GESTÃO TECNOLÓGICA EM EMPRESAS DE ALTA TECNOLOGIA
Maria Aparecida de Assunção
Resumo: Este estudo foi motivado pela constatação de que empresas ditas de alta tecnologia não adotam o
modelo de gestão tecnológica contida nos princípios do novo paradigma industrial-tecnológico. A preocupação
com o perfil e desempenho das empresas de tecnologia avançada dos pólos tecnológicos de Campinas e São
Carlos e a forma de organizarem suas atividades de inovação tecnológica também motivaram este estudo. Na
intenção de conhecer o modelo de gestão tecnológica adotado pelas Empresas de Campinas e São Carlos, fez-se
a revisão teórica do modelo convencional de produção e organização industrial, ou paradigma fordista, e do novo
modelo de organização industrial-tecnológico, ou pós-fordismo. Para fundamentar a percepção nas Empresas
estudadas quanto ao aporte das tecnologias utilizadas para organizar o processo de trabalho, revisou-se a
literatura sobre novas tecnologias, organização e reestruturação industrial. Para conhecer os fatores
viabilizadores de criação e funcionamento de empresas de alta tecnologia em pólos tecnológicos e sobre a
interação universidades, centros de pesquisa-empresa, fez-se a revisão da literatura sobre estes assuntos. Foi
realizada visita técnica às gestoras dos Pólos Tecnológicos de Campinas e São Carlos para identificar as
empresas que fariam parte da pesquisa. A pesquisa demonstrou que a forma de interação das empresas com as
instituições de ensino e pesquisa não se dá para, juntas, gerar pesquisas, transformar conhecimento em produto
tecnológico. A interação se dá, somente pela oferta de bolsas de estudos. Foi demonstrado que as empresas não
adotam gestão tecnológica contida nos princípios do novo paradigma industrial-tecnológico. As empresas
estudadas apresentaram dois tipos de discurso e de prática nas suas respostas.
Palavras-chave: modelo de gestão, gestão tecnológica, empresas de alta tecnologia, novas tecnologias,
organização e reestruturação produtiva.
1. Introdução
Em um país de escassos recursos, torna-se fundamental que as empresas, institutos de
pesquisas e universidades trabalhem integrados para que o desenvolvimento tecnológico se
torne uma realidade. A cada dia, é mais forte a expectativa de que os institutos de pesquisa
mantenham interação mais íntima com o setor produtivo e contribuam para o
desenvolvimento tecnológico industrial.
Mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora do Centro Universitário
Euro-Americano (UNIEURO). Atua nas áreas de Gestão de Pessoas, Gestão da Qualidade e Produtividade e
Gestão Estratégica.
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O setor tecnológico torna-se, cada vez mais, um instrumento crítico para a capacidade
competitiva da empresa.
As empresas no mundo todo têm se preocupado de maneira crescente com o uso da
tecnologia como instrumento de competitividade investindo somas consideráveis neste
processo. Mas, para que os setores produtivos possam aumentar a sua competitividade,
necessitam dispor de tecnologias de produto, processo e gerenciais capazes de aumentar os
níveis de produtividade, reduzir os custos de produção e de distribuição e conquistar e
solidificar novos mercados.
O período de crise de competitividade industrial exige que se conheça melhor o
mecanismo das relações entre a comunidade científica e os setores produtivos.
A associação do setor público com a iniciativa privada torna-se interessante, uma vez
que pode conciliar a existência de uma bem formada estrutura de pesquisa no setor público
com a maior flexibilidade do setor privado. Essa associação tem sido observada como
tendência crescente não só no Brasil, mas também em outros países.
No Brasil, assim como nos países do primeiro mundo, existem cidades ou regiões que
têm uma produção tecnológica intensa, ou seja, existe uma concentração de universidades,
institutos de pesquisa e empresas que desenvolvem estudos e, a partir daí, geram novos
produtos e tecnologias de ponta. Estas cidades ou regiões são denominadas pólos de alta
tecnologia ou pólos tecnológicos.
A cidade de Campinas é um exemplo típico de um pólo de alta tecnologia, pois conta
com uma universidade reconhecida internacionalmente pela sua produção científica: a
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP; possui o Centro de Pesquisa e
Desenvolvimento na área de telecomunicações mais capacitado da América Latina, o CPqD –
da antiga Telebrás; o Centro Tecnológico para Informática – CTI, criado para dar suporte
tecnológico às empresas, e o Laboratório Nacional de Luz Sincronton – LNLS. Além disso, a
cidade conta com a Universidade Católica, IAC, CATI, ITAL, Embrapa, CODETEC e a
Fundação Tropical de Pesquisa e Tecnologia André Tosello.
Outro exemplo de Pólo de Alta Tecnologia é a cidade de São Carlos que conta com
um número muito grande de indústrias entre empresas tradicionais e de tecnologia de ponta.
Essas empresas atuam nos setores de automação, informática, instrumentação, mecânica de
precisão, novos materiais, ótica e química fina.
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2. Problema
O momento exige a busca de novas parcerias entre os países assemelhados. As
propostas de criação de mercados conjuntos, como o MERCOSUL, com forte poder de
compra, exigem que se estruturem novas parcerias e se leve a ciência e tecnologia para dentro
das unidades de produção. Deve-se estimular a maior cooperação entre as empresas na fase
pré-competitiva, buscar o suporte das instituições de pesquisa e ensino, e reorientar a atuação
do governo, para que se complemente o esforço da iniciativa privada.
Os pólos científico-tecnológicos e as incubadoras de empresas demonstram que o
conhecimento científico chega mais facilmente ao mercado quando há esforços
compartilhados e parcerias realistas que incorporam os papéis e referenciais do governo, do
setor produtivo e das instituições de ensino e pesquisa (Medeiros, 1990).
A integração instituição de ensino e pesquisa-indústria espelha-se no caminho da
transformação da pesquisa básica em aplicada e desta em produto comercializável. Assim, as
universidades e centros de pesquisa apresentam-se como o ponto de partida para a criação de
empresas de base tecnológica.
Segundo Demattos (1990), no Brasil, a integração entre setor produtivo e os centros de
desenvolvimento tecnológico ainda é bastante tênue, a não ser nas poucas experiências de
formação de pólos tecnológicos. Essa situação é explicada por uma polêmica ainda não
resolvida dentro do próprio ambiente desses centros de desenvolvimento tecnológicos,
existindo correntes que não admitem a “ exploração comercial” dos seus conhecimentos.
Ainda, segundo Demattos, as indústrias nacionais, por seu lado, também são
responsáveis pela não-integração, decorrente de uma falta de iniciativa e da pouca
preocupação em investir em ciência e tecnologia. Razões diversas como, por exemplo, a
instabilidade econômica do país, a ausência de uma política industrial explícita ao longo do
passado recente, as várias formas de reserva de mercado, que têm poupado a indústria
brasileira da concorrência estrangeira e a falta da visão estratégica do empresariado nacional,
contribuem para essa situação.
Além de gerar recursos, essa prática de explorar o valor comercial das pesquisas
possibilita a estes centros de desenvolvimento científico-tecnológico o estreitamento dos
contatos com o setor produtivo e a promoção do desenvolvimento econômico, através da
criação de empresas.
A visão destes fatos e situações examinadas serviu de estímulo e motivação para a
realização de pesquisa no ano de 2000/2001.
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O estudo teve as seguintes indagações:
As empresas de alta tecnologia dos pólos tecnológicos de Campinas e São Carlos
foram naquele período 2000/2001 um mecanismo eficaz para propor uma transformação
rápida dos resultados de pesquisas das instituições de ensino e pesquisa em produtos
disponíveis para o mercado?
As empresas nesses pólos adotavam gestão tecnológica contida nos princípios do novo
paradigma industrial-tecnológico?
3. Justificativa
O interesse pelo tema surgiu da crença de que os investimentos do governo em
instituições de pesquisa aplicada devem não só apresentar retornos sociais como, também, na
medida do possível, resultados econômicos.
Para que o esforço científico e tecnológico se traduza em reais benefícios à sociedade
como um todo, é imprescindível que os conhecimentos gerados nas instituições de pesquisa
sejam utilizados imediatamente pelo setores produtivos.
Segundo Santos (1987), uma forma concreta de agilizar essa transferência de
tecnologia é estimulando a criação e o desenvolvimento de pólos de empresas de tecnologia
avançada.
Constata-se que, efetivamente, a criação de pólos de empresas de tecnologia avançada
é um mecanismo eficaz de transferência pelos institutos de pesquisa. Esta valorização ocorre
no momento em que a empresa utiliza tais tecnologias para produzir bens e serviços
(Medeiros, 1990).
4. Considerações Metodológicas
O método de trabalho utilizado apresentou características de estudo comparativo que,
de acordo com a classificação de Bruyne (1991), permite estudar as relações entre um grande
número de variáveis no contexto de uma amostra de organizações, como também analisar as
suas semelhanças e dessemelhanças.
O estudo se encaixou também na classificação de Sellttiz et alii (1965) em estudo
formulador ou exploratório, na medida em que se pretendeu familiarizar com um fenômeno.
Este estudo pretendeu analisar o modelo de gestão tecnológica das empresas que
atuam nas áreas de informática e instrumentação e que participam dos pólos tecnológicos de
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Campinas e São Carlos. A preocupação foi conhecer a dinâmica interna das empresas nestes
pólos. Isto é, como se dá a relação instituições de ensino e pesquisa-empresa.
Outra
preocupação foi saber se as empresas destes pólos adotam ou não o modelo de gestão de
organização do trabalho contida nos princípios do novo paradigma industrial-tecnológico
denominado pós-fordismo.
O estudo resultou de uma pesquisa realizada entre as empresas de alta tecnologia de
Campinas e de São Carlos que atuavam nas áreas de informática e de instrumentação.
Antes de iniciar a pesquisa fez-se uma visita à Companhia de Desenvolvimento do
Pólo de Alta Tecnologia de Campinas- CIATEC e à Fundação Parque de Alta Tecnologia de
São Carlos – Fundação PaqTc-Scar, entidades que atuvam como gestoras dos pólos, à medida
que criam condições para o surgimento e consolidação de empresas de alta tecnologia de
ponta.
Nesta visita, obteve-se a listagem com nomes e endereços dos diretores dessas
empresas.
De posse dessa listagem, a outra etapa consistiu em utilizar o método de
questionários enviados pelo correio aos diretores dessas empresas, através da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa.
Foi considerado como o universo da pesquisa as oitenta e seis empresas de informática
de
Campinas e as cinqüenta de instrumentação de São Carlos, constantes na listagem
fornecida pelas gestoras dos pólos.
No entanto, das empresas de Campinas, vinte e duas responderam, representando
24,75%, e, em São Carlos, dez responderam, representando 20%, o que é aceitável
estatisticamente, podendo-se dizer que a amostra pesquisada representa significativamente o
universo.
O instrumento da pesquisa elaborado a partir da revisão bibliográfica permeou uma
série de variáveis que identificam características de gestão do novo paradigma industrialtecnológico, como também variáveis que identificam se existe ou não e como ocorre o
relacionamento das empresas com as instituições de ensino e pesquisa. Assim, dividiu-se esse
instrumento em três itens: a) dados gerais da empresa: este item teve como objetivo identificar
o tempo de funcionamento, a origem do capital e a qualificação da mão-de-obra das empresas;
b) aspectos gerais: pretendeu-se identificar fatores que viabilizaram a criação das empresas de
tecnologia avançada nos pólos tecnológicos de Campinas e São Carlos; c) aspectos ligados à
gestão da produção, da organização da força de trabalho e à tecnologia: a intenção foi saber
como as empresas adotam mudanças tecnológicas que as caracterizam como inovadoras em
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busca da competitividade e verificar como isto acontece. Com isto, constatar e caracterizar o
modelo de gestão tecnológica adotado por elas.
Os dados coletados foram processados com o auxílio do programa estatístico
MICROSTAT, versão 4.1 de 1984, adequado à natureza e objetivos do estudo. Para a análise
quantitativa dos resultados, utilizou-se a distribuição de freqüência, por ser um estudo
exploratório e, portanto, necessitado de saber a freqüência com que as variáveis caracterizam
os paradigmas referenciados e com isto contatar o estado das empresas. A análise qualitativa
consistiu na interpretação e descrição mais detalhada possível dos dados coletados nas
questões abertas.
Para efeito do presente trabalho, foram definidos alguns termos como por exemplo:
fordismo, pós-fordismo, desintegração espacial, integração vertical, desverticalização das
grandes firmas, especialização flexível, qualidade total, Just-in-time, just-in-case, kanban,
CAD – Computer Aided Design, CAM – Computer Aided Management, empreendedor e
desenvolvimento tecnológico.
5. Fundamentação Teórica
5.1. Modelo convencional de produção e organização industrial ou paradigma fordista
O modelo de desenvolvimento no período pós-guerra denominado “fordismo” foi
imposto a partir de 1945 e se caracteriza como o modelo de organização do trabalho
apresentando como movimento de racionalização da produção, fundada numa separação
nítida entre os “idealizadores e organizadores” da produção (engenheiros e técnicos) e os
“executantes” (trabalhadores manuais, operários não qualificados) nas tarefas repetitivas, que
é denominado de taylorismo. Ou seja, os aspectos intelectuais e manuais do trabalho estavam
completamente separados no interior das empresas (Lipietz, 1991).
O paradigma fordista oferece uma concepção de progresso que se apóia em progresso
técnico (concebido como progresso tecnológico incondicionalmente conduzido pelos
“trabalhadores intelectuais”), progresso social (concebido como fiador do interesse geral
contra as invasões dos interesses individuais).
Para Lipietz (1991), um modelo de desenvolvimento sustenta-se nos seguintes
aspectos:
“1) Um modelo de Organização do Trabalho ou Paradigma Tecnológico ou Modelo de
Industrialização, que são os princípios gerais que governam a evolução da organização do
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trabalho, englobando não apenas as formas de organização do trabalho no interior das
empresas, mas as formas de divisão do trabalho;
2) Um regime de acumulação, que são os princípios macroeconômicos que descrevem
por um longo período as condições da produção, grau de mecanização, importância relativa
dos diferentes ramos e também as condições de uso social da produção (consumo familiar,
investimentos, despesas governamentais e comércio exterior);
3) Um modo de regulação, que é a combinação dos mecanismos que efetuam o ajuste
dos comportamentos contraditórios, conflituosos dos indivíduos aos princípios do regime de
acumulação. Essas formas de ajustes são o costume, a disponibilidade dos empresários, dos
assalariados de se conformarem a esses princípios, por reconhecê-los (mesmo a contragosto)
como válidos ou lógicos. São formas institucionalizadas: as regras de mercado, a legislação
social, a moeda, as redes financeiras”.
O compromisso desse modelo se materializou num regime de acumulação, que,
segundo Lipietz (1991) , pode ser assim resumido:
“uma produção em massa, com polarização crescente entre idealizadores
qualificados e executantes sem qualificação, com mecanização crescente, que
acarretava uma forte alta do volume de bens e equipamentos utilizados pelo
trabalhador;
uma repartição regular do valor agregado, isto é, um crescimento do poder
aquisitivo dos assalariados, paralelo ao crescimento de sua produtividade;
taxa de lucro das empresas permanecia estável, com a plena utilização das
máquinas e com o pleno emprego dos trabalhadores”.
O paradigma fordista oferece uma concepção de progresso que se apóia em progresso
técnico (concebido como progresso tecnológico incondicionalmente conduzido pelos
“trabalhadores intelectuais), progresso social (concebido como progresso do poder aquisitivo),
progresso do Estado (concebido como fiador do interesse geral contra as invasões dos
interesses individuais).
Segundo Lipietz (1989), as grandes crises são o marco da inadequação do modo de
regulação e do regime de acumulação, seja porque um novo regime se encontre limitado por
formas de regulação superadas (caso da crise de superprodução de 1930), seja porque o
próprio regime de acumulação esgotou suas possibilidades no contexto do modo de regulação
em vigor.
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A análise de Lipietz (1989) para a grande crise dos anos trinta é caracterizada como
sendo a primeira da acumulação. O modo de regulação efetivamente era caracterizado por um
ajuste a posteriori das quantidades produzidas nos diversos ramos em função do movimento
dos preços, por uma grande sensibilidade destes em relação à demanda e por um ajuste dos
salários ao movimento dos preços do qual resultava uma estabilidade ou baixo crescimento do
salário real direto.
Conclui-se que, no fordismo, o aumento da produtividade está associado ao
crescimento dos mercados, via aumento das economias de escala em busca de salários mais
baixos. O desenvolvimento das trocas internacionais no interior dos países desenvolvidos
possibilita novos ganhos de produtividade, pela centralização do capital através de maior
interdependência entre as economias desenvolvidas.
No final dos anos sessenta, esse regime de acumulação intensiva, o fordismo, entrou
em crise.
A saída seria mediante a retomada organizada do crescimento. O fator mais
preponderante da crise do regime de acumulação intensiva, o fordismo, reside na diminuição
geral dos ganhos de produtividade, baixa de rentabilidade, internacionalização dos mercados e
da produção comprometendo a regulação nacional, revolta dos produtores diante da alienação
do trabalho e diante da onipotência da hierarquia e do Estado, aspiração dos cidadãos à maior
autonomia.
Lipietz (1991) atribui que a razão profunda de tais tendências desditosas deve ser
buscada no âmago do modelo fordista de organização do trabalho.
A forma de organização do trabalho baseado na expropriação da maioria dos
produtores, do controle da sua própria atividade, reduziu as fontes de produtividade apenas à
atividade dos engenheiros e técnicos, que só podem aumentar a produtividade de todos os
agentes através das máquinas mais complexas por eles concebidas.
Mais que a revolta pelos princípios tayloristas, ou de separação entre a organização
científica do trabalho e a execução desqualificada que haviam secado a fonte dos ganhos de
produtividade uma vez eu a grande maioria dos produtores estava formalmente excluída da
batalha pela produtividade e pela qualidade do produto, já que seu envolvimento era negado, e
ficava apenas uma minoria restrita de técnicos e engenheiros incumbidos da tarefa de fazer
avançar o know how coletivo. Essa minoria não podia fazer aumentar a produtividade dos
outros a não ser por meio de máquinas cada vez mais complexas e caras que concebia para
eles (Lipietz, 1991).
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A saída para a crise é escolher novas regras, novos princípios de organização do
trabalho, novas normas na orientação e no uso social da produção, novos hábitos e novos
modos de regulação (Lipietz, 1991).
5.2. Novo modelo de organização do trabalho ou o novo paradigma industrial-tecnológico –
pós fordismo
O novo modelo de organização do trabalho ou o novo paradigma industrialtecnológico surge da crise que atravessa o sistema industrial do mundo ocidental, que é
caracterizado por grandes indústrias produtivas fabricando produtos padronizados para o
consumo de massa. Esse modelo convencional está sofrendo transformações profundas em
conseqüência do advento de novas tecnologias e formas de organização do trabalho. Nesse
modelo, o grande volume de produtos permitiu especialização das tarefas, das máquinas e da
mão-de-obra, como sistema predominante de administração da força de trabalho e da
organização das atividades produtivas.
O novo paradigma industrial-tecnológico estabelece a formação de equipes para
executar tarefas de diferentes complexidades. As equipes trabalham integradamente num
clima de cooperação e relacionamento com outras equipes. A autonomia e flexibilidade
tornam o trabalhador motivado e capaz de interferir na produtividade em prol da qualidade.
A essência do novo paradigma industrial tecnológico é representada pela
administração e coordenação de um processo contínuo de inovações e revoluções
incrementais, em que se adquire competência em busca da competitividade. Isto se faz por
meio dos recursos humanos, das pessoas, pois são estes a força fundamental das empresas, o
que significa, então, o aproveitamento total da potencialidade humana em todos os níveis.
Vantagens competitivas se conseguem através de avanços tecnológicos baseados na
imaginação, motivação e criatividade técnica e organizacional (Garcia, 1992).
A ambiência competitiva em curso no mundo exige das organizações a capacidade de
reestruturar mudanças e concepções de gerência e administração. O sucesso na competição
internacional de alguns países advém da evolução da “rigidez” para a “flexibilidade” do
contrato de trabalho, como, também, uma evolução do “controle direto” para a “autonomia
responsável”. É claro que este sucesso muito favorece tal evolução mesmo que aliado às
dificuldades de aplicação das novas tecnologias em um contexto de “flexibilidade liberal”,
que encorajaram uma transformação nas formas de administração das empresas (Garcia,
1992).
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Essa nova concepção de gerência e de administração pauta-se na questão da
racionalidade decorrente da transformação industrial. Para isso, é necessária melhor difusão
da informação, diminuição ou modificação das tarefas dos níveis intermediários, resultando,
assim, numa redução dos níveis hierárquicos. Dá-se mais importância ao planejamento das
tarefas, previsão de problemas, comunicações menos formais e ajuda mútua para a realização
das tarefas. A diferenciação ocupa o lugar das tarefas muito especializadas, tendendo à
formação de grupos relativamente autônomos e com os membros operando tarefas
complementares.
Conclui-se daí que a nova ordem paradigmática industrial-tecnológica é caracterizada
por uma harmonização das inovações tecnológicas, organizacionais e sociais no seio das
empresas.
A especialização flexível, enquanto modalidade tecnológica, opera na base de
princípios muito diferentes. Utiliza recursos muito variados e multifuncionais para produzir
pequenas linhas de produtos muito especializados. Em casos extremos cada produto é feito
sob medida para uma necessidade ou demanda muito particular.
No lugar da máquina
superespecializada e do trabalhador semiqualificado, tecnologias flexíveis utilizam operários
altamente treinados e equipamentos e ferramentas multifuncionais (Piore, 1987).
A especialização flexível emerge a partir da descentralização da autoridade e da
criação de elos menos rígidos, mais cooperativos e interativos entre os componentes das
empresas. Como modo de produção, a especialização flexível favorece as cidades na medida
em que as economias de escala são reduzidas ou eliminadas. As cidades passam a ser viáveis
enquanto uma unidade econômica.
Cada vez mais, irão ser capazes de produzir
eficientemente para suas necessidades sem um intenso comércio com o resto do mundo .
Com isso, elas desenvolverão seus próprios padrões de consumo (Piore, 1987).
Os sistemas flexíveis permitem a automatização dos processos para produção de
pequenos lotes, reduzindo as diferenças de custos mediante o uso de equipamentos
reprogramáveis. A nova flexibilidade permite não só mudar de um produto para outro, o que é
sempre difícil quando as máquinas e equipamentos são rígidos, mas também obter ganhos de
economias de amplitude (scope) pelo aumento do número de lotes de diferentes produtos
fabricados (Lipietz, 1991).
O novo paradigma não depende de novas máquinas que podem ser empregadas tanto
em sistemas rígidos quanto flexíveis. Seu fator central é a capacidade de variar a produção
mediante inovações e melhorias de processos e produtos, os quais dependem, em última
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análise, da organização e da qualidade dos recursos humanos, inclusive das relações industrias
e sindicais (Lojkine, 1983).
O novo padrão, assumindo características de flexibilidade e integração, tem a
possibilidade de ser aplicado geralmente em todas as atividades e não apenas na produção em
massa. Esse novo padrão objetiva o melhor uso de todos os itens que integram o custo total,
inclusive o tempo, alcançando redução dos estoques de produtos, maior e melhor utilização
dos equipamentos, melhor integração das etapas, melhor e mais garantia da qualidade dos
produtos. Significa melhoria da produtividade, sem necessariamente, automação. Trata-se da
obtenção de aumentos da produtividade, através de melhorias sucessivas na organização da
produção (as novas tecnologias de organização social da produção – TOSP, as tecnologias de
automação flexível – TAF na terminologia de TAUÍLE (1990), o que permite eliminar as
perdas de tempo e materiais e conseguir alta qualidade e índice zero de defeito. A estas
tecnologias podem ser adicionados novos métodos CAD/CAM e técnicas novas tipo controle
da qualidade, kanban e just-in-time.
Novas tecnologias, organização e reestruturação industrial
O aporte das novas tecnologias surge como uma saída possível para a crise latente do
paradigma industrial tecnológico atual. Torna-se premente a necessidade de reorganizar o
processo de trabalho, a relação salarial e reunificar o que o taylorismo separou: os aspectos
manuais e intelectuais do trabalho.
No modelo fordista, a forma clássica de organização industrial era a divisão do
trabalho, segundo os princípios tayloristas. Esta divisão podia tomar a forma de uma divisão
entre estabelecimentos, uma desintegração espacial.
As novas tecnologias oferecem novas possibilidades de organização industrial, graças
à gestão dos fluxos de informação, à flexibilidade dos bens e equipamentos, à padronização
que permite a fabricação automatizada de alta precisão, à concepção modular, aos produtos e
à montagem automatizada por subconjuntos.
Rattner (1990) aborda que o desenvolvimento de um novo modelo de gestão com
profundos impactos no planejamento estratégico no nível das unidades produtivas e das
grandes corporações é uma alternativa à nova ordem paradigmática que impera nos tempos
atuais. No nível do estabelecimento, emergiu uma nova forma de organização e coordenação
do pessoal e da produção, que permitiu manter competitividade por ganhos em produtividade
e pagar maiores salários. Os ingredientes básicos são uma visão e abordagem de integração
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sistêmica (kanban e just-in-time) que passam por melhor processo de controle de qualidade,
melhor controle do fluxo de materiais e componentes e conseqüentemente redução de
estoques, mudanças de designs e de processos de fabricação, economias de amplitude (scope)
e não só de escala.
A essência do Controle de Qualidade Total (TQC) é a qualidade na origem. Isso
significa: no processo de produção, uma etapa de trabalho, ou um trabalhador, só transfere
para a seguinte, ou para o trabalhador seguinte, um produto ou serviço em perfeitas condições.
Se ocorrerem erros ou defeitos, eles devem ser descobertos e corrigidos na origem, isto é, na
etapa na qual o serviço é realizado.
A flexibilidade da informática está reduzindo o ciclo de vida dos produtos, o que
possibilita introduzir ou retirar produtos do mercado segundo as exigências do momento. Com
isso, gera economias denominadas de diversificação.
O novo paradigma industrial-tecnológico emergente ou pós-fordismo tem um modo de
desenvolvimento da produção caracterizado pela especialização flexível. No padrão
tecnológico, faz-se uma nova forma de reorganização do processo de trabalho e da relação
salarial, da unificação dos aspectos manuais e intelectuais do trabalho, de uma mudança da
base técnica, ou seja, da “mecânica” para a “microeletrônica” , visando à automação dos
processos para a produção de pequenos lotes, o que permite a mudança da economia de escala
(verticalização = quantidade) para a economia de escopo (desverticalização = volume), o que
caracteriza uma produção variada, uma diferenciação (o produto em função do mercado)
representando maior volume agregado de bens produzidos.
Todas as evidências apontam para a emergência de um novo paradigma de produção e
organização industrial, tornando instalações, equipamentos, produção e modelo de gestão da
era fordista obsoletos, menos produtivos
e, portanto, desaconselháveis para projetos de
industrialização do Terceiro Mundo.
Interpretação dos dados coletados
Os dados demonstraram que o capital tanto das empresas de Campinas como o das de
São Carlos é próprio. Com isso, constatamos suas independências em relação a capitais
externos.
Considerando-se como funcionários qualificados aqueles que possuem formação
superior ou técnica, pode-se observar que a qualificação da mão-de-obra é, de alguma forma,
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pouco significativa, o que não vem confirmar a importância das instituições de ensino na
região como formadoras de mão-de-obra qualificada.
Observou-se que existiam dificuldades no entrosamento entre os três integrantes do
processo de inovação tecnológica: as empresas, o governo federal, estadual e municipal, e as
instituições de ensino e pesquisa. Adotam comportamentos individualizados e, com isso,
acabam por se isolarem.
Observou-se da mesma forma que a articulação e iniciativas conjuntas das empresas
nos pólos estudados, com as instituições de ensino e pesquisa, demonstraram a existência de
uma baixa sinergia e interação e, quando existe, resulta apenas de forma mais intensiva pela
oferta de bolsa de estudos e utilização de laboratórios.
Ao se considerar os dados relativos aos aspectos ligados à gestão do processo de
organização da força de trabalho e da produção, devemos reportar à posição de Suzigan
(1988), que relata alguns aspectos que devem ser considerados enquanto elementos-chave do
processo de reestruturação produtiva: os gastos em P&D; incorporação e difusão do progresso
técnico, realocação de recursos produtivos entre setores; processo de incorporação e fusão de
empresas; redefinição da divisão do trabalho inter e intra-empresas; racionalização de certas
atividades através da cooperação tecnológica e associação de empresas para grande projetos.
Isto nos leva a inferir que há necessidade de se compreender que, num pólo
tecnológico, as empresas participantes necessitam adotar a filosofia e administração contida
nos moldes ou princípios do novo paradigma industrial-tecnológico, ou pós-fordismo. Uma
nova forma de organização do processo de trabalho, de uma mudança da base técnica, ou seja,
a adoção da microeletrônica, visando à automação dos processos, o que caracteriza uma
produção variada, uma diferenciação, o produto em função do mercado.
Ao se perguntar às empresas de Campinas e São Carlos pelas mudanças tecnológicas
para a introdução de novos produtos/processos, podemos observar que as mesmas
classificaram a tecnologia por elas utilizadas como altamente sofisticadas em contraposição às
suas classificações de tecnologia atrasada em relação aos concorrentes. Os dados
demonstraram que as empresas dos Pólos de Campinas e São Carlos são contraditórias em
relação a mudanças tecnológicas adotadas por elas com as classificações de suas tecnologias.
Com isso, podemos considerar que tanto as empresas de Campinas como as de São Carlos
ainda não estão em um estágio de obterem produtos tecnologicamente mais avançados.
Os fatores característicos das novas tecnologias organizacionais que oferecem novas
possibilidades de organização industrial, graças à gestão dos fluxos de informação,
flexibilidade dos equipamentos e engajamento geral dos trabalhadores, são fatores que não
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estavam presentes nessas empresas, conforme foi observado nos aspectos da tecnologia por
elas utilizadas.
Os métodos e ferramentas utilizados pela gestão da qualidade caracterizaram que as
empresas da amostra de Campinas ainda não incorporavam essa prática para o êxito das
tarefas. Já as de São Carlos incorporaram numa porcentagem mais alta. É necessário,
portanto, que, paralelamente aos métodos e técnicas de qualidade, as empresas deviam
investir nas pessoas, senão os programas de qualidade não se consolidariam, conforme a
observação de Garcia (1992).
Quanto ao problema do estudo
Para a questão um, os dados mostraram que as empresas instaladas nos pólos
tecnológicos estudados não demonstraram ser um mecanismo eficaz para propor uma
transformação rápida dos resultados de pesquisa das instituições de ensino e pesquisa, já que a
forma de interação não se dá para, juntas, gerar pesquisas, transformar conhecimento em
produto tecnológico, como também até para efetuar a sua distribuição e comercialização nos
mercados apropriados. A interação se dá, nas empresas de Campinas somente, pela oferta de
bolsas de estudos e, nas de São Carlos, pela utilização dos laboratórios das instituições.
Para a indagação dois, devemos considerar que as empresas nos pólos estudados
demonstram não adotar gestão tecnológica contida nos princípios do novo paradigma
industrial-tecnológico, ou pós-fordismo, porque as mudanças tecnológicas não se
caracterizaram de formas exigidas pelo novo modelo de organização da produção, pois a
inovação tecnológica e a tecnologia adotada não se dão de forma a flexibilizar totalmente a
produção, conforme é apregoado no pós-fordismo; os métodos/ferramentas utilizados na
gestão da qualidade, o just-in-time por exemplo, não são aqueles necessários à configuração
desse modelo; as formas de relação de produção e organização da produção demonstram não
serem afins com a filosofia do pós-fordismo, ou do novo paradigma industrial-tecnológico.
6. Considerações Finais
Sem querer referenciar teoricamente assunto não abordado no escopo deste estudo
com relação às racionalidades inerentes a todo o processo empresarial, cabe ressaltar que as
empresas estudadas dos dois pólos tecnológicos apresentaram dois tipos de discurso e de
prática nas suas respostas.
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Um desses discursos e práticas refere-se à racionalidade instrumental que é todo o
conjunto de métodos e técnicas idealizados e/ou aplicados para atingir um fim. Os métodos e
técnicas do novo paradigma industrial-tecnológico, que as empresas de Campinas e São
Carlos demonstraram conhecer, só são empregados totalmente nas intenções. Apenas aqueles
instrumentos, que, por serem empregados parcialmente, não ameaçam romper com os
princípios do paradigma convencional de produção e organização do trabalho e, portanto, com
a estrutura hierárquica e de poder, são praticados racionalmente
O outro discurso e prática referem-se à racionalidade estratégica que é o conjunto de
métodos e técnicas idealizados e/ou aplicados para a interação com fins de competitividade e
sobrevivência. Estes métodos e técnicas para uma racionalidade estratégica, nas empresas do
pólo tecnológico de Campinas e de São Carlos, também não se configuram, em sua totalidade,
dentro do novo paradigma industrial tecnológico. Haja vista as suas características de não
interações flexíveis com as instituições de ensino e pesquisa e outras organizações de seus
ambientes externos. A falta de estrutura flexível de organização das relações de produção
demonstradas nas respostas das empresas, talvez, responda às suas posições estratégicas não
ofensivas.
6.1. Recomendações para outros estudos
Este estudo deve ser considerado somente como uma contribuição ao estudo dos
modelos de gestão tecnológica das empresas de alta tecnologia dos pólos tecnológicos de
Campinas e São Carlos para aquele período, inícios do ano 2000 e fins de 2001. Com certeza,
mudaram-se os tempos, mudaram-se as pessoas e com certeza mudaram-se os modelos de
gestão das empresas destes dois pólos tecnológicos. Por isso, recomendou-se naquela época,
sendo válida para os dias atuais, a realização de estudos mais profundos, com pesquisas não
exploratórias como esta, mas descritivas ou experimentais dos fenômenos de e para mudança
de paradigma industrial-tecnológico.
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