DOSSIÊ DOSIER
Conhecer e visitar:
o Serviço Educativo do Arquivo Nacional da Torre do
Tombo
Maria de Lurdes Henriques*
Resumo
Esta comunicação apresenta a experiência que vem sendo desenvolvida no Arquivo Nacional
da Torre do Tombo para a implementação do Serviço Educativo. São referidos os diferentes
passos que têm sido dados no sentido de conjugar as ofertas temáticas do Serviço Educativo
com diferentes níveis de ensino e, consequentemente, com diferentes níveis etários e
diferentes áreas curriculares, de forma a aproximar o Arquivo do público, particularmente do
público escolar. São também apresentados os pontos fortes e os pontos fracos do projecto.
Palavras-chave: serviço educativo, património documental, cidadania, memória colectiva.
Resumen
La comunicación presenta la experiencia que se ha desarrollado en el Archivo Nacional de la
Torre do Tombo para la implementación de lo servicio educativo. Se refieren los distintos
pasos que se han tomado a fin de adecuar los temas ofrecidos por el Servicio Educativo a los
diferentes niveles escolares y, en consecuencia, a los distintos niveles etarios y distintas áreas
del currículo de modo a aproximar el Archivo del público, especialmente del público escolar. Se
presentan también las fortalezas y debilidades del proyecto.
Palabras clave: servicio educativo, patrimonio documental, ciudadanía, memoria colectiva.
Esta comunicação pretende dar a conhecer a reflexão, estratégias e tarefas que têm
sido assumidas para viabilizar a implementação do Serviço Educativo no Arquivo
Nacional da Torre do Tombo. Para contextualizar a razão de ser desse Serviço,
reportamo-nos:
*
Licenciada em História e pós-graduada em Ciências Documentais, coordenadora do Gabinete de
Relações Externas e Cooperação da Direção-Geral de Arquivos – Portugal.
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a) à Constituição da República Portuguesa, que estabelece os direitos e deveres do
cidadão e do Estado face ao património cultural, e que, por meio de seu artigo 78,
determina:
1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever
de preservar, defender e valorizar o património cultural.
2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes
culturais:
a) Incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e
instrumentos de ação cultural, bem como corrigir as assimetrias
existentes no país em tal domínio;
b) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural,
tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum;
c) Articular a política cultural e as demais políticas sectoriais.
b) à própria missão do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT): recolher,
conservar, valorizar e divulgar o seu património documental.
Parece-nos óbvio que só se pode valorizar e divulgar o que se conhece. Portanto, dar a
conhecer o património e as potencialidades que este oferece para o conhecimento e
para a cidadania assume-se como o objetivo prioritário do ANTT.
O Arquivo definiu, para a concretização desse objectivo, várias estratégias, entre as
quais a implementação do Serviço Educativo, que, tal como se assume hoje, resulta de
uma reflexão sobre a metodologia utilizada, ao longo de vários anos, na satisfação das
visitas de estudo solicitadas por professores de diversos níveis de ensino, do 1º ciclo às
Universidades. Nessas visitas, dava-se a conhecer uma das mais antigas instituições
portuguesas, detentora de um vasto e rico património documental, que abrange várias
áreas do globo. No entanto, nessas mesmas visitas, não se valorizava a informação
contida nos documentos, não se interligavam os seus conteúdos às vivências diárias e
nada se fazia para aproximar o público, particularmente o público escolar, dos
arquivos. Dessa reflexão, assumiu-se a necessidade de transformar o que era uma
oferta passiva numa oferta pró-activa, dinâmica, capaz despertar curiosidades, valores,
conhecimentos e atitudes que possam vir a reflectir numa cidadania mais esclarecida.
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Conhecer e visitar
Registe-se, contudo, que as actividades relacionadas com o Serviço Educativo nem
sempre mereceram a atenção mais favorável, quer por parte de anteriores direcções,
quer, sobretudo, por parte de colegas arquivistas, que consideravam que a instituição
deveria focar no processo informativo, destinado à satisfação dos pesquisadores e dos
cidadãos, no que respeita às solicitações explícitas na legislação e cujas respostas
exigem prazos legalmente definidos. Não raras vezes, e até muito recentemente,
alguns profissionais de arquivo consideravam que as actividades culturais e educativas
deveriam ser interditas nos arquivos, pois representavam uma perda de tempo para os
técnicos e um consequente desvio dos objectivos da instituição.
A propósito, não podemos deixar de recordar o peso do passado, cujas consequências
virão a reflectir até o final do século XX, inícios mesmo do século XXI. A Torre do
Tombo era considerada ‘a guardiã de um tesouro’, apenas acessível a raros e
privilegiados investigadores. A primeira referência à possibilidade de acesso do público
reporta ao decreto de 24 de Dezembro de 1901, onde se menciona o apoio aos
estudiosos como uma das atribuições dos conservadores. É importante ressaltar que,
até ao final dos anos oitenta, os arquivistas continuavam a ser designados como
conservadores, dado que a sua função principal era conservar.
Com a primeira República, projecta-se uma valorização da documentação histórica,
inserida em um projecto cultural e pedagógico, fundamentado numa inovadora função
dos Arquivos, que se deveriam assumir como ‘Universidades do Povo’ – preâmbulo do
decreto de 18 de março de 1911. É nesse decreto que aparece, pela primeira vez, a
referência a um horário de abertura ao público.
Acresce, ainda, a falta de instalações condignas do Arquivo Nacional, que, instalado
provisoriamente numa ala do Palácio de S. Bento desde o terramoto de 1755, ali se
manteve até 1990, num espaço limitado que inviabilizava não só o cumprimento das
suas funções, como também a democratização de seu acesso.
Só depois da transferência para as novas e actuais instalações, na Cidade Universitária,
foi possível romper com o passado e iniciar a tão desejada democratização do Arquivo.
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Mesmo assim, a pressão a que foi sujeito para responder às muitas solicitações de
incorporação de documentação e respectiva disponibilização à consulta – às quais, de
acordo com a legislação em vigor, tinha de responder – retardou o início da
implementação do Serviço Educativo.
Em 2006, o Programa de Reforma da Administração Central do Estado (PRACE) é
encarado como uma janela de oportunidades, para inverter posturas e atitudes e
desenvolver competências. Esse programa determina que as instituições vocacionadas
para a cultura devem fomentar políticas culturais pró-activas e transversais,
estimulando a cooperação interinstitucional, de forma a rentabilizar recursos e meios
que permitam atingir novos e variados públicos. Para dar cumprimento a essas
orientações, o ANTT ponderou a tão desejada e conveniente reestruturação do Serviço
Educativo, que passou por uma definição de estratégias, planeamento e
implementação, de que resulta seu actual formato.
Para que o Serviço Educativo se revelasse como um projecto vencedor, muito
contribuiu o facto de os profissionais reconhecerem que há um potencial de público
visitante muito, mas muito superior àquele que já recebia o Arquivo, abrangendo
todos os níveis etários e todos os setores da sociedade. Adicionalmente, houve o
reconhecimento de que a missão da instituição passa também por abrir suas portas ao
cidadão comum, para quem se devem fornecer as informações sobre a missão de uma
instituição arquivística e de um profissional de arquivo.
Quantos colegas de profissão não se lembrarão, tal como eu, da estranheza com que
muitas vezes testemunhávamos a observação feita quando dizíamos que éramos
arquivistas: “Ah!... Trabalha com papéis velhos”. São representações como essa que a
nova geração de arquivistas tem de saber alterar. É certo que um arquivista trabalha
com papéis velhos e com pergaminhos, materiais ainda mais antigos, mas também, e
cada vez mais, trabalha com processos desmaterializados e com novos suportes
digitais.
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O cidadão tem o dever de respeitar e preservar os documentos de arquivo. Nesse
dever, contudo, está implícito o direito de conhecer as funções de um arquivo e de
saber que estes constituem a defesa dos seus próprios direitos enquanto cidadão
integrado numa sociedade, num país e num tempo histórico. O conhecimento dos
direitos e deveres do cidadão, na perspectiva dos arquivos, tem sido a grande aposta
do Serviço Educativo, cujo trabalho tem sido programado em duas vertentes distintas,
mas complementares:
1- implementar uma estrutura organizacional particularmente dedicada a visitas
escolares, abrangendo diferentes níveis etários e de ensino, por meio de uma oferta
temática diversificada e integrada aos planos curriculares;
2- conceber, planear, organizar e implementar exposições e/ou mostras documentais
em permanência, direccionadas para fins didáctico-pedagógicos, mediando-as para
diferentes públicos, de forma a aproximá-los do Arquivo, dando-lhes a conhecer o seu
património e promovendo, simultaneamente, a educação para a cidadania.
Parece-nos óbvio que as exposições são um meio rápido e eficaz para tirar o Arquivo
do anonimato e para aproximar o património documental do cidadão. Ao mesmo
tempo, podem exercer sobre este uma sensibilização para a preservação desse
património e para o trabalho desenvolvido pelos profissionais de arquivo.
Constitui-se hoje, como teoria comum, que o capital cultural basilar para o
desenvolvimento de práticas culturais continuadas resulta de uma apropriação, não só
pelo meio familiar, mas muito especialmente pelo sistema de ensino. E é em
articulação com as escolas que os Arquivos devem intervir como agentes
dinamizadores de uma cidadania activa e actuante.
A seguir, apresentamos algumas metodologias e etapas do modo como se tem
construído e desenvolvido o Serviço Educativo junto ao público escolar e,
simultaneamente, alguns procedimentos desenvolvidos para a captação de novos
públicos na vertente da ‘educação para a cidadania’.
[…] sair com os alunos de aula é dar-lhes a ler um outro texto, que
não o do livro, não para negligenciar o livro, mas para desencadear
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uma paragem que os tornará mais ricos, pois eles vão descobrir
outras escritas, outros discursos, especialmente o discurso do
profissional […].1
Em face dessa nova atitude comportamental, a que designamos ‘lição de vida’, a
abertura dos arquivos aos alunos, seja qual for o nível de ensino em que se encontrem,
vai trazer, disso estamos certos, excelentes benefícios didácticos e pedagógicos. Nessa
perspectiva, o Serviço Educativo produziu e editou o “Guia jovem – Guardar
memórias… Abrir caminhos...”, obra distribuída gratuitamente a todas as bibliotecas
escolares
e
que
se
encontra
disponível
na
nossa
página
web
<http://dgarq.gov.pt/cooperacao-e-relacoes-externas/servico-educativo/>.
Com esse Guia, de leitura fácil, acessível e com forma gráfica muito atraente,
pretende-se atingir um público heterogéneo, mas particularmente o escolar,
constituído por docentes e discentes. Foi o primeiro instrumento de trabalho de apoio
ao Serviço Educativo e um bom produto de divulgação cultural.
Assumindo uma postura pró-activa, o Serviço Educativo passou a oferecer visitas
temáticas, apoiadas em textos didáctico-pedagógicos, complementados por
documentos seleccionados, que poderão ser visualizados em diferentes suportes, do
original ao digital. Da oferta temática, destacamos:
- as origens e evolução da Língua Portuguesa, com a apresentação de documentos
vários, como, por exemplo, a Carta de Pêro Vaz de Caminha, em reprodução digital,
anexando a transcrição no português da época e no português actual;
- literatura, da Literatura Medieval à Contemporânea. Como exemplo, o Memorial do
Convento, obra literária de leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário,
cuja narrativa cruza com múltiplas fontes documentais do ANTT, das quais se destacam
documentos sobre a Inquisição ou a máquina voadora do Padre Bartolomeu de
Gusmão, mais conhecida como Passarola, ou ainda documentos relacionados com a
própria construção do Convento de Mafra;
1
Lapoix e Lapoix (1989) citadas em Visitas de Estudo: concepções e eficácia na aprendizagem, António
Almeida, Livros Horizontes, Lx, 2006.
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- a Censura Literária, com a apresentação de obras censuradas, como os sonetos de
Bocage, século XVIII, pela Real Mesa Censória, ou ainda de obras literárias do século XX
censuradas pela Direção Geral da Censura;
- a formação e evolução do Estado Português, começando sempre pela apresentação
da Bula Manisfestis Probatum, considerada a certidão de nascimento de Portugal;
- a História da Família;
- minorias étnicas e religiosas, onde se inclui, por exemplo, a temática dos movimentos
migratórios ou a diáspora dos judeus, a partir do século XVI;
- suportes da escrita e formas de validação dos documentos, do século XII aos nossos
dias.
Esses são alguns exemplos da longa lista temática oferecida pelo Serviço Educativo.
A oferta de exposições e de mostras documentais em permanência tem constituído
igualmente um polo dinamizador por excelência, pois estas permitem abordagens
diversificadas, com a construção de diálogos inéditos e inesperados. A experiência
demonstra que a compreensão desses diálogos depende dos olhos do saber e da
experiência de vida do visitante e que ao profissional de arquivo compete a
coordenação desses diálogos, oferecendo visões múltiplas, diversificadas e
abrangentes.
É preciso saber inovar. Assim, as exposições e mostras documentais têm-se assumido,
cada vez mais, como uma estratégia inovadora e privilegiada do Serviço Educativo,
pela multiplicidade de diálogos que proporcionam.
Permito-me partilhar convosco duas experiências relacionadas a duas exposições em
que foram utilizadas metodologias diferentes, para captar públicos diferentes, ambas
com resultados excelentes. A saber:
A exposição Registos do céu: a astronomia em documentos da Torre do Tombo
mostrava apenas quatro documentos, marcas do pensamento e da acção científica dos
portugueses, do século XV ao século XVII. Integrada no âmbito do Ano Internacional da
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Astronomia, incluía o filme documentário Naus e caravelas: um choque tecnológico no
século XVI, uma mostra de instrumentos científicos – telescópio, globo celeste,
astrolábio, quadrante – e ainda um ecrã que permitia visualizar os céus nos dois
hemisférios, em datas referidas nos documentos. Com essa exposição, deu-se início a
um novo conceito expositivo em que os documentos originais são apresentados numa
calote esférica, conjugando a possibilidade de os ver, folhear, ler e ampliar num ecrã
táctil, o que permite uma visão otimizada dos mesmos.
Era nosso objectivo despertar o interesse de um público novo, pouco habituado a
visitar Arquivos, dando-lhes a conhecer uma nova visão: mostrar-lhes que os Arquivos
não proporcionam apenas lições de História, de Sociologia ou Genealogia, mas
também podem proporcionar lições de Astronomia, de Matemática e de outras áreas
científicas.
A experiência superou todas as expectativas. A exposição foi vivida por mais de quatro
mil visitantes, em sua maioria jovens da faixa etária compreendida entre 13 e 17 anos,
encarados pelos serviços educativos das instituições culturais como o público mais
desafiante.
A divulgação, dirigida às escolas em tempo hábil, permitiu mobilizar alunos e
professores das áreas disciplinares da Matemática, da Física e da Química,
frequentemente em parceria com a disciplina de História.
As escolas reconheceram, no documento de arquivo, uma fonte de informação e de
conhecimento pertinente para o domínio da literacia científica.
Para os alunos, a possibilidade de interagir com documentos originais, por meio das
novas tecnologias, constituiu momentos de grande regozijo. Foi com emoção que
descodificaram a Carta de Mestre João, documento manuscrito em 1500, o Tratado da
Esfera, ou o códice As curiosidades matemáticas, e que admiraram a excelente
cartografia do século XVI, por meio do Livro da Marinharia de João de Lisboa.
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A coexistência de diferentes recursos – documentos, instrumentos científicos,
documentário – potencializou a possibilidade de diversificar abordagens e actividades
curriculares em todos os níveis de escolaridade.
Os alunos puderam ainda participar do concurso Escreve uma Carta a Mestre João, um
exercício de criação e de reflexão a partir de um dos documentos expostos.
Registamos dois comentários deixados no livro de visitantes:
1- “Gostei. Aprendi mais de Astronomia em duas horas que em 15 anos da minha
vida”;
2- “Muito boa ideia colocar digitalmente os livros para assim podermos interagir sem
os estragar. Eu gostei muito, principalmente dos documentos históricos que cá
existem”.
Em síntese, indo ao encontro das apetências e competências das gerações nato
digitais, vamos contribuindo para o reconhecimento da missão e do valor dos Arquivos
entre os mais novos.
Cada exposição é sempre encarada como uma nova experiência e um novo desafio. A
exposição Os arquivos no diálogo intercultural foi planeada e implementada para um
público heterogéneo e excepcionalmente explorada pelo Serviço Educativo.
Por meio dos cento e treze documentos expostos, repartidos em cinco núcleos,
indicados abaixo, foi possível aos visitantes viajar do século XV à actualidade e efectuar
múltiplas leituras:
- Entre um Nome e uma Nacionalidade;
- Espaços da Cidadania;
- Os que chegam e os que partem…;
- …e os que vêm para ficar;
- Nós e os Outros: Diálogos.
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A exposição incluía o vídeo Gente como nós, produzido pelo Comissariado para a
Imigração e Minorias Étnicas, que dava a conhecer vidas de imigrantes no Portugal
actual e que ajudou ao estabelecimento de diálogos profícuos e diversificados.
Os documentos expostos, pela sua singularidade e diversidade, revelaram uma enorme
capacidade de mobilização e proporcionaram verdadeiras aulas ao vivo de História,
Sociologia, Antropologia e, acima de tudo, de Cidadania. Foram abordados temas tão
sensíveis como a emigração, as etnias, os direitos humanos - direito ao nome, à
nacionalidade, à família, ao ensino, ao trabalho, à saúde, à assistência, ao casamento,
entre outros.
A diversidade dos documentos expostos foi aproveitada pedagogicamente como
suplemento de vários temas curriculares propostos pelos professores e preparados
pelo Serviço Educativo em colaboração com estes.
Por outro lado, o efeito dessa exposição junto ao cidadão comum foi o de um contínuo
reviver de memórias afectivas, individuais e colectivas, suscitando encontros e
desencontros em diálogos ora emocionados, ora exaltados, estabelecidos com e entre
os visitantes de todas as idades e condições sociais, porque lhes trouxe à memória
raízes, percursos e vivências: emigração, imigração, retornados, exilados, refugiados de
guerra, para citar apenas alguns exemplos.
Do livro de visitantes, seleccionámos quatro registos que não queremos deixar de
partilhar, pelo significado que encerram relativamente ao processo de aprendizagem.
Assim:
1- “Esta exposição é muito interessante. Faz-nos pensar como o passado vai influenciar
o nosso futuro. É sempre bom saber o que os nossos antepassados fizeram para
podermos mudar algo no futuro…” (aluna do ensino secundário).
2- “É muito importante que as escolas mobilizem os seus alunos para que eles possam
beneficiar da riqueza que esta admirável exposição lhes pode e deve proporcionar”
(Presidente da Fundação Aristides Sousa Mendes).
ALA, n.27, 2012: 7° SIATI
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3- “Muitos parabéns. Pela iniciativa. Pela concretização. Pelo papel pedagógico,
actualíssimo, essencial na formação dos mais novos e dos mais velhos da sociedade
portuguesa” (Professora da Faculdade de Direito de Lisboa).
4- “Gostei! Sensibilizou-me a selecção da documentação. Parabéns à Torre do Tombo
por mais uma vez abrir as portas da cultura ao mais comum dos cidadãos…”.
Das lições extraídas a partir de experiências, como as que apresentámos, e de outras
similares, vamos construindo e consolidando o Serviço Educativo do ANTT, que se vai
assumindo, cada vez mais, como parte da estrutura organizacional da instituição, na
qualidade de mediador, na aproximação dos Arquivos ao grande público.
O mais recente investimento resultou na assinatura de um protocolo, em fevereiro
deste ano, entre a Direcção Geral de Arquivos e a Direcção Geral do Desenvolvimento
e Inovação Curricular, por meio do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, que
tutela as 2.290 Bibliotecas Escolares actualmente existentes. O protocolo tem como
objectivo a sensibilização dos professores responsáveis pelas bibliotecas escolares para
as potencialidades pedagógicas e para a relevância dos recursos de informação
disponíveis nas bases de dados geridas pela DGARQ, tendo em conta a sua missão de
serviço público.
Aguardamos os resultados dessa primeira aproximação, que se iniciou com a
realização de três acções de formação para oitenta coordenadores de bibliotecas
escolares – aproximação que desejamos que seja útil e fecunda.
A sensibilização dos professores é uma missão indispensável, porque a experiência tem
mostrado que nem sempre os professores consideram os arquivos como locais a
visitar, à semelhança do que se passa com as bibliotecas, os museus, os monumentos
ou os sítios arqueológicos.
Os arquivos ainda são considerados por alguns professores como “os guardiães da
memória”, inacessíveis ao comum do cidadão. Esperamos que essa sensibilização
possa contribuir para a inversão definitiva dessa postura.
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Para que essa divulgação seja possível e se vá tornando cada vez mais uma realidade,
muito tem contribuído o enorme investimento que o Arquivo Nacional da Torre do
Tombo tem feito na digitalização dos seus documentos, o que permite um acesso fácil
e democrático aos fundos documentais.
A esse propósito, convém referir que as novas tecnologias para o serviço dos arquivos
proporcionam uma ruptura qualitativa e quantitativa em relação ao passado. É essa
ruptura que permite ao cidadão conhecer e fruir o seu patrimônio. Ao conhecê-lo, o
cidadão pode deixar-se estimular pelo poder de sedução e de encanto próprio dos
documentos de Arquivo.
A partir de mais de oito milhões de imagens disponíveis online, alunos e professores,
individualmente, ou em grupo, dentro da sala de aula, ou fora dela, poderão realizar
pesquisas simples que lhes permitam uma iniciação à exploração das fontes
documentais.
Queremos ainda realçar que o êxito ou o fracasso de uma visita depende muito do
modo como esta é pensada e planeada. Por essa razão, o Serviço Educativo não
dispensa uma estreita relação com os professores. Os resultados serão tanto mais bem
conseguidos quanto maior for o entrosamento entre os profissionais visados.
A operacionalização das visitas inicia-se com a sua marcação. O Serviço Educativo
solicita informações detalhadas sobre os alunos destinatários: número de alunos,
níveis etários, nível de escolaridade, tipo de escola - básica, secundária, profissional,
universitária -, disciplina ou disciplinas em que se integra a visita; se é a 1ª vez que os
alunos visitam o Arquivo Nacional da Torre do Tombo; se já visitaram outros Arquivos;
tema ou temas curriculares que os professores pretendem ver desenvolvidos e,
dependendo dos temas, outras questões específicas.
A partir da entrevista de reconhecimento, o Serviço Educativo envia ao professor o
material informativo que considera pertinente para que este possa preparar a visita
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com os alunos, sensibilizando-os e motivando-os para os conteúdos que irão ser
abordados, ajudando-os mesmo a problematizar a temática.
Quanto à dinamização das visitas, partilhamos a opinião da maior parte dos
professores e de muitos pedagogos, que se referem, com entusiasmo, ao empenho
manifestado pelos profissionais das instituições visitadas, porque estes transmitem aos
alunos a autenticidade dos seus conhecimentos, apoiados numa experiência
quotidiana, envolvendo-os nos próprios problemas que integram o seu universo. Essa
experiência de vida facilita a apresentação de casos concretos que ajudam a reforçar a
aprendizagem.
Deve-se registar, contudo, que essa situação, cómoda para o professor, não o deve
libertar de acompanhar a visita a par e passo, porque o resultado será tanto melhor
quanto mais o professor se envolver e interagir, transmitindo aos alunos o seu próprio
interesse, o que tem um efeito estimulante no aluno. Assim, temos o arquivista,
conhecedor do seu arquivo e dos seus documentos, e o professor, conhecedor dos
programas e temáticas escolares. Da coordenação perfeita entre esses dois
profissionais, surge um trabalho de qualidade.
Se o Arquivo não aproveitar esse importante segmento da sociedade, que são os
jovens estudantes, estará perdendo uma excelente oportunidade para participar na
formação cívica dos jovens e na melhoria da qualidade do ensino, contribuindo para
formar cidadãos aptos a compreender e respeitar o passado da sociedade que
integram e, com isso, contribuir para um futuro mais digno.
Permito-me partilhar convosco o testemunho de uma colega do Serviço Educativo, a
propósito da experiência desenvolvida com os alunos do 1º ciclo (dos 6 aos 10 anos),
durante a exposição Oh!...A República…Um século de memórias, que esteve patente
ao público de outubro de 2010 a janeiro de 2011. São suas estas palavras:
“As crianças gostam de vivenciar ‘coisas a sério’, neste caso um arquivo, espaço
concebido para ser frequentado por adultos, que observam a consultar documentos,
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Maria de Lurdes Henriques
em ‘silêncio puro’, como comenta um garoto, observando, na sala de leitura, as
atitudes e cuidados dos investigadores na manipulação de documentos originais... Ao
sair da Exposição exercem ainda o seu direito à opinião escrita, deixando uma
apreciação, no livro de visitantes… Enfim, gestos e hábitos de cidadania que se
aprendem e interiorizam com eficácia, porque decorrem de atitudes e práticas que
observam directamente nos crescidos”.
Para terminar, uma breve reflexão sobre a essência do próprio Serviço Educativo. Que
se desengane quem pensa que o Serviço Educativo é tarefa fácil. O Serviço Educativo
deve ser encarado como um Serviço de Missão, pois os seus profissionais enfrentam
desafios importantes na criação, planificação e implementação de projectos que
respondam efectivamente aos desafios dos diferentes públicos a que se destinam.
A permanente necessidade de actualização de saberes e competências, de
pensamento criativo e de estratégias, num trabalho contínuo e exigente, destinado a
motivar e a captar novos públicos, passa pelo envolvimento dos seus profissionais,
pela sua motivação e pela capacidade em reinventar estratégias e metodologias.
A visibilidade do Serviço nem sempre reflecte o trabalho real que lhe está subjacente.
Acontece que, normalmente, o discurso institucional sobre públicos e respectivas
estatísticas só vê números e resultados imediatos. Esquecem, ignoram, ou pretendem
ignorar, que os resultados do Serviço Educativo só podem ser mensuráveis a médio ou
longo prazo e, mesmo assim, numa perspectiva muito mais qualitativa do que
quantitativa.
A comunicação que acabamos de apresentar pode alavancar uma viragem, mas há
ainda muito trabalho a desenvolver. Há que ultrapassar resistências, mentalidades
arreigadas, falta de valores, interesses instalados ou desinteresses.
O trabalho realizado ao longo dos últimos quatro anos é apenas o princípio de um
caminho a percorrer, se quisermos uma sociedade mais justa e esclarecida.
ALA, n.27, 2012: 7° SIATI
Conhecer e visitar
A formação do cidadão, feita a partir de arquivos, é, em nosso entender, um factor de
sustentabilidade para a valorização dos Arquivos e da nossa profissão.
Foi esta a grande missão que o ANTT abraçou e na qual estamos empenhados.
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