Turnerschaft em Juiz de Fora: um olhar histórico e multicultural (1908-1930) Heglison Custódio Toledo | [email protected] Lamartine P. DaCosta Grupo de Pesquisas em Estudos Olímpicos Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro 0 | Abstract At the beginning of the 20th century, the world population witnessed great transformations related to the industrial revolution. In the city of Juiz de Fora, located in the state of Minas Gerais, the population had different characteristics from other cities of the interior of Brazil due to the privileged location of this city, very close to both Rio de Janeiro and São Paulo, large urban centers. On Sundays, German youths met at the Stiebler brewery park to exercise. In 1908, they decided to found the Turnerschaft Club Gymnástico of Juiz de Fora, which gathered affluent social groups, including entrepreneurs who wanted to imitate European behavior and who were at the time constructing a very important road to Rio de Janeiro. The importance of German immigrants for Brazilian sport is a recognized fact as confirmed by the memory of the national sport collected between the 19th and | 504 20 th centuries (DaCosta, 2005). Hygienist and ethnic behaviors historically defined conducts which reproduced the ideal of physical activity of that time (Tesch, 2005). In this sense, the objective of this research is to interpret the various developments and consequences of the foundation of the Turnerschaft of Juiz de Fora, State of Minas Gerais, in the context of the prior Germanic influence. Different ethnic groups – mostly Germans, Italians and Spanish - helped generate various sporting activities in Juiz de Fora then promoting a multicultural co-operation. 1 | Introdução A importância dos imigrantes alemães para o esporte brasileiro é um fato reconhecido, pois a memória do esporte nacional nos retrata tal interferência entre os séculos XIX e XX (DaCosta, 2005). Os contornos históricos higienistas e de identidade étnica impuseram condutas e comportamentos que reproduzem o ideal de atividade física da época em foco (Tesch, 2005). Neste sentido, esta pesquisa objetiva interpretar historicamente os diferentes desdobramentos da fundação do clube Turnerschaft de Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais, no contexto da influência germânica ora pressuposta como geradora de atividades esportivas em grupos étnicos distintos nas regiões em que se localizavam. Para o desenvolvimento deste estudo, estabeleceu-se um período histórico que compreendeu o desenvolvimento da sociedade local e sua relação com a consolidação da prática esportiva. Neste sentido, a construção do objeto de estudo partiu da busca do entendimento de quais foram os sujeitos 505 | históricos e quais foram as contribuições destes sujeitos desde que o clube alemão foi instalado na cidade de Juiz de Fora. Os procedimentos metodológicos utilizados concentraram-se nas interpretações de fontes primárias numa perspectiva de construção de fatos sociais no tempo histórico e no espaço vivenciado. As fontes primárias foram os documentos do clube Turnerschaft listados no final deste texto e as fontes secundárias – que delimitaram o contexto sócio-cultural do clube em evidência – estabeleceram-se por vínculos com fatos de maior destaque na história do clube. 2 | Origens históricas de Juiz de Fora Ao final do século XIX e início do século XX, a população mundial assistia a grandes transformações, principalmente relacionadas à revolução industrial. No Brasil, especificamente em Juiz de Fora-MG, surgiram avanços sociais e econômicos similares ao mundo em desenvolvimento acelerado. Este fato distinguiu-se de outras cidades do interior do Brasil e se deveu à localização privilegiada da cidade, então atuando com encruzilhada de acessos aos principais centros urbanos do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo. A formação e crescimento deste município iniciaram-se com a construção do “caminho novo” no século XIX, o que permitiu o acesso mais rápido entre as minas de ouro e o porto do Rio de Janeiro. O engenheiro ex-militar prussiano Henrique Halfeld foi contratado pelo Império para a construção desta estrada que ligaria a capital da província à capital do país. O empreendimento foi inaugurado em 1861 com a presença do | 506 Imperador D. Pedro II, e desde então a estrada UniãoIndústria foi considerada uma das mais modernas do mundo, desempenhando um importante papel no desenvolvimento da cidade até meados do século XX (Menezes, 2004). Neste ambiente, a economia cresceu apoiada na difusão da indústria de índole Fordista, chegando à cidade em 1880 a Cia. Ferro Carril de Bondes de Juiz de Fora. Seguindo sua vocação industrial, a criação da Companhia Bernardo Mascarenhas de fabricação de têxteis, gerou a necessidade de uma série de investimentos e inovações para a consolidação de seu projeto. Criou-se, então, a primeira usina hidrelétrica da América do Sul no ano de 1889, gerando energia que passou a atender tanto as necessidades da fábrica quanto da iluminação das residências. Bernardo Mascarenhas, já atuando como importante industrial do país, criou no final do século XIX, a associação promotora da imigração. Esta iniciativa permitiu apoio do governo e conseqüentemente instalação em Juiz de Fora de uma grande população de alemães, além de ingleses, espanhóis, italianos entre outros. O impacto deste fato proporcionou ações que podem caracterizar o desenvolvimento esportivo da região de Juiz de Fora, como nos relata Jesus (1999): “Os esportes modernos foram codificados, majoritariamente, na segunda metade do século XIX, e imediatamente encontraram grande difusão pelas redes internacionais de comércio e dominação imperialista. Ao 507 | longo do século XX, a expansão do chamado tempo livre e do consumo de serviços de lazer propiciou o crescimento constante dos esportes, seja como prática saudável, seja como espetáculo. E assim os esportes contaram com fortes políticas nacionais.” Com uma característica moderna e conectada aos avanços republicanos inerentes ao período histórico, a cidade integrou imigrantes de várias regiões do mundo. Estes traziam em si um fervor de evangelização e pelo fato da cidade estar fora do eixo católico do país, Juiz de Fora recebeu neste período missionários protestantes, além de comerciantes e industriais. Ao reportar os pensamentos de Neves apud Netto (1997), esclarecemo-nos da importante influência de Juiz de Fora no cenário nacional à época visto que para o autor acima citado “Juiz de Fora não é de cerne mineira nem fluminense. É Típica. Regional talvez, mas no de referência única. Juiz de Fora é uma colcha de retalhos.” O cosmopolitismo de Juiz de Fora é retratado por um significativo número de estrangeiros, que neste período a cidade apresentava uma população de 17.722 habitantes, dos quais 15.219 eram brasileiros e 2.503 estrangeiros (Toledo & DaCosta, 1999). 3 | A fundação do Turnerschaft em Juiz de Fora No início do século XX, jovens reuniam-se no parque da cervejaria Stiebler e, entre eles, membros da colônia alemã | 508 e rapazes da cidade, para se divertirem jogando boliche, atividade muito praticada à época por grupos étnicos germânicos (Arquivo do Turnerschaft, 1909). O esporte, neste caso, teve inserção natural nos grupos de imigrantes e descendentes, sobretudo entre os mais afluentes. Por razões similares, escreveu Jesus (1999), referindo-se à primeira Revolução Industrial, que a crescente divisão técnica de tarefas “estimulou a burguesia a promover os esportes praticados coletivamente, como instrumento de uma pedagogia da sociedade industrial nascente”. Assim, a criação de clubes esportivos em Juiz de Fora teve fatos correspondentes em outros países em que localizavam grupos de alemães trabalhadores da indústria, como, por exemplo, na Turquia, conforme relata Okay (2003). Na cervejaria Stiebler, na qual estes jovens se encontravam, existiam aparelhos ginásticos, e surgiu a idéia de se reunirem aos domingos pela manhã para fazer exercícios disciplinados e regulares. Em 1908, os praticantes resolveram fundar um clube de ginástica, e deste modo o Sr. Carlos (Karl) Stiebler disponibilizou gratuitamente o seu parque a todos os sócios. Assim nasceu o Turnerschaft, ainda sem diretoria eleita (Arquivo do Turnershaft, 1909). O clube resolveu promover uma atividade para angariar fundos para a compra dos aparelhos; neste momento, havia elevado para 20 o número de sócios (Arquivo do Turnerschaft, 1909). Com o aumento progressivo do número de sócios, foi realizada em 05 de junho de 1910 a eleição 509 | da primeira diretoria sendo Matheus Kascher: Presidente, Gustavo Kietzsch: 1o. diretor, Hans Rappel: 2o. diretor e Carlos Stiebler: Tesoureiro. Para a boa regularidade do clube nomearam uma comissão para organizar os estatutos do clube (Arquivo do Turnerschaft, 1909). 4 | A organização esportiva do Turnerschaft O clube recebeu diversos prêmios e donativos como uma bandeira nacional, e também “Varas, Ferros e Halteres”. No seu segundo ano de existência o clube realizou a primeira festa pública em 22 de janeiro de 1911, conforme é relatado no arquivo do clube. As apresentações públicas provocaram o surgimento de novos sócios e o progresso da sociedade. Em 1912, o Dr. Eduardo de Menezes, domiciliado em Juiz de Fora, retornou ao Brasil após se curar da tuberculose na Alemanha, encontrando um clube organizado e em pleno funcionamento. Este médico logo identificou na ginástica praticada pelos jovens, um ótimo meio de recuperação e manutenção da saúde, de acordo com a mentalidade da época. Assim sendo, no micro-espaço de Juiz de Fora ocorreu uma sincronia com o tempo histórico do higienismo que no fenômeno esportivo brasileiro não se deu somente pelos militares e sim, também pelos médicos, conforme nos recorda Marinho (1980). Ou seja: os médicos higienistas nacionais viram na Educação Física um meio de prevenir e recuperar os pacientes, já que o aspecto terapêutico definia um paradigma anatômico estabelecido por higiene do corpo. | 510 Tal comportamento foi refletido pelo Dr. Eduardo de Menezes, que viabilizou a compra dos aparelhos, assim como a adaptação do prédio da Liga Mineira contra a Tuberculose para uso do clube, sendo a administração e conservação do estabelecimento por conta dos diretores. Esta ação se seguiu à assinatura de um contrato. Portanto, em outubro de 1913, o clube se instalou de forma definitiva e adequada, denominando Instituto de Cultura Phísica Dona Maria do Carmo (Ata 20 de outubro de 1913). A presença dos alemães ao longo da história é marcante, principalmente relacionada ao esporte, visto que a criação do Turnerschaft em Juiz de Fora propiciou o desenvolvimento do esporte na região. O clube teve como lema “Forte, Franco, Firme e Fiel”, o que constitui na expressão e na configuração da construção do ser higiênico, forte e sadio. Conforme Higounet et al. (1988): “A história das mentalidades tem como objetivo a reconstituição dos comportamentos, das expressões e dos silêncios que traduzem as concepções do mundo e as sensibilidades colectivas; representações e imagens, mitos e valores reconhecidos ou suportados pelos grupos ou pela sociedade global, e que constituem os conteúdos das psicologias coletivas, proporcionam os elementos fundamentais desta pesquisa.” 511 | Dentro deste contexto macro, o micro clube Turnerschaft em Juiz de Fora tinha uma organização que permitia ampliar e diversificar áreas de atuação. O clube seguia inovações, como exemplo a inclusão de um programa de atletismo, e a abertura da primeira turma de ginástica para o público feminino. O contexto político mundial da época estava gerando muitas dificuldades para o clube principalmente aos sócios alemães, por conta disto, em 21 de dezembro de 1913, foi aceito como sócio o Sr. Caetano Evangelista, brasileiro de descendência italiana. Em 1917, para evitar a perseguição que os alemães estavam sofrendo, o clube passou a ser chamado de Clube Ginástico de Juiz de Fora. O então diretor Hans Rappel deixou o cargo e o Sr. Caetano Evangelista assumiu o seu lugar. 5 | Conclusões A partir destes fatos resumidamente relatados, podemos buscar uma compreensão para a evolução do esporte em Juiz de Fora entre 1908 e 1930, seguindo interpretações contextuais da época. O clube Ginástico de Juiz de Fora abrigava importantes figuras sociais, dentre elas industriais, que intempestivamente, impunham os costumes da época e então reproduziram um comportamento europeu e multicultural, sendo assim uma importante via de importação de modalidades esportivas. Em 1923, sob o comando do Sr. Caetano Evangelista, o clube Ginástico inaugurou as seções de Vôlei, Basquete e Ping Pong (Gazeta do Comércio, 1935). Evangelista também cursou na | 512 Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro, orientações de Educação Física, sendo então, convidado a assumir as aulas de Educação Física no Colégio Americano Granbery em 1925, em seguida no Colégio Stella Matutina e Instituto Normal de Ensino. Pelos apontamentos apresentados nas atas do clube Ginástico, permite-nos interpretar o período como de desdobramento de atividades de um núcleo consolidado (o clube) para setores da cidade receptivos aos exercícios físicos. Evangelista, no caso, atuou como vetor do desdobramento das atividades esportivas escolares. Em resumo, no caso de Juiz de Fora, os sujeitos históricos contribuíram de maneira significativa para a difusão prática esportiva, inclusive influenciando na prática da Educação Física escolar. Nestes termos, no Brasil da primeira metade do século XX – que ainda não contava com professores de Educação Física formados em estabelecimentos profissionalizantes ou universitários – deve ter emergido possibilidades de difusão dos esportes por mera transmissão de exemplos ou modelos de práticas. Contudo, a investigação desta hipótese ainda se restringe a fatos de memória como se constata no Atlas do Esporte no Brasil (DaCosta, 2005), o que nos sugere a necessidade de gerar estudos históricos mais elaborados. 6 | Referências ARQUIVO DO TURNERSCHAFT CLUB GYMNASTICO JUIZ DE FORA, 1909. ATA do dia 20 de outubro de 1913. Livro de Atas do Turnerschaft Club Gymnastico Juiz de Fora, Juiz de Fora, p. 19. 513 | CLUB GINASTICO JUIZ DE FORA. Gazeta do Comércio, Juiz de Fora, ago. 1935. DACOSTA, L. P. (Org). Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005. p. 180 -185. HIGOUNET, C. et al. História e Historicidade. Gradiva: Lisboa, 1988. MARINHO, I. P. História Geral da Educação Física. 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