Luis Fernando L. Fonseca – Instituto Ouro Verde – Alta Floresta/MT
Prof. Marcos Veiga dos Santos – FMVZ/USP – São Paulo-SP
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SITUAÇÃO ATUAL DA CADEIA PRODUTIVA LEITEIRA DO BRASIL
Luis Fernando Laranja da Fonseca1, Marcos Veiga dos Santos2
1
Instituto Ouro Verde - Alta Floresta-MT, 2Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia,
Universidade de São Paulo ([email protected])
1) Introdução
O estudo da dinâmica regional da produção de leite é uma tarefa complexa e que
exige grande meticulosidade de análise, mas é ao mesmo tempo fascinante e desafiadora,
pois permite compreender fenômenos conjunturais da cadeia do leite e quiçá fazer algumas
projeções e especulações sobre o futuro dessa importante cadeia do agronegócio.
A geografia da produção de leite no nosso país se confunde muito com a história e
com o modelo de ocupação do território brasileiro, uma vez que somos um país jovem, de
colonização recente e certamente um dos raros países do mundo com fronteiras agrícolas a
ocupar. E justamente em razão dessas características tão ímpares, certamente, a cadeia
leiteira brasileira não encontra facilmente parâmetros de referência em outros países, o que
levaria ao questionamento de muitas análise e projeções que tenham sido feitas até então.
Um exemplo dessa situação, seria de que o número de produtores de leite no Brasil pode
estar aumentando, ao contrário de uma expectativa quase unânime do setor. Contudo para
justificar tal suposição é preciso analisar uma série de fatos e dados históricos da nossa
pecuária leiteira, começando pelas análises de caráter mais macro, considerando dados
oriundos da Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE (2005).
Segundo essa fonte, a produção de leite no Brasil cresceu 69,4% no período
compreendido entre os anos de 1990 e 2005 (Tabela 1), passando de um volume total de
14,5 bilhões para 24,6 bilhões de litros/ano, o que caracteriza um crescimento bastante
expressivo, na casa dos 4% ao ano. Possivelmente, essa é uma das maiores taxas de
crescimento da produção de leite do mundo, quando se consideram os países de maior
expressividade nessa atividade pecuária.
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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Tabela 1 - Produção de Leite, Vacas Ordenhadas e Produtividade Animal no Brasil –
1990/2005
Produção de Leite Vacas Ordenhadas Produtividade
Ano
(milhões litros/ano) (mil cabeças)
(litros/vaca/ano)
1990 14.484
19.073
759
1991 15.079
19.964
755
1992 15.784
20.476
771
1993 15.591
20.023
779
1994 15.783
20.068
786
1995 16.474
20.579
801
1996 18.515
16.274
1.138
1997 18.666
17.048
1.095
1998 18.694
17.281
1.082
1999 19.070
17.396
1.096
2000 19.767
17.885
1.105
2001 20.510
18.194
1.127
2002 21.643
18.793
1.152
2003 22.254
19.256
1.156
2004 23.475
20.023
1.172
2005 24.571
20.820
1.180
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Agropecuária, Pesquisa da Pecuária
Municipal 2005.
2) Crescimento da produção leiteira regional
Para uma análise mais detalhada desse fenômeno, é interessante fragmentar os
dados de produção por região geográfica do país e depois por estado da federação para
uma interpretação mais qualitativa (Tabela 2). Verifica-se que em termos percentuais a
região Norte (N) foi a que apresentou o crescimento mais expressivo, com uma variação
impressionante de 214% de crescimento da produção no período de 1990 a 2005. Ainda na
impressionante casa da centena, a região Centro-Oeste (CO) apresentou aumento da
produção naquele período de 122%. No outro extremo, na região Sudeste (SE) estavam os
dois maiores estados produtores de leite no ano de 1990, São Paulo e Minas Gerais. Nessa
região o aumento da produção foi de apenas 38% no período de 15 anos considerado neste
estudo. Essa dinâmica fez com que a região Sudeste passasse a representar 39% do total
da produção de leite brasileira em 2005, enquanto sua participação era de 48% em 1990. Já
a participação das regiões N e CO somadas representava apenas 15,5% da produção
nacional em 1990, passando para uma participação de 22,5% em 2005. Isso indica que
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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houve uma inversão média de 8 pontos percentuais entre o bloco das regiões N e CO e a
região SE (Tabela 3).
Tabela 2 – Variação da produção leiteira, por região (1990-2005)
Região
Crescimento (%) Indicador
Norte (N)
214
Acima da média nacional
Centro-Oeste (CO) 122
Sul (S)
101
Sudeste (SE)
38
Nordeste (NE)
45
Brasil
70
Abaixo da média nacional
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Agropecuária, Pesquisa da Pecuária
Municipal 2005.
Tabela 2 – Percentual da produção leiteira, por região (1990-2005)
Regiões
1990
2005
Variação
Norte+CentroOeste 15,5
22,5
+7
Sul
22,5
26,6
+4
Sudeste
48
39
-9
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Agropecuária, Pesquisa da Pecuária
Municipal 2005.
Com base nesses dados, é possível inferir que está havendo uma forte mudança da
produção leiteira em direção às novas fronteiras agrícolas localizadas nas regiões N e CO.
Mas no sentido de aprimorar ainda mais esta análise é pertinente uma avaliação das
alterações da produção em cada estado brasileiro (Tabela 4).
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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Tabela 4 - Estados que tiveram maior crescimento da produção leiteira (1990-2005)
Classificação Estado Variação (%)
1
RO
337
2
AC
272
3
PA
201
4
MT
179
5
MA
153
6
DF
148
7
GO
147
8
SC
139
9
AP
138
10
PR
117
Neste sentido, chama a atenção o fato de que o estado que apresentou a maior
variação percentual na produção leiteira entre os anos de 1990 e 2005 foi o estado de
Rondônia, com um incremento de produção da ordem de 337% no período, seguido em
ordem decrescente pelos estados do Acre, Pará, Mato Grosso e Maranhão, com taxas de
crescimento de 272%, 201%, 179% e 153% respectivamente. Curiosamente, os 5 estados
com as maiores taxas de crescimento da produção estão todos localizados nas regiões
definidas como Amazônia Legal(Tabela 5).
Tabela 5 – Variação dos principais estados produtores de leite (1990-2005)
Estado 1990 2005 Variação de classificação
RO
15º
9º
6
PA
13º.
8 º.
5
GO
5º
2 º.
3
MT
14 º
10 º
4
SP
2º
5º
-3
Dessa lista de estados, talvez o Acre tenha que ser desconsiderado devido a sua
baixa participação no volume total da produção, mas o mesmo não ocorre com os demais 4
estados. É importante salientar que o estado de Goiás era o 5º maior estado produtor de
leite em 1990, passando para a 2ª posição em 2005. Já Rondônia, Pará e Mato Grosso eram
classificados em 15º, 13º e 14º respectivamente em 1990 e passaram, em 2005, para a 9º ,
8o e 10º posição respectivamente. Digno de nota, certamente, é a situação do estado de
São Paulo que apresentou uma variação negativa de 11% na produção no período 19902005, passando de 2º para 5º no ranking nacional de produção de leite, bem como o
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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desempenho de Minas Gerais, maior estado produtor de leite e que mantém a liderança
inquestionável, com crescimento médio de 61% no período de 1990-2005.
Nesta análise, é fundamental que se destaque o desempenho da região Sul, que
apresentou incremento de produção de 101% no período 1990-2005, sendo que os estados
do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná tiveram crescimento total de 70%, 139% e
117% respectivamente.
3) Migração do leite para novas fronteiras
Com relação à questão das novas fronteiras, quais fatores justificariam tamanho
incremento de produção em novas bacias leiteiras? Dois aspectos genéricos são
fundamentais: as mudanças mercadológicas e tecnológicas do setor lácteo e a política
fundiária dos últimos governos. Sobre o primeiro ponto, destaca-se a mudança no perfil de
consumo do leite fluído no Brasil, que migrou significativamente do leite pasteurizado para o
leite longa vida. Somado a isso, tem-se o crescimento sustentado da demanda por queijos.
Essa situação viabilizou a expansão das bacias leiteiras para regiões mais distantes do
grande pólo consumidor de lácteos no Brasil que é a região Sudeste, notadamente o eixo
Rio-São Paulo. Se adicionarmos a isso um ganho razoável na área de logística nos últimos
20 anos, podemos explicar a viabilidade mercadológica da expansão da fronteira do leite.
Entretanto, um aspecto tremendamente negligenciado nas análises feitas até hoje no
setor lácteo e de alta relevância como fator desencadeador de parte das mudanças da
geografia do leite, é a questão da política agrária do país.
A ocupação do território brasileiro tem sido um fenômeno muito interessante nos
últimos 500 anos, aliás, ocupação esta muito incompleta até este momento, dada a
exigüidade do tempo e pela dimensão continental do nosso país. Este processo de
ocupação do território sempre teve a lógica de se expandir exclusivamente da região
litorânea, a leste, para o interior do continente, a oeste. Tal processo teve início com a
conhecida política fundiária portuguesa de criação e doação das capitanias hereditárias e
sesmarias no século XVI. Passados mais de 400 anos, parte desse território ainda não foi
ocupado, resultando num fenômeno interessante de grande abundância de terras públicas
devolutas de posse do estado brasileiro até hoje. Muito importante também nesse processo
de ocupação do território brasileiro é a chegada de uma enorme leva de imigrantes
europeus, especialmente no início do século passado, oriundos principalmente da Itália e da
Alemanha, fato que transfigurou e deixou marcas fortes na realidade agrária brasileira e que
exerce grande influência na dinâmica da nossa agricultura até os dias atuais.
Mas afinal o que esses fatos aparentemente extemporâneos têm a ver com a atual
geografia do leite em nosso país? Primeiro porque o povoamento das possíveis antigas
capitanias hereditárias continua ocorrendo seja via projetos de colonização, via
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
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assentamentos de reforma agrária e via ocupação privada desordenada (grilagem e posse
de terras) e segundo, porque o processo de imigração européia do início do século passado,
que teve como causa o desafogo de tensões sociais nos países de origem, também
continua ocorrendo, só que agora internamente no Brasil e pelas mesmas causas do
passado.
Para tornar práticas essas teorias, analisemos o caso de Rondônia, estado que teve
a maior taxa de crescimento da produção de leite do país nos últimos 20 anos. Certamente
este crescimento está diretamente relacionado com o intenso processo de ocupação
daquele território nas últimas 3 décadas, seja por meio de projetos de colonização privada
estimulada pelo estado, seja via implantação de assentamentos rurais (138 no período de
1979-2001). Isto significou a instalação naquele estado de aproximadamente 73.000 famílias
de pequenos agricultores, ocupando nada menos do que cerca de 5 milhões de ha. A
influência da colonização recente de Rondônia é tão marcante que 90% dos seus
municípios são originários de Projetos Integrados de Colonização (PICs). Tal transformação
na estrutura fundiária daquele estado tornou-o um dos estados mais “democráticos” no que
diz respeito à distribuição de terras, fazendo com que a participação dos 50% menores
imóveis rurais represente 14,1% da área total do estado, a maior participação da pequena
propriedade dentre todos os estados brasileiros.
Certamente não é uma casualidade o fato de haver uma explosão na produção
leiteira naquele estado nas últimas 2 décadas, concomitantemente com o assentamento de
uma massa enorme de novos colonos nessa região. Primeiro porque há uma correlação
muito forte entre produção leiteira e a pequena propriedade familiar, comprovada pelo fato
de que 55% do leite produzido no país é oriundo da agricultura familiar. Além disso, a
produção de leite é uma das atividades mais disseminadas nas propriedades rurais
brasileiras, só perdendo de forma significativa para a criação de aves.
São também abundantes os relatos que mostram uma marcante presença da
pecuária leiteira em praticamente todos os assentamentos rurais da reforma agrária. E isso
nos remete ao segundo argumento, que é válido tanto para o estado de Rondônia quanto
para outros estados que tiveram maciços assentamentos rurais nas últimas décadas, ou
seja, a forte correlação entre o número de novas famílias assentadas e o incremento na
produção leiteira.
Para comprovar tal hipótese analisemos as estatísticas dos assentamentos rurais
realizados no período de 1979 a 2001. Os quatro estados que figuram nas primeiras
posições em termos de número de famílias assentadas são em ordem Pará, Rondônia,
Maranhão e Mato Grosso. Não coincidentemente os estados de Rondônia, Pará e Mato
Grosso são os estados que se posicionam em 2º, 3º e 5º lugares em termos de crescimento
da produção de leite no período de 1990 a 2005. Por seu turno, o Maranhão é o estado que
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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desponta em termos de aumento de produção de leite na região NE, com um incremento de
153% da produção no período analisado, elevando o modesto incremento da região NE que
foi de apenas 45% no período (tabela 6).
Tabela 6 – Assentamentos de reforma agrária e crescimento da produção de leite
Ranking de assentamentos 1979/2001 Taxa de crescimento da prod. leite 1990/2005
PA
1º
3º.
RO 2º.
1º.
MA 3º.
5º (região NE foi de 45%)
MT
4º
4º.
Ao analisarmos as estatísticas de assentamentos instalados no país no período de
1979 a 2001, veremos que das 20 microrregiões geográficas que tiveram o maior número de
famílias assentadas, 9 estavam localizadas no Pará, 4 no Mato Grosso, 3 no Maranhão e 2
em Rondônia. Cruzando estes dados de assentamentos de famílias com os dados de
produção de leite do IBGE no período de 1990-2005, podemos verificar que as 5
microrregiões paraenses que receberam o maior número de famílias assentadas (66.000 no
total em 2,7 milhões de há) respondiam em 1990 por apenas 17% da produção leiteira do
estado. Decorridos 12 anos, estas regiões tiveram um impressionante incremento de 549%
na produção de leite passando a responder em 2005 por praticamente a metade (46%) da
produção de leite do estado.
O mesmo fenômeno ocorre nos estados de Mato Grosso e Rondônia. Em Mato
Grosso, as quatro microrregiões que figuram entre as 20 com maior número de assentados
do país, respondiam em 1990 por 13% da produção de leite do Estado, passando para 24%
em 2005, com uma taxa de incremento da produção da ordem de 279%. Essas regiões
receberam um contingente de 39 mil famílias alocadas numa área de cerca de 2,5 milhões
de há. No estado de Rondônia, a situação não é diferente, e mesmo sob uma base menor
de dados, uma vez que apenas duas microrregiões daquele estado figuram dentre as 20
com maior número de famílias assentadas no país. Entretanto, essas duas microrregiões
respondiam por 15% da produção de leite do estado em 1990 e passaram a responder por
22% da produção rondoniense, com destaque para a microrregião de Porto Velho que
isoladamente é a líder em termos de número de famílias assentadas do país (43.300
famílias distribuídas em 3,3 milhões de ha) e que apresentou um incrível aumento na
produção de leite de 608% no período entre 1990-2005 (Tabela 7).
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
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Tabela 7 – Reforma agrária (microrregiões com maior números de assentamentos) e
evolução da produção de leite (1990-2005)
1990 2005 Taxa de Crescimento
% da produção de leite do PA
(5 microrregiões)
% da produção de leite do MT
(3 microrregiões)
% da produção de leite do RO
(1 microrregião)
17%
46%
549%
13%
24%
279%
---
---
608%
Esses dados ilustram o enorme impacto da reforma agrária brasileira sobre a
dinâmica regional de produção de leite do nosso país nas últimas décadas. E importante
destacar que esse drástico movimento de reestruturação fundiária, com poucos similares na
história contemporânea mundial, talvez seja comparável apenas com o que ocorreu na
Rússia, Japão, China e México no século XX..
4) Evolução do número de produtores
Considerando os dados mais recentes, envolvendo apenas os dois governos FHC
durante os quais foram assentadas cerca de 550 mil famílias num total de 20 milhões de
hectares entre os anos de 1995 e 2005 e o primeiro governo Lula durante o qual foram
assentadas cerca de 380 mil famílias em 32 milhões de hectares temos um total de 930 mil
famílias assentadas em 52 milhões de hectares num período de 12 anos. O objetivo não é
discutir o mérito da Reforma Agrária, mas apenas mostrar que esse contínuo
reordenamento da estrutura fundiária brasileira, certamente, tem um impacto muito grande
sobre a cadeia do leite. Sendo assim, é possível que exista um movimento inverso em
termos de estrutura de produção de leite, quando comparado com outros países de
expressão nessa atividade, quanto a concentração do número de produtores de leite. Tal
fenômeno é evidente nos últimas décadas nos EUA, na Europa e mesmo na Argentina.
Talvez o paralelo mais próximo que temos seria o caso da Índia. Dessa forma, é
possível especular que o número de produtores de leite no Brasil ainda vai crescer mais nos
próximos anos, em particular nas áreas de fronteira agrícola. Para ilustrarmos essas
situação, vejamos os dados do INCRA relativos a 2003, que relatam o assentamento de
36.300 famílias assentadas sendo 16.000 na região N, 13.300 na região NE e 4.400 na
região CO, perfazendo essas regiões 93% dos novos assentamentos.
Talvez todo esse processo de reordenamento da população rural brasileira esteja atrelado à
necessidade de desafogo de tensões sociais nas regiões centrais do Brasil, um país de
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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industrialização tardia e que ainda não encontrou um modelo adequado de desenvolvimento
econômico e social, ao mesmo tempo que dá continuidade ao processo migratório interno
dos descendentes de alemães e italianos que para cá vieram colonizar especialmente o Sul
do Brasil e que agora, devido à excessiva fragmentação das suas pequenas propriedades
sulistas ou devido ao seu espírito colonizador atávico, passam a migrar em massa para as
novas fronteiras agrícolas brasileiras. Estima-se que dos 10 milhões de gaúchos existentes
no país, 2 milhões deles encontram-se habitando as novas fronteiras agrícolas brasileiras.
5) Mudança regional das bacias leiteiras
Outra questão igualmente importante no que se refere à geografia do leite do nosso
país, paralelo à migração da produção para as novas fronteiras agrícolas, é o fenômeno da
mudança regional das bacias leiteiras dentro dos estados de grande expressão na produção
de leite, ou seja, a dinâmica do leite dentro das antigas fronteiras agrícolas. Para proceder
esta análise é pertinente avaliar as estatísticas de produção leiteira nos estados de Minas
Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, justamente os 5 maiores
estados produtores excluindo-se Goiás, que para efeito desta análise foi considerado como
sendo uma nova fronteira agrícola, cuja expansão significativa ocorreu na década de 90.
Comecemos a análise dos grandes estados produtores justamente pelo maior, Minas
Gerais, cujo aumento da produção de leite no período 1990-2005 foi de 61%, pouco abaixo
da média nacional mas ainda assim bastante significativo. Ao detalharmos a dinâmica da
produção leiteira nas diferentes mesorregiões geográficas desse estado, observa-se forte
tendência da migração da produção para o Oeste do estado, justamente as áreas de
cerrado e de ocupação mais recente, em detrimento de uma desaceleração da produção
nas bacias leiteiras tradicionais. Nesse sentido, verifica-se que o aumento da produção no
período analisado é de 99% na produção nas mesorregiões do Noroeste de Minas, Central
Mineira e Triângulo Mineiro/Alta Paranaíba. Essas 3 mesorregiões eram responsáveis por
31% da produção leiteira do estado em 1990 e passaram a responder por 38% da produção
em 2005. Já as tradicionais bacias leiteiras representadas pelas mesorregiões da Zona da
Mata, Campo das Vertentes e Sul de Minas que em 1990 respondiam por 37% da produção
leiteira do estado, tiveram um crescimento médio de apenas 32% em 15 anos e passaram a
representar apenas 30% da produção, num movimento exatamente inverso às bacias
emergentes citadas acima (Tabela 8).
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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Tabela 8 – Variação da produção de leite em regiões de MG (1990-2005)
1990 2005 Taxa de crescimento
Noroeste de Minas
Central mineira
31% 38% 99%
Triângulo/Paranaíba
Zona da Mata
Campo das Vertentes 37% 30% 32%
Sul de Minas
No estado de São Paulo ocorre fenômeno muito similar (Tabela 9). Como um todo, o
estado apresentou uma redução de 11% na produção de leite no período de 1990-2005,
passando de 2º para 5º lugar no ranking brasileiro. Das 15 mesorregiões geográficas desse
estado, somente duas tiveram crescimento real na produção de leite, justamente as
mesorregiões de São José do Rio Preto e Araçatuba, que em média cresceram 13% no
período, passando a responder por 29% da produção total do estado em 2005, contra 22%
em 1990. Já as bacias leiteiras tradicionais como Vale do Paraíba e Campinas
apresentaram um decréscimo médio de 17% no período, caindo a sua participação na
produção do estado de 25% para 23% em 15 anos, sendo ultrapassados pelas bacias
leiteiras emergente do Noroeste do estado.
Tabela 9 – Variação da produção de leite em regiões de SP (1990-2005)
1990 2005 Taxa de crescimento
S.J. Rio Preto
22% 29% + 13%
Araçatuba
Vale do Paraíba 25% 23% - 17%
Campinas
No estado do Paraná fenômeno semelhante ocorre (Tabela 10). Enquanto a
produção média do estado aumentou 117% entre 1990-2005, a produção das mesorregiões
do Oeste Paranaense e Sudoeste Paranaense cresceu em media 223% aumentando a sua
participação na produção do estado de 32% em 1990 para 48% em 2005. E neste caso as
estatísticas só não favorecem ainda mais as bacias leiteiras emergentes do oeste do estado
devido à grande representatividade e pujança verificada na mesorregião chamada Centro
Oriental Paranaense que abriga a região de influência de Castro/Carambeí. Nessa
mesorregião o incremento da produção no período foi de impressionantes 183%. Mas cabe
ressaltar que essa região caracteriza-se em sua grande maioria pela agricultura familiar, em
grande parte associada a descendentes e imigrantes europeus.
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SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
Luis Fernando L. Fonseca – Instituto Ouro Verde – Alta Floresta/MT
Prof. Marcos Veiga dos Santos – FMVZ/USP – São Paulo-SP
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Tabela 10 – Variação da produção de leite em regiões do PR (1990-2005)
1990 2005 Taxa de crescimento
Oeste Paranaense
32% 48% 223%
Sudoeste Paranaense
Centro Oriental Paranaense (Castro) ---
---
183%
A migração do leite para Oeste também desponta em Santa Catarina (Tabela 11),
um estado que impressiona pelo crescimento da produção leiteira e que apresentou uma
taxa de crescimento geral de 139% no período 1990-2005, figurando atualmente como o 5º
maior estado produtor do país. Mas o que chama atenção em Santa Catarina é o fenomenal
crescimento da produção na mesorregião do Oeste Catarinense, cujo incremento de
produção atingiu a cifra de 303% no período analisado passando a responder por 71% da
produção total do estado em 2005, enquanto respondia por 42% em 1990. Noutro extremo
podemos apontar praticamente a estagnação da produção nas bacias leiteiras tradicionais
da mesorregião do Vale do Itajaí, cujo aumento da produção foi de modestos 8% em 15
anos, representando em 2005 apenas 11% da produção do estado, enquanto representava
22% em 1990.
Tabela 11 – Variação da produção de leite em regiões de SC (1990-2005)
1990 2005 Taxa de crescimento
Oeste Catarinense 42% 71% 188%
Vale do Itajaí
22% 11% 8%
Por fim, a análise do estado do Rio Grande do Sul (tabela 12), outro grande estado
produtor, 3º colocado no ranking brasileiro e que apresentou uma taxa de crescimento da
produção de 70% entre 1990 e 2005, cuja produção está se deslocando para o Oeste do
estado. No período analisado a mesorregião do Noroeste Rio-Grandense apresentou uma
expressiva taxa de crescimento da produção leiteira de 144%, passando a representar 60%
da produção do estado em 2005, enquanto a sua participação era de 42% em 1990. Já no
outro extremo temos as mesorregiões do Centro Oriental Rio-Grandense e Metropolitana de
Porto Alegre, que abrigam tradicionais bacias leiteiras gaúchas e que conjuntamente tiveram
um crescimento negativo de 3% no período de 15 anos perdendo expressão na produção de
leite do estado, representando apenas 15% do total produzido em 2005 enquanto sua
participação era de 26% em 1990.
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
Luis Fernando L. Fonseca – Instituto Ouro Verde – Alta Floresta/MT
Prof. Marcos Veiga dos Santos – FMVZ/USP – São Paulo-SP
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Tabela 12 – Variação da produção de leite em regiões do RS (1990-2005)
1990 2005 Taxa de crescimento
Noroeste Riograndense 42% 60% 144%
Centro Oriental RG
26% 15% - 3%
Metropolitana POA
As análises feitas relativas a cinco dos maiores estados produtores de leite do país
apontam curiosamente para uma migração rumo à Oeste da produção de leite em todos os
estados, com as bacias leiteiras afastando-se, de forma genérica, das regiões
metropolitanas, deslocando-se para áreas de ocupação mais recentes pela agricultura e nos
três estados do Sul consolidando-se a produção leiteira sobre regiões típicas de
propriedades familiares de imigração alemã, italiana e holandesa.
Essa dinâmica das bacias leiteiras dos estados do Sul e Sudeste associada ao
intenso desbravamento de novas fronteiras agrícolas nos últimos 30 anos e ocupação mais
efetiva do cerrado brasileiro, provocado pela impressionante transformação fundiária do
país, desencadeada seja pelos projetos de reforma agrária seja por projetos de colonização
privada ou por ocupação privada desordenada de novos territórios vêm gerando essa
contínua transformação na geografia da produção leiteira do país, dinâmica essa talvez
única no mundo gerada pelas particularidades étnicas, sociais, econômicas, históricas e
geográficas do nosso país.
Vale notar que há 50 anos, a produção de leite se concentrava no triângulo territorial
formado pelas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para abastecimento
das grandes indústrias da época, localizadas inclusive dentro da cidade de São Paulo. Essa
produção acabou migrando silenciosa e gradativamente para o Oeste, ocupando cada vez
mais o cerrado brasileiro (caso de Goiás e Minas Gerais) até atingir a longínqua fronteira
amazônica (caso de Rondônia, Mato Grosso e Pará), além de ter se consolidado de forma
expressiva no Sul do país nas mãos da propriedade familiar de origem européia, a mesma
que gera os novos colonos da Amazônia. Essas transformações parecem ser efetivas e
duradouras, indicando que a atividade de produção leiteira reflete de forma muito fidedigna
esse
interessante
fenômeno
de
ocupação
do
território
brasileiro.
No
entanto,
independentemente do prisma que se olhe, hoje a marcha do leite é forte e é para Oeste.
Como citar:
SANTOS, M. V., FONSECA, L. F L. Situação atual da cadeia produtiva leiteira do Brasil In: IV Encontro de Pesquisadores em Mastites, 2007, Botucatu-SP.
Anais do IV Encontro de Pesquisadores em Mastites. Botucatu-SP: FMVZ-UNESP, 2007. v.1. p.18 - 29
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SITUAÇÃO ATUAL DA CADEIA PRODUTIVA LEITEIRA DO