ID: 52743259 07-03-2014 Tiragem: 17325 Pág: 8 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 23,95 x 24,83 cm² Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 1 de 3 Dívidas incobráveis mais que duplicam para 633 milhões em 2013 Execuções. Registos de devedores crónicos disparam para mais de 81 mil. Só em 2013 a subida foi de 150%. Maioria são particulares, num total de dívida que soma já 1,4 mil milhões de euros. Lígia Simões [email protected] A lista pública de execuções (LPE) já tem mais de 81.400 nomes de devedores que não têm dinheiro para pagar as dívidas ou bens para penhorar. A situação agravou-se no ano passado, com os montantes em dívida a disparem 150% para 633 milhões de euros - em média 1,7 milhões de euros de dívidas são declaradas incobráveis todos os dias. Desde que foi criada em 2009 para detectar situações de incobrabilidade e prevenir acções judiciais inúteis, a LPE não pára de subir e regista valores históricos: mais de 1,4 mil milhões de euros de dívidas cobradas judicialmente que não foram pagas pelos devedores e que representam cerca de 1% do PIB, segundo dados cedidos ao Diário Económico pelo Ministério da Justiça. Os particulares representam a maior fatia da lista. Nos dois primeiros meses deste ano a LPE registou mais 10.630 devedores crónicos que acumulam já 221 milhões de euros de créditos por pagar em processos de execução. Em causa estão dívidas a fornecedores, instituições financeiras (banca e seguros), empresas de serviços públicos essenciais (água e luz) e telecomunicações, crédito ao consumo, arrendamentos, letras, livranças e cheques. Também são contabilizadas dívidas de salários e indemnizações. “[Os dados] reflectem a profundidade da crise económica e os efeitos devastadores que provocou em termos sociais”, afirma o fiscalista Samuel Fernandes de Almeida. A lista negra registou novos recordes no ano passado: 33.363 devedores crónicos (mais 61%) e dívidas incobráveis de 633 milhões de euros, 2,5 vezes mais face ao ano anterior e um montante que supera num só ano as dívidas registadas entre Junho de 2009 e 2012 (603 milhões de euros). Os responsáveis da escalada Os particulares assumem já um peso de 68% (54.934) no total da base de dados do Ministério da Justiça. Juristas contactados pelo Diário Económico dão uma série de razões para o aumento entre as famílias portuguesas. O fiscalista Rogério Fernandes Ferreira diz que esta evolução se deve ao desemprego e aumento da carga fiscal que levou a “uma diminuição significativa do poder de compra”, conduzindo “a um avolumar de dívida que se estará agora a manifestar”. A advogada Ana Almeida, da Espanha & Associados, considera também que aumento de insolvências dos Estes dados reflectem “a profundidade da crise económica e os efeitos devastadores que provocou em termos sociais”,diz Samuel Almeida. particulares “está ligado às situações de redução salarial, essenciais para o orçamento familiar”. Já Samuel Almeida explica que, sem fontes adicionais de rendimentos, muitas famílias entraram em incumprimento definitivo, reforçando aqui o facto de estas disporem como único activo, em regra, imóveis que já servem de garantia a vários créditos. O reflexo de todas estas dificuldades são os milhares de nomes constantes na LPE: 81.441. Só no passado foram incluídos cerca de 35 novos devedores por dia, cujas execuções terminaram por não existirem bens penhoráveis ou pagamento parcial, média muito superior aos 24 registos diários entre Janeiro e Dezembro de 2012. Samuel Almeida considera que o crédito incobrável e o número de devedores tenderão a estabilizar face aos sinais de inversão da economia. Mas alerta: “o ajustamento no sector privado ainda vai durar muitos anos face ao excessivo endividamento de particulares e empresas”. Basta ver aqui que também a quantia média em dívida está a aumentar: passou de 12.205 euros, em 2012, para 18.961 euros, em 2013. Nos dois primeiros meses deste ano, a dívida média de ascende já a 20.814 euros para o total de devedores crónicos registados (10.630) que dispararam face aos 5.561 nomes registados na lista em igual período de 2013. No caso das empresas - que têm vindo também a entrar em maior número para a LPE e valem 26% do universo de devedores Samuel Almeida aponta a escassez do crédito e a forte contracção do consumo privado como estando na base de dificuldades de tesouraria que “implicam em muitos casos a falência”. ■ Lista facilita recuperação de IVA Além de evitar processos judiciais sem viabilidade, a criação da LPE em 2009 teve também como objectivo permitir aos credores recuperarem o IVA para dívidas até oito mil euros. Se uma empresa celebrar um contrato com alguém que não lhe pagou e que, depois, venha a ser incluído na lista, pode recuperar o IVA que teve de entregar às Finanças sem mais formalidades, desde que tenha tentado recuperar esse crédito por escrito (através de uma carta). Mas o OE/12 acabou por introduzir uma limitação: a impossibilidade de dedução automática do IVA liquidado em todos os casos em que o devedor já constasse da LPE, na data da realização da operação. Esta lista é particularmente relevante para efeitos de IVA. Além dos casos em que seja decretada a falência, a extinção do processo de execução com fundamento em inexistência de bens penhoráveis abre a possibilidade aos fornecedores/prestadores de serviços recuperarem o IVA que entregaram ao Estado respeitante a créditos que disponham sobre os seus clientes. ID: 52743259 07-03-2014 Tiragem: 17325 Pág: 9 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 24,39 x 24,83 cm² Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 2 de 3 Quem não paga? Sofreram corte de rendimentos e têm mais despesas. E somam-se casos de sobreendividados. Quem são e como vivem os particulares que estão a entrar em ruptura financeira? As situações são variadas e podem incluir casos de sobreendividados, mas não só. Tratam-se na esmagadora maioria de agregados familiares da classe média com filhos - e de outros casos vulneráveis, como reformados que sofreram cortes de pensões, famílias monoparentais, com ou sem filhos, nas quais as situações de desemprego comprometem todo o rendimento (tal como no cada vez maior número de casais com ambos desempregados). Este perfil foi traçado ao Económico por Catarina Frade, investigadora da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, que avança com uma explicação para o aumento de devedores crónicos, sem dinheiro e bens penhoráveis para pagar dívidas. “Era inevitável. São os efeitos da crise: o aumento do desemprego, corte de salários e pensões, redução de apoios sociais e poupanças e hipotecas executadas”, diz. Frisa que se assistiu a uma quebra de rendimentos das famílias ao mesmo tempo que aumentaram as despesas – impostos e serviços essenciais, desequilibrando o orçamento familiar. Esta conjugação, diz, colocou “mais pressão no incumprimento que só não se acentuou antes, pois tinham pais e avós que os ajudava. Mas também agora estes foram afectados pelas medidas de austeridade”. Catarina Frade não exclui que em alguns casos de devedores crónicos se incluam situações de sobreendividados: pessoas casadas, com filhos, nível de instrução médio e uma média de três créditos (casa, carro e crédito pessoal e um cartão de crédito). Mas esta ruptura financeira é também sentida por quem não tem qualquer crédito e não consegue pagar as dívidas. Uma realidade que tem estado a aumentar com os casos de pessoas que acumulam dívidas ligadas a serviços essenciais, seguros, comunicações, creches, ATL e até medicamentos. ■ L.S. TRÊS PERGUNTAS A... ROGÉRIO F. FERREIRA Fiscalista e ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. “2014 deverá ser um ano recorde” Especialista analisa escalada de dívidas incobráveis e devedores. Como se explica este aumento de dívidas incobráveis? Ao longo dos últimos anos tem-se assistido, por via do desemprego e por via do aumento da carga fiscal, a uma diminuição significativa do poder de compra. Esta situação terá conduzido a um avolumar de dívida que se estará agora a manifestar através da conclusão de processos executivos sem que os bens do devedor sejam suficientes para pagamento das dívidas. Esta tendência tenderá a agravar-se ou a melhorar? Os primeiros meses de 2014 mostram sinais de agravamento e deverá ser o “olho do furacão”, pelo que, provavelmente, no Infografia: Susana Lopes | [email protected] segundo semestre assistiremos ao normalizar da situação com a redução das inscrições mensais na LPE. Ainda assim, 2014 deverá ser um ano “recorde” em termos de número e valor das inscrições. Está a ser cumprido o objectivo da ‘troika’ de travar as pendências judiciais? O MoU previa diversas medidas tendentes a diminuir as pendências judiciais de que se destaca a reforma do processo civil. Pelo menos do ponto de vista formal, as medidas foram concretizadas. Porém, o MoU determinava também a operacionalização da arbitragem para acções executivas até final de Fevereiro de 2012, o que ainda não terá sucedido e poderá dar um contributo decisivo à diminuição das pendências judiciais. A escalada dos processos desta natureza depende mais das condições económicas e da actuação dos agentes económicos (condições de pagamento pelos serviços prestados) do que de medidas legislativas. ID: 52743259 07-03-2014 Tiragem: 17325 Pág: 1 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 6,04 x 2,31 cm² Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 3 de 3 Dívidas incobráveis mais que duplicam em 2013 ➥ P8