É necessário viver bem para ser feliz?
Aristóteles e Ricoeur
Maria Elizabeth Schwab da Silva (ICV – Unicentro. Ruth Rieth Leonhardt
(orientadora), e-mail: riethleonhardt @ yahoo.com.br
Universidade estadual do Centro-Oeste/ Departamento de Filosofia
Guarapuava-Paraná.
Palavras-chave: felicidade, ética, moral, virtude.
Resumo:
Este trabalho tem como objetivo, apresentar os resultados obtidos no projeto de
pesquisa que vigorou de agosto de 2006 a julho de 2007. Buscou-se centrar a reflexão
filosófica especificamente no conceito de vida boa, tanto sob a ótica aristotélica como
na ricoeuriana. Vida boa, segundo Aristóteles, quer dizer a forma que o homem busca
viver tendo em vista um fim, uma finalidade na vida, ou seja, o bem supremo. A partir
do conceito de vida boa, o Estagirita, estabelece conexões entre as diversas ações
humanas que, bem orientadas pela razão e efetivadas pela volição, proporcionam ao
homem, a sensação de vida bem vivida. Paul Ricoeur, tal qual Aristóteles, reconhece o
conceito de vida boa, ou seja, viver bem consigo e com os outros, que ele conjuga como
o verso e o reverso da finalidade última do ser humano, a felicidade. Contrário a
Aristóteles, que coloca a responsabilidade da excelência do agir sobre o sujeito da ação,
todo em cima do sujeito da ação, Ricoeur interpreta os atos do cotidiano, a partir de
fatores externos a vontade, submetida a desigualdades, injustiças, ou seja, considera em
suas reflexões as diferentes formas de violências que fazem parte do meio no qual se dá
a história. A partir destas considerações ricoeurianas quanto à responsabilidade de cada
qual, fica evidente a necessidade do imperativo moral para que seja possível a
realização do projeto ético de cada um. Desta forma, o pensamento ético de Paul
Ricoeur atualiza o pensamento ético aristotélico.
Introdução:
A pesquisa é um processo de construção do conhecimento que tem como metas
principais produzir conhecimento, despertar a curiosidade, incentivar o desejo de
descoberta e criação. O hábito da pesquisa, quando criado, não valoriza apenas a vida
acadêmica, mas, faz diferença, também fora da Academia, ou seja, na vida prática. Este
estudo tem como temática a ética, e teve origem na investigação filosófica das obras
Ética a Nicômaco de Aristóteles e o Si mesmo como um outro de Paul Ricoeur. Esta
pesquisa foi desenvolvida na condição de voluntária do Programa de Iniciação
Cientifica da Unicentro-ICV que tem como objetivo geral investigar a relação da ética
de Aristóteles e Ricoeur.
Partindo do pressuposto, de que costumes, hábitos ou modos de agir determinados pelo
uso, podem se tornar inviáveis em certas culturas, principalmente, quando se tem o
propósito de uma vida boa, se fazem necessários mudanças estruturais, ou seja, muitas
vezes, há necessidade de desconstruir modos de agir arraigados para depois construir
outros, em conformidade com a excelência do agir. Viver bem, segundo Aristóteles, é
um requisito para a felicidade. Resumindo, refletir sobre os fundamentos que
originaram certos costumes para propor as imprescindíveis adequações aos tempos.
Estas escolhas, pautadas pela prudência, que o homem faz para mudar, certas estruturas,
com liberdade e racionalidade, desviando-o do determinismo que há na vida natural é
um dos aspectos que tornam o homem superior ao animal.
Materiais e métodos
O trabalho foi desenvolvido em forma de pesquisa bibliográfica, após feita uma triagem
de material recolhido, estabeleceu-se um plano de leituras, em que, além dos autores
eleitos para a pesquisa, também foram lidos seus comentadores. Estes estudos se
realizaram de modo atento e sistemático, principalmente, a obra Ética a Nicômaco, de
Aristóteles. Quanto a obra o Si mesmo como um outro de Paul Ricoeur, deteve-se
especificamente aos capítulos VII, VIII e IX. Estas leituras foram acompanhadas de
anotações e fichamentos, que posteriormente serviram de suporte para outros trabalhos
científicos.
Resultados e Discussão
Durante o tempo que durou a pesquisa, muitos trabalhos sobre essa temática foram
desenvolvidos. Nesse percurso, foram sendo feitas muitas descobertas sobre o alcance
que tem a ética para a humanidade. A ética aristotélica tem a finalidade como principio,
e este ordena não apenas o intelecto, mas, também a natureza. Por outro lado, a
diferença no estabelecimento destas finalidades é distinta. Enquanto os seres irracionais
tendem para o fim por determinação, alheio à sua vontade, os homens por possuírem o
conhecimento do fim almejado, vontade de atingi-lo e possuírem domínio sobre seus
atos, ordenam suas ações, de modo a alcançá-lo. Porém, Aristóteles adverte sobre a
necessidade da excelência nas ações, o que ele denomina de virtude. Um homem
virtuoso, portanto, é aquele que se conhece e sabe discernir a mediania dos seus atos.
Diante de uma escolha, o homem virtuoso, buscará sempre se afastar daquilo que mais o
atrai. Entre dois extremos, tais como a covardia e a audácia, a virtude está no meio
termo entre um e outro. No pensamento ético de Aristóteles, é assinalada grande
importância à felicidade, considerada por ele o bem que todos desejam. A propósito,
cumpre notar que, a felicidade no sistema aristotélico é fundamental, mas não se reduz a
riqueza, nem a honra ou qualquer outro bem terreno. Portanto, ao longo da pesquisa
pode-se constatar que a felicidade para Aristóteles tem como função dirigir as escolhas,
a vontade a agir de forma excelente, que por outro lado, possibilita um bem viver. Paul
Ricoeur, de acordo com exigências de seu tempo, pensa uma ética que possa ser
reconhecida. Para tanto, faz uma análise reflexiva de moral e ética. E entende como
ética, uma vida que se realiza pela perspectiva da felicidade, tendo como direção a
excelência do agir, enquanto que o conceito moral, Ricoeur caracteriza pelas formas de
ação, que possuem caráter de imperativos punitivos, são as normas, leis pretendidas
universais e com caráter de constrangimento, aplicadas quando se faz necessário uma
prescrição imperativa, a fim de recuperar condições necessárias à convivência que, para
Ricoeur como para Aristóteles deve ser um bem viver. Paul Ricoeur entende a
necessidade da moral, quanto maior for a desigualdade entre os homens, porém dá
primazia a ética como força diretiva do viver, pela sua excelência. A solicitude é
desvelo, zelo, cuidado e constitui elemento integrante da perspectiva ética ricoeuriana.
Olhar o outro como a si próprio torna menores as diferenças existentes. A solicitude
assim se apresenta mais abrangente que a amizade, pela consideração e respeito ao
diferente.
Conclusões
No pensamento ético de Aristóteles, é assinalada grande importância à felicidade,
considerada por esse, o bem que todos desejam. Assim como uma bússola orienta
sempre o norte, direcionando o caminhante ao seu objetivo, no sistema ético aristotélico
a felicidade estaria para o norte, assim como, a bússola para as virtudes, que direcionam
o caminho, e a vida boa seria o trajeto em segurança a percorrer.
Diante do exposto, fica evidente a força da racionalidade, em proporcionar escolhas
bem feitas, quando orientadas pela ética. Paul Ricoeur considera a moral como uma
articulação, que se constitui de preceitos, conselhos, recomendações e normas e que tem
como objetivo viver da melhor forma possível em meio a uma sociedade de múltiplos
aspectos no que tange à religião, à moral, à cultura. Nessa pluralidade toda, nem sempre
a perspectiva de bem é bem para todos. Devido a isso, se recorre à moral, ao imperativo
das normas e do constrangimento para restabelecer condições de uma vida harmônica
de todos com todos. Pode-se assim observar que há em Ricoeur uma complementação
do pensamento aristotélico que, implica numa atualização, mesmo numa ampliação da
ética aristotélica para dar respostas frente a tantos questionamentos do homem atual.
Agradecimentos
À Unicentro que possibilitou a bolsa de Iniciação Cientifica e à profª. Ms Ruth Rieth
Leonhardt por se disponibilizar a orientar a pesquisa desenvolvida.
Referências
1. Aquino, Tomás de. Suma Teológica III. Edições Loyola, São Paulo, 2003.
2. Aristóteles. Ética a Nicômaco. 2ª ed. UNB, Brasília, 1992.
3. César, Constança M; Vergnières Solange; A vida feliz em Aristóteles e Ricoeur.
Revista Reflexão, Campinas, nº7, p.187-199, Jan/Jun. 1999.
4. Leonhardt, Ruth Rieth. As reflexões éticas de Paul Ricoeur. Revista Analecta,
Guarapuava v.7 nº2 p.61-76 Jul/dez.2007.
5. Ricoeur, Paul. O si mesmo como um outro. Papirus, Campinas, 1991
6. Russ, Jaqueline. Pensamento Ético Contemporâneo. Ed. Paulus. São Paulo,
1999.
7. Vaz, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia V. Introdução à Ética
Filosófica 2. Edições Loyola. São Paulo. 2000.
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