O ‘BULLYING’ ENTRE ADOLESCENTES: ESTUDO DE CASO EM DUAS ESCOLAS
PARTICULARES NAS CIDADES DE SÃO PAULO E CAMPINAS1
Márcia Regina de Carvalho
Mestre em Educação, Administração e Comunicação
Sandra Farto Botelho Trufem
Doutora em Biologia pela USP e professora da Universidade São Marcos
Regiane Aparecida Cardoso de Paula
Doutora em Ciências Aplicadas à Saúde e professora da Universidade São Marcos
1
Parte da Dissertação de Mestrado da primeira Autora
Pesquisa em Debate, edição especial, 2009
ISSN 1808-978X
O „BULLYING’ ENTRE ADOLESCENTES: ESTUDO DE CASO EM DUAS ESCOLAS
PARTICULARES NAS CIDADES DE SÃO PAULO E CAMPINAS
Márcia Regina de Carvalho, Sandra Farto Botelho Trufem, Regiane Aparecida Cardoso de Paula
Resumo
O presente trabalho discute, na visão do estudante, o bullying em duas escolas da rede
particular de ensino do Estado de São Paulo. Ambas as escolas atendem alunos, com
idades entre 15 e 17 anos, da classe média e classe média alta, sendo uma da cidade de
São Paulo e outra de Campinas. Os dados foram coletados por meio de entrevista
individual, e a análise dos dados foi realizada por meio da técnica da análise do
conteúdo do discurso.
Palavras chave: bullying, análise do discurso, adolescentes, agressividade
Abstract
This paper discusses the vision of student bullying in schools in two private schools of
the State of Sao Paulo. Both schools serve students, aged between 15 and 17 years, the
middle class and upper middle class, being one of the city of Sao Paulo and the other in
Campinas. Data were collected through individual interviews and data analysis was
performed using the technique of analyzing the content of speech.
Keywords: bullying, discourse analysis, adolescents, aggression
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Introdução
A questão do outro, da alteridade é hoje fundamental para que possa recuperar o
sonho da cidadania. É um desafio que compromete quem quer que se esforce em dar
resposta à necessidade do ethos que a crise do pós-moderno tão profundamente
evidencia. Nesta crise, os jovens caracterizam-se na inquietude, na busca constante
permeada de subjetividade e altruísmo. Assim, de um lado, há um individualismo
tornado critério, mesmo à custa de dores e sofrimentos; de outro, uma busca de estar
com o grupo, de ser o diferente e até mesmo promover o outro.
O termo inglês bullying representa inúmeras formas de agressão física e
psicológica entre iguais, como ameaças, roubos, apelidos, xingamentos, discriminação,
agressão, etc. Significa utilizar a superioridade para intimidar alguém, pode significar
também valentão e/ou tirano.
O bullying é mais do que uma simples provocação; é um padrão repetido de
intimidação física e psicológica. Muitas vezes, esta atitude é interpretada como
brincadeira própria da idade que pode trazer prejuízos, tanto à aprendizagem como à
saúde e socialização do indivíduo.
O objetivo deste trabalho é pesquisar o bullying entre adolescentes de duas
escolas particulares, destinadas à jovens das classes média e média alta, nas cidades de
São Paulo e Campinas, respectivamente. Para tanto, foram aplicados questionários,
com questões abertas a 16 alunos de idades entre 13 e 16 anos. Os sujeitos da pesquisa
anuíram em participar da investigação e, como eram menores de idade, seus pais ou
responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE),
conforme preconizado pelo CONEP. A avaliação dos resultados das entrevistas foi feita
conforme a proposta de Análise de Conteúdo de Bardin2.
A cultura da violência na sociedade
A sociologia analisa várias formas de violência; entre as quais os modelos mais
frequentes são a violência direta, a estrutural e a cultural. A violência estrutural, por
exemplo, consiste na diferença entre a potencialidade de um indivíduo e a possibilidade
2
BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo, Edições 70, 1977.
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de realizar esse mesmo potencial. Em geral, mas nem sempre, a violência tem como
fim induzir o outro a um comportamento que este não deseja.
Hoje gostaria de chamar atenção para uma das consequências mais sérias diante da
generalização da violência, entendida como ameaça física produtora de risco de vida
para os diferentes grupos e segmentos que compõem a nossa sociedade. Refiro-me à
sociabilidade, base constitutiva da vida social. O que se chama, às vezes toscamente
de “sensação de insegurança”, nos leva a uma sociologia ou antropologia do medo.
As experiências diretas ou indiretas com episódios violentos de natureza física e / ou
simbólica como furtos, roubos, assaltos, ameaças, sequestros, agressões, tortura e
assassinato compõem um quadro de radical alteração nas expectativas e padrões de
sociabilidade. Cada vez mais, especialmente nos grandes centros urbanos,
evidencia-se uma extrema cautela chegando à desconfiança e mesmo à rejeição
diante da possibilidade de contatos e interações sociais diferenciados. Embora haja
um esforço, em alguns casos, de estabelecer pontes entre diferentes categorias
sociais, predomina crescentemente uma tendência endogâmica de retração e
isolamento social. Esses processos, certamente, não são lineares e apresentam
descontinuidades e contradições3.
Na Antropologia, é impossível deixar de citar René Girard que analisa a
dimensão humana na perspectiva de totalidade e destaca o papel da violência
fundadora, apresentando uma nova teoria do sagrado e dos grandes temas míticos e
rituais.
A Organização Mundial da Saúde refere que a violência é expressa pelo
uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio,
contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha
grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de
desenvolvimento ou privação4.
Alguns autores, como Yves Michaud, definem a violência seja nos atos, como
nos estados violentos, quando se usa a força para obrigar outro(s) a agir de forma
3
VELHO, Gilberto. Violência:
uma
perspectiva
antropológica.
Disponível
em
http://www.sbpcnet.org.br/
livro/57ra/programas/CONF_SIMP/textos/gilbertovelho.htm . Acessado em 10/7/2008.
4
Organização Mundial da Saúde. Informe mundial sobre la violencia y salud. Genebra (SWZ): OMS,
2002, p.20.
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contrária à sua vontade ou quando alguém é impedido de agir, de acordo com sua
própria intenção ou ainda é privado de um bem.
Há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de
maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias
pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade
moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais5.
A agressividade em si não é necessariamente má nem anormal. Pelo contrário, é
uma função estruturante da vida, da maior importância. É ativada pela frustração, e a
violência é um distúrbio dela. Enquanto a afetividade diz sim, a agressividade diz não.
Sem a capacidade de dizer não é impossível sobreviver. A afetividade e a agressividade
regulam o posicionamento do ser humano diante da vida. Ambas fazem parte do
relacionamento humano e são indispensáveis para viver.
O conflito também é inerente à vida humana. Não há crescimento pessoal sem
momentos de crise e conflito. No plano social, ele é parte da dinâmica de relações e
confronto de interesses. Em uma sociedade pluralista, o reconhecimento da diferença
em suas diversas configurações passa por processos de confronto social, sem os quais é
impossível que o reconhecimento e a conquista de direitos ocorram. Na violência,
podem existir aspectos que sugiram uma lógica de perda de sentido da vida. De certa
forma, o ser humano está vivendo como um caleidoscópio ao assistir as pressões
externas, a falta de objetivo e aprimoramento das relações, nas quais o consumo e a
mídia parecem processos anestesiantes para se assistir esta corrida desenfreada para
uma busca sem fim, sabe-se lá de que. A violência oculta ou não, parece acontecer em
uma sucessão rápida e cambiante de impressões e sensações.
Violência e estigma na escola
A identidade é feita nas relações sociais e é por meio delas que se revela pelo
encontro com os indivíduos de forma diferenciada. Qualquer grupo social, etnia, raça,
5
MICHAUD, Ives. A violência. São Paulo: Ática, 1989, p.12.
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país, civilização em diferentes tempos históricos foi estigmatizado. Para Goffman 6, o
“estigma”, que chama também de “marca”, são atributos depreciativos, indesejáveis
que se constrói para um indivíduo com base em suas características pessoais: físicas,
mentais e sexuais ou que cause algum desconforto ou estranhamento por ele não ser
adaptado ou adequado ao grupo social que o avalia. Este atributo que estigmatiza
alguém serve para confirmar a normalidade do avaliador.
Nas instituições educacionais, os fatores internos como: o clima escolar, as
relações interpessoais e as características individuais de cada membro da comunidade
escolar, estes sim, os profissionais precisam ser capacitados para saber lidar. A
capacitação vai desde a melhoria do ambiente e das relações como a promoção à
solidariedade, tolerância e respeito às diferenças individuais, pois como cita a
pesquisadora do fenômeno bullying, Cléo Fante:
A educação é o caminho que conduz à paz. A solidariedade, a tolerância e o amor
são os ingredientes que compõem o antídoto contra a violência e que deve ser
aplicado no coração de cada criança, de cada adolescente, de cada jovem, enfim, no
coração de todos os seres humanos, em especial no coração daqueles que se
dedicam à arte de educar7.
Paradigma histórico na construção do ser adolescente
Neste cenário, por vezes caótico e emaranhado, pergunta-se: onde os jovens
ancoram suas vidas? Quem é o jovem e o quê ele busca? O que vem a ser a infância e a
adolescência?
A adolescência trata-se de uma das etapas do desenvolvimento humano
caracterizada por alterações físicas, psíquicas e sociais, e estas duas últimas recebem
interpretações e significados diferentes, dependendo da época e da cultura em que estão
inseridas.
Para a Organização Mundial da Saúde, adolescente é o indivíduo que se
encontra entre os 10 e 20 anos de idade. No Brasil, o Estatuto da Criança e do
6
GOFFMAN, Erving. Estigma, notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 2 ed. Rio de
Janeiro: Guanabara, 1988. p.13.
7
FANTE, Cléo. Op. cit., p.213.
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Adolescente estabelece outra faixa etária: dos 12 aos 18 anos8.
Estudos sociológicos mostram que a forma como se vê e se relaciona com
crianças e adolescentes, como categoria social é uma idéia moderna, construída
histórica e socialmente. Até o século XVII, crianças e jovens não tinham grande
importância; os adultos não se apegavam a eles por considerá-los uma perda eventual:
morriam com facilidade em razão da situação de negligência em que viviam.
O índice de mortalidade era grande, quando conseguiam sobreviver, deveriam
atingir rapidamente a idade adulta para assegurar os bens e ajudar no sustento da
família. A afetividade era quase ausente. A perda de um filho parecia não causar dor;
antes era um fato corriqueiro, não só pelas mortes naturais, como também pelo
infanticídio que parecia ser prática comum: “as crianças morriam asfixiadas
naturalmente na cama dos pais, onde dormiam”9.
Até o surgimento das escolas, o descaso pela educação dos filhos, por parte dos
pais, era grande, mesmo quando do surgimento destas, a educação era severa, realizada
por meio de punições, com a intenção de criar autonomia e independência. “O
sentimento de infância como uma etapa de vida diferenciada e merecedora de atenção,
cuidados, é um sentimento recente. Entre nós, no Brasil, esse sentimento foi trazido,
incentivado e desenvolvido pelos jesuítas”10.
Ariès Philippe acredita que a adolescência, também, nasceu sob o signo da
Modernidade. Segundo ele, o primeiro adolescente moderno típico foi Siegried de
Wagner. A música de Siegried, pela primeira vez, exprimiu a mistura de pureza
(provisória), de força física, naturismo, espontaneidade e alegria de viver que faria do
adolescente o herói do século XX, o século da adolescência 11.
Se adolescência significa crescer, desenvolver até a maturidade, este processo
implica várias considerações, como passar por constantes modificações físicocorpóreas, emocionais e psíquicas, mudança do corpo infantil para adulto,
enfrentamento de identificações transitórias e um imenso trabalho do ego. Por vezes,
8
Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 2º: “considera-se criança, para os efeitos desta lei, a pessoa
até 12 (doze) anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de
idade”. Com exceções, por ex, no artigo 121, parágrafo 5º, quando permite a aplicação e cumprimento da
medida sócio-educativa de internação até os 21 anos de idade (comentado por BESSA, Lílian Maria
Leite. Estatuto da criança e do adolescente. São Paulo: Degrau Cultural, 2003, p.8).
9
ARIÈS, Philippe. Op. cit., p.17.
10
FERRARI, Dalka Chaves de Almeida. Op. cit., p.45.
11
ARIÈS Philippe. Op. cit., p.46.
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esse procedimento é difícil e pouco compreendido.
Ao estudar a adolescência é necessário um cuidado especial para evitar atitudes
preconceituosas, verdadeiros “estereótipos” do mundo adulto que embaçam a visão
correta da pessoa nesse período da vida, e considerar que ainda alguns profissionais
e cientistas desta etapa da vida não a consideram como um verdadeiro estágio, com
características bem definidas do processo evolutivo12.
É preciso compreender que a ação educativa não sofre influência somente dos
comportamentos individuais de pais, professores e adultos em geral, mas também é a
expressão atual de sistemas culturais e sociais que tornam sua origem mais complexa e
repleta de articulações13.
O mal-estar juvenil e a agressividade
De modo geral, a geração dos adolescentes do século XXI, parece, aos olhos
dos adultos, não ter pontos de referência nem possuir projetos para um futuro, ausência
de regras, buscas de situações-limite, de riscos não calculados, falta de interesse, apatia
relacional e intolerância frente ao diferente.
Para todos nós, em algum momento, nossa existência se revela como alguma coisa
de particular, intransferível e preciosa. A descoberta de nós mesmos se manifesta
como um saber que estamos sós; entre o mundo e nós surge uma impalpável,
transparente muralha: a da nossa consciência. É verdade que, mal nascemos,
sentimo-nos sós; mas as crianças e os adultos podem transcender a sua solidão e
esquecer-se de si mesmos por meio da brincadeira ou do trabalho14.
Do ponto de vista psicológico, a adolescência é o momento crítico de definição
da identidade do eu, cujas repercussões podem ser de graves consequências ao
indivíduo e à sociedade.A tarefa principal da adolescência, segundo Eric Erikson, é o
estabelecimento de uma identidade. Isto é, em essência, o processo em que fica
12
KNOBEL, Maurício. Normalidade, responsabilidade e psicopatologia da violência na adolescência. In
LEVISKY, David Léo. Op. cit., p.47.
13
CONSTANTINI, Alessandro. Bulling: como combatê-lo? São Paulo: Itália Nova Editora, 2004.
14
PAZ, Olga. O labirinto da solidão e post scriptum. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.55.
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definido um autoconceito relativamente estável e são constituídas as diferenças entre os
jovens e seus pares. O adolescente busca sua maneira de ser, resultante da integração
final das identificações da infância com as atuais. As mudanças em processo de
desenvolvimento produzem, especialmente, nessa fase da vida, uma ruptura no conceito
de seu próprio “eu”. Merval Rosa, citando Erikson, assim fala da definição de
identidade psicológica que é o senso subjetivo, uma qualidade observável. É um estado
do ser e de se tornar que pode ter uma qualidade consciente bastante elevada. A
identidade do “eu” caracteriza-se por um período evolutivo em que ocorrem as
precondições somáticas, cognitivas e sociais15.
Para Arminda Aberastury, o período da adolescência tem como função principal
a elaboração de três lutos fundamentais: o luto pelo corpo infantil, o luto pelos pais da
infância e o luto pelo papel e identidade infantis. A autora com Maurício Knobel, no
estudo intitulado “Síndrome da adolescência normal”, diz que o adolescente, frente a
tantas mudanças físicas e psíquicas apresenta comumente algumas dificuldades e seria
anormal a ausência de inquietações nesta fase de turbilhão16.
Embora o adolescente não seja tão limitado como a criança, ele ainda depende
muito da família em seu processo de socialização. A atualidade apresenta consideráveis
mudanças na estrutura familiar quanto à divisão do trabalho, distribuição da autoridade,
processos decisórios, padrões de comunicação e apoio emocional. As relações entre ao
jovens e a família tendem a sofrer fortes alterações quando chega a adolescência.
Os pais frequentemente se recusam a admitir que seus filhos não são mais crianças
totalmente dependentes. Resultado: continuam a tratá-los como se fossem crianças,
e isso irrita o adolescente. Por outro lado, os adolescentes muitas vezes se negam a
se comportar à altura de sua idade, especialmente em termos de assumir
determinadas responsabilidades perante a vida 17.
Grande parte das dificuldades relacionais da pessoa deriva dessa insegurança,
seja da timidez ou do grande tumulto, pelos quais passa o adolescente na busca de ser
15
ERIKSON, Erik H. Identity: youth and crisis. In: MERVAL, Rosa. Psicologia evolutiva – psicologia
da adolescência. 8 ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993, p.111.
16
ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. A Adolescência normal. 5 ed. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1986, p.56.
17
MERVAL, Rosa. Psicologia evolutiva – psicologia da adolescência. 8 ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993,
p.95.
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amado, desejável, aceito. A busca do (a) amado (a) é motivo de crise para alguns, de
encontro para outros, mas sempre descoberta para todos.
O tempo difícil é o momento da preparação da primeira experiência amorosa. O
jovem sente que há um risco. Ele a deseja e ao mesmo tempo tem medo. Há um
grande debate que o pesado dossiê dos suicídios e dos comportamentos suicidas
torna bem atual. Apresenta, no fim das contas, esta questão essencial: „É a primeira
experiência sexual que é um ponto culminante na vida do adolescente, ou é a
experiência da morte?‟ Quero dizer, a confrontação com o risco, com o perigo, ou a
não-vontade de viver...18
Os grupos de parceria exercem também grande influência na vida do
adolescente. Por meio dos parceiros, o indivíduo inicia sua própria jornada rumo à
definição de sua identidade. As normas de aceitação dos grupos de parceria, muitas
vezes, levam o adolescente a renunciar aos valores até então adotados. Isso é verdade
sobretudo no caso em que o adolescente se vê rejeitado pela família e sente necessidade
de ser aceito por algum grupo.
Calligaris chama a isto de adolescente gregário:
Recusado como par pela comunidade dos adultos, indignado pela moratória que lhe
é imposta e acuado pela indefinição dos requisitos para terminá-la (a famosa e
enigmática maturidade), o adolescente se afasta dos adultos e cria, inventa e integra
microssociedades que vão desde grupo de amigos até o grupo de estilo, até a
gangue19.
A influência que o grupo exerce sobre o adolescente pode levar a uma perda de
identidade individual, passando a ser grupal. Assim, o grupo ajuda a pessoa a encontrar
sua própria identidade no contexto social. O grupo apresenta certa uniformidade de
comportamento, pensamentos e hábitos. Nessa fase, a autoimagem modifica-se de
modo radical. O adolescente busca conforto na roda de companheiros, padroniza suas
idéias, hábito e atitudes. Um serve de modelo para o outro. Sofre angústia semelhante e
o grupo funciona como protetor perante ela. Desse modo, os adolescentes curtem as
18
19
DOLTO, Françoise. Op. cit., p.22.
CALLIGARIS, Contardo. Op. cit., p.36.
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mesmas experiências e descobertas e as vivenciam juntos 20.
Para quem se ocupa do jovem é bastante preocupante o comportamento
agressivo do adolescente. Percebe-se que a agressividade se verifica desde o ensino
fundamental, por intermédio de comportamentos que mostram uma predisposição
psicológica à intolerância e à impulsividade e espalha-se de modo gradual até os ciclos
escolares mais avançados, estruturando-se em modalidades comportamentais que
forjam a personalidade dos agressores ou vítimas.
Observa-se que as manifestações excessivas referem-se aos processos de
individualização do adolescente que se iniciam entre 12 e 13 anos e vão até 21 e 22
anos e exigem uma delicada travessia psicológica: conseguir separar-se do vínculo
infantil com os pais, começar a andar com as próprias pernas, reivindicando uma
autonomia perante os outros, encontrar identidade própria e regras de comportamento
para além daquelas constituídas pela família e, em seguida, pelo grupo de amigos.
Quanto ao tema da agressividade, pode-se dizer que está no imaginário
pedagógico, em maior ou menor medida, relacionado ao tema indisciplina. Mas
Groppa21 e Lajonquière22 assinalaram que o tema indisciplina, geralmente, é tratado de
modo indistinto. Atribuem-se a ele quase todos os “problemas” escolares desde a
referida agressividade, quanto a agitação nas aulas, problemas de aprendizagem,
discussões e brigas entre os alunos e destes com os professores, atrasos, agitação nos
intervalos das aulas, até depredações dos equipamentos escolares e atos violentos
(portar armas, ameaçar professores, depredar automóveis de professores e funcionários,
etc. Nesse sentido, também está inserido nesse termo o bullying que significa um tipo
de agressão psicológica, caracterizado por apelidos maldosos e atitudes de perseguição
e que com incidência mais acentuada entre os adolescentes 23.
A delinquência e a adolescência parecem caminhar muito próximas, sobretudo
quando o adolescente, não se sentindo reconhecido dentro da convenção social, tende a
ser o contra-lei, em geral, no pacto do grupo a que pertence. Escolhe como
comportamento as tendências antissociais, como modo de superar um vazio e chamar a
20
BECHER, Daniel. Op. cit., p.43.
GROPPA, J. A. (org.) Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus,
1996.
22
LAJONQUIÈRE, L. C. Infância e ilusão (psico) pedagógica: escritos de psicanálise. Petrópolis: Vozes,
1999.
23
Revista Educação. Out. 2005, p.54-56.
21
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atenção e reconhecimento do adulto. Calligaris cita que: “a transgressão tenta encenar o
que adolescentes acreditam ser um desejo recalcado dos adultos” 24.
Parece que o ato antissocial, como sinal de esperança, é uma busca de limites
que foram perdidos, uma busca de segurança, mesmo a partir de um não, um SOS.
A delinquência aponta na direção de que ainda resta alguma esperança. Poderão ver
que não se trata necessariamente de um distúrbio quando a criança se comporta de
uma forma antissocial; algumas vezes a conduta antissocial não é outra coisa senão
um SOS enviado em busca do controle exercido por quem detém a força, o amor, a
segurança. A maioria dos delinquentes são, em alguma medida, doentes. A palavra
doença é bastante adequada pelo fato de que, em muitos casos, o sentimento de
segurança não se estabeleceu suficientemente nos primeiros anos de vida da criança
de forma a ser incorporado as suas crenças. Uma criança antissocial pode apresentar
melhoras sob um manejo firme, mas se lhe é conferida liberdade não demorará em
sentir a ameaça da loucura. Volta, então, a atacar a sociedade (sem saber o que faz)
a fim de restabelecer o controle exterior 25.
Às vezes, alguns comportamentos antissociais vêm mascarados com o brincar,
mas um brincar que machuca que esfola a alma, que produz feridas em si próprio e no
outro. Os jovens descarregam sua agressividade nos jogos e brincadeiras. Brincar, de
fato, é essencial, mas nem todos os jovens aprenderam a brincar de forma saudável,
como bem sinaliza o Professor Joaquim Gonçalves Coelho Filho, grande estudioso de
Winnicott:
Embora o brincar seja universal e decorrente da saúde do indivíduo, inúmeros
jovens não possuem essa capacidade, por se encontrarem doentes, diante da falta de
validação da sua existência, quer por isolamento compulsório provocado pela
dinâmica familiar, quer por invasão avassaladora de uma mãe, ou de quem está
exercendo a função materna, que, por não ter sido também validada, exerce a sua
função não validando o seu filho, mas somente a si própria, na tentativa de se ver
legitimada como pessoa, a despeito dos prejuízos psíquicos causados ao filho26.
Algumas brincadeiras de mau gosto machucam e deixam rastros, ferem a alma e
24
CALLIGARIS, Contardo. Op. cit., p.41.
KARNAC, Harry. Op. cit., p.39.
26
COELHO FILHO, Joaquim Gonçalves; POSSA, Antonio Carlos. Op. cit., p.106.
25
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até o corpo. São as brincadeiras que não têm graça, os apelidos inconvenientes, a
amplificação dos defeitos estéticos, o amedrontamento, as gozações que magoam e
constrangem, chegando à extorsão de bens pessoais, imposição física para obter
vantagens, passando pelo racismo e pela homofobia, sendo culpa dos alvos das
agressões, geralmente, o simples fato de ser diferente, fugirem dos padrões comuns à
turma – o gordinho, o calado, o mais estudioso, o mais pobre. Esta brincadeira sem
graça, de mau-gosto é um problema que atinge sobretudo os alunos nas escolas, e vem
se tornando cada vez mais grave e preocupando as autoridades educacionais. São
atitudes provocantes que se repetem com frequência, com o objetivo de humilhar. Na
aprendizagem, os prejuízos são grandes e não atingem somente os alvos, mas também
quem está próximo desse tipo de violência.
Esta brincadeira tem nome: bullying, que é uma forma de violência silenciosa e
cruel que vai aniquilando o outro moralmente, psicologica e fisicamente, destruindo no
vitimizado o gosto de ir à escola, do estudo, entre outros fenômenos psicológicos que
geram cicatrizes que dificilmente serão curadas. As chagas abertas na alma desses
meninos e meninas fazem tornar a vida escolar um verdadeiro martírio. As autoridades
escolares têm-se preocupado e algumas estão ocupadas em prevenir ou remediar esta
situação que vem crescendo entre os jovens de forma assustadora.
O bullying e sua transformação
Desde muito tempo, ouve-se falar sobre violências veladas ou não nas escolas,
mas, ultimamente, tem crescido o fenômeno bullying com aspecto disfarçado, que
porém, costuma deixar marcas dolorosas na vida dos jovens. Alguns profissionais,
estudiosos e pesquisadores da educação avaliavam esse tipo de violência como
brincadeiras típicas da idade e, por isso mesmo, não tomavam posição. Enquanto isso,
inúmeras crianças e adolescentes sofriam calados ao serem ridicularizados dentro e fora
da escola. Brincadeiras de mau gosto, disfarçadas por duvidoso senso de humor tem
nome, apesar de difícil tradução. O termo bullying ainda não tem uma denominação em
português, pois
É uma palavra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o desejo
consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão; termo
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Márcia Regina de Carvalho, Sandra Farto Botelho Trufem, Regiane Aparecida Cardoso de Paula
que conceitua os comportamentos agressivos e antissociais, utilizado pela literatura
psicológica anglo-saxônica nos estudos sobre o problema da violência escolar27.
Pode-se considerar bullying, toda forma de agressão ou comportamentos
agressivos feitos a uma determinada vítima sem provocação aparente, ou seja, com a
intenção de machucar física ou emocionalmente. Por ser um fenômeno individual ou
grupal, ocorre de forma repetitiva e pode ser caracterizado pela existência de uma
relação de poder. Por definição universal,
... bullying é compreendido como um subconjunto de comportamentos agressivos,
sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder. [...]
alguns pesquisadores consideram ser necessários no mínimo três ataques contra a
mesma vítima durante o ano para sua classificação como bullying. O desequilíbrio
de poder caracteriza-se pelo fato de que a vítima não consegue se defender com
facilidade, devido a inúmeros fatores: por ser de menor estatura ou força física; por
estar em minoria; por apresentar pouca habilidade de defesa; pela falta de
assertividade e pouca flexibilidade psicológica perante o autor ou autores dos
ataques28.
As pessoas que são os alvos do bullying costumam sentir vulnerabilidade, medo
ou vergonha intensos e a autoestima cada vez mais baixa que pode aumentar a
probabilidade de vitimização continuada. As vítimas podem se sentir deprimidas e sem
forças. E, em geral, são pessoas tímidas e com características físicas ou
comportamental marcantes, como obesidade, baixa estatura, o uso de óculos, ou até
mesmo estudiosas.
Conforme citam Middelon-Moz e Jane Zawadski, as pessoas que sofrem
bullying por um longo período passam a manifestar tendências suicidas. Outros podem
retaliar com atos de violência ou começar a exercer bullying contra terceiros.
Infelizmente, quando as vítimas buscam apoio, muitas pessoas desconsideram seus
sentimentos com atitudes que se mostram irrelevantes29.
A origem do bullying está na irrupção e falta de controle do sentimento de
27
FANTE, Cléo. Op. cit., p.27.
Idem, p.28.
29
MIDDELTON-MOZ, Jane; ZAWADSKI, Mary Lee. Bullying: estratégias de sobrevivência para
crianças e adultos. Porto Alegre: Artmed, 2007.
28
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intolerância nos primeiros anos de vida. As consequências nas faixas etárias são
“atitudes de transgressão e falta de respeito ao outro que tendem a consolidar-se,
transformando-se em esquemas mentais e ações de intimidação sistemática” contra
quem é mais fraco30.
O bullying, característico das primeiras séries, envolve quem é mais imaturo,
quem está vivendo o ápice da fase evolutiva, quando não é mais criança, mas também
não é adulto. Nas faixas pré-adolescente e adolescente aparece em uma determinada
idade pela representação de importantes funções evolutivas futuras ou por condições
psicológicas instáveis, emocionais e físicas do indivíduo. Nessas fases de
transformações evolutivas, a primeira, a idade pré-adolescente (7 aos 12 anos),
caracteriza-se pela necessidade de uma orientação firme e de uma intensa base afetiva
por parte do adulto educador; na segunda fase (13 aos 16 anos) esta necessidade
embora presente em estado latente sob a forma de um desejo de encorajamento é
superada por uma exigência de protagonismo, de autonomia e de vida social 31.
Desse modo, estas exigências gerais, próprias dos adolescentes, pressupõe-se
que envolvam com a mesma intensidade vítimas e intimidadores. Mais do que as
condições
subjetivas,
familiares
ou
sociais
específicas,
é
a
ausência
de
desenvolvimento de uma ou mais potencialidades evolutivas ligadas ao crescimento
que determina para alguns o papel de vítima e a outros o de intimidador.
Assim, a autoestima, o reforço pessoal e a assertividade são imprescindíveis à
vítima a fim de que esta consiga enfrentar seu destino, e aos intimidadores; o
desenvolvimento de comportamentos de autocontrole e de tolerância, sentimentos
altruístas e de educação social e cívica, como a empatia, a compreensão, a
solidariedade e o respeito às regras são importantes para evitar situações que levem a
caminhos ameaçadores.
É preciso adequar as ferramentas educacionais para uma sociedade que vem
mudando rapidamente e ter a consciência de que os fenômenos que acontecem
modificam a relação entre o mundo do adulto e do jovem. Assim, torna-se necessário
abrir novos horizontes no campo das intervenções e da comunicação 32.
30
COSTANTINI, Alessandro. Op. cit., p.68.
COSTANTINI, Alessandro. Op. cit.
32
COSTANTINI, Alessandro. Op cit.
31
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Fante33 cita que várias iniciativas antibullying vêm sendo desenvolvidas em
caráter mundial, objetivando a melhoria da competência dos profissionais e da
capacidade de interação social nas relações interpessoais, além da estimulação de
comportamentos positivos, cooperativos e solidários. Estas iniciativas observam que as
escolas são sistemas dinâmicos e complexos, com suas próprias peculiaridades que
precisam respeitar as características culturais e sociais de seus membros.
Cada escola possui sua realidade e com base nela podem desenvolver
estratégias e ações cotidianas e contínuas. Desse modo, todas as iniciativas que as
escolas tomam tem como ponto comum, a ideia de que a violência pode ser evitada e,
como conseqüência, ter seu impacto minimizado.
Assim, conforme cita Fante, “os temas transversais” eram a oportunidade ideal
para que os valores fossem educados; no entanto, os problemas metodológicos que os
professores enfrentam para trabalhá-los acabam inviabilizando a tarefa porque não
sabem como abordá-los no dia-a-dia, que resultam na deficiência de modelos
educativos capazes de sensibilizar, estimular e orientar as atitudes individuais ou
coletivas dos alunos34.
Fante considera que se a violência trata-se de um comportamento que se
aprende nas interações sociais, existem também modos de ensinar comportamentos não
violentos para que se possa lidar com as frustrações e com a raiva, ensinar habilidades a
fim de que os conflitos interpessoais sejam solucionados por meios pacíficos. Desse
modo, observa-se
que a violência possa ser desaprendida e a tolerância e a
solidariedade ensinadas35.
Uma das estratégias que tem surtido efeitos positivos nas escolas é o Programa
Educar para a Paz, que será explicitado a seguir, como uma das ferramentas possíveis
na busca de uma escola mais humana.
Para que seja aplicada uma sanção, existem vários aspectos a serem obedecidos,
dentre eles, podemos mencionar: o aluno deverá saber por que, como e quando
infringiu as normas; o aluno receberá a sanção imediatamente para associar, de forma
correta, ambas as situações: a ação e a reação. Ele deve receber uma sanção educativa,
substituindo uma ação negativa por uma ação positiva e
33
Idem.
Idem, p.93.
35
Idem.
34
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receber a aplicação
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consistente, ou seja, obter as mesmas consequências sempre que apresentar
comportamento agressivo. E receber a sanção acompanhada de informações sobre
como atuar.
Os alunos solidários desempenham uma função de grande importância na
escola, já que atuam como agentes de mudanças.
A escola pode adotar outra medida que é o disque-denúncia, ou seja, dispor de
um telefone por meio do qual a vítima possa denunciar seu agressor. No entanto, pode
ocorrer que as estratégias usadas pela escola não sejam suficientes para encorajar tais
denúncias, já que a vítima teme sofrer represálias.
Para que a violência seja solucionada, não basta defender a vítima e punir o
agressor. É preciso ir além: conhecer as causas que levam o agressor a perseguir sua
vítima e as causas que permitem à vítima suportar tais agressões. Para isso, é preciso
observar e interrogar o agressor e ganhar sua confiança, visto que ele, em muitos casos,
também figura como vítima do modelo educativo a que foi submetido.
Lluis Carreras apud Fante refere que:
Somente acontecerá uma educação para a mudança quando os valores
desenvolvidos pelas crianças e pelos jovens os converterem em pessoas conscientes
da realidade em que vivem, críticas e comprometidas com uma ação transformadora
para uma humanidade melhor 36.
No caso do agressor, os pais e os tutores procuram descobrir as habilidades que
ele possui. Estimular suas habilidades é uma das melhores estratégias para auxiliá-lo.
Por exemplo, se o agressor possui habilidades para a prática de algum esporte, o
mínimo esforço que vier a produzir deverá ser estimulado e elogiado. O
acompanhamento da família na prática desportiva, como “torcida familiar” ou como
integrante desse mesmo esporte, fará com que os laços familiares se estreitem e o
agressor se sinta amado. Dessa forma, qualquer esforço que venha a modificar sua
maneira de agir passa a ser visto de maneira positiva por seus familiares. Assim, o
agressor deixa de ser visto como “problema” e se transforma em um elemento
importante dentro do contexto familiar e escolar, e a agressividade, com o passar dos
tempos, tenderá a diminuir ou, quem sabe, até a ser eliminada, se canalizada para ações
36
Idem.
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proativas. Porém, o acompanhamento dos pais deve ser constante a fim de não abrir
lacunas para as ações agressivas.
Quanto à vítima típica, como já mencionado, esta se caracteriza pela ansiedade
e insegurança, pouca confiança em si mesma, poucos amigos ou nenhum. Por isso, é
importante que os pais procurem ajudar o filho a integrar-se e lhe possibilitem a
autoconfiança através do desenvolvimento das qualidades e atitudes positivas da
criança. É importante que os pais também utilizem os elogios para toda e qualquer
atitude positiva que demonstre confiança, por mais insignificante que seja. O ideal seria
que os pais ensinassem o filho a se defender do agressor sem recorrer à violência.
Nas estratégias familiares, as atitudes solidárias também são imprescindíveis. O
tutor pode sugerir que os pais se engajem nos projetos solidários da escola, seja através
do grupo de pais solidários, seja através de pequenas ações, junto com seus filhos.
Quanto à vítima provocadora, esta colabora nas situações de agressão. Nesse
caso, os pais ou os tutores devem ajudar com discrição, porém com firmeza, para que
ela passe a agir de forma a irritar menos seus companheiros. O ideal é que o tutor lhe
propicie o desenvolvimento das habilidades sociais par que ela adquira melhor
compreensão das normas sociais de seu grupo e eleve sua autoestima. Uma opção para
a vítima provocadora é a liderança, seja participando de um grupo de alunos solidários,
seja de algum grupo de estudo (monitor de estudo), e, em casa, passando a se
responsabilizar por alguma tarefa. Em ambos os contextos, o elogio e o incentivo são
primordiais para o cumprimento da tarefa. A participação e a atribuição de
responsabilidades promovem a mudança de comportamentos e favorecem a
convivência pacífica.
Conforme cita Costantini37, o bullying diz respeito não só às escolas maternais,
como também às escolas do ensino médio e fundamental, pois desenvolve-se em um
período da adolescência que é distinguido pelo amadurecimento diferente dos jovens
das primeiras séries em relação aos das séries mais avançadas, os quais estão voltados
aos interesses externos à escola, para sua realização em termos de trabalho, estudos,
companheiros, amor, ou seja, voltados a uma vida independente.
O bullying produz um contexto relacional e psicológico típico de um sistema
em grupo fechado, que não encontrou condições para desenvolver positivamente as
37
Idem, p.72.
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relações entre seus membros. No entanto, observa-se que na ausência disso ganham
espaço as dinâmicas mais negativas, nas quais as relações entre companheiros
consolidam-se em rituais, em zombaria e escárnio, de intimidação e de desvalorização
do outro, de passividade e impotência para fugir de situações desagradáveis que se
transformam em isolamento e marginalização da vítima.
Tudo isso se agrava pelas condições do contexto escolar; assim, quando o
jovem sofre intimidações longe da escola poderá escolher trocar de grupo ou
companhia, mas na sala de aula deve conviver com os mesmos companheiros em todo
o percurso escolar.
No entanto, à vítima, as consequências são a curto e a longo prazos como:
ansiedade, depressão, ausência de autoestima e transtorno comportamental que podem
levá-la a abandonar a escola, como também podem levá-la a risco de suicídio.
O bullying e os relatos na mídia
Normalmente, imprensa noticia o bullying de forma sensacionalista e não diz
tudo o que está subentendido. Vários são os relatos de revistas, jornais e meios de
comunicação, em geral, de jovens e crianças vítimas, agressores e testemunhas do
fenômeno.
As primeiras manchetes sobre o tema reproduzem casos nacionais e
internacionais, cujo desfecho, em geral, é trágico. “Discriminação exclui do convívio”,
“Violência moral pode levar jovem a reações extremadas”, de Armando P. Filho e
Antônio Góis38, onde o relato de adolescentes que enfrentaram a discriminação retrata
exclusão e / ou morte (suicídio ou homicídio). Como o caso de Edmar Aparecido
Freitas, 18, que se suicidou após ter ferido seis alunos, uma professora e um
funcionário da escola onde estudou em Tiúva (interior de SP). Freitas teria
confidenciado a amigos que se sentia ridicularizado com um apelido e excluído pelos
colegas de classe. Era ridicularizado pelos companheiros que o chamavam de
“gordinho”. Depois de emagrecer para se livrar do estigma, ganhou novo apelido:
“vinagre”, já que os colegas insinuavam que havia tomado ácido para perder peso.
38
Folha de S. Paulo, 20/02/2003, quinta feira, p.C4, SP.
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Em fevereiro de 2003, a Folha de São Paulo39 anuncia o projeto que a
ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e
Adolescência), com patrocínio da Petrobras, estava iniciando com 11 escolas públicas e
particulares no Rio de Janeiro. Hoje, com os resultados desta pesquisa, sabe-se o
quanto ela auxilia na compreensão da violência nas escolas.
A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou, em setembro de 2007, o
Projeto de Lei do deputado estadual Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), que obriga as
escolas públicas e privadas a adotarem medidas preventivas de combate ao bullying.
Agora, a matéria deve ser encaminhada à sanção do governador José Serra. A lei
contempla os educadores que também são vítimas desse tipo de violência. Uma
pesquisa da APEOESP (Sindicato dos Professores) aponta que 87% dos docentes
afirmaram ter presenciado algum ato violento dentro da escola, e que 93% deles foram
cometidos por alunos40.
Em novembro de 2007, também, na Alemanha foi noticiado o caso de um
estudante de 18 anos em Emsdetten que invadiu sua ex-escola armado de fuzil e com
um cinturão de explosivos preso ao corpo fez vários disparos, ferindo 11 estudantes
aproximadamente e, em seguida, suicidando-se. Uma linha telefônica foi estabelecida
depois do ataque para ajudar estudantes e pais de alunos dessa escola. Isso aconteceu
no dia 20 de novembro de 2006, por volta das 9 horas da manhã com um ex-aluno de
uma escola com 693 alunos com idades entre 10 e 15 anos. Esse aluno deixou em seu
site uma nota informando o plano de ataque à escola e dizendo: “A única coisa que me
ensinaram nessa escola é que sou um perdedor” “Odeio as pessoas”. O crime fez a
Alemanha reviver o temor de abril de 2002, quando um jovem matou 16 pessoas numa
escola de Erfurt, no mais grave ataque desse tipo no país41.
Segundo a reportagem do “Jornal O Globo” de 23 de março de 2005, no período
de 2003 a 2004, 49 pessoas morreram nos Estados Unidos da América, vítimas de
violência nas escolas, entretanto, no início de 2005, foram registrados 30 mortes no
interior das escolas, incluindo o massacre de Minnesota.
Em 23 de setembro de 2005, o jornal noticiou um fato marcante de um aluno
finlandês que deixou perplexa a sociedade, quando atirou sobre colegas e depois se
39
Folha de S. Paulo, 20/02/2003, quinta feira, p. C4, SP.
Disponível em: http://atribunadigital.globo.com . Acessado em 15/07/2008.
41
Disponível em: http://pt.wikinews.org/wiki . Acessado em 05/10/2008.
40
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matou. O estudante Matti Juhani Saari, de 22 anos, realizou o ataque em uma escola na
cidade de Kauhajoki.
No Brasil, destacam-se os estudos realizados pela pesquisadora Cléo Fante que
pode ser considerada pioneira à respeito da problemática bullying no âmbito
educacional, pois dirige o CEMEOBES e promoveu, em 2006, “I Fórum Brasileiro
sobre o Bullying Escolar” que ocorreu em Brasília, iniciando e consolidando os debates
em torno da problemática no Brasil.
Nestas condições pesquisas, estão sendo realizadas em torno da problemática
bullying no Brasil, mas ainda não têm alcance nacional, apesar de inúmeros
pesquisadores e instituições educativas já se mobilizam à respeito do tema, promovem
debates, propõem projetos de intervenção, conscientizam pais, alunos e toda a
comunidade escolar para que esses comportamentos de desrespeito ao próximo não
sejam tolerados em nenhum ambiente educacional.
O bullying na visão dos alunos
Para o estudo do bullying, foram escolhidas duas escolas , onde foram
realizadas entrevistas com 16 alunos e 4 professores.
As escolas selecionadas
pertencem à rede privada de Ensino Médio da cidade de São Paulo e de Campinas, no
Estado de São Paulo. A que se situa na cidade de São Paulo localiza-se no bairro do
Ipiranga, com clientela de classe média típica do bairro, trata-se de escola criada em
1928, na região central da cidade, e transferida para o bairro em 1931, onde permanece
até hoje. Conta com pouco mais de 1.000 alunos, distribuídos nas classes de Educação
Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. A Escola de Campinas situa-se no
bairro de Notre Dame, que conta com população de classe média alta. Foi criada em
1958 e era destinada apenas a meninos. As meninas passaram a fazer parte do Colégio
apenas a partir de 1968. Conta hoje com 1360 alunos aproximadamente, distribuídos
em classes de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.
A análise dos resultados seguiu a categorização proposta por Bardin 42. A
palavra categoria, em geral, refere-se a um conjunto que abrange elementos ou aspectos
com características comuns ou que se relacionam entre si. Essa palavra está ligada à
42
Idem.
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idéia de classe ou série. As categorias são empregadas para se estabelecerem
classificações e trabalhar com categorias significa agrupar elementos, ideias ou
expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso 43.
Para Bardin44, a categorização é a simplificação dos dados brutos, é um
processo de estruturação. A palavra categoria, em geral, refere-se a um conjunto que
abrange elementos ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre
si. Essa palavra está ligada à idéia de classe ou série. As categorias são empregadas
para se estabelecerem classificações e trabalhar com categorias significa agrupar
elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso 45.
A representatividade (em que a amostra deve representar o universo que se
deseja demonstrar), a homogeneidade (no qual os dados devem refletir o mesmo tema,
com técnicas de coleta iguais e indivíduos semelhantes para realizar esta razão),
pertinência (as entrevistas devem atender aos objetivos da pesquisa) e exclusividade (as
unidades de registro não devem ser classificados em mais de uma categoria.
No caso das entrevistas com os alunos, percebeu-se a existências de 11
categorias de discursos. A seguir, apresentam-se algumas das afirmações que refletem o
pensamento geral do grupo. As palavras chaves dos discursos aparecem negritadas
1ª categoria: a importância da amizade na escola
Para os adolescentes entrevistados, a amizade na escola é importante.
eu acho que é... assim, sem a amizade você se sente sozinho e o colégio e é um lugar
que se você se sente sozinho fica chato realmente né? Um lugar que você tá sozinho.
Eu, assim tenho a sorte de conseguir fazer amizade muito fácil, de me relacionar bem
com todo mundo da minha sala, então... tipo... eu gosto bastante, acho que é muito
importante ter amizade no colégio, principalmente, pra se sentir assim... feliz na
escola até (Aluno A).
A amizade é muito importante porque pra mim é um porto-seguro, você vai ter o
apoio que você precisa dos seus amigos e eu me considero que faço laços facilmente,
dependendo da pessoa que eu encontro (Aluna B).
43
Idem.
Idem.
45
Idem.
44
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Pra mim a amizade é fundamental pra você seguir na vida. O comportamento dos
seus amigos influencia o seu comportamento (Aluno C).
A importância não só na escola como pra vida, porque infelizmente, pode... é... a
gente leva a amizade pra vida toda, não só pra dentro da escola. Então, quando a
gente precisa de alguma coisa e sabe que tem um amigo que a gente pode confiar, é
muito importante (Aluno D).
Na escola, você tendo amizade, você se sente melhor. Na escola., não é só
ficarestudando, sei lá, amigo é sempre bom. (Aluno F)
Ah, eu acho que ela é muito importante, ter umas amigas pra você poder conversa,
poder contar na hora que você precisa falar algum segredo, sei lá, alguma coisa.
Acho muito legal. (Aluno G)
Eu acho que a amizade, né...você desenvolve várias outras coisas porque
normalmente quando você ta na sala de aula, você ta com seus amigos, eles são meio
que importantes, né? Na sala de aula, pra convivência pra você se sentir melhor, prá
você ter com quem contar e contar suas coisas, um companheiro assim...tanto prá
brincar, sair, essas coisas, como para estuadar e ajudar quando você precisa. (Aluno
H)
A amizade é muito importante porque é através dela que cê consegue se dar bem né?
(Aluno I)
Eu acho que é importante, porque a escola não é só um lugar que você só estuda, mas
que você também acaba criando uma vida social, você tem as pessoas em volta, você
tem a sua classe, você tem o seu ano, eu acho que é importante porque se você não
tiver estabilizado nas suas amizades, acaba desestabilizando também nos estudos.
(Aluno J)
Beane46, alguns adolescentes tornam-se bullies porque não conseguem fazer
amigos, sentem-se solitários e procuram chamar a atenção por meio do bullying. Outros
tornam-se vítimas porque são solitários e é fácil persegui-los. Todos os alunos – bullies,
vítimas e todos os outros – podem beneficiar da aprendizagem e da prática de
competências de amizade.
46
BEANE, A. A sala de aula sem bullying. Porto (Portugal): Porto Editora, 2006.
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2ª categoria: o que mais admira nas pessoas?
Ahhh... assim... a animação delas e a fidelidade né? Eu acho importante isso daí
num amigo meu, no caso (Aluno A).
Confiança, ser verdadeiro um com outro (Aluna B).
O que admiro é quando os meus amigos são sinceros comigo (Aluno C).
O fato da gente poder confiar neles e saber que eles confiam na gente (Aluno D).
A amizade mesmo. Quando ela demonstra que você pode confiar nela, quando ela
demonstra que apesar de qualquer burrada que você fizer ela taria do seu lado, te
apoiando, não importa como você é, não importa o que você faça, mas ela vai estar
ali te apoiando. (Aluno J)
A sinceridade e a fidelidade. (aluno M)
Ai, eu acho que na amizade...é. Ah! o fato da pessoa estar sempre por você, a pessoa
te ajudar sempre que você precisa. (Aluno N)
Fidelidade e da pessoa se colocar no lugar da outra, acho que isso sim é uma
verdadeira amizade. (Aluno K)
Conforme ensinam Middelton-Moz; Zawadski47, a interação entre uma criança e
seu cuidador é a maior proteção contra comportamentos agressivos posteriores. Esse
relacionamento é importante para o desenvolvimento de vínculo e de empatia, além de
regular e equilibrar as emoções e a capacidade de aprender.
É por meio de vínculos saudáveis que o adolescente desenvolve empatia,
sensibilidade e regular emoções48.
3ª categoria: maus-tratos dos colegas
47
MIDDELTON-MOZ, J.; ZAWADSKI, M. L. Bullying: estratégias de sobrevivência para crianças e
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48
Idem.
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dar um apelido, dar um soco, um chute. Isso acontece bastante até... dá pra ver até
dentro da sala mas.. já virou uma coisa normal (Aluno A).
Ah, sempre tem aquele que ofende, que quer menosprezar... que acaba tachando as
pessoas (Aluna B).
Eles maltratam pra ofender, de forma de brincadeira. De brincar com os outros, mas
não querendo magoar assim (Aluno C).
Ah, faz isso pra querer se sentir superior diante das pessoas, mas muitas vezes faz
sem pensar (Aluno D).
Ah, eu acho que tiração de sarro, apontar, ficar criticando, às vezes, até bater por um
motivo muito bobo, geralmente. (Aluno P)
Xingar, apelidos que não façam sentido, que não são de bom gosto, ou excluir ele e
fazer com seus amigos excluam ele, essa pessoa. (Aluno K)
Ah, s vezes até na classe com o professor e, às vezes, o professor encara como sendo
uma brincadeira, mas, na verdade, a outra pessoa acaba se sentindo mal, por aquilo.
(Aluna N)
Ah, algumas coisas na educação física, chuta bola um no outro, mas esse tipo de
coisa acaba sendo brincadeira, mas com alguns acaba sendo um pouco de
marginalização mesmo, assim sabe? Aquelas pessoas já não é muito amiga então
vamos... (Aluna M)
Costantini49 cita que a adoção pelos adolescentes de atitude e gestos obscenos e
provocativos, de símbolos e imagens do “chamado trash, de aproximação aos
comportamentos de grupos e culturais marginais, de adesão a incitações agressivas e
violentas”, é uma tentativa de diferenciar-se dos adultos ou imitar os que, por sua
transgressão, parecem estar a seu lado.
4ª categoria: conversa com alguém a respeito desses maus-tratos
Dos meus colegas sim. Falo com a minha mãe até sobre isso, mas de mim, como não
49
COSTANTINI, A. Op. cit., p.59.
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tive muitos casos, nem falei e não houve até necessidade de ser falado porque as
pessoas resolveram na hora (Aluno A).
É, eu conto pros amigos que é onde eu acho apoio (Aluna B)
Contei pro meu pai, ele veio conversar comigo e me deu uma força. E um tempo
depois eu melhorei, as coisas melhoraram, e nunca mais fizeram o que faziam
(Aluno D).
Eu acho que geralmente a gente costuma não contar, né? A gente meio que passa
por cima. (Aluno P)
Contei, contei. Contei muito com minha família e com a diretora da escola, a
coordenadora na realidade. (Aluno J)
Contei. Sempre que acontece alguma coisa de ruim, já chego e falo pro coordenador.
(Aluno I)
Conforme aponta Costantini50, a escola como qualquer outro local frequentado
por adolescentes e adultos, precisa ter como objetivo prioritário a promoção de um
contexto de diálogo satisfatório, aberto ao amadurecimento do grupo, ao
desenvolvimento de relações positivas entre os adolescentes em termos de amizade,
ajuda e solidariedade.
Assim, os adultos, como educadores, exercem um papel central na construção
de contextos educativos significativos. Sejam pais, professores ou quem quer que esteja
em contato com o adolescente. É importante que o adulto tenha consciência de seu
papel que requer atenção e sensibilidade especiais em seu confronto com os
adolescentes.
5ª categoria: onde ocorrem os maus- tratos?
Na sala de aula e até mesmo com o professor. Na hora do recreio também, mas na
hora do recreio nem tanto, que assim... fica conversando, acaba sendo normal.
Assim, na internet, tem aquele comentário de foto no Orkut. Então, às vezes, a
pessoa, tá tipo, numa foto estranha e todo mundo xinga ela. É o que acontece, mas
50
Idem.
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acontece mais na sala de aula com o professor dentro ou sem o professor, não
importa muito (Aluno A).
Ah... na sala quando não tem professor ou no pátio mesmo que é um horário mais
distraído (Aluna B).
É... na sala de aula, principalmente, com a ausência do professor. Eles aproveitam
pra fazer essas atitudes (Aluno C).
Na escola. Em qualquer lugar. Nos corredores, nas salas, nos banheiros (Aluno D).
No colégio, né? No pátio da escola. (aluno I)
Ah, dentro de sala de aula, acho. (Aluno O)
Em todo lugar, mas assim, agressão, agressão não acontece na escola, mas se é
alguma coisa mais séria, aí é fora da escola. (Aluno R)
É, mais na educação física, nas aulas de educação física, longe... claro que sempre
tem aquela zoação por exemplo responde errado na correção de matemática, “ah,
burro, burro”, sempre tem essas brincadeiras que não são muito legais. (Aluno G)
Costantini51 cita que é preciso haver uma ação de controle, como uma simples
medida de prevenção por parte dos adultos. Uma quantidade significativa dos atos de
bullying é cometida por alunos mais velhos contra os mais novos em locais mais
afastados. Então é importante vigiar os lugares menos frequentados e também as salas
de aula nos intervalos de aula como uma ação de proteção para possíveis vítimas e para
mostrar que o bullying não é aceito.
6ª categoria: quais os tipos de maus-tratos?
Sim, já fui maltratado assim... Apelido, tipo nariz, essas coisas... mas eu nem me
importo. Chama do que quer, não gosta, não gosta (Aluno A).
É até mesmo às vezes nas brincadeiras que ele até vai fazer comigo e eu faço com
ele e acabo machucando, mas sem intenção de acontecer alguma coisa... (Aluno I)
51
COSTANTINI, A. Op. cit., p.59.
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Ah, geralmente xinga a pessoa, fecha, exclui. Assim que a pessoa é excluída não
consegue fazer amizade por causa disso, porque geralmente quem faz tudo isso são
os meninos mais populares assim, que tem influência. (Aluno O)
Ah, Às vezes até...mal trato físico, né? Bate, xinga...essas coisas de xingar mãe, o
pai, essas coisas...(Aluno E)
Middelton-Moz; Zawadski52 citam que o bullying não é só um comentário
cortante ocasional feito por um colega. É crueldade deliberada voltada aos outros, com
inteção de ganhar poder ao infligir sofrimento psicológico e / ou físico. Seus
comportamentos são vários: ofender, humilhar, espalhar boatos, fofocar, expor ao
ridículo em público, fazer de bode expiatório, acusar, isolar, dar socos, tapas, chutes,
insultar, sexualizar.
7ª categoria: quando você maltrata alguém, como se sente?
Já maltratei, acho que a maioria das pessoas já deve ter maltratado alguém. Não
faço maltrato grande à pessoa, não chuto nem bato, eu só brinco assim, brinco até
xingando de vez em quando. Por apelido e assim... zuar a pessoa qualquer coisa
que acontece, dar risada na cara. Eu acho engraçado, dou risada, a pessoa também
dá risada e assim, eu não me sinto superior a ela por estar maltratando ela no caso
ai (Aluno A).
Me senti mal. (Aluno F)
Não que eu me lembre. (Aluno M)
Ah, não sinto nada. Sinto que seu puder estar brincando ali pra me sentir mais
próximo daquela pessoa. Brincadeira só pra não ficar aquela coisa só oi oi... pra
descontrair um pouco. (Aluno G)
Depois que eu maltratei principalmente, se foi sem querer eu sempre me sinto mal,
com peso na consciência. Eu procuro conversar com a pessoa pra reparar o que eu
fiz. (Aluna N)
52
MIDDELTON-MOZ, J.; ZAWADSKI, M. L. Op. cit.
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Beane aponta que os alunos quando desenvolvem relações de amizade com os
adultos, não só com seus pais, mas também com outros membros da família e da
comunidade aprendem a importância das competências sociais e da construção da
autoconfiança, da autoestima e solidariedade. Isto é importante a todos os adolescentes
e especialmente benéfico para os que a quem faltam competências sociais.
8ª categoria: já presenciou a prática do bullying e como se sente?
Alguns são só brincadeiras, mas outros eu fico com medo de acontecer comigo que
são barra pesada literalmente, chute, soco. E aí eu fico até um pouco fico triste
porque assim... são amigos que um começa a chutar o outro porque não tem o que
fazer. Então de vez em quando eu fico triste, de vez em quando eu dou risada,
quando é engraçado e encaro como uma brincadeira, mas tenho medo que aconteça
comigo (Aluno A).
Ah, sempre tem aquilo de colocar apelido, alguma coisa assim (Aluna B).
Foi botando apelido, fazendo brincadeiras. Eu, muitas vezes, me sinto como uma
brincadeira, mas quando acaba ofendendo, eu acabou indo pedir desculpa (Aluno
C).
Eu faço porque eu sei que a pessoa não liga. Não sinto nada... não sinto prazer, não
sinto tristeza, não sinto nada (Aluno D).
Já! Ah, eu sinto angústia, fico triste, sabe! É como se fosse para mim. Eu não desejo
isso para ninguém,. (Aluna O)
Ah, eu nunca presenciei de bully, nem agressões físicas, já presenciei agressões
mentais, ma foram de momento. (Aluna G)
Pedi pra parar né? Mas tem um dos casos que eu falei pro menino que era um amigo
meu, porque que ele deixava as pessoas fazerem isso com ele, ai ele falou que era só
brincadeira, ele era de outro estado e por causa do sotaque meio que faziam isso
com ele. O outro caso que eu também me lembro que eu fui lá, falei que não podia,
que era feio...(Aluno L)
Já, é uma coisa até bem freqüente na escola. Sempre tem aquele que é pego pra
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Cristo e que todo mundo tira sarro dele. Muitas vezes, eu acho que é uma crueldade
assim, que é uma coisa super desnecessária. Outras vezes, eu encaro como uma
brincadeira, até porque não está acontecendo comigo, né? (Aluno P)
Costantini53 refere que o bullying não são conflitos normais ou brigas que
existem entre os adolescentes, mas verdadeiros atos de intimidação preconcebidos,
ameaças, com violência física e psicológica, são repetidas e impostas a indivíduos mais
vulneráveis e incapazes de se defenderem, o que os leva no mais das vezes a uma
condição de sujeição, sofrimento psicológico, isolamento e marginalização.
9ª categoria: por que a prática do bullying?
...muitas vezes você não conhece, não sabe a razão pelo qual a pessoa tá cometendo
bullying. Você sabe porque ela tá sofrendo mas não sabe porque que ela tá fazendo
bullying, né? (Aluno A).
Pra se achar, pra ter mais popularidade entre o grupo (Aluno C).
Pra se sentir superior diante das pessoas, por querer mostrar que tem certo tipo de
força, quer ter moral na frente dos amigos (Aluno D).
Ah tipo, você fica vendo que sensibilizado, mas eu não sei que atitude tomar (Aluna
B).
Muitas vezes eu dou risada. Se a pessoa acaba não gostando da brincadeira, não
concorda, eu fico chateado (Aluno C).
Dependendo da situação eu tento conversar com a pessoa que tá fazendo pra não
fazer mais. Mas quando é algum... por exemplo é... quando sei que é uma pessoa que
num tá fazendo propositalmente pra magoar, eu nem ligo (Aluno D).
Não sei. Às vezes tem uns graus assim que atingem que é tão cruel, que não tem
motivo pra isso. Talvez vontade de se sentir superior, necessidade de se sentir melhor
do que alguém, de ver a pessoa numa situação pior do que a sua. (Aluno P)
Geralmente, as pessoas que praticam o bullying, ao ameaçar sentem melhor que o
outro, ela sente “nossa, eu tenho poder; acho isso para subir a auto estima dele
53
COSTANTINI, A. Op. cit.
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mesmo (Aluna O)
Não sei, pra chamar a atenção, pra ser engraçadinho. (Aluno I)
Muitos porque querem se aparecer pros outros, a classe querem, sei lá, se aparecer
pra meninas....se acham forte, porque fazem isso, fazem aquilo e não sabe que está
sendo desagradável. (Aluno G)
Middelton-Moz; Zawadski54 referem que a prática do bullying é a crueldade
frequente e sistemática, voltada deliberadamente à alguém, por parte de uma ou mais
pessoas, com intenção de obter poder sobre o outro ao infligir regularmente sofrimento
psicológico ou físico.
10ª categoria: quais sentimentos as pessoas que sofrem bullying experimentam?
Medo, porque de vez em quando acontece até todo dia então a pessoa já vem pro
colégio um pouco assustada e acho que... tristeza, uma fraqueza, inferioridade
porque ela não pode fazer nada contra todo mundo. Ela se sente inferior ao resto e
um pouco também acho que... de raiva né? De vez em quando essa pessoa pode até
vir a explodir e sair matando todo mundo como acontece até nos Estados Unidos
como a gente vê (Aluno A).
Ah, de inferioridade, tristeza... não sei direito (Aluna B).
Acho que elas se sentem bem tristes, chateadas, porque as pessoas ao seu redor que
ela pensa que são todos seus amigos e elas acabam traindo, brigando com ela,
chateando (Aluno C).
Humilhação (Aluno D).
Então, por eu nunca ter presenciado, eu não imagino, mas eu acho que deve ser
muito triste. Você não gostar de uma coisa e estar sempre insistindo naquilo, todo
dia aquilo. Todo dia você vai ver aquela pessoa. Todo dia ser xingado, todo dia deve
ser muito ruim mesmo.(Aluno G)
Eu acho que deve horrível, eu acho que dependendo de quanto isso acontece com
54
MIDDELTON-MOZ, J.; ZAWADSKI, M. L. Op. cit.
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você, te deixa até depressivo, assim, numa tristeza imensa. Machuca mesmo assim.
(Aluna P)
Sentimento ruim de tristeza. (Aluno E)
Ah, acho que é ruim, né? Acho que elas ficam tristes, acho que é um sentimento de
pô, o que eu fiz de errado para ela estar me maltratando desse jeito. (Aluna N)
Angústia, medo, muitas vezes, tristeza, mágoa. Eu acho que isso é horrível no
sentido psicológico da auto estima da pessoa, de tanto a pessoa ouvir aquilo, ela
acaba acreditando em algumas coisas. (Aluno M)
Várias pesquisas relatam que 75% dos jovens dos Estados Unidos da América
sofreram bullying durante a adolescência. Segundo o relatório da National Association
of School Psychologists, “todos os dias mais de 160 mil crianças faltam à aula por
medo de bullying”55.
11ª categoria: proposta para diminuir o bullying na escola
Tomar mais atitude. Assim, ano passado até teve muitas coisas sobre o bullying,
texto de filosofia, religião, mas não teve efeito. Não, ninguém baixou, não mudou
muita coisa porque o colégio, a direção, não toma atitude. Então, acho que se a
direção e os professores tomassem atitude quando vissem, as pessoas iam pensar
duas vezes antes de cometer o bullying (Aluno A).
Deles esclarecerem realmente o que é o bullying. Criar um ponto de apoio, alguém
que seja aberto assim pra conversar, pra pessoa se sentir segura pra falar (Aluna B).
Mais palestras sobre o tema ajudaria muito (Aluno C).
Pros professores conversarem com os alunos. Tivessem mais professores que os
alunos pudessem contar com os professores, não como professores, mas como
amigos. E palestras na escola, campanhas. Aí ia ajudar, ou pelo menos amenizar um
pouco (Aluno D).
Acho que é mais conscientização de que pode trazer problemas psicológicos, pode
55
Idem.
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afetar no desenvolvimento intelectual e conscientizar mesmo de que você não pode
fazer pro outro o que você não quer que as pessoas façam com você.(Aluna N)
Integrar mesmo as pessoas, palestras, falando, contando histórias tipo e mostrar pra
todo mundo o lado, porque normalmente as pessoas mostram que é errado, mas não
mostram o lado da pessoa que tá sofrendo o bullying, que tá sentindo. Seria legal
mostrar o lado da pessoa mesmo não o lado que é errado fazer.(Aluno H)
Fazer campanha de conscientização. (Aluno E)
Acho que pra ser mais rigorosa neste tipo de brincadeira. (Aluno I)
Conscientizar os alunos, porque, muitas vezes, a pessoa que pratica esta violência
acha isso uma brincadeira e nem percebe o quanto de mal ela tá fazendo pro outro.
Então, eu acho que conscientizar as pessoas é algo importante. (Aluno K)
Eu acho que é difícil diminuir, mesmo que a escola faça alguma coisa. Eu acho que
além da escola depende da base familiar também. Acho que depende muito da
família. Da cabeça, do caráter, então, isso vai da educação mesmo. (Aluna L)
Quanto melhor o professor conhecer seus alunos, mais facilmente poderá ir ao
encontro de suas necessidades acadêmicas, de pertença, de aceitação e de se darem bem
uns com os outros. Tudo isso poderá contribuir para um ambiente de sala positivo 56.
Conclusões
Pelo estudo realizado, foi possível observar que o bullying não é simplesmente
como muitos pensam, um comentário ácido ocasional feito por uma pessoa próxima,
um dia ruim com o chefe, crianças brigando com outras enquanto brincam, aprender as
duas lições da rivalidade entre irmãos ou a solução de conflitos com colegas. É a
crueldade frequente e sistemática dirigida deliberadamente a alguém, por parte de uma
ou mais pessoas, com intenção de obter poder sobre o outro ao infligir regularmente
sofrimento psicológico ou físico.
Peter Randal (1977), citado por Middeltonmoz e Zawadski, diz
56
BEANE, A. L. Op. cit.
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“o bully conquista algo que quer. Às vezes, é só o prazer de assistir a outra pessoa
sofrendo ou observar seu medo. Com frequência, é a extorsão de algo de valor,
como sua propriedade ou seu direito a férias, ou mesmo vagas de estacionamento”.
A falta de consciência costuma fazer com que o ser humano se torne surdo e
cego quanto à dor vivenciada pelo adolescente vítima de bullying, o que leva esses
jovens a tornarem-se prisioneiros de sua tristeza, medo e depressão.
Não surpreende que os que têm o comportamento danoso neguem regularmente
suas ações ou minimizem o efeito de sua crueldade sistemática que têm sobre os outros.
Assim, as pessoas parecem não ter consciência de que o bullying é um problema sério e
oneroso que precisa de atenção.
No estudo com os alunos das duas escolas selecionadas observou-se que eles
percebem que a escola pode fazer muito mais do que se faz para evitar as ações do
bullying em sala de aula e outras dependências e que existe uma supervisão insuficiente
para coibir a prática do bullying. Assim, propuseram que as escolas criem um ponto,
alguém esclarecido e aberto para conversar com os alunos para que eles sintam-se
seguros para desabafos; que haja palestras sobre o tema e que possam contar com a
amizade dos professores.
O bullying está presente em todas as escolas, seja da rede particular como da
rede pública, independente da cultura e dos níveis sociais. É fruto, entre outros fatores,
de modelos educativos falhos a que foram submetidos os adolescentes no seio familiar,
no que, destacamos: ausência de limites e de valores, punições físicas, exposição a
ambientes violentos, modelo autoritário e repressor na família, que usa de agressividade
e explosão para a solução de conflitos, falta de regras de convivência e falta de
afetividade, assim como supervisão deficitária dos pais e professores.
Os agressores, os que aplicam atos de bullying, possuem pouca empatia, gostam
de se ver cercados, admirados e temidos pelos outros e assumem liderança na escola.
Na pesquisa, verificou-se que este grupo de alunos participou muito pouco nas
entrevistas, e quando se apresentou, tentou camuflar as respostas, dizendo mais o que
se esperava do que acontece de fato. Em geral apresentam traços de hiperatividade e
distúrbios comportamentais, contribuindo assim, para a adoção de comportamentos
agressivos. Sentem-se populares e envolvem-se em situações de risco e antisociais, não
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aceitam com facilidade subordinações e gabam desta postura. Demonstram satisfação
em dominar e impor sofrimentos alheios e parecem insatisfeitos com a escola e a
família. Às vezes são sarcásticos e mantém o grupo gravitando ao seu redor.
Quanto às vítimas, mostram-se pouco sociáveis, não dispõem de status e
habilidades para impor suas vontades aos que as agridem. Pessoas, em geral inseguras
até mesmo para pedir ajuda. Algumas vezes, parecem crer que são merecedoras do
sofrimento o que muitas vezes, é incentivado pela falta de intervenção dos adultos.
Resistem em frequentar a escola, faltando muitas vezes, alegando e simulando doenças,
o que agrava o rendimento escolar. Demonstram momentos de explosão, desejos de
vingança e depressão. Observou-se, muitas vezes que a falta de habilidade nos esportes
tornou-se motivo de chacotas. A
super proteção de alguns pais potencializam a vitimização, acrescendo a dificuldade de
auto defender-se.
A maioria dos alunos adolescentes pode ser chamada de testemunhas e
expectadores. Ou entendem o bullying como normal e ficam satisfeitos por não serem
atingidos, ou incomodados, acabam por não reagir com o temor de tornarem-se vítimas
eles também. Questionados, transmitem uma falsa normalidade, quase reforçando a
ação dos agressores e das vítimas. Os alunos com mais senso de justiça, disseram
interferir nas ações, chamando a atenção dos colegas e dos adultos para que eles
intervenham.
Percebe-se que a formação do caráter tanto de uns como de outros são afetados
por essas ações e essas agressões. O resultado de um ambiente que permite e tolera a
agressividade gera cidadãos egoístas; o contrário também é verdade: adolescentes que
tem tomado consciência das injustiças entre os pares demonstram desejo de
protagonizar ações para o aperfeiçoamento da cidadania.
Há ainda os adolescentes que tanto sofrem, como perpetram agressões, nesse
fenômeno cruel e silencioso, que tanto traz conseqüências negativas para o ambiente
escolar. Essas relações desestruturadas na adolescência, quando da formação de valores
e do caráter, vão, certamente, refletir ao longo da vida desses alunos.
Outra realidade preocupante - fruto de aluno perpetrador de bullying, ainda que
não seja regra - é um futuro profissional, relacionado com o uso de drogas, violência
sexual e doméstica, crimes contra o patrimônio e a necessidade de altos investimentos
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governamentais para a demanda de justiça e de programas sociais e de saúde.
Conclui-se que os fatores que levam ao bullying são diversos e os
aspectos sociais e culturais são fundamentais para sua compreensão. Sabe-se que não
há fórmulas prontas para um programa anti-bullying, mas algumas premissas podem
ser levadas em conta na educação de cidadãos mais éticos e relações mais sadias.
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