DOSSIÊ DOSIER Conhecer e visitar: o Serviço Educativo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo Maria de Lurdes Henriques* Resumo Esta comunicação apresenta a experiência que vem sendo desenvolvida no Arquivo Nacional da Torre do Tombo para a implementação do Serviço Educativo. São referidos os diferentes passos que têm sido dados no sentido de conjugar as ofertas temáticas do Serviço Educativo com diferentes níveis de ensino e, consequentemente, com diferentes níveis etários e diferentes áreas curriculares, de forma a aproximar o Arquivo do público, particularmente do público escolar. São também apresentados os pontos fortes e os pontos fracos do projecto. Palavras-chave: serviço educativo, património documental, cidadania, memória colectiva. Resumen La comunicación presenta la experiencia que se ha desarrollado en el Archivo Nacional de la Torre do Tombo para la implementación de lo servicio educativo. Se refieren los distintos pasos que se han tomado a fin de adecuar los temas ofrecidos por el Servicio Educativo a los diferentes niveles escolares y, en consecuencia, a los distintos niveles etarios y distintas áreas del currículo de modo a aproximar el Archivo del público, especialmente del público escolar. Se presentan también las fortalezas y debilidades del proyecto. Palabras clave: servicio educativo, patrimonio documental, ciudadanía, memoria colectiva. Esta comunicação pretende dar a conhecer a reflexão, estratégias e tarefas que têm sido assumidas para viabilizar a implementação do Serviço Educativo no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Para contextualizar a razão de ser desse Serviço, reportamo-nos: * Licenciada em História e pós-graduada em Ciências Documentais, coordenadora do Gabinete de Relações Externas e Cooperação da Direção-Geral de Arquivos – Portugal. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques a) à Constituição da República Portuguesa, que estabelece os direitos e deveres do cidadão e do Estado face ao património cultural, e que, por meio de seu artigo 78, determina: 1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural. 2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais: a) Incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e instrumentos de ação cultural, bem como corrigir as assimetrias existentes no país em tal domínio; b) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum; c) Articular a política cultural e as demais políticas sectoriais. b) à própria missão do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT): recolher, conservar, valorizar e divulgar o seu património documental. Parece-nos óbvio que só se pode valorizar e divulgar o que se conhece. Portanto, dar a conhecer o património e as potencialidades que este oferece para o conhecimento e para a cidadania assume-se como o objetivo prioritário do ANTT. O Arquivo definiu, para a concretização desse objectivo, várias estratégias, entre as quais a implementação do Serviço Educativo, que, tal como se assume hoje, resulta de uma reflexão sobre a metodologia utilizada, ao longo de vários anos, na satisfação das visitas de estudo solicitadas por professores de diversos níveis de ensino, do 1º ciclo às Universidades. Nessas visitas, dava-se a conhecer uma das mais antigas instituições portuguesas, detentora de um vasto e rico património documental, que abrange várias áreas do globo. No entanto, nessas mesmas visitas, não se valorizava a informação contida nos documentos, não se interligavam os seus conteúdos às vivências diárias e nada se fazia para aproximar o público, particularmente o público escolar, dos arquivos. Dessa reflexão, assumiu-se a necessidade de transformar o que era uma oferta passiva numa oferta pró-activa, dinâmica, capaz despertar curiosidades, valores, conhecimentos e atitudes que possam vir a reflectir numa cidadania mais esclarecida. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar Registe-se, contudo, que as actividades relacionadas com o Serviço Educativo nem sempre mereceram a atenção mais favorável, quer por parte de anteriores direcções, quer, sobretudo, por parte de colegas arquivistas, que consideravam que a instituição deveria focar no processo informativo, destinado à satisfação dos pesquisadores e dos cidadãos, no que respeita às solicitações explícitas na legislação e cujas respostas exigem prazos legalmente definidos. Não raras vezes, e até muito recentemente, alguns profissionais de arquivo consideravam que as actividades culturais e educativas deveriam ser interditas nos arquivos, pois representavam uma perda de tempo para os técnicos e um consequente desvio dos objectivos da instituição. A propósito, não podemos deixar de recordar o peso do passado, cujas consequências virão a reflectir até o final do século XX, inícios mesmo do século XXI. A Torre do Tombo era considerada ‘a guardiã de um tesouro’, apenas acessível a raros e privilegiados investigadores. A primeira referência à possibilidade de acesso do público reporta ao decreto de 24 de Dezembro de 1901, onde se menciona o apoio aos estudiosos como uma das atribuições dos conservadores. É importante ressaltar que, até ao final dos anos oitenta, os arquivistas continuavam a ser designados como conservadores, dado que a sua função principal era conservar. Com a primeira República, projecta-se uma valorização da documentação histórica, inserida em um projecto cultural e pedagógico, fundamentado numa inovadora função dos Arquivos, que se deveriam assumir como ‘Universidades do Povo’ – preâmbulo do decreto de 18 de março de 1911. É nesse decreto que aparece, pela primeira vez, a referência a um horário de abertura ao público. Acresce, ainda, a falta de instalações condignas do Arquivo Nacional, que, instalado provisoriamente numa ala do Palácio de S. Bento desde o terramoto de 1755, ali se manteve até 1990, num espaço limitado que inviabilizava não só o cumprimento das suas funções, como também a democratização de seu acesso. Só depois da transferência para as novas e actuais instalações, na Cidade Universitária, foi possível romper com o passado e iniciar a tão desejada democratização do Arquivo. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques Mesmo assim, a pressão a que foi sujeito para responder às muitas solicitações de incorporação de documentação e respectiva disponibilização à consulta – às quais, de acordo com a legislação em vigor, tinha de responder – retardou o início da implementação do Serviço Educativo. Em 2006, o Programa de Reforma da Administração Central do Estado (PRACE) é encarado como uma janela de oportunidades, para inverter posturas e atitudes e desenvolver competências. Esse programa determina que as instituições vocacionadas para a cultura devem fomentar políticas culturais pró-activas e transversais, estimulando a cooperação interinstitucional, de forma a rentabilizar recursos e meios que permitam atingir novos e variados públicos. Para dar cumprimento a essas orientações, o ANTT ponderou a tão desejada e conveniente reestruturação do Serviço Educativo, que passou por uma definição de estratégias, planeamento e implementação, de que resulta seu actual formato. Para que o Serviço Educativo se revelasse como um projecto vencedor, muito contribuiu o facto de os profissionais reconhecerem que há um potencial de público visitante muito, mas muito superior àquele que já recebia o Arquivo, abrangendo todos os níveis etários e todos os setores da sociedade. Adicionalmente, houve o reconhecimento de que a missão da instituição passa também por abrir suas portas ao cidadão comum, para quem se devem fornecer as informações sobre a missão de uma instituição arquivística e de um profissional de arquivo. Quantos colegas de profissão não se lembrarão, tal como eu, da estranheza com que muitas vezes testemunhávamos a observação feita quando dizíamos que éramos arquivistas: “Ah!... Trabalha com papéis velhos”. São representações como essa que a nova geração de arquivistas tem de saber alterar. É certo que um arquivista trabalha com papéis velhos e com pergaminhos, materiais ainda mais antigos, mas também, e cada vez mais, trabalha com processos desmaterializados e com novos suportes digitais. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar O cidadão tem o dever de respeitar e preservar os documentos de arquivo. Nesse dever, contudo, está implícito o direito de conhecer as funções de um arquivo e de saber que estes constituem a defesa dos seus próprios direitos enquanto cidadão integrado numa sociedade, num país e num tempo histórico. O conhecimento dos direitos e deveres do cidadão, na perspectiva dos arquivos, tem sido a grande aposta do Serviço Educativo, cujo trabalho tem sido programado em duas vertentes distintas, mas complementares: 1- implementar uma estrutura organizacional particularmente dedicada a visitas escolares, abrangendo diferentes níveis etários e de ensino, por meio de uma oferta temática diversificada e integrada aos planos curriculares; 2- conceber, planear, organizar e implementar exposições e/ou mostras documentais em permanência, direccionadas para fins didáctico-pedagógicos, mediando-as para diferentes públicos, de forma a aproximá-los do Arquivo, dando-lhes a conhecer o seu património e promovendo, simultaneamente, a educação para a cidadania. Parece-nos óbvio que as exposições são um meio rápido e eficaz para tirar o Arquivo do anonimato e para aproximar o património documental do cidadão. Ao mesmo tempo, podem exercer sobre este uma sensibilização para a preservação desse património e para o trabalho desenvolvido pelos profissionais de arquivo. Constitui-se hoje, como teoria comum, que o capital cultural basilar para o desenvolvimento de práticas culturais continuadas resulta de uma apropriação, não só pelo meio familiar, mas muito especialmente pelo sistema de ensino. E é em articulação com as escolas que os Arquivos devem intervir como agentes dinamizadores de uma cidadania activa e actuante. A seguir, apresentamos algumas metodologias e etapas do modo como se tem construído e desenvolvido o Serviço Educativo junto ao público escolar e, simultaneamente, alguns procedimentos desenvolvidos para a captação de novos públicos na vertente da ‘educação para a cidadania’. […] sair com os alunos de aula é dar-lhes a ler um outro texto, que não o do livro, não para negligenciar o livro, mas para desencadear ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques uma paragem que os tornará mais ricos, pois eles vão descobrir outras escritas, outros discursos, especialmente o discurso do profissional […].1 Em face dessa nova atitude comportamental, a que designamos ‘lição de vida’, a abertura dos arquivos aos alunos, seja qual for o nível de ensino em que se encontrem, vai trazer, disso estamos certos, excelentes benefícios didácticos e pedagógicos. Nessa perspectiva, o Serviço Educativo produziu e editou o “Guia jovem – Guardar memórias… Abrir caminhos...”, obra distribuída gratuitamente a todas as bibliotecas escolares e que se encontra disponível na nossa página web <http://dgarq.gov.pt/cooperacao-e-relacoes-externas/servico-educativo/>. Com esse Guia, de leitura fácil, acessível e com forma gráfica muito atraente, pretende-se atingir um público heterogéneo, mas particularmente o escolar, constituído por docentes e discentes. Foi o primeiro instrumento de trabalho de apoio ao Serviço Educativo e um bom produto de divulgação cultural. Assumindo uma postura pró-activa, o Serviço Educativo passou a oferecer visitas temáticas, apoiadas em textos didáctico-pedagógicos, complementados por documentos seleccionados, que poderão ser visualizados em diferentes suportes, do original ao digital. Da oferta temática, destacamos: - as origens e evolução da Língua Portuguesa, com a apresentação de documentos vários, como, por exemplo, a Carta de Pêro Vaz de Caminha, em reprodução digital, anexando a transcrição no português da época e no português actual; - literatura, da Literatura Medieval à Contemporânea. Como exemplo, o Memorial do Convento, obra literária de leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário, cuja narrativa cruza com múltiplas fontes documentais do ANTT, das quais se destacam documentos sobre a Inquisição ou a máquina voadora do Padre Bartolomeu de Gusmão, mais conhecida como Passarola, ou ainda documentos relacionados com a própria construção do Convento de Mafra; 1 Lapoix e Lapoix (1989) citadas em Visitas de Estudo: concepções e eficácia na aprendizagem, António Almeida, Livros Horizontes, Lx, 2006. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar - a Censura Literária, com a apresentação de obras censuradas, como os sonetos de Bocage, século XVIII, pela Real Mesa Censória, ou ainda de obras literárias do século XX censuradas pela Direção Geral da Censura; - a formação e evolução do Estado Português, começando sempre pela apresentação da Bula Manisfestis Probatum, considerada a certidão de nascimento de Portugal; - a História da Família; - minorias étnicas e religiosas, onde se inclui, por exemplo, a temática dos movimentos migratórios ou a diáspora dos judeus, a partir do século XVI; - suportes da escrita e formas de validação dos documentos, do século XII aos nossos dias. Esses são alguns exemplos da longa lista temática oferecida pelo Serviço Educativo. A oferta de exposições e de mostras documentais em permanência tem constituído igualmente um polo dinamizador por excelência, pois estas permitem abordagens diversificadas, com a construção de diálogos inéditos e inesperados. A experiência demonstra que a compreensão desses diálogos depende dos olhos do saber e da experiência de vida do visitante e que ao profissional de arquivo compete a coordenação desses diálogos, oferecendo visões múltiplas, diversificadas e abrangentes. É preciso saber inovar. Assim, as exposições e mostras documentais têm-se assumido, cada vez mais, como uma estratégia inovadora e privilegiada do Serviço Educativo, pela multiplicidade de diálogos que proporcionam. Permito-me partilhar convosco duas experiências relacionadas a duas exposições em que foram utilizadas metodologias diferentes, para captar públicos diferentes, ambas com resultados excelentes. A saber: A exposição Registos do céu: a astronomia em documentos da Torre do Tombo mostrava apenas quatro documentos, marcas do pensamento e da acção científica dos portugueses, do século XV ao século XVII. Integrada no âmbito do Ano Internacional da ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques Astronomia, incluía o filme documentário Naus e caravelas: um choque tecnológico no século XVI, uma mostra de instrumentos científicos – telescópio, globo celeste, astrolábio, quadrante – e ainda um ecrã que permitia visualizar os céus nos dois hemisférios, em datas referidas nos documentos. Com essa exposição, deu-se início a um novo conceito expositivo em que os documentos originais são apresentados numa calote esférica, conjugando a possibilidade de os ver, folhear, ler e ampliar num ecrã táctil, o que permite uma visão otimizada dos mesmos. Era nosso objectivo despertar o interesse de um público novo, pouco habituado a visitar Arquivos, dando-lhes a conhecer uma nova visão: mostrar-lhes que os Arquivos não proporcionam apenas lições de História, de Sociologia ou Genealogia, mas também podem proporcionar lições de Astronomia, de Matemática e de outras áreas científicas. A experiência superou todas as expectativas. A exposição foi vivida por mais de quatro mil visitantes, em sua maioria jovens da faixa etária compreendida entre 13 e 17 anos, encarados pelos serviços educativos das instituições culturais como o público mais desafiante. A divulgação, dirigida às escolas em tempo hábil, permitiu mobilizar alunos e professores das áreas disciplinares da Matemática, da Física e da Química, frequentemente em parceria com a disciplina de História. As escolas reconheceram, no documento de arquivo, uma fonte de informação e de conhecimento pertinente para o domínio da literacia científica. Para os alunos, a possibilidade de interagir com documentos originais, por meio das novas tecnologias, constituiu momentos de grande regozijo. Foi com emoção que descodificaram a Carta de Mestre João, documento manuscrito em 1500, o Tratado da Esfera, ou o códice As curiosidades matemáticas, e que admiraram a excelente cartografia do século XVI, por meio do Livro da Marinharia de João de Lisboa. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar A coexistência de diferentes recursos – documentos, instrumentos científicos, documentário – potencializou a possibilidade de diversificar abordagens e actividades curriculares em todos os níveis de escolaridade. Os alunos puderam ainda participar do concurso Escreve uma Carta a Mestre João, um exercício de criação e de reflexão a partir de um dos documentos expostos. Registamos dois comentários deixados no livro de visitantes: 1- “Gostei. Aprendi mais de Astronomia em duas horas que em 15 anos da minha vida”; 2- “Muito boa ideia colocar digitalmente os livros para assim podermos interagir sem os estragar. Eu gostei muito, principalmente dos documentos históricos que cá existem”. Em síntese, indo ao encontro das apetências e competências das gerações nato digitais, vamos contribuindo para o reconhecimento da missão e do valor dos Arquivos entre os mais novos. Cada exposição é sempre encarada como uma nova experiência e um novo desafio. A exposição Os arquivos no diálogo intercultural foi planeada e implementada para um público heterogéneo e excepcionalmente explorada pelo Serviço Educativo. Por meio dos cento e treze documentos expostos, repartidos em cinco núcleos, indicados abaixo, foi possível aos visitantes viajar do século XV à actualidade e efectuar múltiplas leituras: - Entre um Nome e uma Nacionalidade; - Espaços da Cidadania; - Os que chegam e os que partem…; - …e os que vêm para ficar; - Nós e os Outros: Diálogos. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques A exposição incluía o vídeo Gente como nós, produzido pelo Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas, que dava a conhecer vidas de imigrantes no Portugal actual e que ajudou ao estabelecimento de diálogos profícuos e diversificados. Os documentos expostos, pela sua singularidade e diversidade, revelaram uma enorme capacidade de mobilização e proporcionaram verdadeiras aulas ao vivo de História, Sociologia, Antropologia e, acima de tudo, de Cidadania. Foram abordados temas tão sensíveis como a emigração, as etnias, os direitos humanos - direito ao nome, à nacionalidade, à família, ao ensino, ao trabalho, à saúde, à assistência, ao casamento, entre outros. A diversidade dos documentos expostos foi aproveitada pedagogicamente como suplemento de vários temas curriculares propostos pelos professores e preparados pelo Serviço Educativo em colaboração com estes. Por outro lado, o efeito dessa exposição junto ao cidadão comum foi o de um contínuo reviver de memórias afectivas, individuais e colectivas, suscitando encontros e desencontros em diálogos ora emocionados, ora exaltados, estabelecidos com e entre os visitantes de todas as idades e condições sociais, porque lhes trouxe à memória raízes, percursos e vivências: emigração, imigração, retornados, exilados, refugiados de guerra, para citar apenas alguns exemplos. Do livro de visitantes, seleccionámos quatro registos que não queremos deixar de partilhar, pelo significado que encerram relativamente ao processo de aprendizagem. Assim: 1- “Esta exposição é muito interessante. Faz-nos pensar como o passado vai influenciar o nosso futuro. É sempre bom saber o que os nossos antepassados fizeram para podermos mudar algo no futuro…” (aluna do ensino secundário). 2- “É muito importante que as escolas mobilizem os seus alunos para que eles possam beneficiar da riqueza que esta admirável exposição lhes pode e deve proporcionar” (Presidente da Fundação Aristides Sousa Mendes). ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar 3- “Muitos parabéns. Pela iniciativa. Pela concretização. Pelo papel pedagógico, actualíssimo, essencial na formação dos mais novos e dos mais velhos da sociedade portuguesa” (Professora da Faculdade de Direito de Lisboa). 4- “Gostei! Sensibilizou-me a selecção da documentação. Parabéns à Torre do Tombo por mais uma vez abrir as portas da cultura ao mais comum dos cidadãos…”. Das lições extraídas a partir de experiências, como as que apresentámos, e de outras similares, vamos construindo e consolidando o Serviço Educativo do ANTT, que se vai assumindo, cada vez mais, como parte da estrutura organizacional da instituição, na qualidade de mediador, na aproximação dos Arquivos ao grande público. O mais recente investimento resultou na assinatura de um protocolo, em fevereiro deste ano, entre a Direcção Geral de Arquivos e a Direcção Geral do Desenvolvimento e Inovação Curricular, por meio do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, que tutela as 2.290 Bibliotecas Escolares actualmente existentes. O protocolo tem como objectivo a sensibilização dos professores responsáveis pelas bibliotecas escolares para as potencialidades pedagógicas e para a relevância dos recursos de informação disponíveis nas bases de dados geridas pela DGARQ, tendo em conta a sua missão de serviço público. Aguardamos os resultados dessa primeira aproximação, que se iniciou com a realização de três acções de formação para oitenta coordenadores de bibliotecas escolares – aproximação que desejamos que seja útil e fecunda. A sensibilização dos professores é uma missão indispensável, porque a experiência tem mostrado que nem sempre os professores consideram os arquivos como locais a visitar, à semelhança do que se passa com as bibliotecas, os museus, os monumentos ou os sítios arqueológicos. Os arquivos ainda são considerados por alguns professores como “os guardiães da memória”, inacessíveis ao comum do cidadão. Esperamos que essa sensibilização possa contribuir para a inversão definitiva dessa postura. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques Para que essa divulgação seja possível e se vá tornando cada vez mais uma realidade, muito tem contribuído o enorme investimento que o Arquivo Nacional da Torre do Tombo tem feito na digitalização dos seus documentos, o que permite um acesso fácil e democrático aos fundos documentais. A esse propósito, convém referir que as novas tecnologias para o serviço dos arquivos proporcionam uma ruptura qualitativa e quantitativa em relação ao passado. É essa ruptura que permite ao cidadão conhecer e fruir o seu patrimônio. Ao conhecê-lo, o cidadão pode deixar-se estimular pelo poder de sedução e de encanto próprio dos documentos de Arquivo. A partir de mais de oito milhões de imagens disponíveis online, alunos e professores, individualmente, ou em grupo, dentro da sala de aula, ou fora dela, poderão realizar pesquisas simples que lhes permitam uma iniciação à exploração das fontes documentais. Queremos ainda realçar que o êxito ou o fracasso de uma visita depende muito do modo como esta é pensada e planeada. Por essa razão, o Serviço Educativo não dispensa uma estreita relação com os professores. Os resultados serão tanto mais bem conseguidos quanto maior for o entrosamento entre os profissionais visados. A operacionalização das visitas inicia-se com a sua marcação. O Serviço Educativo solicita informações detalhadas sobre os alunos destinatários: número de alunos, níveis etários, nível de escolaridade, tipo de escola - básica, secundária, profissional, universitária -, disciplina ou disciplinas em que se integra a visita; se é a 1ª vez que os alunos visitam o Arquivo Nacional da Torre do Tombo; se já visitaram outros Arquivos; tema ou temas curriculares que os professores pretendem ver desenvolvidos e, dependendo dos temas, outras questões específicas. A partir da entrevista de reconhecimento, o Serviço Educativo envia ao professor o material informativo que considera pertinente para que este possa preparar a visita ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar com os alunos, sensibilizando-os e motivando-os para os conteúdos que irão ser abordados, ajudando-os mesmo a problematizar a temática. Quanto à dinamização das visitas, partilhamos a opinião da maior parte dos professores e de muitos pedagogos, que se referem, com entusiasmo, ao empenho manifestado pelos profissionais das instituições visitadas, porque estes transmitem aos alunos a autenticidade dos seus conhecimentos, apoiados numa experiência quotidiana, envolvendo-os nos próprios problemas que integram o seu universo. Essa experiência de vida facilita a apresentação de casos concretos que ajudam a reforçar a aprendizagem. Deve-se registar, contudo, que essa situação, cómoda para o professor, não o deve libertar de acompanhar a visita a par e passo, porque o resultado será tanto melhor quanto mais o professor se envolver e interagir, transmitindo aos alunos o seu próprio interesse, o que tem um efeito estimulante no aluno. Assim, temos o arquivista, conhecedor do seu arquivo e dos seus documentos, e o professor, conhecedor dos programas e temáticas escolares. Da coordenação perfeita entre esses dois profissionais, surge um trabalho de qualidade. Se o Arquivo não aproveitar esse importante segmento da sociedade, que são os jovens estudantes, estará perdendo uma excelente oportunidade para participar na formação cívica dos jovens e na melhoria da qualidade do ensino, contribuindo para formar cidadãos aptos a compreender e respeitar o passado da sociedade que integram e, com isso, contribuir para um futuro mais digno. Permito-me partilhar convosco o testemunho de uma colega do Serviço Educativo, a propósito da experiência desenvolvida com os alunos do 1º ciclo (dos 6 aos 10 anos), durante a exposição Oh!...A República…Um século de memórias, que esteve patente ao público de outubro de 2010 a janeiro de 2011. São suas estas palavras: “As crianças gostam de vivenciar ‘coisas a sério’, neste caso um arquivo, espaço concebido para ser frequentado por adultos, que observam a consultar documentos, ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Maria de Lurdes Henriques em ‘silêncio puro’, como comenta um garoto, observando, na sala de leitura, as atitudes e cuidados dos investigadores na manipulação de documentos originais... Ao sair da Exposição exercem ainda o seu direito à opinião escrita, deixando uma apreciação, no livro de visitantes… Enfim, gestos e hábitos de cidadania que se aprendem e interiorizam com eficácia, porque decorrem de atitudes e práticas que observam directamente nos crescidos”. Para terminar, uma breve reflexão sobre a essência do próprio Serviço Educativo. Que se desengane quem pensa que o Serviço Educativo é tarefa fácil. O Serviço Educativo deve ser encarado como um Serviço de Missão, pois os seus profissionais enfrentam desafios importantes na criação, planificação e implementação de projectos que respondam efectivamente aos desafios dos diferentes públicos a que se destinam. A permanente necessidade de actualização de saberes e competências, de pensamento criativo e de estratégias, num trabalho contínuo e exigente, destinado a motivar e a captar novos públicos, passa pelo envolvimento dos seus profissionais, pela sua motivação e pela capacidade em reinventar estratégias e metodologias. A visibilidade do Serviço nem sempre reflecte o trabalho real que lhe está subjacente. Acontece que, normalmente, o discurso institucional sobre públicos e respectivas estatísticas só vê números e resultados imediatos. Esquecem, ignoram, ou pretendem ignorar, que os resultados do Serviço Educativo só podem ser mensuráveis a médio ou longo prazo e, mesmo assim, numa perspectiva muito mais qualitativa do que quantitativa. A comunicação que acabamos de apresentar pode alavancar uma viragem, mas há ainda muito trabalho a desenvolver. Há que ultrapassar resistências, mentalidades arreigadas, falta de valores, interesses instalados ou desinteresses. O trabalho realizado ao longo dos últimos quatro anos é apenas o princípio de um caminho a percorrer, se quisermos uma sociedade mais justa e esclarecida. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI Conhecer e visitar A formação do cidadão, feita a partir de arquivos, é, em nosso entender, um factor de sustentabilidade para a valorização dos Arquivos e da nossa profissão. Foi esta a grande missão que o ANTT abraçou e na qual estamos empenhados. ALA, n.27, 2012: 7° SIATI