SIGNIFICADOS DE APOSENTADORIA PARA MULHERES IDOSAS
Sônia Maria Costa Baruque1
Ana Claudia Nunes de Souza Wanderbroocke2
Maria Sara de Lima Dias3
1
Acadêmica do 9° período do curso de psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná. Rua Sydnei Rangel
Santos, 238, Santo Inácio. CEP: 82010-330, Curitiba-PR [email protected]
2
Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná.
[email protected]
3
Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná.
[email protected]
[Digite texto]
2
RESUMO
Para compreender os significados atribuídos à aposentadoria por mulheres
idosas, foram entrevistadas 15 pessoas. Os dados submetidos à análise de
conteúdo apontaram: a importância atribuída ao trabalho, à transição e
mudanças de vida. Observou-se contingências da escolha profissional, o
despreparo para a aposentadoria, que a transição gera tristeza, perdas e
rupturas, porém retomam a vida familiar e expandem suas redes com novos
interesses.
Palavras-chave: Mulheres Idosas. Aposentadoria. Velhice.
ABSTRACT
To understand the meanings attributed to retirement for older women, we
interviewed 15 people. The data submitted to content analysis showed: the
importance attached to work, transition and life changes. Observed contingency
of career choice unpreparedness for retirement, transition generates grief, loss
and breakage, but resume family life and expand their networks with new
interests.
Keywords: Senior Women. Retirement. Old age.
3
INTRODUÇÃO
A aposentadoria costuma estar relacionada às perdas ocorridas na
velhice, neste sentido os homens e mulheres que desenvolveram vida
profissional, passam pela experiência da aposentadoria. Consideramos que a
aposentadoria entre as mulheres tem uma história recente se comparada aos
homens. O Brasil na rota do envelhecimento populacional apresenta uma
previsão de que no ano 2020 existam cerca de 1,2 bilhões de idosos no
mundo, dentre os quais 34 milhões de brasileiros, correspondendo portanto à
sexta população mais velha do planeta (Figueiredo,2007).
De acordo com Probst (2007), as convenções culturais do início do
século XX afirmavam que o marido era o provedor da família e não cabia à
esposa trabalhar ou ganhar algum tipo de remuneração. Com o advento das
Grandes Guerras Mundiais e com a ida dos homens para os campos de
batalha, as mulheres passaram a assumir os negócios da família e a posição
dos homens no mercado de trabalho. Nos países que não estiveram
diretamente envolvidos nas guerras este processo não foi tão visível e a
entrada das mulheres no mercado de trabalho ocorreu de forma mais lenta e
gradual.
Bertolini (2002) relata que no Brasil a partir da década de 40, a mulher
começou a entrar no mercado de trabalho, quase que exclusivamente
exercendo a função de professora primária, exercício aceito como uma
contribuição social da classe burguesa para as classes menos favorecidas. Por
outro lado, o papel da professora constituía-se, de certa forma, numa
continuidade do papel familiar. Cabia à professora transmitir aos seus alunos,
sua experiência, sem se desviar de suas funções tradicionais nem rivalizar com
os homens ou ameaçar seus domínios profissionais.
A partir dos anos 60 que a mulher decidiu abrir novos espaços para
atuar profissionalmente, culturalmente e socialmente. O fato é que as
transformações econômicas da sociedade industrial retiraram, gradativamente,
o papel do homem de provedor único da família e, desta forma, abriram espaço
para a participação da mulher no mercado de trabalho, mesmo que em
princípio de forma complementar.
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Apesar das conquistas, dados do IBGE (PNAD, 2007) mostram que na
atualidade, apesar de as mulheres apresentarem em média um ano a mais de
estudo que os homens, não conseguem alcançar tantos cargos de chefia
quanto os profissionais do sexo masculino. Porém, o modo de inserção das
mulheres no mercado de trabalho mostra que cerca de 40% da força de
trabalho feminina está relacionada às posições, vínculos de trabalho,
remuneração e proteção social aos menos favorecidos.
Segundo Probst (2007), paulatinamente as mudanças de valores
culturais refletiram-se na expansão da escolaridade das mulheres trazendo
como conseqüência seu ingresso maciço nas universidades em uma maior
diversidade de carreiras universitárias.
Além das dificuldades enfrentadas no mundo do trabalho, surge o
questionamento acerca da vivência da aposentadoria pelas mulheres que
exerceram atividade profissional. Este período costuma ser descrito como um
momento crítico, no qual o indivíduo vivencia uma série de dificuldades, seja
pela posição do indivíduo em face às mudanças acarretadas, seja pelas
condições dispensadas pela sociedade aos que estão nesta etapa.
Costa e Miranda (2008) dizem que o sistema capitalista sempre
estimula e investe naquele indivíduo que produz e consome. Por isso a
formação profissional de cada indivíduo, assim como a comunidade a qual
pertence não o preparam para o momento de ruptura, quase sempre
traumático que representa a aposentadoria. A ênfase, segundo os autores,
desde a infância é dada ao trabalho e à capacidade produtiva do indivíduo e
em função disso o aposentado, se não fizer a reorganização de sua identidade,
pode enfrentar o estigma de se sentir desvalorizado.
Nesse mesmo sentido, Papaléo (2007) analisa que a aposentaria
surgiu como um direito que deveria assegurar o futuro do trabalhador em sua
velhice e manter seu nível de vida, garantindo seus rendimentos e suas
necessidades básicas após seus anos de trabalho. Mas, na prática, a
aposentadoria, muitas vezes representa perda substancial no rendimento
mensal, o que incapacita a pessoa a manter seu padrão de vida. Isto gera
angústia e insegurança, e como geralmente ocorre gradativamente e na
mesma proporção do avanço da idade, a aposentadoria pode tornar-se
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perigosa, pois pode conduzir a uma crise de identidade, à perda da autoestima
e ao isolamento.
Segundo Guidi (1994), a aposentadoria é um dos grandes ritos de
passagem para a velhice e essa transição é um momento marcado pela
mudança temporal e espacial. Argumenta que a reconstrução do cotidiano
após a aposentadoria é demorada e não ocorre de uma hora para outra, uma
vez que causa uma interrupção na interação social. Os relacionamentos com
os companheiros de trabalho, via de regra, deixam de existir e a vida do
aposentado deixa de interessar aos seus colegas. Na opinião do autor, o
aposentado é relegado a uma esfera de esquecimento.
A condição de vida na velhice quando pensada pela ótica do mundo do
trabalho, é descrita como um processo de desengajamento. De acordo com
Pacheco (2006), sem o trabalho, os aposentados têm dificuldade em fazer
projetos de vida de forma produtiva e socialmente útil. Há a tendência a
debitarem para si próprios o momento da aposentadoria como fracasso
pessoal, não compreendendo que este é um processo produzido socialmente e
que ocorre com todos os trabalhadores ao final de um ciclo determinado.
As questões sobre trabalho, aposentadoria e envelhecimento levam a
uma reflexão sobre o modo de vida do ser humano na sociedade
contemporânea. Porém como a entrada da mulher no mercado de trabalho
ocorreu tardiamente, ainda há a necessidade de maior compreensão sobre
como este evento influencia a qualidade de vida das mulheres, já que o foco de
estudos sobre o tema esteve sempre mais voltado para a realidade masculina.
Além disso, parte-se do pressuposto que a aposentadoria também é
uma etapa de vida que pode proporcionar a condição para desfrutar o tempo
livre, possibilitando novas experiências e realizações, uma vez que na
atualidade as pessoas estão vivendo mais e com mais qualidade.
Entende-se que este tema é de relevância para o cenário social
brasileiro frente ao aumento do contingente de mulheres idosas na população.
Além disso, as questões de gênero ganham maior destaque nas discussões
políticas e sócio-econômicas dentro e fora do país, consolidando a importância
do papel da mulher na dinâmica das relações laborais e sociais do novo
milênio. Portanto, o objetivo da presente pesquisa é compreender os
significados atribuídos à aposentadoria por mulheres idosas.
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MÉTODO
Participaram quinze mulheres com curso superior, aposentadas por tempo de
serviço, que trabalharam sempre em período integral. A idade das participantes
variou entre 60 e 86 anos. Todas residentes na cidade de Curitiba-Pr. Três
professoras universitárias, quatro professoras do Ensino Fundamental e Médio,
duas
advogadas,
duas
assistentes
sociais,
duas
comerciarias,
uma
administradora do serviço público e uma bibliotecária. O tempo de
aposentadoria variou de 03 a 25 anos. Quanto à renda, uma das entrevistadas
declarou receber até dois salários mínimos, quatro recebiam até cinco salários
mínimos, cinco entrevistadas disseram receber entre cinco e dez salários
mínimos por mês e as outras cinco recebiam mais de dez. Em relação ao
estado civil, seis entrevistadas eram casadas, sete viúvas e três divorciadas.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semiestruturada
que contemplou roteiro para o levantamento de dados sociodemográficos e
perguntas pertinentes ao tema central. As entrevistas foram realizadas na
residência das participantes. O estudo foi realizado com uma amostra
constituída a partir da indicação das próprias participantes. As entrevistas
foram agendadas por telefone e na ocasião de cada encontro cada
entrevistada assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As
respostas foram gravadas para transcrição posterior e subsequente análise de
conteúdo.
Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, conforme proposto
por Bardin (1988). A autora propõe como primeira atividade da análise de
conteúdo a leitura flutuante, ou seja, o contato com os documentos a serem
analisados, visando conhecer o texto deixando-se tomar por impressões
pessoais e orientações. Após a leitura flutuante, é feita a categorização, que
consiste no trabalho de classificação e reagrupamento das unidades de registro
em número reduzido de temas emergentes das entrevistas, com o objetivo de
tornar inteligível a massa de dados obtidos. Passa-se a apresenta os
resultados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
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Os dados foram agrupados em três categorias principais: importância
atribuída ao trabalho, transição para a aposentadoria e mudanças decorrentes
da aposentadoria. A primeira categoria foi nomeada importância atribuída ao
trabalho. Nesta categoria podem-se visualizar as contingências da escolha
profissional das participantes. Algumas professoras entrevistadas relataram
que na época em que começaram a trabalhar o trabalho feminino não era
comum e tampouco bem visto razão pela qual o magistério era o mais indicado,
pois de certa forma indicava uma continuidade da educação no lar. Algumas
deixaram de lado, inicialmente, suas profissões e foram trabalhar junto aos
maridos, no negócio da família, durante um período e mais tarde, retomaram à
profissão inicial ou cursaram novas faculdades.
Fui professora, mas nunca gostei de dar aula, mas sempre fiz da
melhor maneira, sempre o melhor. Eu queria fazer o científico, ser
aeromoça, mas o meu pai dizia que mulher só poderia trabalhar como
professora. (E.B.N. 60 anos)
Outras disseram ter seguido carreiras que gostavam e investiram nelas,
fazendo cursos e conquistando títulos e melhores colocações em instituições
diferentes, sempre na área de opção inicial.
Sempre fui professora. Sempre gostei do magistério. Formei-me em
Pedagogia, fiz concurso para a prefeitura, depois para a Universidade
Federal do Paraná. Fiz pós-graduação, mestrado e doutorado. Sempre
me especializando na área da educação.(D.G.S. 62 anos)
Essas narrativas vão ao encontro do trabalho de Bertolini (2002) em
relação à entrada da mulher no mercado de trabalho, freqüentemente vinculado
as funções que representam a continuidade do papel familiar. No caso das
professoras, cabia transmitir aos seus alunos sua experiência, sem, no entanto,
se desviar de suas funções tradicionais nem rivalizar com os homens ou
ameaçar seus domínios. Por outro lado, os dados também demonstram a
mudança que foi se estabelecendo no cenário profissional das mulheres, que
gradativamente foram em busca de novos desafios.
Parte das entrevistadas disse que conseguiu alcançar a conciliação
entre a vida familiar e o trabalho por contarem com a ajuda de empregadas
domésticas, da mãe e eventualmente dos maridos. Às vezes precisavam levar
os filhos junto, por não ter com quem deixá-los. Algumas aceitavam a
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participação de outras pessoas nas tarefas domésticas, outras apesar da ajuda
faziam questão de participar da arrumação de suas casas, o que fazia com que
a conciliação do binômio casa/trabalho se tornasse mais pesado, pois quando
chegavam em casa, queriam fazer as tarefas do lar do seu modo priorizando
assim, não o convívio com a família, mas as atividades da casa.
Eu não tive grandes dificuldades porque contei com a minha mãe. Não
que eu dependesse dela, mas qualquer problema ela estava
disponível, se eu não tivesse com quem deixar meus filhos. Eu tive
uma sorte muito grande. Tive duas empregadas maravilhosas. Uma
ficou 10 anos comigo e a outra 8 anos. Normalmente elas ficavam com
as crianças sob a supervisão da minha mãe, e o meu marido que era
professor como eu, também atendia as crianças quando estava em
casa (R.E.P.S. 69 anos).
Foi difícil porque eu sempre gostei de fazer o meu serviço em casa
também. Então sempre foi difícil conciliar tudo isso (M.A.N. 86 anos).
Carvalhal (2002) comenta que a função remunerada pressupõe a
existência de dupla jornada de trabalho e também o conflito interno por deixar
os filhos e a casa em busca de trabalho remunerado e de sua
profissionalização. Assim, o espaço feminino foi conquistado de maneira árdua,
construído no contexto sociocultural quando só cabia à mulher o reduto
doméstico.
Entre os motivos para trabalhar apresentados pelas idosas estava a
opção pessoal, o prazer de fazer alguma coisa e sentirem-se úteis, além da
liberdade financeira. Queriam se sentir fazendo parte da sociedade e não
apenas como um membro da família. Trabalhar significava mostrar a
individualidade da cada uma delas, era uma forma de independência e de
satisfação pessoal.
Por opção, sempre quis ter minha liberdade financeira (V.B.K. 70
anos).
Eu não tinha necessidade não. Meu marido ganhava muito bem, mas
eu queria trabalhar, era uma satisfação pessoal (A.M.M.C.L. 65 anos).
Algumas relataram que, inicialmente, trabalhavam por opção, mas que
em algum momento os maridos tiveram dificuldades financeiras e o trabalho
passou a ter a conotação de necessidade dentro da dinâmica da família e das
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despesas da casa. Outra razão para o trabalho ter se tornado necessidade foi a
separação conjugal, quando precisaram trabalhar para sustentar a casa, pois
não recebiam ajuda financeira dos ex-parceiros.
A mudança no status profissional também acompanhou as novas
configurações familiares, como a separação/recasamento. Como se pode
observar em alguns relatos, não foi uma busca somente pela autorrealização,
houve a necessidade de que elas trabalhassem.
O novo espaço social da mulher, de acordo com seus interesses,
incluía vários papéis a serem desempenhados simultaneamente: mãe, esposa,
filha e profissional. Com essa mudança do status feminino, incluindo sua
capacidade de ganhar dinheiro de forma competitiva, o homem foi perdendo
espaço e forçado também a mudanças, já que o poder econômico crescente
das mulheres retirou dos homens o poder absoluto sobre as decisões
familiares. Grande parte das mulheres passou a compartilhar o mundo do
trabalho lado a lado com os homens, e em muitas oportunidades ganhando até
mais que seus maridos (BERTOLINI, 2002). A integração entre os papéis
profissional e pessoal e o aparecimento de sua identidade provedora de
recursos financeiros parece ter sido, também, um dos principais fatores para as
mudanças nas configurações familiares.
A segunda categoria versou sobre a transição para a aposentadoria.
Nos relatos, pode-se evidenciar que não houve preparo para a aposentadoria,
as entrevistadas relataram que a aposentadoria veio em um momento
oportuno, quando já estavam cansadas da rotina do trabalho ou aproveitaram
as vantagens financeiras decorrentes dos planos de aposentadoria que a
instituição à qual pertenciam ofereceu naquele momento. Somente uma das
entrevistadas relatou que teve um comunicado de aposentadoria inesperado,
depois de trabalhar por 50 anos e que o fato foi bastante traumático na
ocasião. Algumas entrevistadas comentaram que é importante se observar
como não se investe psicologicamente nesta preparação e que esta passagem,
para muitas pessoas, representa uma grande ruptura.
É importante considerar que grande parte das entrevistadas já havia se
aposentado há muitos anos e que os sentimentos vivenciados naquela época
podem ter sido ressignificados ao longo do tempo. Ainda assim, o relato
seguinte é de uma aposentada há 18 anos:
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Foi um período estranho para mim, me senti um pouco deslocada, sem
saber o que fazer, pois estava acostumada a trabalhar sempre,
naquela vida, naquele ritmo. De repente a gente se vê sem saber o que
vai fazer. É muito triste (C.L.L. 82 anos, Curitiba).
Uma delas, aposentada há somente três anos, ainda não havia cortado
os vínculos com a escola que trabalhava e todos os meses visita o lugar. Já
outra professora que teve que se aposentar repentinamente disse que era
muito difícil passar “seus” alunos para outra pessoa.
Foi uma sensação de perda. Eu teria que entregar aqueles alunos que
eram meus para outra pessoa. Eu tinha um mundo e estava fora dele
agora (D.G.S. 62 anos).
Esse dado remete a Papaléo (2007) ao afirmar que a perda do papel
profissional pode relacionar-se à perda de identidade, de funções familiares,
sociais e econômicas.
Por outro lado, algumas entrevistadas declararam simplesmente que
ficaram felizes, pois a aposentadoria significava liberdade. Outras, que as
vantagens financeiras compensaram a perda com a relação laboral e
viabilizaram a realização de outros interesses.
A terceira categoria mudanças decorrentes da aposentadoria
discorre sobre as implicações dessa nova fase de vida.
Algumas entrevistadas relataram que no começo sentiram tristeza e até
mesmo um vazio por não terem mais a rotina para seguir, mas essas
sensações logo deram lugar à percepção de que um novo tempo havia
começado e que agora poderiam se dedicar a novas atividades.
Algumas entrevistadas relataram que nada mudou no convívio familiar
pelo fato de terem deixado de trabalhar, possivelmente porque os filhos já
haviam se tornado adultos e muitos já haviam constituído suas próprias
famílias. Outras disseram que, finalmente, puderam retomar hábitos em família
como almoços e outros tipos de reuniões, além de poderem dar mais atenção
aos cônjuges, no caso das que eram casadas.
A chegada da aposentadoria puderam finalmente criar o espaço de
convívio com os netos que elas não conseguiam ter anteriormente, pois não
tinham tempo suficiente.
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Passei a levar minha neta para a escola e supervisionar as tarefas dela
(C.V.S. 63 anos).
Adoro os meus netos. A gente se diverte muito, saímos almoçar, jantar,
vamos ao cinema. Chegam na sexta-feira e só vão embora no sábado
à noite. É um prazer (M.K.S. 73 anos).
Esse dado coincide com Alves e Alves (2007) ao comentarem que com
a aposentadoria as mulheres continuam ligadas à família e a casa e esse fato
continuará mantendo-as ativas e conservará seu papel de dona de casa.
Segundo Dalla Vecchia et al. (2005), para muitos idosos uma boa qualidade
nesse sentido significa poder manter fortalecidos em número e qualidade os
vínculos com a família, contribuindo se possível com a educação de filhos e
netos, bem como estendendo a vizinhos e amigos, solidificando sua rede de
suporte social na senectude.
As entrevistadas mostraram que a tendência foi de que gradualmente se
afastassem dos amigos que tinham no tempo do trabalho, e criassem novos
grupos de convívio. Esses grupos surgiram quase sempre em continuidade a
alguma outra atividade de lazer ou algum tipo de cursos, ou ainda, em muitos
casos, em grupos religiosos. O fato de as pesquisadas pertencerem a uma
categoria social favorecida permitiu que suas vidas sociais fossem bem
diversificadas e que elas pudessem expandir suas redes sociais e
mantivessem suas agendas sempre cheias de compromissos ou viagens.
Isso deu diferença porque a gente tem uma relação social maior com
as pessoas do trabalho. Você por muito tempo fica sem grupo. Aí eu
me envolvi muito com as minhas irmãs, mas também a fazer amizades
novas. Ampliei a rede social. Agora participo de vários grupos. (N. S.
61 anos).
É fundamental ressaltar que a amizade entre os idosos se concentra no
companheirismo, no apoio e solidariedade. Tais fatores são importantes na
medida em que são fontes de divertimento, suporte moral e emocional, de
auxílio em tempos de dificuldades, alívio para o estresse das doenças, das
mudanças e das crises comuns nesta fase da vida. Outro benefício importante
da amizade para os idosos é que, na medida em que eles possuem amigos,
sente-se valorizados, com sua companhia desejada, o que acaba elevando sua
autoestima (REZENDE, 2002; SOUZA E HUTZ, 2008).
12
Os aspectos mais significativos relatados pelas entrevistadas e que
estão diretamente relacionados com as conquistas de suas aposentadorias, se
referem ao modo como passaram a dar atenção às suas necessidades e a
fazer coisas que lhes causassem prazer e bem-estar, ou seja, o que mudou
após a aposentadoria foi principalmente, a relação consigo mesmas. As
principais conquistas da aposentaria estão relacionadas à sensação de dever
cumprido, encerramento de um ciclo de vida, mudança do ritmo de vida e da
rotina e ganho no tempo disponível para tratar de assuntos pessoais e
familiares. Incluiu ainda, a diminuição do cansaço físico, prazer em fazer
novamente as refeições com a família. Outras relataram que podiam,
finalmente, só fazer o que queriam.
Algumas passaram a estudar outras coisas, se matricularam em cursos
de línguas ou pintura, iniciaram a praticar esportes, dedicaram-se a
espiritualidade e uma das entrevistadas escreveu um livro. Nenhuma ficou
inativa e todas comentaram que a mudança de ritmo foi salutar, porque apesar
da idade, não se sentiam idosas.
O que mudou realmente foi o ritmo em que eu fazia tudo. Ficou tudo
mais calmo (M.A.N. 86 anos).
No meu cotidiano eu acrescentei essa parte espiritual. Eu passei a me
dedicar a ajudar as pessoas e formei grupos de estudos além de
atender as pessoas porque também sou médium (M.A.N. 86 anos).
No que se refere aos ambientes que as pessoas idosas buscam para se
relacionar, destacam-se as comunidades religiosas. A formação desses grupos
permite o compartilhamento de saberes e de experiências e possibilitam aos
seus participantes a superação de suas dificuldades em função do apoio mútuo
e do sentimento de união. Os grupos de convivência são lugares onde os
idosos tecem relações de proximidade e aconchego, ajudam uns aos outros,
diminuindo sentimentos de incapacidade e inutilidade, sendo por isso muito
favoráveis à construção de laços de amizade. Por se enquadrarem nesses
grupos, as comunidades religiosas também atuam como fortalecedoras das
redes sociais. Panzini et al. (2009) mencionam a importância da religião na vida
dos idosos uma vez que seus princípios podem atrair pessoas com disposição
para a felicidade. Para os autores, a participação em atividades religiosas
13
melhora a saúde física e mental, aumentando a capacidade de resolver
situações estressantes da vida.
Viver bem a vida, ter saúde. O principal é ter saúde. Você tendo saúde,
você tem tudo. Quero mais é aproveitar os‘finalmentes’ muito bem,
cheia de energia (T.J.V.C. 76 anos).
A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2005) define “saúde” como o
bem-estar físico, mental e social. Os projetos, políticas e programas de
envelhecimento ativo devem promover não só a saúde física, como também a
saúde mental e as relações sociais. A OMS (2005) adotou o termo
“envelhecimento ativo”, expressando o processo de conquista dessa visão, que
tem como significado o processo de otimização das oportunidades de saúde,
participação e segurança. A política de saúde para o envelhecimento ativo
permite que as pessoas percebam o seu potencial para o bem-estar físico,
social e mental ao longo do curso da vida, participando da sociedade de acordo
com suas necessidades, desejos e capacidades, além de propiciar proteção,
segurança e cuidados adequados, promover a participação contínua nas
questões sociais e econômicas, e, assim, aumentar a expectativa de uma vida
saudável e com qualidade de vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo buscou as vivências associadas à aposentadoria por
mulheres idosas. Entre as participantes predominou as que se dedicaram ao
ensino, visto que ser professora continua sendo considerada como uma
atividade feminina, principalmente o ensino fundamental.
As entrevistadas investiram nas suas carreiras, alternaram períodos em
que trabalharam por satisfação pessoal com períodos em que precisaram
complementar o orçamento da família.
Aposentaram-se por tempo de serviço e mesmo assim, sofreram o
impacto inicial, com a quebra da rotina e a volta à vida familiar. Com o tempo,
desenvolveram novos interesses, fizeram novos amigos e criaram, sobretudo,
um ambiente agradável para elas mesmas, onde puderam fazer planos e
realizá-los e assim, mostrar que o fim do período laboral foi apenas o fim de um
ciclo e que a aposentadoria foi o início de outro.
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Durante muito tempo, a análise da aposentadoria centrou-se apenas no
universo masculino, considerando-se que as mulheres voltavam-se mais para o
espaço doméstico e sua inserção da mulher no mercado de trabalho ainda
recente. Porém, a realidade contemporânea não é mais essa.
Sob o ponto de vista psicológico, a aposentadoria poderia representar
um momento estressante e de diminuição da autoestima. Contudo este estudo
revelou que as mulheres entrevistadas encararam a aposentadoria como o final
de um ciclo produtivo específico e seguiram suas vidas, sem estagnar-se.
Os proventos da aposentadoria foram revertidos para o investimento em
suas realizações pessoais, em sonhos, ou seja, a aposentadoria gerou a
abertura de novas perspectivas pessoais e sociais para este segmento da
população. Esses dados são úteis no sentido de se pensar o período pós
aposentadoria como uma fase que cada vez mais vai se delineando para as
mulheres.
Apesar de esta pesquisa abrir para a possibilidade de se pensar a
aposentadoria a partir de um grupo de mulheres, novos trabalhos se fazem
necessários
para
estudar
mais
profundamente
as
implicações
da
aposentadoria na subjetividade feminina. Sugere-se que seja avaliado a
perspectiva da aposentadoria em mulheres de outros níveis socioeconômicos,
bem como estudos direcionados ao período pós aposentadoria imediato, a fim
de se verificar os efeitos da mesma logo no inicio de sua ocorrência.
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