todos nós as sugestões referentes à nossa Subcomissão que já tivessem sido apresentadas à Mesa do Constituinte. Assim, teríamos um universo muito maior de proposições para discutir. A partir dai, então, com o enorme arcabouço de informações que teremos depois desses debates, poderemos iniciar os trabalhos. O SR CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Permite-me V. Ex.ª um aparte? O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Perfeitamente. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Eu gostaria também de sugerir o seguinte: para evitar que a Presidência e a Comissão fiquem sobrecarregadas, poderíamos, com a anuência da Pr esidência, entrar em contato hoje mesmo com esses organismos e saber se poderiam vir aqui após a Semana Santa. E já estabeleceríamos um dia para o comparecimento de cada agremiação. O companheiro poderia convidar alguns organismos. e eu me responsabilizaria a falar com a Presidência e a direção do IBAM. Assim, poderíamos ajuda a própria direção desta Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Acho que não precisamos nem consta-los, mas, sim, marcar e data em que deveriam aqui comparecer discutir conosco, porque, do contrário, cada um poderia marcar um dia, e o nosso tempo é muito curto. O SR CONSTITUINTE ELIEZER MOREIRA: – Permite-me V. Ex.ª um aparte? 8 O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Perfeitamente. O SR. CONSTITUINTE ELIEZER MOREIRA: – Não sei até que ponto a simples presença de debatedores vai-nos dar uma rota, um cantinho. Eu proporia que a presença de representantes de entidades que interessam à Comissão sejam ouvidos e fossem precedidas do envio, se possível, de um documento contendo suas propostas à Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Eu gostaria de completar o meu raciocínio, se possível. Eles viram municiados com suas propostas e as debateriam conosco. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Permite-me V. Ex.ª um aparte? O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Perfeitamente. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Dentro do que V. Ex.ª está colocando e o Constituinte Eliezer também já apontou, gostaria de dizer que todas essas entidades, pelo menos as com que tenho contato já têm um documento básico, que foi discutido, em alguns casos, em várias reuniões e congressos. Então, conciliado e colocação do Constituinte Eliezer com a sua posição, creio que poderíamos sugerir a essas e entidades que, no momento em que aqui chegasse, o debatedor já estivesse de posse de propostas concretas. A Associação Brasileira dos Municípios, por exemplo, já tem a sua proposta. E aí há um outro problema. Acho que vai haver necessidade de realizarmos reuniões simultânea, por exemplo, com a Comissão que trata da reforma tributária porque existem assuntos absolutamente compatíveis com as duas Comissões e que, a mau ver, devem constar de pauta dos problemas institucionais dos municípios a serem discutidos nesta Comissão. A partir desse andamento, acredito que teremos condições de desenvolver um trabalho rápido. Quero fazer ainda ume observação. O companheiro é engenheiro; então sabe que temos de trabalhar em cima de números, e nenhum de nós tem condições de estar em três lugares ao mesmo tempo, o que está acontecendo hoje aqui. Há uma corrente muito forte dentro do Congresso que defende que as sessões da Assembléia Nacional Constituinte não sejam mais realizadas no período da tarde. Há outra tendência no sentido de que realizamos, também, reuniões à noite. Considerando-se três dias de trabalho, num período que vai de 10 às 12h – porque sabem V. Ex.ª que a reunião é marcada para as 9 h, mas começa às 10. Não há condição de que nessas reuniões haja um trabalho produtivo. Tenho a impressão de que deveríamos fazer uma programação baseada no esboço que o nosso Relator, tenho certeza oferecerá no sentido de que num mesmo dia, por exemplo, possamos ouvir dez, doze, quatorze entidades. Senão, será impossível realizarmos esse trabalho. O SR CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Fico muito grato a V. Exª. A segunda proposição que faço é a seguinte: em vez de pedirmos adiamento... 9 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Ainda complementando, quero insistir em que as propostas precedessem os debatedores, para que cada membro desta Subcomissão tivesse oportunidade de formar convicção a respeito do pensamento daquela entidade. Assim progrediria mais rapidamente o debate com a entidade. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Acho que V. Ex.ª poderia até fazer esta proposta e colocá-la em votação... O SR CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Eu apresentei uma proposta, a respeito da qual creio que a Mesa vai-se pronunciar, no sentido de que enviássemos um documento, em nome da Subcomissão, aos prefeitos e presidentes de câmaras dos municípios, porque, evidentemente, estamos aqui lutando contra um fato que é primordial: o tempo. Existe um prazo para a promulgação da nova Constituição. Os debates seriam muito importantes, mas creio que em função do prazo não teremos tempo suficiente para analisar, formular ou concluir o trabalho desta Subcomissão. Então, poderíamos formar uma comissão que estudaria e avaliaria as propostas que evidentemente serão enviadas a esta Subcomissão pelos prefeitos e presidentes de câmaras e as sintetizaria num único documento. Assim, baseados nesses subsídios, teríamos um resultado satisfatório. Creio que o tempo, a esta altura dos acontecimentos, é fator primordial. Não sei se realizando os debates, que vão ser longos, disporíamos do tempo necessário para a conclusão dos nossos trabalhos. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Permite-me V. EX.ª um aparte? O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – À vontade. O SR CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Ao que me consta, muitos Estados possuem associações de câmaras municipais. O SR CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Exatamente. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Em todos os Estados existem associações de prefeitos – associação de prefeitos de região metropolitana, associação de prefeitos regionais – e posso garantir a V. Ex.ª que todas essas entidades já têm propostas. Então, creio que ficaria fácil se as definíssemos como de porte médio, de região metropolitana, de municípios menores – menores que digo são os de cinco mil até duzentos mil habitantes. A partir daí, teríamos uma visão global, convidando representantes de diferenciadas regiões do Brasil. Todas elas já tem propostas, e a maior delas é absolutamente compatível. Assim não teríamos dificuldade em conduzir os trabalhos. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita ao plenário permita ao companheiro Mauro Miranda terminar sua proposta. O SR CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Achei muito boa a sua proposição, porque assim também nos dirigimos diretamente às bases, no caso às Câmaras Municipais, a fim de que elas pressionem suas entidades a trabalharem rápido para nos municiar. É o foro dos debates, convocando todas as associações e entidades para a participação. Minha segunda sugestão é a seguinte: em vez de pedir prorrogação de prazo, gostaria que esta Subcomissão propusesse o aumento do número de sessões, que se realizariam até mesmo aos sábados e domingos. Não é do meu feitio prorrogar demais. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, nobre colegas, tenho uma interrogação na idéia, diante do quadro que se desenha na Comissão. Elegemos a direção da Comissão há dois dias. É de conhecimento público – e a imprensa o tem divulgado sistematicamente – que já existem mais de quinhentas proposições apresentadas por Constituintes à Mesa da Assembléia Nacional Constituinte, mas elas ainda não chegaram até nós. Estamos trabalhando há treze dias e ainda não tivemos a alegria de ver uma proposição formalizada por um colega. Entretanto, elas existem. Acredito que entre essas proposições existam vária que dizem respeito à nossa Subcomissão. A imprensa está permanentemente atenta para formalizar críticar a nós, Constituintes. Tenho visto, no curso desses setenta dias que nos separam da instalação da Assembléia Nacional Constituinte, muitas críticas que insinuam que não estamos trabalhando, o que não é verdade. Sentimos em cada colega o desejo inquebrantável de participar, de discutir, de debater, isto é, de ajudar a fazer uma nova Constituição. Para que não paguemos um preço muito alto e não sejamos taxados de preguiçosos pela opinião pública, nós, membros desta Subcomissão, devemos tomar providência no sentido de endereçar um expediente à Presidência da Comissão Geral ou à Presidência da Assembléia Nacional Constituinte pedindo sejam o mais breve possível remetidas a esta Subcomissão as propostas vinculadas à sua competência. Se tivéssemos aqui uma proposta, nós já a estaríamos discutindo e formando um juízo a seu respeito. Antes de abordar o segundo ponto da minha intervenção, quero pedir desculpas por ter chegado atrasado, pois estava participando, na bancada do PMDB, da eleição do Relator da Comissão de Sistematização. Ouvi o Constituinte Eraldo falar nos prefeitos. Acho que não teríamos possibilidade de ouvir os quatro mil e poucos prefeitos municipais, salvo se selecionássemos alguns deles. A Idéia convocar é boa. Como disse o Constituinte Mauricio Fruet, em todos os Estados existem associações de prefeitos, de vereadores e outras associações municipais que envolvem prefeitos e vereadores. Acho que este é mesmo o caminho: temos de procurar captar o pensamento dos municípios através do seus representantes, prefeitos e vereadores. Na medida em que aqui comparecerem essas associações, colheremos ensinamentos muito importantes, porque elas vivem a realidade local. A intenção desta Subcomissão é procurar exatamente refletir no anteprojeto que daqui sairá para a Comissão da Organização do Estado o pensamento da maioria daqueles que vivem nos municípios. Em função disso, gostaria que déssemos maior dinâmica aos nossos trabalhos, para que não sejamos vítimas de críticas injustificadas. O terceiro ponto que gostaria de abordar é conseqüência da reunião realizada ontem na Comissão Geral, quando ficou assente que aquela Comissão só voltará a reunir-se após a Semana Santa – se não me falha a memória, no dia 22 de abril. Gostaria de propor que não seguíssemos essa linha, exatamente por causa das críticas que dela poderão advir. acho que devemos trabalhar na terça e na quarta-feira, se já houver proposto a ser discutida ou alguma entidade a ser ouvida, porque não adianta nos reunirmos se não temos o que discutir. Sr. Presidente, são estes os três pontos que coloco, apenas com a intenção de ajudar no desempenho de nossas atribuições vinculadas à organização dos Estados. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência gostaria de objetivar as decisões a respeito do que foi aqui discutido. A primeira coisa que me parece importante, até mesmo como roteiro dos trabalhos, é a proposta de que trabalhamos na próxima semana. O Presidente informa que estará aqui, mas gostaria de ouvir o Plenário a respeito do assunto. Acho que podemos deliberar sobre a questão considerando a própria tradição do Parlamento. Se convocarmos reunião para a próxima semana e não nos reunirmos, será pior. Então, gostaria de tomar o voto de cada um. Aqueles que estiverem de acordo com a suspensão dos trabalhos, conforme deliberado ontem pela Comissão permaneçam com estão. (Pausa.) Aprovada. A Presidência vai retomar os votos: os Constituintes que estiverem de acordo com a decisão adotada ontem pela Comissão da Organização do Estado de que nossos trabalhos sejam reiniciados, oficialmente, no dia 22, permaneçam como estão. (Pausa.) Há três votos contra. Está aprovada a decisão de Comissão. Não funcionaremos oficialmente na semana que vem. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, gostaria de comunicar à Subcomissão que, na segunda e na terça-feira, estarei em Recife, a convite da Sudene, participando de um painel sobre as regiões metropolitanas e a Constituinte, no que se refere ao aspecto institucional. Tomarão partes também nesse encontro os prefeitos das capitais e representantes de várias entidades. Esta a razão pela qual não estarei aqui na próxima semana. Quanto ao assunto em pauta, entendo, Sr. Presidente, que todas as considerações aqui feitas convergem para o mesmo ponto, de acordo com o art. 14, que diz: "As Subcomissões destinará de 5 (cinco) a 8 (oito) reuniões para audiência de entidades representativas..." Queda apenas propor que na semana subseqüente à Semana Santa realizássemos três sessões, cada uma com um painel sobre assuntos municipais, metropolitanos e regionais. De maneira que realizaríamos três reuniões, e as outras subseqüentes, duas ou mais, ficariam a depender do desdobramento dos primeiros. Acredito que desta forma a Subcomissão terá meios de explorar aqueles aspectos que mais possam contribuir para a sua formação e conseqüente tornada de posição. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita ao Plenário um pouquinho de paciência, a fim de podermos ordenar as propostas colocadas para apreciação. Elas são muitas e vão permitir, na verdade, deslancharmos os nossos trabalhos. A primeira proposta, do Constituinte Maurício Fruet, é a de que organizemos nossos textos e sugestões para trazermos à Subcomissão e no dia 22, provavelmente no dia 23, temos um roteiro de consenso para iniciar o trabalho. Cada um então pesquisará Constituições, textos, sugestões e, de maneira sistematizada, vale dizer por escrito, trará esse material para a reunião do dia 22. O Presidente quer acrescentar o seguinte: gostaria de ter também, junto com essa sugestão, um texto constitucional de suporte. Que cada membro da Subcomissão trouxesse sugestões das entidades organizadas, das organizações que gostaria fossem ouvidas pela Subcomissão. Para isso poderemos realizar reuniões múltiplas e sessões extraordinárias. Mas é preciso haver um ordenamento, a fim de que a Subcomissão possa classificar, de acordo com o Plenário, as instituições que vamos ouvir. É humanamente impossível ouvir todos os prefeitos e vereadores. É interessante que a classificação seja feita de maneira setorial, ou seja: poderemos ouvir o Nordeste, o Sul e o Certo-Oeste, bem assim as entidades das capitais e dos municípios médios e pequenos. O Presidente vai oferecer ainda a sugestão de que seja ouvida a Fernam – Federação das Associações Microrregionais de Minas Gerais, que trata das microrregiões homogênas. Contém lembrar que todas essas sugestões deverão ser escritas e listadas, para que possamos priorizá-Ias e formular os convites oficialmente. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Vejam bem, é importante que se frise uma coisa. Aparentemente, a Subcomissão não teria trabalho, o que não é verdade. Acho que vamos ter uma atividade muito grande na próxima semana. Apenas nossas reuniões terão um caráter diferente. Estaremos realizando um trabalho, talvez, mais prático e mais objetivo do que numa reunião: teremos a missão muito séria de colher os subsídios para apresentação nesta Subcomissão, tarefa que vai exigir muito esforço de cada um de nós. O segundo ponto que gostaria de abordar com relação à colocação do colega Waldeck é o seguinte: já podíamos, hoje, definir, por exemplo, cinco, oito ou dez entidades para serem ouvidas no dia 23. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Exatamente. Esta é a minha proposta. E no dia 24 poderíamos ouvir as metropolitanas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Constituinte Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Não entendi bem a proposta do Constituinte Maurício Fruet de que deveremos trazer as sugestões já nos dias 22 e 23. Acredito que as sugestões são apresentadas à Mesa de Assembléia. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Trata-se das sugestões individuais dos Constituintes Edésio Frias, Maurício Fruet e Waldeck Ornelas. Que trouxéssemos as nossas sugestões inclusive para que elas sejam compatibilizadas e sirvam de roteiro para o início dos trabalhos da Subcomissão. É evidente que cada Constituinte já manifestou seu ponto de vista. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Não sei se regimentalmente poderíamos fazer isso, porque acredito que todas as sugestões têm de ser encaminhadas à Mesa da Assembléia e distribuídas posteriormente às Subcomissões. Não sei se poderei trazer alguma sugestão para ser debatida aqui sem que primeiro ela tenha passado pela Mesa da Assembléia. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Tenho a impressão de que é possível, desde que o Presidente mande publicar e incluir na Ata da reunião da Subcomissão. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Sim, isto pode ser feito através de informação da Ata. Concedo a palavra ao Constituinte Eraldo Trindade. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Apenas para complementar o que disse o Constituinte Waldeck Ornelas. Na realidade, creio que é possível realizarmos esse tipo de trabalho, até para formação de um regimento da própria Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Como também, Sr. Presidente, poderiam ser estabelecidas reuniões, não para audiência, mas para que cada um tivesse um tempo de dez ou quinze minutos para apresentar suas propostas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Aberto Rodrigues): – O entendimento pessoal do Presidente é o de que o Constituinte que quiser seguir o Regimento Interno poderá encaminhar suas sugestões à Mesa Assembléia Nacional Constituinte, no plenário. Essas sugestões serão triadas, passarão pela Comissão da Organização do Estado e virão bater aqui. Mas elas podem também ser trazidas diretamente, para termos um roteiro básico de trabalho. Isso no dia 22. Gostaria de saber se o Plenário está de acordo com essa sugestão. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, isso demandaria muito tempo. E já que foi abordado aqui repetidas vezes que estamos trabalhando para vencer o tempo, por que não apresentarmos diretamente à Mesa? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. O que abunda não prejudica. Façamos das duas maneiras. Vamos colocar o assunto em votação. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, sou daqueles que gostam de cumprir aquilo que aprovou. Na votação do Regimento interno aprovamos o caminho natural das proposições, isto é, a Mesa. Mas podemos estabelecer uma filigrana? Nós, os Constituintes desta Subcomissão, prepararíamos as propostas, daríamos entrada na Mesa e ficaríamos com uma cópia em cima da qual trabalharíamos. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Parece-me consensual então. No dia 22 teremos, para efeito de trabalho interno da Subcomissão, as sugestões que os Constituintes quiserem trazer especificamente sobre o tema “Muni- 10 cípios e Regiões”. Evidentemente, cada um encaminhará sua sugestão ao Plenário da Assembléia Nacional Constituinte. A respeito das entidades que aqui virão no dia 22, a Presidência solicita que cada Constituinte traga a lista, para efeito de debate, das outras entidades que iremos ouvir e também as sugestões, para que possamos fazer o convite às entidades que se vão manifestar aqui no dia vinte e três. Temos listado o IBAM e gostaríamos de receber mais alguma sugestão do Plenário. O Constituinte assumirá o compromisso de contribuir na articulação e no convite, para que essas pessoas possam estar aqui no dia e na hora marcados. Concedo a palavra ao Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Gostaria de fazer uma pergunta: no momento em que alguém é convidado, por exemplo, no caso de um presidente de uma associação de moradores, a Subcomissão tem condição de subsidiar transporte e hospedagem para esse cidadão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Presidente não tem condição de responder a este pergunta. Alguém poderia contribuir? O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Acredito que sim. Faço esta afirmação baseado em informações que tenho sobre o custeio dessa atividade na Comissão da qual sou titular. Eu deveria ser titular desta, mas sou da outra. O problema é o seguinte: lá pediram que, quando tivéssemos sugestão nesse sentido, entregássemos logo, para ser encaminhada à Mesa da Constituinte, a fim de que fossem providenciados os recursos necessários à vinda do pessoal. Seria interessante que a Mesa desta Subcomissão se o assunto, até porque consta do Regimento que somos obrigados a ouvir essas entidades. Então, quem vai custear? Portanto, é uma questão regimental e tenho quase certeza de que a Constituinte irá financiar a sua vinda. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Presidente sugere ao Plenário que convidamos inicialmente entidades mais ricas e organizadas, como o IBAM, a Associação Brasileira de Municípios, e outras, enquanto aguardamos uma solução para a questão levantada pelo Constituinte Maurício Fruet na próxima reunião. O Constituinte Eliézer Moreira solicitou a palavra. Concedo a palavra e S. Ex.ª. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, proponho, talvez para o terceiro dia de debate, a participação da Sudene, pois ela é representativa de uma região muito carente do País, onde, através de PDR e projetos como o Nordeste, por exemplo, ela identifica as dificuldades da execução dos projetos de desenvolvimento em determinadas regiões de cada Estado. Além do mais, a Sudene está, desde a semana passada, promovendo um grande debate sobre a questão regional e, ainda esta semana, a questão metropolitana, ouvindo, portanto, parlamentares, entidades de classe, experts nessas questões. Ela deve, na próxima semana, a partir do dia 22, ter uma gama de informações consistente para a apresentação. (Intervenção fora do microfone. Inaudível) 11 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. CONTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – A questão urbana foi debalde este semana e na próxima. ainda no mesmo período. será discutida a questão das regiões metropolitanas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A sugestão de V. Ex.ª está anotada Há mais alguma sugestão? Tem a palavra o Constituinte Lavoisier Maia O SR CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – a minha proposta coincide com a do colega raro sugestão no sentido de marcar um para a vinda do Superintendente da Sudene esta Subcomissão. Isto é da maior importância para nós. O SR CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – No mesmo sentido da sugestão do Constituinte Lavoisier Maia, proponho a vinda da Superintendente da Sudam. O SR. CONSTITUINTE MAURICIO FRUET: – Sr.Presidente, V.Ex.ª me permite? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem V.Ex.ª a palavra. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Sr. Presidente, acho que com relação à vinda a está Subcomissão das entidades, SUDAM, SUDENE, SUDESUL, quero destacar que também estou de acordo, especificamente com relação à região metropolitana. Minha proposta é no sentido da criação de um bloco O Constituinte Waldeck já colocou muito bem este assunto numa conversa que tivemos há pouca Não adianta formulamos convite aos prefeitos de Porto Alegre e Recife. Acho que teríamos que pegar um bloco – região metropolitana por exemplo – e convidar quatro prefeitos. Eu sugeriria os de Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador e Recife e o coordenador... O SR RELATOR (Aloysio Chaves):– Sugiro também o Prefeito de Belém, sem qualquer bairrismo, agora mesmo designado para presidir uma comissão de prefeitos das capitais. O SR CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – A principio, poderiam ser os Prefeitos de Salvador, de Belém... O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – O convite pode ser feito através de Associação dos Prefeitos das Capitais, e eles lá decidem. Quer dizer, no mesmo dia em que aqui comparecesse o representante da Associação de Prefeitos das Capitais, que são as cidades grandes, também viria a Associação dos Conselhos das Regiões Metropolitanas. O SR CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Exatamente. Há um quinto nome, que seda o de uma pessoa indicada pelo Conselho da Região Metropolitana. Quando se fala em disputa de miséria no Brasil, uma coisa é clara: os maiores bolsões de miséria deste País estão nas regiões metropolitanas. É uma burrice afirmar que as grandes cidades estão em situação boa, quando ocorre o contrário: são as que estão em situação mais desgraçada. Isso está provado em todos os Estados. Nas grandes cidades estão os bolsões de miséria. O segundo ponto, que gostaria de colocar, com relação à proposta de ser trazer os Presidentes da SUDENE e da SUDAM. Acho que deveríamos também fazer um bloco. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – painel para ouvir as superintendências e regionais. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Perfeitamente. Então, levaríamos de duas a três horas com cada bloco desses. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – E seria exaurido o assunto. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Exatamente. Teríamos bloco de região metropolitana, bloco de municípios pequenos e de municípios médios. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Talvez devêssemos realizar um painel nobre regiões metropolitanas, um painel sobre macro regiões e dois ou três sabe municípios, para fazer esse gradiente que V. Ex.ª está propondo de pequenos e médios municípios, ou associação de municípios como lembrou o Presidente, que contemplaria os municípios pequenos e médios. O IBAM Já entraria numa sessão em que o tratasse de problema mais técnico, mais Institucional, já que existem vários órgãos de articulação com o município. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, a tese pode ser perfeitamente aproveitável, no que se refere à Amazônia. Com a anuência do nosso Presidente e dos Vice-Presidentes, que também pertencem à região Norte, poderíamos trazer o representante da SUDAM e os prefeitos da região, pois creio que os problemas são praticamente os mesmos e os prefeitos estão se reunindo anualmente. A medida viabilizaria os nossos trabalhos quanto à questão das exposições que serão feitas aqui. Não sei se V. Ex.ª concordam. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Presidente vai tentar dar um ordenamento à Proposta. As sugestões feitas à Mesa são no sentido de que seja promovido um painel – a Presidência pede um pouco de atenção por parte dos Srs. Constituintes – para ouvirmos, por exemplo, a Associação dos Prefeitos das Capitais e as organizações de regiões metropolitanas de Minas, no caso a Gran-Bel, que n i dicada cinco expositores para participarem dos debates. O painel poderia ser realizado no dia 23 de abril. Ao mesmo tempo seria feito contato com o Presidente da Associação dos Prefeitos das Capitais, de Salvador. que se encarregaria de trazer contribuições concretas, textos, para a Comissão. A Presidência pergunta se seria este o entendimento um painel em que poderiam estar a SUDENE, a SUDAM, a SAREM e a SUDESUL... O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, acrescentem a Sudeco e a Secretaria Es pecial de Região Sudeste. Não sei se há aqui algum companheiro da Amazônia mas talvez a Suframa também devesse entrar; há uma área territorial de grande abrangência. O que acha o Senador Aloysio Chaves? O SR RELATOR (Aloysio Chaves): – A Suframa vincula-se mais a incentivo fiscal. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Mas a área territorial está bem ampliada. O SR RELATOR (Aloysio Chaves): – Mas é jurisdicionada pela Sudam. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Mello Reis, Para uma sugestão. O SR CONSTITUINTE MELLO REIS: – Sr. Presidente. precisaríamos caracterizar bem as pequenas e médias cidades, pois temos casos de cidades médias que realmente são maiores que várias capitais, maiores até do que grande parte das capitais, Seus problemas são muito semelhante, Peguemos como exemplo a cidade de Campinas. Ela tem problema, idênticos aos de qualquer grande cidade ou capital. Eu sugeriria uma consulta em Minas, pois lá existe boa estrutura de organização microrregionais, que têm larga experiência com pequenos municípios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos integrar por partes O Presidente anotou a sugestão referida às pequenas e médias cidades É intenção desta Presidência, como Já foi dito, trazer a Femam Federação das Associações Microrregionais de Minas Gerais, que envolve todos os municípios do Estado, pequenos médio e grandes. Temos lá, também, a AMM, Associação Mineira dos Municípios, que, poderá vir. O SR. CONSTITUINTE MELO REIS: – O IMAM é o que mais caracterizaria. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O IMAM é um órgão do Estado não é uma associação. É o Instituto Mineiro de Assistência aos Municípios Vejamos se podemos cumprir a primeira etapa Associação dos Prefeitos convidaremos para o dia 23 a Associação dos Prefeitos das Capitais, para participar de um painel a respeito de questão das regiões metropolitanas. Ele seria contratada e se encarregaria de escolhe os expositora entre os cinco por nós sugeridos, e de trazer contribuições concretas para os nossos trabalhos. Fica aprovado? (Pausa) O SR CONSITITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, podemos incluir, também, a Associação dos Conselhos – não sei se equivale às duas. Que fosse de cinco o total de painelistas... O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Perfeitamente. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Mas que representassem mais de uma entidade, e não cinco da mesma, Já que não esgotaremos o assunto em oito ou dez sessões. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita à Secretas atenção para os detalhes, a fim de podamos formular o convite de acordo com o que for deliberado pelo Plenário. O Constituinte Edésio Frias quer fazer uma observação a respeito desse assunto. Concedo a palavra a S. Ex.ª. O SR CONSTITUINTE EDÉSlO FRIAS: – Sr. Presidente, com relação à Associação dos Prefei- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) tos das Capitais, seria bom que a Presidência sugerisse a vinda de um prefeito de cada região. Só assim poderíamos ter uma noção geral, senão poder acontece de vir à direção da associação e ela ser constituída apenas de prefeitos do Sul e do Norte. Esta a minha proposta vir um representante de cada região. Seria melhor. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Muito bem. O Sr. Constituinte Lavoisier Maia deseja fazer uso de palavra. A Presidência solicita aos Srs. Constituintes – Para que possamos resolver este assunto – que se manifestem agora apenas a respeito desta proposta concreta. Concedo a palavra a V. Ex.ª. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Não é especificamente sobre essa proposta concreta, mas para sugerir que não só municípios e regiões, mas também o Instituto Brasileiro de Direito Constitucional, que apresentou uma tese sobre federalismo regional, sela incluído na pauta de convidados. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem, a Presidência gostada de saber onde se localiza a sede desse instituto. O SR. CONSTITUITE LAVOISER MAIA: – No Rio de Janeiro. Logo mais fornecerei melhores informações. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – De certa maneira, a Presidência quer esclarecer ao Plenário que estamos resolvendo o nosso curto prazo, na linguagem dos tecnocratas. Na semana que vem as primeiras painelistas seriam as organizações com maior capacidade de mobilidade, maior acervo, com memória e com contribuição a trazer, derivada de inúmeras reuniões. O Presidente vai repassar a primeira proposta para ouvir o que pense o Plenário a respeito dela. Será convocada a Associação dos Prefeitos das Capitais para um painel a respeito da questão das regiões metropolitanas e através dela serão contactados os conselhos das regiões metropolitanas, que indicarão cinco painelistas, com o cuidado de que sejam representativos das diversas regiões do País. A Presidência pergunta se é exatamente isto. Tem a palavra o Sr Constituinte Mauro Miranda. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Sr. Presidente. gostada de que nesse primeiro painel se fizesse uma abrangência, de modo nacional, de todas as grandes cidades porque, desta forme já estaríamos setorizando. Portanto, que nesse primeiro painel estivessem presentes representantes das grandes cidades, bem como representantes da Associação Brasileira dos Municípios e entidades civis, e que todos aqui viessem não em caráter institucional, mas nacional, para dar essa dimensão global, Inclusive para que o pessoal o drama do outro lado e se mobilize no sentido de uma composição, vez que não há jeito de se entender especificamente apenas capitais. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência insiste em que estamos fazendo o nosso curto prazo. Numa próxima reunião, evidentemente, estaremos ouvindo prefeitos e organizações de Minas Gerais, do Nordeste e de Goiás. Agora, a Presidência vai submeter à sugestão do Constituinte Mauro Miranda à apreciação do Plenário. Foi feita uma proposta objetava, que a Presidência tentou sintetizar na sua colocação. Mesmo que o entendimento da Presidência seja o de que pudéssemos fazer Isto, conforme o necessário recolocar a proposta em votação ou se ela está aprovada. (Pausa.) Aprovada. Nossa primeira reunião será no dia 23, às 10 toras. O SR. CONSTITUINTE MAURICIO FRUET: – Quanto o tempo vai durar esse painel? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Como não tema ainda Regimento Interno, poderemos fixar o prazo global do painel em três horas. O tempo para as exposições será de uma hora e às duas horas restantes serão destinadas aos debates. Vamos marcar o início da reunião para as 9.30 horas para sermos fiéis ao horário brasileiro. O SR. CONSTITUINTE DENISAR ARNEIRO: – Sr. Presidente, por gentileza, quantos vão debater? Porque, se for apenas um, uma hora para aposição é muito. Agora, se vierem várias organizações... O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – São cinco, apenas. O SR. CONSTITUINTE DENISAR ARNEIRO: – Cinco? Então serão doze minutos para cada uma. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Poderíamos fixar em quinze minutos. Vemos dar um fecho a esta situação. Teremos um painel de três horas, com o lido marcado para as 9:30 horas. uma hora e trinta minuta de exposição, com quinze minutos para cada painelista. Depois, debate entre os membros da Comissão e os expositores, com uma possível prorrogação de prazo, se for o caso. Este seria o roteiro para a nossa primeira reunião, no dia 23, às 930 horas. A Presidência indaga ao Plenário se faríamos um outro painel na sexta-feira, dia 24, ou se faremos um rearranjo a nível de Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE: – Na sextafeira não poderá ser pela manhã, porque coincide com a reunião da Assembléia Nacional Constituinte, no plenário. O SR CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, temos que avaliar o debate do dia anterior. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. A Presidência gostaria de saber o que pensa o Plenário a respeito do assunto faríamos essa primeira reunião e deixaríamos as outras pra a semana seguinte? Concedo a palavra ao Sr. Constituinte Mauricio Fruet. O SR CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Uma sugestão; para demonstrar, inclusive, a disposição de Comissão em desenvolver o trabalho o mais rapidamente possível, poderíamos, sem contrariar o Regimento, como bem lembrou o Constituinte Aloysio Chaves, programar para quinta-feira uma segunda reunião, com início, por 12 exemplo, às 18:00 horas, quando ouviríamos outro segmento, a critéro dos Constituintes. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência acha que é uma questão de operacionalidade. Se fizermos outra reunião na quinta ou na sexta-feira, deveremos marcar um horário realista, isto é, às 19:00 horas e não às 18:00 horas O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, pela ordem. Ponderaria o seguinte: ficou aprovado que no dia 22 apresentaríamos as nossas sugestões. Essas sugestões vão ser apresentadas por escrito e o Sr. Relator vai delas tomar conhecimento. Provavelmente começaremos a debate-las, no plenário da Comissão, na semana subseqüente. Poderíamos estabelecer o dia 22 para o painel. Assim teríamos, nos dias 22 e 23, dois painéis Para o do dia 22 poder-se-ia traze as entidades municipalista de âmbito nacional, com o que atenderia os à ponderação do Constituinte Mauro Miranda, e na terça-feira subseqüente realizar-se-ia o painel regional. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. A Presidência solicita a indicação dessas organizações: sariam a Frente Municipalista Brasileira, o Instinto Brasileiro de Administração Municipal, a Associação Brasileira de Municípios e Confederação Nacional dos Municípios? O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Há um detalhe que gostada de colocar, Sr. Presidente. Existe uma entidade – não sei se Institucionalizada ou não – que tem ligação com todas essas é a Frente Municipalista. Essa entidade é a que, de fato, hoje tem mais poder político. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Os vereadores também devem ser incluídos O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência gostaria de ponderar o seguinte: se juntarmos prefeitos e vereadores, esse painel ficará de uma riqueza e de um potencial muito grandes, o que praticamente inviabilizará a sua realização. Há necessidade de se limitar o número de participantes, para temos painéis objetivos. Então, e Presidência tem uma sugestão que, no seu entender, é importante: podemos e devemos ouvir a União Brasileira dos Vereadores. Indago do Plenário se isto será feito neste mesmo painel, junto com as associações de prefeitos de municípios. Vamos sistematizar. UM SR. CONSTITUINTE: – Sr. Presidente, uma informação à entre 30 de abril e 5 de maio estará não sendo realizado em, em Brasília um encontro racional de vereadores. Talvez fosse uma oportunidade excelente para que a Comissão se fizesse presente, ouvisse os vereadores. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência tinha até anotado a questão de a Subcomissão poder reunir-se fora. Vamos supor que tenhamos um grande encontro nacional de vereadores; agendaríamos com eles uma que poderia ser, por exemplo no Auditório Petrônio Portela, ou no Nereu Ramos. Objetivamente a Presidência quer saber do Plenário se no dia 22 vamos ouvir as entidades nacionais de municípios, e se estas são as entidades aqui citadas. Frente Municipalista Brasileira IBAM, 13 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Instituto Brasileiro de Administração Municipal Associação Brasileira de Municípios, Confederação Nacional dos Municípios. Há, ainda proposta para se ouvir a União Brasileira dos Vereadores Esta estaria inclusa ou não? O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAlA: – Sr. Presidente, o Instituto Brasileiro de Direito Constitucional sobre federalismo regional. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Veja bem, Constituinte Lavoisier Meia, estamos tentando segmentar e ordenar os trabalhos por assuntos. Em nossa próxima reunião, já com as sugestões por escrito incluindo a de V. Ex.ª vamos deliberar sobre os outros convites. Estas seriam as nossas duas primeiras audiências púbicas, curto prazo. Concedo a palavra ao Constituinte Melo Reis. O SR. CONSTITUINTE MELLO REIS: Sr. Presidente, o IBAM tem uma ação prática em relação ao município brasileiro e uma experiência muito grande. Há algumas entidades através de noticiário da imprensa e que, de fato, pouca contribuição vão-nos dar. Fui prefeito durante seis anos e não conheço a Associação Brasileira de Municípios. Creio ser algo que só existe na cúpula. Mas será que eles têm conhecimento dos problemas dos municípios brasileiros? Tenho dúvidas se ela pode nos dar alguma contribuição supressiva. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Mauricio Fruet. O SR. CONSTITUIÇÃO MAURÍCIO FRUET: – Concordo, em parte com o que o companheiro falou. Mas, aparar de política de cúpula desenvolvida pele ABM, ela possui assessores de alto gabarito, e tem propósitos interessantes. Apesar disso, entendo, como o companheiro, que ABM, hoje, não está representando na prática o pensamento dos prefeitos. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Submeto então ao Plenário: não incluiremos, na reunião do dia 22, conforme sugestão diz Constituinte Waldeck Ornélas, a Associação Brasileira de Vereadores. Faremos, numa segunda etapa, reunião com os vereadores. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Faremos em uma etapa posterior. Inclusive Sr. Presidente, relação aos vereadores, há normas atuais na Constituição vigente sobre remuneração, etc., que tenderão, necessariamente, a ser assuntos trazidos eles a esta comissão. Assim, acho que deveria haver uma reunião, um painel especifico, com os vereadores. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Esta Presidência vai tentar encerrar o assumo. No dia 22, às 9h30mim, teremos um painel com quatro expositores, membros da Frente Municipalista do Instituto Brasileiro de Administração Municipal, Frente Municipalista Brasileira, Associação Brasileira de municípios e confederação Nacional dos Municípios. Nos mesmos termos da outra: acordados nisto. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, uma indagação: qual será o tema deste painel? O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – O tema será Municípios e Regiões. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Primeiro, foi o das regiões metropolitana, especificamente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – É evidente que eles trarão acervo, a memória e a contribuição concreta que têm á Constituinte. Eles, evidentemente, organizarão os debates dentro da visão própria de cada entidade, município e região. O SR. CONSTITUINTE: – Seria bom estabelecer a condição entre o Município e a Constituinte. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – É uma boa sugestão para o titulo: "O Município e a Constituinte". Muito bem. Temos mais esta deliberação. O SR. CONSTITUINTE REIS: – Sr. Presidente, mais uma sugestão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Pois não, Constituinte Mello Reis. O SR. CONSTITUINTE MELLO REIS: – Que a Mesa conseguisse, junto às assessorias da Casa, grande para a nossa Comissão. Porque sabemos que existe na assessoria da casa grande material relativamente e este assunto de que estamos tratando. Então, acho que seria uma forma de sistematizar esta distribuição no sentido termo literatura sobre isto. Seria interessante para nós. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência vai providenciar. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Desejo fazer uma pergunta à Mesa. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Pois não, Constituinte Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Estes painéis seriam realizados aqui mesmo, na Subcomissão, ou haveria outro local? É que não vejo condições de o fazermos aqui. Primeiro, parque providenciasse o calor á está insuportável – e até pediria que se colocação de ventiladores nesta sala. Acredito que esta sala seja muito pequena, os palestrantes virão de acompanhados de seus assessores, e não caberiam todos aqui. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Objetivamente, olhando o espaço que temos e o número de presentes hoje, já podemos ter certeza de que não haverá espaço suficiente para a acomodação de todo o pessoal. Talvez pudéssemos fazer os painéis na Comissão. O SR CONSTITUINTE WALDECK ORNEIAS: – Que é mais quente do que este, aliás, e com menos recursos técnicos de gravação. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Poderemos fazer lá, ou até mesmo, se houver necessidade, Já Providenciar a reserva de um auditório. Se houver um excesso de presentes, como gastaríamos que houvesse, passaremos então parei um auditório. O SR. RELATOR (Aloysio chaves): – O plenário da Comissão se não houver reunião nesse dia, é o local Ideal. O SR. CONSTITUINTE: – Mas não está marcada uma reunião, lá, para o dia 22? O SR. CONSTITUINTE: – O Presidente estará em contato com o Presidente da Comissão e se certificará disso. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência assegura ao Plenário que teremos um local adequado e em boas condições. O SR CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Foi estabelecida a primeira reunião para o dia 22. às 9h 30 min, aqui. No dia 23, seda-feira, com a Associação Municípalista, e não pode coincidir com o horário da Assembléia Nacional Constituinte, pela manhã. Qual seria o horário? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Sexta-feira, dia 24? Ficamos com uma reunião dia 22, quarta-feira, e dia 23, quinta-feira. Dia 22, a Associação municipalista; dia 23, a Metropolitana e de Prefeitos das Captais. Creio que podemos caminhar para o final dos nossos trabalhos. Gostaria de saber dos Srs. Constituintes se alguém deseja se manifestar, por que a Presidência, antes de terminar, tem duas considerações a fazer. Tem e palavra o Constituinte Eliézer Moreira O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA – Apenas para não complicarmos, sobre a reunião dos vereadores, de 30 de abril a 5 de maio, achamos prudente definirmos logo uma data para o painel com os vereadores, porque eles já devem estar elaborando um calendário dos cinco dias de encontro em Brasília, quando se reunirão vereadores de todos os municípios brasileiros. Então, seria prudente comunicarmos com bastante antecedência que queremos ouvilos. Designaríamos imediatamente uma data para que eles tenham tempo de ajustá-la ao seu calendário. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Poderemos ouvi-los na semana que se iniciará no dia 27. Poderemos a ouvi-los no dia 28, por exemplo. Quando estarão aqui? O SR. CONSTITUINTE ELIÉZFR MOREIRA: – Eles estarão aqui dia 30? O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Vejamos o calendário, para termos uma sugestão a respeito da data. Em princípio, E iniciaríamos no dia 30, quintafeira. Seria um bom dia para fazermos essa reunião. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Eu estou em dúvida, porque dia 1º de março é feriado. Deve haver algum erro nessa informação deles. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Vamos, então, comunicar à União de Vereadores do Brasil que gostaríamos de ouvi-los o mais breve possível. Comunicar-me-ei com você por telefone, na terça ou quarta-feira, de preferência. Tem a palavra o nobre Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – para os dias 22 e 23. Existe a possibilidade de no dia 30 eventualmente ser ouvida e entidade dos vereadores? Não seria Interessante definirmos também hoje quem ouviríamos no dia 29 e, eventualmente, também no dia 30? Caso contrário, não DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) haverá tempo suficiente para convocarmos as pessoas ou as entidades para essa data. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência gostada de ter – e essa reunião no dia 22 seria fundamental – essa relação de Indicações e sugestões para as pessoas que ouviremos, até pare que não tivéssemos apenas uma visão absolutamente oficial do município brasileiro As associações de bairro, as organizações populares precisam ser ouvidas também. Então, a Presidência propõe à Comissão que seja ouvida e FEMAN – Federação de Associações Microrregionais do Estado de Minas Gerais que pode dar uma visão do conjunto dos municípios de Minas Gerais e, vale dizer, do Brasil todo, por lá se encontrarem a região mineira da SUDENE, o Vale do Jequitinhonha outra municípios ricos e prósperos. É uma sugestão. Mas precisamos de mais associações desse caráter para completar esse painel. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Sr Presidente, eu gostaria, se V. Ex.ª me permitisse, de formalizar um pouco a reunião, porque estamos fugindo ao assunto e, se começarmos a fazer discursos, perderemos tempo. A idéia de V. Ex.ª é no sentido de trazer o pessoal no dia 29? O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Sim, é o que estou propondo. O SR CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – E o que acham de, no dia 29, aproveitarmos a oportunidade e fazermos também um painel misto com associações de moradores? Podíamos trazer até um representante de um desses organismos que tratam do assado, e, como disse o companheiro, de um organismo que vai tratar de um assunto Institucional O que acham, então, de fazermos algo meio mesclado? O SR CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Ouviremos a Associação dos Prefeitos de Capitais – não sei se algum organismo – precisamos ouvir os prefeitos a fim de não dos municípios carentes, tomarmos conhecimento apenas de assados que Já estamos habituados a ouvir, deveríamos ouvir principalmente aqueles prefeitos dos municípios menores. Não sei qual seria o critério. Não sei se eles tem associações, mas, pelo menos, que pudéssemos convidar alguns prefeitos de municípios mais carentes, para ouvirmos também suas ponderações. Quem sabe pudesse dali nascer uma luz em benefício desses municípios. O SR. CONSTTFUNTE MAURÍCIO FRUET: – Permite-me um aparte? O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Pois não. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Sobre a idéia do companheiro, com certeza já se tem um quadro de municípios carentes Só gostada de prestar um breve esclarecimento. Os municípios menores, por incrível que pareça, com problemas seriíssimos, tem, proporcionalmente, uma situação muito melhor, a nível de arrecadação do que os grandes municípios brasileiros. Então, esse é um aspecto Interessante, e também uma constatação real. Deste modo. nesse sentido, no momento em que se trouxer uma associação, como no caso sugerido pelo Presidente, os pequenos municípios vão estar bem representados. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Mesmo porque a Federação de Associações Microrregionais pode dividir o seu painel em municípios miúdos, médios e intermediários. O SR CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Gostaria de fazer uma ligeira consideração sobre esse ponto, porque parece que estamos analisando, quando se fala em Federação de Associações Microrregionais, o problema através do angulo dos Estados mais expressivos, mais desenvolvidos. Nesse particular, concordo com o Constituinte Edésio Frias. No meu Estado, por exemplo, não temos qualquer federação, mas o município puro. Isso é válido para todo o Norte, até para a Amazônia. Parece-me que a preocupação do colega tem fundamento devemos ouvir os municípios que não estão participando de uma associação congregadora Assim, poderemos obter e extrair ensinamentos capazes de direcionar nosso trabalho para uma realidade mais palpável da situação municipal brasileira de hoje. Fico com esta idéia. até porque, sendo do Norte, conheço o meu Estado de ponta a ponta, todos os seus municípios, sei do drama por que passa o seu povo. O que existe na Amazônia hoje é válido para o Pará, para o Acre, para Rondônia para Roraima etc. Gostaria também de enfocar outro problema que foi levando. mas não o dissecamos. É a questão da ardência dos órgãos incumbidos do desenvolvimento regional, como a Sudan, e Sudene, Pareceme que essas entidades têm uma vivencia muito próxima das dificuldades dos municípios E é de fundamental importância ouvirmos estas instituições. Proporia, desde logo, que escolhêssemos datas inclusive para ouvir essas superintendências regionais. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Gostaria de apresentar uma sugestão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Gostaríamos de ouvir a sugestão do nobre Cantas Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Virão aqui, e não sei bem a data – o companheiro disse de 30 de abril a 5 de maio, mas não sabemos ao certo – vereadores de todos os municípios Seria Interessante que a Subcomissão pudesse nesse período, também contactar os municípios dessas cinco regiões, os mais carentes, e fazer um convite aos prefeitos para que viessem no mesmo período em que os vereadores estivessem aqui. Quem sabe se podíamos fazer um painel junto com esses prefeitos e com os vereadores, com a Associação ou a União dos Vereadores. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Permite um aparte? Talvez para chegarmos a um denominador comum. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência gostaria de Interromper o orador para colocar, objetivamente, que teremos os dias 28 de abril, terça-feira,29, quarta-feira, e 30, quinta-feira, para realização, de painéis. Poderíamos ter, por exemplo, o prefeito de um minúsculo município fazendo, dentro de um painel, sua exposição juntamente com uma federação de associações de moradores Agora, gostaríamos de teu as sugestões bar objetivas, para que fossem operacionais. 14 O SR. CONSTITUINTE EDÉSlO FRIAS: – Por isso sugiro que convidássemos – represento o Rio de Janeiro, mas sou pernambucano – o Prefeito da cidade de Moreno, em Pernambuco, que sofre tremendamente, apesar de ser quase região metropolitana do Recife. Poderíamos trazer também representantes de cidades do Sul, desde que os companheiros sugerissem. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Adendaria a essa sugestão que não podemos convidar os prefeitos “x” ou “y” Acho que devemos transferir responsabilidades. Para quem? Para as Associações Estaduais de Municípios, que selecionariam três ou quatro municípios carentes e os traria aqui. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Regimento fala em entidades é evidente que esses prefeitos devem vir representando entidades. A Presidência quer fazer uma colocação ao Plenário estamos estando período de exaustão da nossa reunião, na medida em que deixamos de ser até produtivos. Então, vamos fazer um feedback olhar as nossas atividades e na próxima reunião, todos já terão suas sugestões escritas, sistematizadas, fim de que possamos retomar e avaliar o início dos nossos trabalhos, convocar a Sudam, a Sudepe, a Sarem, para outro painel, quem sabe, na semana de 22 à 24 de abril. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Só gostaria de enfatizar que no painel do dia 23, que trata das regiões metropolitanas, devemos procurar nos circunscrever um pouco à região metropolitana e à Constituinte, para que tenhamos matéria estranha aos interesses Constituinte. O SR PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Esta será sempre a nossa tônica. Mesmo porque, vamos dizer, é o nosso assunto. Queremos contribuições para a Constituinte e para a Constituição. Isto vai constar de todas as correspondências que remetermos. A Presidência agradece a sugestão do Constituinte. Gostaríamos de fazer duas colocações ao Plenário: em primeiro lugar. pretendemos abrir sessão, quando aqui chegamos, mesmo que não exista número. Depois, a parti da existência de número, faremos a votação e as tomadas de posição. Hoje, inclusive, por não temos número no início da sessão, não determinamos a Ieitura da Ata o que se fará agora para a devida aprovação. Com a palavra, para proceder à leitura da Ata a Sr. Secretária de Subcomissão, O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Em discussão a Ata. Com a palavra, para discuti-Ia, o Constituinte Denisar Arneiro. O SR CONSTITUINTE DENISAR ARNEIRO: – Parece-me, Sr. Presidente, que a proposta apresentada, após a eleição, foi no sentido de que constasse da Ata que os três candidatos eleitos tiveram treze votos Entretanto, menciona-se Ata o fato de que tiveram doze votos e que foi feita uma proposta, depois, para que caso tendo sido treze. Então aquilo que se quase evitar se evidenciou: o constrangimento. 15 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Presidente concorda com o Constituinte. É evidente que melhor seria que isto não constatasse da Ata, levando-se em conta que a votação foi secreta.O reparo procede e será feita a revisão. A presidência tem conhecimento de que a Ata está exatamente como foi gravada, mas não é esta a questão. Percebe-se que a lembrança do Constituinte – que procede – é que se tentou, identificado o equivoco numa votação secreta, superá-lo, até por confusão na hora de votar. E o que aconteceu aqui foi a evidenciação do equivoco numa votação secreta. É uma questão realmente complexa, é um paradoxo. Procede, então, a observação, e a Presidência consulta o Plenário sobre se ata referência deve constar de Ata (Pausa.) Será feita ressalva na Ata, que será novamente datilografada, dobrando de constar ali ou os doze votos ou que todos tiveram o mesmo número de votos, de acordo com a proposta. Eliminaremos a proposta do Constituinte Mello Reis. A Presidência pergunta ao Plenário se há alguma ressalva à Ata. (Pausa) Não havendo mais ressalvas, está em votação a Ata. (Pausa) (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência irá orientar neste sentido. Pergunta ao Plenário se há mais alguma ressalva a Ata. (Pausa) Não havendo mais ressalvas, está em votação a Ata. Os Srs. Constituintes que a aprovam. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Já foi feita a ressalva e é evidente que seda outra Ata. A Ata seria aprovada com ressalva, pois a estaríamos votando com esta ressalva A Presidência consulta o Plenário, sobre se poderemos votar esta Ata na próxima reunião. Preferíamos que ela fosse votada na outra reunião, até porque não há número neste momento. (Intervenção fora do microfone Inaudível.) O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Aprovaremos as duas atas na outra reunião. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência, então, só alerta os Srs. Constituintes para que na nossa próxima reunião tragam suas sugestões por escrito, o esboço de organizações. A Presidência agradece a todos a presença e espera contar com os mesmos, aqui, sem falta, no dia 22, às 9:30. Está encerrada a sessão. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) ATA DA 2ª REUNIÃO ORDINÁRIA Aos nove dias do mês de abril de mil novecentos e oitenta e sete, às dez horas e quarenta minutos, reuniu-se esta Subcomissão, sob a Presidência do Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, na sala B-3, do Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF. Presentes os Senhores Constituintes: Aloysio Chaves, Relator, Eliézer Moreira, Waldeck Ornelas, Eraldo Trindade, Maurício Fruet, Vitor Buaiz, Mello Reis, Edésio Frias, Mauro Miranda, Lavoisier Maia, José Dutra, Denizar Arneiro e Raul Ferraz. Constatada a existência de quorum , foi declarada aberta à reunião. ORDEM DO DIA: Iniciando os trabalhos, o Sr. Presidente esclareceu que o objetivo da reunião era estabelecer o cronograma dos trabalhos a serem realizados, insistindo na necessidade do cumprimento dos prazos regimentais. Concedeu a palavra aos Srs. membros, solicitando fossem apresentadas sugestões. O Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves, expôs, a necessidade de se estabelecer quais as entidades a serem convidadas para apresentar subsídios a esta Subcomissão. O Sr. Constituinte Raul Ferraz lembrou que cada Constituinte tem sugestões pessoais a apresentar, fazendo referência a trabalho de sua autoria. Propôs ainda fosse feito pedido de prorrogação de prazo à Mesa da Assembléia Nacional Constituinte; o Sr. Waldeck Ornelas externou sua preocupação com a exigüidade do tempo, sugerindo fosse intensificado o número de reuniões: o Sr. Edésio Frias propôs que o IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal, fosse convidado para painéis a serem realizados por esta Subcomissão; o Sr. Maurício Fruet sugeriu que os Senhores membros tragam suas sugestões para elaboração de um esboço que servirá de proposta inicial. Participaram dos debates os Srs. Constituintes: Aloysio Chaves, Raul Ferraz, Waldeck Ornelas, Edésio Frias, Maurício Fruet, Mello Reis, Lavoisier Maia, Mauro Miranda, Eraldo Trindade e José Dutra. Submetido o assunto à discussão e votação, ficou decidida a seguinte agenda: dia 22 de abril – Painel sobre o tema "O Município e a Constituinte", com a participação das seguintes entidades: Frente Nacional Municipalista; IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal; ABM – Associação Brasileira de Municípios e Confederação Nacional dos Municípios; – dia 23 de abril – Painel sobre o tema "As Regiões Metropolitanas e a Constituinte: Propostas", com a participação das seguintes entidades: Associação dos Prefeitos das Capitais e Conselhos das Regiões Metropolitanas, ambos com início às nove horas e trinta minutos. A Ata da primeira reunião será lida na próxima reunião, pela inexistência de quorum para a votação. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a presente reunião, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. COMISSÃO DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO Subcomissão dos Municípios e Regiões ATA DA TERCEIRA REUNIÃO ORDINÁRIA Às dez horas do dia vinte e dois de abril de mil novecentos e oitenta e sete, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na Sala B do Anexo II da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a Presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. Compareceram os Srs. Constituintes: Eliézer Moreira, Aloysio Chaves, Denisar Arneiro, Eraldo Trindade, Alexandre Puzyna, Waldeck Ornellas, Mauro Miranda, José Dutra, Sérgio Brito, Maurício Fruet, Lavoisier Maia, Mello Reis, Nestor Duarte, Firmo de Castro, Edésio Frias, Ivo Cersósimo, Luiz Freire, José Viana e Raul Ferraz. O Sr. Presidente convidou os Srs. Constituintes Aloysio Chaves, Relator, Mauro Miranda, Primeiro VicePresidente desta Subcomissão, José Thomaz Nonô, Presidente, e José Richa, Relator da Comissão da Organização do Estado, bem como os Srs. Conferencistas Professor Diogo Lordello de Mello, Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM, e Dr. Nivaldo Krüger, Secretário-Geral da Associação Brasileira de Municípios – ABM, para tomarem assento à Mesa. Atas: Depois de lidas e submetidas à discussão, foram aprovadas, sem emendas, as atas da primeira e segunda reuniões ordinárias. Ordem do Dia: Iniciando os trabalhos, o Sr. Presidente comunicou que haveria uma alteração na ordem das exposições, dando então a palavra ao Professor Diogo Lordello de Mello, o qual manifestou seu agradecimento pelo convite recebido para estar na Subcomissão, falando pelo IBAM, que é um órgão técnico, apolítico. Após a exposição, o Sr. Presidente concedeu a palavra ao Sr. Nivaldo Krüger. O conferencista disse que a Associação Brasileira de Municípios aqui comparece, honrada, para trazer sua contribuição aos trabalhos desta Subcomissão. Em prosseguimento, o Sr. Presidente convidou o Sr. Baldonedo Arthur Napoleão, Prefeito de Barroso, Minas Gerais, para fazer sua exposição, como representante da Frente Municipalista Nacional. Com a palavra, o Sr. Baldonedo Napoleão agradeceu, em nome da Frente Municipalista feito pelo Sr. Presidente para participar dos trabalhos desta Subcomissão, fazendo, em seguida, sua exposição. O Presidente registrou a presença dos Srs.: Rubens Chemin, Secretário Executivo, e José Guedes de Campos Barros, Secretário-Geral da Frente Municipalista Nacional; Délio Leal, Prefeito de Paracambi, Rio de Janeiro; Arnaldo Comeglian, Presidente da Associação dos Municípios do Paraná e Prefeito de Barbosa Ferraz, Paraná; e Cláudio Gianini, Coordenador da Frente Municipalista Nacional, em São Paulo. O quarto expositor, Sr. Jorge Khoury Hedaye, Presidente da Confederação Nacional dos Municípios e Prefeito de Juazeiro, Bahia, agradeceu a honra de trazer seu depoimento com o sentido de participar dos debates da Subcomissão, ao lado de outros com- 16 panheiros municipalistas. Passou-se, em seguida, à fase dos debates. Com a palavra, o Sr. Constituinte Mauro Miranda parabenizou os conferencistas pelos belos trabalhos apresentados e inquiriu o Sr. Diogo Lordello sobre pontos conflitantes entre as quatro entidades. Esclarecendo, o Sr. Lordello disse não haver área de conflitos quanto à autonomia municipal; disse ainda que o IBAM trabalhou durante mais de um ano sobre as propostas ora apresentadas e que estas representam um consenso dos municípios. Seguindo a ordem da lista de inscrições, usou da palavra o Sr. Denisar Arneiro, que parabenizou o Sr. Presidente pela escolha dos órgãos que hoje aqui vieram. A seguir, referindo-se ao Imposto sobre Transporte Rodoviário, disse ter lutado para que os municípios ficassem com trinta por cento do mesmo. O Sr. José Dutra apresentou ao Sr. Diogo Lordello três questões: quanto à justiça municipalista; captação de recursos; e extinção do ICM e do ISS, que são o principal suporte de desenvolvimento da Amazônia Ocidental. Respondendo, o Sr. LordelIo disse que realmente o IBAM foi omisso quanto à justiça nos municípios, mas que esta era uma deficiência que deverá ser corrigida. O Sr. Nivaldo Krüger disse ter anotado três pontos polêmicos, porque inovadores: extinção do ICM e do ISS, exatamente para corrigir distorções no comportamento das rendas governamentais do País; aplicação dos recursos nos locais em que foram captados; contribuição de recursos para um determinado fim. O Sr. Waldeck Ornellas questionou sobre como diferenciar a tipicidade dos municípios na Constituição; o problema da criação de municípios pelo Estado ou pela União; propôs, a seguir, fossem feitas reuniões conjuntas com outras subcomissões sobre temas comuns às mesmas. O Sr. Presidente convocou uma reunião para as dezessete horas e quinze minutos, para a elaboração da agenda dos trabalhos, solicitando a presença e participação de todos os membros. O Sr. LordeIlo, respondendo ao questionamento do Sr. Waldeck Ornellas, disse que as peculiaridades locais são de tal ordem que a solução não é fácil; quanto à criação de municípios, a opção teria que ser feita pela União ou pelos Estados e que o IBAM optou pelos Estados. O Sr. Lavoisier Maia fez suas palavras dos Srs. Conferencistas e anotou coincidências entre propostas por eles apresentadas e outras suas que passou às mãos do Sr. Presidente, o qual determinou fossem tiradas cópias das mesmas e encaminhadas aos Srs. membros, Usaram ainda da palavra os Srs.: Ronaldo Carvalho, sobre o problema do ICM utilizado como chantagem pelos empresários contra os prefeitos; Mello Reis, sobre o poder de polícia dos municípios, principalmente quanto ao trânsito; Alexandre Puzyna, sobre reuniões conjuntas com as demais comissões que tratam de problemas municipais. O Sr. Presidente esclareceu que este assunto já havia sido abordado e que as reuniões seriam marcadas oportunamente. O Sr. Maurício Fruet externou sua esperança em que a nova Constituição alterasse profundamente a parte referente aos municípios. O Sr. Raul Ferraz disse que a bandeira da luta municipalista deveria ser a manutenção da Federação dos Estados, desde que os municípios não ficassem prejudicados; pediu, ainda, lhe fosse concedido prazo, como aos expositores, para que pudesse defender sua tese. Usando da palavra, a Constituinte Marluce Pinto expôs sua preocu- 17 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) pação quanto à possibilidade de uma reforma judiciária, ficando a justiça a cargo dos municípios. Terminada a fase dos debates, o Sr. Presidente registrou, ainda, a presença do Prefeito de Inhumas, Goiás. Agradeceu a presença dos conferencistas, que trouxeram uma contribuição efetiva às atividades desta Subcomissão. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a presente reunião, às treze horas e dez minutos, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, depois de lida e aprovada, será assinada pelo Senhor Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Havendo número regimental, declaro abertos os trabalhos da reunião da Subcomissão dos Municípios e Regiões. A Presidência convoca para compor a Mesa o Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves; os expositores presentes, Professor Diogo Lordello de Mello e Dr. Nivaldo Krieger. Considerem-se componentes da Mesa os Constituintes José Richa, Relator-Geral da Comissão Temática, e José Thomaz Nonô, Presidente de Comissão de Organização do Estado. Solicito ao Constituinte José Richa que tome lugar à Mesa. (Pausa.) A Srª Secretária procederá a leitura das atas das reuniões anteriores. (São lidas e aprovadas as atas da primeira e segunda reuniões ordinárias.) A Presidência informa ao Plenário que confirmaram a presença para a exposição o Dr. Rubens Chemim, Secretário Executivo da Frente Municipalista, que ainda não pôde chegar; o Professor Diogo Lordello, presente; Nivaldo Krieger, presente, e o Dr. Jorge Khoury, Presidente da Confederação Nacional dos Municípios. A Presidência vai dar início aos trabalhos, lembrando que temos presentes vários prefeitos, inclusive o Prefeito Baldonedo Arthur Napoleão, de Barroso, Minas Gerais, e os Prefeitos do Paraná, todos na Frente Municipalista. Vamos dar início, então, à primeira exposição deste nosso painel, lembrando aos Srs. expositores que terão vinte minutos para apresentarem o tema. O primeiro expositor é o Professor Diogo Lordello. Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Instituto Brasileiro de Administração Municipal, IBAM. Tem a palavra S. Sª. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Constituintes, demais pessoas presentes, prefeitos e outras autoridades. Em primeiro lugar, Sr. Presidente, Srs. Constituintes, quero dizer do grande desvanecimento do IBAM pelo convite que recebemos para trazer a esta Subcomissão – e, portanto, à Constituinte – o que pode ser uma contribuição do Instituto para a colocação da questão municipal no texto constitucional que se está elaborando. Embora o IBAM se tenha dedicado, desde sua criação, há 34 anos, à defesa da instituição municipal, isto não diminui, de modo algum, Sr. Presidente, a honraria que nos é concedida com esta presença aqui. V. Ex.as não estão, absolutamente, obrigados a convidar ninguém, e, por isso, reitero, é uma honra para nós estarmos aqui falando em nome do IBAM e podermos, em outras circunstâncias, colaborar nesse trabalho. O IBAM, como instituição técnica, absolutamente apolítica, de grande tradição no País e com um trabalho também muito grande no exterior, já executamos mais de 80 projetos fora do Brasil, na Ásia e até no Irã, no tempo do Xá, na África e na América Latina, sobretudo, tendo já estado presentes em 43 países, nessas atividades – embora engajado fortemente nos ideais municipalistas, procura, ser tão comedido quanto possível na apresentação de suas teses, ao longo de sua história, em congressos municipalistas etc. É tão comedido quanto possível, e esse "quanto possível" se entende porque o assunto da posição do município no sistema governamental do País é de tal importância que só se pode ser relativamente comedido pela paixão natural que suscita um tema dessa envergadura. Então, as nossas propostas buscam evitar todo tipo de extremismo nas suas colocações; evitar utopias, que sabemos que nunca se realizarão, porque a utopia última do município seria a anarquia. Alguns anarquistas acham que o núcleo do governo deveria ser o governo do município, e município pequeno. Acima dele não haveria Estado. Estamos longe de tomar posições desse tipo. Então, é essa a nossa orientação e o nosso entusiasmo pela questão municipal, porque o assunto é transcendente. Comentava há pouco com o Constituinte José Richa que sem descentralização não há democracia. Nenhum país conseguiu, até hoje, esse milagre de ter uma democracia funcionando sem um certo grau de descentralização. Pois mesmo com todo esse comedimento, mas sem poder fugir a um certo entusiasmo pelo assunto, propusemos, e o IBAM preparou, 18 propostas para serem consideradas pela Constituinte, a respeito de temas municipais. Este documento foi distribuído aos Constituintes. A primeira parte é o que eu chamo uma diátribe contra o centralismo. Isto não está dirigido à Constituinte, absolutamente. Isto é uma articulação mais geral. Mas as 18 propostas aqui estão, e não se referem especificamente às questões tributárias, a não ser en passant, porque podemos encontrar muito desacordo da parte de muita gente a esse respeito, mas novamente invocamos aí a nossa prudência. Achamos que é muito difícil dizer qual a participação dos municípios na receita fiscal do País, se não for posto um mínimo de ordem na desordem reinante no sistema de competências concorrentes, que faz com que um mesmo serviço, do mesmo nível, possa ser prestado, lado a lado, pela União, pelos Estados e pelos Municípios. Acontece com a União. Isso, para nós, é uma coisa tão ilógica que não permite que se saiba, que se possa fazer esse cálculo fantástico de quanto seria a parte que caberia aos Municípios. Além disso, sabemos que havia uma Comissão estudando o assunto, da qual participou uma pessoa do IBAM, a Drª Teresa Lobo. Ela apresentou estudos a uma Comissão do Ministério do Planejamento, cujas conclusões agradaram bastante ao IBAM. Isso não quer dizer que estejamos satisfeitos, que aquilo era tudo o que se podia obter, mas consideramos que foi um grande progresso. Acho que é uma contribuição muito grande para a Constituinte, e por isso mesmo evitamos entrar em certos detalhes da reformulação do sistema tributário, que transcendem à questão municipal, evidentemente. Portanto, aqui nas nossas propostas há coisas a respeito de finanças, como vamos ver, mas a essência disto, como estávamos confiando no trabalho dessa Comissão de Descentralização, que o Planejamento organizou, deixamos à parte, mesmo porque se nos perguntassem hoje, com toda sinceridade, quanto por cento o município deveria ter desses impostos etc... Acho que essa matemática não está ao nosso alcance, a menos que, ao mesmo tempo, disséssemos que não há lógica que numa mesma cidade possa haver viadutos federais, estaduais e municipais; postos de saúde federais, estaduais e municipais; uma rede primária de ensino municipal ao lado de uma estadual. Temos caminhos para evitar isso, pouco a pouco. Achamos que isso não se resolve da noite para o dia. Curitiba está dando um exemplo formidável, e outras cidades também, no sentido de articular-se com o INPS e cuidar do atendimento da população, sem o INPS estar presente, e acabaram-se as filas em muitos municípios onde isso ocorre. Essa delegação é uma etapa no processo. Juiz de Fora também tem uma experiência desse tipo com o INPS – está aqui seu ex-Prefeito, atual Constituinte, representando sua região. Portanto, enquanto não tivermos uma certa ordem no sistema de competência concorrentes, desafio alguém que diga que tem, matematicamente, solução. Isto não quer dizer que não se possam colocar números, como a Subcomissão colocou. Foi uma proposta razoável, longe de ser o ideal, mas a resposta ideal só será possível quando chegarmos a uma esquema muito mais lógico de repartição de encargos. É claro que sabemos que não podemos imitar a Dinamarca facilmente, onde 70% de todos os gastos públicos quem faz é o município, ou como função própria ou como função delegada. O Estado – quer dizer, a Nação – só tem 30% para as Forças Armadas, o Parlamento, a Coroa, o Governo central, as Cortes superiores e as relações exteriores. Nada mais. Não queremos propor isso, porque sabemos que não é fácil, mas um mínimo de ordem é necessário. Daí este esclarecimento, para não parecer que nos desinteressamos da questão das receitas. Absolutamente. Apenas achamos que ela está condicionada a isso. Sei que o tempo é limitado. Temos aqui 18 propostas, que mencionarei rapidamente. Algumas já foram consolidadas numa articulação que estamos fazendo. Estamos começando a fazer a articulação – vamos fazer rápido, para mandar para esta Subcomissão – de todas as nossas propostas. Já articulamos quatro proposições nesse documento distribuído, denominado "Autonomia Municipal". Aqui ainda caberia, num § 4º, a disposição sobre os Conselhos de Contas dos Municípios, que o IBAM propõe sejam generalizados. O que se faz hoje no Amazonas, no Ceará, na Bahia, no Pará, no Espírito Santo – são seis os Estados que têm isso – e em Goiás, gostaríamos que fosse generalizado. Cabana aqui um § 4º, mas isso foi feito com muita pressa. Atendendo, inclusive, a uma solicitação que nos fez DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) ontem o Constituinte Mauro Miranda, aqui presente, estamos apressando a articulação de todas as nossas propostas. Uma primeira proposta, e que pode ser a mais revolucionária, é a inclusão expressa do município como parte integrante da Federação. Sei que isso pode provocar escândalo em muita gente, mas, como dizemos aqui, a verdade é que cada federação é diferente. Não existem duas iguais. Entre todas as federações do mundo – em número de quatorze – ninguém conseguiu encontrar duas exatamente iguais, até hoje. Todas são diferentes, inclusive as anglosaxônicas, que têm muito em comum, mas são diferentes em pontos importantes. Propomos, então, que seja oficializado o que já acontece de fato. Juristas há que esposam essa tese. Eu a esposei há muitos anos, há 25 ou 30 anos, e ela foi defendida por muitos juristas, inclusive por Hely Lopes Meirelles: para efeitos práticos, o município já é elemento da Federação, constitutivo da Federação. E queremos fortalecer o município no Brasil temos de fortalecê-lo não só frente ao Governo Central: temos de fortalecê-lo também frente ao Governo Estadual. Esta é uma diretriz básica desse trabalho do IBAM. As conquistas que vêm de 1934 devem ser mantidas e ampliadas. Não temos de começar tudo de novo. As conquistas de 1934 formam importantes. A concretização da conquista da autonomia municipal, expressa em termos concretos, como está no papel distribuído, foi da maior importância, e isso veio em 1934. Essa é uma proteção não tanto contra o Governo Federal, mas sobretudo contra os Governos Estaduais. Sabemos que, com exceção de poucos Estados, é muito comum a interferência estadual sobre os prefeitos. Se em alguns Estados isso provoca uma reação tão grande que os governadores já não se atreveriam a fazê-lo, na maioria dos Estados os governadores se sentem muito à vontade para intervir. Essa é a primeira proposta. A segunda é de que os municípios tenham suas próprias leis orgânicas, como está dito aqui. A terceira é limitar os casos de intervenção no município aos mesmos casos de intervenção no Estado. O que for aplicado para o Estado o será para o município. E não pode ser de outro modo, se aceitarmos que o município é parte integrante da União, e mesmo se quisermos respeitar a autonomia municipal. A quarta é configurar a autonomia municipal pela eleição do seu governo. Outro ponto da luta do IBAM é a competência exclusiva para a prestação de serviços públicos de caráter predominantemente local, para evitar essas competências concorrentes, ainda que o processo possa ser gradual – não temos ilusão. E também para poder legislar supletivamente com a União e o Estado no que diz respeito aos serviços sociais. Os serviços que devem estar a cargo do município devem ser aqueles que dizem respeito ao dia a dia da população. Isso é o que acontece onde há verdadeira descentralização. Não tem mais nenhuma lógica, no Brasil de hoje, que o Estadomembro tenha escola de primeiro grau. Não tem, nenhuma lógica. Se isso não pode passar de uma hora para outra, que haja um processo gradativo, mas sabemos que se há um campo difícil para conseguir a descentralização é exatamente essa, porque a influência política da Secretaria de Edu- cação é de tal modo que os Estados vão pensar muito em fazer isso voluntariamente. Temos também outra proposta que é a de devolver aos Estados, por sua vez, o estabelecimento de condições mínimas para a criação de municípios. Trazer isso para a União, como reação a alguns abusos que se praticaram, não se justifica. O Estado deve voltar a fazer isso, desde que haja um plebiscito da população interessada, e também que o novo município seja obrigado a prestar determinados serviços, sob pena de ser extinto. Se criar um município que não faz nada durante anos seguidos, isso não tem lógica. Essa é uma proposta que também é esposada por outros órgãos municipalistas, no Brasil. Outra proposta é dar aos vereadores o mesmo tratamento, no que diz respeito a inviolabilidade e imunidade, que se concede aos deputados federais, senadores e deputados estaduais. A posição do IBAM é a de que os vereadores são agentes políticos, do mesmo modo que os prefeitos também o são, e a responsabilidade dos prefeitos deve estar na mesma linha adotada para os Governadores e para o Presidente da República. Fizemos um grande progresso considerando os vereadores e prefeitos agentes políticos. Não são funcionários, não estão sujeitos a nenhuma hierarquia que não seja o cumprimento da lei e das decisões judiciais. Também não quisemos entrar na questão metropolitana, porque sabemos que há muitos estudos sobre isso. O que dissemos aqui é que o município tem de estar presente nas entidades metropolitanas, na formulação de políticas e na administração. Não basta o tal Conselho Consultivo, é preciso que os municípios participem. Enquanto não se conseguir isso não se conseguirá região metropolitana funcionando em nenhum lugar do mundo. Fizemos no IBAM um estudo para a Conder – quando era Secretário Francisco Ornellas – de 45 regiões metropolitanas em 19 países. Só funciona a região metropolitana, nesses países de todos os tipos, se os municípios participam da gestão. Se os municípios são apenas ouvidos, não funciona. Na Holanda há três, e a única que funciona é onde os municípios participam, que é a de Roterdã. As outras duas não funcionam, porque os municípios não fazem parte do processo decisório. Uma outra proposta nossa é abolir a competência da União para legislar sobre remuneração de vereadores. A intromissão da União nisso só deu confusão. Não há nenhuma razão. A tradição brasileira sempre foi a de que isso é regulado pelos Estados e pelos municípios. Havia uma tradição, em muitos Estados, de que o vereador não era remunerado, e também funcionava. Então, que se deixe os Estados e os municípios resolverem essas questões. A União só veio conturbar a questão, quando se meteu nisso, nos últimos anos. Houve uma reforma em 1975, uma emenda constitucional, e uma lei complementar de 1985. Outra proposta é que os municípios participem de todos os impostos federais etc. Está na proposta que os municípios participem de todos os impostos federais – a proposta da Comissão de Planejamento trata disso – e também a abolição de quaisquer vinculações ou prioridades para a utilização pelos municípios de suas quotas dos 18 tributos partilhados, tanto federais como estaduais. Também a Comissão adotou isso exceto quanto ao Finsocial, o novo Fundo Social. Há normas a respeito da utilização disso, mas todos os demais dinheiros são livres. Outra proposta, que gostaríamos de ver implementada é destinada a evitar a manipulação no cálculo das transferências dos tributos partilhados com os municípios. Isso também se estende aos Estados, mas, naturalmente, aqui não tratamos de Estados. É no sentido de que haja representação das associações municipais, no caso das entidades municipalistas, nesse cálculo, para evitar essas manipulações constantes. De vez em quando o Governo Federal manipula tremendamente, e os Governos Estaduais também, em relação ao ICM. Isso só acabará quando a entidade municipalista puder representar e acompanhar. Considero esta uma das propostas de maior importância, não só para proteger os municípios dessas manipulações, mas para fortalecer o movimento municipalista. Poucas coisas dariam mais força ao movimento municipalista, no Brasil, do que a Proposta nº 12. A de nº 13 diz respeito à revisão dos critérios para lançamento do Imposto Territorial Rural, mas disso a reforma já cuidou, porque havia tantas manipulações, tantas taxas adicionais, que, de imposto mesmo, era a terça parte o que o município recebia, e a União ficava com dois terços, com o nome disfarçado de taxas, que iam para o Incra. A 14ª proposta é a abolição da competência para fixar alíquotas, conceder isenções de impostos municipais, legislar sobre tributos municipais, salvo quanto a conflitos de competência e regulamentação das limitações constitucionais ao poder de tributar. Essas isenções, concedidas à custa dos Estados, afetam os municípios. Afetam os Estados – o Rio Grande do Sul sofre muito com isso, e muitos Estados sofrem com o ICM – e os municípios pegam a rebarba desse problema. Quanto às limitações às alíquotas municipais, não tem cabimento. Creio que a Comissão de Interpretação do Planejamento, tratou disso bastante adequadamente. Pode ser que haja algum aperfeiçoamento a ser feito. Uma outra proposta, esta sim uma proposta muito importante. Estava na hora de acabar, no Brasil, com as transferências negociadas. Isso agora do "pires na mão", a necessidade de agir de acordo com os olhos de quem pede – sabemos que "cor dos olhos" quer dizer outra coisa, não é? – isso deveria ser limitado exclusivamente ou a caso de calamidade pública ou quando se tratar de realização de planos e programas com objetivos claramente definidos, onde esteja prevista a participação estadual ou municipal na sua implementação. O que propomos é que acabem as transferências negociados, esses pedintes de "pires na mão", tanto em relação aos Estados como em relação aos municípios. Que não haja transferências negociadas da União para os Estados e municípios e não haja transferências negociadas dos Estados para os municípios. Muito bem. Só faltam duas propostas. Restituição ao Poder Legislativo Municipal do direito de iniciativa de leis de caráter financeiro que envolvam despesas. Isso afeta Congresso, as Assembléias Legislativas e as Câmaras Municipais. Não podemos continuar com um sistema no qual o Executivo é o dono absoluto do orçamento. Fal- 19 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) tou a devida coragem a quem fez o texto que aí está de dizer que o Legislativo não tem nada a ver com o orçamento, ao invés de usar o circunlóquio que usou. Mas é o que acontece de fato. Isto tem de acabar, nos três níveis. Funcionou assim, bastante bem, durante muito tempo, mas sempre houve correção dos abusos. A 16ª proposta trata da iniciativa de leis de caráter financeiro que envolvam despesas. Cometeram-se abusos muito grandes no passado. A 17ª proposta trata do restabelecimento da competência do Legislativo para alterar ou mesmo rejeitar a proposta orçamentária. Finalmente a 18ª proposta do IBAM é no sentido de que se universalizem os conselhos de contas ou Tribunais de Contas estaduais para cuidarem de assuntos municipais. O IBAM acompanha a experiência de seis Estados brasileiros a respeito: Bahia, Goiás, Amazonas, Pará, Maranhão, Espírito Santo. Vimos que é uma experiência muito boa. Esses Tribunais ou Conselhos de Contas municipais conhecem muito melhor a realidade dos municípios do que os Tribunais de Contas estaduais, que têm de cuidar de muitas coisas. Essa experiência é boa, e queremos que cada Estado tenha um Tribunal ou conselho de Contas como órgão auxiliar da Câmara no controle externo das contas municipais, sem mudar o resto. O que propomos, é a universalização da experiência desses seis Estados. Sr. Presidente, são estas as propostas. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência informa ao Plenário que após as exposições haverá debates com os Srs. Constituintes, que podem argüir os expositores nos temas que acharem conveniente. Passamos a palavra ao Dr. Nivaldo Krieger, Secretário-Geral da Associação Brasileira de Municípios – ABM, que disporá de vinte minutos para sua exposição. O SR. NIVALDO KRIEGER: – Sr. Presidente desta Subcomissão, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, Senhores integrantes da Mesa, Srs. Prefeitos, Srs. Constituintes, a Associação Brasileira de Municípios comparece honrada e altamente distinguida com o convite para participar desta Subcomissão, com sua opinião, com seus pontos de vista. A Associação Brasileira de Municípios tem uma história. Ela surgiu antes da Constituinte de 1946; dela participou e, durante esse período, até o presente, lutou pela autonomia, pela independência, pelo bem-estar e pela eficiência do município brasileiro. Hoje, estamos diante de um momento muito especial e a presença das áreas municipalistas do País tem um significado muito importante. Trouxe um trabalho, que já foi distribuído, ao qual não me aterei, fixando-me apenas nos pontos essenciais. Iniciamos pela afirmação de que já tínhamos conhecimento do trabalho do IBAM, uma vez que já foi distribuído aos Municípios brasileiros há algum tempo. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – É do ano passado. O SR. NIVALDO KRIEGER: – Exatamente. Seria redundante repetirmos as afirmações feitas pelo primeiro expositor. Cabe-nos o dever de concordar com a maioria destes itens, fazendo deles também a nossa proposta, se assim permitir o IBAM. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Isto só honra o IBAM. O SR. NIVALDO KRIEGER: – Seria redundante afirmar pontos já abordados. Entretanto, queremos referir-nos de forma sucinta a algumas questões que nos parecem fundamentais e que não estão enfocadas neste trabalho. A primeira é qualificar o município como ente federado. A Constituição atual não define o município como ente federado. E a Federação, regida pela nova Constituição, definiria como entes federados a União, os Estados e os Municípios. Esta é a posição da Associação Brasileira dos Municípios. Conseqüentemente, é nosso desejo a confirmação do princípio da tripartição dos poderes – União, Estado e Município –, definindo-se na Constituição o município como ente federado. Os aspectos relacionados à reforma tributária deixarão de ser abordados nesta Subcomissão porque há outra Subcomissão tratando do mesmo tema. Entretanto, a autonomia do município está profundamente ligada à questão tributária, em função das rendas. Queremos ater-nos ao tema desta Subcomissão: municípios e regiões. Começaríamos por afirmar que não é possível mantermos a saúde da Federação sem considerarmos as grandes disparidades regionais, as grandes diferenças econômicas, culturais e físicas de nosso País. Talvez este seja um dos fulcros principais das crises constantes que a República, que a Federação, que a Nação, que o País vem enfrentando ao longo do tempo, em conseqüência da injustiça na distribuição dos meios e dos recursos. Como proceder? Também há neste caso uma vertente do IBAM: a tipificação dos municípios, com o que estamos plenamente de acordo. Será impossível reorganizarmos a Federação com base num princípio genérico, tratando igualmente entes desiguais. Essa desigualdade das regiões – para nos atermos ao tema da Subcomissão – precisa ser considerada. Para isso, é preciso também que, dentro das regiões, sejam consideradas, objetiva e, praticamente, as condições peculiares de municípios típicos e atípicos. Citaria alguns exemplos: um centro siderúrgico num município portuário, um centro minerador num município rural, um município dormitório, um município tipicamente rural, um município com grande base física e um município tipicamente urbano. Citaria o caso de Nilópolis, no Rio de Janeiro, com 156 km , com um teto de 500 mil habitantes. Essas atipicidades, essas diferenças municipais e regionais precisam ser tratadas de forma específica na Constituinte. Sobre esse aspecto – pedimos licença aos Srs. Constituintes para chamar-lhes a atenção – são importantes os procedimentos na composição da distribuição dos meios, segundo sua própria origem, segundo sua própria geração, e também segundo seu consumo, de forma que um centro assim caracterizado não produza uma terrível distorção no município onde existem ainda tremendos estímulos a desmembramentos artificiais, produzindo anomalias inaceitáveis dentro de um sistema que precisa ser justo. 2 Por exemplo: localiza-se uma determinada fábrica numa queda d'água, no extremo de um município, que até então não passava de um pequeno distrito. Passa aquele centro a se constituir na maior fonte geradora de receita. Imediatamente se propõe o seu desmembramento e o município-base fica totalmente desprovido daquele recurso, sofrendo conseqüências terríveis, pagando um preço muito alto em conseqüência dos efeitos colaterais produzidos. Aquele município, então, passa a viver uma atipicidade, transformandose num município riquíssimo, poderoso, sem, contudo, dar uma contribuição efetiva ao conjunto. A idéia da ABM é fortalecer a Federação, a unidade nacional, criar um clima nacional de entendimento entre regiões pobres, regiões ricas, municípios altamente industrializados, municípios rurais, municípios pobres. De que forma? Através de uma correção no sistema tributário, a qual proporemos na sexta-feira na Comissão Temática, para que se procure atingir esse ideal de fazermos a Federação forte, unida, onde as populações que vivem no território dos municípios sintam que são contribuintes e que também recebem a solidariedade de outros grupos altamente beneficiados por um sistema que se revelou profundamente injusto, como o atual. Para ilustrar esta afirmativa, gostaria de citar como exemplo gritante a evasão de riquezas extraídas pelas instituições captadoras de recursos para o sistema financeiro nacional. O esforço de um grande grupo de brasileiros, num determinado território, acaba frustrando-se pela falta de projetos locais, pela falta de incremento às atividades locais, porque o nosso sistema legal permite que esses recursos sejam totalmente sugados e aplicados, sem nenhuma discriminação, no processo de desenvolvimento nacional, segundo interesses de grupos financeiros que captam os recursos, não obedecendo a alguma parcela de interesse das fontes geradoras do recurso. Estamos propondo que se inclua na Constituição um parágrafo obrigando os organismos captadores de poupança a aplicarem determinado percentual dessa arrecadação em programas e projetos locais. Dois pontos altamente positivos surgem daí: a importância de permanecer um percentual dessa poupança na localidade e o conhecimento, a capacidade das instituições financeiras de colaborarem com o Governo e com a comunidade local em projetos viáveis na região, concorrendo para a descentralização do sistema econômico e do desenvolvimento econômico que se concentra negativamente em pólos muito conhecidos, como São Paulo e outros. Por outro lado, os municípios buscariam o rumo da promoção do seu desenvolvimento, implantando uma nova concepção de desenvolvimento, um novo conceito de governo local, porque sendo o município considerado ente federado, passa a ser realmente uma esfera de governo. Quando o município for pequeno ou se sentir frágil para enfrentar problemas de desenvolvimento regional – atenho-me ainda, à questão do município e regiões – deverá associar-se a outro grupo de municípios ou a outros municípios afins e, em conjunto, promover projetos que escapariam da órbita, quase que exclusiva, hoje, do financiamento através dos órgãos oficiais, obrigando essas entidades a aplicar, com absoluta DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) segurança, os recursos captados na fonte geradora dessa riqueza, que são os particulares, venha ela da agricultura, da indústria, da pecuária, e sobretudo da zona rural, gerando um percentual de riqueza que se evade. Muitas vezes nós, os municipalistas, nos deparamos, perplexos, com o fato de as populações rurais e locais exigirem dos governantes providências que não estão a seu alcance, porque essa realidade não foi percebida e não houve um processo legal de estancamento dessa sangria que empobrece o interior brasileiro. Não consta da proposta do IBAM, mas queremos aduzir como sugestão a necessidade de o município instituir uma contribuição – hoje, este poder não lhe pertence, nem aos Estados, somente à União – através da sua Câmara de Vereadores, dentro do princípio da autonomia do município, dentro do princípio constitucional de peculiar interesse, que duraria apenas durante o mandato do prefeito que a instituiu, para que não se adentre num processo comprometedor ao longo do tempo; uma contribuição que possa permitir à sociedade local resolver um problema para cuja solução ela não dispõe de meios nem de recursos. Nas nossas andanças municipalistas muitas vezes nos deparamos com prefeitos diante de uma exigência da sociedade e a inviabilidade de sua realização por absoluta falta de competência do município para gerar a renda, o recurso. A ABM propõe que essa prerrogativa que hoje só pertence à União seja estendida também aos municípios, dentro do conceito de autonomia. Sugerimos ainda que seja melhor definido o que está contido na Constituição de 1891 e nas que a sucederam, a de 1934, a de 1937, a de 1946 e a de 1967, com relação ao peculiar interesse: "Tudo quanto for de seu peculiar interesse, pertence à atribuição do município". Mas o que é seu peculiar interesse? Gostaríamos que fosse destacado o poder de propulsão que o município detém para promover o desenvolvimento no seu meio, com esfera de governo igual ao Estado, igual à União. Hoje, apenas os Estados e a União dão-se ao luxo de propor programas de desenvolvimento. Se o município quiser ter um programa de desenvolvimento, terá de romper uma cadeia e bater às portas do Estado e da União, cujos interesses nem sempre coincidem com os da própria localidade. E ainda um destaque especial para a automaticidade das transferências. Trata-se de uma grande conquista, que dá à localidade muita personalidade e às populações locais a sensação de realmente viverem uma plena autonomia. Tal conquista deve ser preservada e ampliada dentro de critérios de especial justiça e de eqüidade que se quer estabelecer na nova Constituição, pois o sistema tributário nacional é extremamente iníquo. Para encerrar, e ilustrando esta afirmação, rapidamente mencionaremos dois dados, que já são do conhecimento de V. Ex.ª para reforçar a nossa posição de desejo de alteração de um processo e não de remendo do processo existente: a interrupção do ISS. Extinguir o ICM, o ISS e interromper a cobrança de alguns tributos que devem ser incorporados a outros sistemas, assunto que será tratado na próxima reunião, sexta-feira. Para que se tenha uma idéia, um dos problemas mais graves do sistema tributário atual é a pro- funda regressividade. O que tem menos paga mais. As camadas mais ricas, que representam 20% da população, contribuem com apenas 7,5% da sua renda no processo tributário. As camadas médias, com 15% e as de baixa renda, com 25%. Então, interromper a regressividade e propor um processo progressivo parece-me que estabeleceria eqüidades. Estabeleceria eqüidades e extinguiria a iniqüidade que se perpetuou ao longo do tempo. Depois de vinte anos de vigência do sistema tributário é possível fazer-se dele uma análise correta. Este dado final é o tiro de misericórdia sobre um sistema que conscientemente precisa ser interrompido. Recai sobre o trabalho até 50% de contribuição. Se duas pessoas percebem os mesmos valores, uma pelo seu trabalho e a outra pela renda do capital, aquela pode pagar até 50% e esta receber estímulos. Então, há um privilégio para os ganhos de capital. Finalmente, é este quadro desastroso que quero deixar registrado para formarmos consciência da necessidade de interrupção deste processo e não partirmos para uma posição de remendo, que não vai consertar a situação. O desajuste evolutivo das receitas da União e Estados em relação ao crescimento da renda interna. A União, durante a década de 70, até o ano de 1983, manteve uma média de 11% da sua receita, dos seus rendimentos sobre a geração da renda nacional. O que aconteceu com os Estados e os municípios? Na década de 70, os Estados tiveram reduzida sua participação de 8% – já estavam aquém em função do ICM, que é um tributo de produção e não de consumo – para 3% em relação à União. Na década de 70 até 80, caíram de 8% para 5,8%. Há informações – não são dados que eu possa registrar nesta Subcomissão – de que hoje esta participação estaria apenas em 4% em relação à renda. Daí o drama dos ex-governadores, dos governadores atuais, dos prefeitos: debatemse diante das dificuldades e muitas vezes batem na tecla errada, pedindo a correção apenas do Fundo de Participação, quando isto não é a solução. Aumentar 2% do Fundo de Participação é um engano, um erro. É preciso reformular em profundidade o sistema, que, além de ser altamente regressivo, premia extraordinariamente a União, que tem a prerrogativa da arrecadação, como ocorreu ao longo do tempo através de outros tributos, e a prerrogativa de fazer concessões em cima do ICM com recursos que pertencem aos Estados e aos municípios, concessões que muitas vezes são altamente danosas à economia do Estado, que, sem nenhuma outra compensação, produziram este quadro terrível e indefensável. Então, neste momento, a Associação Brasileira de Municípios vem propor o fortalecimento do município, das regiões, através da interrupção de um sistema iníquo que já não serve mais ao tempo em que nos encontramos. Assim, encerro estas palavras agradecendo a atenção de todos e colocandome modestamente à disposição de quantos aqui se encontram para o debate que se estabelecerá em seguida. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita aos Srs. Constituintes da Subcomissão que não deixem de assinar o livro de presença. 20 Lembra, ainda, que aqueles que quiserem fazer indagações aos expositores devem inscrever-se na folha própria. Concedo a palavra ao expositor da Frente Nacional Municipalista, o Prefeito de Barroso, Sr. Baldonedo Arthur Napoleão, que terá também vinte minutos para fazer a sua exposição. O SR. BALDONEDO ARTHUR NAPOLEÃO: – Sr. Presidente, Srs. membros da Mesa, Srs. Constituintes, companheiros prefeitos, Srs. assessores municipais e Srs. vereadores aqui presentes. Em primeiro lugar, em nome da Diretoria da Frente Municipalista Nacional, agradeço ao Presidente da Subcomissão pelo convite que nos fez para participarmos desta sessão. Quero pedir licença aos companheiros da Frente Municipalista e da ABM para ressaltar não só como prefeito, mas como um profissional de administração pública, a importância da presença nesta reunião do IBAM, especialmente representado pelo seu grande fundador, criador, idealizador e, sem dúvida nenhuma, um dos maiores conhecedores da questão municipal no Brasil, Professor Diogo Lordello de Mello, a quem peço licença para falar sobre esta matéria, como seu ex-aluno na Fundação Getúlio Vargas, e de quem tirei as primeiras razões para me dedicar à profissão da administração pública, especialmente da administração municipal. Gostaria de informar que a Frente Municipalista Nacional está desenvolvendo seu trabalho em duas direções. Uma diz respeito à reforma tributária de emergência, que trouxe a Brasília, há poucos dias, mais de dois mil prefeitos e mais de mil vereadores. A referente proposta está neste momento nas mãos dos Ministros Aníbal Teixeira e Dilson Funaro, num processo de discussão de cada reivindicação que os municípios brasileiros, através da Frente Municipalista Nacional, apresentaram ao Governo federal. A outra direção, como não poderia deixar de ser, é a da Constituinte. Havíamos programado uma reunião na semana passada, aqui, em Brasília, com o Ministro Aníbal Teixeira, para tratar da nossa proposta de reforma tributária de emergência, e, também, para o dia seguinte, uma primeira reunião das entidades municipalistas nacionais, para tentarmos consolidar em um documento uma proposta do movimento municipalista brasileiro a ser encaminhada aos Srs. Constituintes. Em decorrência de um pedido do Sr. Ministro, que não havia tratado ainda, de diversas questões com o Ministro da Fazenda, adiamos a reunião. Estava programada a presença, nessa reunião, do IBAM, da Confederação Nacional dos Municípios, da Frente Municipalista e da ABM. Esta era, e é ainda, nossa intenção. Gostaríamos de oferecer subsídios com mais profundidade e mais detalhes para esta Subcomissão. Esperamos fazer esta reunião na próxima semana aqui, em Brasília, para que possamos discutir os enfoques ligeiramente diferenciados das entidades municipalistas nacionais, de maneira a facilitarmos, o mais possível, o trabalho dos Srs. Constituintes no que diz respeito ao nosso pensamento, para o melhor entendimento das nossas reivindicações. De maneira que o que temos a dizer aqui, como contribuição da Frente Municipalista, é que nós temos, nestes últimos meses coletado relatórios, atas, manifestos de associações microrregionais 21 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) de municípios, de encontros regionais de municípios pelo País afora, de documentos como o do IBAM, aqui apresentado hoje pelo Prof. Lordello, na tentativa de tomarmos posição a respeito de cada item, de maneira objetiva clara e precisa, a ser encaminhada à Constituinte. Esse documento – e repito – deverá ser finalizado na próxima semana, com a participação também da Confederação Nacional de Municípios. Entendemos que todo esforço deve ser feito por nós, prefeitos, que estamos agora com a responsabilidade de administrar os municípios neste tempo de Constituinte, no sentido de ultrapassarmos os limites das nossas instituições, para colaborarmos com os Srs. Constituintes, no sentido de que realmente a nova Constituição promova a Federação, o fortalecimento dos municípios. Entendemos ser esta uma gigantesca tarefa. Conhecemos os vícios do sistema políticoadministrativo que vigora no País. Entendemos os vícios autoritários, os vícios centralizadores, os vícios autocráticos, burocráticos e tecnocráticos que dominam principalmente a máquina de Brasília. Entendemos ainda ser da maior importância o trabalho desta Subcomissão. Nós, da Frente Municipalista Nacional estamos prontos a colaborar, Sr. Presidente, em todos os momentos, e estamos acompanhando de perto o trabalho que se está iniciando aqui nesta Subcomissão. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para mencionar aqui algumas das posições já cristizadas nas discussões que temos tido na Diretoria da Frente Municipalista Nacional e nos nossos encontros, principalmente com referência a colocações aqui feitas pelo Prof. Lordello. Eu mencionaria as seguintes. A questão da organização municipal tem de ter a participação do próprio Governo municipal, principalmente por termos a obrigação de respeitar a diversidade de situações no País. É preciso que a Constituição respeite a necessidade da definição de uma tipologia de municípios brasileiros. Inclusive, tenho conhecimento da experiência de outros países, onde os governos municipais são adequados, em países com administração mais desenvolvida do que a nossa, em que as administrações municipais não se limitam apenas ao modelo nacional, elaborado à distância, mas respeitem, na medida do possível, e dentro dos limites de recursos disponíveis, tipo de vida, o tipo de modelo econômico, de modelo social, o tipo ecológico de cada município brasileiro. Não poderemos, de maneira alguma, conviver com legislações determinadas a partir de Brasília e até dos Estados, que impõem aos municípios as mesmas exigências. Esta é uma das maiores contribuições que a Subcomissão poderá dar ao município, brasileiro, a possibilidade de ele mesmo estabelecer o seu próprio perfil de administração municipal, a sua própria Lei Orgânica. Que haja algumas orientações federais, evidentemente, e até estaduais, mas que o município possa, com a capacidade de entender sua própria realidade, definir como administrará os seus próprios serviços, seus próprios problemas e, principalmente, como usará seus próprios recursos. De maneira que a proposta do IBAM, de participação do município na elaboração da sua Lei Orgânica, é uma das bandeiras da Frente Municipalista Nacional. Isto está relacionado a outra proposta do IBAM, que é a de que os serviços públicos de natureza local sejam executados pelas prefeituras. Não entendemos como um país pobre, um país de recursos financeiros limitados na sua administração pública possa dar-se ao luxo do paralelismo, da superposição. Não entendemos como um governo federal se disponha a dar recursos para merenda, para educação pré-escolar, para educação comunitária, para educação de primeiro grau, ao mesmo tempo em que as Prefeituras – que têm os seus governos montados, os seus Departamentos de Educação, suas Secretarias de Educação, seus órgãos municipais de educação – estejam lá conhecendo a realidade, vivendo a realidade e tendo que dar soluções para esses mesmos problemas, para essa mesma comunidade, com recursos escassos. Está aqui a grande luta do municipalismo e uma grande área para que esta Subcomissão estabeleça o limite, para que o Estado queira ir ao município. Principalmente Estados grandes, como acontece, no País, com as capitais tão distantes dos municípios do interior, se propõem a manter um aparato enorme, muitas vezes caro, absurdamente ocioso, quando o município poderia estar fazendo isso com muito menos recursos. A imprensa divulga o pronunciamento de autoridades federais dizendo que o que o município faz com um, o Estado faz com três, e o Governo Federal faz com dez. Nós queremos que isso saia da retórica, saia da imprensa apenas e passe para a realidade. Que o município tenha competência e recursos para atuar nesta área de prestação de serviços públicos tipicamente locais. Outra coisa – e o companheiro Nivaldo falou aqui, no final da sua exposição – é a necessidade de que a participação dos governos municipais na distribuição de tributos arrecadados pelo Governo federal e pelos Governos estaduais seja feita de maneira automática, como agora está acontecendo em muitos Estados com o IPVA. O contribuinte mesmo é quem faz a conta dos 50% que cabem ao Estado e dos 50% que cabem ao Município. Não entendemos como, até hoje, o FPM, a principal receita para mais de 80% dos municípios brasileiros, demore mais de 70, 80, às vezes 90 dias para chegar aos cofres municipais, a partir do momento em que o imposto de Renda e o IPI são arrecadados pela máquina do Governo. Não entendemos, como os computadores federais ainda não estejam dando soluções aos problemas como esse – exatamente no Fundo de Participação, que significa a vida para mais de 80% dos municípios brasileiros. Gostaríamos que a nova Constituição estabelecesse o princípio de que a transferência, para os municípios, desses recursos administrados pelo Estado e pelo Governo Federal seja automática. Outra questão levantada aqui é a da necessidade da participação do Movimento Municipalista, das entidades municipalistas no processo de arrecadação, de distribuição e na fiscalização mesmo da administração dos tributos estaduais e federais. É um absurdo, que eu gostaria de aqui ressaltar em caráter de denúncia, que o País chegue ao final deste século sem os governos municipais, nem os Governos estaduais saberem quanto o Governo Federal está arrecadando nos limites dos municípios e nos limites dos Estados, e quanto ele está distribuindo. Vivemos – na mi- nha opinião pessoal – em um quadro romântico de infinita confiança na seriedade e na competência das burocracias estaduais e federais, que arrecadam e manipulam os recursos, que são propriedade dos Municípios e dos Estados. Isto é também democracia. A transparência – como está na moda dizer na Nova República – tem que acontecer na arrecadação, na administração e na distribuição dos recursos dos tributos partilhados. Gostaríamos de ver na Constituição estabelecida a garantia de que o município, soberanamente, dentro dos limites da sua autonomia tenha a possibilidade de, através, por exemplo, das suas entidades representativas, participar das informações dos organismos arrecadadores dos Estados e dos municípios. Temos lutado no sentido de que seja não apenas limitada, mas abolida a competência da União para dar isenção de tributos, como acontece hoje com o ICM, isento nas exportações dos produtos manufaturados. O ICM é da competência dos Estados, sendo 80% para os Estados e 20% para os municípios. Não entendemos sob que alegação, com base em que, com que justiça a União fica, segundo informações que temos, com 70% da renda pública nacional e também com o poder de dar isenção de tributos estaduais e municipais nas suas políticas econômicas. Entendemos que isso não é da competência da União, fere a autonomia dos Estados, dos municípios e a Constituição. Gostaríamos, Srs. Constituintes, que a nova Constituição que o País receberá, forjada, elaborada pela suas mãos, não permita nunca mais que um órgão do Executivo Federal, sob qualquer alegação, descumpra uma determinação da própria Constituição. Não entendemos como o Congresso Nacional, na sua soberania, no seu papel de representante do povo, no seu papel de emendar a Constituição, possa conviver com o que está acontecendo hoje, com o Imposto sobre Transporte Rodoviário por exemplo. Esta Casa, por unanimidade, concedeu 20% do Imposto sobre Transporte Rodoviário aos municípios – o ISTR – e o Executivo Federal, desrespeitando essa determinação soberana do Congresso Nacional, nunca transferiu os 20% do ISTR aos municípios. Não entendemos como o País possa falar em democracia, em soberania, em Federação, se fatos como este acontecem impunemente. Os 20% desses recursos arrecadados pelo Governo Federal não estão sendo transferidos aos municípios. São recursos vultosos para os municípios médios e grandes, que têm um grande sistema de transporte rodoviário, quer coletivo, quer de mercadoria. Nós não entendemos como fatos assim possam acontecer da maneira como ocorrem. Nós, através da Frente Municipalista Nacional, pressionados até o Presidente da República no sentido que desse uma solução, e estamos sabendo que falta regulamentar a matéria. Não entendemos como pode acontecer tal fato. Esperamos que a Constituição soberana do País, do final do século, não permita que isso continue ocorrendo e que autoridade, de qualquer nível, seja cobrada e punida pelo não-cumprimento da Constituição em matéria tão importante. Outra questão levantada aqui, que a Frente Municipalista apóia fortemente, diz respeito a transferências negociadas de recursos. Os Deputados DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) são políticos, os Senadores são políticos, os governadores são políticos, os prefeitos são políticos, mas acho que perante o futuro do País, perante a consciência nacional, não temos condição de continuar de cabeça erguida sabendo do que passo a relatar. É uma informação oficiosa que obtive de um técnico da Secretaria de Planejamento da Presidência, quando negociávamos a Reforma Tributária de Emergência de 1985. Esse técnico me afirmou que tinha conhecimento de que, por incrível que pareça, um terço dos recursos federais são transferidos aos Estados e Municípios através de negociação. Não são recursos transferidos por determinação da Constituição. Peço aqui licença aos Senhores – como modesto Prefeito do interior do Brasil – para dizer que, com a promulgação da nova Constituição, que há de honrar o nosso compromisso com o futuro, que há de honrar essa grande esperança do povo brasileiro num país justo, num país democrata, não poderemos mais admitir que esses recursos que são do povo sejam manuseados e manipulados, através de critérios personalistas, partidários, regionalistas, que nada têm a ver com a soberania de uma Constituição, com um país independente, com um país livre como queremos que seja o nosso. De maneira que endossamos plenamente a proposta do IBAM de limitar as transferências negociadas ao essencialmente necessário. Para terminar, gostaríamos de ver também, como o IBAM em todos os Estados, os Conselhos ou Tribunais de Contas fiscalizam e acompanharam a aplicação dos recursos públicos dos municípios. Os crimes de responsabilidade dos prefeitos devem ser punidos para que o Brasil seja nivelado por cima e não por baixo, para que o Governo Federal nunca mais, em regime algum, possa dizer que os prefeitos são incompetentes, são desonestos e que não sabem aplicar seus recursos, e, sob esta alegação injusta, absurda, limitem a autonomia do município. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência registra a presença no plenário, além do Prefeito Baldonedo Arthur Napoleão, do Dr. Rubens Chemin, da Frente Municipalista, Dr. Bélio Leal, Prefeito de Pacarambi, membro da Direção Nacional da Frente; do Dr. Guedes Campos de Barros, Secretário-Geral; do Prefeito Arnaldo Codegliari, Presidente da Associação dos Municípios do Paraná; e do Dr. Cláudio Gianini, Coordenador da Frente Municipalista em São Paulo. Vamos passar agora ao nosso último expositor para, então, iniciarmos os debates. A Presidência convoca para fazer parte da Mesa o Presidente da Confederação Nacional dos Municípios e Prefeito de Juazeiro – Bahia – o Dr. Jorge Khoury Hedaye, para fazer a sua exposição, lembrando ao mesmo que dispõe de vinte minutos. O SR. JORGE KHOURY HEDAYE: – Sr. Presidente da Subcomissão dos Municípios e Regiões, Constituinte Luiz Rodrigues, demais componentes da Mesa, Srs. membros desta Subcomissão. Para nós, da Confederação Nacional dos Municípios, é um momento de grande honra participar desta Subcomissão, a ela trazendo nosso depoimento, e estar ao lado de companheiros dirigentes de outras entidades municipalistas, que aqui já se pronunciaram, com o objetivo tãosomente de enriquecer o debate. Entendo eu que os assuntos aqui trazidos não são desconhecidos e, no entanto, as ações visando ao aprimoramento da participação do município na estrutura administrativa e política brasileira ainda deixam muito a desejar. Alinhamos alguns temas que gostaríamos de levar ao conhecimento de V. Ex.ª. O nosso compromisso político com a comunidade tem-nos levado à constante investigação sobre os temas que mais se discutem na atualidade brasileira – Constituinte e Constituição. Sobre isso se têm-se pronunciado os capazes, com a timidez dos sábios, e os menos capazes, com a audácia dos que se imaginam aptos a solucionar as indagações mais intrincadas dos temas. Nós continuamos presos à nossa área do município, onde até poderíamos teorizar. Todavia, apenas o campo prático tem sido nossa preocupação, para fazermos doutrina daquilo que conhecemos. Partindo da esfera municipal, temo-nos incursionado na área do debate constituinte, na ânsia de conhecermos, relativamente, no nosso reduto, a posição dos mestres e o que sobre isso opinam os políticos, em última análise, os que, efetivamente, escreverão o texto da nossa Carta Magna. Evidentemente, não tem sido nosso propósito buscar o conhecimento da técnica voltada para inovações, que sabemos ficar apenas na especulação teórica. O que nos tem interessado são os aspectos sociológicos e políticos, que se projetam sobre o município, ou que dele podem irradiar sobre a problemática da elaboração de novo pacto fundamental. No que se refere ao aspecto sociológico, o município – comunidade matriz da vida nacional e parcela menor do somatório da nação – espera a reflexão sobre a verdade, nunca negada, de que só existirá estado forte se suas células componentes o forem também. Entre nós, o município, além de ter surgido antes do Estado Membro, e até da própria Federação, continua sendo, desde a sua origem, a célula territorial do Estado. Vale repetir Rui Barbosa: "Não há corpo sem células. Não há estado sem municipalidades. Não pode existir matéria vivente sem vida orgânica. Não se pode imaginar existência de nação, existência de povo constituído, existência de estado, sem vida municipal". Originando-se do município português, que no Brasil-Colônia teve as mesmas estruturas e atribuições, as nossas municipalidades experimentaram posição de destaque até o surgimento da Federação. Com a Federação, o poder político confirmou a tendência, que lhe é natural, para o fortalecimento da autoridade central. Há uma vocação centralista do poder político. Modernamente, várias circunstâncias conduzem a essa Federação centrípeta, destacando-se: 1º) a necessidade de unidade de ação governativa, sob o aspecto econômico, diante da competição internacional, exigindo proteção da riqueza nacional frente a investidas de outros países; 2º) necessidade de atribuir ao poder público amplas tarefas no campo social, cuja realização implica recursos financeiros, que tinham de ser conseguidos nacionalmente, para que sejam aplicados segundo um 22 planejamento, também nacional; 3º) por fim, a preservação da segurança nacional. O fortalecimento do município não se constitui exclusivamente em garantir-lhe os recursos financeiros, embora seja o mais importante. Fortalecer o município é assegurarlhe competência e meios para solução dos problemas de peculiar interesse da comunidade local. A vida da sociedade urbana e rural reclama a atenção total da administração municipal, em torno da melhoria da qualidade de vida para o homem da cidade e do campo, ponto fundamental para o fortalecimento da sociedade brasileira. Isto importa, de um lado, a positivação da competência para agir e, de outro, na alocação do numerário para fazer face às despesas decorrentes da ação governativa municipal. Está comprovado que o preço dos serviços pagos pelo município é muito menor do que aquele que o Estado e a União pagam pela mesma atividade. Por que, então, reincidir no erro de invasão da área de competência do município? Apenas para satisfazer a vaidade de governantes desinformados da divisão de competência? A administração local está mergulhada por problemas dos seus administrados e tem a solução ideal, porque conhece de perto a realidade dos seus municípios. As soluções importadas, os "pacotes" elocubrados em gabinetes, divorciados do caso concreto, só têm criado novos problemas, sem solucionar os que reclamam pronta ação do Governo. E a burocracia de criar exigências desnecessárias, a falta de comando, o caminhar lento das decisões, a excessiva, desnecessária e prejudicial tramitação do dinheiro que se perde e se esvai em decorrência da inflação, com a morosidade das liberações das verbas. Por que as transferências, quando a reforma tributária poderia trazer os recursos para as despesas municipais na própria receita dos municípios? Por que o Imposto Territorial Rural, que é do município, mal cobrado pelo Incra viaja tanto, para voltar defasado, incapaz de cobrir os gastos com o homem do campo? Quem cuida das estradas vicinais, das escolas rurais, da saúde do produtor agropastoril? Desenganadamente, só o município. Por que, afinal, lhe são negados os recursos necessários, obrigando o Prefeito a ser alquimista, milagreiro, arrancando de outras atividades os recursos para a sociedade agrária? Como querem maior produção no campo, se o homem que ali trabalha fica na dependência da Prefeitura, a filha enjeitada da União? É por isso que a Constituinte precisa, politicamente, ser preparada para a realidade brasileira, com os pés no chão, na base municipal, para enfrentar esses problemas da área rural, onde vive o menos amparado dos produtores das nossas riquezas, o mais debilitado pelas doenças, sem instrução nem formação profissional adequadas. Uma divisão comparada do progresso experimentado em outras plagas, na formação do agricultor, do criador, no amparo a suas famílias, na produção agropastoril, seria de utilidade prática, não para gorjeios retóricos, mas para indicar ao Parlamentar Constituinte os rumos de uma nova política para o homem do campo, através da única esfera de governo capaz de atingir os objetivos ideais, que é o município. Na cidade, a realidade não é outra. A qualidade da vida urbana está cada vez mais deteriorada pela degradação do ar poluído e pela ação indus- 23 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) trial descontrolada, dependendo do agente fiscalizador longínquo. O problema do meio ambiente é municipal. A comuniclade local não pode ficar à mercê de decisões a nível nacional, quando a solução não pode ser uma só, porque cada caso é um caso diferente. A água tratada e o esgoto, arrancados da competência municipal em favor de sistemas unificados de gerenciamento a distância, ficaram fora da sintonia das necessidades e expectativas do município. A habitação popular, de financiamento controlado, não faz jus aos recursos que são levantados, nos municípios, pela poupança de seus habitantes. O transporte coletivo, os problemas do tráfego e do trânsito, que deveriam ser financiados pelos recursos do Imposto Único sobre Combustíveis Líquidos e Gasosos, atormentam os usuários, retardam as horas de trabalho, sem que uma politica séria distribua melhor esse tributo, que alcança um produto consumido somente nas ruas, nas estradas e nos campos do município. A vida moderna tem exigido do município uma crescente expectativa de novos serviços e de ampliação dos tradicionais, tudo à conta de um surrado tributo – o Imposto Predial e Territorial Urbano – odioso, pois grava a moradia conseguida, muitas vezes, à duras penas. Com esse tributo, o prefeito enfrenta as despesas municipais: pessoal, manutenção dos serviços e equipamentos e os investimentos inadiáveis. As taxas não cobrem os serviços de coleta e destinação do lixo e a limpeza pública, para ficarmos apenas nos indispensáveis. Os tributos de participação e as transferências correntes, isto é, a sociedade do quinto do ICM com o Estado e o Fundo de Participação, com a União, não refletem o direito do município na partilha e na distribuição. Por que esse sistema indireto de devolver ao município o que é seu por direito? A Constituinte precisa rever essa desconfiança, que se transformou em regra contra as administrações municipais. A esse aspecto tributário, com reflexos diretos no sociológico, urge que a ação política dos Constituintes dê tratamento prioritário. É importante que se anote ser a base eleitoral do Constituinte o próprio município. Partindo dessa realidade inconteste, é chegada a hora de apresentarmos as reivindicações municipais, não apenas as de origem administrativa da Prefeitura, mas, necessariamente, as que interferem na qualidade de vida urbana e rural dos municípios, isto é, na qualidade de vida do brasileiro. Nem porque se reconheça essa verdade, a da tendência centrípeta, se poderá esquecer uma outra, que é caracteristica da organização do poder federal, qual seja, a cooperação ou solidarismo das entidades federadas. Assim, tomando por base a realidade do município, como célula territorial do Estado, em cujo espaço realizam-se todos os interesses nacionais, há de se promover o entrelaçamento dos interesses dos municípios com o dos Estados-Membros e os da União, porque todos são interesses da Nação, os quais têm como base fisica o território do município, sobretudo poque eles só se diferenciam, entre si, pela predominância e não pela exclusividade. Por conseguinte, o sentido de interesse peculiar do município terá de ser o de algo que tem a ver com o interesse local ou interno da respectiva área municipal. Nem por isso esse interesse local é exclusivo do município. Por exemplo, a urbanização carece de diversas providências na área da propriedade, mas o poder de legislar sobre o domínio de bens imóveis tem sido outorgado â União e tal circunstância tem prejudicado a política de controle do crescimento urbano. A legislação no campo urbanístico é de competência federal. O município deveria editar leis contendo sanções pelo não exercício do direito de construir pelo proprietário, evitando assim especulação com o solo urbano e urbanizável por parte dos seus investidores, gerando a necessidade da criação de processos judiciais mais rápidos para reparar transgressões das normas jurídicas pertinentes. É necessário reordenar o crescimento urbano e planejar urbanisticamente o País, adotando-se, sob o aspecto institucional, as medidas essenciais. Afinal, a valorização da propriedade particular do solo urbano não decorre da ação pura do seu proprietário, mas de uma função conjunta dele e do setor público, com absoluta predominância deste. São os investimentos públicos que dão maior ou menor valor ao terreno, mas, em regra, eles não têm retorno na mesma intensidade, porque até a contribuição de melhoria é um tributo sofisticado de origem nórdica e de estrutura juridico-constitucional de dificil adaptação à realidade dos municípios brasileiros. Necessita de solução de natureza nãotributária, o problema financeiro de mais-valia imobiliária, resultante de obra pública. O chamado solo criado terá de ser objeto da disciplina constitucional, porque é necessário um coeficiente único para certas áreas ou zonas urbanas, a partir do qual o beneficiário de um acréscimo já se tornará responsável pelo custeio dos encargos adicionais que o Poder Público passa a ter com o aumento populacional em certos logradouros das cidades. Um dos grandes problemas decorrentes dessa expansão desordenada das cidades – e em algumas que se transformam em "Meca", eles se acentuam – é o do destino do lixo coletado, considerando a impossibilidade de adoção de mecanismos eficientes para processar a transformação dos resíduos sem afetar a qualidade de vida humana. A solução depende de uma ação integrada das entidades federadas. Questões de relevância também se configuram com o solo do campo, não porque haja entre o seu valor e a ação do setor público, especialmente o municipal, maiores vinculações, mas porque se tomam necessários investimentos para fixação do homem nesse meio, evitando seu êxodo para o setor urbano. O êxodo gera problemas de difícil solução na área de transportes, abastecimento, trânsito, higiene, educação, assistência social, destacadamente o atendimento às carências do menor e do ancião, transformados aquele em marginal e este em mendigo. A centralização das funções estatais, ainda quando a Federação se institucionalize de forma cooperativa entre as entidades que a compõem, conduz à concepção da inexistência de município totalmente autônomo. Até porque, atuando dentro do organismo nacional, com responsabilidades que se vinculam ao panorama econômico, à ordem social e à segurança nacional, será impossível a ele solucionar problemas inseridos nesse contexto, carecendo sem dúvida da integração de forças, mesmo a nível municipal. A pressão sobre as administrações municipais, exatamente porque é o poder mais próximo das bases da população, está a exigir que a federação cooperativa passe a ser uma realidade. Há problemas comuns a uma mesma região geoeconômica, cuja solução poderá vir com o desempenho comum dos municípios que a integram. Por exemplo, o do destino do lixo. Surge a necessidade de uma administração municipalista regional para a realização de serviços comuns, que se tornarão mais eficazes com a reunião de recursos dessas mesmas comunidades sócioeconômicas, sem prejuizo de autonomia de cada uma. As regiões metropolitanas, previstas na atual Constituição, deverão servir de modelo para a organização a nível constitucional dessas administrações regionais, comunitárias. Por fim, gostaria de comentar, rapidamente, a questão da autonomia dos municípios. Não há município totalmente autônomo, acrescida a circunstância de ser ele a base territorial de todos os interesses nacionais. Os investimentos federais e estaduais na sua superficie deverão respeitar sua vocação. Por isso, terão de ser administrados pelos gestores municipais sob mecanismos de controle constitucionalmente estabelecidos. Não adianta preservar essa autonomia formal que a Constituição vigente plasmou. Há uma realidade que necessita ser institucionalizada nessa perspectiva da centralização do poder, hoje inarredável pelas circunstâncias antes arroladas, e na da execução de tarefas, que devem ser descentralizadas na linha das vocações locais. Foi objetivo da Confederação Nacional dos Municípios trazer à baila tais aspectos, sabendo ser os mesmos do conhecimento geral, esperando que os Srs. Constituintes, após a devida reflexão sobre os mesmos, possam escrever a nova Constituição visando a fazer justiça ao município no contexto da estrutura de poder. Vale salientar, no entanto – para este aspecto chamo a atenção dos Srs. Constituintes – as graves desigualdades existentes entre os mais de quatro mil municípios brasileiros, o que exige, portanto, um tratamento desigual entre eles. Sem o que estará esta Nação fadada a alargar mais ainda os desequilíbrios regionais existentes. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Antes de passarmos à fase dos debates, a Presidência registra a presença do Vereador Paulo Silas, Presidente da União dos Vereadores do Brasil – UVB – de Taboão da Serra, São Paulo. Seguramente, após a organização dos nossos trabalhos, a UVB será convocada para participar de futuro painel. Vamos passar à fase das perguntas. A Presidência solicita aos Srs. Constituintes que sejam objetivos nas suas perguntas e concede a cada um 2 minutos para a formulação das mesmas. O primeiro inscrito é o 1º-Vice-Presidente da Subcomissão dos Municípios e Regiões, o Constituinte Mauro Miranda. Com a palavra S. Ex.ª. A Presidência pede aos Srs. Constituintes que utilizem o microfone para seus questionamentos. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Primeiramente quero parabenizar os quatro conferencistas deste primeiro simpósio pelos belíssimos trabalhos aqui tão bem explanados. Tenho duas perguntas a fazer ao Professor Diogo. Primei- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) ro: dentro dos temas apresentados, percebeu V. S.ª se existe algum ponto conflitante entre as quatro entidades que estiveram aqui, hoje? Segundo: nessa proposta, que considero a mais completa, mais trabalhada, aquela que foi preocupação inclusive de todos os oradores, porque estabelece a enorme diferença entre os diversos municípios, no tocante a seus tamanhos e dimensões econômicas, existe alguma sugestão dessas entidades no sentido de que conste algum artigo definindo se a lei orgânica é ou não suficiente para determinar a desigualdade existente em todo o País, principalmente em relação aos nossos quatro municípios? O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Quanto à primeira pergunta, nas exposições dos outros três representantes de instituições não percebi nenhum conflito em relação às propostas que faz o IBAM no articulado que trouxe a respeito da configuração da autonomia municipal. Pelo contrário, encontro críticas dos que se manifestaram explicitamente quanto à questão das competências concorrentes – objeto de especificação de alguns oradores. Vejo também que outros pontos não foram mencionados – como disse o Prefeito Krieger, da Associação Brasileira dos Municípios – por haver concordância entre eles com relação a este aspecto. Esqueci de dizer que as propostas da segunda parte, constantes do livro distribuído aos membros da Subcomissão, foram discutidas largamente, durante mais de um ano, no Brasil inteiro, em numerosas reuniões municipalistas, do extremo Norte ao extremo Sul do País. O IBAM está refletindo não um ponto de vista exclusivamente seu, mas um tema bastante discutido. Não vejo qualquer contradição. A questão da diferenciação dos Municípios foi abordada pelos Prefeitos Jorge Khoury, Nivaldo Krieger e Baldonedo Napoleão. Há vários modos de resolver o problema que aqui foi abordado de diferentes formas. Quando da elaboração da Constituição de 1967 consegui, em nome do IBAM, que o Professor Themístocles Cavalcanti incluísse naquela Carta um artigo estabelecendo que a organização municipal poderá variar segundo as peculiaridades locais. Infelizmente, a linguagem sucinta não foi exatamente a que eu havia apresentado ao Professor Themístocles Cavalcanti. E, na verdade, quando os Estados se reuniram nas Assembléias Estaduais para adaptar sua Constituição à de 1967, nenhum deles entendeu a mensagem do texto constitucional. Não houve um só que quisesse compreender. Fiquei muito desapontado. Hoje foram trazidos outros aspectos interessantes, mas que não estão bem claros no tocante à diferenciação da organização municipal. Não basta que cada município possa adotar sua lei orgânica. Este é apenas um aspecto da questão. Mas entre os temas hoje trazidos temos a questão das fontes de receita. O Prefeito Nivaldo Krieger abordou bem o assunto. A diferenciação dos municípios segundo as peculiaridades locais é para evitar a simetria absurda, que dá, por exemplo, as mesmas responsabilidades da Capital de São Paulo a um município perdido no interior da Amazônia. Isso não tem lógica. Naturalmente ao estabelecer isso a Constituição está delegando aos Estados competência muito grande, e aí está o problema da regulamentação. Usando dessa faculdade, não devem os Estados, ao estabelecer tais restrições, cometer abusos em nome do princípio geral. Sabemos que quanto mais legislam sobre os municípios mais os Estados abusam. Muitas leis orgânicas de municípios em vários Estados são cheias de inconstitucionalidades, e quanto maior o Estado, mais inconstitucionalidades contém. Por isso propomos, como uma contribuição, a variação da organização municipal. Que cada município vote sua lei orgânica, para não acontecer como em São Paulo, por exemplo, onde a lei orgânica ditava qual a Prefeitura que podia ter secretaria e qual a que podia ter sua divisão. Espero ter respondido às indagações do Constituinte Mauro Miranda. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Denisar Arneiro, para seu questionamento. O SR. CONSTITUINTE DENISAR ARNEIRO: – Sr. Presidente, Srs. membros da Mesa, Srs. Constituintes, Srs. Prefeitos, minhas senhoras e meus senhores, não vou fazer questionamentos, mas algumas afirmações. Quero, em primeior lugar, congratular-me com V. Ex.ª pela feliz escolha dos órgãos que integram a chamada para este nosso primeiro encontro, e congratular-me também com essas instituições pelos representantes que nos mandaram, para esclarecer com tanta facilidade fatos que já conhecíamos, mas cujos relatos precisávamos ouvir de viva voz. Queremos dizer que apesar de sermos Constituintes sem termos sido prefeito conhecemos perfeitamente todos os problemas das prefeituras. Convivemos com prefeitos, tanto na Legislatura anterior, na qualidade de empresário, como agora, mais ainda, como Constituinte. Aproveitamos a oportunidade para dizer ao Prefeito Baldonedo Napoleão, ao se referir ao Imposto Sobre Transporte – ISTR – que nós na Legislatura anterior, quando da aprovação da modificação desse projeto de lei, tentamos de todas as formas fazer com que dessem aos município e não à União do direito de arrecadar esse imposto. Por quê? Por conhecermos de perto o assunto sabemos que a União não tem condição de fazer a arrecadação desse tipo de imposto, porque a fraude é enorme nessa área. Mas o município, conhecendo a sede das empresas de transporte de carga e de passageiros ele sim, tem condição de fazer essa cobrança com mais eficiência. Quanto à distribuição de 20% para o município, achamos que ela deveria ser de 30%. O município, ao arrecadar o imposto, ficaria com sua parte, enviando o restante à União, a fim de ser distribuído entre os Estados. Esta seria a forma ideal. Entretanto, não conseguimos nosso propósito, porque ficou provado que cada vez mais o Poder central se imiscui nos problemas municipais e mais exige dos prefeitos sem nada lhes devolver. Temos esperança de que esta nova Constituição faça com que o Poder central passe a respeitar a Lei Maior deste País. Muito obrigado, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao 2º Vice-Presidente da Subcomissão dos Municípios e Regiões, o Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, ouvi atentamente as quatro exposições e devo sublinhar a importância das informações trazidas a esta Subcomissão. Contudo, resta- 24 ram-me três interrogações que gostaria de colocar aqui. A primeira diz respeito ao problema da Justiça nos municípios. Nenhuma palavra foi dita nesse sentido. E sabemos que os munícipes experimentam duras injustiças no que concerne à prestação jurisdicional nas suas respectivas áreas. Gostaria de ouvir, especialmente do Dr. Diogo Lordello, uma manifestação nesse sentido. A segunda é quanto à questão da captação de recursos enfocada pelo Dr. Nivaldo Krieger. Sabemos que captação de recursos da população só pode ser efetivada na medida em que ela dispõe de recursos para poupar. Nos grandes municípios isso é perfeitamente viável, mas eu, que venho do Norte, conheço a realidade do meu Estado, sei dos problemas angustiantes por que passam os municípios mais distantes e sei também do seu potencial financeiro e econômico, não vejo com facilidade a captação de recursos dentro da esfera municipal quanto à instituição de contribuição como solução de problemas vinculados ao próprio município. Gostaria de ouvir também do Dr. Nivaldo uma palavra nesse particular. Também ouvi com muita apreensão de S. Sª algumas colocações no que toca à extinção do ICM e ISS, o que me deixou extremamente preocupado, já que são esses dois impostos que sustentam, talvez, o mais importante pólo de desenvolvimento instituído pelo Governo Federal na área da Amazônia Ocidental. Extinguir o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e o ISS significa aplicar um golpe de morte na Zona Franca de Manaus, porque, repito, esses impostos representam exatamente o mais poderoso mecanismo de desenvolvimento implantado pelo Governo Federal na Amazônia Ocidental com a intenção de ocupar a área, não só no que concerne ao espaço físico mas também econômico e social. Gostaria de ouvir também uma manifestação neste sentido. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra, primeiramente, ao expositor Diogo Lordello de Mello e, posteriormente, ao Prefeito Nivaldo Krieger. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Quanto à questão da Justiça, quero dizer que infelizmente isto escapou ao documento do IBAM, e digo infelizmente porque a presença do Poder Judiciário no município retomaria uma tradição que prevaleceu no Brasil até 1828. Durante o período colonial os municípios tinham um Poder Judiciário para pequenas causas. E exatamente porque este não é um assunto muito ventilado nos meios municipalistas é que ficou de fora, o que não justifica tenha ficado descartada a proposta do IBAM. Eu tomei nota disto, Sr. Constituinte José Dutra. Não há nenhuma razão para que os municípios não disponham de uma Justiça primária, para pequenas causas, sobretudo agora, depois dos últimos vinte anos, quando se verifica a absoluta incapacidade do sistema judicial para atender a questões que afligem a maioria do povo. Muita gente não vai mais à Justiça porque não tem como fazê-lo. Seria perfeitamente oportuno que fosse restabelecida a Justiça a nível municipal, de acordo com a que tivemos durante a Colônia. Este poder o município o perdeu com a Independência. A Justiça a nível municipal existe em numerosos países do mundo. Esta é uma 25 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) deficiência que vamos corrigir. Agradeço a V. Ex.ª o questionamento. O SR. NIVALDO KRIEGER: – Deputado José Dutra, V. Ex.ª captou três pontos realmente polêmicos, por serem inovadores. Toda inovação é polêmica, em primeiro lugar porque ela não é conhecida nas suas raízes, nos seus fundamentos. Nossa proposta ainda não é conhecida porque não a trouxemos, uma vez que ela será apresentada à Subcomissão sexta-feira à tarde. Hoje ela foi levada pelo Dr. Fernando Resende à Comissão de Tributação. Quando propomos a extinção e a substituição do ICM por outro modelo tributário, nossa intenção é exatamente corrigir as distorções verificadas ao longo desses vinte anos, profundamente injustas para os municípios e Estados brasileiros, de acordo com essa radiografia do comportamento das rendas das entidades governamentais do País. Vou repetir: ao longo do tempo, por ter o poder de corrigir a sua rota, como vemos na terceira folha do "Comparativo", a União manteve sob renda interna uma receita de 11%. Os Estados perderam em 1979 três pontos por cento em relação à União, e no início da década de 80, essa percentagem aumentou para mais de 50%, porque o ICM é o imposto que recai sobre a produção. A proposta que endossamos e que queremos apresentar a esta Constituinte é moderna é a adotada no Mercado Comum Europeu. Portanto, não é uma novidade no mundo, ela foi muito bem testada. Pelas simulações e projeções feitas por um grupo de técnicos que há dois anos vem trabalhando conosco nesta proposta, conclui-se que ela produz uma melhoria de receita extraordinária para Estados e municípios. Essa simulação de procedimentos será mostrada na sexta-feira. Fica comprovada aí, sobretudo para os Estados ainda não tão desenvolvidos industrialmente, como os do Nordeste e os do Norte, a grande vantagem do outro sistema. Pelo imposto do valor adicionado é que se corrige a distorção – os paulistas que aqui estão que me desculpem – da concentração de riqueza no Estado industrial. Tributa-se pelo consumo e encontra-se um equilíbrio pelo valor de consumo. As compensações por distorções do atipicismo a que nos referimos seriam ajustadas pelo Estado e pela União no decorrer se propõe. Mas não tratarei deste assunto hoje exatamente para não fugir do tema desta Subcomissão. Com relação à captação de recursos quero esclarecer que se trata de recursos auferidos das zonas de poupança. Quase todos os municípios brasileiros têm uma margem de poupança, e lá há um banco ou entidade financeira a sugar essa poupança que passa a fazer falta na localidade como instrumento de incremento ao desenvolvimento local. Ora, alguns municípios nada possuem, por isso defendo a tese de que para se corrigir essa distorção é possível até que haja necessidade de que alguns municípios sejam reincorporados. Em certos Estados alguns municípios já deixaram de existir, mas ainda permanecem por um processo de manutenção de artifício. Nós e o IBAM conhecemos muito bem o assunto. Mas isto não vem ao caso agora. De modo que essa proposta não prejudica em nada a quem quer que seja, ao contrário, só beneficia. Se há alguém que fica tolhido nisso são as instituições financeiras, que hoje não têm dever algum para com as zonas onde captam os recursos. Alertei-me para esta situação quando, ao fazer o levantamento da captação em várias cidades do meu Estado, encontrei a minha própria cidade como terceiro centro captador, e também porque ouço diariamente dos empresários a reclamação de que faltam recursos para ampliarem seus investimentos. Essas agências captadoras vão aplicar onde? Nos grandes centros, em beneficio sobretudo de empreendimentos que nada têm a ver com a localidade. Somos, portanto, favoráveis à instituição de uma medida de contenção da evasão de recursos do local onde eles são produzidos. Entra nisso a loteria. Quanto ao percentual, caberá à Assembléia analisar com bom senso e dentro dessa heterogeneidade de uma Assembléia Constituinte, o quantum . Não arriscamos a dizê-lo. Ficamos na tese, que é altamente defensável, e me disponho a conversar depois com V. Ex.ª para explicá-la ainda mais. Tenho a certeza de que V. Ex.ª será um aliado desta tese logo à frente. Realmente há municípios que não têm poupança alguma. Mas eles não são prejudicados em nada. Só seriam beneficiados, porque somariam recursos a outros municípios, sobrariam recursos aos organismos estaduais e estatais para investir nos pequenos, que nada possuem. Imagine V. Ex.ª uma cidade como a minha, que tem perto de 3 bilhões de captação. Com uma obrigatoriedade de deixar 10% dessa captação, já seriam 3 milhões que seriam investidos em projetos locais. Vejamos agora a instituição da contribuição. Ora, numa determinada localidade a sociedade toda entende que é preciso resolver determinado problema angustiante para ela, um asilo, o menor abandonado, enfim, um problema realmente crucial. Não há recursos. A sociedade concorda em pagar durante determinado tempo uma contribuição. A Câmara de Vereadores, por maioria especial de dois terços, votaria essa autorização, cujos recursos seriam fiscalizados pela Câmara e pelo Tribunal de Contas, pelo período – é claro – em que o Prefeito fosse gestor. Isso dá grande força à localidade de resolver determinados problemas que, muitas vezes, nem o Estado nem a União se interessam em solucionar porque não têm programas de apoio. Tenho alguns exemplos bem patentes, como o caso da Taxa de Iluminação, que tem certo grau de inconstitucionalidade, mas que, se proposta, resolverá o problema de recursos para ampliar redes de eletrificação no município. A população contribui, e não houve nenhuma ação contra essa posição. É uma forma de dar poder ao município, de instituir uma contribuição – não é um tributo, ela é temporária – para determinado fim. É claro que se a proposta realmente tiver trânsito na sociedade toda, será aprovada. Caso não tenha, nenhum prefeito neste País contará, para aprovar uma proposta injusta, com dois terços da sua Câmara. É preciso que ela seja muito justa e bem fundada. Então, o município ficaria com essa prerrogativa. Hoje ele não tem nenhuma prerrogativa de criar contribuição. A União tem tantas quantas queira. Os Estados tiveram autorização, recentemente, para criar a Letra do Tesouro, que é uma forma de injetar recursos paralelos ao sistema tributário. O município, assim, teria a sua forma. Essas são as nossas posições, e espero tê-las esclarecido. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Waldec Ornelas e solicita a todos os oradores que falem próximo ao microfone, para efeito de gravação. O SR. CONSTITUINTE WALDEC ORNELAS: – O tema deste painel, meu caro Presidente, sem dúvida alguma aborda aquilo que constitui o fulcro dos trabalhos desta Subcomissão. Por isso, muitos e múltiplos são os aspectos a serem abordados. Gostaria de retomar uma questão que foi objeto da primeira questão e que foi ressaltada também por todos os expositores nesta sessão. É a questão da tipicidade dos municípios. Ora, sabemos que há historicamente uma identidade entre a noção de município e a noção de governo da cidade. Não apenas este País se urbanizou há cerca de duas décadas, como essa urbanização vem sendo distorcida pela forte concentração populacional que vem trazendo, criando, por outro lado, entre outras tipologias e classificações que pudessem ser enunciadas e que foram aqui citadas, a questão de municípios com funções típica ou predominantemente rurais. Já havia lido comentários do sempre atento Professor Diogo Lordello de Mello sobre o não-entendimento da referência às peculiaridades locais e essa possibilidade de variar a estrutura organizacional dos municípios. Mas, como o Constituinte Mauro Miranda, também fui levado a concluir, a partir das exposições aqui realizadas, que a simples elaboração da Carta pelas Câmaras de Vereadores resolveria o problema dessa tipicidade. Noto até que, na proposta do IBAM, há preocupação, de parte do Dr. Lordello e de seus companheiros de trabalho, de suprimir do texto constitucionais expressões dúbias. S. Sª suprime, por exemplo, a expressão "peculiar interesse", mas continua ainda tratando de modo genérico, ao falar de "caráter predominantemente local" em relação ao serviço. Eu me pergunto se não seria o caso de se evoluir para uma lei complementar, que possibilitasse essa discriminação. Aliás, perguntaria ao Dr. Lordello se não há contradição no fato de se advogar, por um lado, que o município deve ser protegido em relação ao Estado mais do que em relação à União; e, de outro lado, propor-se que os critérios e parâmetros para a criação de municípios sejam atribuídos ao Estado. Eu correlacionaria essas duas questões a que me refiro, ou seja, como diferenciar essa tipicidade, sabendo-se que todos temos, acredito, preocupação em fazer uma Constituição sintética e a questão do problema da delegação ao Estado para criar essas condições. Um terceiro aspecto que gostaria de levantar, Sr. Presidente, se dirige a V. Ex.ª Creio que as exposições de hoje, sobretudo a do Presidente da Confederação Nacional dos Municípios, e também a da ABM, chama muito a atenção para a inter-relação existente entre os trabalhos desta Subcomissão e os da Subcomissão de Tributos. Reitero e reafirmo, assim, uma proposição que já fiz na primeira sessão, no sentido de que promovêssemos reunião conjunta das duas Subcomissões. Hoje eu agregaria um adendo, o de que essa reunião deve ser feita antes da apresentação dos anteprojetos pelos respectivos Relatores, de maneira que possibilitasse a consideração dessas interfaces c omuns. Muito obrigado. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – a Presidência partilha da preocupação do Constituinte Waldec Ornelas e entende que devemos fazer uma reunião de integração ou de compatibilização desses diversos assuntos. Para isso vamos convocar uma reunião na parte da tarde, a fim de decidirmos nossa programação de trabalho para o final desta semana e para a próxima semana, ocasião em que iremos discutir esse assunto com o Plenário. Está com a palavra o expositor Diogo Lordello de Mello, para esclarecer as dúvidas do Constituinte Waldec Ornelas. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Em primeiro lugar, quanto à expressão “predominantemente local” leio aqui: “É da competência exclusiva dos municípios a prestação de serviços públicos de caráter predominantemente local.” Evidentemente, não é fácil, a menos que se chegue a ponto de, no texto constitucional, ter uma rigidez enorme de dizer quais são os serviços públicos locais. Aí estaríamos caindo também num grande equívoco, porque as peculiaridades locais são de tal ordem que alguns serviços aparentemente locais não poderiam ser locais em certos municípios. Por exemplo, um ginásio, uma escola de 2º grau. Se num município grande, numa grande área urbana, o ensino do 2º grau pode ser local, dificilmente poderá sê-lo em certos municípios pequenos, porque não teriam condições, nem técnicas, nem financeiras, para manter esses serviços. Sabemos que é muito comum a pessoa ir estudar no ginásio de 2º grau muito longe de onde mora, porque não é possível ter o 2º grau em todos os lugares. Não é fácil resolver essa questão. Abandonamos o conceito “peculiar interesse”, que nos parecia vago demais, por outro que nos parece menos vago, ou seja, “predominantemente local”. Se dissermos aqui “serviços de caráter local” criaremos uma questão ainda maior. O que são serviços locais, já que não temos essa tradição tão clara? Teríamos de recorrer à doutrina? A expressão “predominantemente local” dá liberdade aos Estados, na hora de disciplinarem de alguma forma a questão, de dizerem alguma coisa sobre isso. Por exemplo, ao tratar da questão da organização dos municípios segundo as peculiaridades locais, os municípios rurais teriam funções que seriam tipicamente locais, ou seja, aquelas funções rurais, enquanto os municípios urbanos poderiam ter algumas funções que seriam tipicamente urbanas e predominantemente locais. A solução não é fácil. Se dissermos, na Constituição, quais são os serviços locais, isso poderá, com o tempo, mudar de aspecto. O que é hoje predominantemente local poderá não sê-lo amanhã. O mosquito começou como uma preocupação predominantemente local. Depois passou a ser estadual, passou a ser federal e hoje é internacional. Sabemos que a questão do mosquito é hoje objeto de convênios internacionais. Com o tempo as coisas mudam. Reconheço a dificuldade e reconheço também que a redação pode não ser a ideal, mas há dificuldade em encontrar outra. O questionamento do Constituinte Waldec Ornelas é válido. A segunda pergunta, a respeito da criação de município pelo Estado: haverá uma contradição? se quisermos diminuir a força do Estado e, ao mesmo tempo, tirar da União a condição de criação de municípios, creio que teremos de optar pela União ou pelo Estado. Creio que os Estados estão mais próximos das realidades dos municípios do que a União. O que não se pode aceitar, de fato, e não existe em lugar algum do mundo, é que seja o município, motu propilo, que se cria. Seria uma inovação que talvez não encontrasse apoio na realidade. Quer dizer, as condições para a criação de municípios têm de ser estabelecidas por uma esfera maior. E, entre a União e os Estados, prefiro que voltemos à situação antiga. Por exemplo, no Estado de Goiás, no regime de 1946, distinguia-se entre o norte e o sul. As condições variavam. Só o Estado de Goiás fazia isso no Brasil. Havia muito menos exigências para se criar um município no norte de Goiás, que é uma grande região rural, de florestas, do que no Sul. Os males o menor. Nossa opinião, já que não há como evitar que uma esfera maior estabeleça as condições para a criação de municípios, é no sentido de que o Estado faça isso, por estar mais próximo. O município tem que estar o mais longe possível da União. Se tiver que ficar próximo de outra esfera, que seja a do Estado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o Constituinte Lavoisier Maia. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Sr. Presidente, minhas primeiras palavras são de referência especial aos expositores desta manhã, que, com suas experiências, vieram falar com autoridade a esta Subcomissão dos municípios e regiões. Não quero fazer propriamente um questionamento e sim dizer que eu também, por ter tido a experiência de governar um Estado pobre do Nordeste brasileiro, pude sentir de perto a fragilidade dos municípios, do meu Estado e da região nordestina e a falta de atenção maior para com ela. Acho que temos obrigação, e esta é a vez, de inserir na Constituição, na nova Carta Magna, procedimentos para corrigir essas injustiças, não só para com o povo nordestino mas também para com os municípios brasileiros. Ouvi atentamente as quatro exposições de homens estudiosos em assuntos municipais, como o Presidente do IBAM, Professor Diogo Lordello de Mello. S. Sª fez uma proposta. Coincidentemente, também tenho aqui duas propostas, que acho justas. Vou passá-las à Presidência desta Subcomissão. Como ficou combinado na sessão anterior, uma cópia, eu daria entrada aqui e a outra seria para a Mesa da Assembléia Nacional Constituinte. Como não houve sessão durante os dias da Semana Santa, aproveitei para elaborar essas propostas. A primeira é sobre a imunidade dos Vereadores. Entendo, tal como V. Sª, que se nós, Senadores, Deputados Federais, temos prerrogativas e imunidades, o Vereador deverá tê-Ias também no âmbito dos seus municípios. Isso eu encaro com muita seriedade, como todos encaramos, porque o Vereador é o agente político que está em contato direito com as comunidades, sentindo as suas preocupações, os seus anseios e as suas dificuldades. O Vereador deve ter poder. A outra proposta, que passo também às mãos de V. Ex.ª, é do Presidente Nivaldo Krüger, da Associação Brasileira de Municípios. Diz o seguinte: “O Brasil é uma República Federativa, constituída, sob o regime representativo, pela 26 união indissolúvel dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios.” São estas as duas propostas, que passo às mãos de V. Ex.ª. Entendo que não poderemos ter democracia estável sem município forte. Defendo essas teses e vou lutar por elas, como estão lutando V. Ex.ª. Ainda mais, o Presidente da Frente Municipalista do Brasil também defendeu aqui a criação ou a manutenção do Tribunal de Contas do Município. Apresentarei brevemente proposta nesse sentido, porque sou municipalista. Defendo os mais fracos, principalmente as regiões que represento, como o Rio Grande do Norte. Lutarei contra a desigualdade existente entre as regiões do Brasil. Fico feliz, nesta manhã, em ouvir conferências tão importantes para nós, Constituintes do Brasil, que lutamos por dias melhores para a nossa Pátria, vendo, em primeiro lugar, o município e as regiões. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência recebe as propostas do Constituinte Lavoisier Maia e determina à Secretária Executiva que faça chegar cópia a todos os membros desta Subcomissão. Está com a palavra o Constituinte Ronaldo Carvalho. O SR. CONSTITUINTE RONALDO CARVALHO: – Sr. Presidente, quero dirigirme especialmente ao Dr. Diogo Lordello de Mello. Tenho acompanhado a sua atuação no IBAM desde 1977 e quero questionar S. Sª no seguinte aspecto: “Os prefeitos são, muitas vezes, submetidos a verdadeiras chantagens por parte de empresários que querem localizar suas empresas industriais nos municípios, usando da sistemática do ICM, que privilegia o município onde se localizar essa empresa. Quero saber do Dr. Diogo se é a favor ou contra a manutenção da atual sistemática de distribuição dos 20% do ICM aos municípios.” O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Não é fácil encontrar uma solução para essa questão. A participação dos municípios no ICM tem como objetivo devolver ao município parte daquilo que foi arrecadado ali. E o que distingue profundamente o ICM nesse ponto da participação dos municípios no FPM é que, no FPM, a finalidade, que é muito razoável, é redistribuir a riqueza nacional. O FPM privilegia os municípios mais pobres e menores. Foi dito aqui pelo Prefeito Baldonedo Napoleão que 80% dos municípios dependem do FPM. Temos aí um tributo, que é uma participação, no FPM, para redistribuir a riqueza fiscal, privilegiando os municípios pobres, enquanto temos a participação no ICM para devolver o que foi arrecadado ali. Há lógica nos dois casos. Mas quero dizer ao Constituinte Ronaldo Carvalho que a proposta que será discutida na Comissão de Tributação reforma bastante, em muitos pontos, essa questão. O Prefeito Nivaldo Kruger colocou aqui alguns pontos importantes a respeito desse assunto. Agora, creio que seria muito ruim para os municípios se não fossem considerados dois aspectos. O primeiro deles seria devolver parte daquilo que ali foi gerado, complementando até com medidas que o Prefeito Nivaldo Krüger propõe quanto à poupança. Uma idéia brilhantíssima, que merece 27 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) toda a atenção das entidades municipalistas e, esperamos, também da Constituinte. Será ruim se não for mantido o princípio de devolver parte do que foi arrecadado ali. Se forem 20%, 30% etc, é uma questão política da maior importância, mas é preciso devolver. O segundo ponto é que deve ser mantido um esquema parecido com o de hoje – pode ser melhorado, porque sempre se pode melhorar – para redistribuir a riqueza. Não fosse o sistema do FPM, os municípios brasileiros mais pobres já teriam desaparecido ou seriam apenas figuras retóricas, e não o são. Temos de ver as coisas comparativamente. Não podemos pensar na realidade brasileira apenas. Temos de lutar para melhorar a posição dos municípios no Brasil. Sem dúvida, longe de mim dizer que vamos ficar contentes com o que já se conseguiu. Mas sabemos que comparado com os municípios da América Latina, e nem quero falar da África – no IBAM temos contato permanente com o mundo todo – a situação do município brasileiro típico, daquele pobre município, que só recebe do FPM, é infinitamente superior. Temos municípios, na América Latina, com receita anual total de quinhentos dólares. No Peru isso ocorre: municípios com mil dólares. Vim de Honduras agora, e observei que há numerosos municípios com quatro mil dólares de receita total anual. Isso não ocorre nem de longe no Brasil. Se convertermos o FPM deste ano ou do ano passado pelo câmbio oficial, será dezenas de vezes superior ao que existe em Honduras. Não vamos nem falar do Peru. Não vamos ficar contentes com isso, de maneira alguma, mas é preciso manter esse princípio de redistribuição, que coloque os municípios brasileiros numa posição privilegiada – os do interior; as Capitais são grandes problemas, Deus nos livre generalizar essa questão para os demais – em relação a outros da América Latina. Sem dúvida essa redistribuição tem de ser mantida, para que o município possa ter uma receita anual, como tem hoje o mais pobre, só do FPM, superior a 130 ou 150 mil dólares. É o que o município mais pobre tem hoje no Brasil, graças ao FPM. Se mudarmos, se não levarmos isso em conta, teremos municípios fantasmas. Devemos manter esse princípio de fortalecimento do município. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O expositor Nivaldo Krüger, da ABM, quer fazer uma consideração a respeito dessa mesma pergunta. A Presidência lembra aos Constituintes que teremos reunião hoje às 17h e 15min., e temos um painel já programado para amanhã. O SR. NIVALDO KRIEGER: – Gostaria apenas de aduzir a tudo o que foi dito – e compreendo muito bem a preocupação do Deputado, que já foi prefeito; como nós, e também os Constituintes Waldec Ornelas e José Dutra abordaram esse tema – que, das projeções, dos estudos feitos pela equipe que há dois anos vem trabalhando em cima dessa proposta de alteração dó ICM, alcançou-se, tomando por base os dados de 1981, 1982, 1983 e 1984, a seguinte situação: extinguindo-se o ICM, adotando-se o IVA, substituindo-se o ISS embutindo no IVA – o IVA é Imposto do Valor Adicionado – teríamos o seguinte quadro: municípios, 20% de participação na receita, porque é uma aspiração municipalista; União, 41% e Estado, 39%. No quadro atual te- mos a União com 61,62%, o Estado com trinta e poucos, e o município não se sabe bem quanto, se é 5%ou 7%, por aí está. Essa concepção de alteração do sistema ICM levaria ou levará a um fortalecimento municipal. E aí entra a tese da Frente, da ABM, da União dos Municípios, de todos nós, de que os Municípios estão dispostos a assumir os novos encargos desde que se garanta uma receita efetiva. Por outro lado, os municípios pobres receberiam contribuição maior, porque estariam balizados pelo consumo. Hoje, o ICM é um imposto de produção. Os centros produtores têm grandes receita. Os não produtores não têm. Aí é que está a grande diferença, o grande desajuste desse processo todo. Espero ter dado mais um esclarecimento. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Mello Reis. O SR. CONSTITUINTE MELLO REIS: – Sr. Presidente, Srs. membros da Mesa, Srs. Constituintes, lideranças municipalistas aqui presentes, minha pergunta ao Professor Lordello se prende a uma preocupação que eu tinha com relação ao poder de polícia do município, principalmente no que se refere à organização do trânsito. E, segundo, sobre a possibilidade de as microrregiões – os grandes Estados, como o meu, Minas Gerais, se dividiram, para efeito de planejamento, em microrregiões homogêneas – terem uma estrutura política, de tal forma que pudéssemos fortalecê-las. Na verdade, nos grandes Estados, como Minas Gerais, vivemos como corpos estranhos dentro daquela imensidão. Minha cidade, Juiz de Fora, onde fui prefeito durante seis anos, tem sido – e sou testemunha disso, porque lutei muito naquela ocasião – um corpo estranho dentro do esquema do Estado de Minas Gerais. Sofremos essas conseqüências, e achamos que, através do fortalecimento da microrregião, poderemos encontrar uma solução melhor para conviver com o governo central do nosso Estado. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – A pergunta do Constituinte Mello Reis é extremamente interessante. Isso não está inscrito em documento do IBAM. E não está no documento porque adotamos a orientação de não descer ao detalhe de quais seriam as funções municipais, num País tão variado como o Brasil. Mas a posição do IBAM é a de que o poder de polícia do município deveria estender-se à polícia de trânsito. Não tem nenhum sentido o município ficar limitado a organizar o trânsito de certo modo e não controlá-lo, o que é importante. Do mesmo modo, não vejo nada de mais em que o município possa ter polícia armada, como havia no Estado do Rio de Janeiro, no regime de 1946. Os municípios que quisessem poderiam ter. Nada impede que o município tenha polícia armada. A polícia de trânsito, com o município, seria algo muito bom. Num trabalho como este, que deve ser sucinto para merecer atenção, não podemos descer aos detalhes das funções municipais, mas, respondendo à sua pergunta, somos a favor da polícia de trânsito na mão do município, porque não se justifica que seja diferente. Só dará conflitos. É uma superposição, de certo modo, de funções, que não se complementam como parece, mas criam problemas. Quanto às microrregiões homogêneas, eu diria que nós, no IBAM, não somos contra a idéia de que haja uma estrutura política, nem nas microrregiões homogêneas nem nas regiões metropolitanas. Temos cuidado é com a idéia de um nível de governo. No dia em que se criar outro nível de governo, um quarto nível – temos hoje três – vamos enfraquecer os municípios. Temos nas mãos de regiões metropolitanas, como diz a expressão do Constituinte, “uma estrutura política”, mas não como um governo, porque, na hora em que tivermos um governo nas regiões metropolitanas, nas microrregiões, teremos um confronto com os municípios. E os municípios precisam consolidar-se mais e não ter um concorrente pela frente. Naturalmente, há mecanismos interessantes para essa estrutura política – já falei aqui, no princípio, quando me tocou fazer a apresentação, que o IBAM propõe que nas entidades metropolitanas estejam presentes os municípios, não só nos órgãos, como caráter consultivo, mas também como órgão deliberativo e na administração. A mesma coisa poderia acontecer com as microrregiões homogêneas. Creio que, sem um mínimo de função política – e quero ser breve – não é possível que essas regiões funcionem bem. Essas funções políticas envolvem, inclusive, uma descentralização do orçamento estadual, coisa que não é fácil, mas é essencial. Quer dizer, o orçamento estadual deveria contemplar recursos para as microrregiões homogêneas e ter uma estrutura, desde que não fosse ao nível do governo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Alexandre Puzyha. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Meu caro Presidente, de fato estamos iniciando muito bem os trabalhos desta Subcomissão. E, através das palavras do Dr. Diogo, do Dr. Nivaldo Krieger, do Dr. Jorge Khoury, do nosso amigo Baldonedo Napoleão, incansável lutador, chegamos realmente à conclusão de que, além de iniciarmos bem, estamos tendo que fazer uma pergunta: não seria oportuno nos reunirmos com as outras Subcomissões que também tratam especificamente dos assuntos atinentes aos municípios? Vimos, exaustivas vezes, tanto o Nivaldo, como o Baldonedo, como o Dr. Diogo, como o Dr. Jorge Khoury falarem sobre tributação: deve ser tributado pelo fim ou pelo começo, quer dizer, pela origem ou pelo consumo? E também sobre o problema dos transportes, da educação, do meio ambiente, n problemas. Só quero fazer esta pergunta. Dependendo da resposta, inclusive dos quatro excelentes tradutores do nosso municipalismo, gostaríamos que isso fos se colocado para o nosso Relator e o nosso Presidente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência, o Constituinte Waldec Ornelas e os próprios membros da Comissão já se manifestaram a respeito do assunto. Pela interface existente nesses temas, municípios e regiões, tributos, questão urbana, transportes e Federação, é evidente que iremos programar essas reuniões de integração. A Presidência indaga se algum dos expositores quer fazer alguma consideração a respeito do assunto. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Se me permite, Sr. Presidente, diria que é inevitável, DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) absolutamente inevitável, porque essas duas propostas do IBAM não estão completas para receber sugestões novas muito aceitáveis. Tratam só de outras Comissões: a do Sistema Tributário e a da Organização do Estado. O município como membro da Federação, que é a proposta número um do IBAM, não está nesta Subcomissão, mas em outra. Então, há pelo menos quatro Subcomissões diferentes que versam sobre esses assuntos. De modo que, creio, será inevitável a participação do trabalho da Constituinte. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Por menos que queiramos, e mesmo em função de algumas críticas formuladas no período em que foi estabelecida a Comissão dos Notáveis, o trabalho realizado pela Comissão Afonso Arinos terá forte presença na discussão do processo de elaboração da nova Constituição. E me parece que – e me parece não, é com convicção absoluta que falo isso – na parte da competência da União, dos Estados e dos Municípios, a proposta formulada pela Comissão dos Notáveis praticamente elimina a participação do Município na legislação sobre determinadas matérias que, a nosso modo de ver, são fundamentais. Transfere à União e aos Estados a competência, por exemplo – foi elaborado há pouco – do problema do trânsito. Sabemos que nos Estados Unidos, na maioria dos municípios as multas de trânsito representam 10% do seu orçamento. Em alguns municípios as multas de trânsito representam 90%. E em três municípios as multas de trânsito representam 95%. Então, há certos aspectos que acredito sejam fundamentais e, agora, um trabalho de profundidade, talvez possamos alterar toda a legislação, no que diz respeito aos municípios brasileiros. Fui prefeito por um período e sempre dizia que o prefeito, quando está em campanha, é o arauto do paraíso. Depois que se senta na cadeira ele se transforma no porteiro do inferno, porque todos os problemas acabam estourando sempre naquela cadeira, para não dizer outra coisa. Por exemplo, o problema do menor, da educação. Inevitavelmente é a municipalidade que se obriga a encontrar uma solução, por necessidade imperiosa e absoluta. Um companheiro salientou – e muito bem – a possibilidade, a perspectiva de os municípios brasileiros deterem a parte que lhes compete, no momento da arrecadação, e não da maneira como acontece. Enfim, com medidas como essa acredito que possamos promover as profundas alterações que se fazem necessárias. Nesse sentido, como reflexão e, ao mesmo tempo, como apelo, seria muito importante para esta Subcomissão que os companheiros aqui presentes oferecessem subsídios que pudessem fazer com que esse trabalho atendesse exatamente às necessidades práticas de cada prefeito. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Raul Ferraz. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Não entendo uma frente de luta sem bandeira de luta. O município brasileiro não tem bandeira de luta. Ele pode ter reivindicações difusas, pedidos de aumento de alíquotas, de extinção e troca de impostos, mas não sabe o que quer. Aliás, o município brasileiro tem muito medo de dizer o que quer. Ora, sabemos que o operariado brasileiro tem a bandeira de luta dele. Muitos acham certo, outros acham errado, mas a bandeira de luta do operariado, do trabalhador é geralmente contra o capitalismo. Querem o socialismo. De modo geral, é assim, quando ele é mais organizado. Ele acha que o operário, na escala social, é explorado. Convenhamos, não falta razão a quem pensa assim. Temos, na relação Município, Estado e União, também o explorado, que é o Município. O Município é o grande explorado. Ninguém tem coragem de dizer que o sistema federativo é bom para os outros, para o Estado, para a União, mas, para o Município, é o fim do mundo. E só interessaria o sistema federativo ao Município se ele fosse devidamente compensado. Por exemplo, dizem que o Brasil imitou os Estados Unidos, quando fez a sua Federação. Mas, se ele imitou, por que não imita mesmo a Federação? Nos Estados Unidos a União tem 50% dos recursos, os municípios têm 30% e os Estados têm 20%, simplesmente porque os Municípios têm muito mais o que fazer do que os Estados. Mas os nossos prefeitos têm medo dos governadores, são caudatários. Na própria luta pela reforma tributária os prefeitos brasileiros, como as organizações que os representam, são caudatários dos governadores e das outras esferas. Então, os Estados utilizam a reforma tributária. Quando falam em prefeitos é apenas para fortalecer a luta dos governadores. Não estão interessados nos Municípios, porque os Estados têm de ser o intermediário, o atravessador. Devem ter os recursos para dar aos prefeitos, de acordo com as suas preferências de ordem política. Fui prefeito e sei que é assim. Muitos aqui que foram prefeitos sabem que a coisa é assim, mas têm medo de falar. Então, é lamentável. Tenho inscrita a tese aqui, mas não poderei apresentá-la na Constituinte porque não me dão tempo. Dão-me dois, três ou quatro minutos. Ainda vou lutar por isso. Já pedi à Mesa – vou lutar por isso – para expor detalhadamente esta minha tese. O que quero propor aqui é que os Municípios levem em consideração sua posição no sistema federativo. Ou os Municípios são devidamente contemplados na Federação ou levantam sua grande bandeira de luta: Federação não interessa aos Municípios, a não ser que estejam devidamente compensados. A bandeira de luta do Município, numa Constituinte, deve ser a seguinte: não queremos aquela palavra que está na Constituinte, que sempre esteve nas nossas Constituições, de que a Federação é indissolúvel. Pode continuar uma Federação, mas respeitem o Município. Agora, a grande arma dos Municípios é a seguinte: se os Municípios não estiverem bem tratados, devidamente contemplados na Constituição, então é porque eles não querem Federação. Proponho que seja esta a bandeira do municipalismo: a Federação não interessa aos municípios, a não ser que estejam bem contemplados. Quero pedir à Mesa que me dê uma oportunidade mais adiante, a fim de que possa apresentar detalhadamente a proposta que tenho para os municípios brasileiros, do contrário não adianta ser Constituinte. Ser Constituinte para ter dois ou três minutos para falar sobre os nossos proble- 28 mas, sobre a nossa experiência, francamente, não interessa. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra aos expositores que quiserem fazer considerações a respeito da fala do Constituinte Raul Ferraz. (Pausa.) Primeiramente, o expositor Diogo Lordello de Mello, a seguir, Nivaldo Kriger, em terceiro, Maldonedo Napoleão. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELLO: – Sei o que quis dizer o Constituinte Raul Ferraz, cujas teses conheço há muitos anos – esportes em Fortaleza, no 5º Embra. Tive um papel naquela ocasião – não sei se sabe o Constituinte Raul Ferraz – no sentido de que não se excluísse das atas a sua tese. Eu era Presidente de uma comissão. Como sua tese foi rejeitada, e achei que não devia ser, que se deveria fazer menção a ela, consegui – eu, que não sou hábil nessas coisas, não sei como consegui, numa luta enorme, está aqui o Dr. Guedes, que esteve presente lá, e outras pessoas também – que a sua tese constasse, ainda que não fosse aprovada. Sua tese era no sentido de que deviam ser abolidos os Estados. Os Estados são atravessadores. É uma tese das mais ousadas que já vi alguém propor, além de dizer que se implante um regime socialista, ou seja lá o que for. Nunca ouvi uma tese mais ousada, que merece consideração muito cuidadosa, porque, num País dessas dimensões, não é fácil admitir-se sejam abolidos os Estados. Agora ele está dizendo alguma.coisa importante. Está admitindo, de certo modo, que os estados possam até existir, desde que isso não prejudique os municípios. Creio que é uma posição mais conciliadora se, de fato, a Constituinte vier dar aos municípios um papel no sistema governamental brasileiro. Creio que a tese de Juarez Távora não seria tão fácil hoje de se pôr em prática. Ele propunha, no princípio da década de 30, em 1933, quando era Ministro, e eu era líder municipalista, hoje talvez não caiba mais isto, embora seja muito bonito – a União-norma: os Estados adaptam, os municípios executam. Quer dizer, ele propunha que não houvesse execução de nada que não fosse através do município. Nem as hidrelétricas, que, naquele tempo, ainda não existiam tão grandes assim, nem coisa alguma. Ou eram privadas, ou não eram do Estado. Os Estados adaptariam a legislação estadual e pronto; também não executariam nada. É uma tese bonita, de 1933. Não sei se a realidade a comporta, mas, de fato, se temos uma Federação, e por isso a tese do IBAM e de outros aqui foi expressa, em primeiro lugar, pelo Prefeito Nivaldo Krieger, de que o município seja membro da Federação e, como tal, seja protegido. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Eu gostaria de debater, em primeiro lugar, numa tese como esta, o seguinte: é que em 168 países existentes, 153 não têm a figura do Estado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita ao Constituinte que está fazendo sua manifestação, que a faça no microfone. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Vou tomar pouco tempo aqui. Espero falar em outra oportunidade, se puder. Quero dizer que a funda- 29 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) mentação dessa tese é a seguinte: existem no mundo 168 países, 153 deles não têm a figura do Estado; ou seja, 92% dos países do mundo não têm a figura do Estado. Quando digo que precisamos de tempo para discutir é porque, quando se levanta esta tese, argumentam: ora, país grande tem que ser federativo; país unitário é país pequeno. Muito bem, então, porque a Suíça, que é um país pequeno, é federativa? E por que a China, que é maior do que o Brasil é um país unitário? São coisas dessa natureza que precisamos discutir aqui. Às vezes levanta-se também o problema ideológico: porque a China é um país comunista. Mas a União Soviética também é um país comunista e é federativo, e não unitário. Então, não tem nada a ver uma coisa com a outra. É preciso que se diga que, fora os Estados Unidos, as grandes democracias do mundo são países unitários, descentralizados, evidentemente. Ninguém está pregando a centralização de poder. Acho até que a descentralização que nós devemos ter é a descentralização entre quatro mil municípios e não entre vinte e três Estados. Sabemos que, numa época de revolução ou de golpe de Estado, muitos governadores saem, atropelando-se uns aos outros, para ver quem apóia a revolução primeiro, por que isso conta tempo: conta ponto quem a apóia primeiro. Já com os municípios, não. Ninguém nunca conseguiu ter todos eles debaixo de seus pés. Os municípios reagem, geralmente, à ditadura. Vou apenas fundamentar mais uma vez, dizendo que é assunto que precisa ser discutido, pelo menos para que sirva de bandeira para o município. Para encerrar, quero dizer que em todos os países do mundo que não têm Estado, ou seja, em 92% deles, nos 153 países que não têm Estados, os Municípios arrecadam mais ou menos – a não ser países paupérrimos, em que nem o poder central tem alguma coisa – o que os municípios e Estados arrecadam juntos aqui no Brasil. Então, o município não tem porque viver chorando. Ele precisa é de ter uma bandeira, para que seja bem contemplado. No momento em que a distribuição de renda for bem feita, que se mantenha a Federação. Ninguém tem nada de específico contra o sistema federativo. O problema é que essa Federação que aí está não interessa aos municípios, e não vemos nossos órgãos de representação nem os nossos prefeitos dizerem isso. Preferem ficar reivindicando migalhas por aí afora, perdendo tempo, porque temos as outras unidades mais fortes do que o município, que são os Estados e a União, com outros interesses que não os dos municípios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência vai conceder a palavra aos expositores. É evidente que oportunamente será ouvido o Plenário a respeito da exposição do Constituinte Raul Ferraz, que, de qualquer maneira, poderá apresentar sua tese regimentalmente à Casa. Vamos ouvir cada um dos expositores a respeito da provocação. A Presidência entende até que é interessante, que dá certo sabor ao debate. Vamos ouvir por três minutos cada um dos outros expositores que quiserem fazer uso da palavra. Ouviremos a indagação da Constituinte inscrita posteriormente, para encerramos nossos trabalhos nesta parte da manhã. A Presidência concede agora a palavra ao expositor da ABM, Nivaldo Krieger, e posteriormente aos outros dois inscritos. O SR. NIVALDO KRIEGER: – Acho a tese proposta válida como qualquer outra, respeitável como o direito de expressão de opinião; discutível como qualquer tese é discutível. Quanto à validade precisa ser discutida; e, quanto à conveniência, tem de haver o confronto entre uma proposta e outra. A tese é muito interessante. Vale a pena ser discutida e, se a analisarmos de determinados ângulos, vamos encontrar um grau de dispensabilidade da figura do Estado. Entretanto, sou pela manutenção da federação tripartida – União, Estado e Município – tendo em vista nossas peculiaridades, nossa tradição, nossa história. Afinal de contas, um povo forma a sua vida em cima de uma civilização, de uma história, de um tempo, de tudo o mais que constitui a sua vida, a vida daquela Nação. Desestruturála e romper determinados liames é muito difícil. Concordo com isso. Quero também dizer com todo o respeito, ao ilustre Deputado que também foi Prefeito e que diz que os prefeitos têm medo, que sou prefeito pela terceira vez e nunca me incluí entre os que têm medo do Governador ou do Presidente da República. Sei que os prefeitos que integram a Frente, a ABM, o Movimento Municipalista – cujo Presidente está aqui presente – a Confederação, estão numa luta, arrostando riscos e não buscando agradar ao governante, mas quase sempre se opondo frontalmente, sobretudo ao governo central. Os governos dos Estados são tão vítimas – aqui faço sua defesa, não por querer agradar a quem quer que seja, mas por convicção da evidência dos fatos – quanto os municipais nesse processo terrivelmente concentrador. Diz o nobre Constituinte que não temos bandeira. Temos bandeira, eu convidaria S. Ex.ª para integrar a nossa luta – Prefeito que foi, Deputado que é – pela causa municipalista, que é muito conhecida. Não vou repetir aqui e agora, mas terei o máximo prazer, se o nobre Deputado nos receber, de fazer-lhe uma visita e expor esses aspectos. Era esta a colocação que queria fazer, em nome da Associação Brasileira de Municípios. O SR. BALDONEDO ARTHUR NAPOLEÃO: – Quero apenas dizer ao ilustre Deputado, com quem já tive oportunidade de conversar dias atrás, que a Frente Municipalista Nacional é nova, é recente. Nasceu no município. Não tem nenhuma ajuda do Governo Federal. Já veio falar com o Presidente da República do regime passado e do atual regime. Os dois Presidentes não deram solução às nossas propostas. voltamos a Brasília não para falar novamente com os Presidentes, mas para falar com o Congresso Nacional. Conseguimos aprovar duas emendas da Constituição: a Emenda Passos Pôrto e essa de 1985, por unanimidade do Congresso Nacional, numa demonstração de que não temos medo de manifestar nossas reivindicações. O que acontece, ilustre Deputado e ex-Prefeito, é que a situação atual impõe aos municípios, realmente, uma posição de humilhação perante os governadores. É humilhante a situação dos prefeitos, porque há governadores que, pessoalmente, e não pela força institucional do Governo do Estado, têm tremenda vocação para a ditadura. São autoritários, desrespeitam a dignidade política do prefeito, que é eleito pelo povo para defender os seus interesses, e o submete até à pressão da filiação partidária, sob pena de não receber essas migalhas miseráveis do Governo Estadual. Mais uma vez, respeitando a questão da tradição brasileira dos Estados, que tem muito a ver com a Constituição da República brasileira, devemos reconhecer o que o Nivaldo falou, ou seja, que os Estados são tão pobres ou mais pobres que os municípios. Viraram, lamentavelmente, nos últimos anos, cabides de emprego. Estão desmoralizados como organizações que têm objetivos a cumprir, como administrações que têm metas a atingir, mas a verdade é que nós, na Frente Municipalista Nacional, não aceitamos, de maneira alguma, característica de subserviência ou de medo de falar. E, principalmente, nobre Deputado – quero aqui dizer com todo o entusiasmo, com toda a esperança – porque temos, em Brasília, os nossos representantes para não terem medo de redigir uma Constituição justa para os municípios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência indaga ao Prefeito Jorge Khoury se gostaria de usar o seu tempo. O SR. JORGE KHOURY: – Gostaria de endossar as palavras dos companheiros que me antecederam e dizer ao ilustre Constituinte Raul Ferraz que, na verdade, conhecemos a sua obra e o grande trabalho que desenvolveu à frente do município, quando prefeito. Não sei se o nobre Constituinte tem a real informação com relação à maioria dos municípios brasileiros, que talvez não tenham, no seu orçamento, nem 10% do seu grande município. Por isso mesmo essa dificuldade e essa humilhação colocada pelo nosso colega. Só queríamos aqui enfatizá-la. E diria, sem com isso querer, de maneira alguma ofender os &s. Parlamentares, que, na verdade, já estamos vivendo um novo tempo, mas, num passado recente, houve esse atrelamento dos prefeitos, pelas suas deficiências, principalmente financeiras, e também por aquelas deficiências de ordem política, desde quando não eram cumpridas as normas ou aquilo que rezava a Constituição. Não vimos apenas nos prefeitos, mas vimos nos demais políticos brasileiros e – por que não dizer? – nos parlamentares, até mesmo aqui no Congresso Nacional. Isso entendo ser fruto do regime que vivemos no passado. Acreditamos que esta Casa, no momento renovada em grande percentual, na verdade, não terá, no desempenho da sua missão do presente, como não temos nós, prefeitos eleitos em 1982, esse receio. Só queria reforçar a lembrança de que a aprovação da Emenda Passos Pôrto foi a primeira vitória no Congresso Nacional, após a ditadura 'de 1964. Teve origem no Congresso, legislando sobre a matéria financeira e aconteceu porque grande número de prefeitos se deslocaram de seus municípios para aqui virem pressionar o Presidente da República e o Congresso Nacional. Quer dizer, essa é a demonstração inequívoca de que, naquele momento, se alguém tinha medo, não eram os prefeitos brasileiros. Quanto à questão da Federação, entendemos também que faz parte de uma tradição do nosso País e – por que não dizer – da América como DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE – (Suplemento) um todo. A centralização ao nível do Governo Federal, no regime presidencialista é grande, haja vista o último fato da rebelião da Argentina, quando o Presidente foi pessoalmente resolver um problema, quando, na verdade, toda a estrutura do Poder não o conseguiu antes. São esses aspectos, entendo eu, que devem ser revistos. Na verdade, no passado, quando nunca éramos ouvidos, aconteceram desastres que todos reconhecemos no momento, enquanto, em países como a Alemanha, no Congresso, nunca é votada matéria alguma que diga respeito aos municípios, sem serem ouvidas as representações municipalistas. Se, no Brasil, essas entidades não tiverem a devida força, até para a questão de comunicação, serão surpreendidas com uma série de temas que são aqui decididos e votados, sem nenhum entendimento com aqueles que, de alguma forma, serão alvo daquelas medidas. Todas estas razões, no meu entender, é que resultaram nessa dificuldade que o nobre Constituinte colocou, mas acreditamos que, com o seu apoio, haveremos de construir uma Constituinte municipalista, conforme o texto do convite do nobre Presidente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra a Constituinte Marluce Pinto, última inscrita para fazer indagações aos expositores. A SRA. CONSTITUINTE MARLUCE PINTO: – Quero agradecer a participação aos expositores, porque muitas dúvidas foram esclarecidas, e já dispomos de subsídios para preparar nossas propostas. Após os debates, quando o nobre colega Constituinte fez referência à Polícia Municipal, fiquei um pouco preocupado, não porque não tenhamos confiança nos nossos prefeitos, mas acho que, na hora em que os agentes e delegados de Polícia tiverem de ser escolhidos pelos prefeitos ou por eles coordenados, isso vai criar uma série de problemas aos prefeitos e à comunidade, porque é o que se vê até hoje, em muitas cidades, não só no Território de Roraima, de onde sou representante. Sou nordestino. Vivi no Estado do Ceará até 1979 e me desloco constantemente para lá. Devido à minha atividade empresarial, ando por todo o Nordeste. Já vi muitas e muitas injustiças cometidas contra delegados de polícia, que são demitidos ou transferidos para outra cidade porque penalizam pessoas que são filhos de pessoas influentes ou que são mesmo pessoas influentes. Meu colega que me desculpe, mas temos os Três Poderes, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Hoje, todos os governadores são escolhidos pelo povo, através do voto. No Executivo, dentro de pouco tempo, também vamos escolher. E ninguém fala – nem o povo nem nós, Constituintes – em fazer urna reforma no Poder Judiciário. Acho até que isso se deve à responsabilidade desse Poder, porque ele não pode prestar favores. Ele apenas tem de cumprir a lei, punido todos. Na hora em que estamos fazendo uma Constituinte, em que as novas leis têm de ser reformuladas, e reformuladas de maneira que venham a ser aplicadas. Porque, se formos analisar, nossas leis não são tão prejudiciais; apenas não são cumpridas. Há muita discriminação. O criminoso só é punido quando não tem poder econômico ou então quando não tem influência. É por isso que fiquei preocupado. Nem constava da relação para falar, mas achei que temos de fazer uma reforma no Poder Judiciário, não para que os seus representantes sejam eleitos pelo povo, mas exatamente para que, na hora em que forem escolhidos pelo voto, já se sintam obrigados a satisfazer àqueles eleitores ou aos chefes, aos cabos eleitorais que ajudaram a elegê-los. Sabemos que isso não pode acontecer. Espero que meu nobre Colega me desculpe – não sei se isso tem a ver com o fato de eu ser mulher – mas realmente fiquei preocupada que, através da sua solicitação, os Constituintes aceitassem mesmo a Justiça municipalista. Os prefeitos também que me desculpem, mas isso só iria criar-lhes graves problemas. Muito obrigada. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, peço a palavra, pela ordem. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Pois não. Com a palavra, para fazer as suas colocações, o Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Tenho a impressão de que a eminente Constituinte Marluce Pinto fez uma confusão, uma vez que não preguei aqui, de forma alguma, nem a eleição para Juiz Municipal, nem para Delegado de Polícia. Apenas fiz uma indagação ao eminente Dr. Diogo, para saber se o IBAM tinha alguma idéia, no que concerne ao problema de justiça nos municípios. Essa foi a colocação que fiz. Entendo como absolutamente procedente a preocupação de se reestruturar a política judiciária brasileira, para que os Estados possam fazer a pre stação jurisdicional de modo mais efetivo, para que não continue como está hoje, quando se reflete exata-mente aquele quadro desenhado pela eminente Deputada Constituinte: nos municípios só são condenados aqueles que não têm força econômica. É contra isso que nos insurgimos. O que nós queremos é que a lei seja respeitada por todos e que os que a infringem sejam obviamente punidos por essa mesma lei. Foi apenas essa a colocação que fiz. Não defendi aqui, de forma alguma, a eleição para Juiz de Direito munici pal, muito menos para Delegado de Polícia. A SRª CONSTITUINTE MARLUCE PINTO: – Nobre Colega, também não disse que V. Ex.ª solicitou eleição. Apenas expus como são os Poderes que hoje são escolhidos, e não só o Judiciário. Quando o nobre Colega falou sobre a Justiça municipal, eu me preocupei por isso: o que se entende por Justiça municipal? Que os delegados que para lá seguissem precisariam ter, de certa forma, a escolha, talvez, dos prefeitos municipais. E isso criaria mais problemas, porque a comunidade está constantemente junto ao prefeito. Aquele prefeito é eleito pelos votos daquela comunidade. Assim, é muito mais fácil que os verdadeiros infratores sejam punidos quando os delegados de Polícia são escolhidos pelo Estado, porque aquelas famílias já não têm a mesma facilidade de falar com os governadores, como falam com os prefeitos. Portanto, eu me referi apenas à minha preocupação. Não quis dizer que o nobre Colega e amigo tivesse solicitado eleição. Se S. Ex.ª entendeu assim, peço que me desculpe, mas não foi essa a intenção. Quero dizer aos Colegas que a reforma tem de ser feita, mas que não haja delegado nem agente de Policia nos municípios escolhidos, ou, mesmo que sejam escolhidos, ao menos que levem nomes, porque isso não vai melhorar a situação. Muito pelo contrário, além de piorar a situação da comunidade vai piorar em muito o relacionamento dos prefeitos com essa mesma comunidade. Obrigada. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência registra a presença do Prefeito de Inhumas, Goiás. Antes de terminar, agradece a presença aos expositores Baldonedo Arthur Napoleão, da Frente Nacional Municipalista, ao professor Diogo Lordello de Mello, Assessor Especial para Assuntos Internacionais do IBAM – Instituto 30 Brasileiro de Administração Municipal – ao Dr. Nivaldo Krieger, Secretário-Geral da Associação Brasileira de Municípios – ABM – e ao Prefeito Jorge Khoury, Presidente da Confederação Nacional dos Municípios. Seguramente, trouxeram contribuição efetiva ao trabalho que pretendemos realizar. Particularmente a Subcomissão de Municípios e Regiões, por todos os seus Constituintes, integrantes e suplentes, pretende elaborar uma Constituição que seja realmente municipalista, que resgate a dignidade do município brasileiro perante a Federação. Agradeço a todos a contribuição. Nada mais havendo a tratar, vou encerrar os trabalhos da presente reunião, convocando outra para às 17 horas, uma vez que temos sessão do Congresso às 18:30 horas, com a finalidade de organizarmos a pauta do final da semana e do início da semana que vem. Está encerrada a reunião. COMISSÃO DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO Subcomissão dos Municípios e Regiões ATA DA 4ª REUNIÃO ORDINÁRIA Aos vinte e dois dias do mês de abril de mil novecentos e oitenta e sete, às dezessete horas e trinta minutos, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, sob a Presidência do Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, na Sala B-3, do Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, com a presença dos Senhores Constituintes: José Dutra, Aloysio Chaves, Mauro Miranda, Eliezer Moreira, Maurício Fruet, Sérgio Brito, Lavoisier Maia, Denisar Arneiro, Ivo Cersósimo, Waldeck Ornelas, Alexandre Puzyna, Vitor Buaiz, Mello Reis, Luiz Freire, Raul Ferraz e Firmo de Castro. Ata – Depois de lida e discutida, foi aprovada ata da reunião anterior. Ordem do Dia: Abrindo os trabalhos, o Sr. Presidente informou que a reunião destinava-se à elaboração da agenda dos trabalhos da próxima semana. Posto o assunto em discussão, participaram dos debates os Senhores: Waldeck Ornélas, Maurício Fruet, Mello Reis, Raul Ferraz, Alexandre Puzyna, José Dutra, Mauro Miranda e Eliezer Moreira, ficando aprovado o seguinte calendário: Dia vinte e oito de abril, às nove horas e trinta minutos – Painel sobre o tema: "O Vereador e a Constituição", com a participação das seguintes entidades: União dos Vereadores do Brasil – UVB e da Confederação Nacional das Associações dos Moradores – CONAM. Dia vinte e nove de abril, às nove horas e trinta minutos – Painel sobre o tema: "Disparidades Municipais", com a participação das seguintes entidades: a) Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais; b) Associação dos Municípios do Amazonas; c) Federação das Associações dos Municípios do Estado do Maranhão; d) Associação dos Municípios de Santa Catarina. Dia trinta de abril, às nove horas e trinta minutos – Painel sobre o tema: "O Município e a Reforma Tributária". Participantes: a) Dr. Ozias Monteiro Rodrigues – Secretário de Finanças do Amazonas; b) Dr. Ozires Azevedo Lopes – Diretor da Escola Superior de Administração Fazendária – ESAF; c) Dr. Heron Arzua – Advogado Tributarista; d) Dr. Francisco de Paulo Carneiro Giffoni – Técnico da Secretaria de Planejamento. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada às dezoito horas e trinta minutos, a presente reunião, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte . E, para constar, eu, lná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. 31 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) 5ª Reunião Ordinária Aos vinte e três dias do mês de abril de mil novecentos e oitenta sete, às dez horas, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na sala B, do Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, com a presença dos Srs. Constituintes: Aloysio Chaves, Mauro Miranda, Maurício Fruet, José Dutra, Alexandre Puzyna, Eliézer Moreira, Lavoisier Maia, Nestor Duarte, Sérgio Brito, Mello Reis, Edésio Frias, José Maranhão, Luiz Freire e Firmo de Castro. Abrindo os trabalhos, o Sr. Presidente comunicou que a presente reunião tinha por objetivo ouvir os representantes da Associação dos Prefeitos das Capitais e do Conselho das Regiões Metropolitanas, convidando para comporem a Mesa os Srs. Constituintes Mauro Miranda, Primeiro Vice-Presidente e Aloysio Chaves, Relator; e os Srs. Conferencistas Roberto Requião, Prefeito de Curitiba – Paraná, e Silas de Oliveira, Prefeito de Itapevi – São Paulo. Ata: Depois de lida e submetida à discussão, foi aprovada a ata da reunião anterior. Com a palavra, o Sr. Roberto Requião agradeceu a oportunidade de falar perante esta Subcomissão, enfatizando em sua palestra a importância do desenvolvimento urbano, a distorção da concentração de renda, a visão burocrática do processo administrativo. Finalizando, propropôs a criação de uma grande região metropolitana, com prefeito metropolitano, e a eleição de prefeitos distritais, para os problemas específicos de seus municípios. A seguir, o Sr. Presidente concedeu a palavra ao Sr. Silas Manoel de Oliveira, Presidente da Associação dos Municípios da Grande São Paulo, que, ressaltando o desafio representado pelas regiões metropolitanas, apresentou como solução para essas áreas a adoção de um mecanismo de compensação financeira, e a transformação das cidades-dormitórios em municípios produtores de espaço para habitação. Na seqüência dos trabalhos, o Sr. Gervásio Cardoso de Oliveira Filho, Secretário Executivo do Conselho Nacional do Desenvolvimento Urbano – fez uma explanação sobre proposta do CNDU relativa a disposições sobre Regiões Metropolitanas. Com a palavra, o Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves, reiterou sua posição aberta para receber sugestões de todos, visando a elaboração de um anteprojeto que represente o consenso geral. Pela ordem, solicitou a palavra o Sr. Constituinte Alexandre Puzyna para informar que se encontrava na reunião o Sr. Domingos Pontes, Prefeito de Caucaia, Ceará, solicitando à Presidência fosse o mesmo ouvido pela Subcomissão, o que foi aprovado pelo Plenário. Com a palavra, o Sr. Domingos Pontes agradeceu a oportunidade de falar a esta Subcomissão, dizendo-se contrário à proposta do CNDU, que provocará uma centralização maior, enquanto o que se pretende é a descentralização do poder, em relação aos municípios. Inquiriram os conferencistas os Srs. Constituintes: Mauro Miranda; Luiz Alberto Rodrigues, o qual passou a Presidência ao Primeiro Vice-Presidente, Mauro Miranda; Alexandre Puzyna, José Dutra, Waldeck Ornelas, Vítor Buaiz, José Maranhão, Max Rosenmann. O Sr. Presidente anotou a presença dos Srs.: Paulo José Villela Lomar, Assessor Jurídico da Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo; Antônio Santos Mendonça, Secretário da Associação dos Municípios da Grande São Paulo, Prefeito de Arujá, São Paulo; Almir de Lima Machado, Presidente da Federação para o Desenvolvimento Urbano da Região Metropolitana do Rio de Janeiro; Norberto Luiz Alegri, da AMGSP; Fernando Carrazedo, Secretário Executivo do Consulti Codegran; Luiz Henrique Cavalcanti Fragomeni, Coordenador de regiões metropolitanas, do MDU; Maurício Nogueira Batista, Coordenador de Política e Legislação Urbana; e estudantes da Faculdade de Direito de Curitiba. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a presente reunião, às doze horas ,e quarenta e cinco minutos, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte, E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, depois de lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Havendo número regimental, declaro abertos os trabalhos da reunião do dia 23 de abril de 1987 da Subcomissão dos Municípios e Regiões. Hoje iremos ouvir representantes da Associação dos Prefeitos das Capitais no painel "As Regiões Metropolitanas e a Constituinte: Propostas". A Sr.ª Secretária procederá à leitura da ata da reunião anterior. (É lida e aprovada a ata da reunião anterior.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência convoca para compor a Mesa o Prefeito de Curitiba, Roberto Requião, e o 1º-Vice-Presidente da Comissão, Constituinte Mauro Mrianda. Indago da assessoria se já foi registrada a presença de mais algum dos expositores. (Pausa.) Está presente o Presidente da Associação do Conselho dos Municípios da Região Metropolitana de São Paulo, Dr. Silas de Oliveira. A Presidência solicita a S. Sa. que venha compor a Mesa. (Pausa.) Vamos dar início ao nosso painel, ouvindo o Prefeito de Curitiba, Roberto Requião, convidado a participar deste painel por sugestão do Constituinte Maurício Fruet. O nobre prefeito disporá de 20 minutos para fazer a primeira parte da sua exposição. Concedo a palavra ao expositor Roberto Requião. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Sr. Presidente, Srs. membros da subcomissão, aproveito a oportunidade que a Assembléia, através desta Subcomissão, me oferece para focalizar a angústia de um político urbano, eventualmente prefeito de uma capital, diante da situação de crise por que passam os municípios brasileiros. O Brasil é hoje um País urbano, pois 70% da população vivem nas cidades, sendo que 40% nas regiões metropolitanas. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) A discussão política nacional dá extraordinária ênfase à reforma agrária e coloca em segundo ou terceiro planos a questão maior e mais importante do momento político brasileiro: a reforma urbana. A reforma agrária é absolutamente necessária, quando nada por um imperativo de necessidade de produção. A reforma agrária é necessária porque, ética e moralmente, devemos garantir a propriedade da terra a quem nela trabalha. Mas, decididamente, a reforma agrária não resolve o problema do êxodo rural no Brasil. Uma reforma agrária que enveredasse pela vertente da fixação de grandes massas no campo seria, no Brasil, uma reforma no estilo chinês. Mas, para que essa reforma fo sse possível, falta ao Brasil a matéria-prima básica para o processo, o chinês. Vivemos numa economia de mercado com uma vocação urbana acentuadíssima. A inversão da população rural e urbana, ocorrida na última década, é um indicador definitivo. Caminhamos para uma situação semelhante à vivida hoje pelos Estados Unidos, onde 5% da população vivem no campo, sendo que 3% vive e ali trabalha, enquanto que 2% vive no campo, por uma opção de fixação de residência. A questão urbana torna-se assim, de forma extraordinariamente clara, a mais importante do País. Ao mesmo tempo em que as regiões metropolitanas se adensam e grandes cidades surgem de uma maneira quase que irreversível, pela ausência de um plano estadual e nacional de apoio às cidades médias e potencialm ente médias, as grandes cidades se tornam cada vez mais inadministráveis. Os municípios hoje caracterizam -se pela incapacidade quase absoluta de cobrarem seus próprios impostos, de engendrarem sua própria organização tributária. Enquanto em um país como os Estados Unidos o IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano, contribui com cerca de 15% da massa tributária geral da república, no Brasil, o IPTU nas grandes cidades não chega a contribuir com 1% da massa tributária arrecadada. E o IPTU é um dos impostos mais justos, porque recai exatamente sobre os que detêm a propriedade territorial urbana. As dificuldades se acentuam pela grande permeabilidade das Câmaras Municipais aos lobbies organizados. Os direitos e os interesses sociais mais amplos são difusos, e nquanto os interesses que se situam em cima, por exemplo, da propriedade urbana são localizados e organizados. Cada vez que se debate um aumento de IPTU numa grande cidade a massa da população beneficiada com esse imposto, através da ampliação dos serviços sociais do município, não se manifesta com clareza, mas os interesses da especulação imobiliária, por exemplo, o fazem de forma extraordinariamente efetiva na pressão às Câmaras Municipais. Não conheço cidade brasileira que cobre IPTU com justiça. Trago aqui, para exemplo, o caso específico de Curitiba. As zonas pobres da cidade, onde o valor real dos imóveis é corrigido pelo processo constante de construções suportadas pelo Sistema Nacional de Habitação, pagam o IPTU quase que pelo preço real de mercado d os imóveis. Mas as velhas e consolidadas áreas da cidade, que contam com todos os equipamentos possíveis e imagináveis – no caso de Curitiba, equipamentos semelhantes aos de todas as cidades do mundo desenvolvido – pagam com uma defasagem de cerca de vinte e duas vezes o valor real de mercado dos imóveis. Temos, então, uma situação cruel, em que a periferia sustenta o urbanismo dos bairros centrais, através de uma carga enorme de Imposto Predial e Territorial Urbano. 32 Acredito, por outro lado, que a distorção da concentração de renda depois da Emenda nº 18 também é muito grande. Num primeiro momento do pós -64, a concentração de renda foi extremamente útil para o desenvolvimento nacional. Ela quebrou a espinha dorsal do poder oligásquico rural, baseado fundamentalmente nas estruturas municipais, O dinheiro ia carimbado, e o Brasil se modernizou, viabilizaramse projetos de saneamento público e se viabilizou fundamentalmente a perspectiva do planejamento global nacional. Num segundo tempo, a burocracia federal se expandiu, cresceu, tornou-se cara e passou a emperrar o processo de distribuição de renda, de planejamento público, ao mesmo tempo em que se apropriava de grande parte dos recursos destinados aos municípios. Não acredito que o caminho seja o de uma reforma tributária alemã, porque aquele país conta com municípios consolidados através de 600 ou 700 anos de existência. Acredito que a reforma tributária, num País com as dimensões do Brasil, não deve enfraquecer a União, nem desestruturar a possibilidade do planejamento no País. Mas ela deve, fundamentalmente, agilizar o repasse de recursos carimbados, com destinações específicas, como projetos de saneamento, projetos de estrutura viária, projetos de transporte coletivo, projetos que digam respeito aos direito s cada vez mais exigidos pelo homem da cidade, como o direito ao trabalho, ao salário justo, à educação, à saúde, ao lazer e ao transporte. Mas esses recursos devem ser aplicados e gerenciados a nível do município, sem os entraves burocráticos dos planejam entos intermináveis, que levam uma cidade como Curitiba, por exemplo, a ter apresentado até hoje dezesseis versões do Bird-4, sem que tivéssemos o financiamento aprovado. A cada momento as burocracias estatal ,e a internacional alteram os padrões de comportamento e os requisitos de planejamento. E ficamos mantendo estruturas de técnicos, no afã de planejamentos infindáveis, que são modificados a cada momento pelas superestruturas financeiras. Mas os municípios, ao lado ,do acesso fácil ao dinheiro, que é deles – e acredito que ainda deve ser gerenciado pela União, pela necessidade do planejamento global – devem ter a possibilidade de projetar, a partir de suas próprias estruturas, alguns impostos e taxas que se adequem à sua estrutura específica ou à da região. Reforma tributária não significa enfraquecer a União, mas dar velocidade no repasse dos recursos e possibilitar, a nível dos municípios, a criação de novos impostos, novas figuras, novas taxas que viabilizem a autonomia financeira, que é o problema básico decorrente da desorganização da sociedade civil. Diriam V. Ex. as: mas o Prefeito de Curitiba está -se colocando contra o processo de autonomia municipal. Não, decididamente não. Mas, num primeiro momento, a necessidade absoluta de planejamento da União tem que ser respeitada, em função das condições sociológicas do Brasil. A autonomia municipal deve vir acompanhada, pari passu, da organização da sociedade civil, senão os nossos municípios, com uma reforma à alemã, com uma economia de mercado e com as pressões de internacionalização da economia brasileira em que vivemos, serão seguramente não mais um veículo de controle da estrutura política do País pelas oligarquias, mas o veículo da internacionalização fácil da economia brasileira. E as Prefeituras não seriam mais do que braços do planejamento das grandes empresas que, hegemonicamente, sustentam e mantêm o 33 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) comando ou o mando do poder municipal, mesmo em grandes cidades e em Capitais como Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. O tema a mim proposto foi "A Crítica à Estrutura Atual das Regiões Metropolitanas." Ele não foge também às linhas determinantes de todo o projeto da Velha República. Há prevalência absoluta da visão burocrática no processo administrativo e a negação, a impossibilidade total de que a vida urbana, espaço predominante de conflitos sociais, no Brasil jovem em que nós vivemos, se manifeste. Os municípios e as regiões metropolitanas devem viabilizar uma estrutura viva, que não subordine a vida das cidades apenas à orientação dos técnicos, mas encare a cidade como um processo vivo de conflitos, de mudança de prioridades, de ascensão de grupos organizados da sociedade civil, de grupos de operários, de grupos de trabalhadores, de grupos de pressão, cujos anseios vão desde a melhoria das condições d e trabalho à preocupação com a ecologia e a preservação do verde nas cidades. Esses grupos devem necessariamente possuir um espaço para poderem manifestar-se e subordinar técnicos aos seus interesses. A cidade não pode ser mais construída de baixo para cima. Ela deve ser, definitivamente, o produto da inteligência, da criatividade, das tradições e das necessidades do seu povo. A cidade é uma máquina de vida e o homem da cidade não é mais uma mercadoria a ser utilizada pelo comércio, pela produção enquanto força de trabalho, e marginalizado nas periferias. A proposta que trazemos a respeito especificamente das regiões metropolitanas é a de um grande município, que elegeria um prefeito metropolitano que se responsabilizaria pelo planejamento geral da região. Não podemos conviver mais com municípios limítrofes que não compatibilizam estruturas de transoprtes, planos de saneamento e projetos globais de uso do solo urbano, que não conseguem utilizar os três instrumentos clássicos do planejamento urbano: uso do solo, estrutura viária e transporte de massa. Nós propomos a eleição de um Prefeito municipal pelo conjunto dos habitantes da região metropolitana e a de Prefeitos Distritais que se encarregariam basicamente dos problemas específicos da sua região e que não digam respeito fundamentalmente ao planeiaxneto global. Uma única Câmara Municipal deve ser eleita pelo sistema do voto distrital. Esses distritos administrativos e eleitorais não se confinariam no desenho único e exclusivo dos municípios que atualmente constituem as regiões metropolitanas, mas seriam adequados, redesenhados, conforme as condições econômicas, topográficas e sociais existentes. Seriam homogeneizados em cima de características físicas, políticas e sociais. Os Prefeitos Distritais, por sua vez, abririam um espaço fundamental para a evolução da sociedade civil organizada. Seria criada um Conselho Comunitário, que, de certa forma, resgataria a origem do Vereador não remunerado, substituído, nesse processo, não na Câmara Municipal geral, mas na discussão dos assuntos do seu distrito, por um conselho vivo, com participação aberta da sociedade civil. Seria um conselho não desenhado institucionalmente, para não ser apropriado por grupos políticos e forças eventuais, mas aberto a cada manifestação da sociedade organizada. E quase sempre a sociedade civil não se organiza de foram definitiva. Ela se organiza em cima de problemas que surgem. Ela se mobiliza para a solução desses problemas e se desmobiliza quando os problemas são resolvidos ou quando não há possibilidade da solução dos problemas. É um processo dinâmico, criativo e constante, que não pode ser consolidado, cristalizado, numa estrutura definitiva. Estou propondo a V. Ex. as o que levamos a um Encontro de Regiões Metropolitanas, em Porto Alegre. A nível do Município de Curitiba, já estamos realizando isso com as nossas freguesias, administrações regionais que funcionam com um Conselho Comunitário. Acredito que, em linhas gerais, e para que a reunião seja mais produtiva e o discurso não se alongue, a proposta de Curitiba para esta Subcomissão tem mais ou menos esse desenho, que pode ser discutido mais adiante, nos debates. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao Prefeito Silas de Oliveira, de Itapevi, Presidente da Associação dos Municípios da Grande São Paulo. O SR. SILAS DE OLIVEIRA: – Sr. Presidente, membros da Mesa, Srs. constituintes, companheiros prefeitos e demais técnicos da área, realmente, a região metropolitana é um desafio, pois foi instituída, no primeiro momento, exclusivamente por uma lei, sem ter tido, inicialmente, a participação dos Municípios quanto à necessária programação da sua inclusão nessa área. Vivemos hoje um momento muito difícil, pois, nas regiões metropolitanas, diversos municípios têm características próprias, que acabam assumindo um custo muito elevado. Também por uma lei maior se defeniu, nas regiões metropolitanas, área de proteção aos mananciais e municípios que não têm condições de crescer, nos quais não podem ser implantados loteamentos nem indústrias. Portanto, não se podem desenvolver. A proposta que fazemos, para que haja um real equilíbrio na região metropolitana, é no sentido de que se definam mecanismos de compensação financeira, de tal forma que os municípios que estão em regiões de proteção aos mananciais sejam classificados como produtores de água, portanto, tenham uma compensação para que a área seja mantida. Por exemplo, que o custo do tratamento de água, em função da existência desse manancial, seja ressarcido a esses municípios. Na região metropolitana também temos alguns municípios que reservam parte do seu território à produção de alimentos e não têm recurso algum de compensação para a manutenção dessa área. Temos em todas as regiões metropolitanas municípios que, hoje, são considerados cidades -dormitórios. Tal classificação acabou colocando esses municípios quase na sarjeta. Nossa proposta é a de que, onde se lê cidade-dormitório, passe-se a ler municípios produtores de espaço para a habitação. Lá fica uma população que gera recursos nas grandes cidades, já industrializadas, dentro das regiões metropolitanas, e lá ficam os encargos. Dou o exemplo da minha cidade, Itapevi, na Região Metropolitana de São Paulo. Quando assumi, em 1983, nossa população era de 80 mil habitantes; hoje, em 1987, já subiu para 150 mil habitantes. Não há qualquer tipo de compensação. Servimos para atender a população em termos de habitação e não temos qualquer contrapartida. Como se não bastasse esse tipo de situação, todas as regiões metropolitanas foram condenadas, em 1985, a ter uma população irreal. O IBGE apontou, por exemplo, em relação ao nosso Município, uma estimativa de 67 mil habitantes. Agora mesmo, conversando com o Prefeito de Caucaia, da DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Região Metropolitana de Fortaleza, soube que lá também ocorreu o mesmo. Creio que qualquer município de região metropolitana passou por isso. Portanto, além do mecanismo de compensação financeira, há que se definir também o mecanismo de contagem dessa população. Hoje, mesmo os mecanismos impróprios e insuficientes para atender aos municípios da região metropolitana o fazem em função da população. Discuti, em termos de IBGE, a forma de contagem dessa população. Naquela oportunidade, quando contestávamos o IBGE, no que se refere às ligações domiciliares, ele apresentava um número de habitantes em torno de 18 mil. Calculando-se, em média, 5 habitantes por domicílio, teríamos, só aí, 90 mil habitantes. Esse tipo de dado apresentado pelo IBGE é adotado para todos os órgãos. As regiões metropolitanas são classificadas como cidades médias, através de projeção ou registro ,da população pelo IBGE, a partir de cem mil habitantes. Com isso, os municípios ficam prejudicados no tocante aos repasses normais dos órgãos, quer sejam do Estado, quer sejam do Governo Federal. Preocupou-nos, na semana passada, ver na televisão um fato ocorrido nos Estados Unidos, na cidade de Nova Iorque, quando se retirava o lixo da cidade, em pacotes, tentando levá-los para outra cidade próxima – creio que a maioria de V. Ex. as acompanhou o noticiário e viu que não foi permitido colocar o lixo na outra cidade. Ele foi trazido de volta a Nova Iorque, estando lá até hoje, sem solução. Em outras cidades dos Estados Unidos, o lixo está sendo jogado no Golfo do México. Então, há que se definir também na legislação da região metropolitana – assim como temos áreas de proteção aos mananciais – espaços que sejam reservados à destinação final dos resíduos sólidos, do lixo. Se isso não for definido em termos de lei, haverá um grande problema e teremos a repetição desse fato lamentável. Outra proposta que fazemos é a de ampliarmos o debate. Parece-nos que a Subcomissão dos Municípios e Regiões está disposta a discutir em outras reuniões em que se possa tratar a região metropolitana mais amplamente: que não fiquemos exclusivamente em debates como o de hoje. Fomos surpreendidos, porque esta reunião havia sido preparada para a participação exclusiva das Associações de Prefeitos das Capitais, e de repente fomos tomados de surpresa, conseguindo a compreensão do Sr. Presidente Luiz Alberto, que nos convocou para aqui comparecer, e já se propôs a fazer uma série de painéis, em que representantes das regiões metropolitanas venham participar. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita à assessoria que passe a lista destinada a que os constituintes presentes se inscrevam para fazer perguntas aos expositores. A Presidência convida para fazer parte da Mesa, realizar exposição a respeito do tema encaminhado o Sr. Gervásio Cardoso de Oliveira Filho, Secretário Executivo do Conselho Nacional do Desenvolvimento Urbano (CNDU). Logo após esta exposição, iniciaremos os debates. O SR. GERVÁSIO CARDOSO DE OLIVEIRA FILHO: – Sr. Presidente, Srs. Constituintes, Sras. e Srs., de fato, fui também pego de surpresa ao ser convocado para fazer esta apresentação. De qualquer maneira, minha presença se justifica, uma vez que, como subsídio, distribuí um documento específico sobre a constituição das regiões metropolitanas. A minha idéia é no sentido de, preliminarmente, esclarecer a natureza deste documento, que se refere à Comissão Técnica do CNDU nº 3, instituída para promover o estudo e a reorganização das novas regiões metropolitanas dentro da Constituição. Gostaria de esclarecer que se trata de documento preliminar, resultado do 34 trabalho inicial dessa Comissão Técnica, ainda não submetido à apreciação do Plenário do Conselho. Ele trata de matéria relativa à organização das regiões metropolitanas. Talvez o ponto que possa ser destacado como principal inovação seja o primeiro artigo, segundo o qual a União delegaria aos Estados a competência para estabelecer regiões metropolitanas. Como se sabe, hoje cabe à União definir e, através de lei complementar, estabelecer as regiões metropolitanas. Preliminarmente foram estabelecidas, em 1973, oito regiões metropolitanas e, posteriormente, com a fusão dos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, o Rio de Janeiro passou a ser a nona região metropolitana. Por essa nova sugestão do Conselho, as regiões metropolitanas passariam a ser estabelecidas pelos Estados, cabendo à União apenas, através de lei complementar, definir os critérios básicos para a sua criação. Hoje, a Constituição não fixa critérios definidos. Há apenas uma resolução do CNDU que define alguns critérios para as regiões metropolitanas, mas que não tem força de lei, sendo apenas resolução de um conselho interministerial. A competência para o estabelecimento das regiões metropolitanas passaria para os Estados. A União definiria os critérios básicos e, em conjunto, a União, os Estados, os Municípios e as próprias regiões metropolitanas estabeleceriam os mecanismos de cooperação, recursos e atividades para assegurar a realização das funções públicas de interesse metropolitano. A Constituição do Estado disporia sobre autonomia, organização e competência da região metropolitana, como entidade pública territorial do governo metropolitano, atribuindo-lhe delegação para promover a cobrança de taxas, contribuições, tarifas e preços, com fundamento na prestação de serviços públicos e arrecadação de impostos de interesse metropolitano; em segundo lugar, teria competência para expedir normas nas matérias de interesse da região metropolitana. Como parágrafo único, a Constituição do Estado enumeraria as funções públicas de interesse metropolitano. Como detalhe, nas disposições transitórias haveria um artigo que manteria as atuais regiões metropolitanas, desde que atendidos aqueles critérios básicos a serem definidos no art. 1º. O Prefeito de Curitiba sugere, de antemão, a organização dessa entidade que governaria o território metropolitano. De fato, a Constituição do Estado definirá e competirá aos municípios em conjunto estabelecer a melhor forma de governo: se um administrador geral para o conjunto dos municípios, se um prefeito metropolitano que, neste caso, seria um superprefeito, trabalhando com prefeitos distritais. No caso, em vez de a União passar a definir, como fez até agora, ela delegaria a competência ao Estado que, em conjunto com os municípios, de acordo com os seus próprios interesses, estabeleceria a melhor forma de se organizar e administrar os problemas de interesse dessa comunidade. Essa idéia vai um pouco ao encontro da crítica, aliás fundamentada, do Prefeito de Itapevi, Dr. Silas de Oliveira, de que o Governo Fedral tem até agora estabelecido, de cima para baixo as regiões metropolitanas, sem que haja um consenso, sem ouvir as bases, sem realmente saber se aquela comunidade quer ser ou não região metropolitana, se ela inclusive está consciente do fato metropolitano, do que caracteriza a problemática metropolitana. No caso, seria uma descentralização da legislação hoje existente para os Estados; a União estabelecendo os critérios gerais, os Estados definindo as regiões metropolitanas e a própria Constituição do Estado, em conjunto com os municípios, definindo a melhor forma de governo para administrar em conjunto esse território metropolitano. Esta a contribuição que queríamos apresentar, Informamos a V. Ex. as que é um documento de natureza info r- 35 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) mal, já que não foi aprovado pelo Plenário do Conselho, mas é o resultado do trabalho de uma Comissão Té cnica dentro do Conselho, que contou inclusive com a participação e colaboração das nove entidades metropolitanas que, reunidas, apresentaram sugestões que foram incorporadas nessa composição. O Ministério do Desenvolvimento Urbano, através do Sr. Ministro Denis Schwartz, está preparando um documento maior e mais abrangente sobre a problemática urbana de maneira geral, aí incluída toda a problemática da organização de territórios e da competência dos diversos níveis de governo. S. Ex.ª deverá entregar este trabalho à Assembléia Constituinte para servir de subsídios para duas, três ou quatro comissões que tratam indiretamente da problemática urbana. Agradeço a V. Ex. as a oportunidade que me foi dada de apresentar o documento e coloco o CNDU à disposição da Comissão para qualquer trabalho. Espero que o nosso contato não se esgote nesta reunião, mas que seja permanente. Estaremos à disposição de todos para colaborarmos lado a lado na solução desse problema que o CNDU já vem debatendo há doze, quinze anos – a questão da organização do território e da problemática urbana como um todo. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos dar início aos debates. O Relator da Comissão, Constituinte Aloysio Chaves, tem a palavra para iniciar as indagações. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – A posição do Relator, conforme já anunciei, desde o primeiro momento da instalação da nossa Subcomissão, é ouvir atentamente para recolher subsídios, dados, elementos apresentados por conferencistas, expositores, companheiros, que resultem do debate e da discussão em torno das matérias atribuídas à competência desta Comissão. O Relator não traz idéias próprias, porque vai escrever aquilo que for resultado da deliberação da Comissão; vai expressar a decisão, os pontos esposados, acolhidos, aceitos pela Comissão. Por isso, nos debates, minha participação tem sido discreta e continuará a sê-lo. Desejo fazer apenas uma rápida ponderação para, no desdobramento deste assunto, quando ele for examinado de uma forma mais completa, verificarmos a conveniência de adotar uma solução que, em um primeiro exame, me parece muito oportuna e sensata. A contribuição que o CNDU apresentou está muito bem estruturada; é fruto, sem dúvida alguma, de um estudo, de uma experiência, de uma reflexão e de um conhecimento que este órgão já acumulou ao longo dos anos, desde a sua criação. Não me deterei em análises particulares, mas acho que a região metropolitana, como todos sabem, foi instituída pela Constituição de 1967, no atual art. 164. Antes dela não se falava. Ela, a rigor, se insere como uma entidade ainda sem forma definitiva, sem uma configuração institucional completa, entre o Município e o Estado, mas dentro do próprio Estado. Portanto, diríamos que na Federação existem o Município, o Estado e a União. Entre o Município e o Estado temos, hoje, as regiões ou as áreas metropolitanas, algumas procurando maior autonomia. Existe inclusive a sugestão para se fazer da região metropolitana uma espécie de macrorregião, com prefeito eleito, prefeitos distritais e um conselho para orientar e dirigir as decisões e os trabalhos de interesse da região metropolitana. Ocorre que na proposta se pretende que a Constituição do Estado disponha sobre a autonomia, a organização e a competência da região metropolitana. Antes se dizia, no art. 1º, que "a União, mediante lei complementar, definirá os critérios básicos para o estabelecimento das regiões metropolitanas". Acho que entre esses critérios básicos está o problema da autonomia. Temos que deixar a autonomia como parâmetro, como uma norma, regra ou princípio de caráter geral, para evitar que a Constituição de certo Estado dê uma ampla autonomia, transformando num pequeno Estado a região metropolitana, e outro Estado reduza de tal maneira esta autonomia q ue, mesmo com enquadramento semelhante ao que foi proposto, a região acabe por não funcionar, por se tornar inoperante. Essa matéria de autonomia é de tão alta relevância, de tão alta indagação, que só poderia figurar como uma diretriz, como um princípio geral, como um parâmetro a ser estatuído e inscrito nesta lei complementar. Esta a observação rápida, Sr. Presidente, que desejava fazer, não me alongando mais. Como é do conhecimento de V. Ex.ª, mas não de todo o Plenário, eu me afastarei desta sala durante alguns minutos, porque tenho uma audiência com o Sr. Presidente da República para tratar de assunto inadiável. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Há uma questão de ordem do Constituinte Alexandre Puzyna. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Sr. Presidente, a minha questão de ordem é uma sugestão para que fosse ouvido o prefeito de Caucaia, Município que faz parte da região metropolitana de Fortaleza. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Consulto o Plenário se há possibilidade de o uvirmos o Prefeito de Caucaia. Os que estiverem de acordo permaneçam como estão (Pausa). Aprovado. A Presidência concede ao Prefeito cinco minutos, para que faça a exposição de assunto relacionado a regiões metropolitanas. O SR. DOMINGOS PONTES: – Agradeço à Presidência da Mesa por essa oportunidade. Sou Domingos Pontes, Prefeito de Caucaia, Ceará, na região metropolitana de Fortaleza. Participei, em Recife, há dez dias, de um simpósio, do qual o nobre Deputado Waldick foi um dos expositores. Juntamente com os prefeitos de Camaçari e Olinda, fomos os debatedores. Lá foi aventada a hipótese, que é a mesma do CNDU. Estranhamos muito o CNDU dizer que ouviu todas as regiões metropolitanas. Nunca ouvi dizer que tivesse havido uma consulta. Acho que isso se deve ao poder discricionário que criou as regiões metropolitanas, pois em Fortaleza o Conselho Deliberativo Executivo – sou prefeito, há 4 anos –, nunca se reuniu. Ouvi também o testemunho do Prefeito de Camaçari, de que só houve uma reunião, assim como do Prefeito de Olinda, que disse nunca ter sido consultado para participar do plano de elaboração do novo Governo. Então, esse novo Governo, essa Nova República, não está sendo tão transparentes como se diz. De minha parte, já tendo lido o documento que o Prof. Maurício levou para Recife, não teria coragem de destinar um centavo sequer do orçamento do Município para o Governo do Estado tomar conta. Desculpe-me o Prefeito de Curitiba, mas também não sou favorável ao quarto poder – querem criar o quarto poder, que é o "municipão", ou governo metropolitano. Enquanto estamos querendo descentralizar para melhor administrar, o que está acontecendo é a centralização. Essa idéia do CNDU é uma centralização inaceitável, está vindo de cima para baixo. Queremos que daqui por diante, com a Nova República, as coisas aconteçam de baixo para cima, como na Subcomissão do Município e das Regiões, que nos está dando oportunidade de fazer um depoimento. É preciso que também se revogue a Lei Complementar nº 27, que modificou a Lei Complementar nº 14, criadora das regiões metropolitanas e dos conselhos deliberativos, que são compostos pelo Governo do Estado: o Presidente e mais cinco membros, sendo um o prefeito da capital e outro eleito pelos demais Prefeitos. Todos DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) os Prefeitos das regiões metropolitanas deveriam participar do Conselho Deliberativo, porque o Conselho Consultivo é como um negócio de cartomante, não serve para nada. Outro fato que acontece é que o governo estadual nada dá para as regiões metropolitanas, principalmente sendo discricionário como o foi o último governo do Estado – e não sei se o atual vai ser. É preciso salientar que as regiões metropolitanas foram criadas na síndrome da simetra: todas as regiões com a mesma estrutura, do Sul ao Nordeste. Precisamos criar, na p róxima Constituição, programas especiais para aqueles Municípios que tenham vocação agrícola, como é o caso da Região Metropolitana de Fortaleza. Setenta por cento do território da Região Metropolitana de Fortaleza é zona rural, e não recebemos sequer um incentivo, um investimento – como o Polonordeste, o Proálcool e o Provárzeas – porque somos região considerada altamente urbanizada, o que, na realidade, não somos. Posso citar Belém, que hoje só tem dois Municípios, enquanto São Paulo tem trinta e oito; Fortaleza tinha cinco, agora tem seis, e foram desmembrados mais dois Municípios. É preciso também criar mecanismos nessa nova Constituição para que o Presidente da República autorize que aquele Município pertença à região metropolitana e esta passe a assegurar-lhe recursos. Que seu recurso orçamentário não seja destinado a outros Municípios e, ainda, quando entrar um novo, não seja rateado. Já que os recursos são poucos e ainda diminuem cada vez mais. Quanto ao Governo do Estado, não tem condições de criar regiões metropolitanas porque só iria fazer politicagem. Que a União continue a criá-las ouvindo as populações e os prefeitos, porque o Estado não tem condições! Gostaria de saber se os Prefeitos de Curitiba e da região da Grande São Paulo são a favor do "municipão" ou do quarto poder. Somos favoráveis a que haja mecanismos dentro desta Constituição para incentivar os programas agrícolas e somos contrários a essa discriminação do Conselho Deliberativo, criado pela Lei Complementar nº 27. Agradeço ao Sr. Presidente e aos demais membros da Mesa por esta oportunidade. O SR PRESIDENTE (Luís Alberto Rodrigues): – A Presidência agradece ao Prefeito de Caucaia, da Região Metropolitana de Fortaleza, pela contribuição, que veio realmente acrescentar pontos importantes aos nossos trabalhos. Concedo a palavra ao 1º-Vice-Presidente da Comissão, Deputado Mauro Miranda, para o seu questionamento. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Sr. Presidente, Srs. conferencistas, a quem quero cumprimentar pelo grande trabalho que nos apresentaram hoje. Srs. Constituintes, é com enorme alegria que vemos transcorrer este debate em nossa Subcomissão. Percebemos, hoje, um conflito muito grande. Sou um Deputado Federal representante de 43 pequenos municípios, mas ouvi, com muita atenção, o nosso conferencista, Prefeito de Curitiba, Roberto Requião. Percebo que muita coisa precisa ser mudada e com muita coragem. Da mesma forma S. Ex.ª disse que o problema da reforma agrária não é o mais importante – e sou de um estado essencialmente agrícola, que é Goiás – porque 80% da nossa população estão nos grandes centros. Aliás – não tenho os dados corretos – creio que 50% devem estar nas regiões metropolita- 36 nas. Quem sabe está na hora de se reconhecer o quarto governo: a região metropolitana, União, Estado e Município. Acho que se precisa ter uma coragem muito grande para enfrentar os problemas dessas regiões metropolitanas, de modo global, e não, particularizadamente, ater-se às dificuldades de cada município ali situado. Percebo, ademais, Dr. Roberto Requião, sua crítica ao fortalecimento do poder central em detrimento do poder dos municípios. Ontem, praticamente à unanimidade, limitamos as transferências n egociadas, tanto do orçamento federal como dos orçamentos estaduais, estritamente a dois casos: calamidade pública e realização de planos e programas com objetivos claramente definidos, onde esteja prevista a participação estadual e municipal na sua implem entação. Na sua fala, V. Ex.ª acha que deve ser fortalecido o poder central, no sentido de uma planificação global do País, para evitar as pressões, principalmente das grandes multinacionais, em cima dos municípios. Gostaria que isto fosse mais detalhado o u trabalhado por V. Ex.ª, porque a matéria é extremamente conflitante. A aspiração da maioria dos municípios é muito conflitante com o seu pensamento. Quem sabe o seu pensamento geraria o quarto poder, que estamos dispostos a assumir, já que quase 50% ou m ais da população nacional moram nas regiões metropolitanas. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Na verdade, a proposta que coloquei reforça um único poder: o poder popular. É uma tentativa de se criar uma estrutura pedagógica de participação da sociedade civil. E ela começa, na realidade, com espaço aberto nos conselhos comunitários dos distritos metropolitanos. Há uma diferença muito grande – insisti na minha exposição inicial – entre o município alemão, de setecentos anos, e o município brasileiro, criado por injunções políticas. Às vezes um município é criado mais em função da manutenção de um curral eleitoral, da viabilização de grupos, do que por necessidade econômica. Temos municípios que não têm vocação agrícola, industrial ou comercial e foram criados. Neles acabam se instalando os repuxos luminosos, os grandes campos de esportes. Não há preocupação com a produção, com os direitos e com o trabalho. Esses municípios não podem ser entendidos de uma forma clássica, em cima da filosofia municipalista, como se fosse um município antigo, consolidado, com uma vida comunitária, uma vida solidária, uma sociedade civil organizada. A Região Metropolitana de Curitiba limita-se com alguns municípios que são cidades -dormitórios que não se integram no planejamento global. Então, diriam V. Ex. as que estou propondo um quarto governo? Não; estou propondo o governo, a governabilidade, a viabilização de instrumentos de planejamento. Não se pode negar a um município limítrofe de Curitiba, em que todas as pessoas trabalham em Curitiba, um município como Almirante Tamandaré, onde nasceu o exPrefeito de Curitiba, Maurício Fruet, a possibilidade de contar com os recursos da capital, onde sua população trabalha, produz e gera impostos e serviços. Na verdade não estou propondo o esvaziamento do pequeno município, mas a viabilização do planejamento e, ao mesmo tempo, de alguma forma, um início de descentralização e de desconcentração do poder. Temos duas instâncias, aí. A descentralização se dá quando o Estado estende o seu braço para uma pos ição mais próxima do cidadão. E a desconcentraçao se dá quando ele começa a criar estruturas que viabilizem a transferência de uma parte do poder discricionário do mandatário para a população, que é o conselho comunitário. Na realidade, acredito que um dos problemas sérios do Brasil, que tenta viver a democracia parlamentar e representantíva, que é uma evolução enorme, uma contribuição da sociedade ocidental para a humanidade, é a crise da absolutização do mandato. Tinhamos de criar estruturas de medição, de participação da sociedade civil. É evidente que eu não poderia propor, numa comissão de 37 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) região metropolitana, o mandato imperativo, o mandato mediado pelo partido, vinculado ao programa, vinculado à responsabilidades. Então, temos de criar estruturas. Poderia V. Ex.ª dizer: o Requião está propondo o fim da autonomia municipal? Estou propondo a ampliação da participação popular através das suas representações civis, através da sua Câmara de Vereadores e a viabilização de um planejamento integrado. Hoje, o que é que temos nas comissões das regiões metropolitanas? Estruturas absolutamente burocratizadas, um ridículo Conselho de Prefeitos que não se reúne. Acrescento, aqui, que o lamento do Prefeito de Caucaia, é o meu. Não participei de reunião alguma da Comissão Metropolitana de Curitiba. A distância do CNDU da Prefeitura de Curitiba é tão absoluta que não conheço, sequer de vista, os seus membros. Então, o que parece uma proposta centralizadora na verdade é uma proposta que viabiliza o planejamento, a intervenção e a utilização dos grandes instrumentos de panejamento numa região inteira e que, pedagogicamente, pretende abrir um espaço para a organização da sociedade civil – participação popular –, um espaço não cristalizado, livre, que valoriza, de forma extraordinária, o trabalho do vereador. Então, perguntariam: mas como fica o vereador no Conselho Popular? Afinal, o que é um vereador? É um legislador ou é um despachante de luxo, a vender serviços, distribuir manilhas e viabilizar empregos? O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Permitame. Concordo perfeitamente com essa participação popular, da organização da sociedade. Mas a centralização que V. Ex.ª falou no início é no tocante a recursos afetos à União. De repente, Curitiba tem um prefeito bom, atuante, que agrade ao Presidente da República, e este vai descarregá-los naquela região metropolitana. Queria que os recursos que a União tivesse já fossem definidos para essa área, sem precisar que o Prefeito de Curitiba viesse pedi-los diretamente ao poder central. Em relação à pressão dos grandes grupos, sobretudo internacionais, disse V. Ex.ª que a centralização possibilitaria uma resistência maior. Nem Curitiba resistiria a essas pressões. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Concordo com V. Ex.ª, mas acho que o remédio, ainda que ruim, questionável, é a submissão ao Congresso Nacional dos planos nacionais de desenvolvimento urbano. Fala-se no quarto poder. São Paulo, o que é em relação ao Brasil? É o segundo poder. A Capital de São Paulo, depois do Estado de São Paulo, é o segundo poder da República, em termos de recursos econômicos. E sem ser um município metropolitano. Então, se se tem essa visão localizada dos impostos gerados, tem-se uma série de medidas possíveis, como a transferência do ITBI, medidas batidas e rebatidas e do conhecimento de todos. Creio que deveríamos ter um plano de desenvolvimento urbano, de priorizaçáo de regiões, em cima da densidade, da vocação econômica, industrial, decidido pelo Congresso Nacional. Soubemos – creio que todos têm conhecimento – na semana passada que o Presidente José Sarney retirou recursos de uma ferrovia da produção do Estado do Paraná, previsto no plano aprovado pelo Congresso Nacional, e os transferiu para o Maranhão. Percebe-se que, às vezes, nem com um plano votado no Congresso temos garantia de que os recursos fugirão da estrutura "compadresca" da República. Mas acho que se deve fortalecer o Congresso, através davotação de projetos, de algumas iniciativas como a ampliação da Ação Popular quanto ao seu objeto e a sua titularidade, para que os direitos difusos sejam garantidos e para que se evite, por exemplo, que, quando o Nordeste esteja passando fome, o Governo aloque recursos à Usina de Angra dos Reis ou à Ferrovia do Aço. Que tenhamos a ampliação da Ação Popular, para que possa ser de iniciativa de associações civis, de sindicatos, de grupos de pessoas, e quanto ao seu objeto que não seja só os famosos prejuízos à Fazenda Pública, mas que tenha, também, vinculação com os direitos da cidadania, direito ao trabalho e ao ambiente. São rem édios paralelos nesse processo. Mas não me parece, defintivamente, que o município metropolitano seja uma violação da autonomia. De resto, ela não existe sequer nos municípios integrantes da região metropolitana. Ela é encampada, de forma absoluta, pelo Estado. Estamos, na verdade, criando um mecanismo que retira da mão da burocracia do Estado a responsabilidade e o poder decisório que ela tem e acaba não tendo. Sabemos que a administração das regiões metropolitanas é caótica. Não atribui à região poderes e instrumentos para o seu próprio planejamento, mas o Estado também não os consegue na sua totalidade. E o que vemos é que as comissões e coordenações da região metropolitana não funcionam. (Assume a Presidência o Constituinte Mauro Miranda, 1º VicePresidente.) O SR. PRESIDENTE (Mauro Miranda): – Gostaria que alguém tomasse a iniciativa, hoje, para que se trabalhasse essa matéria o mais rápido possível, e, inclusive, apresentasse propostas já escritas ou sugestões diretamente para esta Comissão, porque na área municipal, do pequeno município, parece que já está bem definido o que podemos e devemos fazer. Gostaria, repito, que apresentassem propostas, coordenados por quem fosse, por um órgão institucional ou por qualquer entidade competente. Passo agora a palavra ao Presidente desta Subcomissão, Luiz Alberto Rodrigues. O SR. CONSTITUINTE LUIZ ALBERTO RODRIGUES: – Sr. Constituinte Mauro Miranda, 1º-Vice-Presidente da Subcomissão, companheiros de plenário, srs. expositores, realmente foi preciso descer à planície para daqui questionar o Prefeito Roberto Requião, que traz uma proposta eivada de certo rancor, que me parece existir entre o prefeito e a Câmara Municipal, autoritária e concentradora, na qual não fica claro se é superposição ou substituição de poder. Não entendi se quer, na verdade, criar mais uma instância de governo, que seria a da região metropolitana, que, necessariamente, teria o condão de isolar áreas de rendas e problemas milionários num pequeno espaço urbano, ou se propõe a substituição do sistema de poder. Ou seja, elimina-se o atual sistema de poder – governo de Estado etc. deixam de existir – e passamos a ter o governo da região metropolitana. Gostaria de fazer essa avaliação e solicitar ao prefeito que me permita esse tipo de consideração. S. Ex.ª fala a respeito da pequena incidência do IPTU, imposto que os prefeitos não gostam de cobrar. Talvez, até por tradição cultural brasileira, o munícipio não gosta de pagá-lo, talvez porque esteja ali, muito perto do prefeito. Então, evita propor o imposto e a Câmara evita de aprová -lo. Há, realmente, alguma coisa. O Prefeito Roberto Requião irá esclarecer-nos com certeza, a respeito das Câmaras Municipais. Propõe S. Ex.ª, por exemplo, a volta de Câmaras não remuneradas, como no passado, o que, na verdade, de certa maneira, levou a uma perda de substância e qualidade nos quadros representativos. Sem ser elitista, podemos ver que a atividade política, durante esse tempo todo do período autoritário, foi tida como uma atividade indigna, não merecedora de qualquer tipo de remuneração, de profissionalismo, mas sim uma atividade que devia ser feita quase que na base do angelismo, da contribuição espontânea. Propõe, ainda, os Conselhos Comunitários, que me parece a proposta mais clara de participação dentro, de um emaranhado de contradições que, a meu ver, o prefeito apresenta. Gostaria que explicitasse, na primeira etapa, sua proposta de participação popular. Em segundo lugar, como ele vê a substituição da Câmara Municipal, que, objetivamente, propõe? Em terceiro lugar, se, na verdade, quer DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) criar um governo metropolitano, com subgovernos, subprefeituras distritais. Como funcionaria quanto à questão dos recursos? Quero dizer que particularmente sou crítico dos macroprojetos e do chamado planejamento integrado, que tem sido o carro-chefe da burocracia nacional e da perda de tempo e de recursos neste País. S. Ex.ª disse que já fez 16 etapas do projeto do BIRD-4. Na verdade, vai fazer 26, 36, porque é exatamente no planejamento, no meio de campo, que os recursos do País são consumidos, sem chegar à ponta, para atender ao município. Estou tentando fundamentar algumas observações a respeito da boa palestra de S. Ex.ª, porque gera contradições, porque polêmica, provocando conflitos. Solicito, pois, estes esclarecimentos: que tipos de canais e mecanismos propõe para substituição das Câmaras Municipais. O porquê dessa acidez com as Câmaras, com os Vereadores. Que tipo de estrutura propõe S. Ex.ª: superposição em substituição de poderes? É uma proposta revolucionária? Substitui-se ou se superpõe ainda mais o poder, o que seria, na verdade, uma proposta para pulverizar recursos. Quanto ao IPTU, também alguns aspectos focalizados por V. Ex.ª merecem esclarecimento. Propõe, outrossim, o miniestado? Estes os questionamentos mais importantes no meu entendimento. Na seqüência, gostaria de indagar do Sr. Prefeito de Itaperi, Silas de Oliveira, como formalizaria a questão que apresentou: de que a cidade-dormitório deveria ser entendida como a cidade-espaço para habitação. E como proporia um mecanismo de compensação financeira, para que a Comissão pudesse, objetiva mente, estudar a proposta. Esta a pergunta que dirigiria a prefeito de município de região metropolitana. E, ainda, se concorda com a criação desse miniestado proposto pelo Prefeito Roberto Requião. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – O nosso Presidente Luiz Alberto Rodrigues, no momento em que declara que desce à planície para melhor entender as posições aqui postas por mim, declara-se, implicitamente, um discípulo de Maquiavel. E tenta fulminar propostas, que, na verdade, não são minhas, mas discutidas há muito tem po, com alguns estigmas: autoritarismo, governo paralelo, miniestado. Não é por aí, Sr. Presidente, nem foi para isso que vim à Subcomissão, aceitando o seu convite, embora a indicação fosse do ex-Prefeito Maurício Fruet. Vim aqui como prefeito para ser respeitado, com propostas sérias, e não para ser gozado com um maquiavelismo congressual. O SR. CONSTITUINTE LUIZ ALBERTO RODRIGUES: – Jamais tive esse propósito. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Aqui, no planalto, entendi desta forma. Talvez, quando eu descer à planície consiga ter a perspectiva que eu espero V. Ex.ª tenha agora. Vamos ver se, com a sua posição, na planície, conseguimos nos entender melhor. Imagine, Sr. Presidente, a concentração de recursos existentes numa capital. Os poderes que o prefeito de uma capital tem em relação aos prefeitos de municípios vizinhos. A população do município vizinho existe e se coloca numa posição mais importante qua a veleidade de um prefeito. Não estou preocupado com o poder para um prefeito de um município vizinho. Estou preocupado com benefícios e garantias de direitos para a população. Curitiba é um exemplo sério disso. Temos oito bairros centrais que são semelhantes às melhores cidades do mundo – e moram nesses oito bairros cento e vinte mil pessoas. Curitiba é o cartão-postal do urbanismo, no Brasil, vendida em todos os grandes centros nacionais e internacionais como o exemplo do planejamento urbano. Mas foram oito bairros centrais planejados, onde moram cento e vinte mil pessoas, numa cidade de um milhão e quinhentos mil 38 habitantes. E a região metropolitana, onde se concentra a mão-de-obra que constrói Curitiba, leva nossa população hoje à cerca de três milhões, dois milhões e setecentos mil habitantes. E essa pseudo-autonomia que o autoritarismo – que eu não coloquei – não pretende quebrar, impede que esses municípios tenham, fundamentalmente, os recursos do planejamento. Diante da barreira e da impossibilidade de o município de Curitiba, com mais recursos, mais bem equipado, do centro da região metropolitana, pensar globalmente o seu território, os políticos se desviam nos discursos e nas obras, nas grandes realizações. E temos aí os viadutos, os grandes centros, os grandes investimentos, as grandes obras, as grandes empreiteiras e as grandes comissões. E municípios, que são separados de Curitiba por uma rua, não têm esgoto, porque este acaba na fronteira do município; não têm integração de transporte coletivo, porque ele é determinado pelo Estado, através dos seus organismos – e as concessões de transporte intermunicipal não são afetas ao poder decisório dos prefeitos, quando ultrapassam suas fronteiras. Não propus, aqui do planalto, a extinção das Câmaras de Vereadores, mas a sua valorização. Não propus a substituição de Câmara de Vereadores por conselhos populares. Propus a valorização de uma grande Câmara de Vereadores, eleita pelas bases distritais do município, ampliado, sim – por que não? – para que o povo tenha atendidas as suas necessidades e para que o planejamento seja viável. Propus uma Câmara de Vereadores remunerada, não vou propor a plutocracia do político que só poderia exercer o múnus público se fosse muito rico. Mas propus, também, a quebra do absolutismo do mandato do prefeito, com a participação popular nos distritos. Propus uma estrutura pedagógica de participação popular que tem de ser construída no Brasil, que não pode ser pensada de uma maneira ideal, como V. Ex.ª colocou a autonomia municipal. A autonomia municipal existe num plano ideal – e todos somos municipalistas, porque todos somos dem ocratas, todos querem a descentralização do poder, a valorização da cidadania. Mas o fato concreto é que a atual estrutura de divisão municipal nas regiões metropolitanas transforma os municípios vizinhos à capital em primos pobres, extraordinariamente pobres, onde essa autonomia não passa de uma ficção, que inviabiliza o planejamento, inviabiliza o acesso dessas populações aos serviços urbanos básicos, inviabiliza o acesso à saúde, inviabiliza o acesso à organização do transporte coletivo, que resultaria num preço mais baixo de tarifas. Não estou propondo o terceiro, quarto, quinto governo e, francamente, não tenho a preocupação de colocar propostas que possam ser epigramadas com estigmas. Vim aqui tentar colaborar, com seriedade, com esta Subcomissão que, tenho certeza, receberá também com seriedade as minhas propostas. Saí de Curitiba diante de uma greve deflagada de professores e de um acampamento e fui o único prefeito de capital que se dispôs a fazer isso nas circunstâncias. (Palmas.) O SR. CONSTITUINTE LUIZ ALBERTO RODRIGUES: – Sr. Presidente, volto a me manifestar na qualidade de inquiridor, para fazer, na verdade, algumas observações que entendo devam ficar registradas. Seguramente não viria aqui e não convidaríamos pessoa alguma para gozar. É evidente que há um exagero de interpretação. Se o Prefeito Roberto Requião assim o entendeu, venho pedir-lhe desculpas. Tentei esclarecer pontos de vista, que me parecem polêmicos e importantes, nas colocações do Prefeito. E, realmente, considero-os ainda, na linha de raciocínio que me trouxe ao microfone, observando que não fui, do ponto de vista pessoal, com a experiência de Vereador, de Deputado e de Secretário de Estado de Planejamento, esclarecido. Seguramente S. Ex.ª tomou equivocadamente a minha fundamentação mais do ponto de vista pessoal do 39 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) que propriamente do ponto de vista de esclarecimento, que na verdade era o que o Deputado Luiz Alberto Rodrigues pretendia e pretende. Faço estas considerações e se o Prefeito assim o entendeu não tenho nenhum pejo de solicitara ele que me desculpe, porque na verdade, não houve e não há essa intenção deste Parlamentar. Segundo: continuo entendendo que a proposta é polêmica, não fui esclarecido e fiz as perguntas com base em anotações do que foi dito literalmente pelo Prefeito: da questão dos impostos, do IPTU, da questão que leva ao entendimento, que anotei, que as Câmaras de Vereadores não deveriam ser remuneradas – ou entendi mal – de que as Câmaras de Vereadores estão mais subordinadas aos lobbies, aos interesses organizados, do que aos interesses da maioria, que declarou que são, mais ou menos, interesses difusos – foi uma expressão de S. Ex.ª. Entendo que foi proposto um governo de região metropolitana, com distritos, eleição de vereadores distritais, conforme S. Ex.ª declarou. Nunca, em nenhum instante, passaram pela minha cabeça outras intenções. Se houve essa interpretação, retifico-a, pois entendo que a contribuição de S. S.ª é importante, porque é polêmica e inovadora. Pareceu-me – gostaria que o Sr. Prefeito me permitisse isso – que ele propõe um quarto nível de governo, o governo da região metropolitana, onde já existe o Governo do Estado, já existe o Governo Federal e onde já existe a Prefeitura. Foi esse o meu entendimento pessoal, fruto talvez até de deficiência de entendimento ou de inteligência. Solicito, então, ao ilustre expositor que, seguramente, veio aqui para colaborar, que releve os eventuais excessos que este Deputado – que também quer ser esclarecido – possa ter cometido. Mas entendo ainda que não fui esclarecido por S. Ex.ª, que sei que tem consistência, senão não estaria aqui apresentando-a. Mantenho a minha pergunta, o meu questionamento ao Prefeito de Itapevi, Sr. Silas de Oliveira. O SR. SILAS DE OLIVEIRA: – Respondendo quanto ao mecanismo de compensação na distribuição do bolo tributário, não me lembro como seria agora, em termos, por exemplo, da Região Metropolitana da Grande São Paulo, qual seria a área de proteção aos mananciais, talvez da ordem de 60%. Esses municípios não têm como, atendendo a uma campanha um pouco mais ampla da própria região metropolitana, fiscalizar área de proteção aos mananciais, destinada à produção de água. Ela vem a atender à região metropolitana como um todo. Só que cada município inserido nes sa região de área de proteção aos mananciais está prejudicado, porque não pode implantar indústria, não pode crescer, desenvolver-se dentro do seu território. Fica impedido de produzir recursos para sua manutenção, como também da possibilidade de criar empregos para atender à mão-de-obra local. Então, o custo é muito alto para esse município. Ele produz água e nada recebe por isso. Há também, na região metropolitana, os municípios que produzem alimentos. Como tal, para que possa ser preservado o cinturão-verde da região metropolitana, deve haver um mecanismo de compensação. Hoje, ficou muito mais fácil falar sobre as cidades -dormitórios, em termos de utilização de palanques com fins políticoeleitoreiros, do que em termos de benefícios reais advindos do Estado. Realçamos a necessidade de considerar hoje as cidades -dormitórios como municípios produtores de espaço para habitação, pois a população nele residente produz, gera recursos, seja na capital, seja nos municípios vizinhos industrializados. Entretanto, sobram-lhes exclusivamente os encargos. Como foi colocado pelo Presidente, a respeito do IPTU, por melhor que seja cobrado do município produtor de espaço para habitação, com certeza não vai gerar recursos suficientes para poder atender à sua população. Os m unicípios considerados cidades -dormitórios assim são vistos sem maiores considerações, pelos organismos que cuidam de habitação. Dentro desta perspectiva, sem ouvir a Cohab, despejam nele todo um conjunto habitacional, como aconteceu no Município de Itapevi. Desse modo, de repente, teve a sua população ampliada em quarenta mil habitantes. Sabemos que todas as reuniões de prefeitos e vereadores, sejam ou não de capital, têm por fim sensibilizar o Governo Central, o Congresso Nacional, para uma reforma tributária. Não se trata, outrossim, de uma pura e simples distribuição de rendas, ampliando-se a participação do município sobre tal ou qual tributo de três para dez por cento, porque persistirá a discriminação contra esses municípios produtores. Ampliando o raio visual do problema, englobando além da região metropolitana também aqueles produtores de energia, onde foram instaladas usinas hidrelétricas por decisão do Governo Central, justamente nas suas áreas produtivas, que ficam inundadas, como costuma acontecer, veremos crescer a injustiça da distribuição do bolo tributário. É preciso pensar na reforma tributária, definindo-se a produção do município. Já há, no tocante ao petróleo, essa definição de município e Estado produtor, que estão recebendo ou preparando-se para receber seus royalties. É o caso do Município de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, e de todos os demais que produzem petróleo, municípios e Estados. Esse mecanismo teria de ser discutido. Ontem participei de reunião na Subcomissão de Tributos, onde estive em contato com o seu Presidente e o seu Relator. Eles se dispuseram a participar de um debate onde busquemos esses mecanismos. Mas há necessidade de se encontrar esse mecanismo, sob pena de essas áreas produtoras de água, com certeza, ao longo do tempo, serem reduzidas. Esses municípios produtores de espaço para habitação não têm mais condições de suportar, como hoje está acontecendo, além do problema dos conjuntos habitacionais, a invasão de terras. Queremos, sim, que os nossos municípios cons igam atender aos municípios industrializados. Não estamos, de forma alguma, nos furtando a receber os operários, nossos companheiros, para viverem em nossa cidade. Mas tem de haver uma compensação financeira, sob pena de jamais chegarmos à solução dos problemas de região metropolitana como um todo, por melhor que seja a discussão, o debate, a elaboração de leis, artigos e parágrafos. Se não houver uma compensação financeira a esses municípios, a região metropolitana como um todo desintegrar-se-á. Pode haver até um superprefeito, um governador da região metropolitana, mas se não houver uma distribuição justa desses recursos a cada município, independentemente da decisão do Governo do Estado, será a ruína e o caos. O mesmo se diga da dependência em relação ao Governo Federal. Normalmente sabemos que só irão receber recursos os municípios melhor preparados, que têm uma equipe de governo bem montada para fazer as solicitações, seja ao Governo do Estado, seja ao Federal. O mecanismo de compensação financeira não s eria uma resposta que eu deveria dar aqui. Vamos estudar junto com a Subcomissão de Tributos. Tenho certeza absoluta de que o CNDU vai colaborar com esse trabalho. A Secretaria dos Negócios Metropolitanos em São Paulo e a Emplasa já se dispuseram a desenvo lver um estudo para fazer essa proposta aos Constituintes para que, efetivamente, tenhamos condições de bem administrar a região metropolitana, sem temermos o fato de estarmos aí incluídos. Não queremos ser penalizados por fazer parte de urna região metropolitana. Em relação à superprefeitura, a um governo, ao quarto poder, como foi colocado pelo CNDU, insisto em que qualquer debate nesse sentido somente deve avançar com a participação de todos os prefeitos das regiões metropolitanas, sob pena de todo esse trabalho gerar novamente um sentimento de falta de participação. A implantação de um novo modelo de região metropolitana sem a participação dos prefeitos dos respectivos municípios será uma coisa artificial. O modelo a ser adotado terá que contar com a participação dos prefeitos da região metropolitana. Faço um apelo à Subcomissão dos Mu- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) nicípios e Regiões para que seja montado um painel com a participação de todos os prefeitos das regiões metropolitanas. Assim, qualquer decisão que venha a ser tomada o será com a participação dos responsáveis por essa difícil experiência. Nós, os prefeitos dos municípios de regiões metropolitanas, já em final de mandato, esperamos que a Constituinte venha afetivamente trazer uma luz para o efetivo equacionamento e solução dos nossos problemas, inclusive oferecendo à população nela residente a qualidade de vida que todos almejamos. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Vou tentar, com um exemplo prático, colocar duas questões que surgem da inadministrabilidade no País. A região metropolitana distritalizada, que eu propus, não seria, em lugar algum do Brasil, maior que o Município de São Paulo. Nenhuma região metropolitana unificada do Brasil teria um décimo da capacidade financeira do Município de São Paulo. Acabaram V. Ex.as razoável que eu propusesse a divisão do Município de São Paulo em tantos municípios quantos fossem suas administrações regionais, dividisse os recursos e instalasse em cada um deles uma Câmara dos Vereadores? Por outro lado, caberia a cada Câmara discutir a aplicação dos recursos gerais, inviabilizando definitivamente o planejamento global ou é o caminho inverso, da viabilização do planejamento? Poderíamos partir para a tese da autonomia. São Paulo tem bairros extraordinariamente consolidados, cada um deles com a sua prefeitura e com os seus vereadores. Então, estamos com um problema concreto na mão. Não vamos resolvê -lo com poesia e com discurso libertário, o municipalismo levado à sua acepção alemã. Temos um problema na frente. Como Prefeito, espero que esta Subcomissão pense seriamente e proponha soluções extraordinariamente concretas. Que a Constituição não fale mais apenas na consagração da autonomia municipal e a inviabilize na prática. Por outro lado, acho que esta Subcomissão está -se abrindo para a discussão. Não fosse, isso, não estaríamos aqui, eu e o prefeito de Itapevi, da Região Metropolitana de São Paulo. Mas que não se abri apenas para prefeitos de regiões metropolitanas a oportunidade. Discutir a nova organização da região metropolitana apenas com os prefeitos das regiões é mais ou menos a mes ma coisa que o Congresso Nacional fixar o seu próprio salário. Ou seja, é amarrar cachorro com lingüiça. Precisamos de uma visão muito mais ampla, de técnicos, da população, da sociedade civil organizada. Os planejadores urbanos têm de ser chamados para es sa discussão. Eles não podem ter o domínio absoluto desse processo. Mas também o domínio absoluto desse processo não pode ficar com prefeitos, absolutamente envolvidos e interessados em seus problemas, com a sua sobrevivência política, com a necessidade absolta de recursos para consertar, numa crise sua imagem, de todos nós, que se desgasta pela falta de recursos, de dinheiro e condições para cumprir promessas, programas, compromissos programáticos. Então, que a Subcomissão se abra, mas não se perca com a visão poética de uma autonomia municipal que inviabilize, de forma decisiva, o planejamento e a participação popular. Os vereadores têm um espaço importantíssimo. Mas é evidente, para qualquer pessoa que tenha uma visão mínima da sociologia urbana, da sociologia municipal do Brasil, que ele é muito mais sensível aos grupos de pressões localizados do que o Congresso Nacional, que está numa posição mais distante e trabalha com interesses mais generalizados. Tanto que as eleições presidenciais e executivas, no Brasil, pela polarização das idéias, têm dado um resultado muito mais programático que as eleições proporcionais, em que os votos se dão pelas cores das camisas, em que as propostas não se discutem. V. Ex.as que viveram o processo de eleição da Constituinte sentiram isso. Votamos muito mais pelas cores partidárias, pelo candidato regional, apoiado pelo prefeito, do que 40 pelas idéias. Já nas grandes questões, que se decidem pelo voto majoritário, as posições são colocadas com mais clareza e a polarização se faz numa maneira mais ideologizada. Então, minha participação aqui resume-se a isso colocar uma proposta, polêmica por que não? Que esperamos da Constituinte? Mudanças. Não esperamos o conservadorismo, não esperamos o cortejamento de prefeitos, de estruturas e manutenção de situações eleitorais. Esperamos mudanças profundas, pensadas, sérias, mas, fundamentalmente, mudanças que viabilizem a administração pública no regime democrático. Que não se comova. O Congresso Nacional co mos estigmas, comova porque o Brasil precisa de redução sociológica. Não existem fórmulas completas. Temos, por aí, os marxismos, análises inteligentíssimas da conjuntura do mundo de cem anos atrás, que se tenta transplantar mecanicamente para uma situação brasileira, completamente diferenciada. Precisamos é da redução sociológica. Não existe o pensamento autoritário de forma absoluta – e propostas não podem ser acusadas de autoritárias porque, simplesmente, estão tentando resolver um problema. Vamos para a heterodoxia a respeito do municipalismo, a respeito das idéias e vamos tentar repensar o Brasil e propor instrumentos que viabilizem mudanças e fundamentalmente, que viabilizem a administração pública no Brasil. SR. PRESIDENTE (Mauro Miranda): – Com a palavra o Constituinte Alexandre Puzyna. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Realmente, indubitavelmente, tínhamos de chegar a esse tema controvertido, que ai está, mostrando a diferença de tratamento que deve ser dispensada aos Municípios no Brasil. Vimos também a falta de um planejam ento. Na verdade, existem os problemas apresentado pelo prefeito Roberto Requião, pelo meu amigo Pontes e pelo Dr. Sales. A concentração de poder não aconteceu só em Brasília. Ocorreu, também nos grandes municípios, ocasionando sua própria derrocada, pela afluência, cada vez mais acentuda, de contingentes populacionais. Participo da idéia da interiorização do desenvolvimento. Coloco agora este problema e faço a seguinte indagação aos Srs. palestristas: por que não invertemos o caudal de recursos e propiciam os mais benefícios aos municípios, a fim de fixarmos as pessoas por lá? Aquele colono, aquele agricultor, o industrial que queira viver uma vida mais saudável e livre há, por certo, de procurar ficar no seu rincão, lá, à beira de um regato, se tiver asfalto à porta, estudo e saúde para seus filhos, para sua família. Mas, se não há um planejamento consciente no Brasil, como podemos aspirar a isso? Hoje é a meta certa. Realmente, acho que só há um parâmetro para se dividirem os recursos: é a população e a área. Lógico, o Brasil, como um todo, deverá procurar identificar-se mais com os pequenos centros, porque, daqui a pouco, não vamos ter onde colocar o lixo, não vamos ter mais água. Suportar uma São Paulo com 15 milhões de habitantes não é brincadeira. Os recursos que devem ser investidos numa grande cidade, como aquela, equivalem quase ao de tratar um Brasil gigantesco. Distribui-se um pouco para cada lado, fazendo com que os municípios possam afluir e representar condignamente a nossa grande pátria. A cellula mater é o município, desde os pequenos até os grandes. Os problemas estão colocados nesta Subcomissão. Parabenizo -me com os palestristas que nos deram a oportunidade de acentuar essa diversidade que temos aqui. Estamos vendo vários prefeitos aqui e acho que todos partilham, com a mesma alegria, deste momento tão importante de decisão de nosso destino. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Deputado Alexandre Puzyna, acho que V. Ex.ª, chegou ao âmago da questão. 41 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Gostaria de observar que a minha proposta não passou pelas medidas de reforço, com recursos públicos, da estrutura tributária metropolitana. Propus uma mudança organizacional que viabilizasse a administração das regiões metropolitanas e que o Congresso Nacional destinasse recursos para um plano nacional e para planos estaduais de desenvolvimento urbano, que privilegiasse cidades médias e potencialmente médias. A vocação do homem pela vida urbana é definitiva. A vida na cidade é uma vida subjetivamente mais rica, culturalmente mais interessante. A própria cultura se transforma numa civilização quando ocupa o espaço da civis, da cidade. Todos queremos morar na cidade. Estão aí os meios de comunicação com seu efeito multiplicador, as novelas de televisão, mostrando uma vida hedonista nos grandes centros, onde se ama, se gasta e se conversa com uma futilidade absoluta. Todos imaginamos que a vida na cidade é a vida ideal. Se o Brasil não apresentar perspectiva de vida urbana digna em cidades médias e potencialmente médias, ao lado do campo, descentralizando a produção e descentralizando essa perspectiva da vida urbana, teremos áreas metropolitanas absolutamente inadministráveis. E não seria a minha proposta que iria consertar a evolução desse sistema. Partiremos para uma concentração absoluta. A tendência da vida urbana é real. Parece-me irreversível, a não ser que tenhamos uma mudança à chinesa. Mas, não vamos ter essa mudança, não temos temperamento para tanto; vivemos numa economia de mercado. E por mais que avancemos do ponto de vista social – e quero que avancemos muito – não vamos chegar a essa regressão, ao bucolismo da vida rural. O apoio às cidades médias e potencialmente médias, a existência de um plano diretor de desenvolvimentourbano, a nível da União e dos Estados, é fundamental, mais importante do que a solução emergencial da crise das regiões metropolitanas. É tão importante que sem esse plano não se resolve crise metropolitana alguma. A coisa passa exatamente pelo sentido da sua exposição. (Reassume a presidência dos trabalhos o Constituinte Luiz Alberto Rodrigues.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Desejo fazer duas breves referências: registrar a presença, nesta sessão da Subcomissão, de alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Curitiba – que estão realizando, em Brasília um curso junto ao Supremo Tribunal Federal e fiscalizando os trabalhos dos Constituintes – e do Deputado Estadual Rafael Breca de Macedo, Deputado urbano, exVereador de Curitiba, e tecer algumas breves reflexões. A primeira delas é sobre o início da manifestação do Prefeito Municipal de Curitiba com relação à reforma agrária e à reforma urbana. Os dados oferecidos pelo Prefeito da Capital do Estado do Paraná mostram uma realidade que cada dia mais se acentua no País: a concentracão das populações nos centros urbanos e, particularmente, nas regiões metropolitanas. Hoje, aproximadamente, 40% da população brasileira residem nas novas regiões metropolitanas do País. Aproximadamente 80% da população brasileira residem em cidades. A observação do Prefeito Requião com relação à preocupação da reforma agrária, que todos defendemos, é colocada em um plano superior, esquecendo-se da necessidade absoluta da reforma fundiária urbana. É comum, através dos noticiários dos veículos de comunicação, observar-se o destaque que se oferece a um conflito de terra, envolvendo às vezes 30, 40, 50 posseiros. No entanto, esses incidente s ocorrem às dezenas, diariamente, em São Paulo e, com certeza, algumas vezes, nas demais regiões metropolitanas do País. Então, há realmente uma necessidade muito grande de se repensar, com muito mais objetividade e pragmatismo, a nova visão que devemos ter das grandes concentrações urbanas do Brasil. Particularmente com relação às regiões metropolitanas temos uma posição muito clara: a primeira delas, que entendo indiscutível, da necessidade de um planejamento conjunto; a segunda, da participação dos municípios, das comunidades envolvidas, das entidades, das associações de moradores, enfim, do conjunto das populações que compõem as regiões metropolitanas já existentes; a terceira, a necessidade imperiosa de a nossa Constituição definir critérios com relação à criação de novas regiões metropolitanas no País, não apenas envolvendo municípios onde se situam capitais brasileiras, mas municípios, por exemplo, como Campinas e Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo; como Londrina, no Estado do Paraná. Enfim, poderíamos citar uma série de outras regiões interioranas do País que claramente, necessitam hoje ter uma forma de planejamento integrada com os demais municípios que compõem regiões com características quase absolutamente homogêneas, com algumas características especiais dos municípios que as compõem. Queria dizer aos companheiros que integram esta Subcomissão que pretendemos oferecer uma proposta com relação às regiões metropolitanas do País. Basicamente, ela vem ao encontro de alguns trabalhos realizados por prefeitos de regiões metropolitanas e também por Conselhos de Desenvolvimento Urbano, através das coordenadorias das diversas regiões metropolitanas do nosso País. A proposta tem um característica diferenciada, que é a seguinte: em primeiro lugar, oferece aos Estados a competência para definir as suas regiões metroplitanas. A União teorizará quais os critérios que devem ser observados, para que as regiões metropolitanas possam ser estabelecidas; em segundo lugar, oferece aos Estados autonomia para decidir e definir as suas regiões metropolitanas; em terceiro lugar, assegura a absoluta autonomia aos municípios que compõem e comporão as regiões metropolitanas – atuais e futuras. A autonomia seria definida por um estatuto, espécie de Constituição municipal, de cada região metropolitana, para que as especificidades dessas regiões possam ser respeitadas. Os companheiros puderam notar, nas manifestações dos prefeitos que nos honraram com suas palestras na manhã de hoje, que existem posições absolutamente divergente s, por exemplo, entre as Regiões Metropolitanas de Fortaleza e de Curitiba. Entendo que não cabe à Constituição, a nós, à União, definir agora quais os critérios rígidos, "autoritários" – esse termo que eu colocaria entre aspas – que deveriam compor cada região do nosso País. Oferecemos, então, aos municípios componentes dessas regiões o direito de definirem suas normas de funcionamento, que podem se basear, inclusive, na tese do Prefeito de Curitiba, do grande Prefeito da Região Metropolitana, ou, então, a posição assumida pelo Prefeito da Região Metropolitana de Fortaleza. Essa decisão cabe às Prefeituras e às populações envolvidas, através, provavelmente, de um plebiscito, definido pelas Assembléias Legislativas, no momento da elaboração das Constituições estaduais, quando seriam estabelecidas as regras do jogo. Parece-me uma posição a mais democrática possível; respeitam -se as peculiaridades das diversas regiões do País e oferece-se aquilo que sempre defendemos, a autonomia não só aos municípios envolvidos, mas às próprias Assembléias Legislativas, que no trabalho de elaboração das Constituições estaduais teriam a oportunidade de definir normas, preceitos e conceitos que dizem respeito a seus Estados. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, gostaria de enfatizar aqui a importância do debate. Vejam que a não coincidência de duas idéias terminou motivando esta reunião. Essa motivação veio como conseqüência daquilo que é natural na vida cotidiana dos povos. Lavoisier já dizia que "no mundo, nada se cria, nada se forma; tudo se transforma". E o que se está verificando aqui, com a participação do eminente prefeito de Curitiba, é exatamente esta transformação. Com a idéia que S. Ex.ª colocou aqui, na mesa dos debates, objetiva nada mais nada menos do que a transformação de uma estrutura hoje existente no País, basicamente nas regiões metropolitanas, que não está produzindo os resultados necessários a acudir os reclamos das populações que vivem nas grandes metrópoles. Essa proposta, por ser revolucionária, motivou o debate, motivou até uma ligeira turbulência neste plenário. Essa turbulência tornou-se salutar, fazendo com que cada um de nós pensasse um pouco mais, fizesse uma reflexão mais profunda a respeito desses problemas que angustiam os nossos irmãos que vivem nas grandes cidades. Entendi perfeitamente a idéia, os objetivos e os fundamentos da proposta do Prefeito Roberto Requião. Devo cumprimentá-lo por isto, porque produto de estudo, de meditação e, acima de tudo, de ensinamentos técnicos também, que lhe permitiram trazer a esta Subcomissão uma proposta nova, revolucionária, mas que, por romper estruturas existentes, certamente enfrentará adversários, como já se constatou neste próprio plenário. No entanto, nem por isto devemos deixar de pensar nela, de meditar até em alternativas que possam juntar-se a essa idéia-mãe e – quem sabe? – daí sair a solução para o grave problema metropolitano. É exatamente neste sentido que venho a esta tribuna para fazer uma indagação, para procurar sentir se, dentro dessa idéia global de instituição de regiões metropolitanas não se poderia ajustar uma outra experiência, que já existe em alguns estados da Federação, como em Santa Catarina, por exemplo, do associativismo municipal, que tem dado resultados muito importantes, o mesmo acontecendo nas Minas Gerais. Quem sabe se juntarmos a idéia do associativismo municipal à idéia-mãe da instituição de regiões metropolitanas daí não sairia a solução para esse grave problema? É uma indagação, uma idéia, sobre a qual gostaria de ouvir, neste particular, as palavras, tanto do Prefeito Roberto Requião quanto do nosso companheiro prefeito de Itapevi. Mas quero também fazer uma observação, Sr. Presidente, a respeito de uma observação feita pelo Prefeito Roberto Requião, quando S. Ex.ª enfatizou que a reforma agrária é importante – mais importante do que a reforma urbana – mas não vai resolver os problemas do campo. Concordo com S. Ex.ª em que realmente a reforma agrária não solucionará, num passe de mágica, os problemas do campo e da área rural, mas também não é menos verdade que, se não a realizarmos, vamos agravar de forma profunda os problemas das próprias metrópoles. Parece-me, porém, que há um problema muito mais grave do que esse da ausência da reforma agrária, que é o problema do abandono a que o Governo central relegou os pequenos municípios. O Constituinte Alexandre Puzyna enfatizava, há pouco, que há problemas comuns aos municípios metropolitanos como ao Municipo do Rio Negro, perdido no interior do meu estado. Parece-me que, na medida em que o Governo entender o município como célula importante da Nação, como o local onde nascemos, vivemos, trabalhamos e morremos, no momento em que o Governo brasileiro pensar assim e destinar recursos substanciais para que 42 cada unidade do nosso Estado se possa desenvolver, possa criar alternativas de trabalho e lazer, alternativas novas de desenvolvimento, nessa hora, com certeza, vamos frear o êxodo do nosso povo desses municípios distantes para as grandes capitais. Gostaria, portanto, Sr. Presidente, de ouvir os dois eminentes conferencistas a respeito do problema do associativismo municipal dentro da instituição metropolitana que se pretende. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – A vertente ensaiada pelo Constituinte José Dutra é muito inteligente e tem sido objeto de nossas preocupações: o condomínio municipal. Nós até pensamos numa Câmara Metropolitana, com a participação das Câmaras Municipais. Mas isso esbarra na natureza do Poder Legislativo. A Câmara Municipal fala pelo seu Plenário. O seu presidente a representa juridicamente, pode receber citações, mas a Câmara Municipal jamais poderia falar – dada sua natureza pluralista, pluripartidária – através de um representante. A Câmara Municipal não tem representante, como o Congresso Nacional não tem representante; ele fala pelo seu plenário, pelas suas comissões, nos assuntos específicos. Teríamos, portanto, a dificuldade da organização condominial, mas é uma vertente interessante, que se assemelha à proposta de viabilização da gestão metropolitana. A dificuldade maior estaria no tipo de representatividade. Ou seria de novo um condomínio, em que as Câmaras Municipais abririam mão da sua competência, os municípios abririam mão da sua competência e, de novo, estaríamos, de uma forma mal sabsoluta, entregando o poder decisório à burocracia? A burocracia organizaria essa estrutura de planejamento. Entre essa proposta – na qual já pensamos – e a proposta de um a representação distrital, em que teríamos um vereador eleito pelo distrito proporcionalmente à sua densidade populacional, câmaras e trinta e três vereadores, ainda acho mais viável o município dístritalizado. Mas não descarto essa idéia, que, penso, deve ser reelaborada, por que esse condomínio preservaria a autonomia dos municípios em algumas ci,rcunstâncias. Há municípios com condições de vida autônoma – tradição, organização de sociedade civil e tudo mais – mas esbarram nesse problema da dificuldade da representatislidade. Quem fala por elé? É o prefeito? Vejam bem: montamos um Conselho de Prefeitos, como esse ridículo Conselho, de Prefeitos das Comissões de Região Metropolitana, e o prefeito fala por quem? Ele decide acima do julgamento das suas Câmaras Municipais? Descarta-se completamente o Legislativo e se cria uma Câmara Municipal, como é o Conselho da COMEC, da Região Metropolitana de Curitiba, que passa a decidir pelas Câmaras Municípais e pelos poderes Legislativo e Executivo? Acho que há um pouco de confusão organizacional e legal nesse processo. Deveríamos insistir na idéia e ver se pode ser viabilizada de alguma maneira. Os condomínios são possíveis. Curitiba também está fazendo condomínios a respeito da organização dos transportes coletivos. Estamos esquecendo o estado e, quando o município é limítrofe, estabelecemos e planejamos o transporte. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – O Sr. Constituinte José Dutra enfatizou o problema de Santa Catarina. Quero esclarecer que temos associações dos municípios, como o Paraná também tem. Lá trabalhamos um pouco melhor, porque, realmente, estão integrados as Câmaras e os prefeitos nessa associação. São discutidos e feitos planejamentos. Na região da Grande Florianópolis, por exemplo, são debatidos os assuntos comuns: problemas de transporte, de esgoto, de 43 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) água potável, de lixo, e assim por diante. Na realidade, é só um exemplo do que podemos fazer. Não é perfeito, mas talvez seja uma saída. O condomínio a que V. Ex.ª se está referindo é mais ou menos isso? O SR. ROBERTO REQUIÃO: – V. Ex.ª imagina uma região metropolitana, como a de Curitiba, com quatorze municípios, cada um deles com certo número de vereadores. Teríamos um plenário maior do que o do Congresso Nacional. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Na realidade é assim, mas o assunto pode ser discutido através dos representantes da Câmara, que é representada pelo seu presidente. Os prefeitos de maneira geral, e os vice-prefeitos se reúnem. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Esbarramos aí na indelegabilidade da competência da Câmara. A Câmara não pode delegar competência; ela é uma organização pluripartidária; ela não delega competência em hipótese alguma; só fala pelo seu Plenário. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Certo. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – E, conforme algumas determinações, com quorum especial e qualificado. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Sim, mas pode ser feito um plano diretor. Nós fizemos. Por exemplo, fui prefeito, por duas vezes, e Presidente da Associação dos Prefeitos de Santa Catarina, e sei como funcionam determinados municípios que estão numa associação. Acho que em Minas Gerais deve ser a mesma coisa, o nosso Presidente nos pode dizer muito bem. O que acontece é que é discutido e feito realmente um planejamento, até sobre questões de avicultura, suinocultura, e assim por diante. O SR. SILAS DE OLIVEIRA: – Temos um problema muito sério na Região Metropolitana de São Paulo. Com as constantes enchentes, de repente o Estado acaba não nos atendendo de forma rápida, e os Municípios vizinhos mandam equipamentos para atender aos demais. Ocorre que isso é proibido. Acho que teríamos de caminhar para um trabalho onde se, pudesse unir os Municípios e integrá-los quase como um todo, em experiências que já têm desenvolvido. Quanto ao agrupamento de Municípios, se destinaria a atender a problemas específicos de produção e na área da saúde, através de consórcios intermunicipais. Teríamos de nos encaminhar para esse trabalho, que tem dado resultado nos Municípios do interior dos Estados, e que poderíamos trazer para as regiões metropolitanas. É até estranho, mas notamos, na Região Metropolitana da Grande São Paulo a falta desse tipo de participação. A bem da verdade, participamos de uma região metropolitana, onde foi definido e decidido quais seriam os Municípios que dela participariam, e nunca houve esse tipo de participação e integração. Digo isso com base em uma experiência que vivemos recentemente, quando foi criada, na Secretaria dos Negócios Metropolitanos, pelo exSecretário, uma sala para os Municípios. E, por incrível que pareça, por ter sido criada de cima para baixo, nenhum dos prefeitos e vereadores havia entrado naquela sala. Tão logo resolvemos criar a Associação dos Municípios da Grande São Paulo, essa sala tem a participação dos prefeitos e vereadores, e nela se desenvolve um processo de integração. Acredito que sua sugestão deva ser alimentada, para que possamos debater a participação do associativismo dentro da região metropolitana. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Waldeck Ornélas. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Sr. Presidente, confesso que a exposição do Prefeito de Curitiba me surpreendeu. Tinha a impressão e a imagem de que a Região Metropolitana de Curitiba era, talvez, a que tinha sua organização mais próxima do esquema de um condomínio ou de uma associação de Municípios. Na semana passada, participei de um seminário da Sudene, em Recife, sobre "A metrópole e a Constituinte", e a grande reivindicação das regiões metropolitanas do Nordeste era exatamente de que os Municípios participassem da gestão da região metropolitana e de que elas se organizassem basicamente sob a forma condominial ou de associação. Ora, chego à conclusão de que estamos todos insatisfeitos com relação às regiões metropolitanas no Brasil, porque, se os dirigentes o estão, seguramente o povo es tá mais ainda. Embora tenha havido, quando da criação das regiões metropolitanas, uma certa destinação inicial de recursos para essas áreas e a definição de programas especiais, isso nos leva a questionamentos com relação à prioridade – na dicotomia centro-periferia, urbanorural – que já foi aqui tangenciada. O fato é que as condições de vida da população não melhoraram nas regiões metropolitanas, nem os problemas foram superados. Aliás, nesse sentido, o Prefeito Requião trouxe-nos dados que demonstram que, na sua Curitiba, da qual temos a impressão de uma cidade equilibrada no seu desenvolvimento, existe o confronto, existem contradições. Mas não apenas a exposição do Prefeito de Curitiba me causou surpresa, como, certamente, causou impacto a este Plenário. Neste sentido, compreendi plenamente as preocupações do Constituinte e Presidente desta Subcomissão, Luiz Alberto Rodrigues, procurando questionar o Prefeito de Curitiba, para que fossem caracterizados adequadamente os contornos da sua proposta. Embora conhecida teoricamente a tese do município metropolitano, a verdade é que, até agora, seja nos seminários, seja nesta Subcomissão, a dicotomia estava posta em termos da criação do quarto poder, de um novo nível de governo, que seria o nível metropolitano. Ou no sentido de uma descentralização que levasse a uma organização metropolitana condominial, com base na associação dos Municípios, desvinculando, inclusive, as regiões metropolitanas da tutela do Estado-membro. Nesse sentido, devo dizer – e, se estou enganado, o Prefeito me corrija – que não entendi a sua proposta do Município metropolitano como equivalente à proposta da criação do quarto poder, porque nessa proposta estaria inteiramente preservada a autonomia dos Municípios dentro da região metropolitana. No caso da proposta do Prefeito Requião, havendo uma Câmara única, em bases distritais, essa autonomia se perderia naturalmente. Devo confessar ao Prefeito Requião que, como técnico, já andei enamorado dessa hipótese do Município metropolitano. Talvez a questão metropolitana, vista desde Curitiba, possa levar o prefeito a concluir que esta forma é o melhor modelo para a gestão dessas unidades locais de segundo grau. O Prefeito Requião não pode perder de vista o fato de que – e a esse respeito o exemplo que procurou citar é bem elucidativo – São Paulo é, por excelência, a metrópole do País. Então, não vale o argumento do Prefeito Requião de que o conjunto dos Municípios não seria equivalente ao porte econômico e demográfico de São Paulo, porque São Paulo seria uma delas, neste caso. Desejo fazer algumas perguntas em relação às exposições que foram aqui feitas, porque nosso propósito, nossa preocupação, tem de ser sempre procurar caracterizar adequadamente esse conflito de posições, para que possamos chegar a conclusões nos nossos trabalhos que, como todos sabem, têm um prazo de conclusão bastante exíguo. Gostaria de saber dos Prefeitos de Caucaia e de Itapevi como vêem ou como absorveriam a idéia de serem transformados em prefeitos distritais no âmbito de um muni- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) cipio metropolitano. Pergunto também ao Prefeito Requião se aceitaria – evidentemente que dentro de um quadro novo de partição das Receitas públicas, que certamente haverá de sair desta Constituinte – repartir com os "primos pobres", seus vizinhos, as Receitas geradas pelo Município de Curitiba. Ontem, falou-se muito sobre a tipologia dos Municípios, discutiu-se muito isso, mas não se chegou a propostas concretas, objetivas, de como, a nível do texto constitucionaI, seria equacionada essa questão; falou-se contra a simetria a nível dos municípios; hoje, falou-se contra a simetria a nível das regiões metropolitanas; falou-se dessa tipologia diferenciada, que a realidade nos impõe seja considerada; hoje mesmo nosso Relator chamou a atenção sobre o fato de que nós, Constituintes, não nos podemos furtar à nossa obrigação, ao nosso dever, ao nosso papel de definir princípios na nova Constituição que balizem a organização dessas instituições, a ser seguida seja pela legislação complementar ou ordinária, seja pelos demais níveis de governo. Gostaria de saber de todos os expositores com o vêem uma forma de se romper com essa simetria. Seria em termos da forma de gestão dessas regiões metropolitanas? Seria em torno das competências dessas regiões metropolitanas? Seria de ambos, seria de outros elementos que viessem a ser considerados? Cons idero que esta seria uma contribuição importante que todos dariam ao desenvolvimento dos nossos trabalhos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Prefeito de Itapevi e, na seqüência, aos Prefeitos de Curitiba e Caucaia, para responderem. O SR. SILAS OLIVEIRA: – Participamos desse painel, mas, a bem da verdade, como disse no início, fomos tomados de surpresa porque a participação seria exclusivamente da Associação dos Prefeitos das Capitais. A proposta que fizemos à Presidência da Subcomissão é no sentido de que tenhamos oportunidade de ampliar os debates e estaremos agora à tarde, às 14h30min, no CNDU – para que se faça o encontro rapidamente, e possamos trazer propostas concretas e objetivas para a Constituinte. Gostaria de contar com a possibilidade de participar novamente de um encontro com os Srs. Constituintes, para trazer essa proposta sobre as regiões metropolitanas e, como o Prefeito Roberto Requião disse, para que haja participação mais ampla de outros técnicos. da área. Assim, eu me disporia a participar desse encontro já com definições bem claras. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Imagino a pergunta que o ilustre Constituinte fez, dirigida a um Senador: se ele concorda com a extinção do Senado. Ela não pode ser colocada dessa maneira. O prefeito tem um ônus público, um mandato transitório. O meu termina daqui a um ano e oito meses. Vamos colocar de outra forma. A Prefeitura de Curitiba deve ou não investir os recursos gerados no seu espaço físico para o bem -estar da população que gera esses recursos e que eventualmente não mora nos limites do município? A Prefeitura de Curitiba tem dado esse exemplo na prática. Não sou presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana, mas a sede da associação fica em uma dependência do prédio central da Prefeitura Municipal de Curitiba. Os investimentos possíveis, a partir de recursos da prefeitura municipal que podem ser utilizados na região metropolitana, estão sendo utilizados. Por exemplo, recursos da Bohab. A Companhia de Habitação 44 de Curitiba é metropolitana. Estamos tentando apoiar, de maneira extraordinária, os municípios limítrofes, porque a qualidade de vida de Curitiba depende da criação de subcentros, depende do aldeamento da região. Curitiba não pode ser só uma única grande cidade, uma máquina de se viver e de trabalhar. A região tem que ser planejada. A nossa proposta inteira para a cidade, para os nossos bairros e para a região é a proposta da aldeia: um centro sofisticado, urbano, que já está estabelecido, é o próprio centro da cidade de Curitiba, completado, sofisticado; a valorização da vida nos bairros e a valorização da vida na região metropolitana é fundamental; as possibilidades de emprego não apenas na cidade industrial, na cidade de Curitiba, mas da criação de múltiplas pequenas indústrias, que darão o suporte ao desenvolvimento da própria cidade industrial de Curitiba. Acho que não se coloca a questão dessa maneira: o Prefeito gostaria de abrir mão? Ninguém gosta de abrir mão de nada. Temos que p erguntar se seria interessante e útil para a população que trabalha e produz em uma região e não tem nada a ver com o fato de ter havido uma delimitação administrativa que não foi resolvida por ela; nem de ela ter ultrapassado a fronteira do município, porque não conseguiu uma casa barata para alugar ou um terreno acessível ao seu salário. A preocupação maior é com a distribuição dos recursos da região metropolitana. E eu insisto: temos que viabilizar, a curto e médio prazo, a autogestão das regiões metropolitanas, sem que elas se aprofundem no caixa da União, que deve responder por um plano nacional de desenvolvimento urbano, privilegiando cidades médias e potencialmente médias no interior deste País inteiro. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência indaga ao Prefeito de Caucaia se quer fazer uso da palavra para responder ao Deputado Waldeck Ornélas. O SR. DOMINGOS PONTES: – Antes de responder ao Deputado Waldeck Ornélas, gostaria de parabenizar o Prefeito de Curitiba, Roberto Requião, por dizer que quer ajudar os Municípios da periferia de Curitiba. Acho que deveria ser assim, porque hoje nós, dos municípios periféricos, somos realmente os primos pobres. A questão toda está na má distribuição dos recursos da União, que, desde 1964, centralizou tudo. Antes, nós, prefeitos do interior, vivíamos – e ainda vivemos – a mendigar. Temos a Frente Municipalista. Governadores e os Prefeitos das capitais eram indicados. Alegavam que não eram distribuídos mais recursos para o município porque éramos incompetentes. Mas temos visto também a União e os Estados fazerem obras desnecessárias e os escândalos acontecerem, muito maiores do que os praticados pelos municípios. Nós, como prefeitos – discordo do Prefeito de Curitiba – temos o direito de dizer o que desejamos: se desejamos autonomia para o nosso próprio município, se queremos um "municipão" ou um quarto poder. Somos transitórios, mas fomos eleitos pela maioria do povo. Todos os prefeitos foram eleitos. Temos, portanto, capacidade de decidir. Respondo ao Deputado Waldeck Ornélas que nós, da Região Metropolitana de Fortaleza, com exceção da Capital, apesar de termos um diálogo com a prefeita de lá – quando estive em Recife, no simpósio do qual V. Ex.ª participou, disse da idéia do CNDU – e todos, com exceção da prefeita, com a qual não consegui falar, foram unânimes 45 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) em não querer esse quarto poder. Já temos poderes demais. O que necessitamos é de uma distribuição justa e correta, de acordo com a extensão territorial e populacional, e que haja associação entre os prefeitos. Mas é preciso que as autarquias, ou as fundações que tomam conta das regiões metropolitanas sejam municipalizadas e saiam do poder do Governo estadual. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência informa ao Plenário que temos inscritos ainda três Constituintes. Estão encerradas as inscrições para este painel. Concedo a palavra ao Constituinte Vítor Buaiz. O SR. CONSTITUINTE VÍTOR BUAIZ: – Venho de um Estado cuja capital é a segunda mais poluída do País: Vitória do Espírito Santo. Só que essa poluição não é gerada na capital, mas, sim, nos quatro municípios que compõem a grande Vitória. E um morador de Vitória não tem sequer o direito de dizer que ele não deseja aquela poluição. Em momento algum ele teve esse direito. O Espírito Santo tem dois exemplos de administração municipal com a participação popular: o Município de Vila Velha, próximo a Vitória – dez, doze quilômetros – e o Município de Boa Esperança, no interior, na região norte do Estado. No entanto, a grande Vitória é formada por cinco municípios cujos bairros estão completamente abandonados. Dois deles estiveram sob intervenção – Vila Velha e Cariacica – maiores do que Vitória em população. No entanto, o Governo do Estado e a Assembléia Legislativa não tiveram competência, não tiveram determinação política para tornar esses municípios autônomos e obedecer àquilo que era o desejo da população. Em Vila Velha, onde há experiência de participação, através da assembléia comunitária, ocorreu o episódio relatado há pouco, do confronto direto entre o Conselho Comunitário e Vereadores. Hoje, idéias divergentes estão sendo apresentadas nesta Subcomissão, o que vejo com muito bons olhos. Enquanto Constituintes, temos a obrigação de abrir esse debate. Quanto maior o número de idéias divergentes e inovadoras, melhor será para a Subcomissão se decidir. Estamos em uma etapa de ouvir, mais do que para falar e decidir. Não há por que nos preocuparmos com uma decisão, uma definição imediata em relação às regiões metropolitanas. Sou simpático à proposta apresentada pelo Prefeito Roberto Requião. A concentração do poder nas mãos dos prefeitos municipais, hoje, é muito grande, e protestamos contra ela da mesma forma que reclamamos da concentração do poder nas mãos do Presidente da República. O Legislativo, hoje, quer sua autonomia, quer revigorar o seu trabalho e seu poder de decisão, porque, mais do que o Presidente da República, foi eleito pelo povo, através do voto direto. Estamos vivendo uma situação estranha no País, porque o Presidente não foi eleito pelo voto direto, não tem a legitimidade do voto popular e, no entanto, tenta de todas as formas interferir na soberania da Constituinte. Nós, Constituintes, fomos eleitos, pelo voto direto; queremos, realmente construir uma democracia em que haja maior participação da comunidade. Se hoje estamos aqui discutindo se a participação popular vai ser feita dessa ou daquela forma, temos a obrigação de inovar, já que queremos uma nova Constituição que traga novas propostas e idéias: Queremos que a juventude deste País participe, e ela só vai participar na medida em que vir uma abertura no processo, para que faça sua participação a nível de comunidade. Estou-me perguntando de que forma vamos conciliar essa participação popular até que venha esse novo projeto constitucional, até que consigamos, dentro das áreas me- tropolitanas, implantar um projeto, um plano mais abrangente e associativo, com a participação dos municípios de toda a região metropolitana. Interrogo também e, de que forma, até que isso se implante, vamos conciliar os interesses da comunidade, através da participação direta dos conselhos populares com os dos vereadores, que, como sabemos, tentam garantir de qualquer forma sua influência no reduto eleitoral restrito e, cada vez mais, perdem essa representatividade. Então, quem tem a representatividade para falar em nome do interesse daquela comunidade? É o vereador, o centro comunitário ou a associação de moradores da comunidade ou do bairro? Perguntar-me-ia, e aos palestristas desta manhã de que forma vamos garantir os interesses da comunidade, não permitindo que a Câmara de Vereadores reaja, de modo que a concentração do poder continue nas mãos dos políticos e não nas da comunidades. O SR. ROBERTO REQUIÃO: – Acho extremamente interessante a questão do nobre Constituinte, mas a vertente de organização social política a que me filio é ainda partidária. A democracia é de base pedagógica, deve ser usada sempre que possível, e a participação, estimulada. Nunca vi uma mudança social feita por organizações corporativas organizadas a nível de sociedade; nunca ouvi falar em uma revolução dos sapateiros, dos professores, dos costureiros, dos engenheiros ou dos metalúrgicos. As transformações sociais são sempre mediadas por Partidos Políticos, esses, sim, democratizados e enraizados nas diferentes formas em que a sociedade se organiza e se distribui em relação ao trabalho e ao capital. A representação legítima ainda é a parlamentar. Prezo de maneira extraordinária a representatividade do indivíduo, que se propõe, através de um partido e de um programa, em uma eleição proporcional ou majoritária. Acho apenas que evoluímos na legislação brasileira, inclusive em relação ao regime autoritário. Na época do General Figueiredo, tínhamos a mediação partidária e a fidelidade de voto, coisa que o Congresso derrubou. Ninguém tem mais compromisso com nada. A garantia do vereador é ser representante da comunidade, que avaliza as propostas com que se elegeu – ele não é apenas um ator de palanque a declamar discursos ao gosto da população, que pode ser traída no instante imediato ao fechamento das urnas. O conserto de todo esse processo passa pela organização de um partido forte, enraizado nos movimentos populares; passa pelas organizações comunitárias, que são sempre consultativas e nunca deliberativas, porque têm um quorum eventual, e difuso, reúnem-se em cima de necessidades; mas a mediação do mandato parlamentar pelo partido é que resolve esse problema. Os Partidos Políticos deveriam ser reforçados, ligados ao povo e às organizações sociais. Quanto à representatividade do vereador, tem que se inspirar nos conselhos comunitários, que são muitos e que atingem uma gama de assuntos extraordinariamente amplos. Quando esses compromissos furarem, o partido intervém e talvez, até, substitua o parlamentar por seu suplente. Sou adepto, por exemplo, do processo eleitoral das listas, como acontece em Portugal, onde temos a eleição direta, o voto individual, mas temos também um sistema misto de listas partidárias, em que o partido coloca seus representantes; onde se vota no partido e se elege, na ordem de inscrição. Os vereadores são eleitos pelo voto partidário. São sofisticações presentes no mundo inteiro, em países civilizados, que aperfeiçoam o sistema representativo. Não acredito no basismo como forma de governo, pois não estamos mais na antiga Gréci, onde se reunia a população em uma praça e em uma ostra se decidia se o prefeito devia ficar ou sair, ser banido ou não. A democracia de base é pedagógica, forma a população para a consciência de seu direito, deve DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) pressionar partidos e é o suporte indispensável para uma organização partidária forte, mas não acredito que substitua o mandato representativo, que é um avanço em relação ao basimo. A conciliação entre o conflito da opinião da população e a opinião do representante, do mandatário, passa pelo reforço dos partidos, pela ligação dos partidos à base e pela capacidade de o partido trocar o seu representante quando esse se afastar das linhas centrais do programa que o elegeu, que é a desabsolutização da representação. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao ilustre Constituinte José Maranhão. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ MARANHÃO: – Não tive o privilégio de chegar a tempo de ouvir todos os expositores, ouvi apenas o final da exposição do Prefeito de Curitiba, Roberto Requião, que me deixou vivamente impressionado pela propriedade e pela firmeza com que defendeu suas idéias e pontos de vista. Pelo que ouvi, parece-me que a idéia do condomínio municipal ou associação de Municípios tem apenas dificuldades de natureza política, pois não vejo dificuldades de natureza jurídica do País. É para isso que estamos aqui. Parece-me que, se a Assembléia Nacional Constituinte modifica a tradição jurídica e dá uma nova dimensão à autonomia municipal, esse problema está, prática e teoricamente, resolvido. Mas, o que me preocupa nisso tudo – e aqui não vai nenhuma restrição ao ilustre palestrante, seria mais talvez uma advertência às nossas consciências de constituinte – é que talvez o fortalecimento dos grandes Municípios, das áreas metropolitanas, pudesse agravar ainda mais esse problema da área metropolitana. Todos sabemos que o processo de industrialização do País se deu de forma espontânea e, depois, anárquica. Na realidade, os problemas fundamentais de urbanização, de qualidade de vida, foram deixados de lado e, na medida em que prestigiamos essas organizações, essas cidades -monstros que se criaram à sombra dos incentivos para a indústria, estamos agravando o problema, porque estamos alimentando as causas que geraram esses Municípios -monstros em todo o País. E, eu pergunto – esta é também uma indagação – se não seria talvez muito mais importante investir recursos em processo efetivo de descentralização industrial, fazendo com que não só permitíssemos a fixação das populações em centros menores, não apenas em cidades médias, já que no futuro elas também serão monstrengos como as atuais, mas em cidades pequenas. O Brasil talvez seja o único país do mundo que tenha essa concentração industrial em apenas três Estados da federação e marcadamente em umas poucas cidades, as cidades industriais do País. São idéias que eu lanço muito mais para análise e reflexão dos colegas desta comissão do que propriamente ao Prefeito de Curitiba e aos outros palestrantes. Eles estão diante de desafios. O desafio que se coloca ao Prefeito de Curitiba é aquele que está circunscrito à área de sua responsabilidade, a área física, social, humana e administrativa da sua cidade. Evidentemente, se nós lhe pedimos, se pedimos aos prefeitos das grandes cidades, que nos apontem soluções, por mais imparciais, por mais espírito público de que sejam dotados – e realmente o são – não poderão fugir ao condicionamento que é próprio da responsabilidade que assumiram junto a uma população exigente, reivindicante, e vigilante das suas ações administrativas. Nós, Constituintes, temos de pensar na totalidade deste País. Ainda hoje, nós Constituintes nordestinos fomos ao Presidente da República e levamos a S. Ex.ª um documento em que tratamos da questão da concentração dos recursos federais nos Estados do Centro-Sul do País. Mostramos a desigualdade tremenda que tende a se eternizar dentro desse ciclo vicioso, de que é preciso socorrer pri- 46 meiro as populações maiores, não só manter os seus privilégios, mas cumulá-las de mais privilégios, para só depois servir as sobras possíveis às populações mais pobres e mais carentes que estão centralizadas, sobretudo, na Região Nordeste do País. Esse problema do município é realmente fundamental, mas é o retrato deste País cheio de injustiças, cheio de privilégios, onde se decide por pressões de maiorias organizadas, muitas vezes produzidas artificialmente, para assegurar os privilégios daqueles que já estão instalados no poder e no conforto. São estas as observações que quero fazer, que não implicam restrição alguma ao que foi exposto aqui com propriedade, precisão, clareza e competência quase científica pelo Prefeito de Curitiba. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência concede a palavra ao último inscrito, o nobre Constituinte Max Rosenmann. O SR. CONSTITUINTE MAX ROSENMANN: – Companheiros, realmente, para mim, como paranaense e curitibano, é uma satisfação muito grande ter vindo aqui, mesmo que no final desse debate, acompanhar o raciocínio e as apresentações feitas pelo Prefeito Roberto Requião. Sou, na verdade, um constituinte metropolitano, de Curitiba. Ali se concentram as minhas bases, ali convivo com o povo e conheço profundamente os problemas da região metropolitana. Como um testemunho inicial, quero dizer que Curitiba, após o período da administração de Maurício Fruet e agora com Roberto Requião, tem tido o privilégio de ter uma conduta política e administrativa extraordinária. Maurício, pela pua participação popular e pela sua forma de organizar partidariamente, e, agora, Roberto Requião com suas propostas próprias, que V. Ex. as conheceram, conduziram sabiamente os destinos da região. Digo os destinos de região porque, na última semana do mês de março, tivemos a escolha do presidente da Assomec – Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Curitiba – e, pela liderança que Roberto tem, tranqüilamente, se estivesse em busca de cargo, seria o presidente da associação. Mas, como uma manifestação de integração, ele não aceitou que seu nome fosse cogitado e sugeriu que fosse escolhido por um prefeito da região metropolitana, para que houvesse realmente uma integração com Curitiba, como vem ocorrendo. Este o testemunho que queria trazer, inicialmente, ao conhecimento de todos. Estou apresentando uma proposta a esta comissão, da qual eu deveria participar, mas, por questão de distribuição dentro do PMDB, fiquei como suplente da Subcomissão do Poder Legislativo. Sem me alongar muito, devido o adiantado da hora – entreguei a cópia a V. Ex. as – busco nesta proposta o princípio de integração das regiões metropolitanas. Quando estas regiões foram criadas, em número de nove, por decretolei do então Presidente Geisel, não foram estabelecidas as formas de integração e convívio entre os municípios. Daí a razão por que muitas associações de municípios convivem quase com reuniões gastronômicas, em que os prefeitos se encontram e as soluções não saem, até porque não existe um poder de decisão, tampouco dotação orçamentária própria, nem condução política. Proponho, no artigo principal, sem ter que lê-lo todo: "As atividades da União, do estado e dos municípios nas regiões metropolitanas ficam subordinadas ao princípio de integração espacial, setorial, no que diz respeito à sua localização e operação." Vou dar um exemplo prático da necessidade de termos uma premissa constitucional da integração. Nós, em 47 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Curitiba, temos uma malha de transportes razoavelmente boa. Nosso Prefeito Roberto Requião está integrando a essa malha os municípios metropolitanos, através de linhas alimentadoras, barateando, naturalmente, o custo do transporte do trabalhador que reside na região metropolitana e trabalha em Curitiba. Pelo sistema atual e pela garantia constitucional, existem os ônibus intermunicipais, que saem do município e vão até um ponto central da cidade, não permitindo uma integração intermunicipal. Hoje, ele está fazendo ligações com um município, como Mandirituba, e já está convidando outros municípios, mas não está embasado em uma garantia legal para esse entrosamento, porque não existe na Constituição um princípio que garanta essa integração espacial. Este é o caminho que, entendo, devemos estabelecer na Constituição. Poderíamos detalhar uma série de princípios de lei ordinária, mas estamos aqui construindo uma Constituição. São justamente os princípios constitucionais que devemos produzir para que o Brasil e todas as suas regiões metropolitanas, que estão crescendo extraordinariamente por falta de uma política agrícola, com conseqüências as mais diversas, sobre as quais poderíamos discorrer durante muito tempo. Sabemos que em outros países o número de pessoas que residem no campo cada vez mais se reduz, e no Brasil não acontece de forma diferente. As regiões metropolitanas continuarão crescendo, com números cada vez maiores. Se não houver uma ação do Estado para que essas regiões sejam apoiadas, o trabalhador que se desloca aos grandes centros sofrerá, cada vez mais, restrições até mesmo de direitos humanos, pela necessidade de ter direito à água, transporte, escola e conforto. Há necessidade de que nesta Constituição seja produzido um texto que dê esta garantia aos governantes do futuro. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência, antes de encerrar a reunião, anota as presenças dos Srs. Paulo José Vilela, Assessor Jurídico da Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo; Antonio Santos Mendonça, Secretário da Associação de Municípios de São Paulo; Domingos Pontes, que já usou da palavra, prefeito de Caucaia, no Ceará; Almir de Lima Machado, Presidente da Federação para o Desenvolvimento Urbano da Região Metropolitana do Rio de Janeiro; Norberto Luiz, SecretárioExecutivo da Associação dos Municípios de São Paulo; Fernando Carrezedo, Secretário-Executivo da Secretaria de Estado dos Negócios Metropolitanos de São Paulo; Luiz Henrique Cavalcante; Maurício Nogueira, do Ministério do Desenvolvimento Urbano; Hugo Simas. Secretário-Geral do Centro Acadêmico, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná; Hugo César Rosel e dos estudantes de Direito Gilson Vicente, Zilmara Zaidovick, Marilu de Oliveira Brito, Rosemeire Scheffer e Rejeane Maria Martins Schultz. A presidência agradece ao Prefeito expositor Roberto Requião, de Curitiba; ao Prefeito de Caucaia e ao Prefeito Silas de Oliveira, de Itapevi. Encerro esta sessão, convocando os membros da Subcomissão para a nossa próxima reunião ordinária de terçafeira, com audiência pública, conforme decidido pela comissão, e também para a reunião de hoje, às 17h 15min. para avaliação dos nossos trabalhos. (Está encerrada a sessão.) sob a presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, com a presença dos Srs. Constituintes: Aloysio Chaves, Eraldo Trindade, Mauro Miranda, Mello Reis, Geraldo Mello, Lavoisier Maia, Alexandre Puzyna, Vitor Buaiz, José Dutra, Luiz Freire, Sérgio Brito, Nestor Duarte, Ivo Cersósimo, Raul Ferraz e Firmo de Castro. ATA: O Sr. Mauro Miranda, Primeiro-Vice-Presidente, propôs que as atas fossem lidas nas reuniões internas, o que, submetido à apreciação dos Srs. Membros, foi aprovado. O Sr. Presidente informou que a reunião se destinava à realização de um painel sobre o tema: "O Vereador e a Constituição", convidando os Srs. Paulo Silas, de Taboão da Serra, São Paulo, Presidente da União dos Vereadores do Brasil; Dr. Alberto Gigante, de Divinópolis, da União dos Vereadores de Minas Gerais; Sra. Ana Maria Martins Soares, Diretora Executiva da Confederação Nacional das Associações dos Moradores – CONAM, para comporem a Mesa. Com a palavra, o Sr. Paulo Silas disse que era com grande satisfação que participava da audiência pública, para trazer as pretensões dos vereadores do Brasil em relação à nova Constituição do País, enfatizando ser lamentável a situação dos mesmos, reduzidos a assistentes sociais de luxo, porque despidos de poderes efetivos para influir nas decisões de interesse de seus municípios. Na seqüência dos trabalhos, o Sr. Alberto Gigante ressaltou a necessidade de a Constituinte assumir uma posição ousada para romper a subordinação em que, durante tantos anos, esteve submetido o Legislativo, em todas as esferas. A seguir, falaram os representantes da Confederação Nacional das Associações dos Moradores: João Bosco da Silva, Elgito Alves Boaventura e Ana Maria Martins Soares, que falaram sobre a luta e os propósitos dos movimentos de moradores, considerando fundamental o problema da moradia popular. Cumprimentaram os Constituintes por permitirem a participação popular na elaboração da nova Constituição. Passando à fase dos debates, o Sr. Presidente lembrou que o prazo fixado para os mesmos era de uma hora e trinta minutos. Debateram o assunto os Srs. Raul Ferraz, que falou sobre a reforma urbana; José Dutra, que inquiriu os expositores sobre a estrutura judiciária nos municípios, os subsídios dos vereadores e a competência dos municípios de legislarem sobre matéria financeira. Estando presente a Vereadora Jussara Rosa Cony, de Porto Alegre, Secretária-Geral da UVB, o Sr. Presidente convidou-a a fazer sua explanação, após o que falaram ainda os Srs. Lavoisier Maia, que ressaltou sua posição em favor do fortalecimento do vereador; Mello Reis, que questionou a viabilidade de o prefeito ser escolhido pela Câmara Municipal, a exemplo do Agente Executivo Municipal, anterior a 1946. O Sr. Constituinte Carrel Benevides falou sobre a autonomia financeira das Câmaras Municipais. O Sr. Presidente agradeceu a contribuição trazida pelos Srs. Conferencistas, convocando os Srs. Membros para uma reunião a realizar-se hoje, às dezessete horas e trinta minutos. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a presente reunião, às doze horas e cinqüenta minutos, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, depois de lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A 6ª Reunião Ordinária Presidência declara aberta a sessão. Solicita à Sra. Secretária Executiva que proceda à leitura da ata da reunião anterior. Aos vinte e oito dias do mês de abril de mil novecentos O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Sr. e oitenta e sete, às dez horas e dez minutos, reuniu-se a Presidente, requeiro a V. Ex.ª dispensa da leitura da ata. Subcomissão dos Municípios e Regiões, na sala B, do O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, Muito bem. O Constituinte Mauro Miranda está solici- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) tando a dispensa da leitura da ata. A Presidência consulta o Plenário se está de acordo. Os Srs. Constituintes que aprovam, permaneçam como se encontram. (Pausa.) Aprovado. A Presidência informa ao Plenário de que esta é uma das audiências públicas da Subcomissão de Municípios e Regiões, convocada de acordo com a determinação do Plenário da Subcomissão, destinada à coleta de subsídios para a elaboração do relatório desta Subcomissão a respeito do assunto "Municípios e Regiões". Convidamos para compor a Mesa o Presidente da UVB, Paulo Silas; a representante do CONAM, Sr.ª Ana Maria Martins Soares, sua Diretora Executiva; o Vereador Alberto Gigante, Presidente da AVEMIG – Associação dos Vereadores de Minas Gerais. Vamos dar início às exposições desta manhã. Para iniciar o nosso painel "O Vereador e a Constituição", a Presidência concede a palavra ao Presidente da União dos Vereadores do Brasil, o Vereador Paulo Silas, de Taboão da Serra. O SR. PAULO SILAS: – Cumprimentos a Mesa, nas pessoas do Presidente, Deputado Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, e do Relator, Senador Aloysio Chaves. É com grande satisfação que participamos desta audiência pública para trazer aos Srs. Constituintes algumas considerações sobre o papel do vereador na atualidade e o que pretendemos para a nova Constituição. Em primeiro lugar, a União dos Vereadores do Brasil está de comum acordo com as entidades municipalistas quando defendem a reforma tributária, não só quanto à reforma tributária em si pelos recursos que serão repassados ao município, mas também quando defende novas atribuições a serem outorgadas aos Municípios, para execução de serviços prestados à comunidade, porque é notório que um serviço prestado nessas condições tem uma qualidade muito melhor do que quando o é pelo Estado ou pela União. Nas próprias escolas municipais onde há essa prestação de serviços é constatada esta melhoria da qualidade. No entanto, não podemos apenas reivindicar esta melhoria de recursos para o município e a descentralização dos serviços prestados pela comunidade sem que também abordássemos a questão atinente ao vereador. O prefeito é eleito por um segmento da sociedade, enquanto a Câmara dos Vereadores é composta dos vários Partidos e dos vários segmentos de uma comunidade, ou seja, os vereadores representam todos os segmentos dessa sociedade. É a Câmara Municipal a caixa de ressonância dos problemas e dos anseios dos municípios. O vereador, quando disputa uma eleição, conhece o seu eleitorado, vai de casa em casa, disputa às vezes com um vizinho de rua aquele voto precioso para conquistar o cargo da vereança. Citamos um ditado que diz que ele é um trator, na época de eleição que tem de ir derrubando tudo, batendo em todas as portas para conquistar aquele voto, e, logo após a eleição, passa a ser o pára-lama, isto é, recebe todas as reclamações, porque com o vereador não se precisa marcar audiência. Em cada bar da esquina, em cada padaria, em cada empório o cidadão encontra-se com o vereador e cobra as melhorias e as promessas políticas feitas pelo prefeito municipal, pelo deputado estadual, pelo deputado federal, pelo governador e até pelo Presidente da República. Então, o vereador é o elo direto com os municípios. E a Câmara Municipal tem sido usada atualmente de uma forma errônea, pois constatamos que os vereadores são assistentes sociais de luxo, ou seja, como o vereador tem prerrogativas de legislar sobre matéria financeira, os municípios o procuram basicamente para solicitar que ele providencie para eles a Carteira de Identidade, o Título de Eleitor, uma vaga no hospital da cidade ou da capital, uma ambulância 48 etc. Então, o vereador passa a ter esse papel assistencialista, o que na realidade, não é a sua aspiração. Ele anela debater na Câmara Municipal as questões que chegam até ele, por exemplo, as do seu bairro, como o saneamento básico, como a construção de escolas, como o plano de desenvolvimento do município. Essas questões, que deveriam ser debatidas, acabam esvaziadas no início, porque hoje falamos muito em centralização, mas ela começa no município num estágio menor e aumenta no Estado e ainda mais na União. Essa centralização dá-se da seguinte forma: o prefeito detém as finanças em suas mãos, determina tudo o que vai acontecer na sua cidade, e quando sabe que vai depender daquela Câmara, logo depois de eleito, ele escolhe alguns vereadores que poderão ser o seu grupo de sustentação e começa a trabalhar com os mesmos atendendo as suas reivindicações básicas – só asfalta as ruas onde há o interesse de vereadores que o estão apoiando. Só empresta uma máquina motoniveladora para apedregulhar um bairro se realmente o vereador está do seu lado. E isto talvez pode estender-se tanto ao deputado federal como ao estadual, mas é sentido mais no município, onde o vereador é cobrado e o munícipe que o elege espera um mínimo de retorno, ou seja, o melhoramento para o seu bairro. Muitas vezes, o vereador tem de dizer que quem define aquela questão é o prefeito municipal. Não bastasse isso, temos ainda a prefeitura prestando o serviço de assistência social, fazendo um trabalho político, tirando espaço dos vereadores em uma comunidade. Com relação a esse aspecto, estamos bastante preocupados, porque o papel para o qual fomos eleitos não tem sido desempenhado. O prefeito tem uma ingerência direta dentro da Câmara Municipal. Basta dizer que 80% dos presidentes de câmaras não são eleitos, mas indicados pelo prefeito. Não bastasse isso, a maioria das Câmaras Municipais hoje têm sua contabilidade vinculada à da prefeitura, ou seja, o prefeito é quem efetua o pagam ento do vereador, dos funcionários da Câmara etc. E presenciamos o fato ridículo de, em algumas cidades do Brasil, se o vereador não votar nas matérias do interesse do prefeito, ele fica quatro, cinco meses sem receber o seu subsídio, e apenas o recebem aqueles que estão votando ao lado do prefeito. Chega-se a essa situação absurda em que nos encontramos. Na maioria das cidades brasileiras – uma grande maioria, eu me atreveria dizer que em 60% – as Câmaras Municipais sequer têm o prédio próprio de funcionam ento. Funcionam numa sala anexa às prefeituras, onde o secretário do prefeito é o mesmo da Câmara Municipal. É esse funcionário quem datilografa os requerimentos dos vereadores, antes mesmo deles serem debatidos e discutidos na Câmara Municipal, o prefeito já determinou qual será o seu encaminhamento. Então, esta é a atual situação da Câmara. De mãos atadas os vereadores não podem legislar sobre a matéria financeira, e os prefeitos, sabendo que têm o poder econômico nas suas mãos, o que fazem? Na aprovação do orçamento ele embute 50, 60, 70 até 100% de remanejamento de verbas suplementares ao orçamento. E como ele detém essa maioria – por esses meios que estou expondo – acaba aprovando um orçamento com 60%, 70% de suplementação de verbas. Em face disso, ele não precisa mais da Câmara, porque qualquer remanejamento que ele pretenda fazer no superávit da receita, a Câmara já lhe deu autorização para fazê-lo, porque o prefeito impôs aos vereadores, que, se caso não votassem de uma determinada maneira, não teriam seus pedidos atendidos na prefeitura. Então, o vereador fica realmente numa situação difícil porque tudo passa pelas mãos do prefeito e do Executivo. Defendemos que na nova Constituição haja uma reforma tributária sim, mas não nos moldes do que ocorre no Poder Legislativo de hoje, senão vamos apenas ter os superprefeitos e os supercaciques políticos, desvalorizando a base da política brasileira. 49 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) É nesse sentido que essa reforma tributária tem de vir acompanhada da devolução das prerrogativas às Câmaras Municipais. Essas prerrogativas a Câm ara já teve, nos primórdios da História do Brasil na época das capitanias hereditárias. Os vereadores eram os elementos de confiança dos governadores, eram eles que arrecadavam os impostos, não existia a figura dos prefeitos, assim como eram eles que indicavam aos governadores das capitanias as benfeitorias que deveriam ser realizadas nas suas comunas. Os vereadores desempenhavam até o papel do Judiciário, porque eram eles que julgavam os crimes cometidos na sua comunidade e formavam o corpo de jurados, na época. Com o passar do tempo, gradativamente, foram sendo retiradas essas prerrogativas dos vereadores e, evidentemente, a dos deputados estaduais e federais, até chegar ao cúmulo dos decretos -leis, que delegaram ao Poder Executivo o desempenho dessa tarefa, essencialmente do Poder Legislativo. Hoje temos os famigerados decretos-leis, que ainda atropelam as Câmaras Municipais. E vejam os senhores que o endividamento dos municíp ios muitas vezes acontece pelas desapropriações de áreas ali existentes por valores incompatíveis com a realidade. Essas desapropriações não passam pelo crivo da Câmara de Vereadores. Basta o prefeito passar na rua, olhar para um lote e dizer: "vou desapropriar esse terreno." O prefeito chega à prefeitura, baixa um decreto e está desapropriada aquela área. Ele negocia com o proprietário por qualquer preço aquele terreno, sem aprovação da Câmara. O juiz faz uma avaliação pela prefeitura. Não há critério. Muitas prefeituras estão endividadas em função disso. Esta Constituinte deve estabelecer que essas desapropriações, tanto as municipais quanto as estaduais e federais, passem também pelo crivo do Poder Legislativo, senão haverá mais um trunfo nas mãos dos prefeitos, dos governadores e do Presidente da República. O Poder Legislativo, evidentemente, – poder que representa todos os segmentos da sociedade – foi castrado porque não interessava aos mandantes do momento que eles opinassem sobre o que é feito dentro do seu município. O Tribunal de Contas, órgão auxiliar às Câmaras Municipais, às Assembléias Legislativas e o Tribunal de Contas da União, no caso da Câmara dos Deputados, fazem o jogo das prefeituras, porque quem está em contato direto com esses tribunais são exatamente os contadores das prefeituras. Chega-se à calamidade de os Tribunais de Contas do Estado não receberem uma avaliação das contas dos prefeitos há 5 anos, ou seja, um vereador que se elegeu em 1982 e tomou posse em 1983 ainda não julgou nenhum a conta da sua prefeitura. Então, tem de haver a agilização dessa prestação de contas. Os prefeitos alegam que enviam as contas primeiramente ao Tribunal de Contas, para que depois este envie um parecer às Câmaras Municipais. Nesse sentido, há manipulação para que essas contas ali não cheguem em tempo hábil. Acontece o seguinte: a próxima câmara que assumir, irá julgar a conta desse prefeito que saiu. São raras as exceções e raros os estados em que os Tribunais de Contas estão em dia com a prestação de contas desses municípios. Tem de haver um dispositivo que diga que, no momento em que essas contas são enviadas aos Tribunais de Contas, o sejam também às câmaras municipais para que os membros destas possam acompanhar a execução dos orçamentos e os gastos públicos. Gostaria de colocar também o problema das regiões metropolitanas. Para essas regiões metropolitanas, onde existem problemas comuns, defendemos a criação da Câmara Metropolitana de Vereadores, por entender que várias cidades são prejudicadas em função da decisão de um prefeito de uma cidade. Por exemplo, o Prefeito Jânio Quadros aumentou a tarifa de transportes coletivos em São Paulo de Cz$ 1,50 para Cz$ 5,00. Isso não afetou apenas a cidade de São Paulo, mas também 38 cidades componentes daquela região metropolitana, porque existe uma lei nessa cidade que diz: "qualquer ônibus que transitar dentro da cidade de São Paulo, ônibus intermunicipal, não pode ter uma tarifa inferior à cobrada em São Paulo". Então, num assunto de interesse comum das 38 cidades, a decisão pura e simples de um prefeito acabou interferindo nas outras. É também o caso do problema da área de mananciais de municípios. Por exemplo, há municípios proibidos de desenvolver um pólo industrial para garantir a área de mananciais para a manutenção do abastecimento d água da grande cidade. Eles não são beneficiados todavia com essa disposição. São Paulo, Belo Horizonte e outras áreas metropolitanas se desenvolvem porque não estão incluídos na proibição da Lei dos Mananciais, isto é, podem instalar indústrias em seis bairros etc., e aqueles pequenos municípios que ficam ao redor das capitais, são obrigados a preservarem suas matas, os seus rios, e estão proibidos de instalar indústrias em sua região, para captar recursos. Portanto, acabam não tendo recompensa por esse serviço prestado aos municípios das capitais, que vêm enriquecendo cada vez mais. Há também o problema do lixo, problema sério. São Paulo, por exemplo, não vai ter onde jogar seu lixo. Então ele vai ter de recorrer, para isso, às cidades circunvizinhas. Problemas como o transporte, a questão do lixo, a questão dessa compensação de tributos, deveriam ser discutidas numa Câmara Metropolitana, que engloba representantes de todos os municípios interessados. Outra questão importante que devemos ressaltar é a da imunidade parlamentar do vereador. Tivemos agora, no mês passado, o presidente da Câmara de Ribeirão Preto, uma cidade de grande porte em São Paulo, fazendo denúncias contra a Justiça da sua cidade, reclamando da morosidade em que se desenvolvia um processo, que há mais de 5 anos rolava e a questão nele versada não tinha decisão. Simplesmente o juiz condenou o presidente da Câmara, por fazer essa denúncia da tribuna, a 4 meses de prisão. Está condenado. Estamos fazendo atos públicos de protesto naquela cidade e contra isso, mas a verdade é que o juiz simplesmente condenou o presidente da Câmara por essa denúncia. Então, o vereador, fiscal direto da comunidade, não tem liberdade para denunciar a má qualidade dos serviços municipais, locais, como também para denunciar os serviços estaduais prestados à sua comunidade, porque dificilmente o estado tem condições de fazer essa fiscalização. Mas por qualquer tipo de denúncia que se faz contra um órgão federal ou estadual, ele está sujeito a sanções, responde a processos, e, evidentemente, as Câmaras de Vereadores não estão aparelhadas, como as prefeituras, com um corpo jurídico para dar respaldo a um prefeito, quando acusado de alguma coisa, e o vereador tem muitas vezes de recorrer a um advogado amigo, para poder se defender. Então ele acaba se calando não denunciando as irregularidades que ocorrem na sua comunidade. Essa questão da imunidade parlamentar é muito importante para nós, vereadores. Nos vários eventos realizados no Brasil – a sem ana passada ainda estive em um congresso, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul – os vereadores, em todos os discursos, são enaltecidos como a base da pirâmide política deste País, o sustentáculo da política do Brasil. São elogios colocados no discurso, mas que, na prática, no dia-a-dia, o vereador, na realidade, é usado como um cabo eleitoral, um assistente social de luxo, DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) prestando um serviço puramente assistencial. Ele não tem nenhuma definição para o que acontecem em sua comunidade. Portanto, se a Constituinte não devolver essas prerrogativas ao Poder Legislativo – aí já não seria somente aos vereadores, mas ao Parlamento, de modo geral – não haveria modificação na vida política deste País. Temos de descentralizar a questão da verba. Hoje vivem o seguinte problema: uma obra realizada no município, quando contratada pela União, custa cinco vezes mais cara do que quando contratada pelo município. Quem participa de concorrências públicas realizadas pela União são as grandes empresas, como a Mendes Júnior, Camargo Corrêa, empresas que têm condições para entrar numa concorrência federal. Essas empresas nunca realizam aquela obra no município; passam -na para uma segunda, uma terceira, uma quarta e uma quinta. Portanto, ela ganha a concorrência, dinheiro e não realiza a obra. Repassa esses recursos para mais três ou quatro empreiteiras, até aquela que vai realizar a obra. Então, evidentemente, se esses recursos fossem repassados para o município, esta obra sairia muito mais barata. Temos uma experiência dessa, na prática. O Governador Franco Montoro tinha uma companhia, CONESP, que contratava todas as obras das escolas estaduais. A partir do segundo ano do seu governo, ele descentralizou essa questão da seguinte forma: enviava o dinheiro para o município, o prefeito contratava a obra, com empreitada da região, e a obra era realizada. O Estado apenas fiscalizava os trabalhos e fazia o repasse do dinheiro conforme o andamento da obra. O prefeito recebia esses recursos à medida que a obra fosse sendo realizada, se obteve um resultado excelente. A mesma coisa na contratação de funcionários. Ao invés de o Estado fazer um concurso para contratar elementos de uma região para ir trabalhar em outra, o governo do Estado repassou a verba para os prefeitos e esses fizeram a contratação de funcionários na sua região, o que melhorou no atendimento, principalmente na área da saúde e na da educação porque os funcionários são pessoas da comunidade, ligadas à história daquela, terra, conhecem as pessoas da comunidade, e sabem como lidar com elas. Há casos em que você desloca uma pessoa do mesmo Estado, mas de regiões diferentes, e só o tempo que aquele funcionário perde para se adaptar à nova situação ele já estaria prestando um bom serviço à comunidade. Nesse aspecto, então, achamos interessante que a retomada das prerrogativas do Poder Legislativo será de vital importância para a descentralização que tanto apregoamos. E o municipalismo não será completo apenas com a reforma tributária. Porque se houver uma reforma tributária pura e simplesmente, teremos, como já disse e volto a dizer, os superprefeitos os supercaciques políticos. É necessário que haja a descentralização para que se tenha uma aplicação mais eficaz desses recursos no município. A questão dos subsídios dos vereadores foi muito debatida hoje. Mas quem decide a respeito, sobre quanto vai ganhar um vereador lá, no Aiapoque, no Amazonas, ou lá no Chuí, no Rio Grande do Sul? Isso é definido aqui em Brasília, na Câmara dos Deputados. Então, há várias regiões distintas e capacidade distintas de remuneração. E aí eu até advogo, talvez, uma solução que, no mínimo, é digna de consideração: cada Câmara deveria votar o subsídio dos seus vereadores, porque ela irá responder politicamente pelos seus atos, perante a comunidade. Quando o Congresso Nacional define os subsídios do vereador, as respectivas Câmaras ficam isentas dá responsabilidade, e 50 seus componentes dizem apenas: "estamos cumprindo uma lei federal". Então, concluindo, há cidades em que o vereador ganha muito, e outras em que ganha pouco. Então, é uma discrepância que uma lei nacional deve coibir, normalizando essa questão que afeta quatro mil e quinhentos municípios. Agradeço o tempo a mim reservado. O SR. PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Para efeito de registro a Presidência anuncia a presença do Sr. Ronaldo Expedito Lopes, Assessor do Prefeito de Sete Lagoas; de Leone Maciel Fonseca, Presidente da Câmara Municipal de Sete Lagoas; de Marcelo Cecé Vasconcelos, Prefeito de Sete Lagoas, em Minas Gerais e Presidente da Associação Mineira de Municípios; de Aristides Salgado dos Santos, Prefeito Municipal de Divinópolis; do Sr. Manoel Mota, Prefeito de Araranguá, Santa Catarina; de Adroaldo Otávio Teixeira, Prefeito de Turgos, Santa Catarina; Otávio Souza Silveira, Presidente da Câmara Municipal de Araranguá; de Vinício da Silva, Vereador de Turgo, Santa Catarina e do Vereador João Eduardo Márcia, de Uberlândia. A Presidência vai passar a palavra ao segundo expositor, Presidente da União de Vereadores de Minas Gerais, Vereador Alberto Gigante, que disporá de vinte minutos para fazer sua exposição. O SR. ALBERTO GIGANTE: – Saúdo o Presidente desta Subcomissão, nosso companheiro Deputado Federal Luiz Alberto Rodrigues, o Relator, Senador Aloysio Chaves,o Vereador Paulo Silas, nosso presidente a nível nacional, o representante do Conam, os Srs. Senadores, Deputados Federais, Prefeitos, Vereadores, funcionários da Casa, imprensa, enfim, todos os presentes. Inicialmente, gostaria de dizer da nossa alegria de poder participar dos trabalhos constituintes. Nós que, a nível das comunidades, lideramos um trabalho em Minas Gerais, o processo de organização dos vereadores, e percorremos inúmeros municípios, participando de vários congressos, discutindo a questão da Assembléia Nacional Constituinte, sentimo-nos honrados por poder estar aqui debatendo esta questão. A União dos Vereadores do Estado de Minas Gerais – Uvemig – preparou-se para poder, organizadamente, influir neste debate. Infelizmente, talvez por ignorância, fomos traídos pelo tempo. Planejamos ocupar os meses de abril e maio, para, num processo descentralizado, discutirmos nas várias regiões do Estado de Minas Gerais, organizarmos encontros regionais, mas, inclusive, marcamos para o dia 30 de maio um encontro em Belo Horizonte, onde iremos reunir todas as associações microrregionais do Estado de Minas Gerais, com os presidentes das câmaras municipais e todos aqueles que quiserem participar do evento, afim de elaborar um documento final a respeito do posicionamento dos vereadores de Minas Gerais acerca do trabalho constituinte. Tememos que esse documento chegue atrasado, mas será, de qualquer modo, uma contribuição que realmente terá mobilizado toda a edilidade mineira, que trará o resultado da sua participação nos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. Quanto ao trabalho constituinte, acredito que a questão principal, que deve nortear os Deputados Federais e Senadores, diz respeito à ousadia. A Assembléia Nacional Constituinte tem de ser ousada e sair da situação em que vivemos há longos anos e que temos imensa dificuldade de abandonar a síndrome d a desconfiança. No Brasil, ninguém, com o mínimo de poder, o mínimo de autoridade, está tranqüilo para passar essa autoridade á frente, de descentralizar sua atividade. Se a Assembléia Nacional Constituinte puder enfrentar esse problema e souber repassar a solução a quem de direito, a quem me- 51 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplente) lhor puder desincumbir-se das inúmeras tarefas que dizem respeito aos milhares de problemas que hoje enfrentamos, o desejo de sair dessa síndrome da desconfiança e conseguir fazê-lo, poderá realmente contribuir, e muito, para o progresso do nosso País. Especificamente, no caso do vereador e do município, essa questão é gritante. Se o Congresso Nacional acha que no transcorrer das duas dezenas de governo autoritário o seu poder foi cerceado, suas prerrogativas castradas, o que se dirá do município e principalmente da Câmara de Vereadores? Aqueles constituintes que por lá passaram ou que mantêm o mínimo de relacionamento com os legislativos municipais entendem essa problemática. O Vereador Paulo Silas, com muita propriedade, porque ninguém mais do que ele conhece a situação dos vereadores, pois viaja pelo Brasil inteiro, assume na integralidade a condição de presidente da OVB, relatou aqui fatos que ocorrem no dia-a-dia, e se fôssemos narrar outros exemplos, gastaríamos todo o nosso tempo unicamente falando dos absurdos praticados contra as câmaras municipais, tais como: câmaras que não se reúnem; outras que se reúnem única e exclusivamente na hora de discutir orçamento do município; câmaras cujos membros não recebem seus subsídios, em virtude de desavenças havidas com o Executivo municipal; câmaras que não têm as mínimas condições de funcionamento, pois não têm sede ou nem mesmo dispõem de uma sala na prefeitura para realizarem suas reuniões, com o foi dito pelo Vereador Paulo Silas. Essa é a situação que vivemos hoje, não em todos os municípios obviamente, mas na maior parte deles, os pequenos. Se imaginarmos que no município nasce a representação política efetiva através do contato do vereador com o líder do bairro, com o dono do boteco, com o presidente do time de futebol, com o líder religioso, enfim, com todas as lideranças municipais, iremos entender por que o político no Brasil é tão questionado e carrega consigo, talvez, uma fama tão ingrata. Essa é a realidade que o povo vê, efetivamente, no representante político. Aquilo que vê no vereador ele repassa para os inúmeros cargos. Acho que a Constituição deve restabelecer as nossas prerrogativas usurpadas e começar lá de baixo, sem medo, sem achar que o vereador é incompetente, que não tem capacidade de exercer um cargo e que se se lhe der qualquer prerrogativa, ele irá, autoritária ou incompetentemente, usá-la mal. Acho que corremos riscos muito maiores, como o da centralização que vivenciamos de há muito. Devemos correr o risco de dar ao vereador o direito de realmente representar o povo, cargo para o qual ele foi efetivamente escolhido. Precisamos ter essa ousadia, essa coragem e começar a valorizar aquele representante político que está, todo dia, em contato com o povo. Iniciado isso, as soluções das outras questões, como a valorização do Poder Legislativo e a mudança da imagem do político, virão. Enfim, acho que o processo democrático tomará um rumo muito mais rápido se isso for feito. É fundamental que se inclua na Constituição um modo de se dar a independência financeira e administrativa às câmaras municipais. No caso específico da câmara de que participo, da cidade de Divinópolis, cujo prefeito aqui está presente, não há esse problema. Existe um relacionamento harmonioso entre a câmara de vereadores e a prefeitura. Vivemos bem, mas na maioria dos municípios o prefeito trava tudo quanto não e do seu interesse através do orçamento; apenas solta o dinheiro quando quer, e a câmara não funciona. Ela não se reúne e, muitas vezes, não tem, sequer, papel para imprimir aquilo que constitui seu trabalho quotidiano. Acho que a Constituição realmente deve estabelecer isto: o Executivo municipal tem obrigação de, todo mês, repassar a edilidade o numerário que diz respeito ao trabalho da câmara e, mais do que isso, dar à câmara municipal o direito de elaborar o seu próprio orçamento. Como disse o Vereador Paulo Silas, se houver algo aberrante, extravagante, o povo lá estará para cobrar, será o primeiro a criticar, e aqueles que agiram indevidamente pagarão muito mais cedo do que se espera pelo seu erro. Acho que dar à câmara o direito de fazer o seu orçamento, bem como liberdade administrativa, é algo fundamental para que haja harmonia entre o Executivo e o Legislativo dentro dos municípios e até para que nossos vereadores tenham condição de se desenvolverem, tenham interesse pelo cargo, preocupem -se em estudar, em evoluir em sua função e não fiquem única e exclusivamente preocupados em se reunirem uma vez por mês, uma vez de dois em dois ou uma vez por ano, para votar o orçamento, ou às vezes nem se reúnem, se não for do interesse do Executivo. Acredito que essa questão é de fundamental importância. Gostaríamos de mencionar, rapidamente, outras prerrogativas abordadas pelo Vereador Paulo Silas. Sobre uma delas acho que não preciso falar muito, pois o Congresso Nacional sofre muito mais do que nós o cerceamento do direito de votar matérias financeiras. Não só votar, porque isso lhe é permitido, mas emendá-las e ter autonomia para iniciativa dessas matérias. Caso contrário, a limitação do nosso trabalho será imensa. Nós, a nível das câmaras municipais, temos de ficar buscando no fundo da nossa imaginação o que fazer, exceto votar nome de ruas, conceder título de cidadão honorário, votar os projetos que vêm do Executivo, porque, concretamente, a limitação coloca-se dessa forma. É muito fácil entender a nossa posição. O que se faz sem dinheiro no Brasil? Nada. Como não temos autonomia para legislar sobre matéria fi nanceira ficamos nessa situação. Então volta a velha questão: o Poder Legislativo, na sua origem, na sua base, continua descaracterizado. A imunidade também é outra questão fundamental. Sofremos, principalmente nos pequenos municípios, a pressão do prefeito, do delegado, dos chefes políticos, do padre, do dono da escola, enfim, as pressões são de todos os lados e o vereador se sente castrado. Muitas vezes, a única sustentação que o vereador tem é o seu próprio mandato. Diante de tantas pressões, não há outra alternativa senão calar. Ou devolve-se a imunidade aos vereadores, e acredita -se na sua função de representação, e tiramos da cabeça esse preconceito de que o vereador não tem competência para desenvolver suas funções, quer dizer, ou devolveremos ao vereador sua imunidade ou continuaremos nessa situação lastimável. Sobre a questão da remuneração, também aqui colocada, a lei feita pelo Congresso beneficiou certos vereadores. As grandes cidades, hoje, pagam extremamente bem aos seus edis, às vezes até demais. O que aconteceu? Quem tem condições de pressionar o Congresso são os vereadores das grandes cidades, que ganham bem, pois esses municípios têm condições de repassar algum recurso para que seus representantes venham aqui, e foi isso o que aconteceu. A lei existe, remunera muito bem os vereadores dos grandes municípios, mas pratica uma imensa injustiça com a grande maioria dos vereadores, os das pequenas cidades. Nelas, os vereadores estão ganhando até menos de um salário mínimo. O que se pode exigir de um vereador nessas condições? Podemos esperar que dedique todo o seu tempo para representar sua comunidade, para desenvolver um belíssimo trabalho parlamentar ganhando isso? É inaceitável. A Constituinte tem de repensar essa questão, e creio não existir outra saída que não dar o direito ao município de legislar DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) sobre esse assunto. Se eu votar, na minha cidade, uma lei concedendo aos vereadores um salário de 100 mil cruzados, o problema será meu, quem se responsabilizará por isso serão os vereadores dessa cidade. O que não pode é continuar essa doença, a síndrome da desconfiança. Não se reconhece ao município o direito de legislar sobre suas finanças, legisla-se aqui em cima e, obviamente, a injustiça é total. Uma outra questão, que talvez não diga respeito exclusivamente ao debate sobre problema do vereador, mas cuja solução consideramos imprescindível, é a da autonomia municipal. Não existe um só político, um só homem ligado às estruturas de Governo que não defenda a questão da autonomia do município, que não defenda o município forte, o município que tenha, realmente, condições de definir os passos de sua vida. Todos assim se expressam, mas perguntamos: quantos estão preocupados em colocar essa questão em prática? Quantos estão preocupados em, realmente, contribuir para que ele seja forte e possa, lá no município, de forma mais barata, mais autêntica, mais imediata estar ao lado das reivindicações do povo que está colado à prefeitura, cobrando melhorias? Quantos estão preocupados em repassar essa autonomia para os municípios? Essa é a grande questão e creio também ser a preocupação maior que Paulo Silas e todos os vereadores trazem hoje para a Constituinte. Digo isso porque fizemos uma grande caminhada em Brasília, há 33 dias. O Presidente nos prometeu que em trinta dias nos daria uma solução sobre a reforma tributária emergencial – emergencial porque os municípios estão quebrados. Temos municípios cujos dirigentes estarão fazendo greve, amanhã ou depois, parece que no Paraná. Mas nada aconteceu, nada foi feito, quando sabemos que os municípios não estão conseguindo pagar nem seu próprio pessoal. É essa a questão principal que temos de discutir aqui. Iniciamos por onde? Por que os municípios não podem discutir, elaborar e escrever sua Constituição? No Estado de São Paulo existe uma lei, tramitando há cinco anos na Assembléia Legislativa, dando direito aos municípios de elaborarem sua lei orgânica. A aprovação dessa lei vem sendo protelada, jogada de lá para cá e não se vota essa questão. Encaminhei, logo que assumi a direção da Associação dos Vereadores do Centro-Oeste, em 1983, uma sugestão à Assembléia Legislativa do Estado no sentido de que desse esse direito aos municípios mineiros, e nada até agora foi feito. Acho justo que, ao lado da Constituição Federal que está sendo discutida nes te momento, se repasse aos municípios também o direito de fazerem sua constituição. Em Minas Gerais somos 722 municípios; se formos ao Norte, veremos uma grande maioria de pequenos municípios de economia basicamente agrária, onde a religiosidade é um fator marcante; descendo um pouco, veremos um centro onde a base econômica é a metalurgia, quer dizer, a situação é totalmente diferenciada; se formos para o Sul, a situação é completamente diferente; se chegarmos em Belo Horizonte, vamos constatar uma cidade que hoje não se governa, que virou, infelizmente, uma anarquia total diante do seu crescimento desorganizado e, no entanto, temos a Lei Complementar nº 3, defasada, mal elaborada em 1982, que rege o funcionamento de todos esses municípios. A todo momento quebramos a cara com essa lei, a todo momento ela nos dá um tapa na cara, porque para aquilo que queremos fazer, para aquilo que queremos desenvolver em nosso trabalho parlamentar na Câmara não se acha base; é aquela dúvida. A dúvida é tamanha que em cidade vizinha à nossa, em Minas Gerais, fizeram um requerimento ao Instituto Mineiro de Assistência aos Municípios, IMAM, sobre determinado problema. Câmara e prefeito entraram em uma desavença e a Câmara apresentou uma solicitação de esclarecimento e o prefeito também. No dia da reunião para decidir o problema, o prefeito -tinha um 52 parecer do IMAM favorável a ele e a Câmara dos Vereadores tinha outro, do mesmo IMAM, favorável a ela Esta é a situação que temos face à lei complementar, em Minas Gerais, e acredito que se a Constituinte abolir isso e der direito a cada município de elaborar sua constituição, de discutir isso em consonância com suas associações de moradores, seus grupos de serviço, seus sindicatos, seus representantes políticos, seus líderes, enfim teremos uma constituição que dará condições de a cidade progredir, que incentive, a cidade a ir para a frente, que valorize os traços principais da cidade que faça com que cada cidade busque, realmente, melhorar, procure evoluir e não ficar amarrada em uma camisa-de-força, como é hoje, a Lei Complementar nº 3, que estabelece para todos os municípios de Minas Gerais, independente de sua situação, a mesma Carta. Sobre a reforma tributária não seria necessário falar, é um assunto que já foi tratado inúmeras vezes mas, infelizmente, nós, municipalistas, vereadores, prefeitos ainda não conseguimos fazer ver essa questão aos governantes maiores, e a situação é mais grave ainda porque, se vamos para o lado dos estados, a situação é desse jeito. Vindo para cá, troquei idéias com um senhor, no avião, e este levantou um fato sobre o qual nunca havia pensado, tinha-me passado desapercebido. Colocou ser impossível qualquer solução com essa centralização de recursos em Brasília, o gasto desnecessário, a mordomia... O monta nte de dinheiro que vem para cá às vezes é tanto que existe a dificuldade de se decidir onde ele será colocado. Às vezes ficam com um montante tão significativo parado sem saber se este vai ser aplicado ali ou aqui. Vamos fazer como todos os estados modernos e democráticos que progrediram a nível internacional. Vamos decidir de forma até lógica essa questão. Porque, como está, ao município cabe tudo, desde a reclamação do município até a resolução total de suas pretensões, mas a ele não cabe uma parcela mínima de recursos para enfrentar esses problemas. Junto a isso vem a questão da descentralização administrativa, que Paulo Silas citou, quer dizer, devemos repassar ao município o direito e a condição objetiva de enfrentar os inúmeros problemas que lá estão colocados – educação, saúde, moradia, transporte, pavimentação – os problemas com os quais convivemos todos os dias, e somos obrigados a negar uma solução aos nossos municípios por não termos condições financeiras para resolvê -los. Essa é outra questão fundamental. Terminado meu prazo, gostaria de relembrar uma questão. Acredito que se nós, no momento constituinte, conseguirmos, através de nossos representantes aqui em Brasília, quebrar a síndrome da desconfiança, arriscar e apostar em nossos representantes que estão a nível dos municípios e dos estados, tenho a certeza de que a Constituinte terá feito o trabalho para o qual foi chamada, isto é, contribuiu para que possamos caminhar e evoluir no sentido de criar outra imagem do nosso País, escrever uma outra história, fazer um Brasil diferente daquele que hoje presenciamos e que todos, tenho certeza, queremos ver de forma diferente. Agradeço sensibilizado ao Presidente, que nos deu o direito de aqui estar, e reafirmamos, nós vereadores de Minas Gerais e acredito que os do Brasil inteiro, que continuamos esperançosos e conscientes de que esta Assembléia Nacional Constituinte dará uma nova imagem e uma nova história ao nosso Brasil. Muito obrigado, Sr.Presidente. O SR: PRESIDENTE. (Luiz Alberto Rodrigues): – Na seqüência do nosso painel, dando cumprimento à deliberação do Plenário da Subcomissão de Municípios, e Regiões, vamos convidar para tomar assento à Mesa o Presidente da Confederação Nacional das Associações de Moradores, o Vereador João Bosco da Silva. A Presidência in- 53 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) forma aos expositores que o momento é oportuno para deixarem os textos escritos para a análise competente da Subcomissão e do Sr. Relator. A Presidência vai conceder a palavra ao Presidente da Confederação Nacional das Associações dos Moradores para que possa orientar a exposição do Conam. S. S.ª disporá, como de regra, de 20 minutos para exposição do tema. No caso de haver divisão de temas entre diversos expositores, a Presidência concederá mais algum tempo para que o assunto possa ser convenientemente explanado. O SR. JOÃO BOSCO DA SILVA: – Sr. Presidente da Subcomissão dos Municípios e Regiões, ilustre Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, demais componentes da Mesa, expositores, companheiro Paulo Silas, Vereador-Presidente da UVB, companheiro representante da Avemig, Srs. Constituintes, minhas senhoras e meus senhores, inicialmente gostaríamos de cumprimentar a decisão dos Srs. Constituintes de permitirem a participação popular na elaboração da nova Constituição. Entendemos que V. Ex. as deram e dão um passo importante no sentido da legitimação necessária para a futura Carta Magna. Pretendemos utilizar o tempo que é creditado à nossa entidade da seguinte forma: vamos fazer uma introdução, explicando um pouco o que é este movimento comunitário; em seguida, iremos passar a palavra para a companheira Ana Maria Martins Soares, também diretora da Confederação Nacional das Associações de Moradores e Presidente do Conselho Regional das Sociedades e Amigos de Bairro de São Miguel Ermelindo, na Zona Leste da Capital de São Paulo. Ela vai falar sobre as propostas da Conam, concretamente aqui aos Srs. Constituintes. Antes da Ana Maria, mantendo a ordem, falaria o Elgito Boaventura, Presidente da União dos Moradores das Vilas 1º de Outubro e 2 de Setembro, localizadas na Região Leste da Capital de São Paulo, principal liderança das trinta mil famílias que hoje ocupam cerca de trezentas áreas naquela região da capital paulista. Senhores Constituintes, a nossa entidade congrega e unifica a luta dos milhões de brasileiros organizados em treze mil associações de moradores de bairros, vilas, favelas e conjuntos habitacionais, que, por sua vez, estão também vinculados a cerca de centenas de uniões e conselhos municipais e distritais de associações de moradores e às vinte federações existentes, todas elas filiadas à nossa confederação. Entendemos que a participação de representantes do movimento comunitário nesta audiência pública é fruto do acúmulo de experiência e trabalho desenvolvido ao longo dos anos – há mais de quarenta – pelas associações de moradores ou sociedades e amigos de bairro, que surgiram e vêm -se fortalecendo a cada dia que passa em decorrência do processo de adensamento populacional que se vem verificando nos centros urbanos. O povo vem-se organizando pelo local d e moradia como forma de interferir no encaminhamento de solução dentro do município, especialmente para os problemas de infra-estrutura que vem enfrentando. Como são muitos os problemas tratados pelas associações de moradores, como saúde, educação, transporte, moradia, segurança e outros tantos, entendemos que deveríamos aproveitar esta oportunidade para abordarmos um tema que para nós hoje – e vai se colocar também no futuro – se nos afigura como de fundamental importância, o problema da moradia popular. Entende a Confederação Nacional das Associações de Moradores – e este convencimento é fruto de uma discussão que vem desde a sua fundação, em janeiro de 82, que passa pela realização de três Congressos Nacionais, o último dos quais aqui mesmo em Brasília, no mês de março de 86, que contou com a presença e a participação de sete mil e quinhentos delegados, três por associação de moradores, de todo o País, e que passa também pela realização de eventos nos estados e pela luta concreta do povo e que V. Ex. as vão poder cons - tatar ao longo da exposição da representação da Confederação durante esta audiência – que a moradia popular, dentro de um conjunto de problemas vividos pelos moradores no município, especialmente os da periferia, ressalta -se como um problema fundamental a ser resolvido. E a Conam procura dar uma contribuição no sentido da solução desse problema. Devemos ressaltar que essa preocupação encontra respaldo e ressonância em personalidades outras, como o Senador Mário Covas. E aqui relembramos que, quando Prefeito da capital de São Paulo, S. Ex.ª, participando da abertura do XXXV Encontro Nacional de Cohabs, em fevereiro de 85, afirmou que, “considerando a hierarquia de valores, temos um elenco de prioridades, tais como o disciplinamento do uso da ocupação do solo urbano, o saneamento básico, a habitação e o transporte coletivo”, o que, de certa forma, Srs. Constituintes, reforça a fixação dessas prioridades da Conam. E repetimos aqui o que dizia naquela oportunidade o atual Senador Mário Covas: “É urgente se encontrarem saídas para a questão urbana. Este parece ser um dos deveres da próxima Assembléia Nacional Constituinte: estabelecer princípios disciplinadores modernos sobre o uso do solo. Assim acontecendo, será dado um passo considerável para melhor equacionar a problemática da nossa política habitacional.” Antes então de passarmos a palavra para o nosso companheiro seguinte, o Elgito, devemos dizer que infelizmente os sucessivos governos que têm passado por este País não se têm sensibilizado ou se mostrado competentes para resolver o problema da moradia popular, que se vem agravando a cada dia que passa. Esta incapacidade, no nosso entendimento, tem também muito a ver com a concentração de recursos em mãos do Estado e especialmente da União. Como as pessoas moram no município, é claro que deve caber a ele prioritariamente a execução de programas habitacionais e para tanto se faz necessária, evidentemente, a realização de uma reforma tributária que favoreça o fortalecimento econômico dos municípios b rasileiros. A CONAM considera fundamental que o município, a fim de que cumpra o seu papel de unidade básica do exercício do direito à cidadania, volte a ter a. prerrogativa da autonomia política e o retorno dos tributos, fruto do trabalho de seus habitantes. Para encerrar a minha participação, afirmo, Srs. constituintes, que sem dúvida alguma, o povo brasileiro está a exigir um novo arcabouço jurídico-constitucional que reflita o seu sentimento em favor da realização de profundas mudanças nos campos políti co, econômico, social e cultural em nosso País, rumo à construção de uma nova sociedade mais justa, mais livre e igualitária. Depositamos, pois, esperanças no frutuoso trabalho que os Senhores estão desenvolvendo. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Sr. Elgito Alves Boaventura, presidente da União dos moradores das Vilas 1º de outubro e 2º de setembro, da Zona Leste de São Paulo. Consulto os Srs. expositores se é mesmo esta a ordem de exposição. O SR. ELGITO ALVES BOAVENTURA: – Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, Presidente desta Subcomissão, demais Srs. constituintes aqui presentes, agradecemos a oportunidade que nos é concedida, de fazermos algumas colocações a respeito do problema da moradia no Brasil. Como Presidente de sociedade a nível de bairro, conhecemos de perto o problema da habitação, principalmente em uma cidade como São Paulo, que cresceu desordenadamente dada as suas condições de desenvolvimento. São Paulo é uma cidade onde milhares de pessoas vivem amontoadas em cômodos, em pensões, sem a mínima condição DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) de sobrevivência, e como fruto desse "desenvolvimento", a partir de 1980/1981 para cá houve em várias regiões da Capital, principalmente nas periferias, ocupação de terras e de casas pela população mais carente. Mas, antes disso, já havia nessas mesmas regiões, os chamados loteamentos clandestinos, onde a vida do povo era muito difícil. Essa população, que produz todo o desenvolvimento da cidade, encontra-se sem a mínima condição de morar. Este ano o s aluguéis subiram numa proporção nunca vista na História do Brasil: após o término do Plano Cruzado os aluguéis chegaram a aumentar até 1.500%, pois muitos trabalhadores que pagavam, por um cômodo, cerca de 300 a 400 cruzados, tiveram seus aluguéis aumentados para 2.500 até 3.000 cruzados, o equivalente totalidade dos seus salários. Mas não podendo pagar os aluguéis promoveram os trabalhadores a grande ocupação de terras naquela região, principalmente em Goianases, São Miguel e Itaín, ocupação essa equivalente a 30 mil famílias ou média de 130/140 mil pessoas. Contra essa população, que já havia construído suas casas nos terrenos ocupados, houve por parte da Justiça a concessão de liminares, aos respectivos proprietários, para a desocupação dos terrenos, o que vem sendo cumprido. Ao usar este tempo, aqui, pedimos o apoio dos Srs. constituintes no sentido de que, ao elaborarem a nova Constituição, nela expressem o direito da moradia como principal reivindicação para o ser humano. Em nosso ponto de vista a moradia vem antes do direito à propriedade, porque mesmo que o cidadão não tenha propriedade é necessário que ele tenha direito à moradia. Por entender assim pediríamos aos Senhores constituintes que intercedam com telegramas, telev, etc., junto ao Governo de São Paulo para que o problema daquela população das regiões de São Miguel, Itaín, seja tratado não como problema de polícia, mas, sim, como problema social. Naquela região, há um mês, foi assassinado pela polícia metropolitana do Prefeito Jânio Quadros um pedreiro. Quando tentava impedir que as casas fossem derrubadas, levou um tiro na cabeça. Ele estava desarmado, sem camisa e usava apenas um short. Na quintafeira da semana passada, em outra região, onde havia 40 casas e em torno de 95 famílias habitando-as, foi cumprida uma liminar de forma violenta pela polícia de São Paulo. A população estava sentada e a tropa de choque e a cavalaria foram jogadas em cima dela. Isso os Srs. constituintes podem constatar pelas imagens de TV e fotos nos jornais. Esta é a situação do problema da habitação. Entendemos que, nessa Constituição, é necessário que seja expressa a questão fundamental da moradia. O problema da habitação precisa ser resolvido, não só em São Paulo, mas no Brasil, pois sabemos que ele é crucial em todas as partes do País. É preciso que o Estado elabore um plano de habitação que permita que se construa habitações inclusive para fins de aluguel, a fim de combater a grande esculação imobiliárias; que o Es tado tenha uma reserva de habitação para que ele possa, quando os aluguéis subirem da forma como está acontecendo, controlar a situação. Era o que tinha a expor. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra a Sra. Ana Maria Martins Soares, Diretora Executiva da Conam – Confederação Nacional das Associações de Moradores – para sua exposição. A SRA. ANA MARIA MARTINS SOARES: – Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, Sr. Relator Constituinte Aluízio Chaves, Srs. constituintes, queremos ressaltar a importância de que alguns representantes da população cheguem até os Senhores e façam algumas reflexões, algumas colocações sobre problemas importantes que afligem o povo, pois a grande maioria da população, 54 hoje, do País, tem esperança de que a nova Constituição venha a ajudar a resolver essas questões. Vamos fazer uma introdução ao tema e colocar a nossa proposta. Ao longo dos últimos 25 anos, com a política centralizadora, autoritária e antidemocrática dos militares, o Governo Federal esvaziou os recursos do município e acabou com a sua autonomia política. Por um lado, foi o período em que a tendência de urbanização do País se deu de forma assustadora, pois em 1940, 68% da população brasileira viviam no campo e, em 1980, 70% dessa população já moravam nas cidades. Sem recursos e sem autonomia política, o Poder Municipal não pôde implementar programas e planos para que a cidade pudesse oferecer uma vida condigna a todos que para ela fluíram. As lutas populares nos grandes centros urbanos se caracterizaram pelo direito à cidadania e pelo direito de usufruir os serviços públicos urbanos, mas o grande destaque, hoje, é a luta pelo direito à moradia. Sabemos que nesses milhares de municípios, pouco a pouco, foram-se organizando comissões, associações de moradores, conselhos, na busca de atendimento às reivindicações de melhorias por uma vida mais digna. A política habitacional instituída pelo BNH não chegou a tocar na solução dos problemas de moradia popular e serviu aos grandes interesses dos especuladores imobiliários e dos financeiros. A Conam considera importante que por ocasião das discussões da nova Constituição se volte a discutir a questão fundamental de que o município, como unidade básica do exercício do direito à cidadania, volte a ter a prerrogativa da autonomia política e do retorno dos tributos, fruto do produto do trabalho dos seus habitantes. São esses habitantes, Srs. Constituintes, que reivindicam a melhoria dos seus bairros, dos seus locais de moradia para que tenham uma vida mais digna. Depois de um dia de trabalho difícil nas fábricas, nas oficinas, nas construções; quando retornam para casa encontram péssimas condições de vida; e nos finais de semana têm de conviver com situações difíceis, em vi rtude dessa grande centralização que não acompanhou o crescimento ela população com programas mais sérios a nível de governo, em todos os seus níveis, mas em especial a nível de governo municipal, que está mais próximo dessa população. Sabemos que a grande causa das ocupações de terras, foi a ausência do Poder Público Federal, Estadual e Municipal e que por falta de planos efetivos de moradia, popular surgem os movimentos de ocupação de terra e de casas. Hoje, em São Paulo, essa é a última solução para o problema da moradia encontrada pelos trabalhadores mais pobres. Depois de um longo período de empobrecimento, o rebaixamento dos salários cria péssimas condições de vida, tornando impossível ao trabalhador, com seu mísero salário, ter um pedaço de chão para morar. Há vinte e cinco anos, a solução era a autoconstrução em loteamentos clandestinos, lotes comprados nas periferias ou moradias de aluguel, bem pobres, quase que sem serviços públicos. O IBGE fala em 3.500 loteamentos clandestinos em São Paulo, em 1980, ocupando mais de 50% do espaço urbano. Na década de 70 a situação se agravou, pois os preços dos terrenos se tornaram absurdos e os loteamentos distantes exigiam gastos excessivos de condução. Nesse período aumentaram os cortiços e as favelas. De 1975 a 1981 cresceu em 800% o número de famílias encortiçadas e de 1973 a 1983 o crescimento das favelas foi de 630%, em um processo de busca de moradia, de modo individual ou até de pequenos grupos, ocupando áreas públicas ou privadas, muitas vezes nas beiras dos córregos ou terrenos não-aproveitáveis. Esta situação prova que o Governo não tem uma política eficaz para enfrentar o problema da habitação popular. Temos claro 55 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) que o problema não é a falta de terras vazias nos grandes centros, pois o próprio BNH cadastrou, em 1981, 2 mil terrenos vazios, com áreas acima de dez mil metros quadrados, e são dois terços da população que vivem o problema da moradia, em São Paulo. Novamente, nos finais dos anos 70, o desemprego e a recessão, com baixos salários , provocaram novo adensamento das favelas em todas as cidades do País. Sabemos que esse fenômeno não se restringiu apenas a São Paulo e às grandes capitais, mas se espalhou em todo o País. No início dos anos 80, com o agravamento do problema o povo inicia as ocupações coletivas. Em 1981, nas terras do Iapas, em São Paulo, milhares de famílias morando de aluguel e em cortiços tomam conta da Fazenda Itupu, na Zona Sul. Imediatamente o Governo Federal e mesmo o Conselho de Segurança Nacional proíbem as autoridades locais de negociarem com os posseiros as terras ocupadas. Este problema social foi tratado com repressão e intimidação. A partir daí crescem movimentos na busca de solução para o problema, começam invasões em conjuntos habitacionais, há anos abandonados e semi-acabados, muitas vezes com irregularidades na sua construção. Exemplo disso foi a ocupação do Conjunto Habitacional Centreville, em Santo André, com mais de 600 moradias há oito anos abandonado. Hoje é uma cidade cuidada e urbanizada. As invasões a conjuntos abandonados, terras sem sequer terem uma cerca passam a ser invadidas, e as entidades populares, a Igreja, passam a pressionar as autoridades de forma organizada, na busca da solução. Com estas experiências os movimentos passam a ter pequenas conquistas; negociando com o Governo. No Rio Grande do Sul, próximo a Porto Alegre, há poucos dias, os altos preços dos aluguéis empurraram dez mil pessoas para o Núcleo Habitacional Campos Verdes, em Alvorada, para os 2.040 apartamentos da Cohab. A grande maioria é de pessoas que não têm condições de pagar aluguel. Os ocupantes estão dispostos a pagar, mas uma porcentagem justa do seu salário, pelo direito a um apartamento. Surgiram novas invasões a conjuntos de apartamentos prontos há dez anos, como em Cachoeirinha, no Conjunto Parque Esperança, no Núcleo Rubem Berta, da Cohab, e no Conjunto Jardim Leopoldina. Em apenas dez dias fora ocupados seis conjuntos habitacionais por milhares de pessoas, no Rio Grande do Sul. O agravamento do preço dos aluguéis, com o fim do Plano Cruzado, altera totalmente o quadro de lutas por moradia. Quem pagava 300 cruzados, 400 e até 500, nas periferias de São Paulo como nas outras grandes cidades, está hoje pressionado a aceitar aumentos na base de mil por cento, que atingem importâncias que o salário do trabalhador não pode pagar. Os despejos começam e o povo precisa achar uma saída: Foi a especulação dos aluguéis, com a experiência das ocupações coletivas dos trabalhadores que levaram mais de cem mil famílias a ocuparem terras públicas e privadas nas periferias da Zona Leste de São Paulo. Grande parte nunca havia participado de qualquer movimento. Muitos são analfabetos e semialfabetizados, mas muitos, também, são profissionais, hoje desvalorizados em seus salários e vítimas da rotatividade no emprego causada pelo sistema do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Seu interesse imediato e urgente é conquistar um pedaço de chão para morar, ter onde colocar sua família. Gostaríamos de enunciar algumas propostas: descentralizar os recursos arrecadados a nível federal e estadual, objetivando seu retorno ao município para que possa investir na implantação e no melhoramento do serviço de habitação e na condição de vida do cidadão; acesso à moradia deverá ser garantido pelo Poder Público, prioritariamente, a todos os trabalhadores assalariados; Que a unidade habitacional seja concedida de forma ampla, permitindo a todos os usuários o acesso aos serviços públicos. Gostaríamos também de fazer algumas colocações quanto ao tamanho das unidades residenciais, O que vem sendo construído, ultimamente, e em escala mínima são pequenas casas de 24 metros quadrados. Que os Srs. Constituintes fossem incisivos: famílias com três, cinco, sete filhos não podem morar em 24 metros quadrados. Essas são as moradias oferecidas aos trabalhadores de baixa renda. A nossa proposta é no sentido de que a dimensão da unidade residencial deverá corresponder às necessidades da família, e no mínimo de 60 metros quadrados de área construída, como é a determinação da ONU – Organização das Nações Unidas. Propuzemos aos Srs. Constituintes que fossem estabelecidas dotações orçamentárias específicas, a nível Federal, Estadual e Municipal principalmente para a habitação; que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço se transformasse em pecúlio do trabalhador para ser prioritariamente investido na solução de sua moradia; que fosse garantido o comprometimento do salário do trabalhador, na aquisição da casa própria ou no pagamento do aluguel, com quantia que não ultrapas se a 20% dos seus salários; que fosse criado um fundo municipal de habitação popular que coordenasse a captação e a aplicação dos recursos a serem investidos na infra-estrutura urbana e na habitação; que fosse criado um Conselho Municipal, de Habitação, com representação das entidades sindicais e de moradores, no sentido de estabelecer as diretrizes dos planos e aplicação dos recursos, priorizando as necessidades. e o atendimento da demanda da habitação e dos serviços. púbicos, bem como fiscalizar todo o processo de produção e destinação dos serviços e das moradias. Outra proposta é garantir que a produção das unidades habitacionais venha a contribuir para a reestruturação dos espaços urbanos já construídos, priorizando o adensamento na implantação dos conjuntos habitacionais, para minimizar os custos da infra-estrutura e dos serviços urbanos; separar uma quantidade de unidades habitacionais a serem construídas: para aluguel, com a finalidade de o poder publico vir a ser regulador do mercado imobiliário de locação. Não consideramos, verdadeiras, Srs. Constituintes, algumas afirmações que têm sido feitas pela imprensa de São Paulo no sentido de que os responsáveis pela ocupação de terrenos naquela cidade são os nordestinos que chegam. Isso não é verdade. Não faz apenas seis meses que os nordestinos estão chegando sem São Paulo mas, sim, vinte ou trinta anos, e muitos deles, é verdade; não têm vontade de ali se fixarem indefinidamente. Gostaríamos que houvesse a possibilidade de o poder público construir casas populares a serem alugadas; que o problema da habitação seja entendido não apenas como a casa, mas também com toda a infra-estrutura para uma vida digna – saneamento básico, educação, saúde, transporte e lazer; destinação de recursos específicos no Orçamento da União, dos Estados e Municípios para habitação popular, no caso de a União garantir 15% do Orçamento. Srs. Constituintes, algumas propostas se repetem, abordando também aspectos diferentes: elas são frutos dos diferentes seminários, encontros e congres sos realizados pelas associações de moradores de todo o País. Outra proposta é utilizar a tecnologia nacional nos programas de construção de moradia, destinando recursos específicos para pesquisa, no sentido de reduzir os custos de construção; melhorar o conforto ambiental e garantir condições mínimas de salubridade e promover a formação de mão-de-obra, favorecendo a elevação no nível de emprego no setor; os sindicatos, as organizações civis de caráter popular, como as associações de moradores, poderão requisitar DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) terrenos públicos para as construções de suas sedes ou de obras de assistência social ou recreativa. Gostaríamos da atenção dos Srs. Constituintes para que fosse fortalecida a organização dos movimentos populares nas suas associações, que se organizam com muitas dificuldades, e que constasse dá próxima Constituição a possibilidade de que, em áreas públicas, fosse possível que essas entidades populares construíssem as suas sedes, para uma melhor organização e para o seu funcionamento. Garantir que o Poder público possa desapropriar terras urbanas ociosas com destinação específica habitacional, pagas a prazo, com título da dívida pública, no prazo de retorno das prestações dos adquirentes; garantir mecanismos de taxação progressiva a terrenos não ocupados ou prédios e casas em estado de deterioração, a fim de permitir que o poder público possa determinar a destinação social do uso e da ocupação dos imóveis urbanos. Essas são as nossas propostas, Srs. Constituintes. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência lembra aos Srs.Constituintes que teremos uma reunião às 17:15h para darmos seqüência à organização dos nossos trabalhos: Solicito a V. Ex.ª que não deixem de assinar o livro de presença. Aqueles que quiserem fazer perguntas aos Srs. expositores devem assinar a lista apropriada. Passaremos aos debates. A Presidência informa ao Plenário que, de acordo com decisão da Subcomissão dos Municípios e Regiões, o prazo máximo para os debates – para a formulação das perguntas e das respostas – é de uma hora e meia. Solicito aos Srs. debatedores que, ao fazerem a fundamentação de suas questões, indiquem o interlocutor que deverá respondê-las. Com a palavra o Constituinte Raul Ferraz. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Sr. Presidente, companheiros constituintes, demais visitantes, temos dois assuntos que poderíamos debater aqui, mas é evidente que, num espaço tão pequeno de tempo de que dispomos, é impossível abordarmos o problema dos vereadores relacionado com o da autonomia municipal, e, ao mesmo tempo, abordarmos a questão do solo urbano. Prefiro tratar, sucintamente, do problema do solo urbano já que, possivelmente; teremos outras oportunidades para analisar o problema dos municípios, já que esta Subcomissão é específica do "assunto. Achei interessante a oportunidade de se falar aqui do problema urbano. Devo dizer que estou no meu segundo mandato, e que dediquei mais da metade do meu primeiro mandato ao estudo específico do problema do solo urbano. Andei por este Brasil quase todo discutindo o problema para, no final, apresentar, há mais de um ano, um substitutivo ao projeto de lei do uso do solo urbano, onde propomos, mais ou menos, a reforma urbana. Surpreendi-me quando, debatendo em associações de moradores, fui questionado, quase que com o dedo em riste, por dirigentes de associações que queriam saber o que eu estava fazendo no Congresso. A pergunta foi dirigida a mim como seria a qualquer outro parlamentar. Mas eles queriam saber o que eu estava fazendo no Congresso pela reforma agrária. Então eu disse que estranhava o fato desde quando não me encontrava num sindicato de trabalhadores rurais, e, sim, numa associação de moradores. Disse também que enquanto 72% da população brasileira estavam hoje nas cidades, apenas 28% estava no campo, e tínhamos verdadeiros especialistas em reforma agrária, enquanto que o grande problema que há hoje no Brasil, o problema urbano, das cidades, não recebe muita atenção por parte do Congresso Nacional. Por incrível que pareça, pouquíssimas pessoas tratam do problema urbanístico no Congresso Nacional. Mas ali fizemos algumas propostas e acredito até que a Conam tenha delas conhecimento, porque, entre os meus recortes de jornais, tenho declarações de presidentes das 56 Confederações de Associações de Moradores do Rio, de São Paulo, geralmente todos eles favoráveis às propostas que fazemos no nosso substitutivo. Então, eu dizia para os representantes daquelas entidades que eu estranhava muito aquelas colocações, porque achava que para a solução dos problemas das associações dos moradores a reforma a ser reivindicada deveria ser a urbana, não porque a reforma agrária seja desnecessária, mas porque acho que não há razão para as associações de moradores brigarem mais pela reforma agrária do que pela urbana, uma vez que o problema urbano é bem mais grave. Foi quando comecei a explicar a eles o problema de como se daria a reforma urbana no País e a necessidade, a urgência, a premência mesmo dessa reforma. Não terei tempo aqui para tratar do assunto, mas o problema da especulação imobiliária, aqui versado por todos os representantes da Conam, foi muito bem colocado. Se quiséssemos saber, hoje, quais as terras que teríamos a desapropriar nas cidades, não seria preciso sair de rua em rua, andar de carro pela cidade, seria necessário, apenas, tirar uma fotografia aérea. Os terrenos que estivessem desocupados e não fossem parques nem jardins deveriam ser desapropriados para dar melhores condições de vida ao povo brasileiro. O que vemos hoje é o seguinte: as cidades têm verdadeiras fazendas em seu inte rior. Fiz uma visita, acerca de um mês, a uma fazenda de produtores de leite em pleno centro de Salvador, e vemos onde os trabalhadores estão morando, não digo no inferno, não sou nenhum Roberto Carlos, mas muito longe do trabalho, gastando seu tempo nos transportes coletivos. Ao invés de oito horas de trabalho, passam a ter doze horas, devido ao tempo gasto em deslocamento, fora o gasto com transporte coletivo, o desgaste físico, que gera todo tipo de problemas. Não tem sentido a existência daquelas verdadeiras fazendas nas cidades. Existem lugares, por exemplo, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte que estão precisando mais de uma reforma agrária do que de uma reforma urbana. No entanto, essas terras estão ali como um grande investimento dos mais rentáveis, porque o Poder Público trabalha para valorizá-las. Não existe negócio melhor do que comprar uma grande área dentro de uma cidade e esperar que ela cresça. Por ali passarão as redes de água, elétrica, telefônica, asfalto e uma série de outros benefícios, e cada investimento desses está valorizando aquele terreno. Quando o próprio Poder Público, que valorizou esse terreno, precisa dessa área para construir algum equipamento urbano, o proprietário bate no peito e diz: "meu terreno é caro, aqui tem água, rede elétrica, asfalto, telefone, é um terreno de luxo", como se tivesse feito um investimento imenso para usufruir desses serviços. Em nosso substitutivo propomos que, quando o Poder Executivo tiver que desapropriar uma área para algum bem público, para algum equipamento urbano ou equipamento comunitário, deve abater do valor desse terreno toda a valorização dada pelo investimento público. Quanto valeria esse terreno se não tivesse rede elétrica, água, telefone, asfalto? Aí sim o prefeito poderia ter acesso ao solo urbano, porque os prefeitos hoje, infelizmente, verificam, vêem a cidade, mas não têm o dinheiro para pagar tudo isso que a própria prefeitura faz para encarecer o valor desse solo para depois construir alguma coisa a li. Já que o tempo é curto, gostaria de dizer que nossa proposta para o assentamento é a do usucapião especial urbano, com três anos entre presentes e cinco anos entre ausentes. Limitamos essa área em 125m2 por família. Para que mão se diga que haverá uma indústria da invasão ou do usucapião, propomos que apenas uma vez na vida o cidadão possa usucapir, desde que não seja proprietário urbano ou rural, apenas urna vez na vida e uma área de 57 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) 125m2. Propomos, igualmente, uma forma de eliminar o problema da proliferação de favelas e cortiços do País. Todas essas propostas estão em nosso substitutivo. Propomos que o favelado deixe de ser chamado como tal. A favela passaria a ser um condomínio, o favelado passaria a ser um condômino e seriam criadas cooperativas populares urbanizadoras, não sob a área federal, mas sob responsabilidade e fiscalização das prefeituras municipais. Dessas cooperativas seriam sócios os condôminos – hoje chamados de favelados – com sua parte ideal de terreno, que será o capital dessa cooperativa, a qual se dirigirá à Caixa Econômica, ao Banco Nacional de Crédito Cooperativo ou a qualquer órgão habitacional criado pelo Governo, para pedir que haja um financiamento no sentido de que, com esses recursos que o condomínio teria, com as votas de cada condômino, se construa nessa favela edificações decentes para os cidadãos. Infelizmente não tenho condições de estender-me, mas quero dizer que existe um trabalho pelo menos para a partida do estudo da reforma urbana no País que considero a mais urgente de todas, a mais necessária. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, eminentes expositores, Srs. prefeitos, Srs. vereadores, prezados constituintes, ouvi com muita atenção as colocações feitas pelos eminentes expositores, mas ficaram-me algumas interrogações a respeito das quais gostaria de obter maiores informações dos senhores expositores. O primeiro ponto, dirigido ao Sr. Paulo Silas, da União dos vereadores do Brasil, diz respeito à questão do subsídio dos vereadores. Pelo que me foi dado captar, a União dos Vereadores defende que os municípios devem fixar a remuneração dos seus vereadores e, pelo que me foi dado perceber, sem nenhuma limitação, sem nenhum teto capaz de estabelecer freios no sentido dessa fixação. Faço essa indagação para saber a opinião da União dos Vereadores diante de idéias e sugestões que já existem dentro da Assembléia Nacional Constituinte no sentido de subtrair essa competência da União e transferí-la aos Estados, para que esses possam estabelecer, em função da sua conjuntura ou das realidades que experimentam, os limites basilares para nortear a fixação dos subsídios dos vereadores. O segundo ponto, ainda para o Sr. Paulo Silas, é um problema que já fo i por mim abordado aqui, quando da presença, nesta Subcomissão, do representante do Ibam. Parece-me que um dos problemas mais graves por que passam as populações mais carentes desses municípios é exatamente o problema judiciário. Eu, como modesto advogado do Norte, tenho-me debatido de forma muito drástica, experimentando até violências na defesa daquele homem ou daquela mulher mais sofrida, mais carente que não tem condições de pagar um advogado para defender os seus direitos e quando o Estado não tem condições para efetivar uma prestação jurisdicional devida a estas populações que carecem da sua assistência. Gostaria também de ouvir do Presidente da União dos Vereadores do Brasil alguma coisa a respeito da atual estrutura judiciária. Se os vereadores entendem que essa estrutura deve permanecer como está se ela atende às necessidades dessas pessoas carentes ou se é necessária uma reformulação no sentido de se ajustar para melhor a prestação jurisdicional do Estado no município. Gostaria também de dirigir-me ao Sr. Alberto Gigante porque S. S.ª enfatizou a necessidade de o município readquirir a sua competência para legislar fundamentalmentar em matéria financeira, isto é, o vereador poder, através de sua ação parlamentar, redirecionar os recursos do município com vista ao atingimento de determinadas metas reclamadas pelo povo. Gostaria que o Sr. Alberto Gigante me esclarecesse a respeito de sobre o que se deve legislar. Porque, se vamos legislar a respeito de matéria financeira do município, parece-me que antes temos que definir de onde virão esses recursos. Desejo saber, por exemplo, como pensam os vereadores a respeito dos tributos que devem pertencer ao município. Se aqueles que hoje existem ou se outros que imaginam no sentido de fortalecimento da receita municipal para que em cima disso os vereadores possam realmente exercer a sua capacidade legislativa. Gostaria de ouvir a manifestação do Sr. João Bosco da Silva, da Confederação Nacional das Associações de Moradores, sobre uma idéia que já foi exposta aqui neste plenário pelo eminente Prefeito de Curitiba, Dr. Roberto Requião, quando ofereceu uma sugestão vinculada ao problema metropolitano, que objetiva a união dos municípios metropolitanos num grande município, transformando as suas Câmaras de Vereadores numa só Câmara. Cada município atual seria um distrito que elegeria seus representantes para aquela grande Câmara. Gostaria de saber também a opinião dos vereadores a respeito dessa idéia do Prefeito Roberto Requião. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Vereador Paulo Silas para responder às indagações e na seqüência ao Vereador Alberto Gigante e ao Vereador João Bosco, Presidente do Conam. O SR. PAULO SILAS: – Respondendo ao Deputado José Dutra, sobre a questão do subsídio, evidentemente que a sugestão apresentada melhora a situação atual, porque os Deputados Estaduais conhecem melhor o seu Estado e as suas regiões. Quero repetir aqui o que o Vereador Alberto Gigante disse: se nós, os homens públicos, não depositarmos confiança em nós mesmos a partir do Município, podemos desistir, porque hoje a imprensa e a comunidade têm acesso a todas as informações e uma Câmara que cometeu um abuso vai ser passível até de ações populares na sua comunidade, como já está acontecendo em alguns casos no Brasil. Há cidades cujas utilidades já estão sendo objeto de ação popular para devolução de subsídio pago a vereador. Ou acreditamos no fortalecimento real do Poder Legislativo em todos os níveis, ou vamos sempre desconfiar de tudo e sempre concentrar um pouco menos de poder para os vereadores. Vejam o que acontece hoje: as associações de moradores estão tomando o lugar dos vereadores. Por quê? Porque as Associações de Moradores reúnem-se para reivindicar as suas questões essenciais, como o saneamento básico e a construção de esgotos. Elas não vão lá para debater as questões políticas. Vão reivindicar as questões para melhorar a sua vida e nós, vereadores, temos que debater as questões políticas do município. Como não detemos o poder de decidir nada, o prefeito, muito perspicaz, coloca a Câmara de lado, atende às Associações de Moradores muitas das vezes rebaixando o papel do vereador e o papel da instituição Poder Legislativo. Essas mesmas associações de moradores estão cobrando providência das Câmaras Municipais, porque a Câmara Municipal está sendo cada dia mais fiscalizada por essas associações, pois nestas se encontram os futuros líderes e candidatos a vereador. Estão ali atuando no dia-a-dia de suas comunidades, inclusive hoje é discutido nessas associações quanto deve ganhar o vereador. Essas ações populares são inéditas e começaram a partir da edição da Lei nº 50. A partir daí várias cidades, principalmente no Centro-Sul, viram a propositura de ações populares para que os vereadores devolvam recursos. Evidentemente os componentes de Câmaras que cometeram esse abuso vão ter de devolver o que receberam indevidamente. Isso é um sinal de que está havendo um acompanhamento da sociedade nessa questão. Acredito particularmente que, se essa atribuição passar para o Estado, será uma inovação. Acredito, por exemplo, que numa cidade de 5 mil habitantes, a Câmara de Vereadores não vai ter a coragem de decidir que o vereador deva ganhar ali 40 mil cruzados por mês. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Mesmo porque hoje, na sua atual condição, o Município não teria como pagar tal subsídio, talvez sim. Achei interessante que exista a possibilidade de haver para tanto um limite, que poderia ser estabelecido até por lei federal ou estadual. Isso, sim, é medida cuja adoção pode ser estudada, para que não haja um abuso generalizado. Ter-se-ia que estudar uma forma de solução, que não é fácil. Agora esse limite, se chegar a existir, deverá ser estipulado pelo Estado, que é quem conhece as suas peculiaridades. Com relação à questão do Judiciário, entendemos que seria muito bom se nos Municípios houvesse pelo menos juizado de pequenas causas, para agilizar esses processos que ficam 4, 5, 6 ou 10 anos rolando pela Justiça, tratando de questões familiares, questões íntimas ligadas aos Municípios. Acho que a UVB defende essa proposta, porque representa uma descentralização e sem dúvida melhoraria a qualidade da prestação desses: serviços. Tal medida beneficiaria ainda outros serviços que estão sendo implantados no Brasil, principalmente no Estado de São Paulo, já criticados por alguns, mas que vejo com bons olhos, como por exemplo, a Delegacia da Mulher. Muitas vezes a mulher que sofre alguma violência em casa, não tem a coragem de chegar a um delegado comum e expor seus problemas, mas, quando ela encontra uma mulher nessa posição, tem condições de fazê -lo. São questões que acredito melhorariam a vida no Município. Não sei se respondi a V. Ex.ª a contento. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência informa ao Presidente do Conam que existe uma pergunta endereçada a S. S.ª, do Constituinte José Dutra; que gostaria de saber a opinião de S. S.ª a respeito da criação de um grande município metropolitano, incorporando todos os municípios e Câmaras metropolitanas. A Presidência concede a palavra primeiramente ao Vereador Alberto Gigante para responder à questão que lhe foi endereçada. O SR. ALBERTO GIGANTE: – É natural que surjam preocupações e dúvidas, como as levantadas pelo Deputado José Dutra. Acho inclusive que elas decorrem de um período em que não nos preocupamos em abordar questões dessa natureza. O assunto foi conduzido de uma forma que não nos interessava, mas nós, legisladores, tanto municipais quanto estaduais e federais, não tínhamos até o espaço suficiente para debatê-lo. Acredito, então, que, através deste debate – e acho que a Constituinte é o palco apropriado para isso – várias questões dessa natureza vão surgir. Todavia, repito, da forma como está, é muito mais fácil errar o Prefeito – tendo ele, única e exclusivamente, o direito de legislar sobre matéria financeira – do que errar, por exemplo, toda a Câmara Municipal de minha cidade, que é constituída de dezessete vereadores, e somos a todo momento cobrados sobre questões dessa natureza. Temos de ousar e acreditar que os vereadores realmente possam ter competência, porque se não tiverem pagarão por isso. Eles terão de se adequar, terão de se preparar, terão de estudar, terão de buscar, realmente, subsídios para enfrentar essa questão. Vivemos hoje uma situação interessante. Acredito que devamos ter, no Brasil, cerca de uns trinta tributos. Acho que não deve ser menos do que isso, o que, particularmente, me parece uma aberração. Não sei para que tantos tributos assim. Por exemplo, há um tributo – que vamos chamar de "tributozinho" – que existe única e exclusivamente para cobrar uma parcela mínima de determinada taxa, que muitas vezes nem tem sentido. Acho que deveria haver um processo de agrupamento, e teríamos então apenas quatro ou cinco tributos. 58 Existe um trabalho da Associação de Vereadores do Triângulo Mineiro, que repassamos ao serviço de secretaria da Comissão, sugerindo algo nesse sentido. Vamos agrupá-los, porque assim teremos maior condição inclusive de entender o processo, de melhor cobrá-los e repassá-los. Não quero dizer que determinada atividade deva ou não ser tributada. Ela até pode continuar a sê-lo, mas agrupada em um número menor de tributos, inclusive para que possa ser melhor controlada. Com toda a sinceridade, não tenho competência para dizer aos Srs. Constituintes, aqui e agora, de cor e com confiança, quais seriam esses tributos, mas acredito que, a partir do momento em que se tenha o global daquilo que é tributado, podemos fazer como nas nações desenvolvidas, onde existe uma correlação de partes iguais. Vemos hoje, por exemplo, que na Alemanha Ocidental um terço é da União, um terço é do Estado e o outro terço é do Município, e isso, lá e em outros países, tem funcionado às mil maravilhas: tem dado condições aos estados e municípios de enfrentarem seus problemas, e tem impedido que a União agrave seus problemas por esse excesso de arrecadação. Parece-me, portanto, que essa questão poderia, de uma forma simplificada, ser colocada assim. Agora, naturalmente isso requer um debate maior, e volto a dizer que acho ser a Constituinte o foro apropriado para isso. Quanto à outra pergunta de V. Ex.ª, quais seriam os critérios para a Câmara legislar sobre matéria financeira, acho que, primeiro, temos de ter o direito de discutir assuntos dessa natureza no município, ter o direito de estabelecer quais são, realmente, os critérios, para se estabelecer, por exemplo, determinado quorum. Acho que ele deve ser fixado previamente, principalmente em matérias de maior vulto e que, em linhas gerais; não fujam à questão orçamentária. A subvenção tem, realmente, de respeitar aquilo que está definido no orçamento, porque do contrário, em determinados lugares, vão surgir projetos para construção de mata-burros em todas ás reuniões e acho que essa não é a questão principal a ser objeto da decisão de uma edilidade. Parece-me, portanto, que devemos respeitar a questão do orçamento, que reivindicamos possa ser discutido, elaborado, votado e emendado pela, Câmara de Vereadores, e que essa, depois, em matérias de interesse financeiro, principalmente aquelas que dizem mais respeito à comunidade, possa, realmente, ter essa iniciativa. Acho que o respeito às subvenções orçamentárias, a definição de quorum e principalmente a cobrança e a pressão da comunidade caminham para definirem critérios que nos dêem, realmente, condições de iniciar o enfrentamento dessa matéria. Volto ,a dizer que acho que dúvidas e problemas vão surgir de imediato, mas me parece muito mais fácil estar o Executivo errando sozinho, por ter ele a iniciativa completa dessa matéria e fazê -lo a seu bel-prazer, pensando com uma só cabeça, do que tendo a Câmara também o direito de participar desse processo. É claro que isso vai virar uma discussão que envolva todos os vereadores, e eu, por exemplo, não vou ter qualquer interesse em votar e aprovar uma matéria que diga respeito à reivindicação de uma parte reduzida da comunidade, que vá beneficiar um número restrito de pessoas, se depois to da a comunidade vai me cobrar o apoio que dá àquela discussão. Alguém já disse que da discussão nasce a sabedoria. Desse processo de soltar essa discussão a nível dos municípios, dando-lhes condições de que possamos discutir a nossa Constituição Municipal, enfrentando os nossos problemas municipais, acho que essas questões vão poder ser melhor definidas. Agora, também concordo com a mesma 59 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) preocupação que V. Ex.ª levantou com relação aos subsídios dos vereadores. Acho que limites devem ser estabelecidos, principalmente para que, em determinadas situações – que, acho, não são a maioria, mas que possam acontecer – aberrações e exageros de imediato não venham a colocar em risco, e até em descrédito, um trabalho no qual, parece-me, temos de apostar. Trata-se da descentralização, dessa valorização do município, da devolução a nossas comunidades do direito de que possam realmente discutir e enfrentar, no dia-a-dia, com o nosso munícipe, com o nosso vizinho, com o nosso líder comunitário, os problemas dos quais todos os dias temos conhecimento. Acho que esse é o desafio, e que temos de esta r preparados – correndo os riscos –, principalmente, para que possamos levar isso, com sabedoria, à frente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o presidente do Conam, para responder ao Constituinte José Dutra. O SR. JOÃO BOSCO DA SILVA: – O Constituinte José Dutra nos honra com um pedido de esclarecimento a respeito da posição deste presidente a propósito de uma proposta do Prefeito Roberto Requião, de Curitiba, no sentido da transformação dos municípios de regiões metropolitanas em um grande município, e a transformação das Câmaras respectivas numa única Câmara. Vamos dar a nossa opinião pessoal, evidentemente, uma vez que esse é um assunto em que a confederação, até o momento, ainda não havia laborado a respeito. Não sabemos qual a realidade concreta da região metropolitana da Grande Curitiba. Como sou do Estado de São Paulo, vou-me basear um pouco no que conhecemos da nossa realidade. Mirando-nos no exemplo paulista, diríamos que essa proposta, aparentemente, se nos apresenta como algo que não viria, de certa forma, resolver os problemas políticos, administrativos, econômicos e sociais das regiões metropolitanas, porque iríamos estar incorrendo em um processo, digamos, de gigantismo, afastando ainda mais o poder decisório do cidadão. A região compreendida como área metropolitana de São Paulo, incluindo a capital, tem uma população de 22 milhões de habitantes, distribuída em 37 municípios. Então, no caso de São Paulo, se transformássemos aquilo tudo num grande município, acho que esta ríamos dificultando, concretamente, a solução dos problemas enfrentados pelos municípios que hoje compõem aquela região metropolitana. Vão existir dificuldades político-administrativas, porque dificilmente conseguiríamos desmobilizar a administração municipal desses 37 municípios. Os seus prefeitos e vereadores, toda a estrutura administrativa ali já estabelecida. Além do mais, os problemas dessas regiões são decorrentes, na verdade, do excesso de concentração populacional e da de poderes, especialmente em mãos do Executivo, fruto de toda política concentradora, excludente e exclusivista que vem sendo desenvolvida no País ao longo, especificamente, dos 21 anos que caracterizaram os governos militares. Então, entendemos que a solução, digamos assim, dos problemas municipais que enfrenta o povo brasileiro, deve passar não por um movimento de concentração ainda maior mas de descentralização política, administrativa e econômicofinanceira. É preciso que cada unidade municipal seja dimensionada a partir de todo um trabalho de reforma urbana que possibilite devolver a cidade para o homem, ou seja, que realmente a urbe seja o local onde o homem possa satisfazer suas necessidades básicas e viver feliz. Para tanto, Sr. Presidente, entendemos que, na erdade, há necessidade de um processo de escentralização. Assim sendo, a proposta apresentada pelo ilustre e digno prefeito de Curitiba se nos apresenta, sob o ponto de vista de solução dos problemas enfrentados hoje pelos municípios brasileiros, especialmente aqueles que compõem as chamadas regiões metropolitanas, inadequada, insuficiente e inoportuna. Entendemos – esta é nossa posição – que a proposta não deve ser considerada como proposição a ser apresentada, aqui. Esta é uma posição majoritária, salvo melhor juízo por parte dos Srs. Constituintes, membros da Subcomissão dos Municípios e Regiões. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Presidente da UVB, Vereador Paulo Silas, quer acrescentar informações e firmar posição a respeito da questão da Câmara de Vereadores Metropolitana. E a presidência passa a palavra a S. S.ª O SR. PAULO SILAS: – Eu diria, quanto à proposta da UVB: que se crie uma Câmara Metropolitana; existem as normais, com um representante de cada Câmara, para deliberar e legislar sobre problemas comuns da região, que não é problema de um município. No caso dos transportes coletivos, por exemplo, quando se toma uma decisão, como se diz em São Paulo, para pior, ela afeta os 37 municípios. Então a Câmara Metropolitana deliberaria como resolver a questão do transporte coletivo, do zoneamento, da lei dos mananciais. Assim, teríamos um órgão que, evidentemente, estaria legislando sobre a questão metropolitana, e não uma Câmara exclusiva para toda a região, porque aí teríamos 100 vereadores e só uma Assembléia Legislativa metropolitana. Encerrando, rapidamente, gostaria de falar sobre o assunto que o Sr. Gigante questionou, a questão tributária. Por exemplo, os municípios estão endividados hoje porque na sua maioria os prefeitos fazem desapropriações absurdas. E a folha de pagamento dos municípios não tem um critério. Existem prefeituras que gastam 80% de sua arrecadação com o funcionalismo, e a Câmara não pode opinar sobre a questão. Se a Câmara de Vereadores pudesse legislar sobre essa matéria, hoje talvez tivéssemos disciplinamento no sentido de que o município poderia gastar até no máximo de 50% da sua arrecadação com a folha de pagamento, e o restante sobraria para manutenção e investimentos. E a própria Câmara Municipal, com os parcos recursos existentes hoje nos municípios, deveria fazer o orçamento local, porque ela é a caixa de ressonância das associações de bairros, para resolver os problemas de onde se vai asfaltar, ou construir escolas e postos de saúde. Tudo isso está hoje concentrado nas mãos do Executivo. Eram só essas as informações complementares que gostaria de prestar a V. Ex.ª O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência registra a presença da Dr.ª Creusa Spínola, assistente do Deputado Ivo Cersósimo, para assuntos constitucionais. A presidência vai conceder a palavra à Vereadora de Porto Alegre, Sr.ª Jussara Rosa Cony para, de maneira sucinta, apresentar e encaminhar à Mesa as propostas oficiais da União dos Vereadores do Brasil. A Sr.ª Vereadora falará na condição de Secretário-Geral da União dos Vereadores do Brasil. E fala neste instante, porque teve um pequeno atraso no vôo de Porto Alegre para Brasília. A SRA. JUSSARA ROSA CONY: – Sr. Presidente dos trabalhos, demais componentes da Mesa, Vereador Paulo Silas, colega Presidente da Avemig, Alberto Gigante, Sr.ª Ana, Vereador João Bosco, da Conam, Srs. Constituintes e demais presentes, a sistematização das propostas oficiais da União dos Vereadores do Brasil que vamos encaminhar neste momento é o resultado de várias participações da UVB, não apenas em encontros nacionais e re- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) gionais mas, principalmente do entrosamento que a entidade tem com a sociedade organizada, através de encontros comuns com as associações comunitárias, a nível de entidades estaduais, municipais e fundamentalmente a Conam, dentro dos movimentos sindicais, através das centrais sindicais, dos movimentos de mulheres diretamente ligados ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, de movimentos populares, de partidos políticos e também através da participação de diversas Câmaras Municipais de todo o País que instituíram, por uma proposta da União dos Vereadores do Brasil, as comissões especiais pró-Constituinte. Esta é uma sistematização que passou não apenas pela diretoria da UVB, ela teve a amplitude necessária no processo em curso, de conquista da democracia do País. Ela abrange a questão da constituição dos poderes, o papel das Forças Armadas, a soberania nacional, o problema da terra ligado às questões agrária e urbana, os direitos e liberdades dos cidadãos, políticos e sociais, e a questões municipalistas que aqui estão sendo discutidas. Entendendo, em relação às questões municipalistas ou Poder Legislativo, instância mais próxima de participação do cidadão, a necessidade da sua inserção e do seu compromisso no processo em curso, de conquista da democracia; entendem que relacionada com tudo isto está a necessidade da participação do Poder Legislativo unido com a sociedade organizada, no sentido de aprofundar es sas propostas. Devemos passar por uma reforma política, onde as prerrogativas que nos foram retiradas pelo regime de exceção sejam retomadas; por uma reforma tributária a fim de devolver aos municípios aquilo que lhe é de direito; e por uma reforma adminis trativa em respeito aos municípios, sempre voltada para a inserção técnica e política dos funcionários públicos, dos servidores, no processo de colocar o Poder Executivo a serviço dos interesses da comunidade. Nesse sentido; fundamental para o processo de democratização e descentralização do poder em direção aos municípios, e no entendera da UVB, decisivos na conquista da sociedade democrática, há que se garantir a solução de uma série de questões já discutidas e elencadas na proposta oficial da União dos Vereadores do Brasil. Ao finalizar, entendemos – e esta; é uma posição também oficial da UVB – que o processo que ocorre no País, de participação efetiva, nas Comissões Técnicas da Assembléia Nacional Constituinte, da sociedade organizada, é decisivo para conquistarmos liberdade, a democracia e a independência da Nação brasileira. Conclamamos nesse sentido os Srs. Constituintes. Temos o entendimento de que esse movimento não termina aqui e agora. A UVB estará junto à sociedade nesse processo de colheita das trinta mil assinaturas para as emendas, de propostas populares, à Assembléia Nacional Constituinte. Agradecemos a oportunidade e estamos aqui representados pelo nosso Presidente, o Vereador Paulo Silas. O SR. PRESIDENTE (Mauro Miranda): – Com a palavra o Constituinte Lavoisier Maia. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Sr. Presidente, Srs. Constituintes, ouvimos com atenção as exposições dos que hoje se fazem presentes a esta sessão. Quero fazer, não questionamentos, dar minha opinião tendo em vista já haver passado pela experiência de um processo administrativo em um Estado pequeno e ter alguma prática a respeito. Temos a responsabilidade de elaborar a nova Carta Magna para o Brasil, e nesta Subcomissão dos Municípios e Regiões, nordestino que sou, tenho-me posicionado fortemente em favor do Nordeste, que é uma região pobre, e em favor dos mais fracos. Vejam V. Ex.ªs que ontem estava cotado para Ministro da Fazenda um nordes- 60 tino e eu não sei por que razão, talvez por ser pobre, o patrão rico foi quem ganhou. Na verdade, posiciono-me fortemente em favor das regiões nordestinas, dos mais fracos, por conseguinte, do Norte, e também o nosso Relator que tem uma experiência muito grande como ex-Governador, o Constituinte Aloysio Chaves. Posiciono-me aqui pelo fortalecimento do municipalismo e do Poder Legislativo, e quero lembrar que a figura do vereador deve ser cada vez mais encarada com seriedade e respeito. Se sou Senador, se V. Ex.ª é Deputado Federal ou Deputado Estadual e tem imunidade, acho que o vereador brasileiro deve também ter sua imunidade parlamentar. Foi uma proposta que apresentei, e acho que todos devem pensar e meditar no sentido de aprovar a questão da imunidade do vereador, a fim de não acontecerem fatos lamentáveis como os citados pelo eminente Presidente da União dos Vereadores do Brasil, Vereador Paulo Silas. Acho também que o município deve ser fortalecido, e haverá, com certeza, a reforma tributária, porque hoje o município vive de pires na mão. Outra questão levantada aqui – a fixação do subsídio do vereador – compete às Câmaras Municipais, e são elas que vão arcar com o ônus. Ouvimos também as associações dos moradores abordar temas da maior importância que hoje nos preocupam muito: moradia, que é fundamental, que é um direito e lamentavelmente há as favelas não somente no Nordeste, mas até na Grande São Paulo, e também educação, saúde, segurança, lazer, e tudo isso deve ser considerado na Constituição que estamos elaborando. Esta é a minha posição, e daqui da Subcomissão e até no Plenário vou lutar pelo fortalecimento do municipalismo, pela volta das prerrogativas ao Poder Legislativo federal, estadual e municipal – para somente, assim, fortalecer a figura do vereador, para ele não ser uma simples manivela do prefeito – na maioria dos municípios o é, principalmente nos pequenos. Esta é a minha posição, repito, e fiquei muito satisfeito, porque hoje vimos, Sr. Presidente, a base da política brasileira: o vereador que deve ser cada vez mais ouvido, respeitado e prestigiado. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao nobre Constituinte Mello Reis. O SR. CONSTITUINTE MELLO REIS: – Sr. Presidente, Srs. Constituintes, Srs. Membros de instituições municipalistas, Associações de Vereadores e de Bairros aqui presentes, quero manifestar ao Presidente da União dos Vereadores uma preocupação em relação ao relacionamento Executivo e Legislativo, exatamente no momento em que uma expressiva maioria desta Casa pretende a implantação do sistema parlamenta rista de Governo no País, exatamente porque este tem mais maleabilidade, mais possibilidade de absorver os impactos, os traumas que a sociedade vive. Pergunto ao Presidente da União dos Vereadores se, talvez, não seria interessante meditarmos sobre a possibilidade de voltarmos ao antigo sistema de antes de 1946, onde tínhamos a figura do agente executivo municipal. O Prefeito seria esse agente executivo municipal escolhido pela Câmara dos Vereadores. Tivemos um período longo da nossa História, com prefeitos de administrações atuantes que foram assim escolhidos. Eram figuras do próprio Legislativo Municipal e este é pequeno. É fácil à comunidade identificar aquelas figuras que mais têm condições de exercer um mandato executivo. Na minha cidade, Juiz de Fora, onde fui Vereador e Prefeito, tivemos um prefeito 16 anos consecutivos, nesse sistema anterior, com grandes e memoráveis realizações para a comunidade, e escolhido pela Câmara Municipal de Vereadores daquela época. Então, é uma idéia que deixo no ar. Quero manifestar também ao Presidente da Associação dos Vereadores de Minas Gerais o 61 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) nosso posicionamento favorável a que a fixação do subsídio do vereador seja de exclusiva competência da Câmara Municipal, sem a interferência do Estado. Minas Gerais, por exemplo, é um Estado muito grande, e as avaliações que se fazem, na Capital, às vezes, não refletem com sensibilidade as aspirações dos munícipes. Assim, ninguém melhor do que a Câmara dos Vereadores – uma instituição vigiada, fiscalizada diuturnamente pela comunidade – para tomar a iniciativa e decidir relativamente à sua remuneração. Se fosse de outra forma, acho que nós, Deputados Federais, também teríamos de recorrer a uma instância superior para decidirmos quanto deveríamos ganhar. Porém não somos melhores nem mais capazes de que um vereador que está lá, junto da sua comunidade diuturnamente. Quero manifestar, também, com relação à política tributária a opinião de que não caminhamos nesta Assembléia Nacional Constituinte no sentido de adotar uma política tributária paternalista. Defendemos o fortalecimento do município, porque vivemos e participamos da política municipal, mas achamos que deve haver, de qualquer forma, uma contrapartida da comunidade. Não podemos aceitar, por exemplo, um fato que aconteceu num município do nosso Estado, onde o prefeito, para ter lá instalada uma grande indústria siderúrgica, abriu mão do Imposto Predial e Territorial Urbano e do Imposto Sobre Serviços de qualquer natureza, alegando que tinha dinheiro demais. Por que esse prefeito, ou essa municipalidade não criou, gerou ou conquistou alguma coisa nova? Acho que não podemos aceitar este tipo de paternalismo, que é contraproducente e deseduca o nosso contribuinte. Esta a contribuição que eu queria dar. Muito obrigado. O SR. PAULO SILAS: – Evidentemente, achamos que a idéia, em princípio, não foi debatida, mas nossa secretária a está anotando. Vamos ter um encontro, em Brasília, aqui mesmo no Senado, auditório Petrônio Portella, dias 16 e 17 de junho, onde definiremos o documento final dos vereadores, que já está sendo esboçado e discutido em todas as câmaras. Inclusive, levaremos esta proposta para ser debatida, mas quero expressar a minha opinião pessoal, porque até o próprio Taneredo Neves só foi prefeito de São João Del Rey porque era Presidente da Câmara dos Vereadores à época, quer dizer, isto não é tão antigo. Se uma pessoa é escolhida, para ocupar esse cargo, pode-se até criar o seguinte sistema: se ela não estiver correspondendo aos anseios da comunidade, a Câmara de Vereadores pode substituí-la, elegendo um novo elemento, anualmente, ou de dois em dois anos. Se o escolhido estiver correspondendo à confiança da comunidade, nada impede que possa prosseguir na administração, ou seja, anualmente terá um julgamento que avaliará como es tá aplicando a verba do município. Nossa preocupação, no que se refere entre Executivo e Legislativo, como dissemos, é defender a reforma tributária, porque é uma questão de honra que a fiscalização do orçamento seja feita pela população, que lá no municíp io tem mais condições de fazer isso. Hoje, os prefeitos tem uma saída clássica: quando uma associação de moradores reivindica qualquer coisa, diz: "não tenho verba". Então, existe até uma certa comodidade para ele ser prefeito. Não tem verba. A partir do momento em que passe a tê -la não poderá usar esse argumento habitual. Então, a comunidade vai começar a fiscalizar o orçamento. Se o orçamento de um município já é complicado de entender, imaginem o do Estado, da União. A comunidade terá de começar a organizar-se para entender o orçamento e fiscalizá-lo a sua aplicação. Assim, temos de descentralizar os poderes para que a população comece a participar e a fiscalizar a aplicação das verbas do erário. Gostaria de frisar que, na relação do Executivo com o Legislativo, se os constituintes não decidirem devolver a prerrogativa para os deputados federal, estadual e vereador, vamos continuar tocando na mesma panela: vereador vai continuar sendo cabo eleitoral de luxo. V. Ex. as passaram por uma eleição agora, e temos de ser claros. Poderia dizer até que, quando o camarada é mercenário, o vereador, valorizando-se, exige isto e aquilo do deputado, do prefeito. Foi a realidade que vimos no Brasil. E a única maneira de eliminar isto e ter elementos realmente representativos da comunidade é devolver a prerrogativa ao legislador, porque aí o deputado terá a prerrogativa de decidir pelos municípios, os deputados estaduais também terão essas prerrogativas e os vereadores terão as suas prerrogativas na comunidade. Aí haverá reciprocidade na relação dos vereadores; aí vamos fazer política realmente, e aqueles que trabalham não vão ter de ir lá lamuriar atrás de votos, o seu labor será reconhecido e terão sustentação. Nesse sentido, a decisão está aqui. Ou queremos ou não queremos continuar pleiteando cargos, pleiteando indicar o representante do ministério no nosso Estado. Começa, assim, no município, a relação Executivo/Legislativo. O prefeito ganha a eleição e emprega o tio, a avó, a sogra e o primo do vereador. Manda um projeto para a Câmara Municipal e diz para o vereador: "o projeto vai ser votado amanhã; se não tiver o seu voto aprovando, amanhã está todo mundo na rua". Com o deputado estadual é a mesma coisa. O governador vai lá e diz: "na secretaria tal você vai indicar o titular". "No dia em que pisar na bola", como se diz na gíria, "você vai perder a sua indicação". A nível de Brasília, não conheço o sistema, porque não vivo muito aqui, mas, pelo que a gente vê, está uma briga danada para indicar cargos para o Presidente ter a sua influência dentro do Congresso Nacional. Então, espero e confio, na certeza de que isto não vai acontecer. Ou damos um basta nisto, ou vamos continuar nesse sistema atual, e deixando a renda aqui em Brasília, para que o Presidente possa ter dinheiro na hora em que o Senador lá do Nordeste solicitar a sua ajuda. O Nordeste, para mim, agora, com o dinheiro que foi enviado para lá, já deveria estar numa condição muito melhor, não digo ideal. Mas nunca vai acabar a indústria da seca, a indústria não sei do quê, senão acaba a eleição. Está certo? Todo projeto de irrigação que se faz no Nordeste tem um começo... Estou falando porque estive no Estado do Rio Grande do Norte, fui a Caicó, a Pau dos Ferros, viajei 800 quilômetros, viajo por todo o Brasil e não vou só nas capitanias, viajo para o interior, e todo mundo fala isto: "olha, quando o Governo Federal destina uma verba para cá, chega 10 ou 20%. O resto, meu amigo, fica pelos aviões, pelos hotéis, pelas empresas, mas não chega aqui". Ou nós, do Poder Legislativo, assumimos esta fiscalização, para saber se foi destinada verba para a irrigação, e formamos uma comissão de parlamentares para visitar essas obras, para ver se o dinheiro do orçamento foi utilizado lá, ou, então, vamos continuar exatamente como agora: o vereador conseguindo emprego com o prefeito, o deputado estadual indicando o secretário e os deputados federais indicando o agente do INPS, do ministério tal, no seu Estado, para ter influência política, para quando o vereador pedir para internar alguém, o deputado federal dizer: "fala com o meu amigo fulano de tal, do INPS, indicado por mim, para que ele arranje uma vaga para você no hospital tal". Esse processo é que queremos acabar. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência consulta o 1º -Vice-Presidente desta Co- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) missão, Constituinte Mauro Miranda, para saber se quer fazer uso da sua inscrição. (Pausa.) S. Ex.ª dispensa sua inscrição. Passo a palavra ao último inscrito da lista, Constituinte Garrei Benevides. O SR. CONSTITUINTE CARREL BENEVIDES: – Vereador Paulo Silas, meu ex-colega, seu eleitor, por duas vezes, na Bahia, em Camboriú, meu colega Alberto Gigante e nosso colega João Bosco. Por dez anos, fui vereador em Manaus; respondi várias vezes pela Prefeitura dali, fui viceprefeito, como Presidente da Câmara, por tantas vezes, não podia deixar de vir aqui, embora esta não seja a minha comissão, porquanto, estou na Subcomissão de Orçamento e Fiscalização Financeira, exatamente por acreditar que as nossas brigas municipalistas vão desaguar no orçamento e na fiscalização financeira. Ouvi, com muita atenção, a exposição dos nossos colegas. Há anos estamos debatendo esse assunto, nos nossos encontros regionais e nacionais, e tenho a impressão de que, no momento atual, teremos de concentrar-nos em dois pontos primordiais. Primeiro, com relação à autonomia municipal. A autonomia municipal, via de regra, é colocada mais como uma autonomia e uma reforma tributária para o Executivo, quando tenho a impressão de que autonomia vem diretamente ligada ao Legislativo. Advogo uma distribuição mais benevolente de recursos aos prefeitos das capitais, a fim de que a Câmara, imediatamente, diante dessa redistribuição, possa colocar sua autonomia financeira dentro de uma participação em que o município possa arcar com as Câmaras. E volto para aquela nossa posição de que a Câmara não só organize seu orçamento, como deva ter a sua própria independência financeira. Acho que, com este ponto, não só criamos aquilo pelo qual sempre nos debatemos, dar ao Executivo sua autonomia financeira, com uma melhor redistribuição de renda, como também alcançamos a Câmara Municipal, desde que já venha incluído, na reforma tributária a autonomia municipal. Passaríamos não só a organizar o orçamento do prefeito – por tantos anos fomos obrigados a a certar aquelas mensagens a votá -las – como organizaríamos a mensagem do prefeito, passaríamos a fiscalizar, e nessa responsabilidade estaria implícita a comunidade. Esta teria de assumir sua responsabilidade. Vejo como ponto principal a imunidade, que é um caso completamente diferente. O direito à fixação do subsídio viria também imediatamente embutido na autonomia financeira das Câmaras Municipais. V. Ex.ª teria condições de, mesmo como advogado, sabendo se defender – e muitas câmaras não têm essa possibilidade – de fazer o seu orçamento, e elas não têm isso exatamente por não terem recursos para contratar profissionais para fazer esse serviço. Os atuais vereadores, no ano que vem, estarão em situações completamente diferentes, se devolvermos aos seus plenários a possibilidade de legislar sobre matéria tributária e financeira. E se não fizerem isso direito, dentro de dois anos serão substituídos, por que há uma possibilidade também para a qual a Câmara Municipal tem de se preparar. Nós escutamos aqui, pelos corredores, a possibilidade de o Brasil mudar o seu regime político e de vir a ser adotado o parlamentarismo. Como ficariam as Câmaras Municipais? Como ficariam os Estados? Então, nós temos de, dentro da autonomia municipal, recolocar essas posições. E viriam naturalmente, como conseqüência, o voto distrital e o parlamentarismo. Como vai ficar o vereador? Como vai ficar o Estado? O Estado terá também seu Primeiro-Ministro. Estamos acompanhando nos corredores, nos plenários, que seria dado a cada Estado, na reforma da Constituição, a responsabilidade de criar também o PrimeiroMinistro Estadual. E as Câmaras? Então, nós precisaria- 62 mos também, na nossa autonomia ter a possibilidade de fazermos a nossa Lei Orgânica, de adaptarmos o nosso Regimento Inteno à nova realidade. Uma vez devolvida às Câmaras Municipais a função de legislar sobre matéria tributária e financeira, o Regimento Interno de cada uma das Câmaras estaria inteiramente defasado. O que realmente fiz é o que todos temos feito, cobrado da nossa comunidade, da sociedade, uma responsabilidade, que nunca nos foi dada. Por 10 anos fiquei a dar nome de ruas, mas com muito orgulho participei de todos os movimentos da minha cidade. Participei da criação de ISS, e o aprovei como último ato de minha última presidência da Câmara Municipal de Manaus. Embora eu não esteja nesta Subcomissão estarei em plenário com a convicção de um ex-vereador: advogo, como sempre advoguei, não só a autonomia como nova ordem tributária para as prefeituras, se realmente é uma luta de prefeitos e de vereadores. A Câmara Municipal precisa ter a sua autonomia financeira para que não caia nas exposições que o nosso Presidente está fazendo, aquele vinculo permanente empregatício entre o vereador e o prefeito. Na medida em que o vereador pode administrar, pode ter os seus assessores. Muitas vezes, um parente de um vereador que é levado a uma secretaria passa a pecar por ser o parente do vereador. Às vezes, é um homem Inteiramente qualificado e preparado para exercer o cargo, e fica sempre aquele vínculo de pressão sobre a Câmara Municipal. Tenho a impressão, naturalmente com a insignificância das minhas experiências, de que nós tínhamos de, dentro dessa reforma tributária, embutir a autonomia das Câmaras Municipais. Assim passaríamos a assumir o destino da nossa Casa, do nosso orçamento. Teríamos a responsabilidade de fiscalizar e de cobrar o orçamento que vamos fazer e votar; de distribuir a renda da prefeitura, de assegurar a imunidade do vereador, para as medidas que ele vai no futuro tomar, e o parlamentarismo seria a autonomia extra-constitucional das Câmaras Municipais para organizar sua Lei Orgânica, como ele está sendo assegurado ao Estado. A primeira proposta é no sentido de que os Estados que quiserem aceitar parlamentarismo terão o seu Primeiro-Ministro indicado pelas Assembléias Legislativas, e que a Câmara Municipal naturalmente deve ter autonomia, a independência de organizar a sua Lei Orgânica onde preveja municípios, como na região do nosso Presidente numa área inteiramente metropolitana. Quem sabe, ali, não poderia surgir a figura de um Primeiro-Ministro que representasse toda aquela área metropolitana, que pudesse discutir, com apoio e respaldo do plenário tudo o que fosse de interesse daquela comunidade? Acreditamos nessa transformação, nós, que participamos, efetivamente, por 10 anos dessa transformação política e social, que fizemos política na Oposição. Ao lado do meu querido colega, Deputado José Cardoso Dutra, participamos da grande arrancada de 82, vencendo eleições no Estado pela segunda vez. Tenho a impressão de que eram estes os três pontos fundamentais: a autonomia municipal, o amparo à Câmara Municipal e a prerrogativa de fixar o subsídio dos vereadores, direito que viria implícito. Advogo nessas medidas também a idéia de que o vereador deve assumir a responsabilidade de tributar o seu subsídio. Ele sabe, dentro daquilo que vai receber, que tem "x" por ano, e, que não pode gastar acima disso. Nós, que fazemos folha de pagamento, sabemos que o vereador figura na rubrica do pessoal, junto até com os inativos em algumas Câmaras. Isso onera, muitas vezes, a folha de pagamento. Muitos não sabem o quanto o inativo onera a folha de pagamento; no geral, muitas vezes, 20, 30% são de inativos. Naturalmente, com o voto distrital, o vereador seria um representante daquela comunidade, e dentro do parlamentarismo tem -se acesso fácil para se comunicar com o público, explicar e defender suas idéias. 63 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) É um prazer revê-lo, meu querido Presidente. Sinto a emoção do velho vereador de estar junto com vereadores. Tenho certeza, Paulo Silas, de que V. Ex.ª tem conduzido a sua reeleição na UVB – eu estava presente em Camboriú – que foi fruto da responsabilidade que todos nós temos com V. Ex.ª inclusive, na ocasião, eu era o Presidente da União dos Vereadores do Amazonas. Criei, com o seu apoio, aquela instituição no Norte do Brasil e fui apoiado e eleito por vereadores, fui votado em todos os municípios do Amazonas, foi uma responsabilidade que o vereador do Amazonas teve. Hoje já estou devolvendo essa confiança em resultados, principalmente às minhas áreas. Os vereadores do Amazonas estão com uma cnosciência muito lúcida. Nós estamos lá, no Alto Solimões, no Alto Juruá, com uma briga séria. Querem transformar aquele pedaço mais esquecilo, mais longíquo em território federal em algo mais representativo. Essa idéia está tendo muita receptividade entre os companheiros Constituintes. A luta, hoje, do vereador não é só pela sua autonomia embutida dentro da nova Constituição. Estão querendo organizar-se em comunidades, principalmente num Estado grande como o Amazonas, e saírem para o primeiro estágio, como território, assumindo as suas responsabilidades, o seu destino. Embora tenha sido o meu berço eleitoral, estou concordando com essa idéia, para que eles possam, daí para a frente, ser gestores do seu próprio destino. É um prazer revê-lo. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Antes de encerrar os trabalho, a Presidência vai conceder a palavra solicitada pelo Vereador Alberto Gigante, para acrescentar informações ao seu pronunciamento. O SR. ALBERTO GIGANTE: – Sr. Presidente e demais Constituintes, unicamente para agradecer a possibilidade de nossa participação neste debate e reafirmar algumas coisas que aqui foram colocadas. Eu sistematizaria tudo no direito de o município poder elaborar a sua Constituição, logicamente respeitando os parâmetros colocados pela Lei Maior, a nível federal e a nível estadual, dando, porém, ao município o direito de poder passar esse momento rico que estamos vivendo, agora, que é esse levantar de problemas, de dúvidas, enfim, essa discussão geral sobre a elaboração de uma Constituição. Alegrou-me ouvir os Constituintes defenderem a autonomia municipal. Se for dado realmente ao município esse direito de elaborar a sua Constituição, de viver esse processo a nível municipal, participando, com as organizações populares, da elaboração de uma lei que estruture a nossa vida municipal, acredito que teremos cumprido o nosso papel mais importante, no que diz respeito ao trabalho desta Subcomissão, que é de Municípios e Regiões. Com respeito à reivindicação que o nosso companheiro Carrel Benevides também defendeu, de autonomia administrativa e financeira das Câmaras, gostaria de dizer que trouxemos um trabalho muito bem elaborado pela Câmara Municipal de Sete Lagoas que defende especificamente, esta questão. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra, pela ordem, ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, falou-se muito na autonomia municipal, mas não a concebo sem a autonom ia financeira. Perece-me que esse problema é o mais angustiante dos municípios, bem como dos Estados e da própria União. Gostaria, em função disso, de fazer uma sugestão aos eminentes expositores, no sentido de se deterem nesse problema grave, porque, hoje, existem na Subcomissão de Tributos, Participação e Distribuição das Receitas, duas propostas antagônicas sobre reforma tributária: uma, elaborada pela Secretaria de Planejamento; outra, elaborada pela FIESP, se não me falha a memória. Em. função desse antagonismo, reunimos, na sexta-feira e no sábado, em Manaus, todos os Secretários da Fazenda, do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com o objetivo de ajustar essa proposta formulada pelo Dr. Fernando Mendes, salvo engano, a uma proposta única, que refletis-se o consenso de todos os Estados daquelas regiões. Então, gostaria de sugerir à União dos Vereadores e às demais entidades vinculadas ao problema, que se detivessem no estudo dessa proposta, que saiu de Manaus, a fiem de que, quando dos debates no plenário da Assembléia Nacional Constituinte, os vereadores dessas três regiões pudessem influir, com o seu poder de pressão, para que fosse aprovada essa proposta, que beneficia, fundamentalmente, os Estados e municípios. Isso me parece muito importante para quem quer, realmente, ter uma autonomia municipal, porque, para se atingir esse patamar, obviamente, temos de atingir um patamar anterior, que é o da autonomia financeira para os Estados e municípios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Terminando, a Presidência informa às entidades aqui presentes, que a reunião foi inteiramente gravada, para que a integra dos pronunciamentos faça parte dos Anais da Assembléia Nacional Constituinte. Agradecemos ao Vereador Paulo Silas e aos Vereadores Alberto Gigante e Jussara Rosa Cony, que representaram, aqui, a UVB, União dos Vereadores do Brasil. Agradecemos também à Confederação Nacional das Associações dos Moradores, através do seu Presidente, Vereador João Bosco da Silva, da Sr.ª Ana Maria Martins Soares e do Sr. Elgito Boaventura, lembrando que trouxeram, a esta Subcomissão, assunto da maior importância do Brasil de hoje, que diz respeito à moradia dos brasileiros. Nada mais havendo a tratar, vou encerrar os trabalhos da presente reunião, convocando outra para, hoje, às 17 horas. (Está encerrada a sessão.) 7ª REUNIÃO ORDINÁRIA Aos vinte e nove dias do mês de abril de mil novecentos e oitenta e sete, às dez horas e quinze minutos, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na Sala B-3, do Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, com a presença dos Srs. Membros: Aloysio Chaves, Relator, Eraldo Trindade, Alexandre Puzyna, Edésio Frias, Eliézer Moreira, Lavoisier Maia Buaiz, Geraldo Melo, José Dutra, José Maranhão, Waldeck Ornellas, Mello Reis, Ivo Cersósimo, Luiz Freire, Raul Ferraz, José Fernandes e Firmo de Castro. ATA: Depois de lida e submetida a discussão, foi aprovada a Ata da reunião anterior. O Sr. Presidente comunicou que a reunião se destinava à realização de um Painel sobre o tema "Disparidades Municipais", convidando para comporem a Mesa os Srs.: Dr. Paulo Lopo Saraiva, do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais; Prefeito Floriano Maia Viga, de Presidente Figueiredo, Amazonas, da Associação dos Municípios do Amazonas; Prefeito José de Ribamar Fiquene, de Imperatriz, Maranhão, Presidente da Federação das Associações de Municípios do Maranhão, e o Prefeito Manoel Mota, de Araranguá, Presidente da Associação dos Municípios de Santa Catarina. Dando início aos trabalhos, o Sr. Presidente lembrou que cada expositor dispunha de vinte minutos para sua tese, dando a palavra ao Dr. Paulo Lopo Saraiva, o qual disse trazer uma proposta inédita: o Federalismo Regional, de autoria de Paulo Bonavides lembrando que grande número de constitucionalistas defendem, hoje, a Região como pólo político e outros vão além, defendendo uma Constituição regionalista. Os demais expositores, Floriano Maia Viga, José de Ribamar Fiquene e Manoel Mota enfatizaram, em suas exposições os problemas inerentes às suas regiões, após o que o Sr. Presidente informou que o prazo para os debates era de uma hora e DÍARIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) quinze minutos. O Sr. Raul Ferraz propôs que, numa primeira fase, os constituintes fizessem todas as interpelações e os expositores respondessem, ao fim, globalmente. O Sr. Presidente, apreciando a proposta, disse preferir fosse mantido o mesmo esquema adotado anteriormente, para um melhor ordenamento dos trabalhos. Participaram dos debates os Srs. Aloysio Chaves, Waldeck OrnelIas, Raul Ferraz, Edésio Frias, José Dutra, Eliézer Moreira, Eraldo Trindade e Lavoisier Maia, que encaminhou à Mesa uma proposta, da qual deverá ser enviada cópia aos demais Membros da Subcomissão. A seguir, o Sr. Presidente convocou uma reunião para as dezessete horas, para a elaboração da agenda da próxima semana. Usando a palavra, pela ordem, o Sr. José Dutra, solicitou fosse alterado o horário da reunião, tendo em vista estar impedido de comparecer à mesma em decorrência de compromisso com as Bancadas do Norte e Nordeste para aquele horário. Submetido o assunto à discussão, o Sr. Edésio Frias propôs, após encerrada a audiência pública, fosse realizada reunião interna para o estabelecimento do calendário dos trabalhos, o que foi aprovado. Agradecendo a presença dos Srs. Conferencistas, o Sr. Presidente encerrou a reunião às treze horas e cinco minutos, convocando outra para as treze horas e quinze minutos. A presente reunião foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, depois de lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Esta é a audiência pública da Subcomissão de Municípios e Regiões para tomada de depoimentos e contribuições. Solicito à Sra. Secretária que proceda à leitura da ata da reunião anterior. (É lida e aprovada a ata da reunião anterior.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A pauta para a nossa reunião de hoje estipula o painel Disparidades Municipais. Foram convidados para e xpor seus pontos de vista o Sr. Paulo Lobo Saraiva, representante do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais, que a Presidência convoca para tomar lugar à Mesa, Prefeito Floriano Maia Viga, de Presidente Figueiredo, e VicePresidente da Associação dos Municípios do Estado do Amazonas, que a Presidência convoca para tomar lugar à Mesa; Prefeito José Ribamar Fiquene de Imperatriz, Presidente da Federação das Associações de Municípios do Maranhão que a Presidência convoca para tomar assento à Mesa; e o último expositor, que será o Prefeito Manoel Mota, de Araranguá, que a Presidência solicita continue no plenário e, posteriormente, no momento da exposição, tomará seu lugar à. Mesa, num sistema de rodízio. Havendo lugar convido também o Sr. Prefeito de Araranguá a tomar assento à Mesa. Vamos dar início ao nosso painel, Iembrando aos senhores expositores que dispõem de vinte minutos para apresentar o tema. A Presidência vai conceder, inicialmente, a palavra ao primeiro expositor, Dr. Paulo Lobo Saraiva, representante do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais. O SR. PAULO LOPO SARAIVA: – Sr. Presidente da Subcomissão de Municípios e Regiões, Sr. Relator, Srs. Constituintes, minhas Senhoras, meus Senhores. O Instituto Brasileiro de Direito Constitucional, presidido pelo Prof. Paulo Bonavides, com sede em São Paulo, participa hoje dos debates da Constituinte, trazendo a contribuição, sem dúvida alguma, inédito com referência ao assunto Regiões. Realmente, não vamos aqui falar de disparidades municipais. Vamos trazer tese acerca do regionalismo brasileiro e uma proposta aprovada pelo Instituto Brasileiro de Direito Constitucional, que já foi objeto de dis - 64 sertações de mestrado e de teses de doutorado. A proposta do Instituto Brasileiro de Direito Constitucional sobre o federalismo das regiões é, como disse, uma proposta inovadora, porque não apenas apresenta a idéia de que a região deve ser um pólo de poder, deve ser uma sede políticoadministrativa, como ainda propõe a estrutura desse novo poder. Traz uma contribuição que apresenta como funcionará o federalismo regional, desde que os constituintes brasileiros o aceitem ou adotem como medida político-administrativa. Para falar em federalismo regional há necessidade de relembrar o problema da desconcentração do poder, da descentralização do poder, sob o ponto de vista administrativo e da descentralização do poder sob o ponto de vista políticoadministrativo. Sabemos que o poder político ou administrativo pode ser desconcentrado e pode ser descentralizado. Pode ser desconcentrado quando se apresenta o mecanismo da longa manus, quando determinado ato administrativo deve ser feito no lugar, e poderá ser desconcentrado para outro. É caso, por exemplo, no Brasil, da declaração do Imposto de Renda. Todos os contribuintes deveriam apresentá -lo ao Ministério da Fazenda. Mas o Ministério, através de ato administrativo, desconcentra essa atitude e permite que as pessoas apresentem a declaração nos respectivos locais de trabalho. É o que chamamos, em Direito Constitucional, de longa manus. De repente essa longa manus pode acabar com essa desconcentração. Avança-se para a descentralização administrativa e, na descentralização puramente administrativa, são criadas pessoas jurídicas, como é o caso das autarquias, das empresas públicas e de economia mista. Avança-se ainda mais para a descentralização político-administrativa e, aí, temos, não apenas a pessoa jurídica no campo puramente administrativo, mas, também, a pessoa política. Este é exatamente o caso do federalismo, o caso da forma de Estado plural, que é a forma federativa. Sabemos também que, para falar em federalismo, temos que recapitular as três formas de Estado que encontramos na história política do mundo. A forma unitária, onde há um só núcleo de poder, um núcleo políticoadministrativo e um núcleo legislativo. E, como exemplo desta forma unitária, que é mais antiga, podemos citar O Estado português, pois em Portugal só há uma Assembléia, a Assembléia da República, não há Senado. As leis portuguesas são feitas em Lisboa, onde está a sede do poder constituído. O poder administrativo também é dirigido a partir do poder central, que é aquele que está na sede. A forma federativa de Estado, que é uma forma plural, adotada de modo sistemático nos Estados Unidos da América, através de um processo sociológico-político, redundou em duas fases: a fase confedrativa e a fase federativa. Proclamada a independência dos Estados Unidos, só depois de onze anos é que foi promulgada a Constituição americana. Se quiséssemos falar em termos de constituinte, poderíamos dizer que a constituinte americana duro onze anos. Decorreram onze anos, até que os americanos chegassem ao instituto da federação, bem diferente da nossa, feita através de um decreto, o Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889. Tivemos federação por decreto, tivemos presidencialismo por decreto e tivemos república por decreto. É por isso que quase cem anos depois, ainda discutimos a federação, discutimos a república e discutimos se é melhor presidencialismo ou parlamentarismo. Porque os brasileiros, lamentavelmente, não passaram por um processo político-sociológico, mas apenas receberam, através da via legal, a república, a federação e o presidencialismo. Aliás, temos um tabu legalista muito grande. Quase tudo nos vem através da lei. Também nos veio, através da lei, a universidade. Por isso a universidade, até hoje, não deu certo no Brasil. Temos, depois da forma federativa, que é uma forma plural, onde portanto, há duas sedes de poder constituinte, o poder constituinte na área federal, que é 65 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE (Suplemento) esse que está sendo exercitado aqui agora, e há o poder constituinte na área estadual, que é o poder remanescente, derivado das assembléias legislativas que vão adaptar as Constituições estaduais à nova Constituição federal. E temos uma forma de Estado que existe no mundo, mas lamentavelmente, não é es tudada no Brasil. Sem dúvida alguma, os compêndios de Direito Constitucional e de Ciência Política quase não se referem, ou pouco o fazem, ao Estado regional. Sabemos que a vocação geográfica do Brasil é regionalista. Basta olhar o mapa do Brasil para constar que ele é um país de países, são cinco países num só. As regiões geoeconômicas brasileiras são bem diferenciadas seja na estrutura geográfica, seja na cultura. São diferenciadas no falar, no pensar, em toda a problemática que nelas existe. Nós nunca atentamos para estudar, com profundidade, o federalismo regional. Há dois Estados no mundo que são considerados Estados regionais. O primeiro é a Espanha. Lá não há só problemas regionais, há também problemas nacionais. Estivemos na região dos bascos, que não constituem apenas uma região, mas uma nação. Por isso é que não aceitam a descentralização administrativa dos espanhóis. E há o Estado tipicamente regional, no mundo hodierno, que é a Itália. É um Estado que, através da sua Constituição, a de 1947, tem como tônica a região. As regiões não apenas têm poder, têm governo, com Legislativo, com estatuto, e Poder Executivo próprios, como também participam da estrutura e do proceeso político italiano, da eleição do Presidente da República e do Senado, que é eleito a partir das regiões. O modelo italiano não pode ser, evidentemente, transportado para o Brasil. Temos o mal de copiar as coisas que, às vezes, não se adaptam à nossa realidade. Copiamos o federalismo, trouxê-mo-lo por lei, fizê-mo-lo pela via legal, quando deveríamos tê-lo feito pela via consensual, pela via do processo sociológico, como ocorreu nos Estados Unidos. Por isso, nosso federalismo, como disse. ainda hoje está sendo discutido. Seria interessante recapitularmos um pouco a evolução do federalis mo brasileiro. Como é que o federalismo no Brasil evoluiu e chegou até os dias de hoje? Sabemos que, na época do Império, vigorava no País a forma unitária do poder. O Brasil era constituído de províncias, que eram dirigidas, governadas pelos delegados do imperador. Com a proclamação da República, a partir da Constituição de 1891 e, sobretudo, através de um decreto constituinte, o Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889, o Brasil adotou a forma federativa de Estado, o sistema presidencialista de governo e a forma republicana de governo. Por isso digo – e quero frisar bem: nossa federação, nossa república e o nosso presidencialismo foram todos feitos pela via legal. Por isso é que até hoje, decorridos cem anos, ainda discutimos se é melhor o presidencialis mo ou o parlamentarismo. O federalismo inicial da República foi considerado como dual. Tentamos imitar os Estados Unidos, no sentido de estabelecer uma diferença entre a soberania da União e a autonomia dos Estados federados. Esse federalismo, evidentemente, não deu certo. Vigorou na Velha República, ou Velhíssima República, se a podemos chamar assim. Depois, surgiu, sobretudo com a Constituição de 1934 e com a de 1946, o chamado federalismo cooperativo. Algumas regiões do País, como é o caso do Nordes te, exigiram a criação de órgãos para o seu desenvolvimento, começando pelo IFOCS, na época do President Epitácio Pessoa, o Instituto Federal de Obras Contra as Secas; depois, com o DNOCS, que foi a solução hidráulica para o Nordeste, a solução dos açudes, quando o Nordeste ficou cheio deles; depois surgiu a solução elétrica, com a Chesf; depois a solução financeira com o BNB; depois a solução orgânica, a Sudene, todas no sentido de atender a conjunturas. Daí, alguns constitucionalistas classificarem esse tipo de federalismo de cooperativo. Com o movimento de março de 1964, surgiu um novo tipo de federalismo no Brasil, foi cognominado pelos tecnoburocratas do governo militar de integrativo. Não bastava agora criar órgãos para a cooperação direta da U nião, mas era necessário que os Estados compatibilizassem seus planos regionais de governo com o plano geral da Nação. Então, surgiram os famosos PND, que exigiam das regiões, dos municípios, enfim, dos governos estaduais e locais, a compatibilização dos s eus projetos e programas com o plano geral, a fim de que fosse possível serem alotados os recursos. Esse federalismo, lamentavelmente, tanto o dual, da República Velha, quanto o federalismo cooperativo das Constituições de 1934 e 1946, e mesmo o federalismo integrativo, não deram certo. Por conseguinte, existe, no Brasil, uma realidade que, já disse, é uma realidade geográfica, que exige que o poder político-administrativo seja sediado nesta realidade. E essa realidade é a região. Todos nós somos regionais. Se formos hoje rebuscar a literatura sobre o federalismo brasileiro, vamos encontrar que todos os constitucionalistas do Brasil defendem hoje a região como pólo de poder político, porque a região já é pólo geoeconômico, porque já há muitos poderes sediados na região. E há constitucionalistas que vão mais além, que defendem uma Constituinte regional. Isso para que o poder fique mais perto do povo. O grande problema do Brasil – e todos os senhores são acordes nesta assertiva – é o problema da descentralização. O que se reclama é que o poder de vez em quando, ou de quando em vez, é centralizado. E realmente temos períodos de sístoles e diástoles. Há cientistas políticos que dizem que são vinte anos de abertura e vinte anos de fechamento. Se formos examinar a existência e o desempenho do Poder Executivo no Brasil, vamos encontrar exatamente esses perfodos abertos e fechados. Basta ver o Getulismo, o Estado Novo e, depois, o regime dos militares. Quando há o período fechado, as presas mais fáceis são os Estados -Membros e os municípios. Tivemos, na época dos militares, mutatis mutandis, uma relembrança da época dos capitães-mores. Os militares designaram os governadores dos Estados. Isso faz com que se desestruture a Federação, se é que ela existe como tal, se é que é uma federação de Estados. Tivemos aqui uma proposta de federação dos municípios. Li com muita atenção essa proposta. Por isso mesmo a federação dos Estados, que é feita por lei, nunca deu certo. Não foi feita pelo consenso do povo, não passou por um processo sociológico de maturação e consciência política. É por isso que nossa Federação não propende mais para os Estados. Embora os Estados não sejam extintos, permaneçam como componentes da região, nossa Federação propende para a região. A região é o objetivo último da evolução do federalismo brasileiro. Quando falamos em federalismo regional, à primeira vista, parece ser uma idéia separatista. Já fomos muito questionados acerca do separatismo, e perguntam: será que o Instituto Brasileiro de Direito Constitucional quer criar vice-reinados no Brasil? Será que quer criar mais um nível de governo? Será que quer burocratizar ainda mais a vida público-administrativa do Brasil? E respondemos com muita naturalidade: não queremos absolutamente criar nível algum de governo. Queremos somente que o governo esteja sediado onde, por vocação natural, deve estar, que é na região. Fizemos um levantamento acerca dos gastos, de despesas com diárias e passagens de executivos públicos, de executivos privados, e notamos que 60% da verba orçamentária destinada a essa rubrica são gastos com despesas de executivos que vêm a Brasília resolver problemas administrativos que poderiam ser resolvidos na sede da região. Ainda ontem, lemos um artigo da lavra do Governador do Amazonas, que está aqui conosco, em que ele reclama da concentração do poder no Brasil, e exige uma nova forma, uma nova maneira de desconcentrar esse po- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (SUPLEMENTO) der. Temos aqui também documentos relacionados com as regiões metropolitanas, assunto já debatido e discutido nesta subcomissão. Todos aqueles que estudam o problema da região metropolitana também defendem a descentralização político-administrativa do poder. Não falamos, é bem de ver isso, apenas na descentralização administrativa. Esta existe hoje no mundo até nos países que adotam a forma unitária, como é o caso de Portugal e Espanha. Portugal permitiu uma autonomização da Ilha da Madeira, da Ilha dos Açores. Hoje, nestas ilhas, há o conselho regional, a assembléia regional que legisla, que edita atos normativos, regimentais, regulamentares e estatutários. Para o Brasil, o Instituto Brasileiro de Direito Constitucional defende uma nova forma políticoadministrativa; que a região seja pólo de poder político e de poder administrativo, a fim de que não se repitam, como estão se repetindo, fatos de todo desagradáveis. Os senhores, que estão elaborando a nova Constituição brasileira e que acompanham cotidianamente a dinâmica política do Brasil, sabem perfeitamente das reuniões que os governadores do Norte fizeram a fim de buscar mais descentralização de poder; sabem da reunião que a bancada do nordeste fez, uma bancada de cento e cinqüenta e um deputados e vinte e oito senadores, que foi ao Presidente da República colocar o problema das regiões; e sabem do grande movimento, não apenas do poder local, dos municípios, até, diria, dos distritos, das entidades locais; finalmente das associações populares; sabem de todos esses movimentos e que de nada adianta tomarem -se soluções epidérmicas, transitórias, passageiras. A Constituinte foi feita exatamente para fixar soluções definitivas. Como disse o Ministro Moreira Alves: "Os olhos da Nação continuam cravados na Assembléia Constituinte." E é exatamente nesta hora que as entidades especializadas trazem a sua contribuição efetiva, séria, maturada, discutida, como é o caso hoje do federalismo regional. Se também formos recapitular a história do Brasil, vamos ver que, ainda no século XVI e, depois, no século XVII, os portugueses dìvidíram o Brasil em dois brasis. Dividiram -no, assim, com referência ao Poder Judiciário. Havia uma parte do Brasil, o Norte, que ficava ligada à Corte de Apelação de Lisboa, e a outra parte, o Nordeste-Sul, que ficava ligada à Corte de Justiça da Bahia. Depois, dividiram o Brasil em dois Estados: o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão, que também era conhecido como Estado do Grão-Pará. Ora, se naquela época, quando o Brasil não tinha ainda a dimensão continental e a população de hoje, foi necessário dividi-lo para efeito de governo, para efeito de exercício de poder político-administrativo em dois brasis, quanto mais hoje, quando nosso País ostenta uma das maiores dimensões territoriais do mundo e uma população que cresce assustadoramente, quase de modo incontrolável. Como funcionaria o federalismo regional? Vamos, então, entrar na proposta e falar sob o ponto de vista objetivo. A idéia do federalismo regional surgiu na conferência proferida pelo Prof. Paulo Bonavides, em 1970, na Espanha. Como eu disse, o Prof. Paulo Bonavides é hoje o autor da Teoria do Federalismo Regional e também o Presidente do Instituto Brasileiro de Direito Constitucional. Ele foi discutir assuntos regionais e locais na Espanha, um país que tem problemas regionais sérios, e, mais do que regionais, nacionais. Lá surgiu a idéia de se instituir no Brasil, pela via Constituinte, e não pela via da emenda constitucional – por isso que o Instituto esperou até agora para trazer a sua idéia – o governo regional. Este deveria relembrar, até certo ponto, naquilo que fosse necessário, o Estado Regional da Itália. As regiões italianas têm estatutos próprios, Poder Legislativo próprio – é o conselho regional – á Junta Regional, que é o Poder Executivo, e o Presidente da Junta, que é o Governador da região. Portanto, a Itália hoje, é um Estado regional. 66 O próprio Gáspar Ambrozini, em 1933, quando escreveu um artigo sobre uma forma intermediária de Estado, já dizia que a forma italiana nem era federalismo, como os Estados Unidos, nem unitária, como a França e a Espanha. Como funcionaria, de resto, o federalismo regional do Brasil? Com referência ao Poder Executivo, a nossa sugestão indica que seria eleito um vice-presidente para cada região, que poderia também ser chamado de governador da região. Haveria a eleição do Presidente e Vice-Presidente da República, o poder nacional continuaria em pleno vigor, o Congresso Nacional continuaria com seu funcionamento normal, mas, em regionais, elegeriam o Vice-Presidente da República para a região. Isto é muito fácil de entender porque no Brasil atual não há um chefe do Executivo; há um coordenador de coordenadores. impossível a um homem só coordenar a execução de um país, como disse, de 8.500 milhões de km2 e 140 milhões de pessoas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita que V. Ex.ª termine sua exposição. O SR. PAULO LOPO SARAIVA: – Vou encerrar. Com referência ao Poder Judiciário, funcionariam tribunais regionais, como já funcionam nas regiões. Finalmente, com referência ao Poder Legislativo, e aí está a grande novidade da idéia, funcionaria o Parlamento regional. Vou-me reservar para esclarecer melhor o que é o ParIamenta regional durante os debates, pois esse é exatamente o ponto que atinge de perto o Parlamento brasileiro. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Prefeito Floriano Mala Viga, VicePresidente da Associação dos Municípios do Estado do Amazonas, que pode ocupar a Mesa ou, se quiser, falar do local em que se encontra. A Presidência convida o expositor para ocupar seu lugar à Mesa para fazer sua exposição. Solicita ainda aos Srs. Constituintes que não se e s q u e ç a m d e a s s i n a r o livro de presença e também a folha para colocar questões aos debatedores. Informa ao expositor que terá a palavra, neste instante, e que seu tempo é de 20 minutos. O SR. FLORIANO MAIA VIGA: – Sr. Presidente desta Subcomissão, Srs. Constituintes, Deputado José Dutra, do Amazonas, sou o Primeiro Vice-Presidente da Associação dos Municípios e vim ontem, às carreiras, para assumir o encargo, porque o Presidente da Associação, o Prefeito Paulo Freire, de Manacapuru, e o atual Secretário de Estado do Amazonas tiveram que se deslocar para lá e não puderam comparecer. Para cumprir a programação desta Subcomissão, estarei aqui para participar do debate, talvez falando um pouco a minha linguagem de Prefeito. Não me preparei bem. Mas para falar do meu Amazonas, do meu M u n i c í p i o p o b r e n ã o é p r e c i s o p r e p a r a r -m e . S r s . C o n s t i t u i n t e s , o m e u M u n i c í p i o , Presidente Figueiredo, do qual sou Prefeito em exercício, fica distante de Manaus 107 km. Os Municípios do Amazonas na sua maioria são muito pobres, ou seja, 54 dos 59 comunas. Na minha região, que V. Ex. as conhecem, o Amazonas, há municípios que só podem ser alcançados após percorrer 4 ou 5 mil km de vias fluviais. Há dificuldades de saúde, 67 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) saneamento e educação. O Amazonas é pobre pela distância geográfica, porque só vive de PFM e de ICM – com exceção de Presidente Figueiredo que tem I.U.M. Meu Amazonas é pobre, porque o Governo Federal, até hoje, não olhou com mais carinho para ele. Temos 59 municípios. Somos o maior Estado brasileiro em área. Nossa representação aqui na Câmara dos Deputados é de 8 Deputados. Temos uma base populacional de 2 milhões de habitantes ,dispersos por uma grande área. Por exemplo: o pobre Município de Itamarati, que fica distante de Manaus 1.400 km em linha reta, e 2.000 km por via fluvial, está com uma caso de saúde muito difícil – hepatite negra. Esta semana já morreram 5 crianças de uma família só. Para se deslacar de avião da capital para o Município de Itamarati levam-se três horas. A situação da saúde dos nossos municípios é muito difícil, agravada ainda pelas distâncias. Meu povo tem aquela educação sanitária centenária. Não estamos preparados, educados, atualmente, para um melhor entendimento de saúde. Os médicos que existem no interior do Amazonas geralmente são ortopedistas, que não conhecem bem a medicina tropical. O hospital mais perto do Município de Itamarati fica a 36 horas de motor, descendo, e 50 horas subindo o rio Amazonas. Srs. constituintes, quero pedir desculpas a V. Ex. as até eu me desinibir um pouco. Estou um pouco nervoso e peço que compreendam isso também, O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Queria dizer ao companheiro que não é a palavra bonita nem a eloqüência que nos vai dar uma visão real do nosso Brasil. A sua palavra está sendo de real importância porque nossa preocupação é ver o que o povo brasileiro está sofrendo na carne, dia a dia. As palavras muito bonitas às vezes, não resolvem o problema do povo brasileiro. Sei que sua palavra vai ser de real importância para nós. Observando as necessidades de seu Município, irá trazer uma contribuição muito importante para esta Subcomissão que está estudando o problema do Município. Fique à vontade e creia que sua lição de vida é mais importante do que um retórica muito eloqüente. O SR. FLORIANO MAIA VIGA: – Muito obrigado, Sr. Constituinte. Como disse a V.Ex.ª, vim, ontem, de sopetão. Não vim preparado. Escrevi agora, de manhã, alguns assuntos para falar. O meu Amazonas, como estava dizendo, é o maior Estado da Federação em terras, mas não está totalmente habitado e tem inúmeros problemas. Se o Governo Federal, os Srs. Constituintes destinarem mais recursos para a área rural, administrativos, de saúde e de educação, talvez esse Estado com maior potencial de terras, com uma grande riqueza mineral, tenha condições quem sabe, de pagar a dívida do Brasil. A minha preocupação, como Presidente em exercício da Associação dos Municípios do Amazonas e como Prefeito, é tentar dar um recado a V. Ex. as, dizer das dificuldades que temos no Estado do Amazonas, dificuldades de interioranos. Estive falando, há pouco, sobre o problema de saneamento do Estado do Amazonas. O nosso povo veio do Ceará, do Nordeste, e há mais de 100 anos não tem uma educação doméstica, sanitária, para evitar as doenças transmissíveis pelas baratas, pelas moscas etc. Os órgãos do Governo Federal, como a SESP e a Sucam, não procuram mostrar para o povo as necessidades sanitárias. Nós, Prefeitos, procuramos esses órgãos federais, como a Fundação Sesp, em 1983, quando assumimos, para solicitar atendimento sanitário para as áreas rurais, para que o povo pudesse ter um melhor atendimento. Em 1983, a Sesp prometeu atender-nos. Estamos em 1987, e até hoje a Fundação Sesp não deu resposta, nem procurou atender-nos. O Amazonas é o Estado mais rico em água. Mas água, em nosso Município, é uma dificuldade. Inclusive, temos a Fundação Sesp em Itacoatiara. Todo o interior tem problemas de água. O problema da água é afeto ora ao Governo Estadual, ora ao Governo Federal. A água nunca é bem tratada. Geralmente, há poços artesianos, cuja tubulação vai de casa em casa. São tubos de ferro, ainda antigos, já carmomidos pela ferrugem. O Governo Federal não propicia, através da Sesp, um melhor atendimento e tratamento de água para o povo. Sendo tratada a água, praticamente fica afastado o problema das doenças. Então, quando existe um problema de água num município deste, os responsáveis são os prefeitos, os vereadores . No entanto, o órgão incumbido da água lá é a Sesp, o Governo Federal. E não temos ingerência nenhuma sobre a Sesp para tentar trocar o gerente, para tentar melhores atuações, para o povo ter um melhor tratamento. A educação no meu Estado é muito precária. Por exemplo, na área de Presidente Figueiredo, há povoados distantes quilômetros uns dos outros, com 4, 5 famílias, até chegar ao km 207 ou 205. Temos 18 escolas rurais. Tem gente que anda até 10 km a pé para chegar a uma escola daquelas. Se fizermos uma escola pertinho, ela não terá alunos suficientes para educar. Na área do interior gasta-se até meia hora de barco para chegar à escola. O professor leigo vai para lá com dificuldade, sofrendo picada de carapanãs, penanlo junto com nosso povo, para tentar educá-lo. Muitos caboclos remam até meia hora de canoa para poderem aprender o bê-a-bá. É necessário que V. Ex. as, da Subcomissão dos Municípios e Regiões, procurem ajudar o Amazonas, junto com o Constituinte José Dutra, porque a situação educacional e de saúde do Estado é muito precária. O povo precisa do apoio do Governo Federal. Como disse aqui meu antecessor, para conseguirmos dinheiro, temos que nos deslocar a Brasília, viajando duas horas e 40 minutos de Boeing e dois ou três dias de motor. Só chegando a Brasília e indo aos órgãos federais para procurar conseguir verba para educação, para saúde, para todo tipo de necessidade, porque o Governo Federal centralizou todos os poderes na Capital Federal. É preciso que V. Ex.as procurem dar a maior força ao Amazonas, procurem me ajudar e aos demais Municípios. Tenho prazer de vir aqui, com essas poucas palavras, dizer a verdade. Não vim para esconder, vim para falar, com meu linguajar de caboclo e de prefeito. É necessário que V. Ex. as Constituintes, procurem dar maior apoio ao Estado do Amazonas. É necessário dar maior apoio aos prefeitos. É preciso descentralizar a aplicação dos recursos, sem necessidade de procurarmos os órgãos federais. Em Manaus, geralmente eles nada resolvem. Então, tenho que vir para Brasília. No ano passado, estive em Brasília, umas 6 vezes. Em 1985, estive 12 vezes para tentar conseguir recursos. Até hoje, estou com problemas aqui. O nosso IUM, por exemplo, é depositado 60 dias após o seu recolhimento. Antes depositavam num dia e saía no outro. Agora, o Governo Federal leva 30 dias para entregar o dinheiro. Está aqui um texto do órgão federal. "Sr. Presidente, em atenção ao Ofício n.º 8.889, de 30-9-86, venho informar a V. Ex ª que, de acordo com a Portaria Ministerial n.º 375, de 19-2-86, o prazo para recolhimento do Imposto único sobre Minerais foi prorrogado para o dia 5 do segundo mês subseqüente ao da ocorrência do fato gerador. Tal procedimento posibilitará que a regularização e distribuição dos valores aos Estados e Municípios possa ser feita dentro do próprio mês, sem atraso, para permitir que a documentação de arrecadação chegue ao setor de processamento da Secretaria da Receita Federal dentro do prazo normal." Então, levam DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) 60 dias para pagar o imposto para o Município. Estamos com 90 dias. Esse dinheiro saiu no dia 13 de abril. Como vou pagar minhas obrigações sociais, como vou pagar m e u s f u n c i o n á r i o s p ú b l i c o s , s e o p r ó prio Governo Federal centralizou ainda mais o processo de distribuição do recurso? O imposto era pago no Banco d o B r a s i l . R e c o l h i a -se dia 31, no dia 1º, os Municípios mineradores recebiam seu dinheiro. Hoje se recolhe dia 5 , d o i s m e s e s a p ó s , e s ó s e v a i r e ceber 30 dias depois. Ontem liguei para o Banco do Brasil, em Brasília, e me informaram que somente depois do dia 7 de maio será pago. Ora, Srs. Constituintes, então tudo é difícil para o Amazonas. Mais uma vez, fica mais pobre o nosso E s t a d o e o s n o s s o s Mu n i c í p i o s . Quanto ao transporte, também é muito precário no meu Estado. Para me locomocer para o Município de Ipixuma, tenho que sair de Manaus, ir até o Estado do Acre, a Cruzeiro do Sul, e descer dois dias de barco. P a r a e u m e l o c o m o v e r a o M u n i c í p i o d e Envira faço quase o mesmo trajeto. Quanto ao problema de eletricidade, de energia elétrica, para um tambor de combustível, de óleo diesel chegar a Ipixuna ou Envira sai mais caro do que se fizessem uma usina termoelétrica. Então, sai caro para a Nação. Exis t e m m u i t a s d i f i c u l d a d e s n o m e u E s t a d o . Há o problema de febre amarela, de febre negra, que se chama hepatite. É difícil um médico se locomover no Estado do Amazonas – e quando o tempo permite chegar lá. Por que o Governo Federal não procura, nas r e g i õ e s m ais próximas, colocar pelo menos um hospital da Sesp ou um posto médico? Quanto ao problema de epidemias na região geralmente não para lá sanitaristas do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, de São Paulo. Desculpem, não estou querendo atingir ninguém. Mas quero dizer que essas pessoas não conhecem os p r o b l e m a s da minha região, e vão para lá com outro tipo de serviço médico. No Município de Barcelos, o maior do meu Estado, com 140 mil km2, o médico era um paulista, um ortopedista, quando o problema da minha região é febre, é reumatismo. No Município de Itamarati temos casos de febre negra, mas estou sem médico, sem assistência à saúde, e tenho que descer 30 horas de motor para atingir o serviço mais próximo. De Ipixuna tenho que subir para Cruzeiro do Sul dois dias de barco, com todas as dificuldades do rio Juruá que corre bastante, para ser atendido melhor no Estado do Acre, no Município de Cruzeiro do Sul. Os Municípios, do Amazonas, então, vivem somente de FPM e de ICM. O Governo Federal não injeta outra verba. Vimos aqui para brigar e arranjar verba para colégio agrícola, etc. As dificuldades são enormes. É um corre para cá e para acolá. O Ministério é muito grande; os prefeitos, às vezes, se perdem. Eu já conheço bastante Brasília, venho aqui sempre e vou bater nas portas quase sempre certas. Mas é difícil conseguir e, quando se consegue é com muita dificuldade, com prestação de contas. Eles não querem nem sabe que para levar um tijolo de um Município para outro são gastas "x" horas de transporte – sai muito mais caro. Para levar um saco de cimento para Ipixuna, tenho que pegar um barco, uma chata, e andar cerca de 90 dias, pois o rio está seco. Tudo isso onera esse preço! E Brasília não quer nem saber de resolver os problemas do Estado do Amazonas. Quando se pensa em construir um posto médico, há dificuldade até em levar um médico para lá, porque ele precisa adaptar-se ao pium, ao carapanã e aos borrachudos, o que vai ser difícil. 68 Hoje, meu Estado está -se preparando melhor, graças ao Governador Amazonino Mendes. Este ano nossa associação conseguiu um avião a jato, para visitar nosso pessoal mais próximo, levar mais recursos medicinais, mais educação e para ver de perto a necessidade de meu povo. Peço à Subcomissão que procure com carinho, da melhor maneira possível, atender ao Amazonas. Nosso Governador e nossos prefeitos estão bastantes interessados na solução dos nossos problemas. Esta oportunidade, para mim é muito boa, e fico grato a V. Ex. as e ao nosso Deputado José Dutra. V. Ex. as talvez não conheçam o Amazonas de perto. Seria bom que o conhecessem. Sei que este é um ano difícil para os Srs. Deputados. Ë um ano de comissões, de Constituintes. Para nós, seria importante que uma comissão da Câmara dos Deputados fosse ao meu Estado, ao seu município mais distante, para sentir a pobreza de meu povo, suas necessidades, até a alimentar. Quando falta o trigo para o pão, somos acostumados a comer a macaxeira e a batata. Mas, às vezes, as pessoas gostam do pão ou da bolacha, que levam 60 dias para chegar lá. Mas há outros problemas de alimentação. Faltam arroz e feijão e quando a área não produz, leva vários dias para chegar. Nossa região, graças a Deus, é muito bonita, mas presa de muitas dificuldades. Não temos rodovias, só vias fluviais. As estradas foram abertas no dia 19, mas não há condições de transporte depois do inverno. A BR-174, que liga o Município de Presidente Figueiredo a Roraima não é asfaltada, apesar de ser intercontinental, saindo de Brasília. São 5000 km de estrada de terra. Até hoje, a parte de Manaus a Caracaraí não é asfaltada. Caracaraí é abastecida de diesel através de Manaus. Quanto à alimentação, vêm de lá para nós o arroz e outros cereais. Esta semana tivemos o desprazer de assistir a vários desastres naquela estrada, pois o barro e a piçarra não agüentam. Nossa época de inverno vai de novembro a maio. Encontramse ali ônibus e carretas virados, sacrificados. Até eu, às vezes, durmo na estrada. O Governo Federal já prometeu asfaltá-la há mais de 4 anos, mas até agora ainda não o fez. O meu Município, Presidente Figueiredo, talvez seja o único do Estado onde agora será implantada a reforma agrária. Até agora não tenho tido problemas. Estive com o Secretário de Educação e estou visitando as bases, já vou dar para o pessoal o compensado e o forro, para tentar fixar o homem no interior. Lá tenho dois médicos e um bom hospital. No meu Estado, os municípios onde se anda de carro são: Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Itacoatiara, Manacapuru e Careiro, na época da seca. No inverno não se trafega para Presidente Figueiredo, nem tampouco para o Município do Careiro, Lábrea ou Humaitá. Tem que ser por via fluvial ou aérea. Quando há temporais não se consegue levantar vôo. Quando há problema de saúde mais grave, tem -se que vir de motor, há o problema de ribanceira. Geralmente, tem-se que pedir um avião de Porto Velho ou de Manaus, para se poder chegar ao local. Hoje, seguiu para o Município de Itamarati um avião da TABA, que deve ter gasto umas 3 ou 4 horas de vôo, dependendo do tempo, senão teria que pousar em Tefé, em Carauari. Depois, iria para Eirunepé ou Carauari para pegar um barco, e depois, subir durante 50 horas para levar a medicação para os doentes de hepatite no meu município. Já esqueci bastante o problema da educação. O pessoal teria que descer de canoa ou a pé, às vezes 5, 6 km, para chegar à escola. Graças a Deus, nosso professor tem procurado cumprir o horário educando o povo devagarinho. Estamos tentando fazer a TVE chegar aos municípios, para levar-lhes mais educação através da televisão. Não estamos levando a televisão para o interior para o povo se divertir, mas sim para educá-lo, para mos - 69 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) trar-lhe o que é o Brasil. As dificuldades de meu Amazonas são grandes. Se for relatá-las, talvez passe o dia todo e não chegue a uma conclusão. Espero que V. Es.ª procurem o Deputado José Dutra e ajudem o meu Estado. O Meu município, porque é difícil chegar lá. Todos os membros desta Subcomissão estão convidados a ir lá para ver de perto que o que estou dizendo não é mentira. Estou falando minha linguagem de caboclo, de prefeito das barrancas da água poluída, das águas barrentas, mas que eu adoro. Jamais me acostumaria com Rio de Janeiro ou Brasília, pois aqui eu sofro porque tenho problemas de saúde. Acho que os Deputados de meu Estado devem sentir isso mais do que eu ainda. Lá, vivemos felizes. É preciso que V. Es.ª sintam o que é o Amazonas, conheçam a riqueza do petróleo de Urucu, talvez a maior reserva no Município de Coari. Mas há um problema. É que talvez apareça um dedo lá para fechar, para segurar o desenvolvimento. O DNPM tem procurado ajudar-nos bastante. O Dr. José Belfort é um homem muito íntegro, muito amazónico e tem-nos dado muita força. O meu Amazonas é o Estado mais rico do Brasil. Se o Governo quisesse, poderia saldar a sua dívida com o que temos lá: petróleo, cassiterita, ouro, diamante, diamantita, e todo tipo de minério. Meu município é o mais rico do Brasil, e talvez do mundo, em cassiterita. E há outros minérios, inclusive para a fabricação de componentes de televisores. Não conheço bem a linguagem dos técnicos, dos geólogos, mas V. Es.ª teriam Oportunidade de ver de perto as riquezas minerais do Amazonas. É um Estado que tem tudo para produzir, tudo para se plantar, mas nada tem porque não se entra em acordo com o Governo Federal. O Governo do Estado do Amazonas é realmente pobre. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – O senhor poderia dizer-nos a área e a população do seu município? O SR. FLORIANO MAIA VIGA: – Sua área é de 24.000 km2. A população, incluindo o contingente da Usina de Balbina e da Mineração Tabocal junto com o interior do Município, soma 26.000 habitantes. Mas só na sede há cerca de 3.000 habitantes e, na área rural, também 3.000 habitantes. Há ainda uma população ribeirinha, de 1.500 habitantes nas áreas do rio Acumã, da estrada que vai até Caracaraí, em Roraima, e também na da estrada que vai até a Usina Hidrelétrica de Balbina. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Passamos ao nosso próximo expositor, Prefeito José Ribamar Fiquene, de Imperatriz, Presidente da Federação das Associações dos Municípios do Maranhão, que também disporá de 20 minutos para prestar o seu depoimento. O SR. RIBAMAR FIQUENE: – Sr. Presidente desta Subcomissão dos Municípios e Regiões, Srs. Constituintes, minhas senhoras e meus senhores, a Federação das Associações dos Municípios do Estado do Maranhão, aqui presente por meu intermédio, vem também trazer a sua contribuição para que possamos ter a plenitude dos direitos alcançados na nova Carta Magna deste País, que se começa a esboçar. Trago, como tema, a valorização, ou melhor, a conservação dos valores. É sabido que o município brasileiro, como base de sustenta ção nacional, fica sempre achatado pela falta do apoio, da solidariedade dos meios necessários, da compreensão, do congraçamento, de tudo, enfim, que possa contribuir para que se torne verdadeiramente uma célula de aprimoramento, de aproximação, de crescim ento, de prosperidade, de tudo que leve à valorização do homem. Por isso, por essas discordâncias todas, dentro do espaço dentro do nosso próprio tempo, atingindo situações seculares, perdemos os nossos valores também por falta de uma contribuição congraçada. Tenho experiência de educador no magistério, no interior do Maranhão, e também como exreitor da Universidade Estadual do Maranhão. A nossa Universidade Estadual, construída na capital do Estado, contemplava principalmente os cursos de Agronomia e Veterinária. Daí a grande dispersão, a grande disparidade, pois ela deveria, sim, ser construída no centro ou no interior do Estado, a fim de que com isso se pudesse preservar os nossos valores, contribuindo para que não houvesse o êxodo rural, que infelizmente ocorre no País. Mas, quando eu chegava à Universidade, via os estudantes levando o saco de frito, porque não poderiam voltar à sua residência, à casa de suas famílias, por-quanto o tempo não permitia, a distância da universidade está em torno 20 km da sede da capital. São Luís. E aí, num gesto dinâmico de toda a comunidade universitária, procurando substituir o saco de frito por uma alimentação mais condigna, e valorizar os nossos estudantes, com um trabalho exaustivo, porém compreensivo e necessário, conseguimos colocar na Universidade o restaurante com a bandeja ao preço simbólico, da minha época, de 13 cruzeiros. Este é apenas um exemplo de como os Governos Federal, Estadual, Municipal juntamente com a comunidade podem resolver, quando conjugados, questões consideradas até corno de conseqüências deletérias ou malfazejas para nossa situação interiorana. Somente esboçando-se todos esses avanços, através da educação, da saúde, e também da ação social é que pode remos ter, em termos conclusivos, um anteparo maior para os grandes avanços e as melhores conquistas. Venho aqui tentar que se esboce na consciência e no melhor bom senso jurídico a preservação dos nossos valores; que haja um trabalho efetivo e não só aquele painel demonstrado a título de teoria de algum professor que está representando uma universidade, ou, então, o Ministério da Educação, ou outro qualquer, assim como qualquer organização salutar e necessária, mas que haja também, neste ficar no interior brasileiro, uma determinação respaldada no sentimento patriótico de servir àqueles que estão necesitando, Temos perdido muitos valores. A nossa juventude aí está, distorcida, à guisa de retalho do próprio tempo, que está completamente disfarçado. Os vícios, as drogas, as orgias noturnas, estã o contaminando, com o verme inexóravel da destruição, aquilo que temos de mais portentoso, jovem que vai resguardar o nosso grande futuro. É por isso que venho chamar por essa conservação de valores da juventude, do jovem ou da criança, procurando com isso detonar todos os meios condizentes e necessárias para que eles permaneçam na escola e criem um estado de espírito de cidadania, para que se crie também com tudo isso a preservação do civismo brasileiro, e se possa modificar esse quadro destruidor e inigualavelmente desnecessário ao grande andamento da Nação. Agora, é preciso que se tenha a plena verdade daquilo que ocorre hoje no Pais. As portas, portas de ferro, estão fechadas. Estamos vendo que os nossos jovens estão deixando de ser devidamente considerados devido a medidas admitidas pela educação brasileira, que não lhe dá guarida para o ingresso na universidade. O último vestibular das universidades no Estado do Maranhão apresentou um resultado deplorável. Tivemos mais de 40% de vagas não preenchidas porque os estudantes não foram aprovados no vestibular. Isso porque não temos, principalmente no interior do Maranhão, os cursinhos, considerados o pronto -socorro da educação brasileira. Esses cursinhos surgiram a partir do momento em que entrou em vigor a Lei n.º 7.592, de 1971, que estabeleceu critérios de profissionalização no ensino de 2º grau, distanciando, com isso, os jovens da universidade. O que se ensina hoje no 2º grau são matérias completamente diversificadas do conteúdo de carga curicular das universidades, em termos de vestibular. 0 estudante que faz o curso DIÁRIO DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) normal, ou do magistério de 1º grau, ou de Contabilidade ou de Administração, ou de Secretariado, seja lá o que for, não conhece a carga geral dos cursos considerados anteriormente humanísticos – e ainda hoje assim os considero – que se chama educação geral, ou melhor, da área científica. Então se ele não tem uma preparação intermediária, fica-lhe vedado o ingresso na universidade. Por que não acabar com esse vestibular que nada oferece, que nada promove, que em nada contribui? O que é exigido para entrada na universidade, em termos de vestibular, não é repassado dentro da mesma universidade, nos cursos díspares, com seus departamentos estanques. Por que não se fazer uma nova avaliação, se o processo esta errado e se as leis nascem dos fatos distorcidos, das disparidades ocorridas com os fatos? Por que não examinar o currículo, a nota no curso seriado, e preencher as vagas da universidade de conformidade com as notas obtidas pelo estudante, ao invés de ficarmos se malfadado vestibular, que não está mais contribuindo para nada? Dizíamos isso há alguns anos, quando ainda tínhamos o exame de admissão e que terminou, embora ainda hoje permanece como matéria polêmica, em termos de vestibular. E disseram isso muito antes de nós tantos outros especialistas em educação. Isso é uma conservação de valores. Os estudantes ou jovens despreparados psicologicamente vão prestar vestibular com enorme carga de nervosismo. Mesmo admitindo um avanço na programação que ele não pôde ver por erro da própria lei que manda que a parte de educação geral nas escolas profissionalizantes seja dada na primeira série, com uma carga horária reduzidíssima exige-se tudo do estudante no vestibular. Daí, às vezes, ele ser, dentro da profissão que abraçou, um contabilista espetacular ou um professor exímio. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência informa que o orador dispõe de apenas 2 minutos para terminar a sua exposição. O SR. JOSÉ RIBAMAR FIQUENE: – E preciso reformular não só a parte da educação da saúde, dos transportes, da ação social, mas também da contribuição da comunidade, da contribuição de todos os órgãos diretivos. Que eles se façam presentes no capítulo das Disposições Transitórias, ou no capitulo dos Direitos Individuais ou outro qualquer atinente à matéria, que nesta nova Constituição fique preservado o direito do ser humano à valorização, o que será, sem dúvida, uma grande conquista. Agradeço esta oportunidade, e digo a todos aqui presentes que a Federação das Associações dos Municípios do Estado do Maranhão, integrada por 132 prefeitos, dispõe-se a que a Federação das Associações dos Municípios do Estado voltar vir aqui se for necessário. Desejo de antemão, um êxito primoroso para o trabalho de V. Ex.ª a fim de que nosso povo tenha melhor sorte com uma nova Constituição dentro da realidade nacional. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência relembra aos Srs. Constituintes que devemos ter, necessariamente, reunião hoje, às 17 horas, para organizar o roteiro dos nossos trabalhos da semana que vem, considerando o feriado e o tempo necessário para os contatos com as pessoas que virão participar das audiências públicas. Reforço ainda a necessidade da presença dos Srs. Constituintes amanhã, quando trataremos da questão do Município e reforma tributária, fato dos mais importantes para os nossos trabalhos, com a presença de tributaristas do País inteiro, que aqui virão participar do painel programado para amanhã, às 9:30 horas. A Presidência concede a palavra ao Prefeito de Araranguá, Manoel Mota, Presidente da Associação dos Municípios de Santa Catarina, que também dispõe de 2 0 m i n u t o s p a r a a a p r e s e n t a ç ã o d e s u a e x p o s i ç ã o . 70 O SR. MANOEL MOTA: – Saúdo o Presidente da Subcomissão dos Municípios e Regiões, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, o Relator Aloysio Chaves, o Constituinte Alexandre Puzyna, representante da Frente Municipalista do nosso Estado em cujo nome saúdo todos os Parlamentares que aqui estão nesse trabalho maravilhoso, em busca de solução para os problemas dos municípios brasileiros Senhoras e Senhores, representando aqui os prefeitos do Estado de Santa Catarina, sinto-me honrado por este convite para participar deste painel e colocar os problemas por que passam as comunas daquele Estado que não são diferentes dos demais Municípios brasileiros. Nós, que assumimos a prefeitura em 1983, começamos a sentir os grandes problemas quando o Governo, querendo exportar mais, começou a conceder isenções de ICM e IPI, empobrecendo Estados e Municípios. Os Municípios, a cada dia que passa ficam mais pobres. O Estado também sofre com essa isenção e, não tendo recursos para repassar aos Municípios pela grande concentração de recursos que hoje se faz no Governo Federal, as nossas prefeituras municipais vivem momento dramático. Não somos contra a exportação, porque ela cria emprego e cria divisas. Somos a favor de que o Governo Federal faça o seu ressarcimento que os Estados e Municípios percam alguma coisa para que possam trabalhar aceleradamente no seu desenvolvimento. Também sentimos hoje o problema difícil e grave do retorno de 20% para os Estados e o retorno do Fundo de Participação de 17% para os Municípios brasileiros. Por que considero grave? Por uma razão muito lógica e simples. Pergunto aqui: qual a comissão que fiscaliza o Fundo de Participação para informar ao Município sobre critérios na distribuição desses 17:% É evidente que não existe. Não conhecendo esse critério os Prefeitos ficam numa situação difícil, desesperadora. Os recursos do Fundo de Participação de janeiro de 1987 e o de fevereiro de 1987 coincidiram até nos centavos. Será que todos recolheram o mesmo valor, os mesmos centavos? Deixo no ar essa pergunta preocupante para os prefeitos e para os Municípios brasileiros. Tivemos vinte anos de governos militares, que foram concentrando recursos e empobrecendo Estados e Municípios. Para quê? Para marginalizar os prefeitos e os parlamentares, a fim de o Governo manter-se no poder. Passamos esse sufoco. Demos o grito de democracia. Temos dois anos de Nova República. É bem verdade que uma parte está sendo cumprida. Qual parte está sendo cumprida? Acho que o programa social da Nova República, em parte atende às aspirações do povo brasileiro. Mudanças e transformações houve algumas, não muitas. Pergunto aos Parlamentares, que sentem o mesmo problema quando vão às suas bases: onde está a reforma tributária que tanto pregamos em palanques antes de sermos governo? O PMDB hoje é governo. E faço de novo a pergunta: onde está a reforma tributária que deveria tirar os prefeitos dessa angustia dessa tristeza que passamos por não podermos cumprir com as nossas obrigações? Temos mais um problema grave, e que continua sendo grave. Por quê? Por uma razão muito simples e muito lógica. O Município vai crescendo e crescendo; as comunidades vãose organizando cada vez mais. É claro que o povo na rua e a própria Igreja fez com que a comunidade se organizasse cada vez mais. Então cria-se um distrito onde antes não havia porque ela, organizada, faz cem que isso aconteça. Vai lá, sensibiliza a Câmara de Vereadores e a Assembléia Legislativa, e cria-se o distrito. Depois de o distrito criado, a prefeitura tem de colocar lá, de qualquer forma, equipamentos para poder atender àquela região, àquele distrito. Mas ainda é pouco: querem transformá-lo logo em Município. É mais um filho sem pai, é mais um Município pobre n este País. Então, essa é hoje uma grande preocupação. Vamos, primeiro, resolver os problemas dos Municípios brasileiros 71 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) já existentes e, aí, sim, dar condições para que outros Municípios se instalem. Não somos contra essa instalação. Minha região não passa por esse problema, mas outras estão passando, e essa é uma dificuldade que se vê a cada dia. De onde tirar os equipamentos, se os Governos Federal e Estadual não têm condições de nos atender? É evidente que essa deficiência se vai acumular cada vez mais. Não sou contra que se os crie, porque lutei a minha vida toda pela descentralização e pela municipalização das ações. Acho que um grande passo seria municipalizarmos as ações. Hoje, vejo o Brasil com a ação integrada de saúde, dando um passo importante: a União, através do Ministério da Saúde, a Secretaria de Saúde do Estado e a Secretaria de Saúde do Município. Esse é um passo importante e fundamental para atender, na sua base, o nosso povo, diminuindo as filas do INPS, diminuindo as filas dos hospitais. Precisamos agora que isso aconteça na área da educação e em outras ações do Governo, porque comprovamos que o Município tem condições de realizar suas obras com 40% a menos de gastos do que o Governo Federal, tem condições de realizar suas obras a custo 70% inferior ao do Governo Estadual porque tem estrutura. Quem não a tem, passa por algumas dificuldades, mas a grande maioria já tem um engenheiro civil, um engenheiro agrônomo, um arquiteto, assistente social e médicos contratados, enfim, uma equipe que barateia os custos, para que, com poucos recursos, possamos cumprir nossa missão, aquela missão a nossa gente espera pelos altos tributos que paga, mas que não recebe em contrapartida. E não está tendo resposta porque não podemos oferecê-la dado o empobrecimento dos Municípios. Estes, não têm como oferecer infra-estrutura para o comércio, para a indústria, para a agricultura. Falei no agricultor, porque é uma peça fundamental deste País rico que está aí a dizer que vai ter a maior produção agrícola dos últimos tempos de sua história. Minha preocupação não é só essa, mas também com a políti ca agrícola do Governo. Será que no próximo ano vamos ter essa mesma safra, sem dar no entanto, condições para que o agricultor possa vender sua produção? E possa sobreviver sem entregar seu trator aos bancos, sem entregar-lhes sua pequena fazendinha, seu pequeno sítio para pagar seus empréstimos? Os fumicultores hoje estão em desespero, porque não puderam pagar aos bancos suas contas, os seus investimentos. Isso gera uma grande preocupação, porque eles se deslocam do interior, onde produzem, vêm para as cidades em busca de emprego, inchando o perímetro urbano de nossos municípios, e nós não temos recursos para criar infra-estrutura, para dar garantia a essa gente. No sul de Santa Catarina, a Amesc, cujo presidente, Adroaldo Teixeira, se encontra aqui comigo, realizou um trabalho que acho importante para as associações de microrregiões não só do meu Estado, mas de todo o País, porque é através delas que as ações podem ser feitas. Conseguimos sensibilizar o Ministro Vicente Fialho para implantar o Pronim no Sul do País, que também está empobrecendo e tem de ser olhado pelo Governo Federal. Estão aí as situações de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, cujos governos nem sequer estão podendo arcar com suas folhas de pagamento. O Ministro foi bem claro e objetivo, dizendo: "Prefeitos, vocês representam uma associação. Para nós, é importante que seja uma associação que venha aqui reivindicar a recuperação de 50 mil hectares de terras, terras improdutivas por alagamentos, e terras que podem produzir 5 milhões de sacas de arroz, mas só posso liberar recursos – e os coloco à disposição – para fazer as macrodrenagens; as micro ficam para as prefeituras executarem." É claro que não vamos deixar de recuperar aquelas áreas com as macrodrenagens. Mas pergunto: onde estão o s recursos para comprar equipamentos para as microdrenagens? Fica esse ponto de interrogação. É por isso que, em 1983, os prefeitos deste País foram ao Presidente da República. O meu caro Deputado e amigo Alexandre Puzyna fazia parte do movimento, liderando os prefeitos de Santa Catarina, como presidente da associação. Na ocasião, o Presidente João Figueiredo não respondeu à nossa reivindicação, não tratou com o respeito que devia os prefeitos municipais, e acabou levando a maior vaia da nossa história do País. Com muita pressão e muita luta, os prefeitos conseguiram a minirreforma tributária Passos Pôrto, que atendeu em parte àquilo que desejávamos. Mas, por um ato do Banco Central, determinado pelo Dr. Delfim Netto, foi castrado o que mais nos interessava naquela minirreforma tributária, que era o ICM de gasosos, lubrificantes e combustíveis, e até lá nada recebemos. Partimos, em 1985, para nova mobilização dos prefeitos, aqui em Brasília, abandonando nossos municípios, gastando mais e sendo criticados pelos vereadores, porque não ficávamos em nossas comunas. Mas era o desespero: para cumprir o nosso compromisso, teríamos de vir ao Governo Federal, em busca de uma alternativa, que seria uma reforma tributária. Conseguimos, em 1986, uma reforma tributária de emergência. O que levamos? A elevação do Fundo de Participação de 16 para 17% e 50% do IPVA. Agora, pergunto ao prefeito do Amazonas, que nos representou nesse painel: o que representa o IPVA para o município dele? Nada, ele tem apenas meia dúzia de carros . É absolutamente nada. Então aquilo realmente serviu apenas para desestabilizar o movimento dos prefeitos deste País, e mais uma vez ficamos na saudade, sem conseguir a reforma tributária para poder atender a esse chamamento da nossa sociedade, que está a cobrar mais ação todos os dias nos nossos municípios e nas nossas prefeituras. Os prefeitos, não estão agüentando mais pagar a sua folha de pagamento, não podendo cumprir com as suas obrigações sociais, com aqueles compromissos que assumiram em palanque, mobilizaram, como num toque de mágica, 2.500 prefeitos, em Brasília, no último dia 25. Fomos atendidos, sim, pelo Presidente José Sarney. É evidente que os prefeitos estavam preparados. Iria ser atendida só uma comissão, mas essa Comissão da Frente Municipalista – onde mais uma vez representamos nosso Estado com o nobre Constituinte Alexandre Puzyna – colocou ao Presidente, com muita precisão: "Estes prefeitos vão fazer o mesmo que fizeram em 1983", e o Presidente aceitou nos atender e assumiu um compromisso conosco. Compromisso de que em 30 dias teríamos uma resposta desta reforma tributária de emergência, não para dar autonomia, mas para amenizar o sofrimento dos municípios brasileiros. Esse foi o compromisso assumido pelo Presidente da Frente Municipalista, Orestes Quércia, com o Presidente da República, José Sarney, nesse dia 25. Hoje, às 16h – era às 15h, mas com a posse do Ministro da Fazenda passou para as 16h – vamos ter essa resposta. Vamos pedir a Deus que essa resposta seja satisfatória, que atenda a esse chamamento e ao desespero dos prefeitos, porque, do contrário, eles vão-se mobilizar em cada Estado, numa ação conjunta, e não virão 2.500, mas 4.000 prefeitos para Brasília. E digo mais, se for preciso acampar por tempo indeterminado, nós vamos acampar. Precisamos dessa reforma tributária, de emergência porque somos nós, os prefeitos municipais, que dia a dia recebemos as críticas da sociedade: por DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) que o governo faz isso, por que os municípios não cumprem com o seu dever, por que não fazem as ruas, por que não fazem calçamento, por que não tem melhor qualidade a educação, a saúde, a infra-estrutura, tudo? E vamos fazer isso tudo com o quê? Quando assumi a Prefeitura Municipal de Araranguá, entusiasmado, eufórico, pensei: o prefeito tem de servir de modelo para a indús tria e o comércio. Esse era o meu pensamento. Era o que tinha que melhor remunerar o funcionário público municipal para ter o melhor serviço prestado no seu município; era quem tinha que melhor pagar as empreiteiras e as compras, os serviços gerais de seu município. Mas, ao contrário, não servimos de modelo, servimos de vergonha para o País, pelo empobrecimento em que vivem os municípios. Por isso, fizemos um apelo. Não adianta lutar ou fazer isso e aquilo; municipalizar as ações do Governo é um passo, reforma tributária seria a solução de tudo isso. Queremos não só autonomia, mas deveres e poderes para que, junto com as Câmaras de Vereadores, junto com a sociedade, possamos fortalecer os municípios. Não há nação rica com municípios pobres. Isso era o que tínhamos que colocar, agradecendo por esta oportunidade e dizendo que Santa Catarina se coloca inteiramente à disposição. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos entrar, agora, na fase dos debates. A Presidência informa ao Plenário que disporemos, no máximo, de uma hora e quinze minutos para esta fase. Inicialmente, o Presidente indaga ao Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves, se pretende endereçar perguntas aos expositores? O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Sr. Presidente, para uma questão de ordem. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra, para uma questão de ordem, o nobre Constituinte Raul Ferraz. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Sr. Presidente, não estou bem lembrado da sistemática dos trabalhos. Mas, para se ganhar mais tempo, proporia que cada um dos interpelantes usasse o seu tempo, para que as respostas fossem conjuntas. Assim não seria preciso esse jogo: a cada um, quatro respostas. Se eu falasse por cinco minutos, quatro dos conferencistas teriam de usar o mesmo tempo para me responder; em seguida aconteceria a mesma coisa com os demais inscritos. Assim, proporia, que se usasse um pouco mais de tempo, que cada um respondesse de uma só vez, anotando aquele aspecto que julgasse de maior importância a respeito do que cada um de nós perguntasse. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência recebe a questão de ordem do Constituinte Raul Ferraz, mas entende que poderemos ter um resultado bastante proveitoso se o Constituinte fizer a sua pergunta e indicar o interlocutor. É evidente que, na medida em que forem sendo feitas as perguntas, outros Constituintes serão atendidos, e a pergunta não será feita novamente, para evitar a superposição de assuntos e – vamos dizer – também a concentração de perguntas. Mas, na verdade, teríamos um diálogo truncado, se me permite o nobre Constituinte. Assim, preferimos seguir a rotina dos nossos painéis. A Presidência somente dá preferência ao Relator, para colocar as suas perguntas. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Estou apenas tentando contribuir para melhorar a ordem dos trabalhos. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente, companheiros, na minha posição de Relator tenho timbrado em procurar intervir, tanto quanto possível, nos 72 debates, porque não desejo antecipar posições, nem teses para discussão na Subcomissão. O Relator, como declarei inicialmente, vai escrever um relatório com base nas decisões do que a maioria da Subcomissão deliberar. Não desejo, portanto, que se estabeleça nenhum confronto de opiniões entre o Relator e os membros da Subcomissão, numa fase em que a matéria ainda está sendo exposta pela primeira vez. É óbvio que, após apresentar o meu relatório, teremos um período de cinco dias para discuti -lo para defender tudo aquilo que nele for consignado. Os assuntos foram expostos aqui pelos prefeitos com muita sinceridade, com muita propriedade, refletindo a realidade do Brasil, sobretudo da vasta Região Amazônica, na qual se insere o meu Estado. O Pará, por exemplo, tem dois municípios com superfície superior à do Ceará, que tem 144 mil quilômetros quadrados. E se fôssemos falar das dificuldades com que se defrontam os prefeitos, a administração pública, enfim, teríamos um elenco de problemas quase interminável p ara expor à Subcomissão. Sob o ponto de vista doutrinário, a exposição feita pelo Dr. Paulo Lobo Saraiva precisa ser examinada pela Subcomissão, pois é rica de implicações, sob o prisma da ciência política, do Direito Constitucional e da organização do Estado brasileiro, ao longo do Império, ao longo da Federação e nos nossos dias. De sorte que, como Relator, reservo -me para ler o trabalho que estou recebendo agora – uma monografia do Dr. Paulo Lobo Saraiva – para, depois, no meu relatório, manifestar minha opinião. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Uma vez que o Sr. Relator não quer colocar nenhuma pergunta, inicialmente a Presidência passa a palavra ao primeiro constituinte inscrito, Waldeck Ornelas. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, o painel de hoje traz à discussão uma nova vertente, uma nova dimensão, talvez a derradeira que precisa ser incorporada aos debates desta subcomissão, que é a questão regional, ou ampliando até um pouco mais o conceito, a questão do ordenamento te rritorial. Já na sessão de instalação desta subcomissão, chamei a atenção para o fato de que, se há uma contribuição nova, se há um fato novo, esta subcomissão em particular tem o dever de incorporá-lo à nova Carta constitucional. Trata-se da questão das regiões. A esse respeito fiz, inclusive, um pronunciamento no plenário da Assembléia Nacional Constituinte, a 7 de abril, visando a conscientizar meus ilustres pares. Na verdade, a questão do ordenamento territorial surge por conta da forte concentração que existe no País, uma concentração que é particularmente sensível no que diz respeito à área econômica, quando três governadores de Estado se reúnem e representam 80% do PIB nacional. Este é um dado flagrante da realidade brasileira com o qual a Constituinte não pode, evidentemente, ilegível. Ainda anteontem, tivemos uma demonstração palpável das conseqüências dessa concentração. O Nordeste não tem oportunidade nem possibilidade de fazer jamais um Ministro da Fazenda neste País, a continuar essa concentração que hoje temos. A exposição feita pelo Dr. Paulo Lopo, do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais, traz-no a proposta de um novo nível de poder. Não sei se o quarto, porque já nos tinha surgido em relação às regiões metropolitanas e foi rechaçado. Não me ficou claro da exposição do Dr. Paulo Lopo, se, no federalismo regional – conheço, aliás, o documento inicial do Prof. Paulo Bonavides – estariam ou não sendo mantidos os Estados. Gostaria que S. S.ª nos esclarecesse sobre este ponto. Naquele pronunciamento que fiz, em plenário, chamei a atenção para o seguinte: ao longo das últimas décadas, tivemos uma evolução 73 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) do quadro nacional. Antes se tinha um centro, um pólo – representado, evidentemente, pelo Sudeste e por São Paulo, em particular – e uma região isolada, que era tratada como região-problema, como uma parte doente do Brasil, uma parte cancerosa do País, que era o Nordeste; fato provocado pelo fenômeno das secas. Esse flagelo que periodicamente atinge a minha região e aflige a sua população, levou a que, a partir da Constituição de 1934, fossem incluídas normas de conteúdo regional nas Constituições. O fato é que hoje o País é um mercado unificado de fatores. Hoje, o País está todo ele integrado por um sistema viário, e com isso a grande periferia nacional tornou-se uma periferia diferenciada. Atualmente, não apenas o Nordeste tem a sua consciência regional, mas, como já foi referida, os governadores da Amazônia se reúnem, os governadores do Sul e os governadores do Centro-Oeste também se reúnem e cada grupo trata de problemas específicos. O País já não pode ficar tratando essa dimensão continental com políticas uniformes, padronizadas, para problemas que são distintos. A matriz energética de cada região, a problemática ambiental de cada região, a problemática industrial e a agrícola etc., são distintas. Então, precisamos ter políticas diferenciadas para cada região e identificadas com as prioridades regionais. Não chegaria, contudo, caro Dr. Paulo Lopo, a entender que devamos, de imediato, ou pelo menos no meu horizonte visível, partir para o federalismo regional. Tenho receio de que, no futuro, venha aqui outro palestrante, como V. Ex.ª, dizer que o federalismo regional foi criado por lei da República, da Federação e do presidencialismo. Creio, no entanto, que esta Constituinte – e esta subcomissão em particular – tem o dever e a obrigação de incluir as regiões como princípio de organização nacional. E avançar mais: temos de ter regionalização do planejamento no País, para que tenhamos prioridades e políticas específicas. E temos de ter uma regionalização de todos os orçamentos públicos, não só do fiscal, mas das estatais, do monetário etc., para que haja transparência nas políticas deste País. Isso parece-me extremamente importante. Realmente, a questão é descentralizar. A descentralização requer o fortalecimento dos Estados e dos Municípios; requer um novo sistema tributário. E podemos contribuir para isso discriminando as competências das diversas esferas de governo, para que o sistema tributário possa corresponder a isso e faça uma articulação. Agora, é preciso, em relação às regiões, que tenhamos apenas e tãosomente, parece-me, a descentralização administrativa, que estou chamando de desconcentração, desconcentração da União, dentro da sua própria esfera, para considerar as regiões como um fato novo na realidade econômica, social, cultural e política do País. Este painel coloca também – parecia, no início, que iria ser heterogêneo – a necessidade de correlacionar a questão macrorregional com a questão microrregional. Quando falou o prefeito da Amazônia, o que sentimos foi a necessidade de que essa discriminação de competências sirva de instrumento para descentralizar o poder, bem como que novos requisitos sejam incluídos nos critérios para a criação de Municípios. E a questão de área parece-me fundamental ser incluída. No caso da Amazônia, não são de limite s mínimos que precisamos, mas de limites máximos. Se o Município de Presidente Figueiredo tem 24 mil quilômetros quadrados, temos, em Estados como a Bahia, já mais incorporado em área fronteiriça com Goiás, Municípios com 15 a 20 mil quilômetros quadrados também. Então, esse critério de novos requisitos para a criação de Municípios, no sentido de fixar limites mínimos e máximos, possivelmente, deveria vir numa lei complementar. Por isso, proponho que os requisitos para a criação de Municípios sejam esta belecidos por lei complementar e a diferenciação seja feita por regiões e não por Estados, de modo a contemplar realidades como essas. Creio que hoje ficou mais clara para todos nós a questão da diferenciação entre os Municípios, que é também uma questão de diferenciação entre regiões e, que, portanto precisa ser considerada na nova Carta constitucional. As perguntas que deixo ao representante do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais são: se o federalismo regional – que não houve tempo para se explicitar – incluiria a extinção dos Estados, como quer o nobre Constituinte Raul Ferrazi, se seria um quarto nível de governo e se não considera o ilustre conferencista que não há ainda um amadurecimento social, cultural etc., salvo no caso do Nordeste, para a criação dessas regiões como níveis de governo. Muito obrigado. O SR. PAULO LOPO SARAIVA: – Quero agradecer, inicialmente, a referência feita pelo Relator Aloysio Chaves, que é constitucionalista, e também a participação neste debate do Constituinte Waldeck Ornelas. Conheço o pronunciamento de V. Ex.ª, já o li e agradeço, inclusive, os ensinamentos que dele recebi. Vou responder objetivamente às perguntas, porque o federalismo regional é objetivo e concreto. Em primeiro lugar, não pregamos a extinção dos Estados. Os Estados são entidades geográficas, físicas, sociológicas, culturais, econômicas e políticas. Foram províncias sociológicas e, hoje, são – não sei como – Estados, legalmente. Por isso é que Estados não são, e de vez em quando se eclipsam. Há um eclipse total e eles desaparecem. Os Estados continuarão a ser – como são – componentes da região. A região é uma entidade complexa: terá uma natureza jurídica de direito público territorial, mas de natureza complexa, como na Itália. Assim o define o grande Virga, que foi quem melhor definiu a região na Itália. Os Estados continuarão mais fortes, porque estarão protegidos. Não são mais isolados, são unidos, compactos, porque não são mais a dimensão estatal: são a dimensão estatal e regional. Quer dizer, a roupagem legal que vão receber vai coincidir com a roupagem social, de vez que a norma tem de cobrir o fato social. No momento em que a norma não cobre o fato social, como ocorre no Brasil, desrespeitamos a Constituição, e temos um grande caos entre o país legal e o país real. As regiões estão no país real. Não há processo mais sociológico neste País do que o regional, pela cultura, pela economia, pelo dizer, pelo falar, pelo sentir, até pelo telurismo da região. Quero também deixar claro que não defendo o federalismo nordestino, nordestino que sou – e isso muito me honra – , mas o federalismo regional começa no Nordeste, com as superintendências regionais, que é o embrião do futuro federalismo regional; não defendo, até porque não deveria fazê-lo e não o farei nunca. Defendo o federalismo do Brasil, o federalismo das regiões. Sou contra a discriminação, que muitas vezes se levanta; sou contra tratamentos diferenciados. Não queremos tratamento diferenciado; queremos o tratamento que deve ser dado às regiões do Brasil, isto é, transformá-las em pólos de poder político-administrativo, que é só o que falta a elas. Portanto, não tenho receio, de maneira alguma, de voltar aqui e dizer que o regionalismo foi implantado por lei, como o foram o presidencialismo, a República e o federalismo, pelo Decreto Constituinte – no Brasil existem decretos constituintes – nº 1, de 15 de novembro de 1889. V. Ex.as, que conhecem a história constitucional brasilei- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) ra, sabem que a Constituinte de 1891 somente cumpriu a pauta do decreto constituinte. É por isso que se diz que nunca se exercitou neste País o poder originário; que sempre se tem exercitado o poder derivado, e agora até se diz – como disse o Relator da Emenda Sarney, que substituiu o Deputado Flávio Bierrenbach, o ex-Deputado Valmor Giavarina – que se exercita nesta Constituinte o poder instituído. Há até quem pense que esta não é uma Assembléia Constituinte, mas uma Assembléia Instituinte. Acho que respondi à primeira pergunta. Com referência à segunda, acho o seguinte: as soluções epidérmicas, passageiras e transitórias são emergenciais. Todas as pessoas que falaram aqui sobre descentralização de poder mostraram que a emergência não resolve nada neste País. Chegou a hora de definirmos a posição da região. Se a Constituinte não o fizer, quem o fará? O povo? É possível que depois o povo faça. Quem sabe se, depois, na praça pública, ou num outro tipo de assembléia, o povo defina as posições políticas, econômicas e sociais do País. Mas enquanto houver Constituinte, e graças a Deus que ela existe, estaremos batendo à sua porta, trazendo coisas novas, porque não me adiantaria aqui trazer coisas que não mexessem com os Constituintes e que não trouxessem um espírito de mudança. Por isso acredito que, se se tiver de fazer, que se faça definitivamente; que não se faça com emergência. Ainda há pouco o prefeito disse que eles e governadores voltarão aqui para uma reforma emergencial. Lembro-me de quando estive em Portugal, e Portugal passou alguns anos sob o regime de emergência; depois chegou a hora de ser definitivo. Agora está definitivo, a ponto de o Presidente dissolver a Assembléia da República e não haver problema algum. De modo Exm.os Srs. Constituintes, pleiteamos que se defina, de uma vez por todas, o pólo regional brasileiro, ou seja, a região; se for o caso de fazê-la institucionalizada, que se faça de maneira definitiva, porque já começamos o processo gradual, mas lamentavelmente as superintendências foram esvaziadas. Hoje, todos sabem que a Sudene é repassadora de recursos do Finor, quando poderia ser já o pólo, como a Sudam, a Sudeco, a Sudesul, já deveriam estar num estágio muito avançado do federalismo regional, quem sabe já com o funcionamento do parlamento regional. Defendemos soluções definitivas e por isso confiamos na competência, na inteligência e sobretudo no patriotismo dos Constituintes de 1987. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao Constituinte Alexandre Puzyna. O SR. CONSTITUINTE ALEXANDRE PUZYNA: – Bem, o meu amigo Waldeck Ornelas praticamente esgotou o assunto, se bem que esse assunto se esgotou, penso assim, porque, a complexidade disso que está nos propondo talvez ainda seja muito grande em relação ao poder de cultura de que o nosso povo dispõe. O grande problema a educação. O homem é o único animal que deve ser educado para saber viver em sociedade. Mas, de qualquer maneira, acho que foi fundamental essa sua posição, e vamos ter de nos debater muito aqui para podermos chegar lá. Acredito que essa complexidade que vai onerar demais esse processo. Se já estamos com dificuldades assim, imaginem se criarmos as regiões e as institucionalizarmos. Aí, vai ser difícil, mesmo; vai ser realmente uma situação, talvez, contraditória com a atual. Quero parabenizar esta Subcomissão, porque está criando debates muito bons. O prefeito de Araranguá, Manoel Mota, meu caríssimo amigo, levantou o problema da agricultura. Eu queria dar realmente um gancho a ele. Quando falou em criação de porcos, suinocultura, quero lembrar que foram importadas 70 mil toneladas de carcaça de porco. Para quê? Só ser- 74 viu para que houvesse uma defasagem, uma queda precipitada nos preços e por isso estamos nesta situação tão lamentável. Grande parte dessa carne ainda se encontra em Santos e em outros portos. Temos ainda 350 mil toneladas de milho que ainda estão nos navios. E tudo isso com essa safra que temos aí... Isso só nos revela o quê? Só nos revela que estamos praticamente caminhando às cegas. É preciso que tomemos uma decisão, porque entre a palavra e a ação existe uma considerável distância. Temos visto isso, prefeito, que fui e, como bem salientou o colega Manuel Mota, acho que nós todos temos um papel preponderante a exercer. Talvez a máxima de tudo é que o brasileiro tem de ter mais vergonha na cara, para de fato trabalhar com seriedade. Acho que a sua proposta, meu caro Saraiva, é muito boa, mas a sua concretização só virá no dia em que o Brasil encarar com seriedade todas as propostas. Dou meus parabéns ao prefeito do Amazonas, que sintetizou muito bem a pobreza dos municípios. Essa dificuldade só vai ser superada no dia em que tivermos uma reforma tributária mesmo, que leve em consideração a área do município, a população do município, porque, senão, os municípios mais ricos vão continuar a ser sempre os mais ricos, e os pobres vão cada vez empobrecer mais. Mesmo dentro de Santa Catarina – e o Mota sabe muito bem disso – temos municípios em que o prefeito não tem dificuldade econômico-financeira agora, não tem ainda porque são municípios cujo poder industrial é muito grande. Cito até um exemplo: Jaraguá do Sul. É um município em que o prefeito chora, mas de barriga cheia, porque tem dinheiro, inclusive no over, no open, etc. Não é verdade? Então esse é o problem a. Essa disparidade entre municípios – vou ser bem claro – é muito grande. Ontem tivemos um painel em que se disse que os vereadores de certas localidades ganham menos do que o salário mínimo. Não acredito nisso. Pode ser que seja um pouquinho mais do que o salário mínimo, mas município que paga um pouquinho mais do que o salário mínimo não é um município. É o caso a que o Mota também se referiu. Quanto ao prefeito de Imperatriz, louvo sua participação, porque levantou um tema muito importante, a juventude. Hoje, a nossa juventude está desestimulada, e um país que não tenha juventude preparada para encarar os fatos do futuro não é país, não é sequer nação, porque país é área, mas nação somos todos nós. De maneira que gostaria de ouvir do nosso Paulo Saraiva uma pequena elucidação sobre como seria encarado o problema dessa grande região. Como ficaria? O SR. PAULO LOBO SARAIVA: – Falei, ao final da exposição, que o federalismo regional, para se institucionalizar definitivamente, teria de encarar os três aspectos: Poder Executivo, Poder Judiciário e Poder Legislativo. Do aspecto do Poder Executivo – é uma sugestão, é claro – ele poderia ser escolhido quando da eleição de Presidente e vice-Presidente da República, e vice-Presidente regional. Os regionais votariam nos seus candidatos a vice-Presidente ou a governador da região, que era exatamente quem iria chefiar o Poder Executivo, na região. Isso, na Itália, se chama Presidente da Junta. Existe uma junta regional, que é o Executivo, e o presidente da junta é o governador. Com referência ao Poder Judiciário, já temos experiências boas; os Tribunais Regionais do Trabalho comprovam que é possível a existência de tribunais regionais. A Constituição de 1967 indicava um Tribunal Federal de Recursos em Recife e outro em São Paulo. A emenda de 1969 os retirou, mas a Proposta Arinos já indica isso. Finalmente, o ponto mais expressivo da proposta é exatamente o da criação de um Parlamento regional, por- 75 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) que sabemos que o Congresso Nacional tem o duplo poder de legislar para a Nação e para determinados grupos, através das leis federais, como o Estatuto dos Funcionários Públicos Civis da União, e também, como é o caso do Senado, para o Distrito Federal. É a única situação em que a lei não passa por revisão da outra Casa, porque nosso processo é o da revisão. O projeto entra numa Casa e é revisto pela outra. É a compensação dos Estados com o Senado. E há quem diga que o Senado é hoje mais regional do que estadual. Se formos verificar os pronunciamentos dos Senadores, vamos ver que S. Ex. as falam mais pelas regiões do que pelos Estados. O Prof. Bonavides diz que, não está na Constituição, mas o mandato é regional. Então defendemos o Parlamento regional, para que sejam feitas leis para a região. Por exemplo, a lei do algodão no Nordeste, a lei da soja, no Rio Grande do Sul, a lei do café, em São Paulo etc. E também para não se fazer uma legislação só para regiões diferenciadas geograficamente, como é o caso da correção monetária. A correção monetária obriga o agricultor do Nordeste a ser inadimplente, porque a produção de um hectare de terra do Nordeste é menor do que a de um hectare de terra em Ribeirão Preto, por exemplo. Então é uma inadimplência sociológica e consensual, pela via legal. Montesquieu já dizia que o habitat é muito importante na elaboração da lei. Todo os grandes cientistas políticos do mundo sempre fizeram a relação da ecologia, do habitat com a lei. Para que se faça uma lei bem feita, que atenda às peculiaridades e aos interesses do povo, é preciso que haja essa relação habitat – o local – e norma. Lamentavelmente, no Brasil não há essa relação. E é por isso que as leis são desrespeitadas, inclusive a própria Constituição brasileira. V. Ex.as devem ter visto, há algum tempo, uma propaganda nos maiores jornais e revistas do País, que dizia: "Esta lei tem de pegar", um malhete maçônico de um lado; ia ver-se qual era a lei que tinha de pegar no Brasil, e era a Constituição Federal, exatamente o art. 160, que trata da ordem econômico-social, onde estão todos os direitos sociais, todas as conquistas do constitucionalismo moderno. Então por aí se vê que esse é o esquema. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte José Maranhão. Ausente. Com a palavra o próximo inscrito, o Constituinte Raul Ferraz. O SR. CONSTITUINTE RAUL FERRAZ: – Sr. Presidente, quero parabenizar o Dr. Paulo Bonavides pela brilhante palestra, como também os dem ais conferencistas, que trataram de assuntos para nós, que fomos prefeitos, muito bem conhecidos. Vou aproveitar o meu tempo discutindo o problema da Federação, aproveitando a presença de constitucionalistas desse quilate para expender alguns argumentos. Conheço a tese do Dr. Paulo Bonavides, muito bonita, e considero que ela só tem um defeito: manter o Estado. E ele o mantém não porque seja bom. Mas vamos reconhecer que o Dr. Paulo Bonavides também aplica o jeitinho brasileiro. Ele sabe que desmanchar alguma coisa no Brasil, por mais inútil que seja, é muito difícil. Então ele prefere deixar o Estado e tenta corrigir o problema criando uma outra coisa. Esta é a minha conclusão, porque ele não dá nenhuma explicação porque se deve manter o Estado. Não vim participar da Assembléia Nacional Constituinte para deixar para depois as coisas que há tanto tempo aguardamos para dizer. Sei que muitos assuntos de que estou tratando nesta Assembléia, nas Comissões por onde ando, são desagradáveis, porque, por incrível que pareça, esta Constituinte gostaria mesmo era de manter tudo como está. Isso ocorre até com a Justiça do Trabalho, que considero o organismo mais dinâmico da Justiça brasileira. Na Comissão do Poder Judiciário, quando consultado, o seu representante declarou: "Queremos ficar como estamos." No entanto, querem tirar os vogais. Infelizmente, o Constituinte está defendendo as teses em doses homeopáticas, à prestação. Defendo a descentralização. Há quem pense, quando defendo a extinção do Estado, que ando por aí defendendo a centralização do poder. Ao contrário, eu vivo defendendo a mais pura de todas as descentralizações, pois temos vinte e três Estados que normalmente – convenhamos – são administrados pelas nossas vinte e três oligarquias maiores, as que estão de plantão até serem substituídas por outras. Oligarquias têm dessas estórias. Elas caem e são substituídas por outras, que sabem arrumar-se. Então, ao invés de centralizar a administração em vinte e três oligarquias, vamos descentralizá-la em quatro mil municípios. Fica muito mais difícil dominar um país dividido em quatro mil municípios autônomos. Defendo esta tese. Nunca vi apego maior que aquele que o brasileiro tem por coisa inútil, como ocorre no caso do Estado. Não sei como é que se defende es se aspecto tão inútil com tanto apego. O Constituinte Mansueto de Lavor está dizendo que nunca fui candidato a governador. Eu até que gostaria de ter sido, para ver se mudava alguma coisa. Mas acontece que não apresentamos essas teses porque queremos ser g overnador. Quem pode apresentar esse tipo de trabalho é um Deputado Federal ou um Senador, mas ele ou quer ser governador, ou já foi eleito, ou tem um candidato da sua preferência. Então, por essas razões, termina escondendo esse assunto do povo. Pois bem, se isso me custar o não ser governador da Bahia, não há problemas, pago o preço. Mas não vou deixar escapar a oportunidade de me referir a esse assunto. Eu digo que o Estado é inútil, e até procuro provar isso. Por exemplo, vou contrariar aquele princípio de que toda regra tem uma exceção. Vou citar duas regras que não tem exceção e quem conhecer a exceção, por favor, aponte. A primeira é a seguinte: tudo que o Estado faz pode ser feito pelo município. A segunda, tudo que o Estado faz já é feito por um órgão federal. E às vezes ainda o Governo Federal ou o município já estão fazendo, como disse um colega há poucos instantes. Então, por que esse apego a uma coisa tão inútil? Não entendi até hoje. Quando nosso conferencista defende o federalismo da região, dizendo que os organismos regionais são uma espécie de embrião para isso, eu interpreto isso de modo contrário. Defendo muito o sistema francês dos departamentos. Os nossos organismos regionais são embriões dos departamentos franceses, até porque os grandes sociólogos do mundo dizem que o Sistema Federativo vai acabar. Não vou ver aprovada essa tese, provavelmente, nesta Constituinte, mas o tempo vai encarregar-se, independentemente do que apresentei aqui, de acabar com o Sistema Federativo no mundo. Até porque o mundo moderno deu ao poder central certas obrigações, e isto em qualquer parte, seja no sistema socialista ou capitalista, conferindo-lhe certos poderes. E essas obrigações crescem de tal maneira que isso não vai mais ter cabimento no futuro. O sistema de comunicação está sendo uniformizado, também o sistema industrial, tudo, até a linguagem; até os sotaques estão desaparecendo neste País. Então o tempo vai encarregar-se de acabar com o Sistema Federativo e vai substituí-lo por confederações: confederação sul-americana ou latinoamericana, a Confederação do Mundo Árabe, a Confederação Européia, de tudo isso já temos embriões. Mas não vejo por que esse apego ao Estado. Termino dizendo apenas que o grande problema do municipalismo brasileiro – e estamos na Comissão dos Municípios – é não ter uma bandeira de luta. A bandeira de luta do municipalismo é zero vírgula tanto por cento, para zero vírgula tanto por cento da alíquota tal; é o DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) imposto tal trocado pelo imposto tal; é uma reforma tributária que implica em trocar o imposto por outro imposto. Essa é a bandeira. O operário tem a sua bandeira de luta; diz que o sistema capitalista não é bom para ele, ele quer o sistema socialista. Não podemos impedi-lo de ter esse raciocínio porque ele é explorado, e o explorado no Sistema Federativo do Brasil é o Município. (Palmas.) Então, da mesma forma que o operário, para viver bem no sistema capitalista, quer ser bem remunerado – e é por isso que ele faz as greves – o municipalismo brasileiro também devia ter a seguinte bandeira de luta: federação não interessa. Para que serve a federação para os municípios? E se ela não nos aquinhoa bem, não a querem os. Os prefeitos têm que dizer que não querem ser liderados pelos governadores. O municipalismo brasileiro é liderado por governadores. Por melhor que seja o governador – e eu até votaria em Quércia, em São Paulo – este não deve liderar os prefeitos. Mas é com esse tipo de coisa que o municipalismo brasileiro precisa acabar. Vou fornecer um dado para encerrar. Entre 168 países do mundo, 92% deles, ou seja, 153, não têm Estado, ou seja, o Estado é um órgão inútil. Cento e cinqüenta e três países não têm Es tado, e os municípios desses 92% dos países não se aglutinam em Estados. Os municípios, nesses 153 países que não têm Estados, arrecadam mais ou menos o que hoje aqui no Brasil arrecadam o município e o Estado juntos. Então, por que o município quer lutar tanto por um Sistema Federativo? Eu não entendi. A minha proposta é acabar. Não sei que aceitação essa minha proposta vai ter aqui dos meus companheiros de Comissão. A proposta será apresentada e chegará aqui. Gostaria de receber a manifestação de V. Ex.as através do voto. Pelo menos um voto eu gostaria de ter aqui. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Sr. Presidente, companheiros, estamos recebendo aqui alguns prefeitos do Estado do Amazonas, até de Santa Catarina, e a tônica de todos eles é de que o município realmente não tem recebido o tratamento que merece. Quase todos eles, com algumas exceções , têm condições de atender aos seus munícipios. A idéia do companheiro Constituinte baiano, do federalismo municipal, talvez seja até mais simpática do que o federalismo regional, no meu entender. Esse quarto poder é mais um organismo de burocratização e não vai atender às necessidades dos municípios. O Dr. Paulo Lobo disse que os prefeitos gastam 60% dos seus recursos em viagens a Brasília para atender às necessidades do seu município. O Prefeito Mota diz que os Prefeitos podiam realizar obras com preços 7 0% menores do que o Estado as realize, e 40% menores que os praticados pelo Governo Federal. Na realidade, estamos vendo que o resultado das discussões que aqui estamos tendo será levado talvez a uma Comissão, não sou muito favorável a isso, fui contra a Comissão de Sistematização, porque acredito que será também uma maneira de nos afastar daquilo que estamos discutindo. Gostaria de fazer uma pergunta ao Dr. Paulo Lobo, que defende o federalismo regional. Os Estados têm organismos de Governo para atender aos Municípios, mas não funcionam. Em que o federalismo regional poderia atender aos municípios melhor do que estes mesmos organismos que o Governo tem nos Estados? Também gostaria de saber quantas regiões seriam necessárias para atender à realidade brasileira? Se o Dr. Paulo pudesse me responder, agradeceria. 76 O SR. PAULO LOBO SARAIVA: – Com referência à primeira pergunta – quais os tipos de organismos que vão atender aos municípios – é claro que não vou esperar que seja resolvido pela lei, porque se fosse para ser resolvido pela lei, outras coisas também seriam, até a fome. Bastava baixar uma lei dizendo: nunca mais haverá fome no Brasil, e revogo as disposições em contrário. Então, quando discutimos federalismo regional temos de sair do plano legalista e pas sar para o sociológico, consensual, da espontaneidade, o do cumprimento da norma sem a polícia, sem organismos, sem exigência da fiscalização. Então, se o federalismo regional for mentalizado, e através de um consenso ele for institucionalizado, a decorrência de sua institucionalização será exatamente o benefício para o governo local. Às vezes, não falo muito em município. Eu sou municipalista, mas falo em governo local. V. Ex. as sabem que há uma diversificação de governos locais. A preocupação do Constituinte Raul Ferraz é exatamente essa. Ele se debate pela extinção dos Estados, porque realmente eles não foram criados no Brasil, pelo consenso sociológico, são produtos de decreto do Marechal Deodoro da Fonseca, no dia 15 de novembro de 1889, como o presidencialismo brasileiro também não é produto do processo político, mas de decreto constituinte. Veja V. Ex.ª como é interessante no Brasil: um decreto com força constituinte, e assim por diante. Se realmente a região atingir esse patamar, e só poderia fazê -lo pelo processo político, será uma decisão política; aí, sim, defluirão disto as soluções para as outras entidades políticoadministrativas ou as outras pessoas constitucionais, como é o caso do município. Defendemos, e o Constituinte Lavoisier Maia já defendeu essa tese nessa Subcomissão, que o município deverá fazer parte da federação, porque o município no Brasil, embora sua criação tenha antecedido a Independência, deve legitimidade à Independência. A Constituição de 1824 é legitimada pelas Câmaras, e há algumas que a lei não legitimou. O município também antecedeu a República, mas a Constituição Republicana de 1891 relegou o Município a um artigo só, o art. 68, que determinava que aos Estados caberia a organização do município. Vossa Excelência veja o desprezo do federalismo legal ao municipalismo sociológico, concreto e real do Brasil. Acredito que são conseqüências, ou seja, não há fórmulas legais nem normativas para essas mudanças. As mudanças têm de ser políticas e sociológicas. A lei é apenas a apoteose da mudança social. V. Ex.ª perguntou também quantas regiões seriam necessárias. Já temos cinco regiões geográficas. Poderemos começar por elas, mas há diferenciações geoeconômicas entre as regiões geográficas, até por que há a Amazônia legal e a Amazônia real, o Nordeste legal e o Nordeste real. Temos de ficar com as áreas reais, porque, se estamos no campo da ciência política e da sociologia, não podemos ficar com a lei do Polígono das Secas, que diz que Minas Gerais faz parte do Nordeste – não vou discutir isso aqui, porque é outra história; que o Maranhão, que é meio norte, faz parte do Nordeste; que a Bahia faz parte do Nordeste. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, Srs. Con$ituintes, ouvi atentamente as quatro exposições feitas nesta Subcomissão. Devo sublinhar que, de princípio, me enamorei da idéia do federalismo regional, aqui exposta pelo Dr. Paulo Lobo Saraiva. No curso da primeira indagação feita a ele, pela sua colocação, quando proclamou que é contra o tratamento diferenciado, devo sublinhar que esse namoro começou a 77 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) esfriar, porque exatamente em razão do tratamento igualitário que se dá, hoje, nesta República é que regiões detentoras de um poder político pequeno, como é o caso da Amazônia e do Nordeste, estão colocadas num verdadeiro ostracismo, num verdadeiro estado de abandono e até de falta de respeito, que se evidenciou cristalinamente aqui com a colocação feita pelo meu companheiro Floriano Maia Viga, Vice-Presidente da Associação dos Municípios do Amazonas, quando retratou o drama em que nós, nortistas, vivemos, e dimensionou com clareza o estado de miséria em que vive nosso povo, deixando, nas entrelinhas, transparentemente evidenciada a quase falta de esperança já no coração de quantos vivem na Região Norte, em razão da falta de apoio mais efetivo dos diversos segmentos da administração pública federal brasileira. Em decorrência dessa manifestação de S. Sª, cheguei, como disse, a esfriar esse namoro inicial, porque não concebo que sejam tratadas de maneira igual às várias regiões diferentes do País. É exatamente em razão desse tratamento diferenciado, não obstante as queixas dos companheiros do Sul e do Leste, que o municipalismo avançou de forma profunda nessas duas grandes Regiões do País, enquanto nós, do Norte e do Nordeste, permanecemos num estado permanente de carência, dentro do princípio de divisão de receitas, dividindo as misérias para nosso povo. Parece-me que esse não deve ser o tratamento daqui para frente. A Federação tem de olhar o município como um instrumento, um elemento da sua integração. Não se pode, de forma alguma, continuar esse sistema de distribuição de rendas da maneira que é feita, sob pena de chegarmos a um estágio social terrível, que vou extrair das suas próprias palavras, quando disse que talvez amanhã o povo faça as modificações que deseja, e, nas entrelinhas dessa colocação, ficou uma grande interrogação, que, no fundo, entendi. A respeito do federalismo, gostaria de saber como será eleito esse vice-presidente regional, se de forma direta ou indireta. Como será eleito esse parlamento regional? Qual a idéia que S. Sª esposa nesse sentido? Gostaria de enfatizar a importância da exposição do Dr. José Ribamar Fiquene, do Maranhão, quando abordou de forma profunda um problema da maior gravidade para nosso País, porque é no jovem que devem repousar as grandes esperanças do amanhã. O prefeito de Araranguá, Santa Catarina, abordou um problema para mim muito importante, o das associações microrregionais. Parece-me que aí está a solução, pelo menos em parte, dos graves problemas nacionais. Conheço o sistema catarinense – estive lá com a Secretária Eliete, Secretária de Justiça no Amazonas, e tive oportunidade de dimensionar os resultados positivos alcançados – e o mineiro, também, que tem dado excelentes resultados para a solução dos seus problemas. De maneira que, apenas fazendo essas colocações de ordem geral, gostaria de obter a resposta do Dr. Paulo, a respeito de como seriam eleitos o parlamento e o vice-presidente regional dentro do federalismo regional. O SR. PAULO LOBO SARAIVA: – Fico muito feliz com suas colocações, respeito seu talento e sua inteligência. Com referência à primeira pergunta, está havendo apenas um problema de semântica, que, às vezes, afasta as pessoas. Confesso que quero continuar contando com a simpatia e a amizade de V. Ex.ª. Quando disse que era contra o tratamento diferenciado – disse e repito – é com referência à palavra diferenciado no momento atual, porque, quando se fala em tratamento diferenciado no Brasil, normalmente surgem duas regiões, Nordeste e Norte. Isso até já foi objeto de consagração no dispositivo constitucional. V. Ex. as sabem que a Constituição de 46, nas suas Disposições Transitórias, consagrou um dispositivo que determinava que 3% da receita da União fossem destinados à solução do problema da seca do Nordeste – seca e flagelado são palavras que doem muito – e para a Amazônia. Então V. Ex.ª bem vê que as Regiões Nordeste e Norte, na atual Constituição, ficarão nas Disposições Transitórias, e não defendemos transitoriedade para a solução do problema político das regiões. Diferenciado hoje tem um conceito e um sentido. Realmente, sou contra, porque nem o Nordeste nem o Norte precisam de esmolas, nem tampouco de ficar pedindo por favor que se coloque nas Disposições Gerais e nas Transitórias um dispositivo que, durante determinado tempo, pode vingar e, depois, desaparecer, como foi o caso desse do Nordeste do Norte. Sou contra esse tipo de tratamento e solução. Portanto, a palavra diferenciado hoje tem outro significado. Mas entendo que, como as regiões são díspares geográfica e economicamente, elas terão estatutos diferenciados, como ocorre na Itália. É claro que o estatuto que vai tratar da Região Sudeste será diferente do das Regiões Nordeste e Norte. Na Itália, há pelo menos três tipos de estatutos, exatamente para estabelecer as diferenças geográficas, porque a diferença começa pela geografia, e aí todos temos que, até certo ponto, ser marxistas. É o problema da infra-estrutura sobre a qual repousa a superestrutura. Estamos discutindo a superestrutura, mas precisamos discutir a infra-estrutura, a econômica. Aí quase todo mundo concorda com o Dr. Marx, aquele que disse que, depois de resolvida a infra-estrutura, resolver-se-ia facilmente a superestrutura política, a religiosa etc. Não vou entrar nesse detalhe, porque é sociológico e econômico. Há, realmente, diferenciação, e não podemos afrontar a natureza se ela fez a diferença das regiões. Por que a lei vai afrontar a natureza e querer fazê-las iguais? Há um dispositivo muito polêmico na Constituição e, com certeza, os Constituintes de 1987 irão discuti -lo. É aquele que diz: "Todos são iguais perante a lei". Será que a lei pode igualar pessoas e regiões? A lei tem esse condão de igualar pessoas e regiões? Esse dispositivo não é liberal-burguês? Será que não é do Parlamento da Revolução Francesa? E, no Estado social, como se igualam as condições e como a lei confere igualdade concreta? Na hora de implementar o direito social – e a Constituição brasileira está transportando para esse campo, terá que dizer casa é casa, comida é comida, saúde é saúde etc., etc. – não há mais a retórica constitucionalista de dizer que se resolve o problema com voto etc. Assim, Sr. Constituinte, com referência ao tratamento diferenciado, há apenas um problema de semântica, pois o significado diferenciado hoje, no meu entender, é diferente do que tinha anteriormente. Com referência às eleições, nós as defendemos a níve l direto, nunca eleições indiretas. Embora a Itália, a França e a Espanha as façam indiretamente, defendemos as eleições para Vice-Presidente por ocasião das eleições do Presidente da República. Cada regional votará no candidato da sua região. V. Ex.ª votará nos candidatos do Norte, nós votaremos no candidato do Nordeste, e assim por diante. O Parlamento regional também será eleito diretamente, é a assembléia da região que irá – de acordo com as competências que lhes forem deferidas pela Constituição Federal, pois não se perde o comando federal – elaborar, discutir e promulgar as leis de caráter regional, como ocorre na Itália. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao Constituinte Eliézer Moreira. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, nessa questão do federalismo regional pareceme que quanto mais nos aprofundamos nela ou no seu conhecimento mais fundo mergulhamos em nossas dúvidas. Evidentemente, ficou evidenciada uma dúvida muito grande deste Plenário em relação a esse quarto nível de governo, que, no dizer de alguém, não me recordo quem, seria o grande Estado burocrata. Há também uma pergunta, já feita e que gostaria fosse respondida, pois é igualmente DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) uma dúvida minha. Como ficaria esse parlamento regional? Qual seria a sua competência? A que viria, já que teríamos o parlamento nacional, o estadual e o municipal? Essa seria mais uma esfera, mais um nível alocado, talvez mais um nível complicador dessa questão. Sr. Presidente, teria algumas outras perguntas, mas basicamente elas já foram esclarecidas por meio das interpelações dos colegas que me antecederam, mas eu gostaria de fazer algumas reflexões e anotei alguns pontos em rápidas pinceladas. O Prefeito José Ribamar Fiquene falou numa coisa importantíssima para todos nós hoje, ligada à educação: essa política preventiva basicamente abandonada da prioridade nacional nos últimos tempos. Mudaram -se as políticas de futuro, as políticas preventivas neste País, e a educação é o melhor exemplo, por políticas compensatórias todas fugazes para o futuro da nacionalidade brasileira. O Prefeito José Ribamar Fiquene falou de conservação de valores, preservação cultural, tema extremamente importante porque visa a preparar o homem local para suas novas responsabilidades de rastreamento das ações públicas que se quer que esta Constituição produza. No fundo, preparar o homem para o exercício pleno da cidadania. É a retomada da cidadania nesta Nação. O Prefeito Floriano Maia Viga mostrou-nos um quadro de perplexidades quanto às doenças, às dificuldades ambientais e, principalmente, aos problemas e questões nacionais, alterados a todo momento, não dando ensejo à autoridade local de resolvê-los. Esse trato unitário das questões não tem sido capaz de criar neste País posições inovadoras capazes de provocar as mudanças que o povo brasileiro quer. O Prefeito Manoel Mota, de Araranguá, mostrou-nos um fato que nos causou surpresa, e tomou como exemplo as ações integradas de saúde como uma nova forma de resolver e solucionar questões, na área de saúde, com simplicidade e rapidez. O que se fez com as ações integradas de saúde parece-me que foi devolver à base a oportunidade de repensar problemas e estabelecer soluções locais. Parece-me que é o grande retorno para melhor espírito do federalismo. O mesmo Prefeito Manoel Mota falou nas micro associações, que no meu Estado, o Maranhão, são as associações de regiões, as municipais que, de um modo geral, cobrem regiões muito extensas, num Estado muito extenso. Parece-me que essa solução simples da reunião dos prefeitos das regiões em associação, da reunião dos vereadores das diversas regiões do Estado, também em associações, é um a maneira de integrar ações, de se tentar ter uma visão comum de problemas e de questões que são comuns àquelas regiões. Acho que esse é um exemplo muito bom para as regiões do território brasileiro – Regiões Norte, Nordeste. Por que as autoridades, a nível estadual, também não provocam esse tipo de associação, para que elas, como parte do Governo, permitam à sociedade civil expressar melhor seus problemas e os seus sentimentos? Sr. Presidente, no fundo, o que tenho sentido aqui, a cada dia, é que essa Constituição será muito importante para este País e de tudo o que de mais alto aqui ouvi o que ficou foi um grito quase que de desespero e de impotência das autoridades locais, dos prefeitos que aqui vêm, diante de efeitos até perversos criados pela ação dos governos centrais, sempre intervindo na vida local, sem um melhor conhecimento de causa e alterando freqüentemente as regras do jogo. Vimos autoridades que se mostram perplexas em relação à distribuição do ICM, à regra imposta e alterada a todo momento. A sociedade civil que nos acompanha, que acompanha os trabalhos da Constituinte, nós mesmos, que temos essa enorme responsabilidade de fazer, neste País, uma Constituinte que acabe com essas coisas, que imponha procedimentos, talvez até menos levianos à ação pública, estamos, a cada vez que uma audiência públi- 78 ca se processa, pelo menos neste Plenário, sentindo aumentar a nossa responsabilidade perante esta Nação. Concluindo, Sr. Presidente, quero saudar esses prefeitos, esses dirigentes de entidades que vêm das regiões mais longínquas à Constituinte, trazer, com a maior boa vontade, com a maior simplicidade o seu pensamento e o de seus munícipes. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência informa ao Plenário que ainda temos dois constituintes inscritos, e concede a palavra ao Dr. Paulo Lobo. O SR. PAULO LOBO SARAIVA: – Sr. Presidente, há um receio muito grande em relação à criação do quarto nível de Governo. Esse é um obstáculo que sempre surge quando se fala do federalismo regional. Mas volto a dizer que o processo é sociológico. Se a consciência nacional houver por bem instalar esse quarto nível, ele será instalado da maneira mais fácil. Sem dúvida alguma diferentemente da instalação dos Estados federados. Não estamos aqui para exigir uma lei que faça o federalismo regional, estamos levando a idéia para aqueles que vão elaborar a lei, e que, com certeza, vão haurir das fontes sociológicas brasileiras e políticas os delineamentos da nova Carta Magna nacional. E é por isso que falamos em federalismo regional. Acreditamos no processo sociológico, acreditamos na Constituinte sociológica, acreditamos no patamar sociológico, porque acreditamos na evolução sociológica dos povos. Sabemos das dificuldades que enfrentamos, sob o ponto de vista do Poder Executivo. Quem não as vê, quem não as conhece? Sabemos das dificuldades do Poder Judiciário, do Poder Legislativo, mas acreditamos no processo sociológico e o federalismo se insere exatamente na trilha do processo sociológico e político brasileiro. Não há preocupação de legalismo, queremos apenas alertar as pessoas no sentido de que elas se conscientizem de que a instituição deve ser permanente. Instituição vem do verbo latino – instituire – que significa ficar. E não instituições que desaparecem, que se eclipsam, como é o caso dos Estados federados e, lamentavelmente, o dos municípios que estão sendo marginalizados e feridos na sua autonomia, esvaziados na potência que eles tê m de resolver os problemas da sociedade. Com referência ao parlamento regional, se ele for instalado, a eleição será direta. Os deputados serão regionais, as competências serão, como já disse, definidas pela Constituição Estadual, Federal e pelo estatuto regional. É claro que não se fala aqui, absolutamente, em mudanças do patamar do Congresso Nacional. A Federação, o Congresso, as leis nacionais, as leis federais devem continuar, porque há o Presidente da República, há o Poder Executivo Federal. Mas é claro que continua em uma outra dimensão. Se me perguntarem se os Estados desaparecem, eu já disse: é um problema de evolução. Acredito que as águas só correm para o mar. Quem sabe se os estados não vão correr para as regiões, de vez que eles as compõem? Acho interessante a tese do eminente constitucionalista Dr. Raul Ferraz, e sei que ele sofre muito porque tudo o que é novo é polêmico, todo assunto polêmico imprime uma mudança de postura. E somos lamentavelmente acomodados. E mais, quando se fala em lei no Brasil, há um receio muito grande em se querer mudá-la. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Lavoisier Maia. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Sr. Presidente, hoje assistimos a mais uma reunião importante desta subcomissão, em que os assuntos debatidos desper- 79 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) taram o interesse de todos. Quero inicialmente congratular-me com todos os debatedores – alguns que estou conhecendo hoje, outros que há muito tempo conheço, como o meu amigo Paulo Lobo Saraiva, que me auxiliou quando governei o Estado do Rio Grande do Norte. O SR. PAULO LOBO SARAIVA: – Com muita honra. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Desde a instalação desta subcomissão, declarei-me municipalista, talvez não tanto como demonstra o eminente colega Raul Ferraz. Mas sou municipalista. Pelo fato de tanto ele insistir e se debater pela autonomia municipal, até poderá convencer-me no futuro. Desde o início apresentei uma proposta a esta subcomissão, isto é, de que na Constituição conste também o nome município, na valorização do mesmo. Apresentei uma outra sobre a imunidade do vereador, que entendo de direito. E hoje estamos discutindo esse assunto polêmico e inovador. Também sou do Nordeste pobre e fraco. Tão fraco que todos viram ontem que ele não teve condição de fazer o Ministro da Fazenda. Estou sempre me posicionando ao lado dos mais fracos, posição adotada durante toda a minha vida. O Prof. Paulo Lobo – a quem conheço há muito tempo –, professor de Direito Constitucional, estudioso, inteligente, há muito tempo que vem, como professor, lembrando de coisas novas, inovadoras, a fim de não se ficar apenas na rotina da vida. Ele apresentou a tese do federalismo regional. Na verdade, tudo que é inovador é polêmico, portanto, difícil. Nós, constituintes, não estamos aqui para copiar uma Constituição velha, o que seria mais fácil, de menor trabalho. Temos de trabalhar muito e usar da inteligência e da imaginação para apresentar uma Constituição melhor para o povo brasileiro, porque há muita expectativa e ansiedade do povo. Sei que essa Constituição não irá resolver todos os problemas do Brasil, mas vamos lutar por coisas novas, que sejam debatidas democraticamente e, dentro do consenso da maioria, aproválas em benefício do povo. Então, o federalismo regional já foi amplamente discutido. Já conheço o livro d o Prof. Paulo Lobo. Quero apresentar, Sr. Presidente, uma proposta concreta para ser amplamente debatida e discutida democraticamente. O Relator, professor de Direito Constitucional, vai lê-la e com a sua inteligência e experiência poderá devolvê-la à subcomissão para ser debatida. É a primeira proposta concreta que apresento sobre o federalismo regional, mesmo porque na prática as regiões existem, só não legalmente. Essa é a verdade. Vamos querer instituí-las legalmente. Ouvi os problemas difíceis que o prefeito daquele município distante do Amazonas enfrenta; ouvi o prefeito de Imperatriz, professor que se preocupa com uma coisa muito importante neste País, a educação – e quero congratular-me com S. Sª pela sua tese; ouvi um prefeito, parece-me de uma região mais diferenciada, menos pobre, lá de Santa Catarina, falando também dos seus problemas. Na verdade, em virtude desta reunião de hoje, importante e boa, e posicionando-me desde o início como municipalista, apresento outra proposta para ser amplamente debatida nesta subcomissão, sobre os Tribunais de Contas municipais. Este é outro assunto polêmico, e que deverá ser discutido, aprovado ou não. Mas quero enfatizar minha defesa em favor do municipalismo brasileiro. Eram essas as considerações que ti nha a fazer, e vamos torcer para que novas idéias surjam em benefício do povo brasileiro. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência recebe a contribuição do Constituinte Lavoisier Maia e determina à assessoria que a registre e dis - tribua cópias a todos os membros efetivos e suplentes desta Subcomissão de Municípios e Regiões. A Presidência concede a palavra ao último interpelante inscrito, o Constituinte Eraldo Trindade. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, Srs. Constituintes, Srs. Prefeitos, na realidade, não vou fazer interpelação, mas apenas tecer alguns comentários a respeito das exposições feitas pelos prefeitos José Ribamar e Manoel Mota – especificamente a respeito de explanação feita pelo segundo prefeito, que se pronunciou a favor da reforma tributária imediata. Apoiamos sua tese pelo fato de que compreendemos as reais necessidades dos prefeitos, e achamos que a raiz dos graves problemas sociais que o Brasil enfrenta está nos municípios, pois é o prefeito que vive diretamente os problemas das populações, e a partir disso, num contexto geral, temos os graves problemas sociais. Vou tecer apenas um breve comentário a respeito da agricultura. Sabemos que o Brasil possui vastas áreas agricultáveis, mas que, infelizmente, o agricultor não tem o apoio que deveria receber. Temos o agricultor, no campo, com dificuldade de financiamento, e quando consegue esse financiamento já está fora da época de plantio e perde a safra: o agricultor tem dificuldades imensas de conseguir orientações técnicas, não tem garantia de estocagem, nem tampouco de comercialização. A partir desses fatos, temos graves problemas sociais, como o êxodo rural, o aumento do número de menores abandonados, do índice de criminalidade e também do desemprego, além do problema da habitação, que, hoje, o Governo Federal vem discutindo e nós, constituintes, também. São problemas metropolitanos e que crescem na medida em que o agricultor não tem garantia para executar o seu trabalho no campo e, então, ele vem para a cidade, criando graves problemas sociais para o próprio Governo. E até, diante das exposições feitas, achamos que a solução para todos esses problemas pode começar a partir do fortalecimento do poder municipal, porque o prefeito, com dinheiro e sabendo aplicar, será sempre um bom administrador, mas um prefeito sem dinheiro será uma figura decorativa no cargo, em permanente conflito com os seus munícipes. Estamos apoiando a tese de que a Reforma Tributária deva ocorrer o mais breve possível. Finalizando a nossa explanação, digo que estamos satisfeitos com as exposições feitas, que trouxeram bastante subsídios para que possamos desenvolver satisfatoriamente nosso trabalho nesta subcomissão. Eram esses os comentários que tínhamos a fazer neste momento. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência confirma ao Plenário a reunião das 17:00h de hoje, para composição da pauta dos nossos trabalhos da semana que vem, e do painel de amanhã para exposição e debate a respeito da questão tributária. A Presidência concede a palavra, pela ordem, ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, V. Ex.ª sabe que sou um "Caxias" das nossas reuniões. Devemos estar presentes em todos os momentos em que seja necessária a nossa participação para buscar caminhos e soluções. Mas o colega Eraldo Trindade, como coordenador da bancada da Amazônia, parecer que convocou uma reunião para às 17:00h de hoje. Sr. Presidente, estamos enfrentando um sério problema na questão tributária. Os Secretários de Fazenda do Norte, Nordeste e Centro-Oeste reuniram -se em Manaus, no final da semana passada, e, diante de uma proposta de reforma tributária, formalizada pelo IPEA, esses Secretários firmaram um pacto em cima de uma proposta semelhante com algumas variações. Sinto que nós, do Norte, Nordeste e DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Centro-Oeste, poderemos ser atingidos por essa reforma tributária que vai ser inserida na Constituição, pelo menos na definição de rumos, porque a reforma tributária, na verdade, será feita pela legislação ordinária. Estamos pensando em unir as três bancadas – do Nordeste, da Amazônia e do CentroOeste – para defender esta proposta. Esta reunião, hoje, às 17:00h, é absolutamente importante para essas três regiões. Em função disso, pediria encarecidamente a V. Ex.ª que marcasse ainda hoje, nem que seja à noite, uma outra hora, para que pudéssemos realizar a reunião da nossa subcomissão com vistas à definição das audiências da próxima semana. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência pondera ao Plenário e aos Constituintes José Dutra e Eraldo Trindade sobre a necessidade de termos essa reunião hoje, mesmo porque, em caso contrário, não teremos pauta para a outra semana, uma vez que disporemos da quinta-feira à tarde, amanhã, para os contatos e organização das audiências públicas da semana que vem. Poderemos ter a solução desse problema se estivermos aqui às 17:00h seguramente, em trinta minutos, no máximo quarenta e cinco. A Presidência pede o auxílio do Plenário e dos Srs. Constituintes para dar solução a essa questão. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Gostaria de sugerir à Presidência e aos companheiros o tempo de vinte e cinco minutos, até as 13 horas e 30 minutos, para tentarmos resolver esse problema, permitindo, inclusive, que os senhores debatedores que devem estar cansados, se retirem. Ficaríamos mais vinte e cinco minutos e resolveríamos agora o problema. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência consulta o Plenário a respeito da proposta. Está em votação. Os Srs. constituintes que a aprovam permaneçam como estão. Os constituintes que aprovarem a proposta não poderão retirar-se. A Presidência agradece a presença dos expositores que aqui compareceram e que realmente trouxeram contribuição expressiva aos trabalhos da nossa subcomissão – o Dr. Paulo Lobo Saraiva, representante do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais, e os Prefeitos Floriano Maia Viga, José Ribamar Fiquene e Manoel Mota. Encerro a audiência pública e reabro a reunião para fixação da pauta da semana que vem, solicitando à assessoria que nos a presente dentro de cinco minutos o expediente. A Presidência convida os Srs. Constituintes Waldeck Ornelas, Lavoisier Maia, Alexandre Puzyna, Eraldo Trindade e Raul Ferraz a tomarem assento, para darmos seqüência aos nossos trabalhos. A Presidência dispõe das sugestões, já anotadas anteriormente, para as audiências públicas. Temos propostas para que sejam convidados o IAB a Confea, Confederação Nacional dos Engenheiros e Agrônomos, a Femam, Federação das Associações Microrregionais de Municípios de Minas Gerais, a Sudam, a Sudene, a Sudeco, a Suframa, a Sudesul e a Saren. Dispõe ainda da proposta de audiência pública, apresentada pelo Constituinte Vitor Buaiz, para que seja ouvido o economista Arlindo VeIàsques Filho, Consultor do Projeto EBTU-BIRD sobe o tema Aglomerações Urbanas. Propõe ainda o nobre Constituinte que seja ouvida a Prefeita de Fortaleza, Maria Luíza Fontenelle sobre o tema "Autonomia Municipal". O nobre Constituinte Firmo de Castro propõe que seja ouvido o Dr. Paulo Bonavides sobre o tema "federalismo regional". O Constituinte Mauro Miranda propõe que sejam convidados para um painel os Prefeitos de São Paulo, Jânio Quadros, de Recife, Jarbas Vasconcelos, e do Rio de Janeiro, Saturnino Braga. A Presidência, então, consulta o Plenário a respeito do ordenamento que melhor possa atender às preocupações dos Srs. Constituintes e aos trabalhos da nossa subcomissão. 80 Concedo a palavra, pela ordem, ao nobre Relator, Constituinte Aloysio Chaves. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Os ilustres colegas são testemunhas de que nem como Constituinte nem como Relator tomei a iniciativa de apresentar nomes de personalidades para serem ouvidas durante este período de audiências públicas, exatamente para facilitar que os demais companheiros indicassem especialistas, pessoas de grande destaque no cenário nacional, obviamente versados na matéria objeto de estudo desta subcomissão. Peço a subcomissão que desta lista de 20 ou 30 personalidades, considere o seguinte: vamos dispor dos dias 4 e 5 de maio, pois a partir do dia 6 corre o prazo para o Relator entregar impresso, no dia 11 de maio, o seu parecer. Então, não podemos fazer audiências públicas, recolher subsídios e material, durante o período atribuído ao Relator, para apresentar seu parecer. Seria impossíve l conciliar as duas coisas. Portanto, na seleção destes nomes, pondero que ouçamos esses convidados apenas até o dia 5 de maio. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A subcomissão, segundo determinação regimental, tem até o dia 6, para as audiências públicas. No entanto, a Presidência coloca a sugestão à apreciação do Plenário. Evidentemente, na qualidade de Constituinte, e não de Presidente, sugiro que façamos audiência pública no dia 7. Se realizarmos audiências nos dias 5 e 6, o relator disporá rigorosamente de 5 dias para a apresentação do seu relatório. Na verdade, ele já dispõe de todo esse tempo para ir organizando e ordenando o seu pensamento. Mas a Presidência coloca o assunto à apreciação do Plenário. Evidente que as ponderações do Sr. Relator foram feitas, e o que for aqui deliberado será religiosamente implementado pela Presidência. Concedo a palavra ao nobre Relator. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Peço a V. Ex.ª que pondere sobre o que aqui coloquei, e quero dizer que estou pronto a conciliar e a atender às ponderações de V. Ex.ª. Quando contei o dia 6 foi porque, no dia 11, devo apresentar o meu parecer. Se V. Ex.ª inclui o dia 6, do dia 7, até o fim do dia 11 eu ainda estaria dentro do prazo para a elaboração do meu parecer, que deve ser encaminhado à Mesa da subcomissão até esse dia. Por isso comecei a contar a partir da dia 6. Agora, não sei como será, possível, cumprindo o Regimento Interno da Assembléia Nacional Constituinte, fazermos audiências públicas para recolher subsídios, mandam depois tirar das notas taquigráficas os depoimentos, reproduzi-los e distribuí-los para o Relator fazer o seu trabalho. Temos de nos ater ao prazo. A subcomissão foi a mais liberal possível, pois ouviu todos os nomes sugeridos – e ainda irá ouvir inúmeros outros, mas há um limite de prazo imposto pelo Regimento Interno da Constituinte para elaboração do parecer do relator. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao nobre Constituinte Waldeck Ornelas, para falar sobre o assunto. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – Sr. Presidente, quero abordar um outro aspecto que me leva a concordar com a posição do relator. O ilustre relator terá a partir do dia 6, cinco dias para apresentar o seu parecer, o seu anteprojeto que, então, terá um prazo para receber emendas e ser votado. Estou preocupado. Acho que as audiências públicas têm sido extremamente produtivas e proveitosas, mas entendo que já abordamos todas as dimensões da temática desta subcomissão, com, os Municípios, com as regiões metropolitanas e as microrregiões. Acredito que não seja somente do meu interesse, mas de toda a subcomissão, inclusive do ilustre relator que tenhamos discussões internas, nesta subcomissão so- 81 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) bre os temas aqui apresentados, inclusive, não apenas para conhecermos o pensamento do nobre relator, mas para que ele também conhecer o nosso. Assim, poderemos evoluir sem dificuldades em termos de um número muito grande de emendas ao parecer do nobre relator, ou discussões intermináveis para a votação do anteprojeto que será apresentado. Portanto, as audiências públicas, a partir de agora, têm de ser dosadas também com as sessões de discussões internas da subcomissão sobre sua temática. Em particular, ponderaria que, com relação aos prefeitos de capitais, por exemplo, já foram convidadas associações e dada a oportunidade de trazerem 5 prefeitos, um de cada região do País. Veio apenas um. Desta forma começaremos a definir critérios para evitar que os assuntos se multipliquem e passemos a ter realmente novas sessões de audiência pública com a oportunidade de abordar novos enfoques e obter novas contribuições para os trabalhos desta subcomissão. Esta é a minha posição: q ue este calendário, de agora até o dia 6. seja preenchido com sessões de audiência pública, e sessões de trabalhos internos desta subcomissão. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência, por uma questão de ordenamento dos trabalhos, solicita ao Plenário, inicialmente, que se manifeste a respeito da distribuição das audiências públicas. Se faremos, por exemplo, mais duas ou três e em que dias. Vamos delimitar nossa área de atuação e de trabalho. Se vamos observar rigorosamente , o Regimento Interno, dispomos dos dias 5 e 6 de maio, vale dizer, terça e quartas-feiras da semana que vem. Temos também o dia 4, segunda-feira, mas como há uma deliberação de não fazermos audiências públicas às segundas -feiras, a Presidência consulta o Plenário sobre quantas audiências públicas entende que devemos fazer. Vamos quantificar em número: uma, duas, três. A Presidência indaga se algum Constituinte quer manifestar-se a respeito deste assunto. Concedo a palavra ao nobre Constituinte Eliézer Moreira. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, creio que seria bom para a subcomissão ouvir mais gente. Parece-me, no entanto, que teríamos de adotar um critério mais seletivo daqui para frente. O Plenário verificaria qual o seu nível de convicção sobre os problemas. Não sei que prefeitos ou regiões poderíamos trazer, por exemplo. Devemos tentar adotar um critério seletivo de maneira que se traga aqui apenas aqueles assuntos sobre os quais não haja a formação de convicção maior do Plenário? Senão, vamos ouvir repetição de assunto que vão tomar tempo. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – O nobre colega me permite uma observação? O Regimento Interno prevê a realização de até oito audiências. Amanhã realizaremos a quinta. Poderemos realizar mais três, dias 4, 5 e 6, elas – tecendo um pouco o prazo. Mais audiências não é possível, porque o Regimento não permite. Agora, selecionar as pessoas para esses painéis, como o colega propõe... O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Compreendo, nobre colega, mas fiquei muito atento à intervenção do Constituinte Waldeck Ornélas, e concordo que realmente precisamos de um tempo nosso para discutir as nossas questões. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Acabamos de cancelar a reunião de hoje à tarde, por uma razão nobre e justa, mas perdemos com isso. Agora, em tese, só temos amanhã à tarde e mais três tardes, na próxima semana. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência, para que possamos deliberar, faz a seguinte observação: sobre audiências públicas poderíamos decidir se vamos realizar duas ou três. Se forem três, necessariamente precisaríamos dos dias 4, 5 e 6, pela manhã. Vale dizer, teríamos audiências públicas na segunda-feira e, neste caso, a Presidência necessita da presença dos constituintes, para não fazer uma audiência pública só com o Presidente e o Relator. De outro lado, disporíamos da própria segunda-feira, da terça e da quarta, para debate interno da nossa subcomissão, desde que nesse emaranhado de reuniões a que seríamos convocados os constituintes priorizassem o trabalho da subcomissão, que basicamente termina na semana que vem. Então, sobre essa preocupação, a Presidência ouvirá o Plenário. Poderíamos ter, então, três audiências públicas e completaríamos as oito audiências previs tas anteriormente no Regimento Interno. Em segundo lugar, necessariamente teríamos reuniões marcadas para as tardes, a partir das 17h15min destinadas a debate interno dos assuntos pela própria subcomissão. A Presidência concede a palavra ao Constituinte Eraldo Trindade. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, Srs. constituintes, temos que analisar o seguinte: podemos ter neste período reuniões da nossa subcomissão. Sou a favor de cumprirmos o Regimento Interno e ouvirmos as entidades relacionadas, já que as propostas colocadas em votação foram aprovadas. O que temos de fazer, conforme citou o colega, é selecionar aquelas entidades que podem trazer subsídios que nos interessam e que favoreçam, evidentemente, os nossos trabalhos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência submeterá a votos as seguintes sugestões e solicita aos Srs. constituintes que realmente contribuam com este trabalho da subcomissão. Poderíamos ter mais três audiências públicas, na segunda, na terça e na quarta -feira da próxima semana? Vale dizer, dias 4, 5 e 6, à tarde, teríamos reuniões internas de avaliação. A Presidência coloca em discussão essa proposta. Se nenhum constituinte quiser discuti-la, a Presidência solicita que sejam feitas outras propostas. Concedo a palavra ao nobre Constituinte Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Proponho que sejam realizadas duas audiências públicas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência coloca em votação a proposta de V. Ex.ª Os Srs. constituintes que estiverem de acordo permaneçam como se encontram. (Pausa). Aprovada a proposta. Há alguma restrição? O SR. CONSTITUINTE GERALDO MELO: – Sr. Presidente, tenho uma grande preocupação nesta subcomissão, talvez porque não estive presente a duas reuniões, na semana passada, mas preocupa-me as regiões metropolitanas, criadas pelo Ato Complementar nº 14 e que agora serão inclusas na Constituição. É um assunto que deve ser mais debatido. Deveremos ter realmente mais expositores sobre este tema. Outro assunto que me preocupa é a criação de municípios e distritos. Pelo que entendo, isto não foi debatido nesta subcomissão, mas é um assunto que está dentro do programa desta subcomissão. Hoje, fala-se muito na criação de municípios, mas não se tem uma regra, uma determinação para isso. São assuntos como esses que ainda precisam ser discutidos pelos expositores e por esta subcomissão, para que sejam levados ao Relator e discutidos no projeto final. Daí a minha preocupação em pedir aos prezados companheiros que, ao invés de duas ou três reuniões, se possível for, DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) façamos, à noite, quatro, cinco, seis, para que sejam bem discutidos os temas e apresentemos realmente um bom trabalho de redação final ao Relator para apresentação final à Comissão de Sistematização. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência recebe a contribuição do constituinte. Na verdade, temos que administrar uma série de assuntos de reuniões importantíssimos. A Presidência indaga do Plenário se devemos realizar mais duas audiências públicas, ou painéis múltiplos sobre esses assuntos. A Presidência coloca em votação. (Votação). O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, retificando o que falei ainda há pouco, dada a importância desses assuntos, sou a favor de três audiências públicas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência não vota, nem é necessário. O Plenário manifestou-se por três audiências públicas. Está aprovado por cinco votos contra quatro. O SR. CONSTITUINTE GERALDO MELO: – Sr. Presidente, peço a palavra para uma questão de ordem. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem V. Ex.ª a palavra. O SR. CONSTITUINTE GERALDO MELO: – Para que os assuntos sejam determinados, e tratados pelos expositores... O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita um pouquinho de paciência ao Plenário para, decidirmos se faremos audiências segunda, terça è quarta-feira, ou se, teremos duas audiências públicas no mesmo dia, por exemplo, à noite. A Presidência consulta o Plenário sobre se faremos audiências públicas terça e quarta-feira? Sendo na quarta-feira, uma pela manhã e outra à noite? A Presidência consulta o Plenário sobre se ocuparemos a segunda-feira, ou se faremos essas três audiências públicas na terça e na quarta-feira. Está em votação. (Votação). A Presidência vai proclamar o resultado. Seis votos para terça e quarta-feira. Está decidido que teremos audiência terça e quarta-feira. Para dar andamento aos nossos trabalhos, a Presidência solicita ao plenário que defina os convidados para a audiência pública de terçafeira pela manhã. As terças e quartas teríamos, no mínimo, duas audiências públicas. E, se for o caso, teremos também a reunião das 17h para discussão interna, o que não parece razoável. É evidente que teríamos de suspender uma dessas reuniões das 17h. Poderíamos até passá-la para a tarde e transformá-la em audiência pública. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Sr. Presidente, gostaria de consultar quais os dias e horários que teremos para discutir os temas internamente, nesta subcomissão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Fixadas as datas para segunda-feira, terça e quarta-feira à tarde. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Dificilmente a questão município tomará menos do que duas sessões. Até admito que haja uma para regiões e outra para regiões metropolitanas. O assunto município não se esgota em uma sessão, porque engloba vários aspectos. Por exemplo, como conciliar as coisas? Sobre municípios, 82 já ouvimos as entidades nacionais representantes destes, ouvimos vereadores e a Associação de Prefeitos de Capitais. Tivemos três sessões sobre municípios e teremos uma para tomar posição. A questão é bem díspar, é da competência dos municípios, portanto, relativa a Câmara de Vereadores, a imunidades, a reais remunerações e tomada de contas dos municípios. Quer dizer, são aspectos distintos de uma mesma instituição municipal brasileira. Estamos falando tanto em desconcentração, em descentralização, não podemos discutir esse tema em uma única sessão, senão vamos fazer a Constituição na base da múltipla escolha, como estudante faz vestibular. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o Constituinte Eliézer Moreira. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, uma indagação: o prazo para apresentação de sugestão, elaborada segundo informação que recebo do público, que aqui vem, se esgota no dia seis? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Para efeito de audiência pública e de entrada de sugestão através desse mecanismo, sim. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Esgota-se, então, no dia 6 a minha capacidade de propor? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – É evidente que não. V. Ex.ª tem até dezembro para propor através de emenda e subemenda. Na Subcomissão, dia 6 é o último prazo para apresentação de sugestões dos Srs. Constituintes. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Tudo bem. Então pergunto: a emenda limita-me em quê? Qual a diferença entre a emenda e a sugestão? É apenas de prazo e não de conteúdo ou de forma? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência gostaria que V. Ex.ª esclarecesse. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Por exemplo, apresentarei uma emenda sobre algo que já foi proposto? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Exatamente. A emenda só pode... O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Para matéria nova o prazo esgota-se no dia 6? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Pode ser até uma emenda supressiva, Sr. Deputado, ou substitutiva. Aí é uma questão de procedimento legislativo. Em termos de trabalho a Subcomissão dos Municípios tem prazo para apresentar o seu relatório. A Constituinte tem um eixo móvel, fechamos no dia 6 ou mais precisamente no dia 11, com o trabalho do relator, o tempo e o espaço das Subcomissões. Entraremos, depois, no tempo e espaço da Comissão da Organização do Estado. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Sr. Presidente, no dia 11 o relator apresentará o seu anteprojeto. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos discutir e votar depois. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Temos cinco dias de prazo para a discussão das emendas... O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – ... na Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – Sim. Depois temos mais de dez dias para votação? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Mais dez dias para votação... 83 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNELAS: – E aí se esgota o trabalho da Subcomissão. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Muito bem. Entendi. Posso apresentar à Comissão emenda aditiva? O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Claro. E supressiva. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Supressiva, modificativa, alternativa etc. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência quer colocar para o plenário o seguinte: é evidente que temos um ideal e uma realidade e neste instante temos de trabalhar com a realidade, o que vai implicar em limitações. A presidência quer colocar este assunto em votação, cumprindo as etapas. Necessariamente não vamos colidir com a realidade marcando audiências públicas inócuas às quais não possamos estar presentes. A presidência indaga do plenário, mais uma vez, se vamos realmente fazer três audiências públicas terça e quarta-feira. Os Srs. Constituintes que estiverem de acordo com esta sugestão permaneçam como se encontram. (Pausa). – Aprovada. Vamos agora definir os painéis. Não há que se argumentar mais a respeito deste assunto. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente, pela ordem. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Pois não. Concedo a palavra a V. Ex.ª. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente, a segunda-feira poderia ser usada para reunião interna. Poderemos trabalhar de manhã, à tarde e a noite, se for necessário. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. Teremos, então, segunda-feira, duas reuniões internas da Subcomissão. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Se preciso for, até três. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos definir os nossos painéis. A presidência lembra que para participar de audiência pública, desta Subcomissão, foi convidado o Dr. Getúlio Hanashiro, Secretário de Estado dos Negócios Metropolitanos de São Paulo. O Deputado Vitor Buaiz solicita também que sejam ouvidos o economista Arlindo Velasques, a respeito do tema aglomerações urbanas, que encampa a questão metropolitana, e a socióloga, Prefeita de Fortaleza, Maria Luisa Fontenelle. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Constituinte Firmo de Castro também propõe o professor Paulo Bonavides para falar a respeito de federalismo regional. Temos, ainda, anotada a proposta do Sr. Deputado Mauro Miranda, de se ouvir os Prefeitos Jânio Quadros, Saturnino Braga, e Jarbas Vasconcelos. O presidente gostaria de fazer um apelo ao plenário, no que se refere à questão associativismo microrregional, que não foi ainda explorada e debatida nesta Subcomissão da maneira que deveria. A presidência insiste em que possamos ter um painelista para falar a respeito deste assunto. Temos a proposta para ouvir ainda o IAB, a CONFEA, e mais: Sudam, Sudene, Sudeco, Suframa, Sudesul e Sarem. Vamos definir os painéis e os convidados. Tem a palavra o Constituinte Waldeck Ornelas. O SR. CONSTITUINTE WALDEC ORNÉLAS: – Sugeri que para um dos painéis, por serem assuntos análogos, o Secretário de Assuntos Metropolitanos de São Paulo traga a questão metropolitana, e o ex-Secretário de Planejamento do Espírito Santo, Arlindo Velasques, traga na questão aglomerados urbanos. O Presidente da Femam, sugerido pelo Presidente desta Subcomissão, trataria de tema sobre microrregião. Os três trariam dimensões distintas de um mesmo problema – o aglomerado urbacom conotação urbana ou a integração microrregional. Creio que esse assunto daria um painel mais ou menos homogêneo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Eraldo Trindade. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, em nome da nossa tão sofrida Amazônia, sugiro dentre as entidades relacionadas, que convidemos para um dos nossos próximos painéis a Sudam. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. Já temos anotadas propostas para ouvirmos Sudam, Sudene, Sudepe, Suframa, Sudesul e Sarem. Vamos fazer então um painel a respeito de aglomerados urbanos. A Presidência pondera ao Constituinte Waldec Ornélas e ao Plenário que o assunto Associativismo Microrregional, principalmente microrregiões homogêneas não seja colocado junto com a questão dos aglomerados urbanos. A complexidade seria de tal monta que esse assunto ficaria em segundo plano se tivéssemos o Secretário de Assuntos Metropolitanos de São Paulo, e mais alguém falando sobre aglomerados urbanos. Na verdade, são temas absolutamente correlatos. Esta é uma questão bastante importante. Então, o primeiro painel poderia ser relativo a aglomerados urbanos e regiões metropolitanas. E teríamos, dentro desse tema, a sugestão para se ouvir os Prefeitos Jânio Quadros, Saturnino Braga, Jarbas Vasconcelos, Maria Luiza Fontenelli, o Secretário Getúlio Hahnashiro e, ainda, o economista Arlindo Velasques Filho. A complexidade seria de tal monta que esse assunto dos nesse primeiro painel, o Secretário de Assuntos Metropolitanos de São Paulo, o Secretário Getúlio Hanashiro, e o economista Arlindo Velasques Filho, e se poderíamos aproveitar para ouvir um outro prefeito de Capital para também discutir a matéria. Concedo a palavra ao Constituinte Edésio Frias. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Se porventura formos convidar alguns desses prefeitos, sugeriria o Prefeito Saturnino Braga, porque o Rio de Janeiro é hoje a capital onde existem mais aglomerados urbanos devido às favelas. Tenho a impressão de que isso poderia atender aos objetivos desse painel. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, quanto à questão dos aglomerados urbanos, realmente, precisamos de mais informações. Sobre os problemas metropolitanos, já ouvimos aqui o Prefeito Roberto Requião, de Curitiba, que deu uma dimensão bem ampla do problema, e também vereadores que se manifestaram sobre o assunto. Não que não se queira mais informações a respeito de problemas metropolitanos, mas parece que existem outros sobre os quais não tivemos conhecimento. De maneira que me fixo no problema dos aglomerados e no prefeito do Rio de Janeiro, que poderia enfocar bem este tema. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Muito bem. Então, teríamos na terça-feira, pela manhã, um painel para o qual convocaríamos o Secretário dos Negócios Metropolitanos, Getúlio Hanashiro, de São DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Paulo – vale dizer, o prefeito de São Paulo estaria presente – o Prefeito Saturnino Braga, do Rio de Janeiro, e o economista Arlindo Velasques Filho. Acredito que será um painel bastante rico e teríamos assunto suficiente para debater. Daríamos a ele o título Aglomerados Urbanos. Então, a Presidência coloca em votação. Os Srs. Constituintes que estão de acordo, permaneçam como estão. (Pausa.) Aprovado. Vamos definir a reunião de quarta -feira pela manhã, 9:30 horas. A Presidência sugere o tem a Associativismo Microrregional, da Feman. Dispomos ainda dos diversos órgãos de caráter regional. Com a palavra o Constituinte Lavoisier Maia. O SR. CONSTITUINTE LAVOISIER MAIA: – Sr. Presidente, creio que deveremos opinar no sentido de ouvindo a Sudene, que foi a minha proposta, desde o início, ao lado das outras regiões do Brasil. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência consulta o Plenário – temos aqui: Sudam, Sudene, Sudene, Sudesul e a Sarem – se um painel com 4 expositores é razoável. Fora disso, entraremos na área da exaustão. Então, temos que definir quatro dessas instituições. Vamos colocar em votação a Sudene. Os que estiverem de acordo, permaneçam como estão. (Pausa.) Aprovado. Vamos colocar em votação a Sudam. Os que estiverem de acordo, permaneçam como estão. (Pausa.) Aprovado. Temos ainda a Sudesul e a Sarem. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – A Sarem é mais importante. Com a reformulação recente do Ministério da Fazenda e da Secretaria do Planejamento, as funções da Sarem , que diziam respeito à transferência de recursos aos Estados e Municípios e à capacidade de endividamento, passaram para o ministério da Fazenda, para a Secretaria do Tesouro Nacional. Há que se analisar este aspecto. É relevante essa informação sobre a p articipação dos Estados e dos Municípios no bolo e a maneira de distribuir as rendas. Acho que a Sarem é importante. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Então, para confirmar, teríamos quarta-feira, pela manhã, Sudam, Sudene e Sarem. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, pela ordem. Já que vem a Sarem, que tem uma visão da articulação entre Municípios, Estados e a União, gostaria de sugerir outro órgão que também deve ter informações técnicas a respeito de municípios. Trata -se do PAM – Programa de Ação Municipal, do Ministério do Interior. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Do Ministério do Interior, já teríamos a Sudene. A Presidência confirma se na quarta -feira, pela manhã, ouviremos essas três entidades. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: – A Sudene e a Sudam são dois casos atípicos de superintendência regional. Existem bancos que, evidentemente, têm funções bancárias, embora bancos de desenvolvimento. Não se justificaria. Mais dois casos atípicos: um é a Suframa que, embora se tenha iniciado administrando distrito industrial urbano de zona urbana, hoje tem uma área territorial bastante ampla de atuação. Não sei como se casam a ação da Sudam com a da Suframa. Já que estamos discutindo hoje a questão das regiões, gostaria de lembrar que, há uma que não tem superintendência regio- 84 nal de desenvolvimento, a região Sudeste, exatamente a mais desenvolvida. Ela tem uma secretaria especial, equivalente à Sudene e à Sudam, embora não criada por lei. Talvez fosse interessante ouvir seu depoimento sobre as dificuldades que apresenta o organismo regional da região Sudeste, mais desenvolvida do País, bem assim o que tem ela feito, a que tem ela assistido, a fim de que possamos analisar a questão. Consideraria estes d ois casos interessantes: Suframa e Serse, pela sua atipicidade. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência como constituinte, coloca também ao plenário a oportunidade de, nesse painel, ouvir-se a SEAC, que tem tido uma atuação presente no município. É uma sugestão ao plenário. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, a SEAC funciona mais a nível de microcomunidades. É em nível de prefeituras, mas enfoca sempre a micro-comunidade. São as pequenas exigências comunitárias. Ela não tem a grande visão da problemática municipal. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência vai prosseguir, então, para que possamos fechar mais este painel. Temos Sudam, Sudene, Sarem. Concedo a palavra ao Constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Concordo com o companheiro Waldec a respeito da Suframa, não por ser uma instituição situada nas fronteiras do meu Estado, mas por ser um modelo novo. É o único existente no País. A meu ver, os meus colegas constituintes deveriam ficar inteirados da finalidade do mais poderoso mecanismo de desenvolvimento colocado dentro das fronteiras do Amazonas, mas que foi estendido, por decreto, para toda a Amazônia ocidental. Ela traz benefícios para o Amazonas, para Roraima, para Rondônia e para o Acre. Parece-me que, pelas repercussões que têm os incentivos fiscais em todos os municípios dessa região, que não é pequena, seria importante o depoimento da Suframa a respeito das informações e resultados que ela tem oferecido à economia do País. E a penas para trazer um dado, eu diria que hoje cada dólar importado para a Zona Franca de Manaus sai de lá com 4,3 dólares a mais. Então, esse é um resultado extraordinário para a economia de uma região que sempre foi abandonada e esquecida. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Então, poderíamos fazer esse painel com as agências de desenvolvimento de caráter regional: Sudam, Sudene, Sarem, que é o órgão de articulação, e Suframa; vamos denominar esse painel de apoio às articulações regionais. A presidência fecha mais essa etapa. Teríamos um outro painel. A presidência consulta o plenário quanto ao seu horário. Poderemos fazer quarta-feira, às 17 horas. Definido o horário, teríamos a Remam, que falaria sobre microrregionais, e talvez pudéssemos ter alguém falando sobre a municipalização das ações de governo. A presidência recebe as sugestões que o plenário quiser apresentar. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Sr. Presidente, peço a palavra pela ordem. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto): – Com a palavra V.Ex.ª. O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – É apenas para uma informação, pois já vi que V. Ex.ª a tem. Esta Subcomissão está sendo convidada a fazer-se representar no encontro de vereadores promovido pela Associação Municipalista do Brasil, a AMB. Não conheço bem essa associação, talvez algum colega possa dar alguma informação a respeito. Não sei se seria o caso de se apro- 85 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) veitar essa oportunidade para ter pelo menos um representante neste simpósio, para especificar tema voltado para o município. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência entende que realmente será um acréscimo, porque talvez seja essa a única entidade de caráter municipalista a nível nacional que ainda não foi ouvida aqui no plenário da Subcomissão. Então faríamos quarta-feira, dia 6, às 17h o painel Associativismo Microrregional, com a Femam, que poderia apresentar dois ou três expositores com situações diferenciadas, e a AMB – Associação Municipalista Brasileira. A presidência consulta o plenário se está de acordo. (Pausa). Muito bem! O SR. CONSTITUINTE ELIÉZER MOREIRA: – Suplementarmente, Sr. Presidente, eu proporia que na comunicação expedida à AMB fique bem claro, circunscrito, o tema que se quer ver tratado nesta Subcomissão, sob pena de termos uma coisa muito generalizada que nos fará perder tempo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A presidência vai fazer o contato e solicitar a definição do tema. A presidência consulta o plenário se estamos acordados a respeito da nossa programação para a semana que vem. A reunião de hoje à tarde foi cumprida. Está, portanto, desconvocada a reunião das 17h. A presidência encarece aos constituintes que compareçam, a fim de que possamos concluir bem os nossos trabalhos, conforme temos feito. Muito obrigado e boa tarde. COMISSÃO DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO SUBCOMISSÃO DOS MUNICÍPIOS E REGIÕES 8ª Reunião Ordinária Aos vinte e nove dias do mês de abril de mil novecentos e oitenta e sete, às treze horas e dez minutos, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na sala B-3 do Anexo II da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a Presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, presentes os Senhores Constituintes: Aloysio Chaves, Eraldo Trindade, Alexandre Puzyna, Edézio Frias, Eliezer Moreira, Lavoisier Maia, Vítor Buaiz, Geraldo Melo, José Dutra, José Maranhão, Waldeck Ornélas, Mello Reis, lvo Gersósimo, Luiz Freire, Raul Ferraz, José Fernandes, Firmo de Castro e Carrel Benevides. Iniciando os trabalhos, o Sr. Presidente comunicou que a reunião se destinava à elaboração da agenda dos trabalhos da semana seguinte, apresentando nomes de entidades a serem ouvidas ainda pela subcomissão. Com a palavra, o Sr. relator lembrou que o prazo para a apresentação do Relatório se extingue no dia onze de maio, ponderando fosse estabelecido o dia cinco para a realização da última audiência pública. Submetido o assunto à apreciação do Plenário, participaram dos debates os senhores: Waldeck Ornélas, que disse concordar com o Sr. Relator, insistindo na necessidade de serem realizadas reuniões internas para que pudessem trazer suas opiniões sobre a matéria; Eliézer Moreira, que salientou a necessidade de se adotar um critério mais seletivo na escolha das próximas audiências para serem evitadas repetições. O Sr. Presidente, esclarecendo que pelo Regimento a Subcomissão poderá ainda realizar mais três audiências públicas, submeteu, à decisão de seus Pares, os seguintes itens: a) número de audiências públicas a serem realizadas; b) datas e horários das mesmas; c) entidades a serem convidadas; d) dias e horários destinados às reuniões internas. Ficou estabelecido que as reuniões internas seriam realizadas à tarde, tendo sido aprovada, por maioria, a realização de mais três audiências públicas: dia cinco de maio, terçafeira, às nove horas e trinta minutos, o Painel sobre o tema: "Aglomerados Urbanos", com a participação de: 1) Dr. Getúlio Hanashiro – Secretário de Estado dos Negócios Metropolitanos de São Paulo; 2) Saturnino Braga – Prefeito do Rio de Janeiro; 3) Economista Arlindo Villaschi Filho – Consultor do Projeto EBTU – BIRD e Diretor do Centro de Estudos de Questões do Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo. Dia seis de maio, quarta-feira, às nove horas e trinta minutos, Painel sobre o tema: "Apoio e Articulação Regionais" – Participantes: 1) Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM; 2) Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE; 3) Secretaria de Articulação de Estados e Municípios – SAREM; 4) Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA; e neste mesmo dia, às dezessete horas, Painel sobre: "Associativismo Microrregional de Municípios". Participantes: 1) Superintendência de Articulação com os Municípios de Minas Gerais – SUPAM; 2) Associação Municipalista Brasileira. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a presente reunião, às treze horas e cinqüenta e cinco minutos, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, lnã Fernandes Costa, secretária, lavrei a presente Ata que, depois de lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) 9ª Reunião Ordinária Aos trinta dias do mês de abril, de mil novecentos e oitenta e sete, às dez horas e cinco minutos, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na Sala B-3, Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a Presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, presentes os Senhores Membros: Edésio Frias, Vitor Buaiz, Mauro Miranda, Aloysio Chaves, Eraldo Trindade, Maurício Fruet, Mello Reis, Carrel Benevides, Eliézer Moreira, José Dutra, Alexandre Puzyna, Lavoisier Maia, Geraldo Melo e Sérgio Brito. ATA – Depois de lida e discutida, foi aprovada a Ata da reunião anterior. Iniciando os trabalhos, o Sr. Presidente comunicou que o objetivo da reunião era a realização de Painel sobre o tema: "O Município e a Reforma Tributária", convidando para compor a mesa os Senhores: Dr. Francisco de Paula Giffoni, Técnico da Seplan; Dr. Ozias Monteiro Rodrigues, Secretário de Finanças do Amazonas e Dr. Osires Azevedo Lopes, Diretor da Escola Superior de Administração Fazendária – ESAF. Com a palavra, o Sr. Francisco de Paula Giffoni agradeceu a honra de ter sido convidado para fazer uma exposição nesta subcomissão, ressaltando ser a Assembléia Nacional Constituinte o foro máximo a que poderia aspirar para fazer sua contribuição, juntamente com outros colegas. Analisando o documento "Estudos para a Reforma Tributária", disse que a este respeito existem duas grandes vertentes de opiniões: uma, favorável à manutenção do atual Sistema Tributário, com algumas modificações para adequá-lo à atual situação do País e outra que propõe uma reforma completa do Sistema Tributário vigente; defendeu a implantação do Imposto sobre Valor Agregado – IVA; bem como a criação de imposto sobre a venda de combustíveis a varejo, nos municípios, o que juntamente com o IPTU seriam impostos tipicamente municipais. O segundo expositor, Sr. Ozias Monteiro Rodrigues, fazendo considerações sobre a proposta apresentada pelo Sr. Francisco Giffoni, disse ser o trabalho mais completo apresentado à Constituinte, ressaltando a importância da simplificação da base tributária, reduzindo de dezoito impostos atuais, para três. Na seqüência dos trabalhos, o Sr. Ozires de Azevedo Lopes Filho disse que a experiência republicana tem consagrado em todas as Constituições o Federalismo, no seu artigo primeiro, o qual, no entanto, tem sido mais um desejo desarticulado dos Constituintes do que uma forma estruturada de descentralização de poderes e recursos. Seguir, com a palavra o Sr. Solon Batista Amaral, Deputado Estadual de Goiás, disse ser a sua exposição muito menos técnica do que política, trazendo as angústias dos pequenos Municípios; propôs a simplificação das regras contábeis dos Municípios e o controle unitário. Passando à fase dos debates, o Sr. Presidente informou, que o prazo destinado aos mesmos era de uma hora e quinze minutos. Com a palavra, o Sr. Relator, após tecer considerações sobre as explanações dos conferencistas, propôs fosse cedido prazo para os mesmos debaterem entre si suas posições, o que, submetido pelo Sr. Presidente à apreciação do Plenário, foi aprovado. Após o debate entre os expositores, usaram da palavra os Senhores Constituintes: José Dutra, salientando a importância dos debates havidos, especialmente em função do assunto tratado, pois compete a esta subcomissão estabelecer a competência dos Municípios; Mauro Miranda, que falou sobre o problema dos pequenos municípios; e ainda José Freire, Maurício Fruet e Eraldo Trindade. Agradecendo a valiosa colaboração trazida pelos Senhores Conferencistas, o Sr. Presidente encerrou os trabalhos, lembrando aos Senhores Membros que na próxima semana serão realizados ainda três painéis, solicitando a presença dos mesmos nas reuniões. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a reunião às treze horas e trinta minutos, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária lavrei a presente Ata que, lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Havendo número regimental, declaro abertos os trabalhos desta reunião da Subcomissão dos Municípios e Regiões. A Srª Secretária procederá à leitura da ata da reunião anterior. (É lida e aprovada a ata da reunião anterior.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Subcomissão dos Municípios e Regiões deliberou para hoje a realização do painel "O Município e a Reforma Tributária". Por fatores conjunturais, alguns dos Srs. Constituintes aqui chegarão um pouco mais tarde, mas já há quorum para esta reunião. Vamos, portanto, dar início ao painel, que consideramos fundamental para o bom desenvolvimento dos nossos trabalhos, uma vez que esta Subcomissão dos Municípios e Regiões, da Comissão da Organização do Estado, trabalha necessariamente na fixação da competência, ou das competências, do novo município brasileiro. Mas é evidente que há uma interface, um inter-relacionamento de competências relativamente a recursos no campo da reforma tributária. Por isso, esta Subcomissão deliberou fazer este painel. A Presidência convoca para tomar assento à mesa, inicialmente, o painelista Dr. Francisco Giffoni, técnico da Seplan e membro da equipe do Ministério da Fazenda e da Secretaria do Planejamento que elaborou um projeto de reforma tributária. O segundo painelista, na ordem da inscrição, é o Dr. Osias Monteiro Rodrigues, Secretário de Finanças do Estado do Amazonas, a quem também convido para tomar assento à mesa. O terceiro painelista, Dr. Osires Azevedo Lopes, também está convidado para compor esta Mesa. Depois, no processo de revezamento, tomarão assento à mesa, para fazerem as suas exposições, os Drs. Heron Arzua e Solon Batista do Amaral. A Presidência, ao passar a palavra ao primeiro painelista, lembra que, após as exposições de todos os painelistas, teremos os debates. Solicito aos Srs. Constituintes que preencham a lista de inscrições para debater ou solicitar esclarecimentos aos expositores. A Presidência concede a palavra ao Dr. Francisco Giffoni. S. S.ª disporá de 15 minutos. O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Constituintes, primeiramente, meus agradecimentos por nos terem convidado para fazer esta exposição como profissional da 86 área de tributação. E minha alegria é ainda maior, porque temos a honra de participar de um painel com vários colegas e os Srs. Constituintes. Para nós este painel é de extrema importância, na medida em que este é o foro maior que um tributarista poderia desejar, pois sabemos que a base do sistema tributário, por grata tradição do Estado democrático, deve constar no âmago de uma Constituição. Os nossos trabalhos, no fundo, buscam o resultado maior, que é a reforma constitucional tributária. Antes, porém, de tratarmos do tema de nossa exposição, faço uma ligeira ressalva à apresentação do Sr. Presidente. A equipe a que S. Ex.ª se referiu é realmente uma comissão interministerial, mas, no nosso caso específico, dela participamos apenas com o assessoramento técnico. Por outro lado, cabe dizer que a proposta conhecida como Projeto Seplan/IPEA não tem nenhuma representação oficial nem da Seplan, nem do IPEA. Trata-se de um trabalho técnico feito por técnicos que efetivamente quiserem colaborar com esta Constituinte, para tanto elaborando uma proposta de sistema tributário brasileiro. É, portanto, uma colaboração de profissional da área. E o trabalho não é apenas desses técnicos, porque, mais do que uma proposta particular, é uma síntese de uma série de sugestões e de discussões que vêm ocorrendo, há algum tempo, sobre a necessidade de uma reforma tributária. Há cerca de uns 10 anos, o assunto reforma tributária começou a ser debatido fortemente nos meios acadêmicos, muito impulsionado pelo problema de finanças dos Estados e Municípios. É inegável que o ponto de partida de toda essa discussão está na necessidade de se repensar o financiamento do setor público brasileiro. Se hoje faltam recursos aos Estados e Municípios, é por causa de uma evidente centralização das bases tributárias, com a conseqüente acumulação de receitas para a União. Os dados que estão aí publicados, à disposição de todos, mostram que essa centralização de receitas foi clara, acabando por apenar mais fortemente os Estados e Municípios. Atualmente, o pensamento tributário tem duas grandes vertentes. Uma vertente comporta uma série de técnicos, uma série de opiniões favoráveis ao sistema que aí está. Segundo essa corrente, nossa estrutura constitucional tributária é perfeitamente apta. Embora possa ser aperfeiçoada numa série de pontos, estruturalmente é uma concepção ainda válida para a realidade brasileira. A outra vertente abraça um agrupamento que pensa diferentemente. Segundo ele, essa estrutura já representou o seu papel dentro da evolução econômica e social do Brasil, e os novos tempos, as perspectivas para o desenvolvimento econômico-Social do Brasil estariam requerendo uma nova estrutura tributária. Neste caso, seria necessário não uma plástica formal, mas, sim, a introdução de uma série de coisas novas que pudessem responder, principalmente, a duas questões básicas. A primeira questão: atualmente o sistema tributário brasileiro é injusto com relação à distribuição da carga tributária às várias camadas sociais. Este problema, que é básico, corresponde à eqüidade, e, talvez, não possa ser saneado sem que haja uma série de alterações na estrutura do sistema. A segunda questão: o problema do federalismo fiscal. Este problema, que no fundo originou todo 87 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) esse debate, talvez só tenha solução com uma reforma mais ampla e não apenas com o aperfeiçoamento simples de alguns instrumentos. A proposta conhecida como Projeto lpea/Seplan foi elaborada basicamente no sentido de compor, entre todas as sugestões existentes, alguma coisa orgânica que pudesse responder satisfatoriamente a essas duas colocações. Quanto à questão da eqüidade, pensamos que há mesmo necessidade de modificarmos a atual estrutura dos impostos diretos no Brasil. É bem verdade que, na situação atual, há possibilidade de fazê-lo sem alteração constitucional, através de modificações normais no Imposto de Renda. Agora, quanto à tributação patrimonial, aí, sim, é preciso haver modificações. Por quê? Porque a atual estrutura tributária constitucional basicamente coloca três impostos sobre o patrimônio: o IPTU, o ITR e o IPVA. Este último era uma antiga taxa que passou a ser Imposto Sobre Propriedade de Veículos Automotores. Há ainda o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis. Mas, embora sua natureza seja basicamente patrimonial, trata-se de imposto sobre transmissão. Portanto, ao observarmos esses dados, podemos ver que a tributação sobre o patrimônio no Brasil consiste basicamente nos impostos imobiliários e no IPVA. E sabemos também que a primeira forma de acumulação de patrimônio é o automóvel e a casa própria, quando não há dívida do BNH. Assim, podemos concluir que a tributação patrimonial tem um caráter regressivo. Por isso, talvez seja necessária a introdução de um outro tipo de tributo, que incidiria sobre a porção maior do patrimônio das camadas mais ricas. Tratase do imposto sobre o patrimônio líquido, que existe na maioria dos países da Comunidade Econômica Européia. É um imposto que exatamente visa a atingir aqueles patrimônios ricos, cuja composição vai muito mais além dos bens imóvel e automóvel. Desse modo, a tributação sobre patrimônio no Brasil poderia ser mais progressiva e, portanto, mais justa do que a atual. Além disso, esse imposto, como está tratado especificamente no nosso projeto, tem uma função que chamamos de extrafiscal, talvez mais importante do que a própria função fiscal, porque não é um imposto que arrecade muito. É a possibilidade de outros impostos patrimoniais serem descontados num imposto de natureza federal como o é em todo lugar. Com isso, abrir-se-ia uma espécie de guarda-chuva para a tributação exercida pelos municípios, principalmente a do IPTU, já que, segundo nossa proposta, o ITR voltaria aos estados. Em relação, especificamente, a maior abrangência do que chamamos tributação sobre o consumo – e talvez aí esteja a maior inovação – é a proposta de um novo imposto sobre o consumo na base do valor agregado. Em outras palavras, para simplificarmos, seria um grande ICM sobre valor agregado. Seria o ICM atual incorporando o ISS e todos os impostos únicos, de tal maneira que os Estados teriam uma base tributária muito maior, muito mais alargada do que têm hoje. Tratemos agora da questão municipal, que – é claro – é o motivo principal da nossa vinda aqui. O que se propõe em termos de município? Sabemos que as bases municipais são relativamente frágeis. Tecnicamente, diz-se que um município é uma unidade aberta e sua tributação muito difícil. Basicamente em todo o mundo – e aqui não há de ser diferente – um imposto tipicamente municipal é o Imposto sobre Propriedade Territorial Urbana. O IPTU é um tributo tipicamente municipal. É muito difícil mexer no IPTU com vistas a qualquer aperfeiçoamento, porque é um imposto que já tem uma tradição histórica enorme; quer dizer, em termos legais, é muito difícil. O IPTU, na nossa concepção, permaneceria como está, com a diferença de que desta vez teria para a sua cobrança uma espécie de guarda-chuva, porque sabemos que um dos problemas mais sérios é a efetiva cobrança desse imposto. Não exercida, eventualmente, a competência municipal, a União tributaria com uma espécie de competência residual ulterior. Quer dizer, os prefeitos teriam muito mais condições de fazer o lançamento efetivo de IPTU, porque, caso não o cobrasse, aquela base seria tributada pela União através de patrimônio líquido. Mas, uma vez cobrando, o proprietário desconta o IPTU do imposto da União. De certo modo, forma-se um guarda-chuva da União para os prefeitos. Essa é a função extra-fiscal a que me referi. E o mais importante disso tudo talvez seja o fato de que na nossa proposta tenhamos colocado o aumento da partilha dos impostos. Como o município tem uma base relativamente restrita, a forma de aperfeiçoar, melhorar efetivamente a situação financeira dos municípios seria capacitá-los de uma participação maior nas bases dos impostos mais efetivos que existem. Nesse caso, a proposição básica é aumentar a participação dos municípios com a tributação do IVA – Imposto sobre Valor Agregado dos Estados. Por que isso? Porque aumentando-se a participação cobrir-se-ia a incorporação do ISS nessa nova base. Além do mais, esse imposto teria uma base suficientemente maior, não só pela introdução de ISS, mas principalmente pelo fato de que, na proposta, o IPI atual seria desdobrado. Uma parte ficaria para a União: o imposto único sobre fumos, bebidas, veículos automotores e – uma sugestão recebida com muita simpatia – também um imposto único sobre produtos eletrônicos, em função do problema específico da Zona Franca de Manaus. Estes ficariam para a União. Os demais itens do IPI seriam incorporados também à base do IVA. Dessa maneira, esse novo ICM teria uma base tão grande que o aumento da participação dos municípios nesse novo imposto – não os atuais 20%, mas 25% – dar-lhes-ia uma nova condição financeira. Além disso, sobre a questão das transferências, haveria também uma maior participação dos municípios, tanto quanto dos Estados, nessa arrecadação da União. Como se faria isso? Atualmente, a participação faz-se em torno apenas de dois impostos: Imposto de Renda e IPI. Na medida em que se mudasse a composição constitucional desses fundos, transformandoos em fundos que se incorporem à receita da União, a participação aumentaria para Estados e municípios. Além disso, poderia ser criado um outro tipo de imposto tipicamente municipal, que, conforme muitas sugestões analisadas, nos parece um imposto de extrema eficácia para os municípios, principalmente os pequenos e médios. Seria o imposto sobre a venda de combustíveis a varejo em cada município. Os primeiros dados com que pudemos trabalhar apontam que esse seria um imposto extremamente rentável para os municípios. Desta forma, a participação dos municípios, considerando a receita disponível total – União, Estados e municípios – cresceria bastante. Apesar de essas simulações terem sido muito precárias, esse imposto possibilitaria a maior participação histórica dos municípios em termos de receita nos três níveis de governo. É bem verdade que o nível de receita própria, o tributo próprio dos municípios, não cresceria muito, dada a perda do ISS, mas, em termos gerais, a receita disponível para os municípios certamente seria a maior da História, digamos, desses últimos 40 anos. Basicamente, essa é a concepção do Projeto Seplan/IPEA. Infelizmente, a exigüidade de tempo não nos permite prolongar muito, particularmente na área dos Estados e da União, mas pude apresentar aos senhores o que se concebeu em termos de base tributária para os municípios. Sr. Presidente, embora já tenha esgotado o meu tempo, rogo a V. Ex.ª mais alguns minutos para as minhas observações finais. Seria em torno de 21% a receita liquida que ficaria para os municípios, a partir de cálculos de partilha bastante conservadores. Dissemos bastante conservadores porque partimos de uma hipótese do que seria uma alíquota razoável, efetiva para esse novo imposto sobre a venda de combustíveis. Também partimos de uma hipótese mais ou menos conservadora em termos do que seria a participação dos municípios nesse novo IVA. Em suma, através de umas coisas bastante conservadoras, mesmo assim a primeira apresentação desses cálculos dá alguma coisa em torno de 20 a 21% na distribuição de receitas líquidas entre União, Estados e municípios. E, por fim – e este é o ponto a que queremos chamar a atenção dos senhores, porque talvez seja o mais estritamente concernente a esta subcomissão – há o problema da centralização dos encargos. Na visão conjunta dos técnicos, a centralização das receitas é que causa essa centralização de encargos. A relação causal seria esta. É bem verdade que descentralizar as receitas já, a favor dos municípios, poderia implicar raciocínio imediato deste tipo: poder-se-ia também repassar encargos assumidos por outros níveis de governo. A nossa visão não é bem assim. Ora, a disparidade existente entre os vários municípios brasileiros assusta a todos. Por exemplo, há municípios brasileiros que dependem 99,5% da transferência federal. E não são poucos. Por outro lado, há municípios que têm alta capacidade de explorar as suas bases econômicas e, portanto, as suas bases tributárias, e sua dependência dessas transferências é muito pequena. Qualquer coisa que se pense como modelo fixo, teórico de como possamos repartir encargos em tamanha disparidade, para nós parece um pouco difícil. A nossa concepção é que, na medida em que essa nova estrutura tributária dê novos recursos para os municípios, vá se passando uma série de encargos, paulatinamente, num processo de descentralização. Para isso seria criado um fundo de descentralização, composto, a princípio, por um adicional desse imposto novo de base estadual. Por quê? Porque nessa nossa concepção o Finsocial desaparece. Para todos os teóricos, o Finsocial significa regressão em termos de justiça fiscal. O imposto que incide, no final, sobre o faturamento. É uma volta à cascata. É aquela concepção de incidência em cascata. O DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Finsocial seria, em verdade, eliminado – e tantos salários-educação, também – da nossa concepção estrutural tributária. Mas o volume de recursos que hoje ele recolhe seria absorvido através de um adicional desse novo imposto, adicional esse que iria diminuindo com o tempo, abrindo espaço para aumentar a alíquota do IVA. Dessa maneira, os Estados e municípios receberiam mais recursos e mais encargos ao longo do tempo. Infelizmente, não é possível prolongar mais nossa exposição. Há muito tempo já esgotei o tempo, mas, talvez, ainda antes do debate possamos explicitar um pouco melhor essa concepção de centralização de encargos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos conceder a palavra ao segundo painelista, Dr. Osias Monteiro Rodrigues. A Presidência passa aos Srs. expositores uma preocupação do sistema técnico, no que diz respeito à gravação do painel. Como os registros taquigráficos deste painel, obtidos da gravação, farão parte dos Anais da Assembléia Nacional Constituinte, o serviço técnico de áudio solicita que os conferencistas falem perto do microfone, para que se tenha uma boa qualidade de gravação. Concedo a palavra ao Dr. Osias Monteiro Rodrigues. O SR. OSIAS MONTEIRO RODRIGUES: – Exmº Sr. Presidente da Subcomissão de Municípios e Regiões, constituinte Luiz Alberto Rodrigues; Exmº Sr. Relator desta Subcomissão, Constituinte Aloysio Chaves, meus companheiros de painel, Srs. Constituinte, em primeiro lugar gostaria de agradecer, com muita honra, o privilégio de poder estar participando também deste painel, naturalmente fazendo algumas colocações sobre assunto que acho muito importante, que se está discutindo hoje na Constituinte, que é o Sistema Tributário Nacional. Esperamos, com algumas colocações, contribuir para ampliar o debate sobre essa questão. Na verdade, o primeiro expositor, Dr. Francisco Giffoni, e eu, embora sendo eu Secretário de Fazenda do Estado do Amazonas, somos também oriundo do mesmo órgão – IPEA – e, hoje tenho o prazer e a satisfação de estarmos aqui juntos mais uma vez. A exposição feita pelo Dr. Francisco Giffoni, na verdade, centrou-se num trabalho que conhecemos – elaborado por uma comissão de técnicos altamente especializados e dedicados ao assunto – e que, em termos de proposta, em termos de idéia formulada, é o mais completo e abrangente de todos quantos estão sendo discutidos a nível da Constituinte e a nível do País. É um trabalho cujos técnicos tiveram a competência e a felicidade de englobar idéias que vêm sendo discutidas há mais de 10 anos. Eles foram felizes ao resumir as questões que mais são debatidas a nível nacional, durante esses últimos 10 anos, num documento só, mais abrangente, e formulando, efetivamente, uma proposta global, no capítulo da Constituição, referente ao Sistema Tributário. É um trabalho muito interessante, que tem sido objeto de discussões em todos os Estados e municípios e a nível de Constituinte. Portanto, parabenizo o Dr. Francisco Giffoni, em nome da equipe, pela excelente colaboração, porque trouxeram não proposta, mas um documento para debates, e está sendo realmente muito útil. A respeito desse documento, a preocupação dos Estados aumentou no sentido de também participar dos debates. Em função disso convidamos os Secretários de Fazenda dos Estados do Norte, Nordeste e CentroOeste, que são mais ou menos os executores das políticas estaduais no que se refere à arrecadação de tributos estaduais. Tivemos uma reunião debatendo esse documento, assim como outras idéias a respeito do Sistema Tributário, em Manaus, nos dias 24 e 25 deste mês que está findando. Aproveitamos a oportunidade para trazer aqui as opiniões dos Secretários de Fazenda do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e que, acredito, são muito importantes para ampliar o debate. O documento elaborado por esta equipe, em termos do Sistema Tributário, trás inovações, simplificações, dados atuais muito importantes para as questões que estamos debatendo. Por exemplo, a estrutura tributária do País foi extremamente simplificada. Hoje, entre impostos e duas contribuições que representam tributos – Finsocial e salárioeducação – temos 18 impostos no nosso sistema tributário. Eles tiveram a capacidade de reduzir de 18 para 13 impostos. A base tributária ficaria composta de 13 impostos. Uma simplificação bastante significativa. A outra simplificação que julgo muito importante é quanto à partilha de recursos entre a União, Estados e municípios, pois temos hoje um emaranhado de fundos de distribuição de recursos muito grande. Na área federal, por exemplo, temos 8 fundos institucionalizados para transferir recursos aos Estados e municípios. A idéia da comissão é simplificar isso e deixar apenas 4 fundos, o que representaria enorme redução de custos na administração desses tributos. A Comissão preocupou-se com a idéia mais discutida, que é a centralização dos Poderes da União em termos de participação, tanto na arrecadação quanto na utilização de recursos. Essa naturalmente é uma preocupação bem sentida na comissão, no sentido de melhorar e de fazer mais justiça na distribuição dos recursos públicos entre a União, Estados e municípios. Essa característica é realmente fundamental, mas diante de tudo o que a Comissão apresentou achamos que ainda existem fatos que merecem ser questionados. E aí é que centramos a nossa preocupação, a nossa análise, e fazemos algumas propostas de alteração desse documento, inclusive tomamos a liberdade de pegar o mesmo estudo e incluir já as alterações no projeto original, que seria o capítulo do Subsistema Tributário. Inclusive, pedi que fosse distribuída cópia desse documento. A idéia é de 17 unidades da Federação – 15 estados e 2 territórios. Dentro das preocupações detectamos, em primeiro plano, a centralização dos recursos nas mãos da União. Como me referi a pouco, a Comissão terá a preocupação de melhorar isso, mas achamos que, realmente, a proposta da Comissão ainda está muito tímida. Achamos que a União deve repassar mais recursos aos Estados e municípios, fortalecendo a Federação e dando uma total autonomia fiscal na aplicação desses recursos – é o que a Comissão também sugere. Ela sugere, por exemplo, que da arrecadação de todos os tributos federais os Estados e municípios participem com 19%, sendo 9% para os Estados e 10% para os municípios. Acho essa participação pequena e ainda tímida em relação à autonomia financeira que se pretende dar aos Estados e municípios. A Comissão, após analisar essas questões e depois de se ater, inclusive, no 88 outro aspecto, que é o da criação de um fundo social – achamos que esse fundo não é necessário, e que seria melhor juntar todos os recursos e simplificar todas as transferências federais, todas as participações num só fundo – propõe que essa participação dos tributos federais seja no, isto é, dos tributos federais arrecadados pela União, 55% pertenceriam à União e 45% aos Estados e municípios, sendo 22% para os Estados e 23% para os municípios. E justificamos o porquê dessa divisão de 22 e 23%. Atualmente a participação dos Estados nos tributos – Imposto de Renda e IPI – são de 14% para os Estados – Fundo de Participação – e 17% para os municípios, mas tem mais 2% para o Fundo Especial, que é distribuído entre os Estados. Estamos sugerindo a união do Fundo de Participação e do Fundo Especial, e ficaria uma só participação com 22% e os municípios com 23%. Com essa participação e mais as outras do município na arrecadação do Estado e a arrecadação própria de cada nível de governo acreditamos que essa participação ficaria em torno de 30% para os municípios, cerca de 30% para a União e trinta e poucos por cento para os Estados – mais ou menos 1/3 para cada nível de governo. É claro que estamos discutindo esses níveis com a finalidade de descentralizar o poder da União no bolo tributário, rande parte dele. No que se refere as receitas dos Estados há duas grandes inovações. A primeira é a ampliação de base tributária dos Estados. Essa é realmente uma grande inovação proposta pela Comissão, com a qual concordamos. É substituído o atual ICM por um imposto englobando a base tributária dos seguintes impostos: ICM, ISS, impostos únicos sobre minerais, energia elétrica, combustíveis e lubrificantes, transportes e telecomunicações. A base do imposto estadual seria ampliada, criando-se uma perspectiva de maior autonomia tributária e de maior poder de arrecadação dos Estados. Em compensação, com essa base ampliada, com essa maior possibilidade de ampliar os recursos do estado, também a comissão propõe – com o que concordamos – uma maior participação dos municípios no produto desse tributo de 20, como é hoje, para 25%. A comissão ainda sugere, e achamos a proposta boa, a criação de um adicional sobre o Imposto de Renda – pessoas física e jurídica – que ficaria para os Estados. Apenas discordamos de um aspecto e de uma questão puramente legal: saber como se vai fizer essa cobrança. A comissão está propondo seja restituído o adicional de 5% sobre o Imposto de Renda – pessoas física e jurídica. Examinando a questão, verificamos que hoje o Imposto de Renda arrecadado diretamente das pessoas físicas é realmente pequeno em relação ao global. Teríamos certamente 5% sobre uma parcela de hoje, que deve ser 20% do total do Imposto de Renda. Esse seria um ganho relativamente pequeno para os Estados. Em compensação teríamos – a Constituinte e a Nação – uma repercussão política muito grande, porque há uma coisa que é muito interessante: os impostos diretos são mais progressivos, mais justos, todos não desconhecemos isso; os impostos indiretos são mais injustos, mais regressivos. Entretanto, no aspecto de cobrança, os impostos diretos são muito mais difíceis de cobrar do que os indiretos, haja vista o que aconteceu recentemente com o Imposto 89 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) de Renda. O imposto indireto, às vezes constitui uma carga pesada. Por exemplo, o cigarro: o cidadão que está consumindo nem está questionando o quanto está pagando de imposto indireto, na verdade, uma carga pesadíssima. Estamos propondo que esse adicional incida somente sobre pessoa jurídica, sobre as empresas. E mais, que seja incluído na Constituição a que arrecadação desse imposto seja decorrente da produção econômica gerada no local, em cada Estado, ou seja, que cada unidade produtora, seja tributada no local. A forma jurídica é realmente complicada. Isso porque se deixarmos a redação como está vamos ter os grandes conglomerados financeiros, por exemplo, cujas matrizes estão nas regiões mais desenvolvidas, que irão beneficiar-se com esse imposto, pois 5% do imposto vai incidir sobre o resultado final do balanço da matriz, incluindo todas as suas filiais. E os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm muitas filiais, mais poucas matrizes, tanto de bancos como de empresas comerciais e industriais. Isso, da forma como está, constituiria uma drenagem de recursos das regiões menos desenvolvidas para as regiões mais desenvolvidas. Se houver um mecanismo que possibilite que esse imposto seja distribuído proporcionalmente ao que é gerado dentro do território de cada Estado, ele se tornará significativo para reforçar as receitas estaduais. O IVA ficaria – concordamos plenamente com a partilha de 75% para os Estados e 25% para os municípios. Do IPVA – Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores – hoje existente, continuaria a mesma partilha de 50% para os estados e 50% para os Municípios. Estamos, também, colocando em cima dessa proposta a preocupação que hoje já existe cristalizada na atual Constituição, quanto ao aspecto da distribuição desses fundos, desses recursos. Hoje não temos dúvidas de que a partilha entre a União, Estados e Municípios é desigual, mas também temos a consciência de que muito mais desigual é o aspecto da distribuição de renda regional. Os Estados mais desenvolvidos – e eles não têm culpa disso –, por uma estrutura produtiva de que dispõem, muito mais sedimentada, muito mais ampla, têm hoje uma participação muito maior no bolo tributário do que aqueles menos desenvolvidos. Essa questão nos leva à preocupação de deixar que, nesses critérios para redistribuição de fundos, sejam incluídos mecanismos que possam garantir uma redistribuição dos recursos, beneficiando mais fortemente as regiões menos desenvolvidas. E entre essas citações poderíamos destacar o aspecto da área territorial que hoje é vivido, no nosso País. Esse aspecto, para muitos, pode criar uma grande distorção, mas se for, pelo menos, mantida a situação hoje existente não representa distorção. E estamos incluindo um critério absolutamente justo, porque as distâncias representam, efetivamente, um grande custo para as Unidades da Federação, que possui áreas territoriais elevadas. O Estado do Norte, do Centro-Oeste, alguns do Sudeste, realmente têm grande área territorial. Estamos sugerindo, por exemplo, a proibição para que os Estados e a União concedam isenções dos tributos partilhados. Hoje, a União faz o que bem entende com os tributos dos estados e dos municípios. E este dispositivo proibiria à União e aos Estados, também, concederem isenções dos impostos que são partilhados. Igualmente estamos espe- rando seja incluído um mecanismo que obrigue à União e os Estados entregarem a partilha dos recursos, pontualmente. A União leva hoje, em média, 75 dias para entregar a partilha dos impostos federais a que têm direito os Estados e os Municípios. Acho isso um absurdo, principalmente no regime inflacionário em que vivemos. Deve ficar clara a obrigatoriedade de serem repassados esses recursos no máximo 30 dias após a arrecadação dos tributos. Essa é também a proposta que fazemos. Estabelecer, da mesma forma, a obrigatoriedade da União e dos Estados publicarem no Diário Oficial o produto da arrecadação mensal, a fim de que, com os critérios definidos, municípios e União – possam acompanhar se verdadeiramente está sendo correta a distribuição desses recursos para os Estados e Municípios. Com essas inclusões que estamos propondo achamos que, pelo menos, a idéia fica ampliada para o debate. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos passar agora à exposição do Dr. Osires Azevedo Lopes, Diretor da Escola Superior de Administração Fazendária. O SR. OSIRES AZEVEDO LOPES: – Sr. Presidente, Luiz Alberto Rodrigues; Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves, fiz uma exposição escrita a respeito da matéria, mas vou poupá-los da leitura e seguir essa exposição como roteiro. Na evolução das Constituições republicanas do Brasil nota-se que o federalismo sempre foi consagrado no art. 1º e revogado nas disposições que estabeleceram regras sobre os sistemas tributário e financeiro dos órgãos estatais. De forma que o meu desejo, ao comparecer a esta Subcomissão é influenciar para que se estabeleça um verdadeiro federalismo no Brasil, com a descentralização não só dos recursos que viabilizam as atividades, mas, essencialmente, das atividades estatais, com o nível de pertinência para os municípios, Estados e União. Parece-me que a idéia do federalismo cooperativo e funcional, que começou a influenciar os constitucionalistas a partir da Constituição de 34, nunca se consagrou. Dever-se-ia, nessa oportunidade de reformulação do texto constitucional, examinar, dentro dessa idéia de federalismo cooperativo e funcional, a introdução, no pacto federativo, das grandes regiões metropolitanas e dos órgãos de desenvolvimento regional, para que se estabeleça, realmente, uma integração no trabalho das várias entidades de Direito Público. O que se sente, ao se examinar, não só a ineficácia das normas constitucionais e do sistema jurídico brasileiro, principalmente nessa área de finanças públicas e de tributação, é a falta de participação da comunidade nas atividades tributárias. Se os senhores examinarem o nosso sistema verão que, fora alguns impostos patrimoniais tipo IPTU, todo o sistema brasileiro é baseado no auto-lançamento, na auto-declaração, quer dizer, o contribuinte faz tudo, pratica o ato econômico que sofre a incidência do tributo, declara e presta informações a respeito desses atos econômicos e paga o tributo; enfim, a colaboração do contribuinte é decisiva. Se tivermos uma carga tributária elevada e desigual, como existe atualmente, e se o contribuinte não se identificar com a política de gastos públicos, e se ela é uma política elitista, se ela é uma política perdulária, difícil a cobrança de impostos neste País. E temos, então um sistema distorcido, onde paga imposto aquele que não têm como se furtar do seu pagamento. Por outro lado, o sistema tem evoluído ao longo desses 20 anos, aumentando cada vez mais a carga tributária em cima daqueles setores que não tem como fugir dessa carga tributária. De forma que, se a nossa renda per capita é mau distribuída, muito mais mau distribuída é exatamente a carga tributária. Se os senhores virem as últimas publicações da carga tributária no Brasil verão que ela tem decaído em relação ao PIB. Dentro da classificação universal de carga-pesada, média e leve, estaríamos numa carga média, em torno de 20 a 24 em relação ao PIB. Mas, na realidade, os que suportam efetivamente essa carga tributária sofrem terrivelmente. Ademais, a carga tributária não é medida apenas em relação ao total dos impostos e dos tributos, incluindo as contribuições, em relação ao PIB. Ela tem uma outra relação, que é o nível de atribuições e de serviço que o Estado coloca à disposição. Em muitos países a carga tributária é de 40%, mas não é tão sentida porque os bens públicos colocados, pelo Estado, à disposição do contribuinte, do cidadão, são razoáveis. Parece-me fundamental, ao se discutir sistema tributário, que é um meio de prover fins ao Estado, que se discuta as competências, as atribuições de cada pessoa de Direito Público e se adote o princípio sadio de construção da Constituição. Quando se estabelece o fim, se provêm meios idôneos. Para mim, o problema central do município numa ótica tributária não começa na discussão dos recursos, da competência tributária, das transferências, das participações, e, sim, na definição de atribuições. Fiz uma leitura rápida do federalismo nos Estados Unidos, na Austrália, na Venezuela, no Canadá, na Argentina e verifiquei que há certos serviços que são típicos do município como, por exemplo, abastecimento d'água, desenvolvimento urbano, calçamento, iluminação de vias públicas e alguns serviços que envolvem interesses maiores, não a construção de estradas vicinais, mas das estradas de ligação do município com outros municípios no Estado e no País. O que falta, na minha opinião, na nossa Constituição, ao contrário do que foi feito – a nossa Constituição começa com a definição das atribuições da União, depois, o que não está na União passa para o Estado e, depois, o município fica com o resto – é exatamente definir, a nível detalhado, as atribuições dos municípios. E naqueles serviços que envolvem extemalidades, que dizer, quem aproveita não é o cidadão do município, mas os de outros municípios do resto do País, se estabelecer um critério de distribuição dessas atribuições para os estados e para a União. Por exemplo, a questão da educação. A educação é encargo de todas as pessoas de Direito Público. Mas parece-me indiscutível que a educação primária deve ser levada pelo município, porque o cidadão vive no município, sente a autoridade municipal, a não ser em casos de inflação, de revoluções de greves nacionais, aí ele imagina a União. Mas a vivência e o sentimento que tem é a nível municipal. E realmente devemos fazer uma autocrítica. Passamos 20 anos de centralização, a imaginar que o planejamento unificado era a solução dos nossos problemas. Claro que sendo um país de recursos escassos, o Brasil não se pode dar ao luxo de não ter um mínimo de planejamento para ra- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) cionalizar sua aplicação. Mas, um planejamento centralizado, que foi realizado nesses 20 anos que sucessivamente abusivo. Uma coisa não podemos deixar de esquecer: os tributos são referidos na base econômica. Quer dizer, o nível de produto de renda da região, sua estrutura econômica; se temos setor extrativo, agropecuário, industrial, setor primário, secundário ou de serviços, distribuição da renda per capita, nível de consumo per capita e, finalmente, a abertura dessa região para o resto da economia do País e do mundo. Com isso quero dizer que não adianta dar competência para o Acre instituir Imposto de Renda, porque lá não há base econômica. Então, quando se fala na distribuição das competências tributárias num Estado federativo é preciso ver o critério básico de pertinência, o critério de eficiência, o critério de integração na arrecadação do tributo. Universalmente se estabelece que os impostos sobre a propriedade devem ficar a nível local. Uma das grandes dificuldades de se comparar o princípio do Federa lismo é que as unidades políticas locais são diversas de acordo com o país. Quem examinar, por exemplo, a estrutura política local dos Estados Unidos, vai ver que mesmo lá há uma dificuldade de comparação, exatamente porque um município, a entidade local, não participa do pacto federativo e, portanto, cada Estado estrutura da forma que lhe aprouver. Mas um ponto básico é seguinte: os tributos sobre a propriedade são sempre alocados a nível dos municípios. Neste ponto é importante salientar que temos verificado nas estatísticas que é difícil a captação esse tributo: quanto menor o município, quanto o maior for o contrato entre o órgão político, ou o órgão de administração tributária e o contribuinte, mais difícil fica a percepção do tributo. Há uma tendência, ou seja, quanto menor o município, ainda que haja uma ligeira base tributável, menos se arrecada em relação à tributos imobiliários. Aí, acho que temos um problema de cultura, porque tenho visto, nas discussões. A respeito da Constituinte, que sempre tendemos ao exagero – acho que é do temperamento do brasileiro. Está se discutindo, por exemplo, o sistema tributário aqui e já estamos entrando em detalhes. Ora, normas de um sistema tributário, que devem ser consagradas, numa Constituição, não envolvem o delineamento em detalhes, porque isso será tarefa de outros instrumentos normativos. Uma Constituição deve consagrar: primeiro, as competências tributárias; segundo, os princípios gerais tributários, basicamente de proteção ao contribuinte; terceiro, os princípios gerais tributários pertinentes a determinados tributos e o sistema de partilha dos tributos, que não é realmente matéria tributária, é mais uma matéria financeira de distribuição de recursos. Quer dizer, essa é a tarefa. Depois vêm as leis complementares. Acho que para ser duradouro esse sistema tributário dever-se-ia deferir muita coisa, por exemplo, à lei complementar, e, principalmente nos percentuais de partilha. Se verificarmos, da Constituição de 1967 até hoje notaremos a existência de inúmera s alterações nas partilhas dos fundos de participação e nos impostos únicos. Então, por se tratar de matéria altamente flutuante, num País em que as estatísticas não são fidedignas – não por deturpação de quem as consolida, mas que não há uma preocupação de documentar esses dados – seria prudente que essa parte de de- composição do sistema tributário, principalmente na área de partilha, fosse objeto de lei complementar que, por definição, é mais fácil de ser alterada do que a emenda constitucional. Fora disso, quem vai realmente instituir é a lei ordinária, baixada pelo órgão competente, seja a Câmara de Vereadores, seja a Assembléia Legislativa, seja o Congresso Nacional. E esse esforço tem de ser realizado. O que ocorre, na prática, é que temos uma cultura normativista, fazemos a exposição de motivos, criamos a norma jurídica e estamos plenamente satisfeito, acreditando que vai ser aplicada imediatamente; há que se fazer um investimento decisivo no aprimoramento da administração tributária – e acho que isso deveria constar da Constituição – deve ser forçada a integração dos vários níveis de administração tributária dos municípios, Estados e União, exatamente para que não dupliquem o trabalho concentradamente. Finalmente – aí é um problema de ordem cultural – é necessário que o povo, o cidadão, se sinta identificado com a política de gastos públicos, elitista, concentradora de renda, caso típico de Brasília, onde se gasta mais no Plano Piloto do que nas cidades-satélites. Se tivéssemos em Brasília um sist ema progressivo – cobrar mais de quem ganha mais – se este sistema fosse adequado à capacidade contributiva, ele seria totalmente negado no momento dos gastos realizados na cidade. Por quê? Porque os gastos estatais realizados aqui beneficiam as passas mais bem dotadas economicamente na nossa comunidade. Um caso típico é o da Universidade de Brasília onde, em determinadas horas, é impossível estacionar, exatamente porque a maioria dos alunos tem carro. Então, a universidade gratuita é dirigida para as pesso as que têm renda e que, portanto, têm boa educação. E as universidades particulares são freqüentadas pelas pessoas que não têm renda e fazem um grande sacrifício para pagar suas mensalidades. Então somos um País que camufla algumas realidades e, portanto, há necessidade de que os trabalhos da Constituinte, as normas que aqui serão consagradas sejam espraiadas para a população, tenhamos, a partir deste documento básico, um novo enfoque no País. Quanto às minhas propostas em relação à tributação municipal, a primeira delas é pela manutenção do IPTU; a segunda é pela transferência do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis para os Municípios. Não consigo entender, com a imensidão deste País, que o Estado tribute a transmissão imobiliária, nem a dificuldade cadastral que ele tem para estabelecer qual é realmente o valor de determinado imóvel. Parece-me que na evolução constitucional essa arrecadação era do Estado. Na última mudança que ocorreu ela ficou em 50%. Mas ela tem de ficar no município. Não adianta virem os prefeitos municipais e dizerem: olha, vamos tomar o máximo da União. Se isto acontecer o seu município desaparece. Há uma série de programas de integração nacional, principalmente no setor viário, no setor de telefonia, no setor de comunicações, que foram feitos com a arrecadação desses recursos. Não adianta dar mais tributos em transferências e permanecer essa situação – e que o Dr. Francisco Giffoni mencionou – isto é 99% dos recursos de determinado município são transferências, se ele não tentar educar o contribuinte e cobrar, potencializar o nível de arrecadação de que dispõe. Acho deci - 90 sivo que os municípios assumam um papel inicialmente educativo no sentido de irem forçando os contribuintes a pagar, como é devido na lei, porque não podemos imaginar que a União tenha poderes miraculosos de arrecadar. A União arrecada com mais facilidade os tributos sobre a renda, mas a evasão é muito grande. Há aspectos da técnica tributária, principalmente da Psicologia Tributária, que devem ser mencionados. Por exemplo, o povo latino – e isto está nos livros de Psicologia Tributária – tem horror do tributo: vê o tributo e tende a sonegá-lo, a se emitir. Já o povo anglo-saxão é diferente: vê o tributo, sabe qual é sua carga tributária e vai exigir dos órgãos públicos que lhe dê o devido retorno para aquela transferência de recursos que fez ao Estado. Se observamos países como os Estados Unidos, a Inglaterra, os países nórdicos, vamos constatar que, os impostos diretos sobre o patrimônio e a renda correspondem a mais de 70% da arrecadação. Se verificamos países de formação latina, como a França, a Itália, a Espanha, veremos que 70% da arrecadação relativa são referentes a impostos indiretos. Por quê? É da nossa formação. Ao se fazer um modelo tributário não se pode fugir à cultura do povo. O povo brasileiro e o povo latino, em geral têm horror de tributo. Então pode ocorrer que às vezes a carga tributária seja eventual sobre determinados produtos é o caso das bebidas, dos cigarros, e ninguém reclama porque não tem conhecimento do mecanismo de transferência da carga tributária, caso típico dos impostos indiretos. Não entendem nada da regressividade. A outra modificação que proponho seria aquela de que a cobrança do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural fique a cargo dos municípios. O meu ponto de vista é o seguinte: vamos dar mais recursos aos municípios, mas vamos dar também maior responsabilidade a eles. O município tributário a propriedade fundiária com base no seu valor venal e na sua extensão. Aí vi ria logo o argumento em contrário: como? O País quer fazer a reforma agrária. A tributação rural é um instrumento da reforma agrária; é um instrumento inoperante, é o belo Antônio do nosso sistema. Quer dizer, não funciona; é bonito mas não funciona. Não funcionou durante 20 anos, por que é que vamos continuar com ele? Os municípios não ganham hoje 100% da arrecadação desse tributo? Então deixe que eles arrecadem. E como seria conciliada a necessidade de interferência estatal na reforma agrária? Com a criação de uma contribuição de intervenção no domínio econômico baseada na ociosidade e na utilização do imóvel. Teríamos dois tributos sobre a propriedade agrária: um para formar a receita dos municípios e o outro seria de intervenção do domínio econômico, quando a União considerasse desejável. Mas o grande problema da tributação municipal – permita-me o Sr. Presidente pequena digressão – é a questão de que os municípios não são homogêneos. Temos municípios altamente diversificados no Brasil, tanto os municípios das capitais quanto os menores. Não há um modelo de tributação específico para todos esses municípios. O que me parece essencial é assegurar a base mínima de existência do município, através de recursos próprios, com os tributos imobiliários que são de fácil captação, são tangíveis. O grande absurdo nos dias atuais, é colocar o 91 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) setor de serviço na tributação municipal. A Secretaria de Economia e Finanças do Ministério da Fazenda tem estudos que mostram que o setor serviço, que hoje corresponde a 50% no mínimo, do produto nacional, só tem tributação eficaz em 60 ou 100 municípios do País. Há uma perda fantástica de recursos neste País, porque não se tributa adequadamente o serviço. A legislação que disciplina o Imposto Sobre Serviço é a mais iníqua, a mais regressiva que existe, e, além disso, é inibidora da arrecadação federal. Daí, inclino-me pela experiência do Mercado Comum Europeu. Hoje só um país da América Latina não tem um imposto sobre o valor agregado e base ampla. Quer dizer, que incida sobre bens e serviços. Inclino-me favoravelmente a que isso seja feito; mas na distribuição da receita – não vou citar números porque não tenho estatísticas adequadas para isso, – ter-se-ia que aumentar o nível de participação dos municípios, se se fizesse um imposto nessa base, agregada, porque haveria um grande prejuízo para os municípios de capitais e para os mais desenvolvidos. Aí, terse-ia que adotar de 30 a 40% de retorno, possivelmente estou apenas citando um percentual – e estabelecer um critério de participação pelo valor realmente agregado no município. Isso seria decisivo. Fui um estudioso da reforma tributária no Brasil, produzida no início da década de 60, que se consubstanciou com a nossa introdução efetiva no sistema tributário racional, criado não só para dar recursos ao Estado, mas para cumprir outras finalidades de política econômica: promoção do desenvolvimento econômico, melhoria da distribuição de renda e do desempenho do balanço de pagamento. A Reforma Tributária nº 18 – à qual todas as variações constitucionais são fiéis – foi procedida de amplos estudos a respeito de todos os tributos. Quando ela foi aprovada, em 1965, já tínhamos adotado, parcialmente, em 1958, o valor agregado no País, no então Imposto de Consumo. Quando ela saiu já havia o Imposto de Consumo, que hoje é o IPI, Código Tributário Nacional, o decreto-lei do Imposto de Importação, o decreto-lei do Imposto sobre Operações ilegível ou vendo discutir-se muito o nível da Constituinte, não as normas que lhe seriam pertinentes, mas as normas do sistema tributário, que vão depender de lei complementar, de lei ordinária, sem que se tenha apresentado um projeto. Fico preocupado com a data de vigência e eficácia desse sistema tributário se, vier a sofre eventualmente uma grande transformação, porque os instrumentos, os estudos destinados a dimensionar, o assunto não têm sido divulgados com suficiente idoneidade dos dados. E as fórmulas jurídicas? Não vamos esquecer que toda tributação refere-se à economia, a estruturação jurídica é feita por meio de normas, e os grupos que estudaram o assunto não deram a ele a devida divulgação. Há muitos detalhes que devem ser estabelecidos. Finalmente, concordo com a adoção desse imposto sobre valor agregado, incluindo parte da incidência do Imposto sobre Operações Financeiras, basicamente a atividade de seguros, e valores imobiliários, outra forma de incidência sobre a transferência de bens. Ficaria com a União, num sistema de participação de 50 a 50%, a tributação sobre as atividades financeiras de crédito e câmbio, que me parecem pertinentes a uma política da União. Com relação aos impostos únicos, não sou favorável à sua introdução na base, por motivos práticos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): A Presidência pede ao ilustre expositor que finalize sua exposição, para que possamos ouvir o próximo expositor. Acredito que, por ocasião dos debates, quando seguramente os Srs. Constituintes irão interrogar os expositores, V. Ex.ª, então, poderá exprimir melhor o seu pensamento, até por uma questão de ordenamento dos trabalhos. A Presidência pede ao expositor que conclua sua exposição para que possamos ouvir o Dr. Solon Batista Amaral. O SR. OSIRES AZEVEDO LOPES: – Vou concluir a frase, Sr. Presidente, porque o restante da minha exposição já está nas mãos dos Srs. Constituintes. Mas não vejo muito sentido de racionalidade de arrecadação e de racionalidade tributária na extinção dos impostos únicos, principalmente sobre os combustíveis lubrificantes e energia elétrica, que são de fácil captação, para se colocar tudo na complexidade do IVA, ou do Imposto sobre Prestação de Serviços e bens, porque esse imposto, hoje, é cobrado das distribuidoras de eletricidade e das refinarias de petróleo. Com essa modificação que se pretende nesse imposto da tributação a domicílio, aquilo que era simples, vai ser altamente complexo, porque as empresas vão ter de mencionar o consumo de cada pessoa para a imputação, em determinado município. O que é fácil não deve ser tornado complexo. Há um limite nas reformas constitucionais: limite de viabilidade e de garantia ao se fazer uma reforma, não se pode fazer passes de mágica, dar um salto no escuro, porque está se falando da sustentação do Poder Público, através dos recursos tributários. Se a reforma for violenta, não seguir a tradição da nossa História – e quem pegar a Constituição do Brasil, do Império até agora, verá que o Sistema vai evoluindo gradativamente, sem grandes modificações – pode ser um grande salto no escuro e podemos deixar mais enfraquecidas ainda, do ponto de vista financeiro, as entidades públicas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência convida o Dr. Solon Batista Amaral, deputado estadual de Goiás, professor de Legislação Urbanística da Universidade Federal de Goiás, para fazer a sua exposição. O SR. SOLON BATISTA DO AMARAL: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Constituintes, demais expositores, em primeiro lugar quero registrar meu agradecimento pelo convite para comparecer a esta subcomissão, e a minha honra de estar participando deste momento tão importante da vida nacional. Minha exposição será menos técnica do que política. Procurarei retratar as angústias e aspirações do município brasileiro e, especialmente, angústias e aspirações dos pequenos municípios de Goiás. Creio que o pressuposto fundamental deste debate, que a Subcomissão realiza hoje, é a consciência amplamente difundida na nacionalidade de que é preciso transformar a autonomia municipal, de uma mera expressão programática e doutrinária, contida na Carta Constitucional, em um conjunto de regras operacionais que asseguram a nossa certeza, ou seja, é o governo local o mais competente e o mais capaz de responder às necessidades efetivas da comunidade. E, portanto, se entendermos que o governo local pode fazer melhor, mais rápido e a custo mais reduzido o atendimento das necessidades coletivas, é preciso fazer da declaração da autonomia municipal um conjunto de regras capazes de produzirem efeitos práticos. Assim, será necessário que a Constituição diga que a autonomia municipal se dá não apenas por meio da eleição de seus prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, não apenas pela decretação e arrecadação de seus tributos, quando ela vai reservar a competência tributária principal efetivamente capaz de gerar recursos substanciais a União e aos Estados. Será preciso dizer que o município deve reger, essencialmente, o controle e o uso do seu solo, não apenas do solo urbano. Ele deve ter competência para interferir também na definição do uso do solo rural, a fim de que, por exemplo, a implantação de programas como o Programa Nacional do Álcool, não forcem, pela supremacia econômica da União e pelo poder das empresas que nele se empenharam, a substituição de uma vocação produtiva dos municípios, gerando graves transtornos e profundos conflitos sociais, como ocorre em muitos municípios brasileiros. Refiro-me especificamente, a muitos municípios goianos, onde a introdução da indústria alcooleira, sem possibilidade de intervenção do município, inclusive no zoneamento das terras destinadas à indústria do álcool, provocou a expulsão de novas levas de rurícolas, que foram engrossar as cidades grandes, inchadas e cada vez menos competentes para resolver os seus problemas. É preciso, também dizer que o município deve ter assegurado a sua possibilidade de interferir na prestação de serviços públicos pela União e pelos Estados dentro do seu território, para que não assistamos ao absurdo de uma política tipicamente local, um interesse tipicamente local, como o abastecimento d'água, a distribuição de energia elétrica a nível domiciliar, continue sendo feita pelos estados ou suas empresas, segundo regras ditadas pelas entidades federais coordenadoras, de tal sorte que os planos de desenvolvimento urbanístico do município ficam inteiramente condicionados à vontade, à boa vontade ou à sensibilidade dos técnicos dos Estados e às normas fixadas pela União. Nenhuma dessas medidas, porém, tem possibilidade de se materializar se não houver uma alteração na distribuição da renda nacional entre os três níveis de poder. E passando, com o sentido mais prático possível, a essa questão, até o início destes debates, eu ainda tinha profundas dúvidas sobre a chamada proposta do IPEA, no sentido da criação do imposto de valor agregado, que substituiria o Imposto Sobre a Circulação de Mercadoria, ampliando a sua base tributária. A partir da exposição do Dr. Francisco Giffoni, especialmente da leitura do texto do Dr. Osias entendo que seria conveniente adotar-se esse sistema por ser mais avançado e ter possibilidade de ser mais eficiente. Fico, porém, com a ressalva feita, ao final de exposição, do Osias, isto é, entre as opções colocadas – realizar uma plástica no sistema tributário ou fazer uma reforma profundamente inovadora – talvez seja mais prudente, considerando todos os fatores culturais, aqui levantados que se realize plástica DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) competente, que se renove o sistema e se dê a ele condições de ser mais eficaz. Quanto à questão dos tributos tipicamente municipais, nas minhas anotações já antecipava concordância com a proposta de que se mantenha a competência municipal para a arrecadação do Imposto sobre a Propriedade Territorial e Predial Urbana. Deve-se transfira integralmente a competência ao município para arrecadar o Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis, porque são direitos relativos ao próprio patrimônio imobiliário e haveria maior compatibilidade entre os dois. Deve-se transferir ao Município também a competência para decretar e arrecadar o Imposto Territorial Rural. Quanto ao IPTU, creio que há óbice que precisa ser removido das disposições constitucionais, ou seja, a definição do fato gerador e a fixação da alíquota. Todos que têm atuam a nível municipal sabem que um dos mais sérios problemas do desenvolvimento urbanístico dos municípios é o grande, o excessivo número de lotes retidos especulativamente. A especulação imobiliária tem sido causa da ampliação da base física do município, da oneração do poder público municipal, no momento do atendimento de necessidades coletivas. Por exemplo, ao se levar uma rede de água, ao se construir uma via pública municipal, para atender ao transporte coletivo urbano, tem-se que atravessar vastas extensões desabitadas, ocupadas apenas por cerca e por piquetes de loteamento retidos especulativamente. Portanto, é preciso que a nova Constituição permita a fixação de alíquotas diferenciadas e progressivas para a aplicação do Imposto Predial e Territorial Urbano, de forma que o município tenha, nesse tributo, não apenas uma fonte de renda, mas um instrumento de intervenção no domínio econômico e no controle e uso do solo urbano, assegurando, por esse processo, uma utilização eficaz e ordenada do solo urbano. Uma das propostas e esse respeito – a criação do Imposto Sobre o Solo quando a edificação tiver área maior do que a do lote – é de aplicação difícil e de efeitos duvidosos, creio que se resolveria o problema com a permissão da alíquota diferenciada, e progressiva, segundo o uso ou segundo a maior ou menor quantidade de terrenos retidos até especulativamente pelo mesmo proprietário. Quanto ao Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – que consta de algumas propostas a sua incorporação ao imposto sobre valor adicionado ou valor agregado: é um imposto difícil de ser arrecadado e efetivamente não tem contribuindo com formação de renda da maioria dos municípios brasileiros. É preciso estudar-se, com clareza, ou uma forma de simplificar a tributação – mas isso não seria matéria constitucional – ou, alternativamente, incorporar-se os serviços à base tributária do IVA, de forma a assegurar, através do retorno ampliado da transferência, na base de 25 a 30% – e, talvez, nem se chegasse aos 40% propostos pelo Prof. Osias – o retorno pelo atual Fundo de Participação dos Municípios nos tributos municipais. Em todos as intervenções anteriores foram colocadas algumas das questões a que me referi, de forma semelhante ou diferente; um ponto defendido pela Frente Municipalista Brasileira não foi colocado: a questão da Contribuição de Melhoria. Ela é um instrumento teoricamente eficaz; contudo, na prática, a maioria dos municípios brasileiros não tem condições de aplicar esse instrumento, seja no aspecto fiscal seja, no aspecto de intervenção. Não sei se seria, efetivamente, na regra constitucional, ou na regência, ordinária, hoje contida no Decreto-lei nº 195, que se deveria fazer a simplificação. É necessário estabelecer, porém que a Contribuição de Melhoria deve ser colocada como um instrumento, não apenas de arrecadação, mas um instrumento de intervenção no domínio econômico, para que o investimento público financiado por todos – não beneficiando alguns, no momento da construção de determinadas obras – não sirva apenas para valorização daqueles imóveis e haja um retorno. Há alguma semelhança com a proposta de imposição de uma contribuição social, sobre imóveis rurais ociosos, apresentado pelo Prof. Osias, quando da transferência do ITR para os municípios. Além dessas propostas simples, diretas e objetivas, como a transferência de alguns tributos, o ITBI e o ITR para os municípios, há também a incorporação dos impostos únicos na base tributária do ICM. Não tem sentido, por exemplo, minério continuar não rendendo para o município onde é explorado, trazendo-lhe senão, problemas sociais, senão a perspectiva aterrorizadora – como ocorre com vários municípios onde há a exploração do ouro, através do garimpo – de problemas sociais, num espaço de tempo muito reduzido. Os municípios goianos, como os brasileiros que viveram a exploração do ouro aluvionar são o exemplo mais eloqüente de locais que experimentaram uma fase de desenvolvimento e não tiveram, posteriormente, condições de sustentar esse desenvolvimento. O processo recessivo que o Brasil viveu há alguns anos, com a simultânea valorização, especialmente do ouro, devolveu à atividade garimpeira, atividade mineradora, uma pujança que ela perdera por muito tempo. Hoje, em Goiás, vemos os Municípios que têm garimpos que vivem da exploração do ouro, sofrendo gravemente o problema do inchaço populacional, do agravamento das tensões sociais. O município empobrecido não pode atender às demandas sociais instaladas com o garimpo e nada recebe seja porque a União não fiscaliza e não arrecada esse imposto, e por isso nada transfere ao município, seja porque a simplicidade, a facilidade da sonegação permite que esse ouro seja exportado do município sem ali deixar nenhum resultado econômico. Portanto, creio que melhor aparelhados para fiscalizar, usando a máquina hoje empregada na arrecadação do ICM, os estados poderiam tirar da atividade garimpeira algum retorno que permitisse a eles e aos municípios enfrentarem os problemas sociais decorrentes, seja da própria atividade garimpeira, seja da sua paralisação quando exauridas as fontes. Finalmente, aproveito a oportunidade para propor a esta Subcomissão que coloque na pauta de suas discussões a questão da simplificação das regras contábeis, hoje impostos aos municípios, para que se elimine os absurdos existentes. Por exemplo, o pequeno Município de Rio Sono, no Norte Goiano, no futuro Estado do Tocantins – e eu o menciono como homenagens ao meu colega goiano José Freire – que tem 2 milésimos do giro econômico tributável do Estado de Goiás, está sujeito às mesmas regras contábeis que se aplicam ao Governo Federal. Essa situação gera 92 dificuldade de controle interno e multiplica as possibilidades e até a necessidade de se criar artifícios para que a administração municipal se realize de forma mais ou menos razoável. E, finalmente, que esta Subcomissão lute pela unidade do controle externo. Está em pauta, para ser apreciada, uma proposta que devolve ao Tribunal de Contas da União o controle da aplicação pelos municípios dos recursos transferidos pela União. Isso significará a duplicação do controle, porque em Goiás temos a triplicação do controle sobre as contas municipais; temos um Conselho de Contas que fiscaliza o conjunto das contas; um Tribunal de Contas do Estado que fiscaliza a aplicação de recurso transferidos pelo Estado, e teremos, de novo o Tribunal de Contas fiscalizando, pela terceira vez os recursos transferidos pela União. Não me parece cabível que tanto dinheiro público seja aplicado para controlar a mesma despesa. Um controle unitário competente e eficiente, que garanta a transparência nas contas públicas, fará melhor a este País e aos municípios que a multiplicidade de órgãos controladores. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos passar agora aos debates. Disporemos de 1 hora e 20 minutos para esta fase. A Presidência concede a palavra ao Sr. Relator, para que S. Ex.ª faça considerações a respeito da matéria. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Senhores expositores, meus caros companheiros da Subcomissão, Srs. Constituintes, minha observação, como Relator, é de caráter geral, porque mantenho aqui a posição de ouvir e falar pouco. Devo receber as opiniões, as proposições dos companheiros, e dos vários segmentos da sociedade brasileira, analisá-las e, ao final, apresentar o relatório que será então discutido, e emendado e votado pela Subcomissão. Não devo antecipar posições nem fazer colocações prévias. Não é esta a função do relator ou papel que ele deva desempenhar no momento. Desejo apenas ressaltar que notei, entre as idéias aqui expostas pelo Dr. Francisco Giffoni e pelo Dr. Osias Rodrigues, certo conflito com a exposição do Dr. Osias Lopes. Em alguns pontos elas são realmente conflitantes. Seria muito interessante para a Subcomissão ouvir, durante esta fase de debates, uma explicitação de certos temas, uma espécie de réplica, para que pudéssemos avaliar e chegar a uma conclusão. Estou absolutamente certo de que o pensamento da subcomissão é no sentido de que nós iremos, com relação à Constituição, fazer apenas um delineamento geral, fixar os parâmetros, as regras, as normas gerais, inclusive em matéria tributária. Não poderemos tecer a detalhes que são pertinentes à lei complementar e à legislação ordinária. Seria um grave erro, para este País – com a extensão continental que tem, com mais de 4.200 municípios, com diferenciação, às vezes chocante, que há entre todos esses municípios – pretender aqui estabelecer um modelo formal, que jamais poderia ser seguido ou adotado. Quanto à transferência em massa de alguns recursos para o município, tenho certa preocupação com relação à eficácia, à eficiência aos métodos, enfim, aos meios que possam eles utilizar para uma efetiva e real arrecadação desses tributos. A proximidade entre o poder político o poder fiscal é, real 93 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) mente, muito difícil de ser conciliada em certas situações. Não sei se seria conveniente adotar-se medida de resguardo, de cautela, de tal maneira que essa arrecadação passasse a ser feita de maneira efetiva, porque há uma margem imensa, já constatada no Brasil e aqui acentuada, de sonegação, que chega a ser realmente brutal em algumas áreas. Com relação, por exemplo, ao Imposto Único sobre Minérios – a que se referiu especialmente na parte final da sua exposição o Dr. Solon Amaral – posso dar um depoimento eloqüente ao Estado do Pará. Creio – e não faço nenhum exagero – que, com as informações e os conhecimentos que temos no momento, não há em matéria de riqueza mineral nenhum Estado melhor dotado do que o Pará, não só pela presença de Carajás, de ouro, de cassiterita, mas também de tantos outros recursos minerais que estão identificados, inclusive na região setentrional do Estado. Grandes projetos foram instalados no meu Estado. Não critico os projetos federais, porque todos eles foram criados de acordo com a filosofia dos pólos de desenvolvimento, isto é, voltados para a exportação. Esses grandes projetos – com o projeto Trombeta, a construção de hidrelétricas, como Tucuruí, o projeto AlbrásAlunorte, este já muito atenuado, muito modificado – criam uma infra-estrutura urbana admirável, com escolas, hospitais, lazer, mas na periferia desses projetos se adensa uma população cada vez maior, dependente do Estado em matéria de saúde, de educação, de transporte, de energia, de segurança, de tudo, enfim. Por exemplo, no Jarí existe o chamado Ribeirão; em Trombetas ocorreu a mesma coisa; em Tucuruí tínhamos o grande núcleo, obra admirável, com mais de 50 mil pessoas em determinado momento, mas ao lado estava o "primo pobre", que era a cidade com um contraste chocante. Como todos esses projetos estão voltados para a exportação, o Estado e o município não têm participação direta no Imposto sobre Exportação, fica preso ao Imposto Único sobre Minérios que é, realmente, em virtude das alíquotas estabelecidas, insignificante. E o Estado, em algum tempo, além desses problemas, fica com as crateras, com buracos abertos no solo, com a poluição do meio ambiente, com a destruição das riquezas. Então, precisamos realmente corrigir essas distorções, estabelecer mecanismos que possam evitar a repetição de erros dessa natureza. Fiz uma observação de caráter geral, não propriamente uma argüição, Sr. Presidente, porque acho que por meio do debate que vai ser feito pelos meus colegas e da confrontação de idéias entre o Dr. Francisco, o Dr. Osias e, sobretudo, o Dr. Osires, chegaremos a um resultado muito satisfatório para esta Subcomissão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência indaga dos senhores expositores se gostariam de dispor, por exemplo, de quatro minutos para fazerem observações a respeito da exposição do outro companheiro de painel, ou se poderíamos deixá-las para o final; ouviríamos agora alguém Constituintes que desejassem obter esclarecimentos. A Presidência acatará a sugestão que parece mais produtiva aos expositores. (Pausa.). Vamos passar, então; à réplica sugerida pelo Relator. S. Ex.ª solicita aos senhores expositores que sejam sucintos e abordem os aspectos essenciais da questão, para que possamos passar à fase de indagação. O SR. FRANSCISCO DE PAULA GIFFONI: – Em relação à visão crítica do Prof. Osires a respeito da nossa proposta, conhecida pela Seplan, acho que existe um pouco daquilo que havíamos dito antes, quer dizer, são duas vertentes: a da renovação e a da reforma. Pela apresentação do Prof. Osires, acabei concluindo que talvez tenha havido uma má intelecção por parte de S. Sª com relação à nossa proposta, por dois motivos: primeiro, S. Sª, fala em ruptura com a tradição tributária brasileira. Não há ruptura. Se S. Sª observar nossa proposta, repito, verá que a ruptura não existe. As inovações são até poucas e a principal delas é a base abrangente do ICM, com a qual o prof. Osires concorda, na sua maior parte, ou seja, com o que de mais típico existiria na proposta: a incorporação do ISS à base do novo IBA Quanto aos impostos únicos, continuamos defendendo a sua inclusão, apesar de algumas considerações feitas pelo Prof. Osires serem pertinentes, na minha opinião. Agora, quanto aos impostos municipais, tenho algumas considerações a fazer. Se as várias propostas existentes para a volta do ITBl aos municípios, não existe uma posição definitiva de nossa parte a respeito deste assunto. A maioria acha que ele deve permanecer no Estado, até em sentido contrário ao que o Prof. Osires disse, por tradição, e não para modificar alguma coisa que não teria, praticamente muito sentido; além disso, pelos dados da arrecadação, não seria muito significativa a volta do ITBI aos municípios. Quanto ao ITR especificamente, aí sim, a divergência é gritante, na medida em que a experiência anterior do ITR nos municípios foi um fracasso absoluto. Em segundo lugar, se observarmos hoje a arrecadação do ITBI, o que significa para os municípios, uma vez que toda a arrecadação do ITR vai para os municípios, ela é absolutamente insignificante. Não acreditamos que os próprios municípios terão condições de melhorar muito essa arrecadação. Em compensação, como instrumento de política agrária, podemos observar – e isso foi feito através de vários contatos com os especialistas – que, nesses programas de assentamentos, em funções de reforma agrária, se o ITR pertencesse ao estado ele teria uma fonte de renda bastante razoável para suprir essas novas necessidades criadas pela reforma agrária. Por fim, o ITR é um instrumento que não podemos culpá-lo de ser ineficaz ou inócuo, na medida em que a própria administração não atuou sobre ele. Se observarmos a legislação do ITR, veremos que se trata de uma das mais interessantes e mais modernas. O que faltou foi a vontade administrativa de utilizar o ITR durante esses vinte anos. Vários estados da Federação, consultados, são favoráveis ao ITR na estrutura legal vigente. Em relação às outras propostas do prof. Osires, como a possibilidade de incorporação de uma parte de serviços financeiros à base do IVA esse assunto também é bastante discutido. Como S. Sª mesmo reconheceu, uma boa parte da incidência, hoje, do IOF em várias atividades dos serviços financeiros é um instrumento muito eficaz da polí- tica econômica, apesar de, algumas vezes, ter sido mal-utilizado, e isso é uma questão de política de conjuntura. É um instrumento tributário também financeiro, do qual a União não pode abrir mão, de acordo com nossa visão, para responder à várias modificações da política econômica. No caso brasileiro, cujo setor financeiro é bastante variado, por uma série de motivos ele tem sido um instrumento muito eficiente. O que dissemos foi que atualmente a arrecadação do IOF, que vai para a União, não é partilhada em função de dispositivo desse imposto em nossa proposta à SEPLAN e ao IPEA todas as receitas, inclusive o IOF, seriam partilhadas. O SR. OSIRES AZEVEDO: – Só queria observar o seguinte: o Brasil é o país, como salientou o constituinte Aloysio Chaves, da ineficácia da norma tributária. Na Constituição se diz o seguinte sobre o ICM: "O ICM é um imposto de alíquota única em relação à natureza da mercadoria...", só faz distinção em função do destino: consumo interno, interestadual ou de exportação. Na prática, o ICM tem uma diversidade de alíquotas efetivas fantásticas, pelo sistema de isenções e de reduções, basicamente, do Conselho de Política Fazendária. O Imposto Territorial Rural – isso está na adição da Constituição – pertence ao município. Até há três anos, 80% dos tributos vinham para os municípios e 20 ficavam com o INCRA. Por quê? Porque havia uma lei complementar que determinava isso. Só através do Supremo Tribunal Federal foi que se estabeleceu que 100% eram 100%. Mas, no Tribunal Federal de Recursos foi julgado que era lícita a retenção de 20%, a neutralidade do ICM (o ICM era um imposto concebido para a arrecadação) não está como princípio explícito na Constituição, mas está implícito; na realidade, ninguém obedeceu essa norma e o ICM, hoje, está cheio de incentivos. Então, a minha posição não é conservadora; agora, também não é uma posição lunática, nem a de ser salvador da Pátria. O que vejo é o seguinte: tem que se examinar a experiência. Não há cortes no projeto histórico. Toda a evolução dos nossos tributos, foi escorreita. O sistema tributário, mutatis mutandis , o sistema do Império e o de hoje é mais ou menos o mesmo: tributação imobiliária nos Estados, tributação imobiliária nos municípios; tributação sobre vendas ao nível dos Estados; tributação sobre determinados consumos da União e sobre a exportação da União. Não há grande variedade. O que me faz ficar preocupado é o fato de se confundir instrumentos, de se confundir foros, de se confundir esferas. Acho que está havendo uma precipitação inovadora sem pensamento conseqüente, pois não podemos perder de vista que o sistema tributário é referido à economia. Ele não pode ser um elemento de acréscimo às deturpações e aos desvios existentes na economia. É esse o cuidado que tenho. Agora creio que é necessário aperfeiçoá-lo, perfeitamente. O maior aperfeiçoamento que conheço do sistema tributário foi feito por um decreto-lei que diz mais ou menos o seguinte: "Em face da inflação vamos corrigir o Imposto de Renda". O Imposto de Renda, durante um período de aproximadamente seis meses, deixou de ser em OTN, indexado. Mas ele é indexado. Essa foi uma grande reforma tributária que pouca gente sentiu. Houve, em 1979 – participei disso – a idéia de se lançar um imposto sobre herança e doa- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) ções. Esse imposto teve umas dez versões. Fazia-se uma pressão e tudo melhorava, quer dizer, atenuava-se o rigor do imposto. Aí a proposta foi derrotada sem nunca ter sido divulgado um anteprojeto desse imposto. Seis meses depois oneraram-se em 100% as heranças e doações, quando o Senado Federal baixou uma resolução aumentando o limite da alíquota máxima inter vivos de 1 para 2% e causa mortis de 2 para 4%. E ninguém falou nada, quer dizer, o Brasil, na minha opinião, em relação aos aspectos financeiros e tributários, é o país dos equívocos. Vale dizer, discute-se uma coisa, depois vem a resistência e, logo depois, sem grande discussão, resolve se o assunto dona calada da noite. Acho que um sistema tributário, como depende basicamente da estrutura existente no País, da adesão da população, ou é um sistema justo, um sistema progressivo, um sistema de tributação personalizada, um sistema baseado na capacidade contributiva do cidadão (é um princípio que deveria retornar explicitamente à nossa Constituição) ou vamos ter toda essa sonegação, a falta de adesão da população ao pagamento do tributo, que pratica esse fato econômico e paga o tributo. A possibilidade de se controlar um universo de 10 milhões de contribuintes individualmente é totalmente inexistente. Agora, o que vejo é o seguinte: elucubrações econômicas oníricas, um normativismo jurídico imperando e se esquecendo da comunidade, que tem de ser educada e sofrer um processo de mudança cultural, e do aparelhamento da administração tributária. Só queria observar – que omiti na minha exposição – que é muito tímida e canhestra a proposta desta Comissão, porque realmente nunca apresentou uma causa. (Intervenção fora do microfone). Quanto ao que o município tem, concordo com a Comissão Afonso Arinos – é um tributo sobre a venda a varejo em geral, porque há uma sonegação fantástica, ao nível do ICM nos dias atuais. Por quê? Porque também a fiscalização estadual não é onisciente, tem de colocar a solidariedade, senão fica essa posição hipócrita e farisaica de virem os estados e os municípios dizerem: – "Agora vamos partilhar mais da União" Quem é que vai tirar água da pedra? A União? A União tem suas dificuldades. Seu aparelhamento é muito distanciado. É eficiente a arrecadação do Imposto de Renda pela mobilidade da renda. Tem de ser a nível nacional. Mas, é difícil a tributação de vendas de estabelecimentos, pela sua pluralidade. Temos, hoje, no País cerca de dois milhões de empresas, considerando as microempresas. Então é impossível à União tomar conta disso. Daí ser importante colocarse na competência dos municípios a tributação das vendas a varejo, possibilitando que o imposto pago sobre as vendas a varejo – que teria uma alíquota máxima limitada, em lei complementar ou na norma constitucional – seja compensado não imposto estadual sobre vendas, seja ele imposto sobre valor agregado, ou sobre mercadorias e serviços. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Dr. Osias Monteiro Rodrigues. O SR. OSIAS MONTEIRO RODRIGUES: – Queria fazer uma consideração sobre um fato: ao final da sua primeira exposição o Prof. Osires colocou uma coisa realmente muito oportuna, procedente e que nos preocupa. Tanto que esta- mos propondo alterações que, infelizmente, não cheguei a citar. Ele falou numa mudança total, num salto no escuro. A verdade existe aí, na proposta do grupo de técnicos do IPEA, alguma coisa que é inovadora demais. Admitimos até que o risco será tremendamente grande, se adotada como está na proposta a esta Subcomissão. Refirome, por exemplo, especificamente, sobre o sistema de cobrança no destino do IVA. Efetivamente, é uma evolução muito grande. É um das maiores inovações, termo dessa proposta, a cobrança no destino, isto é, o IVA, que substituirá o ICM, passaria a ser o Imposto de Consumo, ou seja, o Estado só iria arrecadar de acordo com seu consumo. Bem, na verdade os estudos teóricos mostram que os estados, hoje ditos consumidores, teriam ganhado, porque as simulações feitas com os dados, também aqui não muito confiáveis, mostram que realmente a situação, teoricamente, é vantajosa. Acontece que a situação, hoje, por exemplo, do ICM, é que uma parte é cobrada na origem e a outra no destino. De forma que há uma repartição. O estado produtor, que tem custo de produção, que tem custos de infra-estrutura, é compensado por uma parte do que é produzido. Então, ele cobra uma parte da alíquota de 17%; nos estados do Sul e Sudeste são 9%. E o estado que recebe a mercadoria cobra, ao complemento, mais o valor adicionado. Muito bem. Esse sistema hoje traz um estímulo para o próprio contribuinte, porque quando ele recebe a mercadoria, recebe também um crédito fiscal do imposto pago na origem. E esse crédito fiscal serve de estímulo para que o contribuinte aproveite o crédito fiscal e o lance na sua escritura fiscal. Ora, hoje temos ciência disso, pois estamos metidos nessa administração tributária há mais de dez anos nos estados e sabemos que a sonegação é ainda brutal em termos de ICM. Há muito contribuinte que, mesmo tendo crédito fiscal, que podia utilizar se fosse o caso de pagar o imposto amanhã (ele hoje tem um crédito fiscal e podia não pagar imposto, deixar para pagar mais adiante) ele deixa de utilizar o crédito fiscal; não dá entrada na nota; nem de entrada, nem de saída. Então, realmente, isso nos traz grande preocupação. As máquinas estaduais de administração tributária ainda deixam muitas a desejar, a despeito do grande esforço que os Estados têm feito nesse sentido. Um exemplo prático: O estado da Bahia, hoje, tem no Pólo Petroquímico de Camaçarí quarenta empresas e delas arrecada 30% do ICM, pelo fato de cobrar tal imposto na origem. Muito bem. De 40% ele tem 30% de imposto em recursos consolidados pela Comissão de Técnicos, esses 30% de ICM e iria arrecadar através de 120 mil contribuintes espalhados pelo universo e procurar obter esses 30% que perdeu na origem. Evidentemente aí há um risco muito grande, pela deficiência da máquina arrecadadora e, possivelmente, os estados teriam prejuízo nessa situação. Então, outro problema muito aventado e que realmente merece destaque é o Imposto Único sobre Minerais, que hoje é pequeno mas é cobrado. Pelo sistema proposto, de cobrança no destino, praticamente não seria cobrado quase nada. O imposto sobre os minerais arrecadado passariam a ser cobrado no destino, para onde eles se dirigem. Só se cobraria daquilo que é consumido no estado. Haveria uma injustiça brutal para os estados que têm reservas minerais. 94 O SR. OSIRES AZEVEDO LOPES: – Sr. Secretário, permita-me dizer exatamente que senti que isso era uma imprudência. Na realidade, para mim, isso é uma maluquice tecnocrática. Quer dizer é, um pensamento onírico, propor essa fusão dos impostos únicos, pelo seguinte: a grande reinvidicação dos estados minerais é exatamente no sentido de que a riqueza que vai embora deixe algum recurso. Então se a tributação for feita no destino, quem arrecadará, dentro da técnica do IVA, será o estado consumidor, aquele que vai transformar essa matériaprima? Vale dizer, é um negócio mais ou menos irresponsável. Agora, só quero lembrar o seguinte: cita-se o Mercado Comum, fala-se muito mal do ICM, dizendo que é imposto de estado unitário. Na realidade, se imaginarmos a Comunidade Econômica Européia como forma de associação vamos que ele é típico de lá. É a tributação em domicílio, com alguns ajustes de fronteiras. Mas tem o que chamam de livre pratique , quer dizer, a livre prática. A mercadoria gira tranqüilamente. Agora, lá a declaração e a apuração dos resultados não são iguais ao nosso sistema, que é mais ou menos adotado na América Latina. É por empresa, quer dizer, como se fosse uma declaração do Imposto de Renda e, em alguns locais, até é fusionada a declaração do Imposto de Renda com a declaração, vamos dizer, do IPVA, valeur ajoutie . Ora, praticamos o princípio de domicílio para podermos colocá-lo onde está cada estabelecimento. O nosso princípio domicílio é o do estabelecimento, para o Poder Estadual se exercitar. Eu não vi, por isso é que acho que, vamos dizer, é uma proposição que não é nem dessa comissão. Isso aí todo mundo está propondo e a América Latina está toda cercada de IVA, porque adotou o modelo francês. Acho que o Constituinte de 65 e todos os outros foram muito prudentes, fizeram um sistema adaptado à nossa realidade. Então, toda a América Latina já pratica o IVA. Agora, o grande problema é como estabelecer a apresentação dos resultados, se por estabelecimentos – que é o critério do IPI e do ICM – ou o sistema unificado, esse que termina dificultando o controle estadual. O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Posso oferecer um aparte? O SR. OSIAS MONTEIRO RODRIGUES: – Pode. Mas quero completar meu pensamento e depois dizer que sou favorável à proposta, com as alterações que já fizemos e todos os Estados aprovaram. Acho que aqui, para usar uma expressão clara, devo dizer que a hora em que todo o exército marcha para um lado e eu marcho para o outro, há de se questionar de quem é a maluquice. Em todo caso o que eu queria voltar a dizer é o seguinte: talvez o próprio Prof. Osires, agora, no próprio discurso, reconheça que esses trabalhos não são nenhuma coisa lunática e nenhuma coisa fantástica; nem saíram da cabeça de nenhum fantasista. Eles vêm através de uma discussão de mais de 10 anos de experiência internacional, como ele mesmo reconheceu, esse princípio foi adotado em todos os países da Comunidade Econômica Européia e, inclusive, no Brasil. Quanto à sua observação, especificamente, Prof. Osires, eu iria colocar talvez a observação do Prof. Geraldo Taliba, catedrático da Universidade de São Paulo, junto com o Prof. Alcides Cláudio Jorge Costa, líder 95 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) docente também na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Direito, que também foi quem redigiu a proposta – eles são favoráveis a ela, evidentemente: na exposição feita na Subcomissão de Tributos ele ficou muito impressionado com o receio que os Estados demonstram de adotar isso, e argumentou mais ou menos nesse sentido. Vejam bem, a Comunidade Econômica Européia é composta de países diferentes. A história da agressividade entre eles é muito grande, até pelas famosas guerras européias. Eles adotaram esse princípio com muita coragem. Pergunto a ele – leia-se entre aspas a minha pergunta: que temor é esse? Esta proposta, da maneira como está formulada, não saiu gratuitamente. Foram consultados vários Secretários de Estados, há muito tempo. Uma das mais antigas reivindicações estaduais era exatamente que o Estado tivesse uma base ao nível da sua própria renda. Ora, quando adotamos o princípio de destino invertendo o princípio de origem, evidentemente que estava claro o risco em relação à eventual fiscalização que alguns Estados assumem com toda tranqüilidade. Mas adotou-se esse princípio exatamente pelo fato de que se aumenta, e muito, a base tributária sobre o IVA do próprio Estado, de tal maneira que a renda gerada num Estado vai ficar, na sua grande parte para ele mesmo. É esta a reivindicação de princípio de destino, da grande parte dos Estados. Quanto à sonegação, também o Prof. Osires acabou de responder. O problema da renda está aí para dizer a todo mundo que a questão não é de instrumento, é de máquina. Quando foi introduzido o Imposto de Renda no Brasil, achou-se que era uma revolução enorme que se estava fazendo. Basta vermos os anais de quando ele foi introduzido no Brasil, em 1925. A polêmica foi muito maior do que a nossa. Atualmente, o imposto está aí. É um imposto eficiente e acho que quanto ao risco, realmente, cabe aos Constituintes pensar, repensar e ver se vale a pena. O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Só queria pedir um aparte, pelo seguinte: revolta-me esse trabalho de nefilibatas, que imaginam que estão sonhando, vendo as coisas aí nas nuvens e têm de resgatar os tributaristas brasileiros. Uma pessoa chamada Gerson Augusto da Silva foi o grande construtor de todo o sistema tributário brasileiro, da ALALC, do Pacto Andino. É um homem que trabalhou na OEA e fez toda uma reforma, não só no Brasil, mas em toda a América Latina. Esse senhor introduziu, em 1958, no Brasil, o valor agregado. (Quer dizer, o valor agregado não é de ninguém, ele o introduziu com a prudência necessária. E tenho de dizer o seguinte: a taxe de Ia production, da França é de 1948. A alteração que ela sofreu para transformá-la em IPVA, uma taxa de Ia valeur ajoutée, valor agregado, foi em 1953 e em 1958. Muito antes de muitos outros países já tínhamos introduzido isso aqui no Brasil. Em 1974, foi introduzido, agora, com a prudência necessária. Não estou dizendo aqui prudente no sentido conservador. Mas adianta dar um salto, tropeçar e deixar cair a coisa. O que quero dizer é que não ninguém inventa nada em matéria tributária. Os modelos estão aí. Agora, não temos de voltar ao passado e vir aqui importar modelos colonialistas e nos orgulharmos, em plenário, de sermos colonialistas, porque o modelo existe no Mercado Comum; porque o modelo existe lá vamos adotá-lo aqui? Acho o seguinte: temos de refletir a nossa realidade. Chega de complexos de avestruz, de enfiar a cabeça no buraco quando a realidade é desagradável. Por que manter os impostos únicos, na minha opinião? Por que é sensato isso? No problema do imposto único, a única desvantagem é o sistema de participação, uma pessoa decidir sobre os incentivos, sobre as alíquotas. Acho que tem de haver um sistema. Quando houver a participação na receita tem de se criar um mecanismo em que um poder unilateralmente não possa estabelecer incentivos, isenções ou bases de cálculos aviltados com o sistema que existe hoje, para determinados minerais, basicamente o manganês, carvão, etc. O segundo é melhorar a distribuição. Do Imposto Único Sobre Minerais não fica nada na União, ou melhor, ficam 10%, o que é insignificante. Vinte por cento vão para os municípios e 70% para os Estados. Realmente precisa-se resolver isso. Agora, o Imposto Único Sobre Energia Elétrica, que é de mais fácil captação, pode jogar-se nesse sentido de determinar qual o consumo de cada pessoa, qual o valor do imposto atribuído a cada pessoa, em cada localidade. Ora, aí é mudar por desejo de mudar, é mudar por moda. Aí realmente eu acho que não dá. O SR. PRESIDENTE (Luís Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita ao Dr. Osias Monteiro que termine a sua intervenção. Vai conceder, depois a palavra, rapidamente, ao Dr. Francisco Giffoni, para nós darmos ao Constituinte oportunidade de participar do debates. O SR. OSIAS MONTEIRO: – Então não vou responder, agora, ao Dr. Francisco. Mas a Comunidade Econômica Européia é uma situação econômica mais ou menos eqüidistante. Não é o caso dos estados brasileiros que são às vezes complemente diversificado em sua economia e sua receita. Então, isso aumenta o risco. Dois estados mais ou menos equilibrados economicamente, não teriam risco algum. Mas, um lá em cima e outro lá em baixo, como é o nosso caso, assim seria muito risco. Agora, para resolver o problema, também não somos favoráveis a que não se implante essa reforma. Acho que ela tem de ser implantada. O aumento da base tributária é um fato. Agora, discutimos amplamente com membros dessa comissão, e com os estados, e todos eles estão aceitando que se mantenha o IVA, como está sendo proposto, com a base ampliada, apenas mantendo-se o mesmo sistema de cobrança do ICM, com uma parte cobrada na origem e outra no destino. Essa alíquota interestadual não alteraria o sistema de administração tributária dos estados sobre a qual nós já temos alguma experiência. E evitaria a evasão dos tributos oriundos do Imposto Único sobre Minerais, porque aí passaria a aplicar a alíquota interestadual, que hoje está em 9%, poderia ser reduzida e, com certeza, os estados produtores de minério poderiam ter um ganho excepcional em relação ao que tem hoje. Ocorre que hoje, embora a União tribute esse imposto, o faz com alíquotas irreais, porque à base de pautas que não correspondem à realidade. Também não comungo dos outros impostos, porque se o Imposto sobre Energia Elétrica é fácil de cobrar, porque o estado não usa também essa facilidade? Em vez de cobrar dos consumidores, cobre da companhia que fornece a energia elétrica. É uma cobrança fácil de se realizar, continuaria fácil, não entra em conflito e nós aproveitamos essa oportunidade. Essa proposta está sendo aceita por todos os estados. O SR. OSIRES AZEVEDO: – O problema é o valor agregado. Não se pode determinar unifasicamente o valor agregado. Esse é que é o problema. O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Por fim, essa questão que se está desenrolando um pouco além do que devia: a observação que desejava fazer é em relação ao que disse o Prof. Osires até porque se o conhecimento não fosse importado nós estaríamos na idade da pedra lascada. Acho que essa é uma visão obscurantista. Quanto ao Relator, eu gostaria de chamar a atenção de S. Exª para uma questãozinha que é muito pertinente. Há uma proposta de se acabar com as imunidades das empresas estatais econômicas, quer dizer, as que atuem em atividades econômicas, em relação aos impostos estaduais, no caso das empresas da União e, no caso das estaduais, em relação aos impostos tipicamente municipais, exatamente em função daquela sua colocação de que empresas muito grandes, estatais, que têm condições de recolher impostos que dão um dispêndio concreto às municipalidades, no caso citado, que são as Docas de Santos, do Rio de Janeiro, etc. (Intervenção fora do microfone lnaudível.) O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Exatamente. Então a nossa proposta resolveria teoricamente uma parte desse problema colocado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Preferência solicitada ao Dr. Osires que nos permita dar preferência aos Constituintes, uma vez que já estamos no tempo dos debates. Concedo a palavra ao Constituinte José Dutra. O Dr. Osires, se inquirido, poderá, inclusive, acrescentar qualquer coisa que julgar oportuno. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, Srs. expositores, gostaria de enfatizar por primeiro a importância deste debate nesta Subcomissão, especialmente em função da idéia que norteou o convite aos expositores. É sabido que o problema tributário está afeto a uma outra Subcomissão. Contudo, compete à Subcomissão dos Municípios e Regiões estabelecer a competência dos municípios da União e dos estados na grande Comissão Temática de Organização dos Estados. Mas quero sublinhar também especialmente essa fase suplementar de debates entre os painelistas, a importância dela, porque veio aflorar determinadas interrogações que ficaram no curso das exposições, especialmente em função do antagonismo das propostas ou das idéias que norteiam as próprias exposições. No mesmo passo em que agradeço aqui os ensinamentos trazidos pelo Dr. Francisco Giffoni, pelo Dr. Osias Monteiro Rodrigues, pelo Dr. Osires de Azevedo Lopes, pelo Dr. Solon Batista, eu gostaria ainda, utilizando essa faculdade que me concede a direção da Comissão de tentar extirpar algumas dúvidas que ainda pululam na minha mente a respeito das sugestões das idéias e das propostas que aqui foram colocadas no tapete dos debates. A primeira delas se dirige ao Dr. Francisco Giffoni, DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) em função especialmente do rápido enfoque dado quando fazia análise de proposta da IPEA ou da Comissão vinculada ao IPEA a respeito da Zona Franca de Manaus. Faço esta interrogação por este assunto interessar particularmente ao meu Estado. Já tive oportunidade de ler, na sua inteireza, o trabalho realizado pelo grupo de técnicos coordenado pelo Dr. Fernando Resende, assim como tive a oportunidade, também, de me deter na, análise da proposta que saiu da reunião de Manaus, da qual participaram os Secretários de Fazenda do Norte, Nordeste e do Centro-Oeste. Devo enfatizar que apesar das modificações inseridas no contexto da proposta saída de Manaus, ainda me restam algumas interrogações, apreensões e até perplexidade, no que concerne àquela Zona Franca. Gostaria de saber do Sr. Giffoni como ele vê, na condição de técnico, a solução para a preservação desse poderoso mecanismo de desenvolvimento que foi colocado dentro das fronteiras do Amazonas, com a intenção não só de ocupação física, mas de ocupação econômica daquela região num modelo que está respondendo positivamente aos anseios de ocupação da cupação, o fato de nós, a cada dólar importado, agregamos 43 dólares. Este é um resultado altamente positivo para a economia da região. E faço esta interrogação com uma dose de preocupação, em função de entender que nosso País não vai sair nunca dessa situação em que se encontra hoje, à beira do abismo, se as autoridades federais não olharem com mais carinho e mais respeito a Amazônia. Enquanto a Amazônia não for desenvolvida, vamos permanecer eternamente com essa dívida externa, sem condições nem de os nossos bisnetos virem a pagá-la. Esta é a preocupação que justificaria fundamentalmente o meu desejo de colher, de parte de V. Sª a opinião a respeito de como ficaria a Zona Franca nesse contexto. A segunda indagação que eu gostaria de fazer é exatamente sobre outra colocação feita por V. Sª, quando enfatizou que o imposto sobre o comércio de combustíveis lubrificantes que, pela proposta, ficaria com o município, viria beneficiar principalmente os pequenos e médios municípios. Gostaria também de deixar uma preocupação: pareceme que o quadro não é bem esse, porque, na verdade, esse imposto que caberia ao município beneficiaria uma parcela considerável dos municípios, mas jamais beneficiaria 5% dos municípios do meu Estado, porque em 5% deles não existe sequer um posto de gasolina para vender gasolina, óleo disel e lubrificantes. Eram essas, portanto, as duas colocações que gostaria de fazer ao Dr. Francisco Giffoni. Ao Dr. Osias Monteiro Rodrigues meu companheiro amazonense, participe, portanto, das nossas apreensões, dificuldades, angústias e problemas, devo dizer que também gostaria de ter uma manifestação a respeito do problema de Zona Franca de Manaus, nesse contexto, e gostaria de tirar uma dúvida, pois talvez não tenha percebido bem a questão dos números que foram enfocados pelo Dr. Osias, quando ele enfatizou a necessidade da mudança da proposta básica, situando-se em 55% da receita decorrente da reforma tributária para a União e 45% para os Estados e Municípios; e aí me despertou a atenção, porque a proposta da comissão, vinculada ao IPEA prevê de 41% para a União, 39% para os Estados e 20% para os Municípios. Acho que não captei bem a idéia de S. Sª mas acho absolutamente pertinente que essa divisão de 45% seja efetivada na proporção de 22% para os municípios, porque aí, evidentemente, subiríamos a participação do município no bolo tributário arrecadado como conseqüência da reforma. Ao Dr. Osires de Azevedo Lopes, eu gostaria, ao mesmo tempo em que comungo com suas preocupações, de fazer algumas observações com referência à transferência do Imposto Territorial Rural para a esfera do município. Parece-me que essa experiência como o Dr. Giffoni já enfatizou, não deu resultado no passado e nós sabemos que hoje a prefeitura municipal não cobra o IPTU sequer sobre a casa situada ao lado dela e muito menos iria cobrar de uma propriedade localizada distante dela. Por exemplo, é o caso do Município de Barcelos, no meu Estado, que é maior do que Portugal e jamais poderia cobrar esse IPTU numa área distante da prefeitura, até porque ela não tem estrutura para isso e não tem, pelo menos até agora, condições de montá-la. Gostaria de me manifestar com, relação a um fato infocado pelo Dr. Osires, quando ele sublinhou a necessidade de a Constituição delinear em seus princípios básicos a reforma tributária. Acho que este é um pensamento uniforme. Acho que nós não devemos tornar a Constituição casuística, mas me preocupa muito em que se coloque na Constituição apenas generalidades, deixando-se para a legislação complementar ou para a lei ordinária a base da reforma tributária, sem nenhuma limitação ou nenhum vetor que possa permitir a implementação dessa reforma em bases mais seguras. Isso por quê? Pelo quadro que nós vimos experimentando hoje. Nós sabemos que o "pires na mão", a nível de poder central, é evidente para os Municípios e Estados mais carentes; então, no momento em que formos legislar a reforma tributária através de lei complementar ou legislação ordinária, nós, do Norte, especialmente, vamos enfrentar um terrível adversário, porque até agora nós enfrentamos esses adversários. Veja bem, a nossa força política a nível de Congresso ou de Câmara dos Deputados é absolutamente insignificante e o Constituinte Aloysio Chaves sabe disso. A força política nossa, do Norte, é insignificante diante da grandeza das representações dos Estados mais desenvolvidos e mais populosos, o que nos deixaria a nós, do Norte, em situação talvez pior do que estamos hoje. Acho que na Constituição não se deve fazer uma lei ordinária sobre reforma tributária, mas se deve estabelecer os vetores, os indicadores mínimos necessários, para resguardar um tratamento justo para os Estados menos desenvolvidos, para os Estados mais pobres da Nação. Gostaria também de me referir ao Dr. Solon Batista para comungar com suas preocupações no que concerne ao problema das minerais, e nós, da Amazônia, estamos sentindo o problema, pois tanto quanto no Pará, onde já apareceram as principais jazidas minerais, também no nosso Estado elas estão surgindo e a tendência é surgirem a cada dia mais, porque se sabe que a Amazônia no passado era um grande oceano e a estrutura dela é decorrente. de uma grande explosão vulcânica que jogou para a nossa região um sem-número de minérios. 96 Comungo dessas preocupações, acho que devemos nos deter num estudo mais profundo a respeito dos impostos únicos, acho que devemos fazer uma reflexão muito profunda nesse sentido, porque está em jogo principalmente os interesses da nossa região, do Norte do País, que quer, com esta Constituição, abrir o caminho para seu destino de progresso e de desenvolvimento. Era o que tinha a dizer. O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Sr. Deputado, gostaria primeiramente de responder à sua segunda pergunta, porque ela já está praticamente respondida. Em verdade, a exposição teve que ser muito rápida, porque o projeto é realmente amplo e a fundamentação também. A idéia básica desse imposto de venda a varejo seria uma nova base, na medida em que o ISS seria incorporado ao novo IVA e o município perderia um imposto típico e de cobrança fácil. Nesse sentido o nosso projeto concorda com a opinião do Sr. Osires, de que os municípios devem ter instrumentos fáceis para fazer um esforço de arrecadação própria, no sentido de uma democratização maior da participação popular na gestão. Na verdade, nós pensamos que alguns municípios têm dificuldade muito grande de cobrar o imposto, o próprio IPTU. Em função disso criou-se aquela idéia maior do IPEA. O Imposto sobre Venda a Varejo é muito simples para a maioria dos municípios brasileiros. Realmente, no caso de alguns municípios brasileiros, entre os quais alguns amazônicos, dos quais – nós sabemos – 90% dependem da transferência federal, um imposto desse tipo não compensaria a perda do ISS. Mas também sabemos que o ISS praticamente não é cobrado, sendo então um instrumento inóquo para substituir outro instrumento inóquo, no caso dessas cidades amazônicas. Em relação à Zona Franca de Manaus, a preocupação da comissão foi pensar no sistema tributário como um todo. No caso típico da Zona Franca de Manaus e que reconhecemos exatamente a sua oportunidade e o seu esforço, foram pensadas algumas soluções, mas basicamente soluções que não introduzimos no projeto como um todo. Realmente, isso seria para nós matéria de lei complementar, daí termos conversados anteriormente com o ilustre secretário, inclusive sobre o projeto como um todo. Isso, realmente, seria para nós matéria de lei complementar. Daí termos conversado anteriormente com o Secretário de Fazenda do Amazonas, para ver quais seriam as propostas dos amazonenses a respeito de como poderíamos contornar esse problema da Zona Franca de Manaus em relação ao sistema como um todo. Achamos que isso deva ser repensado, aprofundado com as sugestões amazonenses – inclusive o Dr. Osires Azevedo Lopes já tem contribuído bastante. E, mais importante do que isso, a decisão não é nossa daqui para frente, mas, sim, dos senhores, dos amazonenses, de toda a Constituinte. Era o que tinha a dizer. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita aos senhores debatedores, aos quais forem endereçadas as perguntas, que as respondam. O SR. OSIAS MONTEIRO RODRIGUES: – Gostaria atendendo à formulação da pergunta do nobre Constituinte José Dutra de me referir primeira- 97 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) mente à Zona Franca de Manaus. Na verdade, dentre as várias tentativas de desenvolvimento regional que se tem feito no Brasil, não há dúvida alguma de que a Zona Franca é uma das mais bem sucedidas. Completando os dados que o Sr. Constituinte José Dutra expôs, o Estado do Amazonas, hoje, depende de sua economia total de mais de 75 pontos por cento de comércio, indústria e serviços da Zona Franca de Manaus. Podemos dizer com absoluta tranqüilidade que cerca de 120 mil empregos na indústria, comércio e serviços são gerados, hoje pela Zona Franca de Manaus. A proposta originalmente feita pela Comissão traz dois pontos que atingem fundamentalmente o sistema de incentivo da Zona Franca de Manaus. Já debatemos isso, inclusive formulamos propostas; já consta da proposta dos secretários Norte-Nordeste e CentroOeste, que está circulando na Comissão de Tributação. A primeira alteração profunda e que a Comissão está propondo é que a cobrança do IPI - o IPI é um dos incentivos que tem a Zona Franca de Manaus, os produtos lá fabricados são isentos do IPI, por conseguinte em relação ao resto constitui incentivo para a indústria fique restrito à cobrança sobre fumo, bebidas e veículos. Teríamos praticamente eliminado o incentivo fiscal oriundo do IPI, que tem hoje a Zona Franca de Manaus. Estamos propondo que permaneça o IPI. Não há problemas maiores. Aliás, a União acha a proposta bem-vinda, porque constitui sua receita; quer dizer, 40% do IPI que deixavam de ser arrecadados, pela restrição feita na proposta original iria beneficiar muito mais os estados industrializados. São Paulo, principalmente, que fica com mais de 25% desse imposto fizemos algumas simulações e não beneficiava os demais estados da Federação, muito pouca coisa. Voltando o IPI na forma como está sendo atualmente cobrado, resolveria tranqüilamente os problemas e não mexeria com nenhum estado da Federação. Esta é a proposta que fazemos, aceita inclusive pelos estados do Norte-Nordeste e CentroOeste. Outra alteração profunda é quanto a alíquota interestadual que deixava de ser cobrada. Como já falamos aqui a preocupação não é somente do Estado do Amazonas, passou a ser geral, no momento em que se institui o novo imposto - Imposto sobre o Valor Adicionado - com uma alíquota interestadual, embora mínima, mas que resguarda, em parte, o incentivo fiscal hoje dado sobre forma de restituição parcial do ICM. O Estado, evidentemente, eliminaria esse incentivo, mas teria de criar um outro mecanismo para compensar, é um problema interno se as indústrias achassem conveniente continuar com o incentivo. Na verdade, o IPI é importante e fundamental para a Zona ilegível alterado vai mudar profundamente a região com referência à participação dos estados, apenas um esclarecimento, porque realmente não me fiz bem claro. Eles arrecadam, a União e os Municípios arrecadam, dentro das competências tributárias de cada um. Dessa arrecadação há uma partilha de custo dos tributos federais para os estados e municípios e dos estados para os municípios. Com essa redistribuição de renda, com essas transferências intergovernamentais, o primeiro resultado que a Comissão apresentou dá essa distribuição que aí está: Os estados ficariam com 38 pontos a alguma coisa, os municípios com 20 e alguma coisa e a União conti- nuaria com aproximadamente 40,8%. Achamos que essa distribuição ainda não é a que todos desejam, razão por que estamos propondo a participação nos tributos federais seja elevada de 19%, como está propondo a Comissão, para 45%. Esta é a alteração. Quarenta e cinco por cento é a participação dos estados e municípios em todos os tributos federais, não somente IPI e Imposto de Renda, como é hoje a formação do Fundo de Participação dos Estados. Feita essa partilha nesse percentual 45% para os estados e municípios, 22% para os estados e 23% para os municípios, elevaríamos a participação tanto dos estados como dos municípios na participação global das rendas públicas entre a União, estados e municípios. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao Dr. Solon Batista do Amaral, que deseja fazer considerações a respeito da pergunta do nobre Constituinte José Dutra. O SR. SOLON BATISTA DO AMARAL: – Gostaria de me referir especificamente à questão da transferência para o município da competência para arrecadar o Imposto Territorial e o Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis. Sem dúvida, a experiência anterior de arrecadação do ITR pelos municípios não foi bem sucedida. Contudo, entendo que estamos vivendo um novo quadro institucional. As propostas que apresentei, que incluíram essa transferência aos municípios, partiram do pressuposto de que a nova Constituição vai delegar maior limite de competência aos municípios. Portanto, dentro da filosofia de que ao se delegar atribuições se deve delegar meios. Sem dúvida, um governo local fortalecido em suas competências vai gerar uma comunidade mais cobradora da atuação dos municípios. A própria pressão da comunidade em cima dos serviços públicos municipais vai gerar as condições objetivas para que o Prefeito e o município atuem mais eficientemente na cobrança e na arrecadação dos tributos, inclusive para que ele tenha maior respaldo e maior adesão da comunidade, para o próprio pagamento. Existe, evidentemente, o risco de que alguns pequenos municípios, pela extrema proximidade entre o poder político e o contribuinte, venham sofrer e ceder à tentação de não arrecadar como forma de clientelismo político. Mas se estamos vivendo um momento de mudanças e estamos propondo que se aprofundem as mudanças políticas e institucionais, devemos propiciar as condições para que essas mudanças se efetivam. Ao atribuir ao município a competência para arrecadar tributos, também se está atribuindo a responsabilidade de prestar serviços públicos à comunidade. A interação entre essas duas delegações é que vai gerar da autoridade municipal e do governo local a disposição de arrecadar o tributo, sob pena de não poder satisfazer as necessidades coletivas que passam à sua responsabilidade. Creio que o quadro, hoje, já é bastante diferente daquele ocorrido há bastante tempo, em que o município não buscava a arrecadação do seu tributo – reconheço que muitos pequenos municípios não têm quadros técnicos capazes de promover a arrecadação – mas o crescimento da receita, com o aumento das disponibilidades financeiras da prefeitura, vai gerar o surgimento dessas condições, para que, objetivamente, o município decrete e arrecade os seus tributos e possa, assim, responder às atribuições que se vai delegar a ele na nova Constituição. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Dr. Osires Azevedo Lopes, para responder ainda ao Sr. Constituinte José Dutra. O SR. OSIRES AZEVEDO LOPES: – O Dr. Solon colocou, com muita propriedade, a questão da tributação rural, e quase não teria mais nada a dizer a respeito. Eu complementaria dizendo que há vários critérios que determinam o estabelecimento de uma competência tributária. Um dos principais é a mobilidade do fator. Então, uma coisa de alta mobilidade, como o serviço ou uma renda nos Estados federativos, termina sendo tributada pela União, porque engloba o princípio da territorialidade. Daí é que tende a ficar na competência do órgão local, no nosso caso o município, os tributos que incidem sobre fatores que não têm mobilidade nenhuma sobre a propriedade rural ou urbana. Este é um princípio básico de tributação do sistema federalista, em que há partição das competências tributárias. Ao fazer esta proposição, utilizo dois outros princípios, o da integração da comunidade com o órgão que lhe presta os serviços públicos e o de participação, princípios que o Estado federalista utiliza. O mais concreto é a viabilidade econômica. Se o contato é mais próximo com o proprietário rural ou com o proprietário urbano, se torna mais viável. Ontem eu ouvia do diretor de cadastro do INCRA que têm cinco milhões de cobranças, emitidas pelo computador, que vão tentar jogar na Justiça para execução fiscal, que não estão sendo respondidas. Então, o modelo que se inverteu, que era municipal, também modificou o País. A autonomia municipal não é só de receber recursos, mas de obrigar a buscá-los. E preciso forçar a participação da comunidade. Ela tem de saber que entregando os recursos ao poder público vãolhe reverti bens e serviços sociais. Esta é a mudança de mentalidade, que é cultural, e que não vai ser prevista na Constituição. A constituição deve abrigar isso: fortalecermos a competência, principalmente dos pequenos municípios: eles têm de potencializar: se não otimizar, pelo menos colocá-la em um nível razoável que não ocorrem hoje. No fundo, todas essas medidas precisam ter caráter didático e educativo, para que tenha maior mobilidade e não fiquem querendo participar das receitas alheias. O problema básico, no fundo, das finanças brasileiras, é a política dos quatros "ee": administrar com economia, eficiência, boa utilização dos meios, com a eficácia, que é o alcance do resultado, e o último "e", que me parece mais fundamental na Nova República, que é a efetividade. Quer dizer, que os meios alcançados não sejam apenas os desejados pelos titulares do poder público, mas que tenham adesão da comunidade, que é o problema da despesa. Voltando à questão da participação – e aí faço justiça aos trabalhos da comissão da Seplan – ficou muito claro que há participações que são estabelecidas no interesse dos vários entes que estão associados na receita por questões de comodidade, eficiência de eficácia na cobrança do tributo, que é a típica do IPVA e do ICM atual. Para não termos dois ICM, como foi a idéia original da Reforma Constitucional nº 18 – quem consultar DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) o Código Tributário verá que o ICM do Município não teve eficácia – coloca-se a participação do órgão. Essa é uma participação econômica. Está se poupando o contribuinte de dois tributos a pagar. Lembro que na administração tributária muitas vezes os encargos tributários, chamados deveres, que têm sido irresponsavelmente transferidos para os contribuintes, são mais caros economicamente do que o próprio pagamento do tributo. Daí a importância, no Brasil, de todo esse programa de desburocratização para a pequena e média empresa, cujo ônus era muito grande. Então, existe esse sistema de participação com base essencialmente econômica, que, acho, deve ser adotado, e a outra participação, cujo exemplo mais típico é do atual Fundo de Participação dos Estados e dos Municípios, e o Fundo Especial, que é aquela vinculada à idéia da Federação. O que supõe a Federação, do ponto de vista fiscal? Não apenas que haja a União e os estados; e no nosso caso, que consagre o município como órgão autônomo, ainda que não do pacto federativo. Independentemente se antecipam pessoas jurídicas de igual nível, todas juridicamente de tal ou igual nível, mas no federalismo fiscal se supõe sejam desiguais. Aí ocorre aquela igualdade de se tratar diversamente seres desiguais, para colocálos todos ao mesmo nível. Aí vem os fundos de participação, os sistemas de distribuição de recursos, para estabelecer o equilíbrio da Federação através do estabelecimento de uma renda mínima média do cidadão pelo País. Isso é muito original do projeto. O sistema sairia do inverso da renda per capita, estabelecer-se-ia a renda média do País, seria transferido para os municípios e os estados aquele acréscimo para nivelar o País. Para mim, é uma coisa altamente significante ao nível de Federação buscarmos um crescimento homogêneo de todas as partes e inproporção, aqueles setores que estão muito atrasados dentro do panorama nacional. Concordo com o Sr. Secretário Osires Azevedo Lopes, em que a grande dificuldade de não é nem o baixo nível de valor agregado na Zona Franca. A grande dificuldade da Zona Franca é o problema do IPI. Ela só é viável economicamente, não decisivamente, pelas isenções na importação, não decisivamente pela isenção do ICM, mas pela reserva de mercado que o IPI lhe propicia. Se V. Ex.as examinarem a pauta de produção da Zona Franca vão ver que há uma tendência, principalmente do investidor industrial, de produzir aqueles bens sobre os quais incide a mais alta do IPI para o mercado interno. Lembro-me basicamente das bolas de tênis e das cartas de jogar, que têm alíquotas entre 50 e 70%. Na medida em que não há incidência do IPI, o produtor na Zona Franca tem uma margem de preferência fantástica dentro do mercado nacional. Ao se eliminar, este é o grande drama, o IPI como um imposto de espectro genérico sobre toda industrialização e colocá-lo sobre consumos específicos – tipo fumo, cosméticos, veículos automotores, bebidas etc. – a Zona Franca fica condicionada, até porque fumo e bebidas não são susceptíveis de serem incluídos nos projetos industriais. Realmente, é terrível essa situação. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao nobre Constituinte Mauro Miranda. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Sr. Presidente, gostaria de parabenizá-lo pelo convite a debatedores tão competentes como os que estão aqui conosco hoje. Nossas preocupações são de Estados mais pobres, como o do nobre Constituinte José Dutra, dos nossos companheiros que debatem conosco hoje, Dr. Solon Batista do Amaral e Dr. Osires Azevedo Lopes. O que precisamos hoje, de fato, é de mecanismos que atenuem o crescimento dos grandes centros urbanos – que, sabemos, são os que têm maiores dificuldades, suas condições de vida são cada vez mais difíceis e fortaleçam os municípios menores. Perguntaria ao Prof. Osires, que pretende somente uma adaptação, uma melhoria do atual sistema, que mecanismos nós, os pequenos – eu, por exemplo, represento quarenta e três municípios pequenos – poderíamos ter dentro de uma Constituição, já que em um sentido de pressão política perderíamos, como muito bem disse o nobre Constituinte José Dutra, para fortalecer o crescimento dos pequenos municípios, principalmente os Estados periféricos? O SR. OSIRES AZEVEDO LOPES: – Tenho toda simpatia, não somente como um técnico tributário, mas basicamente como cidadão, no fortalecimento do pequeno município, que ele floresça no País. Se V. Ex.as estudarem os problemas de urbanismo vão ver que qualquer cidade acima de 250 mil habitantes é uma cidade cancerosa, que nunca vai conseguir resolver a miríade de problemas que surgem. Daí, em um país desorganizado como o nosso, temos as grandes zonas metropolitanas, resultado do processo de industrialização com as grandes migrações. É uma questão de segurança nacional da mais relevante importância viabilizar, econômica e financeiramente, os municípios, de forma a fixá-los e fazê-los prosperar. Quem examinar a economia de um país como os Estados Unidos poderá, num ponto de vista turístico, imaginar que eles são Chicago, Nova Iorque, São Francisco, mas quem andar pelo seu interior vai ver que à pujança dos Estados Unidos são as pequenas cidades, auto-suficientes, com base industrial, pecuária, agricultura. Este é o modelo que, acho, devemos adotar aqui, fortalecendo essas comunidades. Se não conseguirmos, principalmente os políticos, titulares do Executivo, mobilizar as pessoas para agregálas em comunidades, discutirem, fazerem a abertura efetivamente política, representarem o interesse da comunidade, todas essas medidas vão ser artificiais. Já mencionamos aqui uma série de ineficácias das políticas adotadas no Brasil. O Brasil é um País de excelentes políticos. Faz-se uma política hoje, amanhã já se neutraliza 10% e em um mês 90% está neutralizada por medidas que a vão excepcionando. Realmente, aí deve haver um processo de mudança da cultura. Como o Prof. Solon mencionou, não adianta dar os fins sem dar os meios idôneos. É um princípio de construção jurisprudencial americana sobre a interpretação constitucional. A grande função dessa Constituinte é estabelecer as competências de cada órgão. Espero que consagre competência para as grandes zonas metropolitanas e para os órgãos de desenvolvimento regional, tipo Sudene, Sudam, Suframa, Sudeco, todos esses órgãos, para forçar a participação e a integração. Está compro- 98 vado neste País que o município é insuficiente, que o Estado é insuficiente, que a União é insuficiente por si mesma para tentar resolver os problemas. É necessário estabelecer mecanismos de integração, de participação e de solidariedade na solução dos problemas. Não podemos tocar mais, atomística e egoisticamente, todos esses problemas nacionais, devem ser criados esses pólos congregadores. Os pequenos municípios devem ter entidades que, com ganho de escala, façam seus planejamentos, atendam às suas necessidades. Reconheço o que o Prof. Solon falou, no sentido de se estabelecer na Constituição que as normas gerais de Direito Financeiro são baixadas pela União – e ela baixa a Lei nº 4.320, que "dispõe sobre Orçamento e Despesa Pública". É muito difícil para um município lá do interior, que não sabe nem direito, às vezes, o que é a coisa. Lembro-me de um fato verídico, em que o sujeito fez um repuxo em uma cidade do interior do Piauí: numa época em que só se podia fazer investimento de capital, ele desviou o recurso para fazer o repuxo. Aí o Tribunal de Contas baixou em diligência e o Prefeito ou seu assessor respondeu ingenuamente: "Pensei que o repuxo, a fonte sonora e luminosa fossem despesa de capital, porque só vejo isso na Capital do Estado". Quer dizer, a cultura do interior não tem a sofisticação. O problema do Brasil, que V. Ex.as vão ter que enfrentar, é o da dualidade ou trialidade: o município, ainda que jurídica e politicamente seja uma coisa, taticamente não o é. Um município como São Paulo é um poderoso arrecadador, com as finanças públicas superiores à maioria dos Estados brasileiros; mas Quixeramobim não deve ter sequer significativa arrecadação própria. A flexibilidade de estabelecer essa diversidade as na Constituição é o desafio de V. Ex. . Acho que pode muito bem ser equacionada na medida em que fazem essas audiências aqui, buscando a cooperação de todos. Este é o problema central do texto constitucional. Por isso, nobre Constituinte José Dutra, permita-me fazer essa observação, é que imaginei não a constituição duradoura, eterna, mas uma Constituição flexível, em que firme os princípios, estabeleça a estruturação fundamental, garanta os direitos do cidadão, efetivamente, com instrumentos idôneos, estabeleça a ordem social e deixe para uma legislação como a lei complementar, a tessitura, o detalhamento dos vários institutos, senão vamos ter crises de reforma constitucional uma em cima da outra, principalmente considerando que estamos em um influxo de idéias generosas. Se consultarmos as duas últimas Constituições disponíveis, a portuguesa e espanhola, vamos ver que foram consagradas coisas que não são exeqüíveis de imediato, o que eles chamam de "o direito à esperança". Colocam aqueles princípios na Constituição para servirem como ideário e mobilização de reivindicação para se conseguir níveis gradativos melhores. Não sei se colocar uma Constituição extensa, com esses direitos, efetivamente vai propiciar que eles sejam alcançados a curto ou a médio prazo. Algumas coisas são inexeqüíveis. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos passar a palavra ao nobre Constituinte José Freire. 99 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. CONSTITUINTE JOSÉ FREIRE: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Conferencistas, prezados Constituintes, já se disse que o difícil é ter tempo para ser breve. Sr. Presidente, serei breve e objetivo, dado ao adiantado da hora. Teria algumas considerações a fazer, mas dou-me por satisfeito com as brilhantes exposições dos Drs. Francisco Giffoni, Osires Azevedo Lopes, Osias Monteiro Rodrigues e, por último, Dr. Sólon Batista do Amaral. Todos foram brilhantes, alguns mais prolixos, outros mais objetivos, mas, enfim, todos se saíram bem no propósito que investiram de vir até esta Subcomissão para dar esta valiosa contribuição na elaboração da nova Carta Magna do País. Quero fazer aqui uma observação com relação ao enfoque dado pelo conferencista, Deputado estadual do meu Estado, companheiro e correligionário, Dr. Sólon Batista do Amaral, homem de grande experiência nesse setor, já que orienta um escritório de contabilidade e assistência jurídica às prefeituras do nosso Estado – praticamente a metade das prefeituras do nosso Estado – homem que conhece a fundo esses problemas, hoje integrante do Poder Legislativo do meu Estado, estudioso dos problemas aqui abordados. É inegável que todos os integrantes da Assembléia Nacional Constituinte, a partir da convenção do partido de cada um, das entrevistas nas rádios, na Imprensa, de modo geral, nos comícios, nas praças públicas, todos se comprometeram com a reforma tributária neste País. E, ao fazer esse comprometimento, não fizeram nada mais nada menos do que ir ao encontro dos anseios da quase totalidade do povo brasileiro, que quer realmente uma reforma tributária. Chego a me preocupar com a ânsia e com o desejo dessa reforma. Sr. Presidente, não sou membro desta Subcomissão, estou aqui como olheiro, observador, sou membro efetivo da Comissão de Sistematização que vai, evidentemente, bifurcar, prática ou totalmente, todos os problemas discutidos no Plenário, nas Comissões Temáticas e nas Subcomissões da Assembléia Nacional Constituinte. Estou, a cada dia em que comparecem nesta Casa conferencistas brilhantes como os de hoje, aberrando um pouco de conhecimento e prática, para, na Comissão de Sistematização, tentar dar nossa modesta colaboração na elaboração da Carta Magna do País. O conferencista Sólon Amaral enfoca o controle do uso do solo nos Municípios, a contribuição de melhoria e a exploração do ouro. Já que vamos legislar para a Nação inteira, não é fácil incluir no bojo da Constituição coisas como estas que Sólon Amaral abordou, e que também estou abordando, de diferenciar, por exemplo, um Município do Rio Grande do Sul, do Paraná ou de São Paulo, com um Município da Amazônia ou de Goiás. É claro que seria em lei ordinária. Fico a pensar se nós, constituintes, não deveríamos estar analisando aspectos da natureza abordada por Sólon Amaral. Um Município da minha região, a região amazônica de Goiás, que tem ouro e onde de um dia para outro, quase como aconteceu no Estado de nosso ilustre Relator, afluem garimpeiros de todas as partes do País, desordenando os recursos e o planejamento municipal, na cidade de Monte Alegre, que tem cassiterita em grande quantidade, de um dia para outro viu surgir o garimpo Riacho dos Cavalos, com 8 mil garimpeiros. O Prefeito ficou a tentar dar escola, saúde pública, furar poços artesianos para fornecer água aos garimpeiros e construir estradas. Há ainda outros garimpos, como o da Ingazeira, com um número aproximado de 22 mil garimpeiros, quando o de habitantes não passa de 9 mil. Esse Município não estava preparado para receber um número tão grande de garimpeiros do dia para a noite. E o problema de infraestrutura, de postos de saúde, de escolas e tantos outros? O que o prefeito pode fazer? Deixo o assunto para meditação ao Presidente, ao Relator e a todos os membros desta Subcomissão, porque o assunto foi abordado em um momento muito propício. Na minha cidade natal temos o problema de uma usina de álcool, em que, de uma hora para a outra, 3 mil e 200 famílias chegaram e cuidentemente, desarticularam as finanças do Município! Sr. Presidente, não quero levantar qualquer pergunta nem questionar a nenhum dos conferencistas. Estou preocupado com a preocupação dos Constituintes com o Projeto Afonso Arinos. A maioria acha demais um número aproximado de 480 artigos para constar em uma Constituição, pois a tradição no Brasil, desde a Constituição de 1891 até a presente, foi de, em média, apenas 180, 190 artigos. Preocupam-me essas coisas sintéticas e objetivas. Recordo-me, Sr. Presidente – sou um Parlamentar antigo nesta Casa, não tive o privilégio de participar da Constituinte de 1946, mas já tenho 8 mandatos, 6 nesta Casa e 2 no Poder Legislativo de meu Estado, – recordo-me de que na Comissão de Fiscalização Financeira e Tomada de Contas, quando se discutia o artigo da Constituição de 1946, segundo o qual cabia ao Congresso Nacional, mediante o sistema de controle interno do Poder Executivo, instituído por lei... Até o meu mandato passado essa lei ainda não havia sido regulamentada. Ontem, no plenário desta Casa, ouvi a discussão de uma mensagem presidencial que me causou espécie: um Parlamentar apresentando uma emenda e ela sendo acolhida pelo Relator. O que diz essa emenda, que regula o assunto discutido. Então, um artigo que está embutido na lei vigente passou a fazer parte de uma lei ordinária. É isso o que me preocupa. Quero encerrar minhas palavras cumprimentando os conferencistas e dizer que saio com uma certa tranqüilidade, porque sei que esse aspecto da reforma tributária envolve a preocupação da Nação inteira. Temos V. Ex.ª, Sr. Presidente, presidindo esta Subcomissão muito bem. Desde o instante em que aqui cheguei tenho observado V. Ex.ª e o Relator, que não perde, por um momento sequer, a atenção, ouvindo tudo o que se fala a respeito da contribuição que querem trazer à Assembléia Nacional Constituinte. Ao Relator, Sr. Presidente, não faltam qualidades, quer como professor universitário, que como ex-Reitor da Universidade Federal de seu Estado, quer como Governador do Pará, quer como Senador da República, quer como Constituinte, não faltam atributos e qualidades para que possa tirar desses estudos e painéis, que estão sendo realizados aqui, um trabalho eficiente para levar à Comissão de Sistematização e essa, por sua vez, levar ao Plenário da Assembléia Nacional Constituinte. Estou certo de que daqui sairá um trabalho sério e objetivo, para ser oferecido à Nação brasileira aquilo que todos estão esperando: uma Constituição duradoura, séria, que contempla todas as aspirações nacionais. Meus cumprimentos a V. Ex.ª, Sr. Presidente, pela maneira como que está conduzindo os trabalhos desta Subcomissão; ao Relator, pelo grande trabalho que terá e, tenho certeza, oferecerá à Nação; e aos conferencistas, que trouxeram mais luzes e maiores esclarecimentos para que esta Subcomissão possa extrair deste debate uma Constituição duradoura, eficiente e democrática. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Esta Presidência passa a palavra ao nobre Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Alguns municípios, como bem salientou o companheiro José Freire, têm experimentado um crescimento imenso no caso especificado, além dos que compõem, principalmente, as áreas metropolitanas brasileiras, com crescimento em média de 4% ao ano, com problemas muito sérios. Tirando as exceções, perguntaria aos confencistas, e particularmente os Drs. Osires Azevedo Lopes e Francisco Giffoni, se algum estudo foi realizado no sentido de procurar compatibilizar a distribuição de recursos em função da renda do município. Isto é, foi dito aqui e, sabemos, que, lamentavelmente, por falta de uma visão global, o brasileiro é latino e segue teoria latina em relação ao imposto, não sendo nem um pouco anglo-saxônico; no entanto, os prefeitos são anglo-saxônicos no momento de reivindicar a autonomia e latinos na hora de cobrar o IPTU, o Imposto Territorial em seus municípios, se caso for estendida essa autorização. Entendo que é muito importante fixar critérios e parâmetros no sentido de compatibilizar a participação daquele município em função de sua arrecadação, a não ser, é claro, por motivos excepcionais, como o alegado pelo companheiro José Freire, ou outros que venham a surgir. Tenho a impressão de que este é um avanço muito grande. No Estado do Paraná, por exemplo, em mais de 200 municípios a arrecadação do IPTU e do ISS não chega a 3% do total. Isso é um absurdo, é uma politicagem que não podemos deixar de corrigir nesse processo constitucional. Vou mais além, quero aproveitar esta oportunidade, se bem que não é matéria dos conferencistas, mas é bom contar com as luzes dos mesmos, para dizer que existe a necessidade de se estabelecer algum parâmetro em relação ao funcionalismo público. No Município de Curitiba, com 1 milhão e 300 mil habitantes, há 3 mil e 300 funcionários públicos, que realizam, no meu entender, um trabalho muito eficiente. No entanto, fui surpreendido com notícias nos jornais que diziam que em outras capitais brasileiras, com população inferior à de Curitiba, o número de funcionários chega a ser até 6 vezes maior. Isso é um absurdo, uma irresponsabilidade, e quem acaba pagando é a Nação inteira; depois os municípios vêm pedir dinheiro para fazer politicagem nesse nível. Esta é outra coisa que deveremos compabilizar nesta Subcomissão. Finalmente, faço uma pergunta generalizada, com relação aos instrumentos populares para saber quem está pagando direitinho seus impostos. Entendo como fundamental, nesse processo, por exemplo, a divulgação de quanto pagam determinadas indústrias, qual é, enfim, a arrecadação; DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) abrir-se à população a possibilidade do conhecimento de quanto e de quem está pagando. Sabemos muito bem que, dentro desse espírito de latinidade, muita gente acaba pagando muito menos do que deveria. Darei um exemplo, especificamente, a nível de IPTU: Na tal construção de casas populares, pela Caixa Econômica, o mutuário é obrigado a declarar, no momento em que contrai o empréstimo, o valor real da sua propriedade, que muitas vezes está localizada em um bairro distante, não portanto, em muitos casos, recursos de infra-estrutura. Esse cidadão, surrealisticamente, acaba pagando mais impostos que o proprietário de um imóvel localizado em uma região mais valorizada, que simplesmente recolhe o valor venal. Acho importante oferecermos às organizações populares, ao cidadão e à cidadã, o direito de saber quanto cada um está pagando e terminar com essa história de ninguém poder saber por razões éticas. Por exemplo, como prefeito assino um convênio com a Receita Federal e, eticamente, estou proibido de falar quanto fulano está pagando. Acho que isso deve ser aberto, todos têm o direito de saber quanto e quem está pagando, para saber quem, eventualmente, pode estar roubando. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa primeiramente a palavra ao Dr. Francisco Giffoni para responder a pergunta e, na seqüência, o Dr. Osires Lopes acrescentará o que julgar conveniente. O SR. FRANCISCO GIFFONI: – Gostaria de fazer uma observação a respeito da primeira parte da indagação de V. Ex.ª Imaginou-se em nossa proposição e na da Seplan, do qual V. Ex.ª recebeu uma cópia, o novo Fundo de Participação, que chamamos de Fundo de Equalização, a partir de urna série de teorias econômicas e financeiras, as quais o Dr. Osires já expôs com rapidez, que diferem da partilha e da transferência. A partilha é a divisão das bases tributárias entre os vários níveis de Governo, a transferência é a transferência dos recursos no sentido de tentar diminuir as diferenças existentes entre despesas ou receitas, dependendo do critério. Nós adotamos o critério de tentar, nas transferências, aproximar e equalização das despesas. A justificativa é a de que o gasto é muito difícil de tentar fazer. Concebemos que uma parte desse fundo poderia ser um fundo social ligado à necessidade do gasto público, em uma tentativa tentarmos a equalização dos gastos públicos por habitante. Isso seria feito por um tipo de fórmula que consideraria a população exatamente em função das observações de V. Ex.ª. Existe atualmente no quadro brasileiro, a partir de uma mostra muito grande de Municípios onde trabalhamos, diferenciais absurdos em relação a esse tipo de problemas, especificamente. Um deles, já mostrei aqui, é o problema dos Municípios viverem apenas de transferências federais; outros problemas são do tipo colocados por V. Ex.ª, em que municípios pequenos, relativamente ricos, acabam recebendo por esse atual sistema de transferências um receita per capita até 20 vezes maior do que os Municípios das grandes capitais. Um caso bastante clássico é o do Município de ltaquaquecetuba, na Grande São Paulo, um Município-dormitório, cuja receita per capita é muito inferior a de um pequeno município de Minas Gerais, 20 ou 25 vezes menor, sendo um Município relativamente rico. Como resolver ou tentar resolver esse problema? De um lado, dar uma maior base tributária a esses Municípios que já têm essa base, mesmo tendo todos esses problemas sociais, dinamizar a receita, de outro lado, talvez, pensar-se em algum tipo de fundo que pudesse resolver essa distorção existente hoje esses fundos de participação, em relação à distribuição entre os vários Municípios. Nossa preocupação nesse trabalho também foi ir ao encontro do direito do cidadão; antes de mais nada. Adotamos, nesse ponto, a mesma doutrina do Dr. Osires, no sentido de acharmos que o capítulo constitucional do Direito Tributário deve ser relativamente enxuto. Em função disso, achamos que talvez coubesse, em lei complementar, algum tipo de garantia mais definida sobre esse tipo de questão que V. Ex.ª havia colocado, por exemplo, de por que não se dar ao público às informações econômicos-fiscais dos vários níveis de Governo? Esta é uma questão na qual não nos aprofundamos mais e que, em nossa concepção, seria matéria subconstitucional. O SR. OSIRES AZEVEDO LOPES: – Sr. Presidente, nobre Constituinte Maurício Fruet, tenho a impressão de que V. Ex.ª tocou em um ponto fundamental da teoria do poder público. Sou adepto da teoria de que o serviço público não tem apenas a função de servir ao público, mas de servir em função de uma finalidade. O titular eventual de um cargo executivo, legislativo ou funcional, não é o dono da função pública, é o mandatário do povo, portanto, tem o dever de informar e de esclarecer. Uma das deficiências desse dever de abertura – se consultarmos a Constituição veremos que todo o Poder Executivo presta contas e informa – é exatamente a publicação das estatísticas para que a comunidade saiba o que está sendo realizado. Fala-se muito em dar transparência ao gasto público, mas, como tudo no Brasil, o discurso é democrático e generoso. Mas existe uma grande defasagem entre o discurso e a prática, a execução. Acredito que com todos esses debates, com a mobilização popular que propiciou a campanha das diretas, estamos mudando qualitativamente o País, estamos tendo agora novas células de poder político e de influências, o que está realmente mudando a correlação de forças políticas dentro do País, o que vai seguramente possibilitar um maior controle. A Constituição fala muito em controle de legalidade dos atos públicos. Sou favorável não ao sistema de controle concentrado, mas ao sistema de controle difuso, em que tenha não os órgãos previstos na Constituição, mas o controle da opinião pública, da comunidade. Um dos principais tipos de controle é justamente aquele pelo qual V. Ex.as foram eleitos, o controle via eleitoral, em que aquele que foi um mau representante, que não se identificou com a opinião pública, deve sofrer a penalidade de não ser reeleito deve sofrer essa penalidade. Fiquei pensando se faço ou não a sugestão. Sempre achei que deveria haver um limite no gasto do custeio, vincular o gasto do custeio à percepção de transferências. Mas essa termina sendo uma medida punitiva, porque não podemos raciocinar como se o País fosse um método. A Constituição vigente, no art. 64, já dispõe sobre isso, não se tem notícia desse disciplinamento em lei complementar, que esta- 100 belecerá os limites para a despesa de pessoal da União dos estados e município. Penso que seria saudável, estudando as circunstâncias das despesas existentes, que houvesse um limite de despesa de custeio de pessoal, porque alguns estados se estão confundindo com a Previdência Social, estão transferindo renda para determinadas pessoas que não prestam nenhum serviço ao Estado, é uma função inadequada. Pretendendo obviar essa função de previdência social, que é uma deturpação, um desvio do modelo, mas existe, propus que as contribuições – está no documento que distribuí a V. Ex.ª, esqueci-me de mencionar – exceto a previdenciária tenham uma destinação específica para os municípios; não pude aventar o montante porque não sei o nível de gasto do município. Uma deturpação do modelo atual é a competência privativa da União para instituir as contribuições e os empréstimos compulsórios. Deve constar de Constituição que se a União criar empréstimos compulsórios, que às vezes em natureza tributária, ela terá de dividir. Não vejo como uma contribuição de intervenção no domínio social se estabeleça sem que se destine para parte os municípios e estados, entes públicos que têm maior contado com o contribuinte. Finalmente, acho que V. S.ª agregou algo fundamental: o trabalho desta Constituição não se deve esgotar no ponto de vista da União, estados e municípios, mais do que isso, deve dar substâncias a todo mecanismo político que é a população, a comunidade política e, na ordem tributária, basicamente, às unidades produtivas. Que consigamos fazer um pacto constitucional de divisão de poderes, de controle do poder político do Estado, respeitando a estrutura econômica do País, que ela não seja um obstáculo, mas, como diz Weber, unam superestrutura jurídica que possibilite o florecer e a desenvolver das relações produtivas deste País. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência, antes de passar a palavra ao último Constituinte inscrito, o Sr. Eraldo Trindade, concedeu a palavra ao Sr. Sólon Batista do Amaral, que pretende acrescentar informações a respeito ao assunto. O SR. SÓLON BATISTA DO AMARAL: – A pergunta do ilustre Constituinte se referia, no meu entendimento, expressamente ao estabelecimento de uma vinculação entre o exercício efetivo da arrecadação municipal e o recebimento, também efetivo das transferências federais. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Respeitadas as peculiaridades. O SR. SÓLON BATISTA DO AMARAL: – Respeitadas inclusive como V. Ex.ª mencionou, as circunstâncias excepcionais que às vezes afetam determinados municípios. Há cerca de dez anos transitou no tribunal de Contas da União – salvo engano meu, se não me falha a memória – por iniciativa do ilustre exPresidente Ministro Iberê Gilson, uma proposta pela qual o Fundo de Participação dos Municípios seria distribuído em duas fases, uma automática e uma parcela menor, se não me engano 30% do montante a ser distribuído, que estaria vinculada à comprovação pelo município do cumprimento da sua própria programação fiscal, ou seja, 101 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) o município teria de comprovar não apenas que lançou e procurou arrecadar seus tributos mas que deu uma efetividade a isso, fazendo o lançamento dos débitos fiscais inscritos em dívida ativa e a tentativa de sua arrecadação, por intermédio da cobrança judicial. Tal medida não prospera. Creio que seria necessário ou suficiente dar mais clareza ao textos legais quanto à responsabilidade do prefeito, dos administradores ou dos funcionários municipais quanto à exação funcional. Bastaria que se colocasse com maior clareza que constitui responsabilidade legal e o seu descumprimento constitui crime de responsabilidade a falta de exação na arrecadação dos tributos municipais. Com isso se asseguraria, sem estabelecer mais um tipo de controle sobre as transferências federais, que o administrador municipal deixaria de atender à política de clientelismo que o levaria a não arrecadar os impostos, a descumprir o que pela própria legislação tributária está definido como dever inafastável do administrador, que é o de lançar e arrecadar os tributos da sua competência. Esta é a contribuição que gostaria de prestar. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Nogueira): – Com a palavra o Sr. Constituinte Eraldo Trindade. O SR. CONSTITUINTE ERALDO TRINDADE: – Sr. Presidente, Srs. expositores, colegas Parlamentares, vou procurar não me alongar em relação ao meu ponto de vista, porque acho que todos os pronunciamentos e exposições apresentadas corresponderam à nossa expectativa. Mas o Deputado José Freire, de Goiás, apresentou algumas colocações a respeito de seu Estado, assim como o Deputado José Dutra, do Amazonas. Na qualidade de representante do Território Federal do Amapá, gostaria de tecer alguns comentários não em relação ao IPI, IPVA, IPTU, mas, especificamente, em relação ao Imposto Único sobre Minerais. O Território Federal do Amapá, em 1985, exportou aproximadamente oitocentos mil toneladas de manganês. Dias atrás, quando fui ao Amapá, procurei fazer um contato com membros da Secretaria de Finanças, a fim de tomar algumas informações, subsídios, para os trabalhos desta Subcomissão. E, para minha surpresa, nem a própria Secretaria do Amapá tem o controle de quanto aquele território ganhou em royalties com as exportações, nem tampouco me soube informar se existe alguma fiscalização no momento do embarque de minerais. Acho que trabalharmos para a criação de um instrumento que proporcione ao poder municipal condições de arrecadação própria é fundamental a esta altura, acima de tudo para que o próprio Município possa ter o poder de fiscalização. Neste País há muita coisa errada pelo fato de que muito se tem feito de cima para baixo, as decisões são tomadas a nível de gabinetes, sem se levar em consideração a realidade de cada região. A partir desses debates, a partir das exposições feitas, verifica-se que a reforma tributária é necessária e inadiável, assim como também se deve levar em consideração a realidade de cada região. A reali- dade de São Paulo, evidentemente, é diferente da realidade de Goiás, de Manaus, no caso do Amazonas, e do Território do Amapá. Esta é a proposta que trago. Estou fundamentado, inclusive, na idéia de que devemos trabalhar em cima dessa reforma tributária, observando a proposta de criação de instrumentos capazes de dotar os municípios de uma ação própria na questão da arrecadação, assim como de um instrumento de fiscalização que irá viabilizar a resolução de muitos problemas municipais. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência, antes de encerrar os trabalhos, agradece aos senhores expositores, pois, seguramente, não alcançaríamos os resultados que vamos alcançar não tivéssemos tido a oportunidade de abordar nesta Subcomissão dos Municípios e Regiões o assunto tributário, que, na verdade, está intimamente relacionado às competências que aqui deverão ser fixadas. Agradeço, portanto, ao Dr. Francisco Giffoni, ao Dr. Osias Monteiro Azevedo Lopes, ao Dr. Sonon Batista de Amaral, a contribuição expressiva para nossos trabalhos. Agradeço a todos a presença, lembrando que a semana que vem teremos mais três painéis, sendo que o primeiro se realizará na terça-feira pela manhã e os outros dois na quarta-feira, um pela parte da manhã e outro à tarde. Reafirmo que é imprescindível a presença de cada um dos Srs. Constituintes. Aproveito, ainda, para registrar a presença do Deputado Simão Barros, do Estado do Amazonas, que acompanha o Sr. Constituinte José Dutra. Está encerrada a reunião. COMISSÃO DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO Subcomissão dos Municípios e Regiões ATA DA 10ª REUNIÃO ORDINÁRIA Aos cinco dias do mês de maio de mil novecentos e oitenta e sete, às dez horas e quinze minutos, reuniu-se a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na sala B-3, Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a Presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, presentes os Senhores Membros: Waldeck Ornélas, Mauro Miranda, Eliezer Moreira, Aloysio Chaves, Geraldo Melo, Victor Buaiz, José Dutra, Maurício Fruet, Lavoisier Maia, Eraldo Trindade, Edésio Frias, Alexandre Puzyna, Sérgio Brito, Luiz Freire, Mello Reis, lvo Cersósimo, Nestor Duarte, Louremberg Nunes Rocha, e Raimundo Rezende. Ata – lida e aprovada a Ata da reunião anterior. Iniciando os trabalhos, o Senhor Presidente comunicou que a reunião se destinava à realização de Painel sobre o tema: “Aglomerados Urbanos”, tendo como expositores os Senhores: Zaire Rezende, Prefeito de Uberlândia – Minas Gerais; Arlindo Villaschi Filho, Consultor do Projeto EBTU – BIRD e Diretor do Centro de Estudos de Questões do Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo; Marcelo Duarte, Vice-Prefeito de Salvador e Professor de Direito Constitucional da Univer- sidade Federal da Bahia e Getúlio Hanashiro, Secretário de Estado dos Negócios Metropolitanos de São Paulo. Com a palavra, o Sr. Zaire Rezende fez uma explanação sobre a administração de seu município, propondo uma ampla reforma tributária, com a inversão da pirâmide tributária. A seguir, o Sr. Arlindo Villaschi Filho, frisando ser o espaço urbano eminentemente político, disse da necessidade de ser criado um órgão legislativo, que seria uma instância intermediária do nível metropolitano; defendeu a consulta plebiscitária e delegação de competência aos Estados-membros para a criação de regiões metropolitanas e aglomerados urbanos. Na seqüência dos trabalhos, falou o Professor Marcelo Duarte, defendendo o associativismo municipal e dizendo ser o Estado-membro uma entidade essencial do Federalismo. A seguir, o Sr. Getúlio Hanashiro trouxe dados específicos da Região Metropolitana da Grande São Paulo, enfocando a qualidade de vida naquela região, com grandes desníveis sociais, ostentando grandes riquezas ao lado de bolsões de miséria; propôs a criação de uma entidade dotada de personalidade jurídica de direito público, com a função de organizar, planejar, programar e executar serviços de interesse metropolitano. Terminadas as exposições, o Sr. Presidente concedeu a palavra ao Sr. Relator, Aloysio Chaves, que louvou o nível das contribuições trazidas aos trabalhos da Subcomissão, solicitando maiores informações sobre o Governo dual, proposto pelo Sr. Arlindo Villaschi. Participaram dos debates os Senhores Constituintes: Edésio Frias, pedindo esclarecimento sobre o órgão legislativo metropolitano; Maurício Fruet, dizendo ser muito importante que haja um organismo político nas regiões metropolitanas, entendendo, no entanto, que deveria ser constituído por indicação das Câmaras Municipais; elogiando a administração do Prefeito Zaire Rezende – democracia participativa – como a mais eficiente do País, propôs fosse a reforma agrária feita pelos municípios. Interpelaram os expositores os Senhores Constituintes Geraldo Melo, José Dutra, Waldeck Ornélas, Mauro Miranda e Luiz Alberto Rodrigues. O Sr. José Dutra entregou proposta ao Sr. Presidente, que determinou fossem distribuídas cópias aos Senhores Membros da Subcomissão. Após o que, o Sr. Presidente registrou a presença do Sr. Diogo Lordelio de Melo, que fez breves apreciações sobre a matéria debatida. O Sr. Presidente, agradecendo os importantes subsídios trazidos a esta Subcomissão, encerrou os trabalhos, convocando os Senhores Membros para uma reunião hoje às dezessete horas e lembrando os painéis que serão realizados amanhã às nove horas e trinta minutos e às dezessete horas. A reunião foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente; Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Havendo quorum regimental, declaro aberta DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) a reunião da Subcomissão dos Municípios e Regiões. Solicito a Srª Secretária Executiva que proceda à leitura da Ata da reunião anterior. (É lida e aprovada a Ata da sessão anterior.) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Esta reunião da Subcomissão dos Municípios e Regiões destina-se à realização de mais uma audiência pública, onde teremos o painel “Aglomerados Urbanos”. A Presidência convida, para tomar assento à mesa, o Dr. Zaire Rezende, Prefeito de Uberlândia; o economista Arlindo Villaschi Filho, Consultor do Projeto EBTU – BIRD e Diretor do Centro de Estudos de Questões do Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo, e o Dr. Marcelo Duarte, Vice-Prefeito de Salvador e professor de Direito Constitucional da Universidade Federal da Bahia, expositores que vão participar do painel de hoje. A Presidência informa que cada um dos Srs. Expositores disporá de vinte minutos para apresentação de sua exposição. Com a palavra o Dr. Zaire Rezende, Prefeito de Uberlândia. O SR. ZAIRE REZENDE: – Srs. Constituintes, entendemos que somente através de uma participação profunda dos municípios na vida nacional será possível a democratização e descentralização do poder político, econômico e social. Para isto, achamos necessário que haja uma autonomia político-administrativa dos municípios, passando para eles a responsabilidade de erigir as próprias normas do poder político, administrativo e de representatividade municipais. Deve ser delegada a todos os municípios brasileiros a possibilidade de erigir, de construir a sua própria constituição, a sua própria lei orgânica dos municípios. Achamos que, a partir daí, poderemos realmente estabelecer a sustentação da estrutura brasileira, onde deve ser fixada – exatamente nos municípios. Propomos também uma reforma tributária ampla, o que vai garantir autonomia financeira, para poder assegurar autonomia político-administrativa dos municípios. Julgamos que será necessário inverter totalmente a pirâmide tributária, e que se destine 40% para os municípios, 30% para os Estados e 30% para a União. Essa redistribuição, essa redestinação de recursos para os municípios ajudará a fixar os homens nos seus locais de origem, ajudará todos os municípios em sua estrutura políticoadministrativa, sobretudo a de elementos humanos necessários para a administração. Isso irá fazer o que todos desejamos para o Brasil, que é a distribuição de renda, sendo feita também a distribuição de renda através dos municípios. Terceiro, democratização do exercício do poder. Exercer o poder não em nome do povo, como é da nossa democracia representativa, mas, sim, com o povo. Abrir canais de participação permanente para que o povo possa participar, discutir, sugerir e escolher as suas prioridades. Que o povo não somente delegue poderes para os elementos que vão gerir, mas que, além disso, possa participar do exercício do poder. Isto é o que chamamos de democracia participativa, e que realizamos em Uberlândia. Propomos municipalização das ações dos serviços essenciais, assegurando ao Município a gestão e os recursos necessários para atendimento de serviços, como saúde, edu- cação pré-escolar, primeiro e segundo graus, apoio aos menores, saneamento básico, habitação, transporte, agricultura e pecuária, meio ambiente, formação profissionalizante. Propomos reforma urbana, onde a finalidade do solo urbano, que é garantir a qualidade de vida e do lote para habitação, seja realmente preservado. Aí entra a preservação do verde, o combate à especulação imobiliária, e uma caracterização bem nítida da contribuição de melhoria para que ela possa ser uma arma de fato útil para os municípios. Em Uberlândia, para combater a especulação imobiliária, legislamos criando o imposto progressivo, alíquota progressiva sobre terreno não construído a partir de 2%. Está subindo 1% ao ano para se atingir até 10%, já estamos em 5%. Propomos também a reforma agrária. Que ela seja continuada. É necessário que o solo rural, que tem a finalidade de ser produtivo, realmente tenha essa finalidade. Que a especulação ao nível rural também possa ser supressa e que venha a complementar a reforma urbana. Se essa reforma for feita ao lado de outros investimentos na zona rural, que permitam ali a mesma qualidade de vida daquele que mora na zona urbana, como educação, saúde, transporte, comunicação, energia, lazer, e tudo o mais, acreditamos que o problema da migração do homem, do esvaziamento do campo desapareça, como estamos fazendo em Uberlândia e já com sucesso. Em relação ao Legislativo, propomos a sua autonomia, autonomia total, autonomia político-administrativa e autonomia financeira. Para essa autonomia financeira, propomos sejam criados mecanismos de repasses automáticos do orçamento do legislativo, não tendo de passar por autorização do Executivo. No momento em que seja necessário que essa autorização passe pelas mãos do Executivo, a autonomia estará castrada. Só pode haver total autonomia do Legislativo, se for configurado em lei um processo mediante o qual esse repasse seja feito automaticamente, independente de qualquer vontade. Propomos, em relação à convivência com o Judiciário, os mesmos princípios de autonomia políticoadministrativa, e diria também gerencial e financeira. Não é necessário que o Poder Executivo interfira no Judiciário, através de recursos suficientes e de repasses automáticos. Não depende do Executivo a total independência do Poder Judiciário. Propomos, também, a institucionalização das microrregiões. Em Minas, o sistema das microrregiões tem dado um resultado excelente. Em nossa região, o papel da microrregião tem sido tremendamente saudável, dando todo tipo de ajuda a todos, pequenos e grandes municípios: apoio jurídico, operacional, com maquinários, com oficina gráfica, apoio político no sentido de reivindicações junto aos órgãos do Estado e da União. Propomos seja feita a institucionalização das microrregiões, assim como também marcadas em lei as suas atribuições, inclusive com a possibilidade de, no futuro, ela vir a fazer um papel regional de criação e de implantação de determinados equipamentos que poderão atender a essas microrregiões. Propomos também institucionalizar a saúde administrativa dos municípios. O que queremos dizer com isso? Criar normas que não permitam ultrapassem as despesas de custeio, por exemplo, um número fixo, digamos, 60%. Temos procu- 102 rado manter essa norma na administração de Uberlândia, e é perfeitamente possível. Isso evitaria o empreguismo, o esbanjamento dos recursos municipais. Criar-se-ia então, um mecanismo que possa preservar essa saúde administrativa. Ao falarmos da reforma tributária, achamos muito importante que os tributos já fiquem no município, quando da sua geração, tirando a volta, o passeio desses tributos pelo Estado e pela União. E propomos sejam criados mecanismos que permitam total transparência administrativa. O que definimos como transparência? Mecanismos que permitam o acesso do povo não somente ao Legislativo, mas a todo mecanismo de administração. Que o povo possa conhecer tudo o que é necessário sobre administração, inclusive participar na elaboração do orçamento, e que este seja discutido com a população. Que a população possa, através dessa discussão, conhecer o orçamento do município projetado e, dentro desse orçamento, conhecendo a realidade municipal, estabelecer as suas prioridades, uma vez participando do orçamento, possa depois acompanhar a sua execução. Isso viria ao encontro daquela primeira proposta que fizemos, que é a democratização do exercício do poder, onde o povo elege as prioridades e depois acompanha a sua execução, passando, dessa forma, a ter de fato uma participação no exercício do poder. Para que se caracterize bem, Uberlândia, uma cidade de médio porte, está no Triângulo Mineiro. Estamos hoje com cerca de 370, 380 mil habitantes. No ano passado, tivemos uma arrecadação tributária de sete bilhões e cem milhões de cruzados na área federal, oitocentos milhões de cruzados na área estadual, perfazendo um total de sete bilhões e novecentos milhões de cruzados, tendo retornado para Uberlândia 210 milhões, ou seja, 2.9% – uma profunda injustiça tributária. Uberlândia é cortada por seis rodovias, seis BR; temos um aeroporto muito bom, dez estações de rádio, sendo seis FM e quatro AM, duas estações de televisão gerando no próprio município, uma recebendo de fora; onze mil empresas no município, um distrito industrial já consolidado e uma em fase de expansão, com toda sua área ocupada; uma rede de ensino onde estamos com mais de 90 mil jovens estudando, uma universidade totalmente consolidada, contando com mais de dez mil jovens. Em termos de caracterização seria isso. Em relação ao solo urbano, quando assumimos, encontramos uma prefeitura com cadastramento de 89 mil imóveis. Mandamos fazer um recadastramento e o número subiu para 161 mil, quer dizer, havia número muito grande de imóveis não cadastrados. Desse total, temos em torno de 65 a 70 mil não construídos, e enfrentamos lá a mesma coisa que existe em outras cidades: um núcleo urbano, uma separação não construída e, contornando a cidade, vários bairros construídos com recursos do BNH. Então procurou-se colocar esses conjuntos residenciais depois dessa malha já loteada, evidentemente encarecendo os custos da prestação de todos os serviços urbanos necessários, com a nítida e clara intenção de valorizar os terrenos que ficam intermediando o núcleo urbano central e esses a serem construídos, caracterizando, assim, e reforçando, a especulação imobiliária. Quando fizemos lei, procuramos penalizar, embora reconhecendo o direito de qual- 103 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) quer cidadão de ter a posse do seu terreno e, se quiser, de estocá-lo, mas reconhecendo que tem de pagar um tributo, porque a finalidade do solo é social e ele traz ônus para o município. Essa lei custou-nos dificuldades políticas muito grandes, e quase físicas, que hoje já estão sendo superadas e começando a produzir efeitos. Temos as dificuldade inerentes a todo município brasileiro. Aliás, seria muito importante criarmos mecanismos que, de fato, protegessem, resguardassem, apoiassem, amparassem sobretudo o pequeno município, que tem dificuldade em fazer a sua lei do IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano. Partindo do que já falamos aqui, da democratização do exercício do poder, procuramos estimular o povo a se organizar em Uberlândia, sobre tudo aquelas camadas não organizadas, que nunca tiveram acesso ao poder, que é a classe pobre. As classes média e rica há muito tempo têm mecanismos, em influenciar o poder. Com isso, através desse estímulo, conseguimos partir de 5 associações de moradores para as 47 que temos hoje organizadas. Estimulamos a criação de um Conselho Municipal de Entidades Comunitárias, congregando todas essas associações de moradores, mas não somente essas, foram chamados a participar os sindicatos patronais, os sindicatos de empregados, jovens, estudantes secundários, estudantes terciários, Lyons, Rotary, Maçonaria, Igreja, enfim, todas as entidades representativas. Esse Conselho evoluiu, cresceu e se consolidou; pediu a nós, do Poder Executivo e do Legislativo, que nos afastássemos do Conselho porque ele queria ter autonomia, ter liberdade para discutir os seus problemas sem qualquer interferência. De Conselho Municipal de Entidades Comunitárias passaram para Conselho de Entidades Comunitárias; tiraram o Municipal do nome inicial e hoje exercem realmente presença dentro da cidade. É interessante notar que a classe rica, que já era organizada, aproximouse, acompanhou algum tempo e depois se afastou do Conselho. Hoje, diria que apenas as classes pobre e média baixa dele participam. Estamos lutando em Uberlândia para a municipalização da saúde, diria que já estamos na metade do caminho. Procuramos fazer uma integração com a Universidade e o Estado. Hoje, temos uma rede de saúde que atinge todos os bairros e a zona rural de Uberlândia, cumprindo, inclusive, aquilo que preceitua a Organização Mundial de Saúde, num entrosamento total entre o município e o Estado. Na prática, já temos, então, a municipalização da saúde. O Estado entra com medicamentos, com médicos em alguns postos de saúde; nós entramos com médicos. Enfim, já há uma municipalização. Agora estamos lutando pela municipalização da educação. Somos totalmente favoráveis a esta municipalização. Já estamos iniciando a municipalização da alimentação escolar, que já está em fase de implantação, e estamos discutindo com o Estado de Minas a municipalização do setor educacional. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos passar a palavra ao economista Arlindo Villaschi para fazer a sua exposição. O SR. ARLINDO VILLASCHI FILHO: – Caros Constituintes Luiz Alberto Rodrigues e Aloísio Chaves, respectivamente Presidente e Relator da Subcomissão dos Municípios e Regiões, meus caros companheiros de painel, Prefeito Zaire Rezende e Prof. Marcelo Duarte. Srs. Constituintes Senhoras e Senhores, apesar de sentir que esta não é a Constituinte da minha geração, honra-me sobremodo fazerme presente neste painel sobre “Aglomerados Urbanos”, principalmente lado a lado com pessoas por quem tenho afeto pessoal profundo. Encontro, neste momento, companheiros como ator Buaiz, com quem tento aprender, no dia-a-dia a militância político-partidária; companheiros como Walden Ornelas com quem já dividi sonhos e angústias de quem tenta fazer algo por seus respectivos Estados, e companheiros de trabalho do passado e alguns do presente. Nunca é demais lembrarmos que, quando se fala da organização do Estado brasileiro, temos de pensar na organização, na formalização, na institucionalização de uma matriz que leve em consideração as profundas alterações ocorridas na sociedade, na economia e na política brasileiras nos últimos 30 anos. Trinta anos que não perfazem sequer uma geração, mas que fizeram com que uma população da qual apenas 36% viviam nas cidades em 1950, atingisse 67,7% segundo o censo de 1980, essa Modernização pode ser constatada também por dados de estrutura de renda interna, onde a agricultura, em 1950, correspondia a 25% da renda total nacional, enquanto que em 1980 já é a indústria que responde por mais de 27% da contribuição na indústria de transformação. Não fora simplesmente uma passagem da agricultura para indústria, mais relevante talvez seja o fato de que esta industrialização ocorre no sentido de uma modernidade maior ainda no próprio campo industrial. Os dados demonstram que, em 1950, 72,8% do produto industrial eram de bens não duráveis de consumo, o que demonstra uma industrialização para a sobrevivência da população, enquanto que, em 1980, 15% da indústria brasileira já eram de contribuição dos bens capital e 13,5% eram de contribuição dos bens duráveis de consumo. Estes são alguns dados que obviamente têm um rebatimento no espaço brasileiro. Eles não correm fora do espaço; eles acontecem no território nacional. E essa repercussão me parece fundamental na medida em que comparamos alguns também entre os censo de 1950 e 1980, onde vamos notar que há uma concentração substancial do crescimento urbano brasileiro em cima daquelas cidades entre 100 e 500 mil habitantes. Estas cidades cresceram 7,15% ao ano nesses 30 anos. Parece-me importante chamar a atenção para isso, porque chegamos a 1980 com cerca de 150 municípios com mais de 100 mil habitantes. É dado importante na medida em que, no censo de 50, apenas urna cidade tinha um milhão de habitantes. Esse dado me parece fundamental, porque é importante que se tente refletir a respeito dessas informações que estão no nosso dia-a-dia e que, na maioria das vezes, não damos conta. Hoje, cerca de 30 cidades brasileiras são montadas, são aglomeradas que estão surgindo na realidade do Brasil, no dia a dia e não nos damos conta. Obviamente que respostas para esses desafios vêm sendo construídas ao longo desses anos, principalmente a partir da Carta de 46. Mas gosta- ríamos de destacar os instrumentos criados na década de 70, principalmente a Lei Complementar nº 14 e a Lei nº 6.776. Foram duas tentativas de se dar conta do problema da metropolização e urbanização, mas obviamente têm que ser objeto de críticas veementes, principalmente porque a Lei Complementar n° 14, ao contemplar nove regiões metropolitanas, criam um problema de sistema de simétrica substancial, onde a região metropolitana de Belém, por exemplo, com apenas dois municípios, teve uma mesma estrutura administrativa e política que a região metropolitana de São Paulo, por exemplo com 39 municípios à época. Obviamente que esse não era o tratamento adequado. Uma outra válvula legal de escape para o tratamento da questão da conurbação de municípios brasileiros compondo uma única cidade foi a Lei nº 6.766 que, ainda que tratando especificamente do parcelamento do solo, utiliza como válvula por parte de Estados entre os quais Goiás, Espírito Santo e Sergipe, no sentido de criar as chamadas aglomerações urbanas. Isto posto, parece-me importante registrar aqui não idéias pessoais, mas reflexões que tenho feito com grupos de colegas, tanto a nível da universidade quanto a nível profissional, no sentido de saber com o que podemos contribuir com os Constituintes de hoje para se dar uma nova textura à matriz territorial do Estado brasileiro. A primeira proposta que transmitimos aos nobres constituintes que a nova Constituição que se constrói, ao contrário da atual Constituição, deve delegar aos Estados membros a competência da criação de regiões metropolitanas e aglomerados urbanos. Acreditamos que seja fundamental até mesmo que, através de lei complementar, o plano federal estabeleça critérios que devam ser obedecidos pelas legislações estaduais. Também é fundamental que a competência da criação de regiões metropolitanas e aglomerados seja dos Estados membros. Por outro lado, parece-me fundamental que, ao serem criadas novas regiões metropolitanas e aglomerações urbanas no espaço brasileiro, leve-se em conta a importância da participação cada vez mais efetiva dos municípios na questão metropolitana. Ou seja, é preciso que os municípios brasileiros reflitam a realidade urbana do seu território e não continuem com vínculos mais rurais do que a urbanidade nos está levando. Por último, parece-nos fundamental que a nova Constituição leve em consideração nos critérios de estabelecimento de aglomerações urbanas o fato de que o espaço urbano é eminentemente político; é o espaço da cidadania. Razão pela qual é preciso que a politização que o espaço urbano brasileiro vem sofrendo nos últimos 30 anos se reflita também na hora da criação de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas. E a nossa sugestão é que a criação tanto de regiões metropolitanas quanto de aglomerações urbanas, em momento algum, deixe de passar pela consulta plebiscitária. Gostaria de lembrar – isto foi inclusive uma brincadeira do Constituinte Deputado Waldeck – que essa consulta plebiscitária sob hipótese alguma é um modismo de agora. A própria Lei Complementar nº 11, que estabelece a fusão e a divisão DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) de municípios na atual legislação, exige a consulta plebiscitária. Ou seja, nós, que estamos vendo cada vez mais a presença dos movimentos sociais urbanos, seja na luta de classe pelos sindicatos, seja na luta territorial pelas associações comunitárias, pelos grupos setoriais de transportes, educação, saúde e habitação, sabemos ser preciso que essa população que se politiza informalmente através desse tipo de associação tenha uma forma de participação efetiva na questão metropolitana. Esses três pontos por nós colocados se fundamentam, em primeiro lugar, na existência hoje de um problema metropolitano que não se restringe mais a nove regiões, mas extravasa para cerca de 30 áreas no Brasil. Parece-me importante que o maior envolvimento político dos municípios é fundamental, na medida em que é preciso que os municípios assumam a característica urbana do seu território. Conseqüentemente, é preciso que se dê a eles a atribuição maior de trabalhar a questão metropolitana e não simplesmente se afastar, achando que essa questão é do Governo Federal, como tem sido feito até agora, ou que se transforme numa simples questão da esfera estadual ou de um quarto nível de poder. Por último, parece-nos fundamental a explicitação da politização do fenômeno metropolitano através da participação dos habitantes na discussão e na definição, através de um plebiscito, da questão, tanto do estabelecimento de regiões metropolitanas quanto de aglomerações urbanas. É óbvio, e tenho certeza absoluta disto, que as pessoas que estiveram nesta subcomissão anteriormente – e V. Ex.as devem ter estudado esta questão – assim como outras pessoas que virão a esta Subcomissão dos Municípios e Regiões, trouxeram e trarão aqui uma questão crucial, fundamental, muito importante, que é como gerenciar a questão metropolitana e como criar uma instância política no plano metropolitano. Propomos duas questões que nos parecem importantes. A primeira delas é que seja criado pelos Estados, com participação majoritária dos municípios, um órgão político, que seria uma instância intermediária do nível metropolitano. Tentando explicar melhor, hoje, do ponto de vista do Legislativo, as Câmaras Municipais não têm uma preocupação maior com a questão metropolitana, porque ela é supramunicipal. As Assembléias Legislativas também perderam um pouco da sua preocupação com o problema metropolitano, porque ele está no nível do município, da capital ou das suas vizinhanças. Então, é fundamental que se crie um órgão político legislativo, eleito diretamente pela população metropolitana. Criaríamos, então, um órgão legislativo a nível metropolitano. Em segundo lugar, parece-me fundamental que seja reconhecida a existência do município metropolitano. E queremos distinguir aqui a nossa proposta de existência do município metropolitano da proposta do Prefeito Requião, que é a fusão de municípios. Para nós o reconhecimento do município metropolitano é aceitarmos que o Município de Santarém, no Estado do Relator Aloysio Chaves, tem peculiaridades distintas do Município de Belém, da Capital, da região metropolitana. Ainda ilustrando com o caso de pessoas presentes nesta Mesa, é óbvio que o Município de Timóteo, no Vale do Aço, em Minas, tenha uma característica distinta do Município de Gover- nador Valadares, também no Estado de Minas, ainda que Governador Valadares tenha mais habitantes do que Timóteo. E por que isso? Porque Timóteo, juntamente com Coronel Fabriciano e Ipatinga, conforma uma única cidade, ainda que composta por três municípios. Conseqüentemente, o grau de autonomia que é dado aos municípios... E somos apologistas das teses defendidas pelo Prof. Diogo Lordello. É uma honra para mim contar com sua presença aqui. Somos a favor do municipalismo, mas o municipalismo da Carta de 87 tem que, necessariamente, ser diferente do municipalismo da Carta de 46, uma vez que hoje existe uma configuração urbana absolutamente diferente daquela da Carta de 46. O reconhecimento, então, da existência de um município metropolitano implica que algumas funções que hoje pertencem a todos os municípios, indistintamente, terão que ser melhor divididas quando se tratar de municípios metropolitanos. Vamos ilustrar com o caso do meio ambiente. Podemos ilustrar com a questão do transporte público, com a questão da habitação e uso do solo e com uma série de exemplos, como a própria questão do saneamento. E nos parece importante que na distinção entre o órgão político e o município metropolitano não estamos fazendo qualquer proposta ainda com relação a um poder executivo de quarto nível. E não fazemos isso porque acreditamos que, no nível executivo, algumas ações já têm sido tomadas e respondem por isso, sejam as companhias metropolitanas de transporte público, sejam as empresas de saneamento, sejam algumas ações concretas que já vêm sendo tomadas. As nossas propostas – e gostaríamos de distinguir bem – são no sentido de que o município metropolitano continue com algumas de suas atribuições peculiares, idênticas a de outros municípios. Poderá ser o caso da saúde, da educação, da manutenção da malha viária. O problema da distribuição e coleta de lixo seria em alguns casos. Mas é fundamental que, ao lado do reconhecimento desse município metropolitano, de suas distinções, criemos constitucionalmente a possibilidade da existência de um órgão político metropolitano com características legislativas, de tal forma que a população metropolitana possa ter também uma representação política no campo legislativo que integre as suas aspirações e que seja veículo dessas aspirações. Finalmente, gostaríamos de fazer uma observação no sentido da necessidade de um reconhecimento da politização urbana. Há necessidade de ser discutida não só no âmbito desta subcomissão, mas principalmente da Subcomissão de Tributos, Participação e Distribuição das Receitas, a possibilidade da criação de um imposto de desenvolvimento urbano e uma forma de o contribuinte urbano ter acesso à informação de quanto é que ele efetivamente tem contribuído diretamente, para que possa também fazer uma cobrança mais efetiva da aplicação de seus recursos. Fazemos observação de que é preciso haver a integração, com relação a essa proposta, desta subcomissão com a Subcomissão de Tributos, já que não achamos que a carga tributária brasileira possa ser aumentada. Ao contrário, entendemos como fundamental que seja refeita a forma 104 de cálculo dessa carga tributária, de tal forma que tenhamos um imposto urbano direto para se contrapor a uma série de impostos indiretos, que ainda que cheguem – e concordo perfeitamente com o prefeito – de forma muito diluída ao município, cheguem de forma a que não haja o reconhecimento político da contribuição de cada cidadão para sua geração. São essas as contribuições. Pareceme muito mais importante do que essa falação inicial a possibilidade de troca de informações uma vez que não tenho dúvida de que algumas dessas déias i não foram suficiente e claramente expostas por nós. Sou daqueles que concordam com o Prof. Maurício Nogueira Batista, segundo o qual nós, urbanólogos, somos péssimos vendedores de nossas próprias idéias. Razão pela qual gostaria de ter a chance de poder vender melhor aquilo que estou colocando aqui agora. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência vai passar a palavra ao Dr. Marcelo Duarte, Vice-Prefeito de Salvador e professor de Direito Constitucional da Universidade Federal da Bahia. S. Sª disporá de vinte minutos para sua exposição. O SR. MARCELO DUARTE: – Nobre Presidente, nobre Relator, ilustres companheiros de painel, Srs. Senadores e Deputados Constituintes, minhas senhoras e meus senhores, inicialmente, quero declarar a grande honra que tenho de estar na presença desta subcomissão e, ao mesmo tempo, pedir-lhes desculpas por não ter podido trazer a minha contribuição já inteiramente datilografada. É porque eu tinha sido convidado para participar da reunião da próxima quarta-feira desta subcomissão, segundo telex que recebi. Entretanto, houve uma modificação e aqui me encontro. Srs. constituintes, a descentralização que a Federação representa é uma contingência da extensão territorial do Brasil e da diversidade das partes componentes do todo nacional, com uma população superior a 120 milhões. Em tais condições, uma administração eficiente não pode concentrar-se, como tem sucedido nesses últimos vinte anos. Muito antes de terem o território e a população de hoje, os Estados Unidos da América já praticavam com êxito o esquema federativo de gestão governamental. A Federação é, demais indispensável à implantação de um regime democrático que assegure a efetiva participação do povo brasileiro, desde suas bases locais e regionais. Democracia não é só o governo da maioria, respeitada a existência ou a manifestação da minoria; é, por igual, o sistema político em que, direta ou indiretamente, haja a participação dos governados, ou seja, da sociedade civil, na formação da vontade política do governo. Num país com a extensão territorial do nosso não pode haver essa participação sem que, necessariamente, haja descentralização político-administrativa, logo, não poderá haver democracia no Brasil sem Federação. Em verdade, qualquer sistema federativo há de começar sua descentralização pela preservação da autonomia local. Alex Tocqueville, em sua obra tomada clássica sobre a democracia da América, já observava que 105 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) “nas comunas residem a força dos povos livres. As instituições comunais estão para a liberdade como as escolas primárias estão para a ciência; põem-se à entrada do templo. Sem instituições comunais uma nação pode dar-se um governo livre, porém ela não tem o espírito da liberdade, e o despotismo imerso no interior do corpo social aparecerá cedo ou tarde na superfície.” Fixada a necessidade de uma estrutura federativa, é também essencial que ela tenha funcionamento efetivo e ágil. Não pode abrigar o gigantismo de poderes e das receitas federais diante da inexpressividade dos estados e municípios. Sem recursos próprios de que possam efetivamente dispor a unidade político-administrativa, não se pode falar em autonomia real, senão apenas meramente formal dos estados-membros e municípios brasileiros, como tão bem assinalou Raul Machado Horta no seu trabalho “Reconstrução do Federalismo Brasileiro”. A superposição de competências administrativas nas três áreas em que se desdobra a estrutura federativa do Brasil, expressa em suas Constituições desde 1891, conduz à óbvia dispersão de recursos e esforços, além de contribuir para o enfraquecimento dos estados e notadamente dos municípios. É Themístocles Cavalcanti que frisa que a indefinição de limites ou campos da atuação administrativa das três esferas de competência conduz à superposição e à repetição de problemas, pelo menos nos dois planos, federal e estadual, quando não compromete também a área administrativa do município. É o que também assinala Ana Maria Brasileiro a propósito do sistema de competência concorrente entre as três esferas na prestação de serviços. Como o papel de cada esfera de governo não está definido, cada uma delas pode prestar os mesmos serviços, ocorrendo, na prática, a duplicação de esforços, principalmente nos campos da educação e saúde, com desperdício dos recursos, já de si escassos. Correta é, assim, a observação de Diogo Lordello de Melo, aqui presente, sobre a irresponsabilidade geral a que o sistema induz. O que legal e teoricamente é obrigação de todos os níveis de governo termina não sendo de nenhum. Então, a estrutura constitucional federativa deve assegurar instrumentos institucionais e recursos próprios aos Estados e municípios, a par dos que sejam atribuídos à União. Simplificar a discriminação de atribuições entre as esferas de competência constitucional para prestação de serviços, evitando superposição de encargos e dispersão de recursos, fortalecendo os municípios como unidades políticas e administrativas básicas mais próximas da população e por esta mais diretamente solicitadas. Um dos problemas, sem dúvida, delicados da administração municipal é o que resulta dos aglomerados urbanos e do fenômeno da conurbação. A contigüidade dos centros urbanos torna-os praticamente uma extensão só, sem solução de continuidade, e impõe que duas ou mais cidades passem a ter entre si interesses comuns a serem tocados também de modo integrado ou associado. Mais problemas surgem, e de bem dificil solução, em decorrência da existência em um dos municípios de recursos indispensáveis à prestação de serviços do outro, como por exemplo no caso de um manancial encontrar-se num mu- nicípio, enquanto o outro precisa utilizar-se dele para prestação de seu serviço de abastecimento de água. São problemas de natureza local que transcendem, entretanto, o âmbito de um município. O tratamento constitucional surgiu no art. 157, § 10, da Constituição de 67, reproduzido pelo art. 154 da Constituição de 1969: “A União, mediante lei complementar, poderá, para realização dos serviços comuns, estabelecer regiões metropolitanas constituídas por municípios que, independentemente de sua vinculação administrativa, façam parte da mesma comunidade sócio-econômica”. As Leis Complementares nº 14/73, 20/75 e 27/75 criaram regiões metropolitanas envolvendo áreas urbanas contíguas às grandes capitais do País e promoveram sua organização e critérios para sua gestão. A bem dizer, a verdadeira dimensão da autonomia municipal, constitucionalmente prevista para a administração própria quanto ao peculiar interesse local, não deveria ter sido afetada pelo fenômeno da metropolização de áreas circundantes das capitais. O dispositivo constitucional que prevê a criação das regiões metropolitanas para planejamento e execução de serviços de interesses comuns às municipalidades agregadas por lei complementar federal não reduziu as atribuições inerentes à alta administração do município. Foi, entretanto, desvirtuada a instituição das regiões metropolitanas pela legislação complementar ou dispositivo da Constituição da República, não só pela indevida titularidade conferida ao Estado, em detrimento do conjunto de municípios interessados e à revelia do texto constitucional, mas também em decorrência da falta de autogoverno. Capitais e municípios agrupados às mesmas e considerados de interesse da segurança nacional, com prefeitos nomeados, ficaram sem condições políticas de defender sua competência contra os avanços mais ou menos profundos dos governos dos Estados e da União, inclusive efetivados como contrapartida pelos auxílios freqüentemente prestados às combalidas finanças municipais. Toda uma série de serviços tipicamente municipais e por tradição prestados pelo município passou a sofrer interferência direta dos Estados e do Governo Federal, quando esses serviços não chegaram a ser por essas esferas inteiramente encampados. É bem verdade que a mutilação da autonomia das capitais e substancialmente reduzida com a reconquista de autogoverno pela eleição do prefeito. Mas é indispensável que recuperem também a grande parcela de auto-administração, alienada por cessão ou omissão do próprio município, senão por manifesta usurpação do Estado-Membro ou da União. Um dos pontos em que se evidencia mais aguda a usurpação é precisamente no que tange ao chamado problema dos aglomerados urbanos ou das denominadas regiões metropolitanas. O grande municipalista brasileiro Ely Lopes Meireles é peremptório no assinalar que “a região metropolitana não se erige em entidade estatal intermediária entre o Estado e o Município. Na nossa organização constitucional federativa não há lugar para uma nova entidade política. A região metropolitana será apenas uma área de serviços especiais, de natureza meramente administrativa, não sendo permitida a constituição da região metro- politana ou da sua administração como entidade política ou mesmo políticoadministrativa, rivalizando com o Estado e o Município”. Oswaldo Trigueiro, após observar que o preceito constitucional é impreciso e vago, mas não altera a estrutura política do País nem pode envolver restrições à competência constitucional do Estado nem dos municípios integrantes das regiões metropolitanas, sugere que o tratamento do problema deva fazer-se em termos de convênios intermunicipais, envolvendo a participação do Estado-Membro e da própria União, por ser a fórmula de realização prática de serviços vinculados à problemática de interesse metropolitano. Não se discute a conveniência da colaboração da União nesta matéria, sobretudo para o efeito da captação de recursos reclamados pelos problemas metropolitanos, mas isso poderia ser conseguido através de acordos e convênios, expedientes eficazes já incorporados à tradição administrativa da República, o que, de resto, é o mais adequado à natureza e às exigências do regime federativo. No mesmo sentido, repelir a invasão estadual ou federal na esfera de competência do município é opinião de Eros Roberto Grau, reconhecendo a praticabilidade da forma de convênios intermunicipais. Chega mesmo a declarar a inconstitucionalidade da Lei Complementar nº 14, na parte em que atribui ao Estado e não ao agrupamento de municípios a realização dos serviços comuns a eles, por vulnerar o princípio da autonomia municipal. Também Alaor Kaji Alves e íris Araújo Silva chamam atenção para a delicadeza da matéria, por não ser constitucionalmente admissível a restrição à autonomia municipal no trato regular da normalização ou institucionalização do fenômeno metropolitano. O tratamento que a nova Constituição tiver de dar ao problema não deverá obviamente instituir uma quarta esfera de competência nem uma entidade intermediária entre o Estado-Membro e o Município. A região metropolitana, como área especial de interesses, deve ter previsão constitucional para facilitar o estabelecimento de convênio intermunicipal em que se assegure a participação do Estado e da própria União como intervenientes, trazendo seu apoio técnico e recursos financeiros, inclusive sob a forma de garantia de empréstimo, em face da existência de agentes internacionais que não poderiam dispensar a participação da União para conceder os seus financiamentos. Um dispositivo da Lei Complementar nº 14 – seu art. 6º – já sugere a agregação desses esforços. Estatui que os municípios da região metropolitana que participarem da execução integrada e dos serviços comuns terão preferência na obtenção de recursos federais e estaduais, inclusive sob a forma de financiamentos, bem como de garantia de empréstimo. Erguendo a norma à categoria constitucional, obtém-se ainda a vantagem de permitir que a União e os Estados possam dar tratamento diferenciado em auxílio dos municípios agrupados pelos problemas metropolitanos. Vai, portanto, a sugestão de um dispositivo que conste do capítulo da Constituição sobre a organização municipal e que, a nosso ver, é sufi- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) ciente para, na prática, permitir o enfrentamento dos problemas: “Os serviços públicos cuja prestação dependam de recursos ou da participação de outro município serão objeto de convênio intermunicipal para planejamento integrado ou execução comum, assegurado a interveniência da união ou dos Estados, com apoio técnico e financeiro, inclusive garantia de empréstimo.” Por último, quero fazer uma observação, porque não cheguei a cogitar sobre quem, a União ou o Estado, deva cuidar da criação de regiões metropolitanas. Mas a sugestão do ilustre economista que me antecedeu, no sentido de que se faça por lei estadual, é perfeitamente aceitável. Agradeço a atenção de todos e estou à disposição para quaisquer outros esclarecimentos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passará a palavra ao DR. Getúlio Hanashiro, Secretário de Estado dos Negócios Metropolitanos de São Paulo. Antes, porém, informa aos Srs. Constituintes que após esta exposição passaremos aos debates e às perguntas. Os Srs. Constituintes que quiserem fazer perguntas aos expositores devem preencher a folha de inscrição. Com a palavra o Dr. Getúlio Hanashiro. O SR. GETÚLIO HANASHIRO: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. constituintes, em primeiro lugar gostaria de agradecer ao constituinte Luiz Alberto Rodrigues pelo convite que me foi formulado para fazer parte da discussão desta Subcomissão e ao mesmo tempo, dizer da minha emoção em participar desse debate. Sem dúvida alguma, provavelmente os Srs. Constituintes não vivem o dia-a-dia e não estão presentes para saber o que a população efetivamente espera da Constituinte. Mas posso transmitir a V. Ex.ª que a preocupação e a expectativa da população é muito grande quanto ao resultado desta Constituinte. Gostaria de chamar a atenção de V. Ex.as no sentido de que caminhamos de um modelo autoritário concentrador para um municipalismo bastante acentuado. E nesse intervalo gostaria de tentar expor para V. Ex.as um problema real, que diz respeito às regiões metropolitanas. E o faço com base em duas experiências concretas: a de ter sido Secretário Municipal dos Transportes em São Paulo e agora Secretário dos Negócios Metropolitanos. Tive, num primeiro instante, uma perspectiva eminentemente municipalista, embora os problemas metropolitanos também surgissem, e agora uma outra visão da perspectiva metropolitana. Nesse contexto, ao lado de expressar essa realidade, gostaria, em um segundo momento, de apresentar o que consideramos debilidade no formato institucional das atuais regiões metropolitanas e de fazer algumas propostas – constantes do documento que estamos distribuindo – como contribuições para a discussão de sugestões à Assembléia Nacional Constituinte, no que tange às regiões metropolitanas e aos seus aspectos tributários. Gostaria primeiramente de tentar caracterizar para V. Ex.as a problemática da região metropolitana, sobretudo de São Paulo. Essa região compreende trinta e oito municípios, representa um milésimo da área do território nacional e possui aproximadamente quinze milhões de habitantes, metade da população do Estado de São Paulo. Para que se tenha idéia da dimensão desta região, basta dizer que um em cada nove brasileiros reside nessa área. Sua população supera em quase quatro vezes a da segunda maior concentração do Estado de São Paulo, a região de Campinas. Se compararmos a população da região metropolitana de São Paulo com a das demais áreas metropolitanas nacionais, vamos observar que é 50% maior do que a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a segunda região metropolitana mais populosa do Brasil, e praticamente se iguala à soma das sete demais regiões metropolitanas. Até o final da década, estarão morando nessa área cerca de dezoito milhões de pessoas, o que representa um acréscimo, entre 1980 e 1990, de cinco milhões de habitantes, ou seja, um aumento equivalente à atual população das Regiões Metropolitanas de Belo Horizonte e Salvador somadas. Em termos econômicos, essa região representa 20% da renda nacional e 52% da renda estadual, e nela são gerados 27% dos empregos industriais do País e 63% dos empregos do Estado de São Paulo. Ao lado de dados tão expressivos de suma importância no conexto nacional e estadual, a região metropolitana de São Paulo, contudo, apresenta gravíssimas carências e disparidades internas. A população, o emprego e as atividades econômicas não se distribuem por igual no espaço metropolitano. Ao contrário, um grupo de apenas dez municípios abriga algo em tomo de 90% do contingente demográficoeconômico da região, cabendo às demais vinte e oito municipalidades apenas os 10% restantes. Os salários pagos na metrópole são extremamente baixos, cerca de um milhão de pessoas recebem um salário mínimo mensal, outras, um milhão e meio de pessoas, ficam compreendidas na faixa de um a dois salários mínimos mensais. Com salários baixos, a grande maioria da população evidentemente, vive mal. Metade de seus habitantes mora em favelas, barracos, cortiços e outros tipos de habitação subnormal. Embora o serviço de distribuição de água já contemple mais de 90% da população, pouco mais da metade é atendida pela rede coletora de esgoto, o que degrada os mananciais da região e torna problemática a continuidade do fornecimento de água potável para a população que vive nessa área. Devo chamar a atenção de V. Ex.ª para o fato de que a única unidade da região metropolitana é exatamente o seu manancial, que abastece de água pelo menos metade da população de São Paulo. A mortalidade infantil, embora tenha diminuído ao longo dos últimos anos, é ainda bastante alta, ficando em torno de quarenta óbitos para mil nascidos vivos. Se compararmos essa taxa, por exemplo, com o Japão, que tem seis óbitos para cada mil nascidos vivos, e com os Estados Unidos e a Itália, que têm em torno de onze, podemos compreender a magnitude deste problema. As condições de vida do habitante metropolitano são também degradadas pela má qualidade do serviço de transporte de massa. Nessa área são realizadas cerca de quatorze milhões de viagens em transportes coletivos. Os investimentos canalizados para este setor são absolutamente insuficientes, se comparados às necessidades de remodelação do transporte intermunicipal de ôni- 106 bus, da melhoria dos trens suburbanos e da necessidade da ampliação dos serviços de metrô. Outros indicadores, tão graves quanto esses, poderiam continuar a ser destacados, mas a situação de convívio entre riqueza e opulência de um lado, com pobreza e carência de outro, seria certamente repetida. Esse quadro, no nosso modo de ver, impõe fortalecer e modernizar os meios de que dispomos para transformar essa gente que se espalha por essa cidade gigante em verdadeiros cidadãos metropolitanos. Quais são as debilidades – que é o segundo ponto que eu gostaria de destacar – do formato institucional das atuais regiões metropolitanas? Como observamos antes, em termos econômicos e populacionais constata-se, na região metropolitana de São Paulo, uma enorme desigualdade entre os municípios por ela abrangidos. A distribuição ineficiente dos recursos financeiros entre municípios desiguais reduz a produtividade dos investimentos efetuados e penaliza os municípios mais necessitados, que passam a receber proporcionalmente menos recursos. Ademais, do ponto de vista global o montante de recursos destinados à intervenção planejada do poder público nas regiões metropolitanas especialmente na de São Paulo, tem-se apresentado bastante insuficiente. Em geral, não se observa uma relação diretamente proporcional entre o montante a ser investido, a dimensão da população e o benefício social gerado pela obra ou pelo serviço público. A inexistência de uma estrutura de representação legislativa que reflita adequadamente a desigual distribuição da população no território influi, evidentemente, na alocação de recursos públicos, pois favorece o direcionamento dos investimentos para as regiões menos carentes. Por outro lado, constatamos também o acentuado conflito entre a exigência do Poder Público regional, de natureza integrativa e globalizante, e a forma tradicional predominante, de natureza setorial. Além dessa tendência à fragmentação, disso resulta obviamente, com a pretensa solução de um problema, a produção ou o agravamento de outros com notáveis desperdícios. Esse predomínio de ação setorial é contrário à regionalização das despesas e ações públicas. No âmbito nacional, no nosso modo de entender, a existência de um modelo institucional único e de difícil alteração para as áreas metropolitanas brasileiras ignora esta profunda diversidade econômica, cultural e social do País e emperra a intervenção pública para a solução dos problemas que afligem a população dessas áreas. A estrutura atual, composta por dois órgãos, um consultivo e outro deliberativo, o predomínio econômico e político das entidades públicas setoriais e a insuficiência de recursos financeiros destinados às metrópoles têm, no nosso modo de entender, conduzido os órgãos de deliberação e planejamento regional a uma certa paralisia. Ademais, não dispõem os órgãos metropolitanos de meios institucionais efetivos para a coordenação, para o controle da operação, dos serviços de interesse metropolitano, na medida em que não é possível reconhecer-lhes competência legal para sua execução. Esta competência para discipliná-los e realizá-los, direta ou indiretamente, mediante concessão ou permissão, torna-se indispensável, além dos recursos financeiros adequados para essa coordenação e esse controle. 107 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Dentro dessa realidade e desse quadro institucional, o que propomos? Nossas propostas de mudança estão na linha de examinar as debilidades anteriores, o que implica a formulação, na futura Constituição Federal, de um sistema ou de uma autorização para que cada estado possa, facultativamente, criar entidade metropolitana dotada de personalidade jurídica de direito público e que conte com a participação compulsória dos municípios envolvidos com poder decisório de sua gestão; segundo, autonomia para gerir recursos financeiros e capacidade para arrecadar tributos e, terceiro, uma competência legal para executar direta ou indiretamente serviços de interesse metropolitano. Ao lado desta proposta mais de natureza institucional, temos algumas sugestões para a reforma tributária que tem a ver com a região metropolitana. Estas sugestões vão na linha de: a) redução do número global de tributos; b) adoção do princípio de um federalismo fiscal com fortalecimento de estados e municípios; c) criação de um imposto de âmbito estadual – que genericamente chamaríamos de Imposto sobre Valor Adicionado – para substituição de outros tributos, tais como ICM, IPI, ISS. Este imposto incidiria sobre consumo e não sobre produção, tal como hoje ocorre com o ICM, por exemplo. Essa providência de taxação no destino atenuaria as discrepâncias financeiras que separam os municípios não industrializados dos demais; d) fixação de 25% para a participação dos municípios neste novo imposto – o Imposto sobre Valor Adicionado. Este índice está, como se percebe, acima dos atuais 20% de participação municipal do ICM; e) obrigatoriedade de aplicação, através da entidade metropolitana, de 1% sobre a parte líquida que couber ao estado da arrecadação do Imposto sobre Valor Adicionado em obras e serviços de interesse comum em regiões metropolitanas; f) criação de um adicional de 1% sobre o Imposto de Renda devido pelas pessoas jurídicas localizadas em regiões metropolitanas, a ser arrecadado pela entidade metropolitana, para a realização de obras e serviços de interesse comum naquelas áreas; g) fixação da obrigatoriedade para a aplicação pelo Estado, através da entidade metropolitana, da parcela que lhe couber do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores — IPVA, em montante nunca inferior ao peso percentual da frota metropolitana de veículos dentro do Estado. Estes recursos serão destinados a obras e serviços de interesse comum em regiões metropolitanas; h) fixação da obrigatoriedade, para aplicação pelo estado, através de entidade metropolitana, das transferências da União para os estados e demais impostos que venham a ser criados, em montante nunca inferior ao peso populacional da região metropolitana do estado. Estes recursos serão destinados, também, a obras e serviços do interesse comum em regiões metropolitanas; l) criação de incentivos para aplicações voluntárias de municípios integrantes de regiões metropolitanas dos recursos que estes vierem a captar a partir da transferência da União. Estas aplicações se dariam através da entidade metropolitana exatamente para essas obras de interesse comum. São estas as sugestões que gostaríamos de fazer. Estas sugestões foram encaminhadas sob a forma de anteprojeto de lei e foram distribuídas aos Srs. constituintes. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos passar à fase dos debates. O Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves, solicita a palavra para algumas considerações. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente, senhores preletores, meus caros companheiros desta subcomissão, minhas senhoras, meus senhores, em primeiro lugar, desejo ressaltar e louvar o nível dos estudos, das contribuições, dos trabalhos apresentados no painel de hoje à Subcomissão dos Municípios e Regiões, alguns de maneira completa, detalhada. Mas noto que há duas posições quase que diametralmente opostas. Uma defendida pelo economista Arlindo Villaschi Filho e outra exposta, ainda que em termos gerais, pelo Dr. Marcelo Duarte e pelo Dr. Getúlio Hanashiro. Enquanto o Dr. Arlindo propõe para a área metropolitana um governo dual, quer um órgão político com atribuições legislativas e também para a parte executiva, os dois últimos expositores centram esse esforço através de conselhos metropolitanos, que seriam fortalecidos e teriam uma representação efetiva mais atuante e mais numerosa dos municípios, talvez, e transferem a solução do problema tributário para a instituição de recursos e tributos especiais em favor da área metropolitana. Realmente fico um pouco perplexo, não sei ainda como entender esse governo dual. Haveria o prefeito metropolitano, que seria eleito na mesma data e na mesma ocasião em que serão eleitos os demais prefeitos integrantes da área metropolitana. Teremos a Câmara de Vereadores de cada município e uma Câmara de Vereadores metropolitana. A base física, o espaço físico sobre o qual se vai exercer esta autoridade do Executivo ou ação do Legislativo é a mesma. Vai haver uma superposição. Não sei como seria possível conciliar, na prática, esses dois níveis de poder dentro do próprio município. Então, eu gostaria de ouvir, sobretudo do Dr. Arlindo, uma explicação a este respeito: Como prever o funcionamento disso na prática? Devemos introduzir medidas inovadoras para modernizar este assunto, dar um grande passo em matéria de organização municipal de áreas metropolitanas nesta Constituição para adequá-la às necessidades e, sobretudo, às aspirações da sociedade brasileira, mas devemos fazê-lo de maneira factível, isto é, que possa na prática funcionar, ser implantada e dar resultados melhores do que aqueles que foram obtidos até hoje com o sistema vigente, que é imperfeito, tem muitas falhas, precisa ser aprimorado e modificado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Dr. Arlindo Villaschi para fazer considerações a respeito da pergunta do Sr. Relator. O SR. ARLINDO VILLASCHI FILHO: – Sr. Constituinte Aloysio Chaves, agradeço a V. Ex.ª a pergunta, que me vai permitir esclarecer aquilo que não consegui fazer na minha apresentação. A proposta concreta não é a da criação de uma instância, de um quarto nível de poder. Conseqüentemente, não haverá a figura do prefeito metropolitano. Haverá, sim, a figura do município metropolitano, que se distinguirá dos demais municípios na medida em que algumas das compe- tências que hoje pertencem ao município serão a sede do município metropolitano, para que haja ação integrada. Propõe-se, isto sim, a criação de um legislativo metropolitano – se V. Ex.as quiserem intitular de deputado metropolitano ou vereador metropolitano — que será então o fórum político permanente de discussão da questão metropolitana, que elaborará legislação principalmente com relação a temas de interesses comuns da região metropolitana. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Como será a administração e a execução? O SR. ARLINDO VILLACHI FILHO: – A administração e a execução continuarão a diluir-se tanto na esfera municipal, hoje existente, quanto na esfera estadual, hoje também existente. Inclusive, procurei ilustrar com as companhias estaduais de saneamento, que, na maioria dos Estados e regiões metropolitanas, já trataram desse problema. Existem empresas metropolitanas também de transporte público. Já existem consórcios metropolitanos na área, por exemplo, de coleta de disposição final de lixo. Então, tanto a nível de Município quanto a nível de Estado, já existem instâncias executoras. Teríamos também um órgão metropolitano do ponto de vista da conjugação dessas ações, que seriam composta por um Conselho metropolitano composto por municípios e Estados, de tal forma que exista essa ação integrada. O SR. RELATOR (Aloysio Chaves): – Sr. Presidente, desculpe-me interromper, mas a pergunta é porque desejo ver minha dúvida esclarecida. Na parte legislativa para estabelecer toda a legislação e norma, acima do município teríamos uma Câmara metropolitana. V. Sa. também não faz restrições a que sejam chamados de deputados metropolitanos. Estes fariam a legislação nas áreas dos problemas sobre assuntos de caráter comum, relacionados com a área metropolitana, porque senão ficaríamos com uma legislação organizada, pulverizada e atomizada sem possibilidade de eficácia e de resultados práticos na esfera administrativa. Então, na administração haveria um Conselho da região metropolitana, que teria um presidente – suponho que por rodízio, para não ser efetivo –, uma espécie de Conselho de Câmara, como na Suíça, em que um presidente das federações, presidente dos cantões, exerce normalmente a Presidência da República – que faria a coordenação administrativa, utilizando-se órgãos estaduais e órgãos federais, mediante convênio, conforme fosse o caso, para a gestão dos assuntos de interesse comum na área metropolitana. O SR. ARLINDO VILLASCHI FILHO: – Então, teríamos dois fóruns. Um fórum político, eleito diretamente pela população metropolitana e um fórum administrativo, composto por órgãos estaduais ou secretarias estaduais que atuam na região. Aí está a razão pela qual busquei ressaltar a importância do envolvimento político dos prefeitos municipais, um envolvimento cada vez maior dos executivos municipais nas gestões metropolitanas. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Sr. Presidente, pela ordem. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem V. Ex.ª a palavra pela ordem. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Sr. Presidente, apenas sobre esse mesmo assunto eu gostaria de fazer uma pergunta ao ilustre economista. Não entendi bem, e gostaria que fosse mais declarada, a sua posição sobre que poder terá essa Câmara, fórum ou Conselho? Porque temos a Câmara de Vereadores, que faz a legislação para o município e o prefeito automaticamente tem de executar aquilo que a Câmara determina. Quem iria obedecer às determinações políticas dessa Câmara? O SR. ARLINDO VILLASCHI FILHO: – Vamos a algumas ilustrações. Se for determinado pela legislação estadual que criar a região metropolitana que é um problema de interesse comum a questão do uso do solo, a legislação metropolitana terá de ser observada pelo Legislativo municipal e, conseqüentemente, pela execução municipal. Se fosse determinado que o transporte público é um problema de interesse comum, conseqüentemente, a legislação, com relação a transporte público daquela região metropolitana, seria determinada no Legislativo metropolitano e obedecida nas suas variações também pelos legislativos municipais. O SR. CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – E isso não iria conflitar com as Câmaras de Vereadores e com a Assembléia Legislativa? O SR. ARLINDO VILLASCHI FILHO: – Não, porque, nesse momento, por exemplo, o Legislativo estadual não estabelece questões de transporte urbano nas regiões metropolitanas. O que temos hoje é um conflito do interesse metropolitano com a chamada autonomia municipal. Há linhas criadas por municípios que entram em conflito com linhas troncais de interesse metropolitano. Então, o que teríamos seria a prevalência naquelas funções e naqueles serviços estabelecidos pela lei, como sendo de interesse comum. Haveria, então, a prevalência do interesse metropolitano geral sobre picuinhas de nível municipal, que são alguns conflitos que temos nos estabelecimentos de tarifa, no estabelecimento de linhas. Isto não só na questão do transporte, não só na questão do uso do solo, não só na questão do meio ambiente. O problema dos mananciais, por exemplo, é um caso típico. Quanto à localização industrial, teríamos um órgão legislativo que cuidaria da questão mais ampla da cidade. A cidade aí composta por mais de um município, porque esta é uma realidade que temos. E gostaria de chamar a atenção para o fato de que neste momento, que eu sabia, não existe uma maior atuação política das Assembléias Legislativas com relação ao problema metropolitano. As Câmaras municipais não atuam porque é esfera supramunicipal. As Assembléias não atuam porque não se vêm comprometidas politicamente com a questão. Então, fica um vazio muito grande, que é esse que pretendemos preencher com um órgão político eleito e com a possibilidade da ação integrada, através da participação majoritária das municipalidades. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência vai interferir, pelo seguinte. É necessário que os Constituinte sejam identificados pelo nome, para efeito da composição da Ata desta reunião. O expositor Arlindo Villaschi Filho respondeu às questão do Constituinte Edésio Frias. A Presidência concede a palavra ao Constituinte Maurício Fruet e, posteriormente, falará o Constituinte Geraldo Melo. O SR. CONSTITUINTE MAURÍCIO FRUET: – Seria um aparte, ao mesmo tempo com uma pequena observação às colocações do Constituinte Edésio Frias e do Dr. Arlindo Villaschi Filho. Durante três anos, tive convivência muito íntima com problemas relacionados com a região metropolitana. Acho que nosso Relator foi muito feliz em suscitar o problema, porque realmente se verificaram opiniões divergentes com relação às colocações do Dr. Arlindo Villaschi Filho, do Dr. Getúlio Hanashiro e do Dr. Marcelo Duarte. Minha posição é mais ou menos semelhante às colocadas pelos três, mas de forma um pouco diferente. Entendo que essa Câmara ou assembléia metropolitana deveria ser integrada de representantes indicados pelas Câmaras municipais já eleitos – acho que esse ponto é fundamental – respeitandose a proporcionalidade do número de habitantes da região. Entendo, Dr. Getúlio, que o Conselho Deliberativo não funciona e não resolve o problema, porque, na prática, não tem poder algum. Um ponto que o Dr. Arlindo provavelmente deixou de citar, os projetos EBTU/BIRD, no momento em que são destinados para uma região metropolitana, normalmente a destinação dessa verba é feita por um critério exclusivo da coordenadoria da região metropolitana. E, muitas vezes, esse projeto não satisfaz às necessidades da região metropolitana como um todo. Por aí se vê a necessidade de uma assembléia metropolitana, ou de uma Câmara Metropolitana, com esse tipo de integração, que tivesse o poder de definir essa divisão de valores, enfim, que tivesse participação na distribuição do orçamento destinado à região metropolitana. Pessoalmente, Sr. Relator, defendo a tese da existência desse organismo, que teria indicação feita pelas Câmaras Municipais, ou deputados metropolitanos, ou vereadores metropolitanos, talvez pelo período de um ano, com renovação a critério das Câmaras a ser definida na Constituição estadual. Defendo também que o Município não tenha lei orgânica, mas uma Constituição municipal. Tenho a impressão de que isso daria talvez um pouco mais de repeito à organização do Município. É esta a minha participação. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Geraldo Melo. Vamos retomar a ordem das inscrições, porque temos uma lista a ser cumprida. O SR. CONSTITUINTE GERALDO MELO: – Concordo plenamente com o companheiro que me antecedeu, e vou um pouco mais além: Acho que os presidentes das fundações e os secretários para assuntos metropolitanos devem ser eleitos pelos prefeitos e Vereadores metropolitanos, porque, muitas vezes, a política estadual é de um jeito e a municipal, de outro. Então, devem ser escolhidos pelos prefeitos e vereadores que compõem a área metropolitana. Assim, poderá haver homogeneidade de interesses metropo- 108 litanos. E haverá participação e autonomia maiores para os municípios metropolitanos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte José Dutra, o primeiro inscrito da nossa lista. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, eminentes painelistas, prezados colegas Constituintes, gostaria de assinalar, por primeiro, a importância deste painel, pelo conteúdo das exposições feitas, pelas informações muito importantes para nós, que temos a competência de estabelecer, pelo menos em primeira mão, as normas gerais vinculadas a esse problema. Ouvi com muita atenção as colocações feitas pelo Dr. Zaire Rezende, Prefeito de Uberlândia, quando enfatizou o sucesso – que, aliás, já conheço – do associativismo em seu Estado, mais ou menos na mesma linha do sucesso que vem experimentando o Estado de Santa Catarina. Ouvi as colocações e a posição assumida pelo Dr. Arlindo Vilaschi Filho, no que concerne ao estabelecimento da figura da região metropolitana, como órgão semiindependente dentro da contextura federativa brasileira. Nesse particular, a idéia do Dr. Arlindo se harmoniza com a do Prefeito Requião, de Curitiba, que também já fez, nesta comissão, exposição muito robusta a respeito desse problema. De outro lado, assistimos à posição assumida pelo Dr. Marcelo Duarte, que prega contrariamente, amparado em posições doutrinárias, o associativismo municipal. E o Dr. Getúlio Hanashiro se situa acima, intermediário entre as duas posições aqui colocadas. Devo sublinhar, prezados colegas, conforme já enfatizei quando aqui ouvia o Prefeito Requião, que, em princípio, eu me enamorei da idéia de criação do grande município metropolitano. Ocorre que, se fizermos uma reflexão mais profunda, à semelhança do que agora colocou meu eminente colega, Constituinte Aloysio Chaves, aos poucos perceberemos que, pelo menos no momento, não será viável a implantação desta modificação, que seria radical, dentro da contextura atual do Direito Constitucional brasileiro. Devo asseverar que fico com o associativismo municipal, porque me parece mais lógico, mais racional, mais prático e até mais produtivo. Vejam bem, na medida em que procurarmos fazer mais uma eleição, dentro da constelação de municípios que integram uma região metropolitana, de um lado, estaríamos democratizando o processo, mas, de outro, estaríamos complicando a efetivação dessa medida nova. E, se temos uma variante, um mecanismo capaz de suprir, na essência, os objetivos que se perseguem, com a criação do município metropolitano, parece-me que devemos seguir o caminho mais fácil. A meu sentir, seriam exatamente respeitados todos os aspectos aqui delineados com muita clareza pelo Dr. Hanashiro, quando enfatiza os problemas angustiantes que São Paulo experimenta, certamente da mesma forma que as outras oito regiões metropolitanas. Parece-me que, diante desse quadro tenebroso de problemas devemos facilitar a sua solução. Como facilitar? Usando um mecanismo que já produziu os seus efeitos, como é o caso do associativismo de Minas Gerais e de Santa Catarina, apenas ajustando constitucionalmente a solução 109 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) do problema, permitindo que os municípios façam aquilo que estão fazendo hoje, porque, a meu ver, como modesto estudioso do Direito Constitucional, o associativismo municipal hoje, nesses dois grandes Estados, vem sendo consentido, posto que constitucionalmente eles não têm amparo. Então, qual seria a solução? Ampará-lo constitucionalmente, ajustá-lo à realidade, dentro da idéia do Constituinte Maurício Fruet, que imagina assim – como imagino também – um conselho administrativo dessas regiões metropolitanas, com a participação do prefeito, com a participação de dois ou três, ou proporcionalmente de municipais, de maneira que se pudesse fixar esse órgão como sendo de natureza normativa e, ao mesmo tempo, executiva, para que o presidente do conselho detivesse poderes de implementar a execução de obras que encarnam problemas como esses. Estas as colocações que eu gostaria de fazer, sem de tudo perder de vista a idéia do Dr. Adindo. No meu modesto entender, ficou uma interrogação muito grande dentro da sua proposta – que, aliás, já fiz colocar, quando ouvi o Prefeito Requião, e tive oportunidade até de interrogar o Dr. Lordello de Melo exatamente sobre a questão judiciária: Como seriam solucionados os conflitos dentro desse município metropolitano? Parece que não ficou definida a questão de qual seria o foro competente para dirimir esses conflitos. Finalmente, Sr. Presidente, gostaria ainda de enfatizar a sugestão do Dr. Hanashiro. Na essência, traz, como proposta de reforma tributária, um trabalho que já foi realizado pelo IPEA – Seplan, que objetiva a transformação do ICM, do IPI e do ISS num novo imposto, o Imposto sobre o Valor Agregado. Como homem que tem interesse pela representação que possui, gostaria de manifestar contrariamente à proposta aqui trazida, no que concerne apenas à substituição do IPI pelo IVA, uma vez que a supressão ou a substituição do IPI golpeia de morte a zona Franca de Manaus, que se arrima em cima da cobrança desse imposto. Eram apenas estas as colocações que eu gostaria de enfatizar. Quanto ao restante da proposta do Dr. Hanashiro, parece-me que a essência da proposta de reforma tributária, visando à região metropolitana, poderia ser atingida apenas com o estabelecimento de normas complementares da reforma tributária, que se colocará as bases essenciais na própria Constituição. Mas a legislação ordinária ou a legislação complementar poderia atingir facilmente os objetivos propostos na questão vinculada à fixação de percentuais destinados às regiões metropolitanas. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra ao segundo inscrito, o Constituinte Maurício Fruet. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, permita-me uma questão de ordem. Fiz uma pergunta específica ao Dr. Arlindo, no que pertine ao problema jurisdicional. Gostaria de saber, sem perder de vista a sua proposta, que merece o mais absoluto respeito, como funcionaria, nesse contexto de um novo município metropolitano, o problema jurisdicional. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Dr. Arlindo Villaschi para responder a esta questão. Em seguida, terá a palavra o Constituinte Maurício Fruet. O SR. ARLINDO VILLASCHI FILHO: – Com referência às observações do Constituinte José Dutra, eu gostaria apenas de fazer um esclarecimento. Na realidade, a proposta de existência do município metropolitano não implica um processo de fusão de todos os municípios que componham a região metropolitana. Nós estaríamos qualificando o município que coexistir com outros municípios numa mesma cidade e lhe daríamos um tratamento diferenciado naquelas questões de interesse comum. Do ponto de vista do Judiciário, não vejo razão alguma pela qual ele não pudesse continuar na forma de funcionamento atual; ou seja, o município metropolitano continuaria com o seu prefeito eleito, continuaria com a sua Câmara de vereadores também eleita. O que nós teríamos seria uma aceitação de que no município metropolitano ocorrem fenômenos de caráter econômico, social e político, que exigem uma diferenciação desse município com relação aos demais. Então, há uma ilustração do município, por exemplo, de Timóteo, que conforma uma cidade. Ou vamos pegar o próprio exemplo do Secretário Getúlio Hanashiro: a Grande São Paulo, hoje com 39 municípios, conforma uma cidade. Conseqüentemente, as atribuições e a autonomia dos municípios que compõem a Região Metropolitana de São Paulo não podem ser idênticas à de um município localizado no próprio Vale do Paraíba ou no sul de São Paulo, que exista isoladamente. Gostaria de prestar esse esclarecimento porque me parece que em alguns momentos eu possa ter confundido V. Ex.ª, como se a minha proposta fosse semelhante ou idêntica à do Prefeito Requião, quando é diametralmente oposta. Na realidade, quero que permaneça a descentralização política e administrativa através da existência de mais do que um município. Apenas é preciso que reconheçamos que existem problemas e serviços de interesse comuns que têm de ser tratados no nível metropolitano. Gostaria de, posteriormente, também voltar à questão do vereador e do deputado metropolitano, porque acho que podemos avançar um pouquinho mais, quando a Presidência assim achar conveniente. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, peço a palavra para uma questão de ordem. Gostaria de ouvir a opinião do Dr. Hanashiro, especialmente no que concerne ao problema do lPl. Como vê S. Sª esse problema, diante das conseqüências que fatalmente advirão? O SR. GETÚLIO HANASHIRO: – Antes de entrar nesse ponto, gostaria de abordar também alguns aspectos levantados aqui. Na realidade, a configuração do governo metropolitano ou do poder metropolitano para quem ocupa, como eu, um cargo de Secretário de Estado dos Negócios Metropolitanos, parece realmente atrativo. Mas acho que criar uma assembléia metropolitana implica necessariamente criar um executivo metropolitano, por algumas razões de simetria. E criar o poder metropolitano ou o executivo metropolitano dentro do nosso arcabouço constitucional, sobretudo dentro da nossa tradição histórica, parece-me difícil. De outra parte, é também voltar um pouco àquela visão de que é possível racionalizar tudo dentro de uma visão macro, onde um ente público tem o controle de todas as variáveis. O que proponho é, em parte, um caminho que vai entre essa visão de poder metropolitano e da absoluta autonomia municipal, que seriam, na realidade, as próprias secretarias. Tomei a entidade de natureza pública, mas poderíamos tomar como instrumento a própria secretaria, que tem abrangência metropolitana. Acho mais importante que essa gerência tenha capacidade de arrecadar tributos, tenha capacidade de gerenciar efetivamente, dentro daquilo que denominaríamos de interesse metropolitano. Não caio na perspectiva um pouco mais do associativismo ou do consórcio dos municípios, embora ache que seja um instrumento muito usado em alguns lugares e tem efetivamente trazido contribuições enormes. Creio que esse consórcio funciona em municípios que tenham certa homogeneidade, ou em áreas que sejam realmente comuns e que todos estejam interessados. Cito um exemplo: o problema do lixo. Enquanto o prefeito consegue resolver o seu problema do lixo, é um problema municipal. Quando não consegue resolver o problema do lixo, toma-se um problema metropolitano, se estiver na área metropolitana. E é muito difícil conseguir a solidariedade de outro companheiro prefeito para que o município A desloque o seu lixo para o município B. Então, a figura do consórcio não funciona nesse caso específico. Estou relatando um pouco a experiência vivida quotidianamente na nossa administração, dos problemas reais que enfrentamos. De modo que acho que devemos ter, sim, uma entidade que tenha capacidade de arrecadar tributos e, conseqüentemente, de planejar, estabelecer prioridades, definir e implantar projetos dentro da região metropolitana e dentro daquilo que seja de interesse metropolitano. A questão mais grave, no que tange a São Paulo – e isso também abarca algumas outras regiões metropolitanas – é o problema dos mananciais. O que dá unidade à região metropolitana de São Paulo nada mais é do que a sua bacia hidrográfica e os mananciais que abastecem São Paulo e seus municípios vizinhos de água. No entanto, temos uma adversidade muito grande em outros aspectos, sobretudo do ponto de vista dos indicadores sociais, mas a unidade que dá base a essa região metropolitana, que a costura, é a bacia hidrográfica. E a única coisa efetiva que a administração metropolitana tem, na realidade, é uma legislação de proteção aos mananciais que é restritiva. Ela realmente cria para os municípios algum tipo de problema, sobretudo para aqueles que não têm outra atividade, ou que a própria Lei de Proteção aos Mananciais impede tenham atividades industriais. Isso cria um problema muito sério, do ponto de vista de geração de recursos. Daí a figura também de compensação financeira, que existe, mas é preciso melhorá-la e aperfeiçoála. De modo que não caio nem num municipalismo, digamos, acentuado, que é a perspectiva hoje do Brasil, tampouco num poder metropolitano, porque penso que isso contraria um pouco nosso desenvolvimento histórico, nosso modelo institucional, a par do fato de achar que esse processo de concentração também cria dificuldades. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) No que tange à questão dos impostos, compreendo a preocupação do constituinte, sobretudo em relação à Zona Franca de Manaus, mas acredito que pode ser dado tratamento diferente em relação à Manaus, com referência ao Imposto Sobre Produtos Industrializados, seja através de mecanismos do tipo compensação financeira, seja através de outros mecanismos. Também compreendo que esses mecanismos podem estar inscritos numa lei complementar, que não seja necessariamente definida pela Constituição. Quis colocar ao nível da discussão nesta subcomissão, porque não acredito na perspectiva da região metropolitana; se ela não tiver capacidade pelo menos de definir algum tipo de mecanismo que permita arrecadar tributos nessa área, que ela tenha um mínimo de autonomia para gerenciar esses recursos. Quer dizer, sem que tenhamos nisso, a figura da região metropolitana realmente é uma figura de retórica, sem expressão e sem poder. Acho que o poder da região metropolitana advém da sua capacidade de arrecadar tributos e de definir certos parâmetros do ponto de vista da arrecadação. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Getúlio Hanashiro, só para tirar uma dúvida final: Quem arrecadaria esse tributo? A própria região ou o estado? O SR. GETÚLIO HANASHIRO: – acho que aí é uma questão que pode ser definida na legislação ordinária ou na própria legislação estadual. Num primeiro instante, essa arrecadação deveria ser do estado mesmo, posteriormente repassada para a região metropolitana. Hoje existe uma sistemática aperfeiçoada já por parte dos estados em relação à arrecadação. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Edésio Frias. O SR CONSTITUINTE EDÉSIO FRIAS: – Nesse mesmo raciocínio: Automaticamente a sua Secretaria dos Negócios Metropolitanos seria o Executivo? O SR GETÚLIO HANASHIRO: – Não estou advogando em causa própria, evidentemente, mas acho que isso se estabeleceria pela Constituição estadual. Por isso, na proposta que fizemos, esta sugestão está de uma forma muito genérica, porque acho que não dá para definir, ao nível da Constituição federal, regiões metropolitanas tão diferentes. Pretender colocar de uma forma detalhada na Constituição Federal a questão metropolitana, parece-me querer homegeneizar coisas desiguais. O que se deve estabelecer, no meu modo de entender, na Constituição, é a figura da região metropolitana, cabendo ao constituinte estadual estabelecer o detalhamento, a operacionalização dessa região metropolitana. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Sr. Constituinte Maurício Fruet. O SR MAURÍCIO FRUET: – Rapidamente sobre a região metropolitana: o Dr. Getúlio trouxe uma proposta de institucionalização das regiões metropolitanas que está assemelhada a um processo de discussão que se vinha desenvolvendo já há algum tempo com secretários de regiões metropolitanas, como é o caso dele, e coordenadores da região metropolitana. Esse documento me parece o que de melhor existe, a nível de figurar na Constituição, onde se respeita a peculiaridade, que também foi abordada pelos companheiros de cada estado e região. Ao mesmo tempo, também possibilita a organização de novas regiões metropolitanas no País. Ao contrário do Dr. Getúlio, entendo que é muito importante que exista um organismo legislativo para não só oferecer às comunidades que integram a região metropolitana a transparência, mas assegurar a todos os municípios, por menores que sejam, a perspectiva de representatividade. Defendo a posição de que as Câmaras indicariam e assegurariam a cada município pelo menos um representante e talvez 5% do eleitorado da região por mais um vereador, mais ou menos nessa linha. Acho que não é difícil se encontrar uma fórmula que possa compatibilizar a forma de representatividade. Mas gostaria de abordar dois assuntos que foram objeto de colocação do Dr. Zaire Rezende e uma preliminar sou estudioso de propostas de governo de democracia participativa no Brasil e posso dizer, com a maior tranqüilidade, que a ação administrativa que o Dr. Zaire Rezende vem desenvolvendo em Minas Gerais é magnífica. Coloco sua administração como a mais eficiente na prática no Brasil, a nível de democracia participativa. Não é um elogio gratuito, pelo contrário. É uma pessoa que realmente está preocupada com esse tipo de ação. Parece-me que a Constituição que estamos elaborando, principalmente nessa parte, Sr. Relator, tem condições de promover algumas profundas alterações na maneira de se atuar a nível de município. Citarei dois exemplos e depois quero ouvir a oposição do Dr. Zaire Rezende. O primeiro deles é com relação à reforma agrária. A primeira desapropriação realizada no Brasil pelo Ministério da Reforma Agrária foi no estado vizinho do Paraná, Santa Catarina, numa área que eventualmente conhecia, de aproximadamente cinco mil hectares. Foi feita a desapropriação no modelo socialista e, no momento em que o Ministério da Reforma Agrária tomou conta daquela terra, chegou à conclusão de que o custo do hectare, ao lado de uma cidade, por exemplo Lages, em Santa Catarina, com toda a infraestrutura, custaria, àquela época, em torno de vinte e cinco cruzados. Se fosse doada aquela terra objeto de desapropriação, para se efetuar uma infra-estrutura naquela região, seria preciso gastar cinqüenta mil cruzados por hectare, num local distante setenta quilômetros do centro urbano mais próximo. E a reforma agrária, da maneira como está sendo conduzida, além de desacreditada, lenta e morosa, no ano 5000 não teria resolvido o nosso problema. Parece-me que, se oferecer condições e recursos para município executar sua reforma agrária, ele poderá viabilizar esse processo tranqüilamente, porque não acredito em solução macro. Só acredito em soluções regionais, respeitando-se as características, a começar, por exemplo, pela seleção das famílias que iriam ocupar a terra. A comunidade tem condições de saber quem realmente tem tradição de cultura e trabalho, para receber aquela terra e desenvolver um trabalho eficiente, que possa ter uma contra-partida. Então, a primeira colocação é esta: reforma agrária pelo município. Em segundo lugar, parece-me, companheiros, que as Câmaras municipais, os órgãos de fiscalização do Executivo, Tribunal de Contas etc. – 110 têm sido insuficientes para realmente realizar a contento essa tarefa. Nós aqui na Câmara, por exemplo, temos dificuldades incríveis para desenvolver um trabalho de fiscalização junto ao Poder Executivo. E alguns mecanismos talvez pudéssemos introduzir, a nível constitucional. O mais atraente de todos, parece-me, seriam os Conselhos Municipais formados por organizações, associações e entidades organizadas. Temos hoje a experiência, ainda que não institucionalizada, do Dr. Zaire Rezende em muitos outros municípios. No entanto, talvez encontrássemos agora, nesta comissão, um mecanismo como sugestão para se incluir no texto constitucional. Que sua ação ficasse, por exemplo, entre a atuação do Poder Legislativo e do Tribunal de Contas. E que esse Conselho fosse constituído por representantes das entidades organizadas no município e que tivesse a possibilidade de desenvolver um trabalho acima de tudo prático. Eram estas observações. O SR PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o Prefeito Zaire Rezende para responder às duas perguntas. O SR ZAIRE REZENDE: – Gostaria de agradecer ao Constituinte Maurício Fruet as palavras gentis e elogiosas. Diria que concordo inteiramente com a consideração que faz sobre a reforma agrária. Temos encontrado – não em termos de reforma agrária, porque não é uma competência municipal – grande facilidade em selecionar e conhecer informações em ter acesso a dados que nos permitam um critério bastante rigoroso para atender à resposta habitação popular para o cidadão carente, de baixa renda, bem como para a fixação de alguns egressos do campo, que estão na cidade, que desejam trabalhar. Estamos cedendo áreas do município, em loteamentos ainda não ocupados, áreas que são institucionais, mediante contrato de uso desse solo provisório. Acho que o município pode agilizar com grande facilidade, pode errar muito menos do que o estado e, sobretudo, do que a União. Então, concordo inteiramente. Não vejo dificuldade em se partir para uma reforma agrária pelo município. Em relação à sugestão do Conselho de Entidades, estamos também inteiramente de acordo, sobretudo com a institucionalização. Temos tido um problema lá em Uberlândia. É que o povo, aquele que participa, tem nos questionado: E depois, quando terminar este governo, será que o próximo vai permitir? Será que vai dar espaço, vai dar acesso ao poder? O conselho, as associações de moradores, enfim, o povo organizado vai continuar tendo a sua vez ou não”? Esse é um aspecto que daria essa garantia de participação. Por outro lado, viria ao encontro de outro aspecto que salientamos, enquanto estávamos fazendo a exposição, que é o da transparência. Acreditamos que só pode haver democracia quando o governo é totalmente transparente. Não há qualquer segredo, não há qualquer limitação, não há qualquer dificuldade no acesso a todas as informações que digam respeito à gerência do recurso que vem do próprio povo. Muito Obrigado. O SR PRESIDENTE (Luis Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Constituinte Waldec Ornélas. 111 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. CONSTITUINTE WALDEC ORNÉLAS: – Meu caro Presidente, quero ressaltar inicialmente a importância desse painel. Apesar de tratar de temas e assuntos que já focalizamos em painéis anteriores, traz aspectos novos, abordagens novas e, por conseguinte, enriquecedoras do nosso trabalho. Congratulo-me com V. S.ª e com esta subcomissão pelo cuidado que tem tido na organização desses painéis, que têm dado realmente resultado excelente. Aqui vimos hoje, por exemplo, que o panorama metropolitano, visto desde São Paulo, é inteiramente distinto do panorama metropolitano visto desde Curitiba. De Curitiba, trouxe-nos o Prefeito Requião a proposta do município metropolitano, que é diferente, evidentemente, do conceito de município metropolitano a que se referiu o Dr. Arlindo. Mas pesa, sobretudo, e vou sublinhar isso mais adiante, a participação da Região Metropolitana de São Paulo na geração da renda nacional. Nada menos do que 1/5 da renda nacional é gerada em um milésimo do território, em uma única área. Acho que esse ponto tem que ser meditado, tem que ser refletido por nós nesta subcomissão. Nosso companheiro José Dutra enfrenta realmente esse problema, vendo o panorama metropolitano a partir do Estado do Amazonas, não tenho dúvida. Então, essa diferenciação é uma coisa que eu gostaria de explorar, de ressaltar, de salientar nesse contato. Quero primeiro dirigir-me ao Dr. Arlindo, para dizer que concordo plenamente com a questão da consulta plebiscitária. Parece-me que ela é democratizaste. Teoricamente não tenho nenhuma resistência. Mas vejo dificuldades de ordem prática. Tomemos o caso de São Paulo, região metropolitana com quarenta e oito ou quarenta e nove municípios. De repente, na criação de municípios, o plebiscito é feito apenas na área que vai ser desmembrada. Não é ouvida população da área de onde se vai desmembrar. E se, dos trinta e nove municípios, um deles, situado no miolo, vamos dizer, São Bernardo do Campo, rejeitasse participar da Região Metropolitana de São Paulo? Ora, o princípio da contigüidade física – daí estou incluindo entre os critérios para criação dos municípios, numa proposta, a questão da área, do território é pressuposto fundamental para a região metropolitana. Gostaria de ouvir V. S.ª a esse respeito. Quanto ao seu conceito de municípios metropolitano, pareceu-me mais propriamente que quer ressaltar que, no âmbito das regiões metropolitanas, a autonomia dos municípios se torna relativa, na medida em que há de ser compatibilizada com os interesses de todos os demais municípios. Creio que, de certo modo - tenho enfatizado isso nesta comissão – devemos utilizar aqui a lição do meu Professor de Direito Constitucional, Marcelo Duarte, no sentido de que precisamos avançar na discriminação das competências entre as diversas esferas de governo, para permitir exatamente que se saneiem essas disputas e essa concorrência, que hoje existem na Federação. Concordo em que a região metropolitana deva ser desvinculada da órbita do Estado. É preciso, sem dúvida. E, como não se cogita de vinculá-la à União, é preciso atribuir maior participação dos municípios ou predomínio mesmo, eu diria, dos municípios, na definição das políticas metropolitanas. Não posso, contudo, concordar com o meu Professor, quando apregoa que voltemos praticamente a um sistema de associativismo. Seria um retrocesso, até em termos do que existe. Isto porque não podemos correr o risco, não podemos assumir o ônus de substituir o sistema atual, que denuncia o Secretário de São Paulo, de substituir o predomínio, a força, o poder das empresas setoriais pelo predomínio pelo peso do município da Capital sobre demais municípios, alguns muito débeis, muito fracos. Sabe meu Professor Marcelo que, neste momento, estamos vivendo esta situação em Salvador, na nossa região metropolitana, quando o município capital tenta, a todo custo, impor à região metropolitana um sistema de transporte de massa que, entendo eu, não serve sequer aos interesses municipais de Salvador, muito menos permite a acoplagem futura aos interesses metropolitanos. Entendo que precisamos evoluir para um sistema intergovernamental, mas que não pode ser um ato voluntário, porque, quando tratamos das regiões metropolitanas, não estamos tratando apenas de uma questão jurídica. Estamos tratando dos reflexos da concentração do fenômeno urbano, que tem um imposto, um peso, uma importância econômica e social. E, sobretudo, estamos tratando de uma situação – vemos isso claramente na exposição do Secretário de São Paulo – em que não se conseguiu superar a contradição entre a concentração da produção econômica e os grandes bolsões de miséria, de pobreza que se mantêm ainda hoje. Creio, por conseguinte, que, nesta Constituinte temos de encontrar uma fórmula de tornar imperativa essa estrutura metropolitana, que não pode ser apenas associativista. Por outro lado, gostaria de ouvir do Secretário dos Negócios Metropolitanos de São Paulo um esclarecimento. Critica-se, de modo geral, a questão da simetria. Estamos de acordo, mas gostaria que fosse caracterizado – talvez de São Paulo nos pudesse vir essa luz – qual o elemento nuclear para a ruptura dessa simetria. São as funções metropolitanas? São as competências? É a organização? É a autonomia? No transcorrer dos debates, tive a impressão de que o "calcanhar-de-aquiles" está no problema da competência legislativa sobre os assuntos metropolitanos. Não me parece que seja só ele, mas entendo que realmente tem sido um ponto difícil aqui na comissão – já tratamos disso quando estudamos os municípios caracterizar isso adequadamente, porque, como bem salientou nosso Relator, em outra sessão, a Constituição não se pode furtar a estabelecer princípios. É preciso que isso seja caracterizado adequadamente, para que possamos incorporar ao texto que haveremos de elaborar. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Secretário Getúlio Hanashiro. O SR. GETÚLIO HANASHIRO: – Acho que, na realidade, é um complexo de problemas ou de variáveis, entre os quais os aspectos legal, legislativo tem um peso muito grande. Mas, em várias questões que têm interesse meramente metropolitano – no caso específico de São Paulo podemos ter uma legislação adequada. Na questão de transportes, hoje já existe uma legislação que permita que o Estado, o poder público, a Secretaria dos Negócios Metropolitanos tenha uma atuação. Reconheço que nosso arcabouço jurídico e legal é muito frágil ainda, no que tange à definição de certa compulsoriedade e por parte dos municípios, em relação a uma legislação mais abrangente. Associo a esta fragilidade, do ponto de vista legal, institucional, também a fragilidade do ponto de vista de poder, saber real, poder no sentido de intervenção, dentro dessa realidade. Esse poder, no meu modo de encarar, é dado em cima da capacidade de gerenciar recursos. Nada mais que isso, porque, se o poder público não tem essa capacidade, evidentemente a coisa se torna um formalismo. E, na região metropolitana, isso é muito comum, quer dizer, não temos poder real para intervir em alguns aspectos que, inclusive, já estão definidos na própria legislação vigente. De modo que, resumindo, acho que há uma complexidade de fatores, desde o estabelecimento, a nível constitucional, do estatuto da região metropolitana, até a colaboração de uma legislação ordinária, em termos de explicitar claramente o mecanismo de ação do poder público nessa região. Finalmente, a questão do poder real, que, no meu modo de entender, é dada pela capacidade de gerenciamento de recursos. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – O Dr. Arlindo Villaschi pediu a palavra para fazer um esclarecimento. Posteriormente falará o Dr. Marcelo Duarte. O SR. ARLINDO VILLASCHI: – Na medida em que o debate cresce, acho que fica muito claro que nenhum de nós hoje aqui quer necessariamente resgatar o associativismo embutido na Carta de 1946. Sabemos que a idéia do federalismo cooperativo, implícito na Carta de 1967, também tem suas limitações. Então, acho que todos temos de buscar – vou usar a expressão do Constituinte Waldeck Ornelas – a ruptura. E aí creio que terá de ser uma ruptura também como modelo histórico, mais de uma vez aventado pelo painelista Getúlio Hanashiro, ou seja, a realidade de hoje impõe que criemos uma ruptura com esse dito modelo histórico. Obviamente, não vamos conseguir resolver isso de forma idêntica, nas aglomerações urbanas, algumas das quais com características de região metropolitana, de metrópole nacional inclusive. Mas acho que, a nível da Constituição, é fundamental que façamos alguns reconhecimentos. Um deles – gostaria de fazer essa observação de forma específica para os Constituintes Geraldo Melo e Maurício Fruet – se refere exatamente à chamada instância metropolitana e à necessidade que nós três vemos do legislativo metropolitano. Só que gostaria de ressaltar que, na minha opinião, esse Legislativo deve ser composto por pessoas indicadas com objetivos distintos, porque a base territorial da preocupação com o problema metropolitano é diferente da base territorial do problema municipal. No momento em que eu, cidadão, elejo um vereador, tenho na cabeça um nível de preocupação distinto daquele que teria quando elegesse um deputado ou um vereador metropolitano; porque, quando elejo, na base territorial de um município, um vereador, estou preocupado com questões da vizinhança, estou preocupado até com a questão da cercania da minha moradia, da educação, da saúde. Não DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) posso ter o mesmo nível de preocupação que teria quando elegesse meu deputado metropolitano ou meu vereador metropolitano, que estaria num nível de preocupação de manancial, problema de transporte público integrado. Obviamente, a definição desses problemas comuns acho que tem de ser deixada para a legislação estadual. No Rio de Janeiro, por exemplo, tenho como problema comum o do gás, enquanto em São Paulo e em outras regiões metropolitanas não tenho esse problema. Posso ter a Região Metropolitana do Rio de Janeiro o problema turístico como sendo fundamental. No aglomerado urbano de Florianópolis ele pode ser fundamental e pode não o ser em outros aglomerados. A própria definição do que são serviços de interesse comum tem que ser deixada para a legislação. Concordo com o Constituinte Waldeck Ornélas. Não tenho aqui nenhuma solução de "bolso de colete" sobre como esse plebiscito vai existir. Certamente ele terá que superar noções de autonomia municipal, que temos arraigadas ainda hoje, ou seja, questões metropolitanas essenciais terão que prevalecer sobre a chamada autonomia municipal hoje existente, porque o problema está aí. Não adianta querermos escamotear. O problema metropolitano aí está em trinta regiões. Agora, como isso vai ser operacionalizado, concordo plenamente que não é a hora de estabelecermos aqui uma regra única, caso contrário certamente estabeleceremos uma regra burra. Ela será burra porque as peculiaridades são razoavelmente distintas. O que quero ressaltar é a necessidade, em primeiro lugar, de delegarmos ao Estadomembro a questão da aglomeração porque isso é fundamental. Em segundo lugar, defendo a necessidade de uma instância política diferenciada. Quanto à questão administrativa, os exemplos aí estão, de empresas criadas no âmbito do Estado ou da cooperação municipais, que estão executando tarefas integradas, mas ainda não temos nenhum poder, a nível do Legislativo, que possua essa visão. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): — Com a palavra o Dr. Marcelo Duarte Filho. O SR. MARCELO DUARTE: — Sr. Presidente, Srs. Constituintes, gostaria de prestar-lhes alguns esclarecimentos, em vista de algumas interpretações que foram apresentadas sobre a minha contribuição neste Seminário. Quando defendo a valorização do Município, não quero suprir o Estado. O Estado-membro é uma entidade essencial ao esquema federativo. Ressaltamos a necessidade de que se discriminem com clareza as atribuições de cada uma dessas entidades que compõem a estrutura vertical do Estado brasileiro ou a estrutura federativa. Reconhecemos que o projeto de discriminação constitucional existente na federação brasileira seja o seguinte: compete ao Município o intramunicipal; o intermunicipal compete ao Estado, por ser intra-estadual, assim como o interestadual compete à União , juntamente com o internacional. Com esses parâmetros, vê-se que não é difícil compatibilizar-se a solução do chamado problema metropolitano naquilo que ele trascenda ao peculiar interesse local, porque é da competência do Estado, já por força da Constituição, uma vez que se sabe que compete aos Estados o exercício dos chamados poderes remanescentes ou poderes residuais. O que, em verdade, proponho é um caminho de valorização dos municípios, sem quebra da autonomia municipal, preservando-se o intramunicipal com os municípios, mas, ao mesmo tempo, sugerimos um caminho de aglutinação, para que outra entidade intervenha — o termo intervenção não é adequado — faça uma interveniência, vamos dizer, seja interveniente no apoio, porque não estamos aqui examinando o problema da discriminação de competências em geral. Fomos convidados para participar de um painel sobre região metropolitana e Município. Evidentemente, não podemos analisar de forma isolada o problema. É preciso ver que isso vai comportar repercussões na estrutura do Estado brasileiro, na competência dos Estados. Pode-se inclusive chegar à solução típica da Constituição indiana, em que as três esferas de competência tenham na Constituição suas atribuições discriminadas, cabendo para uma delas — lá é para a União — alguns desses poderes remanescentes. A fórmula que se adotou no Brasil, copiada do modelo norte-americano, é de poderes discriminados para a União — por sinal, cada vez maiores — poderes também discriminados para o Município, porque, constitucionalmente previsto dentro da linha traçada pela Constituição, e cabendo aos Estados toda a competência residual. Então, a proposta apresentada não pode ser entendida de modo algum como se só estivéssemos vendo a posição do Município, porque o Estado interferirá nisso. Tudo que for intermunicipal é da competência do Estado, e liar esses interesses. Quando se fala em separação de Poderes no plano horizontal, muitos entendem que essa separação seja rígida. A Constituição já vem usando essa expressão que os Poderes são distintos, porém harmônicos, porque, na verdade, todos são Poderes para um fim, para um objetivo colimado pelo Estado. São Poderes que não se presume entrem em conflito, a não ser em oposições políticas, etc. Mas existem o Judiciário, o Legislativo, o Executivo para atendimento das funções do Estado. Desse modo, o que vemos em relação aos municípios é que o tratamento constitucional que se der à problemática oriunda dos conglomerados urbanos, do chamado problema metropolitano, não pode determinar uma uniformização fisionômica que só os regimes autoritários pretendem ilusoriamente obter. Na verdade, já temos três esferas de competência — uma para matéria local, outra para a chamada regional e a terceira para o problema nacional. Desse modo, seria mais útil, com respaldo em garantias e providências constitucionalmente previstas, que se partisse da organização dos Estados — Estadosmembros — e Municípios essa aglutinação. Queria fazer, por último, uma observação. Esse problema nasce também da seguinte circunstância: por força de uma discriminação de rendas inadequada e deformada nos seus objetivos reais, passou a ser conveniente e útil o desmembramento dos municípios. Para se ter uma idéia, o município de Salvador envolvia, há alguns anos, não só Candeia, como chegava até o território de Camaçari. Cada uma dessas comunidades se foi desmembrando, e se criaram então diversos municípios. Tenho certeza de que a Grande São Paulo já foi antigamente o Município de São Paulo, e toda a região chamada de Piratini. Bem, o que sucedeu? Se esses municípios não se tivessem 112 desmembrado, se tivessem permanecido como um município só, esse problema desapareceria, porque a situação seria só de São Paulo ou seria só de Salvador. Em Salvador há uma circunstância até curiosa. Há áreas rurais intermediárias entre a área urbana de Salvador, a de Candeias e a de Simões Filho. Elas podem tocar-se em Lauro de Freitas. Tocam-se um pouco pelos subúrbios em Simões Filho, mas com Candeias. Há até o Oceano Atlântico, Baía de Todos os Santos, separando o Município de Vera Cruz de ltaparica. As circunstâncias são de difícil uniformização por parte da Constituição. O que se pode, porém, sugerir é que, na criação de municípios, sejam observados critérios tanto de população, de território e de renda pública, ao tempo em que se dêem às municipalidades brasileiras recursos, que não seja interessante a atomização municipal, com o que também se sugere que os municípios se reagrupem, se unifiquem, novamente se unam. É um problema da imaginação dos Srs. Constituintes. O que não se deve esperar é que, verberando a criação de uma quarta entidade do esquema federativo, falando das dificuldades, da complicação da superposição de poderes e de recursos, vamos fazer exatamente aquilo que achamos que não devemos fazer. Seria como Galileu ao inverso, ao dizermos que a Terra não de movia, disséssemos que ela se move; ao dizermos que não queremos uma nova ou uma quarta entidade federativa, vamos, na verdade, instituí-la. São essas as considerações que queria fazer. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): — O Constituinte Waldeck Ornélas quer fazer mais uma consideração. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: — Apenas para esclarecer um ponto importante nesta subcomissão — e as declarações do Prof. Marcelo Duarte contribuem ainda mais para isso. Precisamos discutir, aprofundar essa discussão da questão do ente metropolitano. Veja bem, não entendi — aliás, esclareço — que o Prof. Marcelo Duarte estivesse propondo a extinção do estado. Na verdade, é uma posição, apesar de essa posição haver sido defendida aqui pelo Constituinte Raul Ferraz, nosso conterrâneo, nosso coestaduano. Ocorre que há uma reação por parte dos municípios das regiões metropolitanas, pelo fato de estarem subordinados ao estado. Não ficou tranqüilo que o que é intermunicipal passa a ser estadual. Busca-se, então, uma solução intermediária, melhor dizendo, solução nova — intermediária fica parecendo coluna do meio — que chegou até à proposição do 4º Poder, como chegou à proposta do Município metropolitano pela agregação de todos eles. O que vemos é que seria extremamente estapafúrdio. No caso de São Paulo, por exemplo, teríamos praticamente um estado dentro do estado — já temos um estado dentro do País. Então faríamos um estado dentro do estado. A questão que se coloca é que o associativismo intermunicipal, praticado pelos municípios, é um associativismo voluntário, que se realiza mediante convênios etc. No caso, deveríamos ter uma espécie de associativismo ... O SR. MARCELO DUARTE: — Mais compulsório. O SR. CONSTITUINTE WALDECK ORNÉLAS: — ... mais compulsório, onde também, necessa- 113 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (suplemento) riamente, venham participar o estado e a União, porque a região metropolitana é o local por excelência onde se realizam as funções dos três níveis. A busca dessa forma é que nos tem dado aqui um mostruário bastante diversificado de alternativas. O SR. MARCELO DUARTE: – Permita–me V. Ex.ª. O entendimento de que o art. 164 seja o veículo de criação de uma nova entidade foi, evidentemente, banido por toda a doutrina e mesmo pelo Judiciário. Entretanto, se não existisse o art 164, rigorosamente, a União não poderia estipendiar com auxílios uma entidade metropolitana, porque ela não pode criar diferenças entre brasileiros, entre municípios ou entre estados. Sabemos que a proteção, o empenho federal no auxílio a uma entidade regional ou a uma circunstância regional surgiu no começo do século, com a crise do Instituto Federal de Obras Contra as Secas. Na Constituição de 1946, imaginou–se – houve muito debate em torno disso – a Comissão do Vale do São Francisco. Com o chamado federalismo cooperativista ou cooperativo, sem uma previsão constitucional adequada, a União, por ser a entidade mais poderosa do sistema federativo, passou a ter que fazer tudo. Se não houvesse também essa previsão, se bem que no capítulo errado, "Da Ordem Econômica e Social", a União não poderia. Minha modesta sugestão visa assegurar essa aglutinação, com a participação do estado e da União, certo, porém, estando de que compete aos estados organizar os seus municípios. Não sou daqueles, embora municipalista, que defendem a tese de que os municípios devem ser auto–organizados. Dou– lhes a possibilidade de auto–organização, mas a sua criação compete ao estado. Auto– organização sob critérios e princípios. Não chego a uma república municipalista nesse sentido, como se fosse um conglomerado, uma automização de municípios. Não há necessidade disso. Acho que o município deve ter todo o instrumental institucional e financeiro para tocar os problemas de peculiar interesse local. Isso é que deve ser resguardado. No mais, temos de garantir que o exercício da autonomia das entidades estaduais, ou seja, dos estados–membros, também se faça no enfrentamento do problema metropolitano. Acho muito perigoso que uma Constituição federal, que já tem, diferentemente de muitas outras, sobretudo da americana, a figura do município ali prevista como categoria especial, dando à Federação brasileira um desdobramento em três órgãos, se não em quatro, como queria Hans Kelsen, acho muito perigoso, repito, que não descambe naquela indesejada uniformização, que não descambe também para a criação de mais um obstáculo perturbador da administração, que se dê o tratamento que estou ouvindo ser sugerido à região metropolitana. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Passo a palavra ao nobre Constituinte Mauro Miranda. O SR. CONSTITUINTE MAURO MIRANDA: – Sr. Presidente, Srs. constituintes, o que gostaria de colocar é que estamos discutindo em cima de uma situação de fato. Gostaria de perguntar ao nosso ilustre secretário; com essa gravidade com que expôs o problema da Grande São Paulo, se sugeriria algum mecanismo para a nova Constituição que impedisse ou atenuasse esse cresci– mento desordenado, como esse exemplo que São Paulo nos faz hoje, quase como uma limitação ao poder de crescimento das novas regiões metropolitanas. Com esse trabalho que teve em São Paulo, dentro da Capital, e agora, como secretário, se tem algum pensamento no sentido de distribuir melhor essa nossa riqueza nacional, porque, se resolvermos bem o problema da Região Metropolitana de São Paulo, talvez seja um fator de aglutinação de mais população dentro dessa região. O SR. GETÚLIO HANASHIRO: – Acho que a disparidade regional no Brasil, é uma questão de distribuição de renda. Se efetivamente, não tivermos uma política que permita uma distribuição adequada da renda nacional, iremos continuar experimentando o crescimento que a região metropolitana tem. Na realidade, a Região Metropolitana de São Paulo cresce não em cima de fatores internos, ou seja, do próprio crescimento endógeno da população. O crescimento se dá, em São Paulo, em cima da migração; o fator migratório é ainda o principal elemento de crescimento populacional dos agravamentos de todas as condições sociais da vida nessa região. Ainda focalizaria outro aspecto. Existe um aspecto político muito claro. Acho que os Srs. Constituintes obviamente devem ter atentado para esse fato. O exemplo das últimas eleições nos indica exatamente que esse poder está distribuído, mas existe certo desequilíbrio, do ponto de vista de estruturação de certos mecanismos. Refiro– me fundamentalmente à questão eleitoral. A última eleição em São Paulo demonstrou claramente que a bancada de deputados estaduais e federais é uma bancada estritamente interiorana. Basicamente, dentro do meu partido, o PMDB, fui o único deputado a se eleger pela votação da Capital. Os outros 36 Parlamentares foram eleitos com a votação do interior. Na região metropolitana, essa representação também é diminuta. Praticamente dois ou três deputados representam essa região metropolitana, que como viram V. Ex.as, representa 50% da população. Então, até mesmo a nível da representação política há uma distorção muito grande, obviamente aqui em cima da legislação eleitoral, com o que a própria Constituinte deve estar preocupada. Resgatando a sua pergunta, diria que, se não tivermos os mecanismos de distribuição de renda, entre os quais incluo claramente a reforma agrária, teremos uma pressão muito grande na Região Metropolitana de São Paulo. Isso é indiscutível. Mais ainda: a gravidade da região é de tal natureza que as tensões sociais se situam fundamentalmente, no caso específico do Estado de São Paulo, nessa região. Não temos outros conflitos maiores, a não ser na região metropolitana, pela sua concentração e, sobretudo, pela sua desigualdade social. O débito social da região é muito grande. É uma região com uma disparidade social muito grande, coisa que não encontramos, por exemplo, no interior do Estado de São Paulo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Temos inscrito para fazer três perguntas, o Prof. Diogo Lordello. No entanto, o Presidente, na qualidade de Constituinte, pergunta ao Prefeito Zaire Rezende se, na sua visão, ele mesmo não sendo um expert , mas com base na experiência que tem do assunto, a questão do associativismo municipal poderia ser a solução também na questão metropolitana, baseado na sua experiência. O SR. ZAIRE REZENDE: – Agradeço a V. Ex.ª a pergunta. Estava realmente querendo dar uma opinião. Parece–me que sim. Diria o seguinte: Embora ausentes da vivência desse tipo de problema, parece–nos que as regiões metropolitanas deveriam ser formadas a partir da vontade e iniciativa dos municípios componentes, planejadas, coordenadas, dirigidas pelos mesmos, com a presença do Executivo e do Legislativo dos mesmos municípios. Parece–nos que isso poderia, talvez, tirar aquela dificuldade da composição de Legislativo próprio – além de abrir a possibilidade de termos elementos que poderiam partir do raciocínio simplesmente local para o raciocínio globalizante, como foi colocado pelo Secretário Getúlio Hanashiro. Talvez se pudesse resolver. Parece–nos que é possível. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao Prof. Diogo Lordello de Melo, nosso último inscrito. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELO: – Sr. Presidente, Srs. membros desta Comissão, demais presentes, em primeiro lugar, quero reconhecer e agradecer a distinção que me é conferida pela Presidência de usar a palavra, procurarei ser breve, porque já é bastante tarde, e creio que a fome grassa em todos nós. Quero dizer que concordo bastante com a posição expressa pelo eminente Relator, que foi defendida pelo Prof. Marcelo Duarte, e por outros também, quanto ao problema de um nível de governo a mais. Creio que os problemas são muito graves, se tivermos quatro níveis de governo. E diria: com mais um quarto nível de governo legislando sobre o município, imaginem o que vai acontecer com esse município. Já legisla para ele o Estado, já legisla a União, vai legislar mais um nível de governo, e ele não pode legislar para ninguém, para nenhum nível. Então, vamos complicar o processo, se tivermos mais um nível de governo. Creio que é perfeitamente possível, e há aqui uma proposta muito boa, muito concreta, dentre outras, a do Secretário dos Negócios Metropolitanos de São Paulo, Dr. Getúlio Hanashiro. Ela atende bastante bem, com algumas modificações. Também é razoável a preocupação demonstrada quanto à participação nos órgãos metropolitanos. Creio que essa participação tem que ser a mais ampla possível. Deve ser dos vereadores, no órgão que tem o poder deliberativo, num sentido diferente do que tem o Conselho Deliberativo hoje, do modo como está proposto pelo Dr. Getúlio, deliberativo no sentido de que é um órgão colegiado de formulação de políticas e participação dos prefeitos no órgão executivo, num colegiado executivo. Creio que aí poderíamos chegar a uma possível conciliação, diversa das que foram apresentadas aqui, tão interessantes. Haveria os dois órgãos, só com funções diferentes das de hoje: o órgão do Executivo, no qual estariam presentes os prefeitos e o governo do Estado, evidentemente; e o órgão deliberativo, com funções de formular as políticas, e aí estariam os vereadores, na forma como aqui foi muito judiciosamente proposta pelo Constituinte Maurício Fruet Assim, creio que a proposta do Dr. Getúlio Hanashiro, com pequenas modificações, atenderia DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) bastante bem o que se está buscando, com base na experiência brasileira anterior e com base, inclusive, em experiências metropolitanas internacionais. Não se deve copiar coisa alguma, mas experiências bem sucedidas podem muito bem servir de inspiração. E, no trabalho que o IBAM fez – fala aqui em nome do IBAM – para a Conder de Salvador para o Constituinte Waldeck Ornelas, do qual participou o Dr. Fábio Vilar, coube-me escrever um capítulo sobre a experiência mundial em regiões metropolitanas. Examinei 45 regiões de 19 Países. São três as condições essenciais, na experiência mundial, para que a região metropolitana dê certo. Qualquer quarta condição já não é tão importante. A primeira é que haja recursos próprios. Região metropolitana que não tem recursos próprios nunca funcionou de modo eficaz, em lugar nenhum do mundo. É muito diferente. Poder tributário próprio é diferente. Ter recursos próprios não é ter poder tributário próprio. A segunda condição é que, ou os municípios da região participem ativamente da formulação de suas políticas e da sua administração, ou não funciona também. O exemplo mais curioso e interessante é o da Holanda. Há três regiões na Holanda, a de Rotterdam, que funciona perfeitamente, porque reúne essas duas condições e mais a terceira que vou dizer aqui. E a de Amsterdam e a de Haia não funcionam porque os municípios não aceitam que Amesterdam ou Haia possam ditar as normas, e eles não terem a participação efetiva. Como na Holanda existe autonomia municipal, e o governo não se mete, ditatorialmente, a impor coisas aos municípios, então não funcionam essas duas, enquanto não se chegar a isso. Há muitos exemplos desse tipo que não vou mencionar aqui e que estão relacionados com esse trabalho que preparamos. A terceira condição é que não pode haver simetria, como foi aqui exposto muito bem pelo Constituinte Waldeck Ornelas. A ausência de simetria e de serviços não cabe ao Estado dizer que funções são metropolitanas em virtude das peculiaridades regionais. O que aplica; por exemplo, na Região Metropolitana de Belém pode não ser absolutamente conveniente para a de São Paulo. E um dos equívocos da Lei Complementar n° 14 é exatamente essa lista simétrica de funções, que não funcionou. Uma das causas do não funcionamento das regiões metropolitanas é a ausência de recursos próprios. Quando chegou o Governo Figueiredo, já não havia mais dinheiro, elas todas pararam, com exceção da de Recife, que foi a que menos parou, porque tinha um projeto do Banco Mundial. Então, havia esse dinheiro. A outra é exatamente a não participação dos municípios – e São Paulo consegui um grande êxito, está aí o secretário que pode confirmar – nas questão de definir a proteção dos mananciais. Os prefeitos tiveram participação enorme, também, na desconcentração industrial. Pelo menos as normas estão aí, e só se conseguiu isso através de imensa participação dos prefeitos. A implementação é outro problema, mas o primeiro passo se deu. E a ilegível Dr. Getúlio Hanashiro é a seguinte: Primeiro, por que somente a União e os Estados deverão consignar nos respectivos orçamentos recursos financeiros para os serviços metropolitanos? Por que não também os municípios? Do contrário os municípios não se vão sentir donos da coisa. Se eles não estão obrigados a pôr dinheiro, um percentual "x" de tal receita, como a União e os Estados, que é uma idéia muito boa, um dos pontos altamente positivos da proposta do Dr. Getúlio, que é exatamente essa, eu completaria, somente dizendo: Por que não também os municípios? Eles não vão sentir-se donos da bola, do negócio, dos bois, se não tiverem que participar também. Segundo: Por que limitar a participação dos municípios apenas ao Conselho Deliberativo? Se houver outros órgãos – um Conselho Deliberativo, um Conselho Consultivo, ou, como estou sugerindo aqui, seja um conselho deliberativo com funções de formulação de políticas e um colegiado executivo – por que não participação dos municípios em ambos? E na linha inclusive proposta aqui, no início, pelo Constituinte Maurício Fruet. Muito bem, então, que seja uma participação plena. Não entendi, entretanto, um assunto importante, talvez o Dr. Getúlio queira esclarecer. Que significa a competência para arrecadação de tributos pela entidade metropolitana? É arrecadação mesmo ou é decretação? Se for arrecadação é uma questão a ser resolvida, em convênio, com os órgãos de tributação. Agora, se for decretação de tributos, estamos aqui caminhando para a idéia de um nível próprio de governo. Não creio que seja essa a idéia do Dr. Getúlio, porque ele deixou claro que não é um nível de governo a mais, mas uma pessoa de direito público interno, com poderes específicos etc. Então, creio que essas coisas poderiam permitir essa contribuição, com essas observações tão interessantes, com essas ponderações muito judiciosas que foram feitas por várias pessoas, inclusive com a participação popular que mencionei. Têm que haver mecanismos com a participação popular nesses órgãos, sobretudo no órgão que vai formular políticas. Creio que teríamos aí uma boa proposta, muito concreta, com esses acréscimos, feitos pelo Dr. Getúlio Hanashiro, aproveitando, evidentemente, o que foi sugerido aqui por tantas pessoas e as próprias idéias do Dr. Arlindo Villaschi Filho. Muito obrigado, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Para responder a pergunta, concedo a palavra ao Dr. Getúlio Hanashiro. O SR. GETÚLIO HANASHIRO: – No que tange à participação dos municípios, nós não colocamos porque, na realidade, hoje há uma demanda muito clara, em termos de maior participação na fatia do bolo por parte dos municípios. Mas não vejo empecilho, realmente. Acho que isso aumenta o grau de solidariedade dos municípios, em termos da região metropolitana. Parece-me extremamente positivo. Quanto ao segundo aspecto da questão de fato, poderão arrecadar, mas logo em seguida colocamos a necessidade de se estabelecer tarifas, porque, na realidade, a legislação é estadual. Não é um órgão que tenha capacidade de legislar autonomamente. De modo que isso estaria configurado dentro da legislação do âmbito estadual. Mas, ao estabelecer a capacidade de arrecadar, em certa medida legalmente se estaria dando a competência para a elaboração de leis a serem aprovadas pela Assembléia Legislativa. Gostaria de resgatar uma questão que o nobre constituinte Mauro Miranda colocou – e respon- 114 de de forma mais precisa a colocação que V. Ex.ª fez, no tocante a alguns mecanismos que preservem o excesso de contingente populacional, de concentração industrial na região metropolitana, que é um pouco a nossa proposta de fazer incidir em 1% do Imposto de Renda sobre pessoa jurídica, que estejam instaladas na região metropolitana. Em certa medida, isso é um desincentivo à implantação de estabelecimentos industriais ou comerciais nessa região. O mecanismo mais expedito para minorar esse problema, acho, seria o estabelecimento de uma política de desconcentração industrial. O SR. DIOGO LORDELLO DE MELO: – Quero esclarecer a questão da participação dos municípios com recursos. O SR. GETULIO HANASHIRO: – Eu respondi. Acho que não vejo inconveniente nessa participação, pelo contrário; acho que aumenta o grau de solidariedade dos municípios em relação à região metropolitana. Não consignamos porque a grande demanda hoje dos municípios é exatamente aumentar a sua participação ao nível da distribuição da fatia do bolo. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência registra a presença do Prof. Diogo Lordello de Melo, Assessor Especial para Assuntos Internacionais do IBAM, do Dr. Roberto Henry, Chefe de Gabinete do Secretário dos Negócios Metropolitanos de São Paulo, agradece a presença aos expositores, Dr. Zaire Rezende, ao economista Arlindo Villaschi, ao Dr. Marcelo Duarte e ao Dr. Getúlio Hanashiro, que seguramente deram contribuição fundamental para os trabalhos desta Subcomissão dos Municípios e Regiões. Cumprido o objetivo da pauta, a Presidência convoca os Srs. constituintes para a nossa região da tarde, às 17 h, lembrando que amanhã teremos dois painéis, um pela manhã e outra à tarde. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Pela ordem, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Concedo a palavra, pela ordem, ao Sr. constituinte José Dutra. O SR. CONSTITUINTE JOSÉ DUTRA: – Sr. Presidente, apenas para encaminhar à Mesa proposta que consiste em uma sessão inteira sobre o problema município, que é produto das várias propostas que recebi em meu gabinete, das várias idéias que tenho coletado de especialistas nessa área. Ela tem o objetivo de facilitar a discussão desse problema, afeto à nossa subcomissão, para que possamos tentar chegar àquilo que for de melhor para o nosso País. Vale sublinhar que só me atrevi a fazer essa proposta depois de alguns painéis que tivemos nesse particular. Após esse painel sobre regiões metropolitanas, também me atreverei a oferecer uma contribuição que seja o meio termo de tudo aquilo que foi exposto nesta importante reunião realizada nesta subcomissão. Passo às mãos de V. Ex.ª, Sr. Presidente, e pediria que fizesse distribuir aos demais membros da nossa subcomissão, para reflexão, discussão e debate. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência recebe a proposta do nobre constituinte José Dutra e determina à Assessoria que distribua cópia a todos os membros efetivos e suplentes desta subcomissão. Cumprido o objetivo da reunião, a Presidência encerra a mesma. 115 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) 11.ª Reunião Ordinária Aos seis dias do mês de maio de mil novecentos e oitenta e sete, às dez horas e cinco minutos, reuniuse a Subcomissão dos Municípios e Regiões, na Sala B-3, do Anexo II, da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, sob a Presidência do Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, presentes os Senhores Membros: Mello Reis, Nestor Duarte, Eraldo Trindade, José Viana, José Dutra, Aloysio Chaves, Vitor Buaiz, Lavoisier Maia, Mauro Miranda, Waldek Ornélas, Sérgio Brito, Geraldo Melo, Firmo de Castro, Luiz Freire, Edésio Frias, Alexandre Puzyna, Eliezer Moreira, Maurício Fruet e Ivo Cersósimo. Compareceram ainda os Senhores Constituintes: Asdrubal Bentes, Aluizio Campos e Manoel Ribeiro. Ata – foi lida e aprovada a Ata da reunião anterior. Abrindo os trabalhos, o Sr. Presidente informou que a Audiência Pública se destinava à realização de Painel sobre o tema: "Apoio e Articulação Regionais", com a participação dos Senhores Conferencistas: Henry Kayath, Superintendente da Sudam –Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia; Antônio Augusto Carneiro Leão, Representante da Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste; Antonio Augusto Reis Veloso, Secretário da Sarem – Secretaria de Articulação com Estados e Municípios e Delile Guerra de Macedo Superintendente da Suframa – Superintendência da Zona Franca de Manaus. Inicialmente, falou o Sr. Henry Kayath, abordando itens como: princípio da autonomia municipal, hipertrofia continuada do poder da União, quadros críticos da organização administrativa dos Estados e municípios, desníveis de riqueza entre as Unidades Federativas. Com a palavra, o Sr. Antônio Augusto Carneiro Leão disse do seu orgulho pessoal, bem como da instituição que representa, em vir aqui trazer proposta enfatizando a necessidade de serem corrigidas as distorções regionais, conseqüência da concentração econômica em determinadas áreas; frisou que planejar e orçar são atividades gêmeas e que devem ser regionalizados tanto os planejamentos quanto os orçamentos, inclusive o orçamento das estatais. Na seqüência dos trabalhos, o Sr. Antônio Augusto Reis Veloso disse, em sua explanação, que compete à Sarem administrar as transferências federais de recursos para os Estados e municípios. O quarto expositor, Sr. Delile Guerra de Macedo, fazendo uma explanação sobre a atuação da Suframa, disse ser a mesma o mais válido instrumento de desenvolvimento regional; terminou dizendo que o Brasil, sem a Amazônia, seria um País de segunda grandeza. Iniciando a segunda parte dos trabalhos, o Sr. Presidente informou que o prazo reservado aos debates era de uma hora e trinta minutos. Inquiriram os Conferencistas os Senhores Constituintes: José Dutra, Asdrubal Bentes, Aluízio Cam- pos e Waldeck Ornélas. Os Constituintes Ivo Cersósimo e Aluízio Campos entregaram propostas ao Sr. Presidente que determinou fossem distribuídas cópias aos Membros da Subcomissão a fim de seguirem a tramitação regimental. Encerrando os trabalhos, lembrou que haverá, às dezessete horas, a última audiência pública deste órgão, com a realização de Painel intitulado "Associativismo Microrregional de Municípios". Agradecendo a contribuição trazida pelos Senhores Expositores, encerrou a reunião às doze horas e trinta minutos, a qual foi gravada e será publicada no Diário da Assembléia Nacional Constituinte. E, para constar, eu, Iná Fernandes Costa, Secretária, lavrei a presente Ata que, lida e aprovada, será assinada pelo Sr. Presidente, Constituinte Luiz Alberto Rodrigues. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Havendo número regimental, declaro abertos os trabalhos da reunião da Subcomissão dos Municípios e Regiões. Convido os Srs. Constituintes a tomarem assento à Mesa juntamente com os Srs. convidados. A Sr.ª Secretária procederá à leitura da Ata da reunião anterior. (É lida e aprovada a Ata da reunião anterior). O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Esta reunião destina-se à audiência pública para a realização do painel "Apoio e Articulações Regionais". É a penúltima audiência pública desta Subcomissão que, ainda hoje, na parte da tarde, às 17 h, realizará o painel "Associativismo Microrregional de Municípios". Para darmos início ao painel desta reunião, convido, para tomarem assento à Mesa, o Dr. Henry Kayath, Superintendente da Sudam, o Dr. Antônio Carneiro Leão, Presidente da Comissão de Apoio à Constituinte da Sudene – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – e o Dr. Antônio Augusto Reis Veloso, Secretário da Sarem – Secretaria de Articulação com Estados e Municípios. Solicito ao Dr. Delile Guerra de Macedo que tome assento junto aos Constituintes. No momento da exposição S. S.ª tomará assento à Mesa. Antes de iniciar os trabalhos a Presidência lembra aos expositores que disporão de vinte minutos para apresentar as suas exposições e que, terminada esta fase, teremos, então, os debates com os Srs. Constituintes. A Presidência solicita aos Srs. expositores que falem bastante próximo ao microfone para que tenhamos uma gravação nítida, a fim de que possamos confeccionar a Ata circunstanciada desta reunião. A Presidência concede a palavra ao Dr. Henry Kayath, Superintendente da Sudam, para fazer a sua exposição. O SR. HENRY KAYATH: – Sr. Presidente da Subcomissão de Municípios e Regiões, Deputado Luiz Alberto DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Rodrigues, Srs. Constituintes, minhas Senhoras, meus Senhores, o enfoque deste tema, objetivando fornecer subsídios destinados a nutrir a elaboração de anteprojeto que enfatize o municipalismo na futura Constituição brasileira, demanda considerar alguns pontos a seguir abordados: 1 – Identificam-se algumas constatações na atual estrutura do federalismo brasileiro que correspondem a um grupo sugestivo de preocupações , tais como: – princípio da autonomia municipal restringido na sua dimensão política, administrativa e financeira; – hipertrofia continuada do poder da União; – quadros críticos em termos de organização administrativa dos Estados e Municípios; – acentuados desníveis de riqueza entre certas unidades federadas. 2 – No âmago desse processo, mais desvantajoso se constata a situação dos municípios, dentre outros, pelos seguintes motivos básicos: – a abertura política, caracterizada, entre outras peculiaridades, pelo incremento da demanda por maior participação popular, traduzida em processos como movimentos sociais organizados em torno de reivindicações por serviços públicos e ação de associações de bairro, só tem feito aumentar a pressão sobre os gestores locais; – os problemas sociais que aparecem como locais não podem ser corrigidos ou adequadamente atendidos pelas autoridades locais; – a pobreza financeira dos governos locais; – a penúria dos municípios não os livra, contudo, de terem de assumir encargos de outras esferas de governo; – a desmunicipalização crescente dos serviços locais é uma situação transparente, inescondível. 3 – Na verdade, uma estratégia em favor do aperfeiçoamento do municipalismo no Brasil não pode deixar de levar em conta que o fortalecimento dos municípios brasileiros passa, necessariamente, por uma reforma administrativa que lhes assegure uma participação mais significativa na receita pública, mas passa também por uma profunda revisão de seu papel como prestadores de serviços adequados à comunidade. Sem dúvida, a revisão da partilha das receitas públicas é essencial para o revigoramento das instituições locais. Todavia, é igualmente fundamental uma fecunda revisão do papel dos municípios na organização governamental, seguida de uma definição clara dos limites das responsabilidades funcionais que lhes devam caber. Quanto ao preparo dos municípios para o desempenho de seus encargos, destacam -se os seguintes aspectos a considerar e examinar: – estimular e apoiar os municípios a empreenderem, sempre que possível, a modernização gradual dos serviços locais. Na Amazônia, cabe papel de medular importância, na estrutura do governo federal, à Sudam, no trato desse assunto em ação articulativa com os órgãos de assistência a municípios existentes na região em pauta. Além do apoio para o desenvolvimento de programas de modernização, que se caracterizam por intervenções mais ou menos abrangentes, é necessária que os municípios possam dispor de assistência técnica para o trato de problemas específicos de natureza jurídica, contábil, urbanística ou de operação dos serviços, que decorrem da própria dinâmica das administrações locais. 116 Nesse sentido, é essencial o fortalecimento, na Amazônia, da Sudam e dos órgãos esta duais e territoriais federais de articulação com municípios, que vêm constituindo fontes básicas de recursos técnicos a que os municípios, sobretudo os de menor porte, recorrem em busca de orientação para solucionar problemas. Assinale-se, outrossim, que a assistência técnica às prefeituras e o treinamento de servidores municipais são interfaces de um mesmo processo: o de preparo das administrações locais para a melhoria do desempenho de suas responsabilidades, pois, a rigor, não se pode falar em modernização de serviços sem capacitação de pessoal. As observações e sugestões sintéticas anteriormente esposadas implicam mudanças constitucionais, revisão de normas legais, assim como a substituição e reformulação de instrumentos e práticas organizacionais. Implicam sobretudo a concepção de um novo papel para o município na organização governamental, que deve ser o parâmetro orientador de todas as mudanças. Uma efetiva reforma municipal demandará esforço persistente e auto -sustentável. A exemplo de toda mudança significativa, haverá, por certo, muitos obstáculos a vencer, ainda que o fortalecimento do município constitua neste momento aspiração de todos os segmentos da classe política. A experiência sugere que, na área de políticas públicas, a comunidade de objetivos não leva necessariamente à concordância quanto aos meios. Estes, em geral, são objeto de discussões e disputas mais calorosas do que aqueles. E, em tal processo, cabe à Sudam papel de apoio de indiscutível importância nos seguintes campos: – estruturação, dinamização e avaliação do Programa de Administração Municipal da Amazônia, visando a fortalecer os governos municipais no âmbito da promoção e aprimoramento do processo de desenvolvimento regional; – desenvolver elementos para a realização de estudos e pesquisas voltadas para a administração municipal na Amazônia, estruturando um sistema de informações com os municípios, sobre todo e qualquer assunto de natureza administrativa, financeira, contábil, jurídica, de operação de serviços urbanos e outros; – atuar em conjunto e de forma integrada com os órgãos de articulação e assistência técnica a municípios em âmbito das unidades federadas visando a desenvolver atividades de capacitação de recursos humanos em administração municipal; promover atividades voltadas à organização e aperfeiçoamento dos serviços municipais; desenvolver programas e projetos relacionados ao desenvolvimento microrregional e afetos à região metropolitana de Belém; desenvolver programas e projetos em apoio ao desenvolvimento e aprimoram ento da cooperação intermunicipal (Associações de Municípios, Consórcios Intermunicipais, etc.); – manter intercâmbio com outras entidades que se dediquem também a programas e projetos de assistência técnica a municípios (IBAM, por exemplo). Consoante o exposto, como vemos, pelo seu trabalho nesse terreno na Amazônia, a Sudam desenvolve um histórico esforço, coincidente com a sua vida institucional, voltado para o fortalecimento institucional, técnico e financeiro dos governos Iocais no âmbito de sua esfera jurisdicional de atuação, colocando-se, outrossim, à disposição dos labores constituintes para toda e qualquer colaboração que vise a fazer do municipalismo no Brasil uma idéia-força e, portanto, um instrumento eficaz capaz de assegurar aos municípios o cumprimento de um papel condizente com seu significado na estrutura da Federação 117 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) brasileira, participando eficazmente na construção e aperfeiçoamento do processo de desenvolvimento nacional, eliminando-o da condição de ente que permaneça inerte e incapaz ante a magnitude dos problemas com os quais diuturnamente tem de se defrontar e, por encargos, resolver. Esta é a posição da Sudam em relação aos municípios, em relação ao papel que ela desempenha no trabalho de coordenar e articular todas as ações para a implantação de uma infra-estrutura econômico-social na Amazônia. A Sudam tem, na realidade, dois tipos de instrumentos com os quais conta no sentido de participar ativamente das ações na Amazônia. O primeiro deles diz respeito aos programas resultantes de dotações orçamentárias normais e daquelas que são extra-orçamentárias e fazem parte de um programa especial, do tipo Polamazônia. E o segundo instrumento, também financeiro, diz respeito a recursos para a iniciativa privada. Através de programas de incentivos fiscais, a Sudam participa e colabora financeiramente no sentido de implantar empresas com estrutura capaz de torná-las focos de desenvolvimento em determinadas regiões primeiramente selecionadas. O grande papel da Sudam na elaboração desses programas especiais, tipo Polamazônia, é no sentido de selecionar área nas quais tem atuação decisiva, e, juntamente com a estrutura do governo de Estado e do governo municipal, induzir à instalação de uma infra-estrutura econômica nesses municípios. Neste tempo a Sudam tem mantido convênios e uma série de ajustamentos com as prefeituras locais no sentido de delas receber informações das suas necessidades, para coordená-las e apresentá -las através de um documento. Elaboramos, neste período, o Primeiro Plano de Desenvolvimento da Amazônia da Nova República, baseandonos em um planejamento participativo. Todas as prefeituras e comunidades foram ouvidas e, das sugestões apresentadas, surgiu, então, o Plano de Desenvolvimento da Amazônia. Resta-nos, agora, cons eguir os recursos para que os itens do Plano de Desenvolvimento da Amazônia, que beneficia os municípios graças a esse planejamento participativo, implementarmos e começarmos a executar os projetos específicos. É o que esperamos que aconteça e que se faça a partir deste ano de 1987, especialmente no segundo semestre. Era o que tinha a dizer, com os meus agradecimentos, Srs. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Dr. Antônio Carneiro Leão, Presidente da Comissão de Apoio à Constituinte, da Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – que disporá também de vinte minutos para sua exposição. O SR. ANTÔNIO CARNEIRO LEÃO: – Sr. Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, Presidente desta subcomissão, Sr. Constituinte Aloyzio Chaves, Relator, Dr. Henri Kayath, Superintendente da Sudam, Dr. Antonio Augusto dos Reis Veloso, Secretário da Sarem, Srs. Constituintes, minhas Senhoras, meus Senhores, de início quero dizer de meu orgulho pessoal e da minha satisfação em vir aqui depor, apresentar sugestões perante esta Assembléia de grande significado para todo o povo brasileiro. O tema proposto pela Comissão da Organização do Estado foi "Apoio e Articulações Regionais". Por que o problema regional? O problema regional, tão falado ultimamente – chega-se até a falar em transformar a região numa criatura constitucional, e existem sugestões no sentido de que se criem instâncias intermediárias entre a União e o Estado – decorrer de que fato? Acreditamos nós que o desenvolvimento recente do Brasil, principalmente no modelo de substituição de exportação e no recente modelo exportador, provocou a grande concentração da atividade econômica e provocou, em contraste, uma ocupação predatória no Norte e no Centro-Oeste, uma grande concentração de miséria no Nordeste e grandes bolsões de pobreza no Centro-Sul. Esse modelo, que se esgotou, transformou o Brasil na sexta maior potência em população e o oitavo maior produtor industrial mundial, mas trouxe consigo uma grande dívida social. Deve, então, ser considerada dimensão do regional a dimensão da correção das desigualdades regionais, dentro do texto da Constituição. Como permear o regional no texto todo da Constituição? Permeá-lo de tal modo que V. Ex. as construam textos em que sejam admitidos princípios que evitem, daqui a cem ou duzentos anos, que se repitam as desigualdades, e que permitam, também nesse ínterim, corrigir as desigualdades. Acreditamos nós, da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, que a questão nacional é impedir que existam desigualdades regionais. Como colocar isto? Colocando essa dimensão de correção das desigualdades permeando todo o texto da Constituição. Da subcomissão específica de V. Ex. as seria a competência da União não só para promover o desenvolvimento, mas promovê-lo com desconcentração econômica. Trouxemos algumas sugestões específicas que serão distribuídas aos Srs. Constituintes. A secretária já deve estar providenciando. Mas queríamos discorrer sobre alguns princípios gerais em relação aos quais achamos importante que haja uma afirmação de medidas, ou de princípios se a Constituição for de tendência sintética, para que a legislação complementar permita instituir mecanismos, organizações que coloquem em prática esses princípios. Em que campos seriam os mesmos mais importantes? Seriam os mesmos mais importantes, ao nosso ver, na afirmação do planejamento acoplado com o orçamento, na dimensão regional acoplada ao planejamento. Planejar e orçar são, para nós, atividades gêmeas. Se o planejamento não for acoplado com o orçamento, a própria função de planejar torna-se própria daqueles que preparar os orçamentos. Então, não adianta se colocar que o planejamento deverá ser regionalizado se o orçamento não for também regionalizado, para tornar claras e transparentes todas as aplicações do Estado – o orçamento em todos os seus campos. A União, como sua obrigação, através do princípio de compensação tributária, redistribui receita entre Estados e Municípios. Esse, acho, deve ser o princípio básico da tributação, o princípio básico da transferência, da compensação dos desiguais. Ela dá aos Estados e Municípios essa compensação, mas os tira para as regiões desiguais quando faz a aplicação do próprio orçamento da União. Por exemplo, no orçamento da União, hoje, são aplicadas, apenas as despesas da União. Foi feito um estudo recente pela Sudene em convênio com a Fundação Getúlio Vargas e conseguiu-se regionalizar os orçamentos de 1970, 1975 e 1980. No orçamento de 1980, por exemplo, as despesas da União, na região Nordeste, foram de apenas 11%. Ora, se na redistribuição de recursos tributários, pelos critérios adotados no Fundo de Participação dos Estados e Municípios, aquelas regiões mais pobres, como o Nordeste e o Norte, recebem uma parcela maior des te Fundo isto que é dado com uma mão é tirado com a outra, através das aplicações diretas do orçamento da União. E por que não regionalizar também o orçamento das estatais? As estatais hoje são instrumento vital para soerguer qualquer atividade regional. Quanto as estatais, de- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) vem ser incluídas na Constituição alguns dispositivos para que elas sirvam também de instrumento de desconcentração espacial da atividade econômica, para permitir uma melhor integração nacional. Na região Nordeste vê -se a importância dos investimentos das estatais, principalmente na Bahia e, mais recentemente, no Maranhão. Mas, apesar disto, nos últimos dez anos, apenas uma média de 10% dos investimentos das estatais se concentraram no Nordeste. Sobre essas participações, das estatais, que devem ser crescentes, as participações regionais no orçamento, na tributação, talvez não para as outras regiões, mas para a região Nordeste, é de suma importância a questão da função social da propriedade. Sobre a reestruturação agrária, talvez no Norte e no Centro-Oeste o problema seja mais de colonização e ocupação de terras. No Nordeste, que tem um grande contingente populacional e terras férteis diminutas, a reestruturação agrária é essencial para fixar o homem no campo, e tornar possível o aumento da produção agrícola. Esses pontos nos parecem estar dentro da ótica da Sudene, pontos sobre os quais a atuação dos Srs. Constituintes deve ser concentrada, no sentido de poder desconcentrar a atividade econômica, os serviços sociais, as grandes políticas. Todas as regiões subdesenvolvidas têm grande interesse na afirmação da responsabilidade do Estado no custeio dos serviços sociais: educação, saúde, porque, na medida em que se assegurar a responsabilidade do Estado nesses campos, se estará atendendo àquelas regiões que concentram a miséria. Relativamente aos dados específicos (ao aprofundamento das questões, estaremos à disposição dos Srs. Constituintes por ocasião dos debates. O texto traz maiores esclarecimentos e sugestões concretas. Agradeço a oportunidade que me proporcionaram e espero que a tarefa de V. Ex.as sirva para construir um Brasil melhor para os nossos filhos e netos. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Dr. Antônio Augusto Reis Veloso, Secretário da Sarem – Secretaria de Articulação com Estados e Municípios – que disporá de 20 minutos para fazer sua exposição. O SR. ANTÔNIO AUGUSTO REIS VELOSO: – Sr. Presidente desta Subcomissão, nobre Constituinte Luiz Alberto Rodrigues, Sr. Relator, Constituinte Aloysio Chaves, Srs. Constituintes, companheiros que estão participando da Mesa, Dr. Henri Kayath, Dr. Antônio Augusto Carneiro Leão, Dr. Delile Guerra de Macedo, meus Senhores e minhas Senhoras. A minha idéia é procurar dar rapidamente uma contribuição, em termos do que representa a experiência até agora exercida no campo da Sarem, o que se fez através dessa atuação como contribuição para os aperfeiçoamentos que podem ser incorporados a essa experiência. E também procurarei retirar, no final, algumas recomendações e sugestões que possam enriquecer o trabalho dos Srs. Constituintes. A Secretaria de Articulação com Estados e Municípios foi criada em 1972, e era um órgão integrante, na época, do Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, hoje integra a Secretaria de Planejamento e Coordenação da Presidência da República. As modificações posteriores não interferiram nessa vinculação. A Sarem tem alguns instrumentos. É importante que conheçamos esses instrumentos para saber em que medidas eles devem ser aperfeiçoados ou não. As atribuições básicas da Sarem são, hoje, administrar as transferências federais. Um dos itens importantes dessas atribuições é a administração das transferências federais, que são exercidas pelo Go - 118 verno Federal, em direção ao Estado e município. Basicamente, dessas transferências federais, as mais importantes são os dois fundos conhecidos: o Fundo de Participação dos Estados e o Fundo de Participação dos Municípios. Além disso, a Sarem faz um acompanhamento de toda a alocação de recursos do Fundo Especial, um outro item de transferência em favor dos Estados e municípios. E também daquela parcela de encargos gerais da União que o Governo Federal, através do orçamento da União, reserva também para uma alocação em favor dos Estados e municípios. Além disso, a Sarem, desenvolve um trabalho específico de acompanhamento do orçamento e das transferências orçamentárias em favor do Distrito Federal, que é uma unidade orçamentária própria. O Distrito Federal, na configuração atual, é uma unidade pertencente ao orçamento da União. Além disso, a Sarem, desenvolve e procura fortalecer, revitalizar o seu programa de cooperação técnica e realmente dar-lhe uma dimensão adequada, atualmente. É um programa da maior importância que resulta, hoje, num instrumento da maior relevância na direção do aperfeiçoamento institucional das unidades ligadas à Secretaria de Articulação com Estados e municípios. Recentemente, houve uma modificação nas suas atribuições decorrentes do Decreto nº 94.159, de 31 de março, que retirou duas funções da Sarem, e as transferiu para o Ministério da Fazenda. São as funções ligadas às manifestações de prioridade: prioridade para empréstimos externos, prioridade para a dívida externa, prioridade para toda a dívida mobiliária dos Governos Estaduais e Municipal. É importante termos uma idéia de qual é a dimensão financeira que está por trás desses instrumentos que apóiam, de certa forma, essa ação de articulação entre o Governo Federal, os Estados e principalmente no âmbito que nos interessa nesta Subcomissão, em apoio aos municípios. Em 1986, as transferências institucionais do Governo Federal em direção a todos os Estados e municípios totalizaram cerca de 80 bilhões de cruzados. A distribuição desses recursos se fez em favor principalmente das regiões Norte e Nordeste. Do total, de 80 bilhões de cruzados, cerca de 52 bilhões foram reservados para o Norte e Nordeste. Foram efetivamente distribuídos na direção das Regiões Norte e Nordeste. A Região Sudeste levou 28%, a Região Sul 12% e a Região Centro-Oeste 7%. Ainda no contexto das atribuições da Sarem, aquelas funções que ela exercia até pouco tempo permitiram uma alocação de recursos adicionais em favor dos Estados e municípios no valor de 70 bilhões de cruzados. Além daqueles 80 bilhões de transferências institucionais, foram propiciados com recursos a fundo perdido, como distribuição adicional, que é feita ao longo do exercício aproveitando a reserva do Fundo Especial, a Sarem, alocou, através da Seplan, 1,3 bilhões de cruzados. E propiciou mais 70 bilhões de cruzados através daqueles mecanismos de prioridades concedidas para empréstimos externos, no valor de 40 bilhões; 21 bilhões, através da dívida mobiliária, permitindo o giro da dívida e a emissão de novos títulos através dos Estados para financiar os seus investimentos. E mais cerca de 9 bilhões para as operações de crédito interno, tanto de Estados como de municípios. Através do programa de cooperação técnica foram alocados, em 1986, mais 21 milhões de cruzados, contemplando principalmente as áreas de treinamento de recursos humanos, apoio técnico aos municípios e as associações intermunicipais. Quanto à área de informações para o planejamento, há uma preocupação no sentido de fortalecer os mecanismos de informações sistematizadas para facilitar a ação de planejamento das diferentes esferas do governo, há a modernização administrativa e o 119 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) aperfeiçoamento dos mecanismos de arrecadação que, em última instância, fortalecem a ação tributária das unidades da Federação. A relação da SAREM com Fundo de Participação dos Municípios é muito relevante. É o principal instrumento do Governo federal, para a mobilização de recursos em direção dos municípios. Conhecemos a realidade brasileira e é bom que tenhamos sempre presentes alguns dados, para não esquecermos que as soluções têm de estar compatíveis com esta realidade. O primeiro fato concreto é que os municípios têm como principal suporte de impostos próprios o IPTU e o ISS. Sabemos que esses dois impostos são mais relevantes no contexto daqueles municípios que são mais representativos. Por exemplo, o IPTU. Os municípios mais urbanizados, que têm realmente uma categoria de imóveis mais representativos, permitem, através do IPTU, que se exerça uma ação própria de tributação adequada que fortaleça a estrutura de recursos próprios do município. O ISS é um imposto que serve mais diretamente aos municípios que têm na atividade terciária de serviços uma economia mais intensa. Neste sentido, vemos o seguinte: no período de 1980 a 1983, o ISS, por exemplo, representou, em média, cerca de 50% de toda a receita tributária de alguns municípios. Por exemplo, Goiânia, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Em relação a esses municípios e a outros dessa característica, o ISS é um imposto da maior importância. Para se ter uma idéia, no ano mais recente, o ISS e o IPTU formavam 99% da receita própria de Porto Alegre, o Rio de Janeiro tinha uma configuração de 75% de sua receita própria nesses dois impostos, São Paulo 85%, Salvador 87% e Goiânia 86%. Então, para esses municípios, esses dois impostos são fundamentais, mas a realidade do Brasil não é esta. Esta é, talvez, uma exceção na configuração nacional. O que temos, na realidade, é um conjunto maciço de municípios que configuram cerca de 72,5% de todos os municípios brasileiros. Tínhamos 4.149 municípios em 1986 e 4.179 municípios agora, pois foram criados mais 30. Então, 72,5% desses municípios têm uma população que não vai além de 25 mil habitantes. São municípios de estrutura relativamente débil, com vocação agrícola e que, por isso, não se podem suportar com sua própria receita. Menos de 11% dos municípios brasileiros estão na faixa de população superior a 50 mil habitantes. Se formos além, veremos que menos de 2% dos municípios brasileiros têm população superior a 156 mil habitantes, ou seja, menos de 2% estão naquela faixa dos municípios que recebem a maior cota do Fundo de Participação dos Municípios. De modo que essa é uma característica da realidade brasileira que te m de ser levada em conta, quando se imagina um esforço de apoio e de revitalização em direção aos municípios do País. Outro dado relevante é que por essa razão a capacidade tributária dos municípios, no conjunto, é baixa. Um levantamento que fizemos, por exemplo, mostra que a repartição da receita própria da União, dos estados e dos municípios configura que em 1957 a União contribuiu com 48%, os estados com 43% e os municípios com 8,5%. Essa situação dos municípios foi-se deteriorando e nos últimos anos o que se verifica é que a sua capacidade de tributação caiu para um nível que não fica muito além de 5%, e somente no último ano alcançou um degrau acima de 6%. Algumas observações ainda relacionadas com essa configuração dos municípios brasileiros e de sua participação nas receitas que são, de certa forma, produzidas no País. Por exemplo, temos um dado altamente relevante: em 1981 o total do ICM transferido pelos estados aos municípios, ou seja, aquela participação de 20% dos municípios na arrecadação do ICM, superou o FPM em 136%; em 1986, o ICM superava o Fundo de Participação apenas em 12%. Vejam, bem, houve realmente uma queda vertiginosa de participação do ICM no conjunto da receita do município. Isso é fruto, naturalmente, em grande parte, também, do crescimento da distribuição de recursos federais para os municípios. O Fundo de Participação, de 1975 até o ano passado, cresceu em 12%; pulou de 5% para 17%. Isso explica em grande parte essa participação maior do Fundo de Participação dos Municípios na configuração da receita tributária dos municípios. Isso significa que os municípios receberam, no período de 12 anos, em média 1% ao ano de crescimento de sua participação nos recursos da União. A região Sudeste, em particular, realmente depende muito m ais do ICM, pois o tem com uma força maior. Mas mesmo assim essa participação do ICM caiu nesse período. De 1981 para 1986, o ICM, que correspondia a 366% em relação ao FPM, atualmente está em torno de 108%. A Região Nordeste é altamente dependente das transferências federais pelas razões conhecidas. Por exemplo, o Fundo de Participação dos Municípios tem sido invariável e permanentemente maior do que o ICM na Região Nordeste. Essa participação do Fundo de Participação no período de 1981 a 1986 cresceu ainda mais. O Fundo de Participação, que era 27% maior do que o ICM, hoje está acima de 150%, acima do ICM. É importante que se veja qual a dimensão desses recursos. Em 1986 houve um dado que ficou em nossa memória e é bom tê-lo como parâmetro. Nesse ano, foram efetivamente transferidos, por conta do Fundo de Participação dos Municípios, recursos da ordem de 35 bilhões. O governo federal transferiu 35 bilhões. Os dois fundos, em 1986, alcançaram cerca de 70 bilhões. Então, 35 foram para os municípios. Em relação a 1985, o ano de 1986 foi especialmente favorável no sentido de carrear recursos para os municípios em função da economia crescente, foi um ano de bom crescimento. O País cresceu acima de 8%. Houve toda uma repercussão do lançamento do Plano Cruzado com o crescimento das atividades produtivas e o IPI e o Imposto de Renda beneficiaram -se disso e se beneficiaram, em conseqüência, os municípios, recebendo 17% do total do IPI e do Imposto de Renda. Em 1986, por exemplo, esse crescimento de 35 bilhões correspondeu a um acréscimo real de recursos em favor dos municípios de 37,1% em termos reais. O ICM, por exemplo, teve adicionalmente um crescimento acima de 30% também na quota distribuída para os municípios. No conjunto, ICM e o FPM, os municípios receberam adicionalmente, em comparação com 1985, 20 bilhões em valores constantes, o que representa realmente, se fôssemos teorizar, uma reforma tributária da ordem de 10%, partindo de que 1% de 1986 correspondia a 2 bilhões de cruzados. É importante notar que tem havido um esforço que deve ser reconhecido, embora haja consciência em todos os níveis de governo, em todos os níveis da sociedade brasileira, de que há necessidade de se desenvolver um esforço adicional. Reconhecemos esse esforço da transferência de recursos, reconhecemos o esforço de descentralização desses recursos, de dar autonomia de uso dos recursos aos estados. Hoje, esses recursos estão sendo distribuídos automaticamente no sentido de evitar toda aquela burocratização na definição de prioridades a nível do governo federal, erroneamente, deixando que o Município defina as suas próprias prioridades. Há todo esse esforço, embora reconheçamos que mesmo isso é altamente insa- DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) tisfatório e não resolveu o problema a longo prazo, porque realmente não é um problema para ser resolvido a curto prazo. Toda a legislação recente foi nesse sentido de desburocratizar, de automatizar a distribuição de recursos de abolir toda aquela apresentação de planos, todas aquelas vinculações institucionais. E foi também no sentido de, por exemplo, gerar recursos adicionais na direção de alguns municípios -tipos. Chamo de municípios -tipos os municípios que estão naquela linha dos 4% do coeficiente do FPM e que têm uma população acima de 156 mil habitantes, mas que não são capitais e têm problemas de capitais. Esses municípios foram beneficiados com a legislação recente, que criou uma reserva do Fundo de Participação. No Norte e no Nordeste, ou no conjunto desses 78 municípios que se beneficiaram com essa transformação legal, há casos em que essa cota extra, essa reserva do Fundo de Participação dos Municípios é superior à quota normal do Fundo de Participação. Como conclusão desse dado e apenas para ater-me ao tempo estipulado, resumo dizendo que se tomarmos um quadro que reúna o resultado final dos últimos 20 anos, o que ocorreu na repartição de recursos do governo federal, recursos do País, entre a União, os Es tados e os Municípios, podemos chegar a algumas conclusões importantes para os trabalhos dos Srs. Constituintes. Por exemplo, se tomarmos o conceito de recursos efetivamente disponíveis, ou seja, na parte da União, todos os seus recursos tributários menos aquilo que ela transfere; da parte dos Estados de todos os seus recursos tributários, mais as transferências que recebem da União, menos as transferências de ICM e outras que eles devem fazer para os municípios; e, do lado dos municípios, a receita tributária dos mesmos, mais as transferências que recebem da União, mais as transferências que recebem dos Estados. Se tomarmos esse conjunto de dados, verificaremos o seguinte comportamento. – São números, de modo que servem para ajudar o nosso raciocínio: em 1957, ou seja, há cerca de vinte anos, a União retirava desse bolo 43%, os Estados 46% e os Municípios 11%. A evolução, nesse período de vinte anos, mostra que os municípios, num dado momento, chegaram a um pico de 17%, o que ocorreu por volta de 1967. Naturalmente, esse crescimento dos municípios se deu em prejuízo daquela fatia que a União tinha, que era de 42,9%, e perdeu participação para 37%. Os dados recentes mostram que, realmente, nos últimos doze anos houve progresso, houve deliberada ação no sentido d.e canalizar recursos adicionais para o Município. Isso refletiu no quadro da seguinte forma: a participação da União, hoje, está em 38%; a dos Estados, em 40%, e a dos municípios cresceu para cerca de 21%. Nos últimos anos, de 1980 para cá, essa evolução foi constante, foi permanente: 15% em 1980, 15,9% em 1981 e assim sucessivamente, 16%, 16%, 18% e 21%. Este é um dado que podemos dizer relevante. O programa de cooperação técnica da Sarem... O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Se V. S.ª precisar de mais dois minutos para encerrar, pode dispor desse tempo. O SR. ANTONIO AUGUSTO REIS VELOSO: – Pois não. Temos um programa de cooperação técnica que realmente, tem prioridade, este ano. Ele beneficia os institutos de articulação com os municípios e canaliza este ano, recursos três vezes maiores que os do ano passado, num esforço crescente de apoiar os Estados e Municípios através desses mecanismos. 120 Acredito temos aí, um conjunto de sugestões que estão incorporadas a esse documento que vai ser distribuído, ao qual todos terão acesso. Procuramos reunir aí um conjunto de medidas que podem melhorar todos esses instrumentos existentes. E mais, temos aí o contexto de uma contribuição do governo federal, através de uma comissão interministerial de reforma tributária, que trabalhou durante dois ou três anos no sentido de reunir informações, como contribuição à Constituinte. Mas relevante é concluirmos que não é fácil resolver, a curto prazo, o problema, pela complexidade, pela importância e pela relevância que significa revitalizar, fortalecer e criar a autonomia financeira dos municípios. É importante que esse trabalho seja contínuo, seja perseguido todo o tempo, seja fortalecido. Vamos ter em conta que 72,5% dos municípios não chegam a 25 mil habitantes e têm u ma forte dependência da União. O segundo ponto é que, a longo prazo, devem ser perseguidos, pela Constituinte e pelo País, aqueles parâmetros básicos que permitam definir claramente a estrutura de encargos de cada esfera de governo e a estrutura adequada de repartição de recursos do País na direção das três esferas de governo. Isto é fundamental. Em cima dessa grande definição é importante preservar um dado essencial: que o País não abra mão do seu crescimento, do seu desenvolvimento. É realmente através do crescimento que se estabelecem os grandes mecanismos de libertação das três esferas de governo. O ano passado foi exemplo disso, e será exemplo permanente: crescendo o País a taxas adequadas, com inflação sob controle, permite -se que os municípios altamente dependente de uma função de emprego, de uma função de despesa de pessoal, abram mão disso em favor de investimentos, porque receberão recursos adicionais através desse crescimento. Acho que essa é a grande contribuição que devemos ter em conta: definir claramente os encargos, definir claramente a repartição de recursos não perder de vista que o dado essencial é o País e não abrir mão de crescer permanentemente e com equilíbrio. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita aos Srs. Constituintes que não deixem de assinar o livro de presença, mesmo os que não são membros efetivos desta Subcomissão. Informo ainda aos Srs. Constituintes que quiserem fazer indagações aos painelistas que devem assinar a lista própria. Tem a palavra o Dr. Delile Guerra de Macedo, Superintendente da Suframa – Superintendência da Zona Franca de Manaus – para sua exposição. O SR. DELILE GUERRA DE MACEDO: – Sr. Presidente Luiz Alberto Rodrigues, do PMDB – MG; Sr. VicePresidente Paulo Miranda, do PMDB – GO; meu caro amigo 2º-Vice-Presidente, José Dutra, do PMDB – AM; meu caro e querido amigo Aloysio Chaves, do PFL – PA, Relator desta Subcomissão; meus caros amigos Deputados Jesualdo Cavalcanti, do Piauí, Firmo Fernandes, do Ceará, e Waldeck Ornélas, da Bahia; meu caro Senador pelo Rio Grande do Norte e nosso particular amigo, Lavoisier Maia; Srs. Constituintes, minhas Senhoras e meus Senhores. Recebi a convocação desta Subcomissão na segundafeira e tive a preocupação de elaborar pessoalmente um texto por escrito, para que fosse fidedigno nas minhas colocações. Mas não poderia deixar, aqui, neste exato momento, de, ouvindo a palavra de Henry Kayath, meu caro e dileto amigo, Superintendente da Sudam; de Antônio Augusto dos Reis Veloso, meu dileto amigo Secretário da Sarem; e de Antônio Carneiro Leão, representantes da Sudene, fazer algumas colocações de natureza geral. 121 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Começaria dizendo que o problema fundamental do País reside, particularmente, na distribuição especial do desenvolvimento, que a questão regional a fundamental porque permeia tudo o que se esta discutindo nesta Assembléia Nacional Constituinte. Eu me furtarei ao desejo de falar aqui sobre a Suframa. Apenas darei uma informação, ao final, para lhes dizer que, como instrumento de desenvolvi mento a Suframa e o mais válido projeto de desenvolvimento econômico feito pelo governo nos últimos vinte anos. Seus resultados são palmares, visíveis e necessários, principalmente para a mudança de mentalidade e para industrialização de ponta no País. Também reafirmarei aqui que, sem a descentralização do poder, sem uma melhor repartição de encargos e de renda pública para os Estados e Municípios, talvez não se tenha uma democracia consolidada e uma Constituição perdure no tempo. Srs. Constituintes, o desenvolvimento regional brasileiro, em virtude ,da dimensão continental do País, aliada as desigualdades de renda entre as regiões e as suas condições geoecológicas, vai requerer um grande esforço do Estado, nos próximos anos, na formulação e execução de programas que possam transformar as estruturas sociais de base predominantemente tradicional e integrar, economicamente, o espaço nacional. Se isso a verdade, parece-nos que a questão regional, pelo que representa em seus variados aspectos, deve ser considerada, ao nível Legislativo Constitucional, entre as que serão disciplinares pela Assembléia Nacional Constituinte. O Nordeste brasileiro, pelas crises climáticas, foi a primeira área do País a formar uma consciência regional. A Carta Magna de 1934 já previa percentual de 4% da receita tributaria para obras e serviços assistenciais naquela região. Mas hoje, Senhores, não a só o Nordeste, mas todas as regiões periféricas do centro decisório da política econômicofinanceiro – o Sudeste do País – que reclamam tratamento diferenciado, em face dos seus problemas, de suas potencialidades e das diferenciações socio-econômicas, geoecológicas e – por que não dizer? – políticas. Desejamos, rapidamente, citar como exemplo, em virtude dos diferentes e fundamentais problemas que enfrentam, as Regiões Nordeste e Norte do País. A primeira, caracteriza-se como uma região subdesenvolvida, sujeita ao cataclisma das secas periódicas, grandemente povoada, com bolsões de miséria e vida subumana, que atingem duramente não somente os nordestinos, mas a consciência nacional. A segunda – a Amazônia – em contraste com o Nordeste, e, fundamentalmente, região não-desenvolvida, isto e, escassamente ocupada, demográfica e economicamente, com grandes reservas de recursos naturais, cujo potencial de aproveitamento coloca-a em escala planetária. Ambas necessitam de tratamento diferenciado para que o objetivo de melhorar a distribuição regional do desenvolvimento brasileiro, no contexto nacional, tenha três dimensões: a econômica, a aceleração do crescimento das regiões menos desenvolvidas; a social, melhoria da distribuição pessoal de renda, redução de pobreza e eliminação da miséria; e a política, descentralização intergovernamental das ágües de promoção do desenvolvimento e participação da sociedade neste processo. O objetivo de diminuição das desigualdades regionais, em todo o mundo contempla um conjunto de questões relacionadas com o espaço como dimensão do desenvolvimento, assumindo grande relevância no caso brasileiro, dadas a extensão continental do País e a concentração espacial do seu desenvolvimento. Infelizmente, eu tinha apenas dados de 1983. Vejamos: as atividades econômicas, basicamente localizadas nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, determinam as desigualdades macrorregionais de renda no Brasil: em 1983, o PIB per capita de São Paulo era o dobro do PIB do País – US$ 4,100 – e o do Rio de Janeiro, 70% maior – US$ 3,100 – Tudo indica que essa situação permanece ou ate se agravou nos últimos anos. Além do mais, o processo de desenvolvimento industrial, especialmente concentrado, determinando, em boa medida, a polarização das atividades terciárias e a macrocefalia urbana, ,explica muito da persistência das desigualdades regionais de produto per capita. São Paulo e Rio de Janeiro detêm cerca de 70% do produto industrial do País, mais de 50% dos serviços de 40% da população urbana. Esses dados indicam a todos nos que se esta chegando ao ápice da concentração ,e que medidas devem ser tomadas por esta Assembléia a fim de que se distribua mais harmonicamente o crescimento do processo de industrialização, da agricultura e de serviços no Brasil. Recentemente, nesta Assembléia, o Deputado Constituinte Waldeck Ornélas, em discurso pronunciado em 7 de abril pp. abordando a questão regional, afirmou: "Se é certo que a descentralização requer o fortalecimento dos Estados e Municípios, e exige o estabelecimento de novas bases para o Sistema Tributário Nacional, a desconcentração, por sua vez, impõe a regionalização das ações da União, indispensável para quebrar a coluna vertebral do centralismo". Finalizava S. Exª: "Senhores, vamos encarar de frente e com coragem a questão regional, se quisermos fazer uma Constituição voltada para o futuro". E verdadeiro o conceito emitido pelo ilustre deputado pela Bahia, no nosso entender. Senhores, não se pensa resolver o problema regional sem fortalecer, simultaneamente, os Estados e Municípios. A descentralização de poder, numa federação, acompanhada de uma melhor distribuição das receitas públicas, fortalecerá a União e a democracia nascente. Não vejo como se deixar de considerar, no plano constitucional, o fortalecimento da federação, em todos os seus aspectos e a distribuição espacial do desenvolvimento. Só assim, estaremos construindo o País do futuro com democracia, liberdade e oportunidade para todos os brasileiros. Apresento a V. Exas, apoiando a idéia de todos os Secretários das Regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste do País, algumas sugestões no campo regional, ,estadual e municipal sob minha ótica e .através do nosso conhecimento nesses trinta e tantos anos de luta em regiões subdesenvolvidas. Acredito que tem de haver dispositivo que assegurem a participação dos Estados, Distrito Federal e Municípios nos impostos arrecadados pela União, não mais somente o Imposto de Renda, o IPI, no mínimo de 40%, sendo 18% para os Estados e 22% para os Municípios. E que essa distribuição se faça tomando como critério 5% a área territorial e 95% inversamente proporcional à arrecadação per capita das unidades federadas. Acredito que devemos destinar, no texto constitucional, 10% da receita arrecadada pela União a programas de desenvolvimento regional nas áreas do Norte e Nordeste do País, sendo 6% para. o Nordeste e 4% para o Norte. Não há como manter o que deu certo se não se disser a esta subcomissão que a necessário manter a cobrança do IPI nos termos da legislação atual, dada sua importância DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) para a consolidação de programas econômicos que deram certo e das áreas menos desenvolvidas. Manter, para a cobrança do IVA, a atual sistemática do ICM, nas operações interestaduais, com o objetivo de fortalecer as regiões menos desenvolvidas. Proibir a União e os Estados de concederem isenções e anistia fiscal relativamente a impostos de cuja arrecadação outras unidades participem, a não ser que concedam somente sobre a sua parte. Estabelecer que, tanto setorial como globalmente, os incentives fiscais devem ser dados somente para o Nordeste e Norte do País, para atividades econômicas importantes e que possam contribuir para a diminuição da divida social. Sr. Presidente, venho de uma grande região, de cinco milhões de km 2, que tem um vasto a importante campo e desenvolvimento de recursos naturais, especialmente minerais. Não poderia, aqui, agora, deixar de lembrar aos Constituintes duas questões fundamentais para o Brasil futuro: a da exploração dos recursos minerais da Amazônia e a da exploração dos recursos florestais e sua compatibilidade com o meio ambiente. Quanto à regulação dos problemas de exploração mineral, devemos ter em vista essa exploração através de muitos projetos, "os quais se incluem menos ,em uma política visando centralmente ao desenvolvimento regional e mais em uma política nacional relacionada com o setor externo da economia brasileira. A rigor, os grandes interesses atendidos, no caso, são, como se sabe, os ligados à balança comercial brasileira e ás regiões hegemônicas do País, utilizadores. de divisas ou disponibilidades cambiais de cuja formação participam e tendem a participar, cada vez mais, as ,exportações de produtos oriundos das riquezas minerais situadas nos espaços amazônicos. Nisso, alias, reside, sem duvida, uma forma colonialista de sucção de recursos" das regiões periféricas para as regiões ricas do País. A par desse aspecto, devemos considerar a situação das populações dedicadas a lavr a e ao transporte de minérios, que não se beneficiam, em maior escala, diretamente ou através dos governos locais, dos vultosos resultados econômicos dos empreendimentos em causa: Devemos ter em vista também que as desapropriações efetuadas e as construções realizadas têm, freqüentemente, sobre as organizações sócio-econômicas tradicionais das comunidades atingidas, um efeito desestruturaste que afeta negativamente sua estabilidade ,e condições de existência. As medidas visando a minimizar o problema e a criar um mecanismo compensatório através do qual as populações das áreas de minerações se possam favorecer dos grandes projetos nelas instalados, devem, naturalmente, considerar a hipótese da participação do horário das Unidades Federadas nos resultados econômicos dos empreendimentos de exploração mineral localizados nos seus respectivos espaços territoriais. Regulação do problema de equilíbrio ecológico e do uso predatório dos recursos naturais. Os aspectos básicos do problema do equilíbrio e do uso predatório dos recursos florestais da Amazônia devem ter em vista preliminarmente que a dimensão desses dois fenômenos interligada são geralmente subestimada por serem pouco perceptíveis para quem sobrevoa a imensa região ou se baseia na visualização das imagens do satélite lançado. Um levantamento que compreendesse não apenas os espaços desmatados, mas também as áreas onde a floresta vem sendo perturbada e empobrecida pelo extrativismo madeireiro, forneceria uma noção mais realista sobre as dimensões que o problem a vem assumindo. 122 Por outro lado, uma noção sobre a gravidade do fenômeno em perspectiva de médio e longo prazo, não e obviamente a transmitida pela proporção representada pelas áreas desmatadas em relação aos espaços cobertos da mata. Apoio mais importante para orientar uma política de preservação de recursos florestais, em defesa do equilíbrio ecológico, seria um estudo prospectivo que levasse em conta que o crescimento das áreas desflorestadas vem ocorrendo em escala exponencial, podendo assumir, dentro d e algumas décadas, proporções ineludivelmente desastrosas. Temos de conciliar, Srs. Constituintes, aproveitamento econômico desses imensos recursos com equilíbrio ecológico e a racionalidade de sua exploração. A regionalização dos orçamentos fiscal e monetário das estatais. No campo prático, não é possível diminuir as desigualdades regionais de desenvolvimento sem que se tenham recursos, e bem aplicados. Essa regulação no texto constitucional a importante pelo menos pelos seguintes motivos: o da fiscalização legislativa, já que se esta devolvendo ao Poder Legislativo suas reais atribuições num regime democrático: a programação do desenvolvimento regional, a possibilidade de que se estará assegurando em um determinado prazo, a diminuição das disparidades de crescimento entre as regiões da miséria e da pobreza e, por fim, a integração econômica social da Nação brasileira. Chamaria a atenção de todos os presentes para um dado fundamental: o sistema tributário, a alocação de recursos pelos diversos modos do orçamento, os incentivos, sempre tiveram, no Brasil, um amortecedor tremendo nas regiões desenvolvidas e, por isso, continuamos caudatários do desenvolvimento nacional. Vejam V. Ex. as, na medida em que concedemos incentivos fiscais às regiões Norte e Nordeste do País, concedemos às regiões desenvolvidas subsídios; crédito subsidiado, investimentos poderosos na área de pesquisa e desenvolvimento tecnológico e na área de formação de recursos humanos. Temos que, não diminuindo o crescimento dessas áreas, também permear o texto constitucional de instrumentos mecanismos capazes de nos fazer crescer mais, continuadamente. No Brasil – acredito – é um problema de mentalidade: na hora em que se tem qualquer problema, se lança mão de mecanismos de imposto. Preocupo-me muito que a Constituição não regulando um problema dessa natureza, tudo o mais regulado vá por água abaixo, com novos impostos criados sem que estejam regulados na Constituição. Assim, prevejo que para cada novo imposto criado ou fundo estabelecido no futuro haja um artigo: "Haverá destinação de pelo menos 30% de recursos para o Nordeste e 15% para a região amazônica". Instituição da região como área espacial de programação – não como nível de poder, mas como área espacial de programação – e prioritária para efeito de crédito diferenciado. Os incentivos fiscais representam apenas a pequena importância de 5% do credito movimentado nessas regiões, fundamental o crédito na hora certa com interesses que o agricultor, o industrial e as pequenas e médias empresas podem pagar. Acho que se deve incluir no texto constitucional um artigo que preveja isso. Desejamos, também, nobre Presidente, Sr. Relator, rapidamente, fornecer a V. Exas algumas informações sobre as potencialidades dos recursos naturais da região amazônica, com a finalidade de tornar claro a questão, porque é imprescindível sua regulação no texto constitucional. Temos, calculadamente, só na região em que atuo, 2 milhões e: duzentos mil quilômetros quadrados, com 123 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) vinte bilhões de metros cúbicos de madeira comercializável; 100 mil megawattes de potência energética, 20 mil quilômetros de rios navegáveis, 260 milhões de hectares de área florestal. Temos agora em Urucum, no Estado do Amazonas, a descoberta de grandes poços de petróleo, e para dar um exemplo, já temos campos, um dos maiores em terra firme, com vazão de 950 barris de petróleo e 22 mil metros cúbicos de gás associado. Estamos perfurando outros poços para dimensionar a grande bacia amazônica. Já detectado, em nível de exploração, 20 bilhões de metros cúbicos de gás, a maior reserva brasileira de gás natural, e ha indícios de petróleo em outras localidades. Temos mais, minério de ferro: 18 bilhões de toneladas em Carajás, a maior concentração mundial de alto teor, alumínio, 4 bilhões, uma das três maiores concentrações mundiais, minério de cobre, um bilhão de toneladas, a maior jazida do País; estanho, cassiterita em Pitigue, Rondônia, a maior reserva do País; manganês, 100 milhões de toneladas, segunda reserva do País; níquel, 120 milhões de toneladas, uma das maiores do País; nióbio, três bilhões de toneladas, a maior do mundo. E temos mais: zinco, chumbo, cobalto, ouro, molibdênio, tungstênio, tântalo, caulim, calcarão a diamantes. Srs. Constituintes, para terminar, desejo, em quatro minutos, fazer uma colocação fundamental sobre o instrumento de desenvolvimento que e a Zona Franca de Manaus. A nosso ver devemos assegurar a V. Exas que o Projeto Zona Franca de Manaus é válido, importante e necessário ao desenvolvimento da Amazônia Ocidental, e particularmente do Estado do Amazonas. Reafirmamos aqui e agora que o Brasil sem a região amazônica seria um País de segunda grandeza. E mais que isso, o desenvolvimento .do País, a partir do século XXI, será ditado do Norte para o Sul. Senhores, a Zona Franca de Manaus possui, hoje, um investimento total de 5 bilhões de dólares, investimento fixo de um bilhão e meio de Mares; 60 mil .empregos diretos somente na industria; 387 projetos em funcionamento, dos quais 287 em Manaus. Estamos com um índice médio de nacionalização de 75%, para terminal essa falácia de que a Zona Franca a apenas um ajuntamento de peças vindas do exterior. Importamos para a industria, no ano passado, 500 milhões de dólares, e vamos repetir neste ano 500 milhões de dólares. Compramos um bilhão e meio, no Brasil, e, deste total, 72% em São Paulo. Beneficiamos as regiões hegemônicas do País. Lutamos por uma tecnologia de ponta, estamos já no terceiro estagio, que é o desenvolvimento tecnológico de produtos. Vencemos o primeiro estágio, que era o problema da assistência técnica e da comercialização, do marketing do produto. Entramos no segundo estágio, da tecnologia, e o vencemos que o problema do lay out, quer o problema da qualidade dos produtos. Os produtos da Zona Franca, hoje, são as melhores do País. Se o parque da Zona Franca for fechado, o mesmo acontecerá a certos setores industriais do País. Por que e importante à manutenção do IPI? Porque – e ai esta o sucesso da Zona Franca – não temos empresas falidas, os empresários investem a só damos incentivos a produção, ao produto em si. Isto e fundamental. Por isso estamos vencendo. A Zona Franca deve ser considerada. Srs. Constituintes, para resguardar um projeto, o mais sério, o mais importante, em termos econômicos, que existe no País. Os dados estão a comprovar, e lanço aqui um convite a todos os Srs. Constituintes para nos visitar, em nome da Superintendência, a ver de perto o que afirmo aqui. Teremos oportunidade de debater, não em vinte minutos, ou uma hora, mas em um, dois dias, os problemas da Zona Franca de Manaus. Para resguardar o Projeto Zona Franca de Manaus, sua consolidação e importância comem instrumento do desenvolvimento sócio- econômico regional, sugerimos que, nas disposições gerais do texto constitucional, se inclua o seguinte artigo: "Ficam assegurados os incentivos atualmente em vigor e outros que possam ser criados na Zona Franca de Manaus, pelo prazo necessário a sua definitiva consolidação." Caros Constituintes, para terminar, acredito no regime capitalista, no lucro como formador de poupança e investimento, acredito na democracia, e só se poderá preservar a democracia pela descentralização do poder, pela viabilização do que a certo, pelos melhoramentos que possam ser feitos, pela geração de uma tecnologia de ponta e, mais do que isso, pela criação de elites no País, não só de políticos, mas particularmente de administradores e técnicos. Sem isso, nem Constituição nem eleições ,diretas resolverão os nossos cruciais problemas: disparidades regionais, dívida social tremenda, mais de 70 milhões de brasileiros que vivem à míngua, não comem sequer uma vez por dia neste colossal País, de grandes riquezas. V. Exas e todos nós, como brasileiros, temos o dever patriótico, político e social de lutar por aquelas idéias que são a aspiração do povo brasileiro e das regiões menos desenvolvidas. Muito obrigado, Sr. Presidente. Coloco-me à disposição de V. Exª para qualquer esclarecimento adicional. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Vamos passar à fase dos debates, prevista para uma hora e trinta minutos de duração. A Presidência solicita aos Srs. Constituintes que quiserem endereçar perguntas aos painelistas que façam sua inscrição na folha própria. Concedo a palavra ao primeiro inscrito, Constituinte Jose Dutra. SR. CONSTITUINTE ALUÍZIO CAMPOS: – Pela ordem, peço a palavra. SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra, pela ordem, o Constituinte Aluízio Campos. SR. CONSTITUINTE ALUÍZIO CAMPOS: – Sr. Presidente, não quero intervir, mas precisava homenagear esta Subcomissão com uma sugestão por mim redigida que, suponho, vai ao encontro das aspirações predominantes, pelo menos dos expositores que falaram. Trata-se de sugestão de institucionalização da região no texto constitucional. Se V. Exa permitir, farei a leitura do texto, sem ler a justificativa, e, depois, mandarei cópias para serem distribuídas pela Subcomissão. SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência informa ao Constituinte que está inscrita e, após a participação do Constituinte José Dutra, concederá a palavra a V. Exª para que apresente sua proposta, já recebida pela Subcomissão. Com a palavra o Constituinte Jose Dutra. SR. CONSTITUINTE JOSE DUTRA: – Sr. Presidente, prezados painelistas, Srs. Constituintes, meus Senhores, minhas Senhoras, tivemos, pela palavra do Prof. Henri Kayath, Superintendente da Sudam, do Dr. Carneiro Leão, que aqui representa a Sudene, do Dr. Antonio Augusto Reis Veloso, representando a Sarem, e do Dr. Delile Guerra de Macedo, meu prezado amigo e companheiro de muitos anos, Superintendente da Suframa, um quadro, apesar da veemência, aproximado da nossa realidade. Cabe aqui sublinhar a importância deste painel para a elaboração do capitulo que se destina à região brasileira, na nova Constituição. Os números focalizados pelo Dr. Delile Guerra de Macedo retratam a importância da região amazônica para o contexto nacional. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) Sou daqueles que está convencido de que, enquanto o governo federal não ocupar física e economicamente a Amazônia, nunca, nem os nossos bisnetos, haverão de pagar essa terrível dívida externa que nos atormenta. Só com nossos recursos naturais, com uma produção industrial mais ainda aprimorada, com a criação de novos mecanismos de desenvolvimento na região é que teremos condições de atingir o patamar da esperança que alimentamos em nossos corações. Infelizmente, tanto o Nordeste, quanto a Amazônia, no curso das suas respectivas histórias, têm sido, de um lado, abandonados, de outro lado, esquecidos, propositadamente, e de outro lado ainda, desrespeitados pelo governo brasileiro. Vejam que à vista de toda essa riqueza que está dormindo em nosso solo, reclamando sua exploração, continuamos, no Nordeste e na Amazônia, de pires na mão, como deixou muito claro o Dr. Antônio Carneiro Leão quando enfatizou as transferências dos Fundos para o Nordeste e para a Amazônia. A mim me parece que esse não deve ser o caminho, o Município vir a Brasília procurar recursos, ele deve ter garantido o seu recurso, como o Estado deve ter assegurada a receita necessária para poder programar seu próprio desenvolvimento. Quando assim falo, entristeço-me, como homem da Amazônia, como homem do Norte, como homem do Amazônas. Entristeço-me porque vejo que não conseguimos, apesar da nossa luta, da nossa perseverança e da nossa fé inabalável no futuro, não conseguirmos avançar na ocupação dos espaços políticos. É exatamente por isso que me estou empenhando nesta Assembléia Nacional Constituinte para que se possa diminuir as grandes diferenças, seja nos campos financeiros, econômico ou político, porque o grande mal da Amazônia, hoje, e até do Nordeste, é exatamente a grande diferença na representação política. Por sermos poucos, somos humilhados esquecidos, somos até esbulhados. Feitas estas considerações, gostaria de objetivar minha participação neste painel, antes, porém, ressaltando e confirmando, como homem do Estado, a importância da Zona Franca de Manaus, não apenas para o Amazonas, para a Amazônia Ocidental e ou para a Amazônia Legal, mas para este País, importância até de segurança nacional, porque, na medida em que não ocuparmos economicamente aquela área, estaremos abrindo espaço à cobiça internacional. O problema da Zona Franca de Manaus é de segurança nacional para o País. Gostaria, Sr. Presidente, de formalizar uma pergunta ao Dr. Henri Kayath, Superintendente da Sudam, em relação aos incentivos fiscais: recebi de um advogado do Pará, Dr. Eduardo Grande, um trabalho meticuloso a respeito dos problemas que envolvem a Amazônia, hoje, e grifei um texto que me chamou a atenção. Fazendo uma análise do crime que se está praticando, com a utilização dos incentivos fiscais, na área da Sudam, particularmente do Fidam, quando corretores. chegam até a aplicar uma taxa de 40%, para alocar esses incentivos, ele diz textualmente que o investidor, além de não pagar parte do Imposto de Renda devido, recebia, em dinheiro, parcela expressiva do valor deduzido daquele tributo. Nenhuma vantagem fiscal era superior a essa, mesmo considerando que, depois a Fazenda Federal, não mais aceitou como dedutível, para efeito de apuração do Imposto de Renda o deságio ocorrido nessas transações. Além disso, temos informações do Norte, a respeito do drama, por que passa a Sudam, no que concerne ao atingimento das suas reais finalidades. Gostaria que meu prezado amigo Henri Kayath focalizasse com alguns dados reais o quadro que se experimenta hoje na Cedam, que motivou, inclusive, o cancela- 124 mento de cerca de cem projetos de incentivos fiscais na região. Faço essa pergunta ao Dr. Henri Kayath, porque me interessa muito tentar pelo menos traçar novos rumos, a nível constitucional, para a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia. Quero fazer, também, uma pergunta ao Dr. Delile Guerra de Macedo, a respeito da Zona Franca de Manaus: todos sabemos que V. Sª enfatizou o tamanho da Amazônia, cerca de 5 milhões e 500 mil quilômetros quadrados, quase 2/3 do território nacional, que vêm sendo gerenciados a nível de desenvolvimento específico, pela Sudam. Gostaria de colher sua opinião a respeito da divisão da Amazônia por duas entidades gerenciadoras do desenvolvimento. Imagino, a grosso modo, que a Sudam ficaria dentro da Amazônia Oriental e nós partiríamos para a instituição da Sudam, que seria a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia Ocidental. Estas eram as duas questões que tinha a formular. SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Tem a palavra o Dr. Henri Kayath. O SR. HENRI KAYATH: – Ouvi, com atenção, a exposição ,do Constituinte José Dutra. Nas perguntas que me fez, colocaria três pontos que considero fundamentais na explicação. Preliminarmente, devo dizer que ouvi falar desse trabalho do Dr. Grande, muitos Constituintes o receberam, assim como a Associação Comercial e Federação das Indústrias, mas a Sudam, . que seria a principal interessada em saber a opinião de um intelectual da melhor qualidade, até hoje, não recebeu, para que pudéssemos meditar e refletir a respeito do que contém. Os pontos que quero assinalar relativamente aos incentivos fiscais se prendem, primeiro, à questão da corretagem, que vem ocorrendo há muitos anos – não nesta administração – e motivou, em 1975, a mudança da antiga lei na atual no sentido de corrigir essa distorção. Ao longo desses dez anos, a distorção retornou. A providência administrativa que adotei na Sudam foi a de não considerar, em hipótese alguma, essa corretagem, entre aspas, que é exercitada por aí, como componente financeiro do projeto. O projeto Sudam, o projeto do empresário que está na Sudam, não é contaminado por qualquer recurso adicional, principalmente quando do tipo juros, correção monetária, encargos financeiros de qualquer natureza. Devo esclarecer que os recursos financeiros de qualquer projeto da Sudam, hoje, são provenientes de três fontes perfeitamente identificadas, e somente delas: recursos de incentivos fiscais, nos quais, qualquer corretagem ou encargo financeiro não é considerado pela Sudam; recursos próprios e recursos de terceiros. São estas as três fontes de recursos para o projeto Sudam. Podem acontecer encargos financeiros, corretagem etc., mas não são considerados no projeto. Portanto, fica limitado exclusivamente a um problema fiscal, de natureza fiscal, e competência da Receita Federal e não mais da competência da Sudam , porque esses valores não são registrados no projeto Sudam. A corretagem paga pela aquisição desses incentivos tem que ser esplicada a nível de Receita Federal e não da Sudam, porque ela o excluiu por completo da composição de custos do projeto. Esta colocação do eminente Prof. Grande deve ser direcionada à Receita Federal, que deve pesquisar de que modo esses valores são ou não colocados na declaração do Imposto de Renda e cada uma dentro dos projetos, mas jamais na Sudam, porque não faz parte do seu elenco financeiro. Esta a primeira explicação. A segunda a que quero reportar-me é o comportamento dos recursos, dos incentivos fiscais para o projeto Sudam. Os projetos Sudam, desde que foi instituída, são da ordem de mil e cem, dos quais oitocentos e setenta estão em implantação. Os incentivos 125 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) fiscais para atender a esses projetos são insuficientes. Eu teria necessidade de cerca de dez milhões de OTN anuais para atender plenamente a esses projetos em implantação, e minha estimativa de Finam para 1987, por exemplo, é de apenas cinco bilhões de cruzados, na melhor das hipóteses. Portanto, tenho um déficit de cerca de sete bilhões de cruzados para atender, em 1987, aos oitocentos e setenta projetos em implantação. O terceiro ponto que queria assinalar na sua pergunta é quanto aos projetos cancelados. Houve uma preocupação da Superintendência no sentido de recuperar os projetos que, por várias razões, se encontravam paralisados. Devo dizer que a preocupação da administração é não acusar ninguém, nenhum titular de projeto, de má gestão. Partimos do princípio de que é preciso identificar a razão pela qual esse ou aquele projeto parou de ser implantado. E na identificação das causas dos projetos paralisados e não cancelados, a causa básica está na falta de recursos. O contrato estabelecido no início do projeto Sudam não foi cumprido por parte do Governo Federal e por parte da Sudam, o que fez com que o empresário não pudesse, em tempo hábil, atender ao cronograma físicofinanceiro da implantação do projeto. Nessa identificação, nossos projetos, que evidentemente estão, paralisados, são passíveis de cancelamento, não chegam a cem. É o reparo que queria fazer. Estamos aproximadamente em torno de 7%. Apenas 7% do total dos projetos são passíveis de cancelamento, e 13% estão paralisados. É preciso não confundir essas duas figuras, paralisados e cancelados. Os paralisados são passíveis de recuperação, e temos um programa de recuperação para eles. Os cancelados por várias razões, foram da ordem de 7%, de um total de aproximadamente 50 a 60. Era a correção que queria fazer. Estes são os fatos. O que fazer diante desse déficit de incentivos fiscais? Quero tornar minhas as palavras do eminente amigo, Dr. Delile Guerra de Macedo, quando disse que os incentivos fiscais são instrumentos extremamente adequados para promover o desenvolvimento da Amazônia, que não pode prescindir da sua existência, sob as mais variadas o f rmas, eles são absolutamente necessários, fundamentais para induzir a Amazônia ao desenvolvimento. É evidente que existe no estudo dos incentivos fiscais que representam uma dedução do Imposto de Renda um fato para o qual poucos atenta. A lei permite que se deduzam 25% do Imposto de Renda devidos pela pessoa jurídica para os fundos setoriais e regionais. Fiquemos apenas nos regionais. Vinte e cinco por cento desse Imposto de Renda podem ser deduzidos para o Finam e Finor, para os fundos da Amazônia e do Nordeste. Acontece que as empresas, as pessoas jurídicas que podem gozar dessa faculdade legal, não o fazem, e, com isso, o que poderia ser deduzido para os fundos, não o sendo, vai para o Imposto de Renda. Quero trazer a esta Subcomissão um dado importantíssimo no estudo que fizemos. Se tomarmos o número de cem contribuintes, em 1975, para os fundos regionais – consideramos padrão o número cem – em 1985, portanto após dez anos de vigência da lei, esse número reduziu-se a cinqüenta. O número de pessoas j urídicas deste País que deduzem seu Imposto de Renda para dar recursos ao Nordeste e ao Norte reduziu-se em 50%. Aí está minha pergunta: O que fazem com o Imposto de Renda? O que faz a Receita Federal, que abocanha a maior participação dessa receita? Por isso, somos deficitários. Nossa preocupação foi manifestada através de documento apresentado na época ao Ministério do Interior, que já está em estudo a nível de Ministérios para uma decisão, que a dedução seja automática, como acontece com a dedução do Imposto de Renda da Embraer, e, assim, os fundos regionais serão providos de recursos suficientes para cobrir o déficit a que há pouco me referi. Esse mal que nós, da Sudam, sofremos, e acredito que também a Sudene, tem o mesmo problema. Era o esclarecimento que queria dar. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Sr. Delile Guerra de Macedo, para responder ao Constituinte José Dutra. O SR. DELILE GUERRA DE MACEDO: – Sr. Presidente, Sr. Relator, Srs. Constituintes, caro Constituinte José Dutra, perdoe-me meu querido amigo Kayath, mas farei uma colocação não como Superintendente da Suframa, mas como um profissional que tem lutado, nestas três últimas décadas, para desenvolver áreas subdesenvolvidas. A região Amazônica é difícil. Reafirmei aqui que ela difere do Nordeste pelo seu escasso povoamento e pela integração econômica, a partir de sua colonização que se deu de maneira muito diferente da do Centro-Sul e do Nordeste brasileiro; deu-se através da calha do rio, tendo a impenetrabilidade das florestas, pior do que as montanhas. Para um melhor desenvolvimento da Região não há dúvida de que devemos advogar a repartição. Como profissional, talvez não mais estarei na Suframa quando a lei regular isso, mas acho que, considerando a brasilidade da região Amazônica, deveríamos fazer a seguinte distribuição, facilitar: 1º – administração dos incentivos; 2º – interiorização do desenvolvimento; 3º – integração de ações entre as prefeituras, governos estaduais e governo federal, através das agências de desenvolvimento; 4º – para que se tivesse presente pelo menos nos núcleos urbanos. Imaginem V. Ex.ª que a área da Suframa tem dois milhões e duzentos mil quilômetros quadrados, e mais ou menos três milhões e quinhentos mil habitantes concentrados em poucas cidades. A Sudam, do jeito que está, facilitaria o volume de recursos financeiros. Devo dar aos Srs. Constituintes a informação de que talvez a Suframa seja o único órgão no Brasil que não vive às expensas do governo federal, mas com seus próprios recursos. As transferências que recebemos do orçamento da União não representam sequer 4% do nosso orçamento total. Recebemos taxa pela prestação de serviços aos setores comercial e industrial no valor de 3% sobre a internação de mercadorias estrangeiras e 2% sobre a internação de mercadoria nacional. Advogo o princípio de que, para cada cruzado arrecadado lá, o governo federal coloque um cruzado no orçamento da Suframa, e assim eu poderia descentralizar o desenvolvimento econômico de Manaus para outras regiões da Amazônia. Vejam que a organização da administração direta solicita isso ao governo, todas solicitam o orçamento total; eu estou solicitando apenas 50% do orçamento, o que aumentaria o volume de recursos e a eficiência no exame dos casos para os empresários, governos e municípios. Advogo que a Sudam, do jeito que está – e, aí, uma colocação profissional – deveria ficar com a pré-Amazônia maranhense, norte de Goiás, Estado do Pará e o Território do Amapá, e que a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia Ocidental ficaria com o Território de Roraima, o Estado do Amazonas, o Estado de Rondônia, a pré-Amazônia matogrossense. Isso já daria uma área de atuação, em nosso caso, de uns 2 milhões e 500 mil quilômetros quadrados. Vejam as dimensões e dificuldades de locomoção que temos. Advogo, nobre Deputado, que se faça alguma coisa nesse sentido, independentemente de me encontrar no cargo de Superintendente. Não é um problema de poder, mas de eficiência, de aumento de recurso, de resolver mais rapidamente o grande fosso que separa as regiões em desenvolvimento, as regiões subdesenvolvidas, das desenvolvidas. Esta é minha posição como profissional e como brasileiro, como amazônica que sou, de coração. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Asdrubal Bentes. O SR. CONSTITUINTE ASDRUBAL BENTES: – Sr. Presidente, Srs. Constituintes, nobres expositores, ao ouvir a vibrante, esperançosa e confiante exposição do Dr. Delile, confesso que durante alguns minutos sonhei, sentindo-me um Amazônia rico, mas de repente acordei e voltei à realidade. Voltei à minha infância nas barrancas do rio Madeira, à minha juventude no Pará e à minha atividade profissional na zona mais rica do nosso Estado, o sul do Pará. Caí na dura e triste realidade de um povo rico e pobre. A grande gama de minérios que possuímos, que, com muita propriedade, foi exposta pelo Prof. Delile, na realidade à nossa região de quase nada tem servido, pois os grandes projetos, como o Carajás, Hidrelétrica de Tucuruí, Trombetas, Barcarena, têm deixado muito pouco para o Amazônia em termos de desenvolvimento com a participação da nossa população, e têm deixado muitos e graves problemas sociais. A dívida social desses projetos para com a nossa região é infinitamente superior aos benefícios que têm prestado ao nosso País e ao nosso Estado. A alíquota d o Imposto Único sobre Minerais é insignificante, e mais insignificante é a participação nesta alíquota dos Estados e Municípios. Daí por que dirigiria minha primeira pergunta ao Dr. Delile. Há, sem sombra de dúvida, necessidade de uma reforma da política mineralógica. Que tipo de reformas apregoaria V. Sª? Disse o Dr. Delile que após a promulgação da nova Carta, dos impostos a serem criados, 30% deveriam ser reivindicados para o Nordeste e 15% para o Norte. Indagaria: quais os critérios adotados por V. Sª para a diferença de percentual entre o Norte e o Nordeste? Pergunto ao Dr. Delile e, se o Sr. Presidente permitir, teria perguntas também ao Dr. Carneiro Leão, posteriormente. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência solicita ao Constituinte que coloque suas perguntas para que as respostas possam ser feitas em seqüência. O SR. CONSTITUINTE ASDRUBAL BENTES: – Pois não. Ao Dr. Kayath, Superintendente da Sudam, no bojo da crise da reforma ministerial, os governadores do Nordeste propuseram a adoção de uma medida que já vivemos por vários anos. À época da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, ela era vinculada diretamente à Presidência da República. A idéia foi ressuscitada agora pelos governadores do Nordeste. Indagaria ao Dr. Carneiro Leão e ao Dr. Kayath como vêem essa pretensão dos governadores do Nordeste, porque eu a vejo com muita simpatia, e quais os benefícios que adviriam daí para as Regiões Norte e Nordeste? Ao Dr. Carneiro Leão, que também com muita propriedade distinguiu o Norte do Nordeste, do Sul e do Centro quanto à política fundiária. Fala-se muito de reforma agrária e faz-se muito pouco. Partindo-se do princípio de que o Plano Nacional de Reforma Agrária é uno para todo o País, sem levar em conta as peculiaridades regionais, enquanto no Sul talvez seja válida a política adotada pelo Governo de desapropriações, no Norte é bom que se levem em conta os outros elementos previstos no Estatuto da Terra como básicos para a efetivação de uma reforma agrária. E, no caso da nossa região, a Amazônia, o fator básico para a implantação da reforma agrária deve ser a colonização. Vou dar exemplos. Temos quase em vias de realização o Projeto Calha Norte, com 6 mil quilômetros, das fronteiras do Peru às fronteiras das Guianas. Temos de ocupar 126 aquela área, e para isso, temos, como primeiro fator, a colonização. Não tem nada a ser desapropriado, porque ali só existem terras públicas. Para o Sul, Sudeste ou para Nordeste, a desapropriação poderá ser o primeiro fator para a reforma agrária, mas creio eu que para o Norte, a colonização é o primeiro. Temos o Projeto Jari, que ocupa vários milhões de hectares de terra, dos quais três milhões e meio não têm sequer um documento hábil. O Dr. Aloysio Chaves, nobre Relator desta Subcom issão, conhece muito bem, porque foi governador do nosso estado e participou, atuante como é, para a solução desse problema, que infelizmente até hoje não teve solução. O Jari ocupa, até hoje, 5 milhões de hectares de terra, dos quais, pelo menos 3 milhões e meio são terras devolutas. O Projeto Andrade Gutierrez está tentando devolver à União suas terras, porque já tem 6 mil famílias na área. São 400 mil hectares de terras, e o Governo fica preocupando-se em efetuar desapropriações, elevando os custos para implantação da reforma agrária, quando existe terra disponível. No Baixo Amazonas, em Santarém, há 1 milhão de hectares de terra, em Fordlândia, já com uma certa infraestrutura deixada pelos americanos e não aproveitadas racionalmente até hoje. Parabenizo V. Sª pela colocação que fez e que vem ao encontro do nosso pensamento. Há que se descentralizar, há que se regionalizar a reforma agrária, e basicamente o município é que tem de ser ouvido, talvez tendo como coordenador não o Incra, porque costumo dizer que o Incra é um encravado da vida – não faz nada, não tem competência, no sentido vernáculo, para realizar coisa alguma. A União é que deve coordenar e o estado o município é que devem executar o Plano Nacional de Reforma Agrária, regionalizando-o. Com o Dr. Reis Velloso, ficou mais do que claro – isso é o óbvio ululante, até – que a concentração de recursos nas mãos do Governo Federal é a causa maior do enfraquecimento da nossa federação. Eu, que fui prefeito de município pobre do interior, rico em beleza natural, com uma das praias mais lindas – vou fazer meu comercial do NorteNordeste deste País, Salinópolis – sofri na pele as agruras de ser prefeito de um município rico e pobre, com duas populações, uma fixa, humilde e carente, e uma flutuante, de veranistas. À época, recebia 15 mil cruzados de ICM e 73 mil cruzados de Fundo de Participação, em média, por mês. O que se poderia fazer senão viver de pires na mão? E eu ainda tinha dinheiro para comprar o pires. Hoje, os municípios não têm dinheiro nem para comprar o pires, vão mesmo de mãos abanando, pedindo, implorando, mendigando um direito que é deles. Há um caminho muito grande percorrido por certos impostos que devem ser arrecadados no município, mas têm de vir ao poder central e, às vezes, perdem a via de retorno. Aí estão como prova o ITR, o ITBI e tantos outros, que vão para os estados ou vêm para a União. E o ICM? Nosso estado, como todos os da Amazônia, é extremamente penalizado, pois as exportações são isentas de ICM. Para se ter uma idéia, meu es tado, para a construção de uma rodovia de 1.200 km, asfaltada no Governo passado, teve de tomar empréstimo externo, quando o valor das isenções do ICM concedidas seria suficiente para construí-la sem nos endividarmos. Creio que há que se descentralizar. Pediria a V. Ex.ª que, com objetividade, desse algumas sugestões para essa descentralização, conferindo ao município uma participação mais efetiva na renda do País. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Dr. Delile Guerra para responder ao Constituinte Asdrubal Bentes. 127 DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) O SR. DELILE GUERRA DE MACEDO: – Sr. Constituinte Asdrubal Bentes, do Pará, começando do fim para o início, tomamos o seguinte critério: a população, a renda e a área, e compensamos a renda – que é menor em relação ao Nordeste – com a área geográfica, que é maior, três vezes a do Norte em relação ao Nordeste. A população foi igual, o critério 50% e 50%, o que me deu 30% 15%, respondendo objetivamente. Passando à pergunta seguinte: que tipo de reforma? Não estudei a reforma. O que quis deixar bem claro – e V. Ex.ª vai receber meu documento, o que lhe dará, e a todos os constituintes, possibilidade de elaborar o texto constitucional – em primeiro lugar, é a regulação do problema mineral, não só da lavra como de transporte, para beneficiar as populações. Como bem disse V. Ex.ª, as populações não participam dos resultados econômicos através das unidades federadas e dos municípios, que podem fazer programas de desenvolvimento para diminuir a dívida social. Esse é o plano, apenas em tese. O desmembramento não é minha área, mas me coloco à disposição do constituinte para, como profissional, discutirmos o problema e encontrarmos as soluções. São estas as informações que presto ao Constituinte Asdrubal Bentes. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Dr. Henri Kayath para responder ao Constituinte Asdrubal Bentes. O SR. HENRI KAYATH: – Como a pergunta se prende a uma provocação vinda do Nordeste, daria precedência ao ilustre representante da Sudene. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Uma vez que o Dr. Henri Kayath cede a vez, a pergunta será respondida pelo Dr. Antônio Carneiro Leão. O SR. ANTÔNIO CARNEIRO LEÃO: – Sr. Presidente, peço licença aos Srs. Constituintes para tentar fazer uma breve digressão histórica. A Sudene foi criada através de amplo movimento popular, que encontrou respaldo no CentroSul que, num momento de aceleração do desenvolvimento econômico, numa fase aguda de substituição de exportações, com o Plano de Metas do Governo Juscelino Kubitschek se sentia ameaçado por alguma questão social que viesse do Nordeste, e com a sensibilidade política do Presidente Juscelino Kubitschek, com a onda de modificações dos esquemas políticos dominantes, que foram derrotados fragorosamente, em grandes partes do Nordeste, nas eleições de 1958 e de 1960. Todas essas condições – as primeiras mobilizações da Igreja com o encontro dos bispos dos comerciantes, as associações comerciais – permitiram que se criasse um organismo absolutamente original na época, que era uma agência de desenvolvimento que visava a coordenar e compatibilizar a ação do Poder Público federal num determinado espaço físico. A originalidade não estava só na criação de uma nova entidade administrativa do Poder Executivo federal. É que agregava ela um conselho deliberativo que articulasse ouvindo a classe política da região, onde estavam representados os governadores com um peso de voto de 42%. Isso permitiria uma articulação do Governo federal: esse órgão centralizaria as atuações dos diferentes Ministérios dentro daquele espaço físico e lhes imprimiria maior velocidade e racionalidade. A vinculação direta com o Presidente da República pressupunha uma política de prioridade para o desenvolvimento daquela região. O que houve durante esses vinte anos? Hoje é difícil localizar o órgão regional. A política, nesses vinte anos, foi ao contrário. Era uma tentativa de descentralização, mas a política foi de centralização total e descentralização setorial por Ministérios ou por grupos de sociedades de economia mista, sistemas que sairam praticamente da administração direta do Estado: sistema Siderbrás, sistema Telebrás, sistema Radiobrás e todos os sistemas existentes. Essa concepção original da Sudene ficou muito prejudicada, porque ela entrou em confronto com o setorial. As políticas hoje são centralizadas setorialmente. Como colocar dimensões espaciais nisto? Normalmente, em todos o s planos feitos pela Seplan, somos um setor a mais. Temos a política do Governo para o setor agrícola, para o setor industrial, para o desenvolvimento regional. Então, nos transformamos em um setor. Daí o corte ter que ser dentro dos setores, através do planejamento, com um corte espacial dentro do planejamento, dentro do orçamento da administração direta e dentro do orçamento das estatais. Essas entidades terão de se adaptar. E as entidades de prioridade do Poder Executivo são o Norte e Nordeste. São essas as entidades propícias para fazer a articulação com a classe política de Estados e Municípios, com a sociedade civil. O início da Sudene teve muita execução direta, não existia administração federal na região, fizeram-se diversas sociedades de economia mista, chegamos a ter mais de cinqüenta, e hoje só temos duas. Mas hoje todos os Estados se aparelharam, os Municípios – alguns grandes – melhoraram muito sua atuação, a administração federal melhorou muito nes ses últimos anos. Então seria mais um organismo de articulação do governo federal, de fiscalização e controle, para verificar se o orçamento, o plenajamento está sendo executado, informando ao Congresso, e de administração de alguns instrumentos e mecanismos próprios e supostamente temporários, porque todos esses mecanismos de indução e promoção ao desenvolvimento, teoricamente, devem ser temporários nos incentivos fiscais. Considero a reivindicação dos Governadores a mais justa possível, porque não visa à regionalização do Brasil, mas à priorização daquelas regiões que têm mais necessidade. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – Com a palavra o Dr. Antônio Augusto Reis Veloso. SR. CONSTITUINTE ASDRUBAL BENTES: – Sr. Presidente, pela ordem. Gostaria de ouvir a opinião do Superintendente da Sudam com relação à mesma pergunta, já que foi dirigida aos dois, para ver se elas convergem para o mesmo fim. O SR. HENRI KAYATH: – Sr. Presidente, serei muito breve. Concordo plenamente com o que foi dito, e nada m ais tenho a acrescentar. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência passa a palavra ao Dr. Antônio Reis Veloso, para responder. O SR. ANTÔNIO AUGUSTO REIS VELOSO: – Sr. Presidente, caro Constituinte Asdrubal Bentes, do Pará, participo da sua preocupação e a acho inteiramente pertinente, no sentido de que haja realmente esforços efetivos na direção da descentralização, da desconcentração. Houve um esforço, que procurei indicar e que todos conhecem, mas é evidente que todo esse esforço de descentralização, vamos dizer, esforço no sentido de liberar os municípios e Estados de todas aquelas amarras dos planos de aplicação, das exigências junto ao governo federal, não é suficiente. Há necessidade de se fazer muito mais. DIÁRIO DA ASSEMBLÉIA NACIONAL CONSTITUINTE (Suplemento) No documento que distribuí procurei desenvolver um elenco de medidas nessa direção, procurando, por exemplo, determinar mesmo ponto de grande importâ ncia. Por exemplo, hoje temos diversos fundos de participação, fundos de transferência do governo federal para os Estados e Municípios. Entendemos que é conveniente que isso seja simplificado através da concepção de que a repartição se dê no conjunto da receita tributária da União e de que se evite toda essa parafernália hoje existente. Considero este fato de toda a relevância. Vimo-nos batendo por isso há muito tempo na Sarem, no sentido de que essa descentralização não seja só de recursos, mas de atribuições, de encargos, de responsabilidades, de tal forma que o próprio governo federal que, por definião institucional, detém a maior soma de poder e de recursos, seja suficientemente realista, no sentido de descentralizar a execução, de converter isso numa ação municipal com muito maior e melhor resultado, não só com muito maior eficiência, mas com muito maior eficácia para o contribuinte. Que repercuta muito mais diretamente em favor do contribuinte que está próximo do Município, que está lá perto, onde são descobertos os mecanismos mais baratos, mais convenientes e adequados. Participo inteiramente da sua preocupação e posso imaginar todo seu drama na Prefeitura de Salinópolis, dependendo, todo dia, das transferências do governo federaI. O SR. PRESIDENTE (Luiz Alberto Rodrigues): – A Presidência concede a palavra ao Constituinte Aluízio Campos. O SR. CONSTITUINTE ALUIZIO CAMPOS: – Sr. Presidente, os diagnósticos manifestados pelos expositores e interpelantes resultam da velha e ainda não transposta realidade de que as disparidades regionais dependem, basicamente, da falta de recursos suficientes, não só nos seus motantes, como no próprio esquema das liberações das disponibilidades, para aplicações oportunas nos investimentos regionais. Quando foi instituímos a Sudene, já havia no Nordeste, por exemplo, dois órgãos federais destinados a contribuir para o crescimento regional: a Comissão do Vale do São Francisco e a Chesf. A Chesf, com recursos reduzidos, vinha funcionando com certas limita ções, e a Comissão do Vale do São Francisco era conduzida mais por critérios políticos, que dispersavam os recursos a ela atribuídos, e não produziam nenhum efeito significativo para o desenvolvimento regional, sequer na área limitada do vale daquele rio. Quando foi constituído o Banco do Nordeste, surgiu como sua primeira providência estatutária, a criação de um organismo com a preocupação de começarmos a fazer análises da economia setorial, definirmos os pontos de estrangulamento e também orientarmos os investimentos nos projetos que pudessem ser financiados pelo banco. Eu era diretor do banco na sua constituição, co-autor dos seus estatutos etc. Depois disso veio o Programa de Desenvolvimento Econômico, em substituição ao Programa de Reaparelhamento do Governo Vargas, veio o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico. Na diretoria do Banco do Nordeste verificamos que o programa desse reaparelhamento econômico, pelos seus objetivos nacionais, não dava oportunidade de obtermos, para as regiões menos desenvolvidas, condição de ajuda necessária para o deslanche de uma luta desenvolvimentista. Foi a partir daí que procuramos utilizar o Conselho como instrumento que possibilitasse isso. Não nos concediam recursos e partimos, corajosamente, para a fundação de um grupo de trabalho que se cha- 128 mava GTDN – Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste. Deixei a diretoria do Banco para presidir esse grupo, que foi também o núcleo, realmente, de onde surgiram os principais trabalhos que contribuíram, depois da conversão em Codeno para a institucionalização da Sudene. Aí já tínhamos consciência de que a Sudene devia ser um órgão poderoso, que dispusesse de capacidade política para atuar na região, e, também, para obter recursos suficientes. Essa m entalidade predominou de tal forma que chegou a um ponto em que o Superintendente da Sudene era o próprio Ministro do Planejamento do Governo do Sr. João Goulart, o atual Ministro da Cultura, Dr. Celso Furtado. Verificamos que é imprescindível para o desenvolvimento do Nordeste, agora mais do que nunca, na oportunidade da Constituinte, estabelecer a luta em favor de instituições que sejam realmente fortalecidas e que disponham de poder e autoridade para atuar com autonomia dentro da região para conseguir os meios de comandar seu próprio desenvolvimento. É com fundamento nessa filosofia que apresentei hoje sugestão à Mesa da Assembléia Nacional Constituinte institucionalizando a região num sistema federativo. Esse é o primeiro passo. O segundo é declarar que também fica institucionalizada a autonomia regional, que, através de lei complementar, poder-se-ão estabelecer diretrizes e normas que assegurem às regiões de desenvolvimento retardado recursos técnicos e financeiros suficientes para melhorar sua condição econômico-social e promover a ação descentralizada dos poderes federais. A idéia é que cada região, na medida em que vá constituindo-se autonomamente, seja realmente uma área de representação do descentralismo das atividades de todos os poderes da República. Exemplo: o Poder Judiciário terá órgãos de última instância dentro da região. Em vez de haver um Tribunal de Recursos, teremos tantos Tribunais de Recursos quantas forem as regiões do País, para decidirem com muito mais celeridade e proficiência as questões que estejam submetidas à sua competência. Da mesma forma, na parte, vamos dizer, fiscal, Conselho de Contribuintes Regionais, e na do Poder Executivo, as regiões menos desenvolvidas – está aqui um artigo – serão providas de entidades organizadas para planejar, coordenar e fiscalizar a execução de projetos e programas destinados a promover seu