IN THE BASIN OF UATUMÃ : AN ATTEMPT OF AN ASSOCIATION BETWEEN ROCK SITES AND CERAMICS. NAS FRONTEIRAS DO UATUMÃ – UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA Fundação Municipal de Cultura e Turismo- MANAUSCULT Centro Universitário Nilton Lins - UNINILTONLINS [email protected] Resumo O Programa de Salvamento do Patrimônio Cultural e Arqueológico na área do reservatório da UHE-Balbina-AM, o SAUHEB, revelou a existência de 21 sítios com gravações rupestres e o primeiro sítio com pictoglifos do Estado do Amazonas documentado até a atualidade - a Gruta do Batismo. Os petroglifos registrados encontramse ao longo do médio e alto curso dos principais rios afetados pelo impacto do empreendimento da usina hidrelétrica: o Uatumã e Pitinga. Em seus afloramentos rochosos as gravuras apresentam distinções quanto aos motivos representados: Máscaras e combinações de retas e círculos nas margens do Uatumã em contraponto as figuras antropomorfas e zoomorfas de seu afluente Pitinga. Considerando-se a análise do material cerâmico de ambos os rios, propõe-se uma possibilidade associativa dos sítios rupestres e cerâmicos delimitados por esses cursos naturais de águas. A Tradição Polícroma do rio Uatumã datada de cerca de 900AP, relaciona-se a uma cultura de bases sedentárias, combinando-se as gravuras de máscaras e geometrizadas indicadoras de culturas sócio- estratigraficamente organizadas. No rio Pitinga, a cerâmica encontrada sem elementos decorativos, temperada com simples partículas arenosas, não foi possível ser filiada a nenhuma tradição arqueológica. Sua origem data de cerca de 2000AP e possivelmente está relacionada a grupos semi-sedentários e aos sítios rupestres de figuras antropomorfas e zoomorfas. Para que seja ultrapassado o campo da hipótese novas áreas devem ser pesquisadas com esse objetivo, buscando indicadores naturais que possam converger para um aprofundamento quanto as possibilidades de interações arqueológicas nos métodos de análise, visando levantamentos que auxiliem na corroboração de indícios sobre as influências da Arqueologia no Estado do Amazonas. Palavras chaves: Uatumã – Pitinga, Petroglifos, Amazonas. Abstract The rescue program of the cultural heritage and archaeological in the reservoir area of the UHE-Balbina-AM, the SAUHEB, revealed the existence of 21 sites with rock carvings and the first site with pictoglyphs of the Amazon State documented till the present – the Cave of Baptism. The petroglyphs are recorded along the middle and upper reaches of major rivers affected by the impact of the development of hydroelectric: The Uatumã and Pitinga. In its rocky outcrops the petroglyphs have provisions on the grounds represented: masks and combinations of straight and circles in the banks of Uatumã opposed figures anthropomorphic and zoomorphic of the affluent Pitinga. Considering the analysis of the ceramic material of both rivers, propose a possible associative to the rock sites and ceramic delimited by these natural water courses. The polychrome tradition the Uatumã river, dated around 900AP, relates to a culture of sedentary bases, combining the masks engravings and geometrized indicating cultures stratigraphically organized. In the Pitinga river, the ceramic found without decorative elements, seasoned with simple sandy particles, it was not possible to be affiliated to any archaeological tradition. Its origin dates from around 2000AP and possibly it’s related to semi-secondary groups and rock sites of anthropomorphic and zoomorphic figures. To be exceeded the field of hypothesis new areas should be investigated with this goal, searching natural indicators that converge to a deepening, on the study of the archaeological roots, aiming surveys that help in corroborating of evidence about the archaeological influences in the Amazon State. Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA Introdução A importância do estudo, da arte rupestre é imensa, tanto que em todo o mundo, existem associações que dedicam-se inteiramente a este campo da Arqueologia, como a Sociedad de Investigación de Arte Rupestre de Bolivia (SIARB), o Centro de Investigación de Arte Rupestre de Uruguay (CIARU), a Associação Brasileira de Arte Rupestre (ABAR), a Australian Rock Art Association (AURA) entre outras. Com a criação da Federação Internacional das Organizações de Arte Rupestre (IFRAO) que serve de fórum de debate e intercâmbio entre essas associações, códigos de ética foram estabelecidos, publicações específicas foram lançadas, congressos realizados e projetos de pesquisa e proteção destes sítios ganharam impulso de maneira global. 124 A região Amazônica contém um infindável número de sítios com petroglifos. Ao navegar qualquer afluente do rio Amazonas, invariavelmente, encontrar-se-ão sítios rupestres. Desde os contrafortes andinos até o litoral do Pará, este tipo de evidência arqueológica se faz presente. Ao se fazer um levantamento dos trabalhos sobre arte rupestre no Estado do Amazonas ver-se-á uma raridade de trabalhos no Amazonas que em um primeiro momento pode dar uma falsa idéia de que o estado possui poucos sítios rupestres. Mas na realidade estes poucos trabalhos são o resultado do desinteresse de pesquisadores sobre a arte rupestre no Amazonas, somado aos obstáculos gerados pelo período das chuvas no Estado, deixando submersos os afloramentos rochosos que possam conter petroglifos. registro cento e sessenta e cinco sítios arqueológicos, dos quais vinte e dois destes eram de arte rupestre. Localização e ambiente O Município Presidente Figueiredo desenvolveu-se no nordeste do Estado do Amazonas, à aproximadamente cem quilômetros de Manaus, às margens da BR174 que liga a capital à Boa Vista. O Município tem uma área de 24.781 km2 e sua fronteira está delimitada a partir dos municípios de Urucará, São Sebastião do Uatumã, Itapiranga, Rio Preto da Eva, Novo Airão, com a capital Manaus e com o Estado de Roraima. Figura 1. Mapa de localização do município de Presidente Figueiredo – Imagem: Arquivo pessoal. Este trabalho se relaciona ao resultado do Salvamento Arqueológico realizado na área do Reservatório da Usina Hidrelétrica de Balbina, em 1987, sob a ótica de uma inter-relação arqueológica entre os sítios ali encontrados. Este é um dos Municípios mais ricos do Estado. Além da UHE-Balbina, está inserida em seu território a maior mina de cassiterita do Amazonas, a mina do Pitinga, beneficiada pela mineração Taboca, subsidiária do Grupo Paranapanema. Dentro do seu território, também está inserida a Área de Proteção Ambiental Abrigo Maruaga, a Reserva biológica do Uatumã e a Reserva Indígena Waimiri-Atroari. A hidrelétrica está localizada no Município de Presidente Figueiredo, no Estado do Amazonas, e este salvamento obteve como A região é conhecida pela sua elevada biodiversidade, formando um conjunto de ecossistemas super complexos, onde se 3 / Arte Rupestre da Amazônia. NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. observam dois ecótipos distintos: o da Floresta de Baixa Altitude, que ocupam os terrenos mais jovens (Quaternário) e alguns platôs (Terciário); e o da Floresta submontana, que ocupa áreas onde predominam afloramentos de rochas paleozóicas e précambrianas. Também pode ser verificada a ocorrência das chamadas matas de igapó, encontradas nas margens de rios, lagos e igarapés. De acordo com (Muller & Carvalho, 2005:1035); Do ponto de vista geológico, no município são identificados dois grandes domínios: um domínio representado por rochas ígneas e metamórficas e pacote sedimentar (Formação Prosperança), de idade Proterozóica, os quais representam os terrenos do embasamento regional, relacionados ao Escudo das Guianas, na porção Setentrional do Cráton Amazônico; o segundo domínio engloba essencialmente os sedimentos da Bacia do Amazonas (Grupo Trombetas), de idade Paleozóica. A região em estudo foi delimitada pela bacia do rio Uatumã que drena as rochas graníticas e efusivas ácidas, pertencem a Suíte intrusiva Mapuera e Abonari, que faz parte da formação sete quedas, componente do grupo Iricoumé. Como explica (Müller, Motta, Carvalho & Souza 2007: 2080): quadrados (24.782 km²), sob a altitude de cento e vinte dois metros em relação ao nível do mar. Atualmente segundo dados atualizados pelo senso do IBGE 2008, a cidade conta com uma população de vinte e cinco mil quatrocentos e setenta e quatro mil habitantes (25.474), sob um clima tropical Amazônico, ou seja, quente e úmido. UHE Balbina A UHE-Balbina está situada a setenta e dois quilômetros da BR-174, com acesso no quilômetro cento e dois dessa rodovia, cortada por uma via estadual, AM 240, que possibilita o acesso viário a esta usina Os primeiros passos para a implantação da Usina foram dados no início dos anos 70, com os estudos da viabilidade que culminaram com a autorização para sua construção em 1976. Essa hidrelétrica alagou 2460 Km2 de floresta, interferiu em dois grupos culturais – os ribeirinhos e os Waimiri – e produz apenas 250 MW de energia, tornando-se o quilowatt de energia mais caro do Brasil, em relação aos danos causados aos patrimônios paisagístico, ecológico e cultural. Constituído por rochas vulcânicas, intermediárias a ácidas, não metamorfizadas, no município essa unidade é representada por dacitos, traquidacitos e andesitos básicos, de textura porfirítica com fenocristais de feldspato e de hornblenda em matriz afanítica que variam de cinza esverdeada a cinza arroxeada, além de ocorrências localizadas de rochas piroclástica. Juridicamente, Presidente Figueiredo passa a existir a partir de 1979, recebendo este nome em homenagem ao primeiro governador da província do Amazonas, João Baptista Figueiredo Tenrreiro Aranha, com uma área correspondente a vinte e quatro mil setecentos e oitenta e um quilômetros Figura 2. Mapa de localização da UHE Balbina - Imagem: Arquivo pessoal. GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 125 Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA 126 Uma tentativa de minimizar este impacto só começou a ser posta em prática a partir de 1986, ou seja, dez anos após ser autorizada a construção da usina hidrelétrica. Neste momento, surgiram os primeiros contatos para o resgate do Patrimônio Cultural e Arqueológico na Área do Reservatório da UHE-Balbina e seu entorno – SAUHEB – passando a ocorrer, efetivamente, a partir de abril de 1987, há exatamente seis meses para o fechamento das comportas, previsto para outubro daquele ano. O salvamento arqueológico só foi possível graças a um convênio firmado entre as Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. A. (ELETRONORTE) e o Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas (CEDPHA). A etapa de campo foi chefiada pela arqueóloga Maria Arminda Mendonça de Souza e posteriormente a análise de laboratório dos sítios lito-cerâmicos foi coordenada pelo arqueólogo Eurico Th. Miller. A área do Reservatório da UHE Balbina, nome originado a partir da principal queda d’água que compõe a usina, é banhada pelo Rio Uatumã, formado pelo igarapé Santo Antônio do Abonari, tendo um de seus principais afluentes o Rio Pitinga. Arqueologia no Uatumã A partir de 1979 acontece a primeira pesquisa arqueológica na área levada a cabo pelo museu Paraense Emilio Goeldi, patrocinada pelo Smithsoniam Institute e dirigida pelo arqueólogo Mario Simões. A área pesquisada abrangia o baixo rio Uatumã, desde a sua foz até o rio Bacabudá, o baixo curso do rio Maripá e baixo do baixo Jatapu. Nesta área foram localizados e pesquisados 21 sítios arqueológicos, agrupados em três fases: Urucará, Jatapu e Uatumã as duas primeiras são filiadas a tradição Inciso-Ponteada e outra pertence à tradição Polícroma sub-tradição Saracá (Simões & Corrêa, 1987. p. 29 – 26). 3 / Arte Rupestre da Amazônia. A fase Urucará caracterizada por apresentar um complexo lítico composto de percutores, lâminas-demachado e moedores. A cerâmica é temperada com cauxi, cauixi+cacos moídos, cauxi+cariapé e cariapé. Quanto à decoração, as mais populares são o engobo vermelho, a pintura bi e polícroma, vários tipos de inciso, acanalado, ponteado modelado e associações entre os tipos decorados, sendo que 85% dos fragmentos da amostra são do tipo simples. Esta fase não possui nenhuma datação de C14 quanto às formas dos vasos, estes são globolares, semi-esféricos pratos e tigelas. As bordas podem ser diretas, reforçadas externamente, extrorvetidas, cambada e planas. O padrão de ocupação pode ser descrito como sítios em áreas de capoeiras em locais com altura variando entre 14 e 17 metros, sob planta elíptica irregular com 60 cm de profundidade sem evidência de sepultamento. A outra fase da tradição Inciso Ponteada, a fase Jatapu, caracteriza-se por apresentar um material Lítico com raspadores, percutores, afiadores de caneluras e lâminas-de-machado. O complexo cerâmico apresenta como principal tempero cauixi seguido pelo cariapé, carvão e cauixi + carvão, já os tipos decorados mais populares são o engobo vermelho, o pintado, vários tipos de inciso, modelados, ponteados, polido e diversas associações entre tipos decorados. O sítio AM-UR-10 no corte 01 nível 30-40 cm foi datado por C-14 e apresentou uma data de A.D. 920. Os sítios desta fase estão localizados em áreas de capoeira, em locais com altura variando entre 11 e 45 m, as plantas desses sítios são, geralmente, elípticas, mas menores que os da fase anterior, porém, com a mesma profundidade. Em um dos sítios foram encontradas urnas de sepultamento, fora da área de habitação. As formas dos vasos são semelhantes às descritas anteriormente. Toda a extensão do rio Uatumã a sub-tradição Saracá da tradição Polícroma da Bacia Amazônica e no seu médio e alto curso onde surgem os afloramentos rochosos a presença NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. de sítios petroglifos associado a grupos horticultores. A fase Uatumã da tradição Polícroma, tem seus sítios localizados em mata de capoeira e com altura variando entre 11 e 45 de raspadores, facas, percutores, abrasadores de caneluras e lãminas-demachado. Já o material cerâmico é predominantemente temperado com cauxi, vindo depois o cariapé e o cauxi + cariapé. Os tipos mais comuns são o engobo vermelho, pintado, diversos incisos, exciso, acanalado, escovado, raspado, vários tipos de ponteado, e associações entre tipos decorados. Esta fase apresenta diversos artefatos como rodas-defuso, suportes-de-panela e cacos reutilizados como abrasadores de caneluras. engobo, o pintado, o corrugado simples, o ponteado, o ungulado, diversos incisos, acanalado, exciso, escovado, modelado, roletado, associações entre tipos decorados e esporadicamente marcados com corda. O material lítico da Caparú é composto de lâminas-de-machado e algumas lascas com retoque. A fase Caparú e estilo Timehri Localizado no nordeste do Estado do Amazonas, o rio Uatumã, surge na literatura de viajantes e cientistas que chamavam a atenção para as gravações de máscaras nos matacões às margens do rio. Era bastante comum atribuir a estes sinais caráter religiosos, afirmando que elas assinalavam a existência de uma necrópole. Neste rio, encontra-se a Tradição Polícroma da Bacia Amazônica nas Fases Uatumã e Caparu datada entre 1000 e 430 anos AP, na mesma região onde se localiza a maior concentração de gravuras de motivos culturais como as máscaras, permitindo uma associação destas ao período sedentário de ocupação humana pré-histórica, a partir do desenvolvimento da prática horticultora, supostamente acompanhados de rituais e homenagens à fertilização da terra, cultuados com intuito de garantir os ciclos de colheita. As máscaras podem representar alguns desses signos enigmáticos, que nesta região encontram-se sob a mesma área onde foi possível detectar a fase Caparu, identificada em quatro sítios arqueológicos. Os principais temperos encontrados são areia média, cariapé, areia grossa, feldspato, areia fina e cauixi, respectivamente. Há uma grande variação de material decorado como, o 127 Figura 3. Fase Caparú- Lâminas de machado – Imagem: Arquivo pessoal. Figura 4. Cerâmica Fase Caparú – Imagem: Arquivo pessoal GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA 128 A Classe Rupestre Timehri, proposta por Denis Willians (1985), foi associada aos grupos horticultores. São compostas por motivos geométricos, antropomorfos e máscaras, podendo ser apenas a parte superior ou a figura completa, ou seja, com toda a vestimenta, que se caracteriza de acordo com sua formação geométrica, podendo ser: 1 – Redonda, aparecendo com três pontos que representam olhos e boca, mas sem o nariz desenhado. Este tipo apresenta algumas variações, ocorrendo também evidências de apêndices designando orelhas. 2 – Triangular, com olhos nariz e boca representados, 3 – Lunar, com registros de pequenos prolongamentos retilíneos na parte superior da máscara, 4 – Quadrada, com olhos representados, e às vezes boca.Neste estilo observa-se a ausência de registros zoomorfos. Na região de Balbina verifica-se a ligação deste estilo Rupestre à Fase Caparu no Rio Uatumã, onde ocorrem evidências de registros rupestres semelhantes aos citados por Willians. No rio Uatumã, foram encontrados três, dos quatro formatos citados por Willians, ficando ausente apenas o tipo lunar, com uma observação interessante que a forma de representação quadrada aparece como pintura na Gruta do Batismo, fazendo parte do único conjunto pictoglifos evidenciados até o presente no estado do Amazonas. Os detalhes desta máscara exibem a representação dos olhos, dois traços que demonstram uma pintura facial e um artefato craniano, ou seja, prolongamentos lineares perpendiculares a parte superior da máscara. Dentro das perspectivas de inter-relação entre os estilos propostos por Willians e as representações rupestres encontradas na bacia do rio Uatumã, delineia-se a formação de uma subdivisão de dois estilos rupestres classificados como: 1- Uatumã – Abonari, correlacionado ao Timehri, 2- Pitinga correlacionado ao estilo Aishalton, também proposto por Willians, tendo sua correlação observada a partir da abrangência na área do alto rio Pitinga, em que as evidências rupestres estão associadas a uma cerâmica mais rudimentar, que será relatado neste trabalho posteriormente. Sítios rupestres estilo Uatumã – Abonari Caracteriza-se por maior freqüência de registros geométricos e antropomorfos incluindo ainda motivos culturais como as máscaras. Um dos mais importantes sítios registrados foi o da Cachoeira Balbina – AMUR-47, que apresenta um total de 24 petroglifos, a maioria em razoável estado de conservação. Em relação às gravações há um domínio numérico do geométrico, representado de diferentes formas. Figura 6. Frequência de motivos rupestres no rio Uatumã - Imagem: Arquivo pessoal Figura 5. Máscara estilo Uatumã AbonariGruta do Batismo Imagem: Arquivo pessoal 3 / Arte Rupestre da Amazônia. A técnica utilizada na confecção dos petroglifos foi o picoteamento. O primeiro petroglifo assinalado foi um antropomorfo desenhado de maneira esquemática, assim como todas as representações naturalistas da bacia do rio Uatumã. Estava em péssimo estado de conservação em função do desgaste provocado pelo intemperismo fluvial. A NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. visualização da gravação só foi possível pelo fato dele estar voltado para o rio e, por coincidência, para o pôr-do-sol, pois é justamente no crepúsculo, a hora em que é mais nítido o desenho, mas mesmo assim tornou-se necessário umedecer a pedra para que fosse possível perceber alguns sulcos como os membros inferiores e superiores e o tronco, representados por retas, terminando em círculos concêntricos ou não. boca é feita através de um retângulo com três divisões que devem ser representações de dentes. Abaixo da máscara existe um traço com uma protuberância localizada sob a representação da boca, as pontas desse traço terminam em espirais, assim como os traços que limitam a máscara. No lado direito existe um traço sinuoso. O segundo antropomorfo encontrado está localizado próximo ao primeiro, porém, virado para montante do rio e sem sofrer diretamente o impacto de abrasão causado pela sucessiva subida e descida do nível do espelho d’água, pois, está localizado mais à margem do rio que a gravação número um, que, por sua vez, situa-se às pedras que formam a cachoeira Balbina. O terceiro e quarto antropomorfos encontrados apresentam maior simetria em sua constituição, um dos quais foi exposto no Museu de Balbina, criado na época para exposição da cultura material encontrada durante o salvamento arqueológico da usina e outros organismos integrantes do ecossistema local, como animais empalhados que morreram na criação da barragem e representações da fauna e flora local. Atualmente este museu encontra-se fechado devido ao estado de conservação de sua estrutura apresentar riscos ao público visitante, aguardando que os responsáveis pela sua manutenção e conservação possam resgatar a história contida neste museu. Neste sítio existe ainda a representação de duas máscaras, ambas desenhadas de formas diferentes. A primeira é triangular, tem os olhos, nariz e boca (com dentes) representados, sendo o nariz na forma de uma haste reta que ultrapassa a parte superior da máscara terminando em duas volutas. Na parte inferior da haste, há duas pequenas retas que fazem a ligação como os olhos, que por sua vez são representados por círculos simples com um ponto no centro, a representação da Figura 7. Máscara estilo Uatumã Abonari Imagem: Arquivo pessoal A segunda máscara tem a forma arredondada, com os olhos representados por semicírculo, o nariz também é representado em forma de haste que ultrapassa a parte superior da máscara e termina em uma voluta, a boca é representada sem os dentes e tem a forma oval. Nos dois lados da máscara existe a gravação de uma linha curva. Na parte superior da máscara gravado três prolongamentos lineares em cada canto. Esta máscara hoje está no Museu de Balbina, e como está exposta na parte externa, sofre a ação de vândalos (que escrevem seus nomes na rocha) e as novas condições atmosféricas acabam por destruir o já frágil desenho. Figura 8. Máscara redonda estilo Uatumã Abonari – Imagem: Arquivo pessoal GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 129 Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA Neste sítio há uma grande variedade de representações geométricas. Encontram-se gravados nas rochas, círculos, círculos concêntricos, retas e combinações de círculos e retas. Junto à margem há gravações de três círculos, sendo um simples e dois concêntricos, todos voltados para o rio e em excelente estado de conservação. O círculo simples foi gravado em cima dos outros, os concêntricos foram gravados um ao lado do outro, sendo que o do lado esquerdo do observador possui apenas dois círculos e o do lado direito possui três círculos concêntricos. Estas são as únicas representações do sítio AM-UR-47 que formam um conjunto. O geométrico mais complexo encontrado no AM-UR-47, é semelhante ao que Williams denomina de Fish Trap (armadilha de peixe). Este petroglifo é composto por uma série de retas e um círculo. 130 Sítio Corredeira Anamã - AM-UR-50 Segundo sítio petroglifo encontrado pela equipe do SAUHEB, assim como o anterior está localizado na margem esquerda do rio Uatumã, um pouco mais a montante que o primeiro. Este sítio apresenta um total de seis sinalações, sendo duas máscaras, três geométricas e uma indefinida. Todas as gravuras estão voltadas para o leito do rio, em péssimo estado de conservação. A técnica utilizada na confecção dos petroglifos também foi o picoteamento. Figura 9. Corredeira Amanã - Ano 1987 – Imagem: Arquivo pessoal 3 / Arte Rupestre da Amazônia. O primeiro petroglifo localizado e, portanto o mais abaixo deles, foi uma máscara totalmente abstrata sem representação de nariz ou boca, mas, com ou olhos marcados. Ainda neste sítio foi localizada a segunda máscara que tem a forma quadrangular e tem representado os olhos, nariz e boca e com um ponto abaixo da parte mediana da boca. A forma dessa máscara é quadrada e muito parecida à encontrada no sítio Gruta do Batismo, AMUR-40. Das outras três restantes, duas são representações da forma tipográfica da letra “C” e outras composições de retas e círculos. Sítio Molequinho - AM-UR-62 Também localizado na margem esquerda do rio, logo após o igarapé Jauari, este sítio apresenta um total de cinco sinalações: dois antropomorfos, dois geométricos e um petroglifo incompleto. O estado de conservação das gravuras também é de desgaste natural. A primeira gravação assinalada é um geométrico com quatro retas, que se cruzam formando ângulos de 90°. Há também a evidência de um antropomorfo representado por uma reta designando o tronco, um círculo cheio assinalando a cabeça. Os membros inferiores e superiores estão representados por retas com as extremidades curvas. O terceiro é o petroglifo incompleto, pois apenas a parte superior do petroglifo está visível e é um círculo vazio representando possivelmente a cabeça, não podendo ser analisado ao certo o tipo de representação desta figura. Sítio Pedra Pintada- AM-UR-65 Este sítio foi localizado na margem direita do igarapé. Apresenta um total de quatro sinalações em bom estado de conservação, sendo três geométricas e uma cultural (uma máscara associada a uma série de retas e círculos). Esta máscara, que tem forma oval, possui olhos representados por pequenos círculos vazios com um ponto o centro e uma reta na parte inferior supondo uma boca. A máscara está ligada a uma sucessão de retas e curvas que formam retângulos. Este é o petroglifo mais complexo encontrado na bacia NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. do rio Uatumã e serviu de ilustração na revista Atualidade Indígena, número 20, página 59, publicada em 1981. Figura 10. - Petroglifo Sítio Pedra Pintada- Imagem: Arquivo pessoal Sítio Igarapezinho- AM-UR-75 Localizado na margem direita do rio, logo após o igarapé Jacamin, este é o quinto sítio petroglifo documentado no rio Uatumã a partir da barragem em direção a sua foz. O AM-UR-75 tem treze sinalações, das quais cinco são combinações de retas e círculos, duas são volutas, uma é uma reta, outra é parábola com um traço na parte inferior e existe também um que é a representação de uma reta combinada com círculos concêntricos. Há ainda a existência de um antropomorfo, um incompleto e possivelmente uma máscara. Sítio Corredeira do Jacamin - AM-UR-80 O quarto sítio petroglifo localizado na margem esquerda do rio Uatumã, está situado logo abaixo do Igarapé do Pato. O AM-UR80, apresenta um total de oito sinalações, sendo que sete são geométricas e uma incompleta, que por intemperismo teve seus traços alterados. Nas outras sinalações também era ruim o estado de conservação. As três geométricas estão desenhadas na mesma rocha, formando um conjunto, a gravação mais superior é uma reta ondulada com 15 cm de comprimento. A gravação intermediária é difícil de descrever, trata-se de uma reta com algumas dobras formando câmaras. A última gravação dessa rocha é uma reta que teve seus traços muito alterados por intemperismo, ela está associada a dois círculos. O quarto geométrico é uma reta com dobras formando ângulos de 90° com 13 cm de comprimento. Os outros dois geométricos estão gravados em uma mesma superfície rochosa, um acima do outro formando um segundo conjunto. Sítio Pedral do Maracanã- AM-UR-92 Situado na margem direita do rio, é o mais próximo da confluência com o Uatumã. Foram encontrados um total de três sinalações que dividem-se em geométricas (quatro) e cultural (duas), sendo que uma está associado a um geométrico. O estado de conservação dessas figuras varia de razoável a bom. A técnica de manufatura é o picoteamento. As gravações são constituídas por figuras geométricas também compostas por retas e círculos irregulares, antropomorfos e inter-relações entre estes e formações geométricas. Sítio Cotovelo do Diabo - AM-UR-93 Este sítio fica entre os igarapés de Nazaré e Cotovelo do Diabo e, ao contrário dos últimos está situado na margem direita do rio Uatumã. Contém três sinalações em bom estado de conservação Uma dessas é uma máscara que tem apenas os olhos e a boca representados por pontos, tem a forma quadrangular e possui na parte inferior, lateralmente duas retas como a máscara fizesse parte de uma vestimenta e, na parte superior, também lateralmente apresenta duas retas, porém, mais curtas que as outras, GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 131 Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA representando orelhas. Os dois outros petroglifos são geométricos, um é composto por duas retas paralelas com pontos nas extremidades, a outra é uma reta com voluta no final e com um ponto no meio da voluta. Sítio Cachoeira do Boni - AM-UR-97 Este sítio está localizado na margem esquerda do rio Pitinga, logo acima da ilha Maroca. Possui um total de quatro sinalações, todas geométricas em mau estado de conservação, com exceção de uma das figuras. Uma delas é composta simplesmente por uma reta vertical e quatro horizontais. Existem duas sinalações que possuem um círculo vazio na parte inferior da figura e três retas. 132 A Gruta do Batismo - AM-UR-40 Manifestam-se um total de vinte e quatro pinturas rupestres interior desta gruta, predominantemente nas cores preto e vermelho, com predomínio numérico do preto e algumas configurações de sobreposições de cores. Os pictoglifos encontram-se pintados sobre o teto da rocha e parede. A prevalência das figuras é de formação geométrica, mas também é visível a existência de antropomorfos e motivos culturais como máscaras. Os antropomorfos foram representados em diferentes posições, sugerindo alguma forma de movimento. Alguns com representações de armas e um deles de uma mulher gestante. Figura 11- Gruta do Batismo- Imagem: Arquivo pessoal 3 / Arte Rupestre da Amazônia. A fase Pitinga e estilo Aishalton A fase Pitinga foi encontrada no alto curso do rio Pitinga, que é afluente da margem direita do Uatumã, possuindo um curso sinuoso e diversos afloramentos rochosos em seu leito, onde foram detectados um total de nove sítios petroglifos. O motivo predominante é o zoomorfo, seguido do antropomorfo, aparecendo nos sítios próximos da confluência com o rio Uatumã, máscaras e combinações de retas e círculos. A fase Pitinga até o presente momento foi identificada em apenas um sítio, o AM-UR131. O material cerâmico encontrado é temperado com areia, cariapé e cauixi em função do alto percentual encontrado para o tempero areia, este foi dividido em areia grossa, média e feldspato. Quanto a decoração 87% dos fragmentos da amostra eram simples, os 13% de decorados dividiam-se em vermelho, pintado e, excepcionalmente em inciso, ponteado ou ungulado. O material lítico era composto de facas e raspadores toscamente confeccionados. Não há informação quanto ao padrão de assentamento. Existe uma datação para esta fase de 2.080 anos A.P. Considerando-se as interfaces existentes entre a fase Pitinga da cerâmica encontrada, assim como o estilo Pitinga de arte rupestre registrado nessa área adjacente do rio Uatumã, em analogia à classe Aishalton proposto por Willians, observamos que ocupação humana pré- histórica deste local pressupõe um período de transição ou convergência entre nomadismo e sedentarismo, podendo ser classificado como período pré-sedentário. Nesse momento, ainda não existe uma preocupação relevante com motivos culturais, observando-se entretanto um apelo maior às representações do seu habitat e convívio, como a predominância por exemplo de zoomorfos e antropomorfos. De acordo com Willians (1985), o estilo Aishalton, está normalmente associado a grupos caçadores e coletores, que dividindo-se NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. este estilo em duas subclasses,obtêm-se a biomórfica que incluem antropomorfos caracterizados por simetria ou assimetria horizontal, zoomorfos (macacos, cobras, pássaros, tartarugas e peixes) e os fitomorfos (que não recebem cuidado específico) , como os geométricos. A concepção sobre a possibilidade de um présedentarismo se associa a relação entre as cerâmicas rudimentares, de pouca elaboração da fase Pitinga, encontradas no alto curso do rio, nas proximidades em que também foram revelados os petroglifos semelhantes ao estilo que Willians classificou como Aishalton, (de grupos caçadores e coletores), que junto ao material bastante rudimentar encontrado, pode caracterizar o limiar entre o período présedentário e o início da horticultura précolonial na região estudada. Este está situado à margem direita do Pitinga, sendo o primeiro de uma série de sítios localizados próximos uns dos outros. Apresenta seis petroglifos, que se dividem em geométricas, antropomorfo, zoomorfo e incompleto. Figura 13. Estilo Rupestre Pitinga - Imagem: Arquivo pessoal Sítios rupestres estilo Pitinga Atenta-se para o fato de que quando foi iniciada a pesquisa neste rio, as comportas já haviam sido fechadas, o que indubitavelmente acarretou problemas, pois neste momento a corrida contra o tempo, que já era grande se intensificou. Sendo o tempo é fundamental no registro das sinalações rupestres, ainda foram registrados um total de 47 petroglifos, com predomínio de zoomorfos, seguido pelo geométrico, antropomorfo e cultural. Sítio do Garça- AM-UR-110 Quatro petroglifos estão gravados, em partes, sobre o mesmo suporte rochoso e as demais sinalações aparecem isoladas. O primeiro conjunto é formado pela representação de um zoomorfo e um geométrico, sendo este último composto por uma reta com duas dobras formando um ângulo de 90° e terminando em um círculo irregular. O zoomorfo está desenhado sem representação da cabeça enquanto que o tronco e os membros são retos. Entre os membros inferiores há uma reta terminando em voluta assinalando a existência de uma cauda. O segundo par é formado por um círculo envolto por semicírculos concêntricos (provavelmente seriam círculos concêntricos e a outra metade pode ter sido apagada por intemperismo). Figura 12. Frequencia de motivos rupestres no rio Pitinga- Imagem: Arquivo pessoal GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 133 Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA 134 Sítio Cipoal- AM-UR-111 Contendo doze petroglifos, alguns destruídos por intemperismo, este sítio está localizado na margem esquerda do rio, um pouco acima do anterior. A técnica utilizada na confecção dos petroglifos foi o picoteamento. Os motivos dos petroglifos deste sítio são antropomorfos, zoomorfos e um geométrico. Os zoomorfos, em número de cinco, foram representados cada um de uma forma. O primeiro está desenhado como os membros e troncos representados por retas e entre a representação dos membros inferiores existe uma reta com voluta designando a presença de uma cauda. A cabeça está assinalada por um círculo vazio. O segundo está com o tronco e membros por retas. Entre os membros inferiores há uma reta denotando a existência de uma cauda, porém esta reta não termina em voluta. Por sua vez, a cabeça não foi assinalada. O terceiro zoomorfo registrado neste sítio tem os membros representados por curvas, o tronco por uma elipse, a cabeça por um círculo cheio e entre os membros inferiores há uma reta assinalando uma cauda. O quarto zoomorfo tem tronco representado por uma elipse, os membros por retas e a cabeça por um círculo vazio. O último zoomorfo tem os membros superiores e inferiores, a cauda e o tronco representados por retas, sendo a cabeça representada por um prolongamento do tronco. Já os antropomorfos, em número de quatro, estão desenhados de forma diferentes. O primeiro está representado por um traço na vertical, sugerindo o tronco e duas retas paralelas e transversais ao primeiro traço, sugerindo os membros inferiores e superiores. A cabeça está designada pelo prolongamento da reta que assinala o tronco. Um segundo antropomorfo está gravado com um traço sugerindo o tronco e uma reta transversal denotando os membros superiores, outra para os membros inferiores e um pequeno traço para as duas retas, formando um ângulo de 90°. Com a representação do tronco indicando a existência de órgão sexual masculino. A cabeça também está representada por um prolongamento da reta 3 / Arte Rupestre da Amazônia. do tronco. Existe outro antropomorfo representado por retas, tendo a cabeça representada por um círculo cheio e o traço resultante do picoteamento e um pouco mais espesso que os encontrados em outros petroglifos. A única representação geométrica deste sítio trata-se de uma reta vertical perpendicular a outra horizontal. Os outros são petroglifos incompletas, um tem representado apenas três pequenos traços parcialmente desenhados, em que um representa o tronco e os outros os membros. Sítio Socó- AM-UR-113 Este é mais um sítio situado na margem esquerda do rio Pitinga e apresenta um total de treze sinalações. Os petroglifos estão divididos em antropomorfos, zoomorfos, geométricos e algumas figuras incompletas A técnica utilizada na confecção dos petroglifos foi o picoteamento. A primeira gravação foi um antropomorfo que tem o tronco, os membros superiores e inferiores representados por retas e a cabeça está representada por um ponto, assim como as extremidades das retas que representam os membros. A segunda é um zoomorfo que tem os membros superiores desenhados por uma parábola. Os membros inferiores são representados por uma reta com as extremidades dobradas formando um ângulo menor que 90° e entre eles está gravada outra reta terminando em espiral. A cabeça está marcada por um círculo cheio e o corpo por uma elipse vazia, o terceiro petroglifo registrado foi outro zoomorfo que tem a cabeça representada por um círculo cheio, o corpo por uma elipse, uma reta terminando em voluta marcando a existência de uma cauda e os membros superiores e inferiores por semicírculos. A quarta é um antropomorfo que tem o tronco representado por uma reta, os membros superiores e inferiores formados por três retas que ao se unirem formam um ângulo de 90°. A cabeça está assinalada por um círculo cheio. Já o quinto encontrado é outro antropomorfo com os membros representados por semicírculos, NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. o corpo por elipse e a cabeça por um círculo cheio. Há três zoomorfos que são um triângulo com um traço sinuoso. Dois geométricos é uma voluta, existe outra representação que aparece apenas um triângulo. O último geométrico encontrado neste sítio é uma figura composta por um círculo com duas protuberâncias nas extremidades. Existem mais dois petroglifos incompletos, um é composto por dois traços, um vertical e outro horizontal que se cruzam formando um ângulo de 90°. Ao que tudo indica seria um antropomorfo ou biomorfo que foi parcialmente apagado pela abrasão fluvial e o outro é uma elipse denotando parte do tronco, uma reta assinalando o lado direito do membro superior e a cabeça mostrada por um círculo vazio. Sitio Inundado - AM-UR-115 Este sítio localizado na margem direita do rio, na mesma situação do anterior e também só apresenta um zoomorfo em péssimo estado de conservação, com o tronco representado por uma elipse cortada, na sua parte mediana, por uma reta. Os membros inferiores são representados por duas retas e os superiores com retas terminando em círculos. A cabeça, por sua vez, apresenta-se representada por um círculo cheio. A técnica utilizada na confecção dos petroglifos foi o picoteamento. Sitio Inundado II- AM-UR-116 Localizado na margem direita do rio, um pouco mais acima do anterior, esta unidade arqueológica possui apenas duas sinalações que estão gravadas na mesma face da rocha, uma ao lado da outra, sendo um zoomorfo e um antropomorfo, em razoável estado de conservação. O antropomorfo tem a cabeça representada por um círculo com três círculos internos, dois laterais com pontos no centro e um inferior assinalando os olhos e a boca. A gravação do zoomorfo é composta apenas por três traços que designariam o tronco e os membros, sendo que entre os membros inferiores há um prolongamento do tronco sugerindo a presença da cauda. A técnica utilizada na confecção dos petroglifos foi o picoteamento. Sitio Escorpião- AM-UR-117 Este sítio possui apenas um petroglifo, mas apresenta uma particularidade, o afloramento onde estava gravado o petroglifo já encontrava-se quase totalmente submerso, não só porque as comportas da barragem já estavam fechadas há três meses, mas também por causa de um temporal que castigou a região durante toda a noite anterior, fazendo com que nível do espelho d’água aumentasse ainda mais. O único local emerso na época da pesquisa era a protuberância rochosa onde foi registrado o zoomorfo. A técnica utilizada na confecção dos petroglifos foi o picoteamento. O petroglifo é composto por uma reta vertical representando o tronco, e três horizontais, atribuindo a figura um aspecto de um escorpião, daí o nome do sítio. Sitio Mambira- AM-UR-118 Situado na margem direita do rio, próximo a confluência com o Pitinguinha e fora da área do reservatório da UHE-Balbina, esse é o último sítio petroglifo descoberto na pesquisa. O AM-UR-118 apresenta apenas duas sinalações, sendo as duas de antropomorfos, uma representada por retas para designar os membros e o tronco, a cabeça é denotada por círculo cheio. Já a outra, apresenta corpo desenhado na forma de elipse cheia e a cabeça por circulo cheio, os membros estão desenhados por retas. Algumas considerações O estudo arqueológico da área impactada na UHE Balbina, ocorrido na década de oitenta do século XX, revelou-se um dos estudos pioneiros em arte rupestre no estado do Amazonas, onde foram desenvolvidas as primeiras análises dos registros encontrados na área desta usina. Ainda hoje, a Gruta do Batismo permanece como único exemplar de pintura rupestre no Amazonas, onde as pesquisas arqueológicas voltaram-se durante GLOBAL ROCK ART. Resumos e Atas Digitais - Abstracts and Digital Actas. Vol.I Congresso Internacional da IFRAO 2009 – Piauí / BRASIL 135 Marcus Vinicius de Miranda CORRÊA um longo período para a busca da compreensão das fases arqueológicas existentes, sem a tentativa de serem elaboradas conexões entre os estudos rupestres e as mesmas. A experiência deste trabalho refere-se a uma análise parcial sobre as evidências encontradas em campo, que proporcionam um aporte concreto de referências para a vinculação existente entre estilos rupestres e fases arqueológicas manifestadas naquele local. Essa visão se detém sobre a tentativa de investigar as interconexões existentes nas diversas formas de pesquisar arqueologia, no encontro de um resultado que possa imprimir maior amplitude ao estudo do homem Amazônico. 136 Objetivamente, foram relacionadas duas fases arqueológicas na região de Balbina: A Caparú, datada entre 1000 e 430 AP, onde foi proposta uma inter-relação desta com o estilo Uatumã- Abonari de arte rupestre, agregando a este estudo uma analogia entre os estilos Uatumã Abonari e o Timehri, proposto por Dennis Willians. O embasamento destas interconexões fundamenta-se na área de abrangência do estudo em suas peculiaridades, observando-se que a fase Caparú acontece somente na mesma região em que foi possível encontrar o estilo Uatumã Abonari, relacionando-se a cerâmica mais elaborada da fase caparú aos registros rupestres em que se incluem os motivos culturais como as máscaras que podem caracterizar procedimentos ritualísticos mais típicos dos grupos horticultores. A outra fase arqueológica encontrada foi denominada como Fase Pitinga, datada de cerca de 2080 AP. Assim como a primeira esta também foi relacionada a um estilo rupestre, denominado Pitinga, propondo-se uma analogia entre este estilo e o Aishalton, de Willians. Os limites em que se encontram a fase arqueológica Pitinga estão no alto curso deste rio, em que se verifica a existência de uma cerâmica mais rústica e registros rupestres predominantemente zoomorfos e antropomorfos, relacionados por Willians ao 3 / Arte Rupestre da Amazônia. estilo Aishalton ligados a grupos de caçadores e coletores, que a partir de uma análise conjunta ao material rústico ali encontrado, pode propor uma conjectura característica de um período de transição entre o nomadismo e o modelo sedentário de vida pré- colonial nesta área estudada. Esse período de transição pode ter se desenvolvendo na área que abrange o curso do Rio Pitinga, até a chegada desses povos à confluência entre este rio e o Uatumã, local onde já podem ser observadas gravuras de motivos culturais, que a partir do curso do Uatumã já são encontradas em abundância. Atualmente, novas pesquisas têm se desenvolvido no âmbito da arte rupestre no Amazonas, que poderão contribuir para a interação de estudos e conhecimentos sobre os aspectos arqueológicos que abrangem a região, possibilitando análises que possam corroborar para abertura de novas discussões sobre arte rupestre no Estado. A região de Presidente Figueiredo, onde foi executado o salvamento da hidrelétrica em estudo, constitui-se em um dos maiores patrimônios naturais e arqueológicos do Amazonas, detentor de lugares deslumbrantes,com um levantamento informal que aponta uma diversidade incalculável de formações paisagísticas, como cachoeiras, igarapés, lagos naturais, pântanos, paredões protetores de quedas de água, grutas, cavernas e outros tantos, além do único exemplar de pintura rupestre do Estado, petroglifos,sítios de terra preta, animais exóticos como galo da serra encontrado nessa localização e a histórica reserva dos índios Waimiri - Atroari. Todo esse Patrimônio tem sido esquecido pelos poderes públicos, contribuindo para a degradação paulatina de todo complexo natural em que se insere a cultura antrópica da região, a exemplo da UHE Balbina, já reconhecida como um dos maiores desastres ecológicos do país. A partir da atual mudança de paradigmas em que o contexto global apresenta seu processo de transmutação, observa-se que uma rede de NA BACIA DO UATUMÃ: UMA TENTATIVA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE SÍTIOS RUPESTRES E CERÂMICOS. informações que se interligam buscando a integralidade entre homem e ambiente circuncidante, proporcionando um despertar para questões que possam responder de maneira mais condizente à nova realidade que se apresenta aos poucos em uma nova configuração de vida existente no planeta. Referências BRASIL. Projeto Zoneamento das potencialidades dos recursos Naturais da Amazônia legal. Manaus, IBGE / SUDAM, 1990. CORRÊA, M. V. de M. Gravuras e pinturas rupestres da área do reservatório da UHE-Balbina AM. Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 1994 DUBELAAR, C. N. The petroglyphs in the Guianas and adjacent áreas of Brazil and Venezuela: an iventory with a comprehensive bibliography of sout American and Antillean Petroglyphs. Monumenta Archaeologica. 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