A INTERFERÊNCIA DA ILUSTRAÇÃO NO LIVRO DE LITERATURA
INFANTIL
Débora das Graças Pedroso Pinto (UNICENTRO – Irati)1
RESUMO
No presente trabalho propomos analisar três livros de literatura infantil, enfatizando a
relevância da ilustração dentro do texto, ou seja, a forma com o conteúdo dialoga com a
imagem, e o que ambos transmitem ao leitor. Lembrando de que todo livro precisa de
conteúdo, logo, o sentido do texto é o mais importante, diante disso observamos a
interferência da ilustração na significação de cada obra a ser citada, sendo uma obra em
que a imagem possui mais significado que o texto, outra em que a significação encontra-se
em grau de igualdade, e, por conseguinte uma em que a ilustração diz menos do que o
texto transmite. Para isso nos respaldamos em textos de Ricardo Azevedo (1998), Maria
Zaira Turchi (2002) e outros.
Palavras-chave: Literatura Infanto-Juvenil, ilustração, sentido.
INTRODUÇÃO: Como sabemos praticamente todos os livros de literatura infantil são
ilustrados, mas até que ponto a ilustração influencia no sentido do texto? A ilustração
muitas vezes é a que designa o significado da história, até porque existem livros com
apenas ilustrações e transmitem uma história, sem expressar ao menos uma palavra.
É importante lembrar que nem todas as ilustrações auxiliam no texto, algumas delas até
“desmontam” o sentido do texto, ou simplesmente não interferem em nada, estão apenas
como instrumento decorativo.
No período da modernidade é natural que os livros evoluam cada vez mais, isto é, com
muito mais recursos e aprimoramento que antigamente, embora estejamos em meio a tanta
tecnologia, o livro é insubstituível, sempre terá seu espaço e seu valor perante a sociedade.
1
Acadêmica do 4º ano do curso de Letras/ Português do campus de Irati.
Nas livrarias encontramos um vasto material, desde obras simples e clássicas até as mais
sofisticadas em estilo gráfico, que encantam tanto crianças quanto adultos.
Quando os pais vão a uma livraria, logo de cara os livros mais destacados são aqueles que
possuem algo diferente, como um revestimento em pelúcia, uma música, uma capa com
lantejoulas, ou fitas brilhantes. Geralmente, os pais levam para casa aquele que mais chama
a atenção pelo visual e nem se importam e verificar se o conteúdo é bom. Muitas vezes,
deixam de lado uma excelente obra, talvez por não ser tão “requintada” quanto a outra.
Os Livros
Os livros de histórias infantis, até um tempo atrás, era algo de difícil acesso, poucas
crianças conheciam um livro de contos de fadas, as belas histórias escritas, que há tanto
tempo poderiam ser conhecidas, só agora ganham espaço, visto que, os livros eram muitos
caros, e, “ainda são”, afinal o mercado utilizada recurso que deixam o livro com um visual
extremante sedutor, no entanto isso acaba encarecendo o produto.
Em meio tantas publicações, fascinantes em representação gráfica, é preciso
considerar quais obras possuem a associação de texto, ilustração e representação gráfica,
ou seja, cada um desses itens tem grande relevância, para a formação de sentido, por isso
devem ser devidamente analisados. Com diz Fanny Abramovich
Existem livros em que algo do que foi desenhado se move pela página, e
outros em que há partes recortadas, permitindo que se formem figuras
novas e divertidas ou cenários diversificados (patas de gato, cabeça de
avestruz e corpo de elefante e por ai vai, vai...), para o encantamento e
fascinação completa da criança. (p.26)
Abre-se um livro, em apenas uma página, a imaginação da criança se
desenvolve, afinal durante a leitura de um conto de fadas, a criança vira a página e
estrutura-se um castelo, com toda a perfeição, e assim em uma fração de segundo a criança
se transporta para o mundo imaginário, se vendo dentro da história contada. Muitos dos
recursos utilizados, na ilustração e imagem gráfica do livro, abrem horizontes para a
imaginação da criança, que muitas vezes vai além do que a história conta.
Um livro é o passaporte para um mundo mágico, em que a criança conhece novos
lugares. Em uma história “o mundo pode ser revisto, os objetos transformados, as pessoas
modificadas pela página que está ao lado” (ABRAMOVICH, p. 28). Enfim, um livro não é
algo que possa passar despercebido pela vida da criança, no entanto o encantamento da
criança só se a história for bem contada, por isso o livro de literatura infantil deve ser bem
aproveitado, por meio de uma leitura prazerosa em que se desenvolva a imaginação do lei.
As ilustrações
A medida que a criança cresce seu pensamento também evolui, deste modo as
ilustrações também devem evoluir, abrindo novos horizontes de compreensão para o leitor.
Como explana Turchi (2002) “o aparecimento do que hoje se denomina literatura
infantil está ligado a um período histórico: a consolidação da burguesia como classe social,
na Europa dos séculos XVII e XVIII, valorizando as
A ilustração interfere no texto, no entanto isso depende de como o ilustrador
trabalha com a imagem. A imagem tanto pode interferir de maneira positiva, como de
maneira negativa, dependendo do grau de atribuição de sentido dado ao texto.
A impressão visual de uma obra é importante sim, mas se associada ao conteúdo,
transmitindo um significado, um sentido, despertando a imaginação da criança, não apenas
como situações aleatórias e com ornamentos bonitos. Para ser uma obra ser completa é
necessário a junção de fatores, ou seja, imagem, escrita e sentido. A impressão gráfica deve
ser vista como auxilio na compreensão de um texto, não como simples objeto comercial,
pois
A ênfase na ilustração como categoria estética essencial na literatura
infantil, por exemplo, pode se transformar em um chamariz enganoso,
que pretende iludir o leitor, encobrindo um texto literário ruim, sem
inventividade, que não apresenta um desafio a inteligência, ou apelo a
sensibilidade do leitor. (TURCH, 2002, p. 28)
Por isso a importância da formação de leitores críticos, que saibam distinguir um texto
bom de um ruim, camuflado por um projeto gráfico persuasivo.
O ato de ilustrar é recontar a história por meio de imagens, assim o “diálogo entre
a imagem visual e a palavra é o modo como o estético se manifesta, na atualidade, na
literatura infantil” (TUCHI, 2002, p.27), a literatura para criança necessita de algo que
chame a atenção para a leitura, sem deixar de lado o conteúdo da obra. Um livro bem
ilustrado é um passaporte para um universo mágico, em que a criança é capaz de viajar
para um mundo novo descobrindo lugares e pessoas diferentes, recriando por meio do
imaginário, situações já vividas por outras pessoas, em outras épocas e em outros lugares.
Uma ilustração bem feita não é aquela que se diz mais “bela”, mas sim aquela que
inova e desperta o imaginário, como diz Ricardo Azevedo (1998)
Um desenho simples, feito com poucos traços, sem maiores pretensões
técnicas pode ser, sempre a meu ver, infinitamente melhor ilustração do
que um desenho rebuscado, construído a partir de uma técnica
requintadíssima, mas que em relação ao texto só consegue ser redundante
(p. 107)
Deste modo, percebemos que não uma técnica especifica que demonstra a qualidade de
uma ilustração, mas sim sua interação com o texto escrito, e aquilo “a mais” que ela
transmite, ou seja, o que vai além da escrita.
Ilustração: A interferência de sentido no texto.
Como já foi dito anteriormente, a ilustração pode influenciar a leitura de um texto,
podendo apresentar um sentido maior, menor ou igual ao texto escrito. Deste modo
passamos a análise das obras.
A primeira obra a ser analisa é do autor David McPhail, nascido na Nova
Zelândia, o título original da obra é Mole Music, e na tradução para o português fica
intitulado como Toupi toca, e texto traduzido por Cássio de Arantes Leite, permanecendo a
ilustração original de McPhail.
A ilustração contida no livro funde-se com as palavras para transmitir o sentido do
texto, sem elas o texto não seria o mesmo, é necessário atenção em detalhes, que auxiliam
na compreensão, como por exemplo, o início da história não se dá como palavras mas sim
com imagens, como podemos
notar na seguinte passagem, na
abertura do livro, onde aparece um
lobo perseguindo um esquilo, e
nisso o esquilo deixa cair um noz,
que com
o passar do tempo se
transformara em uma linda árvore,
a qual é fundamental para a
compreensão da história.
A principal simbologia da árvore é a vida,
Símbolo da vida, em perpétua evolução e em ascensão para o céu, ela
evoca todo o simbolismo da verticalidade por seu movimento dinâmico
para cima. Árvore põe igualmente em comunicação os três níveis do
cosmo: o subterrâneo, através de suas raízes sempre a explorar as
profundezas onde se enterram; a superfície da terra, através de seu tronco
e de seus galhos inferiores; as alturas, por meio de seus galhos superiores
e de seu cimo, atraídos pela luz do céu.2
Assim podemos perceber que Toupi vive na escuridão, sua vida é cavar túneis,
sempre está em nível subterrâneo, seu
sentido de vida é
monótono,
e
através das raízes
2
Disponível em http://www.salves.com.br/dicsimb/dicsimbolon/árvore.htm
da árvore é que sua vida começa a evoluir, sem mesmo ele saber, pois através da raiz da
árvore sua música, é conhecida pelo mundo, como podemos visualizar na seguinte
ilustração, onde Toupi toca e as pessoas ouvem uma doce melodia, que a raiz da arvore
abstrai do subterrâneo.
É interessante a forma como o ilustrador expõe a musica,
colocando as notas musicais nascendo da raiz e subindo até os galhos e se difundindo no
ambiente, encantando a todos ao seu redor.
Outro ponto a ser observado é forma como é representa a raiz que chega à toca de
Toupi, a raiz é mostrada em forma de
coração
invertida, e ao passo que a toupeira toca o
violino a forma da
raiz muda como podemos ver na ilustração.
Enquanto Toupi não
sabia tocar o violino não se formas as notas
musicais, mas sim
um raio que desestrutura a raiz, mas
medida
personagem começa a tocar belamente, a
forma retorna ao seu
estágio original. Lembrando que o coração
possui
simbologia, em que representa “o lugar do
ser físico e espiritual
e representa a "sabedoria central do
sentimento"
oposição à "sabedoria-cabeça da razão". É
compaixão
compreensão, dádiva e complexo. É o
símbolo para o amor,
conhecido como o assento das emoções e
sinônimo
afeições.”
3
de
forma
que
o
uma
em
e
das
E para o personagem a música representa sua fonte de vida, e a música é
difundida como forma de sentimento do personagem, que empenha todo seu desejo em
aperfeiçoar cada vez mais a melodia que sai de seu violino.
Podemos notar também que as notas musicais são expostas de maneira que forma
um ponto de interrogação, afinal todos ouvem a melodia, mas quem estaria tocando? A raiz
também, de certa forma, lembra um microfone, utilizado em gravações de discos, em que o
artista interpreta sua musica, que no caso de Toupi é pela raiz da árvore, que sua melodia
se propaga.
O personagem vive solitário, em sua casa no subsolo, e imagina como seria tocar
para um grande público, como o autor expressa em seu texto “Ele se imaginava tocando
para um montão de gente” (McPhail, 2004, p. 22), “Imaginava que tocava para rainhas e
presidentes” (McPhail, 2004, p. 23), enfim, se não fosse por meio o das ilustrações o leitor
não saberia que a música do personagem era, de fato, ouvida por essas pessoas, a escrita
3
Disponível em http://www.salves.com.br/dicsimb/dicsimbolon/coracao.htm
apenas sugere, e a ilustração confirma o pensamento, pois Toupi toca em um plano, e em
outro plano as pessoas ouvem a música, como percebemos nas ilustrações citadas
anteriormente.
Enfim, como diz Abramovich (1994) “o uso inteligente da página, vai conduzindo
a acontecência pela perspectiva do olhar... É o movimento, a andança, que faz o roteiro ser
visto, do percebido, do sentido, do que quer ser vivido, mexendo com a inteligência e a
agudeza do leitor/olhador...” (p.30), a ilustração, no caso da obra Toupi Canta, conduz o
leitor a um determinado sentido, visto que nas frases citadas acima o personagem apenas
“imagina”, mas a ilustração mostra que o fato não é apenas imaginação do personagem, e
que as pessoas estão ouvindo a música de forma concreta.
Sob outro ponto de vista percebemos a situação da televisão no início da história
até chegar ao final, nota-se que, de certa maneira, a televisão fecha seu ciclo de vida, pois
até a chegada do violino a Televisão tinha muita importância, ou melhor, era fundamental
para Toupi, sua vida era em função da TV, não tinha objetivos, sua rotina diária era
trabalho - TV - dormir, até que com a chegada da música o personagem começou a pensar
em novas coisas, a melodia abriu horizontes em sua vida. A partir daí a TV já não tem mais
importância.
O personagem passou a imaginar-se em diversas situações, e como a musica
poderia mudar a humanidade, como por exemplo, “Imaginava que sua música era capaz de
atingir as pessoas e dissipar a ira de seus corações” (McPhail, 2004, p.25), a música mudou
completamente a vida do personagem, no desfecho do livro “Toupi tocou mais uma
canção. Depois guardou o violino e foi dormir. E que sonhos sonho, cheios de paz.” (p.32).
Enfatizando, agora, o discurso literário, podemos observar que se trata de um
discurso utilitário, pois Toupi fala declaradamente “quem sabe sua música até mudasse o
mundo” (p. 26), levando a criança a posicionamento ao bem que a música faz a
humanidade, assim como diz Perrotti (1986)
Evita-se que se tome o “discurso estético” como discurso “puro” onde a
instância ideológica e a busca de adesão não estariam presentes. Ocorre
que, como se tentará ver, a seguir, essas instancias são acidentais no
discurso estético, enquanto no discurso utilitário são sua própria essência.
(p. 26)
No caso da obra Toupi fica evidente que o autor chama atenção do leitor, de
forma explicita, para acontecimentos relacionados ao comportamento humano, e atitudes
relacionadas ao bem comum, então a obra de McPhail, tem uma conotação ideológica
relacionada ao bem universal, mostrando através da musica, a
idealização de um mundo melhor. Relatando as idéias de forma
objetiva, sem ressalvas, ou desvios de pensamento.
Toupi é um exemplo de vida, a partir da música via um ideal
em sua, coisa que antes não tinha como observamos no início do
livro, “Á noite, jantava diante da TV e depois ia pra cama” (p. 6),
e em seguida aparece a frase “Toupi gostava dessa vida, mas
ultimamente começava a sentir um vazio” (p.7), e assim percebemos a evolução na vida do
personagem.
A TV possui um papel significativo dentro da obra, no início ela é o foco
principal, Toupi nunca a deixava de lado, quando não
estava cavando túneis estava vendo TV. Entretanto, a
televisão começa a perder espaço como podemos notar na
seguinte ilustração, aquele “bem” que era tão precioso,
agora não passa de um elemento figurativo, que agora se
encontra até com teias de aranha, representando que não
já não é usada há muito tempo, e que em seu lugar fica
agora uma partitura musical.
E, à medida que o tempo passa
a TV perde mais o seu valor, visto
que da não utilização passa a ser
descartada, antes mesmo do final
da história a TV encontra se
jogada em um dos túneis, sendo
exposta como um instrumento
velho e sem valor. Na última
ilustração, em que a TV aparece,
sua presença é pouco notada, pois esta jogada ao longe da cena.
No livro, ainda, podemos perceber a presença de alguns estereótipos, como
quando são representados os camponeses e camponesas todos estão devidamente trajados
de acordo com o padrão estabelecido pela sociedade, assim como se apresentam os reis,
súditos, nobres e cavaleiros . O rei sempre com sua coroa na cabeça, sentado em seu trono.
Assim também ocorre com os demais personagens, estereotipados pela sociedade.
Na história também apresenta um função ideológica, como explana Marilena
Chauí
a formação das idéias a partir da observação das relações entre o corpo
humano e o meio ambiente, tomando como ponto de partida as sensações;
por outro lado, ideologia passa a significar também o conjunto de idéias
de uma época, tanto como “opinião geral” quanto no sentido de
elaboração teórica dos pensadores” (p. 11)
Diante disso percebemos um posicionamento ideológico diante da situação que envolve a
guerra, visto que a guerra possui um sentido de violência e agressão, então, o personagem,
por meio da música, procura mostrar que o mundo precisa de paz e união, para o melhor
desenvolvimento da sociedade. E a humanidade precisa de uma conotação de igualdade e
reverência, para com o próximo, para que o mundo possa ser melhor, por isso a conotação
ideológica, nessa parte da obra.
Enfim, nesta obra o sentido da ilustração apresenta-se em um nível superior ao do
texto, abrindo possibilidades de interpretação, a partir das imagens, com diz Truchi (2002)
“a ilustração sai de uma posição secundária, menor, e ganha lugar em destaque” (p.27) se
tornando tão importante quanto o texto escrito.
Agora no que se refere à ilustração, com sentido em grau de igualdade com o
texto, é bem mais comum, muitos livros tratam a ilustração como meio decorativo,
somente para embelezar o texto, e facilitando a leitura da criança, mas a imagem, em si,
não interfere no sentido. O que o texto escrito diz, a imagem reafirma, ou seja, o texto é
compreensível sem a imagem, a ilustração não traz além do que o texto escrito transmite
diferente do que acontece com a obra citada anteriormente.
Na obra O Maior Urso do Mundo, do autor Adam Relf, a ilustração apresenta-se
no mesmo nível de sentido da história escrita. Este livro conta a história de um urso que
queria conhecer o maior urso do mundo, e olhando para sua sombra achou que esta fosse o
maior urso do mundo, no entanto seu pai disse que existia um urso muito maior. E assim à
medida que Toby passava por diversos ursos, perguntava para seu pai se aquele era o maior
urso, e seu pai dizia que havia um ainda maior, até que chega a noite e Toby fica
decepcionado por não conhecer o maior uso do mundo, nisso seu pai o chama dizendo que
o maior uso do mundo não pode ser visto durante o dia, e mostra para Toby uma
constelação e diz: Está é a Ursa Maior e Toby,
animado exclama essa é a maior ursa do mundo.
Neste livro percebemos o diferencial não ilustração, mas sim no projeto gráfico do
livro, para a confecção do livro foi utilizado um papel bonito e cores vibrantes que dão um
encanto a mais, livro em capa dura, e no final do livro aparece o desenho de um urso, ou
melhor, de uma ursa, com luzinhas que acendem quando a página é virada. Isso chama
muito atenção da criança, na hora da leitura.
Nos demais aspectos o livro apenas retrata a história escrita como podemos ver na
passagem
No parque, Toby viu um enorme urso feito de pedra. Era uma estátua e de
sua boca saía água.
- Este é o maior urso do mundo? – Toby perguntou.
- Não! O maior urso de todos é muito maior.
- Vamos vê-lo em breve? Perguntou ele.
- Logo, logo – desse o Papai – Vamos tomar um sorvete agora. (RELF,
2005, p. 12)
Isso é totalmente refletido na ilustração, Toby vendo uma enorme estátua de pedra no
parque, nada mais, além disso. Nesta obra o
texto escrito instiga a imaginação da criança,
levando o leitor a imaginar qual seria o maior
urso do mundo?
Então
na
segunda
obra
citada
percebemos que o texto está em grau de igualdade com a ilustração, o ilustrador direcionou
a leitura da obra pelo viés da escrita, dizendo o que o texto impôs.
Agora com relação ao discurso, notamos um discurso voltado para a forma
estética, visto que o direcionamento do livro está no conhecimento de uma constelação, a
Ursa Maior, a história não possui uma função ideológica especifica, apenas mostra um
dado de conhecimento geográfico, não há uma ação persuasiva ao leitor, com relação a
valores específicos da sociedade, afinal o “discurso utilitário procurou sempre oferecer as
crianças e jovens atitudes morais e padrões de conduta, a serem seguidos, ordenando os
elementos narrativos em relação de tal finalidade exterior” (PERROTTI, 1986, p. 117).
Então, no caso da obra O Maior Urso do mundo, não é percebido padrões de conduta, com
isso o livro caracteriza pelo discurso estético.
Na obra de Adam Relf, ainda, percebemos que o direcionamento que o autor deu
ao livro leva o leitor ao conhecimento da constelação, a Ursa Maior, e para isso o escritor
utilizou os ursos, de certa forma, para dar ênfase ao sentido da palavra “urso”, para que a
criança focalize a constelação associando essa espécie.
Vale apena lembrar, também, da metáfora que o autor utilizou ao caracterizar o
titulo do livro O Maior Urso do Mundo, visto que o maior urso não se trata de algo
concreto, mas sim de uma representação imagética, que leva a criança a idealizar a imagem
de um urso nas estrelas. O livro também instiga a imaginação da criança, fazendo com que
o leitor queira saber o porquê do nome Ursa Maior, abrindo novas perspectivas, por meio
de novas concepções, atribuídas por fora do texto, no entanto isso por meio do próprio
texto, não pela ilustração em si.
Agora à medida que o enredo cresce diminuem-se as ilustrações, visto que a
complexidade do discurso aumenta, e também a obra passa a ser mais detalhada, e torna-se
mais difícil para se fazer a ilustração. Então, o texto fica com o papel de oferecer o
significado por si só, sem a necessidade de ilustrações. Afinal “quanto mais cresce a
complexidade do discurso, mais se torna desnecessária a ilustração” (TURCH, 2002, p.
26), citando a obra Laurinha, o machão, de André Carvalho, onde conta-se a história da
chegada, na casa de uma menina, de uma gatinha, que ao longo da história, se percebe que
não se trata de uma gata, mas sim de um gato. logo no inicio do livro percebemos que o
texto possui mais sentido e possibilidades de desenvolvimento imaginário da criança, com
na passagem
Quando ela chegou, numa caixa de sapato toda furadinha, era um doce de
tão linda e gostosinha de pegar. Preta, preta, pretinha. O pelo macio, ela
parecia muito grande, para uma gata que tinha nascido outro dia.
- É mestiça de angorá. Por isso é peluda assim – disse o tio, que me trazia
o presente. – Você tem de dar leite na boca, porque está sendo
desmamada muito cedo. Precisa ter o maior cuidado se não ela sente
muito. (CARVALHO, 1996, p. 7)
Nessa passagem do texto a escrita possui uma abrangência maior que a ilustração,
afinal a ilustração apenas mostra a imagem de um felino, na
cor preta, nada mais que isso, no entanto a escrita pode
desperta o imaginário da criança, ou seja, o leitor pode
idealizar inúmera cenas, nesta única passagem, como por
exemplo, o nascimento da gatinha, o tio chegando com o
pacote, a menina dando mamadeira para a gatinha.
Com relação ao discurso, podemos dizer que se trata de um discurso utilitário,
pois a obra conta história de uma menina que ama seu gatinho, no entanto ele acaba
fugindo, em uma passagem do livro o pai diz a filha “– Olha filha, não sofra por esse gato.
Ele tem sangue de vira-lata, de boemia. Não nasceu pra ficar preso em casa, ligado a uma
família, sem liberdade” (p.23), conduzindo a uma leitura a respeito da liberdade, e com
isso o leitor pode identificar a mensagem de transmissão de valores de conduta, isto é, cada
indivíduo necessita de sua liberdade, e o autor utiliza o gatinho para exemplificar essa
ideia. Como afirma Perrotti (1986) as “feições nitidamente utilitárias, voltado para a
doutrinação do leitor” (p. 30), põem em foco a questão dos textos que possuem uma
conotação direcionada a valores sociais e moralistas, que procuram conduzir o leitor a uma
mensagem especifica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como notamos existem diversas formas de ilustração, algumas com grande carga
de sentido outras que podem até serem descartadas, mas o que importa é saber aproveitar
os materiais de boa qualidade, que possam ser trabalhados adequadamente, afinal existem
várias fontes, cabe ao professor incentivar o aluno, formando um leitor critico que saiba
diferenciar uma obra bem escrita e significativa, de outra que é apenas decorativa, utilizada
como instrumento comercial, não desmerecendo aquelas que possuem um visual bonito,
mas ainda apresentam um bom conteúdo.
O importante é a acepção de sentido, não importa se pela ilustração ou pelo texto
escrito, o importante é saber associar ambos, criando um universo mágico, em que se possa
desenvolver a imaginação do publico leitor, abrindo horizontes de interpretação e
significação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil: Gostosuras e Bobices. São Paulo: Spcione,
1994.
AZEVEDO, Ricardo. Texto e imagem: diálogos e imagens dentro do livro. IN:
D’ANGELO, Elizabeth. (org.) 30 anos de literatura para crianças e jovens: Algumas
leituras. Campinas: Mercado de Letras. 1998.
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Primeiros Passos. 1980 (Digitalização
2004).
CARVALHO, André. Laurinha, o machão. São Paulo: Armazém de idéias. 1996.
MCPHAIL, David. Tupi Toca. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Globo,
2004.
PERROTTI, Edemir. O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: Icone, 1986.
RELF, Adam. O Maior Urso do Mundo. Tradução de Carolina Caires Coelho. São Paulo:
Ciranda Cultural, 2005.
TURCHI, Maria Zaira; TIETZMAM. Literatura Infanto Juvenil. Leituras críticas.
Goiânia: Editora UEPG. 2002.
Disponível em http <://www.salves.com.br/dicsimb/dicsimbindex.htm> (último acesso
dia16 de maio de 10)
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