O ESTABELECIMENTO DA CONTINUIDADE TÓPICA POR MEIO DO EFEITO GATILHO1 Andréia Silva Araujo (UFS) [email protected] Amanda Matos Santos (UFS) [email protected] RESUMO: Em entrevistas sociolinguísticas, o efeito gatilho pode ser entendido como a manutenção das mesmas marcas linguísticas da pergunta do entrevistador na resposta do informante. Neste trabalho, pretendemos verificar quais os graus de continuidade estabelecidos pelas formas verbais em termos de tempo, aspecto, modalidade e tipo de sequência discursiva, numa escala do mais ao menos contínuo, tomando como protótipo do efeito gatilho as ocorrências com o mesmo tempo, mesmo aspecto, mesma modalidade e mesma sequência discursiva. Os dados utilizados na análise foram extraídos da amostra Entrevistas Sociolinguísticas do banco de dados do Grupo de Estudos em Linguagem, Interação e Sociedade (GELINS). Para tanto, controlamos a correlação entre dois fatores: tipo de sequências discursivas (narração, descrição e argumentação/opinião) e as categorias verbais de tempo, aspecto e modalidade. Os resultados estatísticos apontam que das três categorias verbais controladas, a modalidade é a que menos gerencia o tópico discursivo mediante o efeito gatilho e que o tipo de sequência discursiva não é um fator significativo para o estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho no corpus em análise. Palavras-chave: Efeito gatilho. Continuidade tópica. Categorias verbais. 1 Introdução Um texto é formado por segmentos tópicos que estão relacionados de forma direta ou indiretamente a um tópico maior – o tópico discursivo (KOCH, 2006, p. 97). Tais segmentos que compõem o texto são organizados linearmente no discurso. Jubran (1993 apud KOCH, 2006, p. 98) estabelece duas noções em relação à distribuição dos tópicos na linearidade discursiva: continuidade e descontinuidade tópica. Quando os segmentos são organizados linearmente no discursivo, ou seja, em uma ordem sequencial, de forma que a abertura de um novo tópico só se realize quando o precedente é fechado, temos o estabelecimento da continuidade tópica (JUBRAN, 1993 apud KOCH 2006, p. 98). No caso do estabelecimento da descontinuidade tópica, esta é estabelecida quando há mudança de tópico sem que se tenha o fechamento do tópico precedente. Nas palavras de Jubran (1993 apud KOCH 2006, p. 98), a descontinuidade tópica, decorre de uma perturbação da sequencialidade linear, verificada na seguinte situação: um tópico introduz-se na linha discursiva antes de ter sido esgotado 1 Este trabalho foi desenvolvido sob a orientação da Profa. Dra. Raquel Meister Ko. Freitag. Professora do Departamento de Letras, Universidade Federal de Sergipe/Campus Prof. Alberto Carvalho. o precedente, podendo haver ou não o retorno deste, após a interrupção. Nos casos em que há retorno, temos os fenômenos de inserção e alternância; nos casos em que não retorno, temos a ruptura ou corte. Em entrevistas sociolinguísticas, a inserção do tópico discursivo é realizada, na maioria dos casos, pelo entrevistador por meio da pergunta e o seu desenvolvimento pelo entrevistado/informante por meio da resposta. Para desenvolver o tópico introduzido pelo entrevistador o informante utiliza várias estratégias linguísticas. Uma delas consiste no uso do paralelismo linguístico. Este pode ser definido como a repetição de uma mesma forma em situações em que os dados figuram em cadeia (COSTA, 2003, p. 82). A ocorrência de formas em cadeia pode acontecer de duas maneiras: dentro do próprio discurso do informante ou no discurso do interlocutor. Quando o paralelismo ocorre desta ultima maneira, é denominado como efeito gatilho. Isso porque, “a forma presente na fala do interlocutor ‘engatilha’ um uso que pode ou não ser repetido na fala do informante (OLIVEIRA, 2006, p 119). Interessam-nos neste estudo, as ocorrências de paralelismo por meio do efeito gatilho. Vejamos um contexto do corpus em análise que evidencia o efeito gatilho em entrevistas sociolinguísticas: (1) E: Você já leciona? I: Já leciono a disciplina... vai completar dois anos... desde do sexto período que eu já leciono (...) (se ita mp lq 08/GELINS)2 Observa-se, neste exemplo, que a forma verbal (destacada em negrito) utilizada pelo entrevistador se manteve na fala do informante. O informante ao repetir o verbo da pergunta em sua resposta estabelece continuidade tópica. Nesse sentido, trata-se de uma estratégia que promove o encadeamento dos enunciados, servindo, portanto, como recurso de coesão, ou seja, constitui em uma estratégia para a conexão interfrástica, exercendo a função de retomar o conteúdo anteriormente expresso no segmento tópico. No entanto, nem sempre o informante usa a mesma forma verbal utilizada pelo entrevistador. O exemplo a seguir demonstra tal fato: (2) E: Quais eram as suas perspectivas de trabalho na área de química? I: As perspectivas sempre foram boas principalmente na área de química em virtude do que eu já disse... inicialmente né? (se ita mb sq 09/GELINS) Apesar do informante não ter mantido a mesma forma verbal presente na pergunta, este fez uso de uma forma que possui traços semânticos semelhantes à utilizada pelo entrevistador. Tais traços semântico-discursivos referem-se às noções de tempo, aspecto e modalidade. Nesse sentido, podemos dizer que houve neste contexto o efeito gatilho. Isso porque, o traço aspectual e de modalidade presente no contexto da pergunta foram mantidos na resposta. Assim, podemos dizer que o grau de prototipicidade do efeito gatilho em (1) é maior do que em (2) uma vez que no primeiro caso os verbos presentes na pergunta e na resposta apresentam os mesmos traços de tempo, aspecto e modalidade. A par desta situação, pretendemos, neste estudo, com base na teoria funcionalista, averiguar quais os graus de continuidade estabelecidos pelas formas verbais em termos de tempo, aspecto, modalidade e tipo de sequência, numa escala do mais ao menos contínuo, tomando como protótipo do efeito gatilho as ocorrências com o mesmo tipo de sequência, mesmo tempo, mesmo aspecto e mesma modalidade. Para tanto, controlamos a correlação 2 A sigla refere-se à identificação da entrevista. As duas primeiras letras referem-se ao estado (Sergipe) e as três letras seguintes à cidade (Itabaiana). A sigla seguinte informa o sexo do informante (F para feminino e M para masculino), a faixa etária (P para 16 a 20 anos e B para 26 a 35 anos), tempo de escolarização (S para nível superior completo e B para nível superior incompleto) e tipo de registro (Q para a fala e E para escrita). Os números referem-se à identificação do informante. entre dois fatores: tipo de sequências discursivas (narração, descrição e argumentação) e as categorias verbais de tempo, aspecto e modalidade. O controle destes dois fatores interrelacionados permite que se observe a relevância de motivações da ordem da organização textual, na medida em que é possível escalonar o grau de prototipicidade do efeito gatilho das ocorrências analisadas. Para encaminhamento da análise, organizamos este texto em cinco seções. Na seção a seguir, discorremos sobre as categorias linguísticas de tempo, aspecto e modalidade, que estão associadas ao verbo e evidenciamos sua correlação com o efeito gatilho para o estabelecimento da continuidade tópica. A terceira seção é dedicada aos procedimentos metodológicos seguidos no desenrolar desta pesquisa. Na sequência, na quarta seção, discorremos sobre os resultados obtidos a partir do controle do tipo de sequências discursivas (narração, descrição e argumentação/opinião) e das categorias verbais de tempo, aspecto e modalidade. Por fim, tecemos nossas considerações finais. 2 Correlação entre efeito gatilho e as categorias verbais de Tempo, Aspecto e Modalidade O estabelecimento da continuidade tópica em entrevistas sociolinguísticas, conforme pontuamos na introdução, pode ser realizado por meio do efeito gatilho. Para que haja tal efeito não é necessário que a mesma forma verbal presente na pergunta do entrevistador seja repetida na resposta do informante. Este pode ocorrer através da marcação de traços semântico-discursivos presente na forma verbal utilizada na pergunta e mantida na resposta. Os traços semântico-discursivos a que nos referimos são as noções de tempo, aspecto e modalidade. Tempo e aspecto são duas categorias complexas que possuem pontos em comum, o que muitas vezes dificulta diferenciar uma da outra. De acordo com Borba Costa (2002, p. 19), podemos distingui-las tomando como base o “ponto de vista semântico, basicamente a partir da concepção do chamado tempo interno (o Aspecto) diferente do tempo externo (o Tempo)”. Borba Costa afirma que As noções semânticas do âmbito do Tempo dizem respeito à localização do fato enunciado relativamente ao momento da enunciação; são, em linhas gerais, as noções de presente, passado e futuro e suas subdivisões. Já as noções semânticas do âmbito do Aspecto são as noções de duração, instantaneidade, começo, desenvolvimento e fim (BORBA COSTA, 2002, p. 19). De acordo com Reichenbach (1947), a descrição do tempo como categoria linguística é estruturado em três momentos: momento do evento (ME); momento da fala (MF) e o momento de referência (MR). O primeiro é o momento em que se dá o evento, este pode ser passado, presente ou futuro. Já o segundo é o momento em que o falante profere sua fala, é o “tempo da enunciação”, ou seja, é quando a fala é realizada. É a partir desse momento que o ouvinte se situa no tempo para identificar os outros dois momentos. E o momento de referência (MR) é o ponto a partir do qual se definem simultaneidade e anterioridade; situando o evento na linha do tempo. E, “quando não há referência contextualmente explícita, o momento de fala torna-se o momento de referência” (FREITAG, 2007, p. 68). A correlação entre o efeito gatilho e a categoria verbal Tempo em entrevistas sociolinguísticas ocorre quando o informante emprega uma forma verbal conjugada no mesmo tempo verbal que a utilizada pelo entrevistador. Vejamos um exemplo que evidencia essa correlação. (3) E: Mas de um modo geral você gostou do seu curso? I: Gostei mais pela parte dos professores que eu tive mais pela parte do conhecimento que eu adquiri aqui (...) (se ita fp lq 06/GELINS) Observe que em (3) o entrevistador utilizou o verbo gostar conjugado no pretérito perfeito fazendo com que o informante utilizasse na resposta o verbo conjugado no mesmo tempo que este, ou seja, houve o efeito gatilho da pergunta para a resposta. Isso ocorre porque o entrevistador deseja saber de algo que aconteceu no passado, portanto, para que a continuidade tópica temporal seja estabelecida o informante utiliza o mesmo tempo verbal que o entrevistador. No que concerne ao aspecto, este é uma categoria linguística que está relacionada ao tempo interno da situação. Ao contrário do tempo, o aspecto não depende de intervalo e de inclusão do ponto principal na linha do tempo, pois é uma categoria autônoma. Nos termos de Borba Costa (2002, p. 21), o aspecto é “a categoria linguística que informa se o falante toma em consideração ou não a constituição temporal interna dos fatos enunciados. Essa referência independe do ponto-dêitico da enunciação, visto que centra o tempo no fato e não o fato no tempo”. Em outras palavras, independe do ponto-dêitico, uma vez que esta categoria não depende da localização do falante no momento da sua fala. A autora ainda ressalta que nem sempre o falante marca seu enunciado aspectualmente, pelo fato desta marcação poder ser considerada como uma escolha estilística sendo que este, o falante, só irá fazê-la se achar importante chamar a atenção do ouvinte para a constituição temporal interna da situação (BORBA COSTA, 2002). Dentre os tipos de aspectos existentes, apresentamos aqui os conceitos dos cinco tipos que utilizamos na análise, os quais sejam: pontual, durativo, progressivo, iterativo e genérico. Vejamos a seguir um contexto de cada um. (4) E: Por que você escolheu o curso de Química? F: Bom escolhi química porque desde do ensino médio foi a única disciplina que com a qual eu me identifiquei o máximo e ao entrar na universidade (hes) (se ita mp lq 08/GELINS) (5) E: Você conhece alguém assim? F: Conheço... conheço... conheço conheço inclusive tem uma aluna... que estuda comigo (hes) ela é formada em outra área... se dedicou nessa área e viu que não era o que ela espera ser... (se ita mb lq 01/GELINS) (6) E: E como era que você você se locomovia de Itabaiana até Ribeirópolis? F: Bom... de Itabaiana pra Ribeiropólis eu eu tinha um colega na realidade nem era meu colega era um conhecido de meu pai... que dava aula lá nesse colégio... não não pela cooperativa era professor efetivo do estado e aí meu pai falou com ele se ele se importava de me dar uma carona né? então dois dias na semana eu ia e vinha com ele que a gente trabalhava à noite (se ita mb sq 09/GELINS) Em (4), temos um exemplo de aspecto pontual tanto na pergunta como na resposta, uma vez que ao utilizar o verbo escolher conjugado no pretérito perfeito este optou por dar relevo ao caráter terminativo da situação, ou seja, expressão a situação como algo acabado. O aspecto expresso pela situação em (5) é o durativo, visto que conhecer alguém denota uma situação estendida por intervalo temporal, na medida em que o informante preferiu empregar o verbo no presente. Já em (6), o aspecto iterativo está expresso através de a situação locomover e ir à Ribeiropólis que se repetiu por um período de um ano, evidenciando assim, a regularidade em que a situação se repete. Nas palavras de Freitag (2007, p. 77), “o aspecto iterativo se caracteriza por codificar uma situação que é repetida em uma ocasião específica”, que nos permite constatar a sua regularidade. (7) E: Se por acaso você enjoasse da profissão de professora de biologia o que você gostaria de fazer outro curso o que você gostaria de fazer? F: ((risos)) é difícil essa viu? se eu enjoasse da biologia o que eu gostaria de fazer... é complicado... não faria mais nada na área de saúde eu acho que com... a minha entrada na universidade e a minha convivência com a área da saúde eu percebo que eu não... tinha muita vocação pra isso... (se ita fp lq 10/GELINS) (8) E: Como assim ver a sociedade de uma forma diferente? F: A gente vê um um certo acontecimento... vê uma pessoa catando lixo na rua... e a gente não para pra pensar porque que aquela pessoa... cata... a gente não para pra pensar... porque é que a pessoa está naquela condição... a gente critica e discrimina aquela pessoa... (se ita fp sq 02/GELINS) Os exemplos (7) e (8) expressam aspectos progressivo e genérico, respectivamente. O primeiro é caracterizado por codificar “uma situação em andamento em relação ao ponto de referência em predicados dinâmicos” (FREITAG, 2007, p. 77). Observa-se que gostaria de fazer (que equivale a faria) expressa uma situação que tende a atingir um ponto culminante, que neste caso equivale a concluir o curso, ou seja, existe todo um processo – início, meio e fim. Embora seja uma suposição, uma vez que tem como ponto de referência um momento no futuro, podemos considerar que neste contexto há a expressão do aspecto progressivo. No caso do aspecto genérico, este é expresso quando a situação possui um valor atemporal, universal que pode se aplicar a todas as pessoas, como ocorre em (8), em que o informante refere-se a uma situação de maneira universalizada. Quando ela diz “A gente vê um um certo acontecimento... vê uma pessoa catando lixo na rua...”, este não está se referindo a si mesmo, mas a todas as pessoas que podem vivenciar determinada situação. Quanto à modalidade, esta é a categoria que reflete a atitude do falante em relação ao que é dito, bem como a atitude de outrem, mas que o falante insere, por alguma razão, no que se diz. A modalidade refere-se à relação estabelecida entre o falante e o seu enunciado, ou seja, em como o falante se relaciona com aquilo que está enunciando. O modo como o falante se relaciona com o que está enunciando está atrelado à noção de realis e irrealis (cf. GIVÓN, 2001). Estas noções estão correlacionadas à atitude do falante frente ao fato enunciado. A primeira é expressa quando o falante toma uma posição assertada frente ao fato caracterizando este como verdadeiro, [+factual]. Já a noção irrealis está associada ao afastamento da realidade pelo falante, ou seja, o falante não se compromete afirmando se o fato é ou não verdadeiro, mas como sendo provável ou incerto, [- factual]. Além dessas duas noções apontadas por Givón (2001), temos também a noção negativa que é expressa quando o falante nega o fato [não factual]. No exemplo abaixo, temos um contexto em que a forma verbal utilizada na pergunta expressa a noção de realis, ‘engatilhando’ a mesma noção para a resposta do informante, evidenciando assim, neste caso, a correlação entre o efeito gatilho e a modalidade para promover a continuidade tópica. (9) E: Como é o curso de Geografia? F: Bom... o curso de geografia é um curso... que trabalha muito com a realidade... né? (...) (se ita fp sq 07/GELINS) O foco desta seção foi conceituar as categorias verbais – tempo, aspecto e modalidade - e demonstrar a sua correlação com o efeito gatilho para promover a continuidade tópica. Após a apresentação das categorias verbais, passemos então, para a descrição dos procedimentos metodológicos adotados. 3 Procedimentos metodológicos Para o desenvolvimento do presente estudo, utilizamos como corpus de análise 10 Entrevistas Sociolinguísticas pertencentes ao banco de dados do Grupo de Estudos em Linguagem, Interação e Sociedade (GELINS), seguindo a metodologia da Sociolinguística Variacionista postulada por Labov (2008) e Weinreich et al. (2006). Devido aos objetivos pretendidos por esta investigação – a atuação de efeito gatilho para a manutenção do tópico discursivo – o mapeamento dos dados tomou como base o último verbo da pergunta, utilizado pelo entrevistador, e o primeiro verbo usado pelo informante3, para analisarmos se há um engatilhamento discursivo que contribui para a estabilidade tópica. Para isso, controlamos categorias semântico-discursivas a fim de verificarmos se há influência por parte destas para a manutenção da continuidade tópica, a partir do efeito gatilho. São elas: tempo, aspecto, modalidade – elencadas na seção 2 – e a sequência discursiva, a qual não se mostrou estatisticamente significativa para os objetivos desta investigação. Além dos fatores discursivos mencionados, controlamos os graus prototípicos do pareamento verbo da pergunta > verbo da resposta, por meio das categorias apresentadas. O controle dos graus prototípicos nos permite observar o grau de integração tópica veiculado, que variam do [+ integrado] ao [- integrado]. Os contextos que possuem maior integração tópica – e por isso mais prototípicos – são aqueles que possuem mais correlação semântica entre o verbo da pergunta e o verbo da resposta, correspondendo, assim, ao padrão comunicativo esperado, sendo, portanto, estruturas que ativam mecanismos sintáticos menos marcados. As situações com baixo grau de topicalidade emitem nenhuma ou pouca correlação semântica entre as formas verbais utilizadas pelo entrevistador e pelo informante, desta forma percebe-se que essas construções se desviam do padrão neutro que foi fixado nas relações comunicativas – a continuidade tópica – mostrando-se mais marcadas, já que evidencia a mudança do tópico discursivo (GIVÓN, 2011). A priori, o escalonamento dos graus de prototipicidade foram analisados de 0 a 4, o primeiro evidencia que nenhum dos traços semânticos presentes no verbo da pergunta foram retomados no verbo da resposta; enquanto o grau 4 indica o nível prototípico mais alto, ou seja, todas as categorias semântico-discursivas presentes no último verbo da pergunta são retomadas pelo informante a partir do efeito gatilho, mantendo assim maior integração tópica. Contudo, por uma questão metodológica, amalgamamos os contextos de grau 0 aos de grau 1 por meio do tratamento estatístico. Assim, estão incluídos no grau 1 tanto contextos em que não há nenhuma correlação semântica entre o pareamento verbo da pergunta > verbo da resposta, quanto aqueles em que somente um dos traços semânticos controlados aparece em ambos os verbos. Após a decisão adotada, reorganizamos a escala prototípica relativa ao nível de integração tópica por meio do efeito gatilho, a qual oscila do grau 1 ao grau 4, tais graus 3 É necessário salientar que quando o falante emitiu uma resposta digressiva, o verbo considerado foi aquele que de fato acionou a sua resposta, seguindo o tópico discursivo deixado pelo entrevistador. são calculados a depender do número de traços semântico-discursivos que são acionados no verbo da pergunta e recuperados no verbo da resposta pelo informante: - Grau 1: pelo menos um dos traços semânticos presentes no verbo da pergunta foram retomados no verbo da resposta; - Grau 2: dois dos traços semânticos presentes no verbo da pergunta foram retomados no verbo da resposta; - Grau 3: três dos traços semânticos presentes no verbo da pergunta foram retomados no verbo da resposta; - Grau 4: nível prototípico mais alto, ou seja, todas as categorias semânticodiscursivas presentes no último verbo da pergunta são retomadas pelo informante a partir do efeito gatilho, mantendo assim maior integração tópica. Os contextos menos prototípicos e, portanto, [- integrados] diz respeito tanto a situações em que não se constata a repetição – por parte do informante – de nenhuma das noções semânticas expressas pelo último verbo utilizado pelo entrevistador quanto às situações em que há uma mínima correlação entre os traços semânticos no pareamento verbo da pergunta > verbo da resposta, isto é, a forma verbal utilizada pelo entrevistador possui traço temporal, aspectual, modal e discursivo que não são integralmente aqueles encontrados no verbo que ativa a resposta, como podemos visualizar nos exemplos (10) e (11). (10) E: Você nota que houve desistência de alguns em função disso? F: Tem... eu tenho uma colega o nome dela... não vou falar não precisa citar nomes... como eu falei se você tem uma base é uma coisa se você não tem é outra... ela tava no emprego tava ganhando super bem... mas só que ela foi... ela é o contrário... ela tava perdendo muita aula... os primeiros horários tava chegando atrasada devido ao emprego (se ita mb lq 01/GELINS) (11) E: Então diante do que você me disse então você acha que a prova do vestibular deveria ser modificada pra que atendesse agora digamos às propostas do PCNs? F: Bom se a prova do vestibular não não... se preocupasse muito em memorização de fórmulas... e e em decoreba né? e fosse por exemplo mais parecida com com o que é atualmente a prova do ENEM ((tosse)) que... enfatiza muito mais o raciocínio que enfatiza muito mais tópicos e textos cotidianos que é o que a gente chama de de... de ensino contextualizado (se ita mb sq 09/GELINS) No exemplo (10), o entrevistador utiliza a forma houve no final da pergunta, a qual dentro do exemplo analisado possui os seguintes traços semântico-discursivos: tempo – pretérito perfeito; aspecto – pontual; modalidade – irrealis; sequência discursiva – indefinida. No entanto, o informante ao responder usa uma forma verbal que comporta apenas um traço semântico compatível ao do verbo da pergunta: a sequência discursiva. No que tange aos traços emitidos pelas categorias verbais de tempo, aspecto e modalidade estes não são retomados pelo entrevistado, uma vez que ele aciona a forma verbal tem, a qual – dentro do contexto em análise – codifica as noções de presente do indicativo, aspecto habitual e modalidade realis. Desta forma, contextos análogos ao que apresentamos em que apenas um traço semântico – ou nenhum dos traços, como referenciamos acima – presente no verbo da pergunta é mantido no verbo da resposta possuem grau de integração prototípica 1. Já na amostra (11), é possível identificarmos dois traços semânticos do verbo da pergunta que são mantidos na forma verbal da resposta, são eles o tempo verbal: imperfeito do subjuntivo; a sequência discursiva: opinativa. Já as noções aspectuais e modais emitidas pelos verbos da pergunta e da resposta não se correlacionam, visto que a forma verbal atendesse – utilizado na pergunta – comporta a noção de aspecto progressivo e modalidade irrealis; enquanto o verbo ativado na resposta – preocupasse – codifica o aspecto habitual e a modalidade negativa. Frente aos esclarecimentos acima, consideramos que os graus 1 e 2 estão correlacionados a encadeamentos [- integrados] e, consequentemente, mais marcados, já que – das quatro categorias controladas – constata-se a recuperação nula dos traços semânticos no pareamento verbo da pergunta > verbo da resposta ou a retomada de apenas um ou dois traços semântico-discursivos no verbo da resposta. Os contextos considerados [+ integrados] e, por conseguinte menos marcados, possuem graus 3 e 4 mostrando-se mais prototípicos, visto que – dos quatro traços semânticos controlados – três ou quatro categorias semântico-discursivas presentes no último verbo da pergunta feita pelo entrevistador se repetem no primeiro verbo utilizado pelo informante, conforme evidenciam os contextos (13) e (14). (13) E: Apesar de você não querer dar aula no ensino médio como você vê o ensino de química hoje no ensino médio? F: Ah mulher é uma coisa eu sou meio assim eu não gosto nem dessa pergunta porque eu não eu não boto muita fé do que se está se fazendo até agora até o momento assim os alunos não estão aprendendo de fato o que seja química eles estão decorando uns conceitozinhos lá vão para a prova eles me- mecanizam não é eles não aprendem a resolver as questões não interpretam a questão eles leem e é <<papum>> anotando o que vem na cabeça uma coisa mais decorativa (...) (se ita fp lq 06/GELINS) (14) E: Dentro desse campo da biologia assim como é que você vê o campo de trabalho tanto pra licenciado como pra pesquisador mesmo? F: Olhe licenciatura é um campo muito vasto... certo? é muito complicado é muito difícil um biólogo formado não conseguir um emprego na licenciatura sempre sempre tem é um campo que tem muito emprego a REM- a remuneração não é muito... boa ne? (se ita fp lq 10/GELINS) Nos exemplos acima, podemos constatar maior integração tópica à medida que as noções semânticas acopladas ao verbo final da pergunta engatilham três ou quatro traços no verbo da resposta. Em (13), o entrevistador usa o verbo vê na pergunta, já o informante recupera o tópico discursivo por meio da forma verbal é. As referidas formas compartilham três noções semântico-discursivas (grau 3): tempo – presente do indicativo; aspecto – durativo; modalidade – realis. O único fator controlado não compatível com o pareamento verbo da pergunta > verbo da resposta é a sequência discursiva, uma vez que os verbos utilizados pelo entrevistador e pelo informante evidenciam sequência discursiva opinativa e explicativa, respectivamente. O exemplo (14) codifica o grau de prototipicidade mais elevado, (grau 4) uma vez que todos os traços semântico-discursivos do verbo da pergunta são recuperados pelo informante no momento da resposta. As formas verbais vê e é – utilizadas na pergunta e na resposta – codificam os seguintes valores semânticos: tempo – presente do indicativo; aspecto – durativo; modalidade – realis; sequência discursiva – opinativa. Os dados coletados e codificados do corpus em estudo foram submetidos à análise estatística através do programa Goldvarb X (SANKOFF; TAGLIAMONTE; SMITH, 2005), conforme apregoa a metodologia sociolinguística. Após os esclarecimentos metodológicos expostos nesta seção, descrevemos e analisamos a seguir, os resultados obtidos por meio do tratamento estatístico dos dados. 4 Resultados e discussões Nesta seção, analisamos e discutimos os resultados obtidos a partir da codificação e do tratamento estatístico adotado para este estudo. Os resultados são apresentados por meio do pareamento aspecto da pergunta > aspecto da resposta, para que pudéssemos observar o grau de integração entre o verbo final da pergunta e o primeiro verbo utilizado pelo informante na resposta, a partir do controle das categorias semântico-discursivas, dentre as quais destacamos as de tempo, aspecto e modalidade, já que se mostraram estatisticamente mais significativas para os objetivos desta investigação. Os resultados estão dispostos nas tabelas abaixo. Na coluna vertical à esquerda, estão distribuídos os fatores relacionados à pergunta, os quais são comparados individualmente com os da reposta que estão na horizontal, para que seja possível mensurarmos a pertinência do efeito gatilho para manutenção do paralelismo tópico. 4.1 Correlação entre a categoria aspecto e a continuidade tópica Entre os fatores controlados está o aspecto verbal, arrolado como primeiro fator estatiscamente pertinente para o estabelecimento da continuidade tópica mediante o efeito gatilho. Foram codificados 168 contextos dentro do corpus em análise, por meio da categoria aspecto. Assim, podemos perceber que ao usar certa noção aspectual, o entrevistador tende a fazer – de maneira inconsciente – com que o informante utilize o mesmo tipo de aspecto na sua resposta, mantendo assim, um alto grau de integração aspectual, o qual propicia o paralelismo tópico. No âmbito deste estudo, analisamos cinco noções de aspectualidade: progressivo, durativo, pontual, interativo e genérico, assim cada noção aspectual é analisada em relação a todas as outras. Os resultados obtidos nos autorizam afirmar que o efeito gatilho se mostra mais produtivo no pareamento durantivo > durativo, isto é, quando o referido aspecto verbal é utilizado tanto na pergunta quanto na resposta. Das 72 ocorrências em que o durativo aparece na pergunta, 58 engatilham o durativo na resposta. Além de ser mais frequente, o encadeamento entre durativo > durativo, mantém alto grau de coerência tópica, na medida em que apresenta grau de integração 3, mantendo nesse nível a maioria das ocorrências, 52%. As demais correlações aspectuais que não são acionadas por meio do efeito gatilho apresentam-se [- integradas] quando correlacionadas ao verbo aspectual durativo, já que estão inseridas nos graus 1 e 2, desta forma a manutenção tópica discursiva ocorre em grau menos prototípico. É pertinente salientar que não há nenhuma ocorrência do aspecto genérico, o que nos leva crer que o uso do aspecto durativo na pergunta inibe a presença do aspecto genérico na resposta. Os resultados estão descritos na tabela 1. Tabela 1: Distribuição do grau de integração entre os verbos a partir do controle da categoria verbal aspecto Aspecto da pergunta Progressivo Durativo Progressivo 1 2 3 4 Total 1 Aspecto da resposta Durativo Pontual Iterativo Genérico Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % Freq. % 0 0 2 1 3 1 0 0 67% 33% 1 0 0 0 1 6 100% 0 0 0 0 0 0 0 0 6 0 0 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 1 0 0 1 0 0 100% 0 0 50% 10% 75% 100% 0 Total 1 1 2 1 5 17 Pontual Iterativo Genérico Total geral 2 3 4 Total 1 2 3 4 Total 1 1 0 0 2 0 3 0 0 3 0 2 3 4 Total 1 2 3 4 Total 0 0 0 0 0 0 0 0 0 8 50% 0 0 0 100% 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 14 30 8 58 6 0 0 0 6 0 1 0 1 2 1 2 0 0 3 70 24% 52% 14% 100% 0 0 0 0 50% 0 50% 33% 67% 0 0 1 1 0 8 1 8 21 21 51 0 12% 12% 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 60 0 0 0 2% 16% 41% 41% 0 100% 0 0 0 0 0 0 4 1 1 0 0 2 2 0 5 1 8 1 0 0 0 1 15 0 0 0 50% 50% 0 0 25% 0 62% 12% 100% 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 6 6 13 15 0 0 0 100% 0 0 0 0 0 0 0 0 8% 46% 46% 16 31 8 72 9 12 21 21 63 2 1 5 2 10 3 3 6 6 18 168 Mediante as estatísticas, percebe-se que o segundo aspecto mais produtivo no corpus Entrevistas Sociolinguísticas, é o aspecto pontual, ao passo que dos 168 contextos discursivos submetidos à análise, 63 correspondem ao uso do aspecto pontual na pergunta. Destes, 51 encontram-se no pareamento pontual > pontual, isto é, a maioria das ocorrências são ativadas pelo efeito gatilho, uma vez que o mesmo aspecto utilizado na pergunta se repete na resposta. A maioria das situações discursivas vinculadas ao encadeamento pontual > pontual se situam nos graus 3 e 4, ambos com percentual de 50%, promovendo, por meio do efeito gatilho, maior integração tópica. Os demais aspectos não engatilhados se mostram [- integrados], já que possuem traços menos prototípicos se comparado ao aspecto da resposta, possuem graus 1 e 2. No que concerne a atuação do aspecto genérico utilizado na pergunta, os resultados evidenciam que este não favorece o uso do aspecto progressivo na resposta. O referido aspecto é o terceiro mais recorrente na Entrevistas Sociolinguísticas. Das 18 situações relacionadas ao aspecto genérico da resposta, 13 engatilham o mesmo aspecto: genérico > genérico com graus 3 – 50% - e 4 – 50%, os quais possuem maior prototipicidade, mostrandose mais produtivo no que se refere à manutenção tópica discursiva. Os demais aspectos utilizados na resposta se localizam nos graus 1 e 2, assim, se mostram [- integrados], com menor traços prototípicos. O aspecto iterativo da pergunta é detectado em 10 contextos discursivos, correlacionados aos aspectos durativo – 2 ocorrências – e iterativo 8 dados. Desta forma, percebe-se que embora em menor frequência, em relação aos demais tipos aspectuais utilizados na pergunta, este também promove o efeito gatilho: o mesmo aspecto verbal utilizado na pergunta é retomado pelo informante na resposta – iterativo > iterativo – possuindo grau 3, com percentual de 62%, e consequentemente, mostrando-se [+ integrado], contrariamente ao aspecto durativo. Constata-se também que não há evidências estatísticas da correlação entre o aspecto iterativo na pergunta e os aspectos progressivo, pontual e genérico na resposta, assim a atuação do aspecto iterativo, quando empregado pelo entrevistador, bloqueia o encadeamento iterativo > progressivo, iterativo > pontual, iterativo > genérico na resposta do informante. O aspecto progressivo é o menos recorrente no corpus analisado. Abarca apenas 5 dos 168 contextos cotejados, ainda assim 3 deles correspondem ao uso do mesmo tipo aspectual na resposta: progressivo > progressivo, com percentual de 67%. Com relação ao grau de integração entre os verbos aspectuais, constatamos que o pareamento progressivo > progressivo se mostra [+ integrado], uma vez que possui grau 3 de integração, o qual propicia a manutenção tópica. Os 2 dados que não foram motivados pelo efeito gatilho possuem graus 1 e 2, ou seja, são menos prototípicos. A partir dos resultados apresentados, percebe-se a pertinência da categoria aspecto para a manutenção do tópico discursivo. Observamos que ao utilizar determinada noção aspectual, o entrevistador aciona um gatilho discursivo para que o informante, a partir de uma retomada tópica – a repetição aspectual – mantenha o paralelismo discursivo. Nossas analises evidenciam que quando o pareamento aspecto da pergunta > aspecto da resposta abarca o mesmo tipo aspectual, ocorre maior grau de integração, isto é, tornam-se [+ integrados], favorecendo assim, a continuidade tópica. 4.2 Correlação entre a categoria Tempo e a continuidade tópica Dentre as categorias analíticas controladas, o tempo foi arrolado estatisticamente como o segundo fator significativo para o estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho. Foram computados 173 contextos de ocorrências a partir do controle da categoria tempo. Os tempos verbais mais recorrentes no corpus Entrevista Sociolinguísticas foram os seguintes: presente, futuro do pretérito, pretérito perfeito, pretérito imperfeito e pretérito imperfeito do subjuntivo. Os dados evidenciam que o efeito gatilho é mais produtivo quando o tempo verbal presente aparece tanto na pergunta quanto na resposta. No total, das 173 ocorrências, 87 foram utilizadas na pergunta. Destas, 73 acionaram o uso do tempo verbal presente na resposta, promovendo o efeito gatilho: presente > presente. Quanto ao grau de prototipicidade, as ocorrências do pareamento presente > presente distribuíram-se em todos os graus, sendo que a maioria concentrou-se no grau 3, apresentando um percentual de 49%. O pareamento presente > presente obteve uma quantidade de ocorrências significativa de alto grau de prototipicidade, ou seja, em grau 4, com um percentual de 27% das ocorrências. As demais ocorrências de presente na pergunta que não promoveram o efeito gatilho na resposta, distribuíram-se nos demais tempos verbais, elencados acima, apresentando grau 1 ou grau 2, portanto, tratam-se de contextos [-integrados]. Na tabela 2, estão dispostos os resultados obtidos. Tabela 2: Distribuição do grau de integração entre os verbos a partir do controle da categoria verbal tempo Tempo da resposta Tempo da pergunta Presente Futuro do 1 2 3 4 Total 1 Presente Freq. 2 15 36 20 73 0 % 3% 21% 49% 27% 0 Futuro do pretérito Freq. 3 0 0 0 3 0 % 100% 0 0 0 0 Pretérito perfeito Freq. 6 0 0 0 6 0 % 100% 0 0 0 0 Pretérito imperfeito Freq. 1 1 0 0 2 0 % 50% 50% 0 0 0 Imperfeito do subjuntivo Freq. % 3 100% 0 0 0 0 0 0 3 0 0 Total 15 16 36 20 87 0 pretérito Pretérito perfeito Pretérito imperfeito Imperfeito do subjuntivo Total geral 2 3 4 Total 1 2 3 4 Total 1 2 3 4 Total 1 2 3 4 Total 1 0 0 1 6 1 0 0 7 1 1 0 0 2 5 1 0 0 6 89 100% 0 0 86% 14% 0 0 50% 50% 0 0 83% 17% 0 0 0 5 1 6 2 0 0 0 2 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 12 0 83% 17% 100% 0 0 0 0 100% 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 8 18 16 42 3 1 0 0 4 1 0 0 0 1 53 0 0 0 0 19% 43% 38% 75% 25% 0 0 100% 0 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 2 0 1 4 1 6 0 0 0 0 0 10 0 0 0 50% 50% 0 0 0 17% 67% 17% 0 0 0 0 0 0 0 0 2 1 0 0 3 0 0 0 0 0 1 0 2 0 3 9 0 0 0 67% 33% 0 0 0 0 0 0 33% 0 67% 0 1 5 1 7 11 11 18 16 56 4 4 4 1 13 7 1 2 0 10 173 A partir da leitura da tabela 2, constata-se que o segundo tempo verbal mais recorrente no corpus em análise foi o pretérito perfeito. Das 173 ocorrências computadas, 56 foram utilizadas pelos informantes na pergunta no tempo verbal pretérito perfeito. Assim como aconteceu com o tempo verbal presente, a maioria das ocorrências de pretérito perfeito nas perguntas acionou o mesmo tempo verbal na resposta promovendo o efeito gatilho. O encadeamento pretérito perfeito > pretérito perfeito foi constatado em 42 contextos discursivos. A maioria destes apresentaram grau 3 de integração com um percentual de 43%, portanto, [+ integrados]. As ocorrências em grau 4 do encadeamento pretérito perfeito > pretérito perfeito foram bastante significativas apresentando um percentual de 38% das ocorrências, o que evidencia um alto grau de continuidade tópica nestes contextos. As 14 ocorrências de pretérito perfeito na pergunta que não promoveram o efeito gatilho acionaram os demais tipos verbais constatados no corpus em análise, apresentando grau 1 ou grau 2, mostrando-se menos integrado [-integrados]. No caso das ocorrências de pretérito perfeito na pergunta, um total de 13; 6 engatilharam o mesmo tempo verbal: pretérito imperfeito > pretérito imperfeito. Destas, 4 possuem grau 2 de prototipicidade , 1 grau 3 e apenas 1 verbo da resposta apresentou os mesmos traços do verbo da pergunta – grau 4. As demais ocorrências distribuem-se nos outros tempos verbais, com exceção do imperfeito do subjuntivo. O imperfeito do subjuntivo foi o quarto tempo verbal mais recorrente nas Entrevistas Sociolinguísticas analisadas, detectados 10 contextos. Os dados presentes na tabela evidenciam que o uso desse tempo verbal na pergunta acionou na resposta verbos conjugados no presente - 6 ocorrências 5 com grau 1 e 1 com grau 2; no pretérito perfeito –1 ocorrência com grau 1; e no imperfeito do subjuntivo - 3 ocorrências, 1 com grau 1 e 2 com grau 2. Ao contrário dos outros tempos verbais, o efeito gatilho imperfeito do subjuntivo > imperfeito do subjuntivo não obteve o maior número de ocorrências quando o imperfeito do subjuntivo era utilizado na pergunta. O tempo verbal menos recorrente no corpus em análise foi o futuro do pretérito com apenas 7 ocorrências. O uso do futuro do pretérito na pergunta ativou o uso dos tempos verbais no presente – 1 ocorrência com grau 2; e no futuro do pretérito – 5 com grau dois e 1 com grau 4. Desta forma, o pareamento futuro de pretérito > futuro do pretérito obteve o maior numero de ocorrências quando se tinha na pergunta este tempo verbal. Assim, a partir dos resultados obtidos com o controle da categoria tempo, constatouse que a categoria tempo é um importante valor para o estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho, com exceção apenas do imperfeito do subjuntivo, conforme ressaltamos. 4.3 Correlação entre a categoria modalidade e a continuidade tópica Seguindo a ordem de significância estabelecida pelo programa estatístico, o tipo de modalidade foi arrolado como o terceiro fator mais relevante para o estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho. As estatísticas revelam que dentre os tipos de modalidade controlados, a realis é a mais produtiva no que se refere ao estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho. Dentre um total de 168 ocorrências, 75 delas estão vinculadas à referida modalidade quando utilizada na pergunta. Destas, 30 vinculam-se à modalidade realis da resposta. Assim, constata-se que na maioria dos contextos discursivos em que a modalidade realis é ativada na pergunta, esta é retomada pelo informante na sua resposta: realis > realis, mantendo graus 3 e 4 de integração tópica com percentual de 33% e 42%, respectivamente. O encadeamento realis > negativo ocorre em apenas 3 contextos, mantendo menor grau de integração, já que a maioria dos dados se situam no grau 2. A partir das estatísticas, nota-se que a modalidade realis da pergunta não aciona a modalidade irrealis na resposta, assim, a resposta dada é sempre realis ou negativa, dentro do corpus analisado. Tal resultado é bastante previsível, pois quando o entrevistador faz uma pergunta que denota certeza, existem poucas chances de o informante responder com um verbo impreciso, já que as Entrevistas Sociolinguísticas foram organizadas de modo que o tópico discursivo se direcionasse para a experiência do próprio falante. A tabela 3 mostra a distribuição dos resultados obtidos. Tabela 3: Distribuição do grau de integração tópica a partir do controle da categoria verbal modalidade Modalidade da resposta Realis Irrealis Negativa Total Modalidade da pergunta 1 Realis Irrealis Total geral 2 3 4 Total 1 2 3 4 Total Freq. % Freq. % Freq. % 8 11% 0 0 0 0 8 10 24 30 72 19 14 29 4 66 138 14% 33% 42% 0 0 0 0 0 4 4 4 12 12 0 0 0 2 1 0 3 5 3 7 0 15 18 67% 33% 0 12 25 30 75 24 21 40 8 93 168 29% 21% 44% 6% 0 33% 33% 33% 33% 20% 47% 0 De um total de 168 ocorrências ligadas à categoria de modalidade, 93 referem-se a contextos em que a modalidade irrealis aparece na pergunta. Como podemos verificar por meio da tabela 3, a correlação irrealis > realis concentra 66 ocorrências mantendo um grau de coesão tópica 3, com percentual de 44%. O mesmo grau de integração se mantém com a modalidade negativa – 47% - com frequência de 15 dados, embora a frequência dos contextos seja menor. Com relação ao pareamento irrealis > irrealis, este se mostra estatisticamente insignificante, uma vez que as 12 ocorrências estão igualmente distribuídas entres os graus de integração, impedindo assim, com que tenhamos uma precisão no que se refere ao nível de manutenção tópica emitido. A par do que expomos, constata-se que a modalidade realis quando utilizada na pergunta, proporciona um efeito gatilho na resposta. Já a modalidade irrealis – acionada na pergunta – evidencia limites bastante tênues no que se refere à identificação prototípica da continuidade tópica, devido ao seu grau tópico impreciso. 5 Considerações finais Neste estudo, buscamos observar os graus de integração tópica entre verbo da pergunta > verbo da resposta, motivados pelo efeito gatilho. Para isso, controlamos alguns fatores semântico-discursivos, dentre os quais destacamos as categorias verbais de tempo, aspecto e modalidade, devido à significância estatística. Constatamos que entre as categorias analisadas o aspecto é o fator que mais propicia a continuação tópica a partir do efeito gatilho, já que todos os tipos aspectuais ativados na pergunta eram retomados pelo informante na resposta. Entre os aspectos controlados, os que mais promoveram o estabelecimento do tópico discursivo foram os aspectos durativo e pontual: durativo > durativo; pontual > pontual. A categoria verbal de tempo foi cotejada como o segundo fator que favorece maior integração tópica, com exceção apenas do imperfeito do subjuntivo – o qual aciona o tempo presente na resposta. Os demais tempos verbais quando utilizados na pergunta engatilham o mesmo tempo verbal na resposta, com destaque para os tempos presente e pretérito perfeito: presente > presente; pretérito perfeito > pretérito perfeito, devido à alta recorrência destes tempos verbais no corpus analisado. Das três categorias verbais controladas, a modalidade é a que menos gerencia o tópico discursivo mediante o efeito gatilho, apenas a modalidade realis proporciona a mesma retomada modal por parte do falante: realis > realis; a modalidade irrealis embora apresente algumas ocorrências, estas se distribuem de maneira que impossibilita a identificação do seu grau de integração tópica. Além das categorias verbais, também controlamos o tipo de sequência discursiva. No entanto, os resultados estatísticos demonstraram que o tipo de sequência não é um fator significativo para o estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho em entrevistas sociolinguísticas. Diante dos resultados apresentados, constatamos a pertinência das categorias verbais para o estabelecimento da continuidade tópica por meio do efeito gatilho, principalmente as categorias de tempo e aspecto. Para finalizar, convém ressaltar a escassez de estudos que analisem o estabelecimento da continuidade tópica em textos falados por meio do efeito gatilho, evidenciando assim, a importância de se realizar estudos neste âmbito do saber. Referências BORBA COSTA, Sônia B. O Aspecto em Português. 3ª. ed. São Paulo: Contexto, 2002. COSTA, Ana Lúcia. O futuro do pretérito e suas variantes no português do Rio de Janeiro: um estudo diacrônico. 2007. Tese (Doutorado em Linguística). Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2003. FREITAG, Raquel Meister Ko. A expressão do passado imperfectivo no português: variação/gramaticalização e mudança. 2007. Tese (Doutorado em Linguística). Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2007. GIVÓN, Talmy. Compreendendo a gramática. Trad. Maria Angélica Furtado da Cunha; Mário Eduardo Martelotta; Filipe Albani. Natal: EDUFRN, 2011[1984]. GIVÓN, Talmy. 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