Inverno
2013/14
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08
O 25 de Abril de 74 visto por
investigadores norte-americanos
Quem são os políticos
portugueses da Califórnia?
O Nobel de origens
açorianas
A Parceria Transatlântica de
Comércio e Investimento (TTIP)
Aprender Português
na América
Fundação Luso­‑Americana
CONSELHO DIRECTIVO:
Teodora Cardoso (Presidente)
Embaixador dos EUA
Jorge Figueiredo Dias
Jorge Torgal
Luís Braga da Cruz
Luís Valente de Oliveira
Michael de Mello
Vasco Pereira da Costa
Vasco Graça Moura
“Belo céu azul [aqui em Nova Iorque]
que me leva a pensar que nós estamos
na mesma latitude de Lisboa,
o que tenho dificuldade em imaginar.”
Albert Camus, Cahier V (1946)
CONSELHO EXECUTIVO:
Maria de Lurdes Rodrigues (Presidente)
Charles Allen Buchanan, Jr
Mário Mesquita
SECRETÁRIO­‑GERAL: José Sá Carneiro
DIRECTORES: Fátima Fonseca, Miguel Vaz
SUBDIRECTOR: Rui Vallêra e Paula Vicente
ASSESSORES: João Silvério
Rua do Sacramento à Lapa, 21
1249­‑090 Lisboa | Portugal
Tel.: (+351) 21 393 5800 • Fax: (+351) 21 396 3358
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Paralelo
DIRECTORA: Maria de Lurdes Rodrigues
EDITORA: Sara Pina
COORDENADORA: Paula Vicente
COLABORAM NESTE NÚMERO: Almerinda Romeira,
Alexandre Soares, Ana Maria Silva, Ana Cristina
Cachola, Carla Baptista, Cláudia Henriques,
Eduardo Pereira Correia, Filipa Melo, Francisco
Belard, Idílio Freire, Isabel Aleario, Joana
Carvalho Fernandes, Joana Rodrigues, Maria
João Avillez, Marina Almeida, Miguel Monjardino,
Pedro Borges Graça, Raquel Duque, Rui Ochoa,
Sara Pina, Sofia Branco, Vanessa Rodrigues
DESIGN: José Brandão | Susana Brito [Atelier B2]
REVISÃO: António Martins
IMPRESSÃO: www.textype.pt
Caro leitor
TIRAGEM: 1000 exemplares
NIF: 501 526 307
Nº DE REGISTO NA ERC: 125
PERIODICIDADE: semestral
563
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ISSN 1646­‑883X
© Copyright: Fundação Luso­‑Americana
para o Desenvolvimento
Todos os direitos reservados
O
acordo de Parceria Atlântica de Comércio e Investimento (TTIP) é
analisado neste número num artigo de opinião de Nuno Cunha
Rodrigues que tem participado nos debates nacionais sobre o
tema. Maria João Avillez escreve sobre a sua experiência na América, ou,
como diz, nas “Várias Américas”.
A reportagem de capa trata as novas abordagens do ensino de português
nos EUA e, entre muitos outros importantes assuntos transatlânticos, discutimos com quatro excelentes investigadores o 25 de Abril e as suas consequências. A não perder a última edição desta revista em papel.
A Paralelo continua online para relatar os assuntos de interesse para Portugal e os EUA. Muito para além do paralelo geográfico, partilhado pelos
dois países, é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.
SARA PINA
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Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
Inverno
índice
2013/14
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08
O 25 de Abril de 74 visto por
investigadores norte-americanos
Quem são os políticos
portugueses da Califórnia?
O Nobel de origens
açorianas
OFERTA
DO EDITOR
Aprender Português
COMPLIMENTARYna América
A Parceria Transatlântica de
Comércio e Investimento (TTIP)
CAPA
“Como se
ensina português
na América”
COPY
[POLÍTICA]
04 | Editorial
Paralelo online
06 | Quem são os políticos
portugueses da Califórnia?
por Joana Carvalho Fernandes
25 de abril
1974 - 2014
O 25 de Abril de 74
visto por investigadores
norte-americanos
por Sara Pina
18 | Tudo é possível?
20 | “Foi um período
de esperança e expectativa”
22 | A crise teve menos impacto
negativo em Portugal
24 | “Tinha a sensação que o mundo
estava a fazer-se de novo”
[PORTUGAL/EUA]
[ECONOMIA]
36 | O Nobel
de origens açorianas
40 | A Parceria Transatlântica
de Comércio e Investimento (TTIP)
por Sara Pina
por Nuno Cunha Rodrigues
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
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Paralelo online
‘
Fundada há quase sete anos, a Paralelo
transitará para o formato digital, no quadro
do Website da FLAD, sendo esta a oitava
e última edição em papel.
’
A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento decidiu centrar no
online a sua comunicação institucional. Fundada há quase sete anos, a Paralelo
transitará para o formato digital, no quadro do website da flad, sendo esta a
oitava e última edição em papel.
Centrada fundamentalmente nas iniciativas promovidas e apoiadas pela flad
e em temas ligados às relações entre Portugal e os Estados Unidos da América,
cada edição da Paralelo corresponde a um número de páginas de texto informativo igual ou superior ao dos magazines noticiosos (média de 80 páginas
por edição).
Esta decisão corresponde ao enorme desenvolvimento do espaço digital.
O título da revista da flad passará a ser Paralelo Online, aludindo às relações entre
Portugal e os Estados Unidos da América. Lisboa fica no mesmo paralelo de
Nova Iorque, ainda que raramente isso nos ocorra, de um lado ou de outro
do Atlântico.
Paralelo
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EDITORIAL
Paralelo n.o 8
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POLÍTICA
Luso-descendentes no Congresso norte-americano
A luz sobre o “mistério”da Califórnia
acendeu-se com uma história
de amor
Quando a família Graves chegou ao Vale de São Joaquim, na Califórnia, Alvin Ray “não
sabia nada sobre portugueses”. Ficou “muito impressionado com a beleza das mulheres”.
Apaixonou-se. Casou com uma luso-descendente de terceira geração e apaixonou-se
também pela sua família. Os avós, açorianos, inspiraram-no. Os portugueses do “Valley”
foram objecto de vários trabalhos do historiador nas últimas décadas. Este ano, Alvin R.
Graves lançou o livro California’s Portuguese Politicians – A Century of Legislative
Service que conta a história de um século de participação dos emigrantes portugueses
deste Estado na política norte-americana, e procura perceber a causa do seu sucesso.
POR JOANA CARVALHO FERNANDES*
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Mas então, o “mistério” da Califórnia
explica-se com uma coincidência ou
com uma consequência? “Nada é mais
humano do que a política. As ciências
sociais não são como as ciências exactas.
Este livro é um sumário das minhas
observações, das minhas conversas, das
minhas interpretações. Por isso, o que,
na minha opinião, justifica que esta zona
tenha produzido todos os luso-americanos eleitos para o Congresso não é
apenas coincidência nem apenas
consequência.É, ao mesmo tempo, um
pouco das duas, e a explicação começa
na linha que separa o urbano do rural”,
acrescentou.
TONY GOULART
A Califórnia é o único Estado norte-americano onde existem congressistas de origem portuguesa. Isto acontece apesar de
haver diversos outros pólos de emigração
portuguesa dispersos pelo país, muitos
deles mais numerosos e mais concentrados
do que o deste Estado, como Massachusetts
ou Rhode Island, na costa leste.
O “mistério” da Califórnia “podia ser
uma coincidência ou uma consequência”.
Alvin R. Graves foi estudá-lo, com o apoio
da Fundação Luso-Americana para o
Desenvolvimento (FLAD).
O resultado – California’s Portuguese Politicians
– A Century of Legislative Service – é “um relato biográfico e histórico” numa janela de
um século, que elenca todos os luso-americanos eleitos oficialmente na
Califórnia, desde John G. Mattos, que em
1900 ganhou a eleição para a California
State Assembly, até David Valadão, que, já
em 2010, ganhou a eleição para a mesma
assembleia, sendo eleito dois anos depois
para o Congresso Federal, ao lado de dois
outros políticos luso-americanos, Jim
Costa e Devin Nunes.
“O meu objectivo era dar a conhecer
estas pessoas, que muitos – incluindo
portugueses e luso-descendentes – não
conheciam, ou não sabiam que eram de
origem portuguesa. Quis também corrigir mal-entendidos. Eu sabia que havia
muito por conhecer sobre este tema, nada
A apresentação do livro contou com a presença
do embaixador de Portugal nos EUA (à direita)
e o cônsul-geral em São Francisco (à esquerda).
tinha sido feito. Mas isto é uma colecção
de biografias introdutórias, apenas para
início de conversa. Traz mais perguntas
do que respostas. É um ponto de partida
para que quem tenha interesse no tema
possa ter por onde começar”, explicou
o historiador.
OS PORTUGUESES DO VALE
DE SÃO JOAQUIM DA CALIFÓRNIA
“Esta história começa com uma história
de amor. Casei-me com uma portuguesa
e apaixonei-me também pela sua família.
O avô era um dos melhores exemplos dos
portugueses que tínhamos no Vale. Nasceu
nos Açores, era órfão e passou alguns anos
num seminário, onde aprendeu francês e
latim. Era bom em português e em matemática. Era empreendedor e um líder
carismático. Era reconhecido por todos e
teve sucesso. Ele inspirou-me. Foi por
causa dele que comecei a estudar os portugueses”, recordou o historiador.
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TONY GOULART
POLÍTICA
E, no século XX, também não se pode separar a agricultura do agronegócio, que está,
por sua vez, e ainda nos dias de hoje, muito
ligado às questões da política”, disse.
Assim, os portugueses foram construindo,
a par de negócios de sucesso, nomes de
família que se tornaram autênticas “marcas
de confiança” para a comunidade: “Os
portugueses estão entre os maiores, mais
antigos e mais importantes empresários
nesta área. O resultado de mais de 100 anos
na liderança do desenvolvimento do sector
agrícola foi uma imagem forte e respeitada
para a família. Para as famílias. Os portugueses eram influentes na comunidade e
esta confiança colocou-os em vantagem em
relação à influência política na comunidade quando comparados com os emigrantes
portugueses noutros Estados”.
Alvin R. Graves explicando o seu estudo
de um século de políticos luso-americanos
Em 1969, Graves fez um mestrado na
Universidade da Califórnia e estudou as leitarias portuguesas no Vale de São Joaquim.
Mais tarde, estudou o papel destes emigrantes na agricultura daquele Estado.
Voltou ao tema em 2002, quando a
Portuguese Heritage Publications of
California, uma organização sem fins lucrativos liderada por Tony Goulart, que promove a investigação sobre a presença
portuguesa neste Estado, lhe fez um convite para rever estas investigações. Desse trabalho resultou o livro The Portuguese Californians.
Para Alvin R. Graves, o que explica o
inigualável sucesso dos emigrantes portugueses e luso-americanos na Califórnia
na política tem raízes “em diferenças básicas que começam com as diferenças entre
espaço rural e espaço urbano”.
“Em primeiro lugar, importa perceber que
não se pode separar o Vale da agricultura:
esta terra é agricultura, sempre foi e sê-lo-á
no futuro próximo. E, para analisarmos este
assunto, também não podemos separar os
portugueses deste Vale da agricultura.
Quando aqui chegaram, há 100 anos, os
emigrantes portugueses – sobretudo açorianos – vieram continuar uma actividade que
já desenvolviam antes de mudarem de país
e isto não aconteceu com as comunidades
dos outros Estados. Aqui os portugueses
começaram como pequenos agricultores e
cresceram até serem líderes de grandes
empresas. Não se separa a evolução da agricultura na Califórnia do crescimento da
comunidade de emigrantes portugueses.
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COINCIDÊNCIA OU CONSEQUÊNCIA?
Uma, e depois a outra. Ou seja, para o
historiador, “pode identificar-se como
coincidência – ou sorte, ou vontade – que
portugueses ou luso-americanos tenham
chegado a candidatos”. Contudo, depois
actuou a consequência da herança forte.
“Foi a história da família, a reputação da
família e o seu poder de influência na
comunidade que levou estes homens ao
Congresso. A marca de confiança em que
o nome das famílias portuguesas neste
sítio se transformou pesou como vantagem para a vitória na eleição”, explicou.
“Mesmo que não se conheça a pessoa,
‘
Foi a história da família,
a reputação da família
e o seu poder de
influência na comunidade
que levou estes homens
ao Congresso. Alvin R. Gravves
’
conhece-se a família. Se se disser o nome
Mendes, as pessoas saberão de quem se está
a falar. E se um membro da família Mendes
liga e diz que o seu primo vai concorrer a
um lugar, a reputação da família pesa no
voto. Nestes casos, estamos a falar de famílias com um nome construído no espaço
de mais de um século, e que têm uma rede
de comunicação fenomenal”, acrescentou.
Mário Mesquita, membro do conselho
executivo da FLAD, explicou que a fundação apoiou a investigação de Alvin R.
Graves porque esta era uma ideia com
vários argumentos fortes: uma questão de
partida com interesse, o apoio de “personalidades destacadas da comunidade portuguesa” ao projecto e “a confiança que
o investigador merecia”.
As respostas que o trabalho de Graves
encontrou puseram alguma luz sobre o
tema, mas, sobretudo, trouxeram muitas
outras questões: “Para perceber porque é
que só na Califórnia existem senadores portugueses, será necessário estudar ainda, pelo
menos, os Estados onde a emigração portuguesa é dominante, como Massachusetts,
Rhode Island, New Jersey, entre outros.
E tudo isso está por fazer”, concluiu.
* Jornalista freelancer
Quem são os
políticos portugueses
da Califórnia?
O novo livro California’s Portuguese
Politicians – A Century of Legislative
Service, da autoria de Alvin Graves e publi‑
cado pelo Portuguese Heritage Publications
of California, Inc. com o apoio da Fundação
Luso-Americana, foi apresentado em
Tulare, nos Estados Unidos, numa sessão
promovida no âmbito da 17.ª Gala da
PALCUS, dia 1 de Novembro, e onde este‑
ve presente do congressista luso-america‑
no Devin Nunes.
A obra resulta de um trabalho de investi‑
gação desenvolvido ao longo de vários
anos e apresenta os luso-descendentes
eleitos para cargos políticos, quer a nível
estadual, quer federal, da Califórnia.
O estudo, encomendado pela FLAD, incide
especificamente sobre o Estado da
Califórnia tendo como objectivo perceber
por que motivo todos os luso-americanos
eleitos a nível federal nos EUA são prove‑
nientes deste estado. Para compreender
melhor este fenómeno, a FLAD apoia este
trabalho que se insere na estratégia de
ajudar os portugueses e luso-descendentes
a afirmar-se politicamente, e de promover
a cultura e língua portuguesas nos EUA.
O livro foi também apresentado na Gala
da PALCUS, contando com a presença do
congressista luso-americano Jim Costa, do
embaixador de Portugal nos EUA, Nuno
Brito, e do cônsul-geral de Portugal em
São Francisco, Nuno Mathias, e em mais
três sessões realizadas nas cidades de
San Jose e San Leandro.
ANA MARIA SILVA LPM
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POLÍTICA
Seminários d’Óbidos 2013: políticos e diplomatas
Quem são as elites portuguesas
que fazem a política externa?
Resultado de uma parceria bem-sucedida iniciada em 2004 com a Câmara Municipal
de Óbidos (CMO), como foi destacado pelo presidente Telmo Faria na sessão de abertura,
o IPRI – UNL organizou, entre os dias 16 e 18 de Setembro, mais uma edição
do seu Curso de Verão em Óbidos, este ano dedicada ao tema Políticos e Diplomatas:
Quem são as Elites Portuguesas que Fazem a Política Externa?,
sob a coordenação científica de Nuno Severiano Teixeira, director do IPRI – UNL.
POR ISABEL ALCARIO*
Integrado no projecto “Política Externa e
Regimes Políticos: Portugal 1890-2010”,
também coordenado por Nuno Severiano
Teixeira e desenvolvido no IHC e no IPRI
– UNL por uma equipa multidisciplinar de
investigadores oriundos da história, da
ciência política, da sociologia e das relações internacionais e financiado pela FCT
– MEC, que procura deslocar o centro da
análise dos resultados para o processo de
formulação da política externa portuguesa, desenvolvendo uma análise que incide
em três dimensões: sobre os agentes (políticos e diplomáticos); sobre as estruturas
institucionais (a estrutura orgânica do
Ministério dos Negócios Estrangeiros e a
estrutura diplomática e consular); e sobre
os processos de tomada de decisão
política, neste seminário foram apresentados os primeiros resultados deste projecto, relativos mais concretamente à
primeira dimensão.
Organizado em painéis temáticos divididos pelos três dias do curso, onde diferentes especialistas apresentaram os seus
trabalhos de investigação, os Seminários
d’Óbidos proporcionaram ainda uma
oportunidade de diálogo entre estes e
alguns dos principais protagonistas da
política externa portuguesa, objecto do
seu estudo, ao contar com a participação
de diplomatas de carreira, como o embaixador João Rosa Lã, Manuela Franco, actual
directora do Instituto Diplomático e antiga Secretária de Estado dos Negócios
8
cionais, ciência política e história),
funcionários da alta administração pública aposentados e, no último dia, os adidos
de embaixada admitidos no concurso de
2013, a edição de 2013 foi, provavelmente, a que contou com um público mais
diversificado, revelando a forma como
estes seminários se afirmam cada vez mais
no panorama académico e mediático
nacional.
Pedro Tavares de Almeida, director do
Departamento de Estudos Políticos da FCSH
– UNL e investigador do IPRI – UNL, deu
início aos seminários académicos com
uma apresentação sobre o estudo das elites políticas portuguesas,
onde introduziu a abordagem teórica e conceptual do estudo das elites
A troca de sinergias entre académicos enquadrando, desta
e protagonistas caracterizou o intenso forma, as apresentações
seguintes. Em seguida,
debate que marcou as sessões
Alejandro Quiroz Flores,
da Universidade de
do Curso e que se prolongou
Essex, apresentou o seu
para os momentos de convívio.
estudo sobre a sobrevivência política dos
ministros dos Negócios
A troca de sinergias entre académicos e Estrangeiros baseado numa análise longiprotagonistas caracterizou, aliás, o inten- tudinal realizada sobre cerca de 7500
so debate que marcou as sessões do Curso mandatos ministeriais em 181 países ao
e que se prolongou para os momentos de
longo de três séculos. A sessão da manhã
convívio. Com um público composto por do dia 17, presidida pelo embaixador João
investigadores, alunos de mestrado e dou- Rosa Lã, foi dedicada ao painel “Os
toramento (das áreas de relações interna- Ministros” e permitiu a Nuno Severiano
Estrangeiros e da Cooperação, e do embaixador Francisco Seixas da Costa, antigo
Secretário de Estado dos Assuntos Europeus
que, com os seus testemunhos sobre os
seus percursos e experiências, permitiram
aos participantes a entrada em alguns episódios mais curiosos da vida das chancelarias e do Ministério. Da mesma forma,
Rui Machete, Ministro dos Negócios
Estrangeiros e antigo Secretário de Estado
da Emigração, não podendo estar presente presencialmente, enviou uma mensagem em vídeo aos participantes onde
manifestava o seu apoio e interesse por
mais esta iniciativa do IPRI – UNL e da CMO.
‘
’
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POLÍTICA
maioria da literatura académica internacional sugere, levaram Manuela Franco a destacar a importância de ter personalidades
com um peso político forte à frente do
Ministério e menor capacidade de influência política dos especialistas.
Ao terceiro dia, na sessão sobre as elites
com as suas mudanças e permanências,
traçando simultaneamente um pouco da
história das própria instituição. Filipe Abreu
Nunes, do IDN, desenvolveu uma apresentação sobre o recrutamento das elites administrativas em Portugal (os directores-gerais),
onde destacou o padrão de profissionalização matizado pela persistência de lógicas de
politização clientelar.
André Freire, do ISCTE –
Manuela Franco destacou
IUL, incidiu sobretudo
a importância de ter personalidades
sobre as atitudes dos
deputados e eleitores
com um peso político forte
portugueses perante a
à frente do Ministério e menor
integração europeia e a
forma como a crise ecocapacidade de influência política
nómica tem afectado o
dos especialistas.
apoio a esta dimensão da
política externa portuguesa, apontando para
burocráticas e políticas, Nuno Severiano uma erosão deste apoio.
Teixeira traçou a evolução do perfil dos
embaixadores portugueses desde 1890, *Investigadora do IPRI e doutoranda do ICS
‘
’
CÂMARA MUNICIPAL DE ÓBIDOS
Teixeira responder à questão “Quem é o
Ministro dos Negócios Estrangeiros em
Portugal?” e explorar uma dimensão comparada, a nível nacional, por António Costa
Pinto do ICS – UL que focou sobretudo a
escolha de ministros sem filiação partidária, os chamados especialistas, e internacional, por Goffredo Adinolfi do CIES – IUL,
que apresentou o perfil do ministro dos
Negócios Estrangeiros italiano desde 1919.
Na sessão da tarde, dedicada aos secretários de Estado, Pedro Silveira, do CESNova
apresentou o perfil dos secretários de Estado
portugueses, baseado numa análise prosopográfica e da carreira governamental destes governantes, estabelecendo a distinção
entre especialistas e políticos, e Isabel Alcario
traçou o perfil dos secretários de Estado do
Ministério dos Negócios Estrangeiros, elaborado no âmbito do projecto supramencionado. As conclusões de ambos os
investigadores indicando que a maioria dos
secretários de Estado não tem uma carreira
ministerial posterior ao contrário do que a
Telmo Faria, presidente da Câmara Municipal de Óbidos (à esquerda) e Nuno Severiano Teixeira (director do IPRI)
no curso “Políticos e Diplomatas: Quem São as Elites Portuguesas Que Fazem a Política Externa?”
Paralelo n.o 8
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POLÍTICA
O sonho
O dia 3 de Março de 1913 ficou marcado pela Marcha das Sufragistas
na Avenida Pensilvânia em Washington, um dia antes da tomada de posse de Woodrow
Wilson, o 28.º Presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Cerca de oito mil
mulheres marcharam em protesto contra a política da sociedade norte-americana
que lhes negava o direito ao voto. Foi um marco na luta pelo direito ao voto feminino.
Foi há cem anos.
POR SÓNIA ANDRADE*
to já nem sequer é visto como uma conquista, mas como algo natural e seria
impensável ser de outra forma. Mas há
um século, o que era impensável é que
uma pessoa, por ser mulher, pudesse votar,
ser governante, ou trabalhar “como um
homem”. A discriminação era consensual
até que algumas pessoas do sexo feminino tiveram o sonho de acabar com ela.
A luta nos EUA terminou com a aprovação
da 19.ª Emenda à Constituição dos Estados
Unidos de 1919 que concedeu à mulher
o direito ao voto em todos os estados.
No entanto, o movimento pelo sufrágio
universal começou no Reino Unido da Grã­
‑Bretanha e Irlanda onde a campanha pelo
voto feminino foi mais radical. As “suffragettes”, como inicialmente e de forma
pejorativa foram apelidadas, conseguiram
em 1918 que o Representation of the
People Act fosse aprovado, permitindo às
mulheres acima dos 30 anos, proprietárias
Library of Congress prints and photographs division Washington, D.C.
Em 2013 nos EUA, em Portugal e na maioria dos países ocidentais, uma mulher
pode votar desde que seja maior de idade,
mas esse direito pleno nos EUA só se tornou realidade em 1920 e em Portugal foi
conquistado depois do 25 de Abril de
1974, há trinta e nove anos. No entanto,
há ainda pelo mundo muitos países como
o Koweit, entre outros exemplos, onde as
mulheres não são dignas desse direito mas
quer nos EUA, quer em Portugal esse direi-
A 19.a Emenda à Constituição Americana veio a dar resposta à luta das mulheres pelo direito de voto.
10
Paralelo n.o 8
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de uma ou mais casas, exercer o direito ao
voto. Mas demorou mais dez anos para que
em 1928 este direito se estendesse a todas
as mulheres com mais de 21 anos.
O movimento, iniciado no século XIX,
foi lentamente chegando aos quatro cantos do mundo onde sufragistas de diversas
nacionalidades conquistaram a igualdade.
O primeiro país a conceder o direito de
voto às mulheres foi a Nova Zelândia em
1893, mas só a partir de 1920 é que as
nações ocidentais foram dando às mulheres
o direito de votar. E em pleno século XXI,
alguns países ainda não permitem o voto
feminino, entre outros direitos. A batalha
continua cem anos depois.
A I Guerra Mundial (1914-1918) obrigou um número cada vez maior de
mulheres a substituir a mão-de-obra masculina, uma vez que os homens foram
deslocados para o campo de batalha e
muitos não voltaram ou regressaram mutilados. O papel da mulher na sociedade foi
mudando e crescendo, não apenas pela
sua contribuição laboral na guerra mas
também pelos movimentos feministas,
cujo ponto de partida começa na
Convenção dos Direitos da Mulher realizada em 1848, em Seneca Falls, no estado
de Nova York, EUA, na qual as mulheres
defenderam o fim da escravidão, ainda
antes do voto feminino.
Em 1869, o território do Wyoming
tornou-se pioneiro ao permitir esse direito e três estados o seguiram. Mas quando
o Wyoming foi elevado a estado, parte da
União exigiu a abolição do mesmo.
O governo local declarou que preferia
retardar cem anos a entrada do Wyoming
para a União do que não conceder direitos políticos femininos.
Na Europa os movimentos pelo direito da
mulher ao voto foram intensos na Grã­
‑Bretanha. Em 1897, a educadora Millicent
Garret Fawcett e Lydia Becker fundaram a
National Union of Women’s Suffrage
Societies (NUWSS) que começou por ser uma
associação pacifista mas a falta de resultados
práticos levou a uma mudança de estratégia.
Entretanto, em 1901 a Austrália concedeu
às mulheres o direito ao voto, um facto que
levou as inglesas a tornarem-se ainda mais
radicais, incendiando estabelecimentos
públicos, liderando ataques a casas de políticos e membros do Parlamento. O Governo
levou a cabo uma violenta repressão e prendeu as líderes do movimento. Na prisão, as
sufragistas fizeram greve de fome e acabaram
por ser brutalmente alimentadas à força. Esta
violência chocou a opinião pública e intensificou ainda mais as manifestações das
sufragistas. Emily Wilding Davison, numa
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
atitude desesperada, atirou-se para a frente
do cavalo do Rei durante uma prova hípica,
tornando-se a primeira mártir desta luta.
Mas o processo não foi idêntico no resto
do mundo. No princípio do século XX a
Finlândia concedeu o voto às mulheres em
1906, a Noruega em 1913, em 1915 foi
a vez da Dinamarca e Islândia. A Suécia foi
o último país escandinavo a conceder o
voto feminino em 1918. O voto das mulheres chegou à Holanda em 1917, à Rússia,
após a Revolução Bolchevique, em 1917,
à Alemanha em 1918, à Irlanda em 1922,
à Áustria, Polónia, Checoslováquia em
1923. A Espanha deu o voto às mulheres
em 1931 e França e Itália fizeram-no após
a II Guerra Mundial em 1945. A Suíça permitiu o sufrágio universal apenas em 1971.
Na América Latina, o Equador foi pioneiro
ao consagrar este direito em 1929 e Eva
Perón, a primeira dama da Argentina, conseguiu obter esse direito em 1947. Em
Portugal a médica e viúva Carolina Beatriz
Ângelo foi a primeira mulher a votar em
1911, alegando que sendo chefe de família o poderia fazer uma vez que a lei não
especificava o sexo do chefe de família.
Levou a sua causa a tribunal e ganhou.
Morreu aos 33 anos, uma curta existência
mas suficiente para fazer história. Logo de
seguida, o Governo mudou a lei explicitando que apenas o sexo masculino poderia votar. Em Maio de 1931, o voto foi
concedido à mulher com várias limitações
que duraram até ao 25 de Abril de 1974.
Mas o sufrágio universal não se resume
ao género masculino e feminino. Há 60
anos, a 28 de Agosto de 1963, o norte-americano Martin Luther King fez um
discurso que se tornou icónico a partir
dos degraus do Lincoln Memorial em
Washington perante 200 mil pessoas, apelando ao fim da discriminação racial, aos
direitos cívicos dos negros, entre eles o
voto. Foi o laureado mais novo do Prémio
Nobel da Paz e morreu assassinado antes
de ver aprovado pelo Congresso norte-americano o Civil Rights Act of 1964,
seguido do 1965 Voting Rights Act. “I have
a dream” é o símbolo da reivindicação do
movimento pacifista pela igualdade e fraternidade entre os homens. E a prova que,
sem uso da violência, homens e mulheres,
brancos ou negros, católicos ou muçulmanos conseguem derrubar barreiras
racistas, machistas, políticas ou religiosas.
Os Direitos Humanos estão consagrados
na Declaração Universal da ONU escrita
após a II Guerra Mundial. “Todos os seres
humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”[...]. Todos podem
invocar os direitos e as liberdades, sem
Library of Congress prints and photographs division Washington, D.C.
POLÍTICA
distinção alguma, nomeadamente de raça,
de cor, de sexo, de língua, de religião, de
opinião política ou outra, de origem
nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação”.
As sufragistas e os negros norte-americanos tiveram exactamente o mesmo
sonho – o de serem considerados pessoas
aos olhos das outras pessoas. Hoje, pelo
mundo fora, os trinta artigos da Declaração
Universal dos Direitos Humanos não são
cumpridos na sua plenitude. O sonho
morreu?
* Jornalista freelancer
11
POLÍTICA
A família Kennedy:
imagens de perfeição
Entre o real e o imaginário o Presidente
Kennedy e a sua família foram largamente falados em Novembro passado pelos 50
anos do assassinato de JFK, em Dallas. Nos
anos 60, do século passado, como nunca
antes tinha sido feito, a família Kennedy
utilizou da melhor forma a divulgação
mediática, tornando-se num casal perfeito, como num conto de fadas. As belíssimas imagens do fotográfo oficial Jacques
12
Lowe reproduzem o ambiente mágico dos
contos infantis, dos príncipes e princesas,
da luta entre o bem e o mal, das fábulas
do Rei Artur e os cavaleiros da Távola
Redonda, daí o nome Camelot lhes assentar tão bem, apesar de não disfarçar uma
vida de amarguras e desequilíbrios que
assombrou a família como uma maldição,
contribuindo, também, para o mito.
Em 1963, o ambiente nos Estados
Unidos era de optmismo, sem paralelo
com a actualidade. Segundo as sondagens
da Gallup da altura, analisadas recentemente pelo Pew Research Center. JFK e a
família eram o reflexo do sonho americano nas câmaras fotográficas de Jacques
Lowe. Reproduzimos algumas imagens do
fiel fotógrafo pessoal dos Kennedy captadas por um admirador seu – o fotógrafo
Rui Ochoa.
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
POLÍTICA
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
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POLÍTICA
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POLÍTICA
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| INVERNO 2013/2014
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POLÍTICA
UE desejada
Portugal com a percentagem mais elevada de inquiridos
que se sentem afectados pela crise: 90%
A 12.ª edição do inquérito anual Transatlantic
Trends revela que os europeus e americanos
não são a favor de uma intervenção militar
na Síria. 72% dos europeus e 62% dos
americanos inquiridos, bem como 72% dos
respondentes turcos, não querem que os
seus governos entrem no conflito.
A sondagem foi realizada antes do ataque
com armas químicas.
À medida que os países do Norte da
África e do Médio Oriente continuam
a lutar pela democracia, 47% dos
entrevistados nos Estados Unidos, 58% dos
europeus e 57% dos turcos inquiridos,
preferem a democracia à estabilidade nos
países da Primavera Árabe.
A Transatlantic Trends 2013 é uma sondagem
anual de opinião pública, conduzida pelo
German Marshall Fund of the United States
(GMF) e pela Compagnia di San Paolo
(Turim, Itália), com o apoio da Fundação
Luso-Americana (Portugal), da Fundação
BBVA (Espanha), da Fundação Communitas
(Bulgária), do Ministério dos Negócios
Estrangeiros sueco, e do Barrow Cadbury
Trust (Reino Unido).
Os europeus sentem que a chanceler
alemã Angela Merkel (47% de aprovação)
fez um melhor trabalho na gestão da crise
económica do que a União Europeia (UE)
– com 43% de aprovação contra 49% de
desaprovação. Os países da UE mais afectados pela crise tendem a registar os maiores
índices de desaprovação quanto à gestão da
crise pela UE (Espanha, 75%; França,
Portugal e Reino Unido, 55%; e Itália,
49%). No entanto, as taxas de desaprovação
de Merkel também subiram de forma acentuada nas economias que atravessam maio-
16
© EUROPEAN UNION 2013 © ARCHITECTURE STUDIO
Transatlantic Trends: 66% dos entrevistados europeus vê a UE de forma favorável.
Em Portugal a aprovação é de 56%, menos 25 pontos percentuais desde 2009;
62% dos europeus desaprovam a forma como os governos dos respectivos países
têm gerido a crise económica.
Cinquenta e seis por cento dos europeus concordam com o Transatlantic Trade and Investment Partnership
res dificuldades – com picos de 65% em
Portugal e 82% em Espanha.
A sondagem à opinião pública europeia e
dos EUA também mostrou opiniões favoráveis​​
sobre o comércio. À medida que as negociações com o TTIP (Transatlantic Trade and
Investment Partnership) avançam, 56% dos
europeus e 49% dos norte-americanos inquiridos afirmam que o aumento do comércio
transatlântico ajudaria as suas economias.
Quando questionados sobre a imigração,
as maiorias nos Estados Unidos (73%, uma
descida face aos 82% em 2011) e na Europa
(69%) disseram não estar preocupados com
a imigração legal. O mesmo não acontece
no caso da Turquia, com 60% dos respondentes que afirmaram estar preocupados
com a imigração legal. Por sua vez, 61% dos
norte-americanos mostraram-se preocupados com a imigração ilegal, acompanhados
por 71% dos inquiridos europeus e 69%
dos turcos.
Quase todos os entrevistados sobrestimaram a percentagem de imigrantes nos seus
países.
Relatório completo, metodologia e série de dados
em www.transatlantictrends.org
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POLÍTICA
Mais atenção à NATO
POR MIGUEL MONJARDINO
A Síria diz-nos como é que a NATO está a mudar.
Olhamos para Damasco como um problema estratégico do Médio Oriente. E é. Mas a maneira como
os líderes e as opiniões públicas europeias têm falado sobre este difícil problema, diz-nos muito sobre
a actual contribuição do Velho Continente para a
Aliança Atlântica.
‘
Por um lado, não há nenhuma crise política
entre europeus e norte-americanos na NATO.
Por outro, há complacência do nosso lado.
A NATO está a atrofiar silenciosamente
no Velho Continente.
’
Um dos objectivos do euro foi tornar a Europa
mais poderosa e influente a nível internacional. Para
uns, o euro permitiria à Europa ser uma alternativa
estratégica a Washington. Para outros, era o melhor
caminho para fortalecer a NATO e equilibrar a relação
transatlântica com os EUA e o Canadá. Uma união
económica e monetária permitiria criar mais riqueza nos países europeus, melhorar as forças armadas
e responder aos principais problemas de segurança
internacional.
O primeiro sonho nunca passou disso mesmo.
Mas será que o segundo é realista? Dito de outra
forma, será que na próxima década vamos conseguir que Washington continue a olhar para a NATO
como a principal aliança a nível da segurança internacional? Na conferência “Portugal Europeu.
E agora?” promovida pela Fundação Francisco
Manuel dos Santos em Lisboa, Carlos Gaspar, assessor do Instituto de Defesa Nacional, e Anand
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
Menon, professor no King’s College em Londres,
chamaram a atenção para um paradoxo. Por um
lado, não há nenhuma crise política entre europeus
e norte-americanos na NATO. Por outro, há complacência do nosso lado. A NATO está a atrofiar
silenciosamente no Velho Continente.
Há duas razões para isto. Começando pelo Transatlantic
Trends 2013 divulgado esta semana pela Fundação LusoAmericana para o Desenvolvimento, o relatório do
German Marshall Fund diz-nos que a maioria dos
europeus e dos norte-americanos continua a achar a
NATO essencial. Mas também nos diz que as opiniões
públicas olham para a organização cada vez mais como
uma comunidade de democracias atlânticas e menos
como uma organização de segurança e defesa. À primeira vista isto parece uma coisa agradável, quase
sentimental. O problema é que a estratégia não é uma
arte muito dada à sentimentalidade. Especialmente em
Washington.
Isto leva-me ao segundo ponto. Como é que vai
ser possível garantir o futuro da NATO nas actuais
circunstâncias políticas e manter a credibilidade
militar das forças armadas europeias em Washington?
Voltando ao Transatlantic Trends, o relatório mostra que
o que preocupa as sociedades europeias não é a sua
vulnerabilidade ou sequer os seus interesses estratégicos a nível regional ou internacional mas sim a
injustiça dos seus sistemas políticos e económicos
na distribuição das oportunidades e da prosperidade. Oscilamos entre as reformas a nível doméstico
e a necessidade de mais integração para ultrapassar
os problemas da zona euro. A segurança e defesa
passaram do centro para as margens do debate políticos em quase toda a Europa.
Estamos a fazer uma transição silenciosa da relevância para a irrelevância estratégica. É tempo de
pensarmos no que é que isto significa para a NATO,
os nossos interesses e valores.
Texto publicado no Expresso a 21 de Setembro de 2013
17
25 de abril
1974 - 2014
No âmbito dos 40 anos do 25 de Abril, a Paralelo
entrevistou quatro importantes investigadores norte-americanos da área política e social, de algumas das
mais reputadas universidades do mundo. Todos eles
acompanharam de perto a Revolução Portuguesa,
tendo viajado para Portugal onde viveram e estudaram o que se passava. Os acontecimentos de há 40
anos marcaram as suas notáveis carreiras universitárias e, também, pessoais. Philippe Schmitter, Kenneth
Maxwell, Robert Fishman e Nancy Bermeo divulgaram, e continuam a divulgar, pelo mundo, através
dos seus livros, artigos científicos e conferências, o
que Portugal lhes revelou. Nas páginas que se seguem
falam-nos dessas experiências.
Tudo é possível?
Philippe Schmitter cientista político americano e professor emérito do Instituto
Universitário Europeu estudou quase todas as transições para a democracia
mas foi a portuguesa que lhe mudou a carreira. “Estive no local certo na hora certa”.
POR SARA PINA
FOTOGRAFIAS DE RUI OCHOA
[Paralelo] Em termos gerais é considerado que
as revoluções frequentemente originam regimes
não-democráticos, raramente conduzindo a
democracias. A revolução do 25 de Abril foi
diferente? Como?
[Philippe Schmitter] O que liga as modernas
revoluções com a autocracia é a existência
de uma elite conspirativa coerente que é
capaz de mobilizar violência de massa, afastar a anterior classe no poder e, também,
capaz de se transformar num partido único
dominante. Nenhuma dessas condições esteve presente na Revolução dos Cravos. A
“elite” conspirativa consistia num grupo de
jovens oficiais que não tinham nenhum
plano coerente ou visão de uma sociedade
ou políticas alternativas. A mobilização de
massa que se seguiu não era violenta e não
afastou a anterior elite liderante. Os oficiais
foram incapazes de se organizarem num
partido único e o seu zelo revolucionário
foi rapidamente absorvido e dispersado por
instituições militares englobantes das quais
eles eram apenas uma pequena parte.
[P] A revolução teve algum impacto na qualidade da democracia? E gerou alguns legados que
podem de alguma maneira ajudar ou prejudicar
na gestão da crise actual?
[PS] Num dos artigos que escrevi sobre o
assunto, não consegui encontrar nenhumas
características duradouras da Revolução.
Os dados da opinião pública que tinha
entre 18 a 30 anos em Abril de 1974 não
revelam um perfil político diferenciado de
outras faixas etárias. Apenas foram mais
18
“Portugal hoje tem uma das mais desiguais distribuições de rendimento da Europa e uma das taxas
mais baixas de protesto popular.” diz Schmitter. Em 1974 houve muita mobilização (na foto).
conservadores e pouco inclinados a agir
“extra constitucionalmente” ou mesmo
para se manifestarem publicamente.
Muitas das políticas revolucionárias foram
alteradas.
Portugal hoje tem uma das mais desiguais
distribuições de rendimento da Europa e
uma das taxas mais baixas de protesto popular (apesar de circunstâncias extremas que
justificariam acções de protesto como aconteceu em Espanha). Podemos defender que
este facto torna mais difícil resolver a crise
actual já que o ímpeto reformador é fraco
(pelo menos em Espanha alguns sinais de
sucesso começam finalmente a aparecer).
[P] Porque veio para Portugal?
[PS] Comecei a trabalhar sobre política
portuguesa em 1970, exactamente por
circunstâncias opostas às da Revolução,
nomeadamente a persistência do corporativismo do Estado. Descrevi isso como «uma
aventura de arqueologia política» onde pude
constatar o autoritarismo dos anos 1930.
Fiquei surpreendido como toda a gente com
a Revolução, mas encantado. Na altura era
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
25 de abril
1974 - 2014
‘
Ali estava um país
que eu considerava
notoriamente estagnado,
aborrecido e atrasado e
que de repente se tornou
exactamente o contrário,
pelo menos por um curto
período de tempo.
Philippe Schmitter
’
professor visitante da universidade de
Genebra e, assim que as minhas obrigações
do segundo semestre terminaram fui para
Lisboa (provavelmente em meados de Maio).
[P] Pode partilhar alguma da sua experiência em
Portugal e qual era o seu sentimento relativamente
ao que se passava à sua volta?
[PS] É impossível partilhar mesmo parte
das minhas experiências como “observador participante” da Revolução. Ali estava
um país que eu considerava notoriamente estagnado, aborrecido e atrasado e que
de repente se tornou exactamente o contrário, pelo menos por um curto período
de tempo. Nunca esquecerei o entusiasmo
das multidões, o sentimento espontâneo
de companheirismo, a enchente do novos
grupos políticos e literários, a organização
de projectos bastante ridículos mas excitantes (lembro-me do “modelo albanês”).
Como o meu grande amigo Ary Zolberg
disse sobre o Maio de 68, em Paris: “tudo
é (ou pelo menos parece ser) possível”.
A minha mais forte e especifica lembrança é de um grupo de viúvas, do interior,
em frente à estação de comboios a olhar
com espanto para um expositor de venda
de revistas pornográficas recentemente
disponibilizadas ao grande público. De
alguma maneira esta situação capta a aceleração extraordinária de tempo e espaço
que tinha acontecido. Escusado será dizer
que não há mais expositores de venda de
pornografia na estação, mas houve mudanças irrevogáveis em termos culturais.
[P] Quais foram as consequências para a sua vida
e carreira por ter estudado Portugal?
[PS] A Revolução revolucionou a minha
carreira como cientista político. Até aí fiz
a minha vida (modestamente) estudando
regimes de que não gostava, autoritários
e corporativistas, na América Latina e no
Sul da Europa. Claro que não tinha qualParalelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
1974: [Aqui] estava um país que eu considerava notoriamente estagnado, aborrecido e atrasado
e que de repente se tornou exactamente o contrário.
quer suspeita que o 25 de Abril seria o
primeiro movimento dos 80 a fazer a
transição da autocracia (esperançosamente mas nem sempre) para a democracia.
Tendo-o observado e escrito sobre ele (já
para não falar de dois anos de viagens com
o Juan Linz a tentar explicar para várias
audiências por que as transições portuguesa e espanhola foram tão diferentes),
fui levado a estudar comparativamente
primeiro os países da Europa do Sul e
América Latina e, depois, a Europa de
Leste, Ásia e, mais recentemente, o Médio
Oriente e Norte de África (juntamente
com o meu amigo e colega Guillermo
O’Donnell). O resultado demonstra que
eu estive no local certo na hora certa.
Ironicamente, no entanto, retrospectivamente, a transição portuguesa demonstrou
ser única nas suas características e isso
tornou-me mais capaz de compreender a
diversidade deste processo.
19
25 de abril
1974 - 2014
“Foi um período de esperança
e expectativa”
Eu estava em Lisboa um mês antes do golpe. Quando regressei a Nova Iorque
era uma das poucas pessoas que podia explicar o que tinha acontecido e porquê.
POR SARA PINA
[Paralelo] Em termos gerais é considerado que as
revoluções frequentemente originam regimes não-democráticos, raramente conduzindo a democracias.
A revolução do 25 de Abril foi diferente? Como?
[Kenneth Maxwell] É verdade que a maior
parte das revoluções conduzem a
resultados não democráticos. Pelo menos
a curto prazo. Mas é importante lembrar
que a Revolução dos Cravos começou com
um golpe militar que derrubou um
regime civil não-democrático muito longo.
O maior objectivo dos oficiais mais novos
que lideraram o golpe foi acabar com a
guerra colonial em África, (Guiné-Bissau,
Moçambique e Angola).
O golpe português do 25 de Abril de
1974 e o seu original sucesso atingido
muito rapidamente deixou as pessoas que
estavam de fora completamente surpreendidas. Os observadores estrangeiros demoraram bastante tempo a compreender
quem eram os actores no drama português.
Acresce que o golpe português desenrolou-se num ambiente internacional complicado. A Guerra Fria era muita intensa nos
meados nos anos 70. Os soviéticos estavam
a recuar no Egipto. A Guerra no Vietname
estava a chegar a um fim vergonhoso, com
a queda de Saigão e a vitória de Ho Chi
Min. Os Estados Unidos enfrentavam o
escândalo Watergate. A demissão do presidente Nixon teria lugar pouco depois.
Henry Kissinger era um elemento-chave
20
D.R.
Kenneth Maxwell é um dos grandes historiadores britânicos que estudou Portugal
e o Brasil. Foi professor em Harvard e
dirigiu o centro de estudos portugueses
da Universidade de Columbia. Esteve
recentemente em Lisboa a propósito dos
40 anos do 25 de Abril e lembra, nesta
entrevista, histórias da revolução portuguesa que são, também, histórias do rumo
que a sua vida teve: Vivendo nos EUA mas
sempre atento ao nosso país.
Kenneth Maxwell junto ao rio Tejo numa visita que a mãe, a irmã e uma amiga lhe fizeram
quando viveu em Lisboa, em 1964.
com Nixon e seria ainda mais poderoso
com o sucessor de Nixon, Gerald Ford.
Portugal tinha um papel estranho em
todos estes conflitos. Durante a guerra de
Yom Kippur, os Estados Unidos diligenciaram junto de Marcelo Caetano que
tinha pedido um adiamento ao uso da
base das Lajes, nos Açores, pela força
aérea americana, para que os americanos
reabastecessem os israelitas. Mais tarde,
em compensação, os Estados Unidos prometeram – clandestinamente por causa
do embargo de armas a Portugal – fornecer mísseis red eye para Portugal usar na
Guiné­‑Bissau.
O Partido Comunista Português também
teve um papel importante depois do 25
de Abril. O PCP tinha sido fundado em
1921 e liderado desde 1934 por Álvaro
Cunhal. Era um partido leal à União
Soviética e constante opositor à ditadura
portuguesa. O PCP estava bem organizado
e estabelecido em Portugal.
Os novos partidos políticos democráticos
em Portugal tiveram que se organizar e
encontrar os seus militantes depois do
golpe. Até o Partido Socialista, com um
líder conhecido internacionalmente, Mário
Soares, e uma longa tradição de oposição
democrática ao regime de Salazar e
Caetano, tinha acabado de ser fundado na
Alemanha ocidental. Os partidos do centro
e de direita no espectro político eram
completamente novos.
Portanto deram-se dois processos em
1974 e 1975, em Portugal: O primeiro e
mais importante deve-se ao papel dos militares, embora a liderança militar estivesse
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
25 de abril
dividida quanto à velocidade da descolonização e os eventos em África fossem
muito mais rápidos do que Lisboa conseguia controlar. Os movimentos de libertação de África conheciam, melhor que
ninguém, os actores da revolução portuguesa e estavam preparados para usar esses
contactos em seu benefício.
O segundo processo foi o aparecimento
de partidos políticos. O evento-chave foi a
Assembleia Constituinte, em Abril de 1975,
que foi eleita numa adesão às urnas de 90%
da população. Pela primeira vez emergia o
balanço das forças políticas no País.
[P] A revolução teve algum impacto na qualidade da democracia? E gerou alguns legados que
podem de alguma maneira ajudar ou prejudicar
na gestão da crise actual?
[KM] Sem dúvida a revolução aprofundou a
democracia portuguesa. A mobilização das
pessoas de todos os espectros políticos foi
decisiva para os resultados em Portugal. É
importante lembrar que estas lutas militares
e políticas ocorreram no contexto do cenário de mudança de regime. Houve invasões
de edifícios, apartamentos, terras. Enormes
grupos de pessoas ocupavam as ruas. Depois
de 1975 muitos portugueses que não foram
considerados suficientemente revolucionários, que eram donos de propriedades ou
de fábricas, ou que eram associados com o
antigo regime foram forçados ao exílio.
O sentimento da população supermobilizada não podia ser ignorado.
Nos finais dos anos 70 a autoridade do
Estado foi lentamente recuperada. O papel
do povo consequentemente diminui. Mas a
forma como a autoridade estadual foi recuperada criou novos problemas. Uma nova
classe política emergiu e continua na sua
maioria no poder, quarenta anos mais tarde.
[P] Qual foi a sua experiência durante a revolução em Portugal? Que avaliação fazia do que se
estava a passar?
[KM] Eu comecei por viver em Portugal
na primeira metade de 1964. Tinha-me
graduado na Universidade de Cambridge.
Não tinha estudado Portugal, nem conhecia a linguagem, nem sabia bem o que
queria fazer após a licenciatura. E decidi
passar um ano a aprender línguas. Vim
para Lisboa e para Madrid. Foi enquanto
estava em Lisboa que fui aceite no doutoramento na Universidade de Princeton.
Aprendi a falar português em Lisboa e
fiquei fascinado com a história de
Portugal, especialmente o século XVIII (em
Lisboa vivia perto da estátua do Marquês
de Pombal).
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
Em Princeton estudei com
o professor Stanley Stein
que era um dos principais
especialistas na história do
Brasil. Voltei a Lisboa para
fazer investigação para a
minha tese, em 1968, sobre
o século XVIII em Portugal
e no Brasil e voltei mais seis
meses em 1972.
Portanto tinha uma relação
próxima com Portugal antes
do golpe de 1974. Tinha
bons amigos dos meus temMaxwell publicou vários livros sobre Portugal.
pos de estudante. Em 1974
Aqui no seu gabinete na Universidade de Harvard.
estava no Instituto para
Estudos Avançados em
Princeton quando o livro do
O golpe português do 25 de Abril
general Spínola, Portugal e o
Futuro foi publicado e pensei
de 1974 e o seu original sucesso
que estaria para acontecer
atingido muito rapidamente deixou
algo de muito importante.
Convenci a New York Review of
as pessoas que estavam de fora
Books que devia patrocinar a
completamente surpreendidas.
minha ida a Lisboa para ver
com os meus próprios olhos
Kenneth Maxwell
o que se estava a passar e
escrever sobre Portugal.
Assim foi.
Eu estava em Lisboa um mês antes do as Revoluções Atlânticas no fim do século
golpe. Quando regressei a Nova Iorque XVIII, especialmente o impacto da revolução
era uma das poucas pessoas que podia haitiana mas acabei por escrever um livro
explicar o que tinha acontecido e porquê. sobre a Revolução Portuguesa: The Making
O meu primeiro artigo na New York Review of Portuguese Democracy. Também escrevi um
of Books foi chamado “Neat Revolution”. livro sobre o Marquês de Pombal. Na
Voltei em Janeiro de 1975 para escrever Universidade de Columbia em Nova Iorque
fundei e dirigi por muitos anos o Centro
vários outros artigos.
No Verão de 1975 havia muitos outros Camões para os Países de Língua Portuguesa.
jornalistas estrangeiros em Lisboa, muitos A Donzelina Barroso que agora trabalha
entusiastas da revolução. Alguns escreve- para a Rockefeller Trusts trabalhou comigo.
ram vários livros bons mais tarde. Eu tinha Organizámos uma série de conferências em
amigos que faziam parte das milícias e Portugal ao longo dos anos e publicámos
pude perceber como estava a ser feito o o Camões Centre Quarterly que a Donzelina
desmantelamento dos arquivos da PIDE em dirigia. Eu, também, publiquei vários
Janeiro de 1975, por exemplo. Também outros livros sobre Portugal.
acompanhei as manifestações de rua.
Neste momento estou a preparar um
Lembro-me da boa disposição que tinham. novo livro sobre o impacto do terramoto
Certo dia houve uma manifestação em de 1755 e a reconstrução de Lisboa, porfrente ao Ministério do Trabalho, estava a tanto não me afastei muito de Pombal.
chover torrencialmente. Os manifestantes
Acho que a revolução portuguesa teve
estavam a gritar contra a CIA mas convi- outro impacto frutuoso na minha vida. Não
daram-me para me abrigar debaixo dos pude regressar ao Brasil antes de 1977.
seus guarda-chuvas.
Portanto perdi os piores anos da ditadura
brasileira e das da Argentina e do Chile.
[P] Qual foi o impacto da revolução portuguesa Portugal e a Europa do Sul eram uma hisna sua carreira?
tória muito positiva no fim dos anos 70.
[KM] Bem, trouxe-me muitas vezes a Portugal, Espanha e Grécia emergiram todos
Portugal. O meu primeiro livro Conflicts and (especialmente Portugal e Espanha) de décaConspiracies: Brazil and Portugal 1750-1808 foi
das de ditadura e isolamento. Foi um períopublicado pela Cambridge University Press do de esperança e expectativa, ao contrário
em 1973. Tinha começado um estudo sobre
do que aconteceu na América Latina.
‘
’
21
D.R.
1974 - 2014
25 de abril
1974 - 2014
A crise teve menos impacto negativo
em Portugal
Sociólogo e cientista político americano, Robert Fishman dedicou uma parte importante
do seu trabalho a estudar Portugal, para onde viaja com frequência. Considera que a
democracia portuguesa se desenvolveu de uma forma inclusiva o que permitiu uma maior
igualdade entre cidadãos. Defendeu que Portugal não precisava de resgate financeiro.
POR SARA PINA
[Paralelo] Em termos gerais é considerado que as
revoluções frequentemente originam regimes não-democráticos, raramente conduzindo a democracias.
A revolução do 25 de Abril foi diferente, como?
[Robert Fishman] Primeiro deixe-me dizer
que as revoluções às vezes conduzem a
democracias. Portugal não foi caso único.
As revoluções francesa e americana ambas
foram enormes contribuições para a emergência das democracias modernas, apesar
dos problemas que também apareceram
nestes dois países. Revolução como um
tipo de processo sociopolítico não determina por si própria que tipo de sistema
político (democrático ou não) irá prevalecer. O resultado dos processos revolucionários é moldado pela identidade
política – ou preferências dos seus participantes – e por estruturas externas, condições, forças que interagem. A Revolução
dos Cravos acabou numa democracia devido à caracterização política dos seus intervenientes e às condições externas com que
a revolução interagiu.
O timing da revolução e a sua localização
contribuíram para o resultado mas não
podemos esquecer a importância das decisões tomadas pelos seus participantes cruciais. Um factor de vital importância foi
a decisão de convocar eleições e preparar
uma nova constituição. Essas eleições, na
altura simbólica do 25 de Abril de 1975,
contribuíram grandemente para o sucesso
de Portugal na institucionalização da
democracia.
[P] A revolução teve algum impacto na qualidade da democracia? E gerou alguns legados que
podem de alguma maneira ajudar ou prejudicar
na gestão da crise actual?
[RF] Sim. Eu defendo que os processos
social e cultural traçados pela democracia
22
Reprodução do artigo que Fishman escreveu para o The New York Times
defendendo que Portugal não precisava de resgate financeiro.
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
25 de abril
RUI OCHOA
1974 - 2014
‘
A Revolução dos
Cravos acabou numa
democracia devido à
caracterização política
dos seus intervenientes
e às condições externas
com que a revolução
Robert Fishman
interagiu.
’
“A revolução marcou as circunstâncias para um tipo de políticas democráticas que por si só não
garantem o sucesso mas que impedem que forças marginais moldem os resultados políticos.”
diz Fishman que visita Portugal com regularidade.
reforçaram a profundidade da democracia
portuguesa desenvolvendo um processo
inclusivo de democracia que permite a
Portugal aproximar-se dos objectivos normativos da igualdade entre cidadãos num
nível mais profundo. A revolução marcou
as circunstâncias para um tipo de políticas
democráticas que por si só não garantem
o sucesso mas que impedem que forças
marginais moldem os resultados políticos.
Isto certamente influencia a maneira como
Portugal confronta a crise. As indicações
preliminares são que a crise gerou desigualdades em Espanha mas – segundo os
últimos dados disponíveis – não em
Portugal. O meu amigo Pedro Magalhães
deu conta disso no seu muito seguido
blogue. Também, noutros aspectos, devastadora como a crise tem sido e continua
a ser a experiência portuguesa é menos
negativa do que noutros países. Os governos portugueses enfrentaram reais constrangimentos domésticos adaptando o que
podem – e o que não podem – para lidar
com a crise e até agora parece que terão
conseguido resultados relativamente positivos para a sociedade portuguesa.
[P] Porque decidiu estudar Portugal?
[RF] Fui levado a estudar Portugal em parte
devido aos contrastes fascinantes deste país
e da sua vizinhança – Espanha onde eu
vivi e estudei – e, também, pelo interesse
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
intrínseco da cultura e história portuguesas. Estudei um semestre no liceu em
Espanha e, na altura, desenvolvi um interesse pela história e políticas da Península
Ibérica. Um ano antes da Revolução dos
Cravos. Quando a revolução começou em
Portugal em 1974, eu, como milhões de
outros pelo mundo, acompanhei com
muito interesse. Mais recentemente como
investigador da sociedade e políticas espanholas vi os contrastes entre os dois países quase como uma experiência das
ciências naturais que permite aos cientistas sociais examinarem as consequências
de dois caminhos para a democracia de
pólos opostos. Foi isso que me levou a
estudar Portugal e o que aprendi acerca
do país aprofundou o meu interesse.
[P] Que experiências pessoais viveu pelas suas
visitas a Portugal?
[RF] A maior parte das minhas experiências em Portugal foi organizada à volta da
minha actividade de investigação que
incluiu entrevistas com várias pessoas em
posições diversas no largo espectro político e social. Claro, tive oportunidade de
fazer amizades em Portugal e usufruir da
sua cultura, arquitectura, vida e cozinha.
A minha mulher – professora de Direito
em Espanha e eu – viajámos bastante em
Portugal e gostámos muito. Apreciamos a
música e o teatro e eu acompanho as notí-
cias dos jornais e televisões portuguesas.
Assisti a sessões na Assembleia da
República e tenho encontros com muitos
investigadores portugueses.
Uma das minhas mais memoráveis experiências diz respeito a um artigo de opinião que publiquei no New York Times, em
Abril de 2011, argumentando que as circunstâncias subjacentes da economia portuguesa não obrigavam ao resgate. O meu
ponto de vista é que as forças de mercado
e a acção das agências de rating, mais do
que o estado da economia, empurraram
o país para o resgate – com as várias consequências negativas que se seguiram. As
reacções foram muito comoventes para
mim. Na manhã seguinte tinha uma longa
lista de emails – muitos de cidadãos portugueses. Esses mails expressavam um profundo sentido de gratidão pelas minhas
palavras na minha análise no New York Times
e a minha chamada de atenção sobre o
quanto forças de mercado não-reguladas
podem cercear a democracia. Claro que
alguns emails eram críticos mas a grande
maioria era muito positiva (incluindo uma
mensagem de um responsável pela negociação de títulos numa importante empresa em Londres).
[P] Quais foram as consequências para a sua vida
e carreira por ter estudado Portugal?
[RF] Bem… Fiz bons amigos em Portugal
e entre os investigadores portugueses.
Acho que o contraste entre Portugal e
Espanha abriu-me uma janela para o estudo e análise de processos e resultados
profundamente importantes. Isto foi
muito positivo para o meu trabalho e carreira, embora goste de ver este tipo de
coisas como um resultado de mérito
intrínseco do trabalho de investigação.
23
25 de abril
1974 - 2014
“Tinha a sensação que o mundo
estava a fazer-se de novo”
Nancy Bermeo é professora em Oxford. Fez o doutoramento sobre Portugal onde viveu
mais de dois anos, depois do 25 de Abril de 1974, e volta frequentemente até para
visitar os amigos que aqui fez para a vida. Esta entrevista trouxe-lhe imensas memórias
e pensamentos sobre esses dias de constantes mudanças em que os seus estudos do
cooperativismo revelaram-se parte de uma complexa e intricada realidade que o País viveu.
POR SARA PINA
[Paralelo] Em termos gerais é considerado que as
revoluções frequentemente originam regimes não-democráticos, raramente conduzindo a democracias. A revolução do 25 de Abril foi diferente?
Como?
[Nancy Bermeo] É verdade. Muitas vezes
associamos revoluções com o estabelecimento de regimes autoritários portanto a
pergunta que faz é intrigante. Acho que a
Revolução Portuguesa resultou numa
democracia consolidada por uma
variedade de razões complexas mas as
mais proeminentes foram os valores
políticos dos militares portugueses e das
elites partidárias. O grupo de oficiais que,
em última análise, controlou a revolução
procurou acabar com a guerra colonial
mas, também, quis a democracia para
Portugal e isto foi imensamente consequente. As elites portuguesas também
merecem todo o crédito por não terem
incitado a violência em momento algum
da tumultuosa transição.
A violência é sempre uma desculpa para
a contraviolência e os que querem o autoritarismo usam esses ciclos de medo para
subir ao poder. Esta é a razão porque associamos as revoluções com o autoritarismo
– as revoluções habitualmente envolvem
violência. Portugal evitou isso.
As elites portuguesas sabiamente enquadraram uma democracia em vez de uma
ditadura como chave para estabelecer a
ordem. Claro que a base dos resultados
positivos reside no próprio povo português. Os militares e líderes políticos eram
representantes destes.
24
‘
A violência é sempre uma desculpa
para a contraviolência e os que
querem o autoritarismo usam
esses ciclos de medo para subir
ao poder. Esta é a razão porque
associamos as revoluções com
o autoritarismo – as revoluções
habitualmente envolvem violência.
Portugal evitou isso.
Nancy Bermeo
’
Os resultados da primeira eleição mostram bem isto de que falo.
[P] A revolução teve algum impacto na qualidade da democracia? E gerou alguns legados que
podem de alguma maneira ajudar ou prejudicar
na gestão da crise actual?
[NB] A revolução certamente aprofundou a
qualidade da democracia na medida em
que expandiu a concepção nacional do que
são os direitos fundamentais dos cidadãos.
Embora haja outros factores a revolução
ajuda a perceber porque é que Portugal é
o único país do Sul da Europa com um
programa nacional de Rendimento Mínimo
Garantido e porque tem sido mais bem-
-sucedido do que outros
países europeus a evitar o
racismo e a xenofobia.
Acho que a experiência
revolucionária ajudou a
lidar com a crise. Em
cada crise os portugueses
melhoraram as suas capacidades para lidar com isso e
a sua resiliência. Crises e
choques podem trazer
polarização ou cooperação.
Em Portugal domina a cooperação. Esta é uma conquista rara e algo com que
os partidos nos Estados
Unidos podiam aprender.
[P] Porque veio para Portugal?
[NB] Era uma estudante de
doutoramento em Yale
quando decidi estudar
Portugal. Quis estudar o sistema cooperativo em que a divisão entre trabalho e
capital não existia. As cooperativas industriais e agrícolas que apareceram deram-me a oportunidade de estudar essas
experiências. Mal cheguei a Portugal percebi que o meu enigmático interesse era
parte de um muito maior e mais complicado drama.
[P] Pode partilhar alguma da sua experiência em
Portugal e qual era o seu sentimento relativamente
ao que se passava à sua volta?
[NB] Na minha área específica fiquei profundamente comovida pelo orgulho que
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
25 de abril
RUI OCHOA
1974 - 2014
“Totalmente surpreendida com mobilizações de massas e inebriada com os slogans e mudanças à minha volta, tinha a sensação que o mundo
estava a fazer-se de novo.” diz Nancy Bermeo que em 1974, estudante de doutoramento em Yale, veio viver para Portugal.
as pessoas ganharam com a propriedade
mas não há dúvidas que a gestão trouxe
pressões e complexidades que os
envolvidos não esperavam. Claro que gerir
qualquer empresa em Portugal era difícil
nos finais de 70.
Lembro-me de dois acontecimentos de
interesse. O primeiro que capta os limites
da revolução e o segundo que revela o seu
importante e duradouro legado.
O primeiro acontecimento deu-se no
apartamento de uma amiga onde estava
hospedada, mesmo antes de uma manifestação. A minha amiga tinha-se
graduado em França (chamar-lhe-ei
Marie) e o seu namorado português era
uma figura razoavelmente conhecida da
extrema-esquerda (chamar-lhe-ei José).
Totalmente surpreendida com mobilizações de massas e inebriada com os slogans e mudanças à minha volta, tinha a
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
sensação que o mundo estava a fazer-se
de novo. Mas, ouvi o José a mandar a
Maria passar a camisa dele a ferro
enquanto ele se penteava… O mundo não
se transformaria da noite para o dia…
As mobilizações eram representações
assim como a política.
O segundo aspecto era as mobilizações
de qualquer espécie. Uma deu-se numa
pensão em que eu estive alojada. Tratou­
‑se da organização de uma saída nocturna feita pela jovem empregada de mesa,
vinda da zona rural, que trabalhava no
restaurante da pensão. Foram mobilizadas
uma jovem cozinheira, eu e outra estudante e dois rapazes acabados de chegar
de Angola. Fomos todos de autocarro a
um grande concerto com dança na
Universidade de Lisboa. Juntos pelas
semelhanças geracionais apesar das diferenças de classe, nacionalidade e simpa-
tias políticas divertirmo-nos – tinham
baixado as barreiras entre as pessoas, com
o fortalecimento dos trabalhadores, aparecendo redes sociais entre diferentes
classes e o desejo de inclusão do “outro”
viria a ter mais consequentes e profundas
implicações do que estas manifestações
que chamavam a atenção.
[P] Qual foi o impacto da revolução na sua
carreira e vida pessoal?
[NB] Tendo chegado a Portugal no período
pós-revolucionário tive uma perspectiva
clara sobre a construção da democracia e
aprendi imenso sobre o processo político.
Penso sempre na experiência portuguesa
quando reflicto sobre mudanças de regime.
Relativamente à minha vida pessoal, os
mais de dois anos que passei em Portugal
trouxeram-me amizades para a vida que
são de grande valor para mim.
25
PORTUGAL/EUA
Como se ensina português
na América
Mais alunos, diferentes, novos manuais e currículos renovados
– o ensino do português nos Estados Unidos está em transformação.
TEXTO E FOTOS POR ALEXANDRE SOARES
A professora Raquel Martins Rosa escreve
no quadro duas grandes letras.
“U com I. Como se lê?”, pergunta.
“Uiiiiiii” responde um coro de crianças.
“Agora I com U”, diz, sublinhando cada
palavra. “Como se lê?”
“Iuuuuuuu”, devolvem os alunos.
Podia ser uma aula em qualquer escola
de Portugal – com o mapa do país junto
do quadro, as pinturas de caravelas e oceanos nas paredes, o texto emoldurado sobre
Vasco da Gama – até que uma das crianças dispara: ”Teacher, can I...” E é de imediato interrompida pela professora. “Em
português”, exclama Raquel. “Aqui fala-se
em português.”
A cena acontece na Escola Lusitânia, do
Clube Português de Long Branch, em Nova
Jérsia. Escolas comunitárias como esta são
o nível zero do ensino do português nos
Estados Unidos. É nestas salas de aula que
a língua abandona os espaços domésticos
– as cozinhas e corredores onde as crianças aprendem as primeiras palavras para
falar com a “vovó” – e se institucionaliza.
Estas escolas são fundadas, financiadas e
geridas pela comunidade portuguesa e
recebem apoio pedagógico do Camões –
Instituto da Cooperação e da Língua. No
último ano lectivo, tinham cerca de dois
mil alunos espalhados por dez estados
norte-americanos (Nova Iorque, Nova
Jérsia, Pensilvânia, Connecticut, Califórnia,
Professora Raquel Rosa com os seus alunos do 1.o ano da Escola Portuguesa de Long Branch.
26
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
PORTUGAL/EUA
Flórida, Massachusetts, Rhode Island,
Washington e Virgínia).
A professora Raquel diz que o desvio da
sua aluna para o inglês é agora a norma.
“Estamos a falar de uma terceira geração
que já não aprende o português como
primeira língua”, explica. Há doze anos,
quando começou a trabalhar nos Estados
Unidos, isso não acontecia. “Quando cheguei, o português ainda era a língua que
os alunos falavam em casa. Assisti a essa
mudança na última década.” Uma mudança materializada nos manuais que utiliza
na sala de aula e chegaram no início do
ano, oferta do Instituto Camões.
“Nos últimos anos desenvolvemos currículos adaptados a esta nova realidade”,
explica o adjunto da coordenação do ensino do português nos Estados Unidos na
área de Nova Iorque, António Oliveira.
Esse trabalho resultou na elaboração de
“manuais criados e pensados desde raiz
com este novo paradigma em mente.” Em
dois anos, o instituto distribuirá cerca de
quatro mil exemplares.
Outra novidade são os exames de certificação, que os alunos tiveram oportunidade de fazer pela primeira vez este ano.
Os exames oferecem a certificação segundo
o Quadro Europeu Comum de Referência
para Línguas (QECRL), um guia usado para
descrever os objectivos a serem alcançados
pelos estudantes de línguas estrangeiras
na Europa, e poderão agora ser feitos,
todos os anos, no final de cada um dos
ciclos (4.º, 6.º e 9.º anos).
António Oliveira diz que “a participação
foi satisfatória para uma experiência-piloto”, com cerca de 200 alunos a completar
as provas, e que “para o ano os números
vão, pelo menos, duplicar ou triplicar.”
O que o responsável considera “um grande sucesso” são os resultados obtidos:
“O nível de aprovação rondou os 95%, o
que nos dá uma boa indicação da qualidade do ensino.”
Por todo o país, o número de alunos
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
Alunos do 1.o ano na Escola Portuguesa de Long Branch.
‘
As crianças “começam porque os pais as inscrevem,
passam por uma fase em que acham aborrecido
e depois começam a ir a Portugal, na adolescência,
e ganham interesse novamente. Querem falar
com os amigos, as namoradas... percebem
a importância de falar outra língua quando se viaja,
o valor que tem no mercado de trabalho.”
nestas escolas tem vindo a diminuir, devido ao decréscimo da emigração para o
país. Mas isso não acontece na Lusitânia,
onde o número de alunos se tem mantido
e prossegue até ao final de cada ciclo.
’
“O número de alunos que desiste não é
muito significativo”, garante Raquel,
explicando que as crianças “começam
porque os pais as inscrevem, passam por
uma fase em que acham aborrecido e
27
PORTUGAL/EUA
‘
Ajuda muito que existam políticos
luso-descendentes, que possam
forçar uma mudança.” [...] Na cidade
de Mineola, no estado de Nova Iorque,
a comunidade uniu-se com o senador
estadual Jack Martins, e hoje
existem aulas de Português no liceu
António Oliveira
da cidade.
’
depois começam a ir a Portugal, na adolescência, e ganham interesse novamente.
Querem falar com os amigos, as namoradas... percebem a importância de falar
outra língua quando se viaja, o valor que
tem no mercado de trabalho.”
É o caso de Cristiana Santos, aluna do
6.º ano. “Acho que me pode ajudar a
arranjar trabalho quando for grande”, diz
28
a luso­‑americana de
11 anos. Quem lhe
explicou
essa
vantagem, esclarece,
foi a mãe. Cristiana
tem vários colegas de
origem portuguesa
na sua escola, mas só
um é que tem aulas
de português “e os
outros falam um
bocadinho, mas não
muito.”
O presidente da
Associação de Professores de Português
dos EUA e Canadá (APPEUC), Diniz Borges,
explica que “o português concorre hoje
com uma amálgama de atividades extracurriculares que não existiam há vinte
anos. Há o ballet, a natação, o judo... tudo
isso em competição com o tempo que era
usado para estas aulas.”
Uma das possibilidades para assegurar a
sobrevivência destas escolas passa, então, por
aceitar alunos de outras comunidades lusófonas, sobretudo a brasileira. Mas isso raramente acontece. Diniz Borges diz que “há
poucos alunos brasileiros nas escolas comunitárias, uma percentagem mínima” e que
“existe a tendência para essas comunidades
fazerem a sua própria escola.” A entrada
dessas crianças acontece sobretudo na costa
leste, onde a comunidade brasileira vive nos
mesmos locais que a comunidade portuguesa. Mas, mesmo nestes estados, Raquel
Rosa diz que os responsáveis costumam
resistir à entrada dessas crianças.
ENSINO REGULAR
Um dos grandes objectivos do Instituto
Camões é aumentar o número de escolas
do ensino regular que oferecem português
nos seus currículos. “Dada a dimensão da
comunidade, o Português tem uma preParalelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
PORTUGAL/EUA
‘
O segredo é que
“estes cursos se abrem
a grupos étnicos e
vendem o português
como uma língua
internacional e não como
uma língua de herança.”
[...] “o país não tem
feito um bom trabalho
a vender o português
como uma língua
internacional.”
Diniz Borges
’
sença nas escolas americanas que ainda
deixa muito a desejar” admite António
Oliveira. “Há muito espaço para crescer.”
Uma leitura dos números evidencia a vantagem: se nas escolas da comunidade há
cerca de dois mil alunos e o número está a
diminuir, no ensino regular existem mais
de 13 mil e a tendência é para aumentar.
A abordagem tem de ser cautelosa, no
entanto, no contexto actual de restrição
financeira norte-americana, em que todos
os dias os orçamentos das escolas encolhem
e os departamentos de línguas são os primeiros a sofrer com esses cortes. “Tudo
tem de acontecer passo a passo”, explica
António Oliveira. “Primeiro, temos de trabalhar com os distritos com forte presença
portuguesa. Tem de existir uma comunidade que se una e reivindique estas aulas.
Depois, tem de haver um professor de
Português disponível. Finalmente, ajuda
muito que existam políticos luso-descenParalelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
dentes, que possam forçar uma mudança.”
O responsável dá o exemplo da cidade de
Mineola, no estado de Nova Iorque, onde
a comunidade se uniu com o senador estadual Jack Martins, e hoje existem aulas de
Português no liceu da cidade.
Diniz Borges defende o mesmo caminho,
explicando que, “como o sistema não é
centralizado, e as decisões são tomadas
autonomamente pelas escolas, há muitas
mais possibilidades.” Um dos caminhos é
a assinatura de protocolos com os estados,
29
PORTUGAL/EUA
‘
“40% dos alunos que
vão para estes cursos
não são portugueses,
a maioria é de origem
hispânica” e “o mesmo
está a acontecer por toda
a Califórnia e também
em Massachusetts.”
Revista Language Magazine
como o que Portugal tem com o estado
de Massachusetts, desde os anos 90, e com
o condado de Miami, na Flórida, desde o
ano passado. O Instituto Camões pretende
agora replicar o modelo: prepara-se para
assinar protocolo com as cidades de
Elizabeth e Newark, em Nova Jérsia, e está
a iniciar negociações com os estados da
Califórnia e de Nova Iorque.
Diniz Borges garante que “não há cursos
30
de Português que não sejam um sucesso;
onde existem, estão cheios.” O professor
fala da realidade que conhece melhor: no
Vale de São Joaquim, na Califórnia, a escola de Turlock passou de 80 alunos para
200 em sete anos; no mesmo período, o
liceu de Tulare passou de 180 para 418.
“A procura existe. Há oportunidades que
temos de agarrar onde existem professores luso-descendentes que podem ensinar
’
Português. Tem de ser este lobby local a
trabalhar.”
O professor explica que “40% dos alunos
que vão para estes cursos não são portugueses, a maioria é de origem hispânica”
e que “o mesmo está a acontecer por toda
a Califórnia e também em Massachusetts”.
Para o responsável, o segredo é que “estes
cursos se abrem a grupos étnicos e vendem
o português como uma língua internacional
e não como uma língua de herança”. Borges
acredita que “o país não tem feito um bom
trabalho a vender o português como uma
língua internacional”.
“Há muito espaço para crescer no ensino regular porque os outros grupos étnicos, sobretudo os hispanos, têm um
grande interesse pelo Brasil e muita facilidade em aprender português”, defende.
O professor sugere que a expansão do
ensino do português se concentre na
população hispana. Se assim acontecer,
argumenta, o universo de alunos potenciais deixa de ser às dezenas, talvez centenas, de milhares de luso-descendentes
e expande-se para a maior comunidade
étnica do país, com 53 milhões de pessoas.
“É preciso vender o português como
uma língua internacional e não como a
língua com que se aprende para conseguir
falar com a vovó”, explica o emigrante
açoriano. “Embora isso seja muito bonito,
não é nada pragmático.”
UNIVERSIDADE
Todas as sextas-feiras, a professora Raquel
termina as aulas na Escola Lusitânia e
caminha até ao pólo do Brookdale
Community College, em Long Branch,
onde dá aulas de português.
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
PORTUGAL/EUA
As aulas começaram em setembro,
depois de Raquel descobrir que a mulher
do seu contabilista, Nancy Kegelman, era
a directora de assuntos académicos da
universidade. “Percebi que era uma oportunidade e convidei-a para vir conhecer a
escola do clube”, explica Raquel. “Depois,
falei-lhe da possibilidade das aulas na universidade, ela gostou da ideia, convidou-me a apresentar um projecto e, passado
um ano, abriu a cadeira.”
Para já, Raquel tem apenas 19 alunos.
“Mas a escola tem 15 mil alunos e o curso
acabou de abrir. O potencial de crescimento é enorme”, acredita.
Ashley Gonçalves, 25 anos, é uma das
suas alunas. A estudante de psicologia criminal inscreveu-se na cadeira para tentar
aprender a língua do pai, um emigrante
madeirense que morreu no ano passado.
“O desaparecimento dele funcionou como
uma chamada de atenção para as minhas
raízes”, diz. Mas a escolha curricular tem
outros motivos mais pragmáticos:
“Vivemos numa área muito diversa culturalmente e saber mais uma língua pode
ajudar-me a arranjar trabalho.”
Maria Melindez, de 24 anos, tem a
mesma esperança. Mas os seus colegas
não percebem a escolha. “Quando digo
que estudo português, dizem: ‘Português?
Porquê?’ Ficam confusos. Ainda não percebem o potencial da língua”, diz a estudante de línguas modernas. A confusão
dos seus colegas ajuda a justificar os
números: apesar do português ser considerada pela revista Bloomberg a sexta
língua mais importante no mundo dos
negócios, está em 13.º lugar das línguas
mais estudadas nas universidades americanas, segundo o último relatório da
Modern Language Association. Apesar
disso, no Outono de 2009, as universidades americanas contavam 11371 alunos
inscritos, o que representava um aumento de 10,8% em relação a 2006.
A revista especializada Language Magazine
contou num artigo publicado este ano
como, “enquanto os departamentos de
línguas são reduzidos, ou completamente
eliminados, a procura pelo Português
aumenta.”
“Apesar do Português ter sido sempre
uma importante língua mundial, apenas
recentemente tem sido reconhecido como
uma língua importante no mundo dos
negócios e relações internacionais”, pode
ler-se no artigo. Recentemente, o jornal
da prestigiada Universidade de Yale deu
eco a esta mesma realidade. “Com a transformação do Brasil numa potência económica global, mais e mais alunos estão a
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
inscrever-se em ‘Português Elementar’, mas sabemos que não é verdade”, explica.
“É, sobretudo, motivado pelo crescimenmas o pequeno departamento de Português
de Yale não tem professores suficientes to económico do Brasil e pelo aumento
para suprir essa necessidade – ou os meios do seu poder político em toda a América
latina.”
para contratar novos.”
O Instituto Camões tem três leitorados
em universidades, comparticipa a colocação de professores, financia certas activi- O CONTRIBUTO DA FLAD
dades e tem três Centros Camões, mas Desde o início da sua actividade, a
António Oliveira admite que “o que acon- Fundação Luso-Americana para o
tece de mais vibrante a nível universitário Desenvolvimento (FLAD) tem apoiado inúé totalmente independente dos esforços meras iniciativas para a melhoria do ensinacionais e quase sempre motivado por no do Português nos Estados Unidos.
Este apoio começa com os mais jovens
um interesse pelo Brasil.”
Na universidade de São José, na e o concurso “Ler em Português”, organizado em parceria com a Rede de
Califórnia, por exemplo, há um curso de
Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional
Português que é inteiramente pago por
um fundo criado pela comunidade aço- de Leitura. Todos os anos, alunos e proriana. Em Setembro, começou a funcionar fessores dos dois lados do atlântico são
na Universidade de Massachusetts, em convidados a apresentar os seus trabalhos,
Lowell, o “Centro Pedroso-Saab para em que desenvolvem um tema definido
Estudos Portugueses e Culturais”, que foi pela organização. A edição 2012/13 foi
tornado possível graças aos contributos subordinada ao tema Liberdade e
de Luís Pedroso e do
casal Mark Saab e Elisia
Saab, empresários de ori“Apesar do português ter sido
gem portuguesa que
sempre uma importante língua
doaram cerca de 850 mil
dólares (660 mil euros).
mundial, apenas recentemente tem
A partir de Janeiro, a
sido reconhecido como uma língua
Universidade de Lesley,
Massachusetts, em parceimportante no mundo dos negócios
ria com a Universidade
e relações internacionais”.
Aberta, lança o primeiro
certificado internacional
Revista Language Magazine
em Estudos Portugueses.
Também no próximo
ano, a universidade do Michigan vai Segurança numa Sociedade Plural e a do
aumentar a sua oferta de estudos portu- próximo ano, associando-se à comemogueses com uma licenciatura dupla em ração de oitocentos anos de Língua
português e espanhol e um programa Portuguesa, propõe o tema “Português,
específico para alunos de doutoramento Uma Língua com História. “
O apoio da FLAD também se estende aos
no próximo ano lectivo. A presença do
português nas universidades americanas professores. O presidente da Associação
tem, no entanto, várias décadas. O mais de Professores de Português dos EUA e
antigo curso de verão de Português, na Canadá (APPEUC), Diniz Borges, explica
Universidade de Massac husetts- que “uma das maiores reivindicações dos
Dartmouth, comemorou este ano a sua professores [de português nos EUA] é a
falta de formação para uma realidade em
20.ª edição.
“Fomos o primeiro curso que surgiu mudança” e a FLAD tem procurado resolno país, em 1994, e neste momento há ver este problema. A Fundação promove
cursos semelhantes em vários Estados, o a realização de cursos de verão em
que nos enche de orgulho”, diz Frank Portugal que visam contribuir para o
Sousa, que foi responsável pelo lança- aumento dos níveis de qualidade do ensimento do curso e serviu como director no do Português como língua não materdo Centro de Estudos Portugueses da na. O programa foi lançado em 2012 e
anualmente são promovidas dois cursos:
universidade até este ano.
O professor garante que “apesar das difi- um na Faculdade de Letras da Universidade
culdades, o ensino do Português nos EUA de Lisboa e outro na Universidade dos
está numa boa fase” que deve continuar. Açores, em Ponta Delgada. Os cursos têm
“Gostava de dizer que este crescimento se a duração de duas semanas e são certifideve à maravilhosa situação de Portugal, cados. Nas suas quatro edições, atingiram
‘
’
31
PORTUGAL/EUA
António Oliveira, fotografado na Quinta Avenida, em Nova Iorque.
um universo de 56 professores e as edições de 2014 já estão em preparação.
A FLAD tem também apoiado inúmeras
universidades norte-americanas na criação
de departamentos de estudo da língua e
cultura portuguesas. A fundação tem trabalhado com o Council of American Overseas
Research Centers (CAORC), uma federação
norte-americana de centros de investigação
dentro e fora dos Estados Unidos, no desenvolvimento de um ambicioso projecto de
cooperação transatlântica. No seguimento
desta colaboração, foi criada uma rede de
centros de investigação nas áreas das ciências
sociais e humanas e lançado o concurso
Bolsas para Docência e Investigação, que
atribui bolsas a docentes integrados nas universidades e centros de investigação portugueses por períodos de um a quatro meses.
Ao mesmo tempo, o CAORC oferece o programa CLR (Center for Lusophone Research)
32
que promove a mobilidade de investigadores norte-americanos para desenvolverem os
seus projectos de investigação em estudos
lusófonos nas instituições portuguesas.
Em 1996 e 1998, a FLAD assinou protocolos com a Biblioteca Nacional de
Portugal e a Direcção-Geral de Arquivos/
Torre do Tombo, para facilitar a pesquisa
de fundos portugueses a investigadores de
universidades norte-americanas. Mais de
uma centena de investigadores, quer em
fase de doutoramento, quer em pós-dissertação, já beneficiaram destas bolsas
desde o início do projecto.
Nos anos 90 do século passado, a FLAD
começou também a apoiar vários estabelecimentos de ensino superior norte-americanos. Estes apoios dirigem-se a
universidades onde existem comunidades
luso-americanas, mas também a cidades
onde não existe uma forte presença por-
tuguesa. Ao abrigo destes protocolos, as
universidades financiam a contratação de
professores, a abertura de cursos de língua
e cultura portuguesas, bolsas de investigação, intercâmbios de professores e alunos e outros eventos que promovem o
Português. Entre as universidades beneficiárias, encontram-se várias universidades
de prestígio, como a Universidade de São
José (apoiada desde 2012), a Universidade
de Berkeley (1998), a Universidade de
Brown (1993), a Universidade de
Georgetown (1997), a Universidade de
Chicago (2005) e a Universidade de
Massachusetts-Dartmouth e o seu Centro
de Estudos Portugueses, que é hoje o
maior centro dedicado à lusofonia no
mundo anglo-saxónico graças ao apoio
da Fundação, estabelecido em 1994.
* Jornalista freelancer
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
D.R.
CARTA BRANCA
Várias Américas
MARIA JOÃO AVILLEZ
Há muitas Américas na minha cabeça quando me falam dos Estados
Unidos. Comecei, corriam os anos setenta, por uma travessia de
Norte a Sul, pela costa leste. De automóvel, com mochilas e duas
crianças pela mão, a Verónica e o Pedro, meus filhos de 12 e 8
anos e felizmente para todos nós, o pai delas! Desde as cataratas
do Niagara até à cosmopolita Miami, passando pela quase provinciana capital federal e pela efervescente Nova Iorque, com muitas
paragens pelo meio, foi a aventura da descoberta: os parques, os
museus, as Smoky Mountains, os diversos skyline de tirar a respiração... O espaço e a diversidade. Percebi que ia voltar porque era
que seria depois transformar as impressões em palavras para poder
contar o que vira. Sem perder o fio à meada.
Voltei a Washington, onde me falaram de Mário Soares, et pour
cause: “Doctor Soares é muito nosso amigo! Mostrou-o bem quando esteve no poder!”
Foi no Departamento de Estado, estava-se em Abril de 1986,
Soares acabava de ser eleito Presidente da República, os meus
interlocutores rejubilavam. E que delícia foi o mergulho nas conferências de imprensa de Larry Speaks, porta-voz de Reagan na
Casa Branca: em mais parte nenhuma do mundo há igual. Nem
na forma nem no conteúdo. Seguiram-se
milhares de quilómetros enfeitados de
pasmo: a mítica Califórnia, onde mora São
Francisco tingida pela mesma luz de Lisboa
e também a inquietante Los Angeles que viu
A convite do Departamento de Estado – sorte minha
nascer (em 1881) o Los Angeles Times, catedral
– seguiu­‑se a vivência de um mosaico paradoxal e
do jornalismo que pude visitar e questionar;
vertiginoso feita em voo picado sobre estados, cidades, a ruralidade desconcertante do Middle-West
(“Europe...? Where?”); as maravilhas em
lugares, pessoas, histórias. [...] O mosaico é de tal
estado quimicamente puro da arquitectura
de Chicago, horas e horas de nariz no ar e
modo diverso e permanente no seu carrocel de raças,
emocionado face às maravilhas; a festa
credos, línguas, usos e costumes que os seus cinquenta olhar
de Nova Orleães, o eco musicalmente perfeito dos concertos no Met e no Lincold
estados e mais de trezentos milhões de habitantes
Center de Nova Iorque debruando dias de
nos surgem de imediato com a evidência de um
encontros, excitação e frenesim... A paisagem
prodigiosa do Grand Canyon; a planura de
continente mais do que com a verosimilhança
Phoenix onde se abriga a mais avançada tecde um país.
nologia espacial do país; Atlanta, pátria da
cnn e da Coca-Cola....
Mas neste desorganizado mapa que a
memória hoje me encena que dizer da amena e amável cidade de
imperioso voltar. A convite do Departamento de Estado – sorte
Boston, onde num ápice voltei cinco séculos atrás quando, numa
minha – seguiu-se a vivência de um mosaico paradoxal e vertiginoso feita em voo picado sobre estados, cidades, lugares, pessoas, das cem (!) bibliotecas da Universidade de Harvard, me mostrahistórias. Como um livro mágico que alguém fosse abrindo à ram uma edição de Os Lusíadas datada de 1572?
Voltei uma e outra vez, voltei muitas vezes. Mas um dia, de um
minha frente catapultando-me para dentro de cada uma das suas
páginas. O mosaico é de tal modo diverso e permanente no seu segundo para o outro, com um agudo aperto no coração, apercecarrocel de raças, credos, línguas, usos e costumes que os seus bi-me que uma foto dos meus filhos, já desbotada pelo tempo,
cinquenta estados e mais de trezentos milhões de habitantes nos deixara derisoriamente de fazer sentido: tirada no World Trade
Center na Primavera de 1979, ficara brutalmente amputada do
surgem de imediato com a evidência de um continente mais do
seu próprio cenário. Restavam os sorrisos da Verónica e do Pedro
que com a verosimilhança de um país.
estampados agora numa ficção que antes fora glorioso ex-líbris.
Na minha cabeça, por tudo isto, uma só ideia nessa já longínqua
Sim, voltei. Mas essa América tinha desaparecido.
década de oitenta: estar à altura daquele quase demencial desafio
‘
’
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
33
PORTUGAL/EUA
FLAD apoia a tradução de obras
em português e em inglês
Programas Alberto de Lacerda
e Gregory Rabassa contribuem
para divulgar autores portugueses
nos Estados Unidos e autores
americanos em Portugal
Os nomes de um grande poeta e de um reconhecido tradutor – Alberto de Lacerda
e Gregory Rabassa – honram o programa de apoio à tradução patrocinado pela FLAD.
O concurso é anual, abrange obras literárias, históricas, filosóficas ou ensaísticas
e podem candidatar-se tanto autores individuais como instituições e editoras.
POR CARLA BAPTISTA*
Teresa Alves, investigadora no Centro
de Estudos Anglísticos da Universidade
de Lisboa, especialista em Estudos
Americanos e um dos membros do júri
deste concurso, salienta a importância
da iniciativa: “a FLAD já apoiava a tradução de obras mas este concurso, por ser
regular, estar aberto a todos e procurar
pôr as duas culturas a dialogarem uma
com a outra, num espírito universalista
e humanista, acrescenta uma dimensão
nova”.
Valoriza ainda o facto do concurso não
estar circunscrito à literatura mas ser
igualmente aberto à divulgação de obras
científicas ou ensaísticas. Além da qualidade literária e do rigor científico, os
critérios de selecção referem explicitamente a diversidade de géneros e a promoção do intercâmbio entre Portugal e
os Estados Unidos como aspectos diferenciadores das candidaturas.
As obras seleccionadas para apoio na
última edição do programa Alberto
Lacerda ilustram bem o espírito ecléctico e multidisciplinar que presidiu às
escolhas do júri: das 8 obras a concurso, foram seleccionadas 5, incluindo
romances de luso-descendentes, como
34
‘
Gregory Rabassa
defende a tese
de que a tradução é
uma coisa impossível:
“As pessoas esperam
reprodução mas o melhor
que podemos fazer
é aproximação”.
’
Stealing Fátima, de Frank Gaspar; ensaios
que cruzam ciência e arte, como Science
Matters: Humanities as Complex Systems, organizado por Maria Burguete e Lui Lam;
ou poesia, como um livro de textos inéditos atribuídos a um dos heterónimos de Fernando Pessoa, organizado por
Jerónimo Pizarro. Os tradutores destas
obras são, respectivamente, Maria Emília
Madureira, José Maria Ribeirinho e
Margarida Vale de Gato.
Entre outros, o Programa Gregory
Rabassa apoiou o livro A Piada Infinita, de
David Foster Wallace, traduzido por Lúcia
Pinho e Melo, uma obra imensa e labiríntica (1198 páginas), de grande complexidade sintáctica, lexical e semântica,
o trabalho mais memorável do autor
antes do seu suicídio em 2008, vítima
de depressão, doença da qual sofria desde
os 26 anos de idade.
Gregory Rabassa é uma figura incontornável na história moderna da tradução.
O primeiro livro que traduziu, a convite
de um amigo editor que o conhecia da
Universidade de Columbia, onde se doutorou, ganhou em 1967 o National Book
Award para Tradução. Era a novela Rayuela,
escrita em 1963 pelo argentino Júlio
Cortázar (em Portugal, está editado pela
Cavalo de Ferro com o título O Jogo do
Mundo – Rayuela; em inglês, o título dessa
primeira edição da Pantheon ficou
Hopscotch).
Seguiram-se muitos outros livros de
autores de língua espanhola e portuguesa, incluindo Jorge Amado, Machado de
Assis, Clarice Lispector, Mário Vargas
Llosa e Gabriel García Marquez. Entre os
escritores portugueses, traduziu António
Lobo Antunes e Mário de Carvalho. Aos
82 anos, escreveu o seu primeiro livro,
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
PORTUGAL/EUA
intitulado If This Be Treason: Translation and Its
Dyscontents (não está editado em Portugal),
um registo autobiográfico sobre o seu
ofício onde defende a tese de que a tradução é uma coisa impossível: “As pessoas esperam reprodução mas o melhor
que podemos fazer é aproximação”.
Alberto de Lacerda nasceu na ilha de
Moçambique em 1928 e morreu em
Londres, em 2007. O jornal britânico
The Independent dedicou um obituário ao
“aclamado poeta, artista e crítico” que
passava parte do seu tempo no café Picasso,
na King’s Road, ou no Dino, perto da estação
de metro de South Kensington, um homem
pequeno e nervoso com ar de vagabundo,
deambulando de galeria de arte em cinema, carregando um saco de plástico cheio
de livros e jornais e atravessando as ruas
sem olhar para os carros.
Foi um dos mais brilhantes poetas da
sua geração, amigo de Sophia de Mello
Breyner, Jorge de Sena, António Ramos
Rosa e Ruy Cinatti; um artista plástico
que chegou a expor trabalhos em colagem e privava com os pintores amigos,
como Vieira da Silva, Arpad e Jorge
Martins (ambos o retrataram); um coleccionador, conhecedor e crítico erudito
de literatura e pintura e um professor
Paralelo n.o 8
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‘
A obra de Alberto de Lacerda “vive em permanente
confronto com a tripla pulsão da melancolia,
da liberdade e da iconoclastia”, expressa no seguinte
verso: “O tigre que caminha nos meus gestos
Eduardo Pitta
/Tem a graça insolente dos navios.”
’
inspirador de Poética na Universidade de
Austin, brevemente em Nova Iorque e
depois, durante 26 anos, na Universidade
de Boston.
Eduardo Pitta, seu amigo e admirador,
escreveu no jornal Público, por ocasião da
sua morte que, enquanto viveu nos
Estados Unidos, “conviveu com os poetas
Marianne Moore e Thom Gunn e com o
pintor David Hockney, frequentou os
sofisticados círculos literários da costa
Leste e, em 1969, tinha uma antologia
sua publicada pela Universidade do Texas,
Sellected Poems. Foi o primeiro e único autor
de língua portuguesa a dar um recital da
sua poesia na Biblioteca do Congresso,
em Washington”.
O mesmo sucedeu em Londres: foi o
crítico de arte John McEwen, com quem
tinha combinado um almoço domingueiro que, estranhando a demora, acabou por arrombar a porta de casa,
descobrindo Alberto de Lacerda ainda
em coma, vítima de ataque cardíaco, e
um apartamento cuja indescritível desarrumação e espólio (mais de mil inéditos,
muitos ainda por editar) se tornou lendária.
É ainda Eduardo Pitta quem, “simplificando muito”, refere que a obra de
Alberto de Lacerda “vive em permanente confronto com a tripla pulsão da
melancolia, da liberdade e da iconoclastia”, expressa no seguinte verso: “O tigre
que caminha nos meus gestos/Tem a graça insolente dos navios.”
* Jornalista freelancer
35
PORTUGAL/EUA
Luso-americano Nobel da Medicina
Do cozido das furnas
ao ácido ribonucleico
Desde miúdo tem um fascínio pela vida: Com a mesma curiosidade parou as brincadeiras
no jardim da casa onde vivia, com os seus pais, para observar um pequena tartaruga atropelada,
ainda não andava na escola e, já com 18 anos, escolheu estudar biologia molecular ao ler,
no Washington Post, sobre a clonagem do gene da insulina humana numa bactéria.
Em 2006, Craig Mello ganhou o Nobel da Medicina pelo estudo dos mecanismos
do silenciamento de genes portadores de doenças evitando o aparecimento e evolução destas.
É um dos impulsionadores da moderna epigenética que estuda as características celulares
estáveis que não interferem com o DNA.
TEXTO E FOTOS POR SARA PINA*
O Nobel da Medicina na sua visita a Ponta Delgada por altura da atribuição
do doutoramento Honoris causa pela Universidade dos Açores.
36
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PORTUGAL/EUA
Lembra-se do seu avô açoriano descrever
as ilhas e o cozido das furnas “imaginava lava a sair dos vulcões e as pessoas a
cozinharem”, um cozinhado mágico à
semelhança dos seus actuais trabalhos de
laboratório onde analisa o RNAi – os
mecanismos de interferência no ácido
ribonucleico de uma célula que podem
inibir processos genéticos malignos.
A filha mais nova de Mello desenvolveu,
no primeiro ano de vida, diabetes tipo 1
“ironicamente, a insulina humana, sintetizada a partir das moléculas num processo que me inspirou a seguir biologia
molecular, está agora a dar vida à Victoria”
É esse respeito e confiança na investigação
médica que dá ao Nobel empenho no
seu trabalho em prole da vida.
Mello salienta que também o seu
empenho é genético – chama “valor
açoriano” à capacidade de sacrifício
necessária para desenvolver o seu trabalho, assim como a maneira que encontra para relaxar “velejar […] esquece-se
tudo”. Por isso, voltou feliz a Ponta
Delgada, em 2012, para receber o doutoramento Honoris causa pela Universidade
dos Açores.
[Paralelo] Diz na sua autobiografia que se sente
muito feliz em estar vivo e com a vida. Fale-nos
dela.
[Craig Mello] Tive muita sorte em ter os
pais e avós que tive porque eles amavam
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
‘
Quando estávamos a
crescer o facto mais
marcante de ser um
Mello é que éramos
arreliados por causa
do nome. O meu treinador chamava-me
Marshmallow [goma ou
sugo em português].
Mas estávamos bem
cientes dos nossos
antepassados, tanto
portugueses como italianos no lado da
minha mãe. Os nossos avós eram pessoas
que trabalhavam muito e que nunca
tiveram oportunidade de estudar. Nós
sabíamos da sorte que tivemos em poder
fazê-lo, de ter tido essa oportunidade
porque eles trabalharam tanto para nós.
O facto mais marcante de ser
um Mello é que éramos arreliados
por causa do nome. O meu treinador
chamava-me Marshmallow
[goma em português].
Craig Mello
’
a vida e não havia muita pressão com as
aparências. Fazíamos imensas coisas juntos. O meu pai era paleontólogo e fazíamos visitas às Rocky Mountains, a
Montana e Dakota do Sul para procurar
fósseis juntos.
[P] Era uma actividade de família…?
[CM] Sim. A minha mãe educou três
crianças a que se juntou uma quarta mais
nova a acampar. Ela era uma artista, tinha
sensibilidade para a beleza do que a
rodeava todos os dias e educou-nos a
apreciar as experiências da vida.
[P] Sabia da sua ascendência portuguesa? Até
que ponto é que isso esteve presente na sua
infância?
[CM] Claro. Todos os anos visitávamos a
família e vivíamos emergidos nela.
[P] Diz que o seu hobby é velejar. É um momento para estar sozinho e de reflexão?
[CM] Exactamente. Esquecemos tudo.
É mesmo importante termos algo nas
nossas vidas em que sejamos um só com
o que estamos a fazer. Só sentir a existência sem estar sempre a pensar.
Pensamos demasiado.
[P] Como descobriu a interferência do RNA
(ácido ribonucleico) e de que maneira é
importante?
[CM] Estamos a trabalhar nesta área onde
37
PORTUGAL/EUA
‘
Estou feliz por ter
renovado os meus laços
com os Açores e a minha
família aqui, sinto que
toda a ilha é a minha
família.
Craig Mello
’
analisamos a hereditariedade do mecanismo do silenciamento. Podemos induzir silenciamento de genes [de doenças]
em células, numa geração e isso ter efeitos para várias gerações seguintes. Isto é
fascinante e tem consequências potenciais
na evolução porque um organismo pode
evoluir depois de experienciar essa informação e passá-la para os vindouros […].
Falamos deste campo como a epigenética e está a ganhar muita importância.
Leva-nos a perceber alguns mecanismos
moleculares envolvidos nas mudanças de
informação genética sem alterar o ADN.
O DNA é a base da informação genética
– descobrimos que podemos modificar
a informação genética herdada através da
maneira como o DNA é “empacotado”.
Além disso, agora, também, sabemos
como alterar a herança de RNA passada
de geração para geração.
"Precisamos de continuar a financiar a investigação [científica]"
38
[P] O que se pode fazer com esta informação
genética?
[CM] Descobrimos este mecanismo que
funciona como um motor de busca, por
exemplo, o Google. Há imensa informação numa célula – é como a internet.
Como é que controlamos essa informação? Se não temos uma forma de procurar, como a controlamos? [Temos de
poder escrever o que procuramos para o
motor de busca encontrar]. Sabemos
agora que as células lidam com o mesmo
problema – encontraram uma maneira
para pesquisar a informação. O que elas
fazem é usar uma pequena parte do códiParalelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
PORTUGAL/EUA
go genético na forma de RNA para fazer
a pesquisa. Assim como podemos escrever no Google podemos fazer uma consulta em laboratório na cadeia dupla de
RNA e quando inserimos isso numa célula animal ou planta podemos procurar lá
dentro – é como escrever na janela de
pesquisa do Google. […] A mesma busca
que fazemos sinteticamente vai para a
enzima que usa essa informação para
procurar e encontrar toda a informação
igual e depois regulamos essa informação.
[P] Diria que o Prémio Nobel o mudou ou
mudou o seu trabalho?
[CM] Não, não mudou. Nos primeiros
anos foi uma loucura. Dei centenas de
conferências e era insustentável. Mas
agora as coisas acalmaram muito e o meu
laboratório está bem e a fazer descobertas excitantes que estamos a publicar e a
discutir.
[P] É bom partilhar e celebrar o seu trabalho
nos Açores?
[CM] Estou feliz por ter renovado os meus
laços com os Açores e a minha família
aqui, sinto que toda a ilha é a minha
família. O meu avô nunca pôde regressar.
[P] Reconhece nas suas visitas nos Açores as
histórias que o seu avô lhe contava?
[CM] Algumas delas. O meu avô
mergulhava no mar atirando-se dos
penhascos. Até agora ainda não vi
ninguém fazer isso. Eu não vou fazer isso,
Paralelo n.o 8
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embora já tenha mergulhado um pouco.
[…] Os meus genes de velejador podem
ser dos meus antepassados açoreanos.
muitas provas que alguém esteja a tomar
conta de nós. Portanto é melhor nós
tomarmos bem conta de nós próprios.
‘
Se olharmos para a história da humanidade
não há muitas provas que alguém esteja
a tomar conta de nós. Portanto é melhor
nós tomarmos bem conta de nós próprios.
Craig Mello
[P] A sua autobiografia debruça-se sobre os
problemas ambientais e a falta de atenção para
estes…
[CM] Sim. A sustentabilidade ambiental é
uma assunto muito importante a que não
nos dedicamos. O capitalismo funciona
bem porque, basicamente, mantém as
pessoas motivadas para trabalhar pela
recompensa. Mas não tem em conta o
verdadeiro custo das coisas e por isso é
insustentável. Se tem recursos limitados
e os explora sem olhar para o futuro, o
seu capitalismo vai funcionar bem por
algum tempo e depois deixa de funcionar
ao esgotarem-se as matérias-primas. E
isso está a acontecer. […] Se olharmos
para a história da humanidade não há
’
[P] O que podemos fazer?
[CM] A oportunidade vem pela riqueza.
Se perdermos a riqueza estamos só a trabalhar para sobreviver, sem oportunidade de apreender conhecimento. Como
cientista, tenho muita sorte de ter tido a
oportunidade de fazer o que faço. Isso
resulta do trabalho duro de agricultores,
de construtores civis, de trabalhadores
fabris – as pessoas que fazem coisas para
mim, damos por adquirido que teremos
sempre possibilidade de comprar roupas
ou arranjar comida. Temos esta oportunidade agora e penso que como comunidade temos de aliar-nos e tentar
assegurar o futuro, perceber que temos
de viver de uma maneira sustentável.
39
ECONOMIA
O acordo de Parceria
Transatlântica de Comércio
e Investimento (TTIP)
POR NUNO CUNHA RODRIGUES*
‘
Estão neste momento em curso negociações entre
a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da
América (EUA) que visam alcançar um acordo de
comércio: o chamado acordo de Parceria
Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP).
Através da (eventual) celebração deste acordo
ambos os blocos económicos – União Europeia e
EUA – pretendem ampliar as recíprocas trocas
comerciais atendendo aos benefícios daí decorrentes para ambos.
Na verdade, diferentes estudos económicos
realizados evidenciaram as vantagens
económicas associadas à criação
de uma zona de comércio livre
entre os EUA e a UE.
’
Esta circunstância foi reconhecida na declaração
conjunta da Cimeira UE-EUA, emitida em 28 de
Novembro de 2011 e, mais recentemente, na declaração conjunta, de 13 de Fevereiro de 2013, emitida pelo Presidentes norte-americano, da Comissão
Europeia e do Conselho Europeu.
“[…] diferentes estudos económicos realizados
evidenciaram as vantagens económicas associadas à criação de uma zona de comércio livre
entre os EUA e a UE”
Na verdade, diferentes estudos económicos realizados evidenciaram as vantagens económicas associadas à criação de uma zona de comércio livre
entre os EUA e a UE (apesar de, note-se, não estar
em causa a criação de uma zona que mimetize o
mercado interno europeu).
40
Podemos, a partir desses trabalhos, destacar os
seguintes factos relativos às relações transatlânticas:
a) A União Europeia representa a maior economia
mundial, estando em causa 25,1% do PIB mundial e 17% de todo o comércio mundial.
b) Os EUA representam a segunda maior economia
mundial com 21.6% do PIB mundial e 13,4%
do comércio mundial;
c) Juntas, as economias destes dois blocos económicos representam mais de metade do PIB mundial;1
d) As relações comerciais bilaterais são fundamentais para ambos os parceiros. Em 2011, a União
Europeia foi o primeiro parceiro comercial dos
EUA (com 17,6% de comércio de bens) sendo
o Canadá o segundo maior e a China o terceiro;
e) Os EUA representam o segundo maior parceiro
comercial da União Europeia, representando
13,9% do comércio de bens (sendo a China o
primeiro parceiro).
f) As relações económicas transatlânticas estão profundamente integradas sendo em média transaccionados bilateralmente, por dia, quase 2 mil
milhões de EUR em bens e serviços;
g) 45 dos 50 Estados norte-americanos exportam mais
para a Europa do que para a China. Em alguns
casos a diferença é onze vezes superior (caso da
Florida);
h) A balança comercial dos EUA com a Europa é deficitária tendo esse valor sido agravado nos últimos
anos face à crise financeira verificada na Europa;
“No período que mediou entre 2000 a 2011,
as exportações da União Europeia para os
Estados Unidos e dos Estados Unidos para a
Europa estagnaram em termos absolutos”
Há ainda riscos associados às economias de ambos
os lados do Atlântico que justificam a celebração
do Tratado:
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
© EUROPEAN UNION, 2013
ECONOMIA
Herman van Rompuy, Barack Obama e José Manuel Durão Barroso (da esquerda para direita).
Um acordo como aquele que está em causa permitirá a plena realização de uma parceria transatlântica ambiciosa.
i) A economia na zona euro está em contracção,
em contraste com EUA, onde se espera um crescimento de 2% no próximo ano.
ii) No período que mediou entre 2000 a 2011, as
exportações da União Europeia para os Estados
Unidos e dos Estados Unidos para a Europa
estagnaram em termos absolutos, o que contrasta com o aumento significativo das exportações
da Europa e dos EUA para a China. A esta circunstância não está alheio o facto de o euro se
encontrar excessivamente valorizado face ao
dólar.
iii) A globalização e a emergência de novas economias (nomeadamente os chamados países BRICS)
implicam que as relações económicas transatlânticas estejam a passar de uma posição de
preeminência para uma posição de predominância – sendo relevantes, estas relações começam a deixar de ter o peso esmagador que
tiveram no passado.
A celebração de um acordo como aquele que está
em causa permitirá, de harmonia com o relatório
de avaliação de impacto preparado pela Comissão
Europeia, a plena realização de uma parceria transatlântica ambiciosa e abrangente em matéria de
comércio e investimento a qual poderá trazer ganhos económicos significativos para a UE (119,2 mil
milhões de EUR por ano) e para os EUA (94,9 mil
milhões de EUR por ano).
Este valor equivale a um ganho de €545 no rendimento anual de cada familia de quatro pessoas
na EU e, em média, de €655 por família nos EUA.
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
“As exportações da UE para os EUA poderão
aumentar 28% e as exportações totais da UE
a nível mundial terão um incremento de 6%.
As exportações dos EUA podem aumentar mais
8%”
As exportações da UE para os EUA poderão aumentar 28% e as exportações totais da UE a nível mundial terão um incremento de 6%. As exportações
dos EUA podem aumentar mais 8% o que pode
representar, no final, um aumento de 0,5% no
desempenho anual da economia europeia e de 0,4%
na economia norte-americana em 2027, de acordo
com dados da Comissão.
As negociações do Tratado surgem, por conseguinte, na sequência de estudos económicos que
evidenciaram as potencialidades de aprofundamento das relações comerciais transatlânticas face,
nomeadamente, a um conjunto de obstáculos –
pautais e não-pautais – então identificados e que
criavam entraves a esse aprofundamento.
Nessa decorrência foram apresentadas três opções
políticas diferentes quanto ao objecto das negociações:
a) Um cenário que não implicava alterações políticas substanciais e que assentava apenas em
alterações pontuais em questões de âmbito regulatório;
b) Uma outra hipótese, mais abrangente, na qual
as negociações seriam centradas apenas em três
pontos: i) obstáculos pautais ainda existentes;
ii) liberalização dos serviços e iii) dos contratos
públicos;
41
ECONOMIA
tuais obstáculos que subsistam ser legítimos,
não-discriminatórios e proporcionais;
c. Manutenção de um acordo “vivo” que permita a progressiva eliminação de obstáculos
não-pautais e a convergência regulatória transatlântica depois da celebração deste;
(iii) desenvolvimento de regras comuns para
enfrentar as oportunidades e os desafios globais
partilhados de comércio visando:
a. Manutenção de níveis elevados de defesa dos
direitos de propriedade intelectual;
b. Assegurar ao comércio e desenvolvimento
níveis elevados de sustentabilidade ambiental
e social;
Note-se que nenhuma destas questões aparece,
de forma ingénua, nas negociações.
Todos os pontos anteriormente referidos acolhem,
de alguma forma, litígios surgidos entre a UE (ou
algum dos seus Estados-membros) e os EUA dirimidos no seio da Organização Mundial do Comércio
(OMC).
Questões como as barreiras alfandegárias (que
deram origem a um paradoxal e conhecido caso
das bananas, entre os EUA e a UE, envolvendo zonas
que quase não produzem bananas…); barreiras
regulatórias (fito-sanitárias, como sucedeu com o
caso tuna-dolphin); barreiras à prestação de serviços ou a questão dos organismos geneticamente
modificados fazem recordar que litígios passados
servem de lições para escrever tratados futuros.
É legítimo, por conseguinte, afirmar que o novo
Tratado visa prevenir litígios transatlânticos sabendo-se que, apesar de aliados, os EUA e a UE foram,
no passado, litigantes recíprocos perante a OMC.
UN PHOTO/JOHN ISAAC
c) Um derradeiro cenário mais abrangente, que
incluía todas as relações comerciais transatlânticas, nomeadamente os obstáculos pautais e
não-pautais existentes e decorrentes, verbi gratia,
da subsistência de barreiras regulatórias ao
comércio de bens, serviços, investimento e contratos públicos. Aqui podiam equacionar-se duas
alternativas: uma, mais conservadora e outra
mais ambiciosa tudo dependendo de saber até
onde se pretende ir na eliminação de obstáculos
pautais e não-pautais.
O mandato conferido à Comissão Europeia e as
negociações em curso permitem compreender que
se avançou por este derradeiro cenário – mais ambicioso – apesar de sabermos que certos serviços
foram, a priori, excluídos do âmbito das negociações
em curso o que pode prejudicar o posicionamento
negocial das partes.
As negociações em curso visam alcançar três
objectivos essenciais:
(i) melhoria do acesso recíproco ao mercado de
bens, serviços, investimentos e contratos públicos, a todos os níveis de governo que se traduz
na:
a. Eliminação ou redução das taxas alfandegárias;
b. Abertura recíproca dos mercados de serviços;
c. Liberalização e protecção do investimento;
d. Efectiva abertura dos contratos públicos em
todos os níveis de governo;
(ii) redução das barreiras não-pautais e aperfeiçoamento da compatibilidade dos regimes regulamentares que se traduz na:
a. Eliminação de barreiras ao comércio;
b. Definição comum de regras devendo os even-
O problema do dumping social surge como entrave a uma efectiva liberalização do comércio internacional.
42
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
ECONOMIA
“(…) o novo Tratado pode simbolizar uma
antecâmara de evolução desejada para a OMC
no contexto da liberalização do comércio
internacional.”
Neste domínio, o novo Tratado pode simbolizar uma
antecâmara de evolução desejada para a OMC no contexto da liberalização do comércio internacional.
Uma das maiores dificuldades que os negociadores irão enfrentar diz respeito à eliminação de obstáculos não-pautais.
Porquê?
Desde logo porque os obstáculos pautais são de
fácil percepção – estamos a falar de taxas alfandegárias por todos conhecidas – sendo, consequentemente, de mais fácil negociação.
Sucede até que as taxas alfandegárias transatlânticas são, em geral, relativamente baixas, apesar de
não serem negligenciáveis.
A OMC estima que as taxas alfandegárias praticadas
pelos EUA sejam, em média, de 3,5% e as da União
Europeia, em média, de 5,2%.
‘
Estas taxas, sendo eliminadas ou atenuadas
pelo Tratado em negociação, permitirão reforçar
a competividade das exportações portuguesas
para os EUA com evidente vantagem
para as empresas nacionais.
’
Não obstante, existe ainda algum proteccionismo
em determinados sectores económicos protegidos.
Por exemplo, do lado da União Europeia são aplicadas taxas alfandegárias elevadas a produtos agrícolas, camiões (22%), calçado (17%), produtos
audiovisuais (14%) e vestuário (12%).
Do lado americano subsistem taxas alfandegárias
elevadas em produtos agrícolas processados (tabaco – 350%); têxteis (40%); vestuário (32%) e calçado (56%).
Estas taxas representam um valor residual no comércio bilateral (2% no caso das importações provenientes dos Estados Unidos para a Europa e 0,8 %
no caso das importações provenientes da União
Europeia para os EUA).
Apesar de alguns autores não destacarem a relevância destes obstáculos pautais no contexto das negociações, é legítimo considerar que serão relevantes
para Portugal uma vez que estão em causa parte
dos produtos tipicamente exportados para os EUA.
Atente-se, em particular, aos têxteis, vestuário e
calçado, relativamente aos quais a abertura de um
novo mercado pode revelar-se decisiva para o incremento das exportações portuguesas.
É certo que a estrutura das exportações de Portugal
para os EUA sofreu alterações nos últimos anos.
Se, na década de 90 do século passado, se exportava sobretudo calçado, roupa de cama, cortiça,
moldes, tecidos e vinhos (dados AICEP), em 2011
Paralelo n.o 8
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as principais exportações passaram a ser combustíveis minerais, máquinas e aparelhos, cortiça e
matérias têxteis (pesando um total de 56% dos
bens exportados para os EUA).
Registe-se ainda a exportação de novos produtos
de Portugal para os EUA que, em 2011, representavam um peso de 26%: químicos, pastas e papel;
veículos e minerais.
O que significa que, apesar da alteração do paradigma dos bens exportados, muitos deles sofrem
ainda penalizações alfandegárias que prejudicam
as nossas exportações.
“As taxas alfandegárias, sendo eliminadas ou
atenuadas pelo Tratado em negociação, permitirão reforçar a competividade das exportações
portuguesas para os EUA com evidente vantagem
para as empresas nacionais permitindo até diluir
a desvantagem competitiva que se verifica
actualmente em resultado da excessiva valorização do euro face ao dólar.”
Estas taxas, sendo eliminadas ou atenuadas pelo
Tratado em negociação, permitirão reforçar a competividade das exportações portuguesas para os EUA
com evidente vantagem para as empresas nacionais
permitindo até diluir a desvantagem competitiva
que se verifica actualmente em resultado da excessiva valorização do euro face ao dólar.
Deixemos agora de lado os obstáculos pautais e
olhemos então para os obstáculos não-pautais.
Estes nem sempre são conhecidos, o que pode
causar alguma dificuldade.
Não está em causa, por exemplo, o problema do
dumping social que surge como entrave a uma efectiva liberalização do comércio internacional e que
têm sido suscitado no contexto das relações comerciais entre a União Europeia e alguns países asiáticos, em particular com a China.
Esse problema, felizmente, não se coloca nestas
negociações como aliás reconheceu recentemente
o Parlamento Europeu.
Mas há outros entraves não-pautais que subsistem
e que representam um obstáculo ao comércio internacional.
Esses obstáculos podem ser de diversa ordem.
Refiro-me, inter alia, a obstáculos legais ou regulamentares – face, por exemplo, a excessos ou insuficiências de intervenção regulatória relacionadas,
nomeadamente, com o comércio de serviços a
procedimentos aduaneiros, standards e normas técnicas ou sanitárias, restrições regulamentares ou
dificuldades no reconhecimento mútuo que operam
na retaguarda da fronteira.
“A redução de obstáculos não-pautais constituirá parte do sucesso da liberalização do comércio
em curso.”
A redução de obstáculos não-pautais constituirá,
por conseguinte, parte do sucesso da liberalização
do comércio em curso.
43
ECONOMIA
Alguns autores referem que a redução do custo
associado à burocracia e regulação pode significar
cerca de 80% dos ganhos totais com a liberalização do comércio internacional.
Aqui, a experiência europeia com a definição de
standards comuns, transversais aos Estados-membros,
pode ser decisiva para o sucesso do mercado em
formação.
Na verdade, a definição de standards operada a
nível europeu – supra-nacional – tem permitido
solucionar eventuais conflitos entre Estados.
Veja-se, a este propósito, a exigência de neutralidade associada à definição de especificações técnicas no contexto das directivas sobre contratação
pública.
Este exemplo pode ser aplicado, na prática, na
indústria automóvel.
Todos conhecemos os níveis de segurança exigidos
aos fabricantes de automóveis quer nos EUA quer
na UE.
Se, no final, os padrões de segurança são equivalentes, certo é que os standards não são comuns.
‘
Os contratos públicos equivalem,
na União Europeia, a cerca de 20% do PIB
e são responsáveis por cerca de 31 milhões
de empregos.
’
Há aqui, por conseguinte, um caminho a percorrer.
É certo que se tem procurado derrubar os obstáculos não-pautais existentes ao comércio internacional quer pela actuação de organizações
internacionais, como a Organização Mundial do
Comércio – através de acordos multilaterais como
o GATS ou o TRIPS ou de acordos plurilaterais como
o Acordo sobre Contratos Públicos – quer através
de acordos bilaterais celebrados directamente entre
Estados ou entre a União Europeia e outros
Estados.
É o que sucede, por exemplo, com diversos
acordos bilaterais celebrados entre a União
Europeia e países do leste da Europa ou do norte
de África.
A celebração de acordos bilaterais faz parte, aliás,
da actual estratégia comercial da União Europeia.
Tudo isto sem prejuízo de se considerar, como
reconheceu o Parlamento Europeu, que o desenvolvimento e o reforço do sistema multilateral é
um objectivo crucial.2
Na verdade, a conclusão de acordos bilaterais
deve concorrer para uma crescente harmonização
de padrões e uma mais ampla liberalização, que
favoreça o sistema de comércio multilateral.
“A supressão de obstáculos não-pautais será
um tema central das negociações.”
44
A supressão de obstáculos não-pautais será, consequentemente, um tema central das negociações.
Em alguns casos pode até estar em causa a negociação de matérias simultaneamente abrangidas por
acordos já celebrados pelos EUA e pela União
Europeia.
Vejamos, por exemplo, o caso dos contratos
públicos.
Os contratos públicos equivalem, na União Europeia,
a cerca de 20% do PIB e são responsáveis por cerca
de 31 milhões de empregos.
Já existe um acordo sobre contratos públicos em
vigor no contexto da OMC que, no entanto, é um
acordo plurilateral, assinado, até ao momento, por
apenas 43 Estados-membros da OMC, na sua esmagadora maioria países desenvolvidos.
Deste acordo fazem parte os EUA e a União Europeia.
Porém, uma vez que se trata de um acordo de
geometria variável – face ao conjunto de excepções
que o mesmo faculta aos Estados outorgantes –
tem-se verificado um efeito de encerramento dos
mercados públicos nos EUA decorrente, nomeadamente, do Buy American Act – que implica a preferência por PME's americanas – da circunstância de
algumas das entidades adjudicantes mais relevantes
nos EUA – como a Federal Aviation Agency – não
estarem abrangidas por aquele acordo ou de 13
dos 50 Estados norte-americanos não fazerem parte
do âmbito do acordo.
Consequentemente, apenas 32% (178bn) dos contratos públicos nos EUA estão abertos a empresas
europeias afectando, consequentemente, a possibilidade de empresas portuguesas ou da União
Europeia actuarem no sector das obras públicas ou
nos chamados sectores especiais (utilities) no caso de
entes públicos infra-estaduais.
O acordo sobre contratos públicos da OMC tem ficado, por isso, aquém do pretendido procurando-se,
através das negociações em curso, abrir efectivamente os contratos públicos nos EUA a empresas europeias
e vice-versa.
Aqui importará assegurar o acesso de pequenas e
médias empresas (PME's) a contratos públicos, algo
que deve preocupar os negociadores e que está em
linha com os projectos recentes de novas directivas
de contratação pública que visam promover a participação de PME's em contratos públicos.
As negociações irão seguramente tropeçar noutros pontos sensíveis no contexto do comércio
transatlântico.
Refiro-me, inter alia, aos seguintes aspectos em
particular:
i) Os transportes aéreos e marítimos, conhecendo
as restrições aos serviços de transportes marítimos e de transportes aéreos que são propriedade de empresas europeias, nomeadamente no
que diz respeito à propriedade estrangeira de
companhias aéreas e à reciprocidade na cabotagem, assim como ao controlo de carga marítima;
ii) A liberalização dos serviços financeiros, sem a
qual dificilmente se pode construir um verdadeiro mercado livre ou um mercado interno.
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
© EUROPEAN UNION, 2013
ECONOMIA
Conversa entre Herman van Rompuy, à direita, e José Manuel Durão Barroso. Alguns consideram que estas negociações
serão "as negociações do século".
Aqui, a União Europeia poderá contribuir com
a recente experiência da União Bancária e da
centralização dos processos de supervisão prudencial dos grandes bancos no BCE como ensaio
para a criação de um regulador financeiro
comum entre os EUA e a UE;
iii) As indicações geográficas, como exemplo de
protecção necessária a dar aos direitos de propriedade intelectual;
iv) As questões relacionadas com a segurança alimentar, em que deve ser salvaguardado, no caso
da UE, o princípio de precaução uma vez que,
como reconheceu o Parlamento Europeu, “as
percepções sobre organismos geneticamente modificados
(OGM), clonagem e saúde dos consumidores tendem a divergir entre os EUA e a UE” tendo sido historicamente discutidas no seio da OMC;
v) Os serviços culturais e audiovisuais, excluídos
das negociações, por decisão do Parlamento
Europeu, considerando o receio de que o acordo pusesse em risco a diversidade cultural e
linguística da União.
vi) A protecção dos dados pessoais, em que os pontos de vista americanos e europeus são diferentes,
devendo aqui recordar-se o Acordo Geral sobre
Comércio de Serviços (GATS) e as normas deste,
relativas à protecção de dados pessoais;
vii) Os direitos dos trabalhadores;
viii) Protecção ambiental;
Em todas as questões analisadas há diferentes
percepções entre os EUA e a União Europeia que
fazem antever algumas dificuldades de negociação.
“alguns consideram que estas serão as “negociações do
século”.”
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
“Todos estão conscientes que o aprofundamento das relações bilaterais transatlânticas é indispensável para sairmos da crise económica e
recolocar os EUA e a UE na liderança económica mundial, relançando o processo de liberalização do comércio mundial.”
Talvez por isso alguns consideram que estas serão
as “negociações do século”.
Porém, todos estão conscientes que o aprofundamento das relações bilaterais transatlânticas é
indispensável para sairmos da crise económica e
recolocar os EUA e a UE na liderança económica
mundial, relançando o processo de liberalização
do comércio mundial.
Trata-se de uma experiência singular.
Alguém disse que os tempos de crise são tempos
de oportunidade.
Caso este Tratado venha a ser aprovado também
nós, Portugueses, teremos uma oportunidade de
conquistar novos mercados que porventura pensávamos já conquistados.
Assim os saibamos aproveitar.
* Doutor em Direito. Professor Auxiliar da Faculdade de Direito da
Universidade de Lisboa.
O presente texto resulta da adaptação da intervenção efectuada no dia 8 de
Novembro de 2013 na conferência realizada no Centro Cultural de Belém,
organizada pelo Professor Vital Moreira, intitulada “O Tratado de Comércio
e Investimento EU-EUA: uma perspectiva Luso-Americana”.
1 Dados fornecidos pelo Center for Transatlantic Relations Johns
Hopkins University.
2 Cfr. Resolução sobre as negociações em matéria de
comércio e investimentos entre a UE e os Estados Unidos
da América.
45
ECONOMIA
A economia portuguesa
ao alcance de um clic
Contribuir para aumentar o conhecimento
que existe no estrangeiro sobre o País é o objectivo de Portugal Economy
– PE Probe, site em língua inglesa, nascido na sociedade civil.
A informação é um recurso estratégico
fundamental para qualquer tomada de
decisão, estando a eficácia do processo
dependente da qualidade da informação.
No mundo global e supranacional de hoje,
o futuro joga­‑se em decisões de indivíduos e instituições que, na maior parte
das vezes, não só não conhecemos, como
também mal nos conhecem.
A percepção que o investidor estrangeiro, a agência de rating, ou o comprador
de dívida pública têm do país num determinado momento corresponde efectivamente à realidade? Seguramente, nem
sempre, pois, para que isso acontecesse,
seria necessário que dispusessem da informação certa. Certa, no sentido da informação que importa e da fidedignidade da
sua origem.
Os avanços tecnológicos multiplicaram
à velocidade do instante a informação
actualmente ao nosso alcance, desde que
haja tempo e paciência para a procurar,
bem entendido. A grande dificuldade está,
portanto, não na falta, mas na dispersão
da informação. “Muitas vezes, os investidores e decisores internacionais não
obtêm a informação que necessitam
sobre Portugal, não porque ela não exista, mas porque nem sempre é fácil de
encontrar”, explicou o professor universitário, Miguel Athayde Marques, que
liderou a equipa que concretizou o
Portugal Economy – PE Probe.
Na origem do projecto está, assim, a
constatação do reduzido conhecimento
técnico que existe no estrangeiro sobre
Portugal e a sua economia, resultante da
dificuldade de aceder rapidamente e de
forma organizada a informação detalhada
e específica sobre o País, a sua economia
e a sociedade portuguesa no que respeita
os seus parâmetros fundamentais.
46
PE Probe é um site em língua inglesa,
com grande arrumação e variedade de
informação. Sendo uma iniciativa “para
inglês ver” no sentido literal do termo,
não podia nos seus propósitos estar mais
na antítese do significado da popular
expressão portuguesa. Com efeito, o site
visa combater um problema estrutural,
que é o da falta de conhecimento externo
sobre o País, disponibilizando a decisores
económicos e financeiros, políticos, jornalistas, líderes de opinião, académicos e
público em geral, estatísticas oficias, indicadores económicos e financeiros, relatórios e outros documentos relevantes sobre
Portugal, com origem em fontes oficiais
fidedignas, como o Instituto Nacional de
Estatística ( INE ) e a Agência para o
Investimento e o Comércio Externo de
Portugal (AICEP).
Com acesso gratuito, www.peprobe.com
apresenta­‑se num menu limpo, com a
atenção visual a recair num calendário de
factos e eventos. Documentos de referência sobre a economia portuguesa e uma
área noticiosa partilham o corpo da homepage, que destaca ainda uma zona de
livraria.
Toda a informação sobre a economia
portuguesa está agregada por áreas. Sete,
no total: Economic Outlook (Cenário
económico), Public Finance & Debt
(Finanças e Dívida Pública), Financial
Sector (Setor financeiro), Troika
Dashboard (Medidas da Troika), Capital
Markets (Mercado de Capitais), Business
(Negócios) e, por fim, People & Families
(Pessoas e Famílias). Primazia ainda dada
a informação relativa, por exemplo, ao
ensino, à investigação feita no País, ao
turismo e ao investimento.
O site pode igualmente ser seguido nas
redes sociais, estando preparado para res-
ponder em qualquer plataforma, seja ela
computador, tablet ou smartphone.
A criação deste canal na internet, com
informação concentrada e sistematizada
deve­‑se à iniciativa de sete instituições da
sociedade civil, preocupadas com o défice de conhecimento externo do país. Três
são Fundações – Gulbenkian, Luso­
‑Americana para o Desenvolvimento e
Oriente; duas são bancos ­– Caixa Geral de
Depósitos e Espírito Santo ­– e a respectiva a Associação Portuguesa de Bancos e
uma empresa privada, a Impresa.
‘
O site visa combater
um problema estrutural,
que é o da falta de
conhecimento externo
sobre o País.
’
O professor universitário, antigo presidente da Bolsa de Valores Lisboa, Miguel
Athayde Marques liderou a equipa que,
após nove meses de trabalho, deu vida ao
projecto, ao qual o Secretário de Estado
Adjunto do Primeiro­‑Ministro, Carlos
Moedas, garantiu a total colaboração da
administração e dos organismos públicos
no fornecimento de dados relevantes e a
Presidência da República aplaudiu e está
a patrocinar. Catarina Hall, gestora e formadora, dirige o projecto.
Aquando do lançamento, Miguel Athayde
Marques, falando em nome das sete entidades que apoiam esta iniciativa, sem fins
lucrativos, explicou que o Portugal
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
ECONOMIA
Economy – PE Probe “não é um site de
mercados”, não se substitui ao INE ou à
Pordata, sendo seu propósito combater a
percepção “muito deficiente” e “influenciada pelos media internacionais” sobre
a economia nacional.
De acordo. Não basta ser confiável e
cumpridor dos acordos para obter o reconhecimento dos mercados, é preciso ser
pró-activo, como agora se diz. A credibilidade constrói­‑se. E esta é uma excelente iniciativa nesse sentido.
A.R.
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
47
ECONOMIA
Inspirar a mudança
A Alma do Negócio
é uma importante acha para o empreendedorismo.
POR ALMERINDA ROMEIRA*
O empreendedorismo é a cada dia que passa
um tema mais falado, mais ouvido, mais
escrito, mais visto e mais debatido em
Portugal. Felizmente. Como escrevem Tiago
Gomes Sequeira e Alexandre Mendes, da
Factory, “o empreendedorismo apareceu,
então, como o remédio para todos os males,
dando esperança a toda a gente”. Acendeu
uma luz ao fundo do túnel. E embora não
seja a solução milagrosa para a crise económica e para o desemprego, a verdade é que
está a impulsionar Portugal para uma nova
atitude comportamental. Mais produtiva e
ganhadora. Empreender é, no limite, autoria.
Dizem os responsáveis da Factory: “Sermos
autores da nossa própria vida e treinarmos
o hábito de pensar, independentemente da
situação ou circunstância”.
A Alma do Negócio, primeiro livro comercial das Edições Sabedoria Alternativa,
um projecto de Sofia Ramos, ela própria
uma empreendedora, é uma importante
acha para esta dinâmica. Apoiado pela
Fundação Luso-Americana e mote para
um ciclo de debates sobre empreendedorismo, o livro apresenta uma visão
global do tema, assente em 28 textos,
escritos por 29 autores, em que cada um
aborda um aspecto particular da temática. O empreendedor de Silicon Valley,
pai do Lean Statup, Steve Blank, assina uma
valiosa introdução.
Entre os co-autores está o professor universitário e presidente para a Plataforma
do Empreendedorismo em Portugal, Dana
T. Redford. No início do novo milénio –
assinala ele – Portugal era o único país da
União Europeia que não tinha qualquer
oferta de educação sobre o tema nos níveis
básico e secundário. O primeiro curso foi
criado em 2005. O caminho é recente,
mas tem raiz. Justifica: “Muitos dos traços
e atributos necessários para a criação de
uma cultura empreendedora, como a iniciativa, a audácia e a criatividade, são
intrínsecos aos portugueses, com excepção
talvez da aptidão para correr riscos.”
Risco. Risco é aqui a palavra-chave. Uma
48
Capa de livro A Alma do Negócio.
O detonador é a vontade, a determinação de fazer acontecer.
espécie de bússola. “Um negócio sem riscos não existe”, declara o empresário
Miguel Monteiro.
Efectivamente, lançar uma nova empresa acarreta um elevado risco de insucesso,
o que limita, à partida, o universo do
quem quer. António Lucena de Faria,
CEO da Methodus, afina o perfil: “Um
empreendedor tem que ter uma vontade
forte, um grande espírito de sacrifício,
uma dedicação ao projecto que lhe permita trabalhar longas horas, resistir aos
momentos de desânimo e nunca esquecer
a visão que o levou a iniciar o caminho
do empreendedorismo”.
O detonador é a vontade, a determinação
Paralelo n.o 8
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ECONOMIA
‘
de fazer acontecer.
imprescindível para quem quiser
Um empreendedor tem que ter
A ideia é importante,
empreender em Portugal, dada a riqueza
sem dúvida, mas está
do seu conteúdo. Aos citados,
uma vontade forte, um grande espírito prática
longe de ser tudo.
juntam-se os contributos da Fundação
de sacrifício, uma dedicação ao
Todos temos ideias.
Kauffman (Bill Aulet e Fiona Murray),
Como diz o business
João Romão (Wishareit.com), Vasco
projecto que lhe permita trabalhar
angel, Paulo Andrez:
Pedro (Dezine), Ricardo de Melo
longas horas, resistir aos momentos
“Por dia podemos
Mesquita (Lets Bonus) Inês Silva (start
gerar uma, dez, vinte
up X), Rui Pereira (Outsystems), Miguel
de desânimo e nunca esquecer
ideias de negócio
Júdice (Thema Hotel & Resorts), Luís
a visão que o levou a iniciar
diferentes.” A fibra
Roquette Geraldes e Vasco Stillwell
empreendedora medeD’Andrade (advogados na MLGTS), Maria
o caminho do empreendedorismo.
Miguel Ferreira (Too Small To Fail) Pedro
-se, isso sim, na capaCarmo Oliveira (Entrepreneurs Break),
cidade para lhe dar
Miguel Calado (Eggnest) e João Fernandes
vida, para a concreti(programa +E+I).
zar. Descobrir a forma
Como qualquer história inspiradora da
de ganhar dinheiro
com a ideia - ou seja, saber como e a ensinamento mais valioso que retirou das mudança, pretende-se que a A Alma do
quem se vai vender o produto ou o ser- três empresas que fundou é a importância Negócio funcione como uma centelha. “O
que deve ser dada à descoberta do mode- livro tem um papel muito importante,
viço dela resultante.
“Encontrar uma necessidade e clientes lo de negócio. “Cabe a cada empreendedor porque é urgente transmitir informação
é onde tudo começa, no entanto, o ver- realizar uma verdadeira caça ao tesouro e conhecimentos úteis sobre o que é o
dadeiro desafio é conseguir atrair clien- que, tal como nos romances de aventura, empreendedorismo e sobre como se
tes pagantes de forma frequente e que apenas terminará com a chegada ao local podem criar novos negócios na situação
sejam leais”, considera o fundador da assinalado no mapa com um ‘x’ – o mode- económica actual”, sublinha Charles
Buchanan, administrador da Fundação
Beta-i, Pedro Rocha Vieira. O CEO do lo de negócio sustentável”.
Wygroup, Pedro Janela reafirma: “O foco
Barbara Beck de Lancastre, CEO dos Luso-Americana, que ambiciona ver criaé vender, vender, vender como se não Colégios O Parque, diz o mesmo por do um verdadeiro ecossistema nacional
houvesse amanhã. A preocupação de outras palavras: “O sonho do negócio de de apoio ao empreendedorismo em
quem empreende tem de ser esta: encon- sucesso só se torna realidade se for bem Portugal. Nas mãos temos o desafio de
trar clientes”. E se falhar? Falhar deve gerido e se for financeiramente viável.”
construir o futuro.
De leitura muito acessível, A Alma do
fazer parte da cultura de empreendedorismo. O conselho de Miguel Monteiro Negócio é um guia prático de leitura * Jornalista do OJE
aos jovens: “Errem, mas em pequena
escala e ainda com possibilidade de
mudar o rumo do projecto.”
PARA ALÉM DO LIVRO
Quando há pouco mais de uma década
João Trigo da Roza, presidente da
A Alma do Negócio
Associação Portuguesa de Business Angels,
era CEO da PTM.com e as primeiras startcomo plataforma de incentivo
-ups da economia digital começavam a
ao Empreendedorismo
aparecer, as fontes de financiamento eram
bastante escassas. “O meu primeiro contacto com formas de financiamento alternegócio e para quem quer ser empreen‑
O lançamento do livro A Alma do Negócio,
nativas foi em Harvard no ano de 2003,
dedor. O objectivo é incentivar o networking
com a participação de 29 autores e com o
no curso de Venture Capital e Private
e promover a criação de redes de contacto
apoio da Fundação Luso-Americana (FLAD),
Equity”, contou-me, recentemente. Hoje,
e de conhecimento, relevantes para o
reflectiu-se também numa oportunidade
“a realidade é bem diferente e, no nosso
sucesso profissional de cada um.
para promover o crescimento da comuni‑
ecossistema, começa a haver uma cadeia
Assumindo-se como um projecto integra‑
dade de empreendedores em Portugal.
de players capazes de suportar o desendo, A Alma do Negócio está acessível ao
O evento de apresentação deste Guia
volvimento das empresas ao longo do seu
público através do site – www.aalmado‑
motivou, desde logo, a realização de um
ciclo de vida. Carlos Silva, President & COO
negocio.pt –, uma ferramenta agregadora
conjunto de novos encontros dedicados
da plataforma de equity crowdfunding
de todas estas iniciativas realizadas e
à esfera empreendedora, abordando os
Seedrs, contabiliza o financiamento de 33
motor de divulgação do livro, através da
mais diferentes temas relacionados com
start-ups que, juntas, angariaram através
qual são disponibilizados conteúdos diver‑
a criação de novos negócios e com os
da Seedrs cerca de dois milhões de euros,
sificados e considerados relevantes para
desafios que se colocam a quem faz
nos primeiros catorze meses de operação.
o setor.
parte desta comunidade. Desde Setembro,
Portugal tem histórias fantásticas de
a FLAD tem sido palco de vários debates,
empreendedores que conquistam todos os
lançando questões de partida, decisivas
ANA MARIA SILVA
dias mercados locais e internacionais.
no processo de arrancar com um novo
LPM
Pedro Ludovice Ferreira, coordenador de
Design de A Alma do Negócio, conta que o
’
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
49
SOCIEDADE
Novos olhares sobre o Índio:
o cinema nativo-americano
contemporâneo
O cinema nativo-americano de ficção teve um forte impulso
na década de noventa.
POR JOANA RODRIGUES*
“It’s a good day to be indigenous”, diz­‑nos
o locutor da rádio KREZ no filme Smoke
Signals. E assim puderam dizer os autores do
primeiro filme inteiramente criado por
nativos americanos quando receberam o
“Audience Award” no respeitado Festival de
Sundance. Estávamos em 1998 quando o
escritor Spokane / Coeur d’Alene Sherman Alexie
e o realizador Cheyenne / Arapaho Chris Eyre
decidiram dar vida à história “This is What
it Means to Say Phoenix, Arizona” do livro
de contos The Lone­‑Ranger and Tonto Fistfight in
Heaven, escrito por Alexie em 1993. Através
do programa de incentivo à criação cinematográfica do Instituto de Sundance, os
autores viram a possibilidade de transmitir,
através de Smoke Signals, a sua visão do que
é a vida e a experiência de um nativo americano numa reserva no mundo contemporâneo. Mal sabiam eles que a sua obra
constituiria um ponto de viragem não só
para o cinema de ficção nativo­‑americano
– o filme ganhou vários prémios na circulação em festivais e a Miramax decidiu
Filmagem de 5th World (2005) de Blackhorse Lowe com os actores Liv'andrea Knoki e Sheldon Silentwalker.
50
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
SOCIEDADE
distribuí­‑lo – como para a reformulação
da imagem do índio, problemática inseparável de qualquer representação dos povos
nativos da América do Norte. São vários os
estudos, escritos e filmados, que perspectivam a maneira como os índios foram
mostrados nos westerns que Hollywood
difundiu a uma escala mundial ao longo
de várias décadas. Entre os questões apontadas nestas investigações, sobressaem as
histórias tendencialmente negativas na
abordagem das personagens nativas, os
erros na representação das tribos, dos seus
hábitos e línguas, a ausência de nativos
americanos nos castings para a representação
dos seus líderes e, sobretudo, a ideia de
que os nativos americanos estavam condenados à extinção, ao desaparecimento natural, à suplantação pelo Homem moderno,
evoluído.
O cinema nativo­‑americano de ficção
– aquele que é controlado criativamente
por nativos americanos – teve um forte
impulso na década de noventa, apesar de
tentativas desafiantes nos anos oitenta,
como é o caso do filme Harold of Orange
(1984) escrito por um veterano da literatura nativo­‑americana, o autor Anishinaabe
Gerald Vizenor. Este foi um cinema que
nasceu, sobretudo, da vontade de combater a superabundância de imagens vazias
e redutoras das culturas nativas. Assim,
cada filme que marcou o início deste cinema é comparável a um gesto de activismo,
e obras como Smoke Signals (1998) de Chris
Eyre ou, no campo das curtas­‑metragens,
Cow Tipping: The Militant Indian Waiter (1992)
de Randy Redroad, foram determinantes
para cimentar um discurso de resistência
que visava devolver aos nativos americanos
o espaço da auto­‑reinvenção.
“More pathetic than an indian on TV is
an indian watching an indian on TV”,
diz­‑nos Thomas­‑Builds­‑the­‑Fire enquanto
vê um western numa das cenas de Smoke
Signals, confirmando, com este comentário,
um dos principais traços de Sherman
Alexie enquanto escritor e argumentista:
a consciência do potencial da ironia como
alerta para a necessidade de transformações estruturais. Assim, em 2002, o contista decidiu escrever e realizar o filme The
Business of Fancydancing no qual transporta o
tom irónico e o registo da experiência
emocional nativo­‑americana para um nível
superior. Se Smoke Signals peca, segundo a
estudiosa Jacquelyn Kilpatrick, por não ser
suficientemente nativo­‑americano, ­–
supõe­‑se, em grande parte, pela estrutura
estandardizada de road movie que permite
um maior alcance de público – já o filme
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
Não existe apenas um olhar nativo-americano, mas sim vários olhares provenientes
de diferentes culturas nativas.
afirma a ensaísta Jana
Magdaleno Sequoya a relação seminal da identidade
Os autores viram a possibilidade
das tribos nativo­‑americanas
de transmitir, através de Smoke
com o seu homeplace. Desse
modo, tanto em 5th World
Signals, a sua visão do que é a
(2005) e Shimasani (2009) de
vida e a experiência de um nativo
Blackhorse Lowe, como em
americano numa reserva no mundo Four Sheets to the Wind (2005)
e Barking Water (2009) de
contemporâneo.
Sterlin Harjo, as narrativas
movem­‑se em torno da ideia
realizado por Alexie ensaia a construção de pertença a um espaço envolvente que
de raiz de uma nova imagem que nada é muitas vezes reflexo da paisagem intedeve ao índio transfigurado de Hollywood rior das personagens.
A acrescentar ao trabalho de Sterlin Harjo
a não ser pela contraposição de um retrato irreconhecível. O filme The Business of e Blackhorse Lowe, há o de vários realizaFancydancing representa, essencialmente, a dores como Nanobah Becker (Navajo),
abertura de novos caminhos de criação Randy Redroad (Cherokee), Shelley Niro
para autores contemporâneos, agora (Mohwak) que contribuem, também eles,
para o alargamento das perspectivas sobre
menos preocupados com o questionamento directo dos clichés e mais focados nas o que são, actualmente, as vivências nativo­
‑americanas. Assim, não existe apenas um
histórias que lhes interessam enquanto
olhar nativo­‑americano, mas sim vários
indivíduos. Blackhorse Lowe (Navajo) e
Sterlin Harjo (Seminole / Creek) são dois olhares provenientes de diferentes culturas
exemplos de realizadores emergentes que, nativas, e é exactamente essa variedade que
não obstante as filmografias ainda pouco enriquece e alarga os domínios nos quais
tem lugar a luta comum pela sobrevivência.
extensas, marcaram já a diferença pela
Nas palavras de Sterlin Harjo: “Our lanforma como fazem do cinema um espaço
de afirmação da sua expressividade sin- guages are dying and our numbers are
shrinking but we are still here and we can
gular, incontornavelmente influenciada
pelas culturas das quais provêm. Apesar still tell our stories. We survived, now take
das abordagens distintas enquanto criado- a peak and see what life is like.”.
res, ambos enfatizam, no seu trabalho, a
relação das histórias com o espaço no qual *Realizadora e especialista em cinema nativo-americano
acontecem, relembrando assim, como contemporâneo
‘
’
51
SOCIEDADE
Do princípio ao fim da estrada:
30 mil quilómetros a pedalar
no continente americano
POR MARINA ALMEIDA*
FOTOGRAFIAS DE IDÍLIO FREIRE
Durante um ano e três meses, mais precisamente 427 dias, dos quais 342 a pedalar,
Idílio Freire, português de 44 anos, percorreu 15 países de bicicleta a uma média de
15,4 quilómetros/hora. Uma experiência
extrema, de tempo e perseverança: pôs­‑se
à prova e superou­‑se, viveu cada dia intensamente, juntou à sua massa genética os
rostos, as vozes, os cheiros, as vidas de
centenas de pessoas com quem se cruzou.
A partir desta viagem nada mais será igual
na sua vida.
Foi um sonho que o levou a deixar a
sua vida rotineira casa­‑trabalho­‑casa e a
trocar o pib do país – Idílio é economista
no Instituto Nacional de Estatística e espe-
cialista em contas nacionais – pelos dias
sem rotina, em que pedalar “era como
respirar”. Escolheu começar em Inuvik,
no Canadá (a 24 de Julho de 2010), e
pedalou estrada fora ao longo de 30 002
quilómetros. Parou em Ushuaia, na
Argentina, a 9 de Setembro de 2011: a
estrada acabou.
Foi um sonho que o levou a deixar a sua vida rotineira casa-trabalho-casa e a trocar pelos dias sem rotina.
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SOCIEDADE
“A viagem começa onde começa a estrada e acaba onde acaba a estrada”, resume
numa simplicidade desarmante, já no
regresso a Lisboa, onde se desdobra em
palestras para olhos e ouvidos curiosos.
Di­‑lo como se fosse para todos amarfanhar
os objectos para 15 meses de vida em quatro alforges de bicicleta, uns 45 quilos.
Comida, roupa, ferramentas da bicicleta,
apetrechos de cozinha, primeiros­‑socorros,
tenda e saco-cama. Uma bolsa no guiador
com máquina fotográfica e os mapas. Numa
mochila, o computador, lanterna, canivete.
De alguma forma despejou o essencial do
T2 nos apêndices de uma vulgar bicicleta
todo­‑o­‑terreno (uma Scott Boulder) e partiu.
Não admira que diga a dada altura da entrevista – em que se recorda de cada pormenor daqueles 427 dias (repete aqui e além
o número mágico, 4­‑2­‑7) com os olhos, o
rosto, tudo a brilhar – que a bicicleta era
já o seu corpo. Seria, também, a sua casa.
Idílio Freire viajou sem gps, seguindo os
mapas de papel: pedalou cada quilómetro,
cada declive, cada placa com o nome da
terra, da maior à mais pequena. Diz que é
capaz de reconhecer pelo cheiro todos os
locais onde dormiu. Detém­‑se nas memórias, gesticula, conta histórias. Não se socorre muito dos milhares de fotografias que
tirou: tem­‑nas na cabeça. Assim como os
nomes de todas aquelas personagens. Como
Brian, um americano com quem partilhou
três semanas da viagem e que teve de
regressar a casa quando estavam no México.
Deixou­‑lhe o atrelado da bicicleta, no qual
Idílio rearrumou a casa, mandando os alforges de regresso a Lisboa.
Gravou a cultura dos povos na pele, não
tem más experiências para contar. Teve sorte.
Ou talvez aquilo que lhe disse o estranho
americano fantasma à beira da estrada seja
verdade: 98 por cento das pessoas do
mundo são boas. Se teve de recuperar a
bicicleta, foi ao mar. Estava ele em Buenos
Aires – cidade onde passou umas semanas
a “reaprender a andar” antes de voltar a
Lisboa. Andava a passear na praia, a maré
subiu e ele estava distraído. Lá se atirou às
águas e salvou­‑a. A bicicleta já tomava por
estes dias quase forma de gente, com vontade. Idílio ainda pensou em deixá­‑la ficar.
Mas não.
Ciclista e bicicleta aterraram em Lisboa a
24 de Setembro. O economista “dos números grandes” (como diz que dele dizem os
amigos) fez um balanço da sua viagem de
números pequenos: em média percorreu
87,7 quilómetros por dia à razão de 15,4
por hora, atingiu uma velocidade máxima
de 84 quilómetros/hora. Pedalou durante
1943 horas, teve 38 furos, comprou 12
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Idílio Freire, português de 44 anos, percorreu 15 países de bicicleta
a uma média de 15,4 quilómetros/hora.
Teve sorte. Ou talvez aquilo que lhe disse o estranho americano fantasma à beira da estrada
seja verdade: 98% das pessoas do mundo são boas.
pneus, substituiu 10 raios. Gastou “entre
20 e 21 mil euros”, amealhados a partir do
momento em que começou a sonhar mais
a sério.
Mas as grandes contas desta aventura fê­‑las
sozinho, em cima da bicicleta – a que passou a chamar Dempster, depois de uma aven-
tura renhida que o pôs à prova logo no
início da epopeia, na Dempster Highway,
no Canadá. O deve e haver salda­‑se numa
factura intangível: “Felicidade constante ao
longo de 427 dias.”
*Jornalista do DN
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SOCIEDADE
Inclusão social
de crianças e jovens:
um dia de (Des)Encontro
O objectivo era simples: chamar a atenção para o skate e para outras linguagens
alternativas como o surf, o snowboard, as artes circenses, o hip-hop, o rock, o graffiti
ou a vela, enquanto veículos quase natutrais para a intervenção social junto de crianças
e jovens em risco. A Skape, com o apoio da FLAD, reuniu na Casa Independente,
ao Largo do Intendente, vários projectos e uma nova geração de empreendedores sociais
que, diariamente, intervêm junto de vidas desencontradas.
POR CLÁUDIA HENRIQUES*
Num dia de Outono, a manhã rompeu
com um sol radioso.”Que sol de ideias
que aí está!”, diz João Menezes da Skape,
enquanto olha para o Largo do Intendente
através das velhas portadas do salão da
Casa Independente que, ainda há pouco
tempo, e depois de muitas outras vidas,
era salão de baile da Casa da Comarca de
Figueiró dos Vinhos. O cenário parece
improvável para uma conferência. Há um
palco, mas é ao nível da assistência que
os oradores falarão. “Nada de desníveis
entre quem fala e quem ouve”,
alerta João Menezes, enquanto
arruma a sala. As cadeiras dos
oradores pouco diferem das da
plateia. Um sofá já puído e com
as molas soltas, disfarçado por
dois velhos cadeirões almofadados, compõe o espaço. O
restante mobiliário parece também respirar o espírito de ruptura
da conferência: cadeiras vintage e
bancos corridos, desirmanados
entre si, dispostos à medida que
vão sendo encontrados pelo amplo
espaço da Casa Independente. As paredes do salão estão em ruína anunciada, e até uma
cadeira de dentista serve de bengaleiro
improvisado. Por detrás dos oradores, no
palco que nunca será utilizado – “o palco
gera distâncias que não queremos”, insiste João –, há uma imagem enorme de
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um tigre, herança das noites dançantes,
que desarma qualquer ideia de encontro
formal.
“MAS QUAL NORMALIDADE?”
Parecia um encontro de amigos, daqueles
em que se estabelecem pontes para o futuro, e nos quais todos os pontos de vista
são bem-vindos. Em nome da FLAD ,
Charles Buchanan deixa claro que sem
apoios e iniciativas institucionais, sem
uma
rede de contactos coesa e transversal na sociedade, os casos de
sucesso entre as crianças e
jovens em risco serão diminutos. O conceito de
empreendedorismo social,
diz o administrador da FLAD,
“abre consciências e permite
que os sonhos e ambições mais
impensáveis se realizem”.
Quando se pensa em inclusão
social de crianças e jovens em risco,
a pergunta parece quase inevitável,
diz João Menezes: “Como é possível
sobreviverem?”. Tantas vezes a ouviu em
tom fatalista, que a resposta é também
uma pergunta, mas cheia de possibilidades: “E porque não?”. A experiência com
jovens skaters tem-lhe mostrado que, pela
sua vertente lúdica, altruísta, idealista e
identitária, os desportos de acção podem
gerar igualdade de oportunidades, uma
atitude positiva perante a vida, e verdadeiras histórias de sucesso.
“Este (Des)Encontro tem desde já uma
vantagem: os espartilhos institucionais ficaram lá fora”, diz descontraidamente Pedro
Calado, director executivo do Programa
Escolhas. Ao papel de orador institucional,
Pedro Calado prefere o desfiar de memórias
da sua adolescência na Margem Sul, onde o
espaço de vivência privilegiado era uma
banda de garagem, simultaneamente “território de risco assumido e partilhado por
um grupo de jovens, mas também espaço
de pertença e de protecção como nenhum
outro”. Ao recuar ao início do Programa
Escolhas, em 2001, recorda uma das primeiras imagens que reteve numa visita a um
bairro social: a de vários jovens encostados
aos muros, sem ocupação, uma espécie de
eternos “jovens reformados”. Num mundo
não asséptico e diverso, o risco é tão ou
mais natural do que a pretensa normalidade
dos dias, insiste Pedro Calado, e deixa o
alerta: “Achamos sempre que funcionamos
na normalidade ou na anormalidade, quando o normal é o desvio”.
VIDAS (DES)ALINHADAS
A experiência no terreno, como a que Sara
Almeida ( TESE – Associação para o
Desenvolvimento) relata, de inclusão
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SOCIEDADE
socioprofissional de jovens em
bairros problemáticos de
Cascais, ajuda a desconstruir
preconceitos e “a ver a
realidade de forma
descompassada”,
desprovida de
rótulos e impossibilidades.
É assim que
Filipa Silva, do
Chapitô, também
se autodescreve:
“uma técnica do terreno”. Filipa trabalha em centros educativos tutelados pelo Estado há
oito anos. No início era a licenciatura em
Política Social, mas agora o que a move é
um projecto de vida maior que passa pelo
trabalho com jovens entremuros. “Um
gabinete climatizado seria um modo de
vida mais cómodo, mas não me daria
tanto gozo”, sorri, ainda que o prazer seja
contrabalançado, ou mesmo questionado,
pelo prisma do preconceito. Levar as artes
circenses, o break dance ou o rap para os
centros onde estão internados jovens aos
quais foram imputados crimes nem sempre é bem visto. Como explica Filipa, “é
uma batalha diária não sermos vistos
como palhaços ou freaks sem utilidade”.
Mobilizar e multiplicar a adesão é o
grande objectivo de qualquer programa
de empreendedorismo social. Na
Entremundos, o processo de implementação de um negócio social junto dos
jovens e população activa desempregada
do Casalinho da Ajuda só foi viável
depois dos técnicos conhecerem a dinâmica do bairro em profundidade. À descoberta de uma oficina desactivada no
bairro, somou-se a formação em carpintaria de alguns dos moradores e a parceria estratégica com o Náutico Clube Boa
Esperança, junto ao Cais do Sodré. Ana
Sofia Proença, técnica da Entremundos,
explica como a partir das sinergias criadas
e do conhecimento do meio a sua associação implementou um projecto participado e economicamente viável de
construção de embarcações. Este é,
para Frederico Cruzeiro Costa, fundador da Social Entrepreneur
Agency (SEA) um dos pontos fundamentais de qualquer projecto
desta natureza: a sustentabilidade.
Para Frederico, a ideia de que o
empreendedorismo pode funcionar com base no voluntariado, no
amadorismo e com magros recursos é falsa e tem que ser abandonada. “Qualquer dedicação à
comunidade só será viável se souParalelo n.o 8
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bermos vender serviços no mercado, de
forma a agilizarmos financeiramente o
projecto social e garantirmos a nossa
própria sustentabilidade financeira”, conclui Frederico.
curso e a explicação de que também eles,
vindos das áreas da Economia e da
Gestão, se sentiam deslocados até iniciarem este projecto. Rompendo com os
desencontros, e acreditando que com a
atitude certa todos
podem descobrir dentro de si o seu “super­
‑poder”, Diogo e
Manuel apostam na
O conceito de empreendedorismo
mobilização de mensocial “abre consciências e permite
tores que, nas mais
variadas áreas, vão
que os sonhos e ambições mais
“contaminar” jovens
impensáveis se realizem”.
tocados pelos mesmos
interesses.
Charles Buchanan
A atitude parece
gerar atitude. Ao longo
da sessão, o público
Na base da intervenção
transfigurou-se, bateu
social junto de crianças
palmas, e mimetizou os
e jovens encontram-se,
“Transformers” em jogos
frequentemente, situalúdicos que a apresentações de insucesso escoção inicial não fazia prever.
lar. O “Projecto para ti se
Manuel Oliveira, psicólogo
não faltares” da Fundação
e fundador do Clube do
Benfica, em parceria com as
Optimismo, vê na atitude a alaescolas, combate o absentismo
vanca primordial de qualquer
e o abandono escolar, promoprojecto de vida: “qualquer problevendo a prática de modalidades
ma que vos surja na vida só é resoldesportivas como o futebol, o voleivido com uma postura optimista”.
bol ou o atletismo, e premiando os alunos que se esforçam na melhoria da sua
assiduidade, comportamento e aproveiNA AMÉRICA COMO EM PORTUGAL
tamento escolares. Em diálogo com a
Steve Larosiliere, do projecto “Stroked”,
plateia, Jorge Miranda, responsável por
não conhecia o “Surf.art” de Paulo Canas
este projecto, garante: “quando estabee Nuno Fazenda. Mas na distância que
lecemos um compromisso com um desvai de Cascais a Nova Iorque encontram
tes jovens é uma vitória, porque quem
uma linguagem comum e transfronteivive em exclusão não vive em contrato
riça, que vive das potencialidades dos
social”.
desportos de acção na promoção do
bem estar social dos jovens. A prática
de desportos radicais, constitui nas palaUMA QUESTÃO DE ATITUDE
vras dos mentores dos dois projectos,
Diogo Silva e Manuel Lamas ou, melhor, uma metáfora perfeira da vida. Afinal,
os “Transformers”, chegaram à Casa
como repete Steve, “não existem venIndependente com uma formalicedores nem vencidos, mas a convicção
dade suspeita. Com blazers e
de que há sempre a possibilidade de
gravatas de ocasião, a maior
tentar e de melhorar, com criatividade,
dissonância estava nos ténis. se cairmos”.
A apresentação começou rígiNo encerramento deste (Des)Encontro,
da, sem qualquer rasgo criao juiz Armando Leandro, da Comissão
tivo, e demasiado palavrosa. Nacional de Protecção de Crianças e
Quando no ecrã surge a
Jovens em Risco, regressa à metáfora do
expressão “Nós não pescaskate como: “O skate e os outros desmos nada disto!”, os
portos e motivações hoje apresentados
“Transformers” fazem eles
permitem dar o salto para a vida, na
próprios a sua desconstrucerteza que nós, sociedade, também
ção, e apresentam-se à
temos de aprender a fazer skate e a fazer
plateia de calções e t-shirt. das crianças e dos jovens sujeitos do seu
Com a transformação físipróprio destino”.
ca vem também a
* Jornalista freelancer
mudança de dis-
‘
’
55
SOCIEDADE
Aman Ali
O muçulmano americano
POR SOFIA BRANCO*
“A vida de um muçulmano é muito semelhante à de qualquer outra pessoa, enfrentamos os mesmos problemas."
O melhor antídoto, contra tudo, é o
humor. Aman Ali acredita piamente nisto,
como muçulmano crente, mas moderno,
urbano, cosmopolita, americano dos quatro costados, que escolhe amigos entre
quem joga melhor basquetebol e não entre
quem mais reza a Alá.
Aman Ali, comediante, argumentista e
contador de histórias, esteve recentemente em Portugal (ver caixa) para narrar as
peripécias do projeto-viagem “30 Mosques
in 30 States”, que o levou, juntamente com
o fotógrafo e realizador Bassam Tariq, a
visitar 30 mesquitas em 30 estados dos
EUA, no Ramadão de 2011 (http://
www.30mosques.com). Cinquenta mil
quilómetros depois, do Alasca a Nova
56
Iorque, o projecto de fazer “um retrato
honesto”, com contar “coisas boas e coisas más”, da comunidade muçulmana
tornou-se viral.
Guiaram seis a doze horas por dia e
nunca precisaram de ficar em hotéis, porque as pessoas lhes abriram a porta de
casa. Viram (e contaram) um pouco de
tudo. Descobriram que a primeira mesquita dos Estados Unidos foi construída
em Ross, uma terra com cinquenta habitantes em Dakota do Norte e que o estado de Montana é o único sem uma
mesquita, apesar da comunidade que ali
vive há trinta anos.
A meio, a organização que se comprometera com o financiamento do projecto
cancelou-o e os autores recorreram, em
desespero, ao Facebook e ao Twitter, angariando quatro mil euros em menos de dois
dias.
O ponto de partida para a “ideia maluca”,
sobre a qual tem sido convidado a falar em
todo o mundo, foi o contraste entre a realidade e a narrativa mediática. “Apercebi-me
de que o que via na televisão não era o
mesmo do que o que via na realidade. Um
tipo na Flórida ameaça queimar o Alcorão,
o livro sagrado dos muçulmanos, dizendo
que não gosta do Islão (…) e depois descobrimos que apenas vinte pessoas vão à
sua igreja, mas, se virmos televisão, pensamos que o tipo deve ser poderoso e influente”, exemplificou, em conversa com a
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SOCIEDADE
‘
Nos Estados Unidos, “a
maioria” dos muçulmanos
“são americanos que
também são muçulmanos
e não muçulmanos
Aman Ali
americanos”.
’
PARALELO, no final de uma sessão com
estudantes na Universidade Nova de Lisboa.
Apontando o dedo à comunicação social
e à política pela construção de uma “narrativa” que “vê os muçulmanos como
vilões”, Aman Ali, nascido e criado nos
Estados Unidos, numa família de origem
indiana e muçulmana, considera que “a
perseguição e a discriminação resultam da
falta de conhecimento” sobre uma comunidade com “pessoas muito religiosas, mas
também liberais e moderadas”.
Criticando os estereótipos acerca dos
muçulmanos “devotos, religiosos, rígidos”,
Aman Ali contrapõe: “Como é que se parece um muçulmano, é médico, taxista, farmacêutico, alguém lá da escola? Não há
um perfil comum. Eu sou muçulmano e
não passo a vida a dizê-lo às pessoas.”
Não há uma história comum, os muçulmanos chegam aos EUA por razões diferentes e vindos de contextos diferentes.
Relata histórias de muçulmanos que trabalham nos casinos de Las Vegas porque
precisam do emprego e do dinheiro, apesar de o Islão não autorizar o jogo, e que
vendem porco para garantir a sobrevivência das suas mercearias.
“Não há um muçulmano comum, como
não há um católico ou cristão ou judeu
comum”, diz, observando: “A vida de um
muçulmano é muito semelhante à de qualquer outra pessoa, enfrentamos os mesmos
problemas, não conseguir pagar a renda
do apartamento, uma ex-namorada a chatear, como conseguir uma boa educação
e um bom emprego.”
No mundo mediático, “quem grita mais
alto é quem atrai mais as câmaras”, independentemente de também estar disposto a ouvir. Mas, reconhece, “é fácil culpar
a comunicação social” e, por isso, é preciso dizer que a comunidade muçulmana
também tem “um problema”. Afinal, onde
estão “as vozes muçulmanas, que falem
alto de paz e tolerância?”, questionou,
para propor: “Temos de melhorar a comunicação.”
Ao mesmo tempo, “não só os não muçulmanos devem visitar mesquitas, como os
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“Temos orgulho na nossa fé e religião, mas não andamos a pregar,
não estamos aqui para converter ninguém."
muçulmanos devem visitar igrejas, sinagogas,
templos”, em resumo saírem da “bolha” e
travarem conhecimento com os outros.
Aman Ali assume a dificuldade de pertencer, quando se nasce nos Estados Unidos
mas se tem origens indianas e muçulmanas, mas vê nisso “uma vantagem” para o
humor que faz e com o qual “qualquer
miúdo muçulmano” se pode identificar e
saber que “não está sozinho”.
Durante a viagem que efectuou pelos
Estados Unidos, Aman Ali surpreendeu-se
com “o passado muçulmano” do país,
desconhecido dos próprios muçulmanos.
Dez por cento da população do país professa o Islão e os muçulmanos estão em
todos os estados. Só num raio de cinco
quilómetros em Nova Iorque encontram-se 135 mesquitas.
“Como podemos esperar que os americanos saibam, se nós próprios não sabemos
a nossa história? Muitos miúdos que cresceram na América, como eu, sentem que
não pertencem. É por isso que é importante saber a História, porque finalmente
nos sentimos em casa”, explica.
Nos Estados Unidos, “a maioria” dos
muçulmanos “são americanos que também
são muçulmanos e não muçulmanos americanos”, distingue. “Temos orgulho na
nossa fé e religião, mas não andamos a
pregar, não estamos aqui para converter
ninguém. Para seres meu amigo, não tens
de ser muçulmano, tens é de ser fantástico em basquetebol, não me faças perder
quando te passo a bola, é tudo o que me
interessa”, brinca.
Há uma linha que Aman Ali não atravessa:
Aman Ali veio a Portugal a convite da
Embaixada dos Estados Unidos e, duran‑
te uma semana, realizou várias sessões
em universidades de Lisboa, Porto e
Braga, e visitou locais religiosos muçul‑
manos, nomeadamente a Mesquita Central
e o Centro Ismaelita de Lisboa.
não goza com a religião, seja o Islão, ou
outra qualquer. “As pessoas são orgulhosas
da sua fé e isso é bonito. Por que haveria
de gozar com isso? Não estou a tentar alienar as pessoas, ou chateá-las, quero fazê-las
felizes”, justifica, comentando o polémico
caso dos cartoons do profeta Maomé, que,
garante, “adorava piadas”.
Os líderes de todo o mundo, e não só os
muçulmanos, “estão a perder o contacto”
com os cidadãos, porque “o poder corrompe”, analisa, confessando ter-se entusiasmado com as primaveras árabes, mas
entretanto desiludido com “os retrocessos”.
“Belas mudanças aconteceram no Egito,
mas olha o que está a acontecer agora. Essa
é a minha hesitação… Mas a ideia de as
pessoas se levantarem e terem uma voz…
foi lindo”, diz, realçando o poder das redes
sociais para darem “voz a quem não a
tinha”.
Aman Ali segue a máxima “come as you
are to islam as it is” e é isso que quer:
“dar voz aos sem voz”. E aproveitar para
mostrar às crianças que não é por serem
muçulmanas que não “podem sonhar”.
* Jornalista da LUSA
57
CULTURA
O americano
que salvava europeus
Muitos livros sobre as perseguições nazis ignoram Varian Fry.
Mas sem a acção deste na Europa de 1940-41 as carreiras ou as vidas de numerosos
escritores, artistas e intelectuais europeus teriam terminado nesse começo de década.
POR FRANCISCO BELARD
André Breton, Hannah Arendt, Max Ernst,
Chagall, Döblin, Duchamp, Meyerhof,
Koestler, Feuchtwanger, Max Ophuls,
Jacques Lipchitz e Franz Werfel são apenas
alguns dos mais notórios entre os milhares (de várias nacionalidades, crenças e
ideologias) que Fry ajudou a escapar –
frequentemente com escala em Lisboa – da
Europa ocupada pelo III Reich. Nessa operação também foi apoiada a viagem de
França para Lisboa da norte-americana
Marguerite (mais conhecida por Peggy)
Guggenheim, personalidade “rich and
famous”, o que não ocorria com a maior
parte dos que procuravam sair da Europa.
Instruída pela rede de Fry sobre o que
devia dizer às autoridades policiais e alfandegárias (por exemplo, não se declarar
judia, mas sim cidadã americana), era
acompanhada por Ernst e amigos comuns.
Nascido a 15-10-1907, Varian Fry estudara em Harvard, era jornalista e colaborava em revistas culturais e políticas.
Podia ter tido uma vida tranquila nos
EUA, que só em Dezembro de 1941
(após o ataque japonês a Pearl Harbor)
entrariam na II Guerra Mundial, conflito até então sobretudo europeu. Em
1935, uma viagem a Berlim fê-lo verificar a violência contra os judeus. Ao
voltar a Nova Iorque procurou alertar,
no New York Times, quanto ao que se passava no Reich. Em Junho de 1940, quando a França capitulou, fundara-se em
Nova Iorque o Emergency Rescue
Committee, por iniciativa de intelectuais
como o psicanalista Paul Hagen (socialista austríaco que em Maio chamara a
atenção para a lista nazi de “inimigos
do Reich”) com o apoio de Eleanor
Roosevelt. Sabia­‑se que os judeus,
mesmo sem actividade política, eram
“inimigos”, mas não se adivinhava a
dimensão do que se chamaria Shoah ou
58
Varian Fry salvou muitos da perseguição nazi.
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CULTURA
Holocausto; assim, o comité elaborou
Europa fez dele um discreto herói ameuma lista de cerca de 200 pessoas, não ricano e um notável herói do nosso
limitada a “israelitas”na terminologia tempo. Apesar do seu nome pouco
então corrente (“Juden” para os alecomum, Varian Fry ficou a ser um dos
mães), tendo em vista escritores, artistas, mais ilustres desconhecidos da época.
políticos, cientistas e outros refugiados Com efémero apoio consular, coordenou
na zona não ocupada da França, aprouma singular operação de busca e salvaveitando quanto possível a neutralidade mento de milhares de pessoas que tendos EUA nessa fase. Fry aceita ser envia- tavam sair dos países ocupados pelo
do a França, estabelecendo-se no Sul
Reich ou vassalos deste, e cuja rota se
com outros voluntários cuja missão é dirigia geralmente aos EUA. A neutraliajudar, por meios mais ou menos legais, dade permitia uma margem de manobra,
os que precisam de abandonar a França mas com riscos, mesmo pessoais; os
de Vichy e a Europa, em direcção à objectivos desafiavam os critérios do
América ou outros destinos. Para muitos, Reich e do regime de Pétain. Em Sanary-­
o trajecto passa pela Espanha (neutral, ‑sur-Mer, Nice e outros locais não muito
mas politicamente próxima do Eixo
distantes do porto de Marselha tinham-se
italo-alemão) até que, em Lisboa, em concentrado artistas e intelectuais franligação com o Unitarian Service ceses, alemães, “apátridas” e oriundos da
Committee, possam embarcar em navios Europa Central e de Leste, sonhando com
ou aviões para países onde fiquem a o outro lado do Atlântico. O seu elenco,
salvo (e que os aceitem,
o que nem sempre
acontece). O reconhecimento de passaportes,
a emissão de vistos e a
Em 1967, meses antes de morrer,
obtenção de bilhetes
recebeu a Legião de Honra
não são sempre fáceis
nem céleres, além dos
por iniciativa de Stéphane Hessel;
obstáculos que a ditaem 1995, postumamente,
dura põe, sob critérios
variáveis, à entrada de
foi recordado no memorial de Yad
gente que considere
Vashem, sendo o primeiro cidadão
indesejável. A cidade
não é totalmente seguamericano a figurar entre os
ra para os que conse“Righteous among the Nations”.
guem lá chegar (em
Setembro de 1941,
Berthold Jacob é raptado em Lisboa pela
Gestapo, com apoio
plausível de agentes da PVDE; morrerá entre 1933 e 1940, parece um capítulo
na Alemanha em 1944). Mas a capital
da história cultural europeia; vemos, além
portuguesa é, por mar e ar, a única saída dos já mencionados, nomes como Aldous
– ou a “última fronteira” na parte oci- Huxley, Kantorowicz, a família Mann,
dental da Europa. A cidade que a National René Schickele, Joseph Roth. Alguns morGeographic Magazine de Agosto de 1941 rem de doença ou acidente antes de qualdesignara como ‘Lisbon – Gateway to quer travessia geográfica. Thomas Mann
Warring Europe’, é também o local de partira cedo para os EUA e por sorte seria
saída, iluminado à noite ao contrário de dissuadido de voltar à Alemanha. Stefan
cidades europeias que o risco de bom- Zweig, após estadias em Inglaterra e em
bardeamentos obriga à escuridão, o que
Nova Iorque, fixou-se no Brasil, onde se
levará Arthur Koestler (refugiado que a suicidou em 1942. Muitos partiram em
custo será acolhido em Londres após navios ou passaram a fronteira com a
uma fuga também com escala entre nós) Espanha, em direcção a Lisboa. Nem
a escrever, referindo-se a Portugal: “This todos conseguiram os papéis que lhes
was Neutralia, the land without blackout”.
permitiriam escapar ao inferno. Mas boa
Foi no intervalo neutral entre 14-08-­ parte dos que sobreviveram deve-o a Fry
‑1940 e 6-09-1941, que do ponto de e ao seu grupo. O que é mais intrigante,
vista actual parece breve mas para os ao avaliarmos hoje essa missão, não é
protagonistas da época terá parecido apenas que se tenham salvo tantas vidas;
interminável, que a acção de Fry na outros (poucos) o fizeram então. É que,
‘
’
Paralelo n.o 8
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O contributo de Varian Fry para a fuga desses
membros da intelligentsia europeia e suas
famílias é inestimável.
sabendo embora que cada vida é única
e irrepetível, ela foi decisiva para salvar
dos campos de concentração ou de extermínio muitos cujas biografias, que hoje
podemos ler, ultrapassaram os anos fatídicos sem que o nome do seu principal
salvador fosse conhecido e celebrado. O
contributo de Varian Fry para a fuga desses membros da intelligentsia europeia e
suas famílias (nem todos judeus e nem
todos célebres, mas alvos predilectos do
nazismo) é inestimável. Sofreu por não
ter conseguido ajudar muitos outros. Mas
a lista assumida como prioritária foi largamente ultrapassada pelo número dos
que protegeu e salvou. A missão em
Marselha (abruptamente terminada, por
pressões políticas) e, regressado ao seu
país, as críticas que faria à política de
imigração não o ajudaram na fase “maccarthysta” dos anos 50. Coube-lhe experimentar uma peculiar condição de
refugiado. Em 1967, meses antes de morrer, recebeu a Legião de Honra por iniciativa de Stéphane Hessel; em 1995,
postumamente, foi recordado no memorial de Yad Vashem, sendo o primeiro
cidadão americano a figurar entre os
“Righteous among the Nations”.
* Jornalista freelancer
59
CULTURA
A Biblioteca do Congresso
No centenário do nascimento de Raul Rego, (1913-2013)
homem de letras, jornalista e resistente à ditadura, divulgamos esta sua crónica,
sobre a Biblioteca do Congresso em Washington DC, publicada inicialmente
no Jornal do Comércio.
POR RAUL REGO
livro raro à venda, lá estão os agentes desses imensos armazéns de sabedoria concentrada a verificar o estado da raridade e
a fazerem a sua oferta. “Não se encontra
na Biblioteca do Congresso” é o atestado
de raridade que os bibliófilos passam aos
volumes que mais estimam e mostram às
visitas do seu pequeno mundo. Visitando
o Capitólio e saindo pelas traseiras, a
Biblioteca do Congresso fica-nos à direita,
a cem metros, mas não a vemos imediatamente. Está num tufo de arvoredo, como
todos os edifícios anexos ao Congresso e
ao Supremo Tribunal. De arquitectura nada
simples e de não muito bom gosto. Parece
ter sido escolhido por novo-rico na intenRUI OCHOA
Nunca se fala de livros que a Biblioteca
do Congresso não acuda ao pensamento.
Os Anglo-Saxões concentraram os dois
maiores centros de livros do Mundo – o
British Museum e a Biblioteca do
Congresso. Com toda a fama de materialismo que os cerca, não descuram as coisas do espírito. Onde quer que apareça
Chama-se Biblioteca do Congresso e como tal começou, tendo sido criada para serviço dos legisladores americanos em 1800.
60
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CULTURA
‘
“Não se encontra na Biblioteca do Congresso”
é o atestado de raridade que os bibliófilos
passam aos volumes que mais estimam
e mostram às visitas do seu pequeno mundo.
ção de causar espanto ao vizinho; com as
suas colunas atarracadas e varandas acanhadas, era um arquitecto de alma pequena quem o concebeu. A Renascença
Francesa não deu aqui o seu melhor.
Dá-nos, de fora, a impressão de ser um
edifício sem luz, a despeito das janelas
abertas na frontaria. Frontaria cheia de
acanhamentos, nem sequer as duas escadarias que dão acesso à entrada principal
lhe dão nobreza e à-vontade. Entramos, e
é uma floresta de colunas e colunelos,
arcos e arcarias, onde se não distingue o
dedo de gigante que lhes imprima unidade e harmonia. O salão e escadaria de
entrada não desdizem da frontaria. Só os
medalhões e mosaicos lhes dão vida e uma
certa beleza.
A todos os cantos se nos deparam mostruários com documentos e volumes
diversos, reclamos a exposições da
Biblioteca. Os lanços da escadaria nobre
sobem, pesadões até ao primeiro andar,
em toda a volta corre uma balaustrada e
uma colunata rica, mas pouco elegante.
Os mármores e aplicações de bronze
multiplicam-se, bem como os dourados,
mas o espectador permanece frio, indiferente. Nada toca a nossa sensibilidade.
Faltou, como em toda a construção, a
chispa que ilumina e incendeia o espírito.
Enquanto esperamos, por termos chegado
antes da hora que nos havia sido marcada,
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’
continuamos a ver as mesas-mostruários.
Representam por si sós um atractivo e a
melhor das propagandas do livro e a sua
conservação. Não há luxos nem apresentações. A falta de luxo é, aliás, uma das
características que observamos em toda a
vida americana; procura-se é o útil, o confortável, o cómodo, o prático.
Um elevador leva-nos à secção hispânica, onde espera por nós o Dr. Francisco
Aguilera que nos acompanhará nesta
rápida visita à Biblioteca do Congresso.
Em sua companhia enfronhámo-nos nos
corredores enormes e bem esclarecidos
do edifício, percorremos estantes de literatura e história portuguesas e espanholas;
estendemos a mão aqui e sai-nos a primeira edição do De Rebus Emmnuelis Gestis de
D. Jerónimo Osório. Mesmo ao lado, a
mesma obra em formato menor. É uma
edição de Colónia, de 1574, de que por
acaso conhecêramos um exemplar e que
nunca vimos mencionada em bibliografias,
nem dela faz menção Aubrey Bell na biografia do Bispo de Silves. Como se sabe,
a primeira in folio e impressa em Lisboa
em 1571. Aqui e além, entre os livros,
vemos tacos de madeira com a “lombada”
escrita. Ocupam o lugar de obras que se
encontram nos reservados. Onde quer que
estendamos a mão, arrancamos preciosidades que fariam o orgulho de bibliotecas.
Perguntamos pela traça, essa visita incó-
moda de todas as livrarias e bibliotecas.
Não há traça aqui. Todo o livro que entra
é cuidadosamente desinfectado, antes de
ir ocupar o lugar que lhe compete na fila
dos seus pares. Não há traça, mas todas as
medidas se tomam como se houvesse e
fosse preciso evitar a sua propagação. As
estantes são feitas de barriguinhas de aço.
São como grelhas sobrepostas umas às
outras. No solo, a ligação da estante ao
sobrado também é constituída por uma
grelha das mesmas barrinhas de aço, de
forma que os terríveis bicharocos não têm
campo para passear livremente e se alimentarem à tripa-forra. Não têm a liberdade de outras bibliotecas.
Passamos por uma sala onde o vermelho
domina, nos tapetes e nas decorações.
Ao centro um busto do presidente Wilson.
É a sua biblioteca legada, bem como todos
os seus papéis, à Biblioteca do Congresso.
É a de um historiador, de um político e
de um jurista. Quase todos os presidentes
têm seguido esta norma de legar os papéis
oficiais à Biblioteca do Congresso.
Esses legados, como se calcula, revestem-se de importância extraordinária para a
História dos Estados Unidos e para aqueles que a queiram escrever. Mais adiante
entramos na secção de livros jurídicos, a
maior do mundo. Legislação e jurisprudência, não só dos Estados Unidos mas
de todos os países, encontram-se aqui na
sua máxima força.
Não esqueçamos o nome da casa.
Chama-se Biblioteca do Congresso e
como tal começou, tendo sido criada para
serviço dos legisladores americanos em
1800. Serve hoje de Biblioteca Nacional,
mas permanece fiel ao espírito da fundação muito alargado, embora. Quando
a capital se transferiu de Filadélfia para
Washington previa-se na Lei uma verba
para a compra de livros úteis ao Congresso
61
CULTURA
“Em dada altura passamos por uma porta estreita e estamos numa varanda interior que dá para a sala principal de leitura. Enorme pátio circular com a luz
vinda a jorros de todos os lados, amaciada e discreta, reina ali um silêncio completo.” Raúl Rego descrevendo a sua visita à Biblioteca do Congresso.
e o arranjo do espaço para os guardar. Foi
o início da Biblioteca em 1800. Dois anos
depois, o Presidente Jefferson nomeava o
primeiro bibliotecário, John Beckley.
Os livros encontravam-se instalados em
algumas salas para o efeito adaptadas, no
edifício do Capitólio. Ardeu em 1814,
quando o Capitólio foi incendiado pelos
britânicos. Logo em 1815 era comprada
a biblioteca de Thomas Jefferson que viria
a servir de núcleo para as novas colecções.
Novo incêndio, em 1851, viria a destruí-la parcialmente. Desde 1870 que nela
entram todos os livros, mapas, músicas e
outros impressos em território dos Estados
Unidos.
A expansão foi rápida desde esse depósito legal obrigatório. De tal forma que as
salas no edifício do Capitólio se tornaram
acanhadas. Em 1886, o Congresso previa,
em lei especial, a construção de um edifício próprio e não distante onde ficassem
instaladas convenientemente as suas colec-
62
ções. Em 1897 era inaugurado o edifício
actual. De notar é que no edifício do
Capitólio se encontram também alguns
aposentos com as colecções de legislação
mais manuseadas pelos “pais da pátria”.
Vimo-las de passagem na visita obrigatória
ao Senado e à Câmara dos Representantes.
Ao fim de trinta anos de utilização, com
os livros a entrarem cada vez mais numerosos, o edifício tornou-se pequeno. Foi
preciso construir outro, o chamado Anexo,
que se encontra por detrás do principal.
Arquitectura moderna, sem nada de característico, mas com uma certa elegância,
na sua brancura de paredes. Liga os dois
edifícios um túnel e um sistema de
pneumáticos traz e leva os livros e
manuscritos entre os dois edifícios.
Os dois dispõem de uma superfície de
soalhos que anda pelos 15 hectares e as
prateleiras em fila perfariam 390
quilómetros. Uma distância como de
Lisboa a Braga, por estrada!
Além das colecções de Direito, as mais
notáveis de todas, muitas outras se destacam, como as colecções de aeronáutica
e de música. A colecção de livros chineses, tida como a mais completa fora da
China, e a de livros russos, também a
maior fora da União Soviética. A colecção
de manuscritos tem-se enriquecido de
contínuo com as reproduções de manuscritos dos arquivos europeus, que um
donativo de John Rockefeller Jr. tornou
possível.
A secção de livros raros, os nossos chamados reservados, conta nada menos de
200.000 volumes. São os que nas estantes encontrávamos representados por um
bocado de madeira e um título na “lombada”. Neste número contam-se primeiras edições preciosas, encadernações
raras, cerca de 25.000 folhetos dos primeiros tempos da vida cívica americana,
mais de 1.600 volumes de jornais americanos do século XVIII, e muito perto
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CULTURA
de 8.000 incunábulos. Continuam a citar-nos alguns números referentes à maior
livraria do Mundo: tem presentemente
9.500.000 volumes e folhetos, à roda de
13.000.000 de manuscritos, mais de
2.100.000 mapas, cerca de dois milhões
de peças e volumes de música, uns
2.225.000 negativos fotográficos, chapas
e fotografias. Acrescentando a tudo isto
os discos gravados, microfilmes, filmes
e outros materiais, o total de espécies
contidas nestes dois blocos ascende aos
31 milhões!
O nosso amável guia, cuja erudição
bibliográfica lhe permite viver neste mar
de tinta e papel, como peixe na água, vai-nos levando por corredores e galerias,
falando da organização dos serviços da
Biblioteca até as obras em que se empregam os 2.200 funcionários que nela trabalham. O intercâmbio com outras
instituições culturais de todo o mundo é
intenso e a catalogação não se limita às
obras aqui existentes. É a Biblioteca do
Congresso que está encarregada do
Catálogo Nacional da União, contendo já
mais de 12 milhões de fichas para os
livros de consulta mais importantes existentes em livrarias americanas e canadianas. Há, como de resto em outras livrarias
similares, a publicação de catálogos e guias
bibliográficos, bem como de textos
manuscritos e livros raros que se encontram na Biblioteca. Há ainda a publicação
de livros em alfabeto Braille ou de “livros
falados”, em discos para cegos. À parte
estas actividades bibliográficas, há as do
ensino; presentemente existem seis
cadeiras: Música, Belas-Artes, História
americana, Aeronáutica, Geografia e
Poética inglesa.
Os serviços administrativos e culturais,
toda a actividade deste formigueiro tão
bem organizado e tão atarefado que se
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‘
Passamos por uma sala onde o vermelho
domina, nos tapetes e nas decorações.
Ao centro um busto do presidente Wilson.
É a sua biblioteca legada, bem como todos
os seus papéis, à Biblioteca do Congresso.
É a de um historiador, de um político
e de um jurista.
’
passa pelos corredores sem vermos
vivalma, está sob a direcção do bibliotecário do Congresso. À entrada, numa
lápida, encontram-se nomes de todas as
personalidades que têm ocupado o cargo
desde John Beckley até C. Evans, que o
deixara dias antes da nossa visita. Tem
dois adjuntos e directamente dependentes destes uma data de secções e subsecções, meramente administrativas
umas, inteiramente culturais ou só jurídicas outras. Umas dezenas de colmeias
onde o livro é analisado ou tratado sob
os aspectos mais diferentes, desde o
«copyright» até o seu custo ou qualidade do papel empregado nele.
Em dada altura passamos por uma porta
estreita e estamos numa varanda interior
que dá para a sala principal de leitura.
Enorme pátio circular com a luz vinda a
jorros de todos os lados, amaciada e discreta, reina ali um silêncio completo.
E leitores e funcionários movem-se em
baixo, de contínuo. Actividade constante
e intensa sem perturbar ninguém. Como
se todos andassem com pezinhos de lã,
ou estivessem num templo. E o recinto
enorme não deixou de nos dar à primeira vista ideia de uma mesquita. Depois
pareceu-nos um grande estabelecimento
bancário com os funcionários atrás das
carteiras, os móveis enormes dos ficheiros e os leitores que vêm e vão, continuamente, a procurar os livros ou a
trazê-los. O móvel central, os ficheiros e
as carteiras de leitura têm todas a disposição circular. O conjunto é grandioso e
as decorações do tecto e das colunas,
muito vivas e exuberantes, contribuem
para essa grandiosidade, embora sem a
menor sobriedade. Esta não a encontrámos em parte alguma do edifício.
Além dessa sala de leitura, há outras nas
diversas secções. Há ainda os gabinetes
particulares destinados aos investigadores,
vindos para estudar determinado assunto
e precisando para tal de determinadas
condições. Esses gabinetes, não são uma
dúzia ou duas. Há nada menos de 172,
onde o investigador está como no seu
escritório.
À margem das actividades bibliográficas,
outras muito importantes se desenrolam.
De salientar as actividades musicais.
Salão de música, Museu e objectos
expostos, e toda a actividade musical são
obra de Mecenas. Deparamos com eles por
toda a parte nesta América de tão grande
fama de materialismo. Foram oferecidas
pelas senhoras Whitall e Coolidge, por
conta das quais correm ainda todas as
despesas de concertos e museu.
63
CULTURA
Intelectuais públicos:
uma conferência inédita em Portugal
A FLAD foi a anfitriã da conferência “European Conference on Public Intellectuals”,
organizada por Lawrence Friedman, da Universidade de Harvard, e Pilar Damião
de Medeiros, do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores, nos dias 25
e 26 de Outubro de 2013. Pela primeira vez, o encontro realizado em Harvard
anualmente desde 2009, teve uma extensão na capital portuguesa, reunindo vários
académicos e especialistas de países diversos, como Estados Unidos, França, Inglaterra,
Espanha, Holanda e Portugal, em torno do papel do intelectual público na vida social
e política, com participações de nomes de destaque como Dolan Cummings,
Alain-Marc Rieu, Jim Clark, Kristine Harper ou Helen Fordham, entre outros.
POR CLARA PINTO CALDEIRA*
FOTOGRAFIAS DE RUI OCHOA
Os organizadores: Pilar Damião de Medeiros, do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores, e Lawrence Friedman, da Universidade de Harvard.
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CULTURA
A conferência, na tradição de Harvard,
realizou-se à porta fechada à excepção de
duas sessões abertas ao público: no primeiro dia, “Intellectuals and Universities:
A Glass Half-Full” por Dorothy Ross, da
Universidade Americana Johns Hopkins,
e no segundo, duas apresentações sobre a
relação entre intelectuais públicos e exílio:
“Intellectuals and Exile” por José Pacheco
Pereira, do Instituto Universitário de
Lisboa, e “Public Intellectuals, exile, post-exile and gender”, por Maria Carrilho,
do ISCTE.
A organizadora portuguesa, Pilar Damião
de Medeiros, fala sobre a iniciativa e a
relevância do tema.
[Paralelo] Esta iniciativa constitui uma extensão
do encontro anual sobre o tema promovido pela
Universidade de Harvard. Como surgiu o encontro em Lisboa?
[Pilar Damião de Medeiros] Em 2012, tive
oportunidade de participar, pela primeira
vez, na Conference on Public Intellectuals em
Harvard, onde fui acolhida com grande
simpatia pelo Professor Lawrence
Friedman e pelo seu grupo restrito de
académicos e amigos que, desde 2009,
tem vindo a problematizar, sob diversos
olhares disciplinares, o papel do intelectual
público. No final do encontro, no qual
participam no máximo 25 conferencistas,
o Professor Lawrence Friedman propôs-me
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‘
organizar uma conferênDifundiu-se o conceito de intelectual
cia na Europa, nomeadapara caracterizar os homens
mente em Lisboa, nos
mesmos moldes. E assim
de letras e ciências que intervêm
foi. Após a partilha de
na arte e na vida pública, ou
ideias e de troca de dezenas de e-mails, apresentámelhor, aqueles com capacidade
mos a nossa proposta à
de influenciar e mobilizar a opinião
FLAD, a qual, na pessoa
do Professor Mário
pública e a política.
Mesquita, aceitou ser o
sponsor do evento. É
importante salientar que,
para esta conferência,
foram convidados 23 investigadores de [PDM] Obviamente que a ancoragem hisreconhecido mérito nesta área de estudo tórica situa-se no Affaire Dreyfus (finais
que representaram instituições académicas século XIX), no qual um oficial judeu foi
de prestígio: Universidade de Harvard, condenado, através de um processo frauUniversidade dos Açores, Universidade dulento e injusto. Como acto de revolta,
de Lisboa, Universidade de Oxford, personalidades de profissões, ofícios e
Universidade de Johns Hopkins, quadrantes ideológicos diversos envolveUniversidade Nova de Lisboa, Universidade ram-se no debate público. A figura que
de Tilburg, Universidade de Cambridge, mais se destacou foi Émile Zola que, atraUniversidade do Porto, Universidade vés de uma carta aberta intitulada “J’
de Rochester, Universidade de Lyon, accuse!” no jornal L’ Aurore (dirigido na
Universidade de Cincinnati, Universidade altura por George Clemenceau), repreda Florida, Universidade de Notre Dame sentou um maior efeito na opinião públiAustralia, London Insitute of Ideas, ca em geral e no caso em concreto.
Universidade de Évora, Universidade de A partir deste affaire immortelle, como definiu Marcel Proust, difundiu-se o conceiNorth Carolina e Universidade Drew.
to de intelectual para caracterizar os
[P] O conceito de “Public Intellectual”, aqui homens de letras e ciências que intervêm
abordado, tem uma ancoragem histórica e teóri- na arte e na vida pública, ou melhor,
aqueles com capacidade de influenciar e
ca? Qual?
’
65
CULTURA
‘
[..] é importante que o espaço onde é produzido
o discurso sobre o mundo social continue a funcionar
como um campo de luta onde o pólo dominante não
esmague o pólo dominado, a ortodoxia não esmague
a heresia. Porque neste domínio, enquanto houver luta,
P. Bourdieu (1983)
haverá história, isto é, esperança”.
’
Carta aberta intitulada “J’ accuse!”,
de Émile Zola, no jornal L’ Aurore
(dirigido na altura por George Clemenceau).
mobilizar a opinião pública e a política.
Entretanto, a discussão sobre o papel, e
mesmo a importância, do “intelectual”
no mundo contemporâneo faz parte de
uma reflexão empreendida por vários
teóricos da modernidade tardia. A já vasta
bibliografia, ver por exemplo: A. Gramsci,
J. Benda, C. Wright Mills, E. Shills,
P. Bourdieu, Z. Bauman, U. Eco, E. Said,
M. Winock, N. Chomsky, P. Johnson,
A. Gouldner, B. Misztal, S. Collini, entre
outros, sobre as representações – positivas, mas também negativas – do intelectual, ilustra a multiplicidade de posições,
também elas díspares, sobre a relevância
do intelectual nos séculos XX e XXI.
[P] Qual é a relevância desta temática na actualidade?
[PDM] Face à consolidação da crise global, ao crescente poder da aristocracia
financeira, que tende a dominar todas
as esferas do “mundo da vida”, ao actual
panorama de aguda injustiça social, aliada à fragilidade política que, neste
momento, se encontra simultaneamente
sobrecarregada de problemas e demasiadamente vazia de pensamento, acredito
que os intelectuais voltaram a ter um
papel de relevo no espaço público. É,
todavia, óbvio que, no interregno entre
os Novos Movimentos Sociais e os Novos
Movimentos Globais, a figura do intelectual sofreu várias interpretações e
66
críticas. Ora, com a morte de Jean Paule
Sartre, o “intelectual total” que, através
da imaginação democrática, de um vasto
repertório de ideias, avaliações, capacidades e lógicas, divulgava e defendia os
valores universais, esvai-se aquando da
substituição das metanarrativas pelas
micro-ideologias, pelos discursos fragmentários, descontínuos e dispersos
(Lyotard, 1979) que brotavam na
esfera(s) pública(s) ao longo dos anos
60 e 70. O fim das grandes ideologias
contribuiu, por um lado, para o fim do
intelectual legislador e, por outro, para
a ascensão do intelectual especialista
(Michael Foucault), que, de igual modo,
a partir dos finais dos anos 90 volta a
ser posta em causa devido à proximidade entre intelectuais e movimentos
sociais de ordem global. No entanto, e
face ao actual debate em torno do lugar,
ou não, do intelectual público no século XXI, entendo que estes, nomeadamente os Europeus, independentemente das
suas estratégias de intervenção, têm
vindo a reconhecer que uma posição
crítica e livre de constrangimentos sistémicos tornou-se indispensável num
período onde o fundamentalismo do
mercado, o perigo dos emergentes “apartheids culturais” e a produção do medo,
que gradualmente se vem instalando
numa Europa de valores moribundos,
assombra as liberdades das sociedades
Europeias. Stephan Hessel, Jürgen
Habermas, Ulrich Beck, Daniel CohnBendit, Fernando Savater, António Lobo
Antunes, Mário Soares, Bernard­‑Henri
Lévy, Vassilis Alexakis, Juan Luis Cebrián,
Umberto Eco, Eduardo Lourenço, entre
muitos outros, são alguns dos intelectuais que, a partir da validade e legitimidade do seu discurso, têm tido a
capacidade de pôr em causa as verdades
absolutas do poder político-financeiro,
através de um discurso contra-hegemónico, e têm conseguido projectar as vozes
das minorias na agenda pública, mediática e política. Em suma, acredito que a
posição de P. Bourdieu (1983, p. 70) em
relação à questão “Os Intelectuais estão
fora do jogo?”, que passo a citar: “[..]
é importante que o espaço onde é produzido o discurso sobre o mundo social
continue a funcionar como um campo
de luta onde o pólo dominante não
esmague o pólo dominado, a ortodoxia
não esmague a heresia. Porque neste
domínio, enquanto houver luta, haverá
história, isto é, esperança” – volta a fazer
sentido na acção dos intelectuais públicos da Europa paradoxal do século XXI.
[P] O conjunto das conferências aborda uma
diversidade de questões, desde a questão do neo­
‑liberalismo, a democracia actual, casos concretos
de intelectuais públicos. Que eixos temáticos
gostaria de destacar ou especificar na organização
global desta iniciativa?
[PDM] Bem, esta conferência teve como
intuito principal discutir as diferentes
formas de intervenção pública dos intelectuais, independentemente dos seus
contextos históricos, sociais e culturais.
Como bem referiu, foram convidados
investigadores de áreas disciplinares bem
diferenciadas. A amplitude das discussões
foi grande e muito fértil. Tivemos desde
um teórico físico, que abordou a luta de
Einstein pela unificação entre ciência e
civilização, a uma socióloga que questionou se os cientistas poderão ser ainda
considerados intelectuais; desde um cientista político, que discutiu sobre o papel
dos intelectuais públicos espanhóis face
à crise económica, a um historiador que
desafiou a audiência a pensar sobre a
relação entre intelectuais públicos, política pública e filantropia na História
norte-americana; desde um psicanalista
que, a partir dos estudos do psiquiatra
Robert Coles, fez uma abordagem sobre
a vida política das crianças, a um sociólogo que analisa o engagement de dois
músicos contemporâneos, Lopes-Graça e
Luigi Nono. É, ainda, importante referir
que, ao longo de todas estas discussões,
o debate foi muitíssimo rico e levou os
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CULTURA
maior escassez de verdadeiras alternativas
críticas; a mobilização dos intelectuais
nos movimentos sociais; a perda ou não
da legitimidade dos intelectuais públicos
na esfera pública; os intelectuais e os
desafios da Europa multicultural; e sobre
RUI OCHOA
conferencistas a reflectir sobre as mais
variadas problemáticas, nomeadamente,
sobre a crescente mercantilização do trabalho académico na academia; a excessiva especialização e o estreitamento das
disciplinas, que tende a levar a uma
a relação entre cultura política e intervenção intelectual.
[P] Foi abordada, face a Portugal, a questão dos
intelectuais e do exílio. Que aspectos gostaria de
destacar desta problemática?
[PDM] Achamos pertinente ter uma mesa
redonda sobre os “Intelectuais e o
Exílio”, principalmente por esta conferência ser realizada em território português. Maria Carrilho e José Pacheco
Pereira foram convidados a fazer uma
exposição sobre o compromisso dos
intelectuais durante as diferentes fases
do exílio. Maria Carrilho destacou o seu
percurso de exilada altamente politizada
na Itália que, enquanto lutava por uma
democracia emancipadora em Portugal,
se envolvia em movimentos de carácter
internacional. Com base na sua recente
obra sobre os escritos políticos, As Armas
de Papel (2013), José Pacheco Pereira ilustrou o cenário social, cultural e político
do regime salazarista que, na tentativa
de amordaçar as liberdades humanas,
instigou o surgimento de espíritos de
oposição, de indivíduos que reagiram
contra um estado repressivo e claustrofóbico e que tiveram o ímpeto de lutar,
mesmo durante a sua estada no exílio,
por uma pátria democrática.
A meu ver, os intelectuais portugueses
do exílio são, na sua grande maioria,
marcados por um espírito de luta constante, de militância política e de inconformismo face aos valores míopes de um
regime ditatorial. Como verdadeiros
impulsionadores da democracia pluralista em Portugal, muitos destes intelectuais
assumiram um espírito de oposição e não
de acomodação, e, recorrendo à terminologia de E. Said, provocaram “abalos
sísmicos” no sistema, sacudiram um regime bafiento e refrescaram-no com uma
ética cosmopolita, fruto dos tempos de
exílio. Incorporaram, de facto, o papel
de verdadeiros “democracy helpers” (B.
Misztal, 2007).
Enfim, é este o perfil de intelectual que
me parece que, no Portugal do século XXI,
tenderá a ressurgir: um intelectual público que produza juízos críticos, instigue o
debate público, participe activamente em
movimentos que têm como finalidade a
liberdade, a igualdade e a solidariedade e,
acima de tudo, denuncie as arrogâncias
de um regime democrático despojado de
valores democráticos.
* Jornalista freelancer
Esta conferência teve como intuito principal discutir as diferentes formas de intervenção pública
dos intelectuais, independentemente dos seus contextos históricos, sociais e culturais.
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67
CULTURA
Habitar(s)
POR JOÃO SILVÉRIO*
João Onofre, Rui Toscano e Francisco Tropa.
A ideia de habitar como forma de ocupação
espacial e temporal, que o seu título enuncia, propõem-nos uma pluralidade de
dimensões plásticas, poéticas e conceptuais.
A relação entre o corpo e o espaço habitado, quer como um arquétipo, quer como
um desejo, uma realidade ou uma utopia
apresentam-se em linguagens e técnicas
diferenciadas entre o projecto conceptual,
a maqueta, a pintura, o desenho, a obra
fotográfica, a escultura, a performance, o
vídeo e a edição de um livro de fotografia
de autor, intitulado ist, 1994.
A exposição conta ainda com a edição de
um catálogo com prefácio dos curadores,
Suzanne Cotter, directora do Museu de
Serralves; Isabel Sousa Braga, curadora do
Museu e de João Silvério, curador da colecção da FLAD, bem como com uma série de
textos sobre cada um dos artistas, da autoria de Pedro Faro.
* Curador
Exposição Habitar(s), Galeria da Biblioteca
Ameida Garrett, Porto. 30 de Novembro 2013
a 23 de Fevereiro 2014.
FOTO: FILIPE BRAGA © FUNDAÇÃO DE SERRALVES
A exposição que reúne obras das colecções
de arte contemporânea da Fundação Luso­
‑Americana para o Desenvolvimento
(FLAD), e da Fundação de Serralves no
espaço da Biblioteca Municipal Almeida
Garrett, no Porto, HABITAR(S), vem na continuidade do protocolo de depósito da
colecção da FLAD na Fundação de Serralves
assinado em 1999.
A exposição é composta por obras dos
artistas Augusto Alves da Silva, Pedro Cabrita
Reis, Pedro Calapez, Alberto Carneiro,
Mauro Cerqueira, José Pedro Croft, Alicia
Framis, Eberhard Havekost, Cristina Iglesias,
Em primeiro plano uma escultura de José Pedro Croft (Sem título, 1997, Col. Serralves).
Na parede lateral uma vista parcial da obra fotográfica de Augusto Alves da Silva composta por 50 fotografias de diferentes formatos (ist, 1994, Col. FLAD).
Na parede do fundo, um desenho de Pedro Capalez (Sem título 1985, Col. FLAD) e um vídeo de Rui Toscano (São Paulo 24/Set/01, 2001, Col. FLAD).
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Paralelo n.o 8
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FOTO: FILIPE BRAGA © FUNDAÇÃO DE SERRALVES
CULTURA
FOTO: FILIPE BRAGA © FUNDAÇÃO DE SERRALVES
Em segundo plano, na parede lateral, vista parcial da obra fotográfica de Augusto Alves da Silva (ist, 1994, Col. FLAD).
Em primeiro plano, a obra de João Onofre que integra a realização de uma performance (Box Sized Die featuring Holocausto Canibal, 2007-14, Col. Serralves).
Do lado direito uma vista da escultura de Pedro Cabrita Reis (Inferno, 1989, Col. FLAD).
Vista superior da exposição. Em primeiro plano uma obra da artista espanhola Cristina Iglesias (Sem título (Passage 1), 2002, Col. Serralves).
Na parede do fundo uma escultura de José Pedro Croft e uma pintura de Eberhard Havekost. Junto à fachada uma vitrina com projectos de Alberto Carneiro.
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FOTO: FILIPE BRAGA © FUNDAÇÃO DE SERRALVES
CULTURA
Vista da parede de fundo da sala da exposição. Do lado esquerdo da parede a escultura de José Pedro Croft (Sem título, 1993, Col. FLAD)
e do lado direito a pintura de Eberhard Havekost (Superstar, 2005, Col. Serralves).
70
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LIVROS
Um Observador Observado
tradução e comentário
de um texto de Silas Weston.
Ensaios de Carlos Riley, Ricardo Madruga
da Costa e Leonor Sampaio da Silva.
Núcleo Cultural da Horta (NCH) com o
apoio da Fundação Luso-Americana, 2013
Um viajante e
três observadores
POR MARINA ALMEIDA*
Há uma imagem que envolve a capa de
Um Observador Observado e retém o leitor.
A montanha do Pico quase naif, quase
tosca, mas – sabemo-lo – imponente e
rija. E, no virar da contracapa, aqueles que
parecem pequenos barquinhos pairando
sobre o Canal. Foi num como estes, de
nome Perseverance, que em 1855 chegou
Silas Weston às chamadas ilhas ocidentais,
os nossos Açores.
Desafia-nos o folhear deste livro a saber
mais sobre a imagem. Uma reprodução
do magnificente Panorama de Russell &
Purrington – um pano de 400 metros de
comprimento por 2,5 de altura – que está
agora no New Bedford Whaling Museum,
nos EUA. A tela foi desenhada por Benjamin
Russell, baleeiro, e pintada, já em terra
firme, a meias com Caleb Purrington. Uma
obra de arte para desenrolar publicamente,
feita cinema, para ver devagar. Retenhamo­
‑nos, pois, nesta toada.
Era assim que se chegava aos Açores, torrões de lava que saíram das profundezas
da terra trespassando o mar. SilasWeston
demorou-se uns “dezassete longos dias” a
bordo do Perseverance antes de vislumbrar as
Flores e o Corvo. Já o americano suspirava
por terra e, acima de tudo, por água – tal
como os que o acompanhavam nesta viagem com escala de onze dias nos Açores e
destino a Cabo Verde. “Isto vai ser um
luxo”, exclamou alguém no início do
relato de Weston à chegada às ilhas. Estava
Paralelo n.o 8
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o grupo “fartíssimo” das
agruras do oceano que
Uma escrita limpa que nos traz as impressões
acabava mais devagar do
muito vivas de um viajante que chega
que os livros que com
no século XIX aos Açores.
eles embarcaram e do
que a sobrante indolênvapor do vulcão que saía das rochas sob
cia flutuante.
É Silas Weston quem dá a voz àquele os seus pés.
Foi Carlos Guilherme Riley quem achou
punhado de gente que se vê no porto da
“Villa da Horta”, nos procedimentos sani- este texto de Silas Weston, agora publitários necessários para não disseminar cado neste Um Observador Observado. Este é
pragas estrangeiras. Já prontos para pôr os um livro com muitos livros dentro, que
pés em terra firme, chegam a bordo “três o Núcleo Cultural da Horta acaba de edinativos” com fruta e “chapéus de palha tar com o apoio da FLAD. Uma edição de
grosseiros” que os viajantes não tardaram enorme riqueza. O relato de Weston –
a regatear. A fruta, que “chegou na altura que corre, paralelo em português e em
certa e era deliciosa”, vitaminou-os para inglês, sem descuidar a reprodução da
capa original –, a história de Weston pelo
os dias seguintes.
Silas Weston escreveu, no regresso a casa, seu descobridor, o minucioso Carlos
“Visita a um Vulcão ou o que eu observei Riley, as contingências da tradução e da
nas Ilhas Ocidentais”. Uma escrita limpa escrita da época, pela adoradora de palaque nos traz as impressões muito vivas de vras Leonor Sampaio da Silva, e a vida
um viajante que chega no século XIX aos insular à época, respirada por Ricardo
Açores. Com o normal choque de culturas, Madruga da Costa. Não falta aqui nada.
por vezes alguma sobranceria e o deslum- A não ser parar o nosso tempo para, devabre absoluto em dois momentos: a descida gar, desenrolar este livro.
à caldeira do Faial e a subida à montanha
do Pico, onde, acima das nuvens, sentiu o *Jornalista do DN
‘
’
71
LIVROS
O Mar na História,
na Estratégia e na Ciência
MESQUITA, Mário & VICENTE, Paula
(Coordenadores)
Lisboa, Ed. Fundação Luso-Americana
para o Desenvolvimento
Tinta-da-China, Junho de 2013
Mar português
POR PEDRO BORGES GRAÇA*
A Fundação Luso­‑Americana para o
Desenvolvimento tem vindo a apoiar e
promover de modo intensivo, há já alguns
anos, um trabalho de reflexão estratégica
e investigação científica sobre o oceano
atlântico que merece ser devidamente notado, em particular por todos aqueles que
em Portugal se interessam pelos assuntos
do mar, tanto académicos como decisores
e empreendedores. O último output é precisamente o livro de que nos ocupamos
aqui, apresentado em sessão pública pouco
antes das férias do Verão deste ano de 2013,
numa edição cuidada e esteticamente conseguida, sem dúvida pela experiência e
bom gosto dos coordenadores e da editora Tinta-da-China que nos tem habituado
a livros tão bonitos quanto literária e cientificamente cativantes.
Este resulta da realização do III Fórum
Açoriano Franklin D. Roosevelt, na Ilha
do Faial nos Açores, de 27 a 29 de Abril
de 2012, porventura aquele que, desde
2008, quando foi lançada a iniciativa
bienal do evento, menos atenção dirigiu
especificamente às relações transatlânticas entre Portugal e os Estados Unidos,
concentrando­‑se precisamente nas questões essenciais da História, Estratégia e
Ciência que fundamentam essas mesmas
relações. Comparando com os anos anteriores, sem descurar portanto o contexto da cooperação transatlântica, esta obra
72
denota ter ocorrido um salto qualitativo
na abordagem científica do mar português
e das potencialidades acrescidas que este
abriga, inclusivamente no cenário de vir
a ser reconhecida pela Comissão de
Limites das Nações Unidas a proposta
portuguesa de extensão da plataforma
continental.
O Mar na História, na Estratégia e na Ciência
revela uma abordagem multifacetada,
multidisciplinar, que suscita o alcance de
um patamar transdisciplinar sobre a
dimensão indissociavelmente atlântica do
mar português e dos seus recursos enquanto factores indutivos de crescimento económico e desenvolvimento nacional neste
momento de crise prolongada. Os seus cerca
de quarenta autores traduzem uma
“massa crítica” incontornável no estudo
dos assuntos do mar em Portugal, e à
FLAD se fica a dever esta abordagem de
largo espectro, onde poderemos por
exemplo encontrar a visão estratégica
sobre os Açores de um major­‑engenheiro
português do primeiro quartel do século XIX, relembrado por Ricardo Madruga
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
LIVROS
‘
[...] O Mar na História, na Estratégia e na Ciência revela uma abordagem multifacetada,
multidisciplinar, que suscita o alcance de um patamar transdisciplinar sobre a dimensão indissociavelmente
atlântica do mar português e dos seus recursos enquanto factores indutivos de crescimento económico
e desenvolvimento nacional neste momento de crise prolongada.
’
da Costa, ao lado do futuro sustentável
dos oceanos no século XXI reflectido por
Tiago Pitta e Cunha, ou do sonho tornado realidade de circum­‑navegação solitária, de Genuíno Madruga, natural da
Ilha do Pico e vivo representante da mais
velha e melhor tradição do carácter marítimo português, tão naturalmente presente nos Açores.
Reflectir sobre o mar português a partir
dos Açores, nesta abordagem de largo
espectro, induz no leitor uma percepção
geopolítica deveras interessante, realçando
a inclinação para oeste da emigração e das
relações transatlânticas em equilíbrio com
a inserção política a leste enquanto fronteira extrema de Portugal e também da
União Europeia. Com efeito, se tomarmos
em consideração o cenário de desenvolvimento dos Estudos do Atlântico em
direcção a outros temas que não somente
os tradicionais da História da Escravatura
e da Literatura, como é comum na maioria das universidades anglófonas, francófonas e lusófonas, é possível afirmar que
a condição atlântica açoriana se apresenta
como uma alavanca histórica percursora
dos emergentes estudos estratégicos do atlântico
na abordagem da intersecção da natureza
e da sociedade, configurando academicamente como quase­‑paradigma “o mar
como desafio para a unidade das ciências”,
como observa Viriato Soromenho­
‑Marques”.
Na verdade, a dimensão do mar português, mesmo sem a extensão da plataforma continental, é colossal em comparação
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
não só com o nosso território continental
e insular mas também com os territórios
marítimos de outros países muito maiores
e economicamente potentes que Portugal.
Esta situação confere­‑nos um elevado
potencial de recursos ainda por inventariar
e seguramente nos põe enquanto Nação
velha de nove séculos perante o desafio
de assumirmos plenamente o mar como
conceito estratégico nacional. Isto significa necessidade de investimento, tecnologia e conhecimento e de parcerias
estratégicas com quem possamos encontrar interesses mútuos para responder a
esse desafio. Nesta visão os Estados Unidos
estão precisamente na primeira linha do
horizonte.
Ricardo Serrão Santos lembra que “a
Universidade dos Açores é a única universidade portuguesa que gere um navio de
investigação” e Fernando Barriga diz­‑nos
que “a era da mineração submarina está
prestes a começar e apenas conhecemos
cinco por cento dos fundos marinhos”.
Somos pois levados a pensar que há muito
a fazer, mas também que a Ciência avança
hoje a um ritmo tal que, no futuro, nos
poderá trazer a possibilidade de termos um
aproveitamento económico do mar que
projecte Portugal para fora da prolongada
crise que sofremos. Com consciência histórica, visão estratégica e ciência, é esse
ânimo que adquirimos ao lermos o presente livro que a FLAD em boa hora tornou
realidade, como aconteceu com o sonho
de Genuíno Madruga, marinheiro português do século XXI.
Para colocar os Açores no mapa dos deba‑
tes sobre estratégia e política internacio‑
nal foi fundado, em cooperação com o
Governo Regional dos Açores, o Fórum
Açoriano Franklin D. Roosevelt, com perio‑
dicidade bienal.
A denominação visa homenagear a figu‑
ra de Franklin D. Roosevelt e o seu papel
decisivo nas relações euro-atlânticas.
O primeiro Fórum teve lugar em Ponta
Delgada, em Julho de 2008, comemorando
os 90 anos da escala de Roosevelt nos
Açores (São Miguel e Faial), quando viajou
rumo à Europa na qualidade de Secretário
da Marinha do Governo do Presidente
Wilson, em 1918. O tema principal do
I Fórum foi “As Relações Transatlânticas
na Opinião Pública Europeia e Americana”.
A segunda edição decorreu na Terceira
em Abril de 2010. O Fórum debateu ques‑
tões prementes na agenda transatlântica,
a evolução histórica da relação Europa­
‑EUA, e o papel geopolítico do Atlântico e
dos Açores ao longo do último século.
O III Fórum Franklin D. Roosevelt foi
dedicado ao “Mar na Perspectiva da
História, da Estratégia e da Ciência” e
decorreu na Horta, em 2012.
* Professor do ISCSP­– UL
Coordenador do projecto A Extensão da Plataforma
Continental: Implicações Estratégicas
para a Tomada de Decisão (FCT, CAPP­– ISCSP­– UL,
Marinha, ESRI Portugal)
73
LIVROS
Portugal, Jesuits and Japan
– Spiritual Beliefs
and Earthly Goods
Victoria Weston
2013, McMullen Muse of Art, Boston
College.
Nova pesquisa
sobre a arte
namban
reunida em livro
POR VANESSA RODRIGUES
Se o explorador Marco Polo, no célebre
livro de viagens Cidades Invisíveis do italiano
Italo Calvino, relatasse ao soberano mongol Kublai Kan, nessas tertúlias curiosas
entre os dois, o que viu do comércio e
trocas culturais entre os militares japoneses e os portugueses, os “nanban-jin”
(“bárbaros do sul”), entre os séculos XVI
e XVII, dir-lhe-ia que encontrara um
mundo colorido, exótico e, talvez, em
mudança. Um mundo habitado por paquidermes, de templos e palácios em ouro,
de peripécias com jesuítas e piratas, de
grande azáfama naval, mulheres a costurar
com fios de seda e homens a fazer acrobacias nas velas dos barcos. Kublain Kan
pedir-lhe-ia provas, de imediato, e o viajante, como competente antropólogo,
mostraria-lhe-ia finas obras de arte, ilustrações que recriam a vida quotidiana
desse povo, objectos ornamentais, equipamento militar, cerâmica, têxteis, móveis.
Se fosse no mundo de hoje, Marco Polo
estaria nada mais, nada menos do que a
relatar o universo de Portugal, Jesuits and Japan
- Spiritual Beliefs and Earthly Goods, a grande
exposição que está no McMullen Museum
of Art da Universidade de Boston até 2 de
Junho e dar-lhe-ia um exemplar do livro
74
com o mesmo nome editado por Victoria
Weston. Trata-se de uma colecção inédita
na História da Arte Nanban, que reúne 70
obras raras, a partir de colecções privadas
e instituições de Portugal e dos Estados
Unidos.
Esta iniciativa, preparada durante cerca
de 4 anos, só foi possível graças a uma
nova pesquisa, reunindo diferentes académicos e instituições museológicas e diplomáticas.
Além disso, Marco Polo poderia falar,
ainda, da riqueza cartográfica criada pelos
jesuítas, que traçaram e desenharam mapas
europeus e japoneses, hoje raridades, e de
artefactos e telas que contam uma história
mais profunda do que a que está documentada nas cartas e textos contemporâneos. E esta é outra grande novidade que
sobressai da análise dos ensaios dos oito
autores, entre historiadores e historiadores da arte, deste novo livro sobre a arte
nanban, que analisam os intercâmbios
sócio-culturais, através do fluxo de mercadorias nos barcos portugueses.
Em sentido restrito, esta nova abordagem
explora as transformações políticas, culturais, artísticas, tecnológicas e linguísticas
no Japão com a chegada dos portugueses
por volta de 1543 e a evangelização cristã, iniciada por São Francisco Xavier, “O
‘
Historiadores e instituições
de Portugal e EUA aprofundam
estudos inéditos
sobre trocas comerciais
e culturais portuguesas no Japão,
entre os séculos XVI e XVII,
e promovem livro e exposição,
no McMullen Museum of Art.
’
Apóstolo do Oriente”, em 1549, até à
expulsão dos portugueses em 1639.
Conforme analisa neste livro a historiadora da arte Alexandra Curvelo, que trabalhou juntamente com Weston na criação
da narrativa e do tema desta exposição,
sugerida inicialmente pelo historiador da
arte Pedro Moura Carvalho, a chegada dos
portugueses foi um “prólogo”, “um novo
paradigma” para a arte nanban, iniciada
depois que embarcações portuguesas foram
desviadas para o porto de Tanegashina, ilha
a sul do Japão. Foi, pois, o início de um
período de internacionalização que deu
fôlego a uma nova era de exploração e troca
de ideias que influenciaram ambas as culturas e que, ainda assim, continua a surpreender o mundo de hoje.
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| INVERNO 2013/2014
LIVROS
Ponto Último
e Outros Poemas
Título original: Endpoint
and Other Poems
Tradução de Ana Luísa Amaral
Civilização Editora, 2009
Updike e o seu
ponto final
poético
POR CLARA PINTO CALDEIRA
“Uma vida vertida nas palavras­‑desperdício
aparente/ Tentando preservar a coisa consumida.” São versos do poema ‘O Autor
Observa o Seu Aniversário’, incluído no
livro Ponto Último e Outros Poemas, testemunho
final de uma existência dedicada à escrita,
sobretudo de romances, distinguindo­‑se
também como contista, crítico e cronista.
Mas John Updike, celebrizado pela Tetralogia
do Coelho, que conta a vida de um desportista falhado, atravessando a história da
América, e as Bruxas de Eastwick, adaptado
ao cinema, começou precisamente por
publicar um livro de poesia, em 1958
(The Carpentered Hen and Other Tame Creatures).
Talvez não seja assim tão inusitado que as
suas últimas palavras dadas à estampa
sejam também poéticas.
Abre­‑se Ponto Último com a sensação quase
inevitável de quem lê um testamento,
escrito entre 2002 e 2009, período de
grande fragilidade clínica que culminaria
com a sua morte. Um livro encomendado,
confessa o autor, em jeito de dedicatória:
“Para Martha, que me pediu mais um
livro. Ei­‑lo, com todo o meu amor...” E é
para ela, sua mulher, que escreve o último
poema. Entre esta dedicatória e a última
página, está uma vida, cuja narrativa (inevitável, mesmo no género poético) é atraParalelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
‘
Updike, o escritor que quis ser animador da Walt Disney
e que conviveu desde menino
com as aspirações literárias da sua mãe
’
vessada de enorme tristeza, mas também
aguçado sentido de humor, grande ironia
e uma ainda vital capacidade de recordar
e olhar tudo. Este não é apenas um livro
sobre a proximidade da morte, a falência
das capacidades, a nostalgia de um futuro
que não existirá. É também um retorno
aos locais da infância, ao fascínio adolescente por Doris Day, à admiração pelo
golfista Payne Stewart ou a oportunidade
de celebrar o basebol americano: “inventado na América, onde, sob/ o bom
humor do jazz travesso, a oportunidade/
de falhar é um direito de todos,/ a come-
çar pelo basebol.” Também desse direito
nos fala Updike, o escritor que quis ser
animador da Walt Disney e que conviveu
desde menino com as aspirações literárias
da sua mãe: “Eu parti do seu fracasso”,
escreve, no mesmo poema em que,
referindo­‑se a si ou a ela, alerta: “Um
escritor, mesmo parecendo ter um coração
de pedra/ precisa de cuidados”. Não é de
pedra o coração de Updike, que termina
este livro assim: “Que a vida: um subterfúgio sujo/ E a morte é séria, longa e
escura./ O choque: ela ir registar­‑se em
lado algum, só onde for.”
75
LIVROS
O Canto de Aquiles
Madeline Miller
2012; Bertrand Editora;
344 págs.
O outro
calcanhar
de Aquiles
POR FILIPA MELO*
Na história dos deuses e heróis da Grécia
Antiga, Pátroclo não passa de uma nota
de rodapé. Em vão o seu nome significava “honra do [seu] pai”, Menécio, rei e
filho de reis. Franzino e desengraçado, o
príncipe “não era rápido”, “não era forte”
e “não sabia cantar”, mas, aos dez anos,
num acidente, mata um miúdo que o
aponta como cobarde. Rejeitado pelo pai,
é então exilado para Ftia, onde o rei Peleu,
pai de Aquiles, o adopta e o educa.
Pátroclo virá a ser o melhor amigo do
semideus Aquiles, que, para lhe vingar a
morte no campo de combate troiano,
matará Heitor, filho do rei de Tróia, consumando a profecia das Moiras e ditando
o seu próprio fim. Pátroclo é o verdadeiro calcanhar de Aquiles, tal como o apresenta Madeline Miller num ambicioso
romance de estreia, vencedor do Orange
Prize (cujo fim foi anunciado logo após
esta última atribuição) e best seller do New
York Times em 2012.
Numa escolha temática nada usual na
literatura norte­‑americana, O Canto de Aquiles
é uma reelaboração de um mito grego; o
do mais forte e valoroso guerreiro de
todos os tempos, “o melhor dos gregos”,
filho da cruel ninfa Tétis, treinado pelo
centauro Quíron e protagonista da Ilíada
de Homero. Madeline Miller, formada em
76
Estudos Clássicos na Universidade de
Brown, professora de Latim e Grego
Antigo, trabalhou esta fantasia histórica
durante dez anos, convicta de que a relação entre Aquiles e Pátroclo merecia maior
protagonismo. Assim, metade do romance
desenvolve­‑se como relato da iniciação de
Aquiles nas artes da guerra e no amor.
Tétis luta com ferocidade contra a proximidade de Pátroclo, mas em vão. Como
ex­‑pretendentes de Helena, Aquiles e
Pátroclo estão obrigados por juramento a
resgatá­‑la. Contudo, o que acaba por
conduzi­‑los até Tróia é a ameaça feita por
Ulisses de contar ao povo que surpreendera Aquiles vestido de mulher.
Homero não o refere no seu poema
épico, mas Ésquilo (na tragédia perdida
Mirmidões) e Platão (em Simpósio) não hesitaram em destacar a relação amorosa e
sexual entre os dois amigos e Alexandre,
o Grande, e o seu companheiro Heféstion,
de passagem por Tróia e perante todo o
seu exército, terão colocado oferendas nas
campas dos dois amantes (segundo, por
exemplo, o retórico romano Claúdio
Eliano). O Canto de Aquiles, narrado por
Pátroclo até mesmo depois de morto
(graças à “semivida dos espíritos não
sepultados”), é uma história de amor
digna de um romance de cordel, mas
salva da trivialidade pela grandiosidade
dos cenários e personagens mitológicos.
Quase no final, Escamandro, o deus do
rio e protector do povo de Tróia, luta
contra Aquiles e pergunta­‑lhe: “Ele vale
a tua vida?” Ele, Pátroclo, valerá antes de
mais a morte de Heitor, cujo cadáver
Aquiles devolverá à família, no primeiro
grande gesto de compaixão na história
da humanidade. Madeline Miller, também
compassiva, ainda terá tempo para levar
Tétis a unir os dois amantes no mesmo
túmulo e a gravar os dois nomes, Aquiles
e Pátroclo, lado a lado na pedra e na
memória.
*Jornalista
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LIVROS
Ronald Reagan: 100 years
Ed. Ronald Reagan Presidential
Foundation
Simi Valley, California, 2011.
O Grande
Comunicador
POR EDUARDO PEREIRA CORREIA
E RAQUEL DUQUE
Num estilo característico da cultura norte­
‑americana, de elogio da força de carácter
e de liderança, este livro apresenta­‑nos a
vida e o legado do homem que governou
a nação durante quase uma década e que
se tornou num dos presidentes mais amados da América. Prefaciada pelo antigo
senador Howard H. Baker Jr., a obra está
subdividida em cinco capítulos que apresentam as etapas do chefe de Estado ­– The
Lifesaver; The Leading Man; The Governor;
The President; The Legend. Com cerca de
250 páginas, este livro oferece um valioso
acervo de imagens da sua vida pessoal e
política, muitas delas exclusivas e singulares, pertencentes não só ao espólio da família Reagan, mas também ao vasto arquivo
da Ronald Reagan Presidential Library.
Localizada em Simi Valley ­‑ Califórnia, é
actualmente uma das mais importantes
fundações de presidentes dos Estados
Unidos, constituída apenas por fundos privados, com a missão de enaltecer o passado de Ronald Reagan e a história política
norte­‑americana.
Desde cedo, Reagan distinguiu­‑se como
líder, quer na vida académica, na carreira
em Hollywood, como governador da
Califórnia e enquanto Presidente dos
Estados Unidos da América, ganhando o
respeito dos cidadãos e de líderes mundiais.
Apesar de ter iniciado a sua carreira política no seio do Partido Democrata, Reagan
alcançou o seu primeiro cargo no Partido
Republicano, em 1966 quando se tornou
Paralelo n.o 8
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‘
Ronald Reagan: 100 Years é
uma obra que celebra o centésimo
aniversário do nascimento deste
Presidente, numa edição oficial
comemorativa da Ronald Reagan
Presidential Foundation. No
momento em que se preparam
as homenagens de uma década
do seu desaparecimento,
esta biografia oficial é relembrada
enquanto testemunho histórico
da política norte-americana e
mundial do século XX.
’
governador do Estado da Califórnia.
Ronald Reagan chega à Casa Branca aos
69 anos de idade, valendo­‑lhe o título de
candidato mais velho a ser eleito para a
presidência dos Estados Unidos, num
período crítico da economia do país, com
elevados níveis de desemprego, de impostos e de taxas de juro. No seu primeiro
discurso inaugural em 1981, defendeu
uma política económica baseada no corte
de impostos, controlo da despesa federal
e na limitação do poder governamental
privilegiando a iniciativa privada, abordagem esta que ficaria conhecida como
Reagonomics. No balanço dos seus dois mandatos, algumas questões foram controversas, nomeadamente a aprovação de
legislação severa na luta contra as drogas,
onde contou com o apoio da Primeira­
‑Dama Nancy Reagan. No plano externo,
e devido ao contexto da Guerra­‑Fria, os
gastos com a Defesa aumentaram exponencialmente e contribuíram para o início do colapso da União Soviética. Um
aspecto notável que distinguiu Ronald
Reagan no seu dinamismo político foi a
amizade pessoal desenvolvida com Mikail
Gorbatchev. A sua presidência restaurou a
força americana e a influência global,
levando valores como a liberdade e a
democracia ao mundo. Esta biografia não
só retrata a vida de um dos líderes políticos mais destacados do seu tempo, como
também nos oferece uma visão atenta
sobre a Guerra­‑Fria, um período indelével
das relações internacionais. Recordado
pela nação como Dutchman, Ronald Reagan
será lembrado para sempre, no mundo,
como “O Grande Comunicador”.
77
COLECÇÃO FLAD
João Onofre
Imagem e movimento
Existem constantes nos vídeos de João Onofre: o corpo – às vezes dor, promovendo uma auto-consciência do corpo e das suas
humano, às vezes objectual, outras nem uma coisa nem outra possibilidades. A repetição em loop amplia esta ideia de limite e
mas ainda corpo – e a acção – dirigida, controlada mas sempre de possibilidade física ao obrigar os corpos a encontrarem-se
constrangida pelas suas próprias possibilidades. Por isso o seu eternamente.
trabalho é sempre performativo. Contudo, não existem dúvidas
Não sendo figuras assexuadas, os corpos actuam, aqui, como
relativamente ao seu estatuto – o vídeo – dado que a acção é elementos que se contrapõem e entram, inevitavelmente, em
sempre consciente e dependente da presença de um dispositivo conflito, estabelecendo entre si uma relação dialéctica em que
que a regista. A prática artística de João Onofre foi sempre pau- cada corpo opera como tese e antítese, de forma alternada. As
tada pela necessidade de inscrição, pelo que estes dois momen- imagens que daqui resultam funcionam como síntese, sem recortos, a acção e o seu registo, não funcionam como entidades rer a artifícios visuais que excedam aquilo que é exigido à acção.
autónomas mas enformam, na sua simultaneidade, a expressão A acção é o fim em si mesmo, permitindo reduzir a unidades
de um corpo que é imagem e movimento. É deste corpo que mínimas aquilo que pode um corpo: imagem e movimento.
Ana Cristina Cachola
trata a obra de João Onofre.
Em Untitled (1998) um homem e uma mulher
encontram-se frente a frente, sugerindo, a sua
disposição, uma possibilidade de confronto.
João Onofre nasceu em Lisboa, em P.S.1. / MoMA Contemporary Art Cen‑
Esta possibilidade é confirmada, quando se
1976, cidade onde vive e trabalha. É ter, New York (2002); Nothing Will Go
encontram, alternadamente, em embates violentos, amplificados pela presença do som sinformado pela Faculdade de Belas Artes Wrong, Museu Nacional de Arte Con‑
copado que corrobora a violência do choque.
de Lisboa e pelo Goldsmiths College, temporânea, Lisboa e Centro Galego
A situação interroga o limite do corpo, tema
recorrente nos trabalhos de Onofre que em Pas
em Londres (MA em Fine Arts). Começa de Arte Contemporânea, Santiago de
d’action (2002), por exemplo, apresenta um
a expor no final da década de 1990. Compostela (2003); João Onofre, Toni
grupo de bailarinos que se mantêm em posições clássicas de ballet (pointes e demi pointes)
Realizou várias exposições individuais Tàpies, Barcelona (2005); Cristina Guer‑
durante o máximo tempo possível.
em Portugal e no estrangeiro, de entre ra Contemporary Art, Lisboa (2007) João
No caso Untitled (1998), a experiência de
limite reside no desafio à gravidade, porque,
as quais se destacam João Onofre, Onofre, Galleria Franco Noero, Torino
na verdade, o corpo que acolhe o impacto está
I-20, New York (2001); João Onofre, (2007) e Palais de Tokyo, Paris (2011).
deitado sobre o chão e o outro içado no ar.
A rotação da imagem cria uma ilusão de verticalidade que interpela e aproxima o especta-
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Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
COLECÇÃO FLAD
“Não sendo figuras assexuadas, os corpos actuam, aqui,
como elementos que se contrapõem e entram, inevitavelmente, em conflito,
estabelecendo entre si uma relação dialéctica em que cada corpo opera
como tese e antítese, de forma alternada.”
Untitled, 2008
Vídeo
Paralelo n.o 8
| INVERNO 2013/2014
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OFICINA DE LEITURA E ESCRITA CRIATIVA
ASAS SOBRE
A AMÉRICA
WINGS OVER
AMERICA
LER MAIS
ESCREVER MELHOR
a partir da grande literatura
norte-americana com
FILIPA MELO
(crítica literária, escritora)
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉ CARRILHO
cá estamos de mãos dadas, walt,
dançando o universo na alma.
fernando pessoa
ORGANIZAÇÃO
FORMADOR
Filipa Melo
FUNDAÇÃO LUSO-AMERICANA
Rua do Sacramento à Lapa, 21 • Lisboa
INSCRIÇÕES: fladport@flad.pt ou tel. 213 935 800
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