EDUCAÇÃO DO CORPO NA SOCIEDADE MIDIÁTICA E EMANCIPAÇÃO Wesley Luiz Delconti Luiz Hermenegildo Fabiano RESUMO: A escola se depara cada vez mais com o poder da mídia, que através da fantasia e do domínio técnico, atinge e manipula as consciências, inculcando comportamentos estereotipados. No que tange à Educação Física, nota-se grande influência da Indústria Cultural na determinação dos valores ideais atribuídos ao corpo na atualidade. Neste contexto, a proposta do presente artigo foi de contribuir para a compreensão e aplicação dos elementos articuladores para a disciplina de Educação Física, mais especificamente o elemento articulador “Cultura Corporal e Mídia”. Foi discutido possíveis formas de se abordar a relação entre o corpo e a mídia. Para tanto, utilizou-se para a compreensão crítica dos processos midiáticos na atualidade, o conceito de Indústria Cultural formulado por Adorno e Horkheimer. Esse pressuposto teórico permite ao educador um enriquecimento de sua atuação pedagógica para a intervenção nos conteúdos da cultura corporal estereotipada socialmente disseminada.Dentre os resultados obtidos percebeu-se que no trabalho pedagógico com nossos alunos, faz-se necessário uma discussão sobre os mecanismos que o todo instante determinam valores e impõem significados ideológicos às práticas corporais. PALAVRAS-CHAVE: Indústria Cultural; Formação; Cultura Corporal. EDUCACIÓN DEL CUERPO EN LA SOCIEDAD DE LOS MEDIOS DE COMUNICACIÓN Y LA EMANCIPACIÓN RESUMEN: La escuela se enfrenta cada vez más con el poder de los medios de comunicación, que a través de la fantasía y el ámbito técnico, y golpea la conciencia maneja, inculcados comportamientos estereotipados. En lo que respecta a la educación física, hay una gran influencia de la industria cultural en la determinación de los valores asignados ideal para el cuerpo en el presente. En este contexto, la propuesta de este artículo es contribuir a la comprensión y la aplicación de los elementos articuladores de la disciplina de Fitness, más concretamente, el elemento articulador "Cultura Del Cuerpo y Medios de Comunicación." Se examinaron las posibles formas de abordar el vínculo entre el cuerpo y los medios de comunicación. Para ello, se utilizó para la comprensión crítica de los procesos en los medios de comunicación el día de hoy, el concepto de industria cultural formulada por Adorno y Horkheimer. Este supuesto teórico permite al educador un factor de enriquecimiento de su función educativa para la intervención en el contenido de la cultura esteretipada del cuerpo socialmente generalizada. Entre los logros se dieron cuenta de que el trabajo pedagógico con nuestros alumnos, es necesario examinar los mecanismos que determinan todo el tiempo imponer valores y significados ideológicos de las prácticas corporales. PALABRAS CLAVE: Industria Cultural; Formación; Cultural Del Cuerpo. 2 1. INTRODUÇÃO A escola tem enfrentado muitas dificuldades ao se deparar com o poder da mídia que, através da fantasia e do domínio técnico, atinge e manipula as consciências, inculcando comportamentos estereotipados. Esse processo ideológico tem dificultado em muito a formação de sujeitos que compreendam criticamente a realidade social. No que tange à Educação Física, nota-se grande influência da mídia na determinação dos valores idealizados atribuídos ao corpo na atualidade. De acordo com Taborda (2000, p. 19), a Indústria Cultural tem influenciado de forma intensa e orientado muitas práticas escolares na Educação Física, dificultando o desenvolvimento de um trabalho pedagógico que se pretenda crítico e que resista às imposições autoritárias da cultura instrumentalizada. Para efetivar uma prática pedagógica em prol da superação do senso comum, é preciso uma formação educacional que garanta aos professores e alunos o discernimento do viés mercadológico e ideológico por detrás das tramas midiáticas. A apropriação dos meios tecnológicos, para Belloni (2001), por parte dos educadores, pode favorecer uma proposta educacional que vise a reflexão e autonomia para os educandos. O trabalho pedagógico nas aulas de Educação Física pode ser enriquecido, se o educador propiciar uma discussão sobre os mecanismos que a todo instante determinam valores e impõem significados ideológicos às práticas corporais. A intervenção crítica do educador é de suma importância para desmistificar as relações sociais que se sustentam por detrás da ideologia e idolatria do corpo perfeito. É necessário problematizar em nossas aulas os rumos de uma mídia que a todo instante impõe um verdadeiro bombardeio de imagens e sons, produzindo na consciência de nossos alunos (e de nós educadores) aquilo que Betti (1998) denomina de fetiche da espetacularização do esporte e a criação artificial dos ídolos produzidos pela mercantilização da cultura desportiva. 3 As Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná (2008) para a disciplina de Educação Física, propõem que os conteúdos estruturantes (esporte, ginástica, dança, lutas e jogos) sejam trabalhados juntamente com os elementos articuladores. Esses elementos visam relacionar os conteúdos específicos da área com questões que proporcionem uma compreensão da cultura corporal relacionada a uma realidade social mais ampla. Nesse sentido, a proposta do projeto de intervenção pedagógica foi de contribuir para a compreensão e aplicação dos elementos articuladores presentes nas Diretrizes Curriculares (2008) para a disciplina de Educação Física, mais especificamente o elemento articulador “Cultura Corporal e Mídia”. Pretende-se discutir as possíveis formas de se abordar a relação entre o corpo e a mídia. Para tanto, crê-se fundamental uma compreensão crítica dos processos midiáticos na atualidade, sobretudo a partir do conceito de Indústria Cultural formulado por Adorno e Horkheimer, no livro A Dialética do Esclarecimento. A escolha dessa temática ocorreu em virtude do estudo que desenvolvi em minha dissertação de mestrado, concluída em 2005. No referido trabalho (DELCONTI, 2005), tive a oportunidade de estudar a categoria Indústria Cultural formulada pelos filósofos da Escola de Frankfurt com a finalidade de discutir o empobrecimento do processo de formação estética/educacional na atualidade. A partir de todo percurso teórico realizado, pretendo agora aplicar o conceito de Indústria Cultural para uma análise específica na área da Educação Física escolar. Essa discussão vai ao encontro da proposta das Diretrizes Curriculares (2008), quando apresenta a articulação entre cultura corporal e mídia. Valendo-se desse processo para desenvolver atividades práticas que possam contribuir para a compreensão dos mecanismos midiáticos que interferem na concepção de corpo/corporeidade estereotipado. A proposta metodológica deste trabalho procura contribuir para ampliar a capacidade de compreensão crítica da realidade social por parte do educador. O pressuposto teórico estabelecido pela Escola de Frankfurt através de uma Teoria 4 Crítica da sociedade possibilita compreender os mecanismos ideológicos que perpassam a massificação da cultura na atualidade. Esse pressuposto teórico viabiliza ao educador instrumentalizar-se no sentido de enriquecer sua atuação pedagógica para a intervenção nos conteúdos da cultura corporal estereotipada socialmente disseminada. Essa cultura que o aluno traz para a escola em sala de aula deve ser compreendida e problematizada. Na primeira parte deste trabalho, são discutidos os conceitos de Indústria Cultural, relacionando-o com os conceitos de Ideologia e Estereótipo. Esse texto traz o embasamento teórico da proposta aplicada aos professores de Educação Física, na busca de uma compreensão mais aprofundada das atividades práticas realizadas, a partir da análise da relação entre a cultura corporal e os estereótipos midiáticos. Em seguida são apresentadas algumas das possíveis formas de se abordar a relação entre o corpo e a mídia, a partir do referencial teórico estudado. Nesse sentido, apresentamos um relato geral das atividades realizadas seguido da apresentação de duas propostas efetivadas junto aos professores. A primeira refere-se a uma análise e discussão de imagens publicitárias. E na segunda são analisadas as filmagens dos jogos cooperativos e dramáticos aplicados junto aos alunos da 6ª série do ensino fundamental do colégio. 5 2. INDÚSTRIA CULTURAL E FORMAÇÃO A sociedade capitalista, a partir principalmente da Revolução Industrial incentivou o conhecimento científico, porém privilegiou um determinado tipo de conhecimento: aquele que possibilitasse o avanço e a reprodução da economia industrial. Instaurou-se assim no plano do conhecimento o pragmatismo e o utilitarismo, ou seja, o incentivo ao conhecimento canalizado para o aumento e melhoria do processo produtivo. Esse processo resultou em um avanço tecnológico e científico, que nos dias de hoje experimenta-se uma sociedade regida pela máquina, em que os elementos da administração e burocratização extrapolam a esfera produtiva e acabam envolvendo amplos setores da vida humana (FABIANO, 1999). Se o conhecimento possibilitou ao homem um domínio cada vez maior do mundo natural, ao mesmo tempo passou a ser utilizado com objetivo ideológico de perpetuação da sociedade burguesa, visando a exploração e a sujeição do próprio homem. A sociedade industrial, além de explorar o trabalhador no próprio ambiente produtivo, produziu um tipo de cultura em grande escala e com finalidades adaptativas, visando preencher e administrar o seu tempo livre voltado à produção. Ao instrumentalizar o conhecimento, essa forma de organização social não fez outra coisa senão adaptar a cultura do espírito aos seus interesses mercantis (FABIANO, 1999). Nesse ambiente social de supremacia do controle produtivo e desgaste não apenas físico, mas também mental do trabalhador, o nível de um investimento cultural mais consistente perdeu a função diante do pragmatismo cultural voltado à produção. Como resposta a grande massa que se avolumava nos centros produtivos industriais, o investimento cultural assume a função de distração e entretenimento, integrando-se como lazer e consumo no ambiente da produção industrial que se afirmava social e economicamente definitiva. 6 O que viceja desse processo é uma cultura comprometida e cúmplice com os mecanismos ideológicos afirmativos da sociedade industrial. Ao elaborar uma crítica dos processos culturais na atualidade faz-se necessário a compreensão do conceito de Indústria Cultural. A Indústria Cultural parte de um contexto em que a cultura na sociedade industrial passou, como em todas as esferas da vida social, a ser pautada essencialmente pelo lucro, transformando-se também em mercadoria. A mercadoria refere-se aos produtos quando o processo produtivo é organizado por meio da troca. Todo produto é propriedade privada de agentes particulares, tem o seu valor que lhe é atribuído socialmente e pode ser trocado por outros produtos. A cultura sob o controle industrial e mercadológico sofreu um processo de massificação que muito se distancia daquela que representa uma expressão das massas populares. Oferece-se através da mídia um determinado tipo de cultura que é elaborado e imposto de forma autoritária, através de sistemas identificatórios e imediatistas (ADORNO, 1994). Assim, a programação em geral oferecida pela mídia, como por exemplo, a mídia impressa, as novelas televisivas, filmes de linhagem comercial, programas de auditório, programações musicais de sucesso induzido, enfim, todo esse aparato informativo a que se denomina de indústria cultural, tem assumido comparativamente uma dimensão educacional significativa na formação cultural da sociedade contemporânea. Privilegiando o aperfeiçoamento técnico em detrimento dos conteúdos, que são repetitivos e esvaziados de um significado emancipador, a Indústria Cultural preconiza uma espécie de formação reduzida ao estereótipo e de simplificação dos valores e costumes. A tudo conferindo um ar de identidade e linearidade, a cultura do divertimento, pelo seu caráter autoritário, proporciona uma fuga da realidade perversa, conformando as consciências a uma naturalização da vida social. A concepção de cultura na sociedade industrial, conforme Fabiano (1999), se insere no âmbito de um conjunto ideológico que privilegia a sustentação de um sistema 7 social determinado, o capitalismo. É um enunciado que revela uma cultura comprometida com os mecanismos adaptativos e instrumentais gerados pelo desenvolvimento da sociedade industrial. Neste sentido, a Indústria Cultural se estrutura como uma espécie de cultura que é veiculada como um pacote que nivela a informação cultural, ocultando ou mascarando a possibilidade de apreensão objetiva das contradições sociais. Resultante desse tipo de (de) formação cultural, o imaginário social compromete-se com os apelos veiculados pela mídia (produtos da indústria cultural) debilitando a constituição da subjetividade que assim se submete à administração ideologizada (FABIANO, 1999). Todo este processo toma uma conotação ditatorial, através do controle opressivo e da dominação. Ele é imposto, quase sem a possibilidade de resistência ou questionamento, pois o sujeito vai gradativamente sendo minado no seu poder de compreensão objetiva da realidade social. O sujeito vai se fragmentando de tal forma que acaba sendo atrelado às táticas que fomentam o individualismo como sustentação do sistema social. Ele assume como individualidade a hegemonia ideológica do pensamento dominante. O impacto produzido no sujeito pela programação televisiva como também pela manipulação imposta pela Indústria Cultural como um todo, faz com que ele passe a aceitar como natural, o processo social de exclusão. Outra intenção desse aglomerado cultural oferecido pela mídia é abaixar (limitar) o nível de exigência cultural do indivíduo ao nível da semicultura (Halbbildung). Na acepção adorniana, a semicultura não possibilita uma formação consistente culturalmente. Ela descaracteriza uma formação cultural que possibilite o pensamento reflexivo e com isso, a possibilidade de práticas sociais emancipatórias. Esse tipo de cultura compromete o processo civilizatório de formação cultural. O que viceja deste processo é uma concepção de cultura como mera conformação e adaptação do sujeito à realidade. A lógica cultural pragmática acaba “por convergir naquilo que Adorno chamou de semicultura, ou seja, a difusão de uma produção 8 simbólica onde predomina a dimensão instrumental voltada para a adaptação e o conformismo, subjugando a dimensão emancipatória que se encontra ‘travada’, porém não desaparecida” (PUCCI, 1999, p. 58). Em sentido oposto a uma formação cultural consistente, a perspectiva de uma cultura pela metade ou semicultura, inviabiliza a possibilidade do sujeito constituir-se através da formação cultural. Esse projeto cultural alienante visa perpetuar a sociedade burguesa. Com o nível cultural cada vez mais empobrecido o poder capitalista cria o sujeito ideológico de que necessita para manter seus interesses econômicos. A banalização cultural limita o nível de exigência cultural do indivíduo. Na acepção adorniana, “a formação cultural agora se converte em uma semiformação socializada, na onipresença do espírito alienado, que, segundo sua gênese e seu sentido, não antecede à formação cultural, mas a sucede. Deste modo, tudo fica aprisionado nas malhas da socialização” (ADORNO, 1996, p. 389). Com isso o processo de semiformação cultural inviabiliza o exercício do pensamento reflexivo, bem como desestimula práticas sociais emancipatórias. Esse tipo de cultura descaracteriza o processo civilizatório inerente ao processo de formação cultural. Ao nivelar e banalizar os processos de produção e veiculação de uma cultura mais consistente, a indústria cultural deturpa as possibilidades da apreensão objetiva das contradições sociais. A desarticulação de uma cultura com mais consistência, fragiliza o indivíduo em sua formação cultural, favorecendo um processo de aculturação administrado ideologicamente. Ao contrário, o pensamento reflexivo é possibilitado por uma formação cultural, decorrente de um contexto educacional crítico e responsável. Educar, nesta perspectiva, é possibilitar ao indivíduo a percepção dos pilares que sustentam a estrutura social. Essa concepção de educação leva o indivíduo a compreender as determinantes que estão constituindo e determinando a atual forma de sociedade. A essa possibilidade formativa é conferido um caráter emancipatório. 9 3. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS A partir das considerações teóricas que fundamentam o eixo de reflexão desse projeto será feito um relato das atividades práticas desenvolvidas no ambiente escolar. Nessa etapa serão apresentados os resultados e as circunstâncias da intervenção pedagógica no que se refere à metodologia utilizada para a sua realização. Em seguida, o texto aborda a discussão efetivada junto aos professores na análise de imagens publicitárias nas quais alguns mecanismos ideológicos da Indústria Cultural puderam ser abordados. Por fim será tratado sobre a proposta dos jogos cooperativos e dramáticos, aplicada junto aos alunos da sexta série do ensino fundamental, que foram posteriormente analisadas com o corpo docente. 3.1. Atividades Desenvolvidas Primeiramente o projeto foi apresentado e discutido com a equipe pedagógica, juntamente com os professores do Colégio Estadual Tânia Varella Ferreira, na cidade de Maringá. Nessa reunião foi apresentada a proposta do projeto e estabelecido um cronograma para aplicação. De acordo com a proposta aprovada, optou-se pela realização de três encontros de 4 horas/aula com os professores de Educação Física, com a participação de uma professora da equipe pedagógica e de uma funcionária da secretaria. As aulas práticas previstas, no total de 6 horas/aula, foram realizadas para 25 alunos da 6ª série do período da manhã no contra-turno escolar. No primeiro encontro com os professores o proponente do projeto realizou uma exposição teórica detalhando a proposta de intervenção pedagógica. Em um segundo momento foi feito uma retomada do conceito de Cultura Corporal dentro da proposta das Diretrizes Curriculares (2008) para a disciplina de Educação Física. 10 Houve uma especial ênfase na discussão de uma proposta de ensino da Educação Física que não se restrinja simplesmente a execução do gesto técnico, mas como possibilidade de compreensão da realidade social, através dos elementos da cultura corporal construídos historicamente. Na aplicação das atividades junto aos alunos, foram realizados três encontros no contra turno escolar. Nas duas primeiras aulas foram aplicadas atividades relacionadas aos jogos cooperativos e jogos dramáticos, tais como: recorte e colagem; brincadeiras e jogos; expressão corporal e teatralização. Na terceira aula foram filmadas as atividades das aulas anteriores, colhendo relatos de alguns alunos sobre as experiências corporais realizadas. Esses relatos foram problematizados junto ao grupo. No segundo encontro com os professores foi discutido sobre a Indústria Cultural e sua influência no processo formativo. Nesse encontro foi trabalhada a análise teórica realizada na Produção Didático-Pedagógica, que consta no segundo tópico deste artigo. A proposta foi discutir o conceito de Indústria Cultural, relacionando-o com os conceitos de Ideologia e Estereótipo. A discussão desses temas procurou subsidiar uma compreensão mais aprofundada das atividades práticas que relacionaram a cultura corporal e a mídia. O encontro contou com a participação do professor doutor Luiz Hermenegildo Fabiano (UEM), orientador do projeto, que fez uma exposição sobre a fundamentação teórica da Indústria Cultural. Na segunda etapa do encontro o professor PDE fez uma exposição teórica sobre os temas: “Ideologia e Sociedade de Consumo”; e “Estereótipo e Imaginário Social”. A ideologia, de acordo com os teóricos frankfurtianos não somente se restringe às idéias impostas pela classe dominante, mas se constitui de uma falsa experiência social para o indivíduo, sobretudo quando esse passa a incorporar padrões de comportamento estereotipados. Pôde-se verificar como a mídia a todo instante procura determinar os valores sociais atribuídos ao corpo. E como os estereótipos estão associados a práticas discriminatórias tidas pela sociedade com naturais. 11 No terceiro encontro com os professores foi apresentado na primeira parte uma montagem de slides com imagens publicitárias, analisando alguns mecanismos da Indústria Cultural para a criação do consumismo artificial e dos processos ideológicos a ele subjacentes. Na segunda etapa do encontro, o professor PDE apresentou a fundamentação teórica sobre jogos cooperativos e jogos dramáticos. Em seguida foram assistidos os vídeos das atividades ministradas aos alunos. Cada vídeo selecionado, constando entre 1 e 2 minutos foi apresentado, fazendo referência ao material teórico estudado, bem como as relações com a questão da mídia. Os professores participaram das discussões e sugeriram outras atividades. No final do encontro o professor PDE passou um questionário para cada participante avaliar o projeto de intervenção. As duas propostas trabalhadas nesse último encontro serão em seguida apresentadas de forma mais detalhada, enfatizando o referencial teórico utilizado, bem como apresentando os resultados obtidos na implementação das propostas. 3.2. A análise das imagens publicitárias A apresentação constou com imagens de anúncios publicitários de vários produtos tais como: creme para pele, xampu, margarina, cerveja, chocolate, desodorante masculino, roupas, carros, motos, colchões, produtos de limpeza, entre outros. Entre os slides foi apresentado o referencial teórico para a análise. A estética dos slides foi criada da seguinte forma: Um enunciado apresentando um produto X com uma imagem publicitária correspondente. Um panorama geral das imagens apresentadas demonstrou forte apelo erótico, onde mulheres e homens de corpos belos e atraentes (modelos e artistas de TV) posam de forma sensual. Assim, a modelo X apresenta o xampu que promete deixar a consumidora tão bela quanto ela. O desodorante Y trará ao consumidor a atração de 12 inúmeras mulheres. A compra do carro trará o poder do herói do seriado americano de sucesso. A propaganda não se restringe a apontar os benefícios de determinado produto, mas associá-lo a uma forma de poder e status incorporando artificialmente valores simbólicos imaginários a esses produtos. O desejo erótico incitado no consumidor, poderá ser satisfeito com a compra do produto anunciado. Ao comprar o produto X, por exemplo, existe a ilusão da aquisição do corpo escultural que anuncia tal produto. Essas artimanhas de sedução utilizadas exaustivamente pela Indústria Cultural demonstram a força da mensagem publicitária e seu impacto na mente dos consumidores para aderirem voluntariamente aos seus apelos. A mesma indústria que oferece o chocolate irresistível e a cerveja mais saborosa do mundo, determina como uma ordenança a busca de um corpo perfeito nas academias de fitness e através da ingestão de alimentos e medicamentos apropriados. Ao mesmo tempo que vendem seus produtos, determinam valores idealizados atribuídos ao corpo e às práticas corporais. O indivíduo que apresenta um comportamento não condizente com os padrões sociais (de beleza, de corpo, de status) logo é enquadrado em um estereótipo. Quando o tipo de comportamento ou de corpo apresenta divergência aos padrões estabelecidos, um estigma é conferido ao indivíduo. O novo produto tido como a nova grande novidade no sistema, longe de conduzir a uma lógica de questionamento responsável sobre suas conseqüências, se reduz à criação da mais nova mercadoria. A mercadoria confere a si mesma o poder de resolução de inúmeros problemas (tudo é claro, dentro dos mais altíssimos padrões de tecnologia, higiene e segurança). A partir das apresentações, foram discutidos vários exemplos do dia a dia das aulas de Educação Física e do colégio como um todo em que os professores se deparam com situações relacionadas ao erotismo precoce, obesidade, desinteresse pela atividade física, idolatria aos ídolos esportivos, entre outros. 13 3.3. A análise dos jogos cooperativos e dramáticos A ludicidade presente nos jogos cooperativos favorece um clima de maior liberdade no relacionamento com o outro, buscando experiências de rompimento com o individualismo incutido ideologicamente. O contato com o outro através dos jogos cooperativos, pode criar momentos importantes de se discutir a competitividade exagerada onde o outro é considerado adversário. Os jogos cooperativos trazem a idéia de cooperar um com o outro e acaba possibilitando outras formar de relacionamento para além da competição imposta pelo senso comum. Muitas vezes o próprio corpo é considerado adversário, uma vez que a todo instante é preciso lutar para superação dos próprios limites no esporte de alto rendimento. É importante favorecer uma série de experiências lúdicas que possibilite a todos os envolvidos a reflexão sobre nossa relação com nós mesmos e com os outros (ALMEIDA, 2003). No que se refere aos jogos dramáticos, verificou-se que eles possibilitam diversas formas de representação dos papéis socialmente determinados. Podem trazer experiências no sentido de uma maior compreensão do próprio corpo e de suas condicionantes sociais. Se nos jogos cooperativos foi enfatizado atividades de socialização, procurou-se nas atividades dramáticas desenvolvidas que os alunos tivessem experiências de corpos em confronto. Por exemplo, uma das atividades realizadas foi essa: os alunos ficaram em duas fileiras, sendo que a primeira era representada pelo “opressor” e a segunda pelo “oprimido”. O opressor autoritário tinha que dar uma bronca “pesada” no oprimido. Em seguida os papéis eram trocados. O professor discute ao final da atividade como o aluno se sentiu em cada papel representado. A atividade sofre variações, sempre estabelecendo um papel representando o opressor e o oprimido. Em outra atividade de dramatização os alunos deveriam visitar prisioneiros (representados por 6 alunos) que haviam cometido crimes terríveis. Sem fala, toda expressão deveria ser corporal e principalmente através do olhar. Todos os alunos passam pelos diferentes papéis e ao final se destaca o que cada um sentiu e como essas situações ocorrem na família, na escola, na comunidade e na mídia. 14 Os jogos dramáticos apresentam uma grande riqueza para a discussão de inúmeros temas, entre eles os processos de violência social contra mulheres, jovens e crianças. Podem ainda ser dramatizados a partir de temas como as drogas, a violência policial, o racismo, entre outros. A partir das atividades, o grupo discutiu uma série de estereótipos sociais e preconceitos. Esses elementos são problemas que todos os professores enfrentam no seu dia a dia em sala de aula. Verificou-se que através dos jogos cooperativos e dramáticos o professor pode possibilitar discussões importantes junto aos alunos no sentido de se compreender e combater práticas preconceituosas e discriminatórias. 4. CONCLUSÃO O estudo sobre a Indústria Cultural contribuiu para uma compreensão mais ampla da relação entre a Cultura Corporal e a Mídia na atualidade. Para um trabalho pedagógico na disciplina de Educação Física é importante levar em consideração os mecanismos ideológicos impostos socialmente e que determinam idealizações do corpo. Na aplicação da proposta junto aos professores, o estudo sobre os processos midiáticos da sociedade de consumo atual contribuiu para uma percepção mais aguçada sobre a influência da Indústria Cultural nos modelos vigentes de estereotipia corporal. Houve bastante interesse pela temática parte dos professores, que avaliaram o projeto de maneira muito positiva, ressaltando sua contribuição para o processo formativo. A discussão proposta foi oportuna, pois enfatizou a importância de um enfrentamento diante do processo formativo atual, que se depara com sujeitos com dificuldades de compreensão crítica, uma vez que estão habituados a um entendimento facilitado pela produção cultural de massa. Nesse aspecto, existe a necessidade de incentivar práticas pedagógicas que amadureçam formas de intervenção política na sociedade, almejando a busca da autonomia do indivíduo para a superação das condições objetivas do presente. 15 5. REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS ADORNO, Theodor W. Theodor Adorno. (Sociologia). Organizado por Gabriel Cohn Tradução de Flávio Kothe et alii. São Paulo: Ática, 1994. ADORNO, Theodor W. Teoria da semicultura. 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