UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES LICENCIATURA PLENA EM LETRAS HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA ÍTALO DANTAS WANDERLEY CRÔNICA: UM GÊNERO LITERÁRIO MODERNO E SUA APRECIAÇÃO JOÃO PESSOA MARÇO DE 2013 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES LICENCIATURA PLENA EM LETRAS HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA ÍTALO DANTAS WANDERLEY CRÔNICA: UM GÊNERO LITERÁRIO MODERNO E SUA APRECIAÇÃO Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba, como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Orientador: Prof.º Dr.º Expedito Ferraz Júnior JOÃO PESSOA MAIO DE 2013 2 Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade Federal da Paraíba. Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA). Wanderley, Ítalo Dantas. Crônica: Um gênero literário moderno e sua apreciação. / Ítalo Dantas Wanderley. - João Pessoa, 2013. 23f.:il. Monografia (Graduação em Letras) – Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Orientadora: Prof.Dr.Expedito Ferraz Junior 1. Literatura. 2. Crônicas. 3. Veríssimo, Luís Fernando. I. Título. BSE-CCHLA CDU 82-94 3 ÍTALO DANTAS WANDERLEY CRÔNICA: UM GÊNERO LITERÁRIO MODERNO E SUA APRECIAÇÃO Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para o grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Data da aprovação:____/____/____ Banca examinadora ____________________________________________ Prof.º Dr.º Expedito Ferraz júnior, DLCV, UFPB Examinador _____________________________________________ Prof.º Dr. , DLCV, UFPB Examinador _____________________________________________ Prof.º Dr.º Examinador 4 AGRADECIMENTOS A Deus. À minha querida mãe, esposa e filha, pelos carinhos e cuidados. Aos professores e colegas que compartilharam comigo essa trajetória. Ao meu professor orientador, pela assessoria, técnica e intelectual, essencial para a realização deste trabalho. 5 RESUMO O presente trabalho objetiva apresentar recortes que evidenciam a visão pessoal, subjetiva do cronista perante a um fato qualquer do cotidiano, e também, destacar passagens que revelam seu dom de “contador de histórias”. O corpus de nosso trabalho conta com textos de Luis Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, escolhidos aleatoriamente, publicados em jornais, revistas e livros. Para tanto, tomamos como alicerce teórico as contribuições dos autores: Moisés (1978), Sá (1985), Cândido (1992) e Menezes (2002) e colaboradores. Nossas reflexões demonstram a transitoriedade do gênero no qual o autor evidencia tanto sua subjetividade, como revela seu dom de “contador de histórias”. Palavras-chaves: Literatura; Narrativas; Crônicas; Subjetividade; Luis Fernando Verissimo. 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................... 7 1. O GÊNERO CRÔNICA E A LITERATURA ... 1.1 Um gênero e sua ambiguidade .................................................. 10 1.2 características da crônica ................................... 8 ....................................................................... 11 1.3 Entre o poeta lírico e o contador de histórias .................................... 12 2. COMENTÁRIOS SOBRE AS CRÔNICAS ............................................... 14 CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ............................................................................ 20 ............................................................................................... 21 7 INTRODUÇÃO Fato já assinalado por críticos e estudiosos é o surgimento de um novo gênero literário: a crônica. De acordo com Moisés (1978) o vocábulo crônica vem do Grego krónos que significa tempo. Conforme Cândido (1992) apresenta um conjunto de características próprias que poderíamos afirmar ser um gênero especificamente brasileiro. É tão ligado ao caráter sentimental e à realidade social do cotidiano que ocorre uma recriação e não simplesmente uma cópia dos fatos reais. Invade ora o terreno do conto ou do poema, sem deixar de lado outra característica fundamental – a leveza. No entanto, parece-nos que toda e qualquer tentativa de impor definição, ainda o deixaria à margem, pois a crônica ainda é considerada por muitos uma “gênero menor”. Entretanto, o fato é que diante da lista de grandes escritores que atraiu, não poderíamos imaginá-lo sem a presença de um ingrediente fundamental – o talento. O presente trabalho objetiva apresentar recortes que evidenciam a visão pessoal, subjetiva do cronista perante a um fato qualquer do cotidiano, e também, destacar passagens que revelam seu dom de contador de histórias. O corpus de nosso trabalho conta com textos de Luis Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, escolhidos aleatoriamente, publicados em jornais, revistas e livros. Para tanto, tomamos como alicerce teórico as contribuições dos autores: Moisés (1978), Sá (1985), Cândido (1992) e Menezes (2002). No primeiro capítulo, apresentamos um breve histórico do gênero crônica na literatura, seu caráter ambíguo, e outros aspectos que foram fundamentais para este trabalho, como o caráter subjetivo do autor e seu dom de “contador de histórias”. Em seguida, descrevemos primeiramente como foi desenvolvido nosso trabalho, e, posteriormente, levantamos alguns comentários acerca das crônicas escolhidas como corpus de nossa reflexão. Tais comentários evidenciam os dois aspectos supracitados. Por fim, tecemos as considerações finais a partir das observações feitas do decorrer de nosso trabalho. 8 1. O GÊNERO CRÔNICA E A LITERATURA De acordo com Moisés (1978) o vocábulo crônica vem do Grego krónos que significa tempo e do Latim annu (m), ano; ânua, anais. O termo „crônica‟ assinalou seu percurso até a contemporaneidade mudando de sentido ao longo dos séculos, desde o início da era cristã, quando ainda caracterizava-se apenas por registrar ou descrever acontecimentos de forma linear de conotação historicista, sem nenhum aprofundamento interpretativo; até a significação moderna (séc. XIX), quando passou a apresentar seu caráter estritamente literário e, posteriormente, em sua forma contemporânea, período em que ocorreu uma ruptura de sua forma original pautada na preocupação histórica dos grandes períodos humanos. A crônica está ligada a um intervalo curto de tempo, ou seja, a um pequeno instante do cotidiano, de pequenas e grandes alegrias e tragédias humanas. Segundo o autor, “Crônica é para nós hoje, na maioria dos casos, prosa poemática, humor lírico, fantasia, etc., afastando-se do sentido de história, de documentário que lhe emprestam os franceses”. (p. 246) A carta de Pero Vaz de Caminha, segundo Sá (1985), assinala o marco inicial da modalidade literária no Brasil. Em seu texto, Caminha registra de forma literária as circunstâncias de seu contato com a cultura e os costumes indígenas no momento em que se depara com a disparidade entre duas culturas: europeia e primitiva. Desse modo, de acordo com o autor, “Caminha estabeleceu também o princípio básico da crônica: registrar o circunstancial”. (p.06) Desde a carta de Caminha até a os dias atuais, houve uma busca por uma expressão literária tipicamente brasileira. Nesse percurso, a literatura passou por várias etapas e percorreu vários caminhos. Para Cândido (1992), a crônica configura uma boa história no Brasil e, sob vários aspectos como a adaptação natural e a originalidade com que foi desenvolvida por aqui, poderíamos afirmar que é um gênero brasileiro. Entretanto, a crônica daria seus primeiros passos expressivos no Brasil de 1808, com a chegada de D. João VI que trouxe a impressa para o país e com ela os folhetins. Acerca do que eram os folhetins Sá (1985) nos afirma: “[...] era apenas uma seção quase informativa, um rodapé onde eram publicados pequenos contos, pequenos artigos, ensaios breves, poemas em prosa, tudo, enfim, que pudesse informar os leitores sobre os acontecimentos daquele dia ou daquela semana [...]”. (p. 08) 9 Assim sendo, com o passar do tempo, a modernização das cidades exigiu uma mudança de comportamento dos escritores, sobretudo os jornalísticos, que atribuíram à crônica uma mudança de ordem estrutural passando a apresentar, a partir daquele momento, uma sintaxe e linguagem diferentes das encontradas na estrutura folhetinesca. De acordo com Cândido (1992): “Aos poucos o “folhetim” foi encurtando e ganhando certa gratuidade, certo ar de quem está escrevendo à toa, sem dar muita importância. Depois, entrou francamente pelo tom ligeiro e encolheu de tamanho, até chegar o que é hoje.” Ao longo desse percurso, foi passando de um simples registro formal de cunho historicista para um registro circunstancial permeado por uma interpretação subjetivista com um toque ficcional que quase sempre utiliza o humor. Ainda de acordo com autor, podemos afirmar que a crônica é um gênero eminentemente jornalístico, entretanto, ela não se originou propriamente com o jornal, mas sim do espaço jornalístico quando este se tornou cotidiano. Nesse contexto, a crônica reúne jornalismo e literatura, uma vez que figura cotidianamente nesse veículo de informação e cultura. Essas duas categorias textuais se cruzam, já que o jornal nasce e morre cada dia, assim como os textos escritos para este veículo. De acordo com Sá (1985, p. 10) “[...] a crônica assume essa transitoriedade, dirigindo-se inicialmente a leitores apressados, que lêem nos pequenos intervalos da luta diária, no transporte ou no raro momento de trégua que a televisão lhes permite”. Acerca desse encontro textual no jornal, Moisés (1978) advoga que “Textos escritos para o jornal morrem automaticamente a cada dia, substituídos por outros, que exercem idêntica função e conhecem igual destino: o esquecimento”. Em seguida, o autor nos afirma que a crônica oscila entre dois focos jornalísticos: “no e para o jornal”, ou seja, de forma ambígua, uma vez que se propõe, inicialmente, a ser lida no jornal ou revista, e ao mesmo tempo, difere por não objetivar a mera informação já que há uma “recriação do cotidiano por meio da fantasia”. Para melhor explicar essa natureza textual híbrida da crônica que figura entre a reportagem e Literatura, Moisés (1978) afirma: “No entanto, o mais da crônica em que se localiza tal segmento livra-se da reportagem pura e simples graças a outros ingredientes propriamente literários, dos quais é de ressaltar o humor. Em toda crônica, por conseguinte, os indícios de reportagem se situam na vizinhança, quando não mescladamente, com os literários; e é a predominância de uns e de outros que fará tombar o texto para o extremo do jornalismo ou da Literatura.” (p. 248) 10 O suporte do jornal, onde nasce a crônica, impõe ao gênero a brevidade e o direcionamento a uma leitura mais rápida, que lhe sugere a leveza e a despretensão no tratamento temático. Ao mesmo tempo, o ambiente da notícia exerce sobre o texto da crônica uma espécie de influência, dotando-o de uma conexão imediata com o tempo presente que o cerca nas páginas dos jornais. Podemos assim perceber, que a crônica e a matéria jornalística identificam-se principalmente por serem textos ligados diretamente ao dia-a-dia. Porém, em seu percurso, a crônica foi deixando a finalidade de informar e comentar para o propósito de divertir, evidenciando, assim, uma linguagem mais leve e descompromissada, até chegar a sua fórmula moderna que transita geograficamente entre a poesia e o conto. 1.1 Um gênero e sua ambiguidade Segundo Sá (1985) a crônica oscila entre o lirismo poético e a densidade do conto, ambos os gêneros possuem uma linha divisória muito próxima. Com isso, é comum muitos considerarem que narrativa curta é sinônimo de conto: “Acontece que o conto tem uma densidade específica, centrando-se na exemplaridade de um instante de condição humana.” (p. 07) No caso da crônica parece-nos existir certo ar de liberdade do cronista, o que não acontece com o contista: “Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, se ter sequer a preocupação de colocar-se na pele do narrador, que é, principalmente, personagem ficcional [...]”. (SÁ, 1985, p.09, grifos do autor) Percebe-se, pois, que no conto o tempo e o espaço são restritos, pois não há interesse em desvelar o passado ou o futuro das personagens, cuja construção ocorre em dias ou horas, permanecendo, portanto, restrito ao espaço pautado na perspectiva dramática. Desse modo, não há uma liberdade de espaço do contista, no geral, um só espaço é suficiente para que o enredo se desenvolva. 11 No caso da crônica, embora possa transmitir certo ar de superficialidade, o espaço onde as personagens se movimentam são de âmbito livre, visto que há uma liberdade do cronista. Por ser assim tão despretensiosa, apresenta uma linguagem mais solta e desestruturada que se aproxima de nossas conversas e reflexões diárias numa dimensão mais natural. Assim, o espaço predominante da crônica é o urbano, embora apareça também o rural em forma de memória. Dessas considerações, podemos inferir que a linha divisória existente entre a crônica e o conto reside na densidade, que muitas vezes, revela-se bastante tênue. A crônica e o conto acabariam em fronteiras muito próximas justamente pelo fato de ambos os gêneros transitarem entre o “acontecimento” e o “lirismo”. Conforme Moisés (1978), “o meio termo entre acontecimento e lirismo parece o lugar ideal da crônica”. Sendo assim, o caráter ambíguo da crônica corrobora a afirmação de que a crônica é uma expressão literária de natureza híbrida já que poderá perfeitamente assumir uma ou outra forma literária, já que segundo o autor “a crônica poderá ser conceituada como a poetização do cotidiano”. Após essa explanação sobre o caráter híbrido da crônica, apresentaremos a seguir, as principais características da crônica. 1.2 Características da crônica Conforme mencionamos anteriormente, a crônica se assemelha ao conto e também à reportagem, uma vez que é oriunda do jornal, veículo transitório onde tudo acaba rapidamente. Saindo desse âmbito híbrido, a crônica evidencia uma expressão literária com características peculiares, e a primeira delas, de acordo com Moisés (1978), é a brevidade. É um gênero que, de forma geral, apresenta uma estrutura textual curta, ligado também a um intervalo curto de tempo. Uma de suas marcas mais relevantes é a subjetividade e seu foco narrativo situa-se na primeira pessoa do singular: “A impessoalidade é não só desconhecida como rejeitada pelos cronistas: é a sua visão das coisas que lhes importa e ao leitor; a veracidade positiva dos acontecimentos cede lugar à veracidade emotiva com que os cronistas divisam o mundo. Não estranha, por isso, que a poesia seja uma de suas fronteiras, limite do espaço em que se movimenta livremente; e o conto a fronteira de um território que não lhe pertence.” (MOISÉS, 1978, p. 255) Tal afirmação leva-nos a afirmar que entre a subjetividade e o lirismo poético da 12 crônica há grandes semelhanças, o que é demonstrado pela naturalidade presente no diálogo, aparentemente simplório, existente entre o cronista e o leitor. Com uma linguagem direta e espontânea a crônica dissipa, via de regra, com a prosa jornalística, e também, utiliza-se da linguagem metafórica. Por outro lado, é um gênero que traz temas do cotidiano, uma vez que seu diálogo confere uma proximidade com a oralidade, havendo, portanto, uma recriação dos fatos narrados, tal como acontece em nossas conversas diárias, onde ocorre uma recriação e não simplesmente uma cópia dos fatos reais. De forma geral, ambiguidade, brevidade, subjetividade, diálogo, temas do cotidiano e um estilo que transita entre o oral e o literário, são, portanto, ingredientes imprescindíveis à crônica, pois ela se configura como uma “expressão literária que faz do cotidiano o seu prato diário” transformando a literatura em algo íntimo à vida de cada um de nós. 1.3 Entre o poeta lírico e o contador de histórias De acordo com Sá (1985) é de forma lírica que o cronista capta os pequenos e breves acontecimentos que se passam em nosso dia-a-dia, conferindo uma visão mais profunda das relações existentes entre os fatos circunstanciais e as pessoas, ou seja, entre nós e o mundo. Acerca desse lirismo característico dos cronistas, o referido autor nos afirma: “Em todos os cronistas há um certo lirismo, pois é através dos seus estados de alma que eles observam o que se passa nas ruas. Entretanto já vimos que a aparência de leveza da crônica revela, quase sempre, o acontecimento captado sob a forma de uma reflexão, mesmo quando se trata de uma coisa efetivamente ligada ao escritor.” (SÁ, 1985. p. 57) É com esse toque de lirismo que o cronista transforma o circunstancial presente nos breves acontecimentos do dia-a-dia numa reflexão mais emotiva e racional. Vale à pena ressaltar que, tal lirismo não confere uma expressão simplória de nossas dores e alegrias diárias, conforme advoga o autor está para “um repensar constante pelas vias da emoção aliada à razão.” Nesse contexto, o lirismo presente na crônica se relaciona de forma bastante clara com o subjetivismo do cronista. Entretanto, tal subjetivismo não se configura como uma compreensão do texto somente por quem o vivenciou, segundo o autor, está contido no “processo associativo”, ou seja, “o subjetivismo como uma forma de apreensão do ser.” Sendo assim, podemos afirmar que o cronista figura entre o poeta lírico, uma vez que 13 há uma visão pessoal, subjetiva do autor perante um fato simples do cotidiano, e o contador de histórias, já que pode traduzir uma dramatização que o revela como tal. Diante dessas colocações, fizemos um breve percurso sobre a crônica, destacamos suas principais características enquanto gênero literário atual. A seguir, apresentaremos comentários sobre algumas crônicas, mostrando passagens que se aproximam do lirismo (subjetividade) e do contar histórias. Tomamos como exemplo alguns textos de Luis Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos. Segundo Menezes (2002), Luis Fernando Veríssimo é considerado um dos maiores cronistas da atualidade, contribuindo diariamente com textos para jornais e revistas de todo o país. Veríssimo tem parte considerável de suas crônicas reunidas em forma de livros, que figuram na lista dos mais vendidos do país. É também romancista, contista, cartunista e músico, sendo na crônica que sua obra ganha mais destaque. 14 2. COMENTÁRIOS SOBRE AS CRÔNICAS O corpus de nosso trabalho conta com 05 crônicas, escolhidas aleatoriamente, publicadas em jornais, revistas e livros. O levantamento dos comentários consistiu na leitura atenta dos textos (crônicas), observando recortes que evidenciam a visão pessoal, subjetiva, do cronista perante a um fato qualquer do cotidiano, por outro lado, também destacamos passagens que revelam seu dom de contador de histórias. As tabelas, a seguir, apresentam as crônicas observadas das quais tecemos alguns comentários. CRÔNICA 01 Crônica e ovo A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa, interessa aos estudiosos da literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você. Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta “Meu Deus, o que eu estou fazendo?” Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só “botar” textos que se enquadrem em alguma definição técnica de crônica. O que aparecer é crônica. Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites. Nesse texto é perceptível a impaciência demonstrada pelo autor quanto às discussões acerca do gênero crônica conforme evidenciada no fragmento: “Se um texto é crônica, conto ou outra coisa, interessa aos estudiosos da literatura [...]”. Por outro lado, o leitor é tranquilizado no momento em que o autor parece garantir certa liberdade às atitudes do leitor: 15 “[...] mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você [...]”. O autor também parece fixar, intencionalmente, limites entre seu próprio lugar, do “escritor” e do “estudioso da literatura”. O mesmo assume sua liberdade de criação quando afirma que “O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato”. De acordo com o autor, tais “produções” estão presentes nas páginas do livro por ele apresentado: “Nesta coleção existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica.” Também é garantida, parte do cronista, a liberdade na relação leitor-texto principalmente no que se refere à representatividade textual, ou seja, a satisfação pessoal ou deleite, independentemente dos aspectos formais previamente estabelecidos, mesmo que haja o reconhecimento da inserção do texto em certos aspectos determinados pelo gênero discursivo. Assim, o cronista evidencia que ao escritor e ao leitor cabe apenas a tarefa de interagir por meio discurso, ou seja, privilegia a funcionalidade textual: “Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite.” Há de se ressaltar, também, o dialogismo evidenciado pelo cronista que revela seu posicionamento diante do tema tratado, exatamente como acontece em nossas conversas e reflexões diárias: “Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica.” De acordo com Sá (1985, p.11), é o que acontece “[...] quando também conversamos com interlocutor que nada mais é do que o nosso outro lado, nossa outra metade, sempre numa determinada circunstância”. Sendo assim, a subjetividade evidenciada pelo cronista confere, também, o lado circunstancial da vida de forma muito clara demonstrando que o cronista transforma o circunstancial presente nos breves acontecimentos do dia-a-dia numa reflexão mais emotiva e racional. 16 CRÔNICA 02 Somos todos filhos do Caminha Pero Vaz de Caminha descreveu o que viu e sentiu de uma maneira muito pessoal, mentiu um pouco, fez a sua literaturazinha e até as suas graças (quando usou “vergonha” nos seus dois sentidos, referindo-se à genitália da nativa e ao sentimento que ela não tinha ao expô-la, fazendo assim o primeiro trocadilho do Brasil) e principalmente precisou escrever às pressas, pois o barco de mantimentos que voltaria a Lisboa com a notícia do “achamento” tinha prazo certo para sair. Quer dizer, Caminha foi o nosso primeiro protocronista. Caros Amigos. abr. 2000:9 Nessa crônica, Veríssimo apresenta o conceito primeiro da crônica - um simples registro formal de cunho historicista – e expressa também sua concepção atual - um registro circunstancial, produto da urgência do tempo, permeado por uma interpretação subjetivista com um toque ficcional que quase sempre utiliza o humor. O autor também, por meio da metalinguagem, utilizou a crônica pra falar das características próprias gênero sob um olhar bem humorado. CRÔNICA 03 Transatlânticos Um transatlântico assim é sempre uma visão evocativa, e o que ele evoca acima de tudo é uma vida despreocupada, um doce se deixar levar. E um melancólico nos deixar pra trás. Foi-se o Queen Mary 2 e ficamos nós nesta província de sonhos frustrados. Lembrei também que nas primeiras explicações para o fato de o modelo econômico herdado pelo novo governo não mudar se alegava que era impossível fazer cavalo de pau com transatlântico. Uma boa imagem: não se muda a impulsão e a direção que um grande barco manteve durante doze anos de uma hora para outra. Mas já se passou um ano com o novo comando e este transatlântico não mudou um grau do seu rumo desastroso, o que dirá tentar uma manobra radical. Ninguém sabe que Brasil receberá o Queen Mary 2 quando ele voltar 17 no próximo carnaval. (O Globo, 07/03/04) O texto recorda uma analogia entre ao transatlântico e o Brasil, conferindo uma possível tentativa de justificar a continuidade do modelo econômico pelo novo governo. Ao estabelecer essa comparação o autor parece concordar, pois afirma ser possível fazer uma analogia entre o Brasil e um transatlântico. Por outro lado, evidencia a ironia de forma crítica conforme o trecho: “Mas já se passou um ano com o novo comando e este transatlântico não mudou um grau do seu rumo desastroso”. Além disso, é perceptível a subjetividade do cronista quando este afirma: “Lembrei também que nas primeiras explicações para o fato de o modelo econômico herdado pelo novo governo não mudar se alegava que era impossível fazer cavalo de pau com transatlântico”. A ocorrência também confere uma profunda visão do cronista acerca das relações entre o fato e a população, isto é, entre as pessoas e o mundo. CRÔNICA 04 Esperando a neve Sempre me lembro desta história quando ouço as razões para seguir os conselhos de economistas liberais e do FMI — enfim, dos nossos estrategistas russos — sobre os apertos que temos de sofrer agora para merecer a redenção que virá com o tempo, como a neve. Se a história de todos estes anos de economia de mercado e obediência ao conselho liberal na América Latina ensina alguma coisa é que a neve não vem nunca. Antes aumentou o deserto, agravou-se justamente a realidade que os conselheiros ignoram, a emergência social que transforma qualquer pedido de paciência e qualquer ortodoxia econômica, mesmo as mais bem intencionadas, numa forma de escárnio. Brasileiro gosta de uma contradiçãozinha semântica. Na terra de corruptos impunes de maracutaias diárias, qual é o adjetivo mais elogioso? Legal! Deve ser por isso que por aqui conseguiram transformar responsabilidade fiscal em antônimo de responsabilidade social. É o que dá confiar em estrategistas russos. (O Globo, 25/07/04) 18 O cronista novamente trata analogicamente o tema de forma irônica. Tal ironia se relaciona ao fato do aperto econômico pelo qual passa a população brasileira, cuja solução nunca acontece: “[...] é que a neve não vem nunca”. Para Veríssimo, o Brasil segue os conselhos do FMI e dos economistas liberais, almejando uma possível redenção que nunca vem, assim como por ser um país tropical a neve também nunca acontece, configurando, portanto, uma analogia irônica. É importante ressaltar o lirismo (subjetividade) presente na crônica: “Sempre me lembro desta história quando ouço as razões para seguir os conselhos de economistas liberais e do FMI [...]”. Consoante Sá (1985, p.57), percebemos que nesse trecho o acontecimento é apresentado sob a forma de uma reflexão. Salientamos, pois, que essa subjetividade é evidenciada pela experiência pessoal do cronista e se configura como uma forma de acesso para desvelar uma verdade maior, neste caso, a espera dos brasileiros por algo que não existe, ou seja, a espera pelo inalcançável. CRÔNICA 05 Provocações A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão. A segunda provocação foi à alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso. Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz. Foram lhe provocando por toda a vida. Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça. Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme. Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava. Estavam lhe provocando. Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça. Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa. Terra era o 19 que não faltava. Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma. Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação. Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou. Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele: -Violência, não! (VERISSIMO, 1999, p. 51) O texto mostra a observação por parte do cronista sobre a vida de um indivíduo tido como excluído socialmente, que mesmo diante de tanto sofrimento ainda reage. É perceptível a intenção do autor em dar voz ao indivíduo marginalizado em forma de denúncia sobre as condições subumanas em que vive. Para tanto, lança um olhar pelo qual expõe feridas e abismos sociais que são fatos crescentes em nosso país. Por outro lado, para representar a realidade na qual o indivíduo está inserido o cronista dramatiza seu texto e revela seu dom de contador de história: “A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou esperneou. [...] E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão. A segunda provocação foi à alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou [...]”. Percebe-se, pois, que nesse texto não há interesse do narrador (autor) em desvelar o passado ou o futuro da personagem, cuja construção ocorreu desde o nascimento à vida adulta, permanecendo, portanto, restrito ao espaço pautado na perspectiva dramática. Veríssimo mergulhou na construção da personagem centrando-se de forma a exemplificar instantes da condição humana por meio do “contar histórias”. 20 CONSIDERAÇÕES FINAIS As crônicas aqui estudadas foram publicadas em jornais, livros e revistas e apresentam características muito bem definidas o que nos leva a afirmar que, embora o texto se apresente aparentemente simples e acessível ao leitor, por outro lado, requer do cronista a obrigação de, em um tom despretensioso, muitas vezes dentro de um espaço reduzido, atrair e interessar o leitor. Sendo assim, noutras palavras se faz necessário a presença de um ingrediente fundamental – o talento. Como vimos nas considerações apresentadas no decorrer deste trabalho, a crônica se configura como um reflexo social de seu tempo e expressa uma transitoriedade quase obrigatória que ora invade o terreno do lirismo poético ou a densidade do conto. Desse modo, esse estudo corrobora a afirmação de Moisés (1978) de que a crônica é uma expressão literária de natureza híbrida uma vez que pode perfeitamente assumir uma ou outra forma literária. Com relação as nossas reflexões acerca das crônicas analisadas, podemos afirmar que demonstram a transitoriedade do gênero no qual o autor evidencia tanto sua subjetividade, como revela seu dom de “contador de histórias”. Como destacamos no decorrer de nossos comentários, tal subjetividade aponta para uma conversa entre o autor e o interlocutor sempre numa determinada circunstância. Por outro lado, o autor evidencia nos textos abordados o dialogismo, analogia irônica e também dar voz ao indivíduo. Ainda com relação às crônicas analisadas, o autor assume e/ou apresenta vários posicionamentos frente ao interlocutor. Fatos esses que caracterizam o gênero como algo ligado a realidade social cotidiana. Por fim, é certo que não esgotamos o tema aqui abordado, outras reflexões podem ser feitas sobre essa temática. Todavia, podemos afirmar que este trabalho demonstra sua importância no sentido de que, embora a crônica seja considerada um “gênero menor”, não poderíamos apreciá-la se ao autor faltasse o talento. 21 REFERÊNCIAS ARRIGUCCI JR., Davi. Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 2000. BORGES, I. L. M. Essay d'analyse du fonctionment de l'ironie comme élément de comunication. Tese (Doutorado em Lingüística), Toulouse, 1988. BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2.ed. 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