Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai1 “Nous outils d’écriture influent sur nos idées” (Nietzsche). O nosso trabalho no interior do grupo DiCiT (Discurso, Ciência e Tecnologia) tem uma historicidade. No ano de 2006, período de constituição da equipe de pesquisa no Laboratório de Estudos Urbanos – Unicamp/SP, desenvolvíamos uma tese de doutorado2, no Instituto de Estudos da Linguagem, que tinha por objeto de estudo e de compreensão a problemática da imigração clandestina de brasileiros e o retorno desses sujeitos às fronteiras do Brasil via deportação. 1 Doutor em Letras - Unicamp. Integrante do Grupo de Pesquisa DiCiT/Labeurb - Unicamp. E-mail: [email protected] 2 Ver: BARBAI, M. A. Discurso e identificação: o relato do migrante brasileiro clandestino deportado. Campinas: Unicamp, 2008. Tese (Doutorado em Letras), Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 2008. Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai O nosso objetivo era o de compreender, a partir das técnicas de escritura do sujeito, a inscrição e o conhecimento do sujeito sobre si mesmo em uma dada conjuntura no mundo. Víamos, nessa conjuntura, a passagem da sociedade da disciplina para a sociedade de controle. A sociedade, concebida aqui como efeito do Estado-Nação, sustenta-se em quatro elementos: território, ordenamento, nascimento e língua. Esta pode ser vista, na ótica de Michel Foucault (2005), como sociedade da disciplina. O autor ancora essa sua reflexão em dois momentos: nas tecnologias para normatizar o corpo, produzindo efeitos individualizantes em um corpus3 ao mesmo tempo dócil e útil; e na transformação dessa tecnologia para a governabilidade da massa, ou seja, a população, procurando assim controlar a massa viva. Deleuze (1992, p. 215) diz que Foucault já apontava que a sociedade da disciplina (cujo auge deu-se no século passado) é aquilo que já deixamos para trás. Novas tecnologias surgem permitindo a fiscalização informatizada que pode ser designada com Foucault, diz Sennet (2006, p. 53), em uma ‘vigilância panóptica’. Vê-se que aquilo que normatizava o corpo agora o controla em um tempo real. Um dos modos de controle na sociedade é uma imagem incessante que se tem produzido hoje com um verdadeiro aparato tecnológico de vigilância e monitoramento do espaço, do tempo e do sujeito, com os circuitos de câmera e monitoramento por satélite. Assim, sentimos a necessidade de refletir sobre essa representação do mundo que se dá, atualmente, pela geração de imagens. Tal qual evoca a epígrafe de nosso texto, ou seja, “Nossas ferramentas de escritura influem em nossas idéias” (Nietzsche), partimos do pressuposto de que as imagens que se constituem na idade digital podem nos permitir compreender uma ordem outra de nosso tempo, do sujeito e dos processos de constituição, formulação e circulação do discurso. Nesse estudo em andamento no DiCiT, objetivamos pensar as forças produtivas e as relações de produção no que diz respeito aos suportes tecnológicos de registro do mundo. A nossa reflexão, nessa etapa do trabalho, dirige-se 3 Corpus no sentido que lhe dá Agamben (2002, p. 130) é “um ser bifronte, portador tanto da sujeição ao poder soberano quanto das liberdades individuais”. Corpus vem, com Agamben, de Hábeas Corpus – exibir o corpo para a autoridade e impedir o aprisionamento desse corpo. Em suma, um corpus portador de direito e deveres. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 31 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai especificamente para as fotografias e os efeitos que essa ferramenta de escritura da imagem pode vir a significar materialmente quando a interrogamos pelo discurso. Ao invés de seguirmos o caminho clássico na leitura das fotografias, a saber, encontrar em sua superfície um sentido; pensá-la no plano do instante e do sujeito; tratá-la como um certificado de presença (cf. Barthes, 1984, p. 129) produzindo um referente, organizando um ponto de vista; ou ainda, na ordem do discurso - o que nos levaria a fazer como Foucault (1996, p. 51), ou seja, restituir à imagem, tal qual ele fez ao discurso, “seu caráter de acontecimento4” -, tomamos partido pela ótica que a tecnologia tem produzido hoje, uma ótica da percepção, que dá para a imagem um estatuto de filiação. Considerar a imagem enquanto filiação impõe acolhê-la como materialidade, como um estranho espelho que não é transparente ao olhar, que não é evidente. A imagem significa e os suportes técnicos que a inscrevem revolucionam e transformam a singularidade do que se apaga para aparecer, para se transmitir, ser recebido e percebido. O nosso lugar de análise, neste trabalho, parte da reflexão de Régine Robin (2004) sobre os efeitos que produzem os novos suportes, os novos meios de registro na cultura. De certa forma, o nosso exercício aqui é o de começar a refletir com um meio, de teorizar esse meio, de viver através dele. Reportando-se às polêmicas do século XIX sobre a relação entre pintura e fotografia, Robin (Ibid., p. 25) traça todo um paralelo da relação entre fotografia e memória. Falando de Siegfried Kracauser, um dos primeiros a tratar a fotografia como um suporte, na Berlim dos anos de 1920, a autora comenta um curioso exercício desse estudioso, em um texto de 1927: a oposição entre a fotografia de uma estrela de cinema com a de sua avó. 4 Consideramos esse ponto fundamental em nossa pesquisa. Ele também não deixa de ser polêmico. E não se resume simplesmente a um aporte teórico. Em A ordem do discurso (1996), especificamente nas páginas de número 50 e de número 51, no momento em que Foucault fala de um temor do acontecimento, ele profere: “E se quisermos, não digo apagar esse temor, mas analisálo em suas condições, seu jogo e seus efeitos, é preciso, creio, optar por três decisões às quais nosso pensamento resiste um pouco, hoje em dia, e que correspondem aos três grupos de funções que acabo de evocar: questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de acontecimento; suspender, enfim, a soberania do significante. Tais são as tarefas ou, antes, alguns dos temas que gostaria de realizar aqui nos próximos anos [...]”. Ora, restituir ao discurso o seu caráter de acontecimento é considerar o acontecimento um simples atributo do discurso? Se assim o for, o discurso está desprovido desse caráter; o discurso não o tem, não o possui (ele precisa ser devolvido) ou esse caráter, mesmo lhe sendo constitutivo, não é suficiente para designá-lo. O discurso, tal qual entendemos, é acontecimento. Restituir ao discurso esse lugar é uma forma de engessamento e de apagamento de suas forças de produção. Vê-se, aqui, porque o significante é uma ordem e ordem soberana em Foucault. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 32 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai Apropriamo-nos aqui desse ato de Kracauser, mas o empregamos em um percurso outro, ou seja, como um gesto ao nível simbólico, o que impõe a questão do significante. Assim, o que essas imagens que se seguem, vistas sob a ótica da oposição, permitem-nos falar sobre fotografia e memória? Figura 15 Figura 26 Imagens em oposição 5 6 Fonte: <http://veja.abril.com.br/galeria-de-imagens/annie/01-gde.jpg>. Acesso em 10.set.09. Fonte: arquivo pessoal. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 33 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai Ao opor essas duas fotografias é possível identificar – e tomamos o identificar como uma modalidade imaginária da presença do sujeito - uma estrela de cinema de nosso tempo, a atriz Whoppi Goldberg, sob a lente da famosa retratista Annie Leibovitz. A segunda fotografia, parte de um arquivo familiar – tal qual a de Kracauser –, é a de nossa mãe, em 1970. A fotografia da atriz é por nós imediatamente reconhecida e está regida por uma condição de produção particular: a industrialização da imagem no processo constante de obter retratos de celebridades para divulgação em revistas de ampla circulação. No entanto, quando falamos em Leibovitz há a necessidade de destacar a cena, o artístico, na captura da imagem da celebridade por sua lente. A fotografia de nossa mãe é um registro destinado para confecção da carteira de identidade bem como parar manter um antigo hábito: distribuir fotos 3x4 para as pessoas significativas nas relações pessoais, de modo que essas fotos, mesmo em uma bolsa ou em uma carteira, possam vir a representar uma lembrança ou uma porção da pessoa retratada. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 34 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai O que difere aqui entre a fotografia de Whoppi Goldberg e a de nossa mãe é que esta última porta uma imagem da memória. E veja-se que uma imagem da memória que implica a questão da filiação. A filiação é lida por nós pelo estatuto da homonímia 7, ou seja, aquilo que funciona antes da palavra e de sua representação. Aquilo que é homônimo é, fundamentalmente polissêmico. No caso da palavra filiação, temos uma mesma unidade linguística com dois sentidos: filiação a uma memória; filiação por se ter sido concebido por pessoas e entrado no mundo do discurso com essas posições-sujeito. Há a filiação a um estado da imagem de minha mãe que eu jamais poderia conhecer (porque eu não havia ainda nascido), um registro que conserva, no arquivo de minha família, um fragmento de uma história, um fragmento de um enquadramento da modalidade de presença. Esse processo não está dissociado da filiação que produz o discurso: encontro de uma atualidade e uma memória. A visualização e a leitura das fotografias, das imagens que elas sedimentam portam, em nosso ver, um lugar de confronto. Isso porque as relações que elas estabelecem nos levam a viver a dimensão do estranho-familiar. Há uma posição-sujeito em mise en scène (efeito que faz assistir à cena) que produz um efeito de presença subjetiva no mundo. Esse efeito de presença subjetiva possui espessura semântica, já que está inscrito materialmente em um suporte, em um meio. Imagem subjetiva enquadrada que joga, por conta da dimensão do olhar, com a memória, com os trajetos de uma rede de filiação ao sentido. Essas duas imagens vivem e, por conta das posições subjetivas que essas venham a ressoar no mundo, cabe a uma artista ser fotografada em uma banheira coberta com leite para os múltiplos leitores e expectadores de revistas e, cabe também, à nossa mãe, ser fotografada para que uma imagem sua estampe um documento oficial de identificação e permaneça como um lugar de lembrança e de reconhecimento para aqueles que portarem o retrato 3X4. Entra aqui como lugar de distinção a questão do retrato: retrato de uma celebridade, retrato de uma mãe. A celebridade vive no tempo do arquivo artificial e a mãe no arquivo da memória dos filhos. Aqui se coloca ainda os problemas da 7 Sobre a homonímia, ver: MILNER, J. Os nomes indistintos. Trad. Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2006. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 35 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai transmissão entre gerações, já que temos as transformações sofridas pela memória e o trabalho incessante dos mecanismos de esquecimento. De certa forma, é como se o pensamento ficasse obcecado por um tipo de memória que pede novo suporte, como se fossemos impelidos a preservar e a dominar o impalpável do imaginário. Tal qual ressalta Régine Robin (2003, p. 384) com um fragmento de um filme de Chris Marker, Sans soleil, somos semelhantes à sua personagem que diz: Perdu au bout du monde, sur mon ilê, en compagnie de mes chiens qui se pavanent, je me souviens des images que j’ai filmées en janvier à Tokyo. Elles se mettent d’elles-mêmes en place dans ma mémoire. Je me demande comment les gens font pour se souvenir s’ils ne font pas des films, s’ils ne prennent pas des photos, s’ils ne s’enregistrent pas, comment a fait l’humanité pour se souvenir…8. Podemos falar, portanto, em uma memória de experiência constituída não pelas lembranças do que foi vivido, mas pelo efeito de presença inscrito em um registro, o que dá para a memória um tecido significante outro, imagem-filiação, constantemente trabalhado pelo esquecimento. Essa memória resiste à instrumentalização porque ela é da ordem da vivência e da temporalidade. No entanto, a instrumentalização da memória, por conta da industrialização da imagem, pode vir a produzir efeitos significativos. Expostos constantemente à estética do choque e à comercialização da imagem, nós estamos no reino da superfície e no tempo do imediato. Recolhendo alguns fragmentos e pedaços desse imediato, dessa superfície representativa de uma industrialização da visão, adentramos em um funcionamento outro da imagem-filiação, que mesmo sendo articulada por uma memória artificial, registra as transformações da fisionomia do corpo, da fisionomia da cidade e da metamorfose da política. Para explorarmos esses efeitos, propomos que seja observada a imagem que segue, regida pela 8 Tradução nossa: “Perdido no fim do mundo, sobre minha ilha, em companhia de meus cães que caminham majestosamente, eu me lembro do janeiro em Tóquio, ou para ser mais preciso, eu me lembro das imagens que eu filmei em janeiro em Tóquio. Elas se colocam elas mesmas no lugar de minha memória. Eu me pergunto como as pessoas fazem para se lembrar se elas não fazem filmes, se elas não tiram fotografias, se elas não se registram, como tem feito a humanidade para se lembrar...” Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 36 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai seguinte questão: o que podemos ver desta foto partindo do pressuposto de que o sentido é a janela por onde se olha? Figura 39 Essa imagem é também uma fotografia de Annie Leibovitz, tirada para estampar a propaganda da mala Louis Vuitton. A personagem que figura o anúncio da grife é a do ex-presidente da U.R.S.S. e ex-líder do comunismo, Mikhail Gorbachev. Na nossa ótica, essa fotografia chama a atenção pelo choque que ela causa: há uma mala confrontada com o vazio do lugar e com o silêncio do sujeito. Não se trata aqui de ver simplesmente aquilo que nos é dado a olhar: uma mala. Há uma imagem simbólica para aquele que a fotografa e para aquele que a observa. Nessa imagem, que não é absolutamente transparente, há um muro, um sujeito e um objeto. A memória pode prender um instante, mas não se apoderar de um acontecimento. Isso porque o acontecimento implica o ponto de encontro de uma atualidade e de uma memória (cf. Pêcheux, 1997, p. 17), inscrevendo o tempo do vivido e da imagem que se imprime. 9 Fonte: <http://veja.abril.com.br/galeria-de-imagens/annie/14-gde.jpg>. Acesso em: 10.set.09. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 37 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai Essa fotografia, muito mais do que vender um produto utilizado por um sujeito em um tempo e em um espaço, tem espessura semântica. É olhando pela janela que o acontecimento atualiza o muro, que a mala e o sujeito significam. O estado do muro, com os grafites que ele estampa, leva-nos a um muro do passado: o muro de Berlim. A mala que o sujeito porta dirige-nos a um objeto simbólico da modernidade e do luxo (com o renome de uma marca global) em tempos do capitalismo. Mas, e o sujeito? O sujeito está em silêncio. Porém, em análise de discurso nós sabemos que o silêncio significa. Um corpo ao lado de uma mala? Imagem muito evidente! Imagem do comunismo ao lado do capitalismo? Não sabemos! Imagem do comunismo substituído pelo capitalismo? Não podemos afirmar! No entanto, essa fotografia mostra – e ironicamente - que ninguém está seguro da imagem e da posição que deseja ter ou inscrever no mundo. É importante sublinhar que optamos neste texto por um exercício de análise que nos permitisse um contato e uma primeira abordagem com a materialidade da imagem, sustentada pelo suporte das fotografias. Nessa experiência, a questão da filiação se impôs fundamentalmente para nós. Isso nos incita a pensar nas forças produtivas, a saber, a ideologia e o inconsciente, enquanto instâncias que não só produzem, mas fazem das imagens um acontecimento subjetivo que ressoa no mundo. Referências AGAMBEN, G. Homo sacer: o poder do soberano e a vida nua. Trad. Bruno Burigo. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002. BARTHES, R. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Trad. Laura F. de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996. ______. Em defesa da sociedade. Curso no Collège de France (1975-1976). Trad. Maria Ermentina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005. PECHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 1997. ROBIN, R. Cybermigrances: traversées fugitives. Montréal (Québec): VLB Éditeur, 2004. 38 Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 Ver no já visto: imagem e filiação Marcos Aurélio Barbai ______. La mémoire saturée. Paris: Éditions Stock, 2003. <http://veja.abril.com.br/galeria-de-imagens/annie/01-gde.jpg>. Acesso em 10.set.09. <http://veja.abril.com.br/galeria-de-imagens/annie/14-gde.jpg>. Acesso em 10.set.09. Tecnologias de linguagem e produção do conhecimento Coleção HiperS@beres | www.ufsm.br/hipersaberes | Santa Maria | Volume II | Dezembro 2009 39