Notas sobre a expansão das redes hoteleiras nacionais e internacionais na região da Grande Florianópolis – SC. Autora: Fabíola Martins dos Santos1 Co autor: José Messias Bastos2 Resumo Este estudo apresenta os primeiros apontamentos sobre a expansão redes hoteleiras nacionais e internacionais localizadas na Grande Florianópolis. O trabalho de investigação foi desenvolvido dentro dos marcos teóricos apontados por Milton Santos no que diz respeito ao paradigma da formação sócio-espacial. Para dar conta das especificidades do objeto de estudo (a rede hoteleira) utilizou-se também outros referencias teóricos sobre o turismo e a hotelaria. A pesquisa de campo realizou-se nos meses de outubro e novembro de 2009. Foram identificados no período 15 hotéis administrados por redes hoteleiras e elaborado o questionário, posteriormente a sua aplicação com os gestores dos empreendimentos, tabulação e análise dos resultados. A efetiva possibilidade de investimos menos sazonais no segmento de negócios e eventos desencadeou a expansão das redes hoteleiras internacionais e nacionais a partir de 2000. Dos hotéis instalados atualmente na Grande Florianópolis, 71% são de redes nacionais, porém a rede Accor, a maior cadeia hoteleira internacional em atuação no Brasil, se destaca das demais em razão dos expressivos investimentos na região. É importante lembrar que até o final dos anos de 1980 o mercado turístico da região estava voltado para o segmento de lazer e os hotéis localizados nos balneários de praia e os do centro surgiram para atender esta demanda. Nos anos de 1990 o mercado se modifica principalmente com a inauguração do centro de eventos de Florianópolis em 1998.. Embora a entrada das redes hoteleiras no Brasil tenha ocorrido na década de 1970 somente em 1995 que chega a primeira rede na cidade, porém a expansão dos empreendimentos administrados por redes nacionais e internacionais ocorreram a partir dos anos 2000. Este estudo procurou apresentar teórica e empiricamente a origem e a expansão das redes hoteleiras na Grande Florianópolis. Acredita-se que os resultados alcançados sejam relevantes para fortalecimento dos estudos nas áreas de turismo e 1 Professora de hotelaria no Instituto Federal de Santa Catarina (IF-SC) e aluna do Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: fabí[email protected] ou [email protected] 2 Professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Orientador da tese de doutorado da autora Fabíola Martins dos Santos sobre as redes hoteleiras. E-mail: [email protected] hotelaria. Espera-se que com o aprofundamento dessa pesquisa novos elementos sejam incorporados aos aqui preliminarmente apresentados. Palavras-chave: redes hoteleiras; formação sócio-espacial; turismo. 1. Introdução Este trabalho3 apresenta os primeiros resultados da pesquisa sobre a expansão dos grupos de empresas hoteleiras nacionais e internacionais em Florianópolis, chamadas de redes hoteleiras. O objetivo deste estudo foi caracterizar os hotéis administrados por redes hoteleiras no mercado turístico local, assim como apontar alguns dos elementos responsáveis pela expansão desses empreendimentos em Florianópolis. No desenvolvimento deste estudo, o espaço urbano foi interpretado como um produto de relações historicamente determinadas, visto que o processo de produção é entendido como histórico e social e imprime as suas marcas sobre a materialidade. O trabalho de investigação foi desenvolvido dentro dos marcos teóricos apontados por Milton Santos no que diz respeito ao paradigma da formação sócioespacial. Para dar conta das especificidades do objeto de estudo (a rede hoteleira) foram utilizados também outros referencias teóricos sobre o turismo e a hotelaria. Sobre o paradigma de formação econômico-social ou formação social, difundido por Milton Santos no texto “Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como método” , parte do contexto da noção de formação social ligada ao desenvolvimento de uma determinada sociedade em sua totalidade histórica-espacial e concreta. Para Milton Santos (1977), “ a História não se escreve fora do espaço e não há sociedade a-espacial...o espaço, ele mesmo, é social”, dessa forma, ao considerar as características físicas do espaço onde se constitui a cidade e a história da sociedade que 3 Para explicar o objeto de estudo optou-se pelo “ paradigma de formação sócio-espacial”, escolha teórica e metodológica deste trabalho. Para tanto foi necessário na segunda seção, apresentar dados e informações já publicadas relacionadas à gênese e à evolução do setor hoteleiro, principalmente, aquele localizado no núcleo urbano central de Florianópolis, resultado da dissertação de Mestrado em Turismo e Hotelaria da pesquisadora Fabíola Martins dos Santos, em 2005. A terceira seção apresenta os resultados do projeto de pesquisa sobre as redes hoteleiras localizadas na Grande Florianópolis, pertencente ao grupo de pesquisa Hospitalidade, Turismo e Lazer do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Santa Catarina, a qual a pesquisadora foi coordenadora, em 2009. Ressalta-se que os resultados apresentados neste trabalho sobre a expansão das redes hoteleiras na Grande Florianópolis, não são conclusivos. Será necessário o aprofundamento da pesquisa em trabalhos posteriores, porém alguns dos resultados alcançados serão aproveitados no desenvolvimento do trabalho de Tese de Doutorado em Geografia da pesquisadora. aí se implantou, o paradigma de formação sócio-espacial propicia um enfoque multidisciplinar em que o espaço geográfico e o tempo histórico constituem o ponto de partida para uma melhor compreensão de uma realidade em que a cada nova fase de sua evolução o espaço natural vai sendo modificado de forma mais profunda respondendo as exigências sociais definidas a partir das imposições locais, regionais, nacionais ou internacionais, ditadas pelas relações de produção dominante. Assim, esta teoria permitirá analisar as formações historicamente determinadas e geograficamente localizadas. A escolha do tema levou à análise das origens e das alterações ocorridas no traçado urbano do município de Florianópolis, bem como das principais características encontradas nas diferentes etapas do crescimento urbano e do turismo e os seus reflexos sobre os municípios da Grande Florianópolis ao longo do tempo. Para operacionalização da pesquisa exigiu-se a definição de alguns procedimentos e estratégias que permitiram reunir as informações necessárias para investigar as redes hoteleiras localizadas na Grande Florianópolis, como a revisão bibliográfica acerca do tema, o levantamento de informações junto aos órgãos oficiais como SANTUR; IBGE, a identificação dos hotéis administrados pelas redes hoteleiras, através da consulta à Associação Brasileira da Indústria de hotéis de Santa Catarina (ABIH-SC), ao Panorama Setorial da Indústria Hoteleira publicado pela Gazeta Mercantil, ao Guia 4 Rodas e aos sites das redes hoteleiras. Após o levantamento dos dados secundários e a identificação da amostra, iniciou-se a aplicação de um questionário. A aplicação do questionário foi realizada nos meses de outubro e novembro de 2009 . Foram investigados quinze hotéis administrados por redes hoteleiras nacionais e internacionais, porém, fizeram parte da pesquisa 50% da amostra. 2. Gênese e evolução do setor hoteleiro na capital catarinense. Desde a sua fundação, Desterro, atual Florianópolis, foi marcada pela função política e administrativa, assim como pelas atividades portuárias. Ao longo de sua evolução, a cidade passou por distintos períodos de desenvolvimento, dentre os quais pode-se reconhecer um primeiro estágio de urbanização vinculado à ascensão da pequena produção mercantil açoriana (virada do século XVIII para o século XIX), e um segundo em que Florianópolis ascende a condição de praça comercial importadora (último quartel do século XIX). A última fase de urbanização está relacionada à inserção da capital do estado de Santa Catarina no contexto do capitalismo industrial brasileiro e catarinense, a partir da segunda metade da década de 1950 ( BASTOS, 2000 p. 127-128). O porto, ao lado da função político-administrativa foi elemento fundamental na gênese da povoação, servindo de atracadouro das embarcações e de ponto de comércio. A expansão da atividade portuária resultou na demanda por infra-estrutura de apoio para atender aos que chegavam à cidade para o desembarque de mercadorias e para as negociações com o comércio local. A necessidade de atender o fluxo crescente de pessoas acabou estimulando a instalação de novos serviços urbanos. Assim, espaços residenciais utilizados inicialmente apenas pela comunidade local, foram gradativamente sendo transformados em áreas para prestação de serviços, dando lugar à atividade hoteleira e ao comércio em geral. Os espaços foram adaptados e passaram a assumir determinadas funções decorrentes das necessidades sócio-econômicas e políticas de cada época. As transformações do meio social e econômico e a própria organização do espaço foram produzidas para atender as crescentes necessidades de sua população e daqueles que aqui chegavam e, mais recentemente, dos fluxos turísticos que acabaram estimulando a instalação de hotéis, muito embora, muitos deles tinham surgido para atender uma demanda por hospedagem que não era necessariamente turística. Dessa forma, somente no século XIX, surgiram os primeiros empreendimentos hoteleiros para atender à demanda de pessoas que chegavam a Desterro, localizados na área do porto e no largo do palácio, áreas que se concentrava o comércio varejista. Inicialmente as pessoas que precisavam pernoitar em Desterro abrigavam-se nas próprias embarcações ou nas residências de moradores locais, mas foi somente no século XIX, que surgiram os primeiros empreendimentos hoteleiros para atender à demanda de pessoas que chegavam à cidade, localizados na área do porto e no largo do palácio, áreas que se concentrava o comércio varejista. O historiador Osvaldo Cabral (1979) e os jornais de época apontam entre as primeiras iniciativas do setor neste período, o Hotel do Commercio (1850); o Hotel Brasil (1856); o Hotel Café (1856); o Hotel da Praça (1857); o Hotel do Vapor (1857); o Hotel Universo (1859); o Hotel dos Paquetes (1864); o Hotel Papini (1871); o Hotel Trajano (1876) e o Grande Hotel (1884). Estes hotéis do século XIX tinham características estruturais diferenciadas dos atuais. Alguns mantinham no piso térreo uma espécie de armazém onde também podiase encontrar uma grande variedade de produtos alimentícios, produtos homeopáticos, bebidas, cigarros, café, velas de carnaúba, papel, além de outros objetos colocados a venda.4. Até 1930, Florianópolis foi o maior centro exportador do Estado. A Revolução de 30 sinalizou a necessidade de promoverem-se grandes mudanças na estrutura econômica e política brasileira, com a chegada ao poder de camadas sociais nacionalistas e a formação de um novo pacto político que uniu latifundiários, ligados ao mercado interno, e a burguesia industrial nascente, excluindo do poder os comerciantes de importação e exportação que, no caso de Florianópolis, representavam as camadas sociais mais abastadas. Tal ruptura foi, assim, responsável por uma estagnação econômica da cidade e, de um modo geral, da faixa litorânea catarinense. Com o novo modelo de desenvolvimento implantado a partir de 1930, os centros econômicos mais dinâmicos de Santa Catarina passaram a ser os pólos industriais localizados nas áreas de colonização européia, implantadas na segunda metade do século XIX. Em contrapartida, os núcleos urbanos situados na faixa litorânea, entre os quais Florianópolis, permanecem praticamente estagnados até que as melhorias no sistema viário viabilizassem o contato dessa região costeira com as outras regiões do Estado e, até mesmo, com os estados vizinhos, o que imprimiu um novo dinamismo às localidades litorâneas. A construção da BR 101 (1960), a fundação da Universidade Federal de Santa Catarina (1960) e a vinda da ELETROSUL para Florianópolis (1970), foram três fatos fundamentais no processo de urbanização da capital. Até os anos de 1970, o setor hoteleiro limitava-se à área central da cidade, e ainda era bastante incipiente devido às deficiências do sistema viário. Nesse período as áreas balneárias eram compostas por comunidades pesqueiras e rurais, prevalecendo às casas de veraneio nas praias do Norte da Ilha, cujos proprietários pertenciam à elite florianopolitana. O incremento do turismo na Ilha de Santa Catarina somente foi possível a partir do melhoramento das vias de acesso. A cultura urbana do lazer e da busca por balneários, aliada à melhoria do acesso decorrente da construção da SC 401, promoveu o crescimento urbano das localidades situadas no Norte da Ilha e a intensificação do fluxo turístico. Em Florianópolis, a partir de 1970, a instalação de órgãos estatais e a melhoria das infra-estruturas urbanas, bem como os investimentos privados na atividade hoteleira 4 SANTOS, Fabíola Martins. Análise histórico-espacial do setor hoteleiro no núcleo urbano central de Florianópolis. Balneário: UNIVALI, 2005. (Dissertação de Mestrado). e na prestação de serviços promoveram a expansão urbana e do turismo. Embora, até o início da década de 1990, o turismo em Florianópolis tenha sido canalizado para as praias, o mercado turístico da região se modifica a partir de 1998, com a inauguração do primeiro centro de eventos da capital, o Centrosul. A instalação do centro de eventos promoveu a intensificação dos fluxos turísticos de negócios e eventos desencadeando modificações significativas na hotelaria, principalmente aquela localizada no núcleo central da cidade, expressas, sobretudo, pela entrada das redes hoteleiras nacionais e internacionais no mercado local. 3. A formação dos grupos hoteleiros no Brasil As primeiras as primeiras redes hoteleiras5, surgiram na segunda metade do século XX, quando grupo de empresas passaram a assumir a propriedade de muitos estabelecimentos na Europa e nos Estados Unidos, em razão da necessidade de mobilização de capital para construção e operação desses empreendimentos. Com o incremento da atividade econômica, a elevação da renda da população, a massificação dos automóveis e a intensificação dos fluxos turísticos, o setor hoteleiro no Brasil, até então independente, se modifica com a chegada dos grupos hoteleiros internacionais em 1970. A entrada das cadeias de hotéis internacionais no Brasil foi estimulada pelo acirramento da concorrência entre as companhias de nível internacional e a transformação do país em um importante pólo de viagens de negócios internacionais o que desencadeou o crescimento da economia e a entrada de empresas multinacionais. É importante mencionar que a primeira rede a investir no mercado brasileiro foi a Hilton Internacional Corporation que em 1971 passou a administrar um hotel com 400 unidades habitacionais em São Paulo 6. De acordo com a “Análise setorial da Indústria Hoteleira” (1999), a entrada das redes internacionais, também, trouxe conseqüências ao mercado interno de hotéis, estimulou a competitividade, principalmente no que se refere à hotelaria familiar e 5 Os hotéis podem ser administrados diretamente pelos proprietários ou por empresas especializadas, chamadas de administradoras ou operadoras hoteleiras. Podem ser independentes ou estar vinculados a redes que operam no mercado nacional ou internacional. Geralmente os hotéis independentes são administrados pelos próprios proprietários, é o caso da maioria dos empreendimentos de pequeno e médio porte no Brasil. Os hotéis vinculados a redes costumam ser administrados através de contratos de gestão ou arrendamento e sistemas de franquias. 6 Análise setorial da Indústria Hoteleira (GAZETA MERCANTIL, 1999). independente, que é responsável atualmente por aproximadamente por 70% desse mercado, na sua maioria são empreendimentos de pequeno e médio porte7. A partir da década de 1970 com a grande expansão do turismo no mundo e a abertura de mercado incentivaram fusões e expansões de empresas para setores com os quais houvesse sinergia entre transporte e hospedagem, como exemplo a American Airlines que fundou a América Hotels; a Ar France com os hotéis Méridien; a British Airways com a Swissair; a Lufthansa e Alitaia formaram a rede European Hotel Corporation; a TWA assumiu o controle dos hotéis Hilton Internation; a United Airlines, o controle da Trans-International Hotels e cadeia Meliá; e a Varig adquiriu a rede Tropical de Hotéis.8. Porém logo no final dos anos de 1970, diante do acirramento da competição e desregulamentação das atividades e fusões de grandes transportadoras, as empresas aéreas recuaram e voltaram a concentrar sua atuação no setor de transporte Conforme apontou Proserpio (2007), a estratégia política e econômica vigente, além do incentivo à instalação de novas indústrias, o setor de turismo também é beneficiado, por meio da EMBRATUR à entrada de novos capitais no final dos anos de 1960, que foi umas das determinantes para expansão do parque hoteleiro no Brasil e a entrada das redes internacionais em 1970, atraídas pelos incentivos e pela perspectiva de crescimento do turismo interno. Dessa forma foram criadas linhas de crédito e financiamento que beneficiaram boa parte dos hotéis do Brasil: FUNGETUR (Fundo Geral de Turismo); FINOR (Fundo de Investimento do Nordeste); FINAM (Fundo de investimento da Amazônia), mas recentemente o BNDES e os fundos de pensão, como a PREVI, foram os principais responsáveis pela ampliação do parque hoteleiro brasileiro. Nos anos de 1980, ocorre uma retração dos investimentos no setor hoteleiro em conseqüência dos recursos do FUNGETUR reduzidos e da inexistência de fontes de financiamentos adequadas. Dessa forma, o retorno do investimento ficou comprometido, os custos ficaram elevados e os prazos inapropriados. Com a crise do setor hoteleiro de 1980, o período posterior de 1990 foi marcado pelo surgimento dos empreendimentos denominados Flat9 no Brasil, principalmente na capital de São Paulo, amparado por expectativas de retorno bastante otimistas por 7 No Brasil, hotéis de pequeno porte até 50 unidades habitacionais, de médio porte de 50 unidades até 200 unidades habitacionais, acima de 200 unidades são considerados de grande porte. 8 Análise setorial da Indústria Hoteleira (GAZETA MERCANTIL, 1999). 9 Os flats e os apart-hotéis, como imóvel comercial para fins de locação, têm um custo relativamente baixo de investimento, já que podem ser viabilizado através de comercializações individuais. Os usuários encontram a mesma condição de serviços e de hospedagem que em um hotel brechas na legislação sobre a exploração econômica destes empreendimentos como meios de hospedagens 10. Na década de 1990, especificamente após 1994, uma nova fase de expansão do setor hoteleiro no Brasil, estimulada pelas políticas neoliberais promovidas pelo governo da época. A entrada de capitais estrangeiros, a política de privatizações, propiciou um ambiente favorável para entrada de novas redes internacionais e a ampliação do setor. Com a estabilidade econômica, as pessoas passam a viajar mais, dessa forma, ocorreu no período um incremento do turismo interno, bem como do turismo externo diante da entrada de novas empresas internacionais e os investimentos em infra-estrutura e novos produtos turísticos. É importante ressaltar que a estratégia utilizada por parte das redes internacionais para entrada no país foi associação com grupos nacionais, que na maioria dos casos assumiam a responsabilidade pelos investimentos imobiliários dos seus projetos hoteleiros. 4. A expansão das redes hoteleiras nacionais e internacionais situadas na Grande Florianópolis. Em 1995 surge o primeiro hotel de rede internacional em Florianópolis com a marca Parthenon pertencente ao grupo Accor11. No mesmo período a rede investe nas outras capitais do Sul do país, como em Curitiba com o Parthenon Golden inaugurado em 1993, e em Porto Alegre com o Flat Piazza Navona inaugurado em 1995. Ao verificar que na região sudeste do país (Rio de Janeiro e São Paulo) a entrada das redes internacionais de hotéis deu-se a partir de 1970, percebe-se um atraso nos investimentos das empresas hoteleiras internacionais no mercado Sul do país. Na Grande Florianópolis as redes hoteleiras se constituem a partir de um modo de operação que elege alianças locais para investimentos através da parceria para construção dos hotéis, como é o caso dos empreendimentos Blue Tree Towers, Ibis, Deville e Sofitel, com o investidor Aurélio Paladini, sócio proprietário da Magno 10 O Turismo no Brasil Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o setor (UNICAMP, 2007). 11 Este hotel, em 2006, passou por uma mudança de bandeira, assim como todos os empreendimentos da marca Parthenon no Brasil passaram a operar com a bandeira Mercure, também do grupo Accor. A rede Accor é uma empresa francesa que chegou no Brasil em 1976 no setor de alimentação através da subsidiária chamada N.H.T. Em 1978, passou a atuar no setor hoteleiro, com a inauguração do Novotel São Paulo Morumbi. A Accor Brasil no setor hoteleiro conta com as marcas Sofitel, Mercure, Novotel, Íbis e Formule 1. Além do setor hoteleiro, a empresa atua na área de viagens, com a Carlson Wagnonlit Travel, e na alimentação, com a Ticket Restaurante, Ticket Alimentação, GR Restaurantes de Coletividade, entre outras atividades. Martins, construtora local. Além desse tipo de parceria tem-se a formação de um “pool hoteleiro” que é a venda das unidades habitacionais para vários proprietários, dessa forma, o risco sobre o empreendimento é compartilhado com vários investidores. É importante enfatizar que cada empreendimento possui a sua sistemática de administração, os hotéis da marca Parthenon, hoje Mercure, por serem flats, geralmente possuem vários proprietários. Há a formação de um “pool de locação” que é um conjunto de unidades habitacionais que são disponibilizadas pelo proprietário para a rede hoteleira fazer as locações, isto é o processo de reserva por um tempo e preço de diária determinado. Compete à rede hoteleira administrar o condomínio, onde todas as despesas de uso comum são rateadas entre os proprietários e pagas através de uma taxa condominial. O quadro abaixo demonstra o crescimento das redes hoteleiras na Grande Florianópolis e a sua localização: Hotel Ano da Inauguração 1976 Localização 1976 Centro Plaza Caldas de Imperatriz 1981 Santo Amaro da Imperatriz Baía Norte Palace Hotel 1985 Centro Carmen Peters Diplomata / Intercity 1985 Centro Alexandre Gehlen Coral Plaza Rede Devile (2007) 1993 Centro Parthenon Lindacap/ Mercure (2006) Blue Tree Towers 1995 Centro Montecarllo Empreendimentos Turísticos Aurelio Paladini Mário Kenji Condomínio com 54 investidores 2000 Centro Florianópolis Palace Hotel Bristol Multi Castelmar & Convention Center Centro Proprietários atuais Administração atual José de Oliveira Rede Regional – Sagres (2004) CHT Prestadora de Independente – Serviços S/C Ltda Participação na Renato Nunes Ghizoni administração: Rede José Carlos Chaussard Bristol – Neto Nacional(2005) Predial e Rede Plaza de Hotéis Administradora Hotéis Rede Nacional Plaza S/a Montecarllo Empreendimentos Turísiticos Ltda Mário Kenji Independente / Associação a rede Othon Nacional (2006) Administradora: Rede Intercity – Nacional (2002) Independente Administradora Rede Devile – Nacional (2007) Administradora Rede Accor Internacional Administradora Rede Blue Tree Nacional Jurerê Beach Village 2000 Hotel Ibis 2003 Sofitel Florianópolis 2006 Mercure Itacorubi 2006 Bristol Dobly Oceania Park Hotel Il Campanario 2007 Slavieiro 2009 2008 Aurélio Paladini Jurerê Internacional Habitasul Empreendimentos Imobiários Centro West Coral Hotéis e Resorts Ltda Aurélio Paladini Mário Kenji Centro Hbs Hotelaria Ltda Aurélio Paladini Anita Hoepke Itacorubi Ingleses Jurerê Internacional Habitasul Empreendimentos Imobiários Trindade Construtura Pinheiro AJIH Administradora: Rede Accor Internacional AdministradoraRede Accor Internacional AdministradoraRede Accor Internacional Rede Bristol Hotéis & Resorts Rede Nacional AJIH Rede Slavieiro Contrato de Franquia Quadro 1: Expansão da rede hoteleira na Grande Florianópolis. Fonte: Elaborado por Fabíola Martins dos Santos em 2009. A partir dos anos 2000, há efetiva entrada das bandeiras de hotéis integrantes de redes hoteleiras nacionais e internacionais, tais como a rede Blue Tree (Blue Tree Towers), rede Bristol Hotéis & Resorts ( Bristol Dobly e Bristol Multy), a rede InterCity (InterCity Premium) e a rede Accor (Mercure, Ibis, Sofitel), rede Deville com a administração do hotel Coral Plaza em 2007. Esses empreendimentos estão localizados no núcleo urbano central de Florianópolis, com uma estrutura arquitetônica verticalizada e com serviços e infra-estrutura voltada para atender as necessidades do público executivo e participante de eventos. É importante lembrar, que até o final dos anos de 1980, o mercado turístico da região estava voltado para o segmento de Lazer e os hotéis localizados nos balneários de praia, assim como, os do centro, surgiram para atender esta demanda. Nos anos de 1990 o mercado se modifica principalmente com a inauguração do centro de eventos de Florianópolis em 1998. A efetiva possibilidade de investimos menos sazonais no segmento de negócios e eventos desencadeou a expansão das redes hoteleiras internacionais e nacionais. Dos hotéis instalados na Grande Florianópolis, 71% são de redes nacionais, porém percebe-se a Accor, a maior rede internacional em atuação no Brasil, se destacando com expressivos investimentos na Grande Florianópolis. A empresa inaugurou recentemente o Ibis São José (2010) e deve ainda aumentar a sua atuação com construção do Ibis em Palhoça. No período da pesquisa de campo, de outubro a novembro de 2009, foram identificados quinze empreendimentos administrados por redes hoteleiras na região (quadro 2). Porém, infelizmente, nem todos quiseram participar, dessa forma, os resultados apresentados foram corresponde a 50% da amostra, o que permitiu fazer algumas análises preliminares. Segue alguns resultados: a) Dos hotéis investigados, o perfil dos gestores que atuam nas redes hoteleiras, 50% deles estão na faixa etária de 36 a 45 anos, possuem nível superior completo com graduação em Hotelaria e pós-graduação. Constatou-se na pesquisa que 67% dos gerentes gerais vieram de outra cidade para trabalhar na unidade da rede pesquisada, isto se deve ao fato de que as redes hoteleiras utilizam-se da pratica de transferência dos funcionários gestores e uma unidade da rede para outra, alguns deles permanecem administrando um hotel somente por dois anos. Este procedimento é uma estratégia das empresas para evitar vínculos com a equipe e vícios de trabalho que possam prejudicar o desempenho administrativo do empreendimento. Outro fato que foi apontado pelos informantes gestores é que 50% deles estão a mais de 7 anos trabalhando na mesma rede hoteleira. b) Os hotéis de rede identificados 95% trabalham com contrato de administração. Um hotel sob contrato de administração é similar a uma franquia no que se refere ao fornecimento de padrões para execução de procedimentos operacionais, bem como de metas em termos de qualidade e de nível de serviços (ISMAIL, 2004, p.27). É importante destacar que esta forma de administração, difere do sistema de franquia, pois os hotéis são administrados/operados pela empresa que fornece o padrão, isto é pela rede hoteleira, ao contrário de um hotel franqueado que pode escolher, ser operado pela rede hoteleira ou ter uma administração operacional própria, em ambas as formas, o padrão de serviços é vinculado a rede. Geralmente são contratos temporários que variam de 3 a 5 anos, dependendo do hotel podem ser renovados diante do interesse das partes, operadora hoteleira e proprietários. c) Dos hotéis pesquisados 80% não trabalham com pool de locação, isto acontece porque esses empreendimentos possuem um único investidor, assim todos os apartamentos são colocados a disposição da operadora hoteleira para venda. As redes hoteleiras localizados na Grande Florianópolis 90% são voltadas para o segmento negócios. Percebe-se que os hotéis voltados para o segmento de negócio possuem ocupação anual acima de 50%, sendo que um dos hotéis econômicos teve o melhor desempenho no que se refere a ocupação. Os hotéis de lazer apresentaram o melhor desempenho no item diário média. Isto “não” quer dizer que os hotéis de lazer possuem melhor desempenho financeiro do que os hotéis econômicos e executivos, pois geralmente o custo operacional dos hotéis de lazer é mais alto. O quadro abaixo demonstra a ocupação média anual dos empreendimentos pesquisados: OCUPAÇÃO ANUAL DIÁRIA MÉDIA OCUPAÇÃO ANUAL DIÁRIA MÉDIA 2008 ANUAL 2008 2009 DE 2009 s/histórico R$ 109,59 A s/histórico 37% R$ 159,00 R$163,00 B 62% 62% R$ 380,00 R$ 390,00 C 40% 42% R$ 151,89 R$ 145,16 D 65% 54% R$ 103,75 R$ 108,27 E 77% 72% F 8% R$ 334,04 22% R$ 225,18 Quadro 2: Diária e ocupação média anual dos hotéis de rede Fonte: Elaborado por Fabíola Martins dos Santos em 2009. * B – D = Hotéis Executivos; C – F= Hotel de Lazer – Resort; A - E = Hotel Econômico HOTEL 5. Considerações finais Considerando o crescimento urbano, o incremento do setor turístico e do comércio e a expansão do setor hoteleiro, notado, principalmente, nestes últimos anos, além dos hotéis independentes, as redes hoteleiras nacionais e internacionais vêm se instalando no Brasil, atraídas por um mercado crescente. A entrada das redes internacionais de hotéis em meados da década de 70 foi provocada pelo acirramento da concorrência entre as companhias em nível internacional e pela transformação do país em um importante pólo de viagens de negócios com o crescimento da economia e a entrada das multinacionais. Contudo, a estratégia utilizada pelas redes internacionais foi a de associar-se a grupos nacionais que, na maioria dos casos, assumiam a responsabilidade do investimento imobiliário enquanto a administração do empreendimento era realizada através de contrato de gestão ou sistemas de franquias. A vinda das cadeias hoteleiras para o Brasil no início da década de 70, coincidiu com uma fase de disponibilidade de financiamento de longo prazo através da EMBRATUR e de incentivos fiscais para construção de hotéis. Até 1990, o turismo em Florianópolis foi canalizado para os balneários de praia, o mercado turístico modificou a natureza do impacto espacial. Trata-se não apenas da transformação e da ampliação da ocupação diante dessa atividade, mas de uma mudança de qualidade e abrangência do mercado. A partir de 1990 o segmento de negócios indiferente da sazonalidade, alavancou os investimentos em projetos para uma hotelaria executiva, o que possibilitou a partir dos anos 2000, o crescimento dos hotéis administradas por redes nacionais e internacionais. A expansão das redes hoteleiras associa-se a mudança de perfil dos hóspedes, estreitamente relacionados a negócios e eventos, portanto com a perspectiva de uma hotelaria moderna de caráter globalizante, com padrão de qualidade que a diferencia da hotelaria independente, as redes hoteleiras souberam aproveitar o momento favorável no mercado. Acredita-se que os resultados alcançados sejam relevantes para fortalecimento dos estudos nas áreas de turismo e hotelaria. Espera-se que com o aprofundamento dessa pesquisa novos elementos sejam incorporados aos aqui preliminarmente apresentados. 6. 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