A INTERFERÊNCIA DA ILUSTRAÇÃO NO LIVRO DE LITERATURA INFANTIL Débora das Graças Pedroso Pinto (UNICENTRO – Irati)1 RESUMO No presente trabalho propomos analisar três livros de literatura infantil, enfatizando a relevância da ilustração dentro do texto, ou seja, a forma com o conteúdo dialoga com a imagem, e o que ambos transmitem ao leitor. Lembrando de que todo livro precisa de conteúdo, logo, o sentido do texto é o mais importante, diante disso observamos a interferência da ilustração na significação de cada obra a ser citada, sendo uma obra em que a imagem possui mais significado que o texto, outra em que a significação encontra-se em grau de igualdade, e, por conseguinte uma em que a ilustração diz menos do que o texto transmite. Para isso nos respaldamos em textos de Ricardo Azevedo (1998), Maria Zaira Turchi (2002) e outros. Palavras-chave: Literatura Infanto-Juvenil, ilustração, sentido. INTRODUÇÃO: Como sabemos praticamente todos os livros de literatura infantil são ilustrados, mas até que ponto a ilustração influencia no sentido do texto? A ilustração muitas vezes é a que designa o significado da história, até porque existem livros com apenas ilustrações e transmitem uma história, sem expressar ao menos uma palavra. É importante lembrar que nem todas as ilustrações auxiliam no texto, algumas delas até “desmontam” o sentido do texto, ou simplesmente não interferem em nada, estão apenas como instrumento decorativo. No período da modernidade é natural que os livros evoluam cada vez mais, isto é, com muito mais recursos e aprimoramento que antigamente, embora estejamos em meio a tanta tecnologia, o livro é insubstituível, sempre terá seu espaço e seu valor perante a sociedade. 1 Acadêmica do 4º ano do curso de Letras/ Português do campus de Irati. Nas livrarias encontramos um vasto material, desde obras simples e clássicas até as mais sofisticadas em estilo gráfico, que encantam tanto crianças quanto adultos. Quando os pais vão a uma livraria, logo de cara os livros mais destacados são aqueles que possuem algo diferente, como um revestimento em pelúcia, uma música, uma capa com lantejoulas, ou fitas brilhantes. Geralmente, os pais levam para casa aquele que mais chama a atenção pelo visual e nem se importam e verificar se o conteúdo é bom. Muitas vezes, deixam de lado uma excelente obra, talvez por não ser tão “requintada” quanto a outra. Os Livros Os livros de histórias infantis, até um tempo atrás, era algo de difícil acesso, poucas crianças conheciam um livro de contos de fadas, as belas histórias escritas, que há tanto tempo poderiam ser conhecidas, só agora ganham espaço, visto que, os livros eram muitos caros, e, “ainda são”, afinal o mercado utilizada recurso que deixam o livro com um visual extremante sedutor, no entanto isso acaba encarecendo o produto. Em meio tantas publicações, fascinantes em representação gráfica, é preciso considerar quais obras possuem a associação de texto, ilustração e representação gráfica, ou seja, cada um desses itens tem grande relevância, para a formação de sentido, por isso devem ser devidamente analisados. Com diz Fanny Abramovich Existem livros em que algo do que foi desenhado se move pela página, e outros em que há partes recortadas, permitindo que se formem figuras novas e divertidas ou cenários diversificados (patas de gato, cabeça de avestruz e corpo de elefante e por ai vai, vai...), para o encantamento e fascinação completa da criança. (p.26) Abre-se um livro, em apenas uma página, a imaginação da criança se desenvolve, afinal durante a leitura de um conto de fadas, a criança vira a página e estrutura-se um castelo, com toda a perfeição, e assim em uma fração de segundo a criança se transporta para o mundo imaginário, se vendo dentro da história contada. Muitos dos recursos utilizados, na ilustração e imagem gráfica do livro, abrem horizontes para a imaginação da criança, que muitas vezes vai além do que a história conta. Um livro é o passaporte para um mundo mágico, em que a criança conhece novos lugares. Em uma história “o mundo pode ser revisto, os objetos transformados, as pessoas modificadas pela página que está ao lado” (ABRAMOVICH, p. 28). Enfim, um livro não é algo que possa passar despercebido pela vida da criança, no entanto o encantamento da criança só se a história for bem contada, por isso o livro de literatura infantil deve ser bem aproveitado, por meio de uma leitura prazerosa em que se desenvolva a imaginação do lei. As ilustrações A medida que a criança cresce seu pensamento também evolui, deste modo as ilustrações também devem evoluir, abrindo novos horizontes de compreensão para o leitor. Como explana Turchi (2002) “o aparecimento do que hoje se denomina literatura infantil está ligado a um período histórico: a consolidação da burguesia como classe social, na Europa dos séculos XVII e XVIII, valorizando as A ilustração interfere no texto, no entanto isso depende de como o ilustrador trabalha com a imagem. A imagem tanto pode interferir de maneira positiva, como de maneira negativa, dependendo do grau de atribuição de sentido dado ao texto. A impressão visual de uma obra é importante sim, mas se associada ao conteúdo, transmitindo um significado, um sentido, despertando a imaginação da criança, não apenas como situações aleatórias e com ornamentos bonitos. Para ser uma obra ser completa é necessário a junção de fatores, ou seja, imagem, escrita e sentido. A impressão gráfica deve ser vista como auxilio na compreensão de um texto, não como simples objeto comercial, pois A ênfase na ilustração como categoria estética essencial na literatura infantil, por exemplo, pode se transformar em um chamariz enganoso, que pretende iludir o leitor, encobrindo um texto literário ruim, sem inventividade, que não apresenta um desafio a inteligência, ou apelo a sensibilidade do leitor. (TURCH, 2002, p. 28) Por isso a importância da formação de leitores críticos, que saibam distinguir um texto bom de um ruim, camuflado por um projeto gráfico persuasivo. O ato de ilustrar é recontar a história por meio de imagens, assim o “diálogo entre a imagem visual e a palavra é o modo como o estético se manifesta, na atualidade, na literatura infantil” (TUCHI, 2002, p.27), a literatura para criança necessita de algo que chame a atenção para a leitura, sem deixar de lado o conteúdo da obra. Um livro bem ilustrado é um passaporte para um universo mágico, em que a criança é capaz de viajar para um mundo novo descobrindo lugares e pessoas diferentes, recriando por meio do imaginário, situações já vividas por outras pessoas, em outras épocas e em outros lugares. Uma ilustração bem feita não é aquela que se diz mais “bela”, mas sim aquela que inova e desperta o imaginário, como diz Ricardo Azevedo (1998) Um desenho simples, feito com poucos traços, sem maiores pretensões técnicas pode ser, sempre a meu ver, infinitamente melhor ilustração do que um desenho rebuscado, construído a partir de uma técnica requintadíssima, mas que em relação ao texto só consegue ser redundante (p. 107) Deste modo, percebemos que não uma técnica especifica que demonstra a qualidade de uma ilustração, mas sim sua interação com o texto escrito, e aquilo “a mais” que ela transmite, ou seja, o que vai além da escrita. Ilustração: A interferência de sentido no texto. Como já foi dito anteriormente, a ilustração pode influenciar a leitura de um texto, podendo apresentar um sentido maior, menor ou igual ao texto escrito. Deste modo passamos a análise das obras. A primeira obra a ser analisa é do autor David McPhail, nascido na Nova Zelândia, o título original da obra é Mole Music, e na tradução para o português fica intitulado como Toupi toca, e texto traduzido por Cássio de Arantes Leite, permanecendo a ilustração original de McPhail. A ilustração contida no livro funde-se com as palavras para transmitir o sentido do texto, sem elas o texto não seria o mesmo, é necessário atenção em detalhes, que auxiliam na compreensão, como por exemplo, o início da história não se dá como palavras mas sim com imagens, como podemos notar na seguinte passagem, na abertura do livro, onde aparece um lobo perseguindo um esquilo, e nisso o esquilo deixa cair um noz, que com o passar do tempo se transformara em uma linda árvore, a qual é fundamental para a compreensão da história. A principal simbologia da árvore é a vida, Símbolo da vida, em perpétua evolução e em ascensão para o céu, ela evoca todo o simbolismo da verticalidade por seu movimento dinâmico para cima. Árvore põe igualmente em comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo, através de suas raízes sempre a explorar as profundezas onde se enterram; a superfície da terra, através de seu tronco e de seus galhos inferiores; as alturas, por meio de seus galhos superiores e de seu cimo, atraídos pela luz do céu.2 Assim podemos perceber que Toupi vive na escuridão, sua vida é cavar túneis, sempre está em nível subterrâneo, seu sentido de vida é monótono, e através das raízes 2 Disponível em http://www.salves.com.br/dicsimb/dicsimbolon/árvore.htm da árvore é que sua vida começa a evoluir, sem mesmo ele saber, pois através da raiz da árvore sua música, é conhecida pelo mundo, como podemos visualizar na seguinte ilustração, onde Toupi toca e as pessoas ouvem uma doce melodia, que a raiz da arvore abstrai do subterrâneo. É interessante a forma como o ilustrador expõe a musica, colocando as notas musicais nascendo da raiz e subindo até os galhos e se difundindo no ambiente, encantando a todos ao seu redor. Outro ponto a ser observado é forma como é representa a raiz que chega à toca de Toupi, a raiz é mostrada em forma de coração invertida, e ao passo que a toupeira toca o violino a forma da raiz muda como podemos ver na ilustração. Enquanto Toupi não sabia tocar o violino não se formas as notas musicais, mas sim um raio que desestrutura a raiz, mas medida personagem começa a tocar belamente, a forma retorna ao seu estágio original. Lembrando que o coração possui simbologia, em que representa “o lugar do ser físico e espiritual e representa a "sabedoria central do sentimento" oposição à "sabedoria-cabeça da razão". É compaixão compreensão, dádiva e complexo. É o símbolo para o amor, conhecido como o assento das emoções e sinônimo afeições.” 3 de forma que o uma em e das E para o personagem a música representa sua fonte de vida, e a música é difundida como forma de sentimento do personagem, que empenha todo seu desejo em aperfeiçoar cada vez mais a melodia que sai de seu violino. Podemos notar também que as notas musicais são expostas de maneira que forma um ponto de interrogação, afinal todos ouvem a melodia, mas quem estaria tocando? A raiz também, de certa forma, lembra um microfone, utilizado em gravações de discos, em que o artista interpreta sua musica, que no caso de Toupi é pela raiz da árvore, que sua melodia se propaga. O personagem vive solitário, em sua casa no subsolo, e imagina como seria tocar para um grande público, como o autor expressa em seu texto “Ele se imaginava tocando para um montão de gente” (McPhail, 2004, p. 22), “Imaginava que tocava para rainhas e presidentes” (McPhail, 2004, p. 23), enfim, se não fosse por meio o das ilustrações o leitor não saberia que a música do personagem era, de fato, ouvida por essas pessoas, a escrita 3 Disponível em http://www.salves.com.br/dicsimb/dicsimbolon/coracao.htm apenas sugere, e a ilustração confirma o pensamento, pois Toupi toca em um plano, e em outro plano as pessoas ouvem a música, como percebemos nas ilustrações citadas anteriormente. Enfim, como diz Abramovich (1994) “o uso inteligente da página, vai conduzindo a acontecência pela perspectiva do olhar... É o movimento, a andança, que faz o roteiro ser visto, do percebido, do sentido, do que quer ser vivido, mexendo com a inteligência e a agudeza do leitor/olhador...” (p.30), a ilustração, no caso da obra Toupi Canta, conduz o leitor a um determinado sentido, visto que nas frases citadas acima o personagem apenas “imagina”, mas a ilustração mostra que o fato não é apenas imaginação do personagem, e que as pessoas estão ouvindo a música de forma concreta. Sob outro ponto de vista percebemos a situação da televisão no início da história até chegar ao final, nota-se que, de certa maneira, a televisão fecha seu ciclo de vida, pois até a chegada do violino a Televisão tinha muita importância, ou melhor, era fundamental para Toupi, sua vida era em função da TV, não tinha objetivos, sua rotina diária era trabalho - TV - dormir, até que com a chegada da música o personagem começou a pensar em novas coisas, a melodia abriu horizontes em sua vida. A partir daí a TV já não tem mais importância. O personagem passou a imaginar-se em diversas situações, e como a musica poderia mudar a humanidade, como por exemplo, “Imaginava que sua música era capaz de atingir as pessoas e dissipar a ira de seus corações” (McPhail, 2004, p.25), a música mudou completamente a vida do personagem, no desfecho do livro “Toupi tocou mais uma canção. Depois guardou o violino e foi dormir. E que sonhos sonho, cheios de paz.” (p.32). Enfatizando, agora, o discurso literário, podemos observar que se trata de um discurso utilitário, pois Toupi fala declaradamente “quem sabe sua música até mudasse o mundo” (p. 26), levando a criança a posicionamento ao bem que a música faz a humanidade, assim como diz Perrotti (1986) Evita-se que se tome o “discurso estético” como discurso “puro” onde a instância ideológica e a busca de adesão não estariam presentes. Ocorre que, como se tentará ver, a seguir, essas instancias são acidentais no discurso estético, enquanto no discurso utilitário são sua própria essência. (p. 26) No caso da obra Toupi fica evidente que o autor chama atenção do leitor, de forma explicita, para acontecimentos relacionados ao comportamento humano, e atitudes relacionadas ao bem comum, então a obra de McPhail, tem uma conotação ideológica relacionada ao bem universal, mostrando através da musica, a idealização de um mundo melhor. Relatando as idéias de forma objetiva, sem ressalvas, ou desvios de pensamento. Toupi é um exemplo de vida, a partir da música via um ideal em sua, coisa que antes não tinha como observamos no início do livro, “Á noite, jantava diante da TV e depois ia pra cama” (p. 6), e em seguida aparece a frase “Toupi gostava dessa vida, mas ultimamente começava a sentir um vazio” (p.7), e assim percebemos a evolução na vida do personagem. A TV possui um papel significativo dentro da obra, no início ela é o foco principal, Toupi nunca a deixava de lado, quando não estava cavando túneis estava vendo TV. Entretanto, a televisão começa a perder espaço como podemos notar na seguinte ilustração, aquele “bem” que era tão precioso, agora não passa de um elemento figurativo, que agora se encontra até com teias de aranha, representando que não já não é usada há muito tempo, e que em seu lugar fica agora uma partitura musical. E, à medida que o tempo passa a TV perde mais o seu valor, visto que da não utilização passa a ser descartada, antes mesmo do final da história a TV encontra se jogada em um dos túneis, sendo exposta como um instrumento velho e sem valor. Na última ilustração, em que a TV aparece, sua presença é pouco notada, pois esta jogada ao longe da cena. No livro, ainda, podemos perceber a presença de alguns estereótipos, como quando são representados os camponeses e camponesas todos estão devidamente trajados de acordo com o padrão estabelecido pela sociedade, assim como se apresentam os reis, súditos, nobres e cavaleiros . O rei sempre com sua coroa na cabeça, sentado em seu trono. Assim também ocorre com os demais personagens, estereotipados pela sociedade. Na história também apresenta um função ideológica, como explana Marilena Chauí a formação das idéias a partir da observação das relações entre o corpo humano e o meio ambiente, tomando como ponto de partida as sensações; por outro lado, ideologia passa a significar também o conjunto de idéias de uma época, tanto como “opinião geral” quanto no sentido de elaboração teórica dos pensadores” (p. 11) Diante disso percebemos um posicionamento ideológico diante da situação que envolve a guerra, visto que a guerra possui um sentido de violência e agressão, então, o personagem, por meio da música, procura mostrar que o mundo precisa de paz e união, para o melhor desenvolvimento da sociedade. E a humanidade precisa de uma conotação de igualdade e reverência, para com o próximo, para que o mundo possa ser melhor, por isso a conotação ideológica, nessa parte da obra. Enfim, nesta obra o sentido da ilustração apresenta-se em um nível superior ao do texto, abrindo possibilidades de interpretação, a partir das imagens, com diz Truchi (2002) “a ilustração sai de uma posição secundária, menor, e ganha lugar em destaque” (p.27) se tornando tão importante quanto o texto escrito. Agora no que se refere à ilustração, com sentido em grau de igualdade com o texto, é bem mais comum, muitos livros tratam a ilustração como meio decorativo, somente para embelezar o texto, e facilitando a leitura da criança, mas a imagem, em si, não interfere no sentido. O que o texto escrito diz, a imagem reafirma, ou seja, o texto é compreensível sem a imagem, a ilustração não traz além do que o texto escrito transmite diferente do que acontece com a obra citada anteriormente. Na obra O Maior Urso do Mundo, do autor Adam Relf, a ilustração apresenta-se no mesmo nível de sentido da história escrita. Este livro conta a história de um urso que queria conhecer o maior urso do mundo, e olhando para sua sombra achou que esta fosse o maior urso do mundo, no entanto seu pai disse que existia um urso muito maior. E assim à medida que Toby passava por diversos ursos, perguntava para seu pai se aquele era o maior urso, e seu pai dizia que havia um ainda maior, até que chega a noite e Toby fica decepcionado por não conhecer o maior uso do mundo, nisso seu pai o chama dizendo que o maior uso do mundo não pode ser visto durante o dia, e mostra para Toby uma constelação e diz: Está é a Ursa Maior e Toby, animado exclama essa é a maior ursa do mundo. Neste livro percebemos o diferencial não ilustração, mas sim no projeto gráfico do livro, para a confecção do livro foi utilizado um papel bonito e cores vibrantes que dão um encanto a mais, livro em capa dura, e no final do livro aparece o desenho de um urso, ou melhor, de uma ursa, com luzinhas que acendem quando a página é virada. Isso chama muito atenção da criança, na hora da leitura. Nos demais aspectos o livro apenas retrata a história escrita como podemos ver na passagem No parque, Toby viu um enorme urso feito de pedra. Era uma estátua e de sua boca saía água. - Este é o maior urso do mundo? – Toby perguntou. - Não! O maior urso de todos é muito maior. - Vamos vê-lo em breve? Perguntou ele. - Logo, logo – desse o Papai – Vamos tomar um sorvete agora. (RELF, 2005, p. 12) Isso é totalmente refletido na ilustração, Toby vendo uma enorme estátua de pedra no parque, nada mais, além disso. Nesta obra o texto escrito instiga a imaginação da criança, levando o leitor a imaginar qual seria o maior urso do mundo? Então na segunda obra citada percebemos que o texto está em grau de igualdade com a ilustração, o ilustrador direcionou a leitura da obra pelo viés da escrita, dizendo o que o texto impôs. Agora com relação ao discurso, notamos um discurso voltado para a forma estética, visto que o direcionamento do livro está no conhecimento de uma constelação, a Ursa Maior, a história não possui uma função ideológica especifica, apenas mostra um dado de conhecimento geográfico, não há uma ação persuasiva ao leitor, com relação a valores específicos da sociedade, afinal o “discurso utilitário procurou sempre oferecer as crianças e jovens atitudes morais e padrões de conduta, a serem seguidos, ordenando os elementos narrativos em relação de tal finalidade exterior” (PERROTTI, 1986, p. 117). Então, no caso da obra O Maior Urso do mundo, não é percebido padrões de conduta, com isso o livro caracteriza pelo discurso estético. Na obra de Adam Relf, ainda, percebemos que o direcionamento que o autor deu ao livro leva o leitor ao conhecimento da constelação, a Ursa Maior, e para isso o escritor utilizou os ursos, de certa forma, para dar ênfase ao sentido da palavra “urso”, para que a criança focalize a constelação associando essa espécie. Vale apena lembrar, também, da metáfora que o autor utilizou ao caracterizar o titulo do livro O Maior Urso do Mundo, visto que o maior urso não se trata de algo concreto, mas sim de uma representação imagética, que leva a criança a idealizar a imagem de um urso nas estrelas. O livro também instiga a imaginação da criança, fazendo com que o leitor queira saber o porquê do nome Ursa Maior, abrindo novas perspectivas, por meio de novas concepções, atribuídas por fora do texto, no entanto isso por meio do próprio texto, não pela ilustração em si. Agora à medida que o enredo cresce diminuem-se as ilustrações, visto que a complexidade do discurso aumenta, e também a obra passa a ser mais detalhada, e torna-se mais difícil para se fazer a ilustração. Então, o texto fica com o papel de oferecer o significado por si só, sem a necessidade de ilustrações. Afinal “quanto mais cresce a complexidade do discurso, mais se torna desnecessária a ilustração” (TURCH, 2002, p. 26), citando a obra Laurinha, o machão, de André Carvalho, onde conta-se a história da chegada, na casa de uma menina, de uma gatinha, que ao longo da história, se percebe que não se trata de uma gata, mas sim de um gato. logo no inicio do livro percebemos que o texto possui mais sentido e possibilidades de desenvolvimento imaginário da criança, com na passagem Quando ela chegou, numa caixa de sapato toda furadinha, era um doce de tão linda e gostosinha de pegar. Preta, preta, pretinha. O pelo macio, ela parecia muito grande, para uma gata que tinha nascido outro dia. - É mestiça de angorá. Por isso é peluda assim – disse o tio, que me trazia o presente. – Você tem de dar leite na boca, porque está sendo desmamada muito cedo. Precisa ter o maior cuidado se não ela sente muito. (CARVALHO, 1996, p. 7) Nessa passagem do texto a escrita possui uma abrangência maior que a ilustração, afinal a ilustração apenas mostra a imagem de um felino, na cor preta, nada mais que isso, no entanto a escrita pode desperta o imaginário da criança, ou seja, o leitor pode idealizar inúmera cenas, nesta única passagem, como por exemplo, o nascimento da gatinha, o tio chegando com o pacote, a menina dando mamadeira para a gatinha. Com relação ao discurso, podemos dizer que se trata de um discurso utilitário, pois a obra conta história de uma menina que ama seu gatinho, no entanto ele acaba fugindo, em uma passagem do livro o pai diz a filha “– Olha filha, não sofra por esse gato. Ele tem sangue de vira-lata, de boemia. Não nasceu pra ficar preso em casa, ligado a uma família, sem liberdade” (p.23), conduzindo a uma leitura a respeito da liberdade, e com isso o leitor pode identificar a mensagem de transmissão de valores de conduta, isto é, cada indivíduo necessita de sua liberdade, e o autor utiliza o gatinho para exemplificar essa ideia. Como afirma Perrotti (1986) as “feições nitidamente utilitárias, voltado para a doutrinação do leitor” (p. 30), põem em foco a questão dos textos que possuem uma conotação direcionada a valores sociais e moralistas, que procuram conduzir o leitor a uma mensagem especifica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como notamos existem diversas formas de ilustração, algumas com grande carga de sentido outras que podem até serem descartadas, mas o que importa é saber aproveitar os materiais de boa qualidade, que possam ser trabalhados adequadamente, afinal existem várias fontes, cabe ao professor incentivar o aluno, formando um leitor critico que saiba diferenciar uma obra bem escrita e significativa, de outra que é apenas decorativa, utilizada como instrumento comercial, não desmerecendo aquelas que possuem um visual bonito, mas ainda apresentam um bom conteúdo. O importante é a acepção de sentido, não importa se pela ilustração ou pelo texto escrito, o importante é saber associar ambos, criando um universo mágico, em que se possa desenvolver a imaginação do publico leitor, abrindo horizontes de interpretação e significação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil: Gostosuras e Bobices. São Paulo: Spcione, 1994. AZEVEDO, Ricardo. Texto e imagem: diálogos e imagens dentro do livro. IN: D’ANGELO, Elizabeth. (org.) 30 anos de literatura para crianças e jovens: Algumas leituras. Campinas: Mercado de Letras. 1998. CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Primeiros Passos. 1980 (Digitalização 2004). CARVALHO, André. Laurinha, o machão. São Paulo: Armazém de idéias. 1996. MCPHAIL, David. Tupi Toca. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Globo, 2004. PERROTTI, Edemir. O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: Icone, 1986. RELF, Adam. O Maior Urso do Mundo. Tradução de Carolina Caires Coelho. São Paulo: Ciranda Cultural, 2005. TURCHI, Maria Zaira; TIETZMAM. Literatura Infanto Juvenil. Leituras críticas. Goiânia: Editora UEPG. 2002. Disponível em http <://www.salves.com.br/dicsimb/dicsimbindex.htm> (último acesso dia16 de maio de 10)