1 Pró-Reitoria de Graduação Curso de Comunicação Social – Jornalismo Trabalho de Conclusão de Curso ANÁLISE SOBRE A ALTERAÇÃO NAS ROTINAS PRODUTIVAS NO JORNALISMO IMPRESSO A PARTIR DO DESENVOLVIMENTO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Autora: Renata Cardoso Marques dos Santos Orientadora: Dra. Ana Carolina Kalume Maranhão RENATA CARDOSO MARQUES DOS SANTOS Brasília - DF 2014 ANÁLISE SOBRE A ALTERAÇÃO NAS ROTINAS PRODUTIVAS NO JORNALISMO IMPRESSO A PARTIR DO DESENVOLVIMENTO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Monografia apresentada ao curso de graduação em Comunicação SocialJornalismo da Universidade Católica de Brasília, como requisito para obtenção do Título de Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo. Orientadora: Dra. Ana Carolina Kalume Maranhão Brasília 2014 Para toda minha família que me acompanhou durante esses 4 anos de trajetória acadêmica, sempre apoiando e incentivando a minha futura carreira. Dedico a Márcia Cardoso Marques, José Edmilson dos Santos, Roseane Cardoso Marques dos Santos, Raphael Cardoso Marques dos Santos e André Luiz Mendes Marcico. MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS À professora Ana Carolina Kalume Maranhão pelo apoio, dedicação e paciência durante o desenvolvimento deste trabalho. Agradeço pela perseverança, por me introduzir a pesquisa acadêmica e por me acompanhar em boa parte da minha graduação. Ao professor Alberto Marques por me apresentar outros autores que acrescentaram muito a minha pesquisa e por sempre se demonstrar disposto a ajudar no desenvolvimento deste trabalho. À jornalista Renata Giraldi pela disponibilidade em ajudar e pelos excelentes conselhos. Ao jornalista Adriano Lafetá pela imensa ajuda em conseguir viabilizar o contato com diversos jornalistas presentes nesta pesquisa. Por prontamente atender meus telefonemas e e-mails, e por ser um exemplo como profissional. Ao jornalista e publicitário Daniel Cariello, por aceitar participar desta pesquisa assim que convidado, além de auxiliar sempre que solicitado. Aos jornalistas Amaro Júnior, Ana Gabriela Guerreiro Leite, Conceição Freitas, Odail Figueiredo, Renato Ferraz, Severino Francisco, Sílvio Queiroz, Valério Ayres por compartilharem momentos importantes de suas carreiras, por mostrarem que o jornalismo vale a pena e por acreditarem em um futuro promissor para a nossa profissão. Aos meus colegas universitários e futuros profissionais por compartilharem momentos importantes durante a minha trajetória acadêmica. Aos professores que tornaram a minha experiência acadêmica mais enriquecedora, e fizeram com que cada momento fosse mais proveitoso dentro e fora da sala de aula. Por fim agradeço as pessoas que sempre estiveram comigo apoiando antes mesmo da escolha desta profissão, a minha mãe sempre guerreira Marcia Cardoso Marques, ao meu amado pai José Edmilson dos Santos, à minha irmã querida Roseane Cardoso Marques dos Santos, ao meu irmão parceiro Raphael Cardoso Marques dos Santos e ao meu amigo e companheiro André Luiz Mendes Marcico. RESUMO Referência: SANTOS, Renata Cardoso Marques dos. Análise sobre a alteração nas rotinas produtivas no jornalismo impresso a partir do desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação. 2014. 60. Monografia. Comunicação Social – Jornalismo – Universidade Católica de Brasília, Taguatinga-DF, 2014. A informatização e a posterior digitalização das redações provocaram mudanças visíveis na rotina produtiva dos jornalistas, desde a apuração, passando pela produção até chegar à distribuição de conteúdo. Tendo em vista este cenário, o presente trabalho investigou a rotina produtiva de nove jornalistas atuantes no mercado brasiliense, mais especificadamente em redações de jornais impressos em Brasília, para verificar como tais mudanças ocorreram. Para isto, como suporte metodológico foram aplicadas entrevistas em profundidade, para posterior análise das informações coletadas, por meio da Análise de Conteúdo, a partir do conhecido trabalho de Laurence Bardin (2009). As informações obtidas foram fundamentais na definição dos temas e categorias de análise, com vistas à verificação sobre como as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do jornal impresso se deram após o processo de digitalização das redações. Palavras-Chave: Jornal impresso. Papel do Jornalista. Rotinas produtivas. Tecnologias da Informação e Comunicação. ABSTRACT Reference: SANTOS, Renata Cardoso Marques dos. Analysis on the change in productive routines in print journalism from the development of information and communication technologies. 2014. 60. Monograph. Media - Journalism - Universidade Católica de Brasília, Taguatinga-DF, 2014. The computerization and subsequent digitization of newsrooms caused visible transformations in the productive routines of journalists, from content production untill its distribution. Given this scenario, the present study investigated productive routines of nine active journalists in Brasilia, more specifically in Brasilia´s newspapers, to see how these changes occurred. For this purpose, in-depth interviews were used as methodological support for further analysis of the information collected through the application of content analysis as posited in the well-known work of Laurence Bardin (2009). The information obtained was fundamental in defining the themes and categories of analysis, in order to verify how the changes in productive routines of printed newspapers that happened as a consequence of the digitalization of newsrooms. Keywords: Printed Newspapers, Role of the Journalist, Productive routines, Information and Communication Technologies. SUMÁRIO PARTE I - INTRODUÇÃO E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO ................................................................................ 10 1.1Objetivo Geral ......................................................................................................... 11 1.2 Objetivos Específicos .............................................................................................. 12 1.3 Hipótese ................................................................................................................... 12 1.4 Contexto da pesquisa .............................................................................................. 12 1.5 Aplicação da Amostra Piloto ................................................................................. 14 1.6 Procedimentos Metodológicos ............................................................................... 15 1.6.1 Etapas de realização da Pesquisa ....................................................................... 19 PARTE II - ROTINAS PRODUTIVAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL: CONFRONTANDO ALTERAÇÕES NO JORNALISMO IMPRESSO CAPÍTULO 2 – BREVE HISTÓRICO DO JORNALISMO IMPRESSO NO BRASIL ......................................................................................................................... 22 2.1 Informatização e digitalização das redações ........................................................ 25 2.2 Processos de Produção da Notícia ......................................................................... 30 2.3 As Tecnologias de Informação e Comunicação e os impactos na rotina de produção jornalística.................................................................................................... 33 2.4 Mudanças estruturais: Processos de alteração no jornalismo ........................... 35 CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DOS DADOS ................................................................ 38 3.1 Jornalistas que participaram da pesquisa ............................................................ 38 3.2 Categorias para apresentação e análise dos dados: profissionais que presenciaram a digitalização das redações ................................................................. 40 3.2.1 Categoria: Principais impactos na rotina produtiva após a informatizção das redações ................................................................................ 40 3.2.2 Categoria: Principais impactos na rotina produtiva após a digitalização das redações ......................................................................................................... 41 3.2.3 Categoria: Futuro do jornalismo .............................................................. 47 3.3 Categorias para apresentação e análise dos dados dos profissionais inseridos em redações após a digitalização ................................................................................ 52 3.3.1 Categoria: Utilização de meios digitais na rotina produtiva.................. 52 3.3.2 Categoria: Futuro do jornalismo .............................................................. 53 Considerações finais ..................................................................................................... 55 Referências Bibliográficas ........................................................................................... 57 APÊNDICES ................................................................................................................... 1 Apêndice A – Roteiro de entrevista em profundidade....................................... 2 Apêndice B – Decupagem dos jornalistas entrevistados ................................... 4 Apêndice C – Tabelas de análise ........................................................................ 22 Lista de figuras Figura 1: Uma ilha de PCs na redação: o jornal modernizava os equipamentos de produção de textos, primeiro passo para entrar na era da comunicação digital.................................................... Figura 2: A redação do Jornal O GLOBO já totalmente informatizada........................................... 9 PARTE I - INTRODUÇÃO E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 10 CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO O presente trabalho de pesquisa parte de um cenário marcado por um conjunto relevante de transformações no jornalismo, que envolvem mudanças nos hábitos e nas práticas profissionais. São novas formas de apuração, produção e distribuição da notícia. Este trabalho tem como objetivo investigar as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do jornalista atuante na mídia brasiliense. Desta forma, são diversos os autores que chamam atenção para a necessidade de uma reflexão sobre as mudanças que cercam o jornalismo na atualidade. Fígaro (2013) percebe em seus estudos que as mudanças nos processos e rotinas produtivas, a concorrência global e as novas demandas de consumidores têm profundas implicações para os profissionais envoltos no campo da comunicação. “Implicações que vão do campo ético-profissional ao cultural e pessoal. Elas demandam respostas, gestão e planejamento ao nível político e institucional” (FÍGARO, 2013, p. 12). Em concordância com Fígaro (2013), Bolaño e Brittos (2006) acreditam que com os processos midiáticos e com a digitalização as rotinas, a criação, produção e disponibilização de conteúdos foram modificadas. Seguindo a mesma linha de pensamento está o trabalho de Baldessar (2004). Segundo a autora, o jornalismo passa por profundas transformações com o aparecimento do modelo online. Causando então um processo de renovação de antigas práticas, reconfigurando assim as práticas profissionais e alterando rotinas de produção, processamento e difusão da informação. Desta forma, este trabalho busca investigar quais alterações foram empreendidas na rotina produtiva dos jornalistas brasileiros, a partir do processo de digitalização das redações e como o processo de desenvolvimento tecnológico modificou tais práticas profissionais, a partir de um estudo centrado nas mudanças estruturais do jornalismo, conforme apontado por autores como Charron e Bonville (2007), Adghirni e Jorge (2011); Pereira (2011) e Ruellan (2011). Mudanças estruturais são o cerne dos estudos dos autores canadenses Charron e Bonville (2007), que investigaram como essas mudanças no jornalismo afetaram as práticas profissionais e o papel dos atores inseridos em tais práticas. Segundo os autores, a natureza do jornalismo sofreu alterações decorrentes de variações espaçotemporais, o que é também objeto de estudos de outros pesquisadores, como Adghirni e Jorge (2011). Segundo as pesquisadoras, as práticas profissionais atravessam um 11 momento de profundas alterações em função da multiplicação dos espaços de produção da notícia, como as mídias que surgiram com a internet, blogs, sites e portais. Para Adghirni e Jorge (2011), as mudanças estruturais ocorrem nas convenções relativamente estáveis do jornalismo, causando uma reconfiguração dos modos de produção. As mudanças ocorridas no campo do jornalismo são grandes, e afetam diversos aspectos, que vão das empresas ao produto final produzido. Este trabalho centra-se na investigação sobre as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas dos profissionais de jornalismo. Como aponta Denis Ruellan (2011), “Nós devemos nos questionar sobre o lugar desse discurso na construção de identidade mais do que simplesmente repercutir os discursos de crise” (RUELLAN, 2011, p. 6), com isso se faz necessário verificar como o processo de modernização das redações com a chegada das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) configuraram um processo de mudanças nas rotinas profissionais. Como aponta a pesquisa realizada por Fígaro (2010) a respeito das mudanças nas rotinas de trabalho do comunicador por meio da inserção das tecnologias da informação e comunicação. A autora percebe que o cenário do trabalho após a inserção das TICs atravessou constantes transitoriedades, proporcionadas pelo que ela chama de "novos artefatos" que seriam as ferramentas produzidas pela cultura, em que as empresas exigem que o comunicador tenha habilidades para utilizá-las, “e maturidade intelectual para coletar, selecionar e organizar as informações disponíveis em abundância cada vez maior” (FÍGARO, 2010, p. 11). Outrossim, o processo de digitalização das redações, com a inserção da plataforma online é representado nesta pesquisa como o mote para compreensão dos cenários futuros que cercam a prática profissional dos jornalistas e como é possível visualizar um processo de mudança a partir do entendimento proposto. 1.1 Objetivo Geral O objetivo geral desta pesquisa é investigar as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do profissional de jornalismo a partir do processo de digitalização das redações ocorrido em meados dos anos 1990 nos jornais brasileiros, com vistas ao 12 entendimento sobre as mudanças estruturais no jornalismo em um ambiente de convergência midiática. 1.2 Objetivo Específico 1) Verificar quais foram as mudanças empreendidas nas formas de produção da notícia a partir do processo de digitalização das redações de acordo com a percepção interna do setor. 1.3 Hipótese O desenvolvimento tecnológico provocou mudanças significativas nas redações, em especial nos jornais, que sofreram em um primeiro momento mudanças em suas estruturas físicas e depois alteraram as formas de produção e organização do trabalho. Seguindo este pressuposto, a hipótese desta pesquisa é de que o processo de digitalização das redações provocou mudanças nas rotinas produtivas do jornalista e nas formas de produção e veiculação da notícia, a partir da migração do formato impresso para o online. 1.4. Contexto da pesquisa Dentre as diversas possibilidades de temas para se escolher como trabalho final, na conclusão do curso de jornalismo, este projeto surgiu como uma oportunidade de aprofundamento sobre um assunto presente na rotina do jornalista contemporâneo, representado pela inserção cada vez mais constante de tecnologias no ambiente de trabalho. O interesse sobre o assunto surgiu por meio de um projeto de iniciação cientifica desenvolvido na Universidade de Brasília durante os anos de 2012 e 2013. O projeto, “Perspectivas e análises sobre investigação de mudanças no perfil do jornalista profissional no Brasil” foi coordenado pela professora Dra. Ana Carolina Kalume Maranhão, de acordo com a vigência do Edital de Iniciação Científica em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI) ProIC/DPP/UnB - PIBITI (CNPq) 13 2012/2013. O projeto foi parte de uma das vertentes desenvolvidas no trabalho “O jornalista brasileiro: análise das competências em um contexto de mudança no ambiente profissional provocada pela inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação”, tese apresentada pela professora Dra. Ana Carolina Kalume Maranhão ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação, da Universidade de Brasília. A partir do desenvolvimento do mesmo, houve a construção e leitura de um relevante referencial teórico adquirido no decorrer da pesquisa de iniciação cientifica. Algumas questões foram levantadas e serviram como pontos centrais de análise do presente trabalho, tais como a investigação das possíveis mudanças ocorridas na rotina produtiva dos jornalistas investigados no presente trabalho após a entrada de tecnologias nas redações, da digitalização dos jornais, e do aparecimento cada vez mais constantes de aparatos tecnológicos no ambiente de trabalho. Algumas mudanças podem ser percebidas. É o caso do processo de produção jornalística estudada e apresentada no pensamento de autores como a professora Zélia Leal Adghirni e o professor Fábio Pereira (2011), ambos da Universidade de Brasília, que verificaram a aceleração dos fluxos de produção e disponibilização da notícia, o aumento de plataformas que disponibilizam conteúdo, as alterações nos processos de coleta de informação e as relações com as fontes. Diante disto, este trabalho visa a sistematizar e contribuir com as pesquisas sobre rotinas produtivas do jornalista brasileiro, para o estudo e entendimento da profissão no Brasil. Desta forma, é necessário compreender como as rotinas sofreram alterações diante do sistema cada vez mais rápido de desenvolvimento tecnológico, apontado por Fábio Pereira e Zélia Adghirni (2011) como um acelerador de processos, no qual se passou a disponibilizar para o grande público, informações de forma contínua. Desta forma, a presente pesquisa partiu de um levantamento qualitativo por meio da entrevista em profundidade, realizada primeiro com a amostra piloto, com dois jornalistas residentes em Brasília. Após a experiência com a amostra piloto, foram entrevistados nove jornalistas profissionais que atuam em veículos de comunicação na cidade de Brasília. São eles: Correio Braziliense, Veja Brasília e sucursal da Folha de S.Paulo. As entrevistas foram realizadas com o objetivo de verificar quais foram as reais mudanças em suas rotinas produtivas dentro do jornal impresso. Esses profissionais são importantes para a compreensão do ambiente que cerca o jornal impresso no Brasil, com ênfase para o conhecimento do mercado brasiliense. 14 1.5. Aplicação da Amostra Piloto Participaram da amostra piloto do presente trabalho, dois jornalistas, Adriano Lafetá, 57 anos, e João Alberto, 56 anos. Ambos inseridos no mercado de trabalho, com cargos importantes dentro das redações em que trabalham, Correio Braziliense e TV Brasil Internacional, foram selecionados pela experiência profissional que tiveram ao longo de suas carreiras. As entrevistas em profundidade foram realizadas in loco na redação da TV Brasil Internacional, TV pública que pertence à rede de comunicação EBC (Empresa Brasil de Comunicação), no mês de outubro de 2013. O jornalista Adriano Lafetá tem 57 anos de idade, é formado pela Universidade de Brasília em 1980. Sua experiência profissional começou em seu primeiro estágio na assessoria de imprensa no antigo Ministério do Interior. Em 1981 entrou para o Correio Braziliense, onde está atualmente. Dentro do jornal passou pelas editorias de social, economia, tribunais superiores e congresso. Na sua longa carreira no Correio, coordenou a equipe de cobertura da constituinte, foi subeditor de economia, política e atualmente de opinião. Dentro do Correio, ocupa a função de editorialista. O segundo entrevistado da amostra piloto foi o jornalista João Alberto, que tem 56 anos de idade. Ele se formou na Universidade de Brasília em 1982, começou sua trajetória estagiando na antiga Radiobrás. Ao longo de sua experiência no jornalismo impresso, passou dois anos na editoria de cidades do Correio Braziliense, três anos no Jornal do Brasil e seis meses na Folha de S. Paulo. No jornal O Globo ficou por cinco anos, onde presenciou o processo de transição de modelo analógico para o digital. No jornal O Globo, João trabalhou nas editoras de país e como repórter especial de nacional, cobriu o caso do Césio 137 em Goiás e o assassinato de Chico Mendes. Sua carreira em impressos foi finalizada quando retornou a Brasília para assumir a editoria de cidades do Correio Braziliense, em meados dos anos 90. Atualmente o jornalista trabalha na TV Brasil Internacional. Após a aplicação da amostra piloto, foi possível perceber a dimensão das questões inquiridas aos jornalistas e como elas poderiam ser melhor estruturadas. As entrevistas da amostra piloto foram realizadas em outubro de 2013, garantindo tempo hábil para a correção de algumas questões para uma posterior aplicação em 2014. Questões que abordariam a mudança no perfil profissional do jornalista foram descartadas, por não estar de acordo com os objetivos desta pesquisa. Outras questões relacionadas a rotinas 15 produtivas, como a produção de notícia foram mantidas, por garantir o cumprimento dos objetivos propostos pela pesquisa. As questões que fizeram parte da entrevista em profundidade se encontram no Apêndice 2 deste trabalho. 1.6 Procedimentos Metodológicos Como forma de alcançar os objetivos propostos, a presente pesquisa consiste em uma análise qualitativa sobre a entrevista em profundidade realizada com um grupo constituído por nove jornalistas brasilienses, composta por um estudo exploratório e descritivo. Uwe Flick (2009) apresenta como os aspectos essenciais da pesquisa qualitativa a escolha adequada de métodos e teorias convenientes, no reconhecimento e na análise de diferentes perspectivas, e na variedade de abordagens e métodos. O método utilizado durante o processo de aplicação desta pesquisa consiste de entrevista em profundidade e da análise de conteúdo. Assim como Flick (2009), Mirian Goldenberg (2007) define os dados qualitativos como descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os indivíduos, ou seja, o pesquisador adentra o ambiente do indivíduo a ser estudado, com a intenção de entender o lugar onde o entrevistado se encontra inserido, afinal os dados coletados não podem ser padronizados como os da pesquisa quantitativa. A subjetividade do pesquisador e do objeto que está sendo estudado se torna parte do processo de pesquisa. As reflexões do pesquisador sobre suas atitudes e observações em campo podem se tornar dados relevantes, podendo fazer parte da interpretação, sendo documentadas em diários de pesquisa ou em protocolos de contexto (FLICK, 2009), ou ainda constituir um anexo da pesquisa, possibilitando um acréscimo à interpretação dos dados e compreensão do objeto analisado. Esta pesquisa também utiliza os estudos exploratórios e descritivos para melhor compreensão do material coletado. Com base nisto, se torna necessário compreender como se consolida um estudo exploratório. Para Selitz (1975), os estudos exploratórios são realizados como forma de aumentar o conhecimento do pesquisador acerca do fenômeno que deseja investigar em estudos posteriores mais estruturados, ou da situação em que pretende realizar tal estudo: “a pesquisa exploratória é necessária para a obtenção da experiência que auxilie a formulação de hipóteses significativas para a 16 pesquisa mais definitiva” (SELITZ, 1975, p. 62). No caso desta pesquisa os estudos exploratórios serviram como base para melhor compreensão dos dados coletados, nas entrevistas realizadas. Para Antônio Carlos Gil (1999) a pesquisa exploratória tem como principais objetivos desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias. Assim como Selitz (1975), ele concorda que os estudos exploratórios podem gerar novos problemas que irão integrar pesquisas posteriores, e elenca que normalmente esse estudo envolve levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso, “pesquisas exploratórias são desenvolvidas com o objetivo de proporcionar visão geral, de tipo aproximativo, acerca de determinado fato” (GIL, 1999, p.43). No caso dos descritivos, Antônio Carlos Gil (1999) atribui a esse estudo as características que podem ser coletadas de um determinado grupo, população, fenômeno ou estabelecimento de relações entre variáveis. No caso desta pesquisa servirão como forma de descrever as mudanças nas rotinas produtivas do jornalista brasileiro após o processo de digitalização no ambiente de trabalho, “as pesquisas descritivas são, juntamente com as exploratórias, as que habitualmente realizam os pesquisadores sociais preocupados com a atuação prática” (GIL, 1999, p.44). Partindo da premissa apresentada sobre a pesquisa qualitativa, a entrevista em profundidade utilizada nesse trabalho terá como objetivo a estruturação de resoluções e entendimentos sobre os fatos abordados durante as entrevistas. Jorge Duarte (2006), no livro Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação, apresenta o método qualitativo como uma forma de explorar um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências adquiridas por meio de um informante, em que o pesquisador irá analisálas e apresentá-las de forma estruturada. A escolha pela realização de entrevistas em profundidade nesta pesquisa é fruto do pensamento de Selitz (1987). O autor acredita que ela é quase sempre responsável por produzir uma melhor amostra da população em estudo. Antônio Carlos Gil (1999) no livro Métodos e Técnicas de Pesquisa Social elenca três vantagens na utilização de entrevistas como forma de obtenção dos objetivos da pesquisa: a) a entrevista possibilita a obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida social; b) a entrevista é uma técnica muito eficiente para a obtenção de dados em profundidade acerca do comportamento humano; c) os dados obtidos são suscetíveis de classificação e de qualificação (GIL, 1999, p. 118). 17 Outro critério responsável pela escolha da entrevista em profundidade foi a possibilidade que o método apresenta, de explorar determinados assuntos, aprofundar e descrever processos. Dentro da entrevista em profundidade existem alguns modelos de tipologia em entrevista. O modelo utilizado aqui será a pesquisa qualitativa, apresentada acima, com questões semiestruturadas em entrevistas semiabertas, com um modelo de roteiro disponível no apêndice B, seguindo a abordagem em profundidade. Para Selitz (1987), caso as entrevistas não sejam estruturadas, corre-se o risco de permitir o levantamento valorativo das respostas dos entrevistados e determinar o significado pessoal de suas atitudes, “ela não só permite que o entrevistado se expresse em detalhe quanto ao assunto da entrevista, mas também pode eliciar os contextos sociais e pessoais de crenças e sentimentos” (SELITZ, 1987, p. 40). Antônio Carlos Gil (1999) pondera algumas das questões importantes que devem ser levadas em consideração antes de formular as perguntas, como: a) só devem ser feitas perguntas diretamente quando o entrevistado estiver pronto para dar a informação desejada e na forma precisa; b) devem ser feitas em primeiro lugar perguntas que não conduzam à recusa em responder, ou que possam provocar algum negativismo; c) deve ser feita uma pergunta de cada vez; d) as perguntas não devem deixar implícitas as respostas; e) convém manter na mente as questões mais importantes até que se tenha a informação adequada sobre elas; assim que uma questão tenha sido respondida, deve ser abandonada em favor da seguinte. (GIL, 1999, p. 119). Jorge Duarte (2006) apresenta critérios relevantes para a construção das entrevistas semi-abertas. É o caso da estruturação das perguntas. Como se trata de uma entrevista em profundidade o pesquisador não precisa se prender a um número grande de perguntas. O autor recomenda que sejam feitas de quatro a sete questões amplas que possam originar outras no decorrer da entrevista: A lista de questões-chave pode ser adaptada e alterada no decorrer das entrevistas. Uma questão pode ser dividida em duas e outras duas podem ser reunidas em uma só, por exemplo. Por isso, é natural o pesquisador começar com um roteiro e terminar com outro, um pouco diferente (DUARTE, 2006, p.66). Alguns outros critérios também são apontados pelo autor para garantir um melhor resultado na pesquisa, como a seleção dos informantes, que deve ser feita de forma criteriosa, pois eles devem ser capazes de responder às perguntas propostas no roteiro e a utilização de técnicas que possam garantir respostas verdadeiramente confiáveis (DUARTE, 2006, p. 66). 18 Para analisar o corpus da amostra, esta pesquisa irá utilizar a análise categorial temática que, de acordo com Bardin (2009), é a mais rápida e eficaz, “na condição de se aplicar a discursos directos (significações manifestas) e simples” (BARDIN, 2009, p. 199). Tal processo de análise se dará em três partes: A primeira é a pré- análise, “tem por objectivo a organização, embora ela própria seja composta por actividades não estruturadas, ‘abertas’, por oposição à exploração sistemática dos documentos” (BARDIN, 2009, p.122). Essa fase conta com alguns requisitos para que seja elaborada com sucesso, como a leitura flutuante, onde o pesquisador estabelece contato com os documentos que serão analisados. A segunda parte é composta pela exploração do material, onde os dados brutos que foram coletados serão agregados em unidades, “as quais permitem uma descrição exata das características pertinentes ao conteúdo expresso no texto” (OLIVEIRA, 2008, p.572). Para Bardin (2009) essa etapa é longa e fastidiosa, “consiste essencialmente em operações de codificação, decomposição ou enumeração, em função de regras previamente formuladas” (BARDIN, 2009, p. 127). A terceira etapa é a de tratamento dos resultados – inferências e interpretação, consta do tratamento dos resultados obtidos e interpretação, esse momento permite “estabelecer quadros de resultados, diagramas, figuras e modelos, os quais condensam e põem em relevo as informações fornecidas pela análise” (BARDIN, 2009, p. 127). Conforme apontado por Oliveira (2008), em seu artigo Análise de conteúdo temático-categorial: uma proposta de sistematização, a análise de conteúdo temáticocategorial possui algumas etapas que facilitam a compreensão do material coletado. Como a leitura flutuante, que implica na leitura exaustiva do material coletado durante a pesquisa, no caso deste trabalho, se aplica às entrevistas em profundidade realizadas com jornalistas que atuam em Brasília, “de forma que o pesquisador se deixe impressionar pelos conteúdos presentes, como se flutuasse sobre o texto, ou seja, sem a intenção de perceber elementos específicos na leitura” (OLIVEIRA, 2008, p. 572). Durante esse período a pesquisadora orienta que sejam construídas hipóteses provisórias sobre o objeto estudado, e também sobre os conteúdos do texto analisado. Após essa etapa, Oliveira (2008) aconselha que sejam criadas unidades de registro (UR), elas são palavras ou frases que servirão para análise do material. Existem também as unidades de significação ou temas, elas são associadas às unidades de registro. Nesse caso cada tema será composto por um conjunto de unidades de registro. 19 Depois de definidas as categorias e os temas, ou seja, as unidades de registro e as unidades de significação, o material deve ser analisado, e agrupado em tabelas, conforme exposto no Apêndice C desta pesquisa. Oliveira (2008) lembra que os resultados poderão ser apresentados de diversas formas, como descrição cursiva acompanhada de exemplificação de unidades de registro significativas para cada categoria, ou ainda na forma de tabelas, gráficos ou quadros, seguidos de descrições. Ainda sobre a análise dos resultados e o retorno ao objeto de estudo, Oliveira (2008) acredita que as categorias representam a reconstrução do discurso, a partir da lógica do pesquisador: Portanto expressam uma intencionalidade de re-apresentar o objeto de estudo, a partir de um olhar teórico específico. Essa lógica aplicada ao objeto de estudo e as construções teóricas dela emanadas precisam ser explicitadas, em termos do objeto reconstruído pela análise num trabalho posterior à aplicação da técnica (OLIVEIRA, 2008, p. 573). Para que a criação de temas e categorias possa chegar a um resultado relevante para a pesquisa, Oliveira (2008) apresenta um conjunto de características que podem ser destacadas: Como a importância de quantificar os temas em termos de total de unidades de registro no conjunto de toda a análise das entrevistas. A importância qualitativa desse método é fundamental para a compreensão do objeto de estudo. A autora elenca perguntas que podem ajudar o pesquisador na hora de elaborar os temas e categorias “o tema é fundamental para compreender o objeto de estudo? O tema revela alguma faceta do objeto de estudo que interessa ao pesquisador? O tema desvela alguma dimensão do referencial teórico adotado?” (OLIVEIRA, 2008, p. 573). 1.6.1 Etapas de realização da Pesquisa Deste modo, o trabalho seguiu três fases, com a intenção de atingir os objetivos propostos pela pesquisa: a) Primeira fase: A primeira etapa compreendeu a leitura e análise do referencial bibliográfico da pesquisa. E foi responsável pela primeira etapa do trabalho, servindo como base para a elaboração do roteiro, utilizado posteriormente na confecção da entrevista em profundidade. 20 b) Segunda fase: A segunda etapa envolveu a análise das informações coletadas na primeira fase da pesquisa. Esta análise foi utilizada como fonte para a elaboração dos questionários e posteriormente para a aplicação das entrevistas. c) Terceira fase: A terceira etapa é composta pela análise qualitativa das informações obtidas na segunda etapa, conforme o método de análise de conteúdo proposto por Bardin (2009), e apresentada neste trabalho. Esta análise é importante para verificar quais foram as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do jornalista. Segundo Bardin (2009), nesse momento, a disposição tal material analisado, possibilitará ao analista a proposição de inferências e interpretações a propósito dos objetivos previstos, ou mesmo outras descobertas inesperadas. 21 PARTE II - ROTINAS PRODUTIVAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL: CONFRONTANDO ALTERAÇÕES NO JORNALISMO IMPRESSO 22 CAPÍTULO 2 – BREVE HISTÓRICO DO JORNALISMO IMPRESSO NO BRASIL O presente trabalho tem como objetivo investigar as principais mudanças ocorridas na rotina produtiva do jornalista após a digitalização das redações. Para uma melhor compreensão sobre como ocorreu tal mudança, a primeira parte deste capítulo trata de realizar um resgaste histórico sobre os jornais impressos no Brasil, com ênfase para algumas mudanças importantes, que em cada momento trouxeram algum tipo de contribuição ao jornalismo atual. Como forma de entendimento do jornalismo na contemporaneidade, alguns dados históricos se tornam importantes, como o surgimento da prensa, catalogado pela história em meados de 1450, com o surgimento da prensa de Gutenberg. Contudo, existem relatos dessa invenção ainda no século VIII na China e no Japão (BRIGGS; BURKE, 2006). A partir do pressuposto do surgimento da impressão em maior escala durante o ano de 1450, é preciso entender em que momento se deu o surgimento dessa nova tecnologia e como ela foi inserida na sociedade. No século XV, momento em que Gutenberg cria a prensa, a Europa passava por transformações decorridas pela Idade Média, “desenvolvimento do comércio interno e aparecimento das indústrias; renascimento e expansão da vida urbana; criação das universidades e formação de uma nova elite intelectual” (MELO 2003, p. 34). Em meio a essas transformações a imprensa veio para suprir as crescentes demandas de produção de livros, atendendo assim à elite intelectual. Além de instituições, como a Igreja, que viram na imprensa uma forma de reprodução e de disseminação de suas ideias. Enquanto a Europa passava por tais transformações, no Brasil a imprensa surge tardiamente. Acredita-se que tenha ocorrido de forma escassa, durante o século XVI. De forma periódica e sistemática somente ocorreu em 1808, com a chegada da Corte portuguesa e a instalação da tipografia da Impressão Régia (MOREL, 2012). O ano de 1808 foi de grande desenvolvimento para o Brasil, e alguns avanços em termos de impressão, apesar do primeiro jornal, o Correio Braziliense não possuir tiragem em terras brasileiras. O jornal era publicado mensalmente e produzido em Londres. Sem submeter-se à censura, defendia o fim do trabalho escravo, a monarquia constitucional e a liberdade de opinião (ROMANCINI; LAGO, 2007). Porém não foi o 23 primeiro a circular no país, já que desde 1778, a Gazeta de Lisboa era trazida para o Brasil (MOREL, 2012). Existiam outros que circulavam em terras brasileiras, na sua maioria abordavam assuntos ligados à divulgação de cultura e utilidades, científicos, literários e históricos. Nesse mesmo ano, em 10 de setembro, passou a circular no país a Gazeta do Rio de Janeiro, produzido pela Impressão Régia, o primeiro serviço de impressão trazido ao Brasil pela família real (MOREL, 2012). A Gazeta do Rio de Janeiro surgiu como um jornal oficial da família real. “A Gazeta, fazendo jus ao nome, seguia o padrão das gazetas europeias de Antigo Regime, que circulavam na esfera do Estado absolutista, campo de disputas simbólicas e não de referências monolíticas” (MOREL, 2012, p. 31). Esse foi então o primeiro exemplar do jornalismo brasileiro. “Um jornalismo próximo do poder da corte e, em sentido mais pejorativo, bajulador e subserviente, 'chapa branca'” (ROMANCINI; LAGO, 2007. p. 23). Esse período em que surgiram os primeiros jornais brasileiros foi definido por Morel (2012) como a primeira geração da imprensa brasileira, o início do século XIX, onde os jornalistas eram conhecidos como redatores ou gazeteiros e os jornais conhecidos como gazetas, folha ou periódicos. No mesmo período, as notícias publicadas dividiam-se em duas dimensões, opinativas e afirmativas, havia edições em que trechos de livros eram traduzidos e publicados, com a intenção de disseminar informação à população. Na sequência dos primeiros passos da palavra impressa, o periodismo permaneceu como formato preferencial de uma imprensa significativamente voltada para causas políticas e em menor escala para manifestações literárias. Mas ampliavam-se suas funções como prestadora de serviços, num quadro econômico e social mais complexo, que permitiram a alguns de seus órgãos transformarem-se em empresas (MARTINS; DE LUCA, 2012, p. 45). Alguns jornais acabam entrando para a história como o Jornal do Commercio, criado em 1826, considerado como o mais antigo jornal em circulação na América Latina, seguindo a linha conservadora (MARTINS; DE LUCA, 2012). “A melhor representação do jornalismo oficial do Império. Sua história se confunde com a do próprio Reinado, abrigando os jornalistas mais expressivos do período, decisivo nas questões comerciais do país” (MARTINS; DE LUCA, 2012, p. 52). 24 Passando esse período de descobertas, surgimento de jornais e caracterização do profissional de jornalismo, o século XX veio marcado por máquinas modernas de composição mecânica, rotativas velozes que surgiram como modificadores, alterando os processos existentes de compor e produzir textos e imagens (MARTINS; DE LUCA, 2012). Não somente os processos jornalísticos estavam se transformando, o início do século XX proporcionou outras mudanças no Brasil. É preciso ter presente que o período em apreço foi marcado pelo final da escravidão, instauração de regime republicano e seu ideal de reformar o ensino e disseminar o letramento, prosperidade trazida pelo café, crescimento dos centros urbanos e do setor de serviços, com particular destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo, extensão da malha ferroviária, entrada de grandes levas de imigrantes e início de um primeiro surto industrial, circunstâncias que, a um só tempo, favoreciam e demandavam a circulação da informação (MARTINS; DE LUCA, 2012, p.150). Além do desenvolvimento mecânico do país, o século XX foi responsável pela multiplicação de edições sucessivas dos jornais impressos, com o propósito de manter o leitor dentro dos últimos acontecimentos. Foi durante o início desse século, que surgiram o que Tânia Regina de Luca (2012) chama de pequena imprensa, eram folhetos, revistas e jornais de bairro, período também do surgimento da imprensa operária. O início do século XX é marcado por grandes inovações, o surgimento de anúncios publicitários, mudanças na produção, organização, direção, começando a exigir diversas competências e especializações aos que estão envolvidos no processo, como redatores, repórteres, fotógrafos e demais encarregados. Fazendo surgir dentro das redações outros tipos de gêneros como notas, reportagens, entrevistas, crônicas. “Surgiram seções especializadas, dedicadas ao público feminino, esportes, lazer, vida social e cultural, crítica literária, assuntos policiais e internacionais” (MARTINS; DE LUCA, 2012, p.152). Foi também durante o século XX que o processo de digitalização chegou às redações brasileiras, isso em meados dos anos de 1980. Para Bolaño e Britto (2006), esse fenômeno se espalhou para quase todos os veículos na década de 1990, trazendo a substituição de alguns materiais como a máquina de escrever pelo computador. Segundo Nilson Lage apud Queiroga (2004) antes da entrada do computador nas redações, o grande debate profissional parecia estar na construção do texto jornalístico, na apuração 25 baseada nas fontes e entrevistas onde o debate permeava o campo da ética profissional. Com a entrada dos computadores nas redações essa situação se modificou. Segundo Lage (2004), o desenvolvimento do jornalismo começou a utilizar de maneira mais profunda a tecnologia digital na produção jornalística. 2.1 Informatização e digitalização das redações Com isso, em um primeiro momento, a entrada de computadores nas redações provocou grande impacto nas atividades envolvidas no processo de produção da notícia jornalística (NETO, 2003). Autores como Maria José Baldessar (2001) acreditam que houve diversas implicações no cotidiano do jornalista com a inserção de computadores nas redações “os jornalistas tiveram de se adaptar a uma realidade profissional que incluía a exigência de maior qualificação, a especialização crescente, as modificações nas condições de trabalho e, sobretudo, a intensificação do trabalho” (BALDESSAR, 2001, p.5). O processo de informatização das redações teve seu início em meados dos anos de 1980. A primeira redação a se tornar totalmente informatizada na América Latina, foi o Diário Catarinense, em 05 de maio de 19861, seguida por outros jornais como O Globo e a Folha de S. Paulo. No livro informatização da imprensa brasileira, Ruth Penha mostra o depoimento do engenheiro e Diretor Industrial de Informática da Folha de S. Paulo, Pedro Pinciroli, coletado em outubro de 1988: A informatização deveu-se, em primeiro lugar, a uma atitude de pioneirismo com relação à tecnologia, uma característica marcante da Folha. Sempre que uma nova tecnologia é lançada no mercado, e isso ocorre desde 1962, o jornal tenta implementá-la no país, antes que outros o façam. Em segundo lugar, porque tornava o jornal mais viável (do ponto de vista econômico), racionalizando tempo e agilizando informação (PENHA, 1992, p. 32). A redação do jornal impresso O Globo, sofreu profundas mudanças em sua estrutura durante os anos de 1985 e 19862. O jornal deu seu início à era da 1 ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS (ANJ). História do jornal no Brasil: cronologia. Disponível em: < http://www.anj.org.br/cronologia-jornais-brasil>. Acesso em: 29 mar. 2014 2 LINHA do tempo: COMPUTADOR NA REDAÇÃO. Rio de Janeiro, [2014]. Memória. Disponível em: < http://memoria.oglobo.globo.com/linha-do-tempo/computador-na-redaccedilatildeo-9173808>. Acesso em: 10 abr. 2014. 26 informatização com a saída das máquinas de escrever e a entrada de terminais de computadores. Essa mudança pode ser percebida na figura abaixo: Figura 1: Em foto de 26 de julho de 1985, uma ilha de PCs na redação: o jornal modernizava os equipamentos de produção de textos, primeiro passo para entrar na era da comunicação digital. Fonte: Agência O Globo/ Memória 3 Essas transformações trazidas pela informatização das redações trouxeram algumas mudanças, que impactaram de forma imediata o funcionamento destas. Alguns profissionais que configuravam o quadro de funcionários de uma redação acabaram por ter suas funções desvinculadas, ou mais tarde extintas das redações, como foi o caso dos montadores e revisores (BOLAÑO; BRITTO, 2006, p 26). Assim como Bolaño e Britto, Caldas (2002) partilha da mesma ideia. Para o autor, esse processo foi responsável por transformações que impactaram diretamente a estrutura das redações, causando a modificação dos processos jornalísticos, como o tempo da notícia e as formas de apuração. Para Caldas (2002) o jornalista passou a acumular funções, outras acabaram por ser extintas ou mesmo sofreram transformações consideráveis, como aponta a pesquisadora Maria José Baldessar (2001), “o diagramador, que antes não vivia sem a régua de paicas, as cartelas de letras set e a 3 LINHA do tempo: a história do jornal O Globo desde a sua fundação. O GLOBO. Rio de Janeiro, [2014]. Memória. Disponível em: <http://memoria.oglobo.globo.com/linha-do-tempo/redaccedilatildeoentra-na-era-da-informaacutetica-9221752>. Acesso em: 10 abr. 2014. 27 caneta nanquim, aderiu aos softwares de edição de texto e trabalha com precisão” (BALDESSAR, 2001, p.6). O repórter agora se desdobra em três ou quatro, escreve, titula e muitas vezes edita, acumulando funções que não eram suas[...] A notícia se fragmentou e as matérias, embora assinadas em sua grande maioria, tornaram-se mais impessoais e parecidas, com reflexo na quantidade do texto, que se afasta da tradição literária do jornalismo para se aproximar da mensagem rápida, simplificadora e objetiva (CALDAS, 2002, p. 19). Outras modificações ocorreram nos aspectos organizacionais de uma redação, o espaço físico se modificou. As redações, que representavam lugares cheios e de correria, muitas vezes obscuros por conta dos cigarros, acabaram ganhando claridade e se tornando mais vazios. As mesas ganharam divisórias, e o jornalista passou a se comunicar menos no espaço de trabalho, as relações ficaram mais frias, e o e-mail passou a se tornar a melhor forma de comunicação entre os profissionais de um mesmo ambiente (CALDAS, 2002). Figura 2: Em 1987, a redação do Jornal O GLOBO já totalmente informatizada. Fonte: Agência O Globo/ Memória 4 4 LINHA do tempo: a história do jornal O Globo desde a sua fundação. O GLOBO. Rio de Janeiro, [2014]. Memória. Disponível em: <http://memoria.oglobo.globo.com/linha-do-tempo/redaccedilatildeoentra-na-era-da-informaacutetica-9221752>. Acesso em: 10 abr. 2014. 28 Para Angèle Murad (1999), a informatização das redações implicou em modificações significativas que melhoraram o processo, armazenamento e recuperação de informações. Permitindo assim que a informação fosse processada automaticamente, com um maior grau de precisão. A autora acredita que a tecnologia digital facilitou e melhorou o sistema de busca por informação, propiciando o armazenamento de dados. Ela aponta ainda que o processo de informatização multiplicou a capacidade de transmissão de conteúdos, possibilitando sua disseminação em diversos e diferentes meios de comunicação. Apesar desses avanços na maneira de processo, armazenamento e recuperação de informações apresentado por Angèle Murad (1999), alguns outros aspectos podem ser observados no que diz respeito ao profissional de jornalismo. No livro Conceitos de jornalismo, Michael Kunczik (2001) aborda uma mensagem exibida em folhetos de um sindicato de jornalistas: A imagem profissional do jornalista será afetada negativamente se não fizermos algo a respeito. Os empresários empregam os “novos meios” principalmente para organizar a produção de forma nacional. Para nós, isso significa maior carga de trabalho, crescente isolamento e provavelmente a perda de empregos (KUNCZIK, 2001, p.211). Kunczik (2001) apresenta uma pesquisa realizada em 1979 em que foram investigadas as alterações ocorridas em uma agência de notícias alemã após a informatização da redação. Foram entrevistados 24 dos 100 profissionais que trabalhavam neste período. Entre as queixas apontadas pelos profissionais após o início do uso dos computadores na redação, estavam à tensão, o trabalho agitado, esgotamento físico e cansaço dos olhos (KUNCZIK, 2001, p. 212). Uma das respostas mais comuns que o entrevistador encontrou foi “Não há intervalos de descanso, como os que tínhamos antes, trabalhando com papel. Então podia- se levantar os olhos de vez em quando e conversar um pouco com o companheiro. Agora, com a tela, a gente está constantemente sob pressão” (KUNCZIK, 2001, p. 213). Ainda de acordo com a pesquisa analisada, os jornalistas entrevistados acreditavam que a qualidade da notícia havia tido uma queda considerável. Durante quase uma década os jornais brasileiros se adequaram às novas formas de produção, com a entrada dos computadores nas redações. Em 1995, o Jornal do Brasil 29 lançou o primeiro jornal eletrônico do país, o JB Online5. Esta data foi o marco da introdução da internet na produção e distribuição da notícia por meio de conteúdo online. A expansão do jornalismo digital se espraia em nosso país apenas como uma decorrência do êxito de versões similares dos jornais e revistas norte-americanos ou ingleses em meados de 1995. Primeiro jornal brasileiro a adentrar com uma cobertura completa no ciberespaço em 28 de maio de 1995, o Jornal do Brasil (http://www.ibase.br/~jb/), apresentava uma interface pouco interativa, sendo quase uma cópia resumida do jornal tradicional (GONÇALVES, 1996, p. 5). Para a pesquisadora da Universidade de Brasília Zélia Adghirni (2001), a internet elimina as noções de espaço e tempo, que se tinha com o jornal impresso, além de confundir as fronteiras entre os profissionais de jornalismo e os produtores de conteúdo. Isso acaba, segundo a autora, provocando uma desconfiguração do mercado, também em decorrência da utilização das novas tecnologias. Em pesquisa realizada em Brasília, Zélia Leal Adghirni observou uma dificuldade em se compreender a diferença entre informação (notícia) e a informação de serviço (sites-guias), além de notar também uma confusão entre o papel clássico do jornalista, que a autora coloca como sendo a função social, quarto poder e síndrome de Clark Kent, e o jornalista que copia e cola da Web. Para explicar essa desconfiguração, a pesquisadora elenca seis itens que trabalham a desregulamentação destes aspectos apresentados acima, sendo eles: 1- Desregulamentação temporal (introdução do conceito de Tempo Real – TR); 2- Transformação dos papeis ( jornalistas X fornecedores de conteúdo); 3- Nova configuração de fronteiras entre as funções do jornalista tradicional e o jornalista institucional (imprensa X assessoria institucional); 4- Desregulamentação das rotinas produtivas (precarização do trabalho); 5- Desregulamentação do status profissional (Sindicatos, Universidades); 6- A desregulamentação temporal das mídias (das “turbinas da informação” à Internet) (ADGHIRNI, 2001, p. 3). Com a internet, algumas questões técnicas envolvendo a notícia foram modificadas. De acordo com a jornalista Pollyana Ferrari (2012), o caminho percorrido pela notícia, que se inicia na ideia, passa pela reunião de pauta e vai à publicação na internet é muito rápida, costuma durar cerca de dez minutos, principalmente em áreas 5 ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS (ANJ). História do jornal no Brasil: cronologia. Disponível em: <http://www.anj.org.br/cronologia-jornais-brasil>. Acesso em: 10 abr. 2014. 30 em que se exige um tempo ainda menor de publicação como as últimas notícias. Isso possibilita o surgimento de um novo fazer jornalístico, no qual o fato vem ao jornalista, muitas vezes pela própria internet, “basta olharmos para o inexistente número de “carros de reportagem” nas redações digitais, o que mostra que raramente o repórter web sai para a rua em busca de um fato”, (FERRARI, 2012, p. 10). Elias Machado (2003) identifica dois tipos diferentes de sistemas de produção jornalística dentro do ambiente digital. O primeiro seria o uso das redes como ferramentas auxiliares na elaboração de conteúdos, ainda no sentido de coleta de dados, representando segundo o autor o conceito de jornalismo assistido por computador, o que permite o uso das redes sem alteração. No segundo sistema de produção jornalística, as etapas do sistema de produção estão limitadas às fronteiras do ciberespaço. Ainda na investigação sobre os impactos causados pela internet na rotina do jornalista, o pesquisador e professor da Universidade de Brasília, Fábio Pereira (2004), em uma pesquisa no jornal Correio Web, observou alguns aspectos importantes desde a mudança na rotina, até a relação com as fontes e a publicação de notícias. O trabalho desse jornalista é apontado por Fábio como solitário e independente, quase não há interferência de chefes na concepção do trabalho. “O resultado é a publicação de notícias a conta-gotas, de informações ainda sem confirmação e de notas praticamente irrelevantes do ponto de vista do internauta” (PEREIRA, 2004, p. 97). Para Ciro Marcondes Filho (2009) esse processo por que o jornalismo passa, tornou-se uma espécie de ‘máquina trituradora’, onde os textos se tornam um tipo de ‘massa pastosa’, mais ou menos igual. Maria José Baldessar (2001) compartilha do mesmo pensamento, acreditando que o texto se modifica na questão de mobilidade e rapidez, em decorrência do computador e das possibilidades de processamento. A partir deste contexto de informatização, com entrada de equipamentos como computadores, e posteriormente com a digitalização das redações com a entrada da internet, várias questões foram alteradas nas rotinas dos jornalistas. Um dos pontos modificados foi o processo de produção da notícia. 2.2 Processos de produção da notícia Para iniciar este tópico sobre rotinas produtivas, é preciso resgatar o pensamento de Mauro Wolf, a respeito da teoria do newsmaking, que se baseia na cultura 31 profissional dos jornalistas, na organização do trabalho e nos processos produtivos. Linha de pensamento que surgiu nos Estados Unidos, por volta de 1950. A intenção dos estudiosos era compreender o funcionamento da cadeia produtiva de construção da notícia (KALUME, 2014, p. 117). Dentro desse pensamento, Wolf apresenta três etapas do processo de newsmaking, que variam de acordo com cada veículo, baseada sem a plataforma on-line: i) coleta, ii) seleção e, ii) edição/apresentação (WOLF, 2008 apud KALUME, 2014, p. 106). O processo de coleta é responsável por realizar um levantamento informativo que será responsável pelo produto jornalístico, seria a forma como chamamos hoje de apuração da notícia, onde o jornalista irá fazer a seleção de fontes. A segunda etapa, a de seleção, será responsável pela organização do material, o que pode ser chamado de processo de produção. Na última etapa, de edição e apresentação, o material coletado e selecionado terá um tratamento para que posteriormente possa fornecer uma apresentação coerente e significativa da notícia. As três etapas precisam estar interligadas e ser trabalhadas em conjunto para que o produto final seja de qualidade. Isto ainda sem mencionar o tempo destinado à produção e publicação do texto, que não se limita mais ao fechamento do jornal, ocorrido ao final do dia. A ordem é publicar a notícia o mais rápido o possível, de preferência em tempo real – no mesmo momento em que ela ocorre – com o apoio das novas tecnologias – celular e internet, ferramentas imprescindíveis no processo de fechamento do material jornalístico que será publicado nas edições impressa e online dos jornais (KALUME, 2014, p. 107). A produção da notícia se modificou após o surgimento da internet dentro das redações, como apresentado na pesquisa de Fábio Pereira (2004). Outros autores, como o jornalista Álvaro Caldas (2002), acreditam que o profissional começou a passar por uma 'angustiante operação', prever um acontecimento para antecipá-lo na internet, “trata-se de uma verdadeira corrida contra o tempo para a realização de um ciclo que se repete diariamente […], a cada 24 horas entrega ao leitor o mesmo produto, com cara e conteúdos novos” (CALDAS, 2002, p. 22). Para que o jornalista possa se adequar a essas novas formas de trabalho, e produção de conteúdo em um novo ambiente, Fernando Vilela (2002) expõe algumas propostas apresentadas por Ítalo Calvino (1990), o jornalista deve se preocupar com a leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade na confecção da notícia. 32 Para Ciro Marcondes Filho (2009), com a internet, a produção de conteúdo tornou-se muito mais ampla e acessível ao público que além de leitor se tornou também produtor de conteúdo. “Toda a sociedade tornou-se alimentadora regular da internet” (FILHO, 2009. p. 35). Autores como Muniz Sodré e Raquel Paiva (2011) acreditam que os impactos com a chegada de novas mídias as redações não modificaram os conceitos antes utilizados, como o 'velho lead', mas que causaram outras transformações, como a forma de apuração da notícia. “Isto porque a apuração tem hoje duas características definitivas: sua baixa qualidade e excesso de fontes” (SODRÉ; PAIVA, 2011, p. 28). Para Antônio Queiroga (2004), o impacto do computador no saber-fazer jornalístico pode ser muito grande, sendo ele um instrumento facilitador para o processamento de informação e dados, proporcionando notícias de qualidade e, segundo ele um jornalismo mais preciso e objetivo. “Se juntarmos ao computador as imensas possibilidades de comunicação e recuperação de informação que a Internet propicia, temos um ferramental inimaginável para o jornalista” (QUEIROGA, 2004, p. 3). Porém Ciro Marcondes Filho (2009) acredita que o atual processo de trabalho jornalístico passa por um período em que o jornalista é considerado o homem-máquina, que trabalha na velocidade que o sistema exige. Para o pesquisador, o jornalista da atualidade precisa ser capaz de dar conta das exigências de tempo, produzindo textos razoáveis. “Ele deve ser uma peça que funciona bem, acoplável a qualquer segmento do sistema de produção de informações” (FILHO, 2009, p.164). O autor acredita que esse processo é responsável por um novo homem da era tecnológica, “é o homem das diversas máscaras, que se alterna de forma sequenciada, sem que haja subsistência de personalidade por trás de nenhuma delas” (FILHO, 2009, p.165). Esse homem-máquina que se configura na fala de Ciro Marcondes Filho pode ser visto na falta de compreensão das possibilidades que as novas tecnologias trazem para o ambiente de trabalho do jornalista. Antônio Queiroga (2004) acredita que a análise dessas transformações é importante para o desenvolvimento do jornalismo, em que se torna cada vez mais necessária a compreensão dessas novas tecnologias para obter uma visão mais clara de suas possibilidades e limitações. Assim será possível a realização de uma reavaliação da formação do jornalista, com a intenção de prepará-lo para o uso desses recursos. 33 Pensando no jornalista do futuro, Meyer (1996 apud Queiroga, 2004) prevê que ele necessitará de diversos conhecimentos, sejam em pesquisas quantitativas e de opinião, pesquisas de campo, ferramentas de informática, além de estatística e matemática. 2.3 As Tecnologias de Informação e Comunicação e os impactos na rotina de produção jornalística As mudanças ocorridas desde o processo de informatização e digitalização das redações modificaram de forma geral o cotidiano do jornalista, bem como a forma de construção da notícia, como apresentado por diversos autores neste trabalho, alterando também a produção industrial, principalmente do impresso (QUEIROGA, 2004). Nas últimas décadas, a tecnologia esteve presente nas rotinas dos jornalistas. Para Antônio Queiroga (2004), ela se apresenta em dois níveis: “macro” e “micro”, o autor explica que o macro, estaria relacionado aos processos industriais de produção, como impressão, diagramação e parque gráfico. No micro, são referentes à tecnologia utilizada na elaboração da informação, da notícia, a que está diretamente ligada ao trabalho do jornalista, seriam as atualmente chamadas de Tecnologias de Informação e de Comunicação, conhecidas como TICs. Elas podem ser entendidas como um conjunto de recursos tecnológicos, podendo ser integrados entre si. Como exemplo, os blogs, sites de notícias e relacionamentos, todos são interligados a uma rede, podendo também utilizar de aparatos tecnológicos, como equipamentos de informática e telefonia, para a utilização desses espaços. Essas tecnologias podem ser utilizadas para reunir, distribuir e compartilhar informações. O uso de conhecimentos científicos para especificar as vias de se fazerem as coisas de uma maneira reproduzível. Entre as tecnologias da informação, incluo, como todos, o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusões, e optoeletrônica (CASTELLS, 2011, p.67). Segundo Castells (2011), estamos vivendo o processo de revolução das Tecnologias de Informação, processamento e comunicação. No passado, o processo de utilização desses meios passava pelos estágios de aprendizagem e utilização das 34 ferramentas, o que se difere do momento atual, em que qualquer usuário pode utilizar alguma ferramenta tecnológica sem necessariamente passar por algum aprendizado. Partindo da premissa apresentada por Castells (2011) sobre as Tecnologias de Informação e de Comunicação, Rebechi (2012) realizou um estudo a respeito das reflexões das TICs nas relações de trabalho, alguns pontos realizados pela pesquisadora serão apresentados nesse trabalho para melhor compreensão das mudanças causadas pelas TICs no ambiente de trabalho do jornalista. Assim como diversos autores, Rebechi (2012) acredita que as Tecnologias de Informação e Comunicação ultrapassam a instrumentalidade, passando a ser vista como um objeto funcional. Diante disso algumas profissões que se relacionam diretamente como essas novas tecnologias acabaram por sofrer algumas modificações, como aponta Carlos Scolari (2008 apud REBECHI, 2012, p. 232). Para ele, as profissões relacionadas à comunicação além de sofrerem mutações em suas rotinas de trabalho e na realização de seus produtos, vêm transpassando alguns limites, desde o momento em que as tarefas se digitalizaram, seus perfis se sobreporiam, originando zonas de conflito, mostrando-se evidentes na relação de trabalho, “Um jornalista começa a usar o computador para editar vídeos, um desenhista gráfico se insere no mundo da edição sonora para começar a experimentar a multimídia e o fotógrafo descobre o programa de ilustração a partir do uso do software de retoque” (REBECHI, 2012, p. 233). Rebechi (2012) aponta ainda que ao jornalista é cobrado o domínio de diferentes meios e linguagens, por algumas vezes sendo exigidas funções exclusivas que antigamente cabiam a outros profissionais. Deste modo, a autora cita Scolari (2008), que identifica alguns critérios exigidos do jornalista no mercado de trabalho, como: “(1) Polivalência tecnológica (conhecimento de diversas ferramentas e instrumentos gerados pelas TICs); 2) Polivalência mediática (saber lidar com diferentes meios – jornal, revista, vídeo etc.); 3) Polivalência temática (ser capaz de tramitar bem entre variados assuntos)” (REBECHI, 2012, p. 233). A autora acredita também que as transformações impostas pelas TICs no ambiente de trabalho dos jornalistas, faz com que ele seja obrigado a se adaptar a modelos prédefinidos para a produção de suas matérias e reportagens, “continuamente surgem prescrições que exigem uma readequação constante destes profissionais frente às funções para a realização de seu trabalho” (REBECHI, 2012, p. 234). 35 Além dos aspectos citados anteriormente, de que as TICs influenciaram mudanças nas relações de trabalho e no modo como determinam diversas questões ligadas às rotinas, elas também foram responsáveis por inserir no mercado ferramentas de Tecnologias de Informação e de Comunicação, como tablets e celulares, que normalmente permitem o acesso à internet, causando assim uma obrigação aos profissionais que são exigidos a estar conectados em tempo integral ao trabalho, aumentando a quantidade de tarefas. Elas por sua vez podem ser solucionadas a qualquer momento em qualquer lugar, via e-mail, ou mensagens, o que antes só era permitido por meio de telefone ou mesmo presencialmente, o que pode ser verificado em entrevista dada pelo sociólogo brasileiro Ricardo Antunes, a Folha de S. Paulo em agosto de 2010, na qual o sociólogo atribui a intensificação do trabalho ao desenvolvimento tecnológico: “esse mundo digitalizado nos envolve durante as 24 horas [do dia] com o trabalho” (REBECHI, 2012, p. 240). Com isso, é possível perceber como as Tecnologias de Informação e Comunicação influenciam o mundo do trabalho dos jornalistas. Essas novas ferramentas que não param de surgir no mercado são responsáveis por uma atualização frenética, das notícias que são inseridas a todo momento e dos jornalistas que precisam se adequar às novas formas de produção, além de se tornar capazes de trabalhar com diversas ferramentas. Esse frenesi pelo qual o jornalismo passa é responsável por profundas mudanças, que serão abordadas no próximo tópico deste trabalho. 2.4 Mudanças estruturais: Processos de alteração no jornalismo Com tais processos de mudanças ocasionados desde o processo de informatização das redações, passando pela digitalização, mudança na produção da notícia e surgimento de tecnologias dentro do ambiente de trabalho foram mecanismos responsáveis para o surgimento de um cenário de modificações, intitulado por Charron e Bonville (2007), como mudanças estruturais no jornalismo. Para os autores, a natureza do jornalismo sofreu alterações decorrentes de variações espaço-temporais. Algumas dessas mudanças ocasionaram modificações das práticas culturais em geral e das jornalísticas em particular. Os autores canadenses acreditam que a história do jornalismo se fundamenta em períodos, pontuados por fases de estabilidade e de transformações profundas. Para analisar isso, eles definiram a 36 história do jornalismo em quatro períodos: o jornalismo de transmissão, o jornalismo de opinião, jornalismo de informação e o jornalismo de comunicação. No jornalismo de transmissão, século XVII, o impressor exerce papel de interligação entre “fontes” e os leitores. Nem o gazeteiro, nem o jornalista possuem nessa época uma verdadeira identidade discursiva. O jornalismo de opinião, século XIX, é marcado por lutas políticas. O jornal de opinião, em parte é financiado por seus leitores, e ganha pouca verba publicitária. O jornalismo de informação surge nas cidades norte-americanas entre 1880 e 1910, mas se torna dominante na década de 1920. É marcado por mudanças comerciais e pela produção em massa fundadas sobre a marca do comércio e sobre o uso da propaganda. Nesse período, os jornais ampliam sua distribuição. O jornalismo de comunicação é o mais recente. Surgiu durante as décadas de 1970 e 1980. Período marcado pela multiplicação dos suportes midiáticos e dos serviços de informação. O mercado é marcado por uma grande diversificação e por uma abundância de oferta. Segundo Charron e Bonville (2007), a imprensa escrita cotidiana e as grandes redes de televisão, que antes dominavam a mídia, veem o mercado abrindo para mídias especializadas. Esse jornalismo é marcado também pela implementação da internet rápida, na qual as técnicas e práticas usuais de produção colocam produtores e consumidores em um ambiente de plena mutação. Algumas das principais mudanças no modo de produção, depois da internet, estão relacionadas ao conceito de atualidade de um fato. Antes da digitalização das redações, atuais eram as notícias publicadas em um intervalo de 24 horas entre uma edição e outra de um jornal impresso ou eletrônico. Esse conceito foi vertiginosamente transformado pelo "tempo real" (AGUIAR, 2009 apud RODRIGUES, 2009). Deste modo, é possível perceber que após a entrada da internet nas redações e com a chegada das TICs, as mudanças na rotina do jornalista foram grandes. De certa forma as TICs facilitaram o trabalho dos jornalistas, que por meio de novas ferramentas conseguem informações de maneira mais veloz, além de conseguirem um acesso mais rápido a fontes, às vezes com a ajuda do próprio leitor (KALUME, 2014, p.118). Mas por outro lado foram responsáveis por alterar papéis e competências já estabelecidas. Sem falar, é claro, no aumento da pressão de produzir cada vez mais notícias em cada vez menos tempo. Este novo profissional que também surge em um novo contexto advindo das lógicas comerciais e da concorrência (KALUME, 2014, p.118). 37 Conforme apresentado nos objetivos, este trabalho tem como foco investigar as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do profissional de jornalismo a partir do processo de digitalização das redações ocorrido em meados dos anos 1990 nos jornais brasileiros. Portanto, este capítulo teve como intenção, realizar um levantamento teórico, para a consolidação da pesquisa. Criando mecanismos para elaboração das entrevistas em profundidade, e posteriormente para a análise do material coletado, disponíveis no próximo capítulo deste estudo. 38 CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DOS DADOS Neste capítulo, é empreendida uma apresentação dos jornalistas profissionais que constituem o corpus empírico da pesquisa. Além disso, são apresentados os dados coletados durante as entrevistas em profundidade, realizadas no mês de abril de 2014, de acordo com as categorias temáticas definidas na metodologia deste trabalho. Inicialmente, a pesquisa se centrava na realização de entrevistas com jornalistas com mais de 30 anos de carreira, inseridos no mercado de trabalho no período em que as redações de jornal impresso começaram a se digitalizar. Porém, no decorrer do trabalho, viu-se a necessidade de entrevistar profissionais que não presenciaram esse período anterior à digitalização, que pudessem contribuir de forma construtiva para a pesquisa erigindo assim um quadro comparativo das mudanças ocorridas. Com isso, a análise do material coletado é realizada em duas etapas, a primeira mostra a partir das entrevistas em profundidade realizadas com sete jornalistas que vivenciaram o período de transição e que ainda estão inseridos no mercado de trabalho. A segunda é responsável pela análise das entrevistas feitas com dois jornalistas que não presenciaram o período de digitalização das redações, mas que estão inseridos atualmente no mercado de trabalho. 3.1 Jornalistas que participaram da pesquisa Amaro Júnior - É formado em desenho industrial, pela UnB e em jornalismo pela Universidade Católica de Brasília, onde já ministrou para o curso de Comunicação Social. E mestre em história cultural, na área de história oral. Em redação já passou pelo Jornal de Brasília, e está no Correio Braziliense há 17 anos, como editor de arte. Conceição Freitas – É repórter e cronista. Começou a trabalhar aos 18 anos, tem quase quarenta de profissão, e há trinta e sete está dentro de redações. Foi repórter de cidade, cultura e de Brasil. Trabalhou como subeditora, mas preferiu ser repórter porque, segundo ela, é a sua vocação. Trabalha no Correio Braziliense há 20 anos. Odail Figueiredo - Começou a trabalhar ainda quando cursava a faculdade em 1976, em São Paulo, no Jornal Comércio e Indústria. Em 1978 foi transferido para Brasília. 39 Durante sua carreira como jornalista passou pelos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Zero Hora e Estado de São Paulo, também trabalhou na revista Veja, sempre na editoria de economia. Há pouco mais de dois anos está como subeditor de economia no Correio Braziliense. Renato Ferraz - Começou sua carreia no Diário de Pernambuco e passou pela sucursal da revista Veja em Belo Horizonte. Está no Correio Braziliense desde 1993. Atualmente é editor de suplementos do jornal Correio Braziliense. Severino Francisco - Jornalista desde 1978 na área de cultura, foi repórter, editor e colunista. Já escreveu 11 livros. Atualmente é subeditor do caderno de cultura, escreve crônicas às segundas feiras na coluna crônicas da cidade do Correio Braziliense. Sílvio Queiroz – Começou sua carreira em 1986 no jornal Estado de São Paulo, como revisor. Passou pelo Jornal da Tarde, Estado de São Paulo e pela revista Veja. Durante sua carreira passou pelas editorias de economia e cidade, mas a maior parte do tempo trabalhou com internacional. Está desde 2004 no Correio Braziliense. Valério Ayres - Trabalha com jornalismo há trinta e sete anos. Está em Brasília desde 1986 como fotógrafo. Foi editor de fotografia do Correio Braziliense e repórter fotográfico no jornal O Globo. Atualmente é subeditor de fotografia do Correio Braziliense. Ana Gabriela Guerreiro Leite – É repórter há 16 anos. Trabalhou como setorista do Palácio do Planalto pela Radiobrás, atual Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e pela CBN. Atualmente trabalha como repórter setorista do Congresso Nacional pela Folha de S. Paulo. Daniel Otero Cariello – É publicitário formado pela UnB, e mestre em jornalismo cultural pela Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle. Em Paris, foi editor-chefe da revista bilíngue Brazuca, sobre cultura brasileira. E de lá também escrevia para diversas revistas e jornais brasileiros. Atualmente escreve crônicas para a Veja Brasília. 40 3.2 Categorias para apresentação e análise dos dados: Profissionais que presenciaram a digitalização das redações Conforme apresentado, a análise foi dividida em dois momentos: o primeiro com as entrevistas de profissionais que passaram pelo período de transição e acompanharam a entrada da digitalização nas redações. No segundo momento, a análise foi feita com os jornalistas que começaram suas carreiras em redações digitalizadas. Desta forma, a pesquisa foi organizada de acordo com categorias temáticas, estabelecidas previamente, levando em consideração os objetivos deste trabalho. Com isso, existe nesta pesquisa um grande bloco de análise que foi definido com a intenção de delimitar a área de análise do material coletado. Sendo assim, o bloco se intitula de: Mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do profissional de jornalismo. Dentro deste bloco, no primeiro momento da análise foram criadas três grandes categorias, são elas: 1º Categoria: Principais impactos na rotina produtiva após a informatização das redações. 2º Categoria: Principais impactos na rotina produtiva após a digitalização das redações. 3º Categoria: Futuro do jornalismo. Dentro dessas categorias foram agrupados temas. As tabelas utilizadas na análise estão disponíveis na íntegra no Apêndice C deste trabalho. 3.2.1 Categoria: Principais impactos na rotina produtiva após a informatização das redações a) Mudanças no ambiente de trabalho com a entrada de computadores nas redações de jornal impresso: O processo de informatização das redações foi responsável por trazer novas ferramentas para o dia a dia do jornalista. Uma das principais foi a entrada de computadores na redação. Ao entrevistar os jornalistas que presenciaram esse período de entrada dos computadores na redação, algumas questões que dizem respeito a mudanças no ambiente de trabalho foram levantadas. Como o fim do barulho das máquinas de 41 escrever, “Você imagina, trabalhar em uma redação com 200 máquinas fazendo barulho, depois você não tem mais esse barulho. Então pra mim isso é um grande diferencial”; “Eu lembro que antigamente era um barulho danado dentro da redação. Imagina 100 maquinas de escrever ao mesmo tempo funcionando. Hoje só não é tão silencioso, porque o pessoal fala alto, briga”, Amaro Júnior. A entrada dos computadores na redação, em um primeiro momento causou certo afastamento daqueles que há anos conviviam com a máquina de escrever. A maioria acreditava que a utilização desta nova máquina seria responsável pela diminuição de emprego, o que acabou acontecendo “a gente passou também a incorporar outras funções porque a edição foi sendo extinta, secretaria gráfica. Então quer dizer, teve esse impacto muito grande. Algumas funções de jornal foram desaparecendo”, Sílvio Queiroz. Mesmo com a entrada de novos equipamentos, alguns resistiram e continuaram a utilizar as máquinas de escrever, “[...] imagina você trabalhar a 30, sei lá, 40 anos de um jeito e de repente vem uma coisa que muda substancialmente a sua maneira de trabalhar”, Sílvio Queiroz. Com o tempo, os jornalistas foram se adaptando ao novo e começaram a se deslumbrar com as possibilidades de alterar facilmente o texto. Ainda assim, para alguns o computador veio como um advento que melhoraria o ambiente de trabalho, outros apesar de estarem há muito tempo nas redações, mesmo depois da informatização e digitalização, encaram os computadores como uma evolução da máquina de escrever. Deste modo, por meio da fala dos jornalistas entrevistados, é possível perceber como o processo de mudança se iniciou nas redações a partir da entrada de computadores. As novas máquinas, além de provocarem mudanças no ambiente de trabalho, foram também responsáveis pelo acumulo de funções. 3.2.2 Categoria: Principais impactos na rotina produtiva após a digitalização das redações a) Aumento do fluxo de trabalho Com a entrada dos computadores, posteriormente com a internet e atualmente com o surgimento cada vez mais rápido de aparatos tecnológicos, algumas mudanças foram percebidas pelos jornalistas entrevistados nesta pesquisa, como o aumento do fluxo de trabalho. 42 O jornalista que até antes era preocupado com a apuração de sua matéria e depois com a escrita, teve que se adequar ao que o mercado começou a exigir. A agilidade passou a ser requisito fundamental dentro das redações. O profissional passou a ter que entender de tecnologia, “Eu passei a ser uma pessoa que tem que entender de tecnologia. Então só eu com uma prancheta, com meu lápis e com maqui. Eu passei a ter que entender de tecnologia, e toda aquela tecnologia que está relacionada ao meu meio de produção”, Amaro Júnior. A necessidade de notícia começou a ser imediata. O repórter precisa estar sempre conectado a todas as mídias, isso por sua vez acabou causando desgastes para o jornalista. Comprovado nas falas dos entrevistados: “É como diz um colega, você passou a ser super explorado porque você tem que trabalhar com várias mídias ao mesmo tempo, né. Você não precisa mais só ir lá apurar e escrever. Você tem que ficar conectado com o twitter, tem que ‘tá’ conectado com a redação, tem que ‘tá’ sempre ligado. Eu acho que isso demanda muito mais esforço físico”, Conceição Freitas. “Eu acho que aumentou o estresse, aumentou a cobrança, aumentou tudo, ficou mais veloz. Aumentou o desgaste físico, o desgaste emocional”, Conceição Freitas. “[...] a tecnologia acabou nos tornando mais escravos [...] De qualquer forma, se você está em um sábado à noite, você tira uma foto no instagram e passa pro site, de alguma forma você está trabalhando, isso vai lhe tomar um segundo, um minuto [...] Quando você for dormir você dá uma passada por todos os portais, isso de alguma forma é um trabalho. Acho que na questão de tempo, a jornada aumentou muito”, Renato Ferraz. “Então hoje o repórter fotográfico, ‘tá’ na rua com uma pauta, fazendo um determinado trabalho e ele naquele momento tem informação de mais cinco ou dez acontecimentos na cidade [...] É o celular dele que ‘tá’ tocando a cada um minuto, dois, dependendo dele. Três minutos ‘tá’ chegando informação, ou via twitter, ou via facebook, ou via mesmo agências, todas elas estão online. Então isso aumentou mais a carga de preocupação, porque nós temos que ter uma preocupação. A gente não pode fazer o jornalismo, a pauta, simplesmente vou ali no congresso fazer uma sessão e voltar”, Valério Ayres. 43 “[...] alguns anos atrás a nossa carga era de 5 horas, mas aí de uns 20 anos pra cá, eu acho, que começou a carga de sete, oito horas, nove horas as vezes. Mas faz parte também do mundo 24 horas ligado. Porque antigamente os hemisférios dormiam né, hoje não. Alguém dormindo, mas alguém fazendo informação. E alguém do outro lado que deveria estar dormindo, está acordado vendo”, Valério Ayres. Com tais depoimentos, é possível perceber como a digitalização das redações causou um aumento no fluxo de trabalho, além de afetar o profissional, essas mudanças afetam também o material de trabalho, ou seja, todo o processo de apuração, produção e distribuição de notícias e matérias. a) Apuração da notícia Uma das mudanças na rotina produtiva do jornalista foi a forma de apuração. A internet causou uma mudança na forma de busca e acesso às informações, uma vez que o conteúdo passou a ser acessado de uma forma mais ágil e rápida. “[...] esse dia mesmo, eu peguei uma matéria de antes da internet de um amigo que a gente estava tentando refazer a pauta, porque é uma pauta muito legal. Que é uma pauta cheia de números sobre Brasília. E ele tava dizendo: Puxa vida, eu apurei isso tudo antes da internet. Inclusive, como a gente conseguia esses números? É inacreditável do ponto de vista de hoje você imaginar escrevendo o que a gente escreve sem o google”, Conceição Freitas. Apesar das informações serem encontradas de maneira mais fácil depois que as redações incorporaram a internet, a forma de se apurar sofreu alterações. O tempo de deslocamento do repórter praticamente não existe mais, uma vez que o material pode ser enviado de um aparelho eletrônico, ou como ocorre atualmente com mais frequência, o repórter pode realizar a matéria sem mesmo se deslocar da redação. “Os repórteres é eu acho que trabalharam menos na rua, passaram a trabalhar muito com informações de internet, que podem ser interessantes também, mas assim depende de como você aborda, né. Da maneira como aconteceu, eu acho que facilitou um pouco essa história da preguiça. Facilitou, de o repórter não, não buscar informação na rua, de sair menos, de circular menos. Lugar de repórter é na rua”, Severino Francisco. 44 O meio online possibilitou que a informação esteja disponível a qualquer momento. Em termos práticos facilitou também o acesso a fontes, porém em muitos casos as tecnologias obrigam o jornalista a estar sempre conectado, seja trabalhando ou recebendo informações. “Quando tem uma notícia que estoura de repente, você está em um lugar e pode mandar isso até por celular. E isso entrar no online no jornal. Então isso tudo muda naturalmente a tua maneira de lidar com a notícia”, Sílvio Queiroz. “Me lembro de ter tido que ir para a redação de manhã cedinho. E ficado até duas da manhã, três da manhã, por conta de pegar o telefone e falar com alguém por ter a história de fuso horário. Hoje você tem a possibilidade do que. Hoje, você se comunica por e-mail ou outros ou até por outros recursos de rede”, Sílvio Queiroz. “A gente antes de dar boa noite, a gente antes de beijar os filhos olha o tablet pra ver se tem notícia. Depois que a gente lembra de dar beijinho na criança pra poder dormir. E de manhã pra saber se ‘tá’ todo mundo bem, primeiro tu liga o telefone, liga o tablete, liga a televisão. Quer dizer você fica envolvido quase que 24 horas, não as 24 na essência, mais. Deita com a notícia e acorda com ela também. Eu não vejo por exemplo quase que nenhum jornalista final de semana não ‘tá’ com o celular, vendo uma em algum canto, ele sempre ‘tá’ vendo alguma coisa. Então, se ele não ‘tá’ em uma agência, se ele não ‘tá’ em um jornal online ele tem um amigo dele que ‘tá’ mandando mensagem, olha tu viu isso, ‘tá’ acontecendo isso, ‘tá’ acontecendo aquilo”, Valério Ayres. Com isso, é possível perceber que as formas de apuração mudaram. O jornalista permanece mais tempo conectado com o mundo virtual. Sua carga horária de trabalho aumentou e se estendeu aos seus momentos fora da redação, com o acesso a redes sociais, e-mails e sites de notícia. b) Produção da Notícia As mudanças na forma de apuração impactaram diretamente a produção da notícia. Se antes o repórter tinha o dia inteiro disponível para apurar a notícia, e somente no final do dia chegava à redação com o material para discutir com o seu editor como a matéria seria fechada, hoje ele precisa estar atento a outras funções, como uma possível atualização de sua matéria que já foi inserida no site do jornal. Afinal outros serviços surgiram após a digitalização, é o caso das agências, que atualizam constantemente seus 45 sites. Os jornalistas em especial do impresso precisam se atentar para a atualidade dos fatos e a disponibilização de conteúdos em seus veículos. “Então fica uma coisa assim realmente muito dinâmica e até exige uma agilidade muito grande do jornalista. Então assim a alimentação, vamos dizer a retroalimentação do profissional é muito mais rápida e ele tem que ‘tá’ muito atento a isso. Os prazos se encurtaram muito, né”, Odail Figueiredo. c) Conteúdo da notícia Os temas anteriormente abordados nesta pesquisa mostraram modificações ocasionadas após a digitalização das redações. A apuração e produção da notícia estão diretamente ligadas ao conteúdo produzido pelos jornalistas. Com isto, esse tema tem como interesse mostrar, de acordo com a opinião dos jornalistas entrevistados, quais foram as mudanças ocorridas no conteúdo da notícia após a digitalização das redações: “[...] aquilo que é online, eu acho que é muito mal apurado e muito mal escrito. É impressionante o que a gente, o que eu observo no dia a dia de erro de informação e de, de texto mesmo. Agora melhorou pra quem tem a oportunidade de ter mais tempo né, pra apurar pra rever, pra reescrever, melhorou muito, mas eu acho que as empresas de comunicação elas não ‘tão’ dando aos seus profissionais, especialmente do online, tempo hábil pra que eles chequem informação, porque é uma corrida, uma disputa feroz, pra ver quem põe no ar primeiro, quem dá o furo. E aí essa disputa feroz acaba prejudicando a qualidade da notícia”, Conceição Freitas. “Eu acho que tem aspectos positivos e negativos. Positivo eu acho que esse imediatismo, essa rapidez. Ela é positiva no sentido de que a sociedade de maneira geral, o público está sendo informado de uma maneira bem mais, é com mais presteza né. A coisa hoje, a informação circula com uma rapidez muito alta. O ponto negativo que a gente pode ver e identificar assim, que às vezes essa rapidez ela ocorre em detrimento da qualidade. Às vezes uma, a necessidade de você chegar primeiro que o seu concorrente, ou não demorar muito para passar aquela informação, porque se não o leitor vai ver em outro site e não no seu, ou né. Isso as vezes concorre para que haja um pouco de, de perda de...Fica uma coisa mais incompleta, pouco contextualizada. Mas é inevitável, não há como fugir disso, né”, Odail Figueiredo. “Eu acho o seguinte, as máquinas não fazem nada sozinhas. O conteúdo depende da qualidade do repórter, da formação. Então eu acho que há uma formação assim 46 mediana. A formação hoje fica em uma mediania e os repórteres mais jovens eles realmente, eles dominam mais a tecnologia, as novas tecnologias. Agora, então eles chegam a uma mediania, agora eu acho que falta uma formação mais densa né, uma formação cultural melhor né, pra que a notícia reflita no conteúdo, na qualidade do conteúdo”, Severino Francisco. “[...] você tem possibilidade de ter muito mais fontes, e isso naturalmente te permite oferecer pra quem leia uma visão mais completa, mais ampla de algo que está acontecendo, quer dizer. Hoje, não existe muita desculpa pra você, se você produz um noticiário que é um pouco enviesado sobre alguma coisa. Não existe, jogam até a justificativa de que você só teve acesso a uma visão. Hoje você tem possibilidade de ter outras, de achar, de ir atrás de outras, de montar um quadro mais variável”, Sílvio Queiroz. É possível analisar que a digitalização trouxe benefícios e malefícios ao conteúdo da notícia. Por vezes o número de possibilidades de fontes para uma matéria cresceu significativamente. A facilidade em encontrar uma determinada pessoa aumentou bastante. Mas outros aspectos foram prejudicados, o meio online exige uma atualização muito mais frequente do que o impresso e isso prejudica a qualidade do conteúdo divulgado. Ao final, por vezes o jornalista não tem tempo hábil para apuração, produção e disponibilização do conteúdo. d) Distribuição da notícia A forma como a notícia passou a ser distribuída no impresso modificou, ele não é mais um veículo em que o leitor pode se surpreender com as informações nele retratadas. O papel do impresso mudou, no sentido de reportar somente os “furos” jornalísticos. “Então se você vai fazer um, uma matéria que só vai sair no dia seguinte no jornal, você não pode fazer simplesmente mais: o ministro disse tal coisa, aconteceu tal fato ponto, você tem que dar uma contextualizada maior na matéria, pra justificar você querer que o leitor no dia seguinte vá ler aquilo, porque normalmente ele já vai estar informado. O fato em si, já vai ter saído na TV à noite, vai ‘tá’ na internet à tarde, à noite, amanhã o dia todo. Então, mudou bastante nesse sentido. Então tem uma rapidez muito maior, uma repercussão imediata”, Odail Figueiredo. 47 3.2.3 Categoria: Futuro do jornalismo a) Jornal impresso Diante de tais mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do profissional de jornalismo inserido em redações de jornal impresso, um novo modelo de fazer jornal começa a surgir, ou pelo menos a se desenhar no mercado. Deste modo, a pesquisa quis saber dos jornalistas entrevistados quais serão os próximos passos do jornal impresso. Como ele precisa seguir para se manter no mercado. “[...] eu acho que como ele é feito hoje, ele não vai sobreviver. Ele precisa ser reinventado, algo como aconteceu nos anos 80 com, um grande exemplo é o USA Today, um jornal americano que se reinventou para buscar o público jovem da TV. O quê que ele fez? Ele modificou todo o conceito de fazer jornalismo, inserindo o que? Imagens, grandes imagens, infográficos, pra trazer esse público jovem, esse público visual, extremamente visual, que lá nos anos 80 já estava se formando, que é o que a gente vê hoje”, Amaro Júnior. “Então eu acho que o futuro a informação ela vai continuar, a necessidade de informação ela vai continuar sempre, agora como ela vai ser passada, aí eu não sei. O jornal impresso precisa se reinventar, né, ai eu não sei se ele vai virar só jornal de bairro. Se ele vai ser um jornal gratuito. Mas ele vai continuar existindo, eu acho”, Amaro Júnior. “Todos nós que estamos aqui nessa redação agora, a gente vive um momento muito singular, né, na história, que é, é um momento de crise existencial do jornalismo, né. A gente não sabe exatamente o que vai acontecer. O que se supõe, o que se percebe nos grandes jornais do mundo é uma tentativa de se adequar a tecnologia, de sobreviver no online e no papel, mantendo o papel como referência”, Conceição Freitas. “E o papel, na verdade é o meu sonho, acho que é o sonho de todos nós do papel, é que o papel se transforme num porto de qualidade, de crise, de análise, de texto, de pensamento. E que o online seja o rápido, o imediato, o circunstancial, mas ai é tudo impressão minha. Porque eu acho que estamos todos perdidos”, Conceição Freitas. “E o desafio do jornalismo impresso eu acho que é esse, como sobreviver nesse ambiente novo. Muita gente acha que vai desaparecer, eu tenho minhas dúvidas, por quê. Talvez desapareça nos formatos atuais. Têm que ser encontradas formas novas de que veículos impressos sobrevivam né [...] Então, eu acho que tem que haver uma 48 transformação, qual é? Eu confesso que eu não saberia dizer, que vai ter que haver vai, na medida em que as coisas vão evoluindo”, Odail Figueiredo. “[...] se a gente comparar, nunca na história houve uma onda de inovações tecnológicas tão veloz né. A mudança da máquina de escrever pro...demorou quanto tempo né, a máquina de escrever, pro computador. Agora de 6 em 6 meses, você tem novas tecnologias, né. [...] agora eu não acho que o jornalismo impresso vá acabar. Mas eu acho que vai mudar a relação, eu acho que é as novas gerações tem muitas, tem muitos...fontes de informação, né. É, mas o jornalismo impresso, eu acho que ele é importante para estar no espaço público, para a democracia. Ele tem desvantagens em relação a outros veículos, no ponto de vista da velocidade, mas ele tem vantagem no ponto de vista da fixação da memória”, Severino Francisco. “Eu acho que o futuro que não ‘tá’ muito claro e visível quanto, é que talvez essa forma mesmo do impresso no papel vem a desaparecer, que talvez adiante. Assim como se aposentaram aquelas lousas, aquelas tábuas, os papiros e tal, eu acho que em algum momento vai acabar sumindo isso. Mas tem uma coisa que não muda, quer dizer, você tem um nível imediato que é a possibilidade de colocar em tempo real as informações que aparecem, com as limitações que as informações que não foram totalmente apuradas. E você tem a possibilidade de paralelamente a essa cobertura nervosa, você produzir um material mais pensado, mais elaborado, que vai ao longo do tempo complementando e enfim as duas coisas podem caminhar lado a lado”, Sílvio Queiroz. “Você pode fazer várias, várias, como o fim do impresso. Como o impresso, reduzir o tamanho do impresso. O impresso a passar tipo revista semanal. O jornal da semana ser no online, sabe em todas as mídias que você possa. O impresso ser feito para o final de semana. Isso é projeções, eu não sei. Mas muita coisa já aconteceu, as redações diminuíram, é tão reforçando mais a parte online dos jornais, querendo dar mais conteúdo, mais informação. Tudo pode acontecer, eu não sei. A gente não imaginava isso há 20 e poucos anos atrás, a tal da internet. Hoje ninguém vive sem internet. Às vezes a gente tenta, ah esse final de semana eu não vou olhar, mas vou ver a programação do cinema. Você liga a internet, você não vai no jornal. Então assim, fim dos impressos? Não sei, fim das revistas, não. Isso daqui uns 100 anos, 200 anos”, Valério Ayres. Tendo em vista esse cenário que coloca em dúvida a permanência do jornal impresso no mercado midiático, os jornalistas entrevistados nesta pesquisa mostram, 49 por meio de seus depoimentos, que o fim do jornal impresso não está próximo. As maneiras de se produzir mudaram, mas a sua permanência deve continuar. O que o mercado precisa é se atentar às formas de produção, conteúdo e distribuição, pensando na modificação da atual plataforma. É necessário se pensar em mudanças para que o jornal impresso siga no mercado. b) Profissional Pensando na perspectiva de mudança no mercado do jornal impresso, os jornalistas entrevistados foram perguntados sobre as competências que o profissional deverá ter para se adequar ao mercado de trabalho, que sofre profundas mudanças. “Eu imagino que o jornalismo não deixará de existir porque, porque a notícia né, porque haverá que ter o profissional capaz de interpretar e de, e de transmitir a notícia rapidamente que é um oficio que exige destreza e isso você só aprende com o tempo”, Conceição Freitas. “Eu acho que durante muitos anos ainda, a melhor informação será dada por jornalistas e por empresas jornalísticas. Não consigo ainda, é tem raras exceções assim, a faculdade não ensina ninguém a escrever se você não tiver talento, mas ela ensina uma série de princípios éticos, de princípios de comportamento, de redução da autofagia, essas coisas”, Renato Ferraz. “[...] isso muda a relação com o jornalista, com a profissão e tudo, mas eu não sei. Eu acredito que é, vai continuar a figura do jornalista. Porque eu acho que tem a questão da credibilidade. A questão da representação pública, né. Então isso eu acredito que vai permanecer. Não sei ainda como, mas eu acho que muda sim. Está em crise aquele papel tradicional do jornalista, né. Era uma relação muito verticalizada, o jornalista tinha um poder muito grande, né. E hoje o jornalista diz uma coisa, você pode entrar na internet e desmentir, e contestar. Você tem, qualquer um tem essa possibilidade. Mas assim, eu acredito que é algo importante para a democracia, né. Para a representação da opinião pública, ela precisa disso, né. Ela precisa de uma informação com credibilidade, com responsabilidade, né. Isso você não vai encontrar no espaço virtual, o espaço virtual é um espaço anárquico, qualquer um lança o que quiser, né. Lança coisas boas, coisas irresponsáveis, né”, Severino Francisco. “[...] mas isso vai exigir não só do profissional no dia a dia uma adequação, uma adaptação, como também da própria é estratégia editorial mesmo de quem decide as 50 coisas, quer dizer, e ter na cabeça que não adianta você querer apostar corrida com os meios, às vezes não faz. O caso não é de você empurrar por mais uma hora o fechamento do, de uma publicação datada, porque no meio tempo ela pode se desatualizar. Você desde antes tem que pensar em que, que você pode oferecer lá adiante que não se perca, e que ao contrário motive o leitor a entrar, porque ele pode ter um acesso rápido e imediato a uma série de informações, mas você pode ter de diferente um plano de fundo mais completo que valha a compra, a assinatura, o que seja, até nesse âmbito comercial. Você vai ter que começar a lidar, quer dizer, de repente você, como você faz a equação de braço aberto pra todo mundo e o acesso restrito pelo qual você cobre e que te financia. Um material especial pra você trabalhar, enfim, que é opcional, que de repente nem todo mundo vai querer, mas que você vai ter uma parte desse público que as poucos vai descobrir a vantagem de ter tudo isso”, Sílvio Queiroz. “[...] Ele tem que saber manusear esses meios, né. Não só a internet e tal, mas a gente falou aqui. Redes sociais, outro dia eu estava vendo uma pesquisa que a maior parte das pessoas se informa de maneira assim. A primeira informação em via de redes sociais, facebook etc. Não exatamente internet, então é outra coisa também que tá começando a fazer parte do sistema de informação [...] Você tem que estar sempre atualizado e familiarizado com esses novos meios e de buscar informação. E isso aí vai fazer toda a diferença. Pra gente que é mais antigo, a gente já tá, mas pra quem tá entrando agora, tá chegando tem que realmente se familiarizar com isso, com as mudanças que vão tendo e saber utilizar esses instrumentos. Porque informação é sempre informação, isso, as questão são os meios pelas quais elas circulam. E esses meios estão se tornando mais ágeis, mais rápidos, mais disseminados. Então você tem que dominar esses meios pra, vamos dizer assim, não perder o caminho da informação”, Odail Figueiredo. O profissional inserido nessa nova fase do mercado terá que se preparar para as modificações que são exigidas, isso demanda do jornalista uma conexão maior com as novas mídias que surgem no mercado. c) Produto (notícia, informação) Deste modo, com as mudanças previstas para o jornal impresso, para o jornalista, a notícia também poderá sofrer mudanças. Como uma forma de talvez traçar os futuros 51 rumos do jornalismo, as empresas de comunicação deverão descobrir fórmulas para que a notícia seja divulgada de maneira mais atraente para o leitor. “O que talvez o meio impresso tenha que se empenhar um pouco mais é justamente na interpretação, na contextualização, na explicação. Tentar avançar a informação, saber porquê que aquilo é importante, que consequência que aquilo pode ter, enfim, trabalhar conteúdos mais elaborados um pouco, né, pra, pro público, pro leitor ter uma razão pra comprar aquele. Quer dizer ninguém compra um jornal hoje pra saber o que aconteceu exatamente. Tá, ainda muita gente compra, mas esse motivo não é mais determinante né. [...] Mas você compra por que você quer ver desdobramentos daquilo, você quer mais aprofundamento, informação, informação adicional, informação complementar. Mais assim fato em si”, Odail Figueiredo. “[...] a demanda por informação não vai diminuir, ao contrário, ela tende a aumentar mesmo. O que eu acho que a gente precisa trabalhar é o problema que vem desde muito tempo, muito antes até da máquina de escrever. No Brasil, se lê pouco, se lê pouco jornal, é um escândalo quando se compara o, a circulação dos jornais, das publicações per capita com outros países. Então, esse é o problema que a tecnologia não vai resolver, isso tem a ver com a educação, tem a ver com cultivar hábitos de leitura. É, enfim, as pessoas se apropriarem da oferta que existe de informação. Mas em geral eu vejo isso, eu acho que a gente vai continuar existindo. E não se faz nada no mundo hoje em dia sem acesso e compreensão da informação”, Sílvio Queiroz. Desta maneira é possível perceber as mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do jornalista, a partir dos próprios profissionais que atuam no mercado. As mudanças afetaram o modo de apuração, produção e distribuição da notícia. O mundo cada vez mais veloz exige do profissional mais agilidade e disponibilidade de tempo para que esteja conectado 24 horas com os acontecimentos. Isso por sua vez prejudica o conteúdo disponibilizado para o leitor. Como forma de amenizar as transformações constantes e cada vez mais rápidas, os empresários de veículos de comunicação deverão repensar o jornal impresso, desde os profissionais que trabalham nele ao conteúdo que será produzido e disponibilizado. O jornalismo pede um tempo para que suas estruturas sejam repensadas com cautela. 52 3.3 Categorias para apresentação e análise dos dados dos profissionais inseridos em redações após a digitalização Conforme especificado, a análise está dividida em dois momentos, nos quais a primeira análise foi feita com base no material coletado nas entrevistas com profissionais que passaram pelo período de transição e acompanharam a entrada da digitalização nas redações. O segundo momento de análise é feito com os jornalistas que começaram suas carreiras em redações digitalizadas. Desta maneira, esta segunda etapa leva em considerações alguns critérios metodológicos utilizados anteriormente, com a intenção de atingir os objetivos deste trabalho, levando em consideração o bloco: Mudanças ocorridas nas rotinas produtivas do profissional de jornalismo. Dentro deste bloco, agora no segundo momento da análise, foram criadas duas grandes categorias, são elas: 1º Categoria: Utilização de meios digitais na rotina produtiva. 2º Categoria: Futuro do jornalismo Dentro dessas categorias definidas, foram agrupados temas. As tabelas utilizadas na análise estão disponíveis na integra no Apêndice C deste estudo. 3.3.1 Categoria: Utilização de meios digitais na rotina produtiva a) Computadores Diferente dos jornalistas que presenciaram a digitalização das redações, os jornalistas entrevistados no segundo momento desta pesquisa foram inseridos no mercado de trabalho com as redações digitalizadas. Agregando de uma maneira mais rápida o computador e os aparatos tecnológicos nas suas rotinas de trabalho. “Na apuração, na leitura de sites de busca ou de informações. Na produção, ao redigir matérias, notas e reportagens para o site ou o jornal impresso”, Ana Gabriela Guerreiro Leite. “Estão presentes diariamente, o tempo todo. Mesmo que ainda prefira tomar notas em cadernos (sempre levo uns dois quando viajo), até para não perder o hábito da escrita manual, uso a tecnologia em todas as etapas do meu trabalho. Salvo todos meus textos na nuvem e os edito em permanência (mesmo no iPhone), até a hora de enviar”, Daniel Otero Cariello. 53 b) Produção da notícia A forma de apuração com a entrada da internet nas redações se modificou. As informações são encontradas de maneira mais fácil e rápida. Apesar disso, a internet é responsável pelo imediatismo de informações, que por vezes compromete a apuração do fato causando efeitos negativos no resultado final de uma matéria, como a falta de informações relevantes ou mesmo a disponibilização de conteúdos equivocados. “Eu só vejo benefícios. Sem o computador, a apuração seria infinitamente mais lenta e incompleta. É possível fazer buscas de dados históricos e recentes sobre o tema que está sendo produzido. Claro que, com o crescimento do jornalismo online, a cobrança por rapidez e agilidade no envio de flashes e matérias para a internet é maior, mas considero que esse caminho é necessário e irreversível”, Ana Gabriela Guerreiro Leite. “As vantagens são muitas, mas principalmente o imediatismo da notícia. Sabemos e acompanhamos em tempo real o que acontece no mundo inteiro. No entanto, esse imediatismo pode gerar notícias mal escritas e, o pior, mal apuradas. Jornalistas estão se tornando preguiçosos, acreditam no que veem nas redes sociais sem a menor apuração. Na ânsia de noticiar primeiro, acabam atropelando a verdade dos fatos (e, não raras vezes, a língua portuguesa)”, Daniel Otero Cariello. 3.3.2 Categoria: Futuro do jornalismo a) Profissional Os jornalistas dessa segunda etapa acreditam na permanência do profissional como fonte principal de distribuição de informações. Cabendo ao jornalistas ser uma espécie de editor em um ambiente dominado por distribuidores de conteúdo. “Eu espero um jornalismo cada vez mais online, com a redução gradativa dos veículos impressos. As TVs e rádios também vão seguir essa característica da transmissão 24 horas de notícias ininterruptas. Acredito que o jornalista continuará tendo a função de “filtrar” o que deve ou não ser divulgado, já que muito do que é publicado no universo online reúne informações incorretas, deturpadas ou mesmo inexistentes. O papel de apuração é inexorável do jornalista. Não é uma função que será extinta do dia para a noite. A notícia sempre vai existir, mas a notícia jornalística, essa 54 sim, tem a sua credibilidade garantida pelo filtro de bons profissionais”, Ana Gabriela Guerreiro Leite. “Não tenho a menor ideia de qual será esse futuro. Se fosse dar um chute, diria que o jornalista será mais uma espécie de editor, pois hoje qualquer pessoa munida de um smartphone pode noticiar o que acontece, e em tempo real. Caberá ao jornalista filtrar aquele mundo de informações e tentar decifrá-lo para os leitores. Vimos um pouco disso durante as manifestações do ano passado. A mídia tradicional não sabia o que fazer (até porque era um dos alvos prioritários). Quem cobriu brilhantemente os eventos foi a própria população. As manifestações surgiram de depoimentos nas redes sociais e por lá se alastraram para o país e o mundo. A notícia sempre estará lá. Uma das grandes belezas desse novo processo é que agora não é mais a versão dos grandes conglomerados de mídia que impera. Temos acesso a vários pontos de vista. Dessa maneira, podemos formar uma opinião muito mais embasada. A questão é, mais uma vez, esquecer do imediatismo da primeira fonte e procurar analisar e pensar um pouco”, Daniel Otero Cariello. Ao chegar ao final desta análise, é possível perceber a importância em ter realizado a entrevista com dois grupos diferentes de jornalistas. Os que presenciaram a digitalização das redações trazem o contexto histórico do jornalismo impresso no Brasil e como ele foi desenvolvido nos anos de 1980 e 1990, sua forma de apuração, produção e distribuição de conteúdo. Os jornalistas pertencentes ao segundo grupo trazem uma visão atual e talvez uma perspectiva mais real dos possíveis caminhos para o jornalismo. Contudo, para ambos os grupos, é possível perceber o quanto a tecnologia se faz cada vez mais presente no ambiente de trabalho e como ela influencia o modo como é planejado o futuro profissional do jornalista. 55 CONSIDERAÇÕES FINAIS Tendo em vista os caminhos percorridos por este trabalho, que em um primeiro momento tentou compreender, por meio da visão de alguns autores (ADGHIRNI, 2011, BALDESSAR, 2004, FÍGARO, 2013, PEREIRA, 2004), como as mudanças nas rotinas produtivas do jornalista ocorreram após a digitalização das redações de jornal impresso, para que posteriormente fosse realizada uma análise sobre as mudanças no jornalismo brasiliense, é possível tecer algumas considerações. Afinal, o momento em que o jornalismo se encontra, com profundas alterações na sua forma de produção, torna-se difícil chegar a uma conclusão do que realmente acontece no mundo deste profissional. Porém é possível perceber diversas mudanças que afetaram as rotinas produtivas. A forma de apuração foi alterada a partir do momento em que os jornalistas tiveram que se adequar a um ritmo muito mais rápido do que o antigo, em que as informações são disponibilizadas quase que em tempo real. Nesse sentido, este trabalho de pesquisa investigou, de acordo com a percepção dos profissionais que integraram a amostra do estudo, as mudanças ocorridas na rotina produtiva do jornalista. Os apontamentos foram diversos entre eles, as mudanças no ambiente de trabalho, aumento seu fluxo, diferenças na forma de apuração da notícia uma vez que as informações estão disponíveis de maneira diferente daquela com a qual eram acostumados nos tempos anteriores à internet. Produção da notícia que atualmente precisa ser realizada de forma mais veloz, conteúdo da notícia que por muitas vezes é considerado pelos próprios profissionais de maneira rasa e superficial e a distribuição da notícia cada vez mais veloz. Desta maneira, nas entrevistas realizadas com os jornalistas que atuam em redações impressas em Brasília, é possível perceber o quanto é difícil fazer projeções para a profissão futuramente. Esse processo, que se iniciou com a informatização das redações ainda em meados dos anos de 1980, causa instabilidade até nos profissionais que presenciaram e vivenciaram esse período. Para aqueles que não viveram esse momento, o futuro é ainda mais incerto. Concluindo, é possível considerar a importância deste trabalho, principalmente da pesquisa realizada com profissionais atuantes no mercado para descobrir e verificar as 56 reais mudanças ocorridas nas rotinas produtivas como forma de possibilitar uma maior compreensão dos profissionais que estão ingressando no mercado de trabalho. Desta forma, este trabalho poderá se desdobrar em outras pesquisas, como a inserção de dispositivos móveis no ambiente de trabalho, afinal os aparatos tecnológicos estão cada vez mais presentes e se tornam ferramentas presentes nas rotinas de trabalho dos profissionais. 57 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADGHIRNI, Zélia Leal. Informação Online: Jornalista ou produtor de contéudos? Mudanças Estruturais no jornalismo. In: XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2001, Campo Grande/MS. Intercom 2001. ADGHIRNI, Zélia Leal; JORGE, Thaís de Mendonça. Mudanças estruturais no jornalismo: convergir é preciso: Reflexões sobre as empresas, a convergência de redações e o perfil dos profissionais. I Colóquio Internacional: Mudanças Estruturais no jornalismo, 2011. ADGHIRNI, Zélia Leal; PEREIRA, Fábio Henrique. O jornalismo em tempos de mudanças estruturais. In: Porto Alegre, v.1, n. 24, jan/jun. 2011. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/intexto/article/view/19208>. Acesso em jun. 2013. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS (ANJ). História do jornal no Brasil: cronologia. Brasília, DF, 2014a. Disponível em: <http://www.anj.org.br/a-industriajornalistica/historianobrasil/arquivos-em-pdf/Cronologia.pdf>. Acesso em: 29 mar. 2014. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS (ANJ). Maiores jornais do Brasil. Brasília, DF, 2014b. Disponível em: <http://www.anj.org.br/a-industriajornalistica/jornais-no-brasil/maiores-jornais-do-brasil/>. Acesso em: 10 abril. 2014. BALDESSAR, Maria José. Apontamentos sobre o uso do computador e o cotidiano dos jornalistas. In: XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2001, Campo Grande/MS. Intercom 2001.Artigo disponível em: <http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/14657065859809641817256894462758255 8771.pdf>. Acesso em: Ago. 2013. BALDESSAR, Maria José. Jornalismo, Internet e formação profissional. XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2004. BARBOSA, Elisabete. Interactividade: A grande promessa do Jornalismo Online. Biblioteca online de ciências da comunicação, 2001. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa/ Portugal. EDIÇÕES 70, LDA, 2009. BOLAÑO, César Ricardo Siqueira; BRITTOS, Valério Cruz. Digitalização, flexibilidade e reordenação dos processos. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação jornalísticos| E- Compós, 2006. BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 2. ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. 375 p. 58 CALDAS, Álvaro. O desafio do velho jornal é preservar seus valores. In: CALDAS, Álvaro (Org.). Deu no jornal: o jornalismo impresso na era da internet. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: São Paulo: Loyola, p. 17-40, 2002. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e terra LTDA, 2011. DUARTE, Jorge. Entrevista em profundidade. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antônio (Orgs.). 2. ed. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2006, p. 62-83. FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital 4.ed. São Paulo, SP: Contexto, 2012. FÍGARO, Roseli. Comunicação e trabalho para uma reflexão crítica sobre as TICs. In: XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Caxias do Sul, RS – 2 a 6 de setembro de 2010. FÍGARO, Roseli. Perfis e discursos de jornalistas no Mundo do Trabalho. In: FÍGARO, Roseli (org.). As mudanças no mundo do trabalho do jornalista. São Paulo: Atlas, 2013, p. 7-137. FILHO, Ciro Marcondes. Ser jornalista: a língua como barbárie e a notícia como mercadoria / Ciro Marcondes Filho. - São Paulo: Paulus, 2009. - (Coleção comunicação). FILHO, Ciro Marcondes. Ser jornalista: o desafio das tecnologias e o fim das ilusões. São Paulo: Paulus, 2009. - (Coleção Comunicação). FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa: Tradução Joice Elias Costa. 3. ed. Porto Alegre: Armed, 2009. 45p. FRANCISCATO, Carlos Eduardo. As novas configurações do jornalismo no suporte on-line. Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación, Vol. VI, n. 3, Sep. – Dec. 2004. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social/ Antonio Carlos Gil. - 5. ed. - São Paulo: Atlas, 1999. GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar: Como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. 10. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007. GONÇALVES, Elias Machado. Jornalismo na Internet: o paradoxo entre o fascínio das potencialidades da tecnologia digital e o modelo da produção verticalizada da notícia. XIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação/ GT 3 - Jornalismo, 1996. Disponível em: <http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/447f9524b966a91df3171c9ce3e51284.pdf>. Acesso em: ago. 2013. KLATELL. D. 2013. Ao ataque: Para ganhar o jogo pesado da inovação, a indústria vai precisar sair da posição de defesa. Revista de jornalismo ESPM, São Paulo, Nº 7, ano 2, p. 14-16, 2013. 59 KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo: Norte e Sul: Manual de Comunicação/ Michael Kunczik: tradução Rafael Varela Jr. – 2.ed. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001. LINHA do tempo: a história do jornal O Globo desde a sua fundação. O GLOBO. Rio de Janeiro, [2014]. Memória. Disponível em: <http://memoria.oglobo.globo.com/linhado-tempo/redaccedilatildeo-entra-na-era-da-informaacutetica-9221752>. Acesso em: 10 abr. 2014. MACHADO, Elias. O ciberespaço como fonte para os jornalistas. 2003. KALUME, Ana Carolina. O jornalista brasileiro: análise das competências em um contexto de mudança no ambiente profissional provocada pela inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação. Tese. (Faculdade de Comunicação Programa de PósGraduação) – Universidade de Brasília, Brasília, 2014. MARTINS, Ana Luiza; DE LUCA, Tania Regina (Coord.). História da imprensa no Brasil. São Paulo, SP: Contexto, 2012. MELO, José Marques de. História social da impremsa: fatores socioculturais que retardaram a implantação da imprensa no brasil. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. MIELNICZUK, Luciana. Características e implicações do jornalismo na Web. In: Trabalho apresentado no II Congresso da SOPCOM. Lisboa. 2001. MIELNICZUK, Luciana. Sistematizando alguns conhecimentos sobre jornalismo na web. In: MACHADO, Elias & PALACIOS, Marcos (Orgs.), Modelos do Jornalismo Digital, Salvador: Editora Calandra, p. 37-54, 2003. MURAD, Angéle. Oportunidades e desafios para o jornalismo na Internet. Ciberlegenda, n. 02, 1999. NETO, Ernani Coelho. O contexto Empresarial do jornalismo on-line.In: MACHADO, Elias & PALACIOS, Marcos (Orgs.), Modelos do Jornalismo Digital, Salvador: Editora Calandra, p. 55-76, 2003. OLIVEIRA, Denize Cristina de. Análise de Conteúdo temático-Categorial: Uma proposta de sistematização. Atualidades, Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 out/dez; 16(4):569-76. PALACIOS, Marcos. Ruptura, Continuidade e Potencialização no Jornalismo Online: o lugar da Memória. In: MACHADO, Elias & PALACIOS, Marcos (Orgs.), Modelos do Jornalismo Digital, Salvador: Editora Calandra, p. 13-36, 2003. PEREIRA, Fábio. O 'jornalista sentado' e a produção da notícia on-line no Correio Web. Em Questão, Porto Alegre, v. 10, n. 1, p. 95-108, jan./jun. 2004. 60 RODRIGUES, Carla. (Org.). Jornalismo on-line: modos de fazer. Rio de Janeiro: Sulina/PUC-Rio, 2009. ROMANCINI, Richard; LAGO, Cláudia. História do jornalismo no Brasil. Florianópolis, SC: Insular, 2007. 276 p. QUEIROGA, Antônio. Um futuro para o jornalismo: As tecnologias da noticia. Comunicação apresentada no VII Fórum de professores de jornalismo – Florianópolis SC. 2004. REBECHI, Claudia Nociolini. Entre o virtual e o real: reflexões sobre as TICs nas relações de trabalho. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n.26, p. 223-244, jul. 2012. RUELLAN, Denis. Mudanças e continuidades estruturais no jornalismo. I Colóquio Internacional: Mudanças Estruturais no jornalismo, 2011. SELITZ at. al (Jahoda, Deutsch, Cook). Métodos de pesquisa nas relações sociais. Ed. Revista e nova tradução de Dante Moreira Leite. São Paulo, E.P.U., Ed. Da Universidade de São Paulo, 5.ª Reimpressão, 1975 p. XIX, 687. SELITZ, WRIGHTSMAN; COOK. Métodos de pesquisa nas relações sociais. Organizadora da 4.ª edição norte-americana Louise H. Kidder; (tradutores Maria Martha Hubner d'Oliveira, Miriam Marinotti del Rey); - 2.ª ed. Brasileira/ coordenadores José Roberto Malufe, Bernadete A. Gatti. - São Paulo: EPU, 1987. SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. Informação e boato na rede. In: SILVA, Gislene et al. (Org.). Jornalismo_contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. Salvador: EDUFBA; Brasília: Compós, 2011, p 21-32. SUASSUNA. L. Um futuro para o poço em que caiu o jornalismo: Para manter o papel de cão de guarda da sociedade, a imprensa precisa do financiamento por microassinaturas de quem usa a banda larga para ler notícias. Revista de jornalismo ESPM, São Paulo, Nº 7, ano 2, p. 24-29, 2013. VIANNA, Ruth Penha Alves. Informatização da Imprensa Brasileira. São Paulo: Loyola, 1992. VILELA, Fernando. O lide do próximo milênio.In: CALDAS, Álvaro (Org.). Deu no jornal: o jornalismo impresso na era da internet. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, p. 162-179, 2002. 1 APÊNDICES 2 Apêndice A – Roteiro de entrevista em profundidade A seguir encontram-se os dois roteiros de entrevista em profundidade, elaborados para a coleta de dados. O primeiro foi direcionado aos jornalistas que trabalham em redação desde antes do período de digitalização, e o segundo direcionado aos jornalistas que começaram a trabalhar em redação após o período de digitalização. Tendo em vista que de acordo com a metodologia deste trabalho algumas questões foram modificadas no decorrer de suas aplicações. ROTEIRO DE ENTREVISTAS EM PROFUNDIDADE Temas trabalhados: carreira, formação, trajetória, veículos e áreas de atuação, mudanças na profissão, competências e habilidades. 1º Parte: Processo de Informatização e Digitalização das Redações 1. Em qual redação trabalhava no final dos anos 80 início dos anos 90? Qual cargo ocupava? Qual função exercia? 1.1 Quais foram as principais mudanças ocorridas após a chegada dos computadores e após os primeiros aparelhos digitais na redação em que trabalhava? 1.2 Como se deu o processo de digitalização da redação em que se encontrava neste período? 2º Parte: Rotinas Produtivas/Produção da notícia 2. Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a digitalização das redações? 3.1 Sua carga de horário permaneceu a mesma? Houve aumento de seu fluxo de trabalho? 3. O modo de apuração da notícia se modificou após a entrada de computadores nas redações? E com o uso de celulares, e tablets. Houve alguma mudança na produção da notícia? 4. Houve mudança no resultado final da notícia veiculada no jornal impresso? 5. O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? 3 ROTEIRO DE ENTREVISTAS EM PROFUNDIDADE Temas trabalhados: rotinas produtivas, produção da notícia, carreira, formação, trajetória, veículos e áreas de atuação. Rotinas Produtivas: 3. Como a tecnologia e os computadores estão presentes na sua rotina de trabalho? 4. Como os aparatos tecnológicos auxiliam na sua rotina produtiva? 5. Em que momento da sua rotina produtiva, você utiliza meios tecnológicos? Ex: na apuração, produção ou distribuição da notícia? E de que forma os utiliza? 6. De que forma a tecnologia auxilia/atrapalha na produção da notícia? 7. Como você enxerga a relação da tecnologia com a notícia? Suas vantagens e desvantagens? 8. O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? 4 Apêndice B – Decupagem jornalistas entrevistados Seguem abaixo, as entrevistas dos nove jornalistas, decupadas na integra. Entrevista Amaro Júnior Pergunta: Como se deu o processo de digitalização no jornal de Brasília? Resposta: Como todo o processo de transformação, é um pouco traumático pra quem está trabalhando lá. As pessoas acham que não vão dá conta. Elas acham que, ou seja, há novidades que agradam a poucos e desagrada a muitos. Principalmente aquelas pessoas que são mais antigas. Então assim, essa questão da mudança, de repente você tá ali trabalhando em um ambiente, que pra mim o mais importante nisso tudo é. Você imagina, você trabalhar em uma redação com 200 máquinas fazendo barulho, depois você não tem mais esse barulho. Então pra mim isso é um grande diferencial. Então assim, é um ambiente que fica mais saudável. Você não tem mais aquele tec,tec,tec,tec. Imagina você multiplicar isso por 200. Então assim isso é uma questão, é um ponto. E ai o processo, todo aquele processo manual da pessoa digita, passar para uma pessoa corrigir. Depois de todo esse processo, ou seja. Você deve ter ouvido falar com outros colegas. É, ele ficou mais ágil, que é o que você vai ouvir falar de todo o mundo. Pra mim essa questão do ambiente, melhorou muito. Então, você trabalha hoje mais silenciosamente. Pergunta: Sua rotina de trabalho modificou? Resposta: Por exemplo, você tem. Eu era assim muito jovem, mas quando você muda ai você tem que mudar o equipamento. Sempre que eu trabalhava na prancheta, eu passei a trabalhar no pc. E ali você tem todo, todo um processo completamente diferente daquele outro. Antigamente só tinha a preocupação, de você ser um desenhista. Hoje em dia, a pessoa por exemplo. Ela também tem que entender de tecnologia. Ela também tem que entender. Então eu acho que a grande mudança foi essa. Eu passei a ser uma pessoa que tem que entender de tecnologia. Então só eu com uma prancheta, com meu lápis e com maqui. Eu passei a ter que entender de tecnologia, e toda aquela tecnologia que está relacionada ao meu meio de produção. Eu acho que a mudança cultural, essa questão cultural, é mais. Pergunta: Você teve alguma facilidade ou dificuldade de adaptação? Resposta: Pra mim foi fantástico né. E a diferença, a dificuldade maior é aquela coisa de, de repente não chega computador pra todo mundo de uma vez, vai adaptando aos poucos. Você tem que trabalhar. Eu tive uma dificuldade porque eu não tinha na época, como eu era o mais jovem, digamos assim. Eu fui o último a receber equipamento, entendeu. E ai só depois de receber o equipamento, que eu pude ter maior liberdade pra trabalhar. Porque antes tinha que pegar senha de colega. Então é uma adaptação mesmo, você tem que se adaptar, mais uma adaptação do que qualquer outra coisa. Pra mim foi importante. Pergunta: E quais foram os ganhos? Resposta: Além desses que eu te falei da qualidade. Você, poder trazer a qualidade. Eu acho assim que tem um certo conforto as vezes, pro seu trabalho. Agora não foi só ganho também né. Porque tem um ditado que diz, como é mesmo o ditado. O computador veio pra resolver mil problemas que você não tinha antes. Existe algumas questões ai, que essa agilidade, esse frenesi ela não é saudável. Pra saúde da pessoa né. Então eu acho que ele trouxe um pouco mais de 5 frenesi. Então não é só a questão dos ganhos não. Ele trouxe mais essa questão da agilidade, essa questão da cobrança. Se por um lado você tem a qualidade, você também tem uma cobrança muito grande para que a qualidade se mantenha, com aquela agilidade, junto com junto com a agilidade. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a digitalização das redações? Resposta: Olha eu vou falar um pouco sobre arte. Sobre a produção de arte no jornal. Porque hoje em dia por exemplo, o jornais eles estão muito próximos do que diz respeito a qualidade de imagens as revistas. Uma revista que antigamente tinha, tinha um. Uma revista semanal, tinha a produção em uma semana e no caso do jornal que é diário. Você tinha uma revista muito mais bonita com ilustrações mais bonitas, tal. E hoje em dia, por exemplo, com os avanços tecnológicos já é possível você ter uma capa de jornal que se aproxima muito até as vezes até melhor do que uma capa de revista semanal, por exemplo. Isso graças a que? A um software chamado photoshop. Que é na verdade um estúdio digitalizado, ou seja, um artista, aquele cara que pinta, que ilustra. Que usa ferramentas de arte, pincéis, mata borrão, ou seja, coisas relativas ao universo do artista tá tudo hoje digitalizado. Então se antigamente o cara que fazia uma ilustração à mão, ai depois ele ia corrigir com a tinta guache branca onde ele errou, ou passar uma borracha, ele não tem mais essa preocupação. Ele digitaliza o desenho, ou seja, ele escaneia o desenho e depois disso ele vai e corrigi no computador. Ele muda as cores no computador, ele satura as cores, ou seja, deixa as cores mais forte. Então isso faz com que tenha uma certa agilidade no processo. Agora deixar claro que o photoshop é um estúdio digitalizado. Se você não é artista, se você não sabe lidar com ferramentas de arte. Ele não vai te ajudar em nada, vai acontecer o que a gente vê muito hoje e ai eu acho que é um grande problema da digitalização, coisas muito feias, muito. Feias no sentido assim, sem um critério, sem um critério estético apurado. Ou um critério estético pra aquele proposito. Porque cada um tem a sua estética. Então, isso ai não é nem questão estética. Mas eu digo assim coisas, coisas. No caso do jornalismo, a imagem ele informa também. Então, você tem que ter aquela informação. Você informa na cor. Você informa com o formato, a junção de imagem com o texto. Então tudo isso hoje é junto, e é feito por um profissional da área. Então se você pegar uma pessoa que não. Que sabe mexer no photoshop, mas que não tem qualificação na área, ele vai fazer uma coisa que provavelmente não vai atingir o propósito, que é informar adequadamente. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: Pro jornal impresso que você fala? Ah sim, com certeza. Não como ele é feito hoje, não como ele é feito hoje. Os profissionais da área de imagem, não é porque é da minha área não. Se eu for abranger essa pesquisa, você vai ver google. É grandes empresas eles trabalham com profissionais da área de imagem, eles investem muito em design. Tem uma frase aqui, que eu não vou lembrar o autor, mas ele dizia o seguinte, que antigamente as empresas elas brigavam por preço, por diferença de preço. Depois, passaram a brigar por qualidade e no futuro elas vão brigar por design. Então o design é muito importante. Um profissional que hoje se especializa na área de imagem, ele vai ser muito requisitado. Então essa tecnologia, ela favorece muito esse profissional. E então voltando a questão do jornal impresso, eu acho que como ele é feito hoje, ele não vai sobreviver. Ele precisa ser reinventado, algo como aconteceu nos anos 80 com, um grande exemplo é o USA Today, um jornal americano que se reinventou para buscar o público jovem da TV. O que, que ele fez. Ele modificou todo o conceito de fazer jornalismo, inserindo o que? Imagens, grandes imagens, infográficos, pra trazer esse público jovem, esse público visual, extremamente visual, que lá nos anos 80 já estava se formando, que é o que a gente vê hoje. Então o que o público hoje quer, quer vê. Nós somos, entre todos os nosso sentidos, o que mais capita informação em todos os sentidos é a visão. Então a tendência é a gente absorve mais, e mais ou se interessar mais e mais, por informação visual. Ai a informação 6 visual que eu digo, não é só foto, ilustração é texto também. Então aquele cara que escrevia 100cm. Ele tem que aprender que ele tem que se informar de uma maneira diferente, de uma maneira mais dinâmica né. Pode ser o mesmo 100cm, só que em forma de hipertexto como ele lê um pouquinho aqui, lê um pouquinho ali, né se o cara se interessar. Eu acho que as pessoas leem muito mais hoje, ta sempre no computador lendo. Então eu acho que o futuro a informação ela vai continuar, a necessidade de informação ela vai continuar sempre, agora como ela vai ser passada ai eu não sei. O jornal impresso precisa se reinventar né, ai eu não sei se ele vai virar só jornal de bairro. Se ele vai ser um jornal gratuito, mas ele vai continuar existindo, eu acho. [P: E os profissionais?] com certeza, eles precisam se atualizar e principalmente serem criativos. Porque só ser robozinho, só depender da tecnologia não vai dar certo. Entrevista Conceição Freitas Pergunta: Em qual redação trabalhava no final dos anos 80 início dos anos 90? Qual cargo ocupava? Quais funções exercia? Resposta: Eu já tava aqui, mas aqui demorou um pouco mais. Eu acho que demorou um pouco mais. Eu acho que aqui foi no começo dos anos 90, tem que perguntar pra quem tem uma memória melhor do que a minha pra datas, a minha é péssima. Mas foi mais ou menos começo dos anos 90. Que começou a digita..o mundo virtual chega a tecnologia da informática chegar a redação. Eu sou uma, talvez seja atípica, uma jornalista atípica embora seja da geração dessa geração que você está falando. Porque eu demorei muito pra me aproximar, embora assim que chegou o computador eu tenha, eu tive que obedecer as regras do jogo, e tive que me adaptar. Mas eu, vou, tenho muito pouco contato com a rede sociais, com o twitter, com o facebook, com..Eu, eu, o meu contato com o mundo virtual é na verdade como se fosse com a máquina de escrever. É o teclado, é o word, que eu uso né. E eu entro no facebook uma vez por dia, só pra dizer que eu sou moderna, mas eu acho aquilo ali um horror. O twitter eu não acompanho porque na verdade, notícia do dia a dia, não é o meu material de trabalho, né. O é reportagem, ou é personagens, ou é crônicas e ai eu não preciso de ter ou de tá tão conectada a notícia do dia a dia, e as outras coisas do twitter não me interessam, não me dizem respeito. Então assim, o meu vínculo com a tecnologia é o mínimo possível, é o elementar, mas embora eu saiba que isso é um privilégio que o Correio me dá. Quando eu sair daqui eu vou ter que possivelmente ficar mais conectada com esse mundo, é isso. Pergunta: Como se deu o processo de digitalização da redação em que se encontrava neste período? Resposta: Isso pra mim não foi um evento, não foi um acontecimento. Não, não. Eu nunca fui deslumbrada, e nem encantada, para ser menos pejorativa, pela, pelo mundo digital, pelo mundo virtual. Então assim, eu não me lembro como foi na redação. Eu juro que não me lembro e, e pra mim foi assim natural. O computador já tava muito perto, o Correio demorou pra adotar, mas antes dele adotar pra todo mundo. Tinha um terminal de internet, onde a gente podia usar, foi uma coisa salvo engano desse modo. Então, é não chegou a ser uma surpresa, e como pra mim, era mais uma máquina de escrever em um teclado diferente, não me causou nenhum efeito, não marcou a minha vida. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a entrada do computador nas redações? Resposta: Eu acho que mudou pra caramba e isso sim assim, até o repórter novo, e mesmo o 7 repórter de política, repórter de economia, o repórter que trabalha com hard news, mudou pra caramba, porque você tem que tá ao mesmo tempo conectado com, o tempo inteiro você tem que tá conectado com o Correio Web, com o Correio.com. Então tem que tá passando notícia o tempo inteiro. É como diz um colega, você passou a ser super explorado porque você tem que trabalhar com várias mídias ao mesmo tempo, né. Você não precisa mais, só ir lá apurar e escrever. Você tem que ficar conectado com o twitter, tem que tá conectado com a redação, tem que tá sempre ligado, e eu acho que isso demanda muito mais esforço físico, mas não é o meu caso sabe. Pelo o que eu já te disse. Pergunta: Então vamos falar de uma forma generalizada. Aumentou a carga horária de trabalho? Houve aumento no fluxo de trabalho? Resposta: Sim, sim com certeza. Eu acho que aumentou o estresse, aumentou a cobrança, aumento tudo, ficou mais veloz. Aumentou o desgaste físico, o desgaste emocional. Embora eu ache que pra essa gente mais jovem, já ficou orgânico essa, esse convívio com vários tipos de plataformas vamos dizer assim né. Então, eu acho que para os mais jovens não causa tanto desgaste, porque eles são filhos dessa tecnologia. Mas pros mais velhos, eu suponho que seja mais desgastante. Pergunta: O modo de apuração da notícia se modificou após a entrada de computadores nas redações? E com o uso de celulares, e tablets. Houve alguma mudança na produção da notícia? Resposta: A sim. É, hoje, esse dia mesmo, eu peguei uma matéria de antes da internet de um amigo que a gente estava tentando refazer a pauta, porque é uma pauta muito legal. Que é uma pauta cheia de números sobre Brasília, é e ele tava dizendo: Puxa vida, eu apurei isso tudo antes da internet inclusive, como a gente conseguia esses números? É inacreditável, do ponto de vista de hoje, você imaginar a gente escrevendo o que a gente escreve sem o google. E eu mesmo que faço crônica, eu me pergunto como é que eu fazia. Não, quando eu comecei a fazer crônica todo dia, já existia internet dentro da redação, mas assim como eu era repórter sem checar a informação, sem pegar dados mais precisos né, cotejar versões, atualizar né a informação, como é que a gente conseguia fazer sem internet, mas a gente fazia. Assim como as grandes obras da literatura feitas pelos gênios antes de que existisse internet. Pergunta: Houve mudança no resultado final da notícia veiculada no jornal impresso? Resposta: Eu acho que pra pior na plataforma online, aquilo que é online, eu acho que é muito mal apurado e muito mal escrito. É impressionante o que a gente, o que eu observo no dia a dia de erro de informação e de, de texto mesmo. Agora melhorou pra quem tem a oportunidade de ter mais tempo né, pra apurar pra rever, pra reescrever, melhorou muito, mas eu acho que as empresas de comunicação elas não tão dando aos seus profissionais, especialmente do online, tempo hábil pra que eles chequem informação, porque é uma corrida, uma disputa ferroz, pra vê quem põe no ar primeiro, quem dá o furo. E ai essa disputa feroz, acaba prejudicando a qualidade da notícia. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: Eita, você sabe que a minha geração vive e todos nós, não só a minha geração. Todos nós que estamos aqui nessa redação agora, a gente vive um momento muito singular né, na história, que é, é um momento de crise existencial do jornalismo, né. A gente não sabe exatamente o que vai acontecer. O que se supõe, o que se percebe nos grandes jornais do mundo é uma tentativa de se adequar a tecnologia, de sobreviver no online e no papel, mantendo o papel como referência porque o papel, os grandes jornais tem como o seu grande valor, a credibilidade, a sua credibilidade né. E a sua credibilidade vem do papel né, onde ela foi construída ao longo dos anos, dos séculos, em jornais seculares ai, fora do Brasil, no Brasil os três, quatro grandes jornais também construíram de certa forma a sua credibilidade, a gente pode 8 contestar isso ou aquilo, mas tem a sua credibilidade. É então assim, acho que é um momento de, de...Os empresários do setor estão procurando saídas e eu não sei te dizer que saída será. Eu imagino que o jornalismo não deixará de existir porque, porque a notícia né, porque haverá que ter o profissional capaz de interpretar e de, e de transmitir a notícia rapidamente que é um oficio que exige destreza e isso você só aprende com o tempo. E o papel, na verdade é o meu sonho, acho que é o sonho de todos nós do papel, é que o papel se transforme num porto de qualidade, de crise, de análise, de texto, de pensamento. E que o online seja o rápido, o imediato, o circunstancial, mas ai é tudo impressão minha. Porque eu acho que estamos todos perdidos. Entrevista Odail Figueiredo Pergunta: Quais foram as principais mudanças ocorridas após a chegada dos computadores e após os primeiros aparelhos digitais na redação em que trabalhava? Resposta: Pra mim, a primeira experiência assim de trabalhar com computador. Foi no Jornal do Brasil, assim no começo dos anos 1990. O Jornal do Brasil por sinal só tem a edição digital. Comecinho dos anos 90, 1990. Acho que era esse ano mesmo, 1990. Era, era uma coisa nova, as redações estavam começando a se informatizar como se dizia na época né. Usar computadores e tal. E teve um período assim de adaptação, não foi tão difícil, foi porque era basicamente usar o editor de texto né, e tinha muitas vantagens em relação à máquina de escrever né. Na máquina de escrever você errava, era muito, se perdia muito tempo né, às vezes você não queria corrigir o erro. Você arrancava o papel da máquina e jogava fora, era uma coisa muito demorada. E o computador foi uma surpresa muito boa, porque a correção era imediata, porque você erra, volta, corrige, deleta, transfere pedaço de texto pro outro, de um pedaço de um texto, pra outra área do texto, enfim. Foi uma maravilha assim, foi realmente um avanço né. E assim, eu não tive dificuldade não sei se outras pessoas mais antigas na época tiveram. Mas basicamente foi essa primeira transição, só na maneira de escrever. A ferramenta utilizada para escrever, mas não foi tão complicado. Depois daí foi só uma evolução meio, quase que natural das novas. As ferramentas foram se impondo né. As maquinas de escrever desapareceram das redações. Eu lembro que antigamente era um barulho danado dentro da redação. Imagina 100 maquinas de escrever ao mesmo tempo funcionando. Hoje só não é tão silencioso, porque o pessoal fala alto, briga. E depois mais, uns anos mais a frente um pouco, com a maior disseminação da internet, ai realmente houve uma mudança até que maior, que envolveu não só a ferramenta de como escrever matérias. Eu tô falando muito assim, porque minha área sempre foi jornal impresso, nunca fiz TV e nem rádio. E com a chegada da internet não foi só uma mudança no instrumento para você produzir a matéria, mas foi também uma mudança, assim mais profunda na maneira de você acessar as informações, se informar sobre o que está acontecendo, buscar informação. Isso ai realmente mudou um pouco, mudou bastante a forma de apuração das matérias. Você passou a ser tudo mais ágil, mais rápido. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a digitalização das redações? Resposta: Mudou assim. Porque, por exemplo, aqui em Brasília eu vou dar um exemplo. Você tinha, os jornalistas ficavam nas áreas de cobertura não é. E se você cobria um ministério uma área X, o profissional ficava e o contato que ele tinha com a redação era por telefone só e passava as informações, vou ter essa e essa matéria. Vai ser assim, vai ser assado. E quando terminava, avisava a redação que ela estava terminada e geralmente passava o carro da redação recolhendo a matéria. Isso e assim, e você não tinha por exemplo, o feedback daquela matéria não era. Você só ia ter no dia seguinte, publicado no jornal, ia ter a repercussão. Hoje em dia é tudo muito imediato né. A notícia quando sai, ela imediatamente vai para a internet, então ela já está repercutindo. Então se você vai fazer um, uma matéria que só vai sair no dia seguinte no jornal, você não pode fazer simplesmente mais: O ministro disse tal coisa, aconteceu tal fato 9 ponto, você tem que dá uma contextualizada maior na matéria, pra justificar você querer que o leitor no dia seguinte vá ler aquilo, porque normalmente ele já vai estar informado. O fato em si, já vai ter saído na TV a noite, vai tá na internet a tarde, a noite, amanhã o dia todo. Então, mudou bastante nesse sentido. E também a rotina, você não tem mais essas, coisas antigas de ir buscar o material em papel e tal. A transmissão é eletrônica, então você está em um lugar, ai você imediatamente, você passa por email hoje em dia. Uma certa época os jornais tinham canais próprios, canais eletrônicos que eles mantinham, mas depois viram que isso não precisava, pela internet, pelo email você usa o gmail, qualquer outro. Você usa a própria rede e tá disponível né. Então tem uma rapidez muito maior, uma repercussão imediata. Então, acelerou muito a apuração de notícia. E pra algumas pessoas acho que foi uma certa dificuldade se adaptar a esse novo ambiente. Essa velocidade maior que passou a existir. Mas isso é irreversível, quer dizer uma coisa, a sociedade é toda mudou, hoje em dia. Não é só no jornalismo, toda a sociedade. As empresas de maneira geral, a indústria, comércio, serviço. Todo mundo, ninguém vive mais fora desse ambiente eletrônico, virtual. Então tudo mudou. Pergunta: O modo de apuração da notícia se modificou após a entrada de computadores nas redações? E com o uso de celulares, e tablets. Houve alguma mudança na produção da notícia? Resposta: Eu acho assim que a agilidade ela determinou muita coisa, por exemplo, antigamente você, o editor ou o pauteiro conversava com o repórter para uma determinada pauta. O repórter saia pra rua em busca das fontes e só no final, era muito difícil, assim geralmente. De maneira geral, só no final do dia ela trazia a notícia e ai combinava como é que ia ser feita a redação, o que que ia ser enfatizado, o que que era importante, o que não era e etc. Como é que você ia elaborar um. Hoje em dia o repórter está no meio da apuração, e ele pode ser constantemente atualizado com coisas novas que vão saindo. Por exemplo, hoje é muito, surgiram com essa digitalização, com esse meio. Surgiram os serviços em tempo real né, as notícias em tempo real, que são essas agências tipo prodcasts, o valouprol e outras ai que saem em tempo real na internet. Então, normalmente você tem por exemplo. Hoje por exemplo teve no banco central uma entrevista de manhã, que foi a divulgação dos dados sobre as contas externas do país, déficit, balança de pagamentos, entrada e saída de recursos estrangeiros e etc. As agências em tempo real vão passando isso pros sites e isso já vai gerando repercussão pro mercado, no caso o mercado financeiro que é o público digamos assim mais específico, mais diretamente interessado nisso e a medida em que os dados vão saindo. As pessoas do mercado financeiro, os técnicos, os economistas, investidores, já vão fazendo as suas reações, já vão, a coisa já vai repercutindo. Isso retroalimenta lá o jornalista que tá na entrevista, que geralmente dura uma, duas horas. Ele já pode acrescentar as perguntas que ele tá fazendo na entrevista a reação que o mercado tá tendo. Então fica uma coisa assim realmente muito dinâmica e até exige uma agilidade muito grande do jornalista. Então assim a alimentação, vamos dizer a retroalimentação do profissional é muito mais rápida e ele tem que tá muito atento a isso. Os prazos se encurtaram muito né. Pergunta: Houve mudança no resultado final da notícia veiculada no jornal impresso? Resposta: Eu acho que tem aspectos positivos e negativos. Positivo eu acho que esse imediatismo, essa rapidez. Ela é positiva no sentido de que a sociedade de maneira geral, o público está sendo informado de uma maneira bem mais, é com mais presteza né. A coisa hoje, a informação circula com uma rapidez muito alta. O ponto negativo que a gente pode vê e identificar e assim, que as vezes essa rapidez ela ocorre em detrimento da qualidade. As vezes uma, a necessidade de você chegar primeiro que o seu concorrente, ou não demorar muito para passar aquela informação, porque se não o leitor vai ver em outro site e não no seu, ou né. Isso as vezes concorre para que haja um pouco de, de perda de...Fica uma coisa mais incompleta, pouco contextualizada. Mas é inevitável, não há como fugir disso né. Agora exige em contra partida pra você, você também não pode se conformar com as falhas que por ventura vão ocorrer. Então exige do profissional uma capacidade muito grande, uma agilidade muito maior pra capitar informação, elaborar aquela informação e transmitir de uma maneira correta, com qualidade e rápido. Então o profissional ele teve, passou por uma mudança muito assim. A 10 formação profissional acho que hoje em dia assim tem que enfatizar muito isso, deixar claro pro profissional o que ele vai encontrar. Eu vejo assim, essa rapidez tem esses dois lados, o bom e o ruim. Não vou chamar de ruim, mas é uma coisa que é inevitável que aconteça. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: O jornalismo impresso, eu acho que vive um desafio né. Antigamente você falava imprensa, você tinha o jornal a revista, e rádio que era uma coisa mais especifica e TV. Mas assim, se identificava muito a palavra imprensa, até pela raiz da palavra imprensa, imprimir né, com o jornalismo impresso. Hoje em dia você teve um, uma ampliação muito grande do espaço eletrônico. E dá para se perceber que grande parte do público deixou de simplesmente comprar jornal, e os jornais enfrentam problemas de tiragem relativamente menores do passado, talvez o número absoluto tenha crescido mas relativamente ao tamanho da população de público deveria ter uma tiragem maior. E o desafio do jornalismo impresso eu acho que é esse, como sobreviver nesse ambiente novo. Muita gente acha que vai desaparecer, eu tenho minhas dúvidas, porque. Talvez desapareça nos formatos atuais. Tem que ser encontradas formas novas de que veículos impressos sobrevivam né. Você vai por exemplo em uma banca de jornal hoje, os jornais são aqueles mesmos né. O Estado, a Folha e tal, mas você tem uma variedade de publicações, revistas por exemplo, você tem muitas que não desapareceram com o desenvolvimento do meio eletrônico. Então, eu acho que tem que haver uma transformação, qual é? Eu confesso que eu não saberia dizer, que vai ter que haver vai, na medida em que as coisas vão evoluindo. No ponto de vista da informação em geral, eu acho que o meio eletrônico veio, e vai ser cada vez mais por meio eletrônico mesmo. O hardnews, as notícias, aquela notícia primaria, o que aconteceu, aquilo no eletrônico é insuperável, acredito que vai atingir o público com rapidez. O que talvez o meio impresso tenha que se empenhar um pouco mais é justamente na interpretação na contextualização, na explicação. Tentar avançar a informação, saber porque que aquilo é importante, que consequência que aquilo pode ter, enfim. Trabalhar conteúdos mais elaborados um pouco ne, pra, pro público, pro leitor ter uma razão pra comprar aquele. Quer dizer ninguém compra um jornal hoje pra saber o que aconteceu exatamente, tá ainda muita gente compra, Mas esse motivo não é mais determinante né. Comprar pra saber o que aconteceu. Caiu o avião lá na Malásia imediatamente os sites todos já deram, a televisão já deu a noite. No dia seguinte quando você vai comprar o jornal, você já sabe da notícia né. Claro que tem sempre alguém que não sabe da notícia né. Mas de maneira geral você sabe da notícia. Mas você compra por que você quer vê desdobramentos daquilo, você quer mais aprofundamento, informação, informação adicional, informação complementar. Mas assim fato em si. Muitos anos atrás a gente comprava jornal e se surpreendia, abria jornal e ficava sabendo fatos naquele momento. Hoje em dia você já sabe dos fatos, é difícil o jornal trazer uma novidade. A não ser claro, obviamente assuntos exclusivos, furos de reportagem, que ai é outro caminho também que o jornalista atual tem que criar cada vez mais, buscar informação exclusiva. Eu falei antes da contextualização, na interpretação e etc. Mas buscar informação exclusiva isso, vale para qualquer meio né. Qualquer órgão de impressa, qualquer meio jornalístico tem que procurar informações exclusivas, porque é até uma forma de se valorizar né. Então hoje em dia os jornais ainda tem esse papel também. Pergunta: E o jornalista? Resposta: Olha, primeiro eu não sei...Ele tem que saber manusear esse meios né. Não só a internet e tal, mas a gente falou aqui. Redes sociais, outro dia eu estava vendo uma pesquisa que a maior parte das pessoas se informa de maneira assim. A primeira informação em via de redes sociais, facebook etc. Não exatamente internet, então é outra coisa também que tá começando a fazer parte do sistema de informação. Eu não acho que isso seria exatamente o jornalismo, mais são canais onde as informações circulam. Então ele tem que ficar muito atento sobre a, essas novas mídias, não só mídias, a imprensa tradicional, ou dos sites tradicionais, ou dos blogs e etc, mas essa coisa mais difusa que a rede de computadores tem, que são as redes sociais. O twitter, o facebook, etc. A uma grande circulação de informações, por exemplo, uma coisa que eu notei aqui mais recentemente de uns anos pra cá. Às vezes você tem uma pauta, por exemplo, se você 11 quer determinado fato, você quer achar pessoas que tenham relação com aquela informação, personagem, notícias, por exemplo, saiu lá que os planos de saúde estão muito caros e etc, um exemplo. Ai normalmente o que a gente faz no impresso? A gente tenta trazer essa informação para a vida concreta das pessoas, por exemplo, a gente vai atrás de pessoas, um exemplo ai, que usa que tem plano de saúde, que acha que o plano de saúde tá caro, tá barato, o que acha, o que não acha, se é bom ou se não é. Pra contar da vida real, não simplesmente ficar falando que o plano subiu é caro e etc. por exemplo encontrar personagens. Antigamente, era meio um garimpo, hoje em dia você entra em uma rede social e simplesmente pergunta: Alguém ai conhece alguém que tem um plano, imediatamente aparece três ou quatro personagens, entende. Então, aquilo não é ainda a matéria, mas aquilo é um instrumento muito útil pra você chegar a informação, encontrar o personagem que você quer e construir a sua matéria. E eu tô fora da reportagem a algum tempo, mas os repórteres aprenderam a fazer isso, então você tem que, não pode se. Você tem que estar sempre atualizado e familiarizado com esses novos meios e de buscar informação. E isso ai vai fazer toda a diferença. Pra gente que é mais antigo a gente já tá, mas pra quem tá entrando agora, tá chegando tem que realmente se familiarizar com isso, com as mudanças que vão tendo e saber utilizar esses instrumentos. Porque informação é sempre informação, isso, as questão são os meios pelas quais elas circulam. E esses meios estão se tornando mais ágeis, mais rápidos, mais disseminados então você tem que dominar esses meios pra, vamos dizer assim, não perder o caminho da informação. Entrevista Renato Ferraz Pergunta: [jornalista inicia a fala, antes da pergunta] Resposta: A questão da digitalização da Profissão ela tem vantagens e desvantagens. Quando ela começou a surgir e eu fui um dos primeiros a vibrar, a adotar. Fui um dos primeiros a comprar computador, cheguei a ter um 286, que foi o primeiro computador que tinha a metade da memória de processamento do que um celular tem hoje. O HD do computador eram 5 gigas, 5 gigas hoje é uma música, uma foto. É, eu me lembro quando eu fui trabalhar na abril nós tínhamos um sistema de mensagem que...Não tinha celular e a gente tinha que, só podia abrir na sua máquina no próprio escritório, ou pra descobrir onde você estava, ligava para uma central e a central Bipava você, você tinha que andar com um Bipe no bolso. Hoje em dia você descobre onde está todo mundo de 1500 formas né. As pessoas fazem até questão de se mostrar, onde estão. Antigamente a gente se escondia, hoje a gente se mostra. Ela trouxe o nível de informação que ela tem, muito, mas muito maior do que a gente tinha, ou a dificuldade de acesso era maior. Por exemplo, quando você, quando eu ia fazer uma matéria tipo a que está sendo feita agora, nessa semana, nesse mês de março, aniversário do golpe de 64, 50 anos. A gente sumia uma semana antes e ia para as bibliotecas pesquisar. E eu sou frequentador, era frequentador assíduo da biblioteca do senado, da biblioteca da câmara, biblioteca da Enap, da própria Presidência da República, passava, pesquisava, xerocava, anotava e...depois você escrevia, no máximo você usava um corretor de texto ali e olhe lá. Nesse sentido a busca era difícil, a busca de informação. Hoje, você sabe muito bem, você basta entrar na internet,no google da vida e você tem assim milhões de páginas, milhões de páginas de informação. Pergunta: Quais foram as principais mudanças ocorridas após a chegada dos computadores e após os primeiros aparelhos digitais na redação em que trabalhava? Resposta: Trabalhava na Veja, foi em 1991, já tinha computador da Veja lá. E, mais era mais um processador de texto, um sistema de mensagem. A gente nem guardava as informações na máquina, a gente guardava em um disquete. E eu vim para o Correio e o Correio ainda não 12 tinha, que aliás demorou a entrar. Pergunta: Como foi o impacto na redação? Resposta: Houve uma reação dos mais velhos, e daquela geração ali. A geração X, como vocês chamam. E a geração X...tinha época que era anterior, que é a geração do pós guerra, mas...Essa turma que tinha 40 anos na época, que hoje tá na faixa dos 60, 65, essa reagiu com dificuldade. E, achava-se que ia ser menos emprego, que não era seguro. E ai eu me lembro que quando chegava, as próprias assessorias mandavam fax, não sei se você sabe, mas fax, aquele ali é um fax. Chegava um fax, ai mandava digita pra tá no sistema. A gente trabalhou em ambiente dols aqui no Correio até 2000 eu acho, 2002. Depois que a gente migrou para o sistema no ambiente de internet. A gente tinha, o nosso sistema era em ambiente dols. Pra quem lida com isso, sabe que isso é da água pro vinho mesmo. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a digitalização das redações? Resposta: Esse é outro problema. Ela nos tornou, a tecnologia acabou nos tornando mais escravos. Porque bons jornalistas, não adianta você estabelecer regras de horários, de. Até hoje eu lido com os meus repórteres assim. Não me importo muito a hora que você vai fazer determinadas coisas, obvio que se for um caso factual e acontecer algumas coisa agora, você vai pra lá e vai fazer etc, e até meia noite, porque o jornal tem prazo pra baixar. Mas se é uma matéria mais fria, eu não me importo de até que horas você vai fazer, nem se você vem pra cá, se você vai fazer de casa, não me importo. O que eu quero é que vocês se informem, apurem, se organizem e tragam informações boas, relevantes, bem apuradas. De qualquer forma se você está em um sábado à noite, você tira uma foto no instagram e passa pro site, de alguma forma você está trabalhando, isso vai lhe tomar um segundo dali, um minuto. Você vai informar o seu leitor e hoje em dia nem precisa ser muito jornalista para fazer isso, qualquer um pode fazer. Quando você está de manhã, você acorda de manhã pega o seu computador em casa, o seu Ipad você começa a abrir os e-mails, ali você já está trabalhando. Quando você for dormir, você dá uma passada por todos os portais, isso de alguma forma é um trabalho. Acho que na questão de tempo, a jornada aumentou muito. Mas em compensação a apuração, ai tirando todos os riscos, os problemas que a internet oferece, que os wikipédias da vida oferecem, que os googles oferecem. Informações falsas, desviadas, diluída, dirigida, com ideologias já, já decoradas. Apesar de todos esses riscos (entrevista interrompida). Com isso você acaba ganhando por um lado e perdendo por outro. Mas ai cada um, cada um consegue ir adequar isso, independente do eu estilo. Por exemplo, o jornalismo é uma profissão de gente ansiosa, ansiosa por fazer, ansiosa por dar a notícia primeiro, ansiosa. Se você consegui administrar isso, você vive bem. Pergunta: Houve mudança no resultado final da notícia veiculada no jornal impresso? Resposta: Hoje a notícia, eu. Dois tipos de informação que a gente tem, eu, é importante diferenciar. Uma é a informação de que uma coisa aconteceu, você sabe que...Se o ministro da fazenda caiu as três da tarde, todo mundo as três e cinco, vai tá anunciado, você vai ver isso em elevador, vai ver no celular, vai ver na TV, você vai ver no rádio. Você vai ver a onde você estiver, mesmo que nem queira, mas vai. A grande notícia que essa que tem que ser dada, que eu acho que o jornalismo impresso, e alguns sites mais[inaudível] Porque ele caiu? Quais são as consequências disso agora, etc, etc. Pro país, e essa é exige mais um pouquinho de tempo, mais apuração, bom senso crítico do repórter, do editor, conhecimento, nível cultural. Essa é muito, muito mais difícil. Essa, o, a notícia pura e simples, de o que aconteceu, essa qualquer um, sinceramente nem precisa ser um jornalista. Mas a outra não, a outra existe muito, exige um bom nível cultural, exige pesquisa, apuração. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Reposta: Eu acho que durante muitos anos ainda, a melhor informação será dada por jornalistas e por empresas jornalísticas. Não consigo ainda, é tem raras exceções assim, a faculdade não ensina ninguém a escrever se você não tiver talento, mas ela ensina uma série de princípios 13 éticos, de princípios de comportamento, de redução da autofagia essas coisas. Acho, acho que...a própria medicina tá sentido a, o impacto da internet, da tecnologia, porque quando a gente vai ao médico, a gente já leva uma série de informações para o próprio médico. Você pesquisa antes, chega lá e ele diz uma coisa. Não, não foi bem isso que eu vi, eu já vi isso acontecer. Entrevista Severino Francisco Pergunta: Quais foram as principais mudanças ocorridas após a chegada dos computadores e após os primeiros aparelhos digitais na redação em que trabalhava? Resposta: Eu também, eu lecionei né oito anos é no CEUB, jornalismo. Eu fui professor de história da comunicação. Então, né essas é, as inovações tecnológicas né, elas sempre tem um impacto muito grande né. Isso teve um impacto muito grande no jornalismo, muda a completamente as rotinas. A forma de revisar o texto, você escrevia. Essa passagem da máquina de escrever pro computador, muda completamente né, assim o computador te dá uma série de recursos de pra escrever mais rápido, pra mudar né, colocar. Isso ai, se você quisesse cola tinha que colar no papel, tinha que cortar, colar com cola. Então, o processo, muda completamente. E uma coisa, coisa você ter um fusquinha e você ter uma ferrari, é uma mudança enorme. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a entrada do computador nas redações? Resposta: Então olha, eu acho assim que é efetivamente trás um, trouxe mais recursos tecnológicos, mas por outro lado também, eu vejo que isso estimulou uma certa preguiça nos repórteres né. Os repórteres é eu acho que trabalharam menos na rua, passaram a trabalhar muito com informações de internet e que podem ser interessantes também, mas assim depende de como você aborda né, mas isso. Dá maneira como aconteceu, eu acho que facilitou um pouco essa história da preguiça né, faltou, de o repórter não, não buscar informação na rua, de sair menos, de circular menos, lugar de repórter é na rua. Pergunta: O modo de apuração da notícia se modificou após a entrada de computadores nas redações? E com o uso de celulares, e tablets. Houve alguma mudança na produção da notícia? Resposta: Eu acho que eles podem auxiliar, não é. É, mas assim ao mesmo tempo existe uma certa preguiça, isso facilita muito. Eu acho que se você souber usar, você...É um recurso fantástico. Aqui a gente tem um repórter Rodrigo Cravero, do internacional. Ele faz reportagens fantásticas, ele é um dos melhores repórteres da imprensa brasileira, em editoria internacional. Ele faz contato com pessoas em outros países. Quando uma guerra no Iraque, ele fez contato com grupos que iam atacar uma cidade. Então é, quer dizer. Depende né, depende do repórter. Ele é uma pessoa que utiliza muito bem esses recursos, sabe. Ele utiliza muito bem, quer dizer, ele atua quase como um correspondente de guerra estando aqui na redação. Então é uma coisa fantástica, todos nós poderíamos teoricamente fazer isso. Ele faz os outros não fazem, skype. Pergunta: Houve mudança no resultado final da notícia veiculada no jornal impresso? Reposta: Eu acho o seguinte, as máquinas não fazem nada sozinhas. O conteúdo depende da qualidade do repórter da formação. Então eu acho que, há uma formação assim mediana. A formação hoje fica em uma mediania e os repórteres mais jovens eles realmente, eles dominam mais a tecnologia, as novas tecnologias. Agora, então eles chegam a uma mediania, agora eu acho que falta uma formação mais densa né, uma formação cultural melhor né, pra que a notícia reflita no conteúdo, na qualidade do conteúdo. Mas eu acho que não é muito ruim, mas também não é muito bom, é assim mediana, acho que fica em uma mediania de uma forma geral. Eu vejo assim, traçando um panorama geral. Claro tem excelentes repórteres, bons repórteres jovens, mas assim se quiser traçar um panorama, eu vejo isso. Então, eu acho assim que os repórteres mais jovens eles são operadores de códigos, eles operam bem esses códigos. Agora 14 eu acho que falta uma formação mais apurada, formação cultural, formação educacional, de leitura mesmo. Que existia de uma forma mais intensa em outras gerações, era do livro tal. Essa história da internet pulverizou as formas de consulta a informação. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: É olha, eu acho muito difícil fazer essa previsão né. Mas assim o que, do que eu estudei, do que eu observo é que toda a chegada de uma nova tecnologia da informação. Isso exerce uma influência, um impacto enorme. E agora, muito mais né, com as tecnologias virtuais né. Que é elas, elas são máquinas de compartilhamento. Então cria uma relação horizontal, muda a relação com o jornalismo impresso, porque é as gerações mais velhas ainda tem...Eu, por exemplo, ainda sou da era de Gutemberg. Mas assim, se a gente comparar, nunca na história houve uma onda de inovações tecnológicas tão veloz né. A mudança da máquina de escrever pro...demorou quanto tempo né, a máquina de escrever, pro computador. Agora de 6 em 6 meses, você tem novas tecnologias né. Então isso, tem muitos teóricos estudando isso, e ninguém sabe né. Porque, porque essas tecnologias oferecem muitas possibilidades, né. Então vai depender de apropriações né. Então, isso é imprevisível. Quem é que previa uma como a que ocorreu, contra a copa do mundo? Ninguém previa, agora eu não acho que o jornalismo impresso vá acabar. Mas eu acho que vai mudar a relação, eu acho que é as novas gerações tem muitas, tem muitos...fontes de informação né. É, mas o jornalismo impresso, eu acho que ele é importante para estar no espaço público, para a democracia. Ele tem desvantagens em relação a outros veículos, no ponto de vista da velocidade, mas ele tem vantagem no ponto de vista da fixação da memória. Porque é uma informação que vem muito fugaz, que rola na internet. Ela se perde, ela é rápida e tal, ela se perde. É então eu acho que, o jornalismo impresso terá uma função, e vai se integrar a esse complexo todo de informações. Agora, o jornalismo de uma forma geral, aponta para muitas possibilidades que ainda não estão totalmente delineadas. Pergunta: Os produtores de conteúdo na internet de alguma forma ameaçam o futuro do jornalismo? Resposta: Não, isso muda a relação com o jornalista, com a profissão e tudo, mas eu não sei. Eu acredito que é, vai continuar a figura do jornalista. Porque eu acho que tem a questão da credibilidade. A questão da representação pública, né. Então isso eu acredito que vai permanecer. Não sei ainda como, mas eu acho que muda sim. Está em crise aquele papel tradicional do jornalista né. Era uma relação muito verticalizada, o jornalista tinha um poder muito grande né. E hoje o jornalista diz uma coisa, você pode entrar na internet e desmentir, e contestar. Você tem, qualquer um tem essa possibilidade. Mas assim, eu acredito que é algo importante para a democracia né. Para a representação da opinião pública, ela precisa disso né. Ela precisa de uma informação com credibilidade, com responsabilidade né. Isso você não vai encontrar no espaço virtual, o espaço virtual é um espaço anárquico, qualquer um lança o que quiser né. Lança coisas boas, coisas irresponsáveis né. Entrevista Sílvio Queiroz Pergunta: Quais foram as principais mudanças ocorridas após a chegada dos computadores e após os primeiros aparelhos digitais na redação em que trabalhava? Resposta: Até o período da Veja e na volta do Estadão, a gente ainda trabalhava com máquina de escrever, lauda né. Ai depois foi por essa altura que a primeira grande transição que eu lembro foi essa, pra trabalhar em computador. E a partir de um certo tempo, não vou saber 15 direito exatamente quando, a internet começou a fazer parte do dia-a-dia da gente, porque no começo de passar para o computador ainda não era. A primeira coisa, em especial pra gente da internacional, isso fez muita diferença. A gente quando entrava pro, começava a trabalhar em uma editoria de internacional recebia um kit de redator que era uma régua, uma cola print e um lápis[inaudível] que tem uma cordinha pra ir apontando assim, um lápis vermelho ou azul. Porque como a gente trabalhava. A gente trabalhava. Primeiro a gente recebia as notícias em papel, telegrama [inaudível]. Muitas vezes a gente redigia mesmo, direto na lauda as matérias, mas em alguns casos, por exemplo, matéria de correspondente a gente recebia em telex também, ai recortava aquilo, colava na lauda, pegava caneta pra marcar, elas vinham todas em maiúsculo, então você tinha que passar o traço em baixo das maiúsculas, colocar as vezes acento onde não tinha, cedilha. E por exemplo, um negócio que para a gente era muito comum. Você, muitas vezes você tava escrevendo e de repente você está acabando a matéria ou acabou e chega uma novidade ai você tem que reescrever um pedaço, você não vai fazer como você faz agora, você não vai na tela e remonta o texto. Então você tinha que ou colar por cima, ou então você tinha que cortar a lauda no meio para acrescentar um parágrafo, ai colava esse pedaço. Então quer dizer, era um trabalho físico, além de ser chato de fazer ele era demorado né. E as vezes era inviável você fazer uma atualização de matéria, porque você não tinha tempo hábil de fazer essa recomposição toda. Pergunta: Como foi a reação dos profissionais de jornalismo, com a chegada da informatização? Resposta: Eu lembro, foi, tem um monte de coisa divertida. A gente passou por curso pra aprender a usar até o primeiro, era o sistema editorial que trabalhava em doss. Então era só ali que a gente escrevia, dividia as matérias e a gente mandava pro arquivo de onde o diagramador puxava pra, pra montar na página. E, eu me lembro que quando começaram a substituição do computador e tal, de vez em quando a gente ouvia na redação alguém falando, Ah olivete, por exemplo, quando faltava luz. Faltava luz ai você via o pessoal, ah olivete, olivete! Quer dizer existia, existia alguma resistência, teve gente que continuou durante algum tempo trabalhando com máquina de escrever por desconfiança, ou por pensar que de repente aprender a usar uma coisa nova, e mais ainda quando a gente começou a usar PC [inaudível]. Então pra muita gente foi mesmo, imagina você trabalhar a 30, sei lá, 40 anos de um jeito e de repente vem uma coisa que muda substancialmente a sua maneira de trabalhar. Teve claro, teve casos que era um confronto, gente que tinha essa experiência toda que se maravilhou com essas possibilidades, alterar facilmente o texto, a contagem de linha pow era uma complicação. Você contava as linhas, mas assim, você as vezes tinha que acrescentar um negócio você riscava uma linha, escrevia uma mão por cima, riscava parte. Então essa contagem era meio aproximada. Então de repente chegava no fim do processo. O secretário gráfico, que era o cara que quando iam montar a página, percebeu que tinha uns dois dedos de matéria sobrando, e você não tava lá na redação para cortar o texto. Então o cara tinha, que ler o texto lá e achar um jeito lá de tirar no estilete a sobra, né. Então imagino que isso, a diferença que isso fez. Quando eu sai do Estadão, o sistema editorial que se usava lá.. Eu editava internacional. Eu dava um ok na página, na página já prontinha, montada na tela, e ela dali ia direto pro [inaudível] não tinha nenhum processo intermediário, quer dizer se eu não visse alguma coisa errada, um estouro de matéria, uma foto que não foi tratada, isso ia ser percebido talvez lá a diante, ia ter que se fazer outro fotolito. Então quer dizer tinha um peso maior, a gente passou também a incorporar outras funções porque, a edição foi sendo extinta, secretária gráfica. Então quer dizer teve esse impacto muito grande. Algumas funções de jornal que foram desaparecendo. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a digitalização das redações? Resposta: Ah olha, a primeira coisa que me ocorre, você imagina um repórter...Eu vou te contar uma cena. Uma vez eu, assim quando eu fechava meia noite por ai. Teve uma vez que lá pelas 11h uma coisa assim, teve um acidente de trem em São Paulo, então o pessoal da reportagem de cidades saiu um batalhão assim pra cobrir isso. Ai assim, essa hora. A hora que eu tava saindo 16 meia noite e pouco, a gente já fechava internacional, os primeiros repórteres estavam voltando da rua, pra tentar escrever matéria. Os editores estavam desenhando as páginas, vendo tamanhos. Nessa altura ainda tinha gente que tava na rua, ou no local do acidente. Vendo aonde que tavam as vítimas, as famílias e tal. Então, quer dizer..hoje em uma situação dessa o repórter não precisa. O tempo de deslocamento já não existe, você pode mandar uma matéria de lá em loco. Você a possibilidade e inclusive assim. A gente trabalhava só em função do jornal impresso, que ia ser impresso durante a noite e ia estar na mão do leitor na manhã seguinte. Hoje você so tem o recurso de que? Quando tem uma notícia que estoura de repente, você está em um lugar e pode mandar isso até por celular e isso entrar no online no jornal. Então isso tudo muda naturalmente a tua maneira de lidar com a notícia. Pergunta: O modo de apuração da notícia se modificou após a entrada de computadores nas redações? E com o uso de celulares, e tablets. Houve alguma mudança na produção da notícia? Resposta: Olha a área em que eu trabalho dá um panorama, eu acho bastante interessante, por exemplo, eu redirigi internacional. Eu cobria vários assuntos, uma publicação estrangeira, revista ou mesmo jornal, você primeiro, você faz a assinatura [inaudível]. Fora a questão do custo tinha um o problema da atualidade. Uma revista que tava, que era divulgada, publicada na Europa numa sexta-feira, você só ia conseguir ter ela, numa segunda, terça-feira da semana seguinte, entendeu. O jornal a mesma coisa, ganhava no dia anterior e tudo. Quer dizer, hoje você recebe, tem acesso a isso em tempo real, online. Então, quem trabalha na minha área por exemplo, isso vale para as outras claro. Você tem todo dia, a todo momento, uma oportunidade de tá, é informando, uma, um leque de visões muito maior do que a gente tinha. E fora os contatos que você hoje entrevista. Me lembro de ter tido que ir para a redação de manhã cedinho ou e ficado até duas da manhã, três da manhã. Por conta de pegar o telefone e falar com alguém por ter a história de fuso horário. Hoje você tem a possibilidade do que. Hoje, você se comunica por email ou outros ou até por outros recursos de rede. E as vezes você até não precisa tá fisicamente no mesmo lugar, mas você envia uma mensagem com as perguntas, a sua fonte te responde no momento em que ela tiver [inaudível] você consegue é, você não tem esse problema, esse inconveniente de horário que a gente tinha antes. Então, só por isso eu acho que já faz uma diferença imensa né. Pergunta: Houve mudança no resultado final da notícia veiculada no jornal impresso? Resposta: Em geral positivo né. Porque justamente, você tem. As vezes você não tinha o tempo hábil de ter a, o fazer o contato e ter a resposta de uma fonte para publicar a sua matéria. Hoje você já tem uma chance bem maior disso, né. E, em consequência você tem a oportunidade de construir a suas matérias com uma apuração muito mais variada, inclusive por essa questão que eu te falei, leitura. Quer dizer, hoje você pode regularmente lê, no caso da área que eu faço. Lê publicações de vários lugares. Quer dizer você precisa conhecer língua e ler eventualmente. Mas quer dizer, você tem essa possibilidade, e isso vai te dando uma, não é só no momento em que você vai fazer uma matéria não. Tem um acompanhamento do noticiário muito mais, é muito mais aberto, muito mais amplo. E então de repente cai na tua, na tua pauta de um determinado assunto e você não tem só, você não tá chegando nele agora, e você não tem só a visão de uma agência de notícias ou de um conjunto de agências. Você tem a visão de, as vezes de diferentes pensando em um acontecimento político diferente de corrente de opinião, de diferentes publicações. Você já vai acumulando, uma bagagem sobre sei lá geopolítica do pais, ou coisa assim. Então quer dizer, você é tem, você tem condição de ter um trabalho muito mais sólido e rápido. Pergunta: Mas e o conteúdo da notícia foi aprimorada? Quais foram as mudanças e diferenças perceptíveis? Resposta: É primeira coisa, é isso que eu te disse, você em possibilidade de ter muito mais fontes, e isso naturalmente te permite oferecer pra quem leia uma visão mais completa, mais ampla de algo que está acontecendo, quer dizer. Hoje, não existe muita desculpa pra você, se você produz um noticiário que é um pouco enviesado sobre alguma coisa. Não existe, jogam até a justificativa de que você só teve acesso a uma visão. Hoje você tem possibilidade de ter outras 17 de achar, de ir atrás de outras, de montar um quadro mais variável. Acho que essa é uma primeira coisa. A outra é o que, ai já até sai do, eu aqui escrevo pra impresso, mais os meios eles tem a possibilidade de, você no impresso tem limitações físicas, de espaço, uma concepção de eu as pessoas não querem ler nada muito grande. Mas você a opção de que, oferecer no online muito mais informação, do que quem eventualmente esteja disposto, com matérias mais longas, mais aprofundadas, ou com outros complementos, porque as vezes você menciona brevemente um episódio histórico, você tem que resumir em duas ou três linhas, pra contextualizar. Hoje, você tem a possibilidade de puxar o link dali para uma coisa mais, de mais conteúdo sobre isso, que vai permitir ao leitor se aprofundar o conhecimento dele. Em geral é positivo, claro que. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: Bom, como eu te disse, eu acho que essas novas tecnologias. Elas tão dando pra gente um arsenal, um instrumental muito maior, pra gente trabalhar. Então agora eu sinto que até pela novidade de isso, mistura um pouco o fascínio que tem com as possibilidades, e o apego que a gente ainda tem com a maneira de fazer jornal. 20 anos atrás, a gente tinha um fantasminha que perseguia a gente que era o jornal nacional ou o noticiário de TV, porque? Porque você estava no limite do seu fechamento, e de repente, você na última hora, você tinha uma atualização ou uma notícia que aparecia de última hora e você tinha que correr atrás disso. E, hoje é a internet, e ainda pior, hoje diariamente a gente ainda tem essa conversa. Pegar um caso que está acontecendo agora, o avião que passou ai 20 dias desaparecido, toda a noite você tinha que pensar como é que eu fecho agora uma matéria, que não fique desatualizado, ou até totalmente inútil de manhã, que é quando o meu público vai ler o jornal. Porque você tem essa defasagem, as vezes você vai dizer a última notícia que você tem a mais recente é que alguém disse que acha que viu destroços não sei a onde. Você vai fechar isso as 11h da noite, meia noite que seja. Mas um cara que vai ler jornal, ele vai ler isso quando acordar. Nessa altura do campeonato. Essa informação pode ter sido descartada. Então você tem que, mais ainda, você tá ainda mais pressionado pela ideia de que o que é que você pode oferecer ainda com essa defasagem de horário, pensando no impresso, que seja útil pra quem tá lendo, porque se não o cara vai abandonar. Então que vantagem o impresso tem em relação ao meio eletrônico? Eu acho que o futuro que não tá muito claro e visível quanto, é que talvez essa forma mesmo do impresso no papel vem a desaparecer, que talvez a diante. Assim, com se aposentaram aquelas lousas, aquelas tabuas, os papiros e tal, eu acho que em algum momento vai acabar sumindo isso. Mas tem uma coisa que não muda, quer dizer, você tem um nível imediato que é a possibilidade de colocar em tempo real as informações que aparecem, com as limitações que as informações que não foram totalmente apuradas. E você tem a possibilidade de paralelamente a essa cobertura nervosa, você produzir um material mais pensado, mais elaborado, que vai ao longo do tempo complementando e enfim as duas coisas podem caminhar lado a lado mais isso vai exigir não só do profissional no dia a dia uma adequação, uma adaptação, como também da própria é estratégia editorial mesmo de quem decide as coisas, quer dizer, e ter na cabeça que não adianta você quere apostar corrida com os meios, as vezes não faz, o caso não é de você empurrar por mais uma hora, o fechamento do, de uma publicação datada, porque no meio tempo ela pode se desatualizar, você desde antes tem que pensar em que, que você pode oferecer lá a diante eu não se perca, e que ao contrário motive o leitor a entrar, porque ele pode ter um acesso rápido e imediato a uma série de informações, mas você pode ter de diferente um plano de fundo mais completo que valha a compra a assinatura, o que seja até nesse âmbito comercial. Você vai ter que começar a lidar quer dizer de repente você, como você faz a equação de braço aberto pra todo mundo e o acesso restrito pelo qual você cobre e que te financia, um material especial pra você trabalhar enfim que é opcional, que de repente nem todo mundo vai querer, mas que você vai ter uma parte desse público que as poucos vai descobrir, a vantagem de ter tudo isso, eu acho. Os jornais tão tendo dificuldade de equacionar isso mas, eu acho assim, a demanda por informação não vai diminuir, ao contrário, ela tende a aumentar mesmo. O que eu acho que a gente precisa trabalhar é o problema que vem desde muito tempo, muito antes até da máquina de escrever. No Brasil se lê pouco, se lê pouco jornal, é um 18 escândalo quando se compara o, a circulação dos jornais, das publicações per capitas com outros países. Então, esse é o problema que a tecnologia não vai resolver, isso tem a ver com a educação, tem a ver com cultivar hábitos de leitura é enfim, as pessoas se apropriarem da oferta que existe de informação. Mas em geral eu vejo isso, eu acho que a gente vai continuar existindo. E não se faz nada no mundo hoje em dia sem acesso e compreensão da informação. Entrevista Valério Ayres Pergunta: Quais foram as principais mudanças ocorridas após a chegada dos computadores e após os primeiros aparelhos digitais na redação em que trabalhava? Resposta: Houve um impacto, houve uma euforia, depois uma tristeza. A euforia porquê? Facilitou muito a nossa vida, principalmente na questão, em viagens. Porque a gente viajava com laboratório úmidos. A gente necessitava de ter um quarto escuro em um hotel, em algum canto para poder fazer uma foto, para transmitir. Hoje não é, claro, óbvio. Então quando chegou essa, essa nova tecnologia. Nos alegrou muito, mas depois nos deu uma certa tristeza assim, porque é...Não é palavra e dinossauro não né, porque eu já me sinto um. Mas, me parece que hoje a formação do repórter fotográfico ou do fotojornalista, como queira. Eu me acho um grande fotógrafo, não grande no sentido da palavra, mas eu me sinto melhor sendo chamado como fotógrafo do que esses outros adjetivos, repórter fotográfico, fotojornalista. Acho que a essência da pessoa é ser fotografo. Claro que também depois houve essa, esse meio que desequilíbrio, mas acho que a essência voltou, não sei se pelos antigos fotógrafos, porque ainda tem muita gente boa trabalhando na ativa e tal. Tão incentivando esses novos fotógrafos, esses novos repórteres a ter consciência do que é bacana fazer no fotojornalismo. Não é sentir o bacaninha de colete, de câmeras digitais, computadores, laptops e não sei o que mais que se usa, cartões, wifi. Saber fazer a leitura do fato, trazer a boa foto pra redação. Pergunta: Quais foram as principais mudanças nas suas rotinas produtivas após a digitalização das redações? Resposta: Ela aumentou. Porque hoje como você. A informação hoje vem por todos os lados. Vem de um celular, vem do tablete. As rádios voltaram com mais atividades jornalísticas. Porque elas sentiram meio, não digo ameaçadas, mas talvez como era uma mídia antiga. O rádio com a entrada da internet eu acho que o rádio se avivou, pera ai gente tem que ficar mais, mais ao vivo, mais ligado nos fatos. Então hoje o repórter fotográfico ela tá na rua com uma pauta, fazendo um determinado trabalho e ele naquele momento tem informação de mais cinco ou dez acontecimentos na cidade em que ele está morando né, vamos falar assim. Fora as informações do mundo, mas na cidade onde ele tá, ele tá tendo informações direto. É o celular dele que tá tocando a cada um minuto, dois dependendo do que ele, três minutos tá chegando informação, ou via twitter, ou via facebook, ou via mesmo agências, que tão todas elas estão online. Então isso aumento mais a carga de preocupação, porque nos temos que ter uma preocupação. A gente não pode fazer o jornalismo, a pauta, simplesmente vou ali no congresso fazer uma sessão e voltar. Não tem n coisas que acontecem na volta dessa pauta que as vezes é mais importante que propriamente a sessão solene. Então aumentou mais a informação para o fotógrafo Pergunta: Sua carga de horário permaneceu a mesma? Houve aumento de seu fluxo de trabalho? Resposta: É houve umas discussões ai entre sindicatos e patrões que criaram a 5 mais 2 e que até a pouco tempo, até a pouco tempo não, alguns anos atrás a nossa carga era de 5 horas, mas ai de uns 20 anos pra cá eu acho que começou a carga de 7, 8 horas, 9 horas as vezes. Mas faz parte também do mundo 24horas ligado. Porque antigamente os hemisférios dormiam né, hoje não, os dois hemisférios. Alguém dormindo, mas alguém fazendo informação. E alguém do outro lado que deveria estar dormindo, está acordado vendo. 19 Pergunta: O modo de apuração da notícia se modificou após a entrada de computadores nas redações? E com o uso de celulares, e tablets. Houve alguma mudança na produção da notícia? Resposta: Não, notícia é notícia né. Não tem duas fórmulas. Tem assim claro, você pode apurar o local mais exato, o fato mais certo, quem é quem tá envolvido, quem são, entendeu. Porque você, não só você que tá apurando aquilo, mais tem n fontes de informação que tão chegando pra ti. [P: Mas essa tecnologia ajudou?] É óbvio que ajudou, claro que ajudou. Trás mais transtorno pra gente, trás mais preocupação. A gente antes de dá boa noite, a gente antes de beijar os filhos olha o tablete pra vê se tem notícia. Depois que a gente lembra de dar beijinho na criança pra poder dormir. E de manhã pra saber se tá todo mundo bem, primeiro tu liga o telefone, liga o tablete, liga a televisão. Quer dizer você fica envolvido quase que 24 horas, não as 24 na essência, mais. Deita com a notícia e acorda com ela também. Eu não vejo por exemplo quase que nenhum jornalista final de semana não tá com o celular, vendo uma em algum canto, ele sempre tá vendo alguma coisa. Então, se ele não tá em uma agência, se ele não tá em um jornal online ele tem um amigo dele que tá mandando mensagem, olha tu viu isso, tá acontecendo isso, tá acontecendo aquilo. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: Você pode fazer várias, várias, como o fim do impresso. Como o impresso, reduzir o tamanho do impresso. O impresso a passar tipo revista semanal. O jornal da semana ser no online, sabe em todas as mídias que você possa. O impresso ser feito para o final de semana. Isso é projeções, eu não sei se. Mas muita coisa já aconteceu, as redações diminuíram, é tão reforçando mais a parte online dos jornais, querendo dar mais conteúdo, mais informação. Tudo pode acontecer, eu não sei. A gente não imaginava isso a 20 e poucos anos atrás, a tal da internet. Hoje ninguém vive sem internet, as vezes a gente tenta, há esse final de semana eu não vou olhar, mais vou ver a programação do cinema. Você liga a internet, você não vai no jornal. Então assim, fim dos impressos, não sei, fim das revistas, não. Isso daqui uns 100 anos, 200 anos. Sendo otimista né, por causa da profissão, mas a essência do fotojornalismo deve continuar a mesma coisa. Entrevista Ana Gabriela Guerreiro Leite Pergunta: Como a tecnologia e os computadores estão presentes na sua rotina de trabalho? Resposta: Diariamente, em todos os momentos da minha rotina produtiva. Acordo, leio os jornais pela internet. Chego na redação, produzo flashes e matérias pelo computador. Algumas reportagens são enviadas por e-mail, outras pelo sistema interno do jornal que, obviamente, é computadorizado. Arrisco dizer que não existe jornalismo hoje sem a tecnologia da informática. Pergunta: Como os aparatos tecnológicos auxiliam na sua rotina produtiva? Resposta: O computador permite enviar as matérias e flashes para o site do jornal. O celular também exerce a mesma finalidade, assim como permite ler jornais e sites da internet. Pergunta: Em que momento da sua rotina produtiva, você utiliza meios tecnológicos? Ex: na apuração, produção ou distribuição da notícia? E de que forma os utiliza? Resposta: Na apuração, na leitura de sites de busca ou de informações. Na produção, ao redigir matérias, notas e reportagens para o site ou o jornal impresso. Pergunta: De que forma a tecnologia auxilia/atrapalha na produção da notícia? 20 Resposta: Eu só vejo benefícios. Sem o computador, a apuração seria infinitamente mais lenta e incompleta. É possível fazer buscas de dados históricos e recentes sobre o tema que está sendo produzido. Claro que, com o crescimento do jornalismo online, a cobrança por rapidez e agilidade no envio de flashes e matérias para internet é maior, mas considero que esse caminho é necessário e irreversível. Pergunta: Como você enxerga a relação da tecnologia com a notícia? Suas vantagens e desvantagens? Resposta: Como disse na resposta anterior, a principal vantagem é facilitar a apuração, contato com as fontes e envio de matérias. A desvantagem é a exigência da rapidez no envio das matérias, o que muitas vezes coloca em risco a apuração mais aprofundada. O jornalismo online acaba sendo mais “raso” que o impresso pela falta de tempo de apuração, mas há a possibilidade de atualização das matérias se novas informações surgirem. Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: Eu espero um jornalismo cada vez mais online, com a redução gradativa dos veículos impressos. As Tvs e rádios também vão seguir essa característica da transmissão 24 horas de notícias, ininterruptas. Acredito que o jornalista continuará tendo a função de “filtrar” o que deve ou não ser divulgado, já que muito do que é publicado no universo online reúne informações incorretas, deturpadas ou mesmo inexistentes. O papel de apuração é inexorável do jornalista. Não é uma função que será extinta do dia para a noite. A notícia sempre vai existir, mas a notícia jornalística, essa sim, tem a sua credibilidade garantida pelo filtro de bons profissionais. Entrevista Daniel Otero Cariello Pergunta: Como a tecnologia e os computadores estão presentes na sua rotina de trabalho? Resposta: Estão presentes diariamente, o tempo todo. Mesmo que ainda prefira tomar notas em cadernos (sempre levo uns dois quando viajo), até para não perder o hábito da escrita manual, uso a tecnologia em todas as etapas do meu trabalho. Salvo todos meus textos na nuvem e os edito em permanência (mesmo no iPhone), até a hora de enviar. Pergunta: Como os aparatos tecnológicos auxiliam na sua rotina produtiva? Resposta: Da maneira descrita acima. Tenho docs com ideias e trechos de textos (também nas nuvens), aos quais recorro permanentemente. Uso também muitos dicionários e gramáticas, tudo online. Só o dicionário analógico (do Francisco Ferreira dos Santos) é que ainda uso em papel. Pergunta: Em que momento da sua rotina produtiva, você utiliza meios tecnológicos? Ex: na apuração, produção ou distribuição da notícia? E de que forma os utiliza? Resposta: O tempo todo. Quando escrevia matérias (dei um tempo nisso, agora), utilizava para fazer uma grande pesquisa prévia. No entanto, sempre imprimia essa pesquisa e lia no papel. Ainda prefiro assim (apesar de que acabei de comprar um Kindle e estou adorando, mas isso é outra conversa). Escrevo um roteiro básico à mão, mas, na hora de produzir o texto final, passo para o computador. As ferramentas de edição facilitam muito a vida de quem trabalha com texto. O negócio é cuidar para o mundo online ao alcance de um clique não atrapalhar a concentração. Depois, divulgo online, principalmente nas redes sociais. Funciona muito bem, se você se empenhar. Como exemplo, posso citar minha crônica Ela Acordou W3, que teve mais de mil compartilhamentos e até virou matéria na rádio CBN. Tudo isso graças à internet. 21 Pergunta: De que forma a tecnologia auxilia/atrapalha na produção da notícia? Resposta: Ajuda na hora de recolher, formatar e editar a informação. Mas é preciso ter foco: saber o que se busca e ir direto. E não cair na tentação de dar “só uma olhada no Facebook”, que pode durar horas e, depois, você nem se lembra mais do que estava fazendo. Pergunta: Como você enxerga a relação da tecnologia com a notícia? Suas vantagens e desvantagens? Resposta: As vantagens são muitas, mas principalmente o imediatismo da notícia. Sabemos e acompanhamos em tempo real o que acontece no mundo inteiro. No entanto, esse imediatismo pode gerar notícias mal escritas e, o pior, mal apuradas. Jornalistas estão se tornando preguiçosos, acreditam no que veem nas redes sociais sem a menor apuração. Na ânsia de noticiar primeiro, acabam atropelando a verdade dos fatos (e, não raras vezes, a língua portuguesa). Pergunta: O que podemos esperar do jornalismo daqui pra frente? Qual será o futuro do jornalismo? Do jornalista? E da notícia? Resposta: Não tenho a menor ideia de qual será esse futuro. Se fosse dar um chute, diria que o jornalista será mais uma espécie de editor, pois hoje qualquer pessoa munida de um smartphone pode noticiar o que acontece, e em tempo real. Caberá ao jornalista filtrar aquele mundo de informações e tentar decifrá-lo para os leitores. Vimos um pouco disso durante as manifestações do ano passado. A mídia tradicional não sabia o que fazer (até porque era um dos alvos prioritários). Quem cobriu brilhantemente os eventos foi a própria população. As manifestações surgiram de depoimentos nas redes sociais e por lá se alastraram para o país e o mundo. A notícia sempre estará lá. Uma das grandes belezas desse novo processo é que agora não é mais a versão dos grandes conglomerados de mídia que impera. Temos acesso a vários pontos de vista. Dessa maneira, podemos formar uma opinião muito mais embasada. A questão é, mais uma vez, esquecer do imediatismo da primeira fonte e procurar analisar e pensar um pouco.