Trabalho 616 OS VALORES CULTURAIS QUE ENVOLVEM A ALIMENTAÇÃO DO RECÉMNASCIDO NO AMBIENTE RIBEIRINHO1 THE CULTURE VALUES WHICH INVOLVE THE ALIMENTATION OF NEW BORN IN THE RIVERSIDE PLACE LOS VALORES CULTURALES QUE ENVUELVEN LA ALIMENTACIÓN DEL RECEN-NATO EN EL AMBIENTE RIBEREÑO RAQUEL FARIA DA SILVA LIMA2 LEILA RANGEL DA SILVA3 1 Categoria do Artigo: Pesquisa. Recorte da Dissertação de Mestrado intitulada: “Valores culturais que envolvem o cuidado materno ribeirinho: Subsídios para a Enfermagem”. Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, UNIRIO. 2009. 2 Enfermeira. Mestre em Enfermagem e especilista em Enfermagem Neonatal pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Docente de Saúde da Mulher e Criança da Faculdade Santa Rita (FASAR). Diretora do Departamento de Atenção Básica da Secretaria Municipal de Saúde de Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais. 3 Enfermeira. Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Adjunta do Departamento Materno-Infantil (DEMI) da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto (EEAP) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). 5506 Trabalho 616 2 OS VALORES CULTURAIS QUE ENVOLVEM A ALIMENTAÇÃO DO RECÉM-NASCIDO NO AMBIENTE RIBEIRINHO RESUMO Introdução: A amamentação entre ribeirinhos é uma prática influenciada por valores culturais, cercada de mitos, crenças e valores. O enfermeiro que deseja desenvolver uma assistência materno-infantil culturalmente coerente deve conhecer tais práticas. Objetivo: Analisar o aleitamento materno entre ribeirinhos de Vila Nova Maringá, Amazonas. Métodos: estudo exploratório-descritivo, com abordagem qualitativa, na comunidade ribeirinha, entre julho e agosto de 2008. Participaram do estudo 16 mães residentes na comunidade. Os dados foram coletados por entrevista semi-estruturada, com posterior análise de conteúdo do tipo temática. Resultados: Embora todas as mulheres amamentem de forma exclusiva nos primeiros seis meses, o chá de hortelã (Mentha V. Huds) é administrado ao recém-nascido (RN) nas primeiras horas do pós-parto. Segundo as mulheres, o chá é necessário, pois neste período não há produção de leite, além do mesmo limpar o intestino do RN, prevenindo doenças e promovendo seu bem-estar. Conclusão: É preciso avaliar sistematicamente todo o processo da amamentação, com os valores que influenciam sua prática, tal qual o uso do chá de hortelã. Assim, o enfermeiro é capaz de levantar uma assistência adaptada aos valores culturais ribeirinhos, e que valoriza o leite materno. Palavras-chaves: Enfermagem Materno-infantil; Enfermagem Transcultural; Aleitamento Materno. THE CULTURE VALUES WHICH INVOLVE THE ALIMENTATION OF NEW BORN IN THE RIVERSIDE PLACE ABSTRACTS Introduction: Breastfeeding is a practice among riverine influenced by cultural values, surrounded by myths, beliefs and values. The nurse who wishes to develop a maternal-child assistance must meet such cultural practicesObjective: analyze the breastfeeding among riverside of the Vila Nova Maringá, Amazonas. Methods: A descriptive exploratory study with a qualitative approach in the riverside community between July and August 2008. The participants were 16 mothers living in the community. Data were collected through semi-structured interview and analyzed for thematic content. Results: Although all women breastfeed exclusively for the first six months, the peppermint tea (Mentha V. Huds) is administered to the newborn (NB) in the first hours after delivery. According to the women, the tea is necessary, because this time there is no milk production, beyond even clean the intestines of infants, preventing disease and promoting their welfare. Conclusion: We need to systematically evaluate the whole process of breastfeeding, with the values that influence their practice, as is the use of mint tea. Thus, the nurse is able to raise a service tailored to the cultural values riparian and appreciate milk. Keywords: Maternal and Child Nursing; Transcultural Nursing; Breastfeeding. LOS VALORES CULTURALES QUE ENVUELVEN LA ALIMENTACIÓN DEL RECEN-NATO EN EL AMBIENTE RIBEREÑO RESUMEN Introducción: La lactancia materna es una práctica entre los ribereños influenciado por los valores culturales, rodeado de mitos, creencias e valores. La enfermera que desea desarrollar una asistencia de la madre y el niño debe cumplir con las prácticas culturales. Objetivo: analizar el amamantamiento materno entre ribereños de Vila Nova Maringá, Amazonas. Métodos: estudio exploratorio-descriptivo, con abordaje cualitativa, en la comunidad ribereña, entre julio y agosto de 2008. Participaran del estudio 16 madres que viven en la comunidad. Los dados fueran colectados por entrevista semi-estructurada, con posterior analice del tipo temática. Resultados: aunque todas las mujeres amamantan de forma exclusiva en los primeros seis meses, el té de menta (Mentha V. Huds) es administrado a él recen-nato (RN) en las primeras oras de pos-parto. Según las mujeres, el té es necesario, porque en este periodo no hay producción de leche, además el té limpia el intestino del RN, previniendo enfermedades y promoviendo su ben-estar. Conclusión: es preciso avaluar sistemáticamente todo el proceso de la lactancia materna, con los valores que influencian su práctica, tal cual el uso de té de menta. Dista manera el enfermero es capaz de levantar una asistencia adaptada a valores culturales ribereños, y qué valoriza el leche materno. Palabras clave: Enfermería Materno-infantil; Enfermería Transcultural; Lactancia Materna. 5507 Trabalho 616 3 OS VALORES CULTURAIS QUE ENVOLVEM A ALIMENTAÇÃO DO RECÉMNASCIDO NO AMBIENTE RIBEIRINHO INTRODUÇÃO Esta pesquisa trata-se de um recorte da dissertação de mestrado intitulada: “Valores culturais que envolvem o cuidado materno ribeirinho: subsídios para a enfermagem”, realizada entre ribeirinhos do Estado do Amazonas, com os seguintes objetivos: discutir os valores culturais das mães ribeirinhas e a sua influência no cuidado dos filhos; e propor decisões e ações do cuidado de enfermagem culturalmente coerente à realidade ribeirinha. Neste estudo, a temática do aleitamento materno foi amplamente abordada pelas mães, representando um cuidado antecipado as necessidades de saúde de seus filhos, cercada de crenças e mitos. Já é um fato conhecido que o leite humano também oferece proteção imunológica, trazendo benefícios psicológicos para o binômio mãe e filho, contribuindo grandemente para o desenvolvimento do elo afetivo, representando mais que um processo de nutrição infantil. Remendado com exclusividade na dieta do neonato até seis meses de vida1. O enfermeiro que deseja trabalhar com sucesso na promoção do aleitamento precisa ter uma visão atenta, considerando aspectos emocionais da mulher, sua rede social, e sua cultura familiar, além de estar plenamente capacitado pelo saber técnico-científico1. Cabe ao profissional de saúde identificar e compreender o processo do aleitamento materno no contexto sociocultural e familiar e, a partir dessa compreensão, cuidar tanto da dupla mãe/bebê como de sua família. É necessário que busque formas de interagir com a população para informá-la sobre a importância de adotar uma prática saudável de aleitamento materno. O profissional precisa estar preparado para prestar uma assistência eficaz, solidária, integral e contextualizada, que respeite o saber e a história de vida de cada mulher e que a ajude a superar medos, dificuldades e inseguranças2. A recomendação médico-científico atual é o aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses de vida do lactente, ou seja, quando a criança recebe somente leite materno, sem outros líquidos ou sólidos, e o aleitamento materno complementado a partir dos seis meses, o que significa receber alimento sólido ou semi-sólido com a finalidade de complementá-lo, e não de substituir o leite materno1. Segundo Helman3, o aleitamento como toda a alimentação dos lactentes é uma das preocupações centrais de qualquer grupo humano. Apesar do Ministério da Saúde preconizar 5508 Trabalho 616 4 que o leite materno é o melhor alimento, cada cultura tem uma prática de alimentação para o lactente, adotando ou não a amamentação exclusiva até o 6º mês de vida e na sua grande maioria realizando de formas diferentes. A comunidade Vila Nova Maringá, é uma comunidade onde encontramos um número considerável de grandes multíparas e, portanto uma elevada população infantil de zero a dez anos, somando 32,4% da população, muitos deles em fase de amamentação. Não existindo assistência a saúde na sua região – estando distantes da rede básica ou hospitalar – as mulheres comumente praticam o cuidado materno advindo do saber popular ribeirinho, com o objetivo de promover saúde aos filhos ou prevenir doenças, como observamos na peculiar prática de aleitamento materno. Embora em Vila Nova Maringá se adote a amamentação como meio de promover nutrição infantil, incute-se nessa prática, valores culturais e suplementos peculiares, como o uso de chás nas primeiras horas de vida do concepto, e complemento alimentar comum a grandes centros. O enfermeiro assistindo essas mães ribeirinhas, na prática do aleitamento materno, deve estar ciente que irá se deparar com a realidade cultural de cada mulher, ou seja, como cada uma conhece e age frente ao aleitamento materno. Cabendo ao profissional reconhecer seus saberes populares, fazendo a intercessão com o saber científico, ocupando o papel de cuidador direto, ou seja, que tem o maior contato com a mãe, realizando a ligação entre elas e os demais profissionais de saúde, sendo um comunicador/educador. Faz-se necessário desvendar os saberes populares, advindos da cultura local – definido como valores, crenças, normas e modos de vida apreendidos, partilhados e transmitidos, que orienta o pensamento, decisões e ações, de modo padronizado e freqüente entre gerações – que influenciam de forma direta esse cuidado genérico, ou seja, um cuidado orientado pelo conhecimento que é aprendido e transmitido a fim de melhorar o bem-estar do filho através do aleitamento materno4. Durante a vivência e pesquisa na comunidade constatamos que os saberes populares da cultura ribeirinha influenciam na forma como as mulheres conhecem e agem frente ao aleitamento materno, e como é importante estar sensível a esses valores para prestar um cuidado eficiente. São mães que demonstram diversidade quando que de forma empírica administram chás na tentativa de promoção de saúde, e universalidade no ato de amamentar o filho. Sendo assim, traçou-se como objetivo do estudo: Analisar o aleitamento materno entre ribeirinhos de Vila Nova Maringá, Amazonas. 5509 Trabalho 616 5 METODOLOGIA Trata-se de um estudo exploratório descritivo, de abordagem qualitativa, o que possibilita a análise subjetiva dos dados. O estudo foi realizado com mulheres moradoras da comunidade ribeirinha Vila Nova Maringá, na cidade de Maués – AM, Brasil. Vila Nova Maringá é uma das comunidades ribeirinhas da cidade de Maués, situada às margens do rio Parauari, composta por 42 famílias. Todas as casas foram visitadas e todas as mulheres moradoras da vila foram convidadas a participar da pesquisa. Após as visitas encontramos uma amostra de 15 mulheres, sujeitos do estudo, e que atenderam aos seguintes critérios: 1) moradoras da comunidade ribeirinha Vila Nova Maringá; 2) maiores de 18 anos; 3) mães que tiveram a experiência da amamentação e, 4) que espontaneamente quiseram participar desse estudo ao assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido, sendo excluídas todas aquelas que não atenderam a esses critérios. Para coleta dos depoimentos foi utilizada a entrevista semi-estruturada, contemplando um roteiro com dados: sócio-econômico-educacional; obstétricos e sobre a prática da amamentação. O período de coleta foi entre os meses de Julho e Agosto de 2008, após o cumprimento das seguintes etapas: autorização do líder da comunidade escolhida para a pesquisa; análise e aprovação pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery-UFRJ / Hospital Escola São Francisco de Assis sob o protocolo n° 54/2008; obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Em observância à determinação da resolução N˚196/96, do Conselho Nacional de Saúde. As entrevistas foram realizadas em local reservado escolhido pelas mulheres na própria comunidade e gravadas em MP3, de modo a favorecer o diálogo entre as participantes e o entrevistador. A fim de assegurar a privacidade das depoentes os nomes das mulheres foram substituídos por codinomes indígenas de língua Tupi ou Guarani, justificando-se pela origem indígena da cidade de Maués, na qual está inserida a comunidade ribeirinha, sendo os significados dos nomes relacionados com características físicas ou de personalidade das mulheres, escolhidos pela pesquisadora. A análise dos depoimentos foi fundamentada na Análise de Dados de Etnoenfermagem, onde foram levantadas as unidades temáticas. Segundo Leininger & McFarland4 esta é uma análise sistemática, profunda e rigorosa da pesquisa qualitativa, dividida em quatro fases. Na primeira fase o pesquisador analisa os dados estabelecidos e 5510 Trabalho 616 6 detalhados antes de passar para a Fase II. Neste segundo estágio, o pesquisador identifica os “representados”, “indicadores” e as “categorias” dos primeiros dados na Fase I. Na Fase III, o pesquisador identifica os “padrões recorrentes” dos dados como derivados das Fases I e II. Na Fase IV, os “temas” do comportamento e de outros “resultados sumarizados da pesquisa” são apresentados e abstraídos dos dados como derivados das três fases anteriores. A partir desta análise foi identificada duas categorias temáticas: Os significados, crenças e práticas que envolvem o aleitamento materno ribeirinho; e o cotidiano do cuidado com a alimentação do RN no ambiente ribeirinho. A CONSTRUÇÃO DOS RESULTADOS Os significados, crenças e práticas que envolvem o aleitamento materno ribeirinho A alimentação dos filhos é uma prática frequentemente citada pelas mães como um meio de atender a uma necessidade antecipada, um meio de promover bem-estar e, em alguns casos, evitar doenças de um modo geral. Durante a vivência na comunidade, observamos que a preocupação das mães em evitar o processo de adoecimento dos filhos passa quase sempre pelo modo como alimentam as crianças. Os depoimentos das mulheres ribeirinhas de Vila Nova Maringá indicaram, inclusive, que a preocupação com a alimentação se manifesta desde o nascimento do filho e tem características peculiares. Esse é um fenômeno que está presente em outras culturas, conforme o testemunho de autores que se dedicaram ao tema. O cuidado e a alimentação dos bebês, lembra Helman3, é uma das preocupações centrais de qualquer grupo humano. Contudo, existem grandes diferenças nas técnicas de alimentação dos bebês, na utilização do seio materno, da mamadeira ou de alimentos artificiais. Kenner5, por sua vez, assinala que a amamentação pode ter inúmeras influências culturais. A administração do colostro e do leite materno na fase madura pode variar segundo a geografia e a cultura. Não diferente de outras culturas, Vila Nova Maringá apresenta diferenças na técnica de alimentação dos bebês, principalmente quando se trata de recém-nascidos. Na comunidade é comum à maioria das mulheres administrar chá de hortelã – Mentha Villosa Huds – ao recémnascido. Algumas mulheres como Japira, defende o uso do chá, pois segunda ela não há produção de leite nos primeiros dias de puerpério: 5511 Trabalho 616 7 Primeiro no dia que eles nasceram a gente dava chá, ai porque logo no primeiro dia que a gente tem não nasce logo o leite não, passando 5 dias, 2 dias ai que vai criando o leite no peito da gente, depois quando criava o leite no meu peito eu parava de dar o chá. (Japira, 39) A crença de que o colostro é um leite fraco, e que por isso a dieta do RN precisa ser complementada com chá, leite bovino e/ou alimentos artificiais, não é exclusiva da comunidade ribeirinha Vila Nova Maringá no Amazonas. Segundo Kenner5 em alguns países os bebês nunca recebem o colostro. No quadro 01 abaixo estão distribuídos alguns países com suas respectivas práticas de amamentação, exemplificando que o aleitamento materno é uma prática muito influenciada pela cultura local. Quadro 01 – relação de países com diferentes práticas de amamentação Países Finlândia Colômbia Tailândia Nova Guiné Filipinas México Vietnã Nigéria Coréia Quênia Austrália Nova Zelândia China Prática Onde não se fabrica qualquer fórmula alimentar infantil, a amamentação é regra. Reverteram o recente declínio na amamentação por meio da promoção vigorosa do aleitamento materno. Alguns deles não dão colostro aos recém-nascidos; nesses grupos as mães só começam a amamentar após o começo da ejeção do leite. Algumas mulheres coreanas retardam a amamentação até 3 dias após o parto; outras começam a amamentar imediatamente e amamentam sempre que a criança chora. As mães alimentam os recém-nascidos prematuros apenas ao seio e começam a amamentar muito mais cedo que na América do Norte. Os quenianos nunca usam cateter nasogástrico e alimentam os recém-nascidos prematuros com pequenos copos até que eles estejam aptos a sugar. A amamentação ainda é comum, contudo, à medida que mais mulheres saem de casa para trabalhar nesses países, o índice e a duração da amamentação vêm caindo. Nas primeiras 12 a 24 horas após o nascimento, a mãe e o bebê são separados. A amamentação é estimulada e continuada por 4 a 5 anos. Fonte: KENNER5. De acordo com o conhecimento científico, lembra Kenner5, o colostro é um fluido seroso e fino, produzido até 96 horas após o parto, com altas concentrações de proteínas, vitaminas lipossolúveis, minerais e imunoglobulinas que funcionam como anticorpos para o recém-nascido. Por isso, acrescenta o autor, o colostro deve ser administrado logo após o parto. Atualmente sabe-se que o colostro transforma-se em leite maduro rapidamente, e essa descoberta ajudou a refutar a teoria de que a freqüência do aleitamento deveria ser limitada até que o leite maduro surgisse. No entanto a oferta do chá de hortelã substituindo o colostro no primeiro dia pós-parto é uma realidade ribeirinha. Por isso, o profissional enfermeiro envolvido com o cuidado da saúde materno-infantil deve ficar atento a um detalhe: o de que existem não só culturas 5512 Trabalho 616 8 diferentes daquela por ele vivenciada, mas conceitos sobre a amamentação igualmente diferentes dos preconizados pelo modelo biomédico. Segundo as mulheres, além de alimentar o RN substituindo o colostro, existe a crença de que o chá pode “limpar” o intestino da criança, adotada com a finalidade de prevenir doenças e promover o bem estar dos RN. Janaina, uma das matriarcas da comunidade, explica que o chá serve para a limpeza do intestino, cumprindo, assim, um papel profilático: Depois que nascia ela dava chazinho, dava remédio caseiro para dar para criança, ela dizia que era bom prá limpar o intestino da criança; às vezes já nasce com problema, aí ela dava, depois que a gente dava o peito. Chá de hortelãozinho uma plantinha que tem, a gente dava prá eles todinho. No mesmo dia prá tarde assim mamava. (Janaina, 63) O chá de Mentha Villosa Huds (hortelã) tem ação comprovada e recomendada pela ciência em casos de gripe, como anti-helmíntico e estimulante do apetite, tendo ação sobre o sistema gastrointestinal6. O uso da erva em si não acarreta prejuízos ao recém-nascido, mas é necessário conhecer todo processo de confecção do mesmo. O cotidiano do cuidado com a alimentação do RN no ambiente ribeirinho Após levantarem os significados e valores culturais que envolvem a pratica do aleitamento materno, as mulheres ribeirinhas descreveram em suas falas como é o cotidiano do aleitamento materno do recém-nascido, com todos os cuidados envolvidos, como observamos na fala a seguir. Jurema nos relata de forma detalhada como ocorre a confecção do chá e como este deve ser administrado à criança: Tem por exemplo hoje à noite, quando não tem o leite do peito faz um chá, eu tenho a planta que faz o chá prá criança, eu tenho ali, o hortelãozinho a gente pega, faz o chazinho, prá ele já ir bebendo, põe na mamadeira, eles vão mamando até criar o leite no peito da gente, quando cria o leite no peito a gente dá assim o chá, mas não é assim como era. Já tem o leite no peito, já é prá dar prá criança; aí vai tomando, mamando, mamando, aí o chá a gente já tira, pra não mamar no chá. Dá o chá primeiro, porque vai lavar o peito com álcool, com água morna, aí o chá a gente dá pra criança, esfria, põe na mamadeira e põe prá criança mamar, é de dia ou é de noite quando a criança nasce mama o chá, mama hoje, amanhã e quando criar o leite tira do chá e põe só no peito até completar o tempo de amamentar de tirar da mama. (Jurema, 40) De acordo com a fala de Jurema (40) o seio materno deve ser limpo com álcool e água morna. É interessante notarmos a preocupação com a higiene das mamas para iniciar da amamentação. A água morna de fato beneficia a apojadura, promovendo a vasodilatação dos vasos, no entanto o álcool poderia desidratar mamilo e aréola, retirando a lubrificação natural dos mesmos. O enfermeiro ao prestar cuidado assistencial nesta comunidade poderia negociar 5513 Trabalho 616 9 a troca da utilização do álcool no seio pelo próprio leite materno, que é capaz de higienizar e manter a lubrificação da região7. Como vimos na fala anterior o chá é oferecido ao RN na mamadeira. A mamadeira, além de ser uma importante fonte de contaminação, pode influenciar negativamente a amamentação. Observa-se que algumas crianças, depois de experimentarem a mamadeira, passam a apresentar dificuldade quando vão mamar no peito. Essa dificuldade é denominada “confusão de bicos”, gerada pela diferença marcante entre a maneira de sugar na mama e na mamadeira. Nesses casos, é comum o bebê começar a mamar no peito, porém, após alguns segundos, largar a mama e chorar. Como o leite na mamadeira flui abundantemente desde a primeira sucção, a criança pode estranhar a demora de um fluxo maior de leite no peito no início da mamada, pois o reflexo de ejeção do leite leva aproximadamente um minuto para ser desencadeado e algumas crianças podem não tolerar essa espera1. Como a mamadeira é utilizada somente neste primeiro momento do pós-parto ela pode não influenciar negativamente a amamentação, mas certamente é uma fonte de contaminação. Há evidências de que o uso de água, chás e outros leites está associado com o desmame precoce e o aumento da morbimortalidade infantil1. Guaraciaba utiliza chupeta e mamadeira com seu filho mais novo, um lactente de seis meses, e nos relata o cuidado na higienização de ambos: pra eu fazer a comida dele, eu pego e faço fogo, lá em casa não tem gás, eu deixo o fogo arder bem, quando ele ta bem ardido eu pego a água e coloco lá, porque se colocar e o fogo não tiver ardendo fede de fumaça, faço primeiro o fogo deixo ele arder e boto lá, tiro no copo enquanto eu agoo, já tiro a mamadeira dele e boto naquela água pra escaldar todo dia, a chupeta dele também eu escaldo, toda vez que eu vou lá em Maués é uma chupeta. (Guaraciaba,26) É comum encontrarmos entre mães brasileiras o costume de ferver os objetos do RN e lactente, como um meio, por vezes empírico, de esterilizar os objetos de contato oral. Isso não é diferente no ambiente ribeirinho. É preferível que a suplementação alimentar do lactente não seja administrada via mamadeira – devido a seu potencial de contaminação e conseqüente disseminação de doenças gastrintestinais – no entanto, o profissional de saúde deve esclarecer métodos de esterilização da mesma8. Podemos estimular a prática da fervedura para a esterilização das mamadeiras e chupetas, por ser este, um método eficaz, barato e de fácil utilização. Além de fornecer o conhecimento de outros meios de esterilização, como o método de Milton. Que consiste na desinfecção desses utensílios a frio, dispensando a fervura e sendo capaz de eliminar bactérias e germes. 5514 Trabalho 616 10 Este processo compreende a lavagem dos bicos e mamadeiras com escova, detergente e água, sendo depois enxaguadas em água corrente. Os bicos devem ser esfregados com sal, para remover os resíduos de leite, que representam veículo de contaminação e até mesmo obstrução dos próprios bicos. Depois de lavados, devem ser imersos em solução bactericida, na proporção de 1:80 – uma colher de sopa de hipoclorito de sódio (presente na comunidade) para cada litro de água – na qual permanecem completamente imersos por uma hora. O vasilhame contendo a solução de Milton deve ser de plástico, vidro, louça ou mesmo tanque de polietileno, nunca de metal. Transcorrido o prazo de meia hora, deve-se retirar as mamadeiras e bicos da solução e escorrê-las, não devendo enxaguá-las em água corrente9. Além do meio de administração do chá, é necessário atentarmos para a procedência da água com a qual é feito, visto que, mesmo existindo um poço na comunidade, 62.5% (10) das mulheres utiliza água do rio para a preparação dos alimentos, dessas, 50% (08) passam a água do rio em um pano para filtrar e colocam cloro e 6.25% (01) passa apenas a água no pano. Tingá descreve um cuidado especial com a água utilizada no chá do seu RN, além de utilizar o pano como filtro e o cloro: Fervia a água né, era água do rio mesmo aí, mas aí tirava água do rio mesmo aí, aí tirava né, fazia aquelas panelada prá ferver, botava nas vasilha, deixava esfriar, aí repassava, colocava o cloro dentro e botava assim, prá fazer de mamadeira. (Tinga, 36) O Ministério da Saúde orienta que a água para consumo humano pode ser filtrada em pano limpo, em seguida fervida ou higienizada com hipoclorito de sódio a 2,5%, como já ocorre no ambiente ribeirinho10. É extremamente importante atentarmos para o cuidado com a água que é utilizada na comunidade ribeirinha para a confecção de alimentos, como a mamadeira, pois a taxa de mortalidade infantil levantada entre as mulheres pesquisadas na comunidade foi de 17,5%, sendo em sua maioria mortes evitáveis, como a desidratação proveniente de doenças gastrointestinais. Há fortes evidências de que o leite materno protege contra a diarréia, principalmente em crianças mais pobres. É importante destacar que essa proteção pode diminuir quando o aleitamento materno deixa de ser exclusivo. Oferecer à criança amamentada água ou chás, prática considerada inofensiva até pouco tempo atrás, pode dobrar o risco de diarréia nos primeiros seis meses11,12. 5515 Trabalho 616 11 Além de evitar a diarréia, a amamentação também exerce influência na gravidade dessa doença. Crianças não amamentadas têm um risco três vezes maior de desidratarem e de morrerem por diarréia quando comparadas com as amamentadas13. Graças aos inúmeros fatores existentes no leite materno que protegem contra infecções, ocorrem menos mortes entre as crianças amamentadas. Estima-se que o aleitamento materno poderia evitar 13% das mortes em crianças menores de 5 anos em todo o mundo, por causas preveníveis14. Nenhuma outra estratégia isolada alcança o impacto que a amamentação tem na redução das mortes de crianças menores de 5 anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef, em torno de seis milhões de vidas de crianças estão sendo salvas a cada ano por causa do aumento das taxas de amamentação exclusiva15. A proteção do leite materno contra mortes infantis é maior quanto menor é a criança. Assim, a mortalidade por doenças infecciosas é seis vezes maior em crianças menores de 2 meses não amamentadas, diminuindo à medida que a criança cresce, porém ainda é o dobro no segundo ano de vida15. É importante ressaltar que, enquanto a proteção contra mortes por diarréia diminui com a idade, a proteção contra mortes por infecções respiratórias se mantém constante nos primeiros dois anos de vida. Em Pelotas (RS), as crianças menores de 2 meses que não recebiam leite materno tiveram uma chance quase 25 vezes maior de morrer por diarréia e 3,3 vezes maior de morrer por doença respiratória, quando comparadas com as crianças em aleitamento materno que não recebiam outro tipo de leite. Esses riscos foram menores, mas ainda significativos (3,5 e 2 vezes, respectivamente) para as crianças entre 2 e 12 meses13. A amamentação previne mais mortes entre as crianças de menor nível socioeconômico, como em Vila Nova Maringá. Enquanto para os bebês de mães com maior escolaridade o risco de morrerem no primeiro ano de vida era 3,5 vezes maior em crianças não amamentadas, quando comparadas com as amamentadas, para as crianças de mães com menor escolaridade, esse risco era 7,6 vezes maior15. Mas mesmo nos países mais desenvolvidos o aleitamento materno previne mortes infantis. Nos Estados Unidos, por exemplo, calcula-se que o aleitamento materno poderia evitar, a cada ano, 720 mortes de crianças menores de um ano16. Sabe-se que a amamentação na primeira hora de vida pode ser um fator de proteção contra mortes neonatais17. Ricci18 assegura que a capacidade demonstrada pelo recém-nascido diante das forças ambientais hostis é essencial para sua sobrevida. E que o desenvolvimento do seu sistema imunológico tem origem no começo da própria gestação, mas muitas respostas não funcionam adequadamente durante o início do período neonatal. Uma fonte importante de 5516 Trabalho 616 12 IgA, a imunoglobulina, que protege o sistema gastrointestinal do recém-nascido, é o leite materno, de modo que se acredita que o aleitamento materno tem vantagens imunológicas importantes. Dotado de um sistema imune ainda imaturo, o recém-nascido, assim, necessita de cuidados especiais na administração de alimentos que não seja o leite materno. No caso específico de Vila Nova Maringá, onde o chá de hortelã é usado com frequência, é importante que a população tome cuidados de higiene durante sua preparação. É importante também conscientizar a mãe sobre a importância do colostro na dieta do recém-nascido, de maneira que, assim que possível, as duas práticas caminhem juntas em prol de um cuidado cultural saudável18. CONCLUSÃO O presente estudo trouxe-nos a percepção da prática do aleitamento materno sob o enfoque do cuidado cultural. Aonde é necessária a análise dos valores culturais maternos da população ribeirinha, e como os mesmos direcionam o cuidado dos filhos no que tange a alimentação, desde o nascimento ao processo de desmame. A região Norte do Brasil tem a maior prevalência de crianças que mamam na primeira hora de vida (75%), a menor proporção de consumo de chá nos primeiros 30 dias de vida, e a menor distribuição de crianças abaixo de 12 meses que fazem uso da mamadeira. Contudo, encontramos uma comunidade ribeirinha no interior do Estado do Amazonas, Vila Nova Maringá, que administra chás aos RNs nas primeiras horas ou até dias de vida – uma prática antiga na comunidade – e em contraponto utilizam mamadeiras (com leite e cereais processados) na complementação alimentar dos lactentes – uma prática urbana freqüente na região sudeste do país1. O uso do chá nas primeiras horas de vida e do alimento processado no processo de complementação alimentar a partir dos cinco meses, foram temáticas que emergiram da pesquisa e que necessitam ser consideradas na assistência de enfermagem no aleitamento materno ribeirinho, sendo coerente com a realidade sociocultural destas mulheres. Observamos com a pesquisa que o aleitamento materno envolve crenças e percepções dentro de um contexto familiar, social, e principalmente cultural, e como tal precisa ser compreendido pelo enfermeiro. E portanto, na prática do cuidado não podemos impor nossos valores e regras a cerca do aleitamento e sim conhecer a forma como é praticado, verificar se 5517 Trabalho 616 13 a prática não é prejudicial a saúde do lactente, e caso o seja, elaborar uma acomodação procurando torná-la saudável sem contrapor um valor cultural. Os enfermeiros precisam, acima de tudo, aprender como entrar no mundo cultural do nutriz, e aprender os seus padrões de cuidado para que possam ganhar a confiança; assim nós, enfermeiros, seríamos “facilitadores de cuidado à saúde”4. E como tal, reforçar os benefícios do colostro, do aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses, e da alimentação natural complementar, sem ignorar os valores culturais das mães. Sempre que possível valorizando os costumes da comunidade, realizando acomodações e estimulando as práticas já realizadas no aleitamento, evitando as repadronizações defendidas somente pelo saber científico, que visam a mudança radical dos valores culturais ribeirinhos que envolvem a prática da amamentação. REFERÊNCIAS 1 BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da criança: nutrição infantil: aleitamento materno e alimentação complementar / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2009. 2 CASTRO, L. M. C. P.; ARAÚJO, L. D. S. Aspectos socioculturais da amamentação. In: ALEITAMENTO materno: manual prático. 2. ed. Londrina: PML, 2006. p. 41-49. 3 HELMAN, C. Cultura, saúde e doença. 5˚ edição Porto Alegre : Editora Artmed, 2009. 4 LEININGER, M.M.; FARLAND MR. Culture care diversity and universality – a worldwide nursing theory. 2° Ed. New York: Jones and Bartlett Publishers, Inc., 2006 5 KENNER, C. 2001. Enfermagem neonatal. Rio de Janeiro: Reichemann e Affonso Editores, 2ª ed. 375 p. 6 ATRAÍDE, R.A.; OLIVEIRA, R.A.G.; ARAÚJO, E.C.; VASCONCELOS, E.M.R. Uso de remédios caseiros por mulheres do programa de saúde da família. Rev Enferm UFPE On line. 2007; 1(2):97-103. 7 BRASIL. Ministério da Saúde. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher/ Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Área Técnica da Mulher. – Brasília: Ministério da Saúde, 2001. 8 SALLES, R.K., GOULART, R. Diagnóstico das condições higiênico-sanitárias e microbiológicas de lactários hospitalares. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v.31, n.2, p.131-139, 1997. 5518 Trabalho 616 14 9 MEZOMO, Iracema de Barros. Os serviços de alimentação. São Paulo: Manole, 2002. 10 BRASIL. Ministério da Saúde. Vigilância e controle da água para consumo humano / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 11 BROWN, K. H. et al. 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