POLÍTICAS PÚBLICAS: O RURAL É MAIS QUE PRODUZIR! [email protected] Apresentação Oral-Evolução e estrutura da agropecuária no Brasil ADEMIR ANTONIO CAZELLA1; ADINOR JOSÉ CAPELLESSO2; VALMIR LUIZ STROPASOLAS3; FÁBIO LUIZ BÚRIGO4. 1.UNIVERSIDADE FEDERAL DE FLORIANÓPOLIS, FLORIANOPOLIS - SC BRASIL; 2,3,4.UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, FLORIANÓPOLIS - SC - BRASIL. POLÍTICAS PÚBLICAS: O RURAL É MAIS QUE PRODUZIR! Grupo de Pesquisa: Evolução e estrutura da agropecuária no Brasil. Resumo: As políticas públicas tiveram papel central na transformação da base sócioprodutiva da agricultura brasileira. Após a polarização de projetos dos anos 1960, a ‘modernização conservadora’ promovida pelo Governo Militar priorizou o aumento da produtividade. Essa modernização contou com subsídios amparados nos recursos públicos, sobretudo, operacionalizados pelo Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR). As contradições sociopolíticas desse projeto provocaram inúmeras mobilizações sociais que propiciaram à agricultura familiar conquistar seu reconhecimento junto à sociedade. O presente trabalho faz um recorte desse processo histórico para demonstrar que, em oposição ao projeto conservador, as reformas de base consideravam o meio rural como um espaço para se viver. Na atualidade, esta é a concepção que orienta muitas das atuais políticas públicas para a agricultura familiar. Diversas medidas inovadoras buscam favorecer a interface desse tipo de agricultura com os mercados, a criação de novas fontes de renda e o respeito do meio ambiente. Porém, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) teve sua criação orientada pelas normas tradicionais do crédito agrícola produtivista. As tentativas posteriores de readequação desta política estão apontando para a reconfiguração do programa, mas os seus resultados são ainda incertos. Palavras-chaves: Modernização agropecuária, Políticas Públicas, Desenvolvimento. PUBLIC POLITICS: THE RURAL IS MORE THAT PRODUCE! Abstract: The public politics had central role in the social and productive base transformation of Brazilian agriculture. After polarization of projects in the 1960s, the 'conservative modernization' wich was promoted by the military government, prioritied increasing productivity. This modernization was subsidized with public resources, in particular, operated by the National System Rural Credit (NSRC). The social contradictions of this project encouraged many social mobilization and the family farming win their recognition from the society. This work make is side view of the historical 1 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural process to show that, in opposition to the conservative project, the reform of base considered the rural areas as a place to live. Actually, this is the concept that guides much of current public politics for family farming. Several innovative measures objectify promote an interface of agriculture type with the markets, creation new sources of income and respect the environment. However, the National Program for Strengthening Family Farming (Pronaf) was created by the oriention of traditional standards of the productivist agricultural credit. The subsequent attempts to adept again this politic are pointing to the reconfiguration of the program, but these results are still uncertain. Key Words: Agricultural Modernization, Public Politics, Development. INTRODUÇÃO O presente texto objetiva reconstruir parte do processo histórico da agricultura brasileira para demonstrar o resgate do espaço rural com um espaço para a vida e o desenvolvimento humano, concepção que orienta as atuais políticas públicas para a agricultura familiar. Para isso remonta-se à polarização de projetos dos anos 1960, demonstrando que o projeto da Ditadura Militar negava esta concepção. Em seguida destaca-se o seu esgotamento com a queda no crescimento econômico e a transformação do êxodo rural em um grave problema social. Assim, na década de 1980 começa-se a perceber o rural como um espaço de vida e de reserva de biodiversidade. A partir daí discute-se os limites e avanços das políticas públicas para superar seu caráter restrito ao fomento da produção. 1. A ‘MODERNIZAÇÃO CONSERVADORA’ NO ‘DESENVOLVIMENTO’ 1.1. A disputa de projetos na década de 1960 A crise econômica do início da década de 1960 evidenciou os problemas sociais, refletindo na ampliação das organizações sociais, a exemplo das Ligas Camponesas criadas em 1955 no Nordeste brasileiro. Nesse momento ocorreu uma polarização de projetos, onde grande parte dessas organizações se situou em torno do campo político que defendia as reformas de base e estruturou um projeto de desenvolvimento para o país. Esta proposta buscava estender os direitos trabalhistas urbanos para o campo através do Estatuto do Trabalhador Rural e realizar uma reforma agrária estruturante baseada no Estatuto da Terra, que preconizava, ao mesmo tempo, a reforma agrária e a modernização do campo. Assim, esperava-se ampliar o mercado interno aos produtos industrializados e alcançar a dinamização econômica propiciada pela reforma agrária em vários países capitalistas, a exemplo dos EUA e do Japão. Mas o ‘golpe militar’ de 1964 selou a vitória conservadora que defendia a modernização do campo associada à manutenção da estrutura fundiária concentrada. O Estatuto do Trabalhador Rural e a parte do Estatuto da Terra que tratavam da reforma agrária foram abandonados. A modernização do campo não garantiu os direitos trabalhistas e nem a mudança na estrutura fundiária, sendo por isso conhecida como a ‘modernização conservadora’. Delgado (1985) e Martine (1991) destacam que esta gerou ainda mais concentração de terra e renda. 2 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural O Governo Militar passou a centralizar no Estado a função de organizar as estruturas políticas que visavam modernizar o sistema financeiro e sua própria máquina fiscal, criando – ao modo keynesiano1 – a base para o ‘milagre econômico’: No final dos anos 1960, o boom dos produtos agrícolas, capacidade ociosa na indústria, expectativas positivas para os investimentos internos e externos e ainda, a política de Estado ostensivamente ‘desenvolvimentista’ – a partir de 67 – formam o conjunto de circunstâncias favoráveis ao ciclo econômico expansivo mais vigoroso que o do Plano de Metas (56-60) (DELGADO, 1985, p.52). Como se analisa a seguir, as mudanças promovidas pelo Estado no sistema financeiro foram direcionadas a ampliar a disponibilidade de crédito ao consumo, à produção e promover as exportações, dando início a um ciclo virtuoso de expansão da economia. Nesse novo quadro, a agropecuária contou com uma série de políticas financeiras e fiscais. Estas subsidiaram sua modernização e lhes propiciaram cumprir, ao menos temporariamente, o papel estabilizador necessário para promover e ampliar o período do ciclo econômico expansivo. 1.2. A política agrícola articulada ao crescimento econômico Para dinamizar a economia, Delgado (1985) demonstra que o Estado adotou as seguintes medidas de financiamento: a) a ampliação da liquidez aos financiamentos privados e públicos (através dos novos esquemas de endividamento extra-bancários que mediavam a captação e circulação intersetorial de excedentes; e através da emissão de títulos da dívida pública e privada, com correção monetária); e b) o financiamento de bens de consumo para as camadas médias urbanas. A disponibilidade de crédito fomentou a venda de Bens de Consumo Duráveis (BCD), estes puxaram os Bens de Capital (BK) e o setor de Bens Salário2. Para o sucesso dessa política, o Sistema de Financiamento da Habitação e o Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) cumpriram um papel relevante. Enquanto o primeiro atuava na construção civil, que é um setor estratégico para alavancar os BCD, o segundo fomentava e subsidiava a modernização agrícola. Esta modernização adotou uma lógica produtivista destinada a ampliar as exportações – para manter os saldos comerciais – e atender à crescente demanda urbana por alimentos a baixos preços – permitindo liberar uma maior parte dos salários urbanos para a aquisição dos BCD. Assim, a agricultura contribuiu significativamente para a estabilidade, em virtude da importância do setor primário para a entrada de divisas e a formação dos custos básicos do sistema (salário)3. Para esse autor, três mudanças da política econômica e monetária foram chaves para o novo arranjo de medidas na agropecuária a partir de 1965: a) adoção de subsídios creditícios à modernização agropecuária (tendo por base a instituição do SNCR entre 19651 O keynesianismo se caracteriza pela participação ativa do Estado promovendo o desenvolvimento econômico, contrapondo-se às proposições liberais que defende o Estado mínimo e a liberdade de mercado. 2 Os bens salário se aproximam muito do que se denomina cesta básica, pois se refere aos produtos muito consumidos pelas famílias durante o mês, os quais precisam ser garantidos através do salário. Assim, o setor de bens salário é aquele responsável pela produção do que é consumido constantemente em curto período. 3 Contribuindo para evitar o aumento dos salários em meio à crescente demanda de mão-de-obra urbanoindustrial, a modernização técnica da agricultura também diminuiu a necessidade de mão-de-obra no campo, criando o movimento migratório de agricultores para as cidades, conhecido como ‘êxodo rural’. 3 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural 67); b) medidas de subsídios às exportações sob a forma de isenções, créditos fiscais e taxas de juros favoráveis; e c) abandono do regime de taxa de cambio fixa, sujeita às grandes desvalorizações no longo prazo, adotando-se, em seu lugar, o sistema de minidesvalorização a partir de 1968. Com esta mudança abandonou-se a transferência de divisas das exportações de café para a industrialização e, em sentido contrário, o Estado passou a subsidiar a agricultura através do crédito aos exportadores. O SNCR contava com a mesma massa de recursos que financiavam as aplicações favorecidas às exportações (principalmente de produtos agrícolas), ao Proálcool4 e aos programas de apoio às pequenas e médias empresas. Segundo Delgado (1985) esta viabilidade requeria a existência de algumas circunstâncias: a) uma massa apreciável de depósitos à vista, não remunerados e, portanto, de custo de captação praticamente nulo; b) excedentes de recursos fiscais ou para-fiscais, oriundos da manipulação de várias contas de comércio exterior que, em última instância, representam saldos líquidos em razão do crescimento da base de tributação e/ou do saldo de comércio externo; e c) crescimento da renda nacional com uma política paralela de expansão ativa do crédito e da oferta de moeda, as quais viabilizavam as transferências de recursos aos bancos que estavam expandindo ativamente5 o crédito favorecido. 1.3. O SNCR e a ‘modernização conservadora’ Entre 1930-60 o crédito rural ficou restrito a algumas monoculturas de exportação. Porém, Delgado (1985), Martine (1991) e Leite (2001) destacam que a partir da criação do SNCR, esse sistema se tornou o carro-chefe da política agrícola brasileira, articulando interesses rurais e urbanos em torno do projeto de desenvolvimento de cunho modernizador. é consenso na literatura especializada no processo de modernização agropecuária nacional que a política de crédito rural, operacionalizada pelo Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) implantado em 1965, cumpriu papel determinante na transformação da base técnica dos estabelecimentos agrícolas, no aumento da produtividade do setor, na consolidação dos complexos agroindustriais e cadeias agroalimentares e na integração dos capitais agrários à órbita de valorização do capital financeiro. Ao privilegiar produtores (sobretudo grandes), regiões (Centro-Sul do país) e produtos (exportáveis), o SNCR marcou significativamente, pelo volume de recursos alocados, a conjuntura setorial do final dos anos 60, de toda a década de 70 e de parte dos anos 80 (LEITE, 2001, p.129). 4 O Brasil alcançou recentemente a auto-suficiência na produção de petróleo. Porém, com a crise do petróleo – que elevou internacionalmente o preço do barril nos anos 1970 – o governo brasileiro lançou um programa de fomento à produção de álcool, voltado à substituir o consumo da gasolina e diminuir os gastos com importação de petróleo. Cabe destacar que este programa privilegiou um número reduzido de grandes produtores de cana-de-açúcar e usinas de álcool. 5 Segundo Delgado (1985) o crescimento rápido da economia em seu conjunto requer uma política de expansão da liquidez real da economia. No caso específico do crédito rural, essa expansão ativa é comandada pelos movimentos de expansão dos créditos rurais, sem base prévia de depósitos, que era executada pelo Banco do Brasil. Mas com o retorno da desvalorização da moeda nacional, em razão da alta taxa de inflação e dos juros negativos existentes nos anos 1970, as emissões primárias de moeda foram necessárias para cobrir essa defasagem. Do contrário, o Banco do Brasil teria debilitada sua posição de criador ativo de moeda. 4 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Entre 1970 e 1986, os subsídios à agricultura foram operacionalizados com base nos juros reais negativos. “Ao longo desses 17 anos, houve a transferência de R$ 89,48 bilhões (a preços de agosto de 1994) de renda do setor bancário para a agropecuária, o que representou 11,4% do PIB da agropecuária no mesmo período” (BACHA, 2004, apud BACHA; DANELON; DEL BEL FILHO, 2005, p.44). Para melhor situar o papel do SNCR na ‘modernização conservadora’, Delgado (1985) elabora uma síntese do processo de modernização do setor agrícola brasileiro ocorrido a partir dos anos 1950: 1) No início dos anos 1950, havia começado as mudanças na base técnica, com a introdução de tratores e adubos sintéticos a base de NPK. A implantação da primeira indústria de tratores – no final dos anos 1950 – é o marco inicial da implantação dos setores industriais de bens de produção e de insumos básicos, com consumo financiado pelo Estado. 2) O final dos anos 1960 é considerado o marco de constituição do Complexo Agroindustrial (CAI)6, tendo no SNCR a fonte de financiamento apropriada para a introdução maciça das transformações de base técnica da agricultura. Com o surgimento do CAI, a reprodução do capital no setor agrícola torna-se crescentemente integrada em termos de relações interindustriais a montante (meios de produção para a agricultura) e a jusante (beneficiamento dos produtos agrícolas). 3) O processo de fusão ou integração de capitais intersetoriais é distinto da integração técnica agricultura-indústria, embora se realize com o suporte dela e sob o comando do grande capital (constituição e desenvolvimento do capital financeiro na agricultura7). Os capitais integrados em Sociedades Anônimas, condomínios, multicooperativas, etc. receberam o apoio do Estado para a captura de margens diferenciais de lucro e ganhos de fundador (títulos da terra valorizados como títulos comuns8). Segundo Delgado (1985) e Martine (1991), a ‘modernização conservadora’ contou ainda com: a consolidação do parque industrial; a fase ascendente do ciclo econômico conhecido como ‘milagre econômico’; a crescente urbanização e ampliação dos empregos não-agrícolas, que juntamente com a exportação levam ao aumento da demanda por produtos agrícolas; o aumento da mercantilização geral das relações econômicas do setor rural; a internacionalização do pacote tecnológico da Revolução Verde9, sendo que a mudança da base técnica da agricultura é iniciada com certo vigor, integrada ao 6 Caracteriza-se pela implantação de um setor industrial de bens de produção para a agricultura e pelo surgimento e modernização de um mercado de produtos industrializados de origem agropecuária, o que levou à formação de um sistema de agroindústrias (para o mercado interno e externo). 7 Essa etapa é considera pelo autor a base da penetração do capital financeiro na agricultura, embora também aponte para sua debilidade decorrente da baixa presença das instituições financeiras nos conglomerados. 8 Delgado (1995) demonstra que o projeto de modernização e a entrada do capital financeiro na agricultura encontraram na regulação do Estado o apoio para a sua efetivação e a garantia de retorno econômico. No caso da expansão da fronteira agrícola, o Estado garantia o direito de propriedade e implantava a infraestrutura básica que elevava o valor das terras. O apoio estatal propiciou o surgimento de especuladores, que buscavam a diferença entre o ganho de fundação e de venda das propriedades. 9 A Revolução Verde consiste no conjunto de inovações técnicas (adubos solúveis, melhoramento genético, agrotóxicos, etc.) que propiciaram obter maiores índices de produtividade para algumas culturas, em que pese a ampliação dos problemas ambientais e socioeconômicos dela decorrentes. Todavia, essa Revolução foi implementada de forma diferenciada nos distintos países; conservadora no Brasil e reformista no Japão. 5 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural denominado CAI; a melhoria dos preços internacionais para produtos agrícolas; e outros incentivos à produção agrícola. 2. A CRISE ECONÔMICA E AS MUDANÇAS NO CAMPO 2.1. Do ‘milagre’ à crise Até o início da década de 1980 o Estado manteve a ‘estabilidade política’ em torno do projeto de desenvolvimento iniciado em 1964. Por um lado, o ‘milagre econômico’ propiciava avanços reais a muitos brasileiros, embora gerasse ainda mais concentração de renda e poder. Por outro, o governo militar reprimia a manifestação dos descontentes. Contudo, na primeira metade dos anos 1970 começou a paulatina reversão das condições econômicas que viabilizaram a política do crédito favorecido. Delgado (1985) demonstra que a redução da possibilidade de expansão passiva do crédito ocorreu principalmente pela substituição dos depósitos à vista, que não pagam juros e nem correção monetária, pelas aplicações remuneradas do tipo ‘caderneta de poupança’ e outras10. Assim, a partir de 1974 aumentou a necessidade de expansão ativa do crédito. Para prolongar o ciclo de crescimento, o Governo Militar também se amparou em financiamentos externos obtidos a baixo custo graças à elevada liquidez internacional, o que fragilizou a economia nacional frente às oscilações internacionais11. Estes recursos propiciaram ao Estado lançar II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) em 1973 e garantiu a sobrevida às altas taxas de crescimento econômico até 1976. O II PND articulou ‘Estado – Multinacional – Empresa Nacional’ e promoveu fortes investimentos estatais em Bens de Capital (BK) voltados à substituição das importações de insumos para a agricultura. Nesse momento o crescimento econômico foi puxado pelos investimentos em meios de produção, crescendo bem acima da produção de BCD. Mas a economia internacional entrou em crise entre 1979-1983, reduzindo a liquidez internacional e impedindo a manutenção do ‘milagre econômico’. Segundo Vieira e Holland (2007), os choques do petróleo e a elevação dos juros internacionais durante a década de 1970 contribuíram para a queda expressiva de 4% do PIB brasileiro em 1981. Na década de 1980, a taxa média anual de crescimento do PIB foi de apenas 1,7% a.a. Os impactos sobre o comércio internacional contribuíram para a queda das exportações e exigiram forte restrição das importações no período 1981-1983. A dívida externa teve grande aumento puxado principalmente pela elevação dos juros internacionais e adotados inclusive para os empréstimos anteriores12. Os impactos da crise afetaram, sobretudo, os brasileiros mais pobres e agravaram os problemas sociais. Este quadro favoreceu as mobilizações e a crítica à ditadura militar, 10 A elevação dos preços internacionais do petróleo desencadeou a inflação internacional na década de 1970 e pode ter contribuído para esta mudança, pois além da ausência de retorno, os depósitos à vista passaram a enfrentar uma maior desvalorização da moeda. 11 Com a elevação do preço internacional do petróleo, os países exportadores desse produto acumularam vultuosas quantias de ‘petrodólares’ que contribuíram para a elevação momentânea da liquidez internacional. 12 Com exceção da moratória em 1987, o Estado buscou pagar os ‘serviços da dívida’ restringindo os investimentos produtivos e em serviços públicos, além das privatizações dos anos 1990. Se estas medidas propiciaram ao Estado pagar os juros e parte dos empréstimos em alguns momentos, a elevação dos juros internacionais e a fragilidade da economia interna tornaram os juros maiores que a potencialidade de pagamento em outros períodos, resultando no aumento da dívida externa. Para a agricultura, o aumento da dívida externa fez aumentar a importância das exportações agrícolas para a entrada de divisas. 6 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural com destaque para os novos movimentos sociais, a renovação sindical, a redemocratização e a Constituinte de 1988. Este período marca também a reabertura do debate sobre os projetos de desenvolvimento, onde a construção de propostas compatíveis com a nova realidade exigiu o estudo das transformações porque passara o país. 2.2. Os impactos sobre a agricultura Para o campo, Delgado (1985) aponta a exaustão do SNCR, notadamente no que tange a sua estratégia de financiamento favorecido à modernização agropecuária. Como o capital financeiro geralmente não incluía as instituições financeiras nos conglomerados, esta condição foi interpretada como uma debilidade específica do capital financeiro na agricultura brasileira. Com o esgotamento do SNCR, os conglomerados necessitariam buscar recursos no sistema financeiro, tornando a agricultura mais suscetível às oscilações econômicas, onde os altos valores dos juros corroem o lucro. Para esse autor, a crise desse projeto de articulação financeira e estatal do processo de modernização trouxe – em um só tempo – problemas econômicos e sociais graves. A íntima associação entre Estado e grande capital se tornou fator de instabilidade para o exercício das funções da política pública. A dominação do grande capital no meio rural aumentou a concentração das propriedades e da renda, com a paralela deterioração das condições de reprodução dos ‘pequenos produtores’. Disso decorre a conclusão mais abrangente da análise de Delgado (1985): a vulnerabilidade da agricultura frente às oscilações econômicas associada aos problemas sociais desemboca numa nova ‘questão agrária’, a qual requer novos padrões de regulação do crescimento capitalista e novas formas de incorporação da maioria da população rural a condições condignas de vida e de trabalho. A seguir busca-se aprofundar a análise dessa conclusão. 2.3. O apoio estatal e o agronegócio exportador A debilidade dos conglomerados frente às oscilações financeiras foi confirmada em estudos posteriores. Segundo Martine (1991), a crise econômica resultou na retração da expansão nas atividades produtivas e financeiro-especulativas na agricultura. A incorporação de novas áreas, a inovação tecnológica e o pessoal ocupado reduziram seu crescimento. Na pecuária, a redução no crescimento do rebanho esteve associada ainda à mudança do epicentro de criação do Sudeste para o Centro Oeste. Contudo, a redução do volume de recursos não representou o esgotamento total do SNCR13. Por um lado, a menor disponibilidade do crédito investimento freou a expansão do agronegócio. Mas por outro, a concentração dos recursos na modalidade custeio e liberada de forma mais seletiva e subsidiada propiciou manter o desempenho favorável da produção agrícola na década de 1980. Ao desconsiderar esta informação, Martine (1991) destaca que alguns autores atribuíram estes resultados à importância do CAI, apontando-o como novo padrão agrícola em um estágio de ‘plena’ ou ‘relativa’ maturidade. Essa constatação era mais potencial do que real. Mesmo após 1985, os diversos instrumentos de estímulo à produção para a exportação (e em certos casos para o mercado 13 Nessa direção, Bacha, Danelon e Del Bel Filho (2005) constataram que o conjunto do crédito rural contou com taxas de juros reais negativas até 1991, quando estas passaram a operar com taxas reais positivas. Embora a intervenção estatal na economia tenha enfrentado oposições ideológicas e a carência de recursos, as políticas de crédito rural mantiveram os juros abaixo das taxas de mercado. 7 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural interno) estavam amparados em recursos públicos, sendo que estes foram indispensáveis para manter níveis relativamente elevados de produção e renda no setor agrícola e nos CAIs. Em virtude dessa dependência, Martine (1991) combate a visão linear do progresso da ‘caificação’ como solução global para a agricultura e para a sociedade em geral. Para esse autor, os produtos de maior peso no desempenho favorável da agricultura nessa fase foram aqueles que dispunham de um ou mais mecanismos de valorização, incentivos e subsídios (cana-de-açúcar, trigo, soja, cacau, algodão e laranja). Novas áreas foram incorporadas ao plantio de soja visando à valorização do capital via valorização da terra e à necessidade de dar outro uso às terras supervalorizadas do sul do país. Além disso, os insumos passaram a ser utilizados mais racionalmente, permitindo a manutenção dos níveis de rendimento com menores despesas. Praticou-se uma política agressiva de produção e, apesar da contenção do crédito, a rentabilidade de determinados segmentos empresariais foi protegida através de duas maxidesvalorizações cambiais que elevaram os preços dos exportáveis e da modificação sistemática da garantia de preços, além do aumento dos subsídios ao crédito custeio para aqueles setores. Essa política associada ao achatamento do consumo interno propiciou reduzir as importações, elevar os saldos comerciais externos e garantir elevadas taxas de lucratividade do setor agrícola. Aponta ainda que os seguintes elementos ajudaram a fortalecer a defesa do agronegócio na segunda metade da década de 1980: percepção objetiva das limitações técnicas e econômicas de um modelo agrícola baseado, majoritariamente, na pequena produção familiar; a tendência em curso que levava a presumir pela inevitabilidade da universalização da ‘caificação’ (i.e., crescimento do número, tamanho, importância, poder e integração dos CAIs); e por fim, a euforia das supersafras, que contribuiu para fortalecer a imagem de uma agricultura moderna, auto-suficiente, de conseqüências sociais inevitavelmente benéficas. As organizações representativas do agronegócio (Confederação Nacional da Agricultura – CNA, bancada ruralista, representantes nos governos, etc.) empreenderam uma forte campanha que atribuía os méritos desses resultados à eficiência técnicoprodutiva do setor. A geração de benefícios econômicos para o país deveria legitimar sua opção para o campo. Escondendo o apoio do Estado, esta argumentação conquistou apoio de parcela da sociedade e contribuiu para frear a reforma agrária. Mas este processo também justificou os novos incentivos públicos ao agronegócio. O Estado representado principalmente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) manteve a política de crédito ininterrupta para o agronegócio agora com taxas de juros abaixo das praticadas pelas instituições financeiras. Em anos de frustração de safra, os fazendeiros também lançaram mão de suas entidades representativas para conseguir a renegociação das dívidas e o seu perdão parcial. Recentemente, o governo também tem fomentado os investimentos na modernização técnica, a exemplo do Pró-frota, que disponibilizou recursos para a aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas. O agronegócio também tem conseguido alternar momentos de estabilidade e de forte expansão. A elevação dos preços internacionais da soja gerou a expansão da área cultivada e novos investimentos em tecnologia. Já a produção de combustíveis a partir de fontes renováveis tem contado com o apoio do Estado para a grande expansão das usinas de álcool alimentadas por grandes áreas de cana-de-açúcar. 8 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Mesmo defendido com um setor moderno, eficiente e em expansão em alguns momentos, o agronegócio está ainda muito distante de contemplar a extensão dos direitos trabalhistas urbanos para seus empregados rurais. Os assalariados volantes e mal remunerados continuaram sendo uma importante fonte de mão-de-obra, em certos casos substituídos parcialmente pela mecanização. Para piorar, o trabalha análogo ao escravo continua sendo freqüente na agricultura brasileira. Dessa forma, entende-se que o agronegócio tem-se constituído em um espaço para o lucro do capital poucas vezes compatível com o desenvolvimento humano, ou seja, não atendendo o que Delgado (1985) apontava como novos padrões de regulação do crescimento capitalista. 2.4. Os problemas sociais e a reorganização política Segundo Delgado (1985), a busca constante pela inovação e pela competitividade se fez à luz da deterioração das condições sociais de vida e trabalho dos grupos marginalizados. Martine (1991) aponta que a ‘modernização conservadora’ excluiu entre 80 a 90% dos estabelecimentos rurais. essa questão social, pendente desse estilo de crescimento, se expressa na alta marginalização da massa de população rural, quer de microprodutores expulsos dos mercados mais dinâmicos, quer dos assalariados volantes, empregados por curtos períodos, baixa remuneração e crescente substituição no processo de produção modernizado (Delgado, 1985, p.234). As contingências desse processo excludente levaram parte dos agricultores a suprir à crescente demanda de trabalhadores industriais gerada pelo milagre econômico, criando um fluxo migratório às cidades conhecido como êxodo rural. Segundo Martine (1991), esse contingente chegou a quase 30 milhões de pessoas entre 1960-1980. Esse processo se constituiu numa alternativa à exclusão no meio rural, mas a queda no crescimento econômico dos anos 1980 demonstrou seus limites. A redução na oferta de empregos levou muitos migrantes para os cinturões de pobreza tornando o êxodo rural um grave problema social. Essa ausência de expectativas positivas na cidade contribui para a redução do fluxo populacional e manutenção da pobreza no meio rural. Martine (1991) verificou o aumento da População Economicamente Ativa (PEA) agrícola nos anos 1980. Para esse autor, grande parte desse crescimento no pessoal ocupado esteve associado ao processo de ‘minifundização’ (quase 90% do crescimento da PEA no meio rural entre 1980-1985 ocorreu em estabelecimentos de até 100 ha) mais concentrado no Norte e Nordeste (71% do aumento total). Mas este aumento se concentrou nas categorias de ‘parceiros’ e ‘ocupantes’, para quem o acesso a terra é mais precário, contrastando com a queda na importância das categorias ‘proprietários’ e ‘arrendatários’. Nesse quadro, a redução da repressão à organização política associada à necessidade de enfrentar o processo de exclusão no próprio espaço rural contribuiu para a renovação dos sindicatos dos trabalhadores rurais e a criação de novos movimentos sociais. A atualidade da demanda histórica pelo acesso a terra permitiu resgatar a proposta da reforma agrária, onde a mobilização social garantiu a manutenção da função social da propriedade na Constituinte de 1988. Mas sua efetivação não conseguiu fazer face à 9 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural supremacia política dos defensores do agronegócio. O baixo número de famílias assentadas desde a democratização do país revela o quanto esse embate foi desigual. A grande parcela da agricultura familiar não inserida nos mercados mais dinâmicos ficou ainda mais excluída das políticas públicas nos anos 1980 e foi profundamente afetada pela competição com os produtos do Mercosul. Em reação, a forte mobilização social dos anos 1990 conquistou o reconhecimento institucional da agricultura familiar e políticas públicas específicas voltadas a apoiar a permanência dos agricultores no campo. Assim, esta categoria é a que mais avançou naquilo que Delgado (1985) apontava como novas formas de incorporação da maioria da população rural a condições condignas de vida e de trabalho. 2.5. A luta social e a atualidade da reforma agrária Durante os anos 1970, amparado nos recursos públicos, o agronegócio ganhou força no país. Embora dominasse a agenda dos debates e as políticas públicas voltadas ao setor primário, seus resultados foram variados em termos produtivos e econômicos. Nesse período, a reforma agrária perdeu grande parte do apelo que conquistara nos anos 1960 como alternativa de dinamização da economia nacional e o estabelecimento de uma sociedade mais justa. A década de 1980 não foi marcada pela retomada da causa da reforma agrária, incentivada em boa medida pelo surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O MST teve origem no Sul do Brasil, a partir da mobilização de descendentes de imigrantes europeus que não dispunham mais de condições mínimas para se manter no meio rural. O MST nasceu defendendo o acesso à terra junto com o estabelecimento de novas condições para o homem do campo viver e produzir. Subjacente à questão agrária ganha força também nesse período as demandas oriundas da pequena produção familiar. A defesa da reforma agrária e de um meio rural menos injusto em termos sociais ganhou novo fôlego também pela renovação de parte dos sindicatos de trabalhadores rurais, criação de outros movimentos sociais no campo além do MST (Mulheres Agricultoras, Atingidos pelas Barragens, etc.) e pela polarização dos projetos que caracterizou a sociedade brasileira nesse período Pós-Ditadura e que tivera seu ápice nas eleições presidenciais de 1989. Na época, a defesa da reforma agrária era defendida por todos os setores que lutavam pelo restabelecimento da ordem política e por um novo modelo de desenvolvimento rural, pois viam nela uma maneira de solucionar os graves problemas sociais e a marcha do êxodo rural que afligiam o campo e ameaçavam o futuro do país. Ressalte-se que o Brasil dos anos 1980 era marcado por fortes polarizações em decorrência do processo de redemocratização, ainda que o receituário neoliberal dominasse grande parte da cena política. Apesar dos embates políticos, eram minoritárias as ações de Estado que estivessem fora do controle dos representantes do patronato rural e dos setores agroindustriais. Para muitos segmentos da elite política e econômica rural a idéia de reformar o campo, como maneira de se aumentar a renda econômica e produtividade do meio rural, era anacrônica ou coisa do passado face aos resultados obtidos pela revolução verde e pela modernização conservadora. Por essa lógica, as demandas trazidas pelos 10 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural movimentos sociais que defendiam dos excluídos do campo deviam ser tratadas como políticas sociais de cunho meramente compensatório: A segunda metade da década de 1980 foi semeada de grandes vitórias para aqueles que defendem a intensificação da ‘modernização’ do campo via valorização da agricultura empresarial, via consolidação do direito inalienável da propriedade privada e via integração crescente dos capitais financeiro, comercial, industrial e agrícola. A reação de políticos, intelectuais, tecnocratas e outros setores outrora defensores da pequena produção, da reforma agrária, ou simplesmente da visão de uma sociedade mais justa, tem sido de notável submissão à aparente força dos eventos (Martine, 1991, p. 07). Por um lado, parece consenso que, amparado nos recursos públicos, o agronegócio alcançou bons resultados produtivos e que a reforma agrária perdeu grande parte do potencial de dinamização da economia nacional que esta possuía nos anos 1960. Mas por outro lado, como destacado acima, entende-se que a década de 1980 não foi marcada pela ‘submissão a aparente força dos eventos’ e nem pela derrota da reforma agrária na Constituinte de 1988, pois a manutenção da função social da terra pode ser entendida como um processo vitorioso. A derrota ocorreu no momento da implementação. Para isso contribuíram a manutenção dos baixos índices de produtividade adotados para a avaliação da função social, a campanha ideológica que defendia o agronegócio com base nos resultados produtivos, a falta de um governo que a assumisse, a ampliação da repressão expressa na militarização dos latifúndios e na violência crescente contra os militantes da Igreja, dos partidos ou de sindicatos que apóiam os ‘sem-terra’, etc.. Mesmo com a forte mobilização social, as desapropriações passam a ser realizadas muito pontualmente, normalmente nas piores áreas e com poucas famílias assentadas. Assim, além de desempenhar um papel limitado como política social compensatória, sua implantação fragmentada e sem apoio estrutural reduziu seu potencial dinamizador da economia local. Contestando a defesa do agronegócio com base nos resultados produtivos, Leite e Ávila (2007) defendem que o desenvolvimento rural deve ser entendido sob outro prisma: como algo que extrapola o crescimento agrícola e o aumento da produtividade, aproximando-o daquilo que poderíamos chamar de eficiência distributiva, na qual a ênfase não recai somente no uso mais racional dos recursos resultando em maiores ganhos, mas principalmente na capacidade desses processos em repartir seus frutos para um conjunto mais amplo da sociedade” (Leite e Ávila, 2007, p.120-121). Assim defendem que a reforma agrária não saiu da pauta, sendo um erro associá-la ao passado e o agronegócio ao futuro. Além disso, esta deve ser entendida no seu sentido amplo, não restrita à distribuição de terras, assim como seus resultados não se limitam aos ganhos econômicos. Para esses autores, as propostas orientadas ao mercado e defendidas pelo Banco Mundial não geram justiça social14. Dessa forma, defendem que sua efetivação 14 A reforma agrária orientada pelo mercado e defendida pelo Banco Mundial foi implementada no Brasil através do Banco da Terra. Seu funcionamento consistia na oferta de financiamento aos agricultores para adquirirem uma propriedade, mas devendo ser pago posteriormente. Assim, para Leite e Ávila (2007), a família que se encontrava excluída arcará com o ônus de ter que pagar a propriedade, não gerando justiça 11 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural “supõe a ação do Estado por meio de seus instrumentos de desapropriação de imóveis rurais que não cumpram a sua função social”. Para esses autores, como o mercado é uma construção social e o dinheiro e a terra se portam como atributos singulares do processo social, estes demandam regulação específica, não podendo se sujeitar ao ‘livre jogo das forças de mercado’. Assim, o mercado de terras, enquanto tal supõe uma atuação do Estado, quer na garantia dos direitos de propriedade (privadas ou comunais), quer através da intervenção direta para fazer valer a função social dessa propriedade. Dessa forma, entendem que o Estado deve intervir nos conflitos dos processos de desenvolvimento rural a fim de promover a justiça social, a qual garante a equidade social e a expansão das capacidades humanas. 3. A ATUALIDADE DA REFORMA AGRÁRIA E O RECONHECIMENTO PÚBLICO DA AGRICULTURA FAMILIAR A política agrícola da década de 1980 favoreceu prioritariamente os conglomerados. Assim, embora uma parcela de ‘pequenos proprietários’ estivesse integrados às cooperativas e empresas, a maioria ficou em situação precária15. Mesmo assim, Martine (1991) aponta que este tipo de agricultura continuou a garantir a sobrevivência de parcela expressiva da população durante a crise, inclusive com o aumento da PEA rural do país, embora em algumas regiões o êxodo persistisse em menores níveis. Entre os elementos que garantiram esta subsistência de muitos pequenos produtores durante os anos 1980 podem ser apontados: a) a lógica não-capitalista da exploração camponesa demonstrada por Alexander Chayanov16, onde as famílias ajustam a quantidade de trabalho ao atendimento das necessidades seguindo o balanço entre produção e consumo. Este elemento pode ser considerado ainda mais adequado neste caso, pois estas famílias constituam-se na parcela da agricultura familiar menos integrada aos mercados; b) a menor adoção do modelo agrícola moderno decorrente da exclusão das políticas de crédito rural facilitado anteriores reduziu os impactos da ampliação na seletividade do SNCR, pois a substituição ou diminuição de uso dos insumos modernos necessitou ser menor e, em certos casos, passível de ser compensada ao menos parcialmente com mais trabalho; c) a política agrícola que garantia os preços mínimos aos produtos da cesta básica contemplava grande parte da produção das pequenas propriedades; d) o mercado interno aumentou a demanda por produtos agrícolas em 1985 e 1986, propiciado pelos bons resultados econômicos. Em seguida, as safras de 1987/88 e social. Atualmente, o Banco da Terra sofreu modificações, mas em essência esta política subsiste com o nome de Crédito Fundiário. 15 Mesmo agricultores cooperados foram sendo excluídos, pois a diminuição de recursos gerou seleção interna nas cooperativas em nome da competitividade. Um exemplo pode ser a criação de suínos, onde milhares de agricultores foram excluídos, enquanto outros aumentavam a escala e as inovações tecnológicas para manter a produção e a competitividade internacional. Nesse caso, esse processo acabou ainda por favorecer a concentração dos dejetos e os problemas ambientais. 16 Para maiores esclarecimentos ver Wilkinson (1986), Jean (1994) e Wanderley (1999). 12 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural 1988/89 contaram com a elevação dos preços agrícolas internacionais, refletindo internamente; e) os agricultores ex-integrados em decorrência da exclusão no processo de seleção dos ‘melhores’ (maiores) produtores normalmente não possuíam investimentos fixos realizados mediante empréstimos pendentes de pagamento, não saindo da atividade, na maioria dos casos, necessitando vender suas terras para saldar dívidas. Para Schneider, Mattei e Cazella (2004), nos primeiros anos da década de 1990, a agricultura brasileira e particularmente a da região Meridional do país estava fortemente afetada pela política neoliberal que abriu comercialmente o país através da desregulamentação dos mercados. A concorrência intensa com os países do Mercosul afetou a produção voltada ao mercado interno, com reflexos diretos sobre a agricultura familiar, principal produtora dos alimentícios da cesta básica do brasileiro. em vista das sucessivas dificuldades decorrentes da crise da segunda metade dos anos oitenta, particularmente no que se refere à disponibilidade de crédito e à queda da renda, os agricultores familiares da região Sul do Brasil, e em menor medida os agricultores da região Nordeste (sobretudo os produtores de algodão), encontravam-se debilitados diante da nova conjuntura econômica e comercial (Schneider, Mattei e Cazella, 2004, p.02). Segundo Olson (1999), o comportamento racional não resulta inevitavelmente na mobilização social necessária para superar essa debilidade econômica17. Porém, a experiência empírica permite apontar que a ação coletiva é mais provável com indivíduos que passaram por experiências de mobilização e em casos reativos, ou seja, quando a mobilização destina-se a evitar perdas. Este último parece ser o quadro da agricultura familiar, principalmente na década de 1980 e início dos anos 1990. Neste contexto, mesmo os agricultores integrados aos setores mais dinâmicos enfrentavam as adversidades da seleção competitiva. Embora em graus diferentes, a perda das condições para viver se tornou um sentimento expressivo entre os ‘pequenos proprietários’, criando um quadro mais favorável à ação. Junto a isso, nos anos 1980 ocorreu uma profunda reorganização no campo e, “embora [as organizações] freqüentemente sirvam também para interesses puramente pessoais e individuais, sua função e característica básica é sua faculdade de promover interesses comuns de grupos de indivíduos” (Olson, 1999, p.19). Não por menos, Schneider, Mattei e Cazella descrevem a década de 1990 da seguinte forma: a década de noventa é marcada por alguns fatores que foram decisivos para mudar os rumos do desenvolvimento rural, principalmente na esfera governamental. Por um lado, o movimento sindical dos trabalhadores 17 Olson (1999) destaca que, nos grupos voltados a obter interesses econômicos, mesmo quando o ganho coletivo é muito maior do que o desprendimento necessário para ‘promover os interesses comuns’, não é verdade que a ação dos grupos sociais para atingir seus objetivos seja uma seqüência lógica da premissa do comportamento racional e centrado nos interesses. Além disso, quanto maior for o grupo, mais longe ele ficará de atingir o ponto ótimo de obtenção do benefício coletivo e menos provável será que ele aja para obter até mesmo uma quantidade mínimia desse benefício. O autor demonstra que isso ocorre porque uns esperam ser beneficiados mediante a ação dos outros, tornando o custo da iniciativa individual ou de pequenos grupos deste todo maior que sua parte no benefício coletivo. 13 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural rurais ligados à Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG) e ao Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da Central Única dos Trabalhadores (DNTR/CUT), especialmente dos três estados meridionais do país, passaram a organizar-se e direcionar suas reivindicações e lutas para a chamada ‘reconversão e reestruturação produtiva’ dos agricultores familiares, que seriam afetados pelo processo de abertura comercial da economia, na ocasião influenciado pela criação do Mercosul. Assim, as reivindicações dos trabalhadores rurais, que já haviam começado a ter voz na Constituição de 1988, ganharam destaque nas ‘Jornadas Nacionais de Luta’ da primeira metade da década de noventa, que a partir de 1995 passaram a ser denominadas de ‘Grito da Terra Brasil’18. Por outro lado, os estudos realizados conjuntamente pela FAO/INCRA19 definem com maior precisão conceitual a agricultura familiar e, mais ainda, estabelecem um conjunto de diretrizes que deveriam nortear a formulação de políticas públicas adequadas às especificidades dos diferentes tipos de agricultores familiares. Sabe-se que esses estudos serviram de base para as primeiras formulações do Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar] (Schneider, Mattei e Cazella, 2004, p.03). A mudança na política governamental resultou na criação do Pronaf e do Ministério Extraordinário de Assuntos Fundiários. Posteriormente este último foi substituído pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o qual se ocupa até a atualidade das políticas para a agricultura familiar e para os assentamentos da reforma agrária. Embora em 1991 o crédito rural deixasse de operar com juros reais negativos, esses autores destacam que com a criação do Pronaf20 como política específica para a agricultura familiar em 1996 o Estado passou a subsidiar esta categoria por meio do crédito com taxas de juro abaixo das de mercado, além de apoio à infra-estrutura e serviços, essencialmente municipais, e depois territoriais21. A histórica prioridade às grandes propriedades nos modelos de desenvolvimento brasileiro faz com que esse reconhecimento público da agricultura familiar obtido através da mobilização social represente uma grande transformação na forma de pensar a agricultura do país. Mas a importância dessa categoria não é uma exclusividade brasileira. Independente de quais sejam os sistemas sociopolíticos, as formações sociais ou as evoluções históricas, em todos os países onde um mercado 18 Essas “Jornadas” eram organizadas, no início, pela CONTAG, CUT Rural e o Movimento dos Sem Terra (MST), e contavam com a participação de outros movimentos sociais rurais (citada no original). 19 FAO/INCRA, 1994a. Diretrizes de política agrária e desenvolvimento sustentável para a pequena produção familiar. Brasília, FAO/INCRA, 98 p.; e FAO/INCRA, 1994b. Diretrizes de política agrária e desenvolvimento. Brasília, FAO/INCRA, Versão resumida do relatório final do projeto UTF/BRA/036, 24 p. (citada no original). 20 “[...] pode-se afirmar que o PRONAF foi formulado como resposta do Estado às pressões do movimento sindical rural, realizadas desde o final da década de 1980” (Schneider, Mattei e Cazella, 2004, p.02). 21 Com a criação da Secretaria de Desenvolvimento Territorial, em 2003, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, os recursos do Pronaf voltados à infra-estrutura e serviços deixaram de ser encaminhados diretamente aos municípios. Para acessá-los os municípios de uma região devem se organizar em comitês territoriais, os quais necessitam pensar os investimentos de forma conjunta e articulada, constituindo um território. 14 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural organiza as trocas, a produção agrícola é sempre, em maior ou menor grau, assegurada por explorações familiares, ou seja, por explorações nas quais a família participa na produção (Lamarche, 1993, p.13). Assim, contrariando as idéias de que a agricultura familiar teria cumprido o seu papel histórico e que agora entraria em decomposição para dar lugar a uma forma mais evoluída de exploração agrícola, “a produção familiar agrícola parece ter sido capaz de gerar uma curiosa capacidade de manter-se, de reproduzir-se ao longo das gerações, de adaptar-se aos movimentos econômicos da conjuntura sócio-econômica” Jean (1994, p.51). Esse autor aponta que boa parte desta capacidade se deve à especificidade do processo do trabalho agrícola e à racionalidade particular da produção agrícola familiar. Mas a analise dos anos 1990 permite constatar outro elemento apontado pelo autor, qual seja a indissolubilidade do casamento entre a agricultura familiar moderna e o Estado (através da política agrícola e da regulamentação dos mercados), onde a participação deste último nem sempre depende da sua vontade própria, podendo exigir a organização dos próprios agricultores22. Assim, se o sistema ‘policultura-pecuária’23 e a racionalidade nãocapitalista da família rural não foram suficientes para esta categoria competir com os produtos importados muitas vezes subsidiados, esta categoria demonstrou contar ainda com a força da mobilização social para forçar o Estado a apoiá-la. Porém, parcelas da agricultura familiar mantiveram a competitividade compensando inovações técnicas adotadas por outros setores com mais trabalho. Esta condição contribui para a penosa e extensa jornada de trabalho que degrada a qualidade de vida da maioria dos agricultores familiares. Dessa forma, com o reconhecimento institucional dessa categoria abre-se a possibilidade das políticas públicas promoverem sua motorização e mecanização, além de outras inovações técnicas24. Mas como este é um elemento que lhes atribuía competitividade, surge a necessidade de subsídios estatais que permitam mantê-la no mercado sem desocupar trabalhadores, ou seja, da necessidade desse casamento com o Estado para o estabelecimento da agricultura familiar moderna. Porém, a concomitante presença de dois tipos de agricultura exige maiores cuidados nas análises da experiência brasileira, pois os conflitos são ampliados. A década de 1990 foi marcada, por um lado, pela defesa do Agronegócio exportador, o qual dava 22 Um exemplo clássico desse casamento é a Política Agrícola Comum (PAC) da Comunidade Econômica Européia. Jean encontra na obra de Claude Servolin os motivos que levam os governos dos países avançados apostarem, com o êxito evidente que se conhece, nesta categoria de agricultores: “fazendo isto, ou seja, mobilizando as capacidades produtivas destes trabalhadores capazes de trabalhar sem contar como custo, encontrar-se-ia uma resposta aos imperativos vitais de qualquer governo: 1) segurança de abastecimento alimentar [e] garantia de estabilidade do poder político como tal; 2) a diminuição relativa dos custos alimentares (a ‘cheap food policy’) necessária para a decolagem industrial exigente de baixos custos em mãode-obra; ora, estes custos estão em função do custo de vida no qual o item alimentação é substancial. (...) [Porém], mais do que a segurança alimentar, ela trouxe uma superprodução crônica que ficou cara de gerir e que compromete, além disso, os governos na direção de um descomprometimento” Jean (1994), p.69. 23 Termo utilizado por Wanderley (1999, p.26-28). O sistema ‘policultura-pecuária’ propiciou aos europeus ampliarem a produtividade e foi considerado uma revolução agrícola. Sua base consiste em integrar a criação animal e vegetal principalmente para melhorar o aproveitamento das áreas durante o ano, diversificar as fontes de renda e aperfeiçoar o ciclo dos nutrientes no interior da propriedade. 24 Jean destaca que “todas as inovações puderam ser adotadas pelo agricultor familiar ... em parte porque a indústria compreendeu rapidamente que se ela queria fazer negócios com o setor agrícola, seria necessário oferecer um produto acessível aos produtores na forma como eles eram, com suas ‘estruturas de produção’ com se diz hoje”(Jean,1994, p.63). 15 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural forte contribuição para os saldos positivos na balança comercial e, por outro, pelo reconhecimento da agricultura familiar. As políticas públicas também seguiram em parte esta ‘divisão’, sendo desenvolvidas respectivamente pelo MAPA e pelo MDA. Neste contexto, o governo progressista que assumiu em 2003 enfrentou dificuldades de avançar na defesa de reformas estruturantes. Sua principal inovação foi a ampliação das políticas públicas para a agricultura familiar mantidas concomitantemente com as políticas para os grandes proprietários. Como se verá a seguir, mesmo com o avanço institucional nem toda a agricultura familiar tem sido contemplada. Para esta avaliação se optou por utilizar como referência o Pronaf, que é a política pública mais consolidada e ampla voltada a esta categoria. 4. A AGRICULTURA FAMILIAR E AS POLÍTICAS PÚBLICAS O reconhecimento institucional da agricultura familiar refletiu na formulação das políticas públicas específicas para esta categoria. Mas para além dos conflitos com a agricultura patronal, Lamarche (1998) demonstra que esse tipo de agricultura apresenta uma grande diversidade decorrente dos diferentes graus de dependência externa e da importância da participação da família no funcionamento da unidade de produção. Essa heterogeneidade, no entanto, reflete as diferentes faces de um mesmo objeto e não objetos intrinsecamente diferentes. À sua diversidade interna ainda se somam as diferenças regionais, ampliando a necessidade de formular políticas públicas diferenciadas para atender esta categoria. Cazella e Burigo (2008) apontam para a dificuldade de contemplar a diversidade social de beneficiários potenciais das políticas públicas. Esses autores destacam, por exemplo, o baixo acesso ao Pronaf pelos pescadores artesanais. Nesse sentido, analisando os principais impasses verificados na distribuição do crédito rural do Pronaf entre 19962001, Aquino, Teixeira e Tonneau (2004) verificaram certa elitização na utilização dos recursos desse programa. é na própria lógica e operacionalização do programa [Pronaf] que estão implícitos os critérios de exclusão dos agricultores familiares mais pobres. O resultado prático desse processo social é a configuração de uma “nova modernização desigual” no meio rural brasileiro, contribuindo para aprofundar ainda mais a exclusão social e as desigualdades regionais no país (Aquino, Teixeira e Tonneau, 2004, p.01). Nesse campo, Burigo (2007) demonstra que as cooperativas de crédito tiveram e continuam a ter um papel central para o sucesso do Pronaf propiciando superar várias limitações das instituições oficiais de crédito no atendimento dos agricultores familiares, sobretudo, os mais descapitalizados. Seguindo a proposta de Rua (1998) para a análise das políticas públicas25, este fato também permite apontar que as perspectivas de sucesso das mobilizações sociais são ampliadas quando às conquistas das políticas públicas se somam a criação de organizações preparadas para apoiar sua efetivação. 25 Rua (1998) destaca que os conflitos existentes entre os ‘atores políticos’ criam várias barreiras entre a constituição de um ‘problema político’ e sua solução por meio das políticas públicas. Por isso propõe que a análise das políticas públicas deve diferenciar as etapas de formulação, decisão e implementação. 16 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Mas a exclusão desses agricultores mais pobres no acesso ao Pronaf também pode estar associada à inadequação das políticas públicas para contemplar a diversidade presente na agricultura familiar. Schneider, Mattei e Cazella (2004) apresentam as mudanças no Pronaf voltadas a contornar problemas como este. Uma delas foi a transferência do Pronaf do MAPA para o MDA em 1999, com a criação da Secretaria de Agricultura Familiar (SAF – MDA) como guarda-chuva institucional das diversas linhas de ação do Pronaf e demais programas ligados a agricultura familiar brasileira. Com isso esta última ganhou mais espaço na esfera pública federal e visibilidade junto à sociedade civil. Uma nova mudança institucional ocorreu no início do Governo Lula com a criação da Secretaria de Desenvolvimento Territorial voltada a gerenciar as modalidades Pronaf infra-estrutura e serviços municipais, hoje estruturados sob uma perspectiva territorial. Outro grupo de reformulações se concentrou na esfera financeira, principalmente alterando as taxas de juros e formas de pagamento dos empréstimos bancários. Em 2000 atendeu-se uma antiga reivindicação dos agricultores, ou seja, a definição de uma taxa fixa de juros, onde se iniciou uma redução progressiva dos encargos financeiros, variando de 1% (Grupo B) e 7,25% (Grupo E)26 em 2004. Os prazos e as carências foram dilatados, conjuntamente com a elevação dos descontos sobre os valores referentes aos juros. Em grande medida, essas modificações [no Pronaf] visaram atender a um número maior de beneficiários e expandir a esfera de interferência da agricultura familiar nas tomadas de decisões acerca dos rumos da produção agropecuária do país (Schneider, Mattei e Cazella, 2004, p.7). Além disso, embora os recursos fossem ampliados gradativamente, o programa recebeu criticas quanto a insuficiência de recursos. Isso levou esses autores a apontar que o Pronaf está ainda em construção e que continuará exigindo adaptações contínuas devido à diversidade social dos agricultores familiares e às diferenças regionais. Novas mudanças ocorreram posteriormente, a exemplo do fim da diferenciação entre os grupos C e D em 2008, onde os critérios de acesso ao crédito passam a ser definidos com base nos projetos propostos pelos agricultores. No contexto atual, um olhar sobre as atuais políticas da Secretaria de Agricultura Familiar (SAF – MDA) permite verificar a tentativa de contemplar uma maior gama de demandas decorrentes desta diversidade, principalmente tornando o Pronaf abrangente para financiar uma maior diversidade de beneficiários e atividades rurais. Esta nova dimensão parece incorporar a nova concepção de ruralidade, na qual se busca pensar o rural não mais restrito à produção agrícola. Porém, ainda não dá conta de superar a dicotomia entre o que eram consideradas áreas urbanas e rurais, tendo dificuldades de incorporar as sedes dos pequenos municípios às estratégias de desenvolvimento territorial. Embora de forma não explícita, pode-se considerar que a SAF também incorporou elementos da multifuncionalidade agrícola em suas políticas. Esta é verificada no caso da utilização de subsídios maiores ao Pronaf Agroecologia, a qual pode trazer mais benefícios para a saúde dos produtores e consumidores, bem como para a preservação ambiental. Todavia, a incorporação da função ambiental da agricultura encontra dificuldades para legitimar o apoio quando se trata da agricultura familiar, visto às vezes alguns agricultores 26 Para mais informações sobre os grupos do Pronaf ver Schneider, Mattei e Cazella (2004). 17 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural familiares realizam práticas tão prejudiciais quanto às verificadas em grandes propriedades27. A Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT – MDA) dar às políticas públicas uma dimensão territorial, mas sua formulação tem encontrado dificuldades para se efetivar na implantação. A necessidade da constituição dos territórios que incorporem vários municípios para garantir os repasses de recursos praticamente não tem se refletido em projetos comuns, ficando restrito à organização institucional de comitês. As ONG têm sido as principais responsáveis pela implantação de projetos nos locais, mas seus resultados ainda são pouco conhecidos. Porém, existem apontamentos sobre a dificuldade destas superarem os conflitos sociais decorrentes do jogo dos atores, onde esta situação pode refletir em nova exclusão e/ou limitar o sucesso destes projetos de desenvolvimento. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta de reforma agrária dos anos 1960 buscava ampliar o mercado para os produtos industrializados e modernizar a agricultura mantendo uma relação de complementaridade entre o rural e o urbano, onde os frutos do crescimento econômico deveriam alimentar o desenvolvimento humano. Contudo, ao atacar os interesses das oligarquias agrárias esta foi duramente combatida como ameaça comunista através do golpe militar de 1964. O Governo Militar adotou o projeto de crescimento econômico articulado com a ‘modernização conservadora’ da agricultura. Esse projeto considerava o rural como um espaço de produção para a exportação e para atender à crescente demanda urbana. O desenvolvimento do país passaria pelo crescimento econômico e pela crescente urbanização da sociedade. Assim, a política agrícola e o processo de seleção competitiva excluíam os ‘menos capazes’ que deveriam migrar para as cidades, onde encontrariam emprego propiciado pelos altos índices de crescimento econômico. Assim os recursos públicos do SNCR foram direcionados prioritariamente ao agronegócio exportador, aos CAI e a parte da agricultura familiar integrada aos setores mais dinâmicos. A ‘modernização conservadora’ sustentada pelo SNCR ampliou as transformações da base técnica da agricultura e resultou na formação dos CAI, sobre os quais se efetivaram as integrações de capitais. Para o sucesso desse projeto, além dos subsídios ao crédito rural seletivo, o Estado protegia os ganhos especulativos dos proprietários de terra e a margem diferencial dos conglomerados. Todavia, a ausência de instituições financeiras nos conglomerados os fragilizou frente às oscilações financeiras. Na década de 1980, a crise economia barrou o prolongamento desse projeto com impactos variados nos diferentes setores da agricultura. Por um lado, o enfraquecimento do SNCR freou a expansão do agronegócio, expressando a fragilidade dos conglomerados frente às oscilações financeiras. Porém, o Estado continuou liberar recursos para os setores exportadores protegendo o agronegócio de maiores adversidades do livre jogo de mercado. Os bons resultados produtivos e a importância das exportações agrícolas para os saldos da balança comercial estruturaram, ao mesmo tempo, a defesa contra a 27 Esta parece ser o conteúdo da crítica dirigida por integrantes da Via Campesina à Fetraf, por esta não promover a um modelo produtivo mais sustentável e menos dependente de fatores externos ao estabelecimento rural. Para fazer esta diferenciação, estes movimentos sociais tem se proposto a resgatar o termo camponês, o qual consistiria em um agricultor que utiliza um sistema produtivo mais sustentável. 18 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural regulamentação social do capital financeiro na agricultura e contra a execução da reforma agrária. Estes também justificaram a manutenção do crédito rural subsidiado para operar com juros abaixo das taxas de mercado. Assim, o apoio estatal ao agronegócio foi constante, inclusive para as recentes expansões da soja e da cana-de-açúcar. Ainda hoje esse processo modernizante é marcado pela contradição, pois enquanto o agronegócio se apresenta com um setor ‘moderno’, as precárias condições de trabalho continuam sendo recorrentes no seu interior. Em algumas situações chega ao extremo de recorrer ao trabalho análogo à escravidão. Por outro lado, enquanto o espaço urbano perdia a capacidade de receber os migrantes rurais, a agricultura mantinha o processo de exclusão. Nesse momento ocorreu o fortalecimento de organizações que buscam encontrar alternativas no próprio espaço rural que propiciem condições condignas de vida e trabalho. Para promover esta proposta, a mobilização social forjou e se alicerçou nos novos movimentos sociais e na renovação das organizações representativas. A proposta de reforma agrária foi resgatada e fez parte da nova polarização de projetos dos anos 1980 e a função social da propriedade foi mantida na Constituinte de 1988. Mas a sua implantação esbarrou na defesa do agronegócio exportador, refletindo no baixo número de famílias assentadas. Assim o agronegócio conseguiu frear a ampla reforma agrária que garantiria um maior número de beneficiários às condições condignas de vida e trabalho. A permanência dos problemas sociais ainda não resolvidos mantém a atualidade da reforma agrária, pois esta não se destina a promover somente o crescimento econômico, mas, sobretudo, a justiça social. Para que isso seja possível esta deve ser desenvolvida com base na desapropriação das terras que não cumprem a função social. Se muitas famílias excluídas pela ‘modernização conservadora’ ainda não puderam contar com o tão sonhado pedaço de chão, a ação reivindicatória propiciou o reconhecimento da agricultura familiar e a conquista de políticas públicas específicas voltadas à manutenção dos agricultores familiares no campo. De forma geral, por um lado, manteve-se o alicerce na produtividade dos agricultores familiares integrados aos setores mais dinâmicos e na orientação inicial do Pronaf. Por outro, buscou-se inovações que possam favorecê-los na interface com os mercados e fomentar o rural para além do agrícola, como o PAA, a dimensão territorial, etc.. Entre as políticas públicas para o campo continua a se destacar a centralidade do crédito rural. No caso da agricultura familiar o Pronaf surgiu com uma orientação produtivista e os estudos continuam a apontar para uma nova exclusão modernizante. Contudo, parece que esta se deve às limitações na elaboração e execução dessa política pública e não a exclusão intencional que orientou a modernização conservadora. Assim, a proposta de Delgado (1985) que apontava para a necessidade de “novos padrões de regulação do crescimento capitalista” praticamente não interferiu sobre o agronegócio. Já “as novas formas de incorporação da maioria da população rural a condições condignas de vida e de trabalho” foi muito superficialmente promovida pela tímida reforma agrária. Parece que a maior contribuição veio, a partir da metade da década de 1990, com o apoio do Estado aos ‘pequenos proprietários’, agora agricultores familiares. Esta representou uma grande inovação para a política agrícola brasileira. Essa política ‘conciliatória’ foi adotada pelos dois últimos governos buscado fugir da disputa de projetos, contemplando com recursos (operacionalizados novamente pelo crédito rural) ambos os setores da agricultura brasileira. Porém, esta calmaria poderá 19 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural acabar em decorrência da nova crise internacional. Ainda é difícil prever os impactos sobre o agravamento dos problemas sociais e na capacidade do Estado manter as atuais políticas de apoio a ambos os setores da agricultura. Se esta for debilitada, resta saber qual será a opção do governo e se a agricultura familiar mais uma vez terá e utilizará da força das mobilizações sociais para garantir este ‘casamento’ com o Estado. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO, J. R. de; TEIXEIRA, O. A.; TONNEAU, J.P. Pronaf: Política Agrícola Discriminatória?! IX Encontro da Sociedade de Economia Política – SEP (CD-ROM). Uberlândia, MG, 2004. 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