A adolescência como trabalho psíquico Luís Fernando Lofrano de Oliveira Dentre as diversas maneiras possíveis de definirmos a especificidade do que se chama de adolescência, há uma que se destaca na medida em que faz com que esta se torne uma noção cuja operacionalidade no campo de trabalho em psicanálise tem-se mostrado bastante efetiva. Trata-se da proposição mantida alguns autores deste campo, como J.-J. Rassial, que desvincula a definição da noção de adolescência de qualquer delimitação do período de idade correspondente a ela. Dispensando-se portanto a cronologia como critério de definição desta noção, ela passa a referir-se a um trabalho psíquico específico que pode ocorrer tanto aos 10 anos de idade como aos 20 ou aos 40, por exemplo. A adolescência torna-se assim um conceito próprio ao trabalho no campo da psicanálise. Do mesmo modo que a psicanálise apropriou-se da noção de infância, para efeitos do trabalho a ser realizado sob a sua competência, ela o faz também com a de adolescência. De certa maneira, a menção à infância, em psicanálise, não faz referência a um período de idade cronologicamente delimitado, mas a um certo posicionamento subjetivo. Ou seja, trata-se de uma tomada de posição subjetiva que, mesmo sendo por vezes mais aceitável socialmente quando ocorre numa faixa etária predeterminada em cada cultura, pode ter lugar em idades as mais diversas. Não nos deteremos aqui sobre os detalhes do referencial ao qual a tomada de posição infantil faz apelo, mas lembraremos que esta posição corresponde a um certo posicionamento do sujeito frente ao pai, determinante do seu discurso e independente da idade que ele tenha. Importanos antes considerar que a adolescência se torna, no campo de teorização da psicanálise, uma noção tão efetiva e operacional como a de infância na medida em que é entendida como uma tomada de posição subjetiva. A posição subjetiva adolescente é diferente da infantil. Não se tratam de posicionamentos que se sucedem numa espécie de evolução progressiva, mas sobretudo de tomadas de posição que se excluem uma à outra e que podem, eventualmente, se alternar em momentos distintos do discurso do sujeito. A diferença entre estas posições corresponde, em especial, ao diferente endereço das formações psíquicas que são produzidas a partir de uma posição ou da outra. A eleição do endereço apropriado à produção das formações psíquicas situa aqueles que se tornam os interlocutores privilegiados do sujeito. Estes tornam-se o suporte do qual o sujeito necessita para arriscar uma tomada da palavra. Na infância, o endereço das produções subjetivas é situado nos pais ou seus substitutos. Na adolescência, na medida em que o sujeito é convocado pelo social a proceder a sua afirmação própria desde uma posição sexuada, os pais deixam de constituir-se como endereço privilegiado das suas formações psíquicas. De maneira geral, não cabe aos seus pais ou aos integrantes da sua família o reconhecimento da sexualidade do sujeito, uma vez que, por definição, pais e familiares são aqueles em cuja relação fica excluída toda convivência sexual. Portanto, para proceder à afirmação de um posicionamento sexuado, o adolescente precisa contar com um reconhecimento que não seja o dos seus familiares. Este reconhecimento será então procurado então junto aos seus semelhantes, e em especial aos do sexo oposto. Estes constituirão o endereço privilegiado das formações psíquicas do adolescente. Tal mudança de endereço caracterizará a chamada passagem adolescente, em que o sujeito deixa a posição infantil e os laços familiares para voltar-se, em outra posição, aos laços pelos quais ele procurará inserir no social a sua atividade pulsional. Nesse sentido, a adolescência inicia a partir do encerramento do período denominado por Freud de latência. De certa maneira, este período constitui-se como um tempo para compreender, em que a criança se apropria dos traços culturais com os quais ela contará quando da sua inserção no social. O início da adolescência será marcado pela necessidade de uma afirmação própria do sujeito, pela qual ele responderá ao apelo a deixar a latência e a inserir-se, desde uma posição sexuada, nos laços sociais. Independentemente do fato que os traços da diferença sexual estejam na forma do seu corpo, este se tornará sede da pulsão a partir de uma disposição subjetiva própria ao adolescente. Essa disposição é a de encontrar, no seu semelhante, um olhar que o convoque a tomar uma posição sexuada. Mesmo que ele atribua a esse olhar uma tentativa de sedução, frente à qual lhe restaria somente reforçar a sua posição passiva e infantil, esse olhar desencadeará os processos da adolescência ao promover excitação corporal. A pulsão, portanto, colocada em movimento desde o olhar encontrado no semelhante, será um fator de apressamento para o sujeito; face à excitação corporal, ele será convocado a representar a pulsão. Assim, o fator desencadeador da adolescência não está na forma do corpo, mas disposição do sujeito a encontrar-se com um olhar capaz de apressar a determinação da sua atividade pulsional. Em outros termos, essa espécie de tempo para compreender próprio da latência, durante o qual o sujeito se permite postergar a tomada de posição sexuada, chega ao seu final com o início da adolescência. O que pressiona o sujeito no sentido do encerramento do tempo da latência é a pulsão situada, a partir de uma disposição própria, no corpo do adolescente. Este passa então, como se diz, a ganhar corpo, e o trabalho psíquico específico do momento subjetivo que assim se inaugura será o de um afazer próprio frente à pulsão. Este trabalho psíquico é decorrente da necessidade, para o sujeito, de fazer alguma coisa com a pulsão. Ele o faz através do processo de representação, pelo qual ele determina a fonte, o alvo, o impulso e o objeto da pulsão. Essa determinação da atividade pulsional corresponderá a uma tomada de posição sexuada por parte do sujeito. Esta tomada de posição é, antes de mais nada, de ordem discursiva. Ou seja, a partir de certo um posicionamento na tomada da palavra, seja como homem ou como mulher, o adolescente procederá a sua afirmação subjetiva. Através desta afirmação própria, ele se dedicará a inserir sua atividade pulsional nos laços sociais. A afirmação subjetiva é característica do adolescente. Ela tem lugar a partir da proposição de suas formações psíquicas, produzidas desde uma posição sexuada e endereçadas aos seus semelhantes, pelas quais ele trata de inserir seu afazer psíquico no social. Este afazer psíquico é principalmente o de representação da pulsão. A representação da pulsão é operada por meio dos processos psíquicos de recalcamento ou de forclusão. Estes processos são aqueles pelos quais o sujeito se apropria de certas unidades de representação, cujo encadeamento resultará na produção de suas formações psíquicas. Essas formações, como é o caso da dos seus sintomas, são propostas por ele no discurso pelo qual ele se endereça aos outros. Em outras palavras, essas formações são proposições de representação da pulsão avançadas pelo sujeito no seu discurso, com base na certeza, antecipada, de que elas são passíveis de encontrar um endereço no social. Está em jogo, portanto, no encontro deste endereço, o reconhecimento de uma afirmação subjetiva. Poderíamos dizer que esse trabalho psíquico, muito brevemente descrito acima, é próprio do que se chama, em psicanálise, de adolescência. Sobretudo na medida em que as formações sintomáticas do dito adolescente resultam de um afazer pulsional específico do sujeito. Pelo menos em parte, a especificidade deste afazer está na necessidade de verificação das suas condições subjetivas de enunciação e de afirmação próprias, ou seja, de verificação da viabilidade de inserção das suas proposições de representação no social. Uma vez que consideremos a adolescência como o trabalho psíquico a ser realizado desde uma posição subjetiva específica, não diríamos que ela chega a um final. Da mesma maneira que a infância, a adolescência precisaria ser entendida, conforme propomos, como uma tomada de posição relativamente aos referencias segundo os quais se organiza o discurso do sujeito. Assim como a infância, a adolescência seria um conceito pelo qual se define uma posição discursiva. Nesse sentido, não falaríamos em um final da adolescência, como não poderíamos falar de um final da infância, pois se tratam de posicionamentos subjetivos que podem ser recorrentes nos momentos mais distintos da vida das pessoas. Diríamos apenas que o abandono de uma posição adolescente teria lugar na medida em que as condições subjetivas se alterassem, ou seja, que não fossem mais aquelas em que se fez necessária a sua adoção. A alteração destas condições nos parece ligada ao fato do sujeito encontrar, na sua língua e na sua cultura, os limites da transmissão entre gerações pela qual ele é responsável.