SIGNIFICADOS DE APOSENTADORIA PARA MULHERES IDOSAS Sônia Maria Costa Baruque1 Ana Claudia Nunes de Souza Wanderbroocke2 Maria Sara de Lima Dias3 1 Acadêmica do 9° período do curso de psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná. Rua Sydnei Rangel Santos, 238, Santo Inácio. CEP: 82010-330, Curitiba-PR [email protected] 2 Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná. [email protected] 3 Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná. [email protected] [Digite texto] 2 RESUMO Para compreender os significados atribuídos à aposentadoria por mulheres idosas, foram entrevistadas 15 pessoas. Os dados submetidos à análise de conteúdo apontaram: a importância atribuída ao trabalho, à transição e mudanças de vida. Observou-se contingências da escolha profissional, o despreparo para a aposentadoria, que a transição gera tristeza, perdas e rupturas, porém retomam a vida familiar e expandem suas redes com novos interesses. Palavras-chave: Mulheres Idosas. Aposentadoria. Velhice. ABSTRACT To understand the meanings attributed to retirement for older women, we interviewed 15 people. The data submitted to content analysis showed: the importance attached to work, transition and life changes. Observed contingency of career choice unpreparedness for retirement, transition generates grief, loss and breakage, but resume family life and expand their networks with new interests. Keywords: Senior Women. Retirement. Old age. 3 INTRODUÇÃO A aposentadoria costuma estar relacionada às perdas ocorridas na velhice, neste sentido os homens e mulheres que desenvolveram vida profissional, passam pela experiência da aposentadoria. Consideramos que a aposentadoria entre as mulheres tem uma história recente se comparada aos homens. O Brasil na rota do envelhecimento populacional apresenta uma previsão de que no ano 2020 existam cerca de 1,2 bilhões de idosos no mundo, dentre os quais 34 milhões de brasileiros, correspondendo portanto à sexta população mais velha do planeta (Figueiredo,2007). De acordo com Probst (2007), as convenções culturais do início do século XX afirmavam que o marido era o provedor da família e não cabia à esposa trabalhar ou ganhar algum tipo de remuneração. Com o advento das Grandes Guerras Mundiais e com a ida dos homens para os campos de batalha, as mulheres passaram a assumir os negócios da família e a posição dos homens no mercado de trabalho. Nos países que não estiveram diretamente envolvidos nas guerras este processo não foi tão visível e a entrada das mulheres no mercado de trabalho ocorreu de forma mais lenta e gradual. Bertolini (2002) relata que no Brasil a partir da década de 40, a mulher começou a entrar no mercado de trabalho, quase que exclusivamente exercendo a função de professora primária, exercício aceito como uma contribuição social da classe burguesa para as classes menos favorecidas. Por outro lado, o papel da professora constituía-se, de certa forma, numa continuidade do papel familiar. Cabia à professora transmitir aos seus alunos, sua experiência, sem se desviar de suas funções tradicionais nem rivalizar com os homens ou ameaçar seus domínios profissionais. A partir dos anos 60 que a mulher decidiu abrir novos espaços para atuar profissionalmente, culturalmente e socialmente. O fato é que as transformações econômicas da sociedade industrial retiraram, gradativamente, o papel do homem de provedor único da família e, desta forma, abriram espaço para a participação da mulher no mercado de trabalho, mesmo que em princípio de forma complementar. 4 Apesar das conquistas, dados do IBGE (PNAD, 2007) mostram que na atualidade, apesar de as mulheres apresentarem em média um ano a mais de estudo que os homens, não conseguem alcançar tantos cargos de chefia quanto os profissionais do sexo masculino. Porém, o modo de inserção das mulheres no mercado de trabalho mostra que cerca de 40% da força de trabalho feminina está relacionada às posições, vínculos de trabalho, remuneração e proteção social aos menos favorecidos. Segundo Probst (2007), paulatinamente as mudanças de valores culturais refletiram-se na expansão da escolaridade das mulheres trazendo como conseqüência seu ingresso maciço nas universidades em uma maior diversidade de carreiras universitárias. Além das dificuldades enfrentadas no mundo do trabalho, surge o questionamento acerca da vivência da aposentadoria pelas mulheres que exerceram atividade profissional. Este período costuma ser descrito como um momento crítico, no qual o indivíduo vivencia uma série de dificuldades, seja pela posição do indivíduo em face às mudanças acarretadas, seja pelas condições dispensadas pela sociedade aos que estão nesta etapa. Costa e Miranda (2008) dizem que o sistema capitalista sempre estimula e investe naquele indivíduo que produz e consome. Por isso a formação profissional de cada indivíduo, assim como a comunidade a qual pertence não o preparam para o momento de ruptura, quase sempre traumático que representa a aposentadoria. A ênfase, segundo os autores, desde a infância é dada ao trabalho e à capacidade produtiva do indivíduo e em função disso o aposentado, se não fizer a reorganização de sua identidade, pode enfrentar o estigma de se sentir desvalorizado. Nesse mesmo sentido, Papaléo (2007) analisa que a aposentaria surgiu como um direito que deveria assegurar o futuro do trabalhador em sua velhice e manter seu nível de vida, garantindo seus rendimentos e suas necessidades básicas após seus anos de trabalho. Mas, na prática, a aposentadoria, muitas vezes representa perda substancial no rendimento mensal, o que incapacita a pessoa a manter seu padrão de vida. Isto gera angústia e insegurança, e como geralmente ocorre gradativamente e na mesma proporção do avanço da idade, a aposentadoria pode tornar-se 5 perigosa, pois pode conduzir a uma crise de identidade, à perda da autoestima e ao isolamento. Segundo Guidi (1994), a aposentadoria é um dos grandes ritos de passagem para a velhice e essa transição é um momento marcado pela mudança temporal e espacial. Argumenta que a reconstrução do cotidiano após a aposentadoria é demorada e não ocorre de uma hora para outra, uma vez que causa uma interrupção na interação social. Os relacionamentos com os companheiros de trabalho, via de regra, deixam de existir e a vida do aposentado deixa de interessar aos seus colegas. Na opinião do autor, o aposentado é relegado a uma esfera de esquecimento. A condição de vida na velhice quando pensada pela ótica do mundo do trabalho, é descrita como um processo de desengajamento. De acordo com Pacheco (2006), sem o trabalho, os aposentados têm dificuldade em fazer projetos de vida de forma produtiva e socialmente útil. Há a tendência a debitarem para si próprios o momento da aposentadoria como fracasso pessoal, não compreendendo que este é um processo produzido socialmente e que ocorre com todos os trabalhadores ao final de um ciclo determinado. As questões sobre trabalho, aposentadoria e envelhecimento levam a uma reflexão sobre o modo de vida do ser humano na sociedade contemporânea. Porém como a entrada da mulher no mercado de trabalho ocorreu tardiamente, ainda há a necessidade de maior compreensão sobre como este evento influencia a qualidade de vida das mulheres, já que o foco de estudos sobre o tema esteve sempre mais voltado para a realidade masculina. Além disso, parte-se do pressuposto que a aposentadoria também é uma etapa de vida que pode proporcionar a condição para desfrutar o tempo livre, possibilitando novas experiências e realizações, uma vez que na atualidade as pessoas estão vivendo mais e com mais qualidade. Entende-se que este tema é de relevância para o cenário social brasileiro frente ao aumento do contingente de mulheres idosas na população. Além disso, as questões de gênero ganham maior destaque nas discussões políticas e sócio-econômicas dentro e fora do país, consolidando a importância do papel da mulher na dinâmica das relações laborais e sociais do novo milênio. Portanto, o objetivo da presente pesquisa é compreender os significados atribuídos à aposentadoria por mulheres idosas. 6 MÉTODO Participaram quinze mulheres com curso superior, aposentadas por tempo de serviço, que trabalharam sempre em período integral. A idade das participantes variou entre 60 e 86 anos. Todas residentes na cidade de Curitiba-Pr. Três professoras universitárias, quatro professoras do Ensino Fundamental e Médio, duas advogadas, duas assistentes sociais, duas comerciarias, uma administradora do serviço público e uma bibliotecária. O tempo de aposentadoria variou de 03 a 25 anos. Quanto à renda, uma das entrevistadas declarou receber até dois salários mínimos, quatro recebiam até cinco salários mínimos, cinco entrevistadas disseram receber entre cinco e dez salários mínimos por mês e as outras cinco recebiam mais de dez. Em relação ao estado civil, seis entrevistadas eram casadas, sete viúvas e três divorciadas. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semiestruturada que contemplou roteiro para o levantamento de dados sociodemográficos e perguntas pertinentes ao tema central. As entrevistas foram realizadas na residência das participantes. O estudo foi realizado com uma amostra constituída a partir da indicação das próprias participantes. As entrevistas foram agendadas por telefone e na ocasião de cada encontro cada entrevistada assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As respostas foram gravadas para transcrição posterior e subsequente análise de conteúdo. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, conforme proposto por Bardin (1988). A autora propõe como primeira atividade da análise de conteúdo a leitura flutuante, ou seja, o contato com os documentos a serem analisados, visando conhecer o texto deixando-se tomar por impressões pessoais e orientações. Após a leitura flutuante, é feita a categorização, que consiste no trabalho de classificação e reagrupamento das unidades de registro em número reduzido de temas emergentes das entrevistas, com o objetivo de tornar inteligível a massa de dados obtidos. Passa-se a apresenta os resultados. RESULTADOS E DISCUSSÃO 7 Os dados foram agrupados em três categorias principais: importância atribuída ao trabalho, transição para a aposentadoria e mudanças decorrentes da aposentadoria. A primeira categoria foi nomeada importância atribuída ao trabalho. Nesta categoria podem-se visualizar as contingências da escolha profissional das participantes. Algumas professoras entrevistadas relataram que na época em que começaram a trabalhar o trabalho feminino não era comum e tampouco bem visto razão pela qual o magistério era o mais indicado, pois de certa forma indicava uma continuidade da educação no lar. Algumas deixaram de lado, inicialmente, suas profissões e foram trabalhar junto aos maridos, no negócio da família, durante um período e mais tarde, retomaram à profissão inicial ou cursaram novas faculdades. Fui professora, mas nunca gostei de dar aula, mas sempre fiz da melhor maneira, sempre o melhor. Eu queria fazer o científico, ser aeromoça, mas o meu pai dizia que mulher só poderia trabalhar como professora. (E.B.N. 60 anos) Outras disseram ter seguido carreiras que gostavam e investiram nelas, fazendo cursos e conquistando títulos e melhores colocações em instituições diferentes, sempre na área de opção inicial. Sempre fui professora. Sempre gostei do magistério. Formei-me em Pedagogia, fiz concurso para a prefeitura, depois para a Universidade Federal do Paraná. Fiz pós-graduação, mestrado e doutorado. Sempre me especializando na área da educação.(D.G.S. 62 anos) Essas narrativas vão ao encontro do trabalho de Bertolini (2002) em relação à entrada da mulher no mercado de trabalho, freqüentemente vinculado as funções que representam a continuidade do papel familiar. No caso das professoras, cabia transmitir aos seus alunos sua experiência, sem, no entanto, se desviar de suas funções tradicionais nem rivalizar com os homens ou ameaçar seus domínios. Por outro lado, os dados também demonstram a mudança que foi se estabelecendo no cenário profissional das mulheres, que gradativamente foram em busca de novos desafios. Parte das entrevistadas disse que conseguiu alcançar a conciliação entre a vida familiar e o trabalho por contarem com a ajuda de empregadas domésticas, da mãe e eventualmente dos maridos. Às vezes precisavam levar os filhos junto, por não ter com quem deixá-los. Algumas aceitavam a 8 participação de outras pessoas nas tarefas domésticas, outras apesar da ajuda faziam questão de participar da arrumação de suas casas, o que fazia com que a conciliação do binômio casa/trabalho se tornasse mais pesado, pois quando chegavam em casa, queriam fazer as tarefas do lar do seu modo priorizando assim, não o convívio com a família, mas as atividades da casa. Eu não tive grandes dificuldades porque contei com a minha mãe. Não que eu dependesse dela, mas qualquer problema ela estava disponível, se eu não tivesse com quem deixar meus filhos. Eu tive uma sorte muito grande. Tive duas empregadas maravilhosas. Uma ficou 10 anos comigo e a outra 8 anos. Normalmente elas ficavam com as crianças sob a supervisão da minha mãe, e o meu marido que era professor como eu, também atendia as crianças quando estava em casa (R.E.P.S. 69 anos). Foi difícil porque eu sempre gostei de fazer o meu serviço em casa também. Então sempre foi difícil conciliar tudo isso (M.A.N. 86 anos). Carvalhal (2002) comenta que a função remunerada pressupõe a existência de dupla jornada de trabalho e também o conflito interno por deixar os filhos e a casa em busca de trabalho remunerado e de sua profissionalização. Assim, o espaço feminino foi conquistado de maneira árdua, construído no contexto sociocultural quando só cabia à mulher o reduto doméstico. Entre os motivos para trabalhar apresentados pelas idosas estava a opção pessoal, o prazer de fazer alguma coisa e sentirem-se úteis, além da liberdade financeira. Queriam se sentir fazendo parte da sociedade e não apenas como um membro da família. Trabalhar significava mostrar a individualidade da cada uma delas, era uma forma de independência e de satisfação pessoal. Por opção, sempre quis ter minha liberdade financeira (V.B.K. 70 anos). Eu não tinha necessidade não. Meu marido ganhava muito bem, mas eu queria trabalhar, era uma satisfação pessoal (A.M.M.C.L. 65 anos). Algumas relataram que, inicialmente, trabalhavam por opção, mas que em algum momento os maridos tiveram dificuldades financeiras e o trabalho passou a ter a conotação de necessidade dentro da dinâmica da família e das 9 despesas da casa. Outra razão para o trabalho ter se tornado necessidade foi a separação conjugal, quando precisaram trabalhar para sustentar a casa, pois não recebiam ajuda financeira dos ex-parceiros. A mudança no status profissional também acompanhou as novas configurações familiares, como a separação/recasamento. Como se pode observar em alguns relatos, não foi uma busca somente pela autorrealização, houve a necessidade de que elas trabalhassem. O novo espaço social da mulher, de acordo com seus interesses, incluía vários papéis a serem desempenhados simultaneamente: mãe, esposa, filha e profissional. Com essa mudança do status feminino, incluindo sua capacidade de ganhar dinheiro de forma competitiva, o homem foi perdendo espaço e forçado também a mudanças, já que o poder econômico crescente das mulheres retirou dos homens o poder absoluto sobre as decisões familiares. Grande parte das mulheres passou a compartilhar o mundo do trabalho lado a lado com os homens, e em muitas oportunidades ganhando até mais que seus maridos (BERTOLINI, 2002). A integração entre os papéis profissional e pessoal e o aparecimento de sua identidade provedora de recursos financeiros parece ter sido, também, um dos principais fatores para as mudanças nas configurações familiares. A segunda categoria versou sobre a transição para a aposentadoria. Nos relatos, pode-se evidenciar que não houve preparo para a aposentadoria, as entrevistadas relataram que a aposentadoria veio em um momento oportuno, quando já estavam cansadas da rotina do trabalho ou aproveitaram as vantagens financeiras decorrentes dos planos de aposentadoria que a instituição à qual pertenciam ofereceu naquele momento. Somente uma das entrevistadas relatou que teve um comunicado de aposentadoria inesperado, depois de trabalhar por 50 anos e que o fato foi bastante traumático na ocasião. Algumas entrevistadas comentaram que é importante se observar como não se investe psicologicamente nesta preparação e que esta passagem, para muitas pessoas, representa uma grande ruptura. É importante considerar que grande parte das entrevistadas já havia se aposentado há muitos anos e que os sentimentos vivenciados naquela época podem ter sido ressignificados ao longo do tempo. Ainda assim, o relato seguinte é de uma aposentada há 18 anos: 10 Foi um período estranho para mim, me senti um pouco deslocada, sem saber o que fazer, pois estava acostumada a trabalhar sempre, naquela vida, naquele ritmo. De repente a gente se vê sem saber o que vai fazer. É muito triste (C.L.L. 82 anos, Curitiba). Uma delas, aposentada há somente três anos, ainda não havia cortado os vínculos com a escola que trabalhava e todos os meses visita o lugar. Já outra professora que teve que se aposentar repentinamente disse que era muito difícil passar “seus” alunos para outra pessoa. Foi uma sensação de perda. Eu teria que entregar aqueles alunos que eram meus para outra pessoa. Eu tinha um mundo e estava fora dele agora (D.G.S. 62 anos). Esse dado remete a Papaléo (2007) ao afirmar que a perda do papel profissional pode relacionar-se à perda de identidade, de funções familiares, sociais e econômicas. Por outro lado, algumas entrevistadas declararam simplesmente que ficaram felizes, pois a aposentadoria significava liberdade. Outras, que as vantagens financeiras compensaram a perda com a relação laboral e viabilizaram a realização de outros interesses. A terceira categoria mudanças decorrentes da aposentadoria discorre sobre as implicações dessa nova fase de vida. Algumas entrevistadas relataram que no começo sentiram tristeza e até mesmo um vazio por não terem mais a rotina para seguir, mas essas sensações logo deram lugar à percepção de que um novo tempo havia começado e que agora poderiam se dedicar a novas atividades. Algumas entrevistadas relataram que nada mudou no convívio familiar pelo fato de terem deixado de trabalhar, possivelmente porque os filhos já haviam se tornado adultos e muitos já haviam constituído suas próprias famílias. Outras disseram que, finalmente, puderam retomar hábitos em família como almoços e outros tipos de reuniões, além de poderem dar mais atenção aos cônjuges, no caso das que eram casadas. A chegada da aposentadoria puderam finalmente criar o espaço de convívio com os netos que elas não conseguiam ter anteriormente, pois não tinham tempo suficiente. 11 Passei a levar minha neta para a escola e supervisionar as tarefas dela (C.V.S. 63 anos). Adoro os meus netos. A gente se diverte muito, saímos almoçar, jantar, vamos ao cinema. Chegam na sexta-feira e só vão embora no sábado à noite. É um prazer (M.K.S. 73 anos). Esse dado coincide com Alves e Alves (2007) ao comentarem que com a aposentadoria as mulheres continuam ligadas à família e a casa e esse fato continuará mantendo-as ativas e conservará seu papel de dona de casa. Segundo Dalla Vecchia et al. (2005), para muitos idosos uma boa qualidade nesse sentido significa poder manter fortalecidos em número e qualidade os vínculos com a família, contribuindo se possível com a educação de filhos e netos, bem como estendendo a vizinhos e amigos, solidificando sua rede de suporte social na senectude. As entrevistadas mostraram que a tendência foi de que gradualmente se afastassem dos amigos que tinham no tempo do trabalho, e criassem novos grupos de convívio. Esses grupos surgiram quase sempre em continuidade a alguma outra atividade de lazer ou algum tipo de cursos, ou ainda, em muitos casos, em grupos religiosos. O fato de as pesquisadas pertencerem a uma categoria social favorecida permitiu que suas vidas sociais fossem bem diversificadas e que elas pudessem expandir suas redes sociais e mantivessem suas agendas sempre cheias de compromissos ou viagens. Isso deu diferença porque a gente tem uma relação social maior com as pessoas do trabalho. Você por muito tempo fica sem grupo. Aí eu me envolvi muito com as minhas irmãs, mas também a fazer amizades novas. Ampliei a rede social. Agora participo de vários grupos. (N. S. 61 anos). É fundamental ressaltar que a amizade entre os idosos se concentra no companheirismo, no apoio e solidariedade. Tais fatores são importantes na medida em que são fontes de divertimento, suporte moral e emocional, de auxílio em tempos de dificuldades, alívio para o estresse das doenças, das mudanças e das crises comuns nesta fase da vida. Outro benefício importante da amizade para os idosos é que, na medida em que eles possuem amigos, sente-se valorizados, com sua companhia desejada, o que acaba elevando sua autoestima (REZENDE, 2002; SOUZA E HUTZ, 2008). 12 Os aspectos mais significativos relatados pelas entrevistadas e que estão diretamente relacionados com as conquistas de suas aposentadorias, se referem ao modo como passaram a dar atenção às suas necessidades e a fazer coisas que lhes causassem prazer e bem-estar, ou seja, o que mudou após a aposentadoria foi principalmente, a relação consigo mesmas. As principais conquistas da aposentaria estão relacionadas à sensação de dever cumprido, encerramento de um ciclo de vida, mudança do ritmo de vida e da rotina e ganho no tempo disponível para tratar de assuntos pessoais e familiares. Incluiu ainda, a diminuição do cansaço físico, prazer em fazer novamente as refeições com a família. Outras relataram que podiam, finalmente, só fazer o que queriam. Algumas passaram a estudar outras coisas, se matricularam em cursos de línguas ou pintura, iniciaram a praticar esportes, dedicaram-se a espiritualidade e uma das entrevistadas escreveu um livro. Nenhuma ficou inativa e todas comentaram que a mudança de ritmo foi salutar, porque apesar da idade, não se sentiam idosas. O que mudou realmente foi o ritmo em que eu fazia tudo. Ficou tudo mais calmo (M.A.N. 86 anos). No meu cotidiano eu acrescentei essa parte espiritual. Eu passei a me dedicar a ajudar as pessoas e formei grupos de estudos além de atender as pessoas porque também sou médium (M.A.N. 86 anos). No que se refere aos ambientes que as pessoas idosas buscam para se relacionar, destacam-se as comunidades religiosas. A formação desses grupos permite o compartilhamento de saberes e de experiências e possibilitam aos seus participantes a superação de suas dificuldades em função do apoio mútuo e do sentimento de união. Os grupos de convivência são lugares onde os idosos tecem relações de proximidade e aconchego, ajudam uns aos outros, diminuindo sentimentos de incapacidade e inutilidade, sendo por isso muito favoráveis à construção de laços de amizade. Por se enquadrarem nesses grupos, as comunidades religiosas também atuam como fortalecedoras das redes sociais. Panzini et al. (2009) mencionam a importância da religião na vida dos idosos uma vez que seus princípios podem atrair pessoas com disposição para a felicidade. Para os autores, a participação em atividades religiosas 13 melhora a saúde física e mental, aumentando a capacidade de resolver situações estressantes da vida. Viver bem a vida, ter saúde. O principal é ter saúde. Você tendo saúde, você tem tudo. Quero mais é aproveitar os‘finalmentes’ muito bem, cheia de energia (T.J.V.C. 76 anos). A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2005) define “saúde” como o bem-estar físico, mental e social. Os projetos, políticas e programas de envelhecimento ativo devem promover não só a saúde física, como também a saúde mental e as relações sociais. A OMS (2005) adotou o termo “envelhecimento ativo”, expressando o processo de conquista dessa visão, que tem como significado o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança. A política de saúde para o envelhecimento ativo permite que as pessoas percebam o seu potencial para o bem-estar físico, social e mental ao longo do curso da vida, participando da sociedade de acordo com suas necessidades, desejos e capacidades, além de propiciar proteção, segurança e cuidados adequados, promover a participação contínua nas questões sociais e econômicas, e, assim, aumentar a expectativa de uma vida saudável e com qualidade de vida. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo buscou as vivências associadas à aposentadoria por mulheres idosas. Entre as participantes predominou as que se dedicaram ao ensino, visto que ser professora continua sendo considerada como uma atividade feminina, principalmente o ensino fundamental. As entrevistadas investiram nas suas carreiras, alternaram períodos em que trabalharam por satisfação pessoal com períodos em que precisaram complementar o orçamento da família. Aposentaram-se por tempo de serviço e mesmo assim, sofreram o impacto inicial, com a quebra da rotina e a volta à vida familiar. Com o tempo, desenvolveram novos interesses, fizeram novos amigos e criaram, sobretudo, um ambiente agradável para elas mesmas, onde puderam fazer planos e realizá-los e assim, mostrar que o fim do período laboral foi apenas o fim de um ciclo e que a aposentadoria foi o início de outro. 14 Durante muito tempo, a análise da aposentadoria centrou-se apenas no universo masculino, considerando-se que as mulheres voltavam-se mais para o espaço doméstico e sua inserção da mulher no mercado de trabalho ainda recente. Porém, a realidade contemporânea não é mais essa. Sob o ponto de vista psicológico, a aposentadoria poderia representar um momento estressante e de diminuição da autoestima. Contudo este estudo revelou que as mulheres entrevistadas encararam a aposentadoria como o final de um ciclo produtivo específico e seguiram suas vidas, sem estagnar-se. Os proventos da aposentadoria foram revertidos para o investimento em suas realizações pessoais, em sonhos, ou seja, a aposentadoria gerou a abertura de novas perspectivas pessoais e sociais para este segmento da população. Esses dados são úteis no sentido de se pensar o período pós aposentadoria como uma fase que cada vez mais vai se delineando para as mulheres. Apesar de esta pesquisa abrir para a possibilidade de se pensar a aposentadoria a partir de um grupo de mulheres, novos trabalhos se fazem necessários para estudar mais profundamente as implicações da aposentadoria na subjetividade feminina. Sugere-se que seja avaliado a perspectiva da aposentadoria em mulheres de outros níveis socioeconômicos, bem como estudos direcionados ao período pós aposentadoria imediato, a fim de se verificar os efeitos da mesma logo no inicio de sua ocorrência. REFERÊNCIAS ALVES, C. M.; ALVES, S. C. A. Aposentei e agora: um estudo dos aspectos psicossociais da aposentadoria na terceira idade. 2007. 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