Notas sobre a expansão das redes hoteleiras nacionais e internacionais
na região da Grande Florianópolis – SC.
Autora: Fabíola Martins dos Santos1
Co autor: José Messias Bastos2
Resumo
Este estudo apresenta os primeiros apontamentos sobre a expansão redes hoteleiras
nacionais e internacionais localizadas na Grande Florianópolis. O trabalho de
investigação foi desenvolvido dentro dos marcos teóricos apontados por Milton Santos
no que diz respeito ao paradigma da formação sócio-espacial. Para dar conta das
especificidades do objeto de estudo (a rede hoteleira) utilizou-se também outros
referencias teóricos sobre o turismo e a hotelaria. A pesquisa de campo realizou-se nos
meses de outubro e novembro de 2009. Foram identificados no período 15 hotéis
administrados por redes hoteleiras e elaborado o questionário, posteriormente a sua
aplicação com os gestores dos empreendimentos, tabulação e análise dos resultados. A
efetiva possibilidade de investimos menos sazonais no segmento de negócios e eventos
desencadeou a expansão das redes hoteleiras internacionais e nacionais a partir de 2000.
Dos hotéis instalados atualmente na Grande Florianópolis, 71% são de redes nacionais,
porém a rede Accor, a maior cadeia hoteleira internacional em atuação no Brasil, se
destaca das demais em razão dos expressivos investimentos na região. É importante
lembrar que até o final dos anos de 1980 o mercado turístico da região estava voltado
para o segmento de lazer e os hotéis localizados nos balneários de praia e os do centro
surgiram para atender esta demanda. Nos anos de 1990 o mercado se modifica
principalmente com a inauguração do centro de eventos de Florianópolis em 1998..
Embora a entrada das redes hoteleiras no Brasil tenha ocorrido na década de 1970
somente em 1995 que chega a primeira rede na cidade, porém a expansão dos
empreendimentos administrados por redes nacionais e internacionais ocorreram a partir
dos anos 2000. Este estudo procurou apresentar teórica e empiricamente a origem e a
expansão das redes hoteleiras na Grande Florianópolis. Acredita-se que os resultados
alcançados sejam relevantes para fortalecimento dos estudos nas áreas de turismo e
1
Professora de hotelaria no Instituto Federal de Santa Catarina (IF-SC) e aluna do Doutorado no Programa
de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail:
fabí[email protected] ou [email protected]
2
Professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Orientador da tese de doutorado da autora Fabíola Martins dos Santos sobre as redes hoteleiras.
E-mail: [email protected]
hotelaria. Espera-se que com o aprofundamento dessa pesquisa novos elementos sejam
incorporados aos aqui preliminarmente apresentados.
Palavras-chave: redes hoteleiras; formação sócio-espacial; turismo.
1. Introdução
Este trabalho3 apresenta os primeiros resultados da pesquisa sobre a expansão
dos grupos de empresas hoteleiras nacionais e internacionais em Florianópolis,
chamadas de redes hoteleiras. O objetivo deste estudo foi caracterizar os hotéis
administrados por redes hoteleiras no mercado turístico local, assim como apontar
alguns dos elementos responsáveis pela expansão desses empreendimentos em
Florianópolis.
No desenvolvimento deste estudo, o espaço urbano foi interpretado como um
produto de relações historicamente determinadas, visto que o processo de produção é
entendido como histórico e social e imprime as suas marcas sobre a materialidade.
O trabalho de investigação foi desenvolvido dentro dos marcos teóricos
apontados por Milton Santos no que diz respeito ao paradigma da formação sócioespacial. Para dar conta das especificidades do objeto de estudo (a rede hoteleira) foram
utilizados também outros referencias teóricos sobre o turismo e a hotelaria.
Sobre o paradigma de formação econômico-social ou formação social,
difundido por Milton Santos no texto “Sociedade e espaço: a formação social como
teoria e como método” , parte do contexto da noção de formação social ligada ao
desenvolvimento de uma determinada sociedade em sua totalidade histórica-espacial e
concreta. Para Milton Santos (1977), “ a História não se escreve fora do espaço e não há
sociedade a-espacial...o espaço, ele mesmo, é social”, dessa forma, ao considerar as
características físicas do espaço onde se constitui a cidade e a história da sociedade que
3
Para explicar o objeto de estudo optou-se pelo “ paradigma de formação sócio-espacial”, escolha
teórica e metodológica deste trabalho. Para tanto foi necessário na segunda seção, apresentar dados e
informações já publicadas relacionadas à gênese e à evolução do setor hoteleiro, principalmente, aquele
localizado no núcleo urbano central de Florianópolis, resultado da dissertação de Mestrado em Turismo e
Hotelaria da pesquisadora Fabíola Martins dos Santos, em 2005. A terceira seção apresenta os resultados
do projeto de pesquisa sobre as redes hoteleiras localizadas na Grande Florianópolis, pertencente ao grupo
de pesquisa Hospitalidade, Turismo e Lazer do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Santa
Catarina, a qual a pesquisadora foi coordenadora, em 2009. Ressalta-se que os resultados apresentados
neste trabalho sobre a expansão das redes hoteleiras na Grande Florianópolis, não são conclusivos. Será
necessário o aprofundamento da pesquisa em trabalhos posteriores, porém alguns dos resultados
alcançados serão aproveitados no desenvolvimento do trabalho de Tese de Doutorado em Geografia da
pesquisadora.
aí se implantou,
o paradigma de formação sócio-espacial propicia um enfoque
multidisciplinar em que o espaço geográfico e o tempo histórico constituem o ponto de
partida para uma melhor compreensão de uma realidade em que a cada nova fase de sua
evolução o espaço natural vai sendo modificado de forma mais profunda respondendo
as exigências sociais definidas a partir das imposições locais, regionais, nacionais ou
internacionais, ditadas pelas relações de produção dominante. Assim, esta teoria
permitirá analisar as formações historicamente determinadas e geograficamente
localizadas.
A escolha do tema levou à análise das origens e das alterações ocorridas no
traçado urbano do município de Florianópolis, bem como das principais características
encontradas nas diferentes etapas do crescimento urbano e do turismo e os seus reflexos
sobre os municípios da Grande Florianópolis ao longo do tempo.
Para operacionalização da pesquisa exigiu-se a definição de alguns
procedimentos e estratégias que permitiram reunir as informações necessárias para
investigar as redes hoteleiras localizadas na Grande Florianópolis, como a revisão
bibliográfica acerca do tema, o levantamento de informações junto aos órgãos oficiais
como SANTUR; IBGE, a identificação dos hotéis administrados pelas redes hoteleiras,
através da consulta à Associação Brasileira da Indústria de hotéis de Santa Catarina
(ABIH-SC), ao Panorama Setorial da Indústria Hoteleira publicado pela Gazeta
Mercantil, ao Guia 4 Rodas e aos sites das redes hoteleiras. Após o levantamento dos
dados secundários e a identificação da amostra, iniciou-se a aplicação de um
questionário. A aplicação do questionário foi realizada nos meses de outubro e
novembro de 2009 . Foram investigados quinze hotéis administrados por redes
hoteleiras nacionais e internacionais, porém, fizeram parte da pesquisa 50% da amostra.
2. Gênese e evolução do setor hoteleiro na capital catarinense.
Desde a sua fundação, Desterro, atual Florianópolis, foi marcada pela função
política e administrativa, assim como pelas atividades portuárias. Ao longo de sua
evolução, a cidade passou por distintos períodos de desenvolvimento, dentre os quais
pode-se reconhecer
um primeiro estágio de urbanização vinculado à ascensão da
pequena produção mercantil açoriana (virada do século XVIII para o século XIX), e um
segundo em que Florianópolis ascende a condição de praça comercial importadora
(último quartel do século XIX).
A última fase de urbanização está relacionada à
inserção da capital do estado de Santa Catarina no contexto do capitalismo industrial
brasileiro e catarinense, a partir da segunda metade da década de 1950 ( BASTOS, 2000
p. 127-128).
O porto, ao lado da função político-administrativa foi elemento fundamental na
gênese da povoação, servindo de atracadouro das embarcações e de ponto de comércio.
A expansão da atividade portuária resultou na demanda por infra-estrutura de apoio para
atender aos que chegavam à cidade para o desembarque de mercadorias e para as
negociações com o comércio local. A necessidade de atender o fluxo crescente de
pessoas acabou estimulando a instalação de novos serviços urbanos. Assim, espaços
residenciais
utilizados
inicialmente
apenas
pela
comunidade
local,
foram
gradativamente sendo transformados em áreas para prestação de serviços, dando lugar à
atividade hoteleira e ao comércio em geral. Os espaços foram adaptados e passaram a
assumir determinadas funções decorrentes das necessidades sócio-econômicas e
políticas de cada época.
As transformações do meio social e econômico e a própria organização do
espaço foram produzidas para atender as crescentes necessidades de sua população e
daqueles que aqui chegavam e, mais recentemente, dos fluxos turísticos que acabaram
estimulando a instalação de hotéis, muito embora, muitos deles tinham surgido para
atender uma demanda por hospedagem que não era necessariamente turística. Dessa
forma, somente no século XIX, surgiram os primeiros empreendimentos hoteleiros para
atender à demanda de pessoas que chegavam a Desterro, localizados na área do porto e
no largo do palácio, áreas que se concentrava o comércio varejista.
Inicialmente as pessoas que precisavam pernoitar em Desterro abrigavam-se nas
próprias embarcações ou nas residências de moradores locais, mas foi somente no
século XIX, que surgiram os primeiros empreendimentos hoteleiros para atender à
demanda de pessoas que chegavam à cidade, localizados na área do porto e no largo do
palácio, áreas que se concentrava o comércio varejista. O historiador Osvaldo Cabral
(1979) e os jornais de época apontam entre as primeiras iniciativas do setor neste
período, o Hotel do Commercio (1850); o Hotel Brasil (1856); o Hotel Café (1856); o
Hotel da Praça (1857); o Hotel do Vapor (1857); o Hotel Universo (1859); o Hotel dos
Paquetes (1864); o Hotel Papini (1871); o Hotel Trajano (1876) e o Grande Hotel
(1884). Estes hotéis do século XIX tinham características estruturais diferenciadas dos
atuais. Alguns mantinham no piso térreo uma espécie de armazém onde também podiase encontrar uma grande variedade de produtos alimentícios, produtos homeopáticos,
bebidas, cigarros, café, velas de carnaúba, papel, além de outros objetos colocados a
venda.4.
Até 1930, Florianópolis foi o maior centro exportador do Estado. A Revolução
de 30 sinalizou a necessidade de promoverem-se grandes mudanças na estrutura
econômica e política brasileira, com a chegada ao poder de camadas sociais
nacionalistas e a formação de um novo pacto político que uniu latifundiários, ligados ao
mercado interno, e a burguesia industrial nascente, excluindo do poder os comerciantes
de importação e exportação que, no caso de Florianópolis, representavam as camadas
sociais mais abastadas. Tal ruptura foi, assim, responsável por uma estagnação
econômica da cidade e, de um modo geral, da faixa litorânea catarinense.
Com o novo modelo de desenvolvimento implantado a partir de 1930, os centros
econômicos mais dinâmicos de Santa Catarina passaram a ser os pólos industriais
localizados nas áreas de colonização européia, implantadas na segunda metade do
século XIX. Em contrapartida, os núcleos urbanos situados na faixa litorânea, entre os
quais Florianópolis, permanecem praticamente estagnados até que as melhorias no
sistema viário viabilizassem o contato dessa região costeira com as outras regiões do
Estado e, até mesmo, com os estados vizinhos, o que imprimiu um novo dinamismo às
localidades litorâneas.
A construção da BR 101 (1960), a fundação da Universidade Federal de Santa
Catarina (1960) e a vinda da ELETROSUL para Florianópolis (1970), foram três fatos
fundamentais no processo de urbanização da capital.
Até os anos de 1970, o setor hoteleiro limitava-se à área central da cidade, e
ainda era bastante incipiente devido às deficiências do sistema viário. Nesse período as
áreas balneárias eram compostas por comunidades pesqueiras e rurais, prevalecendo às
casas de veraneio nas praias do Norte da Ilha, cujos proprietários pertenciam à elite
florianopolitana. O incremento do turismo na Ilha de Santa Catarina somente foi
possível a partir do melhoramento das vias de acesso.
A cultura urbana do lazer e da busca por balneários, aliada à melhoria do acesso
decorrente da construção da SC 401, promoveu o crescimento urbano das localidades
situadas no Norte da Ilha e a intensificação do fluxo turístico.
Em Florianópolis, a partir de 1970, a instalação de órgãos estatais e a melhoria
das infra-estruturas urbanas, bem como os investimentos privados na atividade hoteleira
4
SANTOS, Fabíola Martins. Análise histórico-espacial do setor hoteleiro no núcleo urbano central de
Florianópolis. Balneário: UNIVALI, 2005. (Dissertação de Mestrado).
e na prestação de serviços promoveram a expansão urbana e do turismo. Embora, até o
início da década de 1990, o turismo em Florianópolis tenha sido canalizado para as
praias, o mercado turístico da região se modifica a partir de 1998, com a inauguração do
primeiro centro de eventos da capital, o Centrosul.
A instalação do centro de eventos promoveu a intensificação dos fluxos
turísticos de negócios e eventos desencadeando modificações significativas na hotelaria,
principalmente aquela localizada no núcleo central da cidade, expressas, sobretudo, pela
entrada das redes hoteleiras nacionais e internacionais no mercado local.
3. A formação dos grupos hoteleiros no Brasil
As primeiras as primeiras redes hoteleiras5, surgiram na segunda metade do
século XX, quando grupo de empresas passaram a assumir a propriedade de muitos
estabelecimentos na Europa e nos Estados Unidos, em razão da necessidade de
mobilização de capital para construção e operação desses empreendimentos.
Com o incremento da atividade econômica, a elevação da renda da população, a
massificação dos automóveis e a intensificação dos fluxos turísticos, o setor hoteleiro
no Brasil, até então independente, se modifica com a chegada dos grupos hoteleiros
internacionais em 1970.
A entrada das cadeias de hotéis internacionais no Brasil foi estimulada pelo
acirramento da concorrência entre as companhias de nível internacional e a
transformação do país em um importante pólo de viagens de negócios internacionais o
que desencadeou o crescimento da economia e a entrada de empresas multinacionais. É
importante mencionar que a primeira rede a investir no mercado brasileiro foi a Hilton
Internacional Corporation que em 1971 passou a administrar um hotel com 400
unidades habitacionais em São Paulo 6.
De acordo com a “Análise setorial da Indústria Hoteleira” (1999), a entrada das
redes internacionais, também, trouxe conseqüências ao mercado interno de hotéis,
estimulou a competitividade, principalmente no que se refere à hotelaria familiar e
5
Os hotéis podem ser administrados diretamente pelos proprietários ou por empresas especializadas,
chamadas de administradoras ou operadoras hoteleiras. Podem ser independentes ou estar vinculados a
redes que operam no mercado nacional ou internacional. Geralmente os hotéis independentes são
administrados pelos próprios proprietários, é o caso da maioria dos empreendimentos de pequeno e médio
porte no Brasil. Os hotéis vinculados a redes costumam ser administrados através de contratos de gestão
ou arrendamento e sistemas de franquias.
6
Análise setorial da Indústria Hoteleira (GAZETA MERCANTIL, 1999).
independente, que é responsável atualmente por aproximadamente por 70% desse
mercado, na sua maioria são empreendimentos de pequeno e médio porte7.
A partir da década de 1970 com a grande expansão do turismo no mundo e a
abertura de mercado incentivaram fusões e expansões de empresas para setores com os
quais houvesse sinergia entre transporte e hospedagem, como exemplo a American
Airlines que fundou a América Hotels; a Ar France com os hotéis Méridien; a British
Airways com a Swissair; a Lufthansa e Alitaia formaram a rede European Hotel
Corporation; a TWA assumiu o controle dos hotéis Hilton Internation; a United
Airlines, o controle da Trans-International Hotels e cadeia Meliá; e a Varig adquiriu a
rede Tropical de Hotéis.8. Porém logo no final dos anos de 1970, diante do acirramento
da competição e desregulamentação das atividades e fusões de grandes transportadoras,
as empresas aéreas recuaram e voltaram a concentrar sua atuação no setor de transporte
Conforme apontou Proserpio (2007), a estratégia política e econômica vigente,
além do incentivo à instalação de novas indústrias, o setor de turismo também é
beneficiado, por meio da EMBRATUR à entrada de novos capitais no final dos anos de
1960, que foi umas das determinantes para expansão do parque hoteleiro no Brasil e a
entrada das redes internacionais em 1970, atraídas pelos incentivos e pela perspectiva de
crescimento do turismo interno. Dessa forma foram criadas linhas de crédito e
financiamento que beneficiaram boa parte dos hotéis do Brasil: FUNGETUR (Fundo
Geral de Turismo); FINOR (Fundo de Investimento do Nordeste); FINAM (Fundo de
investimento da Amazônia), mas recentemente o BNDES e os fundos de pensão, como
a PREVI, foram os principais responsáveis pela ampliação do parque hoteleiro
brasileiro.
Nos anos de 1980, ocorre uma retração dos investimentos no setor hoteleiro em
conseqüência dos recursos do FUNGETUR reduzidos e da inexistência de fontes de
financiamentos
adequadas.
Dessa
forma,
o
retorno
do
investimento
ficou
comprometido, os custos ficaram elevados e os prazos inapropriados.
Com a crise do setor hoteleiro de 1980, o período posterior de 1990 foi marcado
pelo surgimento dos empreendimentos denominados Flat9 no Brasil, principalmente na
capital de São Paulo, amparado por expectativas de retorno bastante otimistas por
7
No Brasil, hotéis de pequeno porte até 50 unidades habitacionais, de médio porte de 50 unidades até 200
unidades habitacionais, acima de 200 unidades são considerados de grande porte.
8
Análise setorial da Indústria Hoteleira (GAZETA MERCANTIL, 1999).
9
Os flats e os apart-hotéis, como imóvel comercial para fins de locação, têm um custo relativamente
baixo de investimento, já que podem ser viabilizado através de comercializações individuais. Os usuários
encontram a mesma condição de serviços e de hospedagem que em um hotel
brechas na legislação sobre a exploração econômica destes empreendimentos como
meios de hospedagens 10.
Na década de 1990, especificamente após 1994, uma nova fase de expansão do
setor hoteleiro no Brasil, estimulada pelas políticas neoliberais promovidas pelo
governo da época. A entrada de capitais estrangeiros, a política de privatizações,
propiciou um ambiente favorável para entrada de novas redes internacionais e a
ampliação do setor. Com a estabilidade econômica, as pessoas passam a viajar mais,
dessa forma, ocorreu no período um incremento do turismo interno, bem como do
turismo externo diante da entrada de novas empresas internacionais e os investimentos
em infra-estrutura e novos produtos turísticos. É importante ressaltar que a estratégia
utilizada por parte das redes internacionais para entrada no país foi associação com
grupos nacionais, que na maioria dos casos assumiam a responsabilidade pelos
investimentos imobiliários dos seus projetos hoteleiros.
4. A expansão das redes hoteleiras nacionais e internacionais situadas na
Grande Florianópolis.
Em 1995 surge o primeiro hotel de rede internacional em Florianópolis com a
marca Parthenon pertencente ao grupo Accor11. No mesmo período a rede investe nas
outras capitais do Sul do país, como em Curitiba com o Parthenon Golden inaugurado
em 1993, e em Porto Alegre com o Flat Piazza Navona inaugurado em 1995.
Ao verificar que na região sudeste do país (Rio de Janeiro e São Paulo) a
entrada das redes internacionais de hotéis deu-se a partir de 1970, percebe-se um atraso
nos investimentos das empresas hoteleiras internacionais no mercado Sul do país.
Na Grande Florianópolis as redes hoteleiras se constituem a partir de um modo
de operação que elege alianças locais para investimentos através da parceria para
construção dos hotéis, como é o caso dos empreendimentos Blue Tree Towers, Ibis,
Deville e Sofitel, com o investidor Aurélio Paladini, sócio proprietário da Magno
10
O Turismo no Brasil Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas
para o setor (UNICAMP, 2007).
11
Este hotel, em 2006, passou por uma mudança de bandeira, assim como todos os empreendimentos da
marca Parthenon no Brasil passaram a operar com a bandeira Mercure, também do grupo Accor. A rede
Accor é uma empresa francesa que chegou no Brasil em 1976 no setor de alimentação através da
subsidiária chamada N.H.T. Em 1978, passou a atuar no setor hoteleiro, com a inauguração do Novotel
São Paulo Morumbi. A Accor Brasil no setor hoteleiro conta com as marcas Sofitel, Mercure, Novotel,
Íbis e Formule 1. Além do setor hoteleiro, a empresa atua na área de viagens, com a Carlson Wagnonlit
Travel, e na alimentação, com a Ticket Restaurante, Ticket Alimentação, GR Restaurantes de
Coletividade, entre outras atividades.
Martins, construtora local. Além desse tipo de parceria tem-se a formação de um “pool
hoteleiro” que é a venda das unidades habitacionais para vários proprietários, dessa
forma, o risco sobre o empreendimento é compartilhado com vários investidores.
É importante enfatizar que cada empreendimento possui a sua sistemática de
administração, os hotéis da marca Parthenon, hoje Mercure, por serem flats, geralmente
possuem vários proprietários. Há a formação de um “pool de locação” que é um
conjunto de unidades habitacionais que são disponibilizadas pelo proprietário para a
rede hoteleira fazer as locações, isto é o processo de reserva por um tempo e preço de
diária determinado. Compete à rede hoteleira administrar o condomínio, onde todas as
despesas de uso comum são rateadas entre os proprietários e pagas através de uma taxa
condominial.
O quadro abaixo demonstra o crescimento das redes hoteleiras na Grande
Florianópolis e a sua localização:
Hotel
Ano da
Inauguração
1976
Localização
1976
Centro
Plaza Caldas
de Imperatriz
1981
Santo Amaro da
Imperatriz
Baía Norte
Palace Hotel
1985
Centro
Carmen Peters
Diplomata /
Intercity
1985
Centro
Alexandre Gehlen
Coral Plaza
Rede Devile
(2007)
1993
Centro
Parthenon
Lindacap/
Mercure
(2006)
Blue Tree
Towers
1995
Centro
Montecarllo
Empreendimentos
Turísticos
Aurelio Paladini
Mário Kenji
Condomínio com 54
investidores
2000
Centro
Florianópolis
Palace Hotel
Bristol Multi
Castelmar &
Convention
Center
Centro
Proprietários atuais
Administração
atual
José de Oliveira
Rede Regional –
Sagres (2004)
CHT Prestadora de
Independente –
Serviços S/C Ltda
Participação na
Renato Nunes Ghizoni
administração: Rede
José Carlos Chaussard
Bristol –
Neto
Nacional(2005)
Predial e
Rede Plaza de Hotéis
Administradora Hotéis Rede Nacional
Plaza S/a
Montecarllo
Empreendimentos
Turísiticos Ltda
Mário Kenji
Independente /
Associação a rede
Othon Nacional
(2006)
Administradora:
Rede Intercity –
Nacional (2002)
Independente
Administradora Rede
Devile – Nacional
(2007)
Administradora Rede Accor Internacional
Administradora Rede Blue Tree Nacional
Jurerê Beach
Village
2000
Hotel Ibis
2003
Sofitel
Florianópolis
2006
Mercure
Itacorubi
2006
Bristol Dobly
Oceania Park
Hotel
Il Campanario
2007
Slavieiro
2009
2008
Aurélio Paladini
Jurerê Internacional Habitasul
Empreendimentos
Imobiários
Centro
West Coral Hotéis e
Resorts Ltda
Aurélio Paladini
Mário Kenji
Centro
Hbs Hotelaria Ltda
Aurélio Paladini
Anita Hoepke
Itacorubi
Ingleses
Jurerê Internacional Habitasul
Empreendimentos
Imobiários
Trindade
Construtura Pinheiro
AJIH
Administradora:
Rede Accor Internacional
AdministradoraRede Accor Internacional
AdministradoraRede Accor Internacional
Rede Bristol Hotéis
& Resorts
Rede Nacional
AJIH
Rede Slavieiro
Contrato de Franquia
Quadro 1: Expansão da rede hoteleira na Grande Florianópolis.
Fonte: Elaborado por Fabíola Martins dos Santos em 2009.
A partir dos anos 2000, há efetiva entrada das bandeiras de hotéis integrantes de
redes hoteleiras nacionais e internacionais, tais como a rede Blue Tree (Blue Tree
Towers), rede Bristol Hotéis & Resorts ( Bristol Dobly e Bristol Multy),
a rede
InterCity (InterCity Premium) e a rede Accor (Mercure, Ibis, Sofitel), rede Deville com
a administração do hotel Coral Plaza em 2007. Esses empreendimentos estão
localizados no núcleo urbano central de Florianópolis, com uma estrutura arquitetônica
verticalizada e com serviços e infra-estrutura voltada para atender as necessidades do
público executivo e participante de eventos. É importante lembrar, que até o final dos
anos de 1980, o mercado turístico da região estava voltado para o segmento de Lazer e
os hotéis localizados nos balneários de praia, assim como, os do centro, surgiram para
atender esta demanda.
Nos anos de 1990 o mercado se modifica principalmente com a inauguração do
centro de eventos de Florianópolis em 1998. A efetiva possibilidade de investimos
menos sazonais no segmento de negócios e eventos desencadeou a expansão das redes
hoteleiras internacionais e nacionais. Dos hotéis instalados na Grande Florianópolis,
71% são de redes nacionais, porém percebe-se a Accor, a maior rede internacional em
atuação no Brasil, se destacando com expressivos investimentos na Grande
Florianópolis. A empresa inaugurou recentemente o Ibis São José (2010) e deve ainda
aumentar a sua atuação com construção do Ibis em Palhoça.
No período da pesquisa de campo, de outubro a novembro de 2009, foram
identificados quinze empreendimentos administrados por redes hoteleiras na região
(quadro 2). Porém, infelizmente, nem todos quiseram participar, dessa forma, os
resultados apresentados foram corresponde a 50% da amostra, o que permitiu fazer
algumas análises preliminares. Segue alguns resultados:
a) Dos hotéis investigados, o perfil dos gestores que atuam nas redes hoteleiras,
50% deles estão na faixa etária de 36 a 45 anos, possuem nível superior
completo com graduação em Hotelaria e pós-graduação. Constatou-se na
pesquisa que 67% dos gerentes gerais vieram de outra cidade para trabalhar na
unidade da rede pesquisada, isto se deve ao fato de que as redes hoteleiras
utilizam-se da pratica de transferência dos funcionários gestores e uma unidade
da rede para outra, alguns deles permanecem administrando um hotel somente
por dois anos. Este procedimento é uma estratégia das empresas para evitar
vínculos com a equipe e vícios de trabalho que possam prejudicar o desempenho
administrativo do empreendimento. Outro fato que foi apontado pelos
informantes gestores é que 50% deles estão a mais de 7 anos trabalhando na
mesma rede hoteleira.
b) Os hotéis de rede identificados 95% trabalham com contrato de administração.
Um hotel sob contrato de administração é similar a uma franquia no que se
refere ao fornecimento de padrões para execução de procedimentos
operacionais, bem como de metas em termos de qualidade e de nível de serviços
(ISMAIL, 2004, p.27). É importante destacar que esta forma de administração,
difere do sistema de franquia, pois os hotéis são administrados/operados pela
empresa que fornece o padrão, isto é pela rede hoteleira, ao contrário de um
hotel franqueado que pode escolher, ser operado pela rede hoteleira ou ter uma
administração operacional própria, em ambas as formas, o padrão de serviços é
vinculado a rede. Geralmente são contratos temporários que variam de 3 a 5
anos, dependendo do hotel podem ser renovados diante do interesse das partes,
operadora hoteleira e proprietários.
c) Dos hotéis pesquisados 80% não trabalham com pool de locação, isto acontece
porque esses empreendimentos possuem um único investidor, assim todos os
apartamentos são colocados a disposição da operadora hoteleira para venda. As
redes hoteleiras localizados na Grande Florianópolis 90% são voltadas para o
segmento negócios. Percebe-se que os hotéis voltados para o segmento de
negócio possuem ocupação anual acima de 50%, sendo que um dos hotéis
econômicos teve o melhor desempenho no que se refere a ocupação. Os hotéis
de lazer apresentaram o melhor desempenho no item diário média. Isto “não”
quer dizer que os hotéis de lazer possuem melhor desempenho financeiro do que
os hotéis econômicos e executivos, pois geralmente o custo operacional dos
hotéis de lazer é mais alto.
O quadro abaixo demonstra a ocupação média anual dos empreendimentos
pesquisados:
OCUPAÇÃO ANUAL DIÁRIA MÉDIA OCUPAÇÃO ANUAL DIÁRIA MÉDIA
2008
ANUAL 2008
2009
DE 2009
s/histórico
R$ 109,59
A
s/histórico
37%
R$ 159,00
R$163,00
B
62%
62%
R$
380,00
R$ 390,00
C
40%
42%
R$ 151,89
R$ 145,16
D
65%
54%
R$
103,75
R$ 108,27
E
77%
72%
F
8%
R$ 334,04
22%
R$ 225,18
Quadro 2: Diária e ocupação média anual dos hotéis de rede
Fonte: Elaborado por Fabíola Martins dos Santos em 2009.
* B – D = Hotéis Executivos; C – F= Hotel de Lazer – Resort; A - E = Hotel Econômico
HOTEL
5. Considerações finais
Considerando o crescimento urbano, o incremento do setor turístico e do
comércio e a expansão do setor hoteleiro, notado, principalmente, nestes últimos anos,
além dos hotéis independentes, as redes hoteleiras nacionais e internacionais vêm se
instalando no Brasil, atraídas por um mercado crescente.
A entrada das redes internacionais de hotéis em meados da década de 70 foi
provocada pelo acirramento da concorrência entre as companhias em nível internacional
e pela transformação do país em um importante pólo de viagens de negócios com o
crescimento da economia e a entrada das multinacionais. Contudo, a estratégia utilizada
pelas redes internacionais foi a de associar-se a grupos nacionais que, na maioria dos
casos, assumiam a responsabilidade do investimento imobiliário enquanto a
administração do empreendimento era realizada através de contrato de gestão ou
sistemas de franquias. A vinda das cadeias hoteleiras para o Brasil no início da década
de 70, coincidiu com uma fase de disponibilidade de financiamento de longo prazo
através da EMBRATUR e de incentivos fiscais para construção de hotéis.
Até 1990, o turismo em Florianópolis foi canalizado para os balneários de praia,
o mercado turístico modificou a natureza do impacto espacial. Trata-se não apenas da
transformação e da ampliação da ocupação diante dessa atividade, mas de uma mudança
de qualidade e abrangência do mercado.
A partir de 1990 o segmento de negócios indiferente da sazonalidade, alavancou
os investimentos em projetos para uma hotelaria executiva, o que possibilitou a partir
dos anos 2000, o crescimento dos hotéis administradas por redes nacionais e
internacionais. A expansão das redes hoteleiras associa-se a mudança de perfil dos
hóspedes, estreitamente relacionados a negócios e eventos, portanto com a perspectiva
de uma hotelaria moderna de caráter globalizante, com padrão de qualidade que a
diferencia da hotelaria independente, as redes hoteleiras souberam aproveitar o
momento favorável no mercado.
Acredita-se que os resultados alcançados sejam relevantes para fortalecimento
dos estudos nas áreas de turismo e hotelaria. Espera-se que com o aprofundamento
dessa pesquisa novos elementos sejam incorporados aos aqui preliminarmente
apresentados.
6. Referências
BASTOS, J. M. Urbanização, comércio e pequena produção mercantil pesqueira na Ilha
de Santa Catarina. In LINS Hoyedo; MESSIAS, José; CHEREM, Rosângela; SANTOS,
Maurício. (Orgs). Ensaios sobre a Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Letras
Contemporâneas, 2000.
CABRAL, O. R. Nossa Senhora do Desterro. Florianópolis: UFSC, 1979
DIAS, Célia Maria de Moraes. Home away from home.Evolução, caracterização e
perspectivas da hotelaria: estudo compreensivo. São Paulo, 1990 (Tese de Doutorado) –
ECA- USP.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Disponível em:
www.ibge.gov.br. Acesso em 2009.
GAZETA MERCANTIL. Panorama setorial, análise setorial: a indústria hoteleira.
São Paulo, Ed. Abril, 1999.
LAGO, Paulo F. Florianópolis: A polêmica urbana. Florianópolis, Fundação Franklin
Cascaes, 1996.
PROSERPIO, Renata. O avanço das redes hoteleiras internacionais no Brasil. São
Paulo: Aleph, 2007.
SANTUR – Santa Catarina Turismo S/ A Pesquisa Mercadológica de Estudo da
Demanda Turística de Santa Catarina. Disponível em: <http: www.sc.gov.br>. Acesso
em: jul-out. 2009.
SANTOS, Fabíola Martins. Análise histórico-espacial do setor hoteleiro no núcleo
urbano central de Florianópolis. Balneário: UNIVALI, 2005. (Dissertação de
Mestrado).
SANTOS, M. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1977.
______. Espaço e Sociedade: ensaios. Petrópolis: Vozes, 1992.
UNICAMP - O Turismo no Brasil Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e
Propostas de Políticas Públicas para o setor, 2007.
WALKER, John R. Introdução à Hospitalidade. São Paulo: Manole, 2002.
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Notas sobre a expansão das redes hoteleiras nacionais e