FACULDADES DE TAQUARA – FACCAT
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM DEPENDÊNCIA QUÍMICA E PROMOÇÃO DA
SAÚDE
Karen Alves
ESTUDO DE ESTÁGIOS MOTIVACIONAIS EM DEPENDENTES QUÍMICOS A
PARTIR DE UM JOGO TERAPÊUTICO
TAQUARA
2013
2
KAREN ALVES
ESTUDO DE ESTÁGIOS MOTIVACIONAIS EM DEPENDENTES QUÍMICOS A
PARTIR DE UM JOGO TERAPÊUTICO
Trabalho de Conclusão do Curso de
Especialização em Dependência Química e
Promoção da Saúde das Faculdades
Integradas de Taquara - FACCAT como
requisito parcial para obtenção do grau em
Especialista.
Orientador:Prof.Dra. Ceres Berger Faraco
TAQUARA
2013
3
ESTUDO DE ESTÁGIOS MOTIVACIONAIS EM DEPENDENTES QUÍMICOS A
PARTIR DE UM JOGO TERAPÊUTICO1
Karen Alves2
Ceres Berger Faraco3
RESUMO
A dependência química é um fenômeno atual que preocupa a sociedade. Para tanto
novas formas de intervenções terapêuticas são aplicadas para auxiliar os dependentes
químicos a ampliar suas estratégias de enfrentamento frente às diversas situações de risco em
seu cotidiano. O objetivo deste estudo é através de um jogo terapêutico ampliar as estratégias
de enfrentamento diante de situações de risco. O jogo terapêutico foi aplicado em quatro
pacientes de um Centro de Reabilitação para álcool e outras drogas no sul do país. Foi
aplicado um questionário sociodemográfico que apontou que as idade dos participantes eram
de 18 a 54 anos, todos do sexo masculino, solteiros e casados, provenientes de cidades
distintas da grande região, dois moravam sozinhos, um com na esposa e outro com a mãe. O
outro protocolo utilizado foi a URICA, que resultou que após a aplicação do jogo terapêutico
todos os participantes tiveram um aumento no valor de prontidão para mudança e metade dos
participantes encontrava-se motivado para o tratamento e a outra metade não. Durante a
aplicação do jogo terapêutico observou-se a interação entre os jogadores assim como o auxílio
muto. As autoras acreditam que o jogo deve ser aplicado mais vezes com o mesmo público e
em diferentes momentos de seu tratamento.
Palavras-chave: Jogo. Estratégias. Dependência de drogas. Estágios Motivacionais.
1
Artigo apresentado ao curso de Especialização em Dependência Química e Promoção da Saúde das
Faculdades Integradas de Taquara (Faccat) como requisito parcial para aprovação na Monografia.
2
Terapeuta Ocupacional (IPA), acadêmica do curso de Especialização em Dependência Química e
Promoção de Saúde das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat). Endereço: Rua Guararapes,
300, Santa Cecília, Viamão/RS. E-mail: [email protected].
3
Médica Veterinária (UFRGS), Mestre em Psicologia Social e da Personalidade e Doutora em
Psicologia (PUCRS). Docente do curso de Psicologia e da Especialização em Dependência Química
e Promoção de Saúde das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat). Orientadora da Monografia.
Endereço: Av. Oscar Martins Rangel, 4500 (RS 115). Taquara/RS. E-mail: [email protected].
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1 INTRODUÇÃO
A dependência química corresponde a um fenômeno amplamente divulgado e
discutido, uma vez que o uso abusivo de substâncias psicoativas tornou-se um grave problema
social e de saúde pública em nossa realidade (PRATTA; SANTOS, 2009). A dependência
química é caracterizada por ser uma doença crônica e reincidido em que o uso continuado de
substâncias psicoativas provoca mudanças na estrutura e no funcionamento do cérebro. O
consumo de substâncias psicoativas pode causar mudanças duradouras na estrutura e no
funcionamento neuronal, que são à base das anormalidades comportamentais associadas à
dependência. Tais alterações originam ou exacerbam comportamentos de natureza compulsiva
que anteriormente pouco ou nada interferiam na vida da pessoa e de seus grupos de convívio,
tornando o comportamento do dependente cada vez mais dirigido para a obtenção e o uso
dessas substâncias, ao mesmo tempo em que diminui sua capacidade de parar de usá-las,
mesmo quando o seu efeito é menos gratificante ou já interfere significativamente no
funcionamento de outras áreas de vida (RIBEIRO; YAMAGUCHI; DUAILIBI, 2012).
A dependência química causa mudanças acentuadas na interação do indivíduo com
seus familiares, afetando suas relações sociais e até mesmo profissionais. A característica
principal da dependência de substâncias corresponde à presença de um conjunto de sintomas
cognitivos, comportamentais e fisiológicos, que evidencia que a substância traz prejuízos
tanto pessoais quanto sociais. Para essas pessoas, a droga passou a exercer um papel central
nas suas vidas, na medida em que, por meio do prazer, ela preenche lacunas importantes,
tornando-se indispensável para o funcionamento psíquico dos mesmos. Romper o ciclo de
dependência é algo muito difícil e delicado, pois os indivíduos que se tornam dependentes
vivenciam um sofrimento físico e psicológico intensos, tendo sua vida afetada, bem como
suas famílias, amigos e a comunidade de uma forma geral (PRATTA; SANTOS, 2009).
Tendo em vista o conjunto de prejuízos psíquicos e cognitivos de usuários de drogas,
principalmente dificuldades relacionadas à área social, tem-se a necessidade de estimular as
habilidades sociais destas pessoas. As habilidades sociais, segundo Wagner e Oliveira (2007),
correspondem a um universo mais abrangente das relações interpessoais e se estendem para
além da assertividade, incluindo as habilidades de comunicação, de resolução de problemas,
de cooperação e aquelas próprias dos rituais sociais estabelecidos pela cultura grupal.
5
Caballo (2000) afirma que as habilidades sociais devem ser consideradas dentro de um
marco cultural determinado, e os padrões de comunicação variam amplamente entre culturas e
intracultura, dependendo de fatores tais como: a idade, sexo, classe social e educação. A
investigação sobre as habilidades sociais constitui, assim, um campo de estudo com enormes
aplicações práticas, inclusive dentro da dependência química. As pessoas no geral buscam
ajuda psicológica para sanar problemas implicados nas relações sociais. O dependente
químico tem muita dificuldade em relacionar-se com pessoas não usuárias e principalmente
com familiares em fase adicta. A importância que se dá a interação pessoa-situação na análise
funcional da conduta é resultado da importância de se considerar a relação do indivíduo com
seu ambiente social na evolução de seu tratamento. Poder refletir e aprimorar sua interação
com os desafios de um jogo que suscita percepções similares às vividas no dia-a-dia, mas, que
podem ser reeditadas com a base da vivência anterior (jogo). Há sempre a oportunidade de
mudar e agir de outra maneira.
Caballo (2000) afirma que as pessoas estão preocupadas com os elementos cognitivos
que facilitem o comportamento socialmente adequado. Contudo não se encontram claros os
componentes básicos de um comportamento habilidoso, embora o encontro desses
componentes comportamentais, cognitivos e fisiológicos possa ser essencial para a evolução
do treino das habilidades sociais.
Tem-se observado frequentemente diferenças nas evoluções globais da habilidade
social em grupos conhecidos. Grupos de sujeitos de elevada habilidade social diferem de
grupos de sujeitos pouco habilidosos em uma série de evoluções como: assertividade,
ansiedade e atração física (CABALLO, 2000).
Caballo (2000) diz que o treino das habilidades sociais se encontra entre as técnicas
mais potentes e mais frequentemente utilizadas para o tratamento dos problemas psicológicos,
para a melhora do efeito interpessoal e para a melhora geral da qualidade de vida. As
premissas subjacentes do treino das habilidades sociais são: as relações interpessoais são
importantes para o desenvolvimento e o funcionamento psicológico; a falta de harmonia
interpessoal pode contribuir ou conduzir as disfunções e perturbações psicológicas; certos
estilos e estratégias interpessoais são mais adaptativos que outros estilos e estratégias para
grupos específicos de encontros sociais; esses estilos e estratégias interpessoais podem
especificar-se e ensinar-lhes; uma vez aprendidos esses estilos e estratégias, melhoraria o
6
comportamento em situações específicas; a melhora do comportamento interpessoal pode
contribuir ou conduzir a melhora do funcionamento psicológico.
Caballo (2000) diz que há uma série de razões que impediria um sujeito de manifestar
um comportamento socialmente habilidoso. Estas razões seriam: as respostas habilidosas
necessárias não estão presentes no repertório de respostas de um indivíduo. Este pode não ter
aprendido o comportamento apropriado ou pode ter aprendido um comportamento
inapropriado; o indivíduo sente ansiedade condicional que o impede de responder de uma
maneira socialmente adequada; o indivíduo entende de maneira incorreta sua atuação social,
evoluindo negativamente, com a presença de pensamentos desmotivantes; falta de motivação
para atuar apropriadamente em uma situação determinada, podendo reforçar a interação
negativa da interação interpessoal; o indivíduo não sabe discriminar adequadamente as
situações em que uma resposta determina provavelmente sua efetividade; o indivíduo não esta
seguro de seus direitos ou não acha que tenha o direito de responder apropriadamente; no caso
de pacientes psiquiátricos, os efeitos da institucionalização tem produzido uma desabituação
das respostas sociais, o que resulta em uma incapacidade para produzir o que pode ter sido
uma vez parte integral do repertório dos pacientes; obstáculos ambientais restritos que
impedem o indivíduo expressar-se apropriadamente ou que inclusive castigam a manifestação
do comportamento socialmente adequado.
Segundo Caballo (2000) o processo do treino das habilidades sociais implica quatro
elementos: treinamento das habilidades, onde se ensina comportamentos específicos, se
pratica e se integra em um repertório comportamental do sujeito. Contudo a aquisição das
habilidades sociais depende de um conjunto de fatores, principalmente dentro da teoria do
aprendizado social; redução da ansiedade em situações sociais problemáticas. Normalmente
esta redução da ansiedade se consegue de forma indireta, ou seja, realizar um novo
comportamento mais adaptável, que anule a resposta de ansiedade; reabilitação cognitiva,
onde tentará modificar valores, crenças e atitudes do sujeito; treino em solução de problemas,
onde ensinará o sujeito a perceber corretamente os valores de todos os parâmetros situacionais
relevantes.
7
A importância do treino das habilidades sociais nos casos em que há a necessidade de
conflitos sociais é uma das principais técnicas utilizadas para ajudar outros procedimentos
terapêuticos. Pode-se citar, no entanto, que todos os casos de treino de habilidades sociais se
interessam pela mudança do comportamento social. O objetivo principal do treino consiste em
permitir que as pessoas tenham reflexões sobre suas vidas e seus comportamentos, assim
ensina os indivíduos como trabalhar construtivamente com as demais pessoas e formar
relacionamentos mais satisfatórios (CABALLO, 2000).
Wagner e Oliveira (2007) afirmam que o aprendizado de novas habilidades
interpessoais capacita os indivíduos que possuem dificuldades para serem assertivos a
defenderem seus direitos de forma mais efetiva quando houver a pressão de outras pessoas
para consumirem drogas. Nesse contexto, o tratamento a partir do treinamento de habilidades
sociais pode, então, auxiliar na recuperação das lacunas existentes, através da
instrumentalização do jovem com um leque de comportamentos mais saudáveis.
O treino das habilidades sociais tem sido especialmente útil para indivíduos que têm
problemas com álcool e outras drogas, pois para alguns indivíduos, a ansiedade social é a
principal responsável que intensifica a relação entre o déficit das habilidades sociais e o abuso
de álcool e substâncias psicoativas. Estas drogas servem como um meio para afrontar a vida
diária e as pressões externas. Alguns pesquisadores têm enfatizado que o treino em
habilidades sociais constitui uma parte importante dos tratamentos comportamentais para
sujeitos com problemas de abuso de álcool e drogas (CABALLO, 2000).
Os alcoolistas e dependentes químicos podem ser muito habilidosos em outras
situações. Dependentes químicos podem ter problemas de habilidades básicas ao longo de
uma série de situações. Estes déficits poderiam conduzir, em último extremo, um isolamento
social. Para essas pessoas, não seria um tratamento adequado o treino de habilidades sociais
dirigidos a rejeitar a pressão de outros abusadores para que consumam drogas ou álcool. Seria
necessário um programa de treino mais amplo que ajudasse o indivíduo a estabelecer contatos
sociais novos e saudáveis (CABALLO, 2000).
O objetivo deste estudo foi ampliar as possibilidades de estratégias de enfrentamento
diante de um jogo terapêutico aplicado a quatro pacientes de um centro de reabilitação para
dependentes químicos em um município no sul do país.
8
3 MÉTODO
Esta pesquisa é um estudo de caso, caracterizado, segundo Yin (2010), por tratar-se de
um método que permite que os investigadores retenham as características holísticas e
significativas dos eventos da vida real. Como os ciclos individuais da vida, o comportamento
dos pequenos grupos, os processos organizacionais e administrativos, a mudança de
vizinhança, o desempenho escolar, as relações internacionais e a maturação das indústrias.
E, de acordo com Minayo (2010), a abordagem de Triangulação de Métodos é uma
dinâmica de investigação que integra a análise das estruturas, dos processos e dos resultados,
a compreensão das relações envolvidas na implementação das ações e a visão que os atores
diferenciados constroem sobre todo o projeto.
A
partir
destes
conceitos,
primeiramente
foi
utilizado
um
questionário
sociodemográfico elaborado pelas autoras baseado em questões do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Este questionário continha perguntas sobre a idade, estado
civil, escolaridade, se já morou na rua, cidade de procedência, antecedentes criminais e mora
com quem na residência. Após foi aplicado a University of Rhode Island Change Assessment
(URICA) para drogas ilícitas (SZUPSZYNSKI; OLIVEIRA, 2008). A URICA é um
questionário com 24 perguntas relacionadas ao consumo e tratamento para a dependência
química. Estes protocolos foram aplicados individualmente.
Em seguida, em grupo, foi aplicado o jogo terapêutico, criado pela autora principal
deste artigo, com a proposta de conhecer novas estratégias de enfrentamento frente a situações
de risco de forma lúdica e interação com outras pessoas que sofrem do mesmo problema da
dependência química. O jogo compreende um número máximo de cinco participantes. Na vez
de um jogador, diante do grande grupo, ele cria uma estratégia de enfrentamento e o restante
dos participantes decide se a resposta é condizente com a situação de risco. O tabuleiro é em
formato de casas que são passadas conforme o número que o dado mostra e quantas casas
devem ser puladas. Em cada casa há uma situação de risco, ao total são 61 situações. Ao final
do jogo, novamente é aplicado a URICA para ilícitas. O questionário tem 24 afirmações para
as quais poderá se escolher as seguintes respostas: discordo totalmente (1), discordo (2),
indeciso (3), concorda (4) e concorda totalmente (5). A partir do levantamento dos dados,
poderá ser avaliada a distribuição entre os estágios motivacionais (pré-contemplação,
contemplação, ação e manutenção) em cada sujeito, à medida que cada fase está relacionada a
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quatro itens. Os estágios motivacionais são divididos em quatro grupos. O primeiro é a précontemplação caracterizado pelo não desejo de mudança, visto que não o é necessário. O
estágio de contemplação é marcado por ser um período de grande ambivalência onde o
indivíduo considera os prós e os contras tanto do comportamento atual, quanto da mudança
deste comportamento. O estágio de ação é quando o indivíduo já exibe ações concretas no
sentido de parar com o velho padrão de comportamento e inicia o engajamento em um novo
padrão. E o estágio de manutenção é o novo padrão comportamental que torna-se automático,
requerendo menos esforços para mantê-lo (FIGLIE; MELO; PAYA, 2007).
4 RESULTADOS
Os resultados sócio-demográficos encontrados apontam que os participantes têm entre
18 e 54 anos, com o Ensino Fundamental Completo, todos têm antecedentes criminais, um
dos participantes já morou na rua, três são solteiros, dois procedem de Porto Alegre, um de
Igrejinha e um de Viamão, dois moram sozinhos, um com esposa e filhos e o outro com os
pais. Um dos participantes tinha a primeira internação e os outros 3 já possuíam mais de 1
internação prévia (Tabelas 1 e 2).
Tabela 1 – Caracterização dos participantes
Participante
Idade
Estado Civil
Cidade onde reside
Mora com
1
32
Casado
Igrejinha
Esposa
2
18
Solteiro
Porto Alegre
Mãe
3
30
Solteiro
Viamão
Sozinho
4
54
Solteiro
Porto Alegre
Sozinho
Tabela 2 – Caracterização dos participantes: histórico
Participante
1
2
3
4
Antecedente criminal
Sim
Sim
Sim
Sim
Morou na rua
Não
Não
Sim
Não
Internações anteriores
0
3
3
15
10
Os resultados do protocolo da URICA para ilícitas avaliou que o participante 1
encontrava-se no estágio Contemplação e após o jogo foi avaliado que seu estágio mudou
para ação. O participante 2 antes do jogo apresentou estágio contemplação e após o jogo não
teve alteração. O participante 3 na primeira aplicação encontrava-se no estágio ação e não
obteve alteração na segunda aplicação. O mesmo ocorreu com o participante 4 que encontrouse em ambas aplicações no estágio ação (Tabela 3).
Tabela 3 – Estágio Motivacional antes e depois do jogo
Participante
Estágio Motivacional
1ª aplicação
2ª aplicação
1
Contemplação
Ação
2
Contemplação
Contemplação
3
Ação
Ação
4
Ação
Ação
O valor da prontidão para mudança no participante 1 de 36 passou para 38 após a
participação do jogo terapêutico. Com o participante 2 o valor inicial era 34 e após ficou 35.
O participante 3 alterou de 40 para 45 e o participante de 4, de 40 para 46 (Tabela 3).
Tabela 4 – Valor de Prontidão para Mudança
Prontidão para mudança
Participante
1 ª aplicação
2ª aplicação
1
36
38
2
34
35
3
40
45
4
40
46
11
Com a avaliação do escore final obteve-se o resultado que os participantes 1 e 2 não
estão motivados para a mudança de comportamento e os participantes 3 e 4 estão motivados
para a mudança de comportamento.
Durante a aplicação do jogo terapêutico, os participantes estavam atentos com as
respostas dos demais participantes, assim como de forma autônoma, sem comandos do juiz,
interviam nas respostas do participante da vez. Também o jogo por ser de um formato de
competição auxiliava o clima de coesão e empatia.
5 DISCUSSÃO
Com base nos resultados observa-se que os participantes têm em média o Ensino
Médio incompleto, estão em idade madura, já tiveram passagens policiais, metade mora
acompanhado e a outra metade sozinha. Esses dados podem ser corroborados com o estudo de
Capistrano et al. (2013), no qual é apontado que o perfil dos dependentes químicos sendo que
os resultados encontrados foram similares aos deste estudo.
A avaliação motivacional apontou que a mudança de estágio ocorreu somente no
participante 1 e nos demais não se alterou. Contudo, o valor da prontidão para mudança
apontou pequena mudança em relação ao comportamento antes e após a aplicação do jogo
terapêutico. A avaliação final resultou que metade dos participantes estava motivada para a
mudança de comportamento e a outra parte não estava. Estudo de Oliveira el al. (2003) aponta
em seu estudo que os participantes apresentavam uma preponderância nos estágios
motivacionais.
Durante a aplicação do jogo terapêutico, observou-se interação entre os participantes.
Esta interação deu-se através da análise das estratégias de enfrentamento do grupo para a o
participante da vez. O grupo julgava se a estratégia era coerente e apropriada para a situação
de risco, não sendo apropriado, o participante da vez teria que criar uma nova estratégia,
podendo ser aceita ou não novamente. Esta aprovação era julgada entre eles, já que todos
conviviam por alguns meses e muitos deles opinavam se o participante iria realizar a
estratégia ou não. Em alguns casos até mesmo relembravam episódios acontecidos dentro do
12
ambiente de internação em que o participante não conseguiu aplicar uma estratégia adequada
à situação.
Nesta situação Caballo (2000) afirma que as habilidades sociais são exploradas em
diversas situações. E, para alcoolistas e dependentes químicos, novos ambientes apenas não
são responsáveis pelo aprimoramento do comportamento socialmente habilidoso. É necessário
o processo de treino das habilidades. As etapas dos jogos terapêuticos e a intervenção do
outros jogadores possibilitam a ampliação do repertório das habilidades sociais fazendo com
que o jogador da vez possa pensar em uma estratégia coerente com o novo comportamento
habilidoso.
Caballo (2000) afirma que o treinamento das habilidades dá-se através da vivência de
um novo comportamento e sua aquisição depende de diversos fatores sociais. A partir desta
colocação observou-se a reflexão de alguns participantes acerca de sugestões de estratégias de
outros participantes. Alguns deles falavam que não haviam pensado em uma sugestão de
estratégias visto que a situação faz parte de sua realidade.
Houve momentos de relato de participantes sobre suas experiências com determinadas
situações de risco. Comentavam as situações vividas e o desfecho, sendo muito deles
caracterizadas por recaídas no mesmo instante ou como gatilho. Nesse sentido, Caballo
(2000) afirma que o importante não é ensinar o dependente químico a rejeitar e negar convites
ao uso, mas sim mostrar ao usuário que o caminho para o comportamento habilidoso é
procurar novos e saudáveis contatos sociais.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se refletir que o jogo terapêutico é capaz de trocar experiências sobre a
manutenção do tratamento da dependência química. Até mesmo motivar a adaptação de
situações de risco para suas realidades.
Por esta pesquisa ser de caráter interventivo exploratório, consegue-se com a aplicação
do jogo terapêutico observar e perceber como pensam e se comportam os participantes diante
de situações de risco já vivenciadas ou nem mesmo questionadas.
13
Embora as limitações inerentes a um estudo exploratório e número de participantes, os
resultados são promissores e suscitam novas aplicações. As autoras acreditam que o jogo deva
ser aplicado mais vezes com o mesmo e outros grupos e em momentos diferentes de seus
tratamentos
REFERÊNCIAS
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no tratamento de dependentes de crack internados em uma unidade de desintoxicação.
Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 18, n. 2, p. 77-80, mar./abr. 2012.
CABALLO, Vicente E. Manual de evaluación y entrenamiento de las habilidades
sociales. 4 ed. Espana: Siglo Veintiunon de Espana Editores, 2000.
CAPISTRANO, Fernanda Carolina et al. (2013). Perfil sociodemográfico e clínico de
dependentes químicos em tratamento: análise de prontuários. Escola Anna Nery (impresso),
v.17, n. 2, Rio de Janeiro, abr./jun. 2013.
FIGLIE, Neliana Buzi; MELO, Denise Getúlio; PAYÁ, Roberta. Dinâmicas de grupo
aplicadas no tratamento da dependência química: manual teórico e prático. São Paulo:
Roca, 2007.
RIBEIRO, Marcelo; YAMAGUCHI, Shirley; DUAILIBI, Lígia Bonacim. Avaliação dos
fatores de proteção e de risco. In: RIBEIRO, Marcelo; LARANJEIRA, Roberto (Orgs.). O
tratamento do usuário de crack. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em
saúde. 12 ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
OLIVEIRA, Margareth da Silva et al. (2003). Estudo dos estágios motivacionais em sujeitos
adultos dependentes de álcool. Psicologia: Reflexão e Crítica, v.16, n. 02, p.265-270, Sáo
Paulo, 2003.
PRATTA, Elisângela Maria Machado; SANTOS, Manoel Antônio. O Processo Saúde-Doença
e a Dependência Química: Interfaces e Evolução. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 25, n. 2,
pp. 203-211, abr/jun. 2009.
14
SZUPSZYNSKI, Karen Priscila Del Rio; OLIVEIRA, Margareth da Silva. Adaptação
brasileira da University of Rhode Island Change Assessment (URICA) para usuários de
substâncias ilícitas. Psico-USF, v. 13, n. 1, p. 31-39, jan./jun. 2008.
WAGNER, Márcia Fortes; OLIVEIRA, Margareth da Silva. Habilidades sociais e abuso de
drogas em adolescentes. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, p. 101-116, 2007.
YIN, Robert. Estudo de caso: planejamento e métodos. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010.
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