EDUCAÇÃO DO CORPO NA SOCIEDADE MIDIÁTICA E EMANCIPAÇÃO
Wesley Luiz Delconti
Luiz Hermenegildo Fabiano
RESUMO: A escola se depara cada vez mais com o poder da mídia, que através da
fantasia e do domínio técnico, atinge e manipula as consciências, inculcando
comportamentos estereotipados. No que tange à Educação Física, nota-se grande
influência da Indústria Cultural na determinação dos valores ideais atribuídos ao
corpo na atualidade. Neste contexto, a proposta do presente artigo foi de contribuir
para a compreensão e aplicação dos elementos articuladores para a disciplina de
Educação Física, mais especificamente o elemento articulador “Cultura Corporal e
Mídia”. Foi discutido possíveis formas de se abordar a relação entre o corpo e a
mídia. Para tanto, utilizou-se para a compreensão crítica dos processos midiáticos
na atualidade, o conceito de Indústria Cultural formulado por Adorno e Horkheimer.
Esse pressuposto teórico permite ao educador um enriquecimento de sua atuação
pedagógica para a intervenção nos conteúdos da cultura corporal estereotipada
socialmente disseminada.Dentre os resultados obtidos percebeu-se que no trabalho
pedagógico com nossos alunos, faz-se necessário uma discussão sobre os
mecanismos que o todo instante determinam valores e impõem significados
ideológicos às práticas corporais.
PALAVRAS-CHAVE: Indústria Cultural; Formação; Cultura Corporal.
EDUCACIÓN DEL CUERPO EN LA SOCIEDAD DE LOS MEDIOS DE
COMUNICACIÓN Y LA EMANCIPACIÓN
RESUMEN: La escuela se enfrenta cada vez más con el poder de los medios de
comunicación, que a través de la fantasía y el ámbito técnico, y golpea la conciencia
maneja, inculcados comportamientos estereotipados. En lo que respecta a la
educación física, hay una gran influencia de la industria cultural en la determinación
de los valores asignados ideal para el cuerpo en el presente. En este contexto, la
propuesta de este artículo es contribuir a la comprensión y la aplicación de los
elementos articuladores de la disciplina de Fitness, más concretamente, el elemento
articulador "Cultura Del Cuerpo y Medios de Comunicación." Se examinaron las
posibles formas de abordar el vínculo entre el cuerpo y los medios de comunicación.
Para ello, se utilizó para la comprensión crítica de los procesos en los medios de
comunicación el día de hoy, el concepto de industria cultural formulada por Adorno y
Horkheimer. Este supuesto teórico permite al educador un factor de enriquecimiento
de su función educativa para la intervención en el contenido de la cultura
esteretipada del cuerpo socialmente generalizada. Entre los logros se dieron cuenta
de que el trabajo pedagógico con nuestros alumnos, es necesario examinar los
mecanismos que determinan todo el tiempo imponer valores y significados
ideológicos de las prácticas corporales.
PALABRAS CLAVE: Industria Cultural; Formación; Cultural Del Cuerpo.
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1. INTRODUÇÃO
A escola tem enfrentado muitas dificuldades ao se deparar com o poder da mídia
que, através da fantasia e do domínio técnico, atinge e manipula as consciências,
inculcando
comportamentos
estereotipados.
Esse
processo
ideológico
tem
dificultado em muito a formação de sujeitos que compreendam criticamente a
realidade social.
No que tange à Educação Física, nota-se grande influência da mídia na
determinação dos valores idealizados atribuídos ao corpo na atualidade. De acordo
com Taborda (2000, p. 19), a Indústria Cultural tem influenciado de forma intensa e
orientado
muitas
práticas
escolares
na
Educação
Física,
dificultando
o
desenvolvimento de um trabalho pedagógico que se pretenda crítico e que resista às
imposições autoritárias da cultura instrumentalizada.
Para efetivar uma prática pedagógica em prol da superação do senso comum, é
preciso uma formação educacional que garanta aos professores e alunos o
discernimento do viés mercadológico e ideológico por detrás das tramas midiáticas.
A apropriação dos meios tecnológicos, para Belloni (2001), por parte dos
educadores, pode favorecer uma proposta educacional que vise a reflexão e
autonomia para os educandos.
O trabalho pedagógico nas aulas de Educação Física pode ser enriquecido, se o
educador propiciar uma discussão sobre os mecanismos que a todo instante
determinam valores e impõem significados ideológicos às práticas corporais. A
intervenção crítica do educador é de suma importância para desmistificar as
relações sociais que se sustentam por detrás da ideologia e idolatria do corpo
perfeito.
É necessário problematizar em nossas aulas os rumos de uma mídia que a todo
instante impõe um verdadeiro bombardeio de imagens e sons, produzindo na
consciência de nossos alunos (e de nós educadores) aquilo que Betti (1998)
denomina de fetiche da espetacularização do esporte e a criação artificial dos ídolos
produzidos pela mercantilização da cultura desportiva.
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As Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná (2008) para a disciplina de Educação
Física, propõem que os conteúdos estruturantes (esporte, ginástica, dança, lutas e
jogos) sejam trabalhados juntamente com os elementos articuladores. Esses
elementos visam relacionar os conteúdos específicos da área com questões que
proporcionem uma compreensão da cultura corporal relacionada a uma realidade
social mais ampla.
Nesse sentido, a proposta do projeto de intervenção pedagógica foi de contribuir
para a compreensão e aplicação dos elementos articuladores presentes nas
Diretrizes Curriculares (2008) para a disciplina de Educação Física, mais
especificamente o elemento articulador “Cultura Corporal e Mídia”.
Pretende-se discutir as possíveis formas de se abordar a relação entre o corpo e a
mídia. Para tanto, crê-se fundamental uma compreensão crítica dos processos
midiáticos na atualidade, sobretudo a partir do conceito de Indústria Cultural
formulado por Adorno e Horkheimer, no livro A Dialética do Esclarecimento.
A escolha dessa temática ocorreu em virtude do estudo que desenvolvi em minha
dissertação de mestrado, concluída em 2005. No referido trabalho (DELCONTI,
2005), tive a oportunidade de estudar a categoria Indústria Cultural formulada pelos
filósofos da Escola de Frankfurt com a finalidade de discutir o empobrecimento do
processo de formação estética/educacional na atualidade.
A partir de todo percurso teórico realizado, pretendo agora aplicar o conceito de
Indústria Cultural para uma análise específica na área da Educação Física escolar.
Essa discussão vai ao encontro da proposta das Diretrizes Curriculares (2008),
quando apresenta a articulação entre cultura corporal e mídia. Valendo-se desse
processo para desenvolver atividades práticas que possam contribuir para a
compreensão dos mecanismos midiáticos que interferem na concepção de
corpo/corporeidade estereotipado.
A proposta metodológica deste trabalho procura contribuir para ampliar a
capacidade de compreensão crítica da realidade social por parte do educador. O
pressuposto teórico estabelecido pela Escola de Frankfurt através de uma Teoria
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Crítica da sociedade possibilita compreender os mecanismos ideológicos que
perpassam a massificação da cultura na atualidade.
Esse pressuposto teórico viabiliza ao educador instrumentalizar-se no sentido de
enriquecer sua atuação pedagógica para a intervenção nos conteúdos da cultura
corporal estereotipada socialmente disseminada. Essa cultura que o aluno traz para
a escola em sala de aula deve ser compreendida e problematizada.
Na primeira parte deste trabalho, são discutidos os conceitos de Indústria Cultural,
relacionando-o com os conceitos de Ideologia e Estereótipo. Esse texto traz o
embasamento teórico da proposta aplicada aos professores de Educação Física, na
busca de uma compreensão mais aprofundada das atividades práticas realizadas, a
partir da análise da relação entre a cultura corporal e os estereótipos midiáticos.
Em seguida são apresentadas algumas das possíveis formas de se abordar a
relação entre o corpo e a mídia, a partir do referencial teórico estudado. Nesse
sentido, apresentamos um relato geral das atividades realizadas seguido da
apresentação de duas propostas efetivadas junto aos professores. A primeira
refere-se a uma análise e discussão de imagens publicitárias. E na segunda são
analisadas as filmagens dos jogos cooperativos e dramáticos aplicados junto aos
alunos da 6ª série do ensino fundamental do colégio.
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2. INDÚSTRIA CULTURAL E FORMAÇÃO
A sociedade capitalista, a partir principalmente da Revolução Industrial incentivou o
conhecimento científico, porém privilegiou um determinado tipo de conhecimento:
aquele que possibilitasse o avanço e a reprodução da economia industrial.
Instaurou-se assim no plano do conhecimento o pragmatismo e o utilitarismo, ou
seja, o incentivo ao conhecimento canalizado para o aumento e melhoria do
processo produtivo.
Esse processo resultou em um avanço tecnológico e científico, que nos dias de hoje
experimenta-se uma sociedade regida pela máquina, em que os elementos da
administração e burocratização extrapolam a esfera produtiva e acabam envolvendo
amplos setores da vida humana (FABIANO, 1999).
Se o conhecimento possibilitou ao homem um domínio cada vez maior do mundo
natural, ao mesmo tempo passou a ser utilizado com objetivo ideológico de
perpetuação da sociedade burguesa, visando a exploração e a sujeição do próprio
homem.
A sociedade industrial, além de explorar o trabalhador no próprio ambiente
produtivo, produziu um tipo de cultura em grande escala e com finalidades
adaptativas, visando preencher e administrar o seu tempo livre voltado à produção.
Ao instrumentalizar o conhecimento, essa forma de organização social não fez outra
coisa senão adaptar a cultura do espírito aos seus interesses mercantis (FABIANO,
1999).
Nesse ambiente social de supremacia do controle produtivo e desgaste não apenas
físico, mas também mental do trabalhador, o nível de um investimento cultural mais
consistente perdeu a função diante do pragmatismo cultural voltado à produção.
Como resposta a grande massa que se avolumava nos centros produtivos
industriais, o investimento cultural assume a função de distração e entretenimento,
integrando-se como lazer e consumo no ambiente da produção industrial que se
afirmava social e economicamente definitiva.
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O que viceja desse processo é uma cultura comprometida e cúmplice com os
mecanismos ideológicos afirmativos da sociedade industrial. Ao elaborar uma crítica
dos processos culturais na atualidade faz-se necessário a compreensão do conceito
de Indústria Cultural.
A Indústria Cultural parte de um contexto em que a cultura na sociedade industrial
passou, como em todas as esferas da vida social, a ser pautada essencialmente
pelo lucro, transformando-se também em mercadoria. A mercadoria refere-se aos
produtos quando o processo produtivo é organizado por meio da troca. Todo produto
é propriedade privada de agentes particulares, tem o seu valor que lhe é atribuído
socialmente e pode ser trocado por outros produtos.
A cultura sob o controle industrial e mercadológico sofreu um processo de
massificação que muito se distancia daquela que representa uma expressão das
massas populares. Oferece-se através da mídia um determinado tipo de cultura que
é elaborado e imposto de forma autoritária, através de sistemas identificatórios e
imediatistas (ADORNO, 1994).
Assim, a programação em geral oferecida pela mídia, como por exemplo, a mídia
impressa, as novelas televisivas, filmes de linhagem comercial, programas de
auditório, programações musicais de sucesso induzido, enfim, todo esse aparato
informativo
a
que
se
denomina
de
indústria
cultural,
tem
assumido
comparativamente uma dimensão educacional significativa na formação cultural da
sociedade contemporânea.
Privilegiando o aperfeiçoamento técnico em detrimento dos conteúdos, que são
repetitivos e esvaziados de um significado emancipador, a Indústria Cultural
preconiza uma espécie de formação reduzida ao estereótipo e de simplificação dos
valores e costumes. A tudo conferindo um ar de identidade e linearidade, a cultura
do divertimento, pelo seu caráter autoritário, proporciona uma fuga da realidade
perversa, conformando as consciências a uma naturalização da vida social.
A concepção de cultura na sociedade industrial, conforme Fabiano (1999), se insere
no âmbito de um conjunto ideológico que privilegia a sustentação de um sistema
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social determinado, o capitalismo. É um enunciado que revela uma cultura
comprometida com os mecanismos adaptativos e instrumentais gerados pelo
desenvolvimento da sociedade industrial.
Neste sentido, a Indústria Cultural se estrutura como uma espécie de cultura que é
veiculada como um pacote que nivela a informação cultural, ocultando ou
mascarando a possibilidade de apreensão objetiva das contradições sociais.
Resultante desse tipo de (de) formação cultural, o imaginário social compromete-se
com os apelos veiculados pela mídia (produtos da indústria cultural) debilitando a
constituição da subjetividade que assim se submete à administração ideologizada
(FABIANO, 1999).
Todo este processo toma uma conotação ditatorial, através do controle opressivo e
da dominação. Ele é imposto, quase sem a possibilidade de resistência ou
questionamento, pois o sujeito vai gradativamente sendo minado no seu poder de
compreensão objetiva da realidade social. O sujeito vai se fragmentando de tal
forma que acaba sendo atrelado às táticas que fomentam o individualismo como
sustentação do sistema social. Ele assume como individualidade a hegemonia
ideológica do pensamento dominante.
O impacto produzido no sujeito pela programação televisiva como também pela
manipulação imposta pela Indústria Cultural como um todo, faz com que ele passe a
aceitar como natural, o processo social de exclusão. Outra intenção desse
aglomerado cultural oferecido pela mídia é abaixar (limitar) o nível de exigência
cultural do indivíduo ao nível da semicultura (Halbbildung).
Na acepção adorniana, a semicultura não possibilita uma formação consistente
culturalmente. Ela descaracteriza uma formação cultural que possibilite o
pensamento reflexivo e com isso, a possibilidade de práticas sociais emancipatórias.
Esse tipo de cultura compromete o processo civilizatório de formação cultural. O
que viceja deste processo é uma concepção de cultura como mera conformação e
adaptação do sujeito à realidade. A lógica cultural pragmática acaba “por convergir
naquilo que Adorno chamou de semicultura, ou seja, a difusão de uma produção
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simbólica onde predomina a dimensão instrumental voltada para a adaptação e o
conformismo, subjugando a dimensão emancipatória que se encontra ‘travada’,
porém não desaparecida” (PUCCI, 1999, p. 58).
Em sentido oposto a uma formação cultural consistente, a perspectiva de uma
cultura pela metade ou semicultura, inviabiliza a possibilidade do sujeito constituir-se
através da formação cultural. Esse projeto cultural alienante visa perpetuar a
sociedade burguesa. Com o nível cultural cada vez mais empobrecido o poder
capitalista cria o sujeito ideológico de que necessita para manter seus interesses
econômicos.
A banalização cultural limita o nível de exigência cultural do indivíduo. Na acepção
adorniana, “a formação cultural agora se converte em uma semiformação
socializada, na onipresença do espírito alienado, que, segundo sua gênese e seu
sentido, não antecede à formação cultural, mas a sucede. Deste modo, tudo fica
aprisionado nas malhas da socialização” (ADORNO, 1996, p. 389).
Com isso o processo de semiformação cultural inviabiliza o exercício do pensamento
reflexivo, bem como desestimula práticas sociais emancipatórias. Esse tipo de
cultura descaracteriza o processo civilizatório inerente ao processo de formação
cultural.
Ao nivelar e banalizar os processos de produção e veiculação de uma cultura mais
consistente, a indústria cultural deturpa as possibilidades da apreensão objetiva das
contradições sociais. A desarticulação de uma cultura com mais consistência,
fragiliza o indivíduo em sua formação cultural, favorecendo um processo de
aculturação administrado ideologicamente.
Ao contrário, o pensamento reflexivo é possibilitado por uma formação cultural,
decorrente de um contexto educacional crítico e responsável. Educar, nesta
perspectiva, é possibilitar ao indivíduo a percepção dos pilares que sustentam a
estrutura social. Essa concepção de educação leva o indivíduo a compreender as
determinantes que estão constituindo e determinando a atual forma de sociedade. A
essa possibilidade formativa é conferido um caráter emancipatório.
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3. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A partir das considerações teóricas que fundamentam o eixo de reflexão desse
projeto será feito um relato das atividades práticas desenvolvidas no ambiente
escolar. Nessa etapa serão apresentados os resultados e as circunstâncias da
intervenção pedagógica no que se refere à metodologia utilizada para a sua
realização.
Em seguida, o texto aborda a discussão efetivada junto aos professores na análise
de imagens publicitárias nas quais alguns mecanismos ideológicos da Indústria
Cultural puderam ser abordados. Por fim será tratado sobre a proposta dos jogos
cooperativos e dramáticos, aplicada junto aos alunos da sexta série do ensino
fundamental, que foram posteriormente analisadas com o corpo docente.
3.1.
Atividades Desenvolvidas
Primeiramente o projeto foi apresentado e discutido com a equipe pedagógica,
juntamente com os professores do Colégio Estadual Tânia Varella Ferreira, na
cidade de Maringá. Nessa reunião foi apresentada a proposta do projeto e
estabelecido um cronograma para aplicação.
De acordo com a proposta aprovada, optou-se pela realização de três encontros de
4 horas/aula com os professores de Educação Física, com a participação de uma
professora da equipe pedagógica e de uma funcionária da secretaria. As aulas
práticas previstas, no total de 6 horas/aula, foram realizadas para 25 alunos da 6ª
série do período da manhã no contra-turno escolar.
No primeiro encontro com os professores o proponente do projeto realizou uma
exposição teórica detalhando a proposta de intervenção pedagógica. Em um
segundo momento foi feito uma retomada do conceito de Cultura Corporal dentro da
proposta das Diretrizes Curriculares (2008) para a disciplina de Educação Física.
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Houve uma especial ênfase na discussão de uma proposta de ensino da Educação
Física que não se restrinja simplesmente a execução do gesto técnico, mas como
possibilidade de compreensão da realidade social, através dos elementos da cultura
corporal construídos historicamente.
Na aplicação das atividades junto aos alunos, foram realizados três encontros no
contra turno escolar. Nas duas primeiras aulas foram aplicadas atividades
relacionadas aos jogos cooperativos e jogos dramáticos, tais como: recorte e
colagem; brincadeiras e jogos; expressão corporal e teatralização. Na terceira aula
foram filmadas as atividades das aulas anteriores, colhendo relatos de alguns alunos
sobre as experiências corporais realizadas. Esses relatos foram problematizados
junto ao grupo.
No segundo encontro com os professores foi discutido sobre a Indústria Cultural e
sua influência no processo formativo. Nesse encontro foi trabalhada a análise teórica
realizada na Produção Didático-Pedagógica, que consta no segundo tópico deste
artigo.
A proposta foi discutir o conceito de Indústria Cultural, relacionando-o com os
conceitos de Ideologia e Estereótipo. A discussão desses temas procurou subsidiar
uma compreensão mais aprofundada das atividades práticas que relacionaram a
cultura corporal e a mídia. O encontro contou com a participação do professor doutor
Luiz Hermenegildo Fabiano (UEM), orientador do projeto, que fez uma exposição
sobre a fundamentação teórica da Indústria Cultural.
Na segunda etapa do encontro o professor PDE fez uma exposição teórica sobre os
temas: “Ideologia e Sociedade de Consumo”; e “Estereótipo e Imaginário Social”. A
ideologia, de acordo com os teóricos frankfurtianos não somente se restringe às
idéias impostas pela classe dominante, mas se constitui de uma falsa experiência
social para o indivíduo, sobretudo quando esse passa a incorporar padrões de
comportamento estereotipados. Pôde-se verificar como a mídia a todo instante
procura determinar os valores sociais atribuídos ao corpo. E como os estereótipos
estão associados a práticas discriminatórias tidas pela sociedade com naturais.
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No terceiro encontro com os professores foi apresentado na primeira parte uma
montagem de slides com imagens publicitárias, analisando alguns mecanismos da
Indústria Cultural para a criação do consumismo artificial e dos processos
ideológicos a ele subjacentes.
Na segunda etapa do encontro, o professor PDE apresentou a fundamentação
teórica sobre jogos cooperativos e jogos dramáticos. Em seguida foram assistidos os
vídeos das atividades ministradas aos alunos. Cada vídeo selecionado, constando
entre 1 e 2 minutos foi apresentado, fazendo referência ao material teórico estudado,
bem como as relações com a questão da mídia. Os professores participaram das
discussões e sugeriram outras atividades. No final do encontro o professor PDE
passou um questionário para cada participante avaliar o projeto de intervenção.
As duas propostas trabalhadas nesse último encontro serão em seguida
apresentadas de forma mais detalhada, enfatizando o referencial teórico utilizado,
bem como apresentando os resultados obtidos na implementação das propostas.
3.2.
A análise das imagens publicitárias
A apresentação constou com imagens de anúncios publicitários de vários produtos
tais como: creme para pele, xampu, margarina, cerveja, chocolate, desodorante
masculino, roupas, carros, motos, colchões, produtos de limpeza, entre outros.
Entre os slides foi apresentado o referencial teórico para a análise. A estética dos
slides foi criada da seguinte forma: Um enunciado apresentando um produto X com
uma imagem publicitária correspondente.
Um panorama geral das imagens apresentadas demonstrou forte apelo erótico, onde
mulheres e homens de corpos belos e atraentes (modelos e artistas de TV) posam
de forma sensual. Assim, a modelo X apresenta o xampu que promete deixar a
consumidora tão bela quanto ela. O desodorante Y trará ao consumidor a atração de
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inúmeras mulheres. A compra do carro trará o poder do herói do seriado americano
de sucesso.
A propaganda não se restringe a apontar os benefícios de determinado produto, mas
associá-lo a uma forma de poder e status incorporando artificialmente valores
simbólicos imaginários a esses produtos. O desejo erótico incitado no consumidor,
poderá ser satisfeito com a compra do produto anunciado. Ao comprar o produto X,
por exemplo, existe a ilusão da aquisição do corpo escultural que anuncia tal
produto.
Essas artimanhas de sedução utilizadas exaustivamente pela Indústria Cultural
demonstram a força da mensagem publicitária e seu impacto na mente dos
consumidores para aderirem voluntariamente aos seus apelos.
A mesma indústria que oferece o chocolate irresistível e a cerveja mais saborosa do
mundo, determina como uma ordenança a busca de um corpo perfeito nas
academias de fitness e através da ingestão de alimentos e medicamentos
apropriados. Ao mesmo tempo que vendem seus produtos, determinam valores
idealizados atribuídos ao corpo e às práticas corporais.
O indivíduo que apresenta um comportamento não condizente com os padrões
sociais (de beleza, de corpo, de status) logo é enquadrado em um estereótipo.
Quando o tipo de comportamento ou de corpo apresenta divergência aos padrões
estabelecidos, um estigma é conferido ao indivíduo.
O novo produto tido como a nova grande novidade no sistema, longe de conduzir a
uma lógica de questionamento responsável sobre suas conseqüências, se reduz à
criação da mais nova mercadoria. A mercadoria confere a si mesma o poder de
resolução de inúmeros problemas (tudo é claro, dentro dos mais altíssimos padrões
de tecnologia, higiene e segurança).
A partir das apresentações, foram discutidos vários exemplos do dia a dia das aulas
de Educação Física e do colégio como um todo em que os professores se deparam
com situações relacionadas ao erotismo precoce, obesidade, desinteresse pela
atividade física, idolatria aos ídolos esportivos, entre outros.
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3.3.
A análise dos jogos cooperativos e dramáticos
A ludicidade presente nos jogos cooperativos favorece um clima de maior liberdade
no relacionamento com o outro, buscando experiências de rompimento com o
individualismo incutido ideologicamente. O contato com o outro através dos
jogos cooperativos,
pode
criar
momentos
importantes
de
se
discutir
a
competitividade exagerada onde o outro é considerado adversário.
Os jogos cooperativos trazem a idéia de cooperar um com o outro e acaba
possibilitando outras formar de relacionamento para além da competição imposta
pelo senso comum. Muitas vezes o próprio corpo é considerado adversário, uma vez
que a todo instante é preciso lutar para superação dos próprios limites no esporte de
alto rendimento. É importante favorecer uma série de experiências lúdicas que
possibilite a todos os envolvidos a reflexão sobre nossa relação com nós mesmos e
com os outros (ALMEIDA, 2003).
No que se refere aos jogos dramáticos, verificou-se que eles possibilitam diversas
formas de representação dos papéis socialmente determinados. Podem trazer
experiências no sentido de uma maior compreensão do próprio corpo e de suas
condicionantes sociais.
Se nos jogos cooperativos foi enfatizado atividades de socialização, procurou-se nas
atividades dramáticas desenvolvidas que os alunos tivessem experiências de corpos
em confronto. Por exemplo, uma das atividades realizadas foi essa: os alunos
ficaram em duas fileiras, sendo que a primeira era representada pelo “opressor” e a
segunda pelo “oprimido”. O opressor autoritário tinha que dar uma bronca “pesada”
no oprimido. Em seguida os papéis eram trocados. O professor discute ao final da
atividade como o aluno se sentiu em cada papel representado. A atividade sofre
variações, sempre estabelecendo um papel representando o opressor e o oprimido.
Em outra atividade de dramatização os alunos deveriam visitar prisioneiros
(representados por 6 alunos) que haviam cometido crimes terríveis. Sem fala, toda
expressão deveria ser corporal e principalmente através do olhar. Todos os alunos
passam pelos diferentes papéis e ao final se destaca o que cada um sentiu e como
essas situações ocorrem na família, na escola, na comunidade e na mídia.
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Os jogos dramáticos apresentam uma grande riqueza para a discussão de inúmeros
temas, entre eles os processos de violência social contra mulheres, jovens e
crianças. Podem ainda ser dramatizados a partir de temas como as drogas, a
violência policial, o racismo, entre outros.
A partir das atividades, o grupo discutiu uma série de estereótipos sociais e
preconceitos. Esses elementos são problemas que todos os professores enfrentam
no seu dia a dia em sala de aula. Verificou-se que através dos jogos cooperativos e
dramáticos o professor pode possibilitar discussões importantes junto aos alunos no
sentido de se compreender e combater práticas preconceituosas e discriminatórias.
4. CONCLUSÃO
O estudo sobre a Indústria Cultural contribuiu para uma compreensão mais ampla da
relação entre a Cultura Corporal e a Mídia na atualidade. Para um trabalho
pedagógico na disciplina de Educação Física é importante levar em consideração os
mecanismos ideológicos impostos socialmente e que determinam idealizações do
corpo.
Na aplicação da proposta junto aos professores, o estudo sobre os processos
midiáticos da sociedade de consumo atual contribuiu para uma percepção mais
aguçada sobre a influência da Indústria Cultural nos modelos vigentes de
estereotipia corporal. Houve bastante interesse pela temática parte dos professores,
que avaliaram o projeto de maneira muito positiva, ressaltando sua contribuição para
o processo formativo.
A discussão proposta foi oportuna, pois enfatizou a importância de um
enfrentamento diante do processo formativo atual, que se depara com sujeitos com
dificuldades de compreensão crítica, uma vez que estão habituados a um
entendimento facilitado pela produção cultural de massa. Nesse aspecto, existe a
necessidade de incentivar práticas pedagógicas que amadureçam formas de
intervenção política na sociedade, almejando a busca da autonomia do indivíduo
para a superação das condições objetivas do presente.
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