NEUROCIÊNCIA NA ESCOLA: UMA ABORDAGEM DIFERENCIADA PALHETA, Allan Marcos da Silva1; MACHADO, Caroline dos Santos1; SOARES, Chaiane Goulart1; STOLL, Franciele Elisa1; JASKULSKI, Itiane Barcellos1; LISBOA, Jéssica Teixeira Rodrigues1; SILVA, Adriana Lourenço da2; TAVARES, Rejane Giacomelli2; GAMARO, Giovana Duzzo2. 1 Discentes – Universidade Federal de Pelotas 2 Docentes – Universidade Federal de Pelotas 1- Introdução A necessidade de tornar os conteúdos científicos escolares dotados de significado, bem como de discutir o papel das ciências e das tecnologias na sociedade contemporânea, tornou-se uma questão das mais importantes no cenário educacional nas últimas décadas (LOPES, 1997; FOUREZ, 2002). A idéia de construção do processo de ensino-aprendizagem baseado no conhecimento prévio dos alunos, ao seguir os preceitos de Paulo Freire, defende uma relação dialógica entre educadores e educandos, daí sua defesa em prol da comunicação como ferramenta indispensável na educação. Utilizando a observação, elaboração de hipóteses e confrontação destas com dados obtidos pelos estudantes pode-se ajudar a construção individual e coletiva do conhecimento. Além de incentivar o prazer pelo conhecimento científico, este processo prepara o cidadão para uma visão crítica da realidade que o cerca e a busca de alternativas que possa contribuir para melhor a qualidade de vida da sociedade onde está inserido (PRAIA et al., 2002). Com o conhecimento sobre a neurociência do cotidiano e sobre como o cérebro funciona em nossas vidas, o estudo e a aprendizagem se tornam mais interessantes na escola. A neuro-aprendizagem tem foco capaz de informar, sensibilizar, mobilizar e, consequentemente, criar uma nova visão da aquisição do conhecimento e da cognição com pessoas comprometidas com o processo de aprendizagem do estudante (RACHID, 2012). Nas últimas décadas as neurociências têm sido matéria de grande revolução devido à introdução de novas técnicas e avançadas tecnologias, inclusive com os métodos de imagem para visualização do funcionamento neuronal. Estes avanços permitiram começar a compreender melhor o cérebro em condições normais e patológicas. A neurociência busca o conhecimento das funções cerebrais através da interdisciplinaridade. A neurociência tem demonstrado que o conhecimento e o aprendizado são dinâmicos e que estímulos externos aumentam a capacidade cognitiva, sendo importante em todo período escolar. A aprendizagem e cognição são as novas formas de conhecer, que tem como objetivo a fundamentação teórica que sirva de referencial para a contextualização do funcionamento do ciclo do aprendizado onde acontece o entender, o aprender e o fixar (RACHID, 2012). Ainda segundo o autor acima, quando nós entendemos as bases do aprendizado, como o cérebro forma conexões novas, forma as memórias, daí a importância da motivação para o desenvolvimento das habilidades. O desenvolvimento cognitivo e de habilidades fundamentais é imprescindível para o sucesso na vida escolar, profissional e pessoal. Contudo, recentes descobertas, mostram que esse modelo de educação está bem distante da realidade dos professores da rede de ensino fundamental e médio das escolas brasileiras, dessa maneira, faz-se urgente a inclusão deste tema na formação científica do educador e na vida do educando, buscando a relação entre a neuroplasticidade e os processos de aprendizado, com a finalidade de instrumentalizar o educador e melhorar a qualidade do aprendizado pelo aluno. A promoção da educação científica pode estimular um comportamento reflexivo, ativo e questionador dos alunos, contribuindo para o processo de construção de sua cidadania. Sendo assim, para Rachid (2012), a neuroeducação busca a possibilidade de promover intercâmbios teórico-metodológicos que levem a descobertas significativas para o entendimento de temas como desenvolvimento cognitivo, atenção, motivação, emoção, aprendizagem, memória e linguagem, estabelecendo reflexões sobre o aprender e a construção do conhecimento e propostas educacionais por meio de um olhar sinérgico em relação às neurociências. A atividade desenvolvida faz parte do Projeto de Extensão “Descobrindo a Ciência na Escola”, vinculado ao Programa Vizinhança da Universidade Federal de Pelotas – RS, que visa desenvolver junto aos alunos de da Escola Municipal Ferreira Viana atividades diferenciadas para o ensino de Ciências. Este trabalho é um relato de uma atividade pontual, realizada com alunos e a comunidade ao redor do Campus Porto, da Universidade Federal de Pelotas, sobre o tema de neurociência na escola, e teve como objetivo, trazer os conhecimentos neurocientíficos mais próximos da realidade escolar tornando-os mais atraentes para os estudantes e visando a participação dos mesmos nas atividades elaboradas. 2- Metodologia A metodologia se deu através da realização de uma atividade, que teve como público alvo a comunidade e os alunos da Escola Municipal Ferreira Vianna situada nas proximidades do atual do Campus Porto – UFPel/RS onde já são desenvolvidos projetos relacionados a atividades de ensino de ciências. A instituição de ensino possui a média de quinhentos setenta e cinco (575) alunos matriculados nas séries iniciais (pré-escola) ao ensino fundamental. A atividade foi constituída por apresentação de diversas atividades lúdicas por meio das quais eram introduzidos conceitos básicos de neurociência. As tarefas aplicadas foram: Teste de atenção, teste de palatabiliadade e indução, teste de sensibilidade/receptores do tato, enigma dos copos intercalados, teste do conflito de cores, teste da passagem seletiva, além da atividade “confundindo seu cérebro”. O teste de atenção foi constituído por um vídeo onde era apresentado um jogo de basquete. Antes do início do vídeo era realizada uma pergunta: “Quantos passes o time de branco realizava ao longo do jogo?”. Ao final do vídeo era realizada outra pergunta: “Se o aluno tinha percebido um macaco que passava no meio do jogo fazendo piruetas”. Este teste busca elucidar questões relacionadas à atenção direcionada do cérebro em relação a uma determinada tarefa que nos é proposta. O teste de palatabilidade e indução constituíram-se por oito copos disponíveis aos alunos, contendo solução de água e sacarose a 10%, pigmentadas com diferentes corantes alimentícios, aos quais correspondiam a sabores de sucos bastante usuais, nas colorações roxa, amarela, laranja, rosa, verde, lilás e vermelha. Também estava disponível aos alunos um copo contendo suco de laranja, a fim de induzir o indivíduo a determinar o sabor dos demais “sucos” experimentados. O objetivo deste teste era mostrar ao aluno, que a associação prévia entre cor e sabor, pode de certa forma, ludibriar o cérebro quando experimentam a solução com sacarose. A aplicação do teste de sensibilidade/receptores do tato consistia em vendar o participante e com uma caneta esferográfica marcar pontos nos membros superiores do participante, após isso, pedia-se ao participante, ainda vendado, que apontasse, com os dedos, o local mais próximo onde sentiu as marcações com a caneta, essa atividade permite demonstrar a presença abundante de receptores de tato na pele, o que possibilita o participante apontar, mesmo que não exatamente, o local dos toques com a caneta, vale ressaltar que os receptores de tato encontram-se em maior quantidade nos dedos em detrimento do braço e antebraço. O enigma dos copos intercalados detinha-se no desenvolvimento do raciocínio lógico. Dispostos sobre a mesa estavam doze copos em forma circular, onde seis deles estavam vazios e os demais preenchidos com solução pigmentada com corante. Os copos cheios estavam organizados no círculo lado a lado e os vazios da mesma forma. A proposta da atividade era alterar a organização dos copos no círculo, através de três movimentos deixando-os intercalados, sem modificar sua localização. A solução do enigma se dava por meio da transferência do líquido de três copos cheios para outros três copos vazios, sem de fato alterar a localização dos copos no círculo. O teste das cores, conhecido como “teste de Stroop”, é constituído por uma lista de palavras, cada uma com uma cor diferente. Em voz alta, apenas as cores deveriam ser ditas, gerando um conflito cerebral. O objetivo era, justamente, fazer com que o indivíduo percebesse esse conflito no cérebro, que é causado pelos hemisférios direito e esquerdo, pois o lado direito do nosso cérebro tenta nos dizer a cor enquanto o lado esquerdo insiste em ler a palavra. O teste da passagem seletiva tem por objetivo separar diversas bolinhas, no menor tempo possível, por cor: azuis à esquerda e vermelhas à direita. O tempo estipulado foi de 15 segundos, sendo utilizadas 20 bolinhas, 10 azuis e 10 vermelhas. Esta atividade trabalha com três partes do cérebro: o córtex parietal que fica responsável pela monitoração de todas as bolinhas, o córtex pré-frontal, que é responsável pela memória de trabalho e faz com que o participante lembre qual cor irá para qual lado e, por último, o córtex cingulado anterior que é a parte responsável pela detecção dos erros durante a disposição das bolinhas. Ao iniciar a tarefa, essas três áreas entram em conflito, o que torna a realização da passagem seletiva mais difícil de ser obtida. A atividade intitulada “confundindo seu cérebro” pede ao participante que o mesmo levante o pé direito alguns centímetros do chão e, em seguida, comece a movê-lo em sentido horário. Enquanto o mesmo estiver fazendo isso, peça-o que use o dedo indicador direito e desenhe um número seis (6) no ar. O participante irá perceber que não vai conseguir associar os dois movimentos ao mesmo tempo, o seu pé irá travar ou os dois movimentos irão se sincronizar em um só sentido. Tal ocorrido deve-se ao fato do lado esquerdo do nosso cérebro ser responsável por controlar o lado direito do corpo, sendo responsável pelo ritmo e o tempo de execução. O lado esquerdo do nosso cérebro não consegue lidar com a operação de dois movimentos ao mesmo tempo e por isso tende a combiná-los em um único movimento. 3- Resultados e Discussões De maneira geral, todas as atividades demonstraram resultados satisfatórios, onde o público alvo foi estimulado a interagir ativamente dos testes propostos, gerando assim a curiosidade dos mesmos pela temática da neurociência. As situações interativas e a necessidade de estabelecer trocas entre os estudantes e professores têm sido apontadas como uma dinâmica de trabalho em sala de aula deixando evidente o papel da mediação e intervenção do professor nesse processo. A expectativa dos estudantes em relação ao ensino que desejam traz a indicação de que a escola ainda trabalha com a perspectiva da Pedagogia tecnicista, em que o processo educativo está organizado de forma objetiva e operacional, rejeitando a subjetividade dos sujeitos que constituem a escola (MARQUES, 2006). Incentivar os alunos a perceber que o conhecimento científico ensinado na escola serve como forma de interpretação do mundo que os cerca, seria uma forma de lidar com a dimensão de realidade do mundo, discutida acima. Pois em geral, os alunos não veem as teorias científicas como capazes de gerar explicações engenhosas sobre situações conhecidas. A cor do céu, a eletricidade atmosférica, os diferentes tipos de materiais presentes no cotidiano não são temas tratados na escola e acabam recebendo explicações personalizadas, influenciadas por crenças, mitos, e todo tipo de informação não científica. O conhecimento científico aprendido pelos estudantes parece incapaz de operar sobre estas situações e em muitos casos leva-os a conclusões contrárias aquelas encontradas no dia-a-dia. Nessas condições é muito difícil para um estudante abandonar suas concepções alternativas, pois em parte, elas acabam “funcionando”, isto é, permitem uma representação mínima do mundo no qual vivemos e acabam gerando um sentimento de realidade. Portanto, não é de se estranhar que a ciência fique restrita apenas às situações escolares e seja superada por formas de conhecimento menos sistematizadas (PIETROCOLA, 1999). As atividades foram postas de maneira democrática e convidativa, o que permitiu trabalharmos com um público amplo, de diferentes idades, que variaram de 7 a 60 anos. A escolha pela utilização de jogos nas atividades, ao invés de uma exposição teórica, contribuiu positivamente para o sucesso da ação, pois aproximou o conhecimento a realidade e interesse do aluno. Embora desconhecida a origem dos jogos, sabe-se que diversos povos como egípcios, romanos e maias, utilizavam-se destes para ensinar normas, valores e padrões de vida advindos das gerações antecedentes (MORATORI, 2003). Deste modo, observa-se que desde a antiguidade os jogos já eram vistos como elemento de fundamental importância no processo de ensino e aprendizagem, pois se acreditava que por meio do mesmo, o ato de educar pudesse tomar rumos que abrangiam a imaginação, a curiosidade e a própria aprendizagem de maneira alegre e eficaz (CONTIN; FERREIRA, 2008). As vantagens são a introdução e desenvolvimento de conceitos de difícil compreensão; participação ativa do aluno na construção do seu próprio conhecimento; socialização entre alunos e a conscientização do trabalho em equipe, além de motivar os alunos a participarem da aula (GRANDO, 2001). A utilização de jogos como estratégia didática é previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (BRASIL, 2000). O aluno vive em um mundo de tecnologia, não em um mundo de conhecimentos científicos, ou seja, ele não perceberá a ciência se não for educado para isto (GOODLAD, 1973). Certamente é mais fácil ao aluno a compreensão da realidade que conhece melhor, aquela que está mais próxima dele e que é certamente tecnológica por natureza. Comênio (1657) já dizia: "Deve-se começar a ensinar a partir daquilo que o aluno já conhece". De acordo com Batllori (2006), o jogo tem como objetivo desenvolver a socialização, a agilidade de raciocínio, a concentração, a abstração, o pensamento lateral, a habilidade matemática, a coordenação motora fina, a percepção, a sequência, a habilidade visuoespacial, a atenção seletiva, a memória de trabalho, a liderança, assim como desenvolver a capacidade de elaborar estratégias e análises, de saber competir, de focar nas soluções, de solucionar os desafios, além de promover a reflexão das relações interpessoal e intrapessoal. Sendo o jogo uma forma de diversão e fonte de aprendizado, este estimula o sujeito e facilita atitudes socializantes, funcionado como excelente instrumento didático. Pensar, treinar o cérebro, não só não machuca como, ao contrário, é uma atividade que pode encher de satisfação a quem a ela se entregar. Comprovar que somos capazes de resolver um enigma, de achar a armadilha escondida em uma adivinhação, de construir uma coisa que parecia impossível com os meios que nos são dados, produz um prazer saudável, desconhecido por aqueles que nunca decidem colocar em andamento seu intelecto (BATLLORI, 2006). As atividades demonstraram ainda que os alunos apresentavam interesse em discutir e realizar conclusões sobre os diferentes tópicos. É importante que o estudante demonstre o seu posicionamento acerca das questões que são debatidas, seu aprendizado para possibilitará, se necessário, aprender não apenas a concordar, mas também a discordar e a cobrar posicionamentos. Isto é importante porque possibilita a formação de sujeitos críticos, criativos, conscientes e comprometidos (RACHID, 2012). Desta forma a aplicação de múltiplas estratégias, estímulos visuais, auditivos, táteis, senso de humor e afetividade, é possível que o conteúdo chegue a todos. Afinal, o que o cérebro faz melhor é aprender, o cérebro se auto renova a cada estímulo, experiência ou comportamento, sua função é otimizar comportamentos, usando informações recebidas com eficiência, para isso ensinamos e para isso a escola existe. O ensino de ciências na educação básica e na formação do professor de ciências vem sofrendo, historicamente, múltiplas influências por parte de tradição escolar, das orientações curriculares, dos documentos oficiais e dos livros didáticos, o que torna um campo complexo de estudos e investigações. Dessa maneira, essa busca por diversificações no processo de ensinoaprendizagem necessita ser mantida, além de discutida e difundida. Falando especificamente sobre a aprendizagem dos conceitos, para que o aluno complexifique o seu conhecimento sobre um conceito, no ambiente escolar, é preciso partir do que ele já sabe sobre aquele conceito. Nesta perspectiva, entendemos que o ato de ensinar é uma tarefa complexa que exige conhecimentos de professor, muitas vezes não disponibilizados por ele durante a ação pedagógica. A apropriação desses conhecimentos pelo professor poderá ser facilitada a partir do reconhecimento das idéias e saberes que os estudantes já possuem (FRISON et al., 2012). Outro ponto chave do sucesso das atividades deve-se ao fato da postura do grupo ao desenvolver os jogos e explicações, não sobrepondo nossas idéias acima daquelas de quem participava, respeitando as características e conhecimento de cada pessoa que se juntava a bancada do projeto. Tal postura nos remete ao entendimento da educação dialógica proposta por Freire, ao definir o diálogo entre o conhecimento dos educandos e dos educadores como uma das características fundamentais do ato educativo (DELIZOICOV et al., 2002). Educação dialógica refere-se, sobretudo, ao respeito pelos saberes de alunos e professores. É nesse diálogo que emergem os problemas ou situações significativas que nortearão o ensino (FREIRE, 2004). Vygotsky (1987) salienta que é por intermédio da escola, como instituição universalmente responsável pela transmissão e socialização do saber sistematizado, que o processo de aprendizado acontece. Assim, a escola é o lugar no qual a intervenção pedagógica intencional desencadeia o processo ensino e aprendizagem. O papel da escola e do professor é favorecer as aprendizagens naturais dos alunos. É criar espaços de aula que propiciem o envolvimento ativo dos estudantes com materiais que os ajudem a se envolver com os temas escolhidos para trabalhar. No que se refere ao ensino de Ciências, tão importante na formação das crianças, adolescentes e jovens, aprendizagens significativas e consistentes do conhecimento humano podem proporcionar o desenvolvimento de novas consciências e, desse modo, desenvolver de forma mais plena as potencialidades da vida na sociedade e no ambiente. É essa a função social da instituição escolar que desejamos seja constantemente revista e recriada. Isso extrapola iniciativas, ações e mudanças que têm se mostrado incapazes de atingir o modelo de ensino de ciências, isto é, o modelo centrado na reprodução de conteúdos escolares que apenas precisam ser repetidos no âmbito da própria escola (MALDANER; ZANON, 2004). Para os participantes, todos os testes serviram de motivação para o interesse em entender quais funções cerebrais estavam envolvidas em cada atividade, além disso, dispúnhamos de um modelo pedagógico de cérebro, além de um atlas de anatomia, que permitiu aos envolvidos, conhecerem mais acerca da anatomia cerebral e quais hemisférios eram responsáveis pelas suas atuações nos jogos propostos. O teste de maior dificuldade, segundo os participantes, foi o enigma dos copos, que se tratava de um teste que envolvia o raciocínio lógico dos mesmos, o que gerou um grande interesse na atividade, devido o grau de complexidade, porém ao ser exposto a maneira de resolver o enigma e sua explicação, foi possível perceber a surpresa dos participantes, devido a simplicidade do raciocínio, mas que exigia raciocínio e capacidade de interpretação aguçados, estimulando a capacidade mental dos mesmos. Para Batllori (2006), a capacidade mental, da mesma forma que a força física, deve ser desenvolvida com o exercício. É claro que, como qualquer outro exercício, não convém abusar do exercício intelectual. Os obsessivos mentais, que investem todo o seu tempo disponível com a matemática, o xadrez, a informática, ou outra atividade similar, não são um exemplo a ser imitado. Com isso, tenta-se desenvolver nos alunos capacidades, conhecimentos, atitudes e habilidades cognitivas e sociais, tais como: favorecer a mobilidade, estimular a comunicação, ajudar a desenvolver a imaginação, facilitar a aquisição de novos conceitos, incentivar a diversão individual e em grupo, desenvolver a lógica e o sentido comum. É possível, ainda, proporcionar experiências, explorar potencialidades e limitações, estimular a aceitação de hierarquias e o trabalho em equipe, incentivar a confiança e a comunicação, desenvolver habilidades manuais, estabelecer valores, ajudar no desenvolvimento físico e mental (BATLLORI, 2006). 4- Considerações Finais A partir dos relatos dos participantes e da sua atuação como um todo, pode-se dizer que as atividades, aproximaram, de fato, o público presente com a temática da neurociência, trazido de maneira lúdica, elucidativa e convidativa. Dessa maneira, reafirma-se a necessidade de inovação e democratização das ferramentas de ensino, e que as mesmas, busquem potencializar a capacidade cognitiva dos alunos da rede básica, seja de ensino fundamental ou médio, além de valorizar o conhecimento já existente dos mesmos, adquiridos não só na escola, mas também a partir do contexto o qual estão inseridos. O processo de aprendizagem pode ser definido como o modo pelo qual os sujeitos adquirem novos conhecimentos, desenvolvem competências e mudam o comportamento. A complexidade desse processo, contudo, dificilmente pode ser explicada apenas mediante recortes do todo. Por outro lado, qualquer definição está, invariavelmente, impregnada de pressupostos político-ideológicos, relacionados com a visão de homem, sociedade e saber. Como referem Marques e Dallepiane (2002), cada vez mais o professor se torna indispensável e dele se exigem as maiores competências para dar conta da complexidade que é o trabalhar com o conhecimento e com os mais diferentes sujeitos que interagem no ambiente escolar. A existência de um diálogo aberto, em que estudantes e professores respeitem-se mutuamente, vendo o outro e vendo-se como agente de mudanças poderia trazer melhorias ao ambiente escolar, inclusive proporcionando um aprendizado mais efetivo, uma vez que o envolvimento deles na própria aprendizagem tem relação com os modos de participação permitidos ou incentivados pelos professores. Uma reflexão coletiva pode contribuir para esclarecer os sujeitos participantes sobre como podem aperfeiçoar o seu trabalho, envolvendo cada vez mais os alunos nas atividades de aula e atividades extraclasse. Também pode ser aperfeiçoada a participação dos estudantes nas tomadas de decisão, tanto na sala de aula como no âmbito escolar mais amplo (FRISON et al., 2012). Para Pietrocola (1999), a intensificação nas estratégias de construção do conhecimento é importante para os alunos na medida em que eles possam perceber que o conhecimento científico aprendido na escola serve como forma de interpretação do mundo que os cerca. E para isso considera que a realidade deva ser objeto da educação científica, enfatizando o conhecimento construído pela ciência como esboço dessa realidade e fazendo disso um dos principais objetivos da educação científica. Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinaraprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a serenidade (FREIRE, 2004). Construímos a partir desta ação, um modelo interdisciplinar de ensino, tentando associar as funcionalidades do cérebro através da representação de situações cotidianas. A construção de tais modelos é necessária para a compreensão destas situações e para que o indivíduo possa agir diante delas. 5- Referências Bibliográficas BATLLORI, J. (2006). Jogos para treinar o cérebro. Tradução de Fina Iniguez. São Paulo: Madras. BRASIL. (2000). PCN Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais – Bases Legais. Brasília: Ministério da Educação (MEC), Secretaria de Educação Média e Tecnológica. COMÊNIO, J.A. (1657). Didactica magna. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. CONTIN, R.C.; FERREIRA, W.A. (2008). Jogos: Instrumentos pedagógicos no Ensino da Matemática. DELIZOIC, D.; ANGOTTI, J.A; PERNAMBUCO, M.M. (2002). Ensino de Ciências: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez Editora. FOUREZ, G. (2002). Approches didatiques de línterdiscipolinarité. Deboeck Université, Bruxelas. FREIRE, P. (2004). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. FRISON, M.D.; VIANNA, J.; RIBAS, F.K. 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