UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM NANOCIÊNCIAS E MATERIAIS AVANÇADOS Erika Tiemi Sato INVESTIGAÇÃO SOBRE O PAPEL DA ÁGUA CONFINADA EM TECIDOS BIOLÓGICOS Dissertação de Mestrado Santo André 2010 Erika Tiemi Sato INVESTIGAÇÃO SOBRE O PAPEL DA ÁGUA CONFINADA EM TECIDOS BIOLÓGICOS Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada para obtenção do título de Mestre ao curso de PósGraduação em Nanociências e Materiais Avançados. Universidade Federal do ABC – Campus Santo André Orientador: Prof. Dr. Herculano S. Martinho Santo André 2010 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Universidade Federal do ABC SATO, Erika Tiemi Investigação sobre o papel da água confinada em tecido biológicos / Erika Tiemi Sato — Santo André : Universidade Federal do ABC, 2010. 116 fls. il. 29 cm Orientador: Herculano da Silva Martinho Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal do ABC, Programa de Pós-graduação em Nanociências e Materiais Avançados, 2010. 1. Aglomerado de água 2. Espectroscopia 3. Cálculo vibracional I. MARTINHO, Herculano da Silva . II. Programa de Pós-graduação em Nanociências e Materiais Avançados, 2010, III. Título. CDD 543.0858 A todos aqueles que participaram efetivamente da minha formação pessoal e profissional AGRADECIMENTOS A Deus, minha fortaleza; Aos meus pais, grandes exemplos na minha vida; A minha irmã, minha doutora da alegria; A família Tanaka, que me acolheu em São Caetano do Sul; Aos meus irmãos em Cristo, que torceram por mim e oraram comigo! Ao Grupo de Estudos Bíblicos da UFABC, que em tão pouco tempo tanto me apoiou. Ao Grupo de Pesquisa em Biossistemas e Biofotônica, pela colaboração no trabalho; Ao prof. Dr. Herculano, meu orientador, por toda paciência que teve comigo; Ao prof. Dr. Maurício Coutinho, pelo auxílio nas simulações computacionais; Ao Han Pang, meu companheiro nos estudos, de quem partiu a idéia de cursar o mestrado; Ao Rodrigo Nagata, meu “amigo de ouro”, com quem eu sempre pude contar nesta caminhada; Aos professores e funcionários da UTFPR, por todo apoio e confiança; Aos alunos da UTFPR, que saudade! A todos da UFABC que contribuíram para a realização deste trabalho. A UFABC e a CAPES pelo apoio financeiro. "Quanto mais eu estudo a natureza mais fico impressionado com a obra do Criador. Nas menores de suas criaturas Deus colocou propriedades extraordinárias..." Louis Pasteur (1822-1895) RESUMO SATO, Erika Tiemi. Investigação sobre o papel da água confinada em tecidos biológicos. 2010. 116 f. Dissertação (Mestrado em Nanociências e Materiais Avançados) – PósGraduação em Nanociências e Materiais Avançados. Universidade Federal do ABC. Santo André, 2010. Neste trabalho procuramos avaliar o tipo de organização estrutural da água confinada em tecidos biológicos. Como o nível de estruturação da água é capaz de influenciar a grande maioria das propriedades físicas e químicas dos tecidos, objetivamos sondar se a mesma é capaz de estruturar-se de modo diferenciado em tecidos sadios e patológicos. Escolhemos como objeto de estudo amostras de tecidos provenientes de mucosa bucal normal (MN – 6 pacientes) e com hiperplasia fibrosa inflamatória (HFI – 6 pacientes). A técnica de espectroscopia FT-Raman foi utilizada como meio de acessar experimentalmente estas informações. Foi analisada a região espectral entre 2800 e 3600 cm-1, a qual foi deconvoluída, com o auxilio do software FITYK, em sete bandas (picos 1 a 7), respectivamente em 2854, 2885, 2934, 2991, 3071, 3220 e 3362 cm-1 para o tecido normal; e (picos 1 a 7), respectivamente em 2843, 2887, 2937, 2977, 3060, 3221 e 3387 cm-1 para o tecido inflamatório. Pelos resultados dos testes tstudent e ANOVA pôde-se perceber que os picos 2 e 6 não apresentam diferença estatística ao nível de 0,05; porém todos os outros picos apresentam diferença estatística ao nível de 0,05, sendo, portanto, picos importantes para o diagnóstico de HFI. Tendo em vista que o colágeno é uma proteína de importância fundamental na constituição da matriz extracelular e encontra-se amplamente presente em nosso corpo, cada agrupamento de moléculas de água foi confinado em um recorte de uma dupla hélice de colágeno. Os resultados foram interpretados com ajuda de simulações para várias estruturas de água, (H2O)n, sendo n = 1–8: (H2O), (H2O)2, (H2O)3, (H2O)4, (H2O)5-cíclico, (H2O)6-gaiola, (H2O)7-baixo, (H2O)8-S4. As simulações foram comparadas aos dados experimentais. Desse modo, pôde-se perceber que a água é de extrema importância na interpretação dos picos característicos de diagnóstico e desempenha um papel fundamental na obtenção destes picos. Nesse sentido, pôde-se concluir que existem alterações nas amostras avaliadas nestas regiões de alta freqüência, relacionadas à organização estrutural da água. Isso consiste numa importante informação para o entendimento do processo inflamatório do ponto de vista bio-fisicoquímico e fisiológico. Palavras-chave: Aglomerados de Água. Inflamação. Cálculo Vibracional. Espectroscopia Raman. ABSTRACT SATO, Erika Tiemi. Research on the role of water confined in biological tissues. 2010. 116 f. Dissertação (Mestrado em Nanociências e Materiais Avançados) – PósGraduação em Nanociências e Materiais Avançados. Universidade Federal do ABC. Santo André, 2010. In this work we evaluate the type of structural organization of water contained in biological tissues. The structuring level of water is able to influence the vast majority of physical and chemical properties of tissues. In this work, we aimed to probe whether water is able to structure itselves differently in healthy and pathological tissues. We chose as objects of study tissue samples from normal oral mucosa (NM - 6 patients) and inflammatory fibrous hyperplasia (IFH - 6 patients). The technique of FT-Raman spectroscopy was used as a means of accessing experimental information. We analyzed the spectral range between 2800 and 3600 cm-1, which was deconvolve with the help of software FITYK in seven bands (peaks 1-7), respectively in 2854, 2885, 2934, 2991, 3071, 3220 and 3362 cm-1 for normal tissue, and (peaks 1-7), respectively in 2843, 2887, 2937, 2977, 3060, 3221 and 3387 cm-1 for inflammatory tissue. From the results of ANOVA and t-student the tests could be seen as peaks 2 and 6, do not show statistical difference at the 0.05 level, while all other peaks show a statistical difference at the 0.05 level, being therefore important peaks for the diagnosis of IFH. Given that collagen is a protein of fundamental importance in the formation of extracellular matrix and is widely present in our body, each cluster of water molecules was confined to a piece of a double helix of collagen. The results were interpreted with the help of molecular dynamics simulations for different structures of water (H2O)n, where n = 1-8: (H2O), (H2O)2, (H2O)3 (H2O)4 (H2O)5-cyclic (H2O)6-cage, (H2O)7-low, (H2O)8-S4. The simulations were compared to experimental data. Thus, we could see that water is of extreme importance in the interpretation of the characteristic peaks of diagnosis and plays a key role in obtainment these peaks. In this sense, we concluded that there are changes in the samples in these regions of high frequency, related to structural organization of water. This is an important information for understanding the inflammatory process in terms of bio-physico-chemical and physiological. Keywords: Clusters of water. Inflammatory infiltrates. Vibrational Calculation. Raman spectroscopy. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Esquema da ligação de hidrogênio na água. ................................................. 21 Figura 2 - Ligações de hidrogênio por grupos funcionais. As ligações de hidrogênio formadas entre a água e (a) grupos hidroxila, (b) grupos cetônicos, (c) grupos carboxílicos e (d) grupos amino [28]. ............................................................................. 22 Figura 3 – Representação da ligação de hidrogênio bifurcada (a) no doador, (b) no aceptor............................................................................................................................ 22 Figura 4 – Exemplos de simetria Cn para eixos C2, C3 e C6. ............................................. 23 Figura 5 – Exemplo de simetria Sn com uma molécula de trans-dicloroetileno. Rotacionando a molécula de trans-dicloroetileno em 180° ao redor do eixo (S2), seguido por reflexão em um plano de reflexão, a orientação original da molécula é restabelecida. ................................................................................................................. 23 Figura 6 – Exemplo de simetria Sn e Cn em carbono tetraédrico. Uma rotação de 90° sobre um S4, seguido ou precedido de reflexão em um plano de reflexão restabelece a orientação original. Utilizando o mesmo plano de simetria é possível rotacionar a molécula em 180° e obter a molécula idêntica à original (C2). ...................................... 24 Figura 7 – Estruturas dos aglomerados de água, (H2O)n, sendo n = 2–8: (a) (H2O)2, (b) (H2O)3, (c) (H2O)4, (d) (H2O)5-cíclico, (e) (H2O)5-C2, (f) (H2O)6-cíclico, (g) (H2O)6-gaiola, (h) (H2O)6-prisma, (i) (H2O)7-baixo, (j) (H2O)7-próximo, (k) (H2O)8-D2d, (l) (H2O)8-S4 [33]. .. 25 Figura 8 – Caminho da barreira de tunelamento do dímero da água em 157cm-1, 207cm-1 e 394cm-1 [33]................................................................................................... 26 Figura 9 – Ilustração esquemática da tripla hélice de colágeno. ................................... 37 Figura 10 – Estrutura geral da prolina, glicina e hidroxiprolina. .................................... 38 Figura 11 – Ilustração dos sulcos do B-DNA. O B-DNA é a forma mais comum de DNA, que o DNA assume quando em solução. Se pensarmos na hélice de B-DNA como uma estrutura cilíndrica, com cerca de 2 nm de diâmetro, notaremos que a superfície da molécula é irregular, formando 2 sulcos ou depressões, de tamanhos diferentes, que giram ao longo de todo o seu comprimento. O sulco menor resulta da depressão entre as duas cadeias complementares, enquanto que o sulco maior resulta da depressão existente entre os giros adjacentes da hélice. Os sulcos são importantes porque deixam superfícies livres para a interação entre o B-DNA e as proteínas. .................... 42 Figura 12 – Ilustração esquemática de (a) micela e (b) micela reversa. ........................ 43 Figura 13 – Esquema Ilustrativo dos espalhamentos (a) Raileigh, (b) Raman Stokes e (c) Raman Anti-Stokes. ........................................................................................................ 51 Figura 14 – Tipos de vibração: estiramento simétrico (ν1), estiramento assimétrico (ν3) e dobramento (ν2) e librações nos eixos x, y e z [23]..................................................... 54 Figura 15 – Aglomerados das moléculas de água utilizadas na simulação: (a) (H2O), (b) (H2O)2, (c) (H2O)3, (d) (H2O)4, (e) (H2O)5-cíclico, (f) (H2O)6-gaiola, (g) (H2O)7-baixo, (h) (H2O)8-S4. Tais estruturas foram confinadas em colágeno. Adaptado de [127] ............ 66 Figura 16 – Estrutura do colágeno hidratado (perspectiva)........................................... 67 Figura 17 – Estrutura do colágeno sem hidratação (perspectiva). ................................ 68 Figura 18 – Estrutura do colágeno sem hidratação (vista longitudinal). ....................... 68 Figura 19 – Estrutura do colágeno sem hidratação (vista transversal interna). ............ 68 Figura 20 – Estrutura do colágeno sem hidratação (vista transversal). ......................... 69 Figura 21 – Área de recorte do colágeno para utilização na simulação. ....................... 69 Figura 22 – Recorte de colágeno utilizado na simulação. A figura corresponde a um pequeno trecho de duas hélices do colágeno: uma com três estruturas cíclicas e a outra com duas. .............................................................................................................. 70 Figura 23 – Aglomerado de moléculas de água confinado em colágeno. ..................... 71 Figura 24 – Vibração de coll_3 (em 3073cm-1) em um determinado momento. As linhas em azul-claro representam a direção e o sentido dos vetores dos átomos vibrantes. . 89 Figura 25 – Vibração de coll_3 (em 3073cm-1) em outro determinado momento. As linhas em azul-claro representam a direção e o sentido dos vetores dos átomos vibrantes. ........................................................................................................................ 89 Figura 26 – Indicação da posição dos quadrantes A, B, C e D em relação aos átomos do colágeno. ........................................................................................................................ 93 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Freqüências vibracionais (em cm-1) para três modos da molécula de água líquida. ............................................................................................................................ 54 Quadro 2 – Freqüências vibracionais (em cm-1) para três modos normais de diferentes isótopos da molécula de água gasosa. ........................................................................... 54 Quadro 3 – Comparação entre a presença/ausência de aglomerados de água para cada pico experimental. .......................................................................................................... 87 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Resultados dos testes estatísticos. ............................................................... 77 Tabela 2 – Resultados da sensibilidade e especificidade. .............................................. 80 Tabela 3 – Posição dos picos de MN e HFI. .................................................................... 87 Tabela 4 - Comparação entre as vibrações das moléculas de água confinadas em colágeno para MN e HFI. Cada cor refere-se a um determinado pico........................... 94 Tabela 5 - Comparação entre as vibrações do colágeno para MN e HFI, conforme os quadrantes. Cada cor refere-se a um determinado pico e cada letra (A, B, C, D) a um quadrante. ...................................................................................................................... 95 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Relação entre energia total e corte para uma única molécula de água isolada. ............................................................................................................................ 73 Gráfico 2 – Exemplo de deconvolução da região espectral de uma das amostras de MN em 7 picos. ...................................................................................................................... 74 Gráfico 3 – Exemplo de deconvolução da região espectral de uma das amostras de HFI em 7 picos. ...................................................................................................................... 75 Gráfico 4 – Box-plots das amostras de MN e HFI. As setas com números de 1 a 7 indicam a posição dos picos (pico 1 a pico 7)................................................................. 76 Gráfico 5 – Área dos picos 7 versus área dos picos 1, para MN e HFI. ........................... 78 Gráfico 6 – Área dos picos 7 versus área dos picos 3, para MN e HFI. ........................... 79 Gráfico 7 – Área dos picos 7 versus área dos picos 4, para MN e HFI. ........................... 79 Gráfico 8 – Área dos picos 7 versus área dos picos 5, para MN e HFI. ........................... 80 Gráfico 9 – Área dos picos 6-7 versus área dos picos 1-5, para MN e HFI. .................... 81 Gráfico 10 – Modos vibracionais de coll_0 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 82 Gráfico 11 – Modos vibracionais de coll_2 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 83 Gráfico 12 – Modos vibracionais de coll_3 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 83 Gráfico 13– Modos vibracionais de coll_4 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 84 Gráfico 14– Modos vibracionais de coll_5 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 84 Gráfico 15 – Modos vibracionais de coll_6 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 85 Gráfico 16 – Modos vibracionais de coll_7 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 85 Gráfico 17 – Modos vibracionais de coll_8 equivalentes aos resultados experimentais. ........................................................................................................................................ 86 Gráfico 18 – Energia total para cada aglomerado de água confinada. .......................... 96 Gráfico 19 – Energia total por molécula de água confinada. ......................................... 96 Gráfico 20 – Momento de dipolo para cada aglomerado de água confinada. .............. 98 SIGLAS E ABREVIATURAS Coll_0 Colágeno SEM água confinada Coll_1 Colágeno com uma molécula de água confinada, (H2O) Coll_2 Colágeno com duas moléculas de água confinada, (H2O)2 Coll_3 Colágeno com três moléculas de água confinada, (H2O)3 Coll_4 Colágeno com quatro moléculas de água confinada, (H2O)4 Coll_5 Colágeno com cinco moléculas de água confinada, (H2O)5-cíclico Coll_6 Colágeno com seis moléculas de água confinada, (H2O)6-gaiola Coll_7 Colágeno com sete moléculas de água confinada, (H2O)7-baixo Coll_8 Colágeno com oito moléculas de água confinada, (H2O)8-S4 DFT Teoria do Funcional da Densidade DM Dinâmica Molecular FT-Raman Espectroscopia Raman com Transformada de Fourier HFI Hiperplasia Fibrosa Inflamatória IR Infravermelho (Infrared) MC Monte Carlo MN Mucosa Normal RNOS Espécies Reativas de Nitrogênio e Oxigênio SUMÁRIO 1 2 INTRODUÇÃO .......................................................................................... 15 1.1 Objetivos ..................................................................................................... 18 1.2 Apresentação do trabalho ........................................................................... 19 REVISÃO DE LITERATURA .................................................................... 20 2.1 2.1.1 2.1.2 2.1.3 2.2 2.2.1 2.2.2 2.3 2.3.1 2.3.2 2.3.3 2.3.4 LIGAÇÕES DE HIDROGÊNIO E AGLOMERADOS DE ÁGUA ................... 20 Ligação de hidrogênio e sua importância ........................................................................... 20 Considerações de simetria.................................................................................................. 23 Aglomerados de água ......................................................................................................... 24 ESTRUTURA DA ÁGUA CONFINADA ........................................................ 29 Confinamento Hidrofóbico ................................................................................................. 29 Confinamento Hidrofílico ................................................................................................... 31 PROCESSO INFLAMATÓRIO EM TECIDOS BIOLÓGICOS ...................... 32 Mecanismo da Inflamação.................................................................................................. 32 Espécies reativas de nitrogênio e oxigênio (RNOS) e a bioquímica da inflamação ............ 33 Hiperplasia Fibrosa Inflamatória......................................................................................... 36 Colágeno ............................................................................................................................. 37 2.4 O PAPEL DA ÁGUA EM BIOSSISTEMAS .................................................. 38 2.5 MICELAS REVERSAS ................................................................................ 43 2.6 ESPECTROSCOPIA VIBRACIONAL E MODOS VIBRACIONAIS DA ÁGUA .. .................................................................................................................... 47 2.6.1 2.6.2 2.7 Teoria de espectroscopia Raman ....................................................................................... 49 Espectroscopia Raman da água .......................................................................................... 52 SIMULAÇÕES COMPUTACIONAIS............................................................ 56 2.7.1 Noções gerais e aplicação. .................................................................................................. 56 2.7.2 Teoria .................................................................................................................................. 59 2.7.2.1 Equação molecular de Schrödinger e aproximação de Born-Oppenheimer. ................... 59 2.6.2.2 Teoria do Funcional da Densidade ................................................................................... 63 3 4 METODOLOGIA ....................................................................................... 65 3.1 AMOSTRAS ................................................................................................ 65 3.2 ESPECTROSCOPIA VIBRACIONAL .......................................................... 65 3.3 SIMULAÇÕES DE CÁLCULOS VIBRACIONAIS ......................................... 66 RESULTADOS E DISCUSSÃO ................................................................ 74 4.1 CARACTERIZAÇÃO DE ÁGUA CONFINADA EM TECIDOS BIOLÓGICOS POR ESPECTROSCOPIA RAMAN ........................................................................ 74 4.2 CARACTERIZAÇÃO DE ÁGUA CONFINADA EM TECIDOS BIOLÓGICOS UTILIZANDO SIMULAÇÕES .................................................................................. 82 4.2.1 4.2.2 Discussão energética .......................................................................................................... 96 Polarização e momento de dipolo ...................................................................................... 98 5 DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÃO .................................................. 100 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................... 103 1 INTRODUÇÃO A investigação consiste numa indagação, numa inquirição. Indagar é procurar saber, tentar descobrir, esforçar-se por descobrir; enquanto inquirir é procurar informações acerca de, fazer perguntas a, perguntar, interrogar [1]. A água, substância composta de um oxigênio e dois hidrogênios é bem conhecida de todos, no entanto suas propriedades e seu comportamento correlatam anomalias. Apesar do extensivo trabalho teórico e experimental [2,3,4,5,6,7,8,9,10] devotado à compreensão das propriedades da água, muitas delas ainda permanecem envoltas em mistério. Dada a sua importância em muitos domínios da ciência, tecnologia, meio ambiente e na vida quotidiana, as propriedades incomuns da água são atualmente objeto de intensa investigação. Entre essas propriedades podemos citar, além da bem conhecida existência de uma densidade máxima em 277 K, [2,3,4,5,6,7,8,9,10,11]: (i) comportamento inesperado da compressibilidade isotérmica, capacidade calorífica isobárica, e coeficiente de expansão térmico, em baixas temperaturas; (ii) a água pode ser supercongelada abaixo do seu ponto de fusão e abaixo de 235K se cristaliza inevitavelmente (sua temperatura de nucleação homogênea é TH = 231K); (iii) no estado supercongelado, as anomalias nas propriedades termodinâmicas são mais acentuadas, mostrando uma lei de potência divergente nas proximidades de uma temperatura singular TS = 228 K; (iv) A pressão ambiente, a água pode existir numa forma vítrea amorfa abaixo de 135 K; (v) Dependendo da temperatura e pressão, a água apresenta um polimorfismo, ou seja, tem duas fases amorfas com diferentes estruturas: a baixa e a alta densidade LDA e HDA, respectivamente; 15 (vi) LDA, quando aquecido, sofre uma transição vidro-líquido em TG, em seguida cristaliza em cubos de gelo em TX = 150 K. O valor exato de TG ainda é uma questão em aberto. Na Terra, a maior parte da água está na fase bulk: a fase líquida nos oceanos, as formas cristalinas de calotas polares e geleiras, a fase de vapor no ar. O bulk é um sistema em fase condensada, em que o número de constituintes de um sistema (átomos, elétrons, etc.) é extremamente grande [12]. Em muitos sistemas vivos reais, no entanto, a água não está na forma “bulk”, mas localizada próximo a superfícies ou contida em pequenas cavidades. A chamada água confinada é encontrada muito facilmente na natureza em materiais porosos e granulares e também dentro e ao redor de macromoléculas, estruturas supramoleculares e géis. O processo de confinamento gera um conflito entre a minimização energética da rede de ligações de hidrogênio formada, das interações com a superfície da cavidade e o ajuste ao espaço disponível para alocar as moléculas [13]. Extensões finitas em uma ou mais direções espaciais fazem o sistema ser preso numa geometria de poro. Na terra, a água confinada pode ser encontrada em vários materiais geológicos, que possuem uma estrutura de poros permeável a água. Quantidade considerável de água em organismos vivos é confinada em células e seus compartimentos. Uma quantidade essencial de água confinada pode ser esperada em cometas, que presumivelmente representam uma mistura de poeira e gelo [14]. Nestas situações de confinamento as propriedades da água são as mesmas de quando super-resfriada. Assim, o confinamento é utilizado para estudar a água em baixas temperaturas, em estados supercongelados [15]. Em certas geometrias confinadas, as moléculas de água são incapazes de formar estruturas cristalinas e, desse modo, a água permanece fluida [16]. Não há dúvidas sobre a importância da água, basta ver as questões ambientais a ela associadas. E o que dizer do pensamento atual da NASA em seu programa de astrobiologia, que busca vestígios de água em outros locais do Universo, que não a Terra? Mas não é apenas em escala macroscópica que ela desempenha papéis fundamentais. Em micro e nano-escalas ela apresenta papéis vitais ao 16 funcionamento de órgãos e tecidos. Nas palavras de Albert Szent-Gyorgi, o biólogo ganhador do prêmio Nobel de 1937: “A água é a matéria e matriz da vida” [17]. Alguns cientistas duvidam se a água dentro de células vivas, o sumo da vida, é a mesma coisa que a água num copo; para eles, em escala molecular, sua estrutura pode ser alterada [18]. A água se comporta de um modo inesperado quando confinada ou confinada abaixo do ponto de congelamento. A vida precisa de água, mas ela permanece um profundo mistério por conta da água [18]. Há uma “teoria para líquidos” perfeitamente boa. Mas, no caso da água, apresenta pouco uso [18]. Algumas das anomalias da água são mais ocultas e reveladas apenas por medidas científicas cuidadosas, como o fato de a água ser menos ao invés de mais viscosa, quando comprimida [18]. Uma coisa é clara: a água que se coloca entre duas proteínas, ou duas camadas lipidicas separadas por apenas alguns nanometros não se comporta como a água bulk [19]. Aproximadamente 60 a 80% do corpo humano é composto por água [20]. A água ligada constitui de 30-50% da massa seca da proteína em pó e até 80% da massa do DNA cristalino [17]. Esta água ligada pode ser, assim, considerada como parte integral da própria biomolécula. Uma grande variedade de processos biológicos ocorre em ambientes confinados, com a solvatação da água desempenhando um importante papel [21]. O fato de a água apresentar-se freqüentemente confinada nanoscopicamente em meios não-aquosos traz à tona a necessidade de entender essas propriedades em ambientes confinados e próximos às interfaces [21]. A explicação para todas estas propriedades específicas da água só é possível levando-se em conta as interações entre as moléculas, denominadas ligações de hidrogênio [22]. Em muitos sistemas biológicos a água encontra-se confinada em regiões hidrofílicas e/ou hidrofóbicas específicas [23]. As propriedades físicas e o estado da água confinada podem sofrer grande variação dependendo das características moleculares da superfície da cavidade, das dimensões do confinamento, da temperatura e da pressão [24,23]. Tais propriedades refletem-se nas alterações conformacionais da estrutura da água [23]. 17 Há alguma evidência que a natureza da água difere entre células saudáveis e doentes [25]. Investigações recentes sobre água confinada mostram que em proporções nanoscópicas muitas propriedades da água diferem daquelas da água bulk [25]. Existem indicações de que a mobilidade da água celular é genericamente diferente da água bulk [17] e que esses movimentos tornam-se mais parecidos com o bulk em células cancerosas. Entretanto, o entendimento das propriedades físicas da água por si só é um objetivo que ainda não foi plenamente alcançado [26]. Neste sentido, propôs-se o estudo da água confinada em tecidos biológicos, de modo a investigar se a mesma é capaz de estruturar-se de modo diferenciado em tecidos sadios e patológicos. 1.1 OBJETIVOS Propomos nesta pesquisa o estudo das interações água-água e águabiomolécula para a água confinada. Cálculos vibracionais auxiliam na interpretação dos resultados. Visa-se com isso dois principais objetivos específicos: contribuir para a compreensão das propriedades físicas da água confinada bem como aplicar esses resultados à elucidação de propriedades de biomoléculas hidratadas. 18 1.2 APRESENTAÇÃO DO TRABALHO Para alcance do objetivo proposto nesta pesquisa, foram desenvolvidos os seguintes capítulos do presente trabalho. O primeiro capítulo apresenta o tema da pesquisa, justificando de maneira prática e teórica a realização da mesma. Define ainda os objetivos norteadores do estudo em pauta e os limites existentes no desenvolvimento da investigação. O segundo capítulo contém a revisão de literatura, na qual se apóia esta pesquisa. São apresentados os aglomerados da água; a importância das ligações de hidrogênio e da água em biossistemas; os tipos de confinamento; uma breve explicação sobre espectroscopia vibracional, com ênfase em espectroscopia Raman; alguns modos vibracionais dos aglomerados de água; e uma sucinta explicação a respeito de simulações computacionais. No terceiro capítulo são apresentados os estudos utilizados na realização da pesquisa. Com base nestes resultados, o quarto capítulo trata da descrição e comparação entre os resultados experimentais das amostras de mucosa normal (MN) e de hiperplasia fibrosa inflamatória (HFI), bem como sua relação com os resultados das simulações. O quinto capítulo faz uma síntese desses fatos e discorre sobre algumas características da água em biossistemas. Alem disso, apresenta algumas sugestões para possíveis futuros trabalhos e relata a continuidade do presente estudo. Por fim, o último capítulo traz as referencias bibliográficas consultadas na elaboração desta monografia. 19 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 LIGAÇÕES DE HIDROGÊNIO E AGLOMERADOS DE ÁGUA 2.1.1 Ligação de hidrogênio e sua importância De todos os tipos de forças moleculares a ligação de hidrogênio ocupa uma posição de destaque, uma vez que é suficientemente forte para produzir profundos efeitos na reatividade e na estrutura das moléculas [22]. Assim, as ligações de hidrogênio [22]: Modificam as propriedades físicas das moléculas, como a solubilidade, a volatilidade, o ponto de fusão e ebulição, a constante dielétrica, a velocidade de passagem de um composto por uma coluna cromatográfica, etc.; Determinam as propriedades da água; Influenciam fortemente a atividade enzimática; São importantes para a dinâmica dos sistemas biológicos; Em posições favoráveis, durante a reduplicação do DNA, são responsáveis por mutações genéticas; e Mecanismos de formação e destruição de ligações de hidrogênio podem explicar a ação enzimática do corpo humano, a contra-relaxação dos músculos, a atividade cerebral e a memorização. Em geral, a ligação de hidrogênio é definida pelas propriedades físicas e geométricas dos elementos que a formam. Conforme a definição de L. Pauling (1960), adaptada por M. Etter [27], a ligação de hidrogênio é a interação de um átomo de H , já covalentemente ligado, com um ou mais átomos, grupos de átomos ou moléculas, formando uma estrutura suficientemente estável para ser considerada uma espécie química independente (Figura 1). 20 Figura 1 – Esquema da ligação de hidrogênio na água. Fonte: http://dererummundi.blogspot.com Quimicamente, as atrações eletrostáticas entre os dipolos de duas moléculas de água tendem a orientá-las entre si de tal maneira que a ligação O–H de uma molécula de água volta-se para a nuvem do par de elétrons não-compartilhado do átomo de oxigênio da outra molécula de água [28]. Isto resulta em uma associação intermolecular direcionada conhecida como ligação de hidrogênio, uma interação decisiva tanto para as propriedades da própria água, como para o seu papel como solvente bioquímico [28]. De uma maneira geral, uma ligação de hidrogênio pode ser representada como D–HLA, onde D–H é um "grupo doador" fracamente ácido, como N–H ou O–H, e “A” está carregando um par não-compartilhado, ou seja, um "átomo aceptor" fracamente básico, como um N ou O [28]. Alguns exemplos de ligações de hidrogênio podem ser vistos na Figura 2. 21 Figura 2 - Ligações de hidrogênio por grupos funcionais. As ligações de hidrogênio formadas entre a água e (a) grupos hidroxila, (b) grupos cetônicos, (c) grupos carboxílicos e (d) grupos amino [28]. A via bifurcada, na qual cada doador é ligado por ligações de H a dois aceptores, é especialmente adequada para o estudo da dinâmica da ligação de hidrogênio em pequenos aglomerados de água, como tem sido observado para o dímero, trímero, pentâmero e hexâmero [29,30] e corresponde à via de menor energia para quebrar e fazer uma ligação de hidrogênio. Por essa via, um grupo D–H pode ser ligado a mais de um aceptor A ao mesmo tempo, A1 e A2, denominado doador bifurcado (Figura 3a); ou dois grupos doadores podem conectar-se a um único aceptor, designado aceptor bifurcado (Figura 3b) Figura 3 – Representação da ligação de hidrogênio bifurcada (a) no doador, (b) no aceptor 22 2.1.2 Considerações de simetria [31] Eixos de rotação (Cn) apresentam operações de simetria de rotação. O eixo-espelho, espelho, eixo de rotação-reflexão rotação ou eixo impróprio (Sn) possui a operação de simetria de rotação-reflexão. reflexão. Uma molécula apresenta um eixo de simetria (Cn) de ordem n (n eixos de simetria) se uma rotação de 360°/n 360 /n ao redor deste eixo levar a um arranjo que não pode ser distinguido do original. Se a molécula possuir um arranjo linear, linear então seu eixo será C∞. A Figura 4 mostra alguns exemplos de eixos Cn. Figura 4 – Exemplos de simetria Cn para eixos C2, C3 e C6. Já o eixo de simetria de rotação-reflexão (Sn) envolve duas manipulações: 1) rotação de 360°/n /n sobre um eixo designado Sn; 2) seguida de reflexão por um plano perpendicular ao eixo Sn, que pode estar fora da molécula. As Figuras 5 e 6 ilustram operações de simetria de rotação-reflexão. rotação Figura 5 – Exemplo de simetria Sn com uma molécula de trans-dicloroetileno. Rotacionando a molécula de trans-dicloroetileno em 180°° ao redor do eixo (S2), seguido por reflexão em um plano de reflexão, a orientação original da molécula é restabelecida. 23 Figura 6 – Exemplo de simetria Sn e Cn em carbono tetraédrico. Uma rotação de 90°° sobre um S4, seguido ou precedido de reflexão em um plano de reflexão restabelece a orientação original. Utilizando o mesmo plano de simetria é possível rotacionar a molécula em 180° 180° e obter a molécula idêntica à original (C2). As operações Cn e Sn não têm prioridade uma sobre a outra. Assim uma molécula pode ter simetria Cn e também Sn, conforme o exemplo da Figura 6. Moléculas que têm tê um eixo principal Cn e n eixos C2 em um plano perpendicular a Cn possuem simetria diédrica, cujo grupo pontual é denominado Dn. O grupo Dnd tem um eixo principal e n eixos C2 perpendiculares a ele. 2.1.3 Aglomerados de água A estrutura da água líquida é dinâmica e as moléculas de água no estado líquido podem alterar suas posições e orientações rapidamente [32]. Alguns aglomerados de água, citados nesta seção, podem po ser observados na Figura 7 como o dímero, trímero, tetrâmero, pentâmero e hexâmero. hexâmero 24 Figura 7 – Estruturas dos aglomerados de água, (H2O)n, sendo n = 2–8: (a) (H2O)2, (b) (H2O)3, (c) (H2O)4, (d) (H2O)5-cíclico, (e) (H2O)5-C2, (f) (H2O)6-cíclico, (g) (H2O)6-gaiola, (h) (H2O)6-prisma, (i) (H2O)7-baixo, (j) (H2O)7-próximo, (k) (H2O)8-D2d, (l) (H2O)8-S4 [33]. O arquétipo das ligações de hidrogênio na água é o dímero da água (Figura 7a). A distância O–O frequentemente está associada ao comprimento da ligação de hidrogênio, cujo valor é 2,952Å e a dissociação de energia dessas ligações de (H2O)2 é de 3,09kcal/mol, correspondendo ao ponto zero corrigido da energia de ligação (De) de 4,85kcal/mol [34]. Um dímero com apenas uma única ligação de hidrogênio, por exemplo, é facilmente acomodado em cavidades com diâmetro menor que 0,9nm, mas não é termodinamicamente estável [35]. O dímero da água apresenta três distintas vias de barreira de tunelamento fracas que reorganizam o padrão das ligações de hidrogênio (Figura 8). O aceitador de comutação (aceptor switching), tendo a menor barreira de todos os movimentos de tunelamento, estimada em 157 cm-1, é o movimento mais fácil de tunelamento [34]. Esta via de tunelamento troca os dois prótons na ligação de hidrogênio do monômero aceitador e começa com uma espécie de inversão do 25 monômero aceitador seguida por uma rotação do monômero doador em torno de sua ligação O–H doadora, finalizada por uma rotação de 180° do complexo sobre a ligação O–O [34]. -1 Figura 8 – Caminho da barreira de tunelamento do dímero da água em 157cm , -1 -1 207cm e 394cm [34]. O movimento de tunelamento divide cada nível de energia rotacionalvibracional em dois. O intercâmbio de tunelamento troca os papéis dos monômeros aceitador e doador das ligações de hidrogênio da água [34]. Existem vários caminhos possíveis para este intercâmbio, sendo o caminho de menor barreira o movimento de troca orientado. Este percurso começa com uma rotação do doador num ângulo θD e rotação do aceitador em torno do seu eixo C2 para formar uma estrutura do estado de transição “trans” (Figura 8) [34]. Isto é seguido por uma rotação do doador inicial sobre o seu eixo C2 e uma rotação inicial do aceitador no ângulo θA tal que ele se torna o doador. O trajeto se completa por uma rotação de 180° em torno do fim do complexo [34]. Cálculos com o potencial de tunelamento, rotação e vibração determinaram a barreira em 207cm-1 (Figura 8) [34]. O caminho de troca antiorientada também tem se mostrado importante e é semelhante ao caminho orientado, exceto por ter um estado de transição “cis”. O movimento de tunelamento divide cada nível de energia por uma quantidade muito menor que a comutação do aceitador resultando em dois conjuntos de três níveis de energia. O movimento de tunelamento bifurcado, no qual o doador da ligação de hidrogênio troca o seu próton, consiste de modo simultâneo no plano de movimentos libracionais do doador com 26 inversões do monômero aceitador. Isto é a via de tunelamento com a barreira mais alta (394cm-1), resultando numa pequena alteração do nível de energia [34]. O trímero de água (Figura 7b) é uma estrutura muito mais rígida que o dímero, sendo estabilizado por três ligações de hidrogênio [34]. A distância O–O no trímero, 2,85Å, é significantemente menor que sua correspondente no dímero. O trímero de água tem uma estrutura de equilíbrio cíclico quiral com cada monômero de água agindo como uma única ligação de hidrogênio doadora e aceitadora [36]. Todos os doadores das ligações OH são direcionados no mesmo sentido, padrão horário ou anti-horário, com os hidrogênios livres existindo alternadamente acima e abaixo dos planos dos átomos de oxigênio. Assim, os dois hidrogênios livres adjacentes no mesmo lado do anel facilitam movimentos de torção [34]. No caso do tetrâmero (Figura 7c), as ligações de hidrogênio são similares ao trímero, com cada monômero atuando como doador e aceitador e tendo um hidrogênio ligado e um livre. A média da distância O–O é mais curta: 2,79Å. Curiosamente, o tetrâmero de água acaba por ser mais difícil de caracterizar do que o trímero, como resultado de sua maior simetria (S4). [37,38,39,40] A alta simetria também impõe muito mais movimentos de tunelamento cooperativos e o rearranjo bifurcado não tem sido observado [34]. Essa evolução estrutural continua com o pentâmero (Figuras 7d e 7e), sendo muito similar ao trímero tanto na estrutura quanto na dinâmica [29,41,42]. Em contraste ao trímero, lamelas devido ao tunelamento da bifurcação foram observadas apenas para (H2O)5 e não para (D2O)5, devido à forte ligação de hidrogênio, ao forte acoplamento de torção e ao movimento de contração do anel no último caso [30]. Este acoplamento também exige o movimento de átomos pesados para os movimentos de torção e resulta em uma multiplicidade de torção muito mais densa e um grande número de transições de dipolo permitidas em baixas freqüências [43]. A ligação de H do pentâmero é quase linear e a distância O–O, de 2,76Å, está próxima ao valor encontrado para a água líquida e especialmente o gelo. O hexâmero representa a transição das ligações de hidrogênio da rede bidimensional para a rede tridimensional no seu arranjo mais estável (Figura 7g). Aqui 27 quatro monômeros formam três ligações de hidrogênio enquanto os dois monômeros dos picos (apical) permanecem duplamente ligados em uma estrutura de cadeia quase octaédrica [34]. Estes últimos monômeros engajam em um tipo de rearranjo bifurcado cooperativo, novamente imposto pela simetria da rede de ligação de hidrogênio. É notável que a estrutura mais estável do hexâmero de água, determinada na fase gasosa, assemelha-se a unidade básica de gelo VI. Nauta e Miller [44] determinaram uma estrutura cíclica do hexâmero em gotículas de hélio líquido, análogas às dos aglomerados menores e, curiosamente, essa estrutura se assemelha a forma de um anel de seis membros existentes em formas cristalinas do gelo, uma geometria topologicamente favorável. Embora experimentos de alta resolução ainda não tenham sido bem sucedidos para aglomerados maiores que o hexâmero (Figuras 7i, 7j, 7k e 7l), aglomerados (H2O)n, com n= 7, 8, 9, 10, têm sido observados em experimentos de baixa resolução IR [45,46,47] e as estruturas destes grupos foram determinadas através da comparação das freqüências vibracionais experimentais com os resultados de cálculos ab initio para várias estruturas. Esta análise sugeriu a existência das estruturas D2d e S4, ambas no octâmero, que correspondem aos anéis de tetrâmero empilhados. Também foi determinado que a estrutura do heptâmero deriva da estrutura do octâmero S4 pela remoção de um dos monômeros; uma estrutura nonâmero vem da expansão da estrutura cúbica D2d do octâmero, que por sua vez é composta de unidades do pentâmero e do tetrâmero; e que a estrutura dos decâmeros é semelhante à estrutura do octâmero D2d com as duas moléculas de água adicionais inseridas em cantos opostos. A principal distinção entre os aglomerados e o bulk está no fato de que os hidrogênios livres em aglomerados não são previstos para influenciar significativamente os movimentos intermoleculares de translação e libração, um tipo de oscilação que pode ocorrer nos eixos x, y e z [48]. Estudos da dinâmica da água líquida por simulações computacionais [49,50] em conjunto com experimentos de Keutsch e colaboradores [51] sugerem que os movimentos libracionais desempenham um papel central na dinâmica do estado líquido, porque constituem o movimento 28 dominante para o início da quebra das ligações de hidrogênio em redes extensas. Já os movimentos translacionais, por si próprios, não permitem uma quebra de ligação significativa, mas podem facilitar indiretamente a quebra pelo enfraquecimento das ligações de hidrogênio [52,49,50,53,54]. A interpretação das recentes medidas de relaxação dielétrica tem até mesmo sugerido que as moléculas de água que fazem apenas duas ligações de hidrogênio podem ser de especial importância para a dinâmica do bulk [55]. 2.2 ESTRUTURA DA ÁGUA CONFINADA Água confinada é encontrada muito facilmente na natureza em materiais porosos e granulares e também dentro e ao redor de macromoléculas, estruturas supramoleculares e géis [23]. O processo de confinamento gera uma competição entre a minimização energética da rede de ligações de hidrogênio formada, das interações com a superfície da cavidade e o ajuste ao espaço disponível para alocar as moléculas [13]. As propriedades físicas e o estado da água confinada podem sofrer grandes variações dependendo das características moleculares da superfície da cavidade, das dimensões do confinamento, da temperatura e da pressão [24,23]. Quando as dimensões de confinamento estão em escalas nanoscópicas estas mudanças são especialmente drásticas [23]. 2.2.1 Confinamento Hidrofóbico Quando confinada em cavidades compostas de superfícies hidrofóbicas como, por exemplo, nanotubos de carbono, o comportamento da água é similar àquele observado em interfaces líquido-gás, com exceção de que o confinamento impede o livre movimento da água na direção da superfície e interações de van der 29 Waals direcionam as moléculas mais externas em direções preferenciais relativas aos átomos da superfície [56]. Muitos trabalhos teóricos e experimentais têm se preocupado com o problema da água confinada em nanotubos [57,58,59,60]. A principal interação neste caso são as forças de van der Waals, que irão variar dependendo do tipo de nanotubo e de seu diâmetro. Os orbitais π dos carbonos da superfície podem ainda ser polarizados pelas moléculas de água e causar efeitos significativamente diferentes daqueles esperados em cilindros hidrofóbicos uniformes [56,61,62]. O sistema nanotubo+água tem mostrado-se um bom condutor de prótons devido ao efeito Grotthuss, pelo qual, um "próton em excesso" ou defeito protônico se difunde através da rede de ligações de hidrogênio de moléculas de água ou de outros líquidos ligados, através da formação de ligações covalentes [63]. Após a adição de um próton para um final de uma cadeia de hidrogênios ligados, a ligação de hidrogênio lançada abaixo da cadeia libera um próton diferente, porém idêntico ao da outra extremidade dessa cadeia, também denominada de “fio d’água”. Assim, os prótons movem-se mais rápido quando uma cadeia unidimensional de ligações de hidrogênio ordenadas facilita o seu movimento [64]. Fios de água são tão eficientes na transferência de prótons que são deliberadamente interrompidos em canais transmembrana, denominados aquaporina, responsáveis, em parte, pela alta permeabilidade de muitas células à água. No meio destes canais, as moléculas de água são reestruturadas, de modo a evitar ligações de hidrogênio seqüenciais e a transferência facilitada do próton resultante [65]. Em simulações, tem-se mostrado que a penetração da água em nanotubos é modulada por pequenas mudanças na polaridade da parede e nas dimensões da cavidade [56,66,35]. Trabalho recente de Takaiwa et al. [67] propôs um diagrama de fase para a água confinada em nanotubos com diâmetros menores do que 1,7 nm, onde há pelo menos nove fases possíveis dentro do espaço cilíndrico. Um comportamento similar ao da água em camadas superficiais deve ser esperado em quaisquer confinamentos hidrofóbicos. Estudos de simulação da água em minúsculos poros hidrofóbicos indicam o desaparecimento da transição líquido-líquido [68] ou a sua mudança para temperaturas mais baixas [69]. Em um confinamento fortemente 30 hidrofóbico o ponto triplo da água desloca-se aproximadamente 7oC para temperaturas mais baixas [70]. 2.2.2 Confinamento Hidrofílico Quando em cavidades hidrofílicas, tipicamente constituídas por sílica, a água irá condensar da fase gasosa à fase vítrea gerando ao menos quatro camadas de água absorvida [71]. Há forte competição entre as interações polares, as ligações de hidrogênio superficiais e as ligações de hidrogênio água-água. A água mais próxima à parede de sílica é altamente estruturada, fortemente dependente da natureza da superfície e de caráter bem distinto da água mais interna, como demonstrado por estudo de infravermelho [71] e Raios-X [72]. Fouzri et al. [73] mostraram que mesmo os segundos vizinhos à superfície são afetados consideravelmente pela competição entre a água superficial e efeitos de confinamento. Outro efeito interessante observado em regimes de confinamento hidrofílico menores do que 2 nm é o aumento abrupto de cerca de 1x106 vezes na viscosidade da água [74], o que não se observa em ambiente hidrofóbico. O confinamento também pode causar aumento ou diminuição dos pontos de fusão, dependendo da superfície e do espaço disponível. Espera-se uma correlação inversa entre o aumento no ponto de ebulição e diminuição do ponto de congelamento com o diâmetro capilar, devido ao efeito Gibbs-Thomson. Por este efeito, a temperatura de solidificação de um líquido é reduzida em virtude da tensão superficial. Todavia, efeitos opostos podem ocorrer, como o gelo que forma-se a 400 K nos poros de 0.6-1.0 nm de vidros [75]. Simulações computacionais [24] mostram ainda que a água pode experimentar significativas variações em sua densidade e viscosidade se a separação da superfície é variada, com a água indo de líquido a sólido e a líquido novamente, quando a separação varia de 0,58 nm a 0,53 para 0,47 nm. Em condições onde não é possível estabelecer uma estrutura ordenada estável, a água confinada sofre grandes flutuações de densidade na tentativa de otimizar a sua estrutura dentro das restrições de confinamento [24]. 31 2.3 PROCESSO INFLAMATÓRIO EM TECIDOS BIOLÓGICOS 2.3.1 Mecanismo da Inflamação Entende-se como inflamação a reação local dos tecidos vascularizados à agressão. O processo inflamatório é uma resposta tissular, que ocorre basicamente no tecido conjuntivo, logo, é um fenômeno essencialmente mesenquimático [76]. A inflamação é uma das respostas primárias para a infecção [77]. Se uma parte do corpo está para ser contaminada por bactérias, como pode ocorrer após um ferimento por corte na pele, o local da ferida se tornará um “imã” para uma variedade de células brancas do sangue [77]. As células brancas do sangue (leucócitos), que normalmente permanecem na corrente sanguínea, são, em vez disso, estimuladas a atravessar a camada endotelial que reveste as menores veias (vênulas) na região e a entrar no tecido. Uma vez no tecido, os leucócitos se movem em resposta aos sinais químicos em direção aos microorganismos invasores, os quais eles fagocitam [77]. Desde muito tempo a inflamação vem sendo relacionada com o calor, do latim: inflamatio, onis = incêndio ou do grego flogose, phleg ou phlogos = queimar [76]. O médico romano Aulus Cornellius Celsus (50 a.C) já descrevia a inflamação como: rubor, tumor, calor e dor (como sendo os quatro sinais clássicos da inflamação) [76]. O rubor é resultado da vasodilatação, o tumor é causado principalmente pelo acúmulo de líquido no local [76]. A sensação de calor é resultado do rápido acúmulo de sangue arterial com temperatura mais elevada na região [76]. A dor apresenta mecanismo complexo: a distensão dos tecidos, a estimulação de terminações nervosas livres e a lesão direta tecidual pelo agente agressor [76]. Outro sinal clínico, o aumento da permeabilidade vascular, é observado sob a forma de edema [78]. A passagem de proteínas plasmáticas (albumina, globulinas e fibrinogênio) para o meio extravascular altera a diferença entre as pressões osmóticas intra e extravascular, favorecendo a saída de água e eletrólitos do vaso, que leva ao aparecimento de edema [78]. 32 Várias células e fragmentos de células estão envolvidos no processo inflamatório, dentro das veias e fora delas, no tecido conjuntivo. Além de leucócitos, macrófagos e plaquetas, as fibras também participam deste processo, como é o caso do colágeno. Num processo inflamatório, as decisões de “ir” ou “não ir” são baseadas em uma série de sinais moleculares em resposta a traumas, lesões, infecções, toxicidade, etc. [79]. Se em qualquer passo for emitido um sinal para avançar, mas este for bloqueado na próxima etapa, o processo inflamatório pode executar uma ação padrão, como a infiltração de um tecido com agregados de linfócitos e leucócitos que às vezes são incorporados na proliferação de fibroblastos sinoviais (pannus), ou distorção de um tecido com feixes de colágeno (fibrose) [79]. 2.3.2 Espécies reativas de nitrogênio e oxigênio (RNOS) e a bioquímica da inflamação [80,81] Diversas reações do nosso organismo dependem da presença do oxigênio, que é essencial a vida, mas também é tóxico. As reações de oxidação são usadas na cadeia respiratória para a síntese de adenosina trifosfato (ATP). Os elétrons liberados durante a glicólise e ciclo de Krebs são oxidados na mitocôndria e, a partir da adenosina difosfato (ADP) e fosfato inorgânico (Pi) produzem ATP. Entretanto, quando o O2 aceita elétrons singletos é transformado em radicais de oxigênio altamente reativos, que causam danos às células lipídicas, protéicas e ao DNA. Esses danos contribuem a morte/envelhecimento celular e a presença de patologias. Os radicais são compostos que contêm um elétron singleto, geralmente em um orbital externo. O oxigênio é um biradical, ou seja, possui dois elétrons desemparelhados em orbitais separados. Através de processos enzimáticos e nãoenzimáticos que ocorrem repetidamente nas células, o O2 aceita elétrons singletos para formar espécies reativas de oxigênio (ROS). ROS são radicais de oxigênio altamente reativos ou compostos que são facilmente convertidos nas células para 33 radicais reativos. Podem ser geradas por processos enzimáticos ou não-enzimáticos como subprodutos acidentais de ubiquinona (coenzima usualmente abreviada como CoQ) ou de enzimas contendo metais (como por exemplo, citocromo P450, xantina oxidase e NADPH oxidase). As ROS estão sendo formados constantemente; aproximadamente 3 a 5% do oxigênio que consumimos é convertido em radicais livres de oxigênio. Alguns são subprodutos acidentais de reações enzimáticas normais que escapam do sítio ativo das enzimas que contêm metais durante reações de oxidação. Outros, como o peróxido de hidrogênio, são produtos fisiológicos de oxidases nos peroxissomas. A produção proposital de radicais livres ocorre em respostas inflamatórias. O uso de medicamentos, a radiação natural, a poluição do ar e outros fatores químicos também podem aumentar a formação de radicais livres nas células. As ROS formadas pela redução de O2 são radicais superóxido (O2-), o não-radical peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH·). O radical hidroxil, por exemplo, causa danos oxidativos às proteínas e ao DNA. Também forma peróxidos de lipídio e malondialdeído nas membranas lipídicas contendo ácidos graxos poliinsaturados. Em alguns casos, os danos por radicais livres são a causa direta de doenças (como é o caso dos danos aos tecidos devido à exposição à radiação ionizante). Em doenças neurodegenerativas, como o mal de Parkinson, ROS podem perpetuar os danos celulares causados por outros processos. Em proteínas, os aminoácidos prolina, histidina, arginina, cisteína e metionina são particularmente suscetíveis ao ataque de radicais hidroxil e danos oxidativos. Como conseqüência dos danos oxidativos, as proteínas podem fragmentar ou cruzar as ligações dos resíduos com outros resíduos. O ataque dos radicais livres nos resíduos de cisteína das proteínas pode resultar em cross-linking e formação de agregados que previnem sua degradação. Entretanto, os danos oxidativos aumentam a suscetibilidade de outras proteínas à digestão proteolítica. Os radicais de oxigênio estão combinados em seus danos destrutivos aos radicais livres de oxido nítrico (NO) e as espécies reativas de oxigênio de ácido 34 hipoloroso (HOCl). NO combina com O2 ou superóxido para formar espécies reativas de oxigênio, como o não-radical peroxinitrito ou o radical dióxido de nitrogênio. O oxido nítrico é um radical livre que contém oxigênio e que também é essencial para a vida e tóxico. NO possui um elétron singleto e, além disso, se liga a outros compostos que possuem elétrons singletos, como Fe3+. Como um gás, se difunde através do citosol, membranas lipídicas e dentro das células. Fisiologicamente, em baixas concentrações, funciona como um neurotransmissor e um hormônio que ocasiona a vasodilatação. Entretanto, em altas concentrações, ele se combina com O2 ou com superóxido para formar reativos adicionais e espécies tóxicas que contém nitrogênio e oxigênio (RNOS). RNOS estão envolvidos em doenças neurodegenerativas, como o mal de Parkinson e processos inflamatórios crônicos, como a artrite reumatóide. Em resposta aos agentes infecciosos e outros estímulos, células fagocíticas do sistema imune (neutrófilos, eosinófilos e monócitos/macrócitos) exibem um rápido consumo de O2, denominado explosão respiratória. A explosão respiratória é a maior origem de superóxido, peróxido e hidrogênio, o radical hidroxil, ácido hipocloroso (HOCl) e RNOS. Essa geração de radicais livres é parte da defesa antimicrobiana humana, cujo objetivo é destruir microorganismos invasores, células tumorais e outras células que devem ser removidas. A explosão respiratória resulta da atividade da NADPH oxidase, que catalisa a transferência de um elétron do NADPH para o O2 para formar o superóxido. O superóxido é liberado no espaço intramembranoso do fagolisosssomo, onde é geralmente convertido em peróxido de hidrogênio e outras ROS efetivas contra bactérias e fungos patógenos. Quando os neutrófilos do sistema imune são ativados para produzir NO, a NADPH oxidase também é ativada. NO reage rapidamente com o superóxido para gerar peróxinitrito, que forma RNOS adicionais. Em alguns quadros patológicos, os radicais livres liberados pelos neutrófilos e macrófagos durante a inflamação contribuem para a injúria dos tecidos. RNOS estão presentes no ambiente (como na fumaça do cigarro) e também são gerados nas células. Durante a fagocitose pela invasão de 35 microorganismos, as células do sistema imune produzem O2-, HOCl e NO através das ações de NADPH oxidase, mieloperoxidase e óxido nítrico sintetase, respectivamente. Além de matar microorganismos invasores fagocitados, estes metabolismos tóxicos podem danificar componentes do tecido. As células se protegem contra os danos por ROS e outros radicais através de processos de reparo, compartimentalização da produção de radicais livres, enzimas de defesa e antioxidantes endógenos e exógenos. A enzima de defesa superóxido dismutase (SOD) remove o radical superóxido livre. Catalase e glutationa peroxidase removem peróxidos de hidrogênio e peróxidos de lipídio. Vitamina E, vitamina C e flavonóides das plantas agem como antioxidantes. Perturbações nesse equilíbrio redox geram o estresse oxidativo, que ocorre quando a taxa de geração de ROS excede a capacidade das células em removê-las. 2.3.3 Hiperplasia Fibrosa Inflamatória [82] A hiperplasia fibrosa inflamatória (HFI) é um processo proliferativo nãoneoplásico freqüentemente diagnosticado nos tecidos bucais. Ocorre principalmente por traumas crônicos de baixa intensidade, devido a próteses mal adaptadas ou hábitos parafuncionais. As alterações histopatológicas das hiperplasias fibrosas inflamatórias são observadas em epitélio e tecido conjuntivo. No tecido conjuntivo, há aumento na quantidade das fibras colágenas e alteração no padrão de maturação dessas fibras, as quais se apresentam mais espessas e com disposição aleatória. Observa-se que em processos hiperplásicos inflamatórios, o colágeno é a proteína mais alterada. 36 2.3.4 Colágeno O colágeno é a proteína mais abundante em vertebrados [81] e está presente somente em matrizes extracelulares [77]. Uma fibra de colágeno consiste numa tripla hélice com três cadeias polipeptídicas polipeptídicas torcidas sobre si mesmas como em uma corda trançada [81],, de alta resistência a tração [77] (Figura 9). ). Estima-se que uma fibra de colágeno de 1 mm de diâmetro seja capaz de suspender um peso de 10kg sem quebrar [77]. O tropocolágeno, tropocolágeno como é denominado a tripla hélice do colágeno, colágeno possui 300 nm de comprimento e 1,5 nm de diâmetro. As três fitas itas são mantidas unidas por ligações de hidrogênio, envolvendo resíduos de hidroxiprolina e hidroxilisina. Cada uma dessas fitas contém cerca de 800 resíduos de aminoácidos [81]. Figura 9 – Ilustração esquemática da tripla hélic de colágeno. hélice Fonte: Adaptado de Campbell [81]. Cada ada cadeia de colágeno possui uma seqüência de aminoácidos que pode ser considerada uma repetição do mesmo tripeptídeo, glicina-hidroxiprolinaglicina prolina [81] (Figura 10).. Algumas variações são possíveis, mas a glicina deve estar presente em cada terceira posição ao longo da cadeia, e a maioria dos outros resíduos é formada de prolinas ou hidroxiprolinas [81].. Esses aminoácidos possuem cadeias laterais com propriedades únicas [77].. A glicina usualmente está presente nos locais 37 onde dois polipeptídeos estão próximos, sua cadeia lateral consiste em apenas um átomo de hidrogênio e pode adequar-se a um ambiente hidrofílico ou hidrofóbico [77]. Já a prolina, embora tenha a cadeia lateral com caráter hidrofóbico, apresenta a propriedade única de criar dobras na cadeia polipeptídica [77]. O grupo hidroxil da hidroxiprolina auxilia a manter seu anel em uma conformação que estabiliza a tripla hélice [77]. Figura 10 – Estrutura geral da prolina, glicina e hidroxiprolina. No colágeno também ocorrem ligações covalentes, tanto intra como intermoleculares, formadas por reações entre resíduos de lisina e histidina [81]. A quantidade de ligações cruzadas em um tecido aumenta com a idade. É por isso que a carne de animais mais velhos é mais dura do que a de animais mais jovens [81]. 2.4 O PAPEL DA ÁGUA EM BIOSSISTEMAS Conforme Chaplin [13], um dos principais pesquisadores em estrutura e ciência da água, ainda hoje, muito do material publicado a respeito de moléculas biológicas ignora o papel central da água na máquina da vida. Recentemente, entretanto, tornou-se mais claro o seu lugar como “principal jogadora” e também “a mais versátil”, em biologia celular e molecular [13]. Em muitos sistemas biológicos a água encontra-se confinada em regiões hidrofílicas e/ou hidrofóbicas específicas. Por esta razão, vários estudos recentes têm se preocupado em estudar o comportamento da água confinada [2,3,4,5,6,7,8,9,10]. 38 A interação da água com sua vizinhança hidrofílica e não-hidrofílica é de fundamental importância. De fato, resultados de espectroscopia no infravermelho e simulações de dinâmica molecular [3] tem dado evidências de que o mecanismo pelo qual a água se acopla aos seus vizinhos via ligações de hidrogênio é bastante complexo, e as configurações ligadas por interações não-ligações de hidrogênio desempenham um papel fundamental neste mecanismo. Em sistemas biológicos, a água caracteriza-se pelo hidrogênio ligado quer a biomoléculas (proteínas) ou intermolecular a outras moléculas da água [83]. Moléculas de água sem ligações de hidrogênio com as biomoléculas são normalmente denominadas água livre, embora possuam hidrogênios ligados a outras moléculas de água em uma estrutura tetraédrica [83]. Gniadecka e colaboradores [83] observaram por espectroscopia Raman que em estrato córneo, unhas, e toda a pele, a água apresenta-se principalmente na forma ligada. Embora a proporção de água livre e ligada na pele ainda não tenha sido definida conclusivamente, devido à ausência da banda de água livre nas amostras estudadas, eles especulam que mais de 90% do total de moléculas de água em toda a pele, estrato córneo e unhas estão em formas ligadas [83]. A água é uma parte integrante de muitas biomoléculas. Em particular, a água não está presente apenas para preencher o espaço disponível dentro e em torno das proteínas biológicas [84]. As interações proteína-água estabelecem e moldam o panorama de energia livre que governa a atividade, estrutura, estabilidade e dobramento das proteínas [85]. As proteínas se dobram rapidamente para formas tridimensionais bem definidas que dependem da seqüência primária de seus aminoácidos. Para que isso seja possível, é necessário um mecanismo que envolva ligações flexíveis, permutáveis e extensíveis. A ligação de hidrogênio mediada pela água é ideal para esta finalidade, de forma que tem sido proposto que o enovelamento de proteínas é mediado e orientado pela solvatação aquosa [86]. Um papel essencial da água está relacionado ao seu efeito hidrofóbico. A interação hidrofóbica é responsável por vários processos biológicos importantes: para a agregação dos lipídios anfifílicos em bicamadas, com suas caudas hidrofóbicas 39 “ocultas” a água e suas cabeças hidrofílicas na superfície, para a fixação de resíduos hidrofóbicos em cadeias polipeptídicas que ajudam as proteínas a dobrar e manter suas formas compactas e para a agregação das subunidades protéicas em várias subunidades das estruturas quaternárias [87]. A explicação convencional é que, a fim de acomodar uma espécie hidrofóbica, a rede de hidrogênio-ligado deve ser interrompida para criar um vazio [87]. Mas isto pode ser feito de tal maneira a evitar alterações entálpicas pela perda das ligações de hidrogênio, se as moléculas de água auto-organizarem ao redor do hidrófobo de forma relativamente ordenada [87]. As moléculas de água ocupam sítios específicos e formam aglomerados localizados, com estruturas que são determinadas pelas suas capacidades de formarem ligação de hidrogênio e pela estrutura da proteína [13]. Esses aglomerados de água conferem à água líquida um caráter heterogêneo, que pode mudar com as diferentes condições físicas e ambientais [13]. Os átomos de biomoléculas podem substituir uma ou todas as ligações ao redor de cada molécula de água, afetando a estrutura das moléculas de água adjacentes e os grupos biomoleculares, bem como partes distantes desses grupos e moléculas ligadas de modo secundário [13]. A rápida troca de parceiros (1-100 picossegundos) permite que a forma da superfície de uma biomolécula mude, mas não altere significativamente outros efeitos de hidratação, como a direção da rede e a intensidade das ligações de hidrogênio [13]. Na maioria das proteínas globulares, as moléculas de água estão presentes em quantidades similares à quantia de cada um dos aminoácidos presentes, ocupam cavidades e muitas delas são tão essenciais para a função quanto os aminoácidos [85]. Como as moléculas de água e seus aglomerados são extremamente alojáveis em termos de sua orientação e distribuição espacial, eles podem diminuir a barreira de potencial entre os mínimos de energia dos sistemas vizinhos. A água pode, portanto, funcionar como um lubrificante uma vez em que facilita os rearranjos necessários das ligações de hidrogênio com grupos carbonil-amida peptídeo durante as alterações conformacionais, que dão às proteínas a flexibilidade que precisam para suas funções [88]. As ligações de hidrogênio das moléculas de água e seus aglomerados podem também funcionar como "garras mecânicas" que transmitem o 40 movimento relativo entre as subunidades e domínios, dependendo das circunstâncias [13]. Uma quantidade específica de água é necessária para a atividade biológica de todas as proteínas. Mesmo as enzimas aparentemente “secas” na presença de substratos de fase gasosa não mostram atividade sem a presença de um pouco de água [89]. Evidências recentes indicam a necessidade de uma rede de ligações de hidrogênio, cobrindo a maior parte da superfície de uma enzima, para que haja atividade enzimática [90]. Além disso, a rede de moléculas de água une elementos estruturais secundários na proteína e, deste modo, determina não apenas os pormenores de uma estrutura protéica, mas também quais são as vibrações moleculares preferidas [90]. Normalmente há uma estreita relação entre a perda entálpica e o ganho entrópico das moléculas de água que estão sendo deslocadas. Por outro lado o ganho entálpico e a perda entrópica da interação da proteína ligante que está se formando também estão relacionados. Este balanço energético facilita tanto a formação de ligação quanto sua quebra [91]. No entanto, as moléculas de água podem permanecer no local quando uma nova interação é formada e, juntamente com ligações periféricas causadas pela hidratação, podem afetar a estereoquímica, especificidade e dinâmica do processo de ligação [92]. As moléculas de água ordenadas podem facilitar tanto a transferência de elétrons, como a transferência de prótons. Na transferência de elétrons entre sítios biomoleculares redox, aglomerados de água estruturados próximo a cofatores redox aceleram a transferência de elétrons pela produção de vias de tunelamento acopladas fortemente entre o elétron doador e o elétron aceitador [93]. Na transferência de prótons ocorre um processo denominado mecanismo Grotthuss, em que os prótons podem mover-se rapidamente em meio aquoso [64]. Em biomoléculas, tanto a estrutura do DNA quanto o reconhecimento crucial da sua seqüência são dependentes de interações aquosas, com a expansão e contração da hélice do DNA em função de seu status de hidratação [94]. A hidratação no sulco menor (como por exemplo, do B-DNA, Figura 11) tem um padrão complexo 41 que inclui águas hexagonais na coluna inicial de hidratação, hidratação secundária, e hidratação externa até a quarta superfície aquosa [95]. Esta seqüência de hidrataçãodependente pode funcionar como uma “impressão digital de hidratação” para uma determinada seqüência de DNA, o que permite o entendimento da seqüência de bases do lado de fora dos sulcos pelas proteínas, e a detecção rápida e lubrificada da seqüência do DNA [96]. Figura 11 – Ilustração dos sulcos do B-DNA. O B-DNA é a forma mais comum de DNA, que o DNA assume quando em solução. Se pensarmos na hélice de B-DNA como uma estrutura cilíndrica, com cerca de 2 nm de diâmetro, notaremos que a superfície da molécula é irregular, formando 2 sulcos ou depressões, de tamanhos diferentes, que giram ao longo de todo o seu comprimento. O sulco menor resulta da depressão entre as duas cadeias complementares, enquanto que o sulco maior resulta da depressão existente entre os giros adjacentes da hélice. Os sulcos são importantes porque deixam superfícies livres para a interação entre o B-DNA e as proteínas. Fonte: Adaptado de http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/bookres.fcgi/mga/ch2f3.gif Ao contrário de alguns estudos de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) [97] e a maior parte dos estudos de dinâmica molecular [98], o estudo de Ruffle et al. [99] indica que a água dentro das células se comporta de modo diferente da água do lado de fora. A viscosidade da água intracelular, por exemplo, é mais elevada e sua capacidade de difusão é menor, como foi observado por RMN [100]. De fato, argumentos convincentes propõem que o meio intracelular é um gel [101], um cristal 42 líquido [102] ou é formado por estruturas aquosas extensivamente polarizadas [103]. Muitas moléculas estão presentes nas células e uma alta proporção de água, osmoticamente inativa, está associada a interações biomoleculares [104]. Além disso, a hidratação intracelular pode ser um fator primordial na carcinogenesis, uma vez que as células cancerosas contêm água mais livre do que as células normais, e o grau de malignidade aumenta com o grau de hidratação celular [105]. Uma possível explicação para o fato é que o aumento da hidratação facilita a aceleração dos processos intracelulares, incluindo a respiração, o que reforça a vantagem competitiva de uma célula cancerosa para a utilização de nutrientes [13]. 2.5 MICELAS REVERSAS Os tensoativos ou surfactantes são os agentes de superfície que, por serem constituídos por moléculas anfipáticas (ou anfifílicas: possuem uma ou mais cadeias não polares e uma parte polar), são capazes de mudar a estrutura da água [28]. Espontaneamente em meio aquoso formam estruturas auto-organizadas, como agregados esféricos (chamados micelas - Figura 12), cilíndricos, planares (lamelas), etc. As propriedades estruturais e dinâmicas de filmes destas moléculas adsorvidas são importantes para a pesquisa básica e aplicada [106]. Um grande número de processos químicos, físicos e biológicos ocorre em interfaces sólido-líquido ou líquido-líquido, em escala molecular [107]. Figura 12 – Ilustração esquemática de (a) micela e (b) micela reversa. 43 Todas as moléculas ou íons dissolvidos na água interferem com as ligações de hidrogênio de algumas moléculas de água que estão na sua vizinhança imediata [108]. Solutos polares ou carregados compensam a perda de ligações de hidrogênio água-água, formando novas interações água-soluto, cuja variação de entalpia (∆H), em uma dissolução, é pequena [108]. Entretanto, solutos hidrofóbicos, não oferecem essa compensação e sua adição à água pode resultar num pequeno ganho de entalpia, pois a quebra de ligações de hidrogênio entre as moléculas de água retira energia do sistema [108]. Além disso, a dissolução de compostos hidrofóbicos a água resulta em uma diminuição mensurável na entropia [108]. As moléculas de água nas vizinhanças imediatas de um soluto não-polar apresentam uma restrição em relação as suas possíveis orientações, à medida que formam um arcabouço semelhante a uma gaiola, altamente organizado, ao redor de cada molécula de soluto [108]. Essa organização das moléculas da água diminui a entropia e, por conseguinte, o número de moléculas de água organizadas é proporcional à área da superfície do soluto hidrofóbico, preso dentro da gaiola de moléculas de água. Assim, a variação da energia livre para dissolver um soluto nãopolar na água é desfavorável ∆G = ∆H – T∆S, onde ∆H tem um valor positivo, ∆S um valor negativo, e ∆G é positivo [108]. Compostos anfipáticos possuem regiões polares (ou carregadas) e regiões não-polares. Quando um composto anfipático é misturado com água, a região hidrofílica polar interage favoravelmente com o solvente, que tende a se dissolver; mas a região hidrofóbica não-polar tende a evitar o contato com a água. As regiões não-polares das moléculas se agregam, apresentando, assim, a menor área hidrofóbica ao solvente, e as regiões polares são arranjadas para maximizar a sua interação com o solvente [108]. Essas estruturas estáveis de compostos anfipáticos na água, chamadas micelas, podem conter centenas ou milhares das moléculas. As forças que mantém juntas as regiões não-polares das moléculas são chamadas interações [108]. A força dessas interações não é devido a nenhuma atração intrínseca entre as moléculas nãopolares [108]. Ao contrário, ela resulta do fato do sistema atingir a maior estabilidade 44 termodinâmica, minimizando o número de moléculas de água ordenadas, requeridas para envolver as regiões hidrofóbicas das moléculas do soluto [108]. Muitas biomoléculas são anfipáticas: proteínas, pigmentos, algumas vitaminas, esteróides e fosfolipídeos de membranas têm regiões superficiais polares e não-polares. As estruturas que compõem essas moléculas são estabilizadas por interações hidrofóbicas ao longo das regiões não-polares [108]. As interações hidrofóbicas entre lipídios e entre lipídios e proteínas são os determinantes mais importantes da estrutura das membranas biológicas [108]. As interações hidrofóbicas entre aminoácidos não-polares também estabilizam o enovelamento tridimensional das proteínas [108]. As pontes de hidrogênio entre as moléculas de água e os solutos polares também provocam alguma organização das moléculas da água, mas o efeito e significativamente menor que aquele observado com solutos não-polares [108]. Parte da força de ligação de um substrato polar (reagente) à superfície complementar polar de uma enzima provém do aumento da entropia, à medida que a enzima desloca a água organizada ao redor do substrato [108]. Neste sentido, micelas reversas têm se mostrado como um modelo de pesquisa convincente de água confinada em sistemas biológicos [109]. As micelas reversas se formam quando misturas de água, surfactantes e solventes não-polares são combinados em concentrações apropriadas. Uma vez que elas mantêm uma forma quase esférica sobre uma ampla gama de hidratação, a simples relação da concentração de água pela concentração do surfactante fornece informações sobre os tamanhos das estruturas [25]. Tal relação é dada pelo parâmetro wo (“water in oil”), wo=[água]/[surfactante]. As dimensões do interior das micelas reversas são similares aos espaços da água confinada encontrada nas cavidades de sistemas biológicos [110]. Esses pacotes de água são pensados para serem envolvidos com dobras e relaxação em proteínas. Além disso, micelas reversas existem em bicamadas lipídicas das membranas durante a formação do endossomo. Micelas reversas também têm sido usadas como modelo (gabarito) para a síntese de nanopartículas [110]. 45 Investigações diretas da água intramicelar, pelo uso do estado estacionário e espectroscopia IR, têm definido que a ligação de hidrogênio das moléculas de água próximas à interface do surfactante diferem daquelas da água no núcleo (core) das micelas [111]. Numa micela reversa pequena, toda água essencialmente está localizada na superfície (shell) e quanto maior a micela, o efeito de confinamento se torna menos pronunciado [111]. Baruah et al. [111], utilizando NMR, observaram que conforme w0 aumenta, a quantidade de água no núcleo (core) das micelas reversas aumenta, enquanto a água na camada da casca (shell) permanece aproximadamente a mesma. Em seus experimentos eles observaram que as posições dos picos para as mesmas características apareciam em diferentes deslocamentos químicos em micelas reversas e soluções aquosas bulk. Além disso, a largura dos picos aumenta com o decaimento do tamanho das micelas. Com a redução do tamanho das micelas reversas há um significante decaimento dos tempos de relaxação da rede (T1) de spin, o qual poderia refletir em alterações na viscosidade, uma vez que a relaxação depende da habilidade da molécula se mover [112]. A literatura relata que com a diminuição da temperatura, a largura dos picos aumenta e T1 diminui, compatível com a mobilidade cada vez mais limitada de locomoção, como em amostras frias [113]. Observações similares a essas também foram feitas por Baruah et al. [111]. O advento das novas ferramentas experimentais e computadores mais rápidos prometem divulgar mais detalhes sobre a água em volumes nanoscópicos [25]. Começando com sistemas micelares reversos simplificados, podemos começar a entender como a água se comporta de modo diferente quando confinada em cavidades biológicas e como essas “piscinas” afetam as funções biológicas [25]. 46 2.6 ESPECTROSCOPIA VIBRACIONAL E MODOS VIBRACIONAIS DA ÁGUA A energia total de uma molécula é dada pela soma das energias eletrônicas, vibracionais e rotacionais; além das energias cinética, nuclear, entre outras. Uma molécula pode absorver ou emitir energia como resultado da transição entre diferentes níveis eletrônicos, vibracionais e/ou rotacionais. O estudo destas emissões ou absorções da radiação eletromagnética denomina-se espectroscopia molecular [22]. Assim, quando um quantum de energia, h.ν, incide sobre uma molécula, por exemplo, ela pode passar de um estado energético E1 para um estado E2 de maior energia, tal que: ∆E = E2 − E1 = h.ν = h.c.ν (2.6.1) Sendo υ, a freqüência incidente, (dada em s-1), h a constante de Planck, ν o número de onda (expresso em cm-1) e c a velocidade da luz [22]. Quando a radiação eletromagnética atinge a molécula A – B, ela pode acoplar-se com o momento dipolar de A – B, induzindo uma vibração a A – B e ser absorvida. A freqüência de vibração de estiramento da ligação ν= 1 = 2πc f (m A + m B ) m A .mB A – B é dada por (2.6.2) Onde ν o número de onda em cm-1, f a força, expressa em dinas.Å, c a velocidade da luz em cm.s-1 e mA e mB as massas dos átomos A e B dadas em gramas [22]. Essa equação mostra que o principal fator que determina a freqüência de vibração de um grupo A – B é a sua elasticidade, dada pela constante de força e a massa relativa dos grupos A e B. Desse modo, a freqüência de absorção de grupos de átomos com massa e/ou constante de força diferentes devem absorver em freqüências que lhes são características [22]. Conforme Siebert e Hildebrandt [114], a espectroscopia vibracional é uma ferramenta de analítica que investiga o período de oscilação dos átomos em uma molécula. Essas oscilações não ocorrem aleatoriamente, mas de um modo precisamente definido. Isso pode ser facilmente entendido levando-se em 47 consideração que uma molécula com N átomos tem 3N graus de liberdade, dos quais três se referem a translações e três (dois) correspondem a rotações em casos de estruturas não-lineares (lineares) das moléculas. Os graus de liberdade representam 3N-6 (3N-5) vibrações de moléculas não-lineares (lineares) denominadas de modos normais [114]. Em cada modo normal, cada átomo oscila em fase com a mesma freqüência, embora com amplitudes diferentes. No entanto, a freqüência, primeira propriedade observável em espectroscopia vibracional, tem uma dependência sensível nas forças que atuam em átomos individuais e as respectivas massas [114]. Estas forças não resultam apenas das ligações químicas que conectam os átomos individuais, mas também incluem contribuições provenientes de interações de ligação dentro das moléculas e com o ambiente molecular [114]. Portanto, as freqüências dos modos normais constituem uma assinatura característica da constituição química, da estrutura e da distribuição de densidade eletrônica da molécula em um dado ambiente químico. [114] Uma das técnicas para a obtenção de espectros vibracionais é a espectroscopia Raman, que tem por base o espalhamento inelástico da luz [115]. Esse fenômeno foi previsto por Smekal em 1923 [116] e observado experimentalmente em 1928, por Raman [117]. A espectroscopia Raman é uma técnica fotônica de alta resolução que proporciona em poucos segundos informação química e estrutural de um composto, orgânico e/ou inorgânico, permitindo assim sua identificação [114]. Tal análise fundamenta-se no exame da luz dispersa por um material incidido por um feixe de luz monocromático. Uma pequena porção da luz é dispersa inelasticamente experimentando ligeiras mudanças de freqüência que são características do material analisado e independentes da freqüência da luz incidente [114]. Trata-se de um método analítico não destrutivo para determinar a estrutura e a conformação dos componentes moleculares; não exige preparação da amostra ou tratamento prévio; pode ser usado por amostras muito complexas não-purificadas; exige apenas quantidades muito pequenas do composto e é aplicável a biomoléculas em qualquer 48 estado de agregação [114,83]. Os tecidos podem ser examinados in vitro ou in vivo em segundos e se há uma biblioteca dos perfis espectrais dos vários tecidos, a comparação e interpretação podem ser feitas em tempo real [45]. Por estas razões, a técnica é especialmente adequada para as investigações de materiais biológicos [114,83]. Pode ainda oferecer um método menos subjetivo, com rapidez nas análises e como complemento aos métodos histológicos correntes [118]. A espectroscopia Raman do infravermelho próximo com transformada de Fourier (FT-NIR), que foi recentemente introduzida na pesquisa biomédica, permite o estudo da conformação molecular dos compostos em seu microambiente natural [83]. Ela explora um efeito em que uma pequena porção de luz monocromática, espalhada por uma substância que tenha uma freqüência diferente do feixe de luz incidente, chega numa quantia igual à freqüência de vibração da ligação química [83]. Mudanças estruturais detectadas pela espectroscopia Raman, causadas por alterações nas ligações de hidrogênio, são de provável importância biológica [119,120]. Alterações da estrutura molecular das proteínas e lipídios em tumores cutâneos benignos e malignos, por exemplo, foram descritos por espectroscopia Raman [121]. 2.6.1 Teoria de espectroscopia Raman [122] O Efeito Raman pode ser explicado por um modelo clássico que parte do princípio de que um sólido é considerado como um conjunto de átomos sofrendo vibrações harmônicas simples devido à ação do campo elétrico da radiação incidente sobre o material. r Quando o material é colocado nesse campo elétrico E ocorre o deslocamento da nuvem eletrônica em sentido oposto ao deslocamento nuclear e isso r pressupõe a criação de um momento de dipolo P no material. O momento de dipolo é dado por r r P=χE (2.6.3), 49 onde χ é a polarizabilidade (susceptibilidade) eletrônica do material que indica a facilidade com que a nuvem eletrônica pode deformar-se; essa característica é r intrínseca de cada material. O campo elétrico E que pode ser representado por uma função de ondas planas e é dado por rr rr E(r , t ) = E0ei (k .r −ω t )eˆ (2.6.4) onde ê define a direção de polarização da luz incidente, E 0 é a amplitude da onda, r ω é a freqüência e k é o vetor de onda. Uma vez que o campo elétrico é oscilante no tempo, e isso pressupõe que a nuvem é distorcida de um lado para outro em cada intervalo de tempo t, r r podemos também definir um deslocamento atômico u (r , t ) igualmente oscilante com r o tempo t, porém com freqüência diferente daquela associada ao campo elétrico E já que agora se trata da freqüência de vibração da rede cristalina, ou seja, rr rr u (r , t ) = uo e ±i (q.r +Ωt ) (2.6.5) r onde u o é a amplitude do deslocamento, Ω a freqüência de vibração da rede e q o seu vetor de onda. Sabendo que as vibrações atômicas alteram a susceptibilidade, esta pode ser expandida em potências de u da seguinte forma dχ u + du χ (u, ω ) = χ 0 (ω ) + 1 d 2χ +K 2 du (2.6.6) Das equações 2.5.3, 2.5.4 e 2.5.6 podemos reescrever a expressão para r o momento de dipolo P na forma abaixo: r r r r r r dχ i [ (k ± q ). r − (ω ± Ω ) t ] P = χ 0 (ω )E 0 e i (k .r −ω t ) + eˆ + K (2.6.7) u0 E0e du Um espalhamento pode ser dividido em dois tipos: Rayleigh ou Raman (Figura 13). Quando os quanta de energia colidem com a molécula e são espalhados em todas as direções, com a mesma freqüência do feixe incidente, ocorre o espalhamento Rayleigh. Já no espalhamento Raman, a indução de uma transição de energia, devido a um quantum de freqüência ν0, modifica os níveis de energia rotacional e vibracional, tal que a freqüência da radiação emergente será ν0 - ν1 (linha de Stokes) [115]. Outra possibilidade é a do quantum de luz colidir com uma molécula 50 já excitada, fazendo-a retornar ao estado fundamental, de modo que a freqüência da luz espalhada seja ν0 + ν1 (linha anti-Stokes) [115]. Figura 13 – Esquema Ilustrativo dos espalhamentos (a) Raileigh, (b) Raman Stokes e (c) Raman AntiStokes. Assim, o primeiro termo da equação 2.6.7 corresponde ao espalhamento Rayleigh, o segundo termo descreve o espalhamento Raman no qual as freqüências (ω ± Ω ) correspondem aos espalhamentos Stokes (-) e anti-Stokes (+). Essa equação também mostra que se não houver variação na polarizabilidade não há espalhamento Raman. Na análise via teoria quântica o espalhamento de luz pelo material dá-se pela aniquilação de um quantum de luz incidente e posterior criação de um quantum de luz espalhada. Para que este processo ocorra, no material, uma excitação cristalina (fônon) deve ser criada (processo Stokes) ou aniquilada (processo anti-Stokes). Como dito anteriormente, o efeito Raman caracteriza-se como um espalhamento inelástico que tem como resultado a mudança da energia vibracional do material, de forma que para que a conservação da energia do sistema ocorra, deve haver a emissão de um fóton com energia diferente daquela do fóton inicial, assim, ∆E m = hν 0 − hν v = hν m (2.6.8) 51 com ν 0 sendo a freqüência do fóton incidente, ν v a freqüência do fóton espalhado e ν m a freqüência de vibração do material. Os níveis 0 e 1 representam respectivamente os níveis de energia fundamental e primeiro nível vibracional excitado. Quando o fóton da radiação incidente interage com o material no estado fundamental ν = 0, a molécula absorve a energia desse fóton e vai para um nível de energia mais alto, mas pouco estável de forma que esta imediatamente perde energia voltando ao estado fundamental, porém, emitindo um fóton com energia e freqüência idênticas ao do fóton incidente, caracteriza-se então o espalhamento Rayleigh (elástico). Se ao perder energia, a molécula, ao invés de voltar ao estado fundamental, permanecer no primeiro estado vibracional excitado ν = 1, o fóton espalhado terá energia menor que aquela do fóton incidente e um fônon (vibração da rede) será gerado, assim ∆E m > 0 e ν v < ν 0 o que caracteriza o espalhamento Raman Stokes. No espalhamento Raman anti-Stokes, a transição se dá entre o primeiro estado excitado da molécula e um nível de energia mais alto, porém, ao emitir um fóton para conservar a energia do sistema, a molécula volta ao estado fundamental e um fônon é aniquilado, assim teremos ∆E m < 0 , ν v > ν 0 e teremos o espalhamento Raman anti-Stokes. 2.6.2 Espectroscopia Raman da água Para estudos de estrutura da água, a espectroscopia Raman é uma técnica preferencialmente utilizada porque as proporções das intensidades dos principais modos de estiramento OH são pensadas de modo a refletir uma rede de ligações de hidrogênio "intermonômeros", bem como a sua perturbação pela presença de alguns solutos [32,123]. Enquanto que na região do infravermelho, a absorção de radiação ocorre quando há variação no momento dipolar; em Raman esta absorção acontece quando há uma variação na polarizabilidade das moléculas, ou seja, se houver indução de momento dipolar nestas moléculas [115]. 52 A resolução da espectroscopia Raman é de ≈10-2s, por isso é uma técnica capaz de detectar diretamente as vibrações das ligações de hidrogênio, principais responsáveis pela estrutura intermolecular e propriedades de muitos compostos. Quando há formação de uma ligação de hidrogênio podem ocorrer pequenas variações na polarizabilidade das moléculas e estas variações podem ser detectadas com auxilio de um laser e convertidas em um espectro vibracional [22]. Isso possibilita a avaliação direta da estrutura da água, proteínas e lipídios [124,125,126,119,120]; e é ideal para estudos da água supercrítica devido à sua seletividade química e ao sinal Raman, intrinsecamente fraco para água [127]. Geralmente os perfis espectrais observados são amplos e sensíveis à temperatura e pressão [128]. Como as ligações de hidrogênio podem, em princípio, fazer da água um líquido único, com perfis espectrais particulares, o estudo do espectro Raman da água prossegue independentemente dos estudos de espalhamento da luz para líquidos moleculares mais simples [128]. Decomposições dos perfis espectrais em gaussianas e lorentzianas têm sido utilizadas a fim de estimar o tempo de vida das ligações de hidrogênio, bem como caracterizar o ambiente molecular local na água líquida [128]. Conforme a intensidade de absorção das ligações covalentes, as moléculas podem ter vibrações que envolvem combinações de estiramento simétrico (ν1), estiramento assimétrico (ν3) e dobramento (ν2) (Figura 14). Por estes fatores a água líquida a 25oC, por exemplo, possui os modos vibracionais: ν2 (em 1643,5cm-1); uma combinação de ν2 e libração (em 2127,5cm-1); e ν1, ν3, harmônico e ν2 (em 3404,0cm-1) (Quadro 1) [23]. Os Quadros 1 e 2 a seguir mostram as principais vibrações para a água líquida e gasosa [23]. 53 Figura 14 – Tipos de vibração: estiramento simétrico (ν ν1), estiramento assimétrico (ν ν3) e dobramento (ν ν2) e librações nos eixos x, y e z [23]. -1 Quadro 1 - Freqüências vibracionais (em cm ) para três modos da molécula de água líquida. Líquido H2O (25 °C) Vibração(es) v, cm -1 ν2 1643,5 Combinação de ν2 + libração 2127,5 ν 1, ν 3, harmônico de ν 2 3404,0 Fonte: Adaptado de Chaplin [23]. -1 Quadro 2 – Freqüências vibracionais (em cm ) para três modos normais de diferentes isótopos da molécula de água gasosa. Gás -1 ν 1, cm -1 ν 2, cm -1 ν 3, cm H2O 16 3657,05 1594,75 3755,93 H2O 17 3653,15 1591,32 3748,32 H2O 18 3649,69 1588,26 3741,57 HD O 2723,68 1403,48 3707,47 16 D2 O 2669,40 1178,38 2787,92 16 Fonte: Adaptado de Chaplin [23]. 54 Em suma, o espalhamento Raman da água líquida consiste na banda de vibração de estiramento (2800 a 3400cm-1), a banda de dobramento ν2, próximo a 1645cm-1, a combinação das bandas de libração e dobramento (νL+ν2) próximo a 2100cm-1 e as bandas de flutuação intermolecular nas regiões de baixa freqüência, que ocorrem devido a interações entre moléculas de água através de ligações de hidrogênio [32]. Em regiões de baixa freqüência do espectro Raman da água, existem bandas de flutuação intermolecular devido às interações entre as moléculas de água através das ligações de hidrogênio. As bandas de libração ou rotacional restrita da água ocorrem na região de 200-1100cm-1. Os movimentos translacionais limitados da água envolvidos nas interações com as ligações de hidrogênio são equivalentes ao dobramento e movimentos de estiramento do O-H... H [32]. A interpretação do espectro Raman e IR da água líquida têm sido objeto de considerável discussão; seu espectro vibracional tem sido atribuído a efeitos combinados das ligações de hidrogênio e acoplamentos intermoleculares dos modos vibracionais em moléculas vizinhas, conhecido como troca de energia de ressonância [129]. A molécula de água tem um momento de inércia muito pequeno. Isso dá origem a uma rica combinação de espectros vibracionais-rotacionais gerando milhares de linhas de absorção [23]. No líquido, as rotações tendem a ser limitadas por ligações de hidrogênio, gerando librações [23]. Além disso, linhas espectrais causam a sobreposição de muitos dos picos de absorção [23]. Diferenças nos tipos de aglomerados refletem em picos característicos, cujas decomposições dos espectros em gaussianas e componentes de Lorentz, permitem conclusões a respeito das ligações de hidrogênio e o ambiente molecular local na água líquida [128]. Mudanças de freqüência da luz espalhada podem ser analisadas e apresentadas como espectros. Por sua vez, as bandas espectrais representam vibrações características das ligações químicas das moléculas da amostra analisada [83]. As propriedades da água líquida pura são determinadas pela natureza de sua rede de ligações de hidrogênio [130]. O tempo de relaxação da água pura (2,6 55 ps) também é atribuído ao rearranjo da ligação de hidrogênio associada através de sua reorientação [130]. Em soluções aquosas de sal a estrutura da água é modificada nas proximidades dos íons: oxigênio-água preferencialmente solubiliza os cátions e hidroxila-água solubiliza os ânions [130]. Conseqüentemente, as interações íon-dipolo influenciam a estrutura e a dinâmica da água nas proximidades de íons [130]. Assim, de um modo geral, a espectroscopia Raman fornece um método eficiente de investigação da água, já que os modos locais OH e OD estendem praticamente dissociados de outros modos [33]. A forma da banda Raman de estiramento OH no intervalo 2900-3700 cm-1 reflete bem a dinâmica da microestrutura da água, bem como suas interações com solutos, polímeros ou moléculas biológicas [123]. Geralmente, o modo em 3200 cm-1 é visto como relacionado às ligações fortes de hidrogênio nas moléculas da água e o modo em 3400 cm-1 como ligações mais livres [123]. 2.7 SIMULAÇÕES COMPUTACIONAIS 2.7.1 Noções gerais e aplicação. Quando resultados analíticos são difíceis de interpretar e em situações em que os experimentos não são viáveis, podem ser utilizadas simulações computacionais. Estas consistem em aproximações e modelos envolvendo dois aspectos, o da mecânica quântica e o da mecânica clássica [131]. Para se determinar a energia de potencial, uma aproximação bastante utilizada é a aproximação de BornOpenheimer, pois permite o tratamento eletrônico do problema independentemente do nuclear [12,131]. Os graus de liberdade eletrônicos são resolvidos pela mecânica quântica, porém, os movimentos nucleares, em geral, podem ser descritos pela mecânica clássica. Os métodos Monte Carlo (MC) e a dinâmica molecular (DM) descrevem as simulações classicamente e, tradicionalmente, utilizam potenciais 56 empíricos para a descrição da interação entre as partículas. Geralmente, esses potenciais são funções das coordenadas intermoleculares que podem incluir termos de interação entre pares, três corpos e de ordens superiores, considerando a natureza das interações e ligações nos sistemas, sendo analisados por determinados parâmetros. [12]. Tais potenciais, entretanto, são construídos para descrever com precisão sistemas próximos a determinadas configurações e essa descrição pode não ser tão boa em sistemas com outras configurações [12,131]. Assim, há um grande interesse em associar técnicas de MC ou DM com métodos que descrevam a estrutura eletrônica com precisão, os chamados métodos de primeiros princípios (ab initio) [12]. Nos métodos ab initio, os orbitais moleculares são aproximados por uma combinação de orbitais atômicos. Estes são definidos para certos ajustes de base, normalmente funções gaussianas [131]. Os coeficientes que descrevem essa combinação linear são calculados pelo princípio variacional, isto é, através da minimização da energia eletrônica de um sistema para um dado ajuste de orbitais escolhidos [131]. Em casos nos quais se deseja acompanhar a dinâmica do sistema, a técnica de DM é claramente justificável [12]. Se por outro lado, o objetivo é obter valores médios ou configurações finais, o método de MC passa a ser uma alternativa viável [12]. O método de MC não exige o cálculo de forças, ao contrário do método de DM e é facilmente formulado para descrever situações nas quais o sistema de interesse encontra-se a temperatura ou pressão constante [12]. Outro método é a Teoria do Funcional da Densidade (DFT) [132,133], que permite que sistemas complexos, com centenas de átomos sejam estudados com uma precisão significativa e, atualmente, é um dos mais utilizados para a descrição da estrutura eletrônica da matéria. A DFT pode ser formada como uma variante de métodos ab initio, onde os funcionais de troca/correlação são usados para representar a energia de correlação eletrônica [131]. Os métodos DFT são baseados no uso do funcional de densidade eletrônica como um descritor básico do sistema eletrônico [131]. Em geral esse método oferece uma boa combinação de acurácia e requerimentos computacionais, especialmente para grandes sistemas [131]. 57 Nos últimos anos houve um grande avanço nas simulações de primeiros princípios para a água líquida, utilizando a técnica de Dinâmica Molecular em conjunto com DFT [134,135,136]. Por outro lado, alguns trabalhos recentes [137,138] questionaram tais resultados, argumentando que as simulações não tinham sido longas o suficiente para a obtenção de médias convergidas. Assim, ainda existem alguns aspectos relacionados à descrição ab initio que devem ser melhor investigados, como a qualidade da aproximação utilizada para o funcional da energia de troca e correlação na DFT e sua influência nos resultados. Outro aspecto diz respeito a não inclusão dos efeitos quânticos no tratamento de dinâmica molecular; embora simulações considerando tais efeitos ainda sejam inviáveis computacionalmente e a influência quantitativa dessa inclusão nas simulações ab initio permaneça indeterminada [139]. Dos potenciais empíricos para a água nas simulações clássicas, nenhum ainda é capaz de fornecer de forma acurada propriedades dinâmicas, estruturais e termodinâmicas para a água líquida em toda a faixa de extensão de pressão e temperatura [139]. Além de não apresentar flexibilidade e transferabilidade suficiente na descrição de problemas em que sistemas com íons e outras moléculas interagem com a água [139]. Assim, os cálculos de primeiros princípios são de extrema importância, pois podem ser usados em princípio para qualquer sistema. Sendo o hidrogênio um átomo muito leve, tratá-lo classicamente pode não ser adequado. Por outro lado, o tratamento de todos os graus de liberdade quanticamente ainda é inviável na maioria dos casos, devido ao tempo computacional elevado [139]. Desse modo, apesar da construção de centenas de campos de forçamodelo para uso em simulações e de grandes avanços na tecnologia computacional, bem como do desenvolvimento de poderosos métodos ab initio de dinâmica molecular, permanecemos incapazes de calcular com precisão as propriedades da água líquida (como a capacidade de calor, densidade, constante dielétrica e compressibilidade, por exemplo) sobre escalas significativas [140]. Os potenciais utilizados em simulações são ajustados para descrever com precisão o sistema próximo a certas configurações e não há nenhuma garantia de que a descrição será 58 igualmente apropriada em situações distintas dessas [12]. Ainda não há uma descrição molecular satisfatória de como um próton se move no líquido, não entendemos completamente a natureza molecular das superfícies de qualquer água no estado sólido ou líquido [141], nem a origem das intrigantes anomalias e singularidades encontradas na região de supercongelamento [142]. Embora seja claro que a rede de ligação de hidrogênio, suas flutuações e a sua reorganização determinam as propriedades do líquido, os estudos experimentais investigam a dinâmica da ligação de hidrogênio indiretamente e podem ser interpretados apenas em formas qualitativas [49]. Mais do que isso, a confiabilidade dos modelos da água para fenômenos de solvatação e processos biológicos permanece relativamente não- testada [34]. No caso da água, uma descrição acurada de sua estrutura molecular líquida pode ser obtida por meio de experimentos de espalhamento, como a espectroscopia Raman [143]. Simulações computacionais das contribuições relevantes da água no Espectro Raman têm sido relatadas recentemente e comparadas aos valores dos dados experimentais [128]. Em suma, diversos aglomerados de água podem ser calculados pelo uso de métodos de simulação computacional. Tais aglomerados, (H2O)n, com n=1, 2, 3,..., são objetos de numerosos estudos moleculares e utilizam diferentes simulações [24,35,30,45,47,33]. Neste trabalho foram utilizados cálculos vibracionais utilizando matrizes hessianas pré-calculadas e o método DFT. A função de onda foi otimizada (single point calculation) e foram feitas as análises vibracionais, com respostas em Raman. O intuito foi obter os modos vibracionais da água confinada em colágeno. 2.7.2 Teoria [144] 2.7.2.1 Equação molecular de Schrödinger e aproximação de Born-Oppenheimer. Quando estamos interessados em descrever detalhadamente a distribuição eletrônica de um sistema atômico ou molecular qualquer, recorremos à mecânica quântica. Em um tratamento mecânico-quântico de sistemas microscópicos, 59 o que precisamos basicamente é resolver a equação de Schrödinger para estados estacionários: Hˆ ψ = Eψ (2.7.1) Onde Ĥ é o operador Hamiltoniano para o sistema molecular com energia total E e ψ é a função de onda molecular. A solução desta equação fornece as informações necessárias para o estudo das propriedades microscópicas de sistemas de moléculas. Porém, para sistemas multi-eletrônicos a resolução desta equação é uma tarefa difícil de ser executada. Por isso, há a necessidade do uso de aproximações que tornem viável a resolução da equação 2.7.1. Daquelas utilizadas na resolução da equação de Schrödinger para sistemas moleculares, a mais comum é a aproximação de Born-Oppenheimer [145]. A inspiração para a aproximação de Born-Oppenheimer vem do fato de que os espectros eletrônico e nuclear de um sistema molecular geralmente são distintos. Devido a essa distinção espectroscópica, muitas vezes traduzida como diferenças entre as massas dos elétrons e dos núcleos, podemos fazer a separação de Born-Oppenheimer que consiste no tratamento em separado dos movimentos eletrônico e nuclear. Assim, podemos reescrever a equação 2.7.1 de maneira mais específica, em função das coordenadas dos núcleos e elétrons do sistema, assim: Η (r , R )ψ (r , R ) = ε (r , R )ψ (r , R ) (2.7.2) Nesta equação, tanto o operador Η quanto a função de onda ψ dependem das coordenadas de todos os núcleos ( R ) e de todos os elétrons (r ) presentes no sistema. Na prática, para de fato resolvermos a equação 2.7.2 para um sistema multi-eletrônico qualquer, precisamos reescrever esta equação de modo a deixar explícitos os termos de Η ( r , R ) e ψ ( r , R ) . Para o Hamiltoniano, desprezamos todos os termos relativísticos, devido às pequenas massas dos núcleos, e assim temos: Η (r , R ) = ∑ A TA + Z AZ Be2 + RAB A< B ∑ ∑ i Ti + ∑ i< j e2 − rij ∑∑ i A Z Ae 2 riA (2.7.3) Os termos de Η ( r , R ) , na ordem em que aparecem na equação 2.7.3, são a energia cinética dos núcleos, a repulsão eletrostática referente aos núcleos, a 60 energia cinética dos elétrons, a repulsão eletrônica e a energia de atração elétronnúcleo. Ou ainda, de forma mais simplificada: Hψ (r , R) = − h2 (TN + Te ) + V 2m (2.7.4) onde os termos Te,TN e V são, respctivamente, a energia cinética eletrônica, energia cinética dos núcleos e energia potencial. Visando a resolução da equação 2.7.2, aproximamos ψ ( r , R ) por um produto tal que um dos fatores tenha uma dependência paramétrica das coordenadas nucleares, ou seja, ψ (r , R ) = Ψ (r ; R )φ ( R) (2.7.5) onde ψ depende parametricamente das coordenadas dos núcleos, R , e representa a função de onda eletrônica do sistema, e φ representa a função de onda nuclear. Substituindo 2.7.5 em 2.7.4 e resolvendo a equação, temos: h2 Hψ ( r , R ) = − (TN + Te ) + V Ψ ( r ; R )φ ( R ) 2m [ ] Hψ (r , R ) = − h2 TN ( Ψ( r ; R )φ ( R ) ) + Te (Ψ( r ; R )φ( R ) ) + V ( Ψ( r ;R )φ ( R ) ) 2m Hψ ( r , R ) = − h2 ∂ ∂ ⋅ (Ψ( r ; R )φ ( R ) ) + Te (Ψ( r ; R )φ ( R ) ) + V ( Ψ( r ; R )φ ( R ) ) 2m ∂R ∂R Hψ ( r , R ) = − h2 ∂ ∂ ∂ φ ( R ) + Ψ( r ;R ) φ ( R ) + Te ( Ψ( r ; R )φ ( R ) ) + V ( Ψ( r ;R )φ ( R ) ) Ψ( r ; R ) 2m ∂R ∂R ∂R Hψ (r , R) = − ∂2 h 2 ∂2 ∂Ψ ∂ ∂ ∂φ φ + φ + Ψ φ + Ψ + T ( Ψ φ ) Ψ e ( r ; R ) ( R ) + V ( Ψ( r ; R )φ ( R ) ) ∂R 2 2m ∂R ∂R ∂R ∂R ∂R 2 Hψ ( r , R ) = − h2 Ψ( r ;R )TN φ( R ) + φ( R )Te Ψ( r ;R ) + V Ψ( r ;R ) + φ ( R ) + W 2m [ ] (2.7.6) Onde, ∂Ψ ∂ ∂2 h 2 W = 2 φ + 2 Ψ φ − ∂R ∂R ∂R 2mi (2.7.7) 61 Entretanto, conforme Atkins e Friedman [146], como mi é a massa dos núcleos e esta ocorre no denominador, podemos supor que W é pequeno a ponto de ser considerado desprezível. Assim: Η el ( r , R ) Ψel ( r , R ) = Η n ( R )φ n ( R ) E el ( r , R ) Ψ el ( r ; R ) = (2.7.8) Eφ n ( R ) Onde, Η el (r , R) = ∑ Ti + Η n (r , R) = ∑T ∑ ∑ i< j i A e2 rij TA − ∑∑ A i A Z Ae 2 Z AZ Be2 + riA RAB A< B ∑ (2.7.9) + E el ( R) A Esta separação do hamiltoniano em duas partes distintas, uma eletrônica e outra nuclear, é conhecida como aproximação de Born-Oppenheimer [145]. A possibilidade de separação dos movimentos eletrônico e nuclear se deve ao fato de que os elétrons têm menor inércia e podem ajustar seus movimentos quase que instantaneamente, a qualquer rearranjo das posições dos núcleos. Tomando a função de onda eletrônica Ψel ( r ; R ) , e sabendo que esta é dependente das coordenadas de todos os elétrons, se for possível obtermos um conjunto completo ortonormal de funções de onda de muitos elétrons Ψi , podemos expandir Ψel ( r ; R ) em termos deste conjunto. Deste modo, Ψel (r ; R ) = ∑Ψ c , i i Ψi Ψ j = δ ij (2.7.10) i Pelo princípio de exclusão de Pauli [80], Ψel ( r ; R ) é antissimétrica com respeito a qualquer troca de coordenadas dos elétrons, isto é, Ψel ( r1 , r2 ,K , ri ,K , rk ,K ; R ) = − Ψel ( r1 , r2 ,K , ri ,K , rk ,K ; R ) (2.7.11) Desta forma, para um sistema molecular de camada fechada, um conjunto de funções multi-eletrônicas conveniente é um conjunto de determinantes de Slater. Estes determinantes são formados por um conjunto de spins-orbitais ϕ i ( j ; R ) e podem ser expressos por 62 Ψel (1, 2, K , N ; R ) = ϕ a (1; R ) ϕ a (2 ; R) 1 N! ϕ b (1; R ) L ϕ n (1; R ) ϕ b (2 ; R ) L ϕ n (2 ; R ) M M O M (2.7.12), ϕ a ( N ; R) ϕ b ( N ; R) L ϕ n ( N ; R) onde N é o número de elétrons do sistema e ϕ i ( j ; R ) é o spin orbital do elétron j . 2.6.2.2 Teoria do Funcional da Densidade Nos anos 60 Hohenberg, Kohn e Sham [132,133] propuseram a estrutura teórica que conhecemos hoje como Teoria do Funcional da Densidade (DFT). A DFT considera o sistema eletrônico como um todo e possui a idéia básica de que a energia de um sistema eletrônico pode ser escrita em termos da densidade de probabilidade eletrônica, ρ [132,133]. Para um sistema com n elétrons, ρ (r ) denota a densidade eletrônica total a uma distância r . A energia E é um funcional da densidade eletrônica, denotada por E [ ρ ] , onde para uma dada função ρ (r ) existe um único valor de energia E [ ρ ] correspondente. Se E [ ρ ] é conhecido, podemos trocar o problema de determinar a energia e a densidade eletrônica do estado fundamental em um dado potencial externo pela minimização do funcional E [ ρ ] da função densidade tridimensional E [ ρ ] . Computacionalmente, para aplicação desta teoria, é conveniente representar a função densidade eletrônica em termos dos orbitais ocupados, ψ i , ρ ( r ) = ∑ ψ i (r ) 2 (2.7.13) i e, deste modo fazer a minimização do funcional de energia E [ ρ ] em termos destes orbitais. Esta aproximação resulta nas equações de Kohn-Sham de uma partícula [100], hˆKSψ i = εψ i (2.7.14) que são semelhantes às equações de Hartree-Fock. Kohn e Sham propuseram o uso de um sistema não-interagente auxiliar, sistema Kohn-Sham, para avaliar a densidade de um sistema interagente. ĥKS é o operador de Kohn-Sham, composto de termos para 63 descrever as interações do sistema tratado, o que nos possibilita escrever a energia como: E [ ρ ] = T [ ρ ] + V [ ρ ] + C [ ρ ] + XC [ ρ ] (2.7.15) onde T [ ρ ] é a energia cinética e V [ ρ ] é o potencial de atração dos núcleos. A energia elétron-elétron é descrita por dois termos: A repulsão Coulombiana clássica, C [ ρ ] , e a energia de troca e correlação XC [ ρ ] onde estão inclusos todos os efeitos quânticos de muitos corpos. A densidade eletrônica para o estado fundamental é obtida pela minimização da energia e a decomposição da energia feita desta forma é formalmente exata. Porém, as expressões para as interações de troca e correlação de muitos corpos são desconhecidas e sua acurácia depende do funcional empregado na sua determinação. Assim, é preciso fazer aproximações para se obter o termo XC [ ρ (r )] Dependendo do problema a ser tratado, a aproximação utilizada poderá fornecer uma acurácia maior para o termo XC [ ρ (r )] e conseqüentemente para o cálculo da propriedade de interesse. A primeira aproximação para o termo XC [ ρ (r )] é a aproximação LDA-Local Density Aproximation. Nesta aproximação a densidade é tratada localmente como a densidade de um gás de elétrons uniforme e ρ (r ) varia suavemente nas proximidades de r . Se a densidade eletrônica ρ (r ) for altamente não-uniforme, então a aproximação LDA não é uma boa opção. Esta aproximação foi então refinada em termos do gradiente da densidade de carga total, conhecida como expansão generalizada em termos de gradientes GGA-Generalized Gradient Aproximation. Dentre as expansões mais utilizadas de GGA, neste trabalho será utilizada a aproximação BLYP [147,148]. 64 3 METODOLOGIA 3.1 AMOSTRAS Escolhemos como objeto de estudo amostras de tecidos provenientes de mucosa bucal normal (MN – 6 pacientes) e com hiperplasia fibrosa inflamatória (HFI – 6 pacientes). As amostras foram obtidas a partir de biopsias realizadas no Departamento de Biociências e Diagnóstico Bucal - UNESP / BRASIL. Elas foram identificadas e imediatamente congeladas e armazenadas em nitrogênio líquido (77K) em frascos criogênicos antes da gravação técnica dos espectros FT-Raman. 3.2 ESPECTROSCOPIA VIBRACIONAL Os espectros Raman foram medidos em 5 pontos diferentes (A1-A5), e foram feitos em seis amostras de NM e seis amostras de HFI. Eles resultaram em 30 espectros de hiperplasia fibrosa inflamatória e 30 espectros de mucosa normal. Logo após o procedimento, todas as amostras foram fixadas em formol a 10% para análise histopatológica posterior. Foi usado um espectrômetro Bruker RFS 100/S FT-Raman, da Universidade Vale do Paraíba, tendo como fonte de luz um laser Nd:YAG, em 1.064 nm. A potência do laser na amostra foi mantida a 230 mW e a resolução do espectrômetro foi de 4 cm-1. Cada espectro foi gravado com 300 varreduras. Para a coleta de dados FT-Raman, todas as amostras foram levadas à temperatura ambiente e mantidas umedecidas em solução fisiológica 0,9%, para preservar as suas características estruturais e um suporte de alumínio foi colocado nas janelas para a coleta de espectros Raman. As substâncias químicas presentes na solução fisiológica (Ca2+, Na+, K+, Cl- e água) não têm sinais mensuráveis em Raman e sua presença não afeta o sinal espectral dos tecidos. 65 3.3 SIMULAÇÕES DE CÁLCULOS VIBRACIONAIS Dentro das células, a água se comporta de forma diferente da água bulk [13]. A viscosidade da água intracelular, por exemplo, é maior e sua capacidade de propagação é menor, como observados por Ressonância Magnética Nuclear [149]. Como as moléculas de água ocupam sítios específicos e formam aglomerados localizados com as estruturas que são determinadas pelas suas capacidades de ligação de hidrogênio [13,149] elas são capazes de influenciar a grande maioria das propriedades físicas e químicas dos tecidos. Assim, a água pode se auto-estruturar de forma diferente, em tecidos normais e inflamatórios. Cada um desses agrupamentos possui um espectro Raman característico [33]. Como o trabalho teve por objetivo avaliar o tipo de organização estrutural da água confinada em tecidos biológicos e sondar se a mesma era capaz de estruturar-se de modo diferenciado em tecidos sadios e patológicos, realizamos um conjunto de simulações de cálculos vibracionais para várias estruturas de água (Figura 15), (H2O)n, sendo n = 1–8: (H2O), (H2O)2, (H2O)3, (H2O)4, (H2O)5-cíclico, (H2O)6-gaiola, (H2O)7-baixo, (H2O)8-S4, usando o modelo TIP4P. O modelo TIP4P [150] é largamente implementado em pacotes de programas de química computacional e frequentemente utilizado na simulação de sistemas biomoleculares. Figura 15 – Aglomerados das moléculas de água utilizadas na simulação: (a) (H2O), (b) (H2O)2, (c) (H2O)3, (d) (H2O)4, (e) (H2O)5-cíclico, (f) (H2O)6-gaiola, (g) (H2O)7-baixo, (h) (H2O)8-S4. Tais estruturas foram confinadas em colágeno. Adaptado de [33]. 66 Como o colágeno é uma proteína de importância fundamental na constituição da matriz extracelular e encontra-se amplamente presente em nosso corpo, cada aglomerado de moléculas de água foi confinado em um recorte de um trecho do colágeno hidratado proveniente do Banco de Dados de Proteínas (Protein Data Bank) [151] (Figura 16). Figura 16 – Estrutura do colágeno hidratado (perspectiva). As moléculas de água do colágeno hidratado (Figura 16) foram removidas, porém, como se pode perceber (Figuras 17, 18, 19 e 20), a estrutura do colágeno é extremamente grande para a simulação. 67 Figura 17 – Estrutura do colágeno sem hidratação (perspectiva). Figura 18 – Estrutura do colágeno sem hidratação (vista longitudinal). Figura 19 – Estrutura do colágeno sem hidratação (vista transversal interna). 68 Figura 20 – Estrutura rutura do colágeno sem hidratação (vista transversal). Assim, fizemos um recorte na molécula de colágeno, na região ilustrada na Figura 21,, de modo a prosseguir apenas com uma pequena parte do colágeno. Figura 21 – Área de recorte do colágeno para utilização na simulação. 69 Nessa região fizemos os recortes necessários para obter o menor espaço possível para confinamento dos aglomerados de água, resultando na Figura 22. Foi utilizada uma pequena parte de apenas duas hélices de colágeno (Figura 22), uma com três estruturas cíclicas e outra com duas, para que o cálculo pudesse ser simulado. ESTRUTURA CÍCLICA Figura 22 – Recorte de colágeno utilizado na simulação. A figura corresponde a um pequeno trecho de duas hélices do colágeno: uma com três estruturas cíclicas e a outra com duas. Esse recorte, com 100 átomos, foi mantido fixo e cada aglomerado de água foi então, um a um, confinado nesta região, próximo ao centro, como mostra a Figura 23. 70 AGLOMERADO ATÔMICO DE ÁGUA CONFINADO Figura 23 – Aglomerado de moléculas de água confinado em colágeno. Os confinamentos foram denominados conforme abaixo: Coll_0 Colágeno SEM água confinada Coll_1 Colágeno com uma molécula de água confinada, (H2O) Coll_2 Colágeno com duas moléculas de água confinada, (H2O)2 Coll_3 Colágeno com três moléculas de água confinada, (H2O)3 Coll_4 Colágeno com quatro moléculas de água confinada, (H2O)4 Coll_5 Colágeno com cinco moléculas de água confinada, (H2O)5-cíclico Coll_6 Colágeno com seis moléculas de água confinada, (H2O)6-gaiola Coll_7 Colágeno com sete moléculas de água confinada, (H2O)7-baixo Coll_8 Colágeno com oito moléculas de água confinada, (H2O)8-S4 71 As simulações necessárias para a interpretação dos dados de espectroscopia foram realizadas em colaboração com Prof. Dr. Mauricio Coutinho da UFABC. Foram usados os métodos da DFT [132,133] e BLYP [147], com auxílio do software CPMD [152]. Embora o conjunto (colágeno+água) não seja uma estrutura cristalina, ele foi aproximado para os parâmetros cristalográficos a=13,5Å, b=11,5Å e c=10,5Å, considerando simetria ortorrômbica. Primeiro, foram calculadas as estruturas eletrônicas (estado fundamental) do sistema como ponto de partida para os outros cálculos. Isso foi feito através das otimizações das funções de onda (single point calculation) para cada confinamento (coll_0 a coll_8), utilizando o hessiano (vibrational analysis IN Gauss). Depois, foram feitas as análises vibracionais, com respostas em Raman. Por fim, foram calculadas as respostas lineares (linear response) dos sistemas para se obter os valores da polarização e dos tensores polares de cada átomo do sistema. Estes últimos dados foram utilizados para verificar a vibração dos átomos em cada deslocamento Raman equivalente ao experimental. Em cálculos que utilizam ondas planas com funções de base, como os realizados pelo programa CPMD [152], além da simetria e dos parâmetros de célula, o sistema é caracterizado pelo parâmetro de corte (cutoff). Neste caso, o parâmetro de corte é o valor mínimo de energia de modo que valores maiores que ele são ignorados. Por isso, foram testados vários parâmetros de corte para a simulação de uma única molécula de água isolada (Gráfico 1). Com base nestes resultados adotou-se 60Ry, como padrão para o parâmetro de corte em todas as simulações. 72 Gráfico 1 – Relação entre energia total e corte para uma única molécula de água isolada. Energia Total versus Corte -15.0 ENERGIA TOTAL (Eh) -15.5 -16.0 -16.5 -17.0 -17.5 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 CORTE (Cutoff) (Ry) Nota: O programa CPMD adota como padrão as unidades para corte do plano de onda, Ry (1 Ry = 1/2 Eh = 13.60569193eV) e para energia, Eh (1 Eh = 27.21138386eV = 627.5094706kcal/mol = 2625.4996251kJ/mol). Dessas simulações, obtiveram-se os modos vibracionais de cada confinamento, os quais foram comparados aos valores experimentais dos picos de MN e HFI. Assumiu-se uma variância de 4cm-1, de modo que os valores dos modos vibracionais, obtidos pela simulação, maiores até 2cm-1 ou menores até 2cm-1 que os deslocamentos Raman experimentais foram considerados equivalentes. Estes resultados foram tabelados e descritos no item 4.2. 73 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 CARACTERIZAÇÃO DE ÁGUA ÁG CONFINADA EM TECIDOS DOS BIOLÓGICOS POR ESPECTROSCOPIA RAMAN Foram obtidos 60 espectros es (30 de MN e 30 de HFI) e foi analisada a região espectral entree 2800 e 3600 cm-1, região típica de picos da água. Com o auxílio do software Fityk [153], cada ada espectro foi deconvoluído em 7 picos, conforme a forma da linha (gaussiana ou lorentziana), lorentziana resultando nas bandas em: 2854, 2885, 2934, 2 2991, 3071, 3220 e 3362 cm-1 para o tecido normal; e 2843, 2887, 2937, 2977, 3060, 3221 e 3387 cm-1 para o tecido inflamatório. Esse processo pode ser visualizado nos Gráficos 2 e 3. Os números de 1 a 7 indicados nesses ness gráficos representam os picos 1, 1 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Gráfico 2 – Exemplo de deconvolução econvolução da região espectral de d uma das amostras de MN em 7 picos. 74 Gráfico 3 – Exemplo de deconvolução onvolução da região espectral de uma das amostras de HFI em 7 picos. Uma vez que tanto a média como o desvio padrão podem não ser medidas adequadas para representar um conjunto de valores, já que são afetados, de forma exagerada, por valores extremos, extremos foram construídos Box-plots plots [154] de MN e HFI (Gráfico 4). As linhas pretas correspondem à mediana do o espectro e as regiões coloridas são aquelas entre o primeiro e terceiro quartil. É possível perceber que há uma diferença visual importante entre os gráficos de MN e de HFI (Gráfico 4). 4 Há uma variância maior entre as amostras de MN e existem diferenças tanto na n posição dos picos, como por exemplo, o pico 7, com modo vibracional em 3362cm-1 em MN e 3387cm-1 em HFI; quanto naa forma da curva, como é o caso dos picos 1 a 3, que apresentam curvas bem distintas em MN e em HFI; e até mesmo naa intensidade, sendo o pico 1 mais intenso em MN do que em HFI e o pico 4, mais intenso em do que em MN, embora alterações na intensidade nsidade dos picos não tenha sido objeto de análise neste trabalho. 75 Gráfico 4 – Box-plots das amostras de MN e HFI. As setas com números de 1 a 7 indicam a posição dos picos (pico 1 a pico 7). 76 Identificando os picos dos espectros obtidos em relação aos modos vibracionais e os componentes estruturais a eles associados, observou-se que as bandas Raman predominantes são de CH, CH2 e CH3 (2800-3100cm-1) e NH e OH (3100 - 3600 cm-1), bandas de estiramento de lipídios, proteínas e água, respectivamente [155,33]. Os resultados podem mostrar como as macromoléculas interagem entre si e/ou com moléculas de água, e como sua estrutura molecular é alterada quando ocorre um processo inflamatório. Realizando-se os testes estatísticos t-Student e o teste ANOVA [154] no Microsoft Excel (Tabela 1), assumindo variâncias iguais entre as amostras NM e HFI, ao nível de 0,05, observou-se que os picos 2 e 6 não apresentaram diferença estatística significativa entre MN e HFI. Já para os picos 1, 3, 4, 5 e 7, as amostras de MN e HFI são diferentes ao nível de 0,05 e, portanto, representam picos característicos de diagnóstico. Tabela 1 – Resultados dos testes estatísticos. Testes/Picos 1 2 3 4 5 6 7 t-student P(T<=t) <0.05 0.055 <0.05 <0.05 <0.05 0.372 <0.05 ANOVA p-value <0.05 0.109 <0.05 <0.05 <0.05 0.744 <0.05 A fim de avaliar se alguns desses contribuiriam para a discriminação entre MN e HFI, foram verificados quais deles seriam mais relevantes. Em especial, observou-se que o pico 7 apresenta bandas bem evidentes, em modos vibracionais bem diferentes em MN e em HFI, em 3362cm-1 e 3387cm-1, respectivamente. Assim, utilizou-se o pico 7 como padrão para a construção dos gráficos das áreas dos picos 7 em função das áreas dos outros picos característicos de diagnóstico (Gráficos 5 a 8). A área com maior concentração de amostras de HFI foi demarcada com a finalidade de se calcular a sensibilidade e a especificidade. A primeira diz respeito a 77 identificar corretamente os que possuem a doença, enquanto a segunda consiste em excluir corretamente aqueles que não a possuem. Assim: sensibilidade = VP VP + FN especificidade = e VN VN + FP (4.1.1) VP (verdadeiro positivo) e FP (falso positivo) encontram-se no grupo dos indivíduos com a doença (positivo), no entanto, o verdadeiro realmente pertence a este grupo (possui a doença), enquanto o falso não possui a doença. Já VN (verdadeiro negativo) e FN (falso negativo) encontram-se no grupo sem a doença (negativo), mas o verdadeiro realmente pertence a esse grupo (não possui a doença), enquanto o falso possui a doença. Gráfico 5 – Área dos picos 7 versus área dos picos 1, para MN e HFI. Area 7 versus Area 1 MN HFI 5 4 A7 3 2 1 0 -0.2 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 A1 78 Gráfico 6 – Área dos picos 7 versus área dos picos 3, para MN e HFI. Area 7 versus Area 3 5 MN HFI 4 A7 3 2 1 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 A3 Gráfico 7 – Área dos picos 7 versus área dos picos 4, para MN e HFI. Area 7 versus Area 4 MN HFI 6 A7 4 2 0 0.0 0.4 0.8 1.2 A4 79 Gráfico 8 – Área dos picos 7 versus área dos picos 5, para MN e HFI. Area 7 versus Area 5 5 MN HFI 4 A7 3 2 1 0 0.0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 A5 Em geral, HFI e MN encontram-se bem separados. Isso reforça o resultado estatístico, comprovando claramente que HFI é muito diferente do tecido de MN. É interessante notar que, no gráfico das áreas das bandas do pico 7 em função das áreas das bandas do pico 3 (Gráfico 6), os resultados de HFI encontram-se bem agrupados, enquanto os de MN são mais espalhados; e que, em relação aos picos 1, 4 e 5 (Gráficos 5, 7 e 8), há a concentração dos resultados de HFI em um dos eixos. A sensibilidade e especificidade destes resultados podem ser conferidas na Tabela 2. Tabela 2 – Resultados da sensibilidade e especificidade. Gráfico gráfico 5 gráfico 6 gráfico 7 gráfico 8 Referente ao pico 7 versus pico1 pico 7 versus pico3 pico 7 versus pico4 pico 7 versus pico5 Sensibilidade 96,7% 96,7% 100,0% 96,7% Especificidade 63,6% 93,3% 90,0% 93,3% 80 Visto que os picos das bandas 6 e 7 são bem largos, também plotou-se o gráfico das áreas das bandas dos picos 6 e 7 em função das áreas das bandas dos picos 1 a 5 (Gráfico 9). Semelhante aos gráficos anteriores, HFI e MN separam-se de forma que os resultados de HFI encontram-se mais agrupados e num eixo preferencial, enquanto os resultados de MN são mais espalhados. Este resultado enfatiza a importância dos picos, com sensibilidade de 100% e especificidade de 97,6%. Gráfico 9 – Área dos picos 6-7 versus área dos picos 1-5, para MN e HFI. Area 6-7 versus Area 1-5 MN HFI 4.5 4.0 3.5 A6-7 3.0 2.5 2.0 1.5 1.0 0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 A1-5 81 4.2 CARACTERIZAÇÃO DE ÁGUA ÁG CONFINADA EM TECIDOS DOS BIOLÓGICOS UTILIZANDO SIMULAÇÕES Para cada co onfinamento construiu-se um gráfico dos mo odos vibracionais equivalentes aos resultado os experimentais, assumindo a variância dee 4cm-1 (Gráficos 10 a 17). Os números de 1 a 7 indicados nesses ness gráficos representam sentam os picos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7; a curva em preto representa a soma destes picos; e as curvas coloridas representam cada modo vibracional equivalente ao experimental. Gráfico 10 – Modos vibracionais de coll_0 equivalentes aos aos resultados experimentais. 82 Gráfico 11 – Modos vibracionais de coll_2 equivalentes aos resultados experimentais. Gráfico 12 – Modos vibracionais de coll_3 equivalentes aos resultados experimentais. 83 Gráfico 13– Modos vibracionais de coll_4 equivalentes aos resultados experimentais. Gráfico 14– Modos vibracionais de coll_5 equivalentes aos resultados experimentais. 84 Gráfico 15 – Modos vibracionais de coll_6 equivalentes aos resultados experimentais. Gráfico 16 – Modos vibracionais de coll_7 equivalentes aos resultados experimentais. 85 Gráfico 17 – Modos vibracionais de coll_8 equivalentes aos resultados experimentais. O Quadro 3,, a seguir, mostra informações desses gráficos, comparando os modos vibracionais em cada confinamento. Cada cor representa um pico experimental.. Nas colunas (sentido vertical) estão representados representados os picos de cada colágeno (coll_0 a coll_8) e a região preenchida indica a presença de uma banda equivalente ao experimental. Nas linhas (sentido horizontal) estão separados cada pico de MN e cada pico de HFI. Assim, a região preenchida em roxo em coll_0, l_0, por exemplo, indica que o colágeno sem água possui uma banda equivalente ao pico 1 de HFI; a região preenchida em verde verd em coll_0 indica que colágeno sem água possui uma banda equivalente ao pico 4 de MN; a região azul em coll_0 indica que o colágeno sem água possui bandas equivalentes ao pico 5, 5 tanto em MN quanto em HFI; assim sucessivamente para outras regiões de coll_0 e as regiões preenchidas de coll_2 a coll_8. A “legenda” com os valores dos deslocamentos Raman experimentais de MN e HFI pode ser vista na Tabela 3. 86 Quadro 3 – Comparação entre a presença/ausência de aglomerados de água para cada pico experimental. coll_0 coll_1 coll_2 coll_3 coll_4 coll_5 coll_6 coll_7 coll_8 MN - pico 1 HFI - pico 1 MN - pico 2 HFI - pico 2 MN - pico 3 HFI - pico 3 MN - pico 4 HFI - pico 4 MN - pico 5 HFI - pico 5 MN - pico 6 HFI - pico 6 MN - pico 7 HFI - pico 7 Nota: A região preenchida corresponde à presença de um aglomerado de água num determinado pico. Cada banda dos picos está marcada com cores diferentes para facilitar a comparação. Tabela 3 – Posição dos picos de MN e HFI. Cada cor representa um pico -1 MN (cm ) Referência -1 HFI (cm ) *2854 pico 1 2843 2885 pico 2 2887 2934 pico 3 2937 2991 pico 4 2977 3071 pico 5 3060 3220 pico 6 3221 3362 pico 7 3387 OBS.: *Nenhuma freqüência dos resultados de simulação corresponde ao obtido experimentalmente Pelos resultados (Quadro 3), pode-se verificar que a presença da banda de coll_8 é característica de HFI para o pico 1. De modo semelhante, a banda de coll_3 determina o quadro clínico de HFI para o pico 3; e coll_6 confirma a presença de um 87 tecido normal (MN) no mesmo pico. No caso do pico 4, coll_5 especifica o tecido com HFI; e coll_0, coll_2 e coll_3 indicam MN. O pico 5 é o que apresenta o maior número de bandas com água confinada, sendo coll_8 característico de HFI; e coll_2 a coll_6, característicos de MN. O pico 7, no entanto, não apresenta bandas de colágeno com água confinada em relação aos tipos de aglomerados simulados, mas possui coll_5 e coll_6 como indicativos de MN. Por fim, embora os picos 2 e 6 não apresentem diferença estatística significante ao nível de 0,05, é possível discriminar HFI pela presença das bandas de coll_4 e coll_5, respectivamente. Pela posição dos picos característicos de diagnóstico (Tabela 3) é possível perceber que os picos 3 e 7 de HFI pertencem a regiões de freqüência mais alta que os mesmos picos para MN; enquanto os picos 1, 4 e 5 de HFI pertencem a regiões de menor freqüência que MN. Neste sentido (Quadro 3), os picos 1 e 5, que possuem freqüência em MN mais alta que em HFI, referem-se a um maior número de moléculas por aglomerado, no caso, (H2O)5-cíclico e (H2O)8-S4, respectivamente. Por outro lado, os picos 3 e 7 de HFI referem-se a um menor número de moléculas por aglomerado, no caso, (H2O)3 para o pico 3, considerando apenas as bandas discriminantes de HFI, e o colágeno sem água no caso do pico 7. A partir dessas simulações foram construídos os autovetores, a fim de investigar a vibração das moléculas envolvidas em cada banda espectral. O objetivo foi verificar quais eram os átomos envolvidos em cada banda espectral, de modo a perceber quais deles contribuem, de fato, na obtenção daquele pico. Desse modo, com auxílio do programa Molekel [156], pode-se visualizar a direção dos vetores dos átomos vibrantes em cada uma dessas bandas, como os exemplos das Figuras 23 e 24, e verificar a presença/ausência de vibrações. 88 -1 Figura 24 – Vibração de coll_3 (em 3073cm ) em um determinado momento. As linhas em azul-claro representam a direção e o sentido dos vetores dos átomos vibrantes. -1 Figura 25 – Vibração de coll_3 (em 3073cm ) em outro determinado momento. As linhas em azul-claro representam a direção e o sentido dos vetores dos átomos vibrantes. 89 A Tabela 4 mostra o número de moléculas de água vibrando em cada recorte de colágeno, assim, se apenas uma molécula vibra (apresenta os vetores de vibração, visualizados no programa Molekel), o número de moléculas de água vibrantes é 1; se duas moléculas de água vibram, o número de moléculas de água vibrantes é 2; e assim por diante; se nenhuma molécula de água vibra, está escrito “não vibra”. Novamente cada cor representa a região equivalente a cada pico obtido experimentalmente (picos 1 a 7). Assim coll_0, por exemplo, possui duas bandas marcadas em verde (2989cm-1 e 2991cm-1) equivalentes ao pico 4 de MN; duas bandas marcadas em azul (3070cm-1 e 3071cm-1) equivalentes ao pico 5 de MN e, uma banda em azul (3078cm-1) equivalente ao pico 5 de HFI; assim sucessivamente para as outras bandas dos colágenos sem água e dos colágenos com água confinada. Analisando-se os picos da região entre 2800 e 3600 cm-1 (Tabela 4) e considerando as interações do coll_1 a coll_8, percebe-se que o pico 1 (marcado em roxo) apresenta vibrações de colágeno ou colágeno com água confinada apenas em amostras de HFI. As amostras de MN não apresentam vibrações correspondentes ao colágeno e/ou colágeno com água confinada para o pico 1. Para o pico 3 (marcado em rosa), a água vibra tanto em MN quanto em HFI. Embora as comparações sejam limitadas no que se refere a esse pico, visto que a freqüência 2936cm-1 (coll_4) aparece em tanto em MN quanto em HFI, o pico 3 apresenta duas bandas características de diagnóstico: 2938cm-1 (coll_3), que aparece apenas em HFI; e 2932cm-1, que aparece apenas em MN. O pico 4 (marcado em verde) apresenta duas bandas referentes ao coll_3, uma em MN, 2989cm-1, e outra em HFI, 2977cm-1. Comparando-se estas bandas observa-se que as moléculas de água não participam da vibração em MN, porém participam da vibração em HFI. Observa-se ainda que para MN nenhuma água confinada apresenta vibração (coll_0, coll_2, coll_3 e coll_6). Já em HFI, há apenas duas bandas correspondentes, coll_3, conforme descrito acima, e coll_5. Neste último a água também não apresenta vibração. No pico 5 (marcado em azul), o CH3 da molécula de colágeno apresenta vibração em HFI; enquanto que para MN, o CH3 não vibra. Observa-se que este pico 90 corresponde a bandas de coll_0 e colágeno com água confinada, tanto em MN quanto em HFI. Para MN, a água não apresenta vibração em coll_2 e coll_5; em coll_3, apenas uma molécula de água vibra em 3070cm-1 e todas as três moléculas de água vibram em 3073cm-1; e, em coll_6, quatro moléculas de água vibram. Para HFI, além da vibração correspondente ao coll_0, coll_8 também apresenta vibração em duas de suas moléculas de água. No pico 7 (marcado em amarelo), há maior número de vibrações no trecho da hélice do colágeno com três estruturas cíclicas para MN; e há maior número de vibrações no trecho com duas estruturas cíclicas para HFI. As bandas correspondentes a esse pico para MN são de coll_0, coll_5 ou coll_6, em que a maioria dos átomos do colágeno vibra (60-100%); já para HFI foi encontrada apenas uma banda correspondente ao coll_0. Os picos 2 e 6 (marcados em cinza escuro e cinza claro, respectivamente) não apresentam variação estatística ao nível de 0,05 para as amostras de MN e HFI e, portanto, não são característicos de diagnóstico. Dos picos característicos de diagnóstico (marcados em colorido: roxo, rosa, verde, azul e amarelo), é interessante notar ainda que todas as bandas de MN possuem uma, três, quatro ou seis moléculas de água vibrando, mas nenhum dos picos com a vibração de apenas duas moléculas de água. Já em HFI, a única banda cujas moléculas de água apresentam vibração no pico 5 possui apenas duas moléculas de água vibrando; no pico 4, novamente a única banda com moléculas de água vibrantes em HFI apresenta apenas duas moléculas de água vibrando; e no pico 3, a banda característica de diagnóstico (em coll_3) também apresenta apenas duas moléculas de água vibrando. Não é possível verificar este fato para o pico 7, uma vez que possui apenas uma banda de colágeno sem água, assim como a comparação torna-se complicada em relação ao pico 1, visto que detém apenas uma banda em HFI e nenhuma em MN. Na Tabela 4 é possível analisar também os resultados para cada colágeno, comparando um por um na linha vertical. Em geral, os picos de coll_0 e do coll_6 são os que apresentam maior quantidade de bandas correspondentes aos picos 91 de MN, referindo-se, respectivamente, a quatro e cinco picos. Em HFI, destacam-se as bandas de coll_0 e coll_8, que se referem, a quatro e três picos, respectivamente. O coll_7 possui freqüências correspondentes apenas a um pico não característico de diagnóstico. Por outro lado, coll_3 e coll_2 são exclusivos de picos característicos de diagnóstico. Considerando-se estes picos característicos de diagnóstico, o coll_8 apresenta picos apenas em HFI, destacando os picos 1 e 5, em que ambos expõem vibrações de moléculas de água. Curiosamente, nos picos experimentais correspondentes ao coll_2, as moléculas de água não apresentam vibração e também não apresentam picos referentes às amostras de HFI. Além disso, as amostras de MN e HFI não possuem picos correspondentes ao coll_1. A fim de analisar também as vibrações dos átomos de colágeno, dividiuse a região de cada célula (célula ortorrômbica, com o colágeno e as moléculas de água) em quatro quadrantes (A, B, C e D). O critério de divisão foi a quantidade de átomos de oxigênio. O recorte de colágeno utilizado na simulação possui duas cadeias, uma com três estruturas cíclicas e outra com duas, mas ambas possuem quatro oxigênios. Assim foram mantidos dois oxigênios em cada quadrante e o CH3 (presente apenas na extremidade de uma das cadeias) foi mantido no último quadrante (quadrante D). A Figura 26 ilustra melhor o processo. 92 Figura 26 – Indicação da posição dos quadrantes A, B, C e D em relação aos átomos do colágeno. Os resultados dessa análise foram tabelados (Tabela 5) e, de modo semelhante à Tabela 4, cada cor representa um pico. Pela Tabela 5, é possível notar que muitas bandas apresentam átomos vibrando nos quatro quadrantes (ABCD). É interessante notar ainda que, considerando os picos característicos de diagnóstico, apenas dois quadrantes (AD, BC ou CD) apresentam vibração nas bandas em que a água não vibra. Nesse sentido, pode-se inferir que a presença de moléculas de água vibrantes e a vibração do colágeno como um todo são fatos correlacionados. Quando as moléculas de água não vibram, apenas dois quadrantes apresentam vibração. Quando as moléculas de água vibram, o número de quadrantes que apresentam vibração é maior. 93 Tabela 4 - Comparação entre as vibrações das moléculas de água confinadas em colágeno para MN e HFI. Cada cor refere-se a um determinado pico. MN HFI coll_0 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_1 desl. Raman -1 (cm ) coll_2 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_3 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_4 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 2989 0 * 2989 NÃO VIBRA 2989 NÃO VIBRA 2991 0 3069 NÃO VIBRA 3070 1 3070 0 3073 3 3071 coll_5 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_6 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 2936 3 3070 NÃO VIBRA 3069 2 3218 3 2991 NÃO VIBRA 3363 3 3070 4 0 3220 2 3219 0 3222 2 3220 0 3360 6 3364 0 coll_0 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_1 desl. Raman -1 (cm ) coll_2 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) * * coll_3 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_4 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_5 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 2938 2 2888 4 2977 2 2936 3 3 2886 coll_8 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 3 3220 NÃO VIBRA 3221 coll_6 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) coll_7 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 0 * 3058 0 3219 0 3220 NÃO VIBRA 3220 0 3221 3385 0 Legenda: -1 MN (cm ) Referência -1 HFI (cm ) 2854 pico 1 2843 2885 pico 2 2887 2934 pico 3 2937 2991 pico 4 2977 3071 pico 5 3060 3220 pico 6 3221 3362 pico 7 3387 3220 2 3222 2 2886 6 coll_8 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 2844 * Nenhuma freqüência dos resultados de simulação corresponde ao obtido experimentalmente. 2979 NÃO VIBRA 2932 coll_7 Quantas desl. (H2O)n Raman vibram? -1 (cm ) 3 2843 3 3059 2 6 94 Tabela 5 - Comparação entre as vibrações do colágeno para MN e HFI, conforme os quadrantes. Cada cor refere-se a um determinado pico e cada letra (A, B, C, D) a um quadrante. MN coll_0 coll_1 desl. Quadran- desl. Raman tes Raman -1 -1 (cm ) vibrando (cm ) 2989 ACD coll_2 coll_3 desl. Quadran- desl. Raman tes Raman -1 -1 (cm ) vibrando (cm ) * 2991 ABCD coll_4 Quadran- desl. Raman tes -1 vibrando (cm ) coll_5 Quadran- desl. Raman tes -1 vibrando (cm ) coll_6 Quadran- desl. Raman tes -1 vibrando (cm ) coll_7 Quadran- desl. Raman tes -1 vibrando (cm ) 2989 BD 2989 CD 2936 ABC 3070 AD 2932 ABC 3069 AD 3070 ABCD 3069 AD 3218 ABCD 2991 AD 3363 ABCD 3070 ABCD 3070 ABCD 3073 ABCD 3071 ABCD 3220 ABCD 3219 ABCD 3222 ABCD 3220 ABCD 3360 ABCD coll_8 Quadran- desl. Raman tes -1 vibrando (cm ) 2886 ABCD Quadrantes vibrando 3220 ABCD 3221 ABCD 3364 ABCD HFI coll_0 coll_1 desl. Quadran- desl. Raman tes Raman -1 -1 (cm ) vibrando (cm ) 2844 ABCD coll_2 coll_3 desl. Quadran- desl. Raman tes Raman -1 -1 (cm ) vibrando (cm ) * * 3058 ABCD * coll_4 Quadran- desl. tes Raman -1 vibrando (cm ) coll_5 Quadran- desl. tes Raman -1 vibrando (cm ) 2938 ABCD 2888 ABCD 2977 ABCD 2936 ABC coll_6 Quadran- desl. tes Raman -1 vibrando (cm ) 2979 CD coll_7 Quadran- desl. tes Raman -1 vibrando (cm ) 3220 ABCD 3222 ABCD coll_8 Quadran- desl. tes Raman -1 vibrando (cm ) 2886 ABCD Quadrantes vibrando 2843 ABCD 3059 ABCD 3219 ABCD 3220 ABCD 3220 ABCD 3221 ABCD 3385 ABCD * Nenhuma freqüência dos resultados de simulação corresponde ao obtido experimentalmente Legenda: -1 MN (cm ) Referência -1 HFI (cm ) 2854 pico 1 2843 2885 pico 2 2887 2934 pico 3 2937 2991 pico 4 2977 3071 pico 5 3060 3220 pico 6 3221 3362 pico 7 3387 95 4.2.1 Discussão energética Pelas simulações também foram obtidas as energias totais de cada confinamento (coll_0, coll_1, coll_2, coll_3, coll_4, coll_5, coll_6, coll_7 e coll_8). Os resultados podem ser visualizados nos Gráficos 18 e 19. Gráfico 18 – Energia total para cada aglomerado de água confinada. Energia total normalizada -1.4 -1.35 -1.3 -1.25 -1.2 -1.15 -1.1 -1.05 -1 coll_0 coll_1 coll_2 coll_3 coll_4 coll_5 coll_6 coll_7 coll_8 Gráfico 19 – Energia total por molécula de água confinada. Energia total por molécula de água (normalizada) -1.2 -1 -0.8 -0.6 -0.4 -0.2 0 coll_1 coll_2 coll_3 coll_4 coll_5 coll_6 coll_7 coll_8 96 É possível perceber, pelo Gráfico 18, que quanto maior o número de moléculas de água confinadas, menor a energia total do aglomerado. Além disso, dividindo-se a energia total pelo número de moléculas de água presentes em cada aglomerado também é possível verificar que conforme o número de moléculas dentro do colágeno aumenta, há uma redução exponencial do módulo da energia por molécula (Gráfico 19). Uma molécula só será formada se esta for mais estável e tiver menor energia que os seus átomos individuais. Assim, em ordem crescente de estabilidade temos: coll_0, coll_1, coll_2, coll_3, coll_4, coll_5, coll_6, coll_7 e coll_8, o mais estável. Park et al. [157] analisaram as estruturas e as energias do dímero ao heptâmero de água usando a função potencial empírica revisada para análise conformacional, e perceberam que as estruturas cíclicas de aglomerados de água, em geral, são mais favoráveis que estruturas abertas, exceção ao heptâmero. Também observaram que quanto mais ligações de hidrogênio um cluster tem, maior é a sua estabilidade. Assim, a estabilidade da cadeia de aglomerados aumenta adicionando-se uma molécula de água ao aglomerado, embora um aglomerado com cadeia infinitamente longa possa não existir. Nesse contexto, coll_8 é, dentre os colágenos com água confinada, o que apresenta maior número de bandas em HFI, sugerindo que tecidos com HFI têm uma maior afinidade a situações mais estáveis de aglomerados de água. Por outro lado, MN apresenta maior número de bandas em coll_6, o terceiro aglomerado de água mais estável. Talvez, mais simulações para colágenos com nove, dez ou mais moléculas de água confinada exponham maior número de bandas que coll_8 referentes à HFI. 97 4.2.2 Polarização e momento de dipolo Buscando encontrar uma correlação entre o momento de dipolo dos aglomerados de água e a presença de inflamação, os módulos dos vetores de polarização (momento de dipolo) foram calculados para cada colágeno simulado. Os resultados podem ser observados no Gráfico 20. Gráfico 20 – Momento de dipolo para cada aglomerado de água confinada. Comparação do Momento de dipolo 45 Momento de dipolo (D) 40 35 30 25 20 15 10 5 0 coll_0 coll_1 coll_2 coll_3 coll_4 coll_5 coll_6 coll_7 coll_8 Colágeno Um trauma, do mesmo modo que outros fatores externos como fatores químicos ou a presença de microorganismos, pode gerar uma inflamação. Esta, por sua vez, favorece as espécies reativas de nitrogênio e oxigênio (RNOS) e, conseqüentemente, os processos de transferência eletrônica. Por outro lado, quanto maior o momento de dipolo, maior a quantidade de espécies reativas de nitrogênio e oxigênio o que, por sua vez, favorece os processos de transferência eletrônica, promovendo uma maior suscetibilidade à inflamação. Neste sentido, coll_2, que se refere apenas a picos de mucosa normal, é o que apresenta o menor momento de dipolo, portanto, consiste em um ponto de equilíbrio, que apresenta a quantidade mínima de água para que a transferência 98 eletrônica ocorra. Já os maiores valores de momento de dipolo são de coll_0 e coll_4, que se referem também a tecidos inflamados. Como coll_0 é o colágeno sem água e a proteína desidratada não apresenta atividade biológica, logo, coll_4 é aquele em que os processos de transferência eletrônica são mais favorecidos. 99 5 DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÃO A presença de moléculas de água interfere nas freqüências características de cada pico, tanto de MN quanto de HFI. Em geral, a posição das moléculas de água vibrantes funciona como uma espécie de “ponte”, ligando as duas hélices do colágeno, interagindo com a estrutura protéica. Tal qual em materiais cimentícios [158] a água confinada em colágeno funciona como um adesivo, ligando as hélices dessa proteína. Observou-se ainda que um maior número de moléculas em aglomerados evidencia picos característicos de diagnóstico em que a freqüência de MN é maior que a de HFI. Por outro lado, um menor número de moléculas em aglomerados evidencia picos característicos de diagnóstico em que a freqüência de MN é menor que a de HFI. Pela discriminação entre MN e HFI, foi constatado que os picos 7, 5, 4 e 3 são os mais relevantes e que em todos eles há a presença da água confinada. Em especial, destaca-se o pico 4, com 100% de sensibilidade, que apresenta vibração das moléculas de água apenas em HFI. Além disso, sua banda no gráfico de espectroscopia Raman é bem característica, exibindo maior intensidade em HFI e menor em MN. É curioso notar que, dentre as bandas características de diagnóstico, apenas aquelas referentes à HFI apresentam duas moléculas de água vibrantes e que tal fato evidencie, portanto, um pico de HFI. Isto caracteriza os picos 5, 4 e 3. No pico 7, ao contrário, a ausência de bandas referentes à água confinada, bem como o aumento do número de átomos vibrando no colágeno sem água confinada, caracteriza o quadro clínico de HFI. Outro fato interessante é que a única banda que apresenta apenas uma molécula vibrando (3070 cm-1, em coll_3) possui outra banda que corresponde ao mesmo pico 5 de MN (3073 cm-1), o qual detém três moléculas de água vibrantes. E que coll_1 não apresenta nenhuma freqüência correspondente a picos de MN e/ou HFI. 100 Por que duas águas ou nenhuma água? Isso leva a crer que quando um quadro inflamatório é evidenciado ocorre a perda de água das regiões confinadas ou redução das interações da água com colágeno. Conseqüentemente, o poder “adesivo” da água torna-se menor e fatores externos podem interferir na biomolécula caracterizando o diagnóstico de doenças. Sabe-se que num processo inflamatório a água extravasa dos vasos sanguíneos provocando edemas [78]. A inflamação pode ser descrita como: rubor, tumor, calor e dor; sendo o tumor causado principalmente pelo acúmulo de líquido no local [76]. Conforme Chung e colaboradores [159], os tumores estão mais associados à água livre e o aumento da água livre pode estar relacionado a alterações na matriz extracelular [159], as quais são ricas em colágenos. Desse modo, pode haver uma redução de moléculas de água ligada ao colágeno em favorecimento de moléculas de água livres. De um modo geral, observaram-se diferenças entre NM e HFI, demonstrando que as moléculas de água podem agrupar-se de modos diferentes quando um processo inflamatório é evidenciado. Essas importantes alterações estão relacionadas, sobretudo, ao estímulo aos processos de transferência eletrônica, caracterizados pelos momentos de dipolo. Isso consiste numa importante informação para o entendimento do processo inflamatório do ponto de vista bio-físico-químico e fisiológico. Desperta ainda a criatividade no desenvolvimento de produtos farmacêuticos e cosméticos preparados para “não perturbar” a estrutura de água em tecidos humanos. Mais estudos de água confinada são necessários para clarear seu papel fundamental no funcionamento de sistemas vivos. Em prosseguimento a pesquisa serão investigadas as propriedades da água em função da temperatura através do estudo das interações água-água e água-cavidade para a água confinada em nanoporos em regimes hidrofóbicos (nanotubos de carbono SWNT) e hidrofílicos (nanoporos MGM). Essas informações, em conjunto com as simulações já realizadas, possibilitarão uma melhor compreensão das propriedades físicas da água confinada e a aplicação desses resultados à elucidação de propriedades de biomoléculas hidratadas. 101 Nós esperamos que os resultados aqui descobertos possam contribuir para esclarecimento de algumas dessas propriedades. 102 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. NOVO Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3 ed. ed. [S.l.]: Positivo, 2004. 2. TUMMALA, N. R.; STRIOLO, A. Hydrogen-Bond Dynamics for Water Confined in Carbon Tetrachloride–Acetone Mixtures. 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