IN THE BASIN OF UATUMÃ : AN ATTEMPT OF AN ASSOCIATION BETWEEN ROCK
SITES AND CERAMICS.
NAS FRONTEIRAS DO UATUMÃ – UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS
RUPESTRES E CERÂMICOS.
Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
Fundação Municipal de Cultura e Turismo- MANAUSCULT
Centro Universitário Nilton Lins - UNINILTONLINS
[email protected]
Resumo
O Programa de Salvamento do Patrimônio Cultural e Arqueológico na área do reservatório da UHE-Balbina-AM,
o SAUHEB, revelou a existência de 21 sítios com gravações rupestres e o primeiro sítio com pictoglifos do
Estado do Amazonas documentado até a atualidade - a Gruta do Batismo. Os petroglifos registrados encontramse ao longo do médio e alto curso dos principais rios afetados pelo impacto do empreendimento da usina
hidrelétrica: o Uatumã e Pitinga. Em seus afloramentos rochosos as gravuras apresentam distinções quanto aos
motivos representados: Máscaras e combinações de retas e círculos nas margens do Uatumã em contraponto as
figuras antropomorfas e zoomorfas de seu afluente Pitinga. Considerando-se a análise do material cerâmico de
ambos os rios, propõe-se uma possibilidade associativa dos sítios rupestres e cerâmicos delimitados por esses
cursos naturais de águas. A Tradição Polícroma do rio Uatumã datada de cerca de 900AP, relaciona-se a uma
cultura de bases sedentárias, combinando-se as gravuras de máscaras e geometrizadas indicadoras de culturas
sócio- estratigraficamente organizadas. No rio Pitinga, a cerâmica encontrada sem elementos decorativos,
temperada com simples partículas arenosas, não foi possível ser filiada a nenhuma tradição arqueológica. Sua
origem data de cerca de 2000AP e possivelmente está relacionada a grupos semi-sedentários e aos sítios rupestres
de figuras antropomorfas e zoomorfas. Para que seja ultrapassado o campo da hipótese novas áreas devem ser
pesquisadas com esse objetivo, buscando indicadores naturais que possam converger para um aprofundamento
quanto as possibilidades de interações arqueológicas nos métodos de análise, visando levantamentos que auxiliem
na corroboração de indícios sobre as influências da Arqueologia no Estado do Amazonas.
Palavras chaves: Uatumã – Pitinga, Petroglifos, Amazonas.
Abstract
The rescue program of the cultural heritage and archaeological in the reservoir area of the UHE-Balbina-AM, the SAUHEB,
revealed the existence of 21 sites with rock carvings and the first site with pictoglyphs of the Amazon State documented till the present
– the Cave of Baptism. The petroglyphs are recorded along the middle and upper reaches of major rivers affected by the impact of the
development of hydroelectric: The Uatumã and Pitinga. In its rocky outcrops the petroglyphs have provisions on the grounds
represented: masks and combinations of straight and circles in the banks of Uatumã opposed figures anthropomorphic and zoomorphic
of the affluent Pitinga. Considering the analysis of the ceramic material of both rivers, propose a possible associative to the rock sites
and ceramic delimited by these natural water courses. The polychrome tradition the Uatumã river, dated around 900AP, relates to a
culture of sedentary bases, combining the masks engravings and geometrized indicating cultures stratigraphically organized. In the
Pitinga river, the ceramic found without decorative elements, seasoned with simple sandy particles, it was not possible to be affiliated to
any archaeological tradition. Its origin dates from around 2000AP and possibly it’s related to semi-secondary groups and rock sites of
anthropomorphic and zoomorphic figures. To be exceeded the field of hypothesis new areas should be investigated with this goal,
searching natural indicators that converge to a deepening, on the study of the archaeological roots, aiming surveys that help in
corroborating of evidence about the archaeological influences in the Amazon State.
Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
Introdução
A importância do estudo, da arte rupestre é
imensa, tanto que em todo o mundo, existem
associações que dedicam-se inteiramente a
este campo da Arqueologia, como a Sociedad
de Investigación de Arte Rupestre de Bolivia
(SIARB), o Centro de Investigación de Arte
Rupestre de Uruguay (CIARU), a Associação
Brasileira de Arte Rupestre (ABAR), a
Australian Rock Art Association (AURA)
entre outras. Com a criação da Federação
Internacional das Organizações de Arte
Rupestre (IFRAO) que serve de fórum de
debate e intercâmbio entre essas associações,
códigos de ética foram estabelecidos,
publicações específicas foram lançadas,
congressos realizados e projetos de pesquisa e
proteção destes sítios ganharam impulso de
maneira global.
124
A região Amazônica contém um infindável
número de sítios com petroglifos. Ao navegar
qualquer afluente do rio Amazonas,
invariavelmente,
encontrar-se-ão
sítios
rupestres. Desde os contrafortes andinos até o
litoral do Pará, este tipo de evidência
arqueológica se faz presente. Ao se fazer um
levantamento dos trabalhos sobre arte
rupestre no Estado do Amazonas ver-se-á
uma raridade de trabalhos no Amazonas que
em um primeiro momento pode dar uma falsa
idéia de que o estado possui poucos sítios
rupestres. Mas na realidade estes poucos
trabalhos são o resultado do desinteresse de
pesquisadores sobre a arte rupestre no
Amazonas, somado aos obstáculos gerados
pelo período das chuvas no Estado, deixando
submersos os afloramentos rochosos que
possam conter petroglifos.
registro cento e sessenta e cinco sítios
arqueológicos, dos quais vinte e dois destes
eram de arte rupestre.
Localização e ambiente
O
Município
Presidente
Figueiredo
desenvolveu-se no nordeste do Estado do
Amazonas,
à
aproximadamente
cem
quilômetros de Manaus, às margens da BR174 que liga a capital à Boa Vista. O
Município tem uma área de 24.781 km2 e sua
fronteira está delimitada a partir dos
municípios de Urucará, São Sebastião do
Uatumã, Itapiranga, Rio Preto da Eva, Novo
Airão, com a capital Manaus e com o Estado
de Roraima.
Figura 1. Mapa de localização do município
de Presidente Figueiredo – Imagem: Arquivo
pessoal.
Este trabalho se relaciona ao resultado do
Salvamento Arqueológico realizado na área do
Reservatório da Usina Hidrelétrica de Balbina,
em 1987, sob a ótica de uma inter-relação
arqueológica entre os sítios ali encontrados.
Este é um dos Municípios mais ricos do
Estado. Além da UHE-Balbina, está inserida
em seu território a maior mina de cassiterita
do Amazonas, a mina do Pitinga, beneficiada
pela mineração Taboca, subsidiária do Grupo
Paranapanema. Dentro do seu território,
também está inserida a Área de Proteção
Ambiental Abrigo Maruaga, a Reserva
biológica do Uatumã e a Reserva Indígena
Waimiri-Atroari.
A hidrelétrica está localizada no Município de
Presidente Figueiredo, no Estado do
Amazonas, e este salvamento obteve como
A região é conhecida pela sua elevada
biodiversidade, formando um conjunto de
ecossistemas super complexos, onde se
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
observam dois ecótipos distintos: o da
Floresta de Baixa Altitude, que ocupam os
terrenos mais jovens (Quaternário) e alguns
platôs (Terciário); e o da Floresta submontana, que ocupa áreas onde predominam
afloramentos de rochas paleozóicas e précambrianas. Também pode ser verificada a
ocorrência das chamadas matas de igapó,
encontradas nas margens de rios, lagos e
igarapés. De acordo com (Muller & Carvalho,
2005:1035);
Do ponto de vista geológico, no município
são identificados dois grandes domínios: um
domínio representado por rochas ígneas e
metamórficas e pacote sedimentar (Formação
Prosperança), de idade Proterozóica, os quais
representam os terrenos do embasamento
regional, relacionados ao Escudo das Guianas,
na porção Setentrional do Cráton Amazônico;
o segundo domínio engloba essencialmente os
sedimentos da Bacia do Amazonas (Grupo
Trombetas), de idade Paleozóica.
A região em estudo foi delimitada pela bacia
do rio Uatumã que drena as rochas graníticas
e efusivas ácidas, pertencem a Suíte intrusiva
Mapuera e Abonari, que faz parte da
formação sete quedas, componente do grupo
Iricoumé. Como explica (Müller, Motta,
Carvalho & Souza 2007: 2080):
quadrados (24.782 km²), sob a altitude de
cento e vinte dois metros em relação ao nível
do mar. Atualmente segundo dados
atualizados pelo senso do IBGE 2008, a
cidade conta com uma população de vinte e
cinco mil quatrocentos e setenta e quatro mil
habitantes (25.474), sob um clima tropical
Amazônico, ou seja, quente e úmido.
UHE Balbina
A UHE-Balbina está situada a setenta e dois
quilômetros da BR-174, com acesso no
quilômetro cento e dois dessa rodovia,
cortada por uma via estadual, AM 240, que
possibilita o acesso viário a esta usina Os
primeiros passos para a implantação da Usina
foram dados no início dos anos 70, com os
estudos da viabilidade que culminaram com a
autorização para sua construção em 1976.
Essa hidrelétrica alagou 2460 Km2 de floresta,
interferiu em dois grupos culturais – os
ribeirinhos e os Waimiri – e produz apenas
250 MW de energia, tornando-se o quilowatt
de energia mais caro do Brasil, em relação aos
danos causados aos patrimônios paisagístico,
ecológico e cultural.
Constituído
por
rochas
vulcânicas,
intermediárias a ácidas, não metamorfizadas,
no município essa unidade é representada por
dacitos, traquidacitos e andesitos básicos, de
textura porfirítica com fenocristais de
feldspato e de hornblenda em matriz afanítica
que variam de cinza esverdeada a cinza
arroxeada, além de ocorrências localizadas de
rochas piroclástica.
Juridicamente, Presidente Figueiredo passa a
existir a partir de 1979, recebendo este nome
em homenagem ao primeiro governador da
província do Amazonas, João Baptista
Figueiredo Tenrreiro Aranha, com uma área
correspondente a vinte e quatro mil
setecentos e oitenta e um quilômetros
Figura 2. Mapa de localização da UHE
Balbina - Imagem: Arquivo pessoal.
GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I
Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL
125
Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
126
Uma tentativa de minimizar este impacto só
começou a ser posta em prática a partir de
1986, ou seja, dez anos após ser autorizada a
construção da usina hidrelétrica. Neste
momento, surgiram os primeiros contatos
para o resgate do Patrimônio Cultural e
Arqueológico na Área do Reservatório da
UHE-Balbina e seu entorno – SAUHEB –
passando a ocorrer, efetivamente, a partir de
abril de 1987, há exatamente seis meses para o
fechamento das comportas, previsto para
outubro daquele ano. O salvamento
arqueológico só foi possível graças a um
convênio firmado entre as Centrais Elétricas
do Norte do Brasil S. A. (ELETRONORTE)
e o Conselho Estadual de Defesa do
Patrimônio Histórico e Artístico do
Amazonas (CEDPHA). A etapa de campo foi
chefiada pela arqueóloga Maria Arminda
Mendonça de Souza e posteriormente a
análise de laboratório dos sítios lito-cerâmicos
foi coordenada pelo arqueólogo Eurico Th.
Miller.
A área do Reservatório da UHE Balbina,
nome originado a partir da principal queda
d’água que compõe a usina, é banhada pelo
Rio Uatumã, formado pelo igarapé Santo
Antônio do Abonari, tendo um de seus
principais afluentes o Rio Pitinga.
Arqueologia no Uatumã
A partir de 1979 acontece a primeira pesquisa
arqueológica na área levada a cabo pelo museu
Paraense Emilio Goeldi, patrocinada pelo
Smithsoniam Institute e dirigida pelo
arqueólogo Mario Simões. A área pesquisada
abrangia o baixo rio Uatumã, desde a sua foz
até o rio Bacabudá, o baixo curso do rio
Maripá e baixo do baixo Jatapu.
Nesta área foram localizados e pesquisados 21
sítios arqueológicos, agrupados em três fases:
Urucará, Jatapu e Uatumã as duas primeiras
são filiadas a tradição Inciso-Ponteada e outra
pertence à tradição Polícroma sub-tradição
Saracá (Simões & Corrêa, 1987. p. 29 – 26).
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
A fase Urucará caracterizada por apresentar
um complexo lítico composto de percutores,
lâminas-demachado e moedores. A cerâmica é
temperada com cauxi, cauixi+cacos moídos,
cauxi+cariapé e cariapé. Quanto à decoração,
as mais populares são o engobo vermelho, a
pintura bi e polícroma, vários tipos de inciso,
acanalado, ponteado modelado e associações
entre os tipos decorados, sendo que 85% dos
fragmentos da amostra são do tipo simples.
Esta fase não possui nenhuma datação de C14 quanto às formas dos vasos, estes são
globolares, semi-esféricos pratos e tigelas. As
bordas podem ser diretas, reforçadas
externamente, extrorvetidas, cambada e
planas. O padrão de ocupação pode ser
descrito como sítios em áreas de capoeiras em
locais com altura variando entre 14 e 17
metros, sob planta elíptica irregular com 60
cm de profundidade sem evidência de
sepultamento.
A outra fase da tradição Inciso Ponteada, a
fase Jatapu, caracteriza-se por apresentar um
material Lítico com raspadores, percutores,
afiadores de caneluras e lâminas-de-machado.
O complexo cerâmico apresenta como
principal tempero cauixi seguido pelo cariapé,
carvão e cauixi + carvão, já os tipos decorados
mais populares são o engobo vermelho, o
pintado, vários tipos de inciso, modelados,
ponteados, polido e diversas associações entre
tipos decorados. O sítio AM-UR-10 no corte
01 nível 30-40 cm foi datado por C-14 e
apresentou uma data de A.D. 920. Os sítios
desta fase estão localizados em áreas de
capoeira, em locais com altura variando entre
11 e 45 m, as plantas desses sítios são,
geralmente, elípticas, mas menores que os da
fase anterior, porém, com a mesma
profundidade. Em um dos sítios foram
encontradas urnas de sepultamento, fora da
área de habitação. As formas dos vasos são
semelhantes às descritas anteriormente.
Toda a extensão do rio Uatumã a sub-tradição
Saracá da tradição Polícroma da Bacia
Amazônica e no seu médio e alto curso onde
surgem os afloramentos rochosos a presença
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
de sítios petroglifos associado a grupos
horticultores. A fase Uatumã da tradição
Polícroma, tem seus sítios localizados em
mata de capoeira e com altura variando entre
11 e 45 de raspadores, facas, percutores,
abrasadores de caneluras e lãminas-demachado. Já o material cerâmico é
predominantemente temperado com cauxi,
vindo depois o cariapé e o cauxi + cariapé. Os
tipos mais comuns são o engobo vermelho,
pintado, diversos incisos, exciso, acanalado,
escovado, raspado, vários tipos de ponteado, e
associações entre tipos decorados. Esta fase
apresenta diversos artefatos como rodas-defuso, suportes-de-panela e cacos reutilizados
como abrasadores de caneluras.
engobo, o pintado, o corrugado simples, o
ponteado, o ungulado, diversos incisos,
acanalado, exciso, escovado, modelado,
roletado, associações entre tipos decorados e
esporadicamente marcados com corda. O
material lítico da Caparú é composto de
lâminas-de-machado e algumas lascas com
retoque.
A fase Caparú e estilo Timehri
Localizado no nordeste do Estado do
Amazonas, o rio Uatumã, surge na literatura
de viajantes e cientistas que chamavam a
atenção para as gravações de máscaras nos
matacões às margens do rio. Era bastante
comum atribuir a estes sinais caráter
religiosos, afirmando que elas assinalavam a
existência de uma necrópole.
Neste rio, encontra-se a Tradição Polícroma
da Bacia Amazônica nas Fases Uatumã e
Caparu datada entre 1000 e 430 anos AP, na
mesma região onde se localiza a maior
concentração de gravuras de motivos culturais
como as máscaras, permitindo uma associação
destas ao período sedentário de ocupação
humana
pré-histórica,
a
partir
do
desenvolvimento da prática horticultora,
supostamente acompanhados de rituais e
homenagens à fertilização da terra, cultuados
com intuito de garantir os ciclos de colheita.
As máscaras podem representar alguns desses
signos enigmáticos, que nesta região
encontram-se sob a mesma área onde foi
possível detectar a fase Caparu, identificada
em quatro sítios arqueológicos. Os principais
temperos encontrados são areia média,
cariapé, areia grossa, feldspato, areia fina e
cauixi, respectivamente. Há uma grande
variação de material decorado como, o
127
Figura 3. Fase Caparú- Lâminas de machado –
Imagem: Arquivo pessoal.
Figura 4. Cerâmica Fase Caparú – Imagem:
Arquivo pessoal
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Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
128
A Classe Rupestre Timehri, proposta por
Denis Willians (1985), foi associada aos
grupos horticultores. São compostas por
motivos geométricos, antropomorfos e
máscaras, podendo ser apenas a parte superior
ou a figura completa, ou seja, com toda a
vestimenta, que se caracteriza de acordo com
sua formação geométrica, podendo ser: 1 –
Redonda, aparecendo com três pontos que
representam olhos e boca, mas sem o nariz
desenhado. Este tipo apresenta algumas
variações, ocorrendo também evidências de
apêndices designando orelhas. 2 – Triangular,
com olhos nariz e boca representados, 3 –
Lunar, com registros de pequenos
prolongamentos retilíneos na parte superior
da máscara, 4 – Quadrada, com olhos
representados, e às vezes boca.Neste estilo
observa-se a ausência de registros zoomorfos.
Na região de Balbina verifica-se a ligação
deste estilo Rupestre à Fase Caparu no Rio
Uatumã, onde ocorrem evidências de registros
rupestres semelhantes aos citados por
Willians.
No rio Uatumã, foram encontrados três, dos
quatro formatos citados por Willians, ficando
ausente apenas o tipo lunar, com uma
observação interessante que a forma de
representação quadrada aparece como pintura
na Gruta do Batismo, fazendo parte do único
conjunto pictoglifos evidenciados até o
presente no estado do Amazonas. Os detalhes
desta máscara exibem a representação dos
olhos, dois traços que demonstram uma
pintura facial e um artefato craniano, ou seja,
prolongamentos lineares perpendiculares a
parte superior da máscara.
Dentro das perspectivas de inter-relação entre
os estilos propostos por Willians e as
representações rupestres encontradas na bacia
do rio Uatumã, delineia-se a formação de uma
subdivisão de dois estilos rupestres
classificados como: 1- Uatumã – Abonari,
correlacionado ao Timehri, 2- Pitinga
correlacionado ao estilo Aishalton, também
proposto por Willians, tendo sua correlação
observada a partir da abrangência na área do
alto rio Pitinga, em que as evidências rupestres
estão associadas a uma cerâmica mais
rudimentar, que será relatado neste trabalho
posteriormente.
Sítios rupestres estilo Uatumã – Abonari
Caracteriza-se por maior freqüência de
registros geométricos e antropomorfos
incluindo ainda motivos culturais como as
máscaras. Um dos mais importantes sítios
registrados foi o da Cachoeira Balbina – AMUR-47, que apresenta um total de 24
petroglifos, a maioria em razoável estado de
conservação. Em relação às gravações há um
domínio
numérico
do
geométrico,
representado de diferentes formas.
Figura 6. Frequência de motivos rupestres no
rio Uatumã - Imagem: Arquivo pessoal
Figura 5.
Máscara
estilo
Uatumã AbonariGruta do Batismo
Imagem: Arquivo
pessoal
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
A técnica utilizada na confecção dos
petroglifos foi o picoteamento. O primeiro
petroglifo assinalado foi um antropomorfo
desenhado de maneira esquemática, assim
como todas as representações naturalistas da
bacia do rio Uatumã. Estava em péssimo
estado de conservação em função do desgaste
provocado pelo intemperismo fluvial. A
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
visualização da gravação só foi possível pelo
fato dele estar voltado para o rio e, por
coincidência, para o pôr-do-sol, pois é
justamente no crepúsculo, a hora em que é
mais nítido o desenho, mas mesmo assim
tornou-se necessário umedecer a pedra para
que fosse possível perceber alguns sulcos
como os membros inferiores e superiores e o
tronco, representados por retas, terminando
em círculos concêntricos ou não.
boca é feita através de um retângulo com três
divisões que devem ser representações de
dentes. Abaixo da máscara existe um traço
com uma protuberância localizada sob a
representação da boca, as pontas desse traço
terminam em espirais, assim como os traços
que limitam a máscara. No lado direito existe
um traço sinuoso.
O segundo antropomorfo encontrado está
localizado próximo ao primeiro, porém,
virado para montante do rio e sem sofrer
diretamente o impacto de abrasão causado
pela sucessiva subida e descida do nível do
espelho d’água, pois, está localizado mais à
margem do rio que a gravação número um,
que, por sua vez, situa-se às pedras que
formam a cachoeira Balbina.
O terceiro e quarto antropomorfos
encontrados apresentam maior simetria em
sua constituição, um dos quais foi exposto no
Museu de Balbina, criado na época para
exposição da cultura material encontrada
durante o salvamento arqueológico da usina e
outros organismos integrantes do ecossistema
local, como animais empalhados que
morreram na criação da barragem e
representações da fauna e flora local.
Atualmente este museu encontra-se fechado
devido ao estado de conservação de sua
estrutura apresentar riscos ao público
visitante, aguardando que os responsáveis pela
sua manutenção e conservação possam
resgatar a história contida neste museu.
Neste sítio existe ainda a representação de
duas máscaras, ambas desenhadas de formas
diferentes. A primeira é triangular, tem os
olhos, nariz e boca (com dentes)
representados, sendo o nariz na forma de uma
haste reta que ultrapassa a parte superior da
máscara terminando em duas volutas. Na
parte inferior da haste, há duas pequenas retas
que fazem a ligação como os olhos, que por
sua vez são representados por círculos simples
com um ponto no centro, a representação da
Figura
7. Máscara estilo Uatumã Abonari Imagem: Arquivo pessoal
A segunda máscara tem a forma arredondada,
com os olhos representados por semicírculo,
o nariz também é representado em forma de
haste que ultrapassa a parte superior da
máscara e termina em uma voluta, a boca é
representada sem os dentes e tem a forma
oval. Nos dois lados da máscara existe a
gravação de uma linha curva. Na parte
superior
da
máscara
gravado
três
prolongamentos lineares em cada canto. Esta
máscara hoje está no Museu de Balbina, e
como está exposta na parte externa, sofre a
ação de vândalos (que escrevem seus nomes
na rocha) e as novas condições atmosféricas
acabam por destruir o já frágil desenho.
Figura 8. Máscara
redonda
estilo
Uatumã Abonari –
Imagem: Arquivo
pessoal
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Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL
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Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
Neste sítio há uma grande variedade de
representações geométricas. Encontram-se
gravados nas rochas, círculos, círculos
concêntricos, retas e combinações de círculos
e retas. Junto à margem há gravações de três
círculos, sendo um simples e dois
concêntricos, todos voltados para o rio e em
excelente estado de conservação. O círculo
simples foi gravado em cima dos outros, os
concêntricos foram gravados um ao lado do
outro, sendo que o do lado esquerdo do
observador possui apenas dois círculos e o do
lado direito possui três círculos concêntricos.
Estas são as únicas representações do sítio
AM-UR-47 que formam um conjunto.
O geométrico mais complexo encontrado no
AM-UR-47, é semelhante ao que Williams
denomina de Fish Trap (armadilha de peixe).
Este petroglifo é composto por uma série de
retas e um círculo.
130
Sítio Corredeira Anamã - AM-UR-50
Segundo sítio petroglifo encontrado pela
equipe do SAUHEB, assim como o anterior
está localizado na margem esquerda do rio
Uatumã, um pouco mais a montante que o
primeiro. Este sítio apresenta um total de seis
sinalações, sendo duas máscaras, três
geométricas e uma indefinida. Todas as
gravuras estão voltadas para o leito do rio, em
péssimo estado de conservação. A técnica
utilizada na confecção dos petroglifos também
foi o picoteamento.
Figura 9. Corredeira Amanã - Ano 1987 –
Imagem: Arquivo pessoal
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
O primeiro petroglifo localizado e, portanto o
mais abaixo deles, foi uma máscara totalmente
abstrata sem representação de nariz ou boca,
mas, com ou olhos marcados. Ainda neste
sítio foi localizada a segunda máscara que tem
a forma quadrangular e tem representado os
olhos, nariz e boca e com um ponto abaixo da
parte mediana da boca. A forma dessa
máscara é quadrada e muito parecida à
encontrada no sítio Gruta do Batismo, AMUR-40.
Das outras três restantes, duas são
representações da forma tipográfica da letra
“C” e outras composições de retas e círculos.
Sítio Molequinho - AM-UR-62
Também localizado na margem esquerda do
rio, logo após o igarapé Jauari, este sítio
apresenta um total de cinco sinalações: dois
antropomorfos, dois geométricos e um
petroglifo incompleto. O estado de
conservação das gravuras também é de
desgaste natural.
A primeira gravação assinalada é um
geométrico com quatro retas, que se cruzam
formando ângulos de 90°. Há também a
evidência de um antropomorfo representado
por uma reta designando o tronco, um círculo
cheio assinalando a cabeça. Os membros
inferiores e superiores estão representados
por retas com as extremidades curvas. O
terceiro é o petroglifo incompleto, pois apenas
a parte superior do petroglifo está visível e é
um círculo vazio representando possivelmente
a cabeça, não podendo ser analisado ao certo
o tipo de representação desta figura.
Sítio Pedra Pintada- AM-UR-65
Este sítio foi localizado na margem direita do
igarapé. Apresenta um total de quatro
sinalações em bom estado de conservação,
sendo três geométricas e uma cultural (uma
máscara associada a uma série de retas e
círculos). Esta máscara, que tem forma oval,
possui olhos representados por pequenos
círculos vazios com um ponto o centro e uma
reta na parte inferior supondo uma boca. A
máscara está ligada a uma sucessão de retas e
curvas que formam retângulos. Este é o
petroglifo mais complexo encontrado na bacia
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
do rio Uatumã e serviu de
ilustração na revista Atualidade
Indígena, número 20, página 59,
publicada em 1981.
Figura 10. - Petroglifo Sítio Pedra
Pintada- Imagem: Arquivo pessoal
Sítio Igarapezinho- AM-UR-75
Localizado na margem direita do rio, logo
após o igarapé Jacamin, este é o quinto sítio
petroglifo documentado no rio Uatumã a
partir da barragem em direção a sua foz. O
AM-UR-75 tem treze sinalações, das quais
cinco são combinações de retas e círculos,
duas são volutas, uma é uma reta, outra é
parábola com um traço na parte inferior e
existe também um que é a representação de
uma reta combinada com círculos
concêntricos. Há ainda a existência de um
antropomorfo,
um
incompleto
e
possivelmente uma máscara.
Sítio Corredeira do Jacamin - AM-UR-80
O quarto sítio petroglifo localizado na
margem esquerda do rio Uatumã, está situado
logo abaixo do Igarapé do Pato. O AM-UR80, apresenta um total de oito sinalações,
sendo que sete são geométricas e uma
incompleta, que por intemperismo teve seus
traços alterados. Nas outras sinalações
também era ruim o estado de conservação.
As três geométricas estão desenhadas na
mesma rocha, formando um conjunto, a
gravação mais superior é uma reta ondulada
com 15 cm de comprimento. A gravação
intermediária é difícil de descrever, trata-se de
uma reta com algumas dobras formando
câmaras. A última gravação dessa rocha é uma
reta que teve seus traços muito alterados por
intemperismo, ela está associada a dois
círculos. O quarto geométrico é uma reta com
dobras formando ângulos de 90° com 13 cm
de comprimento. Os outros dois geométricos
estão gravados em uma mesma superfície
rochosa, um acima do outro formando um
segundo conjunto.
Sítio Pedral do Maracanã- AM-UR-92
Situado na margem direita do rio, é o mais
próximo da confluência com o Uatumã.
Foram encontrados um total de três
sinalações que dividem-se em geométricas
(quatro) e cultural (duas), sendo que uma está
associado a um geométrico. O estado de
conservação dessas figuras varia de razoável a
bom. A técnica de manufatura é o
picoteamento. As gravações são constituídas
por figuras geométricas também compostas
por retas e círculos irregulares, antropomorfos
e inter-relações entre estes e formações
geométricas.
Sítio Cotovelo do Diabo - AM-UR-93
Este sítio fica entre os igarapés de Nazaré e
Cotovelo do Diabo e, ao contrário dos
últimos está situado na margem direita do rio
Uatumã. Contém três sinalações em bom
estado de conservação Uma dessas é uma
máscara que tem apenas os olhos e a boca
representados por pontos, tem a forma
quadrangular e possui na parte inferior,
lateralmente duas retas como a máscara
fizesse parte de uma vestimenta e, na parte
superior, também lateralmente apresenta duas
retas, porém, mais curtas que as outras,
GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I
Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL
131
Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
representando orelhas. Os dois outros
petroglifos são geométricos, um é composto
por duas retas paralelas com pontos nas
extremidades, a outra é uma reta com voluta
no final e com um ponto no meio da voluta.
Sítio Cachoeira do Boni - AM-UR-97
Este sítio está localizado na margem esquerda
do rio Pitinga, logo acima da ilha Maroca.
Possui um total de quatro sinalações, todas
geométricas em mau estado de conservação,
com exceção de uma das figuras. Uma delas é
composta simplesmente por uma reta vertical
e quatro horizontais. Existem duas sinalações
que possuem um círculo vazio na parte
inferior da figura e três retas.
132
A Gruta do Batismo - AM-UR-40
Manifestam-se um total de vinte e quatro
pinturas rupestres interior desta gruta,
predominantemente nas cores preto e
vermelho, com predomínio numérico do
preto
e
algumas
configurações
de
sobreposições de cores. Os pictoglifos
encontram-se pintados sobre o teto da rocha e
parede. A prevalência das figuras é de
formação geométrica, mas também é visível a
existência de antropomorfos e motivos
culturais como máscaras. Os antropomorfos
foram representados em diferentes posições,
sugerindo alguma forma de movimento.
Alguns com representações de armas e um
deles de uma mulher gestante.
Figura 11- Gruta do Batismo- Imagem:
Arquivo pessoal
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
A fase Pitinga e estilo Aishalton
A fase Pitinga foi encontrada no alto curso do
rio Pitinga, que é afluente da margem direita
do Uatumã, possuindo um curso sinuoso e
diversos afloramentos rochosos em seu leito,
onde foram detectados um total de nove sítios
petroglifos. O motivo predominante é o
zoomorfo, seguido do antropomorfo,
aparecendo nos sítios próximos da
confluência com o rio Uatumã, máscaras e
combinações de retas e círculos.
A fase Pitinga até o presente momento foi
identificada em apenas um sítio, o AM-UR131. O material cerâmico encontrado é
temperado com areia, cariapé e cauixi em
função do alto percentual encontrado para o
tempero areia, este foi dividido em areia
grossa, média e feldspato. Quanto a decoração
87% dos fragmentos da amostra eram
simples, os 13% de decorados dividiam-se em
vermelho, pintado e, excepcionalmente em
inciso, ponteado ou ungulado. O material
lítico era composto de facas e raspadores
toscamente
confeccionados.
Não
há
informação
quanto
ao
padrão
de
assentamento. Existe uma datação para esta
fase de 2.080 anos A.P.
Considerando-se as interfaces existentes entre
a fase Pitinga da cerâmica encontrada, assim
como o estilo Pitinga de arte rupestre
registrado nessa área adjacente do rio Uatumã,
em analogia à classe Aishalton proposto por
Willians, observamos que ocupação humana
pré- histórica deste local pressupõe um
período de transição ou convergência entre
nomadismo e sedentarismo, podendo ser
classificado como período pré-sedentário.
Nesse momento, ainda não existe uma
preocupação relevante com motivos culturais,
observando-se entretanto um apelo maior às
representações do seu habitat e convívio,
como a predominância por exemplo de
zoomorfos e antropomorfos.
De acordo com Willians (1985), o estilo
Aishalton, está normalmente associado a
grupos caçadores e coletores, que dividindo-se
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
este estilo em duas subclasses,obtêm-se a
biomórfica que incluem antropomorfos
caracterizados por simetria ou assimetria
horizontal, zoomorfos (macacos, cobras,
pássaros, tartarugas e peixes) e os fitomorfos
(que não recebem cuidado específico) , como
os geométricos.
A concepção sobre a possibilidade de um présedentarismo se associa a relação entre as
cerâmicas rudimentares, de pouca elaboração
da fase Pitinga, encontradas no alto curso do
rio, nas proximidades em que também foram
revelados os petroglifos semelhantes ao estilo
que Willians classificou como Aishalton, (de
grupos caçadores e coletores), que junto ao
material bastante rudimentar encontrado,
pode caracterizar o limiar entre o período présedentário e o início da horticultura précolonial na região estudada.
Este está situado à margem direita do Pitinga,
sendo o primeiro de uma série de sítios
localizados próximos uns dos outros.
Apresenta seis petroglifos, que se dividem em
geométricas,
antropomorfo, zoomorfo e
incompleto.
Figura 13. Estilo Rupestre Pitinga - Imagem:
Arquivo pessoal
Sítios rupestres estilo Pitinga
Atenta-se para o fato de que quando foi
iniciada a pesquisa neste rio, as comportas já
haviam sido fechadas, o que indubitavelmente
acarretou problemas, pois neste momento a
corrida contra o tempo, que já era grande se
intensificou. Sendo o tempo é fundamental no
registro das sinalações rupestres, ainda foram
registrados um total de 47 petroglifos, com
predomínio de zoomorfos, seguido pelo
geométrico, antropomorfo e cultural.
Sítio do Garça- AM-UR-110
Quatro petroglifos estão gravados, em partes,
sobre o mesmo suporte rochoso e as demais
sinalações aparecem isoladas. O primeiro
conjunto é formado pela representação de um
zoomorfo e um geométrico, sendo este último
composto por uma reta com duas dobras
formando um ângulo de 90° e terminando em
um círculo irregular. O zoomorfo está
desenhado sem representação da cabeça
enquanto que o tronco e os membros são
retos. Entre os membros inferiores há uma
reta terminando em voluta assinalando a
existência de uma cauda. O
segundo par é formado por um
círculo
envolto
por
semicírculos
concêntricos
(provavelmente seriam círculos
concêntricos e a outra metade
pode ter sido apagada por
intemperismo).
Figura 12. Frequencia de
motivos rupestres no rio
Pitinga- Imagem: Arquivo
pessoal
GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I
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Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
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Sítio Cipoal- AM-UR-111
Contendo doze petroglifos, alguns destruídos
por intemperismo, este sítio está localizado na
margem esquerda do rio, um pouco acima do
anterior. A técnica utilizada na confecção dos
petroglifos foi o picoteamento.
Os motivos dos petroglifos deste sítio são
antropomorfos, zoomorfos e um geométrico.
Os zoomorfos, em número de cinco, foram
representados cada um de uma forma. O
primeiro está desenhado como os membros e
troncos representados por retas e entre a
representação dos membros inferiores existe
uma reta com voluta designando a presença
de uma cauda. A cabeça está assinalada por
um círculo vazio. O segundo está com o
tronco e membros por retas. Entre os
membros inferiores há uma reta denotando a
existência de uma cauda, porém esta reta não
termina em voluta. Por sua vez, a cabeça não
foi assinalada. O terceiro zoomorfo registrado
neste sítio tem os membros representados por
curvas, o tronco por uma elipse, a cabeça por
um círculo cheio e entre os membros
inferiores há uma reta assinalando uma cauda.
O quarto zoomorfo tem tronco representado
por uma elipse, os membros por retas e a
cabeça por um círculo vazio. O último
zoomorfo tem os membros superiores e
inferiores, a cauda e o tronco representados
por retas, sendo a cabeça representada por um
prolongamento do tronco.
Já os antropomorfos, em número de quatro,
estão desenhados de forma diferentes. O
primeiro está representado por um traço na
vertical, sugerindo o tronco e duas retas
paralelas e transversais ao primeiro traço,
sugerindo os membros inferiores e superiores.
A cabeça está designada pelo prolongamento
da reta que assinala o tronco. Um segundo
antropomorfo está gravado com um traço
sugerindo o tronco e uma reta transversal
denotando os membros superiores, outra para
os membros inferiores e um pequeno traço
para as duas retas, formando um ângulo de
90°. Com a representação do tronco
indicando a existência de órgão sexual
masculino. A cabeça também está
representada por um prolongamento da reta
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
do tronco. Existe outro antropomorfo
representado por retas, tendo a cabeça
representada por um círculo cheio e o traço
resultante do picoteamento e um pouco mais
espesso que os encontrados em outros
petroglifos. A única representação geométrica
deste sítio trata-se de uma reta vertical
perpendicular a outra horizontal.
Os outros são petroglifos incompletas, um
tem representado apenas três pequenos traços
parcialmente desenhados, em que um
representa o tronco e os outros os membros.
Sítio Socó- AM-UR-113
Este é mais um sítio situado na margem
esquerda do rio Pitinga e apresenta um total
de treze sinalações. Os petroglifos estão
divididos em antropomorfos, zoomorfos,
geométricos e algumas figuras incompletas A
técnica utilizada na confecção dos petroglifos
foi o picoteamento.
A primeira gravação foi um antropomorfo
que tem o tronco, os membros superiores e
inferiores representados por retas e a cabeça
está representada por um ponto, assim como
as extremidades das retas que representam os
membros. A segunda é um zoomorfo que tem
os membros superiores desenhados por uma
parábola. Os membros inferiores são
representados por uma reta com as
extremidades dobradas formando um ângulo
menor que 90° e entre eles está gravada outra
reta terminando em espiral. A cabeça está
marcada por um círculo cheio e o corpo por
uma elipse vazia, o terceiro petroglifo
registrado foi outro zoomorfo que tem a
cabeça representada por um círculo cheio, o
corpo por uma elipse, uma reta terminando
em voluta marcando a existência de uma
cauda e os membros superiores e inferiores
por semicírculos. A quarta é um
antropomorfo que tem o tronco representado
por uma reta, os membros superiores e
inferiores formados por três retas que ao se
unirem formam um ângulo de 90°. A cabeça
está assinalada por um círculo cheio. Já o
quinto encontrado é outro antropomorfo com
os membros representados por semicírculos,
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
o corpo por elipse e a cabeça por um círculo
cheio. Há três zoomorfos que são um
triângulo com um traço sinuoso. Dois
geométricos é uma voluta, existe outra
representação que aparece apenas um
triângulo. O último geométrico encontrado
neste sítio é uma figura composta por um
círculo com duas protuberâncias nas
extremidades. Existem mais dois petroglifos
incompletos, um é composto por dois traços,
um vertical e outro horizontal que se cruzam
formando um ângulo de 90°. Ao que tudo
indica seria um antropomorfo ou biomorfo
que foi parcialmente apagado pela abrasão
fluvial e o outro é uma elipse denotando parte
do tronco, uma reta assinalando o lado direito
do membro superior e a cabeça mostrada por
um círculo vazio.
Sitio Inundado - AM-UR-115
Este sítio localizado na margem direita do rio,
na mesma situação do anterior e também só
apresenta um zoomorfo em péssimo estado
de conservação, com o tronco representado
por uma elipse cortada, na sua parte mediana,
por uma reta. Os membros inferiores são
representados por duas retas e os superiores
com retas terminando em círculos. A cabeça,
por sua vez, apresenta-se representada por um
círculo cheio. A técnica utilizada na confecção
dos petroglifos foi o picoteamento.
Sitio Inundado II- AM-UR-116
Localizado na margem direita do rio, um
pouco mais acima do anterior, esta unidade
arqueológica possui apenas duas sinalações
que estão gravadas na mesma face da rocha,
uma ao lado da outra, sendo um zoomorfo e
um antropomorfo, em razoável estado de
conservação.
O antropomorfo tem a cabeça representada
por um círculo com três círculos internos,
dois laterais com pontos no centro e um
inferior assinalando os olhos e a boca. A
gravação do zoomorfo é composta apenas por
três traços que designariam o tronco e os
membros, sendo que entre os membros
inferiores há um prolongamento do tronco
sugerindo a presença da cauda. A técnica
utilizada na confecção dos petroglifos foi o
picoteamento.
Sitio Escorpião- AM-UR-117
Este sítio possui apenas um petroglifo, mas
apresenta uma particularidade, o afloramento
onde estava gravado o petroglifo já
encontrava-se quase totalmente submerso,
não só porque as comportas da barragem já
estavam fechadas há três meses, mas também
por causa de um temporal que castigou a
região durante toda a noite anterior, fazendo
com que nível do espelho d’água aumentasse
ainda mais. O único local emerso na época da
pesquisa era a protuberância rochosa onde foi
registrado o zoomorfo. A técnica utilizada na
confecção dos petroglifos foi o picoteamento.
O petroglifo é composto por uma reta vertical
representando o tronco, e três horizontais,
atribuindo a figura um aspecto de um
escorpião, daí o nome do sítio.
Sitio Mambira- AM-UR-118
Situado na margem direita do rio, próximo a
confluência com o Pitinguinha e fora da área
do reservatório da UHE-Balbina, esse é o
último sítio petroglifo descoberto na pesquisa.
O AM-UR-118 apresenta apenas duas
sinalações, sendo as duas de antropomorfos,
uma representada por retas para designar os
membros e o tronco, a cabeça é denotada por
círculo cheio. Já a outra, apresenta corpo
desenhado na forma de elipse cheia e a cabeça
por circulo cheio, os membros estão
desenhados por retas.
Algumas considerações
O estudo arqueológico da área impactada na
UHE Balbina, ocorrido na década de oitenta
do século XX, revelou-se um dos estudos
pioneiros em arte rupestre no estado do
Amazonas, onde foram desenvolvidas as
primeiras análises dos registros encontrados
na área desta usina. Ainda hoje, a Gruta do
Batismo permanece como único exemplar de
pintura rupestre no Amazonas, onde as
pesquisas arqueológicas voltaram-se durante
GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I
Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL
135
Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA
um longo período para a busca da
compreensão das fases arqueológicas
existentes, sem a tentativa de serem
elaboradas conexões entre os estudos
rupestres e as mesmas.
A experiência deste trabalho refere-se a uma
análise parcial sobre as evidências encontradas
em campo, que proporcionam um aporte
concreto de referências para a vinculação
existente entre estilos rupestres e fases
arqueológicas manifestadas naquele local. Essa
visão se detém sobre a tentativa de
investigar as interconexões existentes nas
diversas formas de pesquisar arqueologia, no
encontro de um resultado que possa imprimir
maior amplitude ao estudo do homem
Amazônico.
136
Objetivamente, foram relacionadas duas fases
arqueológicas na região de Balbina: A Caparú,
datada entre 1000 e 430 AP, onde foi
proposta uma inter-relação desta com o estilo
Uatumã- Abonari de arte rupestre, agregando
a este estudo uma analogia entre os estilos
Uatumã Abonari e o Timehri, proposto por
Dennis Willians. O embasamento destas
interconexões fundamenta-se na área de
abrangência do estudo em suas peculiaridades,
observando-se que a fase Caparú acontece
somente na mesma região em que foi possível
encontrar o estilo Uatumã Abonari,
relacionando-se a cerâmica mais elaborada da
fase caparú aos registros rupestres em que se
incluem os motivos culturais como as
máscaras
que
podem
caracterizar
procedimentos ritualísticos mais típicos dos
grupos horticultores.
A
outra
fase
arqueológica encontrada foi denominada
como Fase Pitinga, datada de cerca de 2080
AP. Assim como a primeira esta também foi
relacionada a um estilo rupestre, denominado
Pitinga, propondo-se uma analogia entre este
estilo e o Aishalton, de Willians. Os limites em
que se encontram a fase arqueológica Pitinga
estão no alto curso deste rio, em que se
verifica a existência de uma cerâmica mais
rústica
e
registros
rupestres
predominantemente
zoomorfos
e
antropomorfos, relacionados por Willians ao
3 / Arte Rupestre da Amazônia.
estilo Aishalton ligados a grupos de caçadores
e coletores, que a partir de uma análise
conjunta ao material rústico ali encontrado,
pode propor uma conjectura característica de
um período de transição entre o nomadismo e
o modelo sedentário de vida pré- colonial
nesta área estudada. Esse período de transição
pode ter se desenvolvendo na área que
abrange o curso do Rio Pitinga, até a chegada
desses povos à confluência entre este rio e o
Uatumã, local onde já podem ser observadas
gravuras de motivos culturais, que a partir do
curso do Uatumã já são encontradas em
abundância.
Atualmente, novas pesquisas têm se
desenvolvido no âmbito da arte rupestre no
Amazonas, que poderão contribuir para a
interação de estudos e conhecimentos sobre
os aspectos arqueológicos que abrangem a
região, possibilitando análises que possam
corroborar para abertura de novas discussões
sobre arte rupestre no Estado.
A região de Presidente Figueiredo, onde foi
executado o salvamento da hidrelétrica em
estudo, constitui-se em um dos maiores
patrimônios naturais e arqueológicos do
Amazonas,
detentor
de
lugares
deslumbrantes,com
um
levantamento
informal que aponta uma diversidade
incalculável de formações paisagísticas, como
cachoeiras, igarapés, lagos naturais, pântanos,
paredões protetores de quedas de água, grutas,
cavernas e outros tantos, além do único
exemplar de pintura rupestre do Estado,
petroglifos,sítios de terra preta, animais
exóticos como galo da serra encontrado nessa
localização e a histórica reserva dos índios
Waimiri - Atroari. Todo esse Patrimônio tem
sido esquecido pelos poderes públicos,
contribuindo para a degradação paulatina de
todo complexo natural em que se insere a
cultura antrópica da região, a exemplo da
UHE Balbina, já reconhecida como um dos
maiores desastres ecológicos do país.
A partir da atual mudança de paradigmas em
que o contexto global apresenta seu processo
de transmutação, observa-se que uma rede de
NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS.
informações que se interligam buscando a
integralidade entre homem e ambiente
circuncidante, proporcionando um despertar
para questões que possam responder de
maneira mais condizente à nova realidade que
se apresenta aos poucos em uma nova
configuração de vida existente no planeta.
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Uma tentativa de associação entre sítios rupestres e cerâmicos